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 Sobre a Deficiência Visual


Soldados Mutilados na História da Arte

Reflexões sobre a representação da Deficiência à luz da Psicologia Social

Lúcia Reily

Gassed WWI - John Singer Sargent, 1918
Gaseados - John Singer Sargent, c. 1919 | Óleo sobre tela (231 cm x 611 cm) | Imperial War Museum, Londres


As representações da deficiência variam marcadamente no decorrer da História da Arte, conforme tivemos ocasião de constatar no decorrer do estudo “Retratos de Deficiência e Doença Mental: intersecções da História da Educação Especial e História da Arte” (TUPINAMBÁ E REILY, 2004), em que mapeamos produções desde a antiguidade até a arte contemporânea, primordialmente no mundo ocidental. Estudando aproximadamente trezentas e cinqüenta obras plásticas, observamos que as pinturas, desenhos, gravuras e esculturas levantadas na pesquisa revelam concepções sociais subjacentes representando a pessoa deficiente como dependente, incapaz, merecedora de pena, merecedora de castigo, objeto de escárnio, figura grotesca, fascinante, exótica, inocente, alguém imbuído de habilidades compensatórias ou mesmo como personagem comum do cenário cotidiano.

As imagens produzidas por artistas sobre os deficientes são construções que refletem representações sociais constituídas coletivamente; não são meramente expressões individuais de pintor X ou Y. A autora americana Simi Linton, deficiente física militante, defende a idéia de que as Artes têm um papel importante ao “desmontar estereótipos por meio da análise de metáforas, de imagens e de todas as representações de deficiência nas culturas acadêmicas e populares.” (1998, p. 142, tradução nossa)

Simi Linton explica que a compreensão dos sentidos e das funções das representações simbólicas e metafóricas da deficiência tem o objetivo de subverter o seu poder. “É preciso traçar os padrões de uso de metáforas e dos usos simbólicos da deficiência para determinar onde e como emergem, e como funcionam nos diferentes gêneros artísticos, nas culturas e nos períodos históricos.” (p. 129)

Atitudes, estereótipos, estigma, representações sociais – cada um desses constructos tem sido utilizado para falar dos processos de discriminação e exclusão que são movidos contra as minorias, especificamente os deficientes. No entanto, interessam-nos no presente trabalho as teorias de representação social devido à flexibilidade que esse paradigma oferece para analisar o objeto do presente estudo, conforme discutidos por Moscovici (Moscovici, 1998; Wagner et al, 1999).

A referência a atitudes limita o escopo coletivo da reflexão, pois tal conceito está ancorado na psicologia da personalidade, que estuda reações individuais – atitudes e posturas positivas ou negativas, resistência ou aceitação, por parte do indivíduo. O termo estereótipo, por sua vez, coloca o foco nas marcas que engendram a construção de moldes pouco flexíveis aplicados sobre sujeitos. Ou seja, o estereótipo gera atitudes a partir da identificação de determinados indicadores que fazem por negar o todo em favor de alguns sinais chaves.

Falamos em “romper” ou “quebrar” o estereótipo. O estigma é um elemento marcador, um sinal, um indicador que é utilizado para constituir ou confirmar o estereótipo.

As representações sociais são mais fluidas. Sua natureza é coletiva; segundo os argumentos de Linton (1998), as concepções de deficiência são construções sociais: o significado geralmente atribuído à deficiência é de condição pessoal mais do que questão social, de sofrimento individual mais do que uma condição política. Quando indivíduos deficientes fracassam na escola, no trabalho ou no amor, o fracasso é atribuído à deficiência, ela própria vista com um obstáculo ao bom desempenho, ou à fragilidade psicológica do deficiente, ou à sua falta de resiliência, sua incapacidade de “superar” os infortúnios. (p. 143, tradução nossa)

As representações de deficiência são construídas na sociedade e geram produtos culturais – como literatura, canções; aparecem na oralidade e na escrita e também nas manifestações plásticas – em fotografias, em obras de arte, em charges e tudo mais. Como o termo representações já carrega em si a noção do significante – do portador do significado – essa teoria é muito útil na nossa discussão sobre os retratos de soldados deficientes porque permite olhar também para o veículo que transporta a mensagem. Qual é a tarefa que essas obras são chamadas a realizar?

