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 Sobre a Deficiência Visual


O Último Olhar

José Guerra

Blind Bird - Maurice Henry [1907-1984]
Pássaro Cego - Maurice Henry


O ruído do motor tornou-se mais nítido e, súbito, o pequeno avião monomotor surgiu num voo rasante sobre os telhados. Por duas ou três vezes traçou círculos apertados e, finalmente, rumou ao Sul, recuperando altitude. Quando o seu único tripulante lançou um último olhar para trás, vendo o casario afastar-se, não podia saber que era a derradeira vez que olhava a sua terra natal.

O avião, de cor prateada, com largas faixas vermelhas na cauda e nas asas, assemelhava-se a uma gigantesca ave de penas coloridas, deslizando tranquilamente ao Sol daquele início de Verão, indiferente à pequenez dos que se arrastavam no solo.

O homem, ainda jovem, que manipulava os comandos da aeronave, aparentava um ar calmo, talvez cansado. Vestia um uniforme de voo azul carregado, onde contrastava o lenço de seda amarelo que lhe pendia do pescoço. Levava auscultadores, donde partia um fio que o ligava a outros homens, os quais do alto das suas imponentes torres de comando, espiavam os céus com os seus radares, ditavam os rumos, as altitudes, as conveniências de fazer uma aproximação directa à pista ou de fazer um tempo de espera, para que outros, com maiores urgências, tivessem a prioridade que lhes é devida.

Os olhos do navegante, de um tom que oscilava entre o azul e o verde, tinham reflexos de treino profissional quando olhavam para a frente, frequentemente para a esquerda e para a direita, e por vezes para o painel de instrumentos, onde oscilavam dezenas de ponteiros. De quando em quando olhava para o mundo que corria sob os seus pés e, nesse momento, o olhar iluminava-se, reflectindo o espanto pelas coisas já vistas mas sempre admiradas.

O terreno era de baixa montanha. Pelas encostas suaves desciam largas manchas esverdeadas de pinhal, que se quedavam à entrada dos vales para dar lugar a mosaicos de terra cultivada. Aqui e ali escorria um refulgente curso de água, ora atravessado por minúsculas pontes, ora interrompido por pequenas albufeiras.

As aldeias estavam incrustadas nas encostas soalheiras ou expandiam-se pelos vales, às vezes circundando o largo da igreja, outras alongando-se por estradas mais movimentadas.

Eram quase cinco horas da tarde quando a torre de controlo do aeródromo militar de Tancos, autorizou o pequeno avião a aterrar, Quase não havendo vento, circunstância meteorológica que permitiu ao Dornier 27 pousar com suavidade o asfalto da pista.

O avião abrandou a velocidade e, como se conhecesse bem o terreno que pisava, voltou à direita por um caminho asfaltado que conduzia às placas de estacionamento, atravessando o descampado que as separava da pista principal. Quando a aeronave se imobilizou e o motor se calou, o piloto saltou com destreza para o solo.

Havia decorrido quase um mês desde que eu partira para cumprimento de uma missão no nordeste transmontano. A estada nas terras nordestinas tinha sido agradável, as pessoas eram simpáticas e, nenhuma alma podia ficar indiferente à majestosa paisagem que eu tivera oportunidade de vislumbrar do alto dos voos de missão ou de treino. Mas era bom regressar a "casa".

Numa das missões que havia efectuado nas terras altas de Trás-os-Montes, havia sido surpreendido por uma violenta tempestade e, agora, olhando para a frágil estrutura do monomotor, surpreendia-me que ele tivesse saído intacto de dentro daquelas nuvens onde tinham convergido todas as iras da natureza.

Piloto da Força Aérea Portuguesa! Concretização de um sonho, de um desejo, de uma vontade. Até que ponto era arriscado? Voltei a recordar o incidente da súbita tempestade, relembrei a falha de motor que tivera meses antes em plena aproximação à pista durante um voo nocturno, e a forma bem sucedida como havia ultrapassado a emergência, e tive uma premonição: era em terra que estava o perigo!

Só não sabia que estava tão próximo e para tão breve!

Nessa noite, como consta do auto de ocorrências, laboriosamente lavrado, foi inadvertidamente detonado um engenho explosivo, vulgo granada do tipo ofensivo, e o 2.º sargento José Guerra, piloto, de 22 anos de idade, ficou cego, portanto irremediavelmente incapacitado para missões operacionais, conforme mais tarde haveria de ser comprovado em competente junta médica militar.

FIM


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José Guerra - foto

José Guerra
13-09-1952 — 7-12-2012

Nascido em Cantanhede, José Adelino Figueira Guerra ficou cego aos 22 anos na sequência de um acidente, ocorrido no cumprimento do serviço militar.

Em 1989, foi um dos fundadores da ACAPO, tendo desempenhado as funções de Presidente da Direção Nacional entre 1996 e 1999. Foi ainda diretor da revista «Luís Braille», e o primeiro representante da ACAPO no Conselho Nacional para a Reabilitação. Em 1997, foi o primeiro Presidente da CDAC (Comissão para o Desenvolvimento das Associações de Cegos de Língua Portuguesa), tendo ainda representado a ACAPO em diversas comissões e organizações, nacionais e internacionais.

Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi também nesta cidade que concluiu um curso de especialização em Ciências Documentais. Na década de 90, criou na Biblioteca Municipal de Coimbra o Serviço de Leitura Especial para Deficientes Visuais. Era actualmente director de “Jardim da Sereia – Revista Inclusiva de Divulgação Tiflocultural», criada este ano pela Biblioteca Municipal de Coimbra.
 

Fonte: Lerparaver


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21.Dez.2012
Publicado por MJA