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 Sobre a Deficiência Visual

 

Os Três Cegos de Compiègne

Anónimo, séc. XIII

Caravana de ciegos - Manuel Vega Lopez
Caravana de ciegos - Manuel Vega Lopez, 1919
 

Caminhavam três ceguinhos pelos arredores de Compiègne, todos no mesmo passo, sem ninguém que os guiasse. Cada um com seu alforge e miseravelmente trajados,  dirigiam-se os três a Senlis.

Um cavaleiro que vinha de Paris, contumaz tanto no bem quanto no mal, com esplêndido ginete e escoltado por seu escudeiro, aproximou-se a passos rápidos dos três cegos, graças aos passos céleres da sua montaria, e, observando que não havia quem os guiasse, perguntou a si mesmo, por que eles não se desviavam de rumo, acrescentando em seguida:

― Que me cresçam chifres na testa se estes malandros não enxergarem!

Os três cegos ouviram o cavaleiro aproximar-se e os três afastaram-se para um lado da estrada, implorando-lhe uma esmola, nos seguintes termos:

― Fazei-nos uma caridade, pelo amor de Deus; somos pobres e mais pobres ainda por sermos cegos!

Para melhor certificar-se da cegueira que ele presumia ser somente um embuste dos mendigos, o cavaleiro resolveu enganá-los, fingindo dar-lhes a esmola pedida.

― Eis aqui ― disse-lhes ― uma moeda de ouro para repartir entre vocês.

― Que Deus e a Santa Cruz vos gratifique, pois nada desprezível é a vossa generosidade ― responderam os ceguinhos, supondo cada qual que o companheiro tivesse recebido a moeda.

O cavaleiro fingiu continuar viagem; mas, curioso de presenciar a partilha, parou o cavalo, desmontou-o e ouviu o que os três cegos discutiam entre eles. O mais engenhoso dos três disse:

― Ele não nos contentou com migalhas, pois que esplêndido presente nos deu! Sabeis o que devemos fazer? Voltar à cidade, coisa que há muito tempo não desfrutamos, e é justo que cada um de nós se divirta à vontade e gosto, e assim o faça em Compiègne, pródiga e abundante em toda a sorte de atractivos.

― Ante palavras tão persuasivas ― acrescentou outro cego ― vamos apressar-nos a atravessar a ponte.

E para Compiègne lá foram eles, tal como combinado. E iam os três alegres e satisfeitos, sempre seguidos peio cavaleiro que se prometera não perdê-los de vista, para saber quais eram os seus propósitos.

E os cegos entraram na cidade, onde ouviram alguns pregões:

“Ao bom e novo vinho fresco de Auxarre e de Suisson! Ao pão fresco, carne assada e peixes recheados! Albergue para todos com excelente hospedagem! O que eu anuncio merece ser acreditado, e confiado pode ficar quem entrar na minha hospedaria.”

Ao qual responderam os ceguinhos:

― Oportuno é tal pregão, pois embora seja muito desmerecedora a nossa figura, vamos nos contentar com umas tristes migalhas? Queremos ser bem tratados e para isso pagaremos com o maior desprendimento, pois de tudo queremos o melhor.

O hospedeiro, pensando que diziam a verdade e que às vezes gente de tal catadura dispõe de mais dinheiro do que outros, apressou-se em conduzi-los ao quarto mais confortável da hospedaria, dizendo-lhes:

― Respeitáveis cavalheiros, por que não permaneceis na minha hospedaria por uma semana inteira? Podereis viver a bom gosto e com conforto! Juro-vos que não haverá em toda cidade pratos mais suculentos e bebidas mais saborosas do que eu vos possa oferecer.

Ao que os ceguinhos responderam:

― Ide, logo, senhor hospedeiro, por tudo o que ofereceis, e mandai trazer logo essas preciosidades.

E assim dizendo, apresentou o hospedeiro três abundantes pratos, consistentes em carne, empadas e leitões, bem temperados e acompanhados de saborosos nacos de pão branco e regados a jarros de um generoso vinho e bebidas que serviu, após ter acendido a lareira junto à qual se puderam aquecer os hóspedes, antes de se sentarem ao redor da enorme mesa.

Enquanto isso, o cavaleiro deixou o ginete na cavalariça e aprestou-se, mesmo com o apuro de sua indumentária, para almoçar e cear com o hoteleiro de manhã e à noite, se fosse preciso, enquanto os cegos nos melhores quartos da hospedaria, conforme já se disse, eram servidos e atendidos como grandes senhores. Promoviam grande algazarra, ofereciam-se vinhos mutuamente, como se fossem pessoas de destaque.

― Bebe tu, agora, que em seguida hei-de beber eu se diziam e assim daremos fim ao que tão excelente vinho propiciou.

