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TURISMO PARA CEGOS


Tércia Montenegro

[excerto]
 

The Sense of Sight-Jan Brueghel the Elder, 1618  (com a colaboração de Rubens)
O sentido da visão - Jan Brueghel, o Velho, 1618

 

O amor

Lembro que vi o casal chegando miudinho, pela rua que fica em frente. O latido dos cães me tornou insensível ao barulho urbano: não percebo mais o resfolegar dos ônibus nem as buzinas. Mas noto a agitação por trás da vitrine e posso dizer que me acostumei ao ritmo das pessoas se deslocando de um ponto a outro, cruzando o asfalto, concentradas em si mesmas. Se uma delas vem em direção à loja, adivinho sua intenção muito antes que chegue à porta. Pelo jeito de andar, com certa dúvida ou expressão ansiosa, sei quando vai comprar um filhote por impulso ou quando escolherá um animal definitivo, estremecendo como quem vê uma criança no berço.

Alguns me chamam de sensitiva por causa dessas habilidades, mas eu me considero apenas uma boa observadora. Quando o casal parou na esquina, por exemplo, apurei minha atenção. Reconheci o rapaz como funcionário de uma repartição pública, um tipo insosso que parece brotar nesses ambientes. Creio que fui lá duas ou três vezes, para resolver o problema dos impostos que a loja tinha atrasado, e o tal rapaz me atendeu. Seu crachá trazia um nome — Pierre — e, por uma associação incontrolável, pensei em como era apropriado para um sujeito daqueles. O nariz pontudo se anunciava na primeira sílaba, e depois a vibração dos erres certamente devia corresponder a uma constipação que ele trazia, persistente como um arranhado na garganta.

Foi graças a essa brincadeira mental que pude cumprimentá-lo, quando ele entrou na companhia da moça. Pierre se admirou que eu o conhecesse e, mais ainda, soubesse o seu nome. Acho que ficou envaidecido — essa é outra coisa com que me divirto. As pessoas são sempre frágeis no orgulho e se agarram a migalhas de prestígio. No caso dele, o instinto fez com que procurasse a aprovação da moça; olhou para ela, ansioso por um ciúme ou espanto, algo que confirmasse que ele era, sim, alguém reconhecível.

A moça, entretanto, estava distraída, tateando as grades de uma pequena jaula onde eu pusera uns pastores-alemães nascidos há trinta dias. Ela se chamava Laila, conforme Pierre disse, num timbre meio jocoso. “Parece nome de bicho” — completou, com uma risada. Depois, deve ter achado o comentário grosseiro, porque tentou corrigir: “Como uma cachorrinha peluda, daquelas de filme”. Eu suspirei, para indicar impaciência. Laila tinha erguido um dos filhotes pela abertura superior da jaula e agora o amassava contra o peito. “Se vocês quiserem um desses, vão ter que vaciná-lo” — falei, mostrando a porta que dá para o consultório. Pierre abanou as mãos e a cabeça, em negativa: “Na verdade, precisamos de um animal adulto. Um que seja treinado para servir de cão-guia”.

Anotei o telefone de Aluísio, nosso funcionário responsável pelo programa de adestramento. Enquanto explicava detalhes do processo para a aquisição do cachorro, Laila se aproximou, ainda segurando o filhote. Ela estava rígida por trás dos óculos escuros, e me senti nauseada — exatamente como fico diante de um esnobe. Meses mais tarde, Pierre me contaria sobre aquela época. “O começo do fim”, falou, num chavão dramático. Eu sorri, porque quando entrei na cafeteria nem sonhava que seria apresentada à história com tantos detalhes. O plano saía melhor do que eu havia imaginado.

Pierre continuava feioso, e sua voz tinha perdido grande parte da força. Provavelmente devido à tristeza, assumia um tom constrangido, sussurrante. Foi aos cochichos que me disse como se apaixonou, bem no dia em que Laila admitiu que ia ficar cega. A retinose inspirou nele um misto de piedade e covardia, balbúrdias filosóficas e sessões de revolta — contra si mesmo, contra a moça e o destino. Porém, em vez de verbalizar tudo aquilo, Pierre decidiu falar sobre a primeira coisa que lhe ocorreu: uma lenda criada pelo seu avô.

O avô era um andarilho incansável, conforme disse. Na juventude adquiriu um mapa do mundo que costumava desenrolar solenemente como se fosse um papiro, para depois de um tempo guardá-lo de volta — um canudo da grossura de um telescópio, que o acompanhou em todas as bagagens. Era um incômodo que ele não dispensava, pois a cada cidade visitada punha no mapa um círculo colorido, fazendo um risco feroz, para ligá-las. O traço saltava oceanos, se a viagem fosse de avião.

Quando o avô estava muito velho, o zigue-zague de seus trajetos finalizou um desenho confuso, cheio de ângulos. Então ele percebeu que se tornava cego e contratou um marceneiro para que lhe fizesse a réplica da figura que durante anos esboçara sobre o mapa. Assim o desenho tornou-se palpável, numa estranha peça de madeira. O avô já não podia enxergar, mas carregava consigo a miniatura dos trajetos que percorrera. Nos seus últimos dias, passou a dizer que aquele era o formato de sua alma. A enfermeira comentou sobre os delírios provocados pela medicação, mas Pierre preferiu acreditar no mito criado pelo avô: cada homem constrói o espírito nos percursos que palmilha sobre a terra. Quem passa a vida circulando pelos mesmos lugares tem a alma redonda e funda; quem se desloca e atravessa continentes tem a alma longa, cheia de vértices.

O pedaço de madeira, como uma grande folha dura, era o retrato do avô por dentro, e quando Pierre o levou consigo, do hospital, sentiu que levava mais do que as cinzas de um morto. Levava um monumento íntimo, incompreensível para a maior parte das pessoas — tanto que nunca ousara explicar a origem do objeto. Tinha medo de que alguém risse da história ou, pelo contrário, ficasse melancólico e constrangido. Apenas para Laila evitou a versão mentirosa, que definia a peça como uma obra de arte anônima — e porque imaginava que ela, como artista, exigiria detalhes que ele não saberia sustentar. Pierre contou tudo sobre o avô e, quando concluiu, Laila tocou na madeira como se percorresse trilhas. Disse que gostaria de ter uma coisa parecida. “Você também gosta de viajar?”, ele perguntou. “Nem tanto” — ela falou. — “Mas queria saber o modelo da alma que tenho.”

Imediatamente, Pierre tomou para si a tarefa de ampliar as experiências de Laila. Por ela ser pintora, supôs que sua alma precisava ser larga, parabólica e complexa como um desses móbiles pendurados em exposições. Sem dúvida, Pierre aceitaria que o seu próprio espírito se mantivesse vertical e simples como um poço, um túnel sem mistérios. Ele não era um indivíduo criativo ou revolucionário, mas Laila seria fatalmente infeliz se, além da cegueira, fosse condenada à imobilidade. Era preciso passeá-la, fazê-la explorar seus outros sentidos. Inclusive — acrescentou — o sentido extra que ela já devia possuir.

 

Laila

Na tarde em que a história do avô surgiu, o velho estava morto há quase cinco anos e o tal pedaço de madeira — réplica dos trajetos no mapa — andava esquecido, empoeirando numa das estantes da sala. Pierre lembrou-se dele num instantâneo, enquanto Laila falava de forma sucinta (e mesmo friamente) sobre a retinose pigmentar. O óbvio seria atormentá-la com perguntas ou protestos, frases de lamúria gaguejantes que ficariam ressoando como refrões. Era isso o que todos haviam feito, começando com cada familiar de Laila e passando pelos amigos, vizinhos ou colegas de universidade. Laila se conformava em ter de consolá-los para, num movimento às avessas, sair da postura de vítima, pobre-coitada. Não que tivesse um particular “talento para a luta”, como alguns disseram. Apenas odiava chamar a atenção e incomodava-se ao pensar que virava assunto em mesas de jantar ou trocas telefônicas. Enquanto durasse o processo de cegueira teria que dar satisfações, responder a inquéritos.

A curiosidade mórbida, inerente aos humanos, exercitava-se sobre ela. Laila reduzia-se à condição de um radar, atraindo palpites ou indagações, receitas milagrosas e conselhos. Todos invadiam sua privacidade, examinando seus olhos e rosto como se ela virasse um bicho. Dentre as reações que presenciou, estiveram crises de choro e até dois acessos de riso (de colegas que não a conheciam direito e pensaram que ela fosse uma piadista), porém o mais recorrente e aborrecido eram os discursos infindáveis, circulando primeiro para saber minúcias, esbaldar-se em termos técnicos, informações que Laila confirmava como testemunha direta da doença. Depois, o palavreado vinha como remédio alternativo, ele próprio uma “injeção de otimismo”, de acordo com uns tios que passavam mensagens de autoajuda para o endereço eletrônico de Laila. Era compreensível que ela se incomodasse com os rituais de luto antecipado por sua visão. Quando deu a notícia a Pierre, não havia um rastro emotivo em sua voz: falou automaticamente, com a amargura de um telefonista que atende à milésima chamada usando uma idêntica saudação. Esperava que o comportamento se repetisse; não tinha motivos para supor que Pierre reagiria de modo singular. Ele era só um dos alunos particulares que ela estava dispensando porque em poucos meses não seria capaz de ensinar pintura. Poderia talvez discernir formas ou cores, mas não fazia sentido manter uma profissão atingida pelo destino irônico.

No íntimo, Laila começava a se despedir das suas telas e desenhos — embora o que mais lhe doesse fosse a iminência de esquecer uma obra de Vermeer, Rembrandt ou Velázquez. Nenhum aluno tinha condições de sondar aquele sofrimento, e ela não tentou dividi-lo com ninguém, muito menos com o terapeuta que os pais lhe agendaram, praticamente à força. Também no curso de artes, nenhum colega adivinhou seus medos — apesar de serem medos recorrentes em quem estudava pintura e dependia, de maneira tão essencial, da visão.

Pierre não lhe disse o que pensava, mas quando Laila se calou, um segundo antes de ele se levantar para buscar algo na estante, sobreveio a pinçada no estômago — como no instante em que os jurados anunciam um prêmio e se pode ouvir o próprio nome, pronunciado num tipo de milagre. Laila não teve tempo de formular para si mesma o que na verdade esperava de Pierre, que atitude ou gesto. É provável que o desejo lhe reconstruísse, numa dimensão paralela, a chance de o rapaz voltar com algum livro de imagens para mostrar os quadros que ela queria memorizar. Ele diria, apontando cada imagem: “Veja esta” — e Laila, súbita aluna de um homem que não possuía qualquer habilidade com pincéis, obedeceria. Se fixasse cada detalhe, converteria para o cérebro a pintura, criando uma cópia interna, permanente.

Pierre, entretanto, voltou segurando um objeto de madeira feito de contorções, como um relâmpago. Entregou-o para que ela o segurasse, enquanto lhe contava sobre o avô. Laila escutou a história, longa o suficiente para transportá-la e fazê-la se esquecer dos problemas. Achou a ideia do mapa curiosa e poética; até riu quando Pierre passou a brincar, num jogo de adivinhas, sobre como seria a alma de certas pessoas famosas. A tarde passou sem que eles voltassem a falar da doença, e Laila despediu-se aliviada por saber que ao menos uma vez sua notícia não desencadeara o velho padrão de angústia.

Houve, porém, um momento — quando estava guardando os papéis e Pierre veio com uma xícara de café, pedindo que tornassem a se encontrar. Laila iria repensar a forma como ele segurou sua mão em torno da xícara, conduzindo-lhe os dedos como se ela já não pudesse ver. E também, sob tal perspectiva, a história do avô poderia ser uma delicada sugestão: afinal, fazê-la segurar o estranho mapa não era um convite para que ela passasse a esculpir? Não existia nada de especialmente ofensivo no comportamento de Pierre — mas Laila andava farta de gestos piedosos, e odiou a hipótese. Lembrava a si própria que não tinha verbalizado qualquer promessa; logo, não seria mentirosa se nunca mais se encontrasse com ele.

 

Pierre

Se os amantes pudessem recordar as ideias que tiveram um do outro nos primeiros contatos, provavelmente ficariam espantados com o desprezo inicial, até mesmo o nojo, uma recusa prévia por alguém que adiante se fará indispensável. O processo da conquista torna a maioria das pessoas incoerente — e se houvesse uma gaveta, um local para condensar o abstrato, Laila teria depositado ali as maldições que dedicara a Pierre, a seus conselhos escorregadios, que ela (mil vezes estúpida!) só havia percebido em sua real dimensão horas mais tarde. Ele, por sua vez, teria guardado na caixa as lágrimas que não liberou diante de Laila. Começava a se ver como um tipo de herói, na disposição de salvar uma cega ou ao menos transformar-lhe a vida, embora no fundo (numa dimensão embrionária de pensamento) soubesse que estava disposto àquilo por uma vantagem: Laila, sem enxergar, não poderia julgá-lo por sua feiura.

