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-excerto-

Estive na igreja... e o que é que julgam que estive lá a fazer? Ouça, miss Sturch, ouçam, raparigas, com os
ouvidos bem abertos. O pobre rapaz cego, o Frankland, é finalmente um homem feliz. Casei-o esta manhã com a nossa querida Rosamond Treverton.
- Sem nos dizer nada a nós, papá? - gritaram, ambas as raparigas ao mesmo tempo, no mais agudo tom de surpresa e melindre - Sem nos dizer nada quando o papá sabe
que nós gostaríamos tanto de ter visto!
A razão porque não vos disse nada - acrescentou o vigário
foi a seguinte: como o Frankland ainda não está habituado à cegueira, quis furtar-se ao espectáculo e aos comentários, apresentando-se
como um noivo cego. Tinha um tal horror nervoso de ser objecto de curiosidade no dia do casamento, e Rosamond, como boa rapariga que é, estava tão ansiosa por lhe
satisfazer o mais leve capricho, que combinámos que a boda seria de manhã cedo, a uma hora em que os preguiçosos ainda não estivessem a vaguear nas vizinhanças da igreja.
Fui obrigado a guardar segredo acerca do dia, assim como o sacristão Tomás. A não ser nós dois, os noivos e o pai da noiva, o capitão Treverton, ninguém mais sabia.
- Treverton! - exclamou Phippen, segurando a chávena, com o gengibre moído no fundo, para a miss Sturch a encher - Treverton! Mais chá,
não, querida miss Sturch. Muito notável, conheço de nome; faça o favor de encher com água. Diga-me, querido doutor, muito e muito obrigado; açúcar não, que se transforma
em ácido no estômago. A miss Treverton que casou, é dos Treverton da Cornualha?
- Com certeza - afirmou o vigário - O pai dela, o
capitão Treverton, é o chefe da família, que agora não é grande. O capitão, Rosamond, e aquele maníaco e bruto tio dela, André Treverton, são o que resta do velho tronco,
uma rica e fina família dos tempos antigos, bons amigos da Igreja e do Estado, como você e todos sabem.
[...]
- Não há no mundo mais perfeita rapariga, melhor, nem mais bonita - afirmou o vigário.
Uma pessoa
enérgica e muito virtuosa - notou miss Sturch.
_ Tenho tanta pena dela - disse Luísa - ninguém me
entreteve tanto como a Rosamond, quando tive de ficar na cama com a última constipação.
- Costumava sempre dar-nos a provar dos
petiscos que fazia - disse a Amélia.
- Era a única rapariga que sabia brincar com os rapazes - acrescentou o Roberto - Apanhava a bola
com uma mão, senhor Phippen, e dava saltos a pés juntos.
- Valha-me Deus! - disse Phippen - Uma mulher tão extraordinária para um cego!
Você não disse que era cego de nascença, caro doutor? Deixe ver; como se chama ele? A miss Sturch suportaria corajosamente a falta de memória? Quando a indigestão entra
com o corpo, começa a roer a mente. Frank qualquer coisa, não era?
- Não, não; Frankland - respondeu o vigário - Leonardo Frankland.
Não é cego de nascença e tem alguma coisa de seu. Ainda há pouco mais dum ano via quase tão bem como qualquer de nós.
- Provavelmente,
um acidente - disse Phippen. Desculpe eu ir para a cadeira de braços. Uma posição meio deitada é uma grande ajuda para mim depois da refeição. Aconteceu-lhe algum
acidente nos olhos? Oh, que comodíssima cadeira para descansar!
- Não foi bem um acidente - disse o doutor Chennery - Leonardo
Frankland foi uma criança difícil de se desenvolver; ao princípio teve uma grande fraqueza constitucional, que, com o tempo, pareceu vencer. Cresceu, mostrando-se um
rapaz sossegado, tranquilo e metódico, tão diferente do meu filho quanto possível, muito amável, e, como hei-de dizer, muito dado. Teve gosto pela mecânica, e depois de
ter mudado duma ocupação para outra, fixou-se finalmente em relojoeiro - digo-vos isto para vos elucidar a respeito da cegueira dele - Curiosa distracção para um rapaz, mas
que requer delicadeza de tacto e muita perseverança, que eram coisas que divertiam e ocupavam Leonardo. Eu sempre disse aos pais: «Afastem-lhe aquela cadeira, quebrem-lhe
as lentes, mandem-no para cá; dar-lhe-ei uma boa lição de eixo, e ensino-o a fazer uso dum pau». Mas não fizeram caso. Suponho que acharam que sabiam mais, e que lhe
deviam fazer a vontade. Bem, as coisas foram caminhando suavemente por algum tempo, até que teve outra longa doença, parece-me por não ter feito exercício suficiente.