Caminhando na contramão de uma tradição pictórica de representação dos militares em batalha com pretensão de glorificar os feitos de uma nação ou de um líder militar, alguns artistas representaram as seqüelas das guerras, corporificadas em veteranos que se tornaram inválidos. O que levaria um artista a figurar tal temática? As obras da História da Arte que mostram soldados feridos ou mutilados são particularmente instigantes porque iluminam um papel duplo ocupado pelo soldado que passou de defensor a indefeso depois de sofrer ferimentos severos nos campos de batalha. O artista que retrata a figura do militar desfigurado é obrigado a enfrentar a ambivalência dos múltiplos papéis que esse personagem anônimo, desuniformizado, genérico passa a ocupar como indivíduo, depois que volta para casa, depois que tira a farda.

A sociedade, confrontando esta situação, também é incomodada, ou até se sente culpada, por ser objeto do sacrifício daquele compatriota que colocou sua integridade física na linha de frente. A felicidade da família com o retorno do soldado que não morreu no campo, mas volta para casa é uma emoção entre muitas que se farão sentir no decorrer da convalescença e o enfrentamento do que significa viver um novo grau de dependência para a figura masculina que passa a ser dependente de outrem para o seu sustento. Na condição de herói que se sacrificou pelos seus compatriotas, o soldado deficiente ocupa um lugar social polissêmico. Quando se torna um mendigo ou quando busca prostitutas como válvula de escape, ele talvez alivie a culpa social, porque confirma que merecia a penitência que incorreu, por sua depravação moral. O objetivo deste estudo de imagens é verificar como os artistas destacam aspectos desses papéis desconfortáveis, relacionados a scripts já existentes para deficientes de um lado e para soldados do outro.


A I Guerra Mundial servindo de impulso à realibilitação

O estudo das obras que retratam os soldados mutilados oferece um pano de fundo para refletir sobre num momento histórico em que se instauraram novos campos de conhecimento, como a reabilitação em geral, e a fisioterapia, a terapia ocupacional, e a fonoaudiologia, em específico.

Algumas obras mostram evidências das formas encontradas para suavizar as seqüelas incorridas pelos soldados no pós-guerra e oferecer-lhes algum tipo de compensação e possibilidade de substituição das perdas funcionais.

”Aleijados de guerra”, uma pintura a óleo de grandes dimensões (1,50m x 2,00m), exibida na Feira Dadá em Berlim em 1920 gerou muita controvérsia, segundo Rewald (1996). Ao desnudar as deformidades que aconteceram nos corpos dos militares no campo de batalha, e questionar o marketing do exército como heróico, capaz de preservar a dignidade nacional, Dix mobilizou um grande desconforto no público alemão.
 

 Mutilados de guerra / Kriegskrüppel - Otto Dix, 1920: Destruído pelas autoridades nazis, após ser exibido em 1937 na Exposição "Reflections of Decadence".
Kriegskrüppel / Mutilados de guerra - Otto Dix, 1920
 

Fer, Batchelor e Wood (1998) oferecem a seguinte descrição:

É na obra de Otto Dix, que participou da I Feira Internacional Dadá em Berlim, que a imagem do humano mecanizado, ou da máquina humanizada, recebe um ponto de referência específico. Embora as figuras de Dix sejam grotescamente caricaturadas, fica claro que seu conjunto de imagens deriva dos soldados feridos e mutilados que começaram a povoar visivelmente as ruas das cidades alemãs durante e após a guerra. (p. 43, tradução nossa)  

Nas fotografias preservadas desse trabalho, destacam-se a variedade de órteses e próteses que os quatro aleijados utilizam para instrumentalizar sua autonomia diante das perdas de função conseqüentes das lesões sofridas: braços, pernas e maxilar mecânicos geram funções de articulação; cadeira de rodas, bengala e muletas auxiliam no deslocamento; órteses manuais devolvem a capacidade de pegar e segurar objetos, como o cigarro. E um alfabeto preso na lapela permite uma alternativa à fala.