Ninguém suspeitava que algo os importunasse, em tão festiva comemoração. Chegaram à meia-noite tranquilos, e sem presumir perigo algum, recolheram-se aos alvos e macios leitos nos quais haveriam de repousar até bem tarde da manhã seguinte.

O fino cavaleiro, de sua parte, estava sempre presente, pois queria presenciar o fim de toda aquela grande burla.

Despertou-se o hoteleiro de madrugada e, em companhia de seu servidor, repassou e recontou os gastos feitos pelos mendigos. E disse o rapaz a seu amo: ― De tal maneira beberam e comeram esses famintos, que só de pão, vinho e empadas lhes sobe a mais de dez moedas.

― O senhor cavaleiro, por sua vez, gastou por cinco!! ― respondeu o criado.

― Não é por ele que devemos temer ― acrescentou o patrão ― mas sim pelos outros. Anda, sobe lá e cobra deles.

O rapaz chegou logo aos aposentos onde os três ainda dormiam.

― Vamos, aprontai-vos o mais depressa possível ― disse-lhes ―, pois meu amo quer cobrar os vossos gastos.

― Nada de impaciência ― lhe responderam os três ― que pagaremos o que é devido, basta saber a quanto sobem nossos gastos!

E o mancebo atalhou: ― Só dez moedas.

― Nem vale o trato que recebemos! ― responderam os mendigos, já em pé e abandonando o quarto.

O cavaleiro que, em baixo, fingia dormir em duro leito, ouviu os três cegos dizerem ao hoteleiro mais ou menos o que se segue:

― Senhor hoteleiro, temos como pagar, apenas uma moeda; porém, como podereis verificar, é de bom peso, o que significa que tereis de nos devolver o sobrante antes que façamos maior consumo.

Ao que o hoteleiro respondeu:

― Assim o farei.

E um dos cegos acrescentou:

― Pois que pague o que tem a moeda. Não serei eu que o faça, pois não a tenho.

― Quem a guarda, então, é o Roberto Barba Florida! ― replicou o segundo.

― Eu? Eu não tenho moeda nenhuma! Só restas tu ― aduziu o terceiro.

― Por todo o sangue que corre nas minhas veias, juro que não carrego um só centavo.

― Então quem a tem? ― voltou a indagar o primeiro.

― Quem haverá de tê-la? Tu! ― insistiu o segundo. ― E, se não fores tu, não resta outro que não este aqui ― ajuntou, referindo-se ao terceiro companheiro.

Ao que novamente teve de declarar o aludido: ― Já disse que não tenho moeda nenhuma!

Assistindo a tal disputa, o hospedeiro interrompeu-os para dizer: ― Se não me pagais, grandessíssimos tratantes, juro pelo meu nome que sereis açoitados até que nos vossos nojentos corpos não fique um só lugar sem cicatriz, e depois disso, para um castigo maior ainda, sereis encarcerado num medonho calabouço.

Os cegos começaram a implorar, ao ouvirem tamanha ameaça:

― Não! Isso não! Em nome de Deus, caridade, e esperai, bom hoteleiro, que sereis pago até ao último real!

E mais uma vez começou a disputa entre os três.

― Paga, Roberto! Paga e entrega a moeda, já que foste tu que a recebeste, porque ias na dianteira e foi a ti que a deram.

― Pelo contrário ― respondeu Barba Florida. ― És tu que tens de pagar, pois vindo logo atrás de nós, é lógico que tu a recebesses.

E vendo tais acusações de uns aos outros, deste àquele e daquele a estes, o hoteleiro, já enfurecido, gritou:

― Vamos acabar com isso! A semelhantes malandragens costumo responder eu com pancadas!

E assim dizendo, fez com que seu servidor estalasse a ponta do longo chicote.

O cavaleiro de bolsa bem repleta e com o queixo cansado de tanto rir ao ouvir a disputa do hoteleiro com os seus hóspedes, e notando o perigoso rumo que a coisa ia tomando, aproximou-se do hoteleiro perguntando a razão de tanta discussão e o que pretendia aquela pobre gente.

― Comeram e beberam do melhor até ficarem empanturrados e agora pretendem dar o calote! ― respondeu o hospedeiro, acrescentando: ― Pretendo adornar-lhes com o açoite estes rostos desavergonhados, de maneira que não poderão mais se apresentar ante pessoas honestas.

― Pois se é esse o motivo, termina aqui a contenda, acrescentando ao meu os gastos deles ― disse o cavaleiro. ― E se vos devia cinco moedas, assim vos deverei quinze, por serem dez, segundo escutei, o que estes infelizes vos devem. E observai que faz mal o que aos pobres e desvalidos importuna, da maneira com que pretender fazer com estes delituosos.

― Valente, leal e generoso senhor ― respondeu o hoteleiro ―, de bom grado concordo com vossos desejos.

