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 Sobre a Deficiência Visual


Taman

Lermontov

1840

ilustração para Taman em «O herói do nosso tempo» de Lermontov
ilustração para Taman em «O herói do nosso tempo» de Lermontov


Taman (1) é a cidadezinha mais horrível de todas as que beiram as costas dos mares da Rússia. Quase morri de fome lá e ainda por cima escapei de ser afogado por alguém. Cheguei numa teleguinha (2) de posta certa noite, a altas horas. O cocheiro parou seus cavalos cansados junto ao portão da única casa de pedra, na entrada da cidade. O guarda, um cossaco do Mar Negro, ao ouvir o som do sino gritou com sua voz selvagem, cheia de sono: “Quem vem lá?” e apareceram um suboficial de cossacos e um capataz (3).  Expliquei-lhes que eu era um oficial e que me dirigia, a serviço, para minha unidade no front, sendo que, para tanto, exigia o alojamento que me era devido para a noite.

O capataz nos acompanhou pela cidade. Todas as isbás a que batemos estavam ocupadas.

Fazia frio e eu estava há três dias sem dormir. Aborreci-me e comecei a perder as estribeiras. “Leva-me a qualquer lugar, ó paspalho — gritei — nem que seja pro inferno, conquanto eu possa dormir!"

— “Falta ainda um lugar — respondeu o capataz, coçando a nuca — só que não vai agradar a Vossa Excelência, não é um lugar limpo.” Sem entender o significado exato dessa última palavra dei ordem que me conduzisse até lá. Depois de uma longa travessia pelos becos sujos, ladeados por cercas decrépitas, apeamos diante de uma casinha, bem na orla do mar.

A lua cheia iluminava o telhado de junco e as paredes de minha nova morada; no quintal, cercado por um muro de pedras arredondadas, havia um outro casebre caindo aos pedaços, mais velho e menor que o primeiro. O barranco em que se encontrava descaía para o mar quase junto a suas paredes, e em baixo ouviam-se as ondas azul-escuras marulharem seu resmungo incessante.

A lua contemplava calmamente o elemento agitado, a ela submisso, que ela governava e eu pude divisar, à sua luz, longe da margem, duas embarcações cujo cordame negro se projetava imóvel, qual teia de aranha, sobre a pálida linha do horizonte. “Há navios no porto — pensei —, amanhã poderei ir a Guelendjik!” Meu ordenança era um cossaco de um dos regimentos de fronteira.

Ordenei-lhe que baixasse a mala e liberasse o cocheiro. Comecei a chamar pelo dono da casa — nada. Bati à porta — nada. O que seria isso? Finalmente um rapazinho de uns catorze anos pulou do alpendre em minha direção. “Onde está o patrão?”

— “Não há.”

— “Como assim? Não há ninguém?”

— “Ninguém."

— “E a patroa?”

— “Foi para a aldeia.”

— “Quem é, então, que vai me abrir a porta?” disse eu, chutando-a.

A porta abriu-se por si só e sentiu-se uma baforada de mofo vinda de dentro. Acendi um fósforo e coloquei-o embaixo do nariz do moleque: o fósforo iluminou dois olhos brancos. O rapazinho era cego, completamente cego, de nascença. Permaneceu imóvel diante de mim e eu comecei a estudar-lhe os traços.

Confesso que pessoalmente tenho um preconceito arraigado contra todos os cegos, caolhos, surdos, mudos, pernetas, manetas, corcundas e assim por diante. Tenho reparado que existe sempre uma estranha ligação entre o exterior de uma pessoa e sua alma: como se, ao perder um órgão, ele perdesse também algum sentimento interior.

Assim comecei a estudar o rosto do cego; mas digam-me, o que se pode ler num rosto que não tem olhos? Observei-o longamente com certa pena involuntária quando, subitamente, a sombra de um sorriso serpenteou-lhe pelos lábios finos e, não sei por quê, me provocou uma sensação desagradável. Em minha cabeça nasceu a suspeita de que este ceguinho não era tão cego como parecia. Disse a mim mesmo que não é possível fingir uma catarata, e para que alguém faria isso? Mas, o que fazer? Eu costumo ser dado a preconceitos...

