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 Sobre a Deficiência Visual


Padre António Vieira

Porque Choram os Olhos?
SERMÃO DAS LÁGRIMAS DE S. PEDRO, EM SEGUNDA-FEIRA DA SEMANA SANTA NA CATEDRAL DE LISBOA. ANO DE 1669

Viu um Homem que era Cego
SERMÃO DA QUINTA-FEIRA DA QUARESMA NA MISERICÓRDIA DE LISBOA. ANO DE 1669

Imagem de anjo com olhos vendados
 

 

Porque choram os olhos?

SERMÃO DAS LÁGRIMAS DE S. PEDRO,
EM SEGUNDA-FEIRA DA SEMANA SANTA
NA CATEDRAL DE LISBOA. ANO DE 1669

Padre António Vieira


Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza! Prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa, eles a primeira fonte da graça.

São os olhos duas víboras metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e a contrição a triaga. São duas setas com que o demónio se arma para nos ferir e perder, e são dois escudos com que Deus, depois de feridos, nos repara para nos salvar.

Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O ouvido ouve, o gosto gosta, o olfacto cheira, o tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: ver e chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.

Ninguém haverá, se tem entendimento, que não deseje saber por que ajuntou a natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista, e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento.

Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários: ver e chorar?

A razão e a experiência é esta: ajuntou a natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar.

Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

 

in SERMÃO DAS LÁGRIMAS DE S. PEDRO, EM SEGUNDA-FEIRA DA SEMANA SANTA NA CATEDRAL DE LISBOA. ANO DE 1669 -  Padre António Vieira
 

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Viu um homem que era cego

SERMÃO DA QUINTA-FEIRA DA QUARESMA
NA MISERICÓRDIA DE LISBOA. ANO DE 1669

Padre António Vieira

Gravura do séc. XVII- Padre António Vieira a pregar


I

Um cego de nascimento, e muitos cegos de inveja e perfídia: os escribas e fariseus. Destes últimos cuidará o autor neste sermão.

Um cego, e muitos cegos; um cego curado, e muitos cegos incuráveis; um cego que não tendo olhos viu, e muitos cegos que tendo olhos não viram, é a substância resumida de todo este largo Evangelho. Deu Cristo vista milagrosa em Jerusalém a um cego de seu nascimento; examinaram o caso os escribas e fariseus, como coisa nunca vista nem ouvida até aqueles tempos; convenceu-os o mesmo cego com argumentos, com razões, e muito mais com a evidência do milagre. E quando eles haviam de reco­nhecer e adorar ao obrador de tamanha maravilha por verdadeiro Filho de Deus e Messias prometido, como fez o cego, cegos de inveja, obstinados na perfídia, e rebel­des contra a mesma onipotência, negaram, blasfemaram e condenaram a  Cristo. De maneira que a mesma luz manifesta da divindade, a um homem deu olhos e aos outros deu nos olhos; para um foi luz, e para os outros foi raio; a um alumiou, aos outros feriu; a um sarou, aos outros adoeceu; ao cego fez ver, e aos que tinham vista cegou. Não é a ponderação minha nem de alguma autoridade humana, senão toda do mesmo Cristo.

Vendo o milagroso Senhor os efeitos tão encontrados daquela sua maravilha, concluiu assim: Ego in hunc mundum veni, ut qui non vident, videant, et qui vident caeci fiant (Jo. 9, 39): Ora, o caso é, diz Cristo, que eu vim a este mundo, para que os cegos vejam e os que têm olhos ceguem. – Não porque este fosse o fim de sua vinda, senão porque estes foram os efeitos dela. Os cegos viram, porque o cego recebeu a vista, e os que tinham olhos cegaram, porque os escribas e fariseus ficaram cegos.

Supostas estas duas partes do Evangelho, deixando a primeira, tratarei só da segunda. O homem que não tinha olhos e viu, já está remediado; os que têm olhos e não vêem, estes são os que hão mister o remédio, e com eles se empregará todo o meu discurso. Vidit hominem caecum: Cristo viu um homem cego, sem olhos; nós havemos de ver muitos homens cegos, com olhos. Cristo viu um homem sem olhos que não via e logo viu; nós havemos de ver muitos homens com olhos que não vêem e também poderão ver, se quiserem. Deus me é testemunha que fiz eleição deste assunto para ver se pode curar hoje alguma cegueira. Bem conheço a fraqueza e a desproporção do instrumento, mas o mesmo com que Cristo obrou o milagre me anima a esta esperança Inclinou-se o Senhor à terra, fez com a mão onipotente um pouco de lodo, aplicou-o aos olhos do cego, e quando parece que lhos havia de escurecer e cegar mais com o lodo, com o lodo lhos abriu e alumiou. Se Cristo com lodo dá vista, que cego haverá tão cego, e que instrumento tão fraco e inábil, que da eficácia e poderes de sua graça não possa esperar semelhantes efeitos? Prostremo-nos, como fez o cego, a seus divinos pés, e peçamos para nossos olhos um raio da mesma luz, por intercessão da Mãe de Misericórdia em cuja casa estamos. Ave Maria.

Δ

 

II

Os cegos de olhos abertos. Segundo Isaías, dar vista aos cegos era a mais evidente prova da divindade do Messias. A cegueira de Paulo. Os católicos, como antigamente os hebreus, os únicos cegos. Maldição de Davi contra os fabricadores de ídolos. A idolatria e a missão de Portugal.

Vidit hominem caecum [1]. O cego que hoje viu Cristo padecia uma só cegueira; os cegos que nós havemos de ver, sendo as suas cegueiras muitas, não as padecem, antes as gozam e amam: delas vivem, delas se alimentam, por elas morrem e com elas. Estas cegueiras irá descobrindo o nosso discurso. Assim o ajude Deus, como ele é importante.

O maior desconcerto da natureza, ou a maior circunstância de malícia que Cristo ponderou na cegueira dos escribas e fariseus, que será o triste exemplar da nossa, foi ser cegueira de homens que tinham os olhos abertos: Ut videntes caeci fiant. Os escribas e fariseus eram os sábios e letrados da lei, eram os que liam as Escrituras, eram os que interpretavam os profetas, e por isso mesmo eram mais obrigados que todos a conhecer o Messias e nunca tão obrigados como no caso presente. Isaías, no capítulo trinta e dois, falando da divindade do Messias e de sua vinda ao mundo, diz assim: (Ouçam este texto os incrédulos): Deus ipse veniet, et salvabit vos. Tunc aperientur oculi caecorum (Is. 35, 4 s): Virá Deus em pessoa a salvar-vos. E em sinal de sua vinda, e prova de sua divindade, dará vista a cegos. – O mesmo tinha já dito no capítulo vinte e nove: De tenebris, et caligine, oculi caecorum videbunt.[2] E o mesmo tomou a dizer no capítulo quarenta e dois: Dedi te in faedus populi, in lucem gentium, ut aperires oculos caecorurn.[3] Por isso, quando o Batista mandou perguntar a Cristo se era ele o Messias: Tu es qui venturus es, an alium expectamus?[4] querendo o Senhor antes responder com obras que com palavras, o primeiro milagre que obrou diante dos que trouxeram a embaixada, foi dar vista a cegos. Renunciate Joanni quae audistis et vidistis: caeci vident.[5] Pois se o primeiro e mais evidente sinal da vinda do Messias, se a primeira e mais evidente prova de sua divindade e onipotência, era dar vista a cegos, e se entre todos os cegos a que Cristo deu vista, nenhum era mais cego que este, e nenhuma vista mais milagrosa, por ser cego de seu nascimento, e a vista não restituída, senão criada de novo, como se alucinaram tanto os escribas e fariseus, que vendo o milagre, não viam nem conheciam o milagroso? Aqui vereis qual era a cegueira destes homens. A cegueira que cega cerrando os olhos não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas. E tal era a dos escribas e fariseus. Homens com olhos abertos, e cegos. Com olhos abertos, porque como letrados liam as Escrituras e entendiam os profetas; e cegos, porque vendo cumpri­das as profecias, não viam nem conheciam o profetizado.

Um destes letrados cegos era Saulo, antes de ser Paulo; e vede como lhe mostrou o céu qual era a sua cegueira. Ia Saulo caminhando para Damasco armado de provisões e de ira contra os discípulos de Cristo, quando ao entrar já na cidade, eis que fulminado da mão do mesmo Senhor cai do cavalo em terra, assombrado, atônito, e subitamente cego. Mas qual foi o modo desta cegueira? Apertis oculis, diz o texto, nihil videbat (At. 9, 8): Com os olhos abertos, nenhuma coisa via. –A cidade, os muros, as torres, a estrada, os campos, os compa­nheiros à vista, e Saulo com os olhos abertos sem ver nenhuma coisa destas nem se ver a si. Aqui esteve o maravilhoso da cegueira. Se o raio lhe tirara os olhos ou Lhos fechara, não era maravilha que não visse; mas não ver nada, estando com os olhos abertos: Apertis oculis nihil videbat. Tal era a cegueira de Saulo quando perseguia a Cristo; tal a dos escribas e fariseus quando o não criam, e tal a nossa, que é mais, depois de o crermos. Muito mais maravilhosa é esta nossa cegueira que a mesma vista do cego do Evangelho. Aquele cego, quando não tinha olhos, não via; nós temos olhos e não vemos. Naquele cego houve cegueira e vista, mas em diversos tempos; em nós, no mesmo tempo, está junta a vista com a cegueira, porque somos cegos com os olhos abertos, e por isso mais cegos que todos.

