Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual


Emily

Joanne Harris

excerto de 'O Rapaz de Olhos Azuis'


Menina cega tocando piano - foto de Lewis Hine
 

A primeira recordação de que tem memória é de um naco de barro de oleiro. Mole como manteiga, secando mais tarde numa escama rugosa nos seus braços e cotovelos, cheira ao rio atrás da casa dela, à chuva nos passeios, à cave onde ela nunca, jamais, deve entrar, onde a mãe guarda as batatas no Inverno nos seus pequenos