Pierre olhava-se no espelho e via um crânio afilado, tão estreito que as orelhas saltavam como dispositivos estranhos no cabelo ralo. O nariz não era um primor de sutileza, mas ele odiava sobretudo as pálpebras, sempre inchadas como duas membranas convexas. Muito alto e desengonçado, somava-se a isso a vergonha que ele sentia das próprias mãos. Por esse motivo, estava para desistir das aulas de pintura quando Laila anunciou que encerrava as lições. Ele não suportaria mais segurar um pincel, espremer o tubo de tinta, criar manchas — tudo enquanto Laila reparava nos seus dedos intermináveis, concentrava-se neles de maneira ávida. Devia ter buscado algo relativo a música (se não precisasse tocar nenhum instrumento), contemplação de pássaros, ciclismo — qualquer coisa que não pusesse em evidência seu maior ponto de esquisitice.

Curiosamente, naquela noite (e ao longo de várias em seguida) Pierre não refletiu sobre a habilidade que os cegos adquirem em relação ao tato. Não lhe passou pela cabeça que Laila talvez notasse bem mais a extensão de seus dedos, ou a humidade de suas mãos, quando deixasse de enxergar. Por enquanto, ele permanecia no esquema visual. Ainda que tivesse mostrado o mapa esculpido do avô, no íntimo descartava a hipótese de que cegos pudessem viajar e desfrutar disso. Se não viam rostos ou paisagens, essa camada do mundo ficava proibida, sem meios equivalentes para alcançá-la.

Depois o tempo iria dispersar essas impressões para substituí-las por outras, piores ou melhores, a depender da perspectiva. Sem recipientes que preservassem suas ideias, tanto Pierre quanto Laila sentiriam que pisavam em territórios confusos. Entretanto, desde que os incômodos permanecessem vagos e silenciosos, não existia razão para embaraços. Ninguém lhes cobraria sensatez, se faltava um registro das oscilações emotivas. Não havia quem os observasse, e eles próprios deixavam-se arrastar pelos fatos da vida e mudavam de veredito conforme as circunstâncias.

Foi assim que no dia seguinte Pierre e Laila tornaram a se encontrar. Não houve oportunidade para ela ativar um plano de afastamento. Pierre surgiu na universidade, ao pé da escadaria que levava ao curso de artes, no meio do zum-zum de alunos cabeludos com pastas na mão — sem falar nos demais objetos que transportavam: esculturas, baldes com tinta, chapas de alumínio, pedaços de madeira, goivas, canetas das mais diversas espécies. O frenesi se adensava devido à montagem de uma exposição. Laila não estava participando com nenhuma obra, por isso saía cedo. Em contrapartida, os outros alunos pareciam chegar naquela hora, todos alvoroçados pela expectativa de pendurar os trabalhos, compô-los como num desfile estático de monstrinhos.

Pierre evitou pedir informações, por medo de que lhe rissem na cara. Estava certo de que os alunos seriam perfeitamente capazes de fazer algo do tipo; deviam ser uns artistas malucos ou drogados. Ele precisava procurar um guarda ou funcionário, para saber como chegar à sala correta. Mas ao redor não parecia haver alguém que trabalhasse ali — e Pierre rastreava as pessoas com um olhar discreto. Na segunda tentativa de “varredura” do grupo de estudantes, numa observação rápida identificou Laila, vários metros distante, no alto de uma escadaria. Tinha movimentos de descida cuidadosos, mas não muito lentos. Apoiava-se no corrimão, e parecia também segurar-se na bolsa de pano que levava quase murcha, atravessada numa faixa pelo corpo.

Quando o viu, ele se encontrava praticamente debaixo do seu nariz, sorrindo com dentões desfocados. Ela piscou repetidas vezes para entender aquele rosto e, a partir daí, cumprimentá-lo com frieza. Ele não percebeu a evasiva; quis ajudá-la com os últimos degraus, segurando-lhe o braço. Ainda que Laila tivesse pensado em desprender-se num puxão, achou que seria grosseiro — outros colegas já tinham feito o mesmo, quando ela descia ou subia escadas, ou queria atravessar a avenida até a parada de ônibus. Ela se calava, fingindo que o gesto era uma cortesia. Em breve, porém, teria real necessidade de ajuda — portanto, melhor não afastar as pessoas, não armar escândalos, sobretudo ali, no meio de gente conhecida. E apressou o passo, porque se tornava urgente que levasse Pierre embora, para que ninguém pensasse que era seu namorado.

Pararam num café a dois quarteirões da universidade. Pierre falou sobre assuntos internacionais, desfiando notícias dos jornais da manhã. Era a sua forma de esconder a ansiedade e fingir que estava conversando. Laila continuava muda, a não ser por um ou dois “hum-hum” no intervalo de quinze minutos. Olhava uma gravura na parede rosada, em frente: o cartaz de uma pin-up dos anos 50. Uma mulher de cabelos curtos e coxas roliças em meias de seda posava na garupa de uma motocicleta, levantando o saiote enquanto com a outra mão segurava uma cigarrilha do tamanho de um lápis. Pierre incomodou-se com a visão concentrada de Laila, mas imediatamente pensou que talvez não fosse aquilo que ela estivesse enxergando; pode ser que visse borrões, sombras curiosas que, como artista, tinha condições de apreciar. Porém, no instante em que ele formulava a ideia, Laila desviou a vista para o tampo da mesa, com um suspiro de enfado. Pierre continuava com a Itália e seus recentes acontecimentos políticos — o que foi um gatilho para ela recordar um colega de curso, Bent.

“Ele adotou esse nome, porque na verdade se chama Benedito”, disse. Sua voz conteve a ironia, mas Pierre percebeu o quanto ela considerava ridículo que se usasse um apelido estrangeirado. Sentiu-se aquecer de vergonha pelo próprio nome e, ainda que não tivesse sido uma escolha sua, mas de seus pais, culpou-se pela associação que de imediato lhe punha uma boina atravessada na cabeça e, quem sabe, um cachecol xadrez no pescoço. Laila, entretanto, prosseguia falando de Bent. Em recente viagem à Itália, ao invés de aprender com os museus, os monumentos e exemplos de arte clássica, o coleguinha desprezara as “ruínas inúteis” para se fixar na Bienal. “Não que isso seja ruim” — apressou-se Laila. — “Mas o idiota fez questão de só ver o lixo que se expôs em Veneza e voltou aclamando o gênio de medíocres iguais a ele.”

Pierre calou, paralisado com a fúria que se esboçava. Houve um hiato para a garçonete servir as bebidas, e em seguida Laila retomou o fluxo dos desabafos. Bent era um herdeiro de empresários, um riquinho que brincava de artista. Sem nada para conquistar em matéria de dinheiro, queria fama e originalidade, divulgando o seu nome de uma única sílaba. “O mundo está cheio de gente que inventa escândalo ou polêmica. Como não sabem explicar o que estão fazendo, dizem que é arte”, ela completou, olhando de novo intensamente para o quadro da pinup. Pierre tinha bebido todo o seu café e achou pertinente dizer algo, ou ao menos perguntar detalhes. Indagou sobre os lixos que Bent vira na Bienal, porque os jornais não haviam noticiado. “Não valia uma notícia”, Laila garantiu, enquanto ele balançava a cabeça, concordando. “Mas se você quer saber” — ela disse, e Pierre continuou no mesmo ritmo, embora um segundo depois tenha feito uma pausa brusca. — “O Bent só falou em experiências bizarras, envolvendo dois mil pombos empalhados, ou performances de sodomia em praça pública, ou dançarinos vestidos em cascas de árvores, com ninhos de pássaro usados como chapéus…”

Ele estava sinceramente pasmo. Enquanto Laila dava mais exemplos, sentia a boca cair como a de uma criança ofuscada. Mas de repente a moça começou a tomar sua bebida; ele recebeu o silêncio como se fosse uma bolha espocando debaixo d’água. Disse: “Que terrível”, sem estar bem certo do que fazia — e então, antes de pensar direito nas palavras, garantiu a Laila que jamais veriam nada parecido, quando um dia fossem à Itália. Disse quando, não se, e Laila riu, misturando ironia com felicidade. Ela se viu enlaçando a xícara da maneira com que Pierre conduziu seus dedos, para firmá-los em torno da louça quente, uma noite atrás. Ela agora repetia o movimento — sem deixar de enxergar as próprias mãos (duas manchas de carne afiladas, sobre o tampo da mesa), mas forçando os dedos de uma a tocar os da outra. Poderia segurar com uma mão apenas — mas, para levantar a xícara sem correr riscos, preferia agarrá-la daquele jeito.

Laila continuou rindo, com alegria autêntica pela menção à viagem e também com o afeto súbito que ganhava Pierre. Ele não sabia, mas estava perdoado de suas intenções protetoras.

 

A viagem

A primeira viagem que Laila fez com Pierre não foi para a Itália, mas para uma cidadezinha praiana onde a família dele o aguardava no feriado de Natal. Era a ocasião para que a moça fosse apresentada, mas nenhum dos dois havia falado nisso. Estavam juntos há semanas, com a troca de uns beijos fracos. Pierre insistia mentalmente que não era mais um adolescente nervoso; tinha vinte e cinco anos, trabalhava, morava sozinho e podia convidar Laila para dormir com ele. Ela, um pouco mais velha, não se espantaria com a proposta. Mas a maldita expectativa quanto ao “momento ideal” para o sexo atrasava seus planos. Sempre que encontrava Laila, parecia ver um rosto neutro, sem vibração de desejo: uma postura como a daqueles deuses indianos de pele azul e olhos amendoados, paralisados no gesto ritualístico.

Talvez ela não considerasse que estavam namorando — Pierre pensou. Seria comum, no meio artístico, que as pessoas trocassem beijos sem maiores intenções? Era necessário conversar, mas Pierre nunca se sentia confortável para insinuar o tema, e Laila também não se mostrava interessada em esclarecer coisa alguma. Permanecia tranquila, puxando assuntos triviais, nas vezes em que se viram. Na despedida, beijavam-se, e por duas ocasiões Pierre a levou de carro, sem que ela o tivesse chamado para subir ao apartamento e conhecer seus pais.

Agora as festas em Paracuru seriam uma estratégia excelente — ele calculava, enquanto dirigia pela estrada. Embora a casa dos parentes não fosse o melhor ambiente romântico, serviria para aproximá-los. A mãe de Pierre colocaria Laila no quarto de hóspedes — mas na segunda noite ele bateria em sua porta. As aparências seriam mantidas, e a atmosfera de uma cidade interiorana poderia ter seu charme. Pierre imaginava que a mãe, ciumenta e antipática com as mocinhas que lhe pudessem fisgar o filho único, estranharia Laila e seu olhar absorto. O pai seria mais compreensivo; apenas com ele falaria sobre a doença, pedindo segredo. A mãe não devia saber que ele se apaixonara por uma inválida, ao menos não naquele momento.

Laila aceitara o convite com uma afirmativa discreta mas imediata. Nem cogitou recusar um Natal longe de sua família. Estava saturada de vitimização e não suportava a perspectiva de ouvir os tradicionais sininhos para o jantar. Alguém pensaria nela tendo de segurar uma espécie de badalo ou cajado tosco, para anunciar que vinha, que lhe dessem passagem. Em poucos meses andaria trêmula, escorregando no mundo como se descesse para dentro de uma caverna. No próximo Natal não veria os enfeites nas ruas, o desperdício de luzes escorrendo das árvores, os pingentes na varanda de prédios — e na outra semana estaria inapta para os fogos de artifício explodindo como estrelas ou arabescos serpenteados, o turbilhão por dez minutos no céu, anunciando um calendário.

A caminho da praia, Laila sentia o vento agressivo pela janela do carro despenteá-la furiosamente, sem, no entanto, refrescar. Ainda assim, com o calor escaldante, aquela era uma nova experiência — e ela se dispunha a esticar todas as possibilidades, não por um ato de heroísmo ou superação, ou algum termo imbecil que circulasse por histórias de deficientes enfrentando obstáculos. Somente vivia uma voracidade, um tipo de fome raivosa. Desde o diagnóstico, ou até antes (porque não precisou de médico para perceber o que seu corpo avisava), Laila passou a ofender interiormente as pessoas que conhecia, embora nunca chegasse a verbalizar nada. Ninguém escapou, nem ela própria, que se criticou sob várias perspectivas, convencida de ser medíocre e fracassada. Odiou-se quase tanto quanto os outros, seus parentes, vizinhos ou colegas, indivíduos que eram simples acúmulos de células, sem contribuição para o mundo.

Pierre também não escapava. Apesar de ter sobreposto à raiva um pouco de ternura desde o encontro no café, Laila continuava se irritando com a sensação de que ele seria tão mesquinho quanto qualquer um. É verdade, porém, que ainda conseguia usá-lo para se distrair de sua revolta. Durante a viagem escutaram músicas que fizeram milagres no seu ânimo — e as piadas que Pierre contou não eram de todo más. Desse modo, quando ambos desceram do carro em frente à pracinha de Paracuru, estavam sinceramente felizes. Laila aceitou que Pierre pusesse o braço em torno de sua cintura. Caminharam até a igreja, atravessando os coágulos fulminantes de luz que se alternavam com as sombras das árvores, plantadas em cercadinhos ao longo de toda a calçada.