Se lançarmos os olhos por todo o mundo, acharemos que todo, ou quase todo, é habitado de gente cega. O gentio cego, o judeu cego, o herege cego, e o católico, que não devera ser, também cego. Mas de todos estes cegos, quais vos parece que são os mais cegos? Não há dúvida que nós, os católicos. Porque os outros são cegos com olhos fechados, nós somos cegos com os olhos abertos. Que o gentio corra sem freio após os apetites da carne, que o gentio siga as leis depravadas da natureza corrupta, cegueira é, mas cegueira de olhos fechados; não lhe abriu a fé os olhos. Porém, o cristão, que tem fé, que conhece que há Deus, que há céu, que há inferno, que há eternidade, e que viva como gentio, é cegueira de olhos abertos, e por isso mais cego que o mesmo gentio. Que o judeu tenha por escândalo a cruz, e por não confessar que crucificou a Deus, não queira adorar a um Deus crucificado, cegueira é manifesta, mas cegueira de olhos fechados. Por isso, mordidos das serpentes no deserto, só saravam os que viam a serpente de Moisés exaltada, e os que não tinham olhos para a ver, não saravam (Núm. 21, 8). Porém que o cristão, como chorava S. Paulo, seja inimigo da cruz (Flp. 3, 18), e que adorando as chagas do crucificado, não sare as suas, é cegueira de olhos abertos, e por isso mais cego que o mesmo judeu. Que o herege, sendo batiza­do, e chamando-se cristão, se não conforme com a lei de Cristo e despreze a observân­cia de seus mandamentos, cegueira é, mas cegueira também de olhos fechados. Crê, erradamente, que basta para a salvação o sangue de Cristo, e que não são necessárias obras próprias. Porém o católico, que crê e conhece evidentemente pelo lume da fé e da razão, que fé sem obras é morta, e que sem obrar e viver bem ninguém se pode salvar; que viva nos costumes como Lutero e Calvino? É cegueira de olhos abertos, e por isso mais cego que o mesmo herege. Logo nós somos mais cegos que todos os cegos.

E se a alguém parecer que me alargo muito em dizer que a nossa cegueira dos católicos é maior que a do herege, e a do judeu, e a do gentio, que seria se eu dissesse que entre todas as cegueiras só a nossa é a cegueira, e que entre todos esses cegos só nós somos os cegos? Pois assim o digo e assim é, para maior horror e confusão nossa. Ouvi o mesmo Deus por boca de Isaías: Quis caecus, nisi servus meus? Quis caecus, nisi qui venundatus est? Quis caecus, nisi servus Domini. [6] Fala Deus com o povo de Israel, o qual naquele tempo, como nós hoje, era o que só tinha a verda­deira fé, e diz não uma, senão três vezes, que só ele entre todas as nações do mundo era o cego. Não reparo no cego, senão no só. Que fosse cego aquele povo no tempo de Isaías, ele e todos os outros profetas o lamentam, porque devendo servir e adorar ao verdadeiro Deus, serviam e adoravam aos ídolos. Mas dessa mesma cegueira e dessa mesma idolatria se segue que não eram só os hebreus os cegos, senão também todas as nações daquele tempo e daquele mundo. Cegos e idólatras eram no mesmo tempo os assírios; cegos e idólatras, os babilônios; cegos e idólatras, os egípcios, os etíopes, os moabitas, os idumeus, os árabes, os tírios, contra os quais todos profeti­zou e denunciou castigos o mesmo Isaías, em pena de sua idolatria .[7] Pois se a idolatria era a cegueira, e não só os hebreus, senão todas as nações de que estavam cercados, e também as mais remotas, eram idólatras, como diz Deus que só o povo de Israel é cego: Quis caecus, quis caecus, quis caecus, nisi servus Domini? Todos os outros são cegos, e só o povo de Israel é cego? Sim. Porque todos os outros povos eram cegos com os olhos fechados; só o povo de Israel era cego com os olhos aber­tos: O mesmo profeta o disse: Populum caecum, et oculos habentem (Is. 43, 8): Povo cego, e com olhos. – Os outros povos adoravam os ídolos e os deuses falsos, porque não tinham conhecimento do Deus verdadeiro, e isso mais era ignorância que cegueira. Porém o povo de Israel era o que só tinha fé e conhecimento do verda­deiro Deus: Notus in Judaea Deus.[8] Que um povo com fé e conhecimento do Deus verdadeiro adorasse os deuses falsos? Isso nele não era nem podia ser ignorância, senão mera cegueira, e por isso só ele o cego: Quis caecus, nisi servus Domini? Deixai-me agora fazer a mesma pergunta, ou as mesmas três perguntas, ao nosso mundo e ao nosso tempo. Quis caecus? Quem é hoje o cego? O gentio? Não. Quis caecus? Quem é hoje o cego? O judeu? Não. Quis caecus? Quem é hoje o cego? O herege? Não. Pois quem é hoje este cego que só merece nome de cego? Triste e temerosa coisa é que se diga, mas é forçosa conseqüência dizer-se que somos nós os católicos. Porque o gentio, o judeu, o herege são cegos sem fé e com os olhos fecha­dos, e só nós, os católicos, somos cegos com a verdadeira fé e com os olhos abertos: Populum caecum, et oculos habentem. Grande miséria e confusão para todos os que dentro do grêmio da Igreja professamos a única e verdadeira religião católica, e para nós os portugueses, se bem olharmos para nós, ainda maior.

No salmo cento e treze, zomba Davi dos ídolos da gentilidade, e uma das coisas de que principalmente os moteja, é que têm olhos e não vêem: Oculos habent, et non videbunt (Sl. 113, 5). Bem pudera dizer que não tinham olhos porque olhos abertos em pedra, ou fundidos em metal, ou coloridos em pintura, verdadeiramente não são olhos. Também pudera dizer, e mais brevemente, que eram cegos. Mas disse com maior ponderação e energia que tinham olhos e não viam, porque o encareci­mento de uma grande cegueira não consiste em não ter olhos, ou em não ver, senão em não ver, tendo olhos: Oculos habent, et non videbunt. Depois disto volta-se o profeta com a mesma galantaria contra os fabricadores e adoradores dos ditos ído­los, e a bênção que lhes deita, ou a maldição que lhes roga, é que sejam semelhantes a eles os que os fazem: Similes illis fiant, qui faciunt ea. Porque assim como a maior bênção que se pode desejar aos que adoram ao verdadeiro Deus, é serem semelhan­tes ao Deus que os fez, assim a maior praga e maldição que se pode rogar aos que adoram os deuses falsos, é serem semelhantes aos deuses que eles fazem: Similes illis fiant qui faciunt ea. Agora dizei-me. E não seria muito maior desgraça, não seria miséria e sem-razão nunca imaginada, se esta maldição caísse não já sobre os adoradores dos ídolos, senão sobre os que crêem e adoram o verdadeiro Deus? Pois isso é o que com efeito nos tem sucedido. Que coisa são pela maior parte hoje os cristãos, senão umas estátuas mortas do cristianismo e umas semelhanças vivas dos ídolos da gentilidade, com os olhos abertos e cegos: Oculos habent, et non vide­bunt? Miséria é grande que sejam semelhantes aos ídolos os que os fazem, mas muito maior miséria é, e muito mais estranha, que sejam semelhantes aos ídolos os que os desfazem, e estes somos nós. Estes somos nós, tomo a dizer, por cristãos, por católicos, e muito particularmente por portugueses. Para que fez Deus Portugal, e para que levantou no mundo esta monarquia, senão para desfazer ídolos, para con­verter idólatras, para desterrar idolatrias? Assim o fizemos e fazemos, com glória singular do nome cristão, nas Ásias, nas Áfricas, nas Américas. Mas como se os mesmos ídolos se vingaram de nós, derrubamos as suas estátuas, e eles pegaram-nos as suas cegueiras. Cegos, e com os olhos abertos, como ídolos: Oculos habent et non videbunt. Cegos, e com os olhos abertos, como o povo de Israel: Populum caecum, et oculos habentem. Cegos, e com olhos abertos, como Saulo: Apertis ocu­lis, nihil videbat. E cegos finalmente, e com os olhos abertos, como os escribas e fariseus: Ut videntes caeci fiant.