Apenas melhorou, voltou às suas ocupações de relojoeiro. Mas o mau fim de tudo isto estava para começar. O último trabalho que fez, pobre rapaz, foi o conserto deste meu
relógio. Anda tão regularmente como a máquina dum navio. Pouco tempo depois de o ter metido no bolso ouvi dizer que tinha fortes dores na nuca e via toda a espécie de
manchas a mexer diante dos olhos. Fortalecê-lo com doses de vinho do Porto e fazê-lo passear três horas por dia a cavalo num garrano sossegado, foi o meu conselho. Em
lugar de fazerem isto mandaram-no a médicos de Londres, aplicaram-lhe vesicatórios atrás das orelhas e entre os ombros, purgaram-no com mercúrio, e enfiaram-no num quarto
escuro. Não deu resultado. A vista ia de mal a pior, tremulava, tremulava, e ia-se extinguindo como a chama dum candeeiro. A mãe dele morreu, felizmente para ela, pobre
criatura, antes do que veio a suceder. O pai estava com o juízo meio perdido, e levou-o a oftalmologistas de Londres e Paris. Todos deram à cegueira grandes nomes
latinos, e disseram não haver esperança nem utilidade na tentativa duma operação. Alguns opinaram que foi o resultado de longos períodos de fraqueza após as doenças, e
outros que tinha sido qualquer derramamento cerebral. Todos abanaram a cabeça quando ouviram dizer que era relojoeiro. Trouxeram-no cego para casa, cego está e estará
para o resto dos seus dias.- Você aflige-me, caro Chennery; aflige-me terrivelmente - disse Phippen - especialmente quando expôs a teoria da longa fraqueza
após a doença, meu Deus! porque tive uma. Ele via manchas diante dos olhos? Eu vejo manchas, manchas pretas... manchas pretas a dançar, manchas biliosas a dançar. Palavra
de honra, Chennery, isto toca-me de perto. A minha sensibilidade é dolorosamente aguda. Sinto este caso do cego em todos os nervos do corpo!
- Olhando para o Leonardo não se dá conta que é cego - disse Luísa, metendo-se na conversa, restabelecendo assim a calma no senhor Phippen
- Excepto serem os olhos mais parados que os de outra qualquer pessoa, nenhuma diferença se nota neles. Quem foi aquela pessoa célebre, de quem nos falou, miss Sturch,
que era cego e não mostrava mais que o Leonardo Frankland?
- Milton, meu amor. Pedi-lhe para se lembrar que era o mais famoso poeta
épico da Inglaterra - respondeu miss Sturch com suavidade - Descreve a sua cegueira poeticamente como sendo causada por um lento ataque de gota. Vai ler qualquer coisa a
esse respeito, Luísa. Depois de um pouco de francês, estudaremos esta tarde alguma coisa sobre Milton. Silêncio, menina, o papá está a falar.
- Pobre Frankland! - disse o vigário calorosamente - Aquela boa, terna e nobre criatura que esta manhã casei com ele, parece que derramava
uma consolação na sua desgraça. Se algum ser humano pode fazê-lo feliz para o resto da vida, esse ente é Rosamond Treverton.
- Ela fez
um sacrifício - disse Phippen - mas eu estimo-a por isso, visto que eu próprio fiz um sacrifício ficando solteiro, sacrifício, aliás, indispensável para bem da
humanidade. Como poderia conscienciosamente amarrar a uma má digestão como a minha, um membro da mais bela parte da Criação? Não; eu sou um sacrificado, e tenho uma
simpatia especial por aqueles que são como eu. Chorou muito, Chennery, quando casou?
- Chorou!!! - exclamou o vigário desdenhosamente -
Rosamond Treverton não é choramingas, nem uma sentimental, posso garantir. É uma rapariga alegre, meiga, viva, que sabia o que queria quando disse a um homem que queria casar com ele,
e, note bem, foi bem experimentada. Se não gostasse dele de alma e coração, podia ter ficado livre há alguns meses para casar com quem quisesse. Eles estavam
comprometidos muito tempo antes de ter sucedido esta cruel desgraça ao jovem Frankland; os pais eram vizinhos, há anos, nestas redondezas. Pois bem, quando veio a
cegueira, o Leonardo propôs a Rosamond o desmanchar do compromisso. Você, Phippen, devia ler a carta que ela lhe escreveu sobre isso. Não tenho vergonha de confessar que
me senti pequeno como um bebé quando ma mostraram. Eu tê-la-ia casado logo que a li, mas o velho Frankland, homem ponderado e pundonoroso, insistiu em seis meses de
experiência, até que pudesse certificar-se da alma dela. Morreu antes do termo desse prazo, o que provocou um adiamento do casamento. Mas nenhum adiamento pôde alterar
Rosamond; seis anos em lugar de seis meses não a teriam mudado. Esta manhã ela adorava tanto esse pobre cego como no dia em que ficaram noivos. «Nunca conhecerás um mau
momento, Lenny, se isso depender de mim enquanto viver». Estas foram as primeiras palavras que ela lhe disse quando todos saímos da igreja.
[...]
OS NOIVOS
- Lenny, tu estás muito calado esta manhã - disse ela - Em que pensas? Se me disseres todos os teus pensamentos, digo-te também
os meus.- Gostavas realmente de ouvir todos os meus pensamentos? - perguntou Leonardo.
- Todos.
Ficarei ciumenta se guardares para ti um só que seja. Diz-me o que estiveste a pensar agora mesmo. Em mim?