 

O boneco

Mais tarde, depois de vencerem o ritual das apresentações familiares, Laila e Pierre voltaram à igreja. Era uma construção moderna demais para a pequena comunidade, com as estações da via-sacra em peças de tapeçaria. Laila ficou observando de perto aquelas silhuetas toscas e achatadas, de aparência rupestre. Havia um cão deitado ao lado da placa que anunciava o aniversário dos dizimistas. Pierre esperou, encostado numa coluna. A conversa com os pais não tinha sido problemática, afinal. A mãe fizera um esforço admirável para sorrir, oferecendo café e bolo. O pai puxara assuntos inocentes, sobre o clima e as condições da estrada. Laila respondera bem à disfarçada entrevista, quando estavam nas cadeiras de balanço, olhando através da porta aberta que dava para a rua. Sua vista enfumaçava a paisagem luminosa, e ela falava sobre o curso de artes, sobre seus passatempos e gostos, quase sem se mexer. A mãe de Pierre considerou a moça “um pouco estranha”, nos comentários cochichados com uma vizinha que tinha acabado de entrar. As duas foram confabular no quarto dos fundos, enquanto Pierre sentia um relaxamento súbito, com a sensação de que o pior havia passado. O pai se balançava na cadeira, comentando o campeonato de jogos municipais.

Quando saíram da igreja, encontraram a praça refrescada do calor e cheia de gente que chegava para a missa. Laila quis se sentar num banco estratégico, posicionado em frente ao burburinho dos quiosques. As crianças compravam sorvete e pastel, doces ou refrigerantes. Saíam comendo e espiando o produto dos camelôs. Os ambulantes ofereciam mercadorias idênticas — comentou Pierre — porque pertenciam à mesma família. Laila pediu a descrição dos objetos, e o rapaz enumerou cores e modelos de lanternas, apitos, balões e caleidoscópios. Havia também chaveiros, ioiôs, bonecos e bichos infláveis, petecas e carrinhos. E adiante estava uma menina loura, preparando algodão-doce. “Ela é a caçula e já começou no ofício”, disse Pierre. Laila fixou-se no rosto da menina e quis se aproximar para vê-la melhor: “Vou comprar um”, afirmou.

Tinha se levantado com tanta brusquidão que Pierre foi deixado para trás. A menina deve ter se assustado com aquela moça subitamente aparecida. Viu a forma com que ela tocou no vidro da máquina para espiar lá dentro a bacia de alumínio, a ronronar com o açúcar em círculos. Laila não disse uma palavra, enquanto a garota enrolava por várias vezes a espuma num palito. Falou apenas “obrigada” num murmúrio pouco audível, ao receber sua escultura porosa. A menina então disse o preço, e Laila teve um sobressalto, seguido por um riso. Acenou na direção de Pierre: “Você tem moedas?”. O rapaz se levantou, pondo a mão no bolso da calça. A menina caminhou até ele; Laila percebeu que ela mancava.

Ainda pensava na criança, quando se aproximou do espaço reservado para a decoração natalina. Enfiava na boca grandes tufos rosados, sem oferecer a Pierre. Para disfarçar o constrangimento, ele comentou que ela mastigava algo parecido com neve falsa. E realmente todo o piso, naquele cercadinho montado na praça, estava coberto por algodão desfiado. No instante em que os dois pararam para olhar as réplicas de rena feitas em papel machê, o Papai Noel desabou, caindo de cara no chão. Era um boneco vermelho e barrigudo, com a tradicional barba encrespada, o sininho e o gorro. Ficara mexendo um braço e a perna oposta, dobrando o pescoço ao som da gravação de “ho-ho-ho” — mas um vento o projetou para a frente, e agora ele parecia se afogar entre os flocos brancos.

Algumas crianças tentaram pular o cercado para salvar o Papai Noel; outras gritavam, chamando os pais para que vissem a novidade. Laila assistia a tudo com um ar animado e logo passou o resto do algodão-doce, murcho e escurecido, para Pierre. Ele comeu um pouco, enquanto ela limpava os dedos no vestido. Viram chegar, do canto direito da praça, três policiais quase correndo. Eles rodearam o boneco, tentando mantê-lo firme. Conseguiram ajustar a cabeça no pescoço, após uma breve luta com as molas, mas a estrutura tinha quebrado. O Papai Noel não se sustentava, queria a todo minuto arremessar-se de novo, e duas crianças já choravam de susto. Foi assim que os policiais, em nome da paz pública, decidiram guardar o brinquedo gigante. Alguém depois teve a ideia de trazer um cacto e vesti-lo com os acessórios: bigode, óculos, barba. Afora o detalhe de não poder ser abraçada, a planta (com o tamanho de um homem) agradou muito mais que o pinheiro falso. Era um Papai Noel verde, ecológico, disseram os politicamente engajados.

Laila, porém, àquela altura sentia-se de novo raivosa. Pierre atribuía seu humor ao cansaço da hora e evitava falar. Mas ela insistiu, disse que a história com o boneco lhe recordava a premiação de Bent — com toda a irritação que isso causava. “Evidente” — Laila dizia — “que o prêmio foi uma farsa.” A exposição de final de ano costumava eleger um trabalho, com professores entregando a medalha, o certificado e um cheque que “dava para fazer a feira por uns bons meses”, segundo ela. Bent participara com um objeto típico de seu temperamento preguiçoso. “Uma dessas obras em que ninguém põe a mão na massa. O cara faz uma interferência aqui, ali e depois afirma que é conceitual” — suspirava Laila, batendo os pés com ruído, na calçada. “A verdade é que ele não tem talento para desenho, escultura ou qualquer coisa, então se salva aproveitando objetos da realidade”, completou. A arte exigia fronteiras de criação com o irreal, necessárias e urgentes para pessoas como Laila — pensou Pierre. Preferiu, no entanto, formular uma pergunta completamente distinta da que lhe ocorreu: “E o que foi que ele expôs, afinal?”.

“Um arranhador para gatos em forma de torre, com intervenções fotográficas.”

O arranhador devia ter sido usado por um bando de felinos furiosos, pois tinha a parte inferior destruída, restando só uns fiapos cor de areia. Na parte de cima, toda nua, foram coladas fotografias do início do século. Como os retratos acompanhavam a tonalidade marrom e sépia, a obra inteira parecia uma instalação franciscana — e obviamente inútil — a distância. De perto, eram apenas fotografias coladas num arranhador, que o artista fez questão de ressaltar (no discurso de agradecimento pelo prêmio) como uma peça autêntica. Quem duvidasse podia ver, na base, os pedaços de unhas de gato.

Pierre estava rindo no escuro, enquanto Laila contava os detalhes. A obra lhe parecia divertida exatamente pela falta de propósito. Mas agora chegavam à porta de casa. Pierre buscou a trava do portãozinho azulado e tratou de assumir uma feição séria. Laila tinha o rosto duro, com uma ruga entre as sobrancelhas. Ela mal percebeu que a mãe de Pierre vinha pelo corredor da casa, vestida num camisolão branco; manteve a fisionomia carrancuda até que a mulher estivesse bem perto. Então, numa espécie de pulo, Laila pareceu despertar. Deu boa-noite e seguiu para o quarto de hóspedes. Um segundo depois, a mãe de Pierre puxou o filho pela ponta da camisa, para perguntar se eles haviam brigado em plena véspera de Natal.

 

O nado

Laila perdia a conta das horas na piscina. Nadar era o único exercício que realmente apreciava e, embora negasse que tal gosto tenha surgido somente após o avanço da retinopatia, no íntimo ela se apavorava com a hipótese de montar num cavalo (como faziam os outros cegos do Centro de Terapias) ou dançar. Dentro da água, não se sentia desamparada nem solta no espaço: parecia, portanto, sua atividade ideal.

Apesar disso, ninguém poderia dizer que ela tivesse medo de cair, perder o equilíbrio ao andar. Pierre elogiava sua postura elegante, sem bengala que tocasse o chão à frente como um pêndulo. Ela não avançava como os outros deficientes, averiguando o mundo com a boca e os olhos abertos, numa expressão vazia. Laila sempre estava de óculos escuros, o que lhe acrescentava um aspecto sóbrio. Inclusive na piscina usava a proteção: compreensível, porque afinal o cloro irrita os olhos, quer eles enxerguem ou não. Mas só ela sabia o quanto — na lenta marcha rumo ao profundo — conseguia aproveitar os filtros coloridos dos diversos modelos de óculos aquáticos. Conforme as lentes fossem amarelas ou lilases, ela percebia, no abismo ladrilhado, figuras esguias ou contorcidas, fantasmas a desaparecer no correr dos meses, rodeando-se de borrões.

Depois que ficou de todo cega, Laila passou a nadar ainda mais. A piscina representava um local seguro, com a água a envolvê-la como se criasse uma nova pele, um manto gelatinoso. Enquanto flutuava, ela talvez pensasse nos peixes que durante a infância viu serem pescados. O seu pai tinha esse hábito terrível, de sair para pescarias nos fins de semana. Ia acompanhado de amigos com os carros lotados de gente levando cerveja no isopor, toalhas felpudas que se estendiam no chão pedregoso e rádios interminavelmente ligados. Ao chegarem à beira do lago, encontravam outras famílias idênticas, vestidas no feitio calorento-esportivo. As mulheres, muito gordas, espremiam-se em bermudas cáqui. Usavam camisa amarrada com um nó acima do umbigo e o tempo todo se abaixavam para pegar brinquedos perdidos ou levantar um filho da grama. Uma das primeiras memórias que Laila tem é justamente a de um traseiro bege, exposto na sua frente, bloqueando a paisagem. Lembra-se de ficar olhando para aquelas duas fatias redondas, enquanto a mãe tentava distraí-la: “Não olhe assim para a tia, que é feio!”. Nas imediações alguém começava a rir, e de repente a dona do traseiro se virava, com o rosto vermelhíssimo, para encarar Laila como se, aos dois anos de idade, ela tivesse feito uma piada pornográfica.

Aos oito anos ela conseguiu convencer o pai a não levá-la para os passeios — e isso à custa de infinitas sessões de choro, a cada vez que via o balde cheio de peixes. Laila antes experimentara salvar os animais, jogando miúdas pedrinhas na água para assustá-los, ou gritando de surpresa por trás dos adultos. Mas tais estratégias foram raras: seu pai não perdia tempo, e imediatamente lhe aplicava umas palmadas. Laila cansou de inventar planos mirabolantes; conformou-se em esperar sentada, com ódio, ao lado de um menino chamado Sávio. Ele era filho de alguma das mulheres obesas, Laila não sabia direito de quem. Ao contrário dos demais garotos, Sávio não suportava participar da pescaria. Todas as crianças que fossem sensíveis à matança dos peixes acabavam sendo discriminadas pelas outras, durante aqueles fins de semana. Era comum que até as meninas pescassem, pelo prazer de sair correndo atrás de Laila e Sávio, tentando jogar em cima deles as criaturas prateadas que ainda se contorciam, presas por um fio.

Os dois rejeitados terminaram por se unir. Deviam ter a mesma idade, porém Laila parecia mais desenvolvida. Sávio era franzino, com um rosto triste e envelhecido. Sentava-se silencioso, com as mãos sobre os joelhos, e ela o acompanhava na atitude. Durante horas ficavam ali, num esconderijo de pedras altas. Pareciam meditar a sua raiva, sem desviar a atenção do grupo de adultos e crianças em torno de anzóis, linhas de pesca e varas. Cumpriram a penitência por três domingos, até a mãe de Laila descobrir onde ela se escondia. Naquela noite, a menina teve de dormir com toalhas úmidas sobre o corpo. Tamanha exposição ao sol escaldara-lhe braços e pernas. O rosto tinha sido poupado, graças ao chapeuzinho que ela gostava de usar — mas, enquanto sentia-se como uma brasa recém-tirada do fogo, Laila pensava em Sávio. Ele não usava proteção alguma, e a cada fim de semana parecia mais corado. Juntos, haviam combinado estender a permanência nas pedras ao máximo. Se fossem dedicados, com o poder do pensamento evitariam a morte dos peixes. Bastava que ficassem mudos, de olhar fixo, e nenhum seria pescado.

Sávio, agora adulto, já teria se desiludido tanto quanto Laila? Ela nem chegara a se despedir, quando foi encontrada pela mãe e teve de segui-la. Não se virou para trás, adivinhando o menino a permanecer entre as pedras, muito mais constante do que ela, no sacrifício. Sempre se lembrava dele ao nadar, numa consequência óbvia da memória em relação às pescarias — mas certamente não imaginava o que estava fazendo. Pois duas vezes por semana, na piscina, Laila evocava a presença de Sávio, e embora vários anos tivessem se passado, para as dimensões cósmicas isso não fazia diferença. Uma insistência equivale a um desejo: à custa de lembrar-se do passado, Laila atraiu a materialização dele.