“És o filho dos patrões?” — perguntei-lhe, afinal. “Não.” — “Então, quem és?” — “Um pobre órfão.” — “E a patroa tem filhos?” — “Não. Tem uma filha, mas desapareceu do outro lado do mar, com um tártaro.” — “Que tártaro?” — “Ninguém sabe! Um tártaro da Crimeia, um barqueiro de Kertch."

Entrei na casinha: dois bancos e uma mesa, mais uma enorme arca do lado da estufa eram todos os móveis que havia. Na parede — nenhum retrato. Mau sinal! Pelo vidro quebrado ia entrando a brisa do mar. Tirei de minha bagagem um coto de vela de cera e, depois de acendê-lo, comecei a ajuntar minhas coisas. Num canto, o sabre e o fuzil, as pistolas na mesa, estendi a capa no banco e o cossaco fez o mesmo com a sua, no outro. Dentro de dez minutos, ele já estava roncando, mas eu não conseguia pegar no sono. Na escuridão aparecia-me, o tempo todo, o rapazinho com os olhos brancos.

Com isso, passou-se perto de uma hora. O luar brilhava na janela e seu raio brincava no chão de terra da casinha. De repente, uma sombra cruzou a linha de luz que iluminava o chão. Ergui-me e olhei pela janela. Uma vez mais um vulto passou por ela correndo e desapareceu, Deus sabe aonde. Não podia imaginar que uma criatura corresse para a costa a pique em direção ao mar, mas não havia outro lugar para onde ir.

Levantei-me de vez, joguei meu bechmet (4) no ombro, prendi a espada no cinto e saí da casinha sem fazer ruído. O menino cego vinha em minha direção. Escondi-me atrás da cerca e ele passou por mim cautelosamente, mas sem vacilar. Carregava uma espécie de embrulho em baixo do braço e, dirigindo-se para o cais, começou a descer pela encosta escarpada. Então os mudos cantarão e os cegos enxergarão, (5) pensei, enquanto ia atrás dele a uma distância suficiente para não perdê-lo de vista.

Aos poucos a lua foi se cobrindo de nuvens e a neblina levantou-se sobre o mar e, através dela, podiam-se ver as luzes do farol que iluminava a popa do navio mais próximo. Na praia tremeluzia a espuma dos vagalhões que tentavam o tempo todo engoli-lo. Deixei-me cair com dificuldade pela escarpa à qual tentava me agarrar e eis que o menino cego parou lá em baixo e depois virou à direita. Ele ia tão rente à água que a qualquer momento as ondas poderiam alcançá-lo e levá-lo. Porém, pela segurança com que ele pulava de recife em recife, evitando as fendas entre eles, via-se que este não era seu primeiro passeio. Finalmente ele parou e sentou-se no chão, colocando o embrulho a seu lado e dando a impressão de estar ouvindo alguma coisa. Eu observava seus movimentos escondido atrás de um rochedo que despontava próximo à margem.

Depois de alguns minutos uma figura branca surgiu, vindo da direção oposta; aproximou-se do cego e sentou-se ao seu lado. O vento trazia-me trechos de sua conversa.

— E então, ceguinho — dizia uma voz feminina —, é uma tempestade muito forte. Ianko não virá.

— Ianko não tem medo de tempestades — dizia o menino.

— A neblina está ficando espessa — retomava a voz feminina com uma nota de tristeza.

— Quando há neblina é mais fácil passar pelos guardas da costa — dizia o menino.

— E se ele se afogar?

— Se ele se afogar você irá à igreja sem uma fita nova.

Depois disso, calaram-se. Uma coisa, porém, me intrigou: o menino havia falado comigo em dialeto ucraniano; agora, entretanto, falava em russo corrente.

— Está vendo, eu estava certo — disse de novo o cego, batendo palmas. — Ianko não tem medo nem do mar, nem dos ventos, nem da neblina, nem dos guardas da costa; preste atenção, não são as ondas que batem, não me enganam, são... seus remos...

A mulher levantou-se de chofre e ficou olhando ao longe, ansiosamente.

— Você delira, ceguinho — disse ela. — Não se avista nada.

Eu, confesso, tentei divisar ao longe qualquer coisa parecida com um barco, mas nada vi.