Contentes partiram então os três cegos, por se terem livrado de tão difícil situação e por terem liquidado as suas dívidas de tão estranha maneira.

Mas escutai ainda a tramóia de que se valeu o cavaleiro para não pagar gasto algum.

Precisamente naquele momento se ouviu o repicar do sino da igreja próxima, chamando para a missa, o que sugeriu ao distinto cavaleiro isto, que em seguida disse ao hoteleiro:

― Com certeza, senhor, conheceis alguém da abadia, que responderá pelas quinze moedas que vos devo e ante tal garantia me fiarei essa soma.

― Desde logo, senhor cavaleiro ― acrescentou o hoteleiro ―, por São Silvestre bendito, como não fiar no nosso bom pároco, a quem não já a quantia que me deveis, mas sim trinta libras emprestaria com toda a confiança?

― Ah! Pois então ― respondeu o cavaleiro ―, tende por certo que quando voltar da abadia a minha dívida será saldada.

Concordou o hospedeiro e, satisfeito, disse o distinto cavaleiro ao escudeiro que se dispusesse a partir, que ajaezasse os animais e preparasse a equipagem. Rogou depois ao hoteleiro que o acompanhasse, e ambos se dirigiram à abadia, onde entraram, posicionando-se junto ao altar.

O cavaleiro e devedor pegou seu credor pela mão, fazendo com que se sentasse a sua esquerda; mas de repente disse:

― Não terei tempo de ficar até o final; mas como pretendo cumprir o que vos ofereci, vou dizer ao vigário que em meu nome lhe pague as quinze moedas, assim que acabar de oficiar a missa.

E nele acreditando piamente, assim lhe respondeu o hoteleiro:

― Como desejais, senhor.

Pôs-se então o fino cavaleiro entre o vigário revestido com seus paramentos sagrados e, em pé, com a graça e a nobreza de seu porte, extraiu do bolso doze moedas, entregando-as de mão própria ao oficiante, enquanto lhe dizia:

― Senhor! Por São Germano vos rogo que me presteis ouvidos e este dinheiro: todos os homens de boa vontade devem ser amigos, e por isso me atrevi a me aproximar do altar e chegar até vós e dizer que, na noite passada, em uma hospedaria, da qual o dono é um homem de bem, prudente e sem malícia como assim consta ser o bendito Jesus, Nosso Senhor. Mas uma cruel doença atacou-o subitamente, ontem à noite, alterando seu juízo, precisamente quando os hóspedes e ele se encontravam a meio de uma grande confusão. Pouco tardou, graças a Deus, a recobrar o discernimento. Porém ainda tem perdida a razão e seria uma grande caridade conseguir a sua cura completa; e para tanto vos rogo ler sobre a sua cabeça o Evangelho inteiro, assim que termineis vossos cânticos religiosos.

― Pois vos juro em nome de São Gil ― respondeu o vigário ― que hei de fazer tudo o que me estais pedindo.

E dirigindo-se ao hoteleiro, com voz firme lhe disse:

― Assim que acabar a missa, cumprirei o que este cavaleiro me pede.

Ao que o hoteleiro respondeu:

― Não quero outra coisa, senhor vigário, e a Deus e a vós me recomendo.

Obtida a promessa, despediu-se o cavaleiro do oficiante:

― Que o Senhor cuide de vós, pai e mestre!

O vigário aproximou-se do altar e deu início à missa maior, a qual era muito concorrida por ser festa de domingo. No entanto, o devedor se aproximou do credor para despedir-se dele, e o credor, solícito e reconhecido, acompanhou-o até a hospedaria. O cavaleiro e seu cavalo, seguido pelo escudeiro, empreendeu a marcha em trote rápido enquanto que o hoteleiro regressava com pressa para a abadia, na ilusão de reaver suas quinze moedas. E ali, perto do altar, esperou o remate da missa e que o sacerdote se despojasse de suas sagradas vestes.

Concluído o divino ofício, o clérigo apanhou o missal, tendo, provavelmente, rodeado o seu peito com a estola, e, aproximando-se do hoteleiro, disse-lhe com voz imperativa:

― Ajoelhai-vos mestre Nicola ― ordem e palavras que não agradaram ao hoteleiro, como ele o demonstrou ao replicar:

― Senhor vigário, eu não vim aqui para isto, mas sim para que me pagueis as minhas quinze moedas.

O clérigo respondeu:

― Salta aos olhos que este infeliz não raciocina ― e, elevando os olhos aos céus, acrescentou: ― Ajudai-me, Senhor meu, e devolvei o juízo a este desventurado. Sabei, Santo Deus, que ele está louco, basta ouvi-lo para sabê-lo.