Inicialmente, apenas achou que certo garoto da natação lhe recordava o antigo companheiro por ser magro e doentio. Costumava falar com a criança nos intervalos dos exercícios. Eles dividiam o horário, e a instrutora estimulava aquele convívio, ao mesmo tempo em que conduzia, na água, o corpinho frágil do menino paralítico. Laila fazia pausas quando atingia a borda da piscina, para aguardar a chegada deles. Sorria na direção do chapinhar, que sentia se aproximando; não podia saber se o menino também estava sorrindo, e talvez fosse bom, porque na maioria das vezes ele se mantinha tristíssimo, espalhando os membros finos como se fosse uma aranha. A instrutora, entretanto, mantinha o ânimo: “Vamos alcançar a Laila, vamos, Mauro!”. O garoto não respondia e só abriu a boca muitas semanas depois. Esperava enxuto, num roupão largo, na saída do Centro de Terapias. Laila vinha com uma sacola e, de passagem, esbarrou no menino. Com o desequilíbrio que o impacto causou, ela se segurou na cadeira de rodas — e ouviu, vinda de baixo, uma voz fina perguntando: “O que você tem?”.

Laila adivinhou que ali estava Mauro, embora houvesse uma dúzia de crianças paraplégicas frequentando o Centro. “Eu não enxergo”, disse, e num instante o menino passou a observá-la com assombro. Quis saber como era, e em troca falou sobre a paralisia como se fizesse confissões a uma agente secreta. Depois de alguns dias estavam íntimos a ponto de Laila empurrar Mauro na cadeira de rodas, enquanto ele instruía: “Continue em frente; cuidado com o degrau; vem uma pessoa, pare!”. Divertia-se como o motorista de um carrinho motorizado, e Laila também se alegrava. Ela havia comentado com Pierre que não se lembrava de ter tido um amigo tão valioso quanto o menino. Aos poucos, sobrepunha a memória de Sávio por um novo componente de afeto ligado à água — mas a ironia é que, sem suspeitar, Laila se aproximava do antigo colega. Pressentiu aquilo no dia em que Mauro a procurou com um tom desconfiado. Ele a fitou como se ela escondesse segredos maldosos — e esteve a ponto de lhe cuspir em cima para mostrar todo o seu ressentimento, quando ela não respondeu logo depois que ele afirmou: “Meu pai disse que conhece você”.

Nem passou pela cabeça de Laila fazer a pergunta “Quem é seu pai?”. Sentiu-se tonta, abrindo os olhos e a boca, agora uma cega típica, daquelas estereotipadas, que Pierre esperava que ela jamais se tornasse. Foi estendendo a mão; tocou o espaldar da cadeira de rodas, recuou o movimento e achou os cabelos do menino. Veio caminhando com os dedos pela linha da testa; a outra mão se uniu à primeira, e as duas tocaram os lados do rosto, como se modelassem as faces do garoto pelo nariz afilado, os pômulos ossudos, os lábios quase inexistentes. “Sávio”, disse ela, retrocedendo. O menino já não estava zangado. Sorriu como se tivesse visto um número de magia e ficou perguntando: “Como é que você sabe?”.

 

O afogamento

Laila nunca experimentou nadar em lagos, rios ou mares. Jamais conseguiria mergulhar num local habitado por seres. Imaginava-se como um corpo invadindo o sossego submerso, criando fluxos, ritmos violentos na massa líquida — assim feito um estrangeiro que chega e perturba, com os sons incompreensíveis de uma nova língua. Quando suas amigas lhe contavam da experiência de nadar em arrecifes, ainda na época em que ela enxergava e podia ver as fotos, cheias de paisagens com verde e azul, Laila pensava no que existia sob a película em que imergiam os joelhos das garotas, posando para a câmera com uma fração do corpo escondida em outro mundo. Houve uma que lhe mostrou um retrato submarino, com o rosto por trás de uma máscara gigantesca e os lábios em torno de um tubo a desaparecer nas costas, como um cordão umbilical às avessas. Ao lado, estavam peixes multicolores, pingando imóveis. O gesto da garota, um “V” formado com os dedos indicador e médio, ilustrava um sinalzinho vulgar de paz e amor ou tudo bem — uma imbecilidade profana, como se o tal “V” surgisse na pose dentro de uma igreja, ou no alto de uma montanha sagrada.

Seria óbvio que Laila sentisse um impulso de recusa quando Sávio convidou para o piquenique seguido de mergulho no lago — mas não conseguiu se expressar. Tinha acabado de reencontrá-lo oficialmente, num restaurante em que também estavam Mauro e Pierre, sentados um de frente para o outro como os contrapesos de dois lados. Mauro começou a gritar: “Vamos, vamos!”, com a máxima empolgação, e Pierre disse que seria boa ideia. A balança pendeu a favor do passeio, não restou saída. Laila concordou — e fugiu do assunto, na esperança de que ao fim do encontro a proposta tivesse sido esquecida.

Porém Sávio telefonou na véspera do piquenique para lembrar o horário. E Pierre atendeu, confirmando sorridente a programação. Laila fazia colagens; há dias experimentava um novo tipo de arte, ou ao menos uma distração. Mandava reproduzir pinturas de naturezas-mortas, sobretudo flores. Sempre obras famosas: Monet, Rembrandt, Van Gogh — em reproduções da melhor qualidade. Pierre buscava o material na fotocopiadora, assegurando-se das cores fiéis, que comparava com o modelo de livros e catálogos. Trazia para casa cópias do tamanho de pôsteres, e tinha até pena de ver como Laila se punha a destroçá-las, recortando aleatoriamente pedaços do centro dos quadros. Ao final, restavam no chão peças angulosas de papel, fragmentos de rosas e vasos, nenhum desenho com todos os seus limites. Havia uma ruptura em meio a qualquer pétala, ou um corte repentino na extremidade de uma folha, mas apesar disso a figura ainda era reconhecível. O trabalho de recorte parecia tosco, entretanto a combinação que depois surgia estranhamente se impregnava de harmonia.

Laila preparava a tela com um banho aquarelado, pincelando a superfície em cores claras, azul ou esmeralda. Não tinha a intenção de formar uma imagem ou pintar de maneira artística; passava o pincel como se aplicasse verniz, sem maiores cuidados. A colagem, que vinha em seguida, é que guardava o gesto decisivo. Uma questão de espalhar os fragmentos com uma geometria única, para que não ficassem amontoados ou dispersos e, ao mesmo tempo, conservassem uma ideia caótica. Ela estava reorganizando uns girassóis de Van Gogh quando Pierre atendeu o telefone. Parou, com os dedos grudentos de cola, escutando as respostas que ele dava: “Sim, é claro”, “Com certeza”, “Pode deixar”. Sentiu-se pinçada nos nervos, irritada como se lhe puxassem o cabelo — mas não sabia o motivo exato. Talvez porque Pierre fosse tão solícito? Imediatamente se pusera íntimo de Sávio, como se Laila resgatasse um parceiro de infância. Ele nada sabia do convívio que os dois tiveram: poucas ocasiões debaixo de um sol tórrido, compartilhando um idêntico horror a pescarias. Era o suficiente para se transformarem em cúmplices por toda a vida? Nem Laila sabia como se lembrava de Sávio e, quando pronunciara o nome dele para Mauro, fizera aquilo como se arriscasse uma resposta que milagrosamente provou ser correta. Depois Sávio tinha aparecido no Centro de Terapias, e houve a coincidência de Pierre estar chegando para buscá-la. Em cinco minutos combinaram o jantar na sexta-feira, para agora, após uma semana, irem ao tal piquenique no lago!

Se o convite tinha como intenção resgatar o passado, Sávio era a pessoa que melhor calculava como essas recordações não seriam felizes. Laila formulou esse pensamento e se ergueu num pulo, os dedos endurecidos como se estivessem presos numa bandagem. Perdeu o equilíbrio e pisou, por engano, em cima da tela úmida. Pierre havia desligado o telefone e veio ajudá-la a tirar os recortes de flores grudados no pé. “Jogue tudo fora”, ela disse, e saiu para lavar as mãos.

Seria um piquenique, afinal, não uma pescaria. De toda forma lembrava a época cheia de luzes e gritinhos de crianças em torno das mães atarefadas. Os pais congelados como estátuas, bonequinhos em frente ao espelho d’água feito de papel laminado: aqui e ali cestas com frutas e pães, suco, copinhos descartáveis sobre uma toalha. Laila recorda a maquete que preparou para a escola. Tirou nota máxima, representando “um fim de semana com a família” e ninguém suspeitou de suas intenções críticas com as figurinhas de modelar, os arbustos criados com palitos envoltos em tecido crespo esverdeado, a areia colhida do chão num daqueles domingos — e Sávio inclusive ajudara, segurando o recipiente (um vidro de goiabada vazio), enquanto Laila o enchia com pazadas de terra. Mais tarde ela iria se aplicar durante horas para compor a maquete, primeiro com terra aplainada em quase todo o espaço, mas deixando dois pontos a sobressair como dunas, um deles próximo ao conjunto de pedregulhos que Laila havia guardado e que, em tais proporções, junto aos bonequinhos-crianças, pareciam gigantescos.

Ninguém se preocupou em olhar sua paisagem com atenção. A professora interpretou a cena como um domingo feliz, sem julgar a pescaria, simbolizada por um palito colado às mãos do boneco-pai. Na extremidade, uma linha de costura mergulhava através de um furo no sinuoso papel laminado. Desaparecia, rígida, e debaixo havia a agulha que a enterrava no chão e atravessava a camada de areia para se fixar no fundo da maquete, como uma arma pontiaguda. Laila tinha pensado em criar um peixe trágico, de boca aberta e olhos absurdos. Tentara inúmeras vezes acertar o desenho, mas só produzia modelos óbvios e pequenos. Por fim, contentou-se com a linha de costura desaparecendo na água.

Ela também se sentiu assim; progressivamente, ao longo de meses, foi puxada para a escuridão. Tinha uma isca nos olhos, um fio invisível que lhe pinçava as pálpebras, num sono irresistível mas conturbado. Ela se debateu; sentia faltar o fôlego como se ele fosse feito de luz. Aos poucos, a luta de sombras começava, ia atravessando níveis cada vez mais rápidos; Laila já não estava no seu mundo, surgia em outro, arrebatada, colhida como se colhe uma flor: sem reparar que ela é um fragmento, deixou para trás raiz e caule. Não adiantava o esforço de reaver o que era sequestrado; Laila gritava por dentro, da mesma forma com que os peixes gritam — Água! — em seu doloroso silêncio.

Ela termina de enxugar as mãos e se apoia na parede, enquanto escuta Pierre, que se aproxima perguntando se está tudo bem. Pelo menos não precisa encará-lo; pode baixar o rosto e responder com murmúrios. Mas no último instante decide que cansou de ser vítima; ergue os ombros e sai caminhando de volta à sala, sem falar. Irá ao piquenique, em grande parte porque seria complicado explicar sua negativa — mas, por outro lado, sabe que aproveitará para fazer um tipo de investigação sobre Sávio. Não que ele valha a pena, diz a si mesma. Apenas agirá no sentido que parece ser a única saída possível de sua condição: viver de um jeito sôfrego, para esquecer que o espaço desapareceu.

 

Não há inocentes

Com a cegueira, perde-se o deslumbramento. A capacidade de se maravilhar depende da visão. Há quem diga que é possível ter experiências de encanto com a música, mas é algo diferente. A beleza melódica vem em sucessões, nunca repentina como o que se pode ver. Laila perdeu as ideias de inteireza e agora sabe do mundo apenas por fatias. Reconhece pedaços de um rosto, que monta num puzzle mental ativado por toques; detecta ambientes pela quantidade de passos entre uma porta e outra; identifica indivíduos por resquícios de voz, perfume ou temperatura. Nada se apresenta por completo, são máscaras que lhe chegam, trapos frouxos, enquanto os outros têm os vestidos prontos, as faces autênticas. Ela poderia mentir que está num território absolutamente estrangeiro, e sente que em pouco tempo acreditaria nisso, como nas vezes em que, criança, fechava os olhos dentro do seu quarto noturno para mentalizar que se deitava em outra cama, larga e enfeitada com dosséis, ou quem sabe com um grande mosquiteiro, finíssimo como um véu. Brincava de montar esse quarto de fantasia, pondo-lhe uma janela no lado oposto àquele em que a janela real ficava. No chão jogava um tapete com desenhos de fábulas, nas paredes pendurava quadros róseos, no teto um móbile feito com lascas de madeira que deixavam frestas entre uma parte e outra — arranjadas para projetar, com a luz vinda de fora, a sombra de um dinossauro.

Agora Laila se valia dessas hipóteses para fugir dos espaços triviais e das feições que já não podia entender completamente. A relativa segurança que aprendera, ao se mover contando passadas, ou sentindo a presença de obstáculos silenciosos, era uma espécie de intuição que ela conseguia desligar. Se estava, por exemplo, sentada numa cadeira bem firme, esquecia as diretrizes que a rodeavam, e fazia isso de propósito, como alguém que se deixa vendar e entrega a mão para que o conduzam em círculos, círculos cada vez mais rápidos. Ela se punha a desmontar territórios imaginários, traçando-os com novos formatos, numa arquitetura desvairada. Quando terminava o exercício, estava tão confusa que ficava difícil colocar-se de pé. Não sabia se a rampa que surgiria era uma de suas invenções ou um fato; esperava abrir portas onde havia muros, desviava de móveis inexistentes e seguia a trilha das paredes com os dedos para se surpreender com a lâmina gelada de um espelho.

