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 Sobre a Deficiência Visual


A Obra ao Negro

Marguerite Yourcenar

-excerto-

Interior de uma taberna com um violinista cego -Jan August Hendrik Leys, 1844 (pormenor)
Interior de uma taberna com um violinista cego - Jan August Hendrik Leys, 1844 (pormenor)


Continuando no seu caminho, ficou Zenão de novo só. Cerca do meio-dia, sentou-se para comer o pão, num talude de onde já se avistava a linha cinzenta do mar.

Um caminhante munido de um grande bordão veio sentar-se ao pé dele. Era um cego, que do seu alforge tirava também qualquer coisa para quebrar o jejum. O médico admirou a habilidade com que aquele homem de olhos brancos se desembaraçou da gaita-de-foles que trazia ao ombro, desatando a correia e pousando delicadamente o instrumento sobre a relva.

O cego felicitava-se por o dia estar tão bom. Ganhava a vida fazendo dançar os rapazes e raparigas na estalagem ou nos pátios das quintas; nessa noite ia dormir a Heyst, aonde no domingo tocaria; seguiria depois para os lados de Sluys: graças a Deus, havia sempre juventude bastante de quem auferir lucro e mesmo, às vezes, prazer. Mynheer talvez não acreditasse, mas havia mulheres que gostavam de cegos: não tinha nada que lamentar-se da desdita de já não ver.

Como muitos outros cegos, também este usava e abusava da palavra ver: via que Zenão era um homem na força da idade e que tinha educação; via que o Sol estava ainda a meio do céu; via que quem ia a passar numa vereda por detrás deles era uma mulher meio doente transportando uma canga de onde pendiam dois baldes. Nem tudo, porém, era falso nessas gabarolices: foi ele quem primeiro se apercebeu do deslizar de uma cobra por entre a erva. Chegou mesmo a tentar matar com o pau o repugnante animal. Zenão deixou-o, depois de lhe ter feito a esmola de um liarde e afastou-se no meio de ruidosas bênçãos. [...]

 

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A OBRA AO NEGRO de Marguerite Yourcenar

O percurso de Zenão, no pano de fundo da Europa da primeira metade do século XVI. Uma obra-prima em nada inferior a “Memórias de Adriano”, o romance que celebrizou Yourcenar. Constituindo um espantoso fresco da Europa do século XVI — das intrigas políticas às querelas religiosas, da filosofia à vida quotidiana, da cultura literária às discussões científicas —, “A Obra ao Negro” é também a história pessoal de Zenão, o filho bastardo de um grande negociante de Bruges, cujo pai, que não chega a reconhecê-lo, era ainda aparentado com a poderosa família dos Médicis. Médico, filósofo e alquimista, podem ver-se na vida de Zenão, embora o romance não o assuma expressamente, as etapas da Grande Obra alquímica, com os seus momentos de decantação, dissipação e sublimação. O objectivo da alquimia, reclama a tradição, era o de transformar o próprio alquimista. A transmutação dos metais constituía apenas o seu fito aparente, a face visível de uma operação interior. Logo no primeiro capítulo deste romance, sintomaticamente intitulado “O Longo Caminho”, Zenão despede-se de um primo, dizendo-lhe: “Há alguém à minha espera. Vou até lá.” Pergunta o interlocutor: “Quem é?” E Zenão responde: “Hic Zeno. Eu mesmo.” Por Luís Miguel Queiroz
 


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A Obra ao Negro

A Obra ao Negro
Marguerite Yourcenar
[excerto]
título original: L'Oeuvre ao Noir
tradução: António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes
1968, Éditions Gallimard
1985, Publicações Dom Quixote

 


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23.Jan.2014
Publicado por MJA