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 Sobre a Deficiência Visual

 

Papiro Ebers: medicamentos para o tratamento dos olhos, 1536 a.C.

Sacerdote vertendo um medicamento nos olhos de músicos cegos [baixo-relevo, mármore egípcio]
Sacerdote vertendo um medicamento nos olhos de músicos cegos (baixo-relevo egípcio em mármore)


O Papiro Ebers, também conhecido como Papiro de Ebers, é um papiro médico egípcio que data de cerca de 1550 a.C. É um dos papiros médicos mais antigos e mais importantes do antigo Egipto; foi comprado em Luxor (Tebas), no Inverno de 1873-74 pelo egiptólogo alemão Georg Ebers. Encontra-se na Biblioteca da Universidade de Leipzig, na Alemanha.


O manuscrito

O papiro Ebers foi escrito no nono ano do reinado de Amenophis I (1536 a.C.), mas acredita-se ter sido copiado de textos anteriores, que datavam talvez de 3400 a.C. Consiste num rolo de 110 páginas, com cerca de 20 metros de comprimento. Juntamente com o Papiro Ginecológico Kahun (cerca de 1800 a.C.), o papiro Edwin Smith (cerca de 1600 a.C.), o papiro Hearst (cerca de 1600 a.C.), o Papyrus Brugsch (cerca de 1300 a.C.) e o Papiro Médico de Londres (cerca de 1300 a.C.), o Papiro Ebers está entre os mais antigos documentos médicos preservados. O Papiro Brugsch contém passagens paralelas ao Papiro Ebers, ajudando a esclarecer certas informações deste último.
 

Papiro Ebers exposto na Biblioteca da Universidade de Leipzig


Conhecimentos médicos

Os egípcios foram os primeiros a afirmar que as doenças têm causas naturais, o que os motivou a produzir remédios para combatê-las. Eles produziram a primeira farmacopeia da História. Entre os medicamentos podem citar-se ervas medicinais, sangue de lagarto, fezes animais, leite de mulher grávida e livro velho fervido. Tratavam feridas com carne crua, suturas e mel para evitar infecções, enquanto o ópio era usado para aliviar a dor. Alho e cebola foram usados regularmente para promover a saúde e pensou-se que aliviavam os sintomas de asma. Os cirurgiões egípcios antigos costuravam feridas, compunham braços partidos, e amputavam membros doentes. Até reconheciam que algumas doenças eram tão sérias que só poderiam pôr os pacientes confortáveis e deixá-los morrer.

O Papiro Ebers está escrito em hierático - forma de escrita cursiva mais simples e rápida do que os hieroglifos, usada pelos escribas no dia-a-dia - e preservou para nós o mais volumoso registo conhecido da medicina egípcia antiga. O livro contém cerca de 700 fórmulas mágicas e descrições de medicamentos. Contém também inúmeros encantamentos destinados a afastar os demónios causadores de doenças e evidencia uma longa tradição de conhecimento empírico de anatomia, doenças, e tratamentos práticos. Afirma que o coração é o centro do suprimento do sangue, com vasos ligados a cada membro do corpo. Os egípcios parecem ter sabido pouco sobre os rins e consideravam o coração o ponto de encontro de uma quantidade de vasos que transportavam todos os fluidos do corpo - sangue, lágrimas, urina e sémen. São tratados distúrbios tal como a depressão e a demência, o que sugere que os egípcios entendiam as doenças mentais e as físicas de modo parecido. O papiro contém capítulos sobre contracepção, diagnóstico da gravidez e de outros problemas ginecológicos, doenças intestinais e parasitas, problemas dos olhos e da pele, odontologia e tratamento cirúrgico de abcessos e tumores, fixação de ossos e queimaduras.


"Receitas" para o tratamento dos olhos

No antigo Egipto, a constante irritação causada pelas areias e poeiras resultava em inúmeros problemas oculares - tal como acontece ainda hoje no Vale do Nilo.

Um dos ingredientes mais comuns dos medicamentos mencionados no papiro é o ocre ou argila medicinal. É prescrito para inúmeros problemas intestinais e problemas oculares. O ocre amarelo também é usado em queixas urológicas.

Outro ingrediente é o cosmético usado para a pintura dos olhos - um pigmento feito à base de chumbo ou antimónio, produto tóxico misturado com carvão e cinzas. Aliás, grande parte das substâncias coloridas que os egípcios usavam para se maquilhar era venenosa, como a galena, sulfato natural de chumbo de cor cinza azulado, ou a malaquite, óxido de cobre de cor esverdeada. Normalmente, o chumbo é considerado tóxico. Mas ele pode ter efeitos positivos em concentrações muito baixas. Numa época sem antibióticos os benefícios do uso do chumbo compensavam os riscos. Bactérias eram abundantes nas águas paradas que o rio Nilo deixava antes da sua cheia anual. Por isso, os egípcios usavam os seus cosméticos para prevenir ou tratar infecções oculares.