Pierre, quando soube que Laila se confundia por simples diversão, aborreceu-se, e foi provavelmente a primeira vez que brigou com ela. Disse que ela poderia se machucar, quebrar alguma coisa — e, além disso, não havia graça em fingir-se desnorteada. Laila falou por entre dentes que não estava fingindo. Era bastante verdadeiro o seu desnorteio, não podia abrir os olhos para distinguir nada. Pierre insistiu nos argumentos, e ela se calou. Remoeu um pouco o fervor da raiva, pensando que não teria um minuto de paz se Pierre começasse a fiscalizá-la. Seria como uma alcoólatra perseguida por um moralista — e sorriu da comparação. Quando se levantava, tudo era vertiginoso e ondulante. Caminhava à maneira dos bêbados estremecidos, com uma imperícia frustrante nos movimentos. Para as pessoas de fora, podia ser vergonhoso ou triste, um vício a corrigir com sermões, remédio ou disciplina. Mas, para os bêbados e para Laila, a incerteza dos passos virava alegria. Longe das bengalas de apoio, dos braços duros que alguém lhe estendia como um corrimão de carne, Laila se lançava num mundo imprevisto.

Precisava, porém, adotar uma estratégia. Feito um viciado que esconde as preferências, devia burlar a vigilância de Pierre, fazê-lo esquecer aquele truque. Não adiantava se arrepender por ter falado a respeito: Laila já se chamara de estúpida por três vezes. Agora precisava evitar as consequências. Fingir, sim — aparentar tudo pacífico. Ela, uma cega que aprendia com eficácia a situar-se, tornar-se independente. Os jogos com espaços ficavam interditos, ao menos na companhia de Pierre. Quando estivesse sozinha, podia voltar aos exercícios — mas, por enquanto, tinha de se contentar com uma alternativa. Punha-se a inventar fisionomias a partir de vozes, criava pessoas caricatas ou circunspectas a partir de um timbre aflautado ou grosso. Era fácil fazer isso com a televisão ligada, pois a todo instante vinham entrevistas com anônimos. Entretanto, Laila preferia praticar com gente próxima, porque então comparava a fantasia com o real.

 

Funcionava assim: primeiro, ouvia uma longa conversa com certa pessoa, por tempo suficiente para se distrair. À medida que a dispersão se instalava, a voz se desligava dos componentes prévios, dos traços de reconhecimento que lhe vinham agregados, como se a camada sonora fosse escavada, deixada nua. Restava analisá-la, perceber as modulações macias ou esganiçadas na velocidade das palavras (que, a essa altura, perdiam o sentido e se emaranhavam), até construir um perfil ou temperamento. Pierre, o alvo inicial dessa experiência, estimulara uma boa diversão. Conforme ele falava sobre a vida do avô (que Laila pedia para ele recontar, mentindo que adorava ouvi-la), era possível concentrar-se nas sílabas, quase todas muito largas e expansivas, com o erre vibrante, exagerado. Pierre tinha uma voz de comerciante charlatão, e Laila montou em sua cabeça a figura: um sujeito com calças em risca, suspensório, camisa colorida, gravata de brechó. Riu-se da imagem, e quando ele perguntou qual a graça (pois estava narrando a morte do avô), foi preciso um espírito de improviso para guardar o segredo. Laila repentinamente jogou-se na direção de Pierre, que estava sentado a seu lado, na cama. Com o baque, ele caiu no chão, e ela pôde rir mais à vontade, no que ele riu também, esqueceu-se da história e subiu no colchão para abraçá-la.

 

A nudez

Talvez o erro naquele piquenique tenha sido usar os jogos mentais de imediato. Laila não deu a Sávio qualquer oportunidade de mostrar-se como socialmente era, ou pretendia ser: estava tão aborrecida pela obrigatoriedade do compromisso que passou ao exercício secreto como se agarrasse uma vingança apressada. Assim que sentou na toalha estendida na grama, esqueceu o ambiente real, imaginando a cena despojada num arremedo de Manet. Assumiu a posição da mulher nua em primeiro plano, com as pernas cruzadas e a mão direita segurando o queixo, o cotovelo apoiado no joelho. Em silêncio, ironizava a si própria e aos demais personagens — os cavalheiros, que não seriam barbudos nem elegantes, e a terceira figura no ponto de fuga, uma mulher catando flores, agora substituída por um menino aleijado mas quase com o mesmo porte, agachado e contorcido, procurando o chão.

Sávio e Pierre conversavam, sem notar a paródia do ambiente — e Laila começou a se irritar. Não podia conferir a posição dos homens, a cesta de frutas e pães derramada de seu conteúdo, ou a localização exata de Mauro. Sobretudo, a diferença principal era que não estava nua, nem conseguiria ficar. Pierre lhe impediria o gesto, quando tentasse se despir — e que justificativa ela daria? Queria mimetizar um quadro clássico, num piquenique moderno? Mas para que, e com que objetivo? Poderia mentir, pretextando um trabalho no curso de artes visuais, uma fotografia necessária para apresentar em exposição — e bastava que programassem a câmera na distância correta. Mas que distância era essa, ela não saberia dizer. Também não saberia corrigir a postura dos outros, dirigir a cena como um artista de estúdio; e o problema afinal não se resumia à cegueira. O problema é que nenhum dos outros seria sensível para compreender a ideia. Nenhum sequer apreciava arte para saber de que quadro ela estaria falando, se mencionasse o Déjeuner.

Chateada com os pensamentos que surgiam para logo desaparecerem pelas respostas que ela própria antecipava, Laila saiu da pose e sentou-se à maneira de um monge hindu. Mauro permanecia tão calado quanto ela, em algum lugar da grama. Apenas Sávio e Pierre tagarelavam, esquecidos da refeição dentro das cestas. Pierre era um camelô prepotente, citando as burocracias do seu ofício como se anunciasse ofertas. Ainda que em tom baixo, sua inflexão de voz disparava as palavras como projéteis de alta importância. Sávio, ao contrário, tinha outra modulação: Laila se concentrava nela. Um timbre frio e hesitante, com muitos segundos de pausa, ruídos de saliva mastigada. Sávio devia gesticular pouco — e isso, que uns podiam interpretar como timidez, para Laila soou como raiva contida.

Ele devia ser o tipo do homem de feições neutras; falava sem que se pudesse adivinhar o próximo assunto por um esgar da boca ou um tique no pescoço. Capaz de noticiar tragédias ou vitórias com idêntica expressão vocal, talvez seu rosto se compungisse, mas Laila não saberia. O que sabia ficava no perceptível: que sua voz vinha em fragmentos, mecânica como a de um psicopata. Naquela altura, inclusive, ele mencionava a mãe de Mauro, e uma tecla qualquer de Laila foi acionada, para que ela prestasse atenção. A mulher tinha abandonado o menino após o nascimento: “Quando percebeu que ele vinha assim”, disse Sávio, com maior rapidez, mas permanecendo monótono.

Laila ouviu um suspiro de Pierre, lamentando. Em seguida ele passaria a palavras de consolo, vibrantes como artigos de promoção — e tão descartáveis quanto. Porém Laila adiantou-se, falando pela primeira vez na tarde, e o que falou produziu um silêncio tão intenso que até o som plástico das folhas parou nas árvores. Um besouro por perto camuflou-se, uma abelha ficou congelada no voo por um milésimo de segundo. Depois desse tempo tudo voltou ao que era, com os barulhos naturais do cenário, mas o piquenique havia se transformado. Aliás, o piquenique havia começado. Disfarçando o constrangimento, Pierre abria a cesta. Enumerava os itens do lanche, para que soassem exclusivos e saborosos, e repetia “Quem quer? Quem quer?”, como se ali estivesse uma multidão. Mauro começou a gritar e bater palmas, e Sávio riu, embora fosse um riso discreto e quase sinistro.

Laila sentiu-se observada: tinha a impressão sufocante de que lhe jogavam um lençol por cima quando alguém se punha a olhá-la intensamente. Aceitou a taça que Pierre lhe entregava, recebeu com a outra mão um sanduíche e o mordeu. Afinal, foi tão grave o seu comentário? “Eu teria feito o mesmo”, ela disse, solidária com a mãe ausente, a mãe-monstro que abandona o filho defeituoso — ou a mãe-defeituosa que larga o filho monstro. Não havia diferença. Por que aquele ideal em torno dos compromissos amorosos? Fêmeas de toda espécie rejeitam seus filhotes por vários motivos. Pessoas rejeitam umas às outras, apesar das ligações que têm. Não existe uma lei de permanência, exceto a que obriga alguém a estar no próprio corpo. Laila gostaria de acrescentar que fugiria disso também, se pudesse. Largaria a cega aprisionante, deixaria a tal cega sem culpa nenhuma.

Viveria exatamente da forma com que há pouco imaginara fazer, pondo-se nua num quadro de fantasia. Se o mundo fosse compreensível e perfeito, ela agiria dessa maneira. Mas o fato é que não tinha liberdade para nada parecido. Não se livraria das roupas e muito menos do corpo. Ao contrário, devia suportar um peso extra que lhe jogavam — como aquele lençol asfixiante de olhares que permanecia, enquanto mastigava o sanduíche.

 

O nevoeiro

Foi incompreensível a atitude de Laila. Assim que voltaram para casa, Pierre despejou as dúvidas que vinha remoendo no carro, durante o trajeto de retorno. As perguntas se reviravam dentro dele, enquanto ouviam músicas irritantemente orquestrais que faziam Laila fechar os olhos, com a cabeça reclinada no assento do passageiro como se estivesse descansando. Porém, quando enfim o carro parou na garagem, as palavras pareceram pressionar. O percurso no elevador foi suficiente como trégua de silêncio, e antes de abrir a porta do apartamento Pierre já questionava. Por que Laila tinha sido tão grosseira? Dizer que faria aquilo — abandonar uma criança por causa de sua deficiência — era chocante e brutal. “Mas por quê?”, ela perguntou, projetando o rosto na direção de Pierre: “Eu fui sincera”. “Não acredito” — ele disse, girando a chave. — “Você não faria uma coisa dessas.” “E por quê? Por quê?”, repetiu Laila, no tom animado com que ele oferecera os produtos do piquenique, pouco tempo atrás.

“Por causa do remorso”, ela ouviu, enquanto entrava na sala. Caminhou com rapidez pela trilha do corredor, sem apoiar as mãos nas paredes. “Era fácil abandonar” — falou, cantarolando. — “Nenhum remorso pode ser tão grave quanto uma escravidão.” Pierre deixou que ela batesse a porta do quarto. Sentou-se no sofá, pensando se Laila também não se referia a ele. Poderia apostar que estava sendo provocado, numa espécie de desafio destrutivo. Aquilo era comum para certas mulheres: gritam com os namorados, chegam a expulsá-los em crises de raiva. Algumas preparam armadilhas ou testes de fidelidade, loucas para certificar uma desconfiança. As mulheres procuram a angústia, concluiu Pierre, mas a sentença não o deixou satisfeito. Achava estranho ver Laila numa postura de vítima, incitando-o a abandoná-la. Talvez o contrário fosse mais provável.

Obviamente, Pierre não tinha deficiências físicas, e se alguém assumia a função de escravo no relacionamento era ele, que servia de auxílio ou muleta, dirigindo o carro para Laila, acompanhando os seus gestos para ajudá-la com a pintura, os ambientes desconhecidos, a compra de alimentos e tantas tarefas diárias em que ela se perdia. Jamais, entretanto, Laila parecia agradecida. Ao contrário, às vezes ela o despachava com rispidez, queria que ele fosse embora e reclamava porque sentia quando ele a ficava observando: “É como se me jogassem um lençol por cima”. Ele magoava-se e decidia deixá-la sozinha até que ela própria viesse procurá-lo — mas isso nunca chegou a acontecer. Pierre sempre tomava a iniciativa, arrumava um pretexto para entrar no quarto meia hora depois, perguntando se Laila aceitava um suco ou precisava de algo.

No íntimo, continuava inseguro, debatendo-se com a consciência da feiura, do aspecto repulsivo de suas mãos suadas. Pierre lembra a primeira noite, ainda em Paracuru, com a família atrás das paredes noturnas. Um componente excitante o deixara em brasa, qualquer coisa edipiana ou proibida capaz de levá-lo aos piores arrepios só de supor os pais ao lado, com a respiração suspensa — no quarto onde havia um oratório na cabeceira polvilhada de terços e santinhos, flores de pano e velas. Ora, no quarto de Laila tinham posto também uma santa, uma Senhora Desatadora dos Nós, tão longa no manto vermelho e azul, seus dois anjinhos descosendo fios interminavelmente. Pierre a viu de soslaio ao entrar; teve vontade de virá-la contra a parede, mas Laila não lhe deu chance. Estava à espera há vários minutos, cochichou, e pensava que ele não viria. Pôs-se a despi-lo com pressa, e Pierre se afobava, tentando fazer o mesmo com ela. Laila, porém, lhe dava pequenas palmadas, aquietando suas mãos enquanto o beijava pelo rosto inteiro e experimentava lambidas nas orelhas, no pescoço. Ele tinha vontade de rir, mas ela sussurrava: “Silêncio” e parecia igualmente esbraseada, pensando que a porta não tinha chave: a qualquer momento alguém poderia chegar para conferir o seu sono — ou a ausência dele.