Segundo Crockett (1992), “Aleijados de guerra” se constitui num ataque aos militares por dizimarem a sua geração, ao público por seu fascínio com os patéticos veteranos reconstituídos e também aos aleijados que, apesar de tudo, preservaram seu orgulho pela nação. Tanto por sua temática quanto pelo estilo anti-acadêmico, a obra foi confiscada pelo regime Nacional Socialista em 1937 e incluída na exposição itinerante de “Arte Degenerada”, que foi mostrada em toda a Alemanha. A pintura está desaparecida, tendo sido, provavelmente, queimada pelos nazistas.


Artistas e obras selecionados para este estudo
 

1Cavaleiro com o pé ferido, c. 1554-1458 | Giovanni Battista Moroni (1520/4 – 1579) | The National Gallery, Londres. Óleo sobre tela (202,3 x 106,5 cm).

Giovanni Battista Moroni: 'A Knight with his Jousting Helmet'
 

Esta pintura é a obra mais antiga encontrada em nosso estudo. Retrata um soldado (cavaleiro) que sustentou ferimentos no membro inferior com seqüela que exige a utilização de uma órtese na perna esquerda para lhe dar sustentação. A armadura do cavaleiro está a seus pés, o que pode ser interpretado como uma impossibilidade de continuar com essa carreira. As ruínas da parede ao fundo confirmam o ferimento do corpo do soldado.


2. Belisário pedindo esmola, c. 1781 - Jacques Louis David | Musée du Louvre, Paris | Óleo sobre tela (288 x 312 cm)

Belisarius asking for alms - Jacques-Louis David, 1781
 

Este quadro famoso de David foi várias vezes reproduzido e aborda uma temática que mobilizou artistas neoclássicos e românticos: Belisário foi tema de inúmeras obras artísticas.

Foi figura essencial no comando do exército Bizantino durante o império de Justiniano I, mas posteriormente ocorreram tensões políticas e ele foi tirado do cargo por alguns anos até ser chamado para lutar contra os búlgaros e eslavos que ameaçavam Constantinopla. O mito reza que este general do exército romano foi injustiçado por Justiniano I, que o cegou. Mais tarde, pobre e deficiente, Belisário estava mendigando quando foi reconhecido por um soldado que lutou sob seu comando. O soldado, então, o leva para sua casa para cuidar dele nos anos de sua velhice.

Nos séculos XVIII e XIX, a figura/lenda de Belisário foi valorizada porque ele partilhou do sofrimento dos oprimidos. O fundo moralizante joga com a inversão de poder, quando o soldado reconhece seu comandante injustiçado, vivendo como mendigo em condições de penúria, e tem oportunidade de reverter a injustiça do castigo que Justiniano impetrou contra seu súdito leal.
 

3. Inválido dando petição a Napoleão durante a Parada da Guarda na frente do Palácio de Tuilleries em Paris, 1838 - Horace Vernet (1789 - 1863) | Museu Hermitage, San Petersburgo | Óleo sobre tela

 Horace Vernet


Outro trabalho de grandes dimensões, este produzido por um artista pouco conhecido, é a obra narrativa “Inválido dando petição a Napoleão durante a Parada da Guarda na frente do Palácio de Tuilleries em Paris”, hoje hospedada no Museu Hermitage. No primeiro plano, tem-se o deficiente que perdeu a perna, supostamente em batalha, acompanhado de uma criança. Diante de todo o exército em formação de gala à direita, ele entrega seu pedido a Napoleão, com a cavalariça à esquerda. O poder de resolver a vida deste “inválido” está nas mãos do soberano, afirmando a relação desigual de dependência e vulnerabilidade do mutilado de guerra diante do déspota que, com uma palavra, determinará o futuro do soldado.


4. Retorno a casa / Home Again, 1856 - James Collinson (1825 - 1881) | Tate Gallery, Londres | Óleo sobre tela (82,7 x 115,5 cm)

Regresso a casa (da guerra da Crimeia - James Collinson, 1856
 

Essa obra é de natureza narrativa. Segundo informações do site do Tate Gallery, a pintura mostra o retorno para casa de um soldado que ficou cego lutando na Guerra da Criméia. A família está toda reunida, e recebe o soldado com emoção; na cena, ele vai sendo despido do seu uniforme que não será mais necessário. Trata-se de um tema de fundo moral, caro aos vitorianos da época.