Δ

 

III

Primeira espécie de cegueira, causada pela desatenção: a dos cegos que vêem e não vêem juntamente, contradição já anunciada por Cristo. O profeta Eliseu e a cegueira dos cavaleiros do rei da Síria. Os anjos de Deus e a cegueira dos habitantes de Sodoma. Os discípulos de Emaús e a inadvertência do olhar. Admoestação dos profetas Jeremias e Isaías.

Está dito em comum o que basta; agora, para maior distinção e clareza, desça­mos ao particular. Esta mesma cegueira de olhos abertos divide-se em três espécies de cegueira, ou falando medicamente, em cegueira da primeira, da segunda e da terceira espécie. A primeira é de cegos que vêem e não vêem juntamente; a segunda, de cegos que vêem uma coisa por outra; a terceira, de cegos que vendo o demais, só a sua cegueira não vêem. Todas estas cegueiras se acharam hoje nos escribas e fari­seus, e todas, por igual, ou maior desgraça nossa, se acham também em nós. Vamos discorrendo por cada uma, e veremos no nosso ver muita coisa que não vemos.

Começando pela cegueira da primeira espécie, digo que os olhos abertos dos escribas e fariseus, eram olhos que juntamente viam e não viam. E por quê? Não porque vendo o milagre não viam o milagroso, como já dissemos, mas porque ven­do o milagre não viam o milagre, e vendo o milagroso, não viam o milagroso. O milagre, viam-no nos olhos do cego, o milagroso viam-no em sua própria pessoa, e muito mais nas suas obras, que é o mais certo modo de ver, e contudo nem viam o milagre, nem viam o milagroso. O milagre, porque o não queriam ver, o milagroso porque o não podiam ver. Bem sei que ver e não ver implica contradição, mas a cegueira dos escribas e fariseus era tão grande que podiam caber nela ambas as partes desta contradição. Os filósofos dizem que uma contradição não cabe na esfera dos possíveis: eu digo que cabe na esfera dos olhos. Não me atrevera ao dizer se não fora proposição expressa da primeira e suma verdade. Assim o disse Cristo falando destes mesmos homens no capítulo quarto de S. Marcos: Ut videntes videant, et non videant (Mc. 4,12): Para que vendo, vejam e não vejam. – Agora esperáveis que eu saísse com grandes espantos. Se viam, como não viam? E se não viam, como viam? Dificultar sobre tal autoridade seria irreverência. Cristo o diz, e isso basta. Eu porém não me quero escusar por isso de dar a razão deste, que parece impossível. Mas antes que lá cheguemos, vejamos esta mesma implicação de ver e não ver praticada em dois casos famosos, ambos da História Sagrada.

Estando el-rei de Síria em campanha sobre o Reino de Israel, experimentou por muitas vezes que quanto deliberava no seu exército se sabia no do inimigo (4 Rs. 6, 13). E imaginando ao princípio que devia de haver no seu conselho alguma espia comprada que fazia estes avisos, soube dos capitães e dos soldados mais prá­ticos daquela terra, que o profeta Eliseu era o que revelava e descobria tudo ao seu rei. Oh! se os reis tiveram a seu lado profetas! Achava-se neste tempo Eliseu na cidade de Dotã; resolve o rei mandá-lo tomar dentro nela por uma entrepresa, e marchando a cavalaria secretamente em uma madrugada, eis que saio mesmo Eliseu a encontrar-se com eles; diz-lhes que não era aquele o caminho de Dotã; leva-os à cidade fortíssima de Samaria, mete-os dentro dos muros, fecham-se as portas, e ficaram todos tomados e perdidos. É certo que estes soldados de el-rei de Síria conheciam muito bem a cidade de Dotã e a de Samaria, e as estradas que iam a uma e a outra, e muitos deles ao mesmo profeta Eliseu. Pois se conheciam tudo isto, e viam as cidades, e os caminhos, e ao mesmo profeta, como se deixaram levar onde não pretendiam ir? Como não prenderam a Eliseu quando se lhes veio meter nas mãos? E como consentiram que ele os metesse dentro dos muros e debaixo das espadas de seus inimigos? Diz o texto sagrado que toda esta comédia foi efeito da oração de Eliseu, o qual pediu a Deus que cegasse aquela gente: Percute, oro, gentem hanc caecitate (4 Rs. 6, 18). E foi a cegueira tão nova, tão extraordinária e tão maravilhosa, que juntamente viam e não viam. Viam a Eliseu, e não viam a Eliseu; viam a Samaria, e não viam a Samaria; viam os caminhos, e não viam os caminhos; viam tudo, e nada viam. Pode haver cegueira mais implicada, e mais cega, e de homens com os olhos abertos? Tal foi, por vontade de Deus, a daqueles bárbaros, e tal é, contra a vontade de Deus, a nossa, sendo cristãos. Eliseu quer dizer: Saúde de Deus; Samaria quer dizer: cárcere e diamante. E que é a saúde de Deus, senão a salvação? Que é o cárcere de diamante, senão o inferno? Pois assim como os assírios, indo buscar a Eliseu, se acharam em Samaria, assim nós, buscando a salva­ção, nos achamos no inferno. E se buscarmos a razão deste erro e desta cegueira, é porque eles e nós vemos e não vemos. Não vês, cristão, que este é o caminho do inferno? Sim. Não vês que este outro é o caminho da salvação? Sim. Pois como vais buscar a salvação pelo caminho do inferno? Porque vemos os caminhos e não ve­mos os caminhos; vemos onde vão parar, e não vemos onde. Tanta é, com os olhos abertos, a nossa cegueira: Percute gentem hanc caecitate.

Segundo caso, e maior. Mandou  Deus dois anjos à cidade de Sodoma para que salvassem a Ló e abrasassem a seus habitadores, e eram eles tão merecedores do fogo, que lhes foi necessário aos mesmos anjos defenderem a casa onde se tinham recolhido. Mas como a defenderam? Diz o texto sagrado que o modo que tomaram para defender a casa foi cegarem toda aquela gente, desde o maior até o mais peque­no: Percusserunt eos caecitate a maximo usque ad minorem (Gên. 19, 11). Quando eu li que os anjos cegaram a todos, cuidei que lhes fecharam os olhos e que ficaram totalmente cegos e sem vista, e que a razão de cegarem não só os homens, senão também os meninos, fora por que os meninos não pudessem guiar os homens. Mas não foi assim. Ficaram todos com os seus olhos abertos e inteiros como dantes. Viam a cidade, viam as ruas, viam as casas, e só com a casa e com a porta de Ló, que era o que buscavam, nenhum deles atinava. Buscavam na cidade a rua de Ló: viam a rua, e não atinavam com a rua; buscavam na rua a casa de Ló: viam a casa e não atinavam, com a casa; buscavam na casa a porta de Ló: viam a porta e não atinavam com a porta: Ita ut ostium invenire non possent, diz o texto .[9] E para que cesse a admiração de um caso tão prodigioso, isto que fizeram naqueles olhos os anjos bons, fazem nos nossos os anjos maus. Estamos na quaresma, tempo de rigor e penitência, e sendo que a penitência é a rua estreita por onde se vai para o céu: Arcta via est, quae ducit ad vitam,[10] vemos a rua, e não atinamos com a rua. Entramos e freqüentamos agora mais as igrejas, pomos os pés por cima dessas sepulturas, e sendo que a sepultura é a casa onde havemos de morar para sempre: Sepulchra eorum domus illorum in aeternum,[11] vemos a casa, e não atinamos com a casa. Sobem os pregadores ao púlpito, põem-nos diante dos olhos tantas vezes a lei de Deus esquecida e desprezada, e sendo que a lei de Deus é a porta por onde só se pode entrar à bem-aventurança: Haec porta Domini, justi intrabunt in eam,[12] ve­mos a porta, e não atinamos com a porta: Ita ut ostium invenire non possent.

Paremos a esta porta ainda das telhas abaixo. Andam os homens cruzando as cortes, revolvendo os reinos, dando voltas ao mundo, cada um em demanda das suas pretensões, cada um para se introduzir ao fim dos seus desejos, todos aos encontrões uns sobre os outros, os olhos abertos, a porta à vista, e ninguém atina com a porta. Andais buscando a honra com olhos de lince, e sendo que para a verdadeira honra não há mais que uma porta, que é a virtude, ninguém atina com a porta. Andais-vos desvelando pela riqueza, com mais olhos que um Argos, e sendo que a porta certa da riqueza não é acrescentar fazenda, senão diminuir cobiça, ninguém atina com a porta. Andais-vos matando por achar a boa vida, e sendo que a porta direita por onde se entra à boa vida, é fazer boa vida, ninguém atina com a porta. Andais-vos cansando por achar o descanso, e sendo que não há nem pode haver outra porta para o verdadeiro e seguro descanso, senão acomodar com o estado presente, e conformar com o que Deus é servido, não há quem atine com a porta. Há tal desatino! Há tal cegueira! Mas ninguém vê o mesmo que está vendo, porque todos, desde o maior ao menor, somos como aqueles cegos: Per­cusserunt eos caecitate, a maximo usque ad minorem.