Passaram-se uns dez minutos. Eis porém que, de repente, por entre as montanhas das ondas, apareceu um ponto preto que ora aumentava, ora diminuía. Erguia-se devagar até a crista das ondas e baixava rapidamente com elas. Era um barco. Com certeza o marinheiro devia ser muito valente para se aventurar pelos vagalhões por uma distância de vinte verstas, e muito importante devia ser o motivo que o levava a fazê-lo. Com isso em minha cabeça e com o coração batendo sem eu querer, acompanhei com os olhos o frágil barco, mas ele, tal como um pato, afundava e logo em seguida, sacudindo os remos como se fossem asas, mergulhava e depois saltava do abismo, entre jatos de espuma. Logo, logo, eu pensei, ele vai bater com toda a força contra a margem e vai se despedaçar na praia. O barco, entretanto, virou agilmente de lado e penetrou na pequena baía sem sofrer danos.

Dele saltou um homem de altura mediana, com um barrete tártaro de pele de ovelha na cabeça. Fez um sinal com a mão e os três começaram a descarregar algo do barco; devia ser muito pesado e até agora não entendo como ele possa não ter virado. Cada um deles carregava um embrulho no ombro.

Foram andando pela encosta e em breve perdi-os de vista. Tinha que voltar para casa; confesso, porém, que todos esses fatos estranhos me perturbaram e mal consegui esperar a manhã chegar.

Meu cossaco ficou muito surpreso quando, ao acordar, me viu completamente vestido, mas eu não lhe expliquei o porquê. Fiquei algum tempo à janela, admirando o céu azul, salpicado de nuvens esgarçadas, e a costa da Crimeia, que, ao longe, era uma faixa violeta terminando num rochedo encimado pela torre esbranquiçada de um farol. Dirigi-me, depois, para o forte de Fanagória para saber do comandante quando poderia partir para Guelendjik.

Infelizmente, nada feito; o comandante não conseguiu dar-me uma resposta segura. Todas as embarcações ancoradas no cais ou eram barcos de guardas costeiros ou de mercadores que ainda estavam esperando pela arrumação da carga, que sequer começara. “Pode ser que dentro de três ou quatro dias chegue o barco do correio — disse o comandante —, nesse caso, veremos.” Eu voltei para casa irritado e de cara fechada. À porta encontrei o meu cossaco, que parecia assustado.

“Vai mal, senhor”, disse ele. “Sim, meu irmão, sabe Deus quando conseguiremos sair daqui.” Ao ouvir estas palavras o cossaco ficou ainda mais agitado e, inclinando-se para mim, disse em voz baixa: “Este não é um lugar bom, irmão. Quem me falou isso foi um suboficial de cossacos do Mar Negro que encontrei hoje, meu conhecido. Ele serviu na minha unidade, um ano atrás. Quando lhe contei onde estávamos alojados ele me disse ‘Ali tem coisa, irmão. As pessoas não prestam!’. E esse cego, então! Ele vai sozinho para todo lado, na venda, comprar pão, buscar água... e todos parecem achar isso a coisa mais natural”.

— E daí? Pelo menos, a mulher voltou?

— Sim, a velha voltou, hoje, quando o senhor não estava, e veio junto com a filha.

— Que filha? Ela não tem nenhuma filha.

— Deus sabe quem é, então, se não é a filha; olhe lá, a velha está em casa, agora.

Fui para lá. O fogão estava a todo vapor e a comida que estava sendo preparada parecia cara demais para gente pobre. A todas as perguntas que fiz a velha respondia que não ouvia, que era surda. O que eu poderia fazer? Virei-me para o cego que estava sentado ao lado do fogão e colocava uns gravetos secos no fogo.

“E então, seu diabinho cego — falei, puxando-o pela orelha. — Diga, por onde você andava de noite com aquele embrulho, hein?” O ceguinho, de repente, começou a chorar, a gritar, a gemer: “Não andei por lugar nenhum, eu... com um embrulho?... que embrulho?”. A velha pareceu ouvir, desta vez, e resmungou: “Ficam aí imaginando coisas... e ainda por cima, contra um pobre coitado! O que quer dele? O que ele fez?”. Não quis ouvir mais nada e saí, decidido, porém, a ir até o fundo daquele mistério.

