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Pois eu, que no deserto dos caminhos, Por ti me expunha imenso, contra as vacas; Eu, que apartava as mansas das velhacas, Fugia com terror dos pobrezinhos!
Vejo-os no pátio, ainda! Ainda os ouço! Os velhos, que nos rezam padre-nossos, Os mandriões que rosnam, altos, grossos; E os cegos que se apoiam sobre o moço.
Ah! Os ceguinhos com a cor dos barros, Ou que a poeira no suor mascarra, Chegam das feiras a tocar guitarra, Rolam os olhos como dois escarros!
E os pobres metem medo! Os de marmita, Para forrar, por ano, alguns patacos, Entrapam-se nas mantas com buracos, Choramingando, a voz rachada, aflita.
Outros pedincham pelas cinco chagas; E no poial, tirando as ligaduras, Mostram as pernas pútridas, maduras, Com que se arrastam pelas azinhagas!
Querem viver! E picam-se nos cardos; Correm as vilas; sobem os outeiros; E às horas de calor, nos esterqueiros, De roda deles zumbem os moscardos.
Aos sábados, os monstros, que eu lamento, Batiam ao portão com seus cajados; E um aleijado, com os pés quadrados, Pedia-nos de cima de um jumento.
O resmungão! Que barbas! Que sacolas! Cheirava a migas, a bafio, a arrotos; Dormia as noutes por telhados rotos, E sustentava o burro a pão de esmolas.
in "Em Petiz"
poema de Cesário Verde
[1855-1886]
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Nós - uma leitura de Cesário Verde
por Helder Macedo
(pág.137)
«...
Ao reintegrar os factos reais da sociedade rural na visão idealizada do campo arcádico, Cesário estava a fazer uma crítica moral profunda e radical não só dessa falsa
visão mas também da classe social cujos valores essa visão reflectia.
Com efeito, que “EM PETIZ” continha qualquer coisa de gravemente ofensivo para a ordem social
estabelecida é confirmado pela reacção escandalizada que a sua publicação provocou.
O “Diário Ilustrado”, porta-voz dessa reacção, foi ao ponto de imputar a Cesário o
tipo de atitude que o poema tão eloquentemente ataca (…)
(...) É óbvio que Cesário Verde não considerava que caridade individual e palavras de conforto nas colunas dos jornais
fossem suficientes para vestir e alimentar os “irmãozinhos”. E deve ter desejado que o seu poema provocasse uma reacção de revolta por causa das condições sociais e não
por tê-las revelado.
Porque o que Cesário faz neste poema é destruir, por dentro, a visão convencional do campo sorridente e ameno que ele próprio tinha adoptado nos seus primeiros poemas.»
in blog Anónimo séc. XXI
16.Out.2013
Publicado por
MJA
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