Sobre estes dois exemplos tão notáveis, entre agora a razão por que estais espe­rando. Que seja possível ver e não ver juntamente, já o tendes visto. Direis que sim, mas por milagre. Eu digo que também sem milagre, e muito fácil e naturalmente. [13] Não vos tem acontecido alguma vez ter os olhos postos e fixos em uma parte, e porque no mesmo tempo estais com o pensamento divertido, ou na conversação ou em algum cuidado, não dar fé das mesmas coisas que estais vendo? Pois esse é o modo e a razão por que, naturalmente e sem milagre, podemos ver e não ver juntamente. Vemos as coisas porque as vemos, e não vemos essas mesmas coisas porque as vemos divertidos.

Iam para Emaús os dois discípulos praticando com grande tristeza na morte de seu Mestre (Lc. 24), e foi coisa maravilhosa que aparecendo-lhes o mesmo Cristo, e indo caminhando e conversando com eles, não o conhecessem. Alguns quiseram dizer que a razão deste engano, ou desta cegueira, foi porque o Senhor mudara as feições do rosto, e ainda a voz ou tom da fala. Mas esta exposição, como bem notou Santo Agostinho, é contra a propriedade do texto, o qual diz expressamente que o engano não foi da parte do objeto, senão da potência; não da parte do visto, senão da vista. Oculi illorum tenebantur, ne eum agnoscerent.[14] Como é possível logo que não conhecessem a quem tão bem conheciam, e que não vissem a quem estavam vendo? Na palavra tenebantur está a solu­ção da dúvida. Diz o Evangelista que não conheceram os discípulos ao mesmo Senhor que estavam vendo, porque tinham os olhos presos. Isto quer dizer tenebantur. E da mesma frase usa o evangelista falando da prisão de Cristo: Ipse est: tenete eum. Tenuerunt eum. Non me tenuist[15] Mas se os olhos estavam presos, como viam? E se viam, como estavam presos? Não estavam presos pela parte da vista; estavam presos pela parte da advertência. Iam os discípulos divertidos na sua prática, e muito mais divertidos na sua tristeza: Qui sunt hi sermones, quos confertis ad invicem et estis tristes? [16] E esta diversão do pensamento era a que lhes prendia a advertência dos olhos. Como tinham livre a vista, viam a Cristo; como tinham presa a advertência, não conheciam que era ele. E desta maneira, estando os olhos dos discípulos juntamente livres e presos, vinham a ser um composto de vista e de cegueira: de vista com que viam, e de cegueira com que não viam. Vede a força que tem o pensamento para a diversão da vista. Os olhos estavam no caminho com Cristo vivo, o pensamento estava na sepultura com Cristo morto; e pode tanto a força do pensamento, que o mesmo Cristo ausente, em que cuidavam, os divertia do mesmo Cristo presente que estavam vendo. Tanto vai de ver com atenção e advertência, ou ver com desatenção e divertimento.

Por isso Jeremias bradava: Attendite, et videte (Sam. 1, 12): Atendei, e vede. Não só pede o profeta vista, mas vista e atenção, e primeiro a atenção que a vista, porque ver sem atenção é ver e não ver. Ainda é mais próprio este ver e não ver, do que o modo com que viam e não viam aqueles cegos tão cegos nos dois casos mila­grosos que referimos. Eles não viam o que viam, porque lhes confundiu Deus as espécies. Nós, sem confusão nem variedade das espécies, não vemos o que vemos, só por desatenção e divertimento da vista. Agora entendereis a energia misteriosa e discreta com que o profeta Isaías nos manda olhar para ver: Intuemini ad videndum (Is. 41, 18). Quem há que olhe senão para ver? E quem há que veja senão olhando? Por que diz logo o profeta, como se nos inculcara um documento particular: Intue­mini ad videndum: Olhai para ver? Porque assim como há muitos que olham para cegar, que são os que olham sem tento, assim há muitos que vêem sem olhar, porque vêem sem atenção. Não basta ver para ver; é necessário olhar para o que se vê. Não vemos as coisas que vemos, porque não olhamos para elas. Vemo-las sem advertên­cia e sem atenção, e a mesma desatenção é a cegueira da vista. Divertem-nos a atenção os pensamentos, suspendem-nos a atenção os cuidados, prendem-nos a aten­ção os desejos, roubam-nos a atenção os afetos, e por isto, vendo a vaidade do mundo, imos após ela, como se fora muito sólida; vendo o engano da esperança, confiamos nela, como se fora muito certa; vendo a fragilidade da vida, fundamos sobre ela castelos, como se fora muito firme; vendo a inconstância da fortuna, segui­mos suas promessas, como se foram muito seguras; vendo a mentira de todas as coisas humanas, cremos nelas, como se foram muito verdadeiras. E que seria se os afetos que nos divertem a atenção da vista fossem da casta daqueles que tanto diver­tiram e perturbaram hoje os escribas e fariseus? Divertia-os o ódio, divertia-os a inveja, divertia-os a ambição, divertia-os o interesse, divertia-os a soberba, di­vertia-os a autoridade e ostentação própria, e como estava a atenção tão divertida, tão embaraçada, tão perturbada, tão presa, por isso não viam o que estavam vendo: Ut videntes caeci fiant.

Δ

 

IV

Segunda espécie de cegueira, causada pela paixão: a dos cegos que vêem uma coisa por outra. O cego do Evangelho que via os homens como árvores. A cegueira de nossos primeiros pais e dos falsos profetas da República dos Hebreus. Enganos dos moabitas, do rei Assuero e dos apóstolos perturbados por paixões diversas.

A cegueira da segunda espécie, ou a segunda espécie da cegueira dos escribas e fariseus, era serem tais os seus olhos que não viam as coisas às direitas, senão às avessas; não viam as coisas como eram, senão como não eram. Viam os olhos mila­grosos, e diziam que era engano; viam a virtude sobrenatural, e diziam que era pecado; viam uma obra que só podia ser dos braços de Deus, e diziam que não era de Deus, senão contra Deus: Non est hic homo a Deo. [17] De maneira que não só não viam as coisas como eram, mas viam-nas como não eram, e por isso muito mais cegos que se totalmente as não viram.

Na cidade de Belém curou Cristo outro cego, como este de Jerusalém, mas não o curou pelo mesmo modo, porque as mesmas enfermidades, quando os sujeitos não são os mesmos, muitas vezes requerem diversa cura. Pôs o Senhor a mão nos olhos a este cego, e perguntou-lhe se via. Olhou ele, e disse: Video homines velut arbores ambulantes (Mc. 8, 24); Senhor, vejo os homens como umas árvores que andam de uma parte para outra. – Torna Cristo a aplicar-lhe outra vez a mão, e diz o texto que desta segunda vez começou o homem a ver: Iterum imposuit manus super oculos ejus, et coepit videre. Neste coepit videre reparo, e é muito para reparar. Este homem é certo que começou a ver da primeira vez que Cristo lhe pôs a mão nos olhos, porque até ali não via nada, e então começou a ver os homens como árvores. Pois se o cego, da primeira vez começou a ver os homens como árvores, como diz o evangelista que não começou a ver senão da segunda vez: Iterum imposuit manus super oculos ejus, et coepit videre? Porque da primeira vez via as coisas como não eram, da segunda vez já as via como eram; da primeira vez, via os homens como árvores, da segunda vez, via as árvores como árvores e os homens como homens. E ver as coisas como são, isso é ver; mas vê-las como não são, não é ver, é estar cego.

Sim. Mas este homem estava cego quando não via nada, e se estava também cego quando via as coisas como não eram, quando estava mais cego? Quando as via ou quando as não via? Quando as via estava muito mais cego, porque quando não via nada tinha privação da vista; quando via as coisas às avessas, tinha erro na vista, e muito maior cegueira é o erro que a privação. A privação era um defeito inocente, que não mentia nem enganava; o erro era uma mentira com aparência de verdade, era um engano com representação de certeza, era um falso testemunho com assinado de vista E senão, vamos ao caso. É filosofia bem-fundada de Filo Hebreu que os olhos não só vêem a cor, senão a cor, a figura e o movimento, e em todas estas três coisas errou a primeira vista daquele homem, representando-lhe os homens como árvores. Errou na cor, porque as árvores são verdes e os homens, cada um é da cor de seu rosto e do seu vestido. Errou na figura, porque as árvores têm um pé, e os homens dois; os homens têm dois braços e as árvores muitos. Errou no movimento, porque os homens movem-se progressivamente e mudam de lugares, e as árvores estão sempre firmes, e se movem com o vento, não mudam de lugar. Eis aqui quantos erros, quantos enganos e quantas cegueiras se envolviam naquela primeira vista. Por isso o evangelista disse que quando o cego via desta maneira, ainda não tinha começado a ver, porque ver umas coisas por outras não é vista, é cegueira, e mais que cegueira.