Envolvi-me em meu capote e, sentado numa pedra junto à cerca, perscrutei o horizonte. O mar estava ainda agitado, depois da tempestade da noite; seu ruído monótono, semelhante ao murmúrio de uma cidade quando adormece, lembrou-me anos passados e levou meu pensamento para o norte, para a nova capital gelada. Tomado pelas recordações, perdi-me em meus pensamentos.

Assim passou uma hora; talvez mais. De repente ouvi algo parecido com uma canção. Sim, era uma canção e a voz fresca de uma mulher — mas de onde vinha? Agucei os ouvidos. Era uma melodia estranha, lenta e melancólica e — subitamente — rápida e vivaz. Olhei à minha volta — ninguém; agucei os ouvidos de novo — era como se os sons caíssem do céu. Então levantei os olhos: no telhado de minha casa estava uma jovem de vestido listrado, em pé, com o cabelo solto, feito uma russalka (6).  Ela fitava o mar, protegendo os olhos dos raios de sol, com a mão. Ela fitava o horizonte, ora sorria, ora falava sozinha, e recomeçava a cantar.

Lembro dessa canção, palavra por palavra:

Velas brancas, os barquinhos, —
No mar amplo, a navegar.
E por entre aqueles barcos
Meu batel a vagar
Sem cordame e nos arcos
Apenas dois reminhos.
Quando vem o temporal
Os barcos abrem as asas
E se espalham pelo mar.
Eu com grande devoção
Faço ao mar uma oração:
“Não te jogues, mar furioso,
Contra meu pobre batel:
Ele carrega tesouros
E objetos preciosos
E quem o governa
Pela noite escura
É uma valorosa
Cabecinha dura”.


Não pude deixar de pensar que ouvira esta voz na noite passada. Tentei lembrar por um instante e, quando olhei de novo para o telhado, a moça já não estava mais lá.

Subitamente vi-a passar correndo por mim, cantarolando outra coisa e estalando os dedos, entrando precipitadamente na casa onde estava a velha. Logo iniciou-se uma discussão entre as duas.

A velha parecia zangada, a jovem gargalhava.

Depois vi novamente minha ondina correr na minha direção. Ela parou bem à minha frente e fitou-me nos olhos, como que surpresa com minha presença; depois virou-se e foi-se, de mansinho, em direção ao cais.

Mas não terminou assim. Ela ficou o dia inteiro rondando meu quarto: o canto e o saltitar não pararam um instante. Que ser estranho! Em seu rosto não havia o menor traço de loucura; ao contrário, seus olhos, quando me fitava, eram brilhantes e penetrantes. Pareciam dotados de alguma força magnética e davam a impressão, todas as vezes, de estarem esperando alguma pergunta.

Mas todas as vezes que eu tentava falar ela fugia, com um sorriso matreiro.

Decididamente, nunca vira uma mulher como ela. Não era nenhuma beleza, mas também quanto à beleza tenho meus preconceitos. Ela tinha muita raça... e a raça nas mulheres é como nos cavalos, uma coisa muito importante; esta descoberta deve-se, primeiramente, à la Jeune France (7). Ela (a raça, não la Jeune France) vê-se no jeito de ela andar, nas suas mãos, em seus pés, no nariz, principalmente. Na Rússia, um nariz bem feito é mais raro do que um belo pezinho. Minha cantora não parecia ter mais do que dezoito anos. Senti-me atraído por seu talhe esbelto, pela peculiar inclinação de sua cabeça, pelo brilho dourado de sua pele bronzeada, nos ombros e no pescoço, por seu cabelo longo, castanho-claro, e, acima de tudo, por seu nariz perfeito. Tudo isso me encantava.

Apesar de eu ler alguma coisa de selvagem e de suspeito em seus olhares enviesados, apesar de algo indefinido em seu sorriso, a força dos preconceitos é tal que seu nariz perfeito me tirava do juízo.

Imaginava ter encontrado a Mignon de Goethe, essa criatura fabulosa de sua imaginação germânica. Na verdade, ambas tinham muito em comum. As mesmas mudanças de humor, de uma atividade incansável a uma inércia completa, as mesmas falas enigmáticas, os mesmos cantos esquisitos, os mesmos saltos...

À tardinha, eu a retive na entrada de sua casa e lhe disse: — Diga-me, beleza — disse eu — o que você estava fazendo no telhado hoje?

