Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual


O Sermão do Fogo

T.S. Eliot

TIRÉSIAS - pormenor da escultura de Ralph Brown, 1954
TIRÉSIAS - pormenor de escultura de Ralph Brown, 1954
 

O personagem central de "The Waste Land" é, para T. S. Eliot, o vidente tebano Tirésias, ali presente como o espectador secreto (Peeping Tom), velho de tetas estriadas (homem-mulher) e cego que pode antever o futuro da cidade como ninguém. Transportado da mitologia directamente para o século XX, o clairvoyant sofre mutações profundas, em consonância com a lógica antitética da Londres moderna.  [André Cechinel, 2010]

 

ϟ
 

A tenda do rio rompeu-se: os derradeiros dedos de folhas
Agarram-se e enterram-se na margem húmida. O vento
Atravessa a terra parda, sem se ouvir. As ninfas partiram.
Gentil Tamisa, corre lento, até eu findar meu canto.
O rio não leva garrafas vazias, papéis de sanduíche,
Lenços de seda, caixas de cartão, pontas de cigarro,
Ou outros testemunhos de noites de verão. As ninfas partiram.
E os amigos delas, os vadios herdeiros dos directores da City -
Partiram, não deixaram endereços.
Junto às águas do Leman assentado eu chorei ...
Gentil Tamisa, corre lento, até eu findar meu canto,
Gentil Tamisa, corre lento, que eu não falo nem alto nem muito.
Mas por detrás de mim num estrondo frio eu ouço
O restolhar dos ossos, e a risada aberta de uma orelha à outra.

Uma ratazana deslizou lenta pela vegetação
A arrastar a barriga viscosa pela margem
Enquanto eu pescava no turvo canal
Num entardecer de inverno nas traseiras da central do gás
A cismar no naufrágio do rei meu irmão
E na morte antes dele do rei meu pai.
Corpos brancos nus no chão baixo e húmido
E ossos lançados num exíguo sótão baixo e seco,
Só restolhados pela pata da ratazana, de um ano ao outro.
Mas por detrás de mim de vez em quando eu ouço
Buzinas e automóveis, que hão-de trazer
Sweeney à Sr.ª Porter quando for Primavera.
Oh estava a Sr.ª Porter pela lua iluminada
Assim como a filha estava
Ambas lavam os pés em água com soda
Et O ces voix d'enfants, chantant dans la coupole!

Twit twit twit
Tuít tuít tuít
Chac chac chac chac chac chac
Tão brutamente violentada.
Tereu

Cidade irreal
Sob o nevoeiro pardo de um meio-dia de Inverno
O Sr. Eugenides, o mercador de Esmirna
De barba por fazer, um bolso cheio de passas
C.i.f. Londres: documentos à vista,
Convidou-me em francês demótico
Para um almoço no Cannon Street Hotel
Seguido de um fim-de-semana no Metropole.

À hora violeta, quando os olhos e as costas
Se elevam da secretária, quando a máquina humana aguarda
Como um táxi latejante à espera,
Eu Tirésias, embora cego, latejante entre duas vidas,
Um velho com seios mirrados de mulher, consigo ver
À hora violeta, a hora do entardecer que se arrasta cansada
De caminho a casa, e traz o marinheiro de regresso do mar,
A dactilógrafa em casa à hora do chá, levanta o pequeno-almoço, acende
O fogão, e põe na mesa comida de conserva.
Perigosamente estendidas por fora da janela,
Secam as combinações, que o sol toca com os derradeiros raios,
Em monte no divã (à noite a cama dela)
Meias, chinelas, corpetes e espartilhos.
Eu Tirésias, um velho de tetas mirradas
Entendi a cena e antecipei o resto -
Também eu aguardava o visitante previsto.
Ele chega, o jovem carbuncular, um funcionário
Numa modesta agência predial, de feição atrevida,
Um pobre diabo em quem assenta o brio.
Como um ricaço de Bradford cartola de seda.
A altura é, ele prevê, propícia,
A refeição acabou, ela indolente e cansada,
Procura convencê-la por carícias
Não repelidas, se é que indesejadas.
Afogueado e decidido, passa à acção;
As mãos intrometidas têm licença;
Não pede contrapartida a presunção
E até lhe é bem-vinda a indiferença.
(E eu Tirésias já de antemão penei
Tudo neste divã ou cama representado;
Eu que junto aos muros de Tebas me sentei
E entre os mortos mais rasteiros tenho andado.)
Pespega para acabar um beijo complacente,
E sai às apalpadelas, sem ter luz na escada ...

Ela volta-se e vê-se ao espelho por um momento,
Mal se dando conta de que o amante partiu;
Deixa um pensamento inacabado vir-lhe à mente:
«Bem, agora está feito: e ainda bem que passou.»
Quando mulher amável se toma inconstante
E de novo só pelo seu quarto deambula,
Amacia o cabelo com mão inconsciente
E vai pôr um disco na grafonola.

«Esta música deslizou junto de mim por sobre as águas»
E ao longo do Strand, e por Queen Victoria Street.
Oh Cidade cidade, por vezes consigo ouvir
Quando passo por um bar em Lower Thames Street,
O suave lamento de um bandolim
E um alarido e uma vozearia lá de dentro
Onde homens do peixe se encontram ao meio-dia: onde as paredes
De Magnus Martyr guardam
Inexplicável esplendor de branco e ouro jónio.

O rio sua
Óleo e alcatrão
As barcas flutuam
Com a maré que muda
Velas vermelhas
Abertas
Para sotavento, agitam-se no forte mastro.
As barcas vogam
Lenhos à deriva
Ao largo de Greenwich
Para lá da Isle of Dogs.
          Weialala leia
          Wallala leialala

Elizabeth e Leicester
O bater dos remos
A popa tinha a forma
De uma concha dourada
Vermelho e ouro
A ondulação viva
Encrespava nas margens
Vento sudoeste
Levava rio abaixo
O repicar dos sinos
Torres brancas
          Weialala leia
          Wallala leialala

«Eléctricos e árvores cheias de poeira.
Highbury criou-me. Richmond e Kew
Despedaçaram-me. Junto a Richmond levantei os joelhos
De costas no chão de uma estreita canoa.»
«Os meus pés estão em Moorgate, e o meu coração
Debaixo dos meus pés. Depois do que aconteceu
Ele chorou. Prometeu "um recomeço".
Não lhe dei seguimento. De que havia de ter ressentimento?»

«Em Margate Sands.
Não consigo ligar
Nada com nada.
As unhas quebradas de mãos imundas.
Minha gente humilde gente que não aguarda
Nada.»
          la la

E então cheguei a Cartago

A arder a arder a arder a arder
Oh Senhor Tu agarras-me
Oh Senhor Tu agarras

a arder
 

 

ϟ

'O Sermão do Fogo'
parte III do poema «A Terra Desolada»
título original: The Waste Land (1922)
T.S. Eliot
tradução: Gualter Cunha
Relógio d'Água, 1999

fonte: http://portalconservador.com 


Δ

9.Set.2015
Publicado por MJA