Os mais cegos homens que houve no mundo foram os primeiros homens. Disse-lhes Deus, não por terceira pessoa, senão por si mesmo, e não por enigmas ou metáforas, senão por palavras expressas, que aquela fruta da árvore, que lhes proibia, era venenosa, e que no mesmo dia em que a comessem haviam de perder a imortalidade em que foram criados, não só para si, senão para todos seus filhos e descendentes; e contudo comeram. Há homem tão cego que coma o veneno conhecido como veneno para se matar? Há homem tão cego que dê o veneno conhecido como veneno a seus filhos para os ver morrer diante de seus olhos? Tal foi a cegueira dos primeiros homens, e não cegueira de olhos meio abertos, como a daquele cego, senão de olhos totalmente abertos, porque tudo isto viam muito mais clara e muito mais evidentemente do que nós o vemos e admiramos. Pois, como caíram em uma cegueira tão estranha; como foram, ou como puderam ser tão cegos? Não foram cegos porque não viram, que tudo viam; mas foram cegos porque viram uma coisa por outra. O mesmo texto o diz: Vidit mulier, quod bonum esset lignum ad vescendum (Gên. 3, 6): Viu a mulher que aquela fruta era boa para comer. – Mulher cega, e cega quando viste, e porque viste: vê o que vês, e não vejas o que não vês. Assim havia de ser. Mas Eva, com os olhos abertos, estava tão cega, que não via o que via e via o que não via. A fruta vedada era má para comer e boa para não comer. Má para comer, porque, comida, era veneno e morte; boa para não comer, porque, não comida, era vida e imortalidade. Pois se a fruta só para não comer era boa, e para comer não era boa, senão muito má, como viu Eva que era boa para comer: Vidit quod bonum esset ad vescendum? Porque era tão cega a sua vista, ou tão errada a sua cegueira, que, olhando para a mesma fruta, não via o que era e via o que não era. Não via que era má para comer, sendo má, e via que era boa para comer, não sendo boa: Vidit quod bonum esset.

Esta foi a cegueira de Eva, e esta é a dos filhos de Eva. Vae qui dicitis malum bonum et bonum malum.[18] Andam equivocados dentro em nós o mal com o bem, e o bem com o mal, não por falta de olhos, mas por erro e engano da vista. No Paraíso havia uma só árvore vedada; no mundo há infinitas. Tudo o que veda a lei natural, a divina e as humanas, tudo o que proíbe a razão e condena a experiência, são árvores e frutas vedadas. E tal é o engano e ilusão da nossa vista, equivocada nas cores com que se disfarça o veneno, que em vez de vermos o mal certo, para o fugir, vemos o bem que não há, para o apetecer: Vidit quod bonum esset. Daqui nasce, como da vista de Eva, a ruína original do mundo, não só nas consciências e almas particula­res, mas muito mais no comum dos estados e das repúblicas. Caiu a mais florente e bem-fundada república que houve no mundo, qual era antigamente a dos hebreus, fundada, governada, assistida, defendida pelo mesmo Deus. E qual vos parece que foi a origem ou causa principal de sua ruína? Não foi outra senão a cegueira dos que tinham por ofício ser olhos da república. E não porque fossem olhos de tal maneira cegos que não vissem, mas porque viam trocadamente uma coisa por outra, e em vez de verem o que era, viam o que não era. Assim o lamentou o profeta Jeremias nas lágrimas que chorou em tempo do cativeiro de Babilônia sobre a destruição e ruína de Jerusalém: Prophetae tui viderunt tibi falsa.[19]

Os olhos daquela república, que não só tinham por ofício ver o presente, senão também o futuro, eram os profetas, que por isso se chamavam videntes. E diz Jeremias à engana­da e já desenganada Jerusalém, que os seus profetas lhe viam as coisas falsas: Prophetae tui viderunt tibi falsa. Notai muito a palavra viderunt. Se dissera que profetizavam, ou pregavam, ou aconselhavam, ou finalmente diziam coisas falsas, bem estava: mas dizer que as viam: Viderunt tibi! Se as coisas eram falsas, não eram, e se não eram, como as viam? Porque essa era a cegueira dos olhos da triste república: olhos que não viam o que era, e viam o que não era, nem havia de ser. Os profetas verdadeiros viam o que era, os profetas falsos viam o que não era, e porque a cega república se deixou governar por estes olhos, por isso se perdeu. Jeremias, profeta verdadeiro, dizia que se sujeitassem a Nabucodonosor, porque se assim o não fizessem, havia de tomar segunda vez sobre Jerusalém e destruí-la de todo. Pelo contrá­rio, Ananias, profeta falso, pregava e prometia que Nabuco não havia de tomar, antes havia de restituir os vasos sagrados do templo que tinha saqueado (Jer. 28). E porque estes oráculos falsos, como mais plausíveis, foram os cridos, foi Jerusalém de todo destruída e assolada, e as relíquias de sua ruína levadas a Babilônia Miquéias, profeta verdadeiro, consultado sobre a guerra de Ramot Galaad, disse que via o exército de Israel derramado pelos campos como ovelhas sem pastor (3 Rs. 22). Pelo contrário, Sedecias, com outros quatrocentos profetas falsos, persuadiam à guerra e asseguravam a vitória E porque el-rei Acab quis antes seguir a falsidade lisonjeira de muitos, que a verdade provada e conhecida de um, posto que entrou na batalha sem coroa e disfarçado, para não ser conhecido, um só tiro de uma seta perdida matou o rei, desbaratou o exército, e sentenciou a vitória pelos inimigos. Assim viram Miquéias e Jeremias o que havia de ser, e os demais o que não foi, para que abram os olhos os príncipes e vejam quais são os olhos por cuja vista se guiam. Guiem-se pelos olhos dos poucos que vêem as coisas como são, e não pelos dos muitos e cegos que vêem uma coisa por outra Viderunt tibi falsa.

Mas como pode ser, para que demos a razão desta segunda cegueira, como a demos da primeira, como pode ser que haja homens tão cegos, que com os olhos abertos não vejam as coisas como são? Dirá alguém que este engano de vista procede da ignorância. O rústico, porque é ignorante, vê que a lua é maior que as estrelas; mas o filósofo, porque é sábio e mede as quantidades pelas distâncias, vê que as estrelas são maiores que a lua. O rústico, porque é ignorante, vê que o céu é azul; mas o filósofo, porque é sábio e distingue o verdadeiro do aparente, vê que aquilo que parece céu azul, nem é azul, nem é céu. O rústico, porque é ignorante, vê muita variedade de cores no que ele chama arco-da-velha; mas o filósofo, porque é sábio e conhece que até a luz engana, quando se dobra, vê que ali não há cores, senão enganos corados e ilusões da vista. E se a ignorância erra tanto olhan­do para o céu, que será se olhar para a terra? Eu não pretendo negar à ignorância os seus erros, mas os que do céu abaixo padecem comumente os olhos dos homens, e com que fazem padecer a muitos, digo que não são da ignorância, senão da paixão. A paixão é a que erra, a paixão a que os engana, a paixão a que lhes perturba e troca as espécies, para que vejam umas coisas por outras. E esta é a verdadeira razão, ou sem-razão, de uma tão notável cegueira. Os olhos vêem pelo coração, e assim como quem vê por vidros de diversas cores todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores de que estão bem ou mal afetos os corações.

Tinham os moabitas assentado os seus arraiais defronte a fronte com os de Josafá e Jorão, reis de Israel e Judá, e vendo ao amanhecer que por entre eles corria uma ribeira, julgaram que a água, ferida dos raios do sol, era sangue, e persuadiram-se que os dois reis amigos, por alguma súbita discórdia, tinham voltado as armas um contra o outro: Dixerunt: sanguis gladii est: pugnaverunt reges contra se, et caesi sunt mutuo. [20] Caído da graça de el-rei Assuero seu grande valido Amã, e condena­do à morte, lançou-se aos pés da rainha Ester no trono onde estava, pedindo perdão e misericórdia; e como Assuero o visse naquela postura, foi tal o juízo que formou, e tão alheio de sua própria honra, que não há palavras decentes com que se possa declarar: Etiam reginam vult opprimere me praesente.[21] Corria fortuna a barca de S. Pedro no Mar de Tiberíades, derrotada da fúria dos ventos e quase soçobrada do peso das ondas, quando apareceu sobre elas Cristo caminhando a grandes passos a socorrê-la. Viram-no os apóstolos, e então tiveram o naufrágio por certo, e se deram por totalmente perdidos, julgando, diz o texto, que era algum fantasma: Putaverunt phantasma esse (Mc. 6, 49). Voltemos agora sobre estes três casos tão notáveis, e saibamos a causa de tantos desenganos da vista. Os apóstolos, Assuero, os moabi­tas, todos estavam com os olhos abertos, todos viram o que viam, e todos julgaram uma coisa por outra. Pois, se os apóstolos viam a Cristo, como julgavam que era fantasma? Se Assuero viu a Amã em ato de pedir misericórdia, como julgou que lhe fazia adultério? Se os moabitas viam a água da ribeira, como julgaram que era san­gue? Porque assim confundem e trocam as espécies da vista os olhos perturbados com alguma paixão. Os apóstolos estavam perturbados com a paixão do temor; Assuero com a paixão da ira; os moabitas com a paixão do ódio e da vingança; e como os moabitas desejavam verter o sangue dos dois exércitos inimigos, a água lhes parecia sangue; como Assuero queria tirar a vida a Amã, a contrição lhe parecia pecado; como os apóstolos estavam medrosos com o perigo, o remédio, e o mesmo Cristo lhes parecia fantasma. Fiai-vos lá de olhos que vêem com paixão.