— Estava vendo de onde soprava o vento.

— E por que você queria sabê-lo?

— De onde sopra o vento, sopra a felicidade.

— Você cantava a sua canção para lhe dar sorte, então?

— Onde se canta, se é feliz.

— E se sua canção não lhe trouxer felicidade?

— E daí? Onde não for melhor, será pior; do bem ao mal, a distância é pouca.

— Mas quem lhe ensinou esta canção?

— Ninguém ensinou; fico imaginando e canto. Quem deve ouvir, ouve; quem não deve, não entende.

— E qual é seu nome, minha cantora?

— Quem me batizou, sabe.

— E quem a batizou?

— Como eu vou saber?

— Que mulher misteriosa! Mas eu sei de algo que você nem imagina. — Ela não mudou de expressão, não mexeu os lábios, como se o assunto não fosse com ela. — Pois eu sei que ontem de noite você foi até a praia.

Então, contei-lhe muito seriamente tudo o que havia visto na noite anterior, pensando, com isso, confundi-la. Nem um pouco! Ela pôs-se a gargalhar. “Viu muito, mas sabe pouco, e o que sabe, guarda-o para si.”

— “E se — digamos — eu decidisse contá-lo ao comandante?” Disse essas palavras de modo solene, quase severo. Ela pulou de repente e recomeçou a cantar. Sumiu como um pássaro tocado de uma moita. Minhas palavras foram completamente inoportunas — não suspeitei de sua importância quando as proferi, porém, mais tarde, tive ocasião de arrepender-me.

Estava escurecendo. Ordenei ao cossaco que aquecesse a chaleira como se faz em campanha, acendi uma vela, sentei à mesa e dei umas baforadas com o meu cachimbo de viagem.

Estava terminando meu segundo copo de chá quando, de repente, a porta rangeu e o leve farfalhar de uma roupa e de uns passos ouviram-se atrás de mim. Sobressaltei-me e, virando-me, vi que era ela, a minha ondina. Sentou-se à minha frente sem nada dizer e fitou-me bem nos olhos. Não sei por quê, mas este olhar pareceu-me maravilhosamente terno. Lembrou-me um daqueles olhares que, em tempos idos, tinham jogado tão despoticamente com minha existência. Ela parecia estar esperando que lhe fizesse alguma pergunta, mas eu continuei calado, tomado por uma perturbação inexplicável.

O rosto dela era pálido, como que por uma angústia interior, e reparei que a mão dela se movia pela mesa, com um leve temor, o peito dela ofegava e se erguia, como se ela prendesse a respiração. Esta comédia começou a cansar-me e eu já me sentia disposto a romper o silêncio da forma mais prosaica, ou seja, oferecendo-lhe um copo de chá, quando ela de repente se levantou de um salto, envolveu com seus braços o meu pescoço e senti em meus lábios um beijo húmido e fogoso. Não enxerguei mais nada, fiquei completamente tonto e estreitei-a entre meus braços com toda a força impetuosa da paixão juvenil. Ela, porém, desvencilhou-se e, feito uma serpente, escorregou de meus braços, sussurrando-me ao ouvido: “Hoje à noite, quando todos estiverem dormindo, vá até a praia”.

Dito isso, saiu do quarto veloz como uma flecha, esbarrando na chaleira e na vela que estavam no chão da entrada.

— Que doida dos diabos! — gritou meu cossaco, que estava deitado na palha e que almejava aquecer-se com o que restava do chá. Só então voltei a mim.

Duas horas mais tarde, quando tudo se calou no cais, eu acordei meu cossaco. “Se eu disparar minha pistola, vá correndo até a praia”, disse a ele. Ele arregalou os olhos e respondeu maquinalmente: “como queira, Vossa Senhoria”. Prendi o revólver ao cinto e saí.

Ela estava à minha espera ao pé do rochedo. Sua roupa era mais do que leve e um pequeno xale cingia-lhe o talhe esbelto.

— Siga-me — ela disse, tomando-me pela mão, e ambos descemos. Não sei como não quebrei meu pescoço. Em baixo dobramos à direita e seguimos por aquele mesmo atalho por onde, na noite anterior, eu tinha ido atrás do cego.