Facsimile do papiro original em Hierático:


Página do papiro Ebers que contém a maior parte dos tratamentos para os olhos [Quadro 057]


Transcrição em Hieroglifos:
Papiro Ebers em Hieroglifos

 

Tradução portuguesa do Papiro: (a partir do alemão)


Eb 344 (56, 21-57, 2)
.......
Colocíntida 1, ocre amarelo 1, excremento de crocodilo 1, sA-wr-mineral 1, natrão vermelho 1, mel 1, obter uma massa uniforme, aplicar sobre as pálpebras.

Eb 345 (57, 2 – 57, 4)
Outro [remédio] para contrair a íris do olho:
Pérolas de resina da árvore do ébano 1, sjA-mineral do Alto Egipto 1, esmagar em água e aplicar com frequência nos dois olhos.

Eb 346 (57, 4 – 57, 5)
Outro [remédio] para remover a doença-wHAt de ambos os olhos:
Cosmético preto para os olhos 1, ocre vermelho 1, amarelo ocre 1, natrão vermelho 1, aplicar nas pálpebras.

Eb 347 (57, 5 – 57, 6)
Outro [remédio] para remover névoas de ambos os olhos:
Fel de tartaruga 1, mel 1, aplicar contra as pálpebras.

Eb 348 (57, 6 – 57, 8)
Outro [remédio] para remover sangue de ambos os olhos:
Ocre-Trw 1, cosmético verde para os olhos 4, cosmético preto para os olhos 1, xt-awA 1, colocíntida 1, água 1, reduzir a pó e aplicar em ambos os olhos.

Eb 349 (57, 8 – 57, 9)
Outro medicamento a fazer para uma ferida-txn, que se criou no olho:
Excremento, que se encontra no ventre de uma criança, seco 1, mel 1, -- mucilagem 1, aplicar nas pálpebras.

Eb 350 (57, 10 – 57, 11)
Outra [remédio] para remover a doença-nHAt de ambos os olhos:
Fel de tartaruga 1, resina/goma 1, aplicar em ambos os olhos.

Eb 351 (57, 11 – 57, 12)
Outro [remédio] para a doença deSArw em ambos os olhos:
Fígado de vaca, cozinhado e pressionado (= no olho). Um método com sucesso.

Eb 352 (57, 12)
Outro [remédio] para retirar sangue de ambos os olhos:
Incenso 1, aipo 1, passar em ambos os olhos.

Eb 353 (57, 13 – 57, 14)
Outro [remédio] para tirar uma concentração de calor de ambos os olhos:
Colocíntida 1, cosmético para os olhos preto 1, frutos da planta-tntj 1, aplicar nas pálpebras.

Eb 354 (57, 14 – 57, 15)
Outro [remédio] para remover gordura de ambos os olhos:
Cosmético para os olhos preto 1, cosmético para os olhos verde 1, ocre vermelho 1, sA-wr-mineral 1, mel 1, aplicar nas pálpebras.

Eb 355 (57, 15 – 57, 17)
Outro [remédio] para remover um grão de cevada do olho:
Bálsamo-snn 1, cosmético para os olhos preto 1, xt-awA 1, maquilhar os olhos com isto.

Eb 356 (57, 17 – 57, 21)
Outro [remédio] para a cegueira:
Olhos de porco 1, tirar (os) e colocar (?) em água, cosmético preto para os olhos verdadeiro 1, ocre vermelho 1, produto da fermentação de mel 1, pulverizar finamente numa massa uniforme, verter no ouvido do homem, de modo a que ele fique imediatamente saudável. Faz isto e verás um método bem sucedido. Depois, deves dizer isto, como se fosse um feitiço: 'Eu causei isto, e no lugar do presente, substitui o sofrimento que grassa', duas vezes.

Eb 357 (57, 21 – 58, 2)
Outro [remédio] para remover a cegueira de ambos os olhos através...
.......


Notas:
sA-wr - um mineral contendo cobre ou ferro
sjA – um mineral não identificado
Trw - ocre de Elefantina, talvez de cor vermelha (usado também como material para pequenos ídolos)
xt-awA – madeira-pedra, madeira petrificada? madeira apodrecida?
tntj – planta indeterminada
snn – bálsamo ou resina não identificados. Bálsamo de Meca? Mirra?
colocíntida [Citrullus Colocynthis] - planta da família das cucurbitáceas, com frutos semelhantes à melancia, de polpa amarga e purgativa.
natrão - mineral composto por carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, sal e sulfato de sódio. O natrão era uma das substâncias utilizadas pelos antigos egípcios no processo de mumificação. Destinava-se à desidratação das células e combate às bactérias. Na antiguidade egípcia também era usado para branquear roupa, e misturado com argila formava um tipo de sabão, com uso no preparo da lã.

 

Fontes:


Tradução: Maria José Alegre, 2012
 


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[16.Mai.2012]
Publicado por MJA