As paixões do coração humano, como as divide e enumera Aristóteles, são onze, mas todas elas se reduzem a duas capitais: amor e ódio. E estes dois afetos cegos são os dois pólos em que se revolve o mundo, por isso tão malgovemado. Eles são os que pesam os mereci­mentos, eles os que qualificam as ações, eles os que avaliam as prendas, eles os que repartem as fortunas. Eles são os que enfeitam, ou descompõem; eles os que fazem, eu aniquilam; eles os que pintam ou despintam os objetos, dando e tirando a seu arbítrio a cor, a figura, a medida, e ainda o mesmo ser e substância, sem outra distinção ou juízo, que aborrecer ou amar. Se os olhos vêem com amor, o corvo é branco: se com ódio, o cisne é negro; se com amor, o demônio é formoso: se com ódio, o anjo é feio; se com amor, o pigmeu é gigante: se com ódio, o gigante é pigmeu; se com amor, o que não é tem ser: se com ódio, o que tem ser é bem que seja, não é nem será jamais. Por isso se vêem, com perpétuo clamor da justiça, os indignos levantados e as dignidades abatidas; os talentos ociosos, e as incapacidades com mando, a ignorância graduada, e a ciência sem honra; a fraqueza com bastão, e o valor posto a um canto; o vício sobre os altares, e a virtude sem culto; os milagres acusados, e os milagrosos réus. Pode haver maior violência da razão? Pode haver maior escândalo da natureza? Pode haver maior perdição da república? Pois tudo isto é o que faz e desfaz a paixão dos olhos humanos: cegos quando se fecham e cegos quando se abrem; cegos quando amam, e cegos quando aborrecem; cegos quando aprovam, e cegos quando condenam; cegos quando não vêem, e quando vêem muito mais cegos: Ut videntes caeci fiant.

Δ

 

V

Terceira espécie de cegueira, causada pela presunção: a dos cegos que ven­do o demais, só a sua cegueira não vêem. A parábola do cego que guiava a outro cego. Repreensão de S. João ao bispo de Laodicéia. Harpastes, a criada de Sêneca. A queda do velho Tobias e a de nossos primeiros pais. A cega presunção dos escribas e fariseus. A cegueira de Longuinhos e a presunção de oficio.

Temos chegado, posto que tarde, à cegueira da terceira espécie, na qual estavam confirmados os escribas e fariseus, porque sendo tão cegos, como temos visto, não viam nem conheciam a sua própria cegueira. O cego que conhece a sua cegueira não é de todo cego, porque, quando menos, vê o que lhe falta; o último extremo da cegueira é padecê-la e não a conhecer. Tal era o estado mais que cego destes homens, dos quais disse agudamente Orígenes, que chegaram a perder o sentido da cegueira: Caecitatis sensu carentes. A natureza, quando tira o sentido da vista, deixa o sentido da cegueira, para que o cego se ajude dos olhos alheios. Porém os escribas e fariseus estavam tão pagos dos seus, e tão rematadamente cegos, que não só tinham perdido o sentido da vista, senão também o sentido da cegueira: o da vista porque não viam, o da cegueira porque a não viam. Argüiu-os Cristo hoje tacitamente dela, e eles, que entenderam o remoque, responderam: Nunquid et nos caeci sumus (Jo. 9,4O)? Porventura somos nós também cegos? – Como se disseram: Os outros são os cegos, porém nós, que somos os olhos da república, nós, que somos as sentinelas da casa de Davi, nós, que temos por ofício vigiar sobre a observância da fé e da lei, só nós temos luz, só nós temos vista, só nós somos os que vemos. – Mas por isso mesmo era maior a sua cegueira que todas as cegueiras, e eles mais cegos que todos os cegos, porque não pode haver maior cegueira, nem mais cega, que ser um homem cego e cuidar que o não é.

Introduz Cristo em uma parábola um cego que ia guiando a outro cego: Si caeco ducatum praestet.[22] O que ia guiado era cego, o que ia guiando também era cego. Mas qual destes dois cegos vos parece que era mais cego: o guia ou o guiado? Muito mais cego era o guia, porque o cego que se deixava guiar, via e conhecia que era cego, mas o que se fez guia do outro, tão fora estava de ver e conhecer que era cego, que cuidava que podia emprestar olhos. O primeiro era cego uma vez; o segundo duas vezes cego: uma vez porque o era, outra vez porque o não conhecia. São João no seu Apocalipse escreve uma carta de repreensão ao bispo de Laodicéia, e diz nela assim: Nescis quia miser es, et miserabilis, et caecus? Não sabes que és miserável, e miserável, e cego? Que lhe chame miserável porque era cego, bem clara está a miséria; mas por que lhe chama não só uma, senão duas vezes miserável: Miser, et miserabilis? Chama-lhe duas vezes miserável por­que era duas vezes cego: uma vez cego, porque o era, e outra vez cego, porque o não conhecia. O mesmo evangelista o disse: Nescis quia miser es, et miserabilis, et caecus. Notai o nescis: era uma vez cego porque o era: caecus; era outra vez cego porque o não conhecia: nescis. E porque era duas vezes cego, era duas vezes miserável: miser, et miserabilis. Ser cego era miséria, porque era cegueira; mas ser cego, e não o conhecer, era miséria dobrada, porque era cegueira dobrada. A primeira cegueira tirava-lhe a vista das outras coisas; a segunda cegueira tirava-lhe a vista da mesma cegueira, e por isso era cego sobre cego, e miserável sobre miserável: Miser, et miserabilis, et caecus.

Oh! quantos miseráveis sobre miseráveis, e quantos cegos sobre cegos há como este no mundo! Refere Sêneca um caso notável, sucedido na sua família, e diz a seu discípulo Lucílio, que lhe contará uma coisa incrível, mas verdadeira. Incredibilem tibi narro rem, sed veram. Tinha uma criada chamada Harpastes, a qual, sendo fátua de seu nascimento, perdeu subitamente a vista: Haec fatua subito desiit videre. E que vos parece que fazia Harpastes cega e sem juízo? Aqui entra a coisa incrível. Nescit esse se caecam: era cega, e não o sabia. Paedagogum suum rogat ut migret: quando o que tinha cuidado dela lhe dava a mão para a guiar, lançava-o de si. Ait domum tenebrosam esse: dizia que estava a casa às escuras, que abrissem as janelas; e as janelas que tinha fechadas não eram as da casa, eram as dos olhos. Pode haver cegueira mais fátua e mais digna de riso? Pois hás de saber, Lucílio, diz Sêneca, que desta maneira somos todos: cegos e fátuos. Cegos porque não vemos, e fátuos porque não conhecemos a nossa cegueira. Hoc quod in ea ridemus, omnibus nobis accidere liqueat tibi. Não é cegueira a soberba? Não é cegueira a inveja? Não é cegueira a cobiça? Não é cegueira a ambição, a pompa, o luxo? Não é cegueira a lisonja e a mentira? Sim. Mas a nossa fatuidade é tanta como a de Harpastes, que sendo a cegueira e a escuridade nossa, atribuímo-la à casa, e dizemos que não se pode viver de outro modo neste mundo, e muito menos na corte: Nemo aliter Romae potest vivere [23]Se somos cegos, por que o não conhecemos? Isac era cego, mas conhecia a sua cegueira: por isto tocou as mãos de Jacó, para suprira falta da vista como tato. O mendigo de Jericó era cego, mas conhecia que o era: por isso a esmola que pediu a Cristo não foi outra senão a da vista: Domine, ut videam.[24] Como havemos nós de suprir as nossas cegueiras, ou como lhes havemos de buscar remédio, se as não conhecemos?