5. A Rua Mosnier com bandeiras, 1878 - Édouard Manet | The J. Paul Getty Trust | Óleo sobre tela, (63,50 x 80 cm)

A Rua Mosnier com bandeiras - Édouard Manet, 1878


Num raro trabalho com texto político e urbano subjacente, Manet cria um contraste entre o clima festivo de uma data cívica, simbolizada pelas bandeiras francesas tricolores que enfeitam a rua (quiçá 14 de Julho?) e o deficiente de muletas no primeiro plano, que caminha lentamente pela rua. A imagem tem a qualidade de um registro fotográfico instantâneo, mas os signos diversos presentes na pintura propõem outra interpretação: o senhor que faz sua passagem tão penosamente entre as bandeirolas seria um veterano de guerra, cujo sacrifício ficou no esquecimento e no abandono. Liberdade e fraternidade para os franceses, mas desesperança inglória para este cidadão.


6. O cego vendedor de fósforos, 1920 - Otto Dix (1891 - 1969) | Kunstmuseum, Stuttgart | Óleo sobre tela (144 x 166 cm)

O Vendedor de Fósforos [mutilado de guerra] - Otto Dix, 1921
 

Otto Dix, alistou-se como voluntário na I Guerra Mundial, juntamente com toda uma geração de jovens artistas alemães que acreditava que a renovação da sociedade viria pela guerra. Dix logo descartou tal visão romântica, ao testemunhar os horrores que aconteciam nas trincheiras (SPIVEY, 2001). Resolveu documentar pelo desenho tudo o que via, atuando como repórter:

“Estudei detalhadamente a Guerra. Tem de ser representada de forma realista, para que possa ser entendida. O artista quer trabalhar, para que os outros vejam como aquilo foi... Escolhi o relato verdadeiro da Guerra.” (ELGER, 1998, p.216)

Durante todo o tempo ele desenhou – “a lápis, carvão, aguadas, giz vermelho, tinta, aquarela ou guache.” (REWALD, 1996, p.223, tradução nossa)

Afirmou que não via suas obras como meios propagandísticos, mas sim como puras descrições de um estado de realidade. Foi condecorado com a Cruz de Ferro e esse foi um fator importante que o salvou do regime nazista, quando foi perseguido por suas produções artísticas avaliadas como degeneradas, anti-nacionalistas e críticas aos militares (CROCKETT, 1992).

O trabalho em questão apresenta uma cena usual no contexto urbano do pós I Guerra: um ex-combatente mutilado (ficou cego e perdeu os quatro membro) é obrigado a recorrer à mendicância para sobreviver. Encostado contra a parede, vende fósforos na calçada, enquanto as pessoas passam por cima dele, fugindo ao contato. Até mesmo o dachshund expressa seu desprezo e urina sobre esta figura indefesa. Apenas o quepe alude ao papel recente que desempenhou como soldado.

Mais detalhes sobre a obra no site Art Resource.


7. O Herói, c. 1936 - George Grosz (1893 – 1959) | ASU Art Museum / Herberger College of Arts | Arizona State University, Phoenix - Arizona | litogravura (40,64 x 29,21 cm)

Resultado de imagem para O herói - George Grosz
 

Segundo informações do sítio do museu, “O herói” retrata um dos inúmeros patéticos veteranos feridos na I Guerra Mundial. O veterano de guerra “mutilado e aleijado” está a um passo da mendicância, ao tentar vender flores murchas a transeuntes desinteressados, explica o texto do acervo.

O estilo rudimentar do desenho tem a função de enfatizar a crítica tanto à sociedade do Segundo Reich do Kaiser Wilhelm que deflagrou a guerra quanto à sociedade da República Weimar, que tolerou as condições miseráveis em que viviam os pobres e os veteranos deficientes. Grosz foi membro do Partido Comunista e usou seu desenho para criticar a sociedade que tratava os heróis de outrora como dejetos.

Ao mesmo tempo, sua crítica recai sobre o próprio herói, que aceita sua posição com submissão. Por que não se revolta, por que não se organiza com seus pares em prol de melhores condições de vida? – pergunta o artista.