Ao escutar tais palavras, o hoteleiro encarou os fiéis ajoelhados para dizer o que segue:

― Ouçam, ouçam como brinca este santo varão! Ainda não fiquei louco, mas ele fará com que eu perca a razão se assim continuar este clérigo a farsa de pretender fazer-me voltar a razão, colocando o livrete em cima da minha cabeça!

Insistiu o cura, desta vez já em tom de prece:

― Escutai-me! Escutai-me bem, que tudo o que nos chega pela vontade de Deus nunca traz desventura! Este livro, que pela segunda vez coloco sobre a sua cabeça, é o Evangelho.

― Não duvido disso, senhor sacerdote ― replicou o hoteleiro, não convencido da eficácia do ritual. ― Mas como nada disso tudo me importa, e na taverna o trabalho me aguarda, pela terceira vez vos digo que a única coisa que eu quero é que o meu dinheiro seja pago.

De nada serviu tal insistência, pois o vigário, chateado já com a insistência do hoteleiro, agrupou em torno de si os fiéis para lhes dizer:

― Este infeliz está completamente maluco!

Aos gritos, o hoteleiro protestou:

― Pelo sangue de Santa Cornélia e pela fé que tenho na minha filha, não existe em mim pingo desta tal loucura! Exijo que parem com a enganação e que me paguem o que me devem!

O vigário, assustado diante da atitude violenta do reclamante, ordenou aos fiéis à sua volta:

― Segurem-no!

E os fiéis, sem esperar uma segunda ordem, caíram sobre o hospedeiro, segurando-o com força pelos pés e pelas mãos. Todos tiveram o cuidado, com boas falas, enquanto o cura, com a estola no pescoço, levantava e descia de novo o missal sobre a cabeça do mestre Nicola, lendo o Evangelho do princípio ao fim. E, sempre supondo a demência do mestre Nicola, lhe aspergiu borrifos de água benta.

Finalmente o assustado hoteleiro pede para voltar à hospedaria, prometendo não reclamar mais nada de pessoa alguma.

Benzeu-o então o clérigo, dizendo:

― Vai, bendito de Deus, filho meu, que já estás livre do teu mal!

Guardou o hoteleiro um prudente silêncio e, cego de vergonha e de desgosto por ter sido causa de tal afronta e engodo, voltou cabisbaixo e sem mais demoras para a sua hospedaria.

FIM


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LES FABLIAUX
Joseph Bédier, estime à près de 150 ces récits écrits entre 1159 et 1340, en majorité dans les provinces du nord—Picardie, Artois et Flandre. Une partie de leurs sujets appartient au patrimoine de tous les pays, de tous les peuples et de toutes les époques ; certains sujets sont apparus spécifiquement en Inde ou en Grèce; mais la plus grande quantité de ces fabliaux est née en France, ce que prouvent soit les particularités des mœurs décrites, soit la langue, soit les indications de noms historiques ou encore d'événements.
Les auteurs en sont des clercs menant une vie errante, clercs gyrovagues ou clercs goliards, des jongleurs, parfois des poètes ayant composé d'autres façons, des poètes-amateurs appartenant à des ordres différents du clergé. Dès lors, bon nombre de fabliaux sont anonymes et, si nous connaissons certains auteurs par leur nom, c'est là que se limite notre science.
Ni par la forme ni par le fond, on ne peut donc ranger les fabliaux parmi les véritables œuvres d'art, ou les vraies œuvres littéraires. Leurs auteurs d'ailleurs ne se piquaient pas de littérature: leur but premier était d'attirer l'attention du public peu cultivé, mais en même temps le plus nombreux, en l'amenant à un gros rire, salutaire au fond puisqu'il lui donnait la force d'oublier pendant un moment les chagrins et les souffrances. Peut-être pour la première fois dans l'Europe du Moyen Âge, c'est un esprit nouveau, presque moderne, qui surgit. C'est déjà le rire, la joie de vivre qui remplacent la morosité et la rectitude médiévales.
L'esprit laïc dont les fabliaux sont pénétrés reporte l'intérêt sur la réalité, le quotidien. C'est un progrès immense par rapport à l'idéal médiéval de l'ascétisme. Même si l'esprit n'apparaît que dans sa manifestation la plus inférieure, la ruse, c'est un progrès considérable dans une époque qui ne lui attachait aucune importance et lui déniait la possibilité de percer les secrets de la nature.
D'un autre côté, face à la puissance grossière de l'argent, on proclame pour la première fois le principe que la ruse ou l'esprit constituent une vraie force: miex fait l'engein que ne fait force. in Wikipedia
 


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Os Três Cegos de Compiègne
Anónimo
França, séc. XIII
Conto recolhido por Courtebarbe a partir da versão em francês arcaico de Joseph Bédier.

Fonte: books Google


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[6.Março.2013]
Publicado por MJA