Pois por certo que não nos faltam experiências muito claras e muito caras, para as conhecer, se não fôramos cegos sobre cegos. Olhai para as vossas quedas, e vereis as vossas cegueiras. Quando Tobias ouviu que vinha chegando seu filho, de cuja vinda e vida já quase desesperava, foi tal o seu alvoroço, que, levantando-se, remeteu a correr para o ir encontrar e receber nos braços. Tende mão, velho enganado! Não vedes que sois cego? Não vedes que não podeis andar por vós mesmo, quanto mais correr? Não vedes que podeis cair, e que pode ser tal a queda, que funeste um dia tão alegre, e entristeça todo este prazer vosso e de vossa casa? Assim foi em parte, porque a poucos passos titubantes e malseguros tropeçou Tobias e deu consigo em terra: Consurgens caecus pater ejus caepit offendens pedibus currere, et pralapsus est, diz o texto grego. [25] Levantado porém em braços alheios, deu a mão o cego, já menos cego, a um criado, e com este arrimo, sem novo risco, chegou a receber o filho: Et data manu puero occurrit filio suo. De maneira que o alvoroço, a alegria súbita e o amor, cegaram de tal sorte a Tobias, que não viu, nem reparou na sua cegueira; porém, depois que caiu, a mesma queda o fez conhecer que era cego e que, como cego, se devia pôr nas mãos de quem o sustentasse e guiasse. Todas as coisas se vêem com os olhos abertos, e só a própria cegueira se pode ver com eles fechados. Mas quando ela é tão cega que não se vê a si mesma, as quedas lhe abrem os olhos para que se veja. Caíram os primeiros pais tão cegamente, como vimos, e quando se lhes abriram os olhos para verem a sua ce­gueira? Depois que se viram caídos: Et aperti sunt oculi amborum.[26] O apetite os cegou e a caída lhes abriu os olhos. Que filho há de Adão que não seja cego? E que cego, que não tenha caído uma e muitas vezes? E que não bastem tantas caídas e recaídas para conhecermos a nossa cegueira? Se caís em tantos tropeços quantas são as vaidades e loucuras do mundo, por que não acabais de cair em que sois cego, e por que não buscais quem vos levante e vos guie? Só vos digo que se derdes a mão para isso a algum criado, como fez Tobias, que seja tão seguro criado, e de tão boa vista, que saiba por onde põe os pés, e que vos possa guiar e suster. E quando ainda assim lhe derdes a mão, adverti que não seja tanta, que se cegue também ele com a vossa graça, e vos leve a maiores precipícios. Mas já é tempo que demos a razão desta última cegueira, como das demais.

Parece coisa incrível e impossível que um cego não conheça que é cego. Mas como já temos visto que há muitos cegos desta espécie, resta saber a causa de tão estranha e tão cega cegueira. Se algum cego pudera haver que se não conhecesse, era o nosso cego do Evangelho, porque era cego de seu nascimento, e quem não conhece a vista, não é muito que não conhecesse a cegueira. Ele porém é certo que a conhecia, e nós falamos de cegos com os olhos abertos, que sabem o que é ver e não ver. Qual é logo, ou qual pode ser a causa por que estes cegos se ceguem tanto com a sua cegueira, e que a não conheçam? Outros darão outras causas, que para errar há muitas. A que eu tenho por certa e infalível, é a muita presunção dos mesmos cegos. A causa da primeira cegueira, como vimos, é a desatenção; a da segunda, a paixão e a desta terceira, e maior de todas, a presunção. Nos mesmos escribas e fariseus temos a prova. Deles disse Cristo noutra ocasião a seus discípulos: Sinite eos: caeci sunt, et duces caecorum (Mt. I5, I4): Deixai-os, que são cegos e guias de cegos. – Mas por isso mesmo é bem que nós os não deixemos agora. Se eram cegos e não viam, como eram, ou se faziam guias de cegos? Porque tanta como isto era a sua presunção. Para um cego guiar cegos, é necessário que tenha dois conhecimentos contrários: um, com que conheça os outros por cegos, e outro com que conheça, ou tenha para si que ele o não é. E tal era a presunção dos escribas e fariseus. Nos outros, conheciam que a cegueira era cegueira; em si, estimavam que a sua cegueira era vista. Por isso, sendo tão cegos como os outros cegos, em vez de buscarem guias para si, faziam-se guias dos outros e se vendiam por tais. Se víssemos que um cego andasse apregoando e vendendo olhos, não seria riso das gentes e da mesma natureza? Pois essa era a farsa que representava nos tribunais de Jerusalém a cegueira e presunção daqueles gravíssimos ministros, e esse era o altíssimo conceito que eles tinham dos seus olhos. Toupeiras com presunção de linces.

Ainda passou muito avante esta presunção no caso de hoje. O cego, depois que Cristo o alumiou, ficou um lince na vista, e as toupeiras queriam guiar o lince. Que um cego queira guiar outro cego, e uma toupeira outra toupeira, cegueira é muito presumida; mas que as toupeiras quisessem guiar o lince, e os cegos dar lições de ver a quem tinha olhos, e olhos milagrosos, foi a mais louca presunção que podia caber em todas as ceguei­ras. Todo o intento hoje dos escribas e fariseus, e todas as diligências e instâncias com que perseguiam o cego alumiado, e com que o queriam persuadir que agora estava mais cego que dantes, eram a fim de o apartarem da luz e conhecimento de Cristo, e o tirarem e trazerem à sua errada opinião. Ele dizia: Scimus quia peccatores Deus non audit. Eles diziam: Nos scimus quia hic homo peccator est.[27] E sendo estas duas proposições tão encontradas, toda a diferença por que condenavam a ciência do cego, e canonizavam a sua, era serem eles os que diziam: Nos scimus. Aquele nós tão presumido, e tantas vezes inculcado nesta demanda, era todo o fundamento da sua censura. Nós o dizemos, e tudo o mais é ignorância e erro. Nós, como se não houvera nós cegos, e como se não fora certo o que eles já tinham inferido: Nunquid et nos caeci sumus?[28] O homem dos olhos milagro­sos confutava-os, confundia-os, e tomava-os às mãos; e eles, porque não sabiam respon­der aos argumentos, tomavam-se contra o argumentante, e fixados no seu nós, diziam mui inchados: Et tu doce nos? E quem és tu para nos ensinar a nós? – Eu perguntara a estes grandes letrados: E quem sois vós, para não aprender dele? Ele arrazoa vivamente: vós não dais razão; ele prova o que diz: vós falais e não provais; ele convence com o milagre que Cristo é santo: vós blasfemais que é pecador; ele demonstra com evidência quem é ele: vós buscais testemunhas falsas que digam que é outro; ele é uma águia que fita os olhos no sol: vós sois aves noturnas que cegais com a luz; ele, enfim, é lince, e vós toupeiras, e no cabo vós tão vãos e tão presumidos que cuidais que vedes mais com a vossa cegueira do que ele com os seus olhos. Viu-se jamais presunção tão cega? Só uma acho nas Escrituras semelhante, mas também em Jerusalém, que só em uma terra onde se crucifica a Cristo se podem criar e sofrer tais monstros.

Os soldados que guardavam o Calvário, tendo ordem que acabassem de matar aos crucificados, tanto que viram que Cristo estava já morto, passaram adiante: Ut viderunt eum jam mortuum, non fregerunt ejus crura.[29] Isto fizeram os soldados que tinham olhos. E Longuinhos, que era cego, que fez? Deu-lhe a Cristo a lançada. Quem mete a lança na mão de um cego, quer que ele a meta no peito de Cristo. Pois, se os que tinham olhos viram que Cristo estava já morto, o cego, por que o quis ainda matar, como se estivera vivo? Porque, sendo cego, e tão cego, era tão presumido da vista, que cuidava que via melhor com os seus olhos fechados que os outros com os olhos aber­tos. Oh! quantos Longuinhos há destes no mundo, e tão longos, e tão estirados, e tão presumidos! Mas a culpa não é sua, senão dos generais. Se Longuinhos era cego, por que havia de comer praça de soldado? Se acaso tinha muitos anos de serviço, dêem-lhe uma mercearia. Já que é cego, seja rezador. Mas sem olhos, e com a lança na mão? Sem vista, e com a praça aclarada? E como não havia de presumir muito dos seus olhos, se sendo cego o não reformavam? Ele foi muito presumido, mas tinha a presunção por si. Ouvi a Isaías, falando com a mesma República de Jerusalém: Speculatores tui caeci omnes (Is. 56, IO): as tuas sentinelas, ó Jerusalém, todas são cegas. – A cidade muito fortificada, porque tinha três ordens de muros, mas as sentinelas todas tão mal provi­das, que em cada uma punham a vigiar um cego. E se o cego se via levantado sobre uma torre, e posto numa guarita, como não havia de presumir muito da sua vista? Eles tinham a presunção por si, mas a presunção e o posto não lhes diminuíam a cegueira. Os postos não costumam dar vista, antes a tiram a quem a tem, e tanto mais quanto mais altos. Por isso, aos escribas e fariseus se lhes foi o lume dos olhos. Cegos com a presunção do ofício, e porque era ofício de ver, muito mais cegos: Ut videntes caeci fiant.

Δ

 

VI

Versem remediar não é ver vendo, é ver sem ver. Apelo final à cristandade. Oração.