8. Inferno: Caminho para casa, 1919 - Max Beckmann (1884 – 1950)
-plate 2 from Hell / Die Hölle-  | National Galleries of Scotland, Edimburgo | litogravura (87 cm x 61 cm)

 Die Hölle (Hell): Der Nachhauseweg (The Way Home)
 

Esta gravura faz parte de um conjunto de litogravuras cujo título é “O Inferno”. Trata-se de uma crónica que fala das degradadas condições de vida na Alemanha depois da Revolução de Novembro de 1918, no período pós I Guerra. Na litogravura escolhida, segundo informações do sítio do museu, o próprio artista cumprimenta o soldado que voltou da guerra mutilado. “Ao fundo, há veteranos da guerra de muletas e uma figura feminina que pode ser uma prostituta ou uma viúva de guerra, de grinalda na cabeça. No primeiro plano, o cachorro faz referência a Cérbero, a criatura mítica que guarda os portões do inferno.”

O imbricamento das figuras do soldado mutilado, do cidadão de terno, do cão, incrustados entre as hastes verticais dos postes de luz e das quinas diagonais que definem as faces de sombra e claridade dos prédios ao fundo traduzem a impossibilidade de escapar da perversidade posta.


9. Os mutilados, 1942-43 - Jankel Adler (1895-1949) | Tate Gallery, Londres | Óleo sobre tela (130,9 cm x 75 cm)

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Esta obra foi pintada em Londres, durante os pesados bombardeios nazistas sobre a cidade. Segundo o texto do sítio oficial do museu, o artista polaco foi obrigado a fugir de Varsóvia quando a Polónia foi invadida, e viveu refugiado em Paris e posteriormente em Londres, onde teve notícias do que estava ocorrendo nos campos de concentração.

Pintou este quadro como expressão de sua “admiração pelo ‘comportamento dos londrinos durante o estresse e sofrimento... somente então a humanidade pode mostrar a sua melhor face.’” (tradução nossa)


Discussão

Sem dúvida, Otto Dix foi o artista mais profícuo no retrato de veteranos deficientes, mostrando espantosos conhecimentos sobre os variados recursos que hoje denominamos de tecnologia assistiva. À medida que estudamos outras obras do artista, percebemos que ele pesquisou, sistematicamente, as seqüelas da guerra, no soldado e na sociedade, acompanhando o movimento encabeçado pelos primeiros interessados, os veteranos mutilados, em “recalibrar” seus corpos. Ele desenhou em meio ao campo de batalha, e desenhou também durante o pós-guerra. Seu legado é o registro de imagens que testemunha a capacidade do homem de se indignar com o desperdício da vida, numa denúncia contra a violência do homem com o homem, como também pela apatia pública frente à condição dos sobreviventes.

Outros artistas expressionistas como George Grosz (1893 – 1959) e Max Beckmann (1884 – 1950), da mesma geração de Dix, também lutaram na I Guerra Mundial e produziram inúmeros trabalhos sobre a miséria dos soldados deficientes em conseqüência da guerra.

Utilizando essas representações para criticar a ganância industrial no meio urbano, colocam a culpa nos empresários e poderosos.

Dix, no entanto realiza críticas mais genéricas, aludindo a uma sociedade egoísta; denuncia a política de guerra e expõe um paralelo entre os ideais de homem e os inválidos de guerra. Em sua obra, predomina o realismo social sobre os interesses artísticos. Realiza uma espécie de anti-arte, o Kitsch intencionado, representando um mundo ridículo, trabalhando sobre temáticas da degradação do homem pós-guerra, mutilado e inválido fisicamente. Estuda a contraposição do belo e do grotesco, com a representação das vitrines vazias de uma badalada rua comercial de Dresde, com uma marcha de soldados aleijados no primeiro plano.

Nos trabalhos aqui apresentados, podemos destacar cinco aspectos a desenvolver:

  1. O retorno para casa

  2. Despir a farda

  3. O constrangimento do pedido de auxílio/ A mendicância, dependência e exclusão

  4. Ser objeto do olhar de nojo, de medo do público

  5. Possibilidades de reconstrução de uma nova vida


1. Voltar para casa é o desejo que acompanha os soldados no campo de batalha, mas chegar em casa como “inválido” é uma realidade muito difícil de enfrentar. Os artistas, Collinson e Beckmann abordaram esta situação ambivalente de maneiras distintas. No contexto vitoriano retratado por Collinson, a família está reunida para o evento do retorno; o veterano cego estende as mãos para sua esposa que se mostra receosa, mas se aproxima para acolher o marido. Para Beckmann, o retorno é o primeiro momento de uma analogia: voltar deficiente significa entrar pelos portões do inferno, pois as condições só irão piorar.

