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 Sobre a Deficiência Visual


Os Irmãozinhos

Cesário Verde

Beggar and her Guiding girl - Ivan Yermenyov, c. 1770



Pois eu, que no deserto dos caminhos,
Por ti me expunha imenso, contra as vacas;
Eu, que apartava as mansas das velhacas,
Fugia com terror dos pobrezinhos!

Vejo-os no pátio, ainda! Ainda os ouço!
Os velhos, que nos rezam padre-nossos,
Os mandriões que rosnam, altos, grossos;
E os cegos que se apoiam sobre o moço.

Ah! Os ceguinhos com a cor dos barros,
Ou que a poeira no suor mascarra,
Chegam das feiras a tocar guitarra,
Rolam os olhos como dois escarros!

E os pobres metem medo! Os de marmita,
Para forrar, por ano, alguns patacos,
Entrapam-se nas mantas com buracos,
Choramingando, a voz rachada, aflita.

Outros pedincham pelas cinco chagas;
E no poial, tirando as ligaduras,
Mostram as pernas pútridas, maduras,
Com que se arrastam pelas azinhagas!

Querem viver! E picam-se nos cardos;
Correm as vilas; sobem os outeiros;
E às horas de calor, nos esterqueiros,
De roda deles zumbem os moscardos.

Aos sábados, os monstros, que eu lamento,
Batiam ao portão com seus cajados;
E um aleijado, com os pés quadrados,
Pedia-nos de cima de um jumento.

O resmungão! Que barbas! Que sacolas!
Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
Dormia as noutes por telhados rotos,
E sustentava o burro a pão de esmolas.



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in "Em Petiz"
poema de Cesário Verde
[1855-1886]
 


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Nós - uma leitura de Cesário Verde
por Helder Macedo
(pág.137)

«... Ao reintegrar os factos reais da sociedade rural na visão idealizada do campo arcádico, Cesário estava a fazer uma crítica moral profunda e radical não só dessa falsa visão mas também da classe social cujos valores essa visão reflectia.
Com efeito, que “EM PETIZ” continha qualquer coisa de gravemente ofensivo para a ordem social estabelecida é confirmado pela reacção escandalizada que a sua publicação provocou.
O “Diário Ilustrado”, porta-voz dessa reacção, foi ao ponto de imputar a Cesário o tipo de atitude que o poema tão eloquentemente ataca (…)
(...) É óbvio que Cesário Verde não considerava que caridade individual e palavras de conforto nas colunas dos jornais fossem suficientes para vestir e alimentar os “irmãozinhos”. E deve ter desejado que o seu poema provocasse uma reacção de revolta por causa das condições sociais e não por tê-las revelado.
Porque o que Cesário faz neste poema é destruir, por dentro, a visão convencional do campo sorridente e ameno que ele próprio tinha adoptado nos seus primeiros poemas.
»   in  blog Anónimo séc. XXI
 


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16.Out.2013
Publicado por MJA