Quando Pierre ficou completamente nu, quis abraçar Laila, esconder-se pressionando seu corpo contra o dela. Não pôde, entretanto, tocá-la. Com um sinal imperativo, ela o imobilizou na postura vulnerável, apenas para que a visse andando, os braços no alto como uma dançarina. Deixou os cabelos ondularem no escuro — poucos passos até alcançar o estrado da cama. Então puxou num único gesto o vestido, jogando-o pelo avesso como uma pele morta. Pierre precisou que ela acenasse várias vezes, para finalmente se aproximar. Laila estava deitada, cheia de sombras pelas pernas, que se abriam como duas pálpebras.

 

Os deuses petrificados

“O amor é para heróis”: Laila tinha lido essa frase vários meses antes, no livro de um autor português. Era o que buscava, o que disse a Pierre, na tentativa de fazê-lo se calar quanto ao episódio com Sávio. O embaraço fora grande o suficiente para que Mauro desaparecesse do Centro de Terapias, pelo menos no horário em que Laila o frequentava. A instrutora não comentou a ausência do menino; continuava comandando os exercícios de Laila, mas agora fora da piscina, porque não tinha necessidade de conduzir um corpo paralítico. Em breve remanejaria algum deficiente para dividir as aulas com Laila, e ela sabia que provavelmente não seria outro cego: era necessário que um dos alunos enxergasse, para evitar colisões dentro d’água. O problema da instrutora, então, estava em escolher esse futuro companheiro. Olhava para Laila como se sondasse sua crueldade, o veneno de que o pai de Mauro lhe acusara, embora o próprio menino não tivesse escutado a frase no piquenique. E Laila bem parecia uma dessas agressivas discretas, que evitam escândalo para subitamente atirar a dolorosa verdade.

A instrutora acabou se decidindo por Valdo, um senhor meio surdo que vivia os primeiros sinais de Alzheimer. Aquela era a melhor opção, e na semana seguinte Laila já conheceria o seu parceiro de piscina. Sentiria repugnância de ficar submersa no lugar em que boiava um corpo flácido e cheio de escaras, mesmo que não visse a aparência de Valdo, seu calção de banho frouxo e quadrado — mas teria de se calar, pensava a instrutora. Nem adiantaria dizer qualquer ofensa, porque o velho não ouviria, e por causa disso inclusive a instrutora seria obrigada a entrar na água, para conduzi-lo nos movimentos fisioterápicos.

Laila, porém, jamais faria qualquer comentário. Perdera o interesse em travar relações ou interagir. Em geral, conversas a deixavam cansada — sobretudo se precisava argumentar. Dizer algo trazia frustração: ninguém compreendia seus assuntos com a profundidade devida, e os disparates pareciam cobrar racionalidade, um fôlego de convencimento para um fim absurdo.

Quando Laila apenas escutava, sentia-se muito criativa; afinal, podia deformar as histórias à vontade, sem que as distorções incomodassem o falante: eram todas íntimas, uma simples questão de ouvir — e exercitar a imaginação. Na maioria dos casos, não havia empecilho, porque as pessoas preferem falar. Mas, claro, existiam os enfadonhos, que entendem conversa como sinônimo de debate. Gostam de animar o tema com polêmicas e envolvem nesta categoria opiniões grosseiras ou sensacionalistas, com o propósito de levantar discussões. Desde que um sujeito assim encontre um adversário, lutará ferozmente, tentando vencê-lo em rounds argumentativos — e é essa força da briga verbal que seduz. Se lhe dizem “Você tem razão”, ele não se satisfaz. Ao contrário, quer ser contestado para dissertar com brilhantismo sobre a sua carga de teorias. Empenha nisso tanta disposição que poderia salvar a humanidade, se ela se salvasse com retórica.

Diante de Bent, que era um debatedor frenético, Laila sempre esteve silenciosa. Nunca soltou palavra que exprimisse seu juízo acerca dele — e conseguiu isso apesar da tortura constante nas aulas, com um professor acendendo contradições para ver os alunos duelarem. Quase todos se envolviam, criticavam, chegavam a se levantar da cadeira, gesticulando. E Laila calada, aparentando que nada lhe passava pela cabeça, embora fosse justamente o oposto. Sua opinião era particularíssima e não precisava expô-la ou defendê-la. Não precisava da concordância dos outros para valorizar o que pensava.

Laila gostaria de tratar Pierre dessa forma, ignorando os seus apelos por uma “fusão de mundos”, como ele dizia — desligando o botão de áudio para não escutar suas obviedades, quando ele desfiava o novelo otimista sobre estarmos despreparados para o mundo, todos cegos e tateantes em relação à vida. Buscamos a sucessão dos fatos como se ela nos garantisse um saldo, um dever cumprido a justificar a futura frase no jazigo. No fim, esperamos a aniquilação da memória e caímos no vazio, o salto que tanto queremos provar. É vertiginoso, porque não houve ensaios e não sabemos o que vem. Laila concordava que os seres são unânimes no desamparo mas, mesmo assim, há os mais frágeis: aqueles que pensam em excesso e são perseguidos pela consciência.

Ela não era uma heroína, não era exemplar. Não se tornou bondosa por causa da cegueira — e ali, na piscina, ainda desconhecendo o velho demente que virá para poluir a água com células mortas, Laila se exercita. Finge que o seu corpo flui em movimentos breves.

 

A pureza

Ela desliza a caneta e obedece à sequência correta de letras, mas é questão de tempo para que perca o contorno dessas ondas gráficas, e então não conseguirá mais assinar o próprio nome. Imagina-se regredindo a uma inscrição rústica, uma escrita cuneiforme com riscos disparados pela página, enquanto num cartório da cidade permanece arquivada a amostra de sua assinatura — a firma, como dizem, caprichosa e floreada, com volteios no autógrafo. Ela ri com amargura, quando pensa nas antigas intenções de arte. Como foi que alguém disse? “O olho é o principal instrumento de estética”: algum professor certamente; essa era uma típica frase de magistério. E outra: “O olho se identifica não com o corpo a que pertence, mas com o objeto de sua atenção”. Essa era de Joseph Brodsky, lembrava, mas citada por um professor… Por causa da verdade dessas afirmações, Laila recusou os paliativos do braile; a palavra escrita lhe estava interdita, como qualquer marca visual.

No entanto, ela ainda criava aquarelas com recortes, que supunha grotescas. Se continuava a compor os tais quadros, era por mera terapia ocupacional e, ao assiná-los, fazia isso por hábito. Precisamente agora, Laila terminou a última sílaba do sobrenome, calculando o espaço restante com os dedos da outra mão. Uma letra ficou manchada no começo, porque a tinta escorreu — e Pierre vai reparar nesse detalhe, sufocando um incrível desejo de soluçar. Aquela garatuja lhe parecerá uma espécie de adeus, uma tentativa de comunicação fracassada. “Ficar cego é perder o mundo, ignorá-lo como paisagem”: isso era Laila quem dizia. “É estar disperso num mundo que já não pode ser contemplado.”

Pierre argumentava que existiam vários tipos de contemplação — táteis, por exemplo. Repetiu isso com um pouco de malícia, horas depois. Tinha servido vinho a Laila, que se sentava nas almofadas indianas no chão da sala. Ele não havia arriscado se aproximar; mantinha-se no sofá, e ela concordou. Existiam belezas de todo tipo, acústicas, olfativas, espirituais. Mas nenhuma exigia tanto apetite quanto a beleza visível. A própria existência da beleza como âncora, coisa não volátil, dependia do olhar.

Para Pierre, as reflexões tinham muita densidade. Ele não costumava provocar Laila com perguntas; na maioria do tempo desejava que ela se calasse e vivesse sem grandes problemas. Talvez naquela noite ele estivesse perturbado, sob o efeito da assinatura que viu no quadro. A comoção seria um bom motivo para justificar sua atitude, a curiosidade tão comum em várias pessoas, mas insólita nele. Pois quis saber se Laila recordava — as cores, os rostos, a visão em geral. Ela pensou em dizer que não fazia tantos meses para que esquecesse; inclusive, levava a sensação de armazenar imagens, podendo retirá-las de um depósito milagroso quando bem quisesse — mas de repente duvidava. Tentou lembrar as feições de Pierre, e nada lhe ocorreu.

Em vez de responder, Laila bebeu o resto do vinho. Formulou a ideia de um eclipse: e se fingisse que não era um caso pessoal? O mundo inteiro se apagou. Vivemos num idêntico mergulho depois desse feitiço. É a nova fase do planeta, a fase escura, e devemos aceitá-la, como se aceitam maremotos ou tufões. Ninguém conversa a respeito, porque não adianta — e a partir daquela recusa Laila pegou sua almofada e se afastou de Pierre. Não havia motivos para justificar-se. Somente na mais secreta fatia mental de seu temperamento ela se deixava desesperar, elaborando listas de todas as perdas.

 

O inventário

Assim como alguns herdam fortunas sem merecimento, há os que tropeçam em cores, sem vê-las — um desperdício, pérolas aos porcos, mágica para desatentos. Laila rumina o seu ódio contra esses desconhecidos que recebem o que ela não tem:
 

As cristas no mar prateado.

A trama de losangos numa pele envelhecida.

Os trilhos do trem.

Um milharal às cinco da tarde.

A encruzilhada.

O pó sobre os móveis.

A estampa do lençol.

As árvores e sua geometria de galhos.

A cor do pão crocante.

As grinaldas.

Os vitrais.

As marcas no asfalto.

Os vultos e os volumes.

O arco de um túnel.

As fogueiras.

As nuvens.


“Meu Deus, eu perdi as nuvens!” — ela grita subitamente e exige que Pierre lhe dê algodão em grandes flocos. Mas uma nuvem não se pega, ele responde. Seria preciso encher a chaleira, pôr no fogo e esperar o vapor, fingir que não é quente, que é vento frio carregando a fumaça, vento condensado em massa branca de espuma ou lã. “Pois faça isso”, ela diz chorando, e ele se apressa rumo à cozinha. Laila envolve-se com os próprios braços, balançando em desconsolo. O que mais pode perder?
 

Os cartões-postais de qualquer país.

Os esportes e as torcidas.

As coreografias.

O circo. O teatro.

As fantasias de carnaval.

Os filmes pornôs.

Com esse último pensamento vem o riso, descontrolado e convulso, à maneira das gargalhadas em cachoeira. Pierre surge na porta, pensa que Laila endoideceu. Ela anda em direção ao lugar onde quer encontrá-lo, junto ao fogão, preparando a nuvem falsa. Por pouco não se esbarram; ele a pega pelos ombros, disfarça o tropeço — ela ainda ri quando o beija, dizendo que teve ânsia de agarrar. Os dois saem na direção do quarto e deixam a chaleira aos apitos, na cozinha. Vários minutos se passam até que a sirene sossegue, suspirando suas gotas de assobio.

 

A paz transitória

Depois da cumplicidade vinda como um milagre naquela noite, Pierre recuperou o ideal de um amor sem sobressaltos. Ele circulou sua mente, espalhando uma poeira minúscula de expectativas. Pierre as enxerga na hora do café, junto com esses raios que se filtram pela janela, fatiando o rosto de Laila em listras oblíquas. Ela bebe o leite concentrada, passando a língua nos lábios após cada gole. Há um traço de criança nessa cena, mas há também muita sensualidade: exatamente os extremos que Pierre gostaria de conciliar. Se pudesse congelar Laila no instante, não precisaria de mais nada: teria se tornado um deus. Mas então, com um ritmo apressado, ele volta a pensar no avô e na incompreensão quase mítica a respeito das mulheres. É uma tradição que sejam incompreensíveis, ele dizia, e Pierre se acalmou ao lembrar as palavras do velho. Vinham como um alívio de sabedoria, uma frase clássica repercutindo na memória, inventando um sossego. O avô e seu mapa de andanças, a observação da alma pelos dedos, o trajeto irregular… tudo isso levou Pierre à cobrança de si mesmo. Não tinha prometido criar para Laila uma vida ampla? Mentalizara planos de viagens, pensando num turismo específico — ele como intérprete, guia-descritivo do mundo, explorando lugares junto com ela. E, no entanto, até aquele momento meses se passaram sem que tivessem ido além de Paracuru, nas festas de Natal.