A lua ainda não havia surgido e apenas duas estrelinhas, como dois faróis benfazejos, brilhavam no firmamento azul-escuro. Ondas pesadas rolavam precisas e cadenciadas, uma após a outra, sacudindo de leve o barco solitário que estava ancorado à margem. “Vamos para o barco”, disse minha companheira de viagem. Eu não sou dado a aventuras sentimentais pelo mar afora, mas não havia tempo para recusar. Ela saltou para dentro do barco, e eu atrás dela. Ainda não sei como e quando reparei que, de repente, estávamos em alto-mar. “O que significa isso?”, perguntei, zangado.

“Isso significa — disse ela empurrando-me para o assento ao seu lado e enlaçando-me com seus braços — que eu o amo...” Seu rosto colou-se ao meu e eu senti em minha face sua respiração ofegante. De súbito ouviu-se o baque de algo que caía ruidosamente na água. Apalpei o cinto: minha pistola já não estava lá. Uma suspeita terrível tomou conta de mim e o sangue subiu-me à cabeça.

Olhei à minha volta — já estávamos umas cinquenta sájens (8) longe da margem e eu não sabia nadar.

Quis afastá-la de mim, mas ela se agarrou feito uma gata à minha roupa e um forte empurrão quase me lançou ao mar. O barco balançou, mas eu consegui equilibrar-me e entre nós começou uma luta desesperada. A fúria dava-me uma força inesperada, mas eu logo percebi que minha adversária era muito mais ágil do que eu. “O que você quer?”, gritei-lhe, enquanto apertava fortemente suas mãozinhas. “O que você quer?” Seus dedos estalaram, mas ela não gritou: sua natureza serpentina aguentou a dor. “Você viu tudo — respondeu —, e quer nos denunciar.” Com uma força inaudita derrubou-me da borda. Ficamos ambos suspensos para fora do barco, presos pelo cinto. O cabelo dela roçava a água. O momento era crítico. Apoiando meu joelho no fundo do barco, agarrei sua trança com uma mão e seu pescoço com a outra. Ela largou minha roupa e naquele instante empurrei-a na água. Já estava bastante escuro, agora. Vislumbrei sua cabeça umas duas vezes por entre as ondas e, depois, nada mais tornei a ver.

No fundo do barco encontrei metade de um remo velho e de algum jeito, após longos esforços, consegui chegar ao ancoradouro. Tentando voltar à minha casinha pela orla, olhava involuntariamente para o lado onde, na noite anterior, o cego esperara pelo navegante noturno. A lua já estava alta no céu e me pareceu ver alguém vestido de branco sentado na margem. Parei, levado pela curiosidade e, rastejando, escondi-me no capim, no alto do penhasco; estiquei um pouco o pescoço e pude ver nitidamente o que se passava lá embaixo. Não fiquei muito surpreso, na verdade estava quase contente por ver que lá estava minha russalka. Estava torcendo seus longos cabelos para espremer a espuma do mar que os encharcara, e a camisa molhada marcava-lhe o talhe flexível e o peito alto. Logo em seguida apareceu um barco ao longe e ela se aproximou rapidamente da orla.

Do barco, como na véspera, saltou o homem de barrete tártaro, mas seu cabelo havia sido cortado à moda cossaca e no cinto de couro brilhava um facão.

— Ianko — disse a moça. — Está tudo perdido.

Continuaram falando, mas tão baixo que não conseguia mais ouvi-los.

— Onde está o ceguinho? — perguntou finalmente Ianko, numa voz um pouco mais alta.

— Mandei-o apanhar as coisas — disse a moça.

Ele surgiu alguns minutos depois com um saco às costas, que colocaram dentro do barco.

— Ouça-me, ceguinho — disse Ianko ao garoto. — Fique de olho no lugar... você sabe onde é, não sabe? Tem coisas de valor lá. Diga a (não consegui discernir o nome) que já não receberei mais ordens dele. As coisas não estão dando certo e ele não verá mais a minha cara. É demasiado perigoso. Irei procurar algum trabalho em outro lugar. Jamais ele encontrará um sujeito arrojado como eu. Diga-lhe que se me tivesse pago melhor eu não o deixaria. Mas eu vou para onde quero. Para mim o caminho está sempre aberto, onde sopra o vento e onde ruge o mar.