Segundo Koven (1994), os soldados que voltam deficientes assumem a dependência da criança, mas não a inocência infantil; perdem sua cidadania plena e sua possibilidade masculina de prover pela família e por si.

2. O próximo passo envolve tirar a farda, o que significa ocupar um novo papel social. O estatus de herói vai se dissipando pouco a pouco, à medida que os signos militares vão sendo descartados, como vemos na obra de Moroni. Este mesmo movimento de despida e despedida ao script militar se constata na obra de Collinson. Alguns dos veteranos representados guardam apenas o quepe como marca de sua ação militar em defesa da sociedade, como vemos no “Vendedor de Fósforos I” de Dix. O heroísmo vai sendo esquecido, até se apagar por completo, como aconteceu com Belisário.

3. Enfrentar a dependência ou lutar por uma justa compensação? O inválido de Vernet decidiu se expor diante de todo o exército de Napoleão para entregar sua petição que poderia amenizar sua condição de dependente. Mas Grosz desenha um veterano passivo que aceita sua condição sem se aliar a outros em condições semelhantes para lutar no coletivo por seus direitos. A solidão, a depressão e a miséria acompanham as dificuldades de viver com limitações para andar e trabalhar. A mendicância foi referida em diversas obras, não apenas pelos expressionistas alemães, mas também por vários artistas do século XVII a XIX que representaram Belisário cego e mendigo. Koven (1994) aborda as campanhas pós I Guerra Mundial para incentivar as empresas a empregarem os veteranos deficientes. Mas, durante a guerra, a sociedade já havia descoberto um exército de mulheres capazes de fazer o mesmo trabalho por menor salário! Os velhos cargos estão preenchidos e as mulheres não querem voltar aos seus papéis de cuidadoras do lar. Novos espaços demandarão a comprovação da capacidade, que se dará por meio das pesquisas em órteses e próteses, segundo o autor, e por meio da militância (LONGMORE e UMANSKY, 2001). Entre os soldados alemães que sobreviveram à I Guerra Mundial, um milhão e meio voltou com severas deficiências, entre os quais aproximadamente 80.000 tinham sofrido amputações de membros inferiores e/ou superiores. Conforme relata Eerikäinen (2001), Em nome da justiça social, ou talvez mais importantemente, para evitar distúrbios políticos, urgia reabilitar esses sobreviventes não apenas mutilados, mas também traumatizados. Para tanto, um programa de reabilitação em larga escala foi concebido durante o qual os aleijados de guerra foram literalmente reconstruídos. Próteses, esse foi o renascer, a ressurreição tecnológica, para esses homens que deveriam ser retrabalhados ― ou melhor, recalibrados ― o mais rapidamente possível para passar de Kanonenfutter [alimento de canhão] a Arbeiter [trabalhador] produtivo e Bürger [cidadão] socialmente integrado no estado Alemão pós Kaiser, a Weimarer Republik. (p. 55, tradução nossa)

4. Os artistas do expressionismo alemão foram os que mais incomodaram o público com sua representação crua da condição degradada dos soldados que retornaram desmembrados. Dix soube mostrar como ninguém a repulsa da população pelos deformados soldados deficientes que voltaram para casa em mal estado e ficaram ainda mais miseráveis pelo descaso da sociedade. Todos passam ao largo do vendedor de fósforos, e até o cachorro urina em cima deste cego mutilado! Muito rapidamente a sociedade se esquece de sua dívida para com os veteranos que perderam sua autonomia e sua dignidade humana quando deixaram seus membros nos campos de batalha. Quando se sabe que deficiente é esse, a reação de nojo e escárnio expressos para com o deficiente mendigo parece ainda mais injusta.

5. Adler inclui na sua pintura uma alusão à reconstrução da vida, à medida que dois mutilados trabalham juntos, apoiados um no outro e em suas muletas, para levantar uma parede de tijolos. Para Dix, utilizando a linguagem visual do expressionismo, representar o grotesco e a deformidade é um instrumento de crítica social, mais do que a culpabilização do próprio deficiente. O estudo das obras deste artista contribuem para conhecer a história e a construção das representações sociais da deficiência num momento histórico em que se instauram novos campos de conhecimento, como a fonoaudiologia, a fisioterapia, a terapia ocupacional, especificamente. E também registram, como foi a intenção de Dix que se propôs a ser um repórter da guerra, evidências precoces de modos de superar problemas da falta de oralidade ou da perda da vocalização enfrentados antes do advento formal da comunicação alternativa.


