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 Sobre a Deficiência Visual


Rilke e a Cegueira

O Cego
A Que Vai Ficar Cega
Pont du Carrousel

Rainer Maria Rilke

Le Gondolier - Andre Kertesz,  fotografia de 1927


O Cego

Der Blinde

Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

(tradução: Augusto de Campos)
 

    Der Blinde
    [Sieh, er geht und unterbricht die Stadt,/die nicht ist auf seiner dunkeln Stelle,/wie ein dunkler Sprung durch eine helle/Tasse geht. Und wie auf einem Blatt
    ist auf ihm der Widerschein der Dinge/aufgemalt; er nimmt ihn nicht hinein./Nur sein Fühlen rührt sich, so als finge/es die Welt in kleinen Wellen ein:
    eine Stille, einen Widerstand –,/und dann scheint er wartend wen zu wählen:/hingegeben hebt er seine Hand,/festlich fast, wie um sich zu vermählen.]
 

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Madame René de Gas - quadro de Edgar Degas, 1873


A Que Vai Ficar Cega

Die Erblindende

Ela sentou-se como as outras para o chá.
Me pareceu então que segurava a taça
de um jeito diferente das que estavam lá.
Pouco depois sorriu. Um sorriso sem graça.

Quando se levantaram, enfim, conversando,
e juntas percorreram numerosas salas,
devagar, ao acaso (entre risos e falas)
de súbito, eu a vi. Ela seguia o bando
das outras, concentrada, como que alguém que deve
cantar diante de um grande público em instantes.
Sobre seus olhos claros e rejubilantes,
como a incidir num lago, a luz caía, leve.

Precisava de espaço. Andava lentamente.
Andava quase como se não fosse andar.
Como se houvesse algum degrau à sua frente.
Como se, de repente, ela fosse voar.

(tradução: Augusto de Campos)

 

Die Erblindende
    [Sie saß so wie die anderen beim Tee./Mir war zuerst, als ob sie ihre Tasse/ein wenig anders als die andern fasse./Sie lächelte einmal. Es tat fast weh.
    Und als man schließlich sich erhob und sprach/und langsam und wie es der Zufall brachte/durch viele Zimmer ging (man sprach und lachte),/da sah ich sie. Sie ging den andern nach,/verhalten, so wie eine, welche gleich/wird singen müssen und vor vielen Leuten;/auf ihren hellen Augen die sich freuten/war Licht von außen wie auf einem Teich.
    Sie folgte langsam und sie brauchte lang/als wäre etwas noch nicht überstiegen;/und doch: als ob, nach einem Übergang,/sie nicht mehr gehen würde, sondern fliegen.]

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L'aveugle de la rue de la Seine - fotografia de Émile Gos, Paris 1911


Pont du Carrousel

Pont du Carrousel

O homem cego parado na ponte,
marco cinza de anónimo país,
talvez seja o que é sempre igual a si,
o eixo que ao horóscopo se absconde,
centro fixo do céu que em torno gira.
Pois tudo em volta erra e corre e brilha.

Ele é o inamovível integral
postado entre os caminhos mais erráticos;
sombria entrada a um mundo subterrâneo
em meio a um povo superficial.

(tradução: António Cícero)
 

Pont du Carrousel
    [Der blinde Mann, der auf der Brücke steht,/Grau wie ein Markstein namenloser Reiche,/Er ist vielleicht das Ding, das immer gleiche,/Um das von fern die Sternenstunde geht,/Und der Gestirne stiller Mittelpunkt./Denn alles um ihm irrt und rinnt und prunkt./
    Er ist der unbewegliche Gerechte,/In viele wirre Wege hingestellt;/Der dunkle Eingang in die Unterwelt/Bei einem oberflächlichen Geschlecte.]
 


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Rainer Maria Rilke

Poemas:
- O Cego
- A que vai ficar cega
- Pont du Carrousel

por RAINER MARIA RILKE
Poeta, novelista
nasceu em 04 de Dezembro de 1875
em Praga, República Checa
morreu em 29 de Dezembro de 1926
em Valmont, Suíça


in Neue Gedichte (1907)


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26.Maio.2013
Publicado por MJA