- Precisamente em ti, não.
- Maior vergonha para ti. Estás aborrecido de mim ao fim de oito dias? Eu não pensei em ninguém. Ah! Ris-te? Ó Lenny! Como poderia pensar
em alguém que não sejas tu? Não, não te beijarei! Antes disso, quero saber em que estiveste a pensar.
- Num sonho que tive a noite
passada, Rosamond. Sempre, desde os primeiros dias da minha cegueira, pensei que não me beijarias até que te tivesse dito em que estava a pensar.
- Não posso deixar de te beijar, Lenny, quando falas da perda da tua vista. Diz-me, meu pobre amor, o que posso fazer para te compensar
dessa perda? És mais feliz agora do que antes de casarmos? Tenho contribuído em alguma coisa, ainda que pouco, para essa felicidade?
Ela virou a cabeça enquanto falava, mas Leonardo deu conta disso, e os seus dedos inquiridores tocaram-lhe na face.
- Rosamond, tu estavas a chorar - disse ele.
- Eu, a chorar? - respondeu ela com um rápido assomo de
jovialidade - Não, nunca te enganarei, meu amor, mesmo na mais pequena ninharia. Os meus olhos agora servem para nós ambos, não é assim? Tu dependes de mim para tudo o
que o teu tacto não seja suficiente, e nunca serei indigna da tua confiança. Chorei, Lenny, mas poucochinho. Não sei como aconteceu, mas nunca, em toda a minha vida, me
pareceu ter pena de ti, e sentir o que senti neste momento. Nunca observei o que noto agora. Vá, diz o que ias a dizer.
- Eu ia a dizer
que observei uma coisa curiosa em mim desde que perdi a vista. Tenho sonhado muito, mas, no sonho, nunca me vi a mim próprio como um cego. Muitas vezes, visito em
pensamento lugares que vi e pessoas que conheci quando via, e tanto naquelas ocasiões de sonho como agora, quando estou acordado, nunca me sinto verdadeiramente um cego.
Vagueio por toda a espécie de passeios no meu sonho, e nunca me vejo às apalpadelas no caminho. Falo com toda a casta de velhos amigos e vejo-lhes a expressão nas faces,
que, acordado, nunca mais verei. Há mais dum ano que perdi a vista, e ainda é igual o choque que sinto ao acordar do sonho da noite anterior, e lembrar-me de que estou
cego.- Como era o sonho, Lenny?
- Sonhei com o lugar onde te encontrei pela primeira vez, quando
crianças. Vi o vale como era há anos, com as raízes das árvores todas torcidas, as moitas de amoreiras silvestres agarrando-se a elas, e a luz calma, coada pela folhagem
espessa dum céu pardacento, a lama nos campos do meio do vale, com as pegadas das vacas de onde a onde, e círculos compassados noutros, marcados pelos socos das
camponesas.
Vi a água
turva correndo ao lado dum carreiro depois do aguaceiro, e vi-te a ti, Rosamond, uma rapariga travessa, molhada e cheia de barro, tal como na realidade te encontravas com
a pelica azul toda suja e as tuas mãos, gordinhas e pequeninas, a fazer um dique para conter a água barrenta que corria, e rindo da indignação da aia quando tentou
puxar-te e levar-te para casa. Vi tudo tal qual era nos tempos passados, mas, parece estranho, não me vi a mim próprio como o rapaz que então era. Tu, uma rapariguita, o
vale ainda ao abandono, e apesar disso, embora permanecesse num passado tão longínquo, encontrava-me no presente quando olhava para mim. Através de todo o sonho sentia-me
consciente de ser um homem feito, em resumo, tal como agora sou, exceptuando sempre a cegueira.
- Que memória tens, amor, para
rememorar tão minuciosamente todos esses factos, passados tantos anos sobre esse dia no vale! Que bem te recordas de quando eu era criança! Lembras-te da mesma maneira do
modo como te olhei há um ano, quando tu... Lenny, até se me parte o coração quando penso nisso!... quando tu me viste pela última vez?
- Se me lembro, Rosamond! O meu último olhar para a tua face pintou o teu retrato na minha memória com cores que nunca mais podem mudar. Tenho muitos quadros fixos na
mente, mas o teu retrato é o mais claro e brilhante de todos!
- E é o retrato da minha melhor época, fixado na juventude, querido,
quando a minha face demonstrava exuberantemente como te amava, mesmo que os lábios nada dissessem. Existe uma grande consolação nesse pensamento! Quando os anos tiverem
passado sobre nós, Lenny, e quando o tempo começar a deixar em mim as suas marcas, tu não dirás para ti mesmo: «Rosamond começa a murchar; já não parece a mesma do que
quando casámos». Para ti nunca mais envelheço, meu amor! O brilhante retrato da tua memória ainda estará na mesma quando eu tiver a cara cheia de rugas e o cabelo branco!
FIM
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excerto de
O SEGREDO
WILKIE COLLINS
Romance
Título do original inglês:
The Dead Secret (1856)
Livraria Romano Torres, Lisboa
10.Abr.2016
Publicado por
MJA
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