Esta era a última e mais rematada cegueira dos escribas e fariseus. E a nossa, qual é? Eles eram cegos sobre cegos, porque não viam as suas cegueiras; e nós acaso vemos as nossas? Se as remediamos, confessamos que as vemos; mas se as não remediamos, é certo, e certíssimo que as não vemos. Ver e não remediar, não é ver. Apareceu Deus a Moisés naquele disfarce da sarça, disse-lhe quem era e a que vinha, e as palavras com que se declarou a divina majestade foram estas: Vidi afflictionem populi mei in Aegypto, et sciens dolorem ejus, des­cendi ut liberem eum (Êx. 3,7 s): Vi a aflição do meu povo no Egito, e conhecendo o muito que padece, venho a libertá-lo. - E essa aflição que há tantos anos padece o vosso povo, ainda agora a vistes, Senhor? Sei eu que antes de haver tal povo no mundo, revelastes vós ao avô de seu fundador, que o mesmo povo havia de peregrinar quatrocentos anos em terras estranhas, e que nelas havia de ser cativo e afligido. Assim o disse ou predisse Deus a Abraão, muito antes do nascimento de Jacó, que foi o pai das doze tribos e de todo o povo hebreu cativo no Egito. Scito prenoscens quod peregrinum futurum sit semen tuum in terra non sua, et subijicient eos servituti, et affligent eos quadringentis anais. [30] Pois se havia mais de quatrocentos anos que Deus tinha revelado este cativeiro, e se desde o primeiro dia em que começou, antes, desde toda a sua eternidade, o estava sempre vendo, como diz que agora viu a aflição do seu povo: Vidi afilictionem populi mei? Diz que agora a viu, porque agora a vinha remediar: Vidi, et descendi, ut liberem eum. O que se vê e não se remedeia, ainda que se esteja vendo quatro­centos anos, ainda que se esteja vendo uma eternidade inteira, ou não se vê, ou se vê como se se não vira. Por isso Ana, mãe de Samuel, falando com o mesmo Deus, e pedindo-lhe remé­dio para outra aflição sua, disse: Si respiciens videris affictionem mean (I Rs. I, 1I): Se vendo virdes a minha aflição. – E que quer dizer: se vendo virdes? Quer dizer: se remediar­des, porque ver sem remediar, não é ver vendo, é ver sem ver.[31] Quem duvida que neste mesmo dia viu Cristo pelas ruas de Jerusalém muitos outros cegos, mancos e aleijados, que concorrem a pedir esmolas às cortes, mas não dizem os evangelistas que os viu, porque os não remediou. Só dizem que viu este cego, a quem remediou, e por isso dizem que o viu: Vidit hominem caecum.

Oh! quem me dera ter agora neste auditório a todo o mundo! Quem me dera que me ouvira agora Espanha, que me ouvira França, que me ouvira Alemanha, que me ouvira a mesma Roma! Príncipes, reis, imperadores, monarcas do mundo: vedes a ruína dos vos­sos reinos, vedes as aflições e misérias de vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Prínci­pes eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó prelados que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da fé, vedes o descaimento da religião, vedes o desprezo das leis divinas, vedes a irreverência dos luga­res sagrados, vedes o abuso dos costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escânda­los, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condena­ção e perda de tantas almas, dentro e fora da cristandade? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Minis­tros da república, da justiça, da guerra, do estado, domar, da terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre o vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciên­cias, vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Pais de família, que tendes casa, mulher, filhos, criados; vedes o desconcerto e descaminho de vossas famílias, vedes a vaidade da mulher, vedes o pouco recolhimento das filhas, vedes a liberdade e más companhias dos filhos, vedes a soltura e descomedimento dos criados, vedes como vi­vem, vedes o que fazem e o que se atrevem a fazer, fiados muitas vezes na vossa dissimu­lação, no vosso consentimento, e na sombra do vosso poder? Ou o vedes, ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Finalmente, homem cristão de qualquer estado e de qualquer condição que sejas: vês a fé e o caráter que recebeste no Batismo, vês a obrigação da lei que professas, vês o estado em que vives há tantos anos, vês os encargos de tua consciência, vês as restituições que deves, vês a ocasião de que te não apartas, vês o perigo de tua alma e de tua salvação, vês que estás atualmente em pecado mortal, vês que se te toma a morte nesse estado, que te conde­nas sem remédio, vês que se te condenas, hás de arder no inferno enquanto Deus for Deus, e que hás de carecer do mesmo Deus por toda a eternidade? Ou vemos tudo isso, cristãos, ou não o vemos. Se o não vemos, como somos tão cegos? E se o vemos, como o não remediamos? Fazemos conta de o remediar alguma hora, ou não? Ninguém haverá tão ímpio, tão bárbaro, tão blasfemo, que diga que não. Pois se o havemos de remediar alguma hora, quando há de ser esta hora? Na hora da morte? Na última velhice? Essa é a conta que lhe fizeram todos os que estão no inferno e lá estão e estarão para sempre. E será bem que façamos nós também a mesma conta, e que nos vamos após eles? Não, não, não queira­mos tanto mal a nossa alma. Pois se algum dia há de ser, se algum dia havemos de abrir os olhos, se algum dia nos havemos de resolver, porque não será neste dia?

Ah! Senhor, que não quero persuadir aos homens, nem a mim, pois somos tão cegos, a vós me quero tornar. Não olheis, Senhor, para nossas cegueiras; lembrai-vos dos vossos olhos, lembrai-vos do que eles fizeram hoje em Jerusalém. Ao menos um cego saia hoje daqui alumiado. Ponde em nós esses olhos piedosos, ponde em nós esses olhos misericordiosos, ponde em nós esses olhos onipotentes. Penetrai e abran­dai com eles a dureza destes corações; rasgai e alumiai a cegueira destes olhos, para que vejam o estado miserável de suas almas, para que vejam quanto lhes merece essa Cruz e essas chagas, e para que, lançando-nos todos a vossos pés, como hoje fez o cego, arrependidos, com uma firmíssima resolução, de nossos pecados, nos façamos dignos de ser alumiados com vossa graça, e de vos ver eternamente na glória.


Notas:

[1] Viu um homem que era cego (Jo. 9,1).
[2] De entre as trevas e a escuridão verão os olhos dos cegos (Is. 29, 18).
[3] E te pus para ser a reconciliação do povo, para luz das gentes, para abrires os olhos dos cegos (Is. 42, 6 s).
[4] Tu és o que hás de vir, ou é outro o que esperamos? (Mt. 11, 3.)
[5] Ide contar a João o que ouvistes e vistes: Os cegos vêem (Mt II, 4 s).
[6] Quem é cego, senão o meu servo? Quem é cego, senão o que foi vendido? E quem é cego senão o servo do Senhor? (is.42,19)
[7] Is. 1O, 15, 17, 19, 21 ss.
[8] Conhecido é Deus na Judéia (Sl.75,1)
[9] De sorte que não puderam mais atinar com a porta (Gên. 19, 11).
[10] Que apertado é o caminho que guia para a via (Mt. 7, 14).
[11] E os seus sepulcros serão as suas casas para sempre (Si. 48, 12)
[12] Esta é a porta do Senhor; os justos entrarão por ela (Si. 117, 2O).
[13] Arist. Polit. 1O.
[14] Mas os olhos dos dois estavam como fechados, para o não conhecerem (Lc. 24, 16)
[15] Esse é que é: prendei-o. – E o prenderam. – E não me prendestes (Mt. 26, 48. 5O. 55).
[16] Que é isso que vós ides praticando e conferindo um como outro, e por que estais tristes? (Lc. 24, 17.)
[17] Este homem não é de Deus (Jo. 9, 16).
[18] Ai de vós os que ao mau chamais bom, e ao bom mau (Is. 5, 2O
[19] Os teus profetas viram para ti coisas falsas (Lam. 2, 14).
[20] É sangue derramado pela espada: os reis pelejaram contra si, e de parte a parte se mataram (4 Rs. 3, 23).
[21] Até estando eu presente, quer na minha mesma casa fazer violência à rainha (Est. 7, 8).
[22] Se um cego guia a outro cego (Mt. 15, 14).
[23] Em Roma ninguém pode viver de outro modo.  
[24] Senhor, que eu veja (Le. 18, 41).
[25] E o pai, levantando-se, começou a correr cego, tropeçando com os pés (Tob.11,1O).  
[26] E no mesmo ponto se lhes abriram os olhos (Gên. 3, 1O).
[27] Sabemos que Deus não ouve a pecadores (Jo, 9,31).   - Nós sabemos que esse homem é um pecador (Jo. 9, 24).
[28] Logo também nós somos cegos? (Jo. 9, 4O.)
[29] Como viram que estava já morto, não lhe quebraram as pernas (Jo. 19, 33).
[30] Sabe desde agora que a tua posteridade será peregrina numa terra estrangeira, e será reduzida à escravidão, e aflita por quatrocentos anos (Gên. 15, 13).
[31] Ita omnes interpretes.


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Fonte: Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística
 


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14.Jan.09
Publicado por MJA