As férias trariam novas formas de contemplação. Laila receberia a mensagem sem que ele precisasse formulá-la; aprenderia o seu conteúdo de uma vez. E Pierre seria recompensado pela sensação mansa de poder conduzi-la, ser indispensável. Sabia que ela experimentava alegrias ocasionais — e não tinha sido absurda a sua reação na noite anterior. Ele reconstitui os fatos, descobre que é responsável pela transformação: o desespero mutilado que Laila gritou como uma histérica virou desejo e êxtase em questão de minutos. E apenas porque ele tomara a iniciativa de agradá-la, fazendo nuvens com a chaleira. Uma simples ideia era a salvação do humor, e assim poderia acontecer, indefinidamente. O que destrói o prazer é a repetição — refletiu em voz alta, e Laila se espantou, com um estremecimento. Em seguida balançou a cabeça, como se acordasse para uma filosofia óbvia. Não havia necessidade de remoer velhos conceitos, ela disse, passando a mão em torno da boca. Ficou brincando com os dedos, procurando cutículas. Ainda estava distraída, quando Pierre falou que iriam viajar.
 

O jogo das vozes

Novamente na piscina, Laila inventa a ficção de estar na Itália, quem sabe em Veneza, cidade suspensa como se sente agora, imóvel a boiar. Mas reconhece as turbulências que agitam a água — sinal de que ao lado exercita-se Valdo, submerso de memória a ponto de cumprimentar Laila como uma estranha, quando a cada semana tornam a se encontrar. Entretanto, ela não se aborrece; prefere pensar que é sempre um velho diferente. Valdo não lhe interessa, e jamais tentou adivinhar seu corpo através do timbre. Seria inútil compor uma figura esquálida e branca, a pele frouxa como cera escorrendo para a base da vela. No lugar disso, lembra a voz dos próprios pais. Os dois não são tão idosos, mas têm um compasso lento, meio ofegante, que se assemelha a Valdo — assim como dois fôlegos podem ser díspares e iguais a um só tempo. Principalmente a mãe de Laila, com sua vibração de rezas: Valdo resgata essa cumplicidade de oratórios em cantos de parede, quando murmura algo.

Laila recorda sua mãe com uma réstia de carinho. Ela nunca foi efusiva de abraços ou beijos, e a filha aprendeu a criar distâncias. A mãe vivia com os santos, as toalhinhas rendadas, o chá. O terço escorrendo aos cochichos — e desviava do pai de Laila, imperioso, às vezes aos gritos. Eram dois bonecos estranhos que se cruzavam na casa, criando uma filha entre súplicas e ordens. Como reação natural, Laila cresceu em busca do estupendo, do alegre. As artes plásticas lhe pareceram a extravagância por excelência, a possibilidade de borrar o mundo, festejar os espaços.

Inclusive ali na piscina, insurge-se contra a monotonia de Valdo, a repetir “Um, dois, três” conforme flexiona os joelhos. Ela bate os pés com força, atirando-se para uma borda desconhecida, querendo que os dedos se prolonguem como antenas. O barulho na água dá uma chance à Itália. É bom imaginar um país com ruídos se sobrepondo — e Laila pensa nos livros que um dia viu, cheios de fotos de esculturas nuas, em mármore pudico. Bent com certeza estivera diante delas, mas somente para desprezá-las! — Laila se confunde com a respiração e engasga. Tosse por vários segundos, cospe e se agita. O senhor Valdo pergunta: “Algum problema, menina?”, mas ela não responde. A instrutora nem se mexe para ajudá-la.

Finalmente Laila decide que basta de exercícios e fantasias. Valdo retomou sua breve contagem: “Um, dois, três”, enquanto Laila alcança a escadinha metálica e tateia o chão de pedra até encontrar o roupão e as sandálias. Pierre falou em Minas Gerais como um bom destino para quem não podia pagar roteiros europeus. Havia igrejas, ruas históricas, excelente comida — e ela concordou, sem questionar. Mas gostaria de saber por que ele havia frisado as igrejas. Como se ela fosse assídua de missas, ou pelo menos devesse ser, pedindo uma bênção ou milagre. Ou como se herdasse a beatice da mãe, as sobrancelhas levantadas, quase unidas no centro da testa. Laila bufou ao se lembrar do arco mole de pelos, um ar de eterno desamparo. Ao contrário, ela faria o ângulo inverso, o “V” de raiva e concentração absoluta, para seguir com a existência.
 

Os mendigos

Caso pudesse ver o cortejo de homens esfarrapados que vai por esta rua, Laila reconheceria o seu teatro de feições piedosas. Quem é mendigo acostuma-se à flexão de testa, rugas profundas ou curvilíneas espremendo o rosto, a voz sussurrante pontuando uma ladainha qualquer, uma reza.

Duas semanas após aquela reflexão sobre a beatice da mãe, Laila está diante de uma igreja mineira, conforme lhe prometeu Pierre. Ele a segura pelo braço, olhando para o grupo de pobres que se aproxima, numa espécie de procissão. Deve ser alguma data especial, pensa, mas — ainda que haja muitos turistas por perto — sente que é o alvo: todos os mendigos vão se dirigir a ele, exigindo-lhe moedas. Puxarão sua camisa e tocarão em Laila.

Num pavor súbito, Pierre acredita que os homens mais fortes poderão levantá-la com rapidez, raptando-a sem que ela saiba o que está acontecendo — assim como nos sequestros lendários que os ciganos cometiam, fugindo com crianças e mulheres. Laila seria carregada como uma mercadoria esperneante pelas mãos rudes e sujas, e o que Pierre faria? Só poderia gritar, pedir um socorro ridículo aos guardas: “Prendam aqueles mendigos! Eles levaram minha namorada!”. E no instante seguinte, como na sucessão de uma comédia burocrática, o guarda balançaria o dedo para repreender Pierre: “Não seja preconceituoso, rapaz! O termo adequado é morador de rua, não mendigo”.

Dentro da igreja, Laila sentiu a mudança de atmosfera, a humidade nas pedras que a rodeavam, o cheiro de madeira do assoalho — embora Pierre nada percebesse, tentando acalmar a própria respiração. Tinham entrado quase às carreiras, para escapar do grupo mendicante e do súbito medo. Laila não questionou a pressa, mas seria a primeira a endossar a cena que Pierre montou — com o discurso do guarda em destaque. Em várias conversas, ela já demonstrara impaciência com o que chamava de “demagogia do fim dos tempos”. Enquanto o planeta se destruía na maior velocidade possível, os mocinhos de propaganda apareciam com cartazes de uma atitude ecológica. Gabavam-se de usar bicicleta em vez de carro, separavam o lixo por categorias e perdiam-se em discussões sobre a melhor forma de descartar peças íntimas e óleo de cozinha. E toda a retórica da diversidade criara um léxico falsamente neutro para se referir a negros, gays ou deficientes, gerando polêmicas e projetos a se alastrar pelo mundo. Ninguém mais tinha direito ao silêncio ou à palavra censurada — embora o pensamento continuasse a todo vapor, incontrolável como sempre foi.

Laila se inflamava com o caso dos cegos e a sua ilusória “inclusão”. Ouvira falar nos projetos que surgiam como benefícios — simples migalhas hipócritas. Sentira-se afrontada, poucos meses antes, por um programa específico, vindo como propaganda pelo correio. Segundo a linguagem metálica da correspondência que Pierre leu, o projeto queria “garantir a possibilidade de fruição da arte para pessoas com deficiências — sensoriais, físicas ou intelectuais — por meio de estímulos multissensoriais e lúdicos”. “Belo politiquês correto”, disse Laila. “Posa de bonzinho mas revela o juízo por trás dos termos; as palavras não mentem.” Ela era deficiente sensorial, física ou intelectual? Neste último conjunto com certeza não estava, porque jamais seguiria, como uma imbecil, passeios monitorados e traduzidos em enganação de sentidos. E por falar neles — meu Deus — o que se pretende com “estímulos multissensoriais e lúdicos”? Multissentidos para pessoas com deficiências sensoriais? Não é cinismo prometer variedade a quem perdeu o básico? Resgata-se a lenga-lenga do estupor de médicos diante da superação de certos pacientes, como nos programas televisivos cheios de oh… oh… por causa do tal doente que milagrosamente teve o cérebro reconstituído ou soube adaptar partes do corpo para funcionar como outras — assim, feito um engenhoso mecânico que transforma uma bateria velha em algo distinto, um abajur, uma saladeira, qualquer coisa admirável. O amputado aprende a pintar usando os dedos dos pés, o cego se orienta com os ouvidos e pode dançar: parece um morcego, com os braços abertos na tentativa de ampliar o alcance de suas antenas acústicas, mas ainda assim dança, merece aplauso.

Laila morre de nojo só de pensar naquele sensacionalismo, que é o mesmo dos museus bonzinhos, apesar do alcance diferente, porque nem se compara a plateia de uma tevê com o público esparso que vai em busca de arte. Ela, porém, deficiente sensorial e/ou física, não seria uma estúpida a engrossar estatísticas, posando como beneficiária de uma esmola cultural. De que valia se contentar com uma cópia em gesso, obedecer ao instrutor que lhe diria para começar apalpando por cima ou pelos lados — pensava Laila — feito num jogo de adivinhas? Ou então lhe entregaria logo o ouro, mencionando o que ela deveria compreender: “Você está diante de uma mulher que é uma sereia voadora; tem cabelos vermelhos e segura um buquê num cenário com palmeiras azuis e uma lua”, despejaria, para descrever uma pintura de Chagall. E não a deixariam tocar O beijo de Rodin, nem as Formas únicas de continuidade no espaço de Boccioni. Inclusive porque não faria diferença, se por piedade o governo permitisse aos cegos passarem os dedos pelas superfícies, ajudando a estragá-las com um progressivo acúmulo de suor e gordura. A compreensão não seria perfeita, nunca; e Laila poderia acariciar o tronco de uma árvore ou uma rocha com idêntica emoção. Porque seria só uma textura, sem composição de imagens.

Ali, dentro de uma igreja barroca em Tiradentes, ela não se sente vulnerável, nem encurralada no vazio. A atmosfera fria é religiosa como uma caverna virgem, e plena. Laila respira. Pierre já recuperou o fôlego e espera o sinal para agir. Quer descrever os anjos e as colunas rebuscadas, o amarelo opaco em todas as direções do altar, os turíbulos imensos. Vai começar a enumeração num sussurro, para não incomodar os demais visitantes. Turistas desfilam pela nave central, fazendo guinchar os sapatos; cochicham e dissimulam câmeras fotográficas. Laila se agarra à voz de Pierre como se não soubesse sua origem — como se fosse uma voz de fantasma, conservada por séculos numa cripta.

 

Como nascem as cachoeiras

Aqueles foram dias de estradas serpenteantes, vinho, queijo e ladeiras. Laila e Pierre andaram por ruas ascendentes, em Ouro Preto. Ela sentia as pedras redondas sob os pés, como se palmilhasse um edredom rígido, e gostou das oscilações e desníveis. Ia esbarrando no povo, ombros se batendo, pernas a enroscar. Pierre se desculpava por ela, mas Laila continuava desatenta. Parecia ofegante, o nariz para cima, aspirando o vento e de repente entrando numa cafeteria, numa loja de doces. As pessoas no caminho se tornavam vegetações incômodas, cipós que ela sacudia para longe, enquanto desbravava um destino. Que destino era esse, não estava decidido; da estreita calçada, podia surgir qualquer coisa interessante. Os dedos acompanhavam a parede, deslizando nos grãos do muro que se interrompia, abria-se para um vazio. Laila sondava cheiros e ruídos; na maioria dos casos prosseguia, atropelando gente, crianças que faziam caretas chorosas. Pierre não tinha tempo para grandes explicações às mães indignadas; devia seguir Laila, na trilha da parede. Se ela desaparecia, só lhe restava entrar em várias lojas, gritando o seu nome.

Isso aconteceu com o café e os doces, mas na compra do oratório foi diferente. Quando Laila parou diante da porta, piscou de um jeito rápido, como se pudesse limpar a vista. O cheiro de madeira se impunha, e também a tinta, com um aroma paralisado no trajeto. “O que é?”, ela perguntou, esperando que Pierre estivesse por perto, e justamente ele se punha ao seu lado para responder: “Uma loja de artigos religiosos, estátuas de santos e oratórios”. “Pensei que vendessem quadros”, ela comentou, antes de avançar, lenta como um espectro. A vendedora se pôs na sua frente, adivinhando o desastre de um choque com as prateleiras de vidro. Apresentou-lhe peças, que Laila revirou na mão. Queria estruturas oitavadas como torres de igrejas, a caixa profunda onde acomodar a mão, sentindo as farpas de madeira que escaparam à lixa. Era possível notar uma frieza, como o ar suspenso dentro de um armário — e as dobradiças mínimas faziam Laila sorrir. Ela tocava oratórios para achar seus pontos de emenda, a margem mais suave indicando um verniz, as partes pintadas que ela percorria, sem relevo. Quis que Pierre lhe falasse dos desenhos; quase todos eram flores, pétalas imaginárias e convencionais saindo de galhos simbólicos. Não havia uma flor exata; elas pareciam criadas dentro de uma convenção infantil, brancas e róseas, arredondadas ou às vezes pontiagudas, uma corola grosseira como um botão. A vendedora levantou as sobrancelhas, espantada com a crítica, mas era assim que Laila gostava. Pierre adivinhou que ela precisava de uma ironia para justificar seu desejo. Porque queria desesperadamente comprar uma peça, mas sem finalidade religiosa. A distância da mãe beata precisava ser marcada, e para Laila o objeto teria o uso de um porta-joias ou um armário de bonecas.