Referências Bibliográficas

  • CROCKET, Dennis. The most famous painting of the “Golden Twenties”? Otto Dix and the trench affair. Art Journal. v. 51, n. 1, Uneasy Pieces. 1992 (72-80).
  • EERIKÄINEN, Hannu. Love your prosthesis like yourself: “Sex”, text and the body of cyber discourse. IN: Koivunen A. & Paasonen S. (orgs.) Conference proceedings for Affective encounters: rethinking embodiment in feminist media studies. Universidade de Torky, School of Art, Literature and Music, Media Studies, Série A, n° 49.[http://www.utu.fi/hum/mediatutkimus/affective/proceedings.pdf], Media Studies, 2001.
  • ELGER, Dietmar. Expressionismo.Trad.Ruth Correia. Köln, Alemanha: Taschen, 1998.
  • FER, Briony, BATCHLOR, David e WOOD, Paul. Realismo, racionalismo, surrealismo: a arte no entre-guerras. Trad. Cristina Fino. São Paulo: Cosac & Naif Ed., 1998.
  • KOVEN, Seth. Remembering and dismemberment: crippled children, wounded soldiers and the Great War in Great Britain. The American historical review. Vol. 99, n° 4, 1994, p. 1167- 12-2.
  • LINTON, Simi. Claiming disability: knowledge and identity. New York: New York University Press, 1998.
  • LONGMORE, Paul K. e UMANSKY, Lauri (orgs.). The new disability history: American perspectives. New York: New York University Press, 2001.
  • MOSCOVICI, Serge. Social consciousness and its history. Culture and Psychology. v. 4, n° 3, p. 411-429, 1998.
  • REWALD, Sabine. Dix at the Met. Metropolitan Museum Journal. v. 31, p.219-224, 1996.
  • SPIVEY, Nigel. Enduring Creation: Art, Pain, and Fortitude. Berkeley, Los Angeles: University of California Press, 2001.
  • TUPINAMBÁ, Ariane e REILY, Lucia. Retratos de deficiência e doença mental: intersecções da História da Educação Especial e História da Arte. Revista de Educação Puc-Campinas. Campinas, n° 16, p.127-136, junho, 2004.
  • WAGNER, Wolfgang; DUVEEN, Gerard; FARR, Robert e JOVCHELOVITCH, Sandra; LORENZI-CIOLDI, Fábio; MARCOVÁ, Ivana; ROSE, Diana. Theory and method of social representations. Asian journal of social psychology. v. 2, p. 95-125, 1999


LISTA de IMAGENS

0. Mutilados de guerra - Otto Dix  [link]

1. Cavaleiro com o pé ferido - Giovanni Battista Moroni [link]

2. Belisário pedindo esmola - Jacques Louis David  [link]

3. Inválido dando petição a Napoleão durante a Parada da Guarda na frente do Palácio de Tuilleries em Paris - Horace Vernet  [link]

4. Retorno para casa - James Collinson  [link]

5. A Rua Mosnier com bandeiras - Édouard Manet  [link]

6. O cego vendedor de fósforos - Otto Dix  [link]

7. O herói - George Grosz  [link]

8. Inferno: Caminho para casa - Max Beckmann  [link]

9. Os mutilados - Jankel Adler  [link]

  

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SOLDADOS MUTILADOS NA HISTÓRIA DA ARTE: REFLEXÕES SOBRE
A REPRESENTAÇÃO DA DEFICIÊNCIA À LUZ DA PSICOLOGIA SOCIAL
Lucia Reily
lureily@terra.com.br
Doutoramento em Psicologia Escolar - USP, 1994
Mestrado em Psicologia Escolar - USP, 1990
Bacharelato em Artes - Indiana, EUA, 1974
CEPRE – Faculdade de Ciências Médicas - Unicamp

Fonte do texto:
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Brasil


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[14.Abril.2012]
Publicado por MJA