Houve uma pausa. Depois, Ianko continuou: — Ela vai comigo. Não pode mais ficar aqui, agora. E diga para a velha que está na hora de ela morrer. Viveu demais, ela deve saber disso, teve seu tempo e deve honrá-lo. Não vai nos ver nunca mais.

— E o que vai ser de mim? — perguntou o menino com voz chorosa.

— O que eu tenho a ver com você? — foi a reposta.

Nesse meio-tempo minha ondina havia subido no barco e fazia sinal com a mão para seu companheiro. Ele pôs alguma coisa na mão do cego e disse: — Aqui está, compre uns pães de mel para você.

— Só isso? — perguntou o cego.

— Aqui, tome mais isto — e a moeda retiniu, caindo entre as pedras. O cego não a recolheu. Ianko sentou no barco, o vento soprou da margem, eles levantaram uma pequena vela e logo desapareceram. Por muito tempo a lua iluminou a vela branca no meio das ondas negras; o cego continuou sentado na margem e pareceu-me ouvir uma espécie de soluço, o rapazinho cego chorava, chorava... e assim passou muito tempo, muito. Senti pena dele. Por qual motivo ignorado o destino me teria atirado naquele ninho pacífico de contrabandistas honestos?

Eu havia perturbado a vida calma deles como uma pedra atirada numa fonte tranquila — e como uma pedra, quase fora ao fundo!

Voltei para meu alojamento. Na entrada a vela bruxuleava num prato de madeira. Contrariando minhas ordens, meu cossaco estava adormecido como uma pedra, o fuzil entre as mãos.

Não o acordei, mas peguei a vela e entrei. Para meu desespero descobri que minha caixa, meu sabre com a empunhadura de prata e meu punhal do Daguestão (presente de um amigo) haviam desaparecido. Só então percebi o que o danado do menino estava carregando !

Acordei meu cossaco nada amigavelmente e repreendi-o brutalmente. Mas não havia nada a ser feito.

Certamente não podia apresentar queixa à autoridade de que havia sido roubado por um menino cego e quase afogado por uma moça de dezoito anos.

Graças aos céus, na manhã seguinte havia um barco e eu pude deixar Taman. Não tenho ideia do que se passou com a velha, nem com o pobre menino cego. De qualquer maneira, o que tenho eu a ver com as alegrias e as tribulações da humanidade, eu, um oficial itinerante com salvo-conduto do Estado?

FIM

 

Notas da T.

  1. Cidade do Cáucaso, às margens do estreito de Kertch.
  2. Carroça rústica para transporte de carga.
  3. Dessiátnik, no original: responsável por um grupo de trabalhadores.
  4. Manta, geralmente de lã, usada no Cáucaso.
  5. Trecho modificado de Isaías, 29, 18.
  6. Jovem e bela divindade aquática do folclore russo.
  7. Autodenominação dos jovens escritores franceses do romantismo francês pós-1830.
  8. Antiga medida russa equivalente a 2,134 m.

 

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Mikhail Iúrevitch Lermontov (1814-1841)
foi considerado o sucessor do poeta Aleksandr Púchkin, morto em 1837 em um duelo que muitos julgaram “arranjado” pelo tsarismo, e para quem compôs uma elegia indignada que o tornou famoso. Oficial e aristocrata, ele também morreu jovem, em um duelo igualmente duvidoso, no Cáucaso. Tanto em poesia, quanto em prosa — e este “Taman”, um dos episódios de seu romance «O herói do nosso tempo», reconhecido por Tchekhov como um modelo de conto, o prova — não apenas Liérmontov foi um mestre da língua, mas, contrariamente à corrente romântica de sua época (segundo o testemunho de Boris Eikhenbaum, autor de um longo e importante ensaio sobre ele), ironicamente antibyroniano, anti-hegeliano e antitsarista.
 


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TAMAN (conto)
in «O herói do nosso tempo»
Mikhail Lermontov
NOVA ANTOLOGIA DO CONTO RUSSO - UMA SELEÇÃO
Organização, apresentação e notas: Bruno Barretto Gomide
Tradução de Aurora Fornoni Bernardini
Editora 34


Δ

19.Jun.2014
Publicado por MJA