“Escolha para mim o mais antigo”, ela pediu, e Pierre pegou um de tamanho médio, marrom com bordas douradas, flores sugerindo acácias pálidas, murchas nas folhas externas e internas das portas. “Esse aqui”, ele disse, e Laila aceitou sem examiná-lo; apenas o segurou para estendê-lo à frente, onde pensava que estaria a vendedora: “Para presente, por favor”. Depois da compra, caminharam somente mais um pouco. Laila quis voltar para o hotel e entrou no quarto com o pacote, à procura da cômoda onde ficava a tevê. Achou um espaço livre e se pôs a rasgar o papel da embalagem; pedaços verdes caíram pelo chão, como cédulas de seda ou confetes gigantes. Ela abriu o oratório, deixou-o escancarado e sentou-se na ponta do colchão. Parecia contemplar um santo invisível nas sombras da caixa. Nesse momento, ouviram-se sinos, badalando de forma tão intensa que alguém poderia confundi-los com o som de um bicho mítico — ou, ao menos, foi o que Pierre pensou: que era um canto imortal a se espalhar pelo mundo.

Quando comentou a impressão com Laila, ela sorriu, quase concordando, mas depois disse: “Para mim, é o som de uma cachoeira nascendo”.

 

A ressaca

E depois da bonança, vem a tempestade, pensou Pierre no dia seguinte ao retorno da viagem. Laila caiu numa depressão em estilo caramujo, enrolando pés e braços, cabeça entre os joelhos. Por um tempo, ele quis ignorá-la, até porque os afazeres não o deixavam disponível: teve de correr com dívidas atrasadas e picuinhas domésticas, incluindo o desaparecimento da faxineira que comparecia às terças-feiras. O apartamento ficou um nojo de bagunça, e Pierre viu-se obrigado a arrastar vassoura e espanador para o quarto, enquanto tentava convencer Laila a sair da cama. Era preciso trocar os lençóis, mas ela não parecia incomodada com o ranço de poeira em que enfiava o nariz.

Pierre foi trabalhar meio expediente e no final da tarde assustou-se com a gravidade de encontrar Laila na idêntica postura, semelhando um fóssil ou um molde de cera. “Isso não está certo”, ele disse. “Vamos conversar.” E balançou-lhe a perna, buscou desfazer o nó dos membros, experimentando cócegas e tapinhas. Laila reagiu lentamente, desdobrando-se. Começou a falar, parecendo que tinha decorado todo um discurso durante o período de recolhimento. Vinha pronto e coerente o seu pensamento, desfiado como uma tese bem argumentada. Ela havia se divertido com a viagem, mas agora já não se sentia livre; experimentava a abstinência de aventura. Antes tinha previsto que seria assim, embora não suspeitasse de um efeito tão imediato. “As pessoas pensam que a queda é única”, disse Laila. “Mas eu não parei de ficar cega. Ontem me lembrei dos espelhos, e hoje das fotografias, tudo que vou perdendo. A propósito, você levou uma câmera para a viagem?”

Pierre disse que não, não dava muita atenção a fotos — mas no íntimo sufocava a mentira, porque hesitara com a velha Kodak diante da mala, para enfim desistir de enfiá-la entre as roupas. Seria falta de sensibilidade, falou — e sentiu que antecipava Laila, sua frustração de posar para um clique inacessível. “Deve existir uma teoria de viagens que justifique os espaços entre um passeio e outro”, ela prosseguiu. As pausas seriam retomadas de fôlego. Feito um mergulhador que volta à tona, mas desejando a próxima imersão: o viajante volta para casa e suporta a rotina, porque trouxe recordações. Mas Laila não podia guardar uma memória física, prolongar o prazer — o que lembraria de específico? A sensação atmosférica, a pressão da altura enquanto subia pela estrada? Pierre dirigiu serpenteando, e Minas será cada curva que o veículo fez. Apenas isso, junto com o talhe dos anjos tocados, o paralelepípedo sob os pés, a voz lenta das pessoas.

Pierre não soube o que dizer; brincava com a moleza do lençol, ondeando suas formas em silêncio. Laila permaneceu imóvel. E então anunciou, para que ele compreendesse: “Se não posso trazer recordações, continuarei viajando”.

 

O mundo translúcido

A conversa se arrastou pela noite, com Pierre a valorizar outros tipos de lembrança. Falava com uma Laila emudecida, infantil na postura sobre a cama. Conforme o tempo passava, o quarto ensombrecia, mas Pierre mantinha os argumentos, sem coragem de levantar para acender uma luz. Ocasionais faróis se projetavam no prédio em frente para depois entrarem oblíquos pela janela, criando círculos na parede como se alguém prometesse um show de variedades. Era assim que ele se sentia, meio charlatão no começo, mas a cada vez se convencendo de que as ideias eram aceitáveis. Pois não tínhamos diversos sentidos? — indagou, retoricamente. “É possível dizer que isso não lhe traz uma recordação?”, perguntou, com o devido espaço para o silêncio, e pôs na mão de Laila um objeto que puxou da bagagem semidesfeita.

Era uma cruz peluda, revestida de panos como uma boneca de trapos: eles a tinham comprado em Tiradentes, onde o artefato, muitíssimo comum, abençoava a porta das casas. Laila reconheceu o formato com os dedos, e Pierre pensou que ela sorria. Animou-se, vibrante feito um terapeuta que obtém sucesso; no mesmo instante, um veículo passou pela rua de baixo e projetou dois faróis perfeitos. Pierre continuou falando, enquanto procurava um pacote embrulhado em jornal. Achou-o no fundo da mala; na pressa, deixou voarem pedacinhos de papel pelo quarto — uma lástima, pois tinha varrido o chão pouco antes. O sorriso de Laila desaparecia, mas ele trocou os objetos em sua mão, tirando a cruz e pondo um bibelô frio, uma tartaruga em pedra-sabão.

Dessa vez, Laila falou. Lembrava-se da loja em Congonhas, da sensação de pegar, de um por um, os profetas de Aleijadinho reduzidos ao tamanho de um dedo. Pierre quis levar o conjunto inteiro em miniatura, mas ela se opôs porque seria “muito espiritual”. Saiu tateando os balcões da loja, com o dono acompanhando os seus gestos — mas Laila desfilava com tanta delicadeza, que jamais poderia esbarrar em nada. No máximo, se deixasse algo cair, Pierre estava certo de que a própria queda seria lenta o suficiente para que ele corresse a apará-la.

Quando achou a seção dos bichos esculpidos, Laila ficou encantada. Adivinhava formatos, pedindo confirmação de suas descobertas: “Um leão? E aqui, um elefante?”. Pierre sugeriu que ela escolhesse algum. Laila entregou-lhe o que estava segurando. “A tartaruga”, disse, e quando ele perguntou por quê, ela respondeu: “Eu gosto da carapaça”. Foi assim durante toda a viagem, ele recapitulava. Suas respostas e desejos eram espontâneos, quase absurdos. A única razão para ela escolher um prato, dentre todos os que Pierre lia no cardápio do restaurante, era a sonoridade. Escolhia os vinhos da mesma forma. Nas lojas, comprava por impulso, e igualmente por impulso rejeitava ofertas que para um vendedor — e muitas vezes também para Pierre — pareciam adequadas.

Talvez viajar recuperasse nela uma espécie de infância, se é viável associar esse termo à simples alegria, sem uma necessária ingenuidade. Porque Laila não tinha ficado frágil ou tola em nenhum momento. Pelo contrário, era imperativa nas vontades — como quando afirmou sua urgência por aventuras. Mas agora Pierre se iludia, achando que iria convencê-la: vários tipos de memória estavam disponíveis pelo tato e pela audição. “Sim”, ela afirmou; sempre que ouvisse sinos, retornaria a Ouro Preto. E havia a recordação gustativa, enquanto durasse o queijo e o café que trouxeram. Laila riu claramente, e Pierre estremeceu quando um novo facho de luz brilhou nos dentes dela: foi um riso escancarado e volátil, de imediato mergulhando no escuro.

 

A trapaça

Enquanto Pierre desabafa, curvado sobre uma xícara que parece respingada de lama, é possível imaginar a situação com detalhes. Ele sempre suspeitou que não daria certo, não seria possível que o fingimento durasse, embora no começo Laila estivesse empenhada. Ela admitia recuperar alguma vibração de lembrança, e percebia-se pela forma com que erguia o queixo, como se aspirasse um perfume. Indagava a atmosfera desse jeito, ao escovar os dentes segurando a tartaruga em pedra-sabão. Decidira colocá-la na pia do banheiro, bem ao alcance de seus dedos, e era um ritual específico que ela inventava, como se não conseguisse acertar os dentes de outro modo. Tinha de escovar enquanto segurava a tartaruga numa das mãos, e Pierre notava a ansiedade: Laila se agarrava à pedra, girando-a como uma bússola misteriosa, pronta para o arremesso.

No final, não chegou a acontecer qualquer cena furiosa, com vidros espatifados — e Pierre tirou do bolso a tartaruga cor de oliva. Ela ficou a meio caminho entre sua xícara e meu copo de chá mate, ouvindo como Laila automatizou a memória para que ela perdesse significado. “Talvez não fosse intencional” — ele apressou-se em dizer — mas a pedra-sabão virou um desespero manuseado, a cada dia revirada com maior agilidade, até ser posta numa gaveta.

Pierre baixou a testa, voltando-me o topo dos cabelos num redemoinho curto. A voz abafava no peito, na caverna criada pelos dois braços dobrados à maneira de um trapézio, sobre a mesa. Ele mencionou diversas viagens que propôs a Laila, então perdi a paciência de escutá-lo e o interrompi. Prefiro escutar histórias a contar as minhas próprias, mas naquele instante saltei para a segunda opção, como alguém que pula de um barco.

“Quando eu era criança”, comecei num tom alto, “pensava que os retratos fossem espiões.” Pierre ergueu a cabeça, espantado. Ajeitou-se na cadeira, enquanto eu dizia como os punha de costas, para que não me fitassem com seus rostos antigos, seus juízos de outras épocas. Minha mãe ficava danada, saía virando os porta-retratos sobre os móveis. Toda manhã tinha de girá-los para os antepassados não ficarem de castigo para a parede — e me dizia que era pecado brincar assim com os mortos, com meus avós que eu não conhecera, duas figuras obesas e abotoadas, a mulher mais sisuda que o homem, que usava um bigode de vassourinha. Além deles havia um tio em várias fases da vida, desde menino envolto em rendas e cachos até um soldado belo, incapaz de pressentir granadas. Sua jovem noiva, que depressa passou à condição de viúva, posava com um fio de pérolas. Ela morreu pouco depois do meu tio, borrando lenços e toalhas com sangue, encaveirada de sofrimento. “Como não era uma parenta direta, às vezes minha mãe se esquecia de virá-la de novo para a sala. Deixava sua foto de costas, numa espécie de concessão a mim, ou talvez porque também odiasse o seu rosto fino” — terminei.

Pierre estava pálido, com a expressão suspensa como se esperasse uma justificativa. Bebi o restinho do chá, pensando num motivo plausível para a narração. Na parede da lanchonete, cartazes de propaganda me irritavam por sua obviedade: todos com figuras de bocas escancaradas, na suposta euforia diante de refrigerantes, chocolates ou livros místicos. Ensaiei dizer algo sobre retratos e o benefício de evitar aquele tipo de lembranças. Com o tempo, viramos estranhos, criaturas que não fazem sentido para as pessoas do futuro. “Seremos assombrações para os nossos netos”, brinquei, mas Pierre continuava sem entender. “Por que você me contou isso?”, ele perguntou, e fingi não escutar, mas ele repetiu enquanto eu esperava inutilmente que a garçonete pudesse nos interromper.

“Não sei”, disse com sinceridade. “Eu me lembrei da história quando você falou sobre a câmera fotográfica que não levou para Minas Gerais.” “Mas eu menti”, confessou Pierre. “Como assim?” “Levei a câmera”, ele disse, “e fotografei sem que Laila percebesse. Tirei retratos dela, inclusive em casa, quando ela dormia, estava no banho ou distraída. Tenho mais de quinhentas fotos numa caixa.”

FIM



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TÉRCIA MONTENEGRO nasceu em Fortaleza, onde vive atualmente. É fotógrafa e professora do curso de letras da Universidade Federal do Ceará. Dentre outros livros de contos e crônicas, publicou Linha férrea (2001), que recebeu a Bolsa para Escritores Brasileiros com Obras em Fase de Conclusão, concedida pela Biblioteca Nacional, e o prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, e O tempo em estado sólido (2012), finalista do prêmio Jabuti e do prêmio Portugal Telecom. Seus textos integram várias antologias nacionais e estrangeiras. Escreveu também obras voltadas para o público infantil e juvenil. Turismo para cegos é seu primeiro romance e foi selecionado pelo programa Petrobras Cultural.

 

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1.ª parte de:
TURISMO PARA CEGOS
TÉRCIA MONTENEGRO
COMPANHIA DAS LETRAS, 2015

 

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Publicado por MJA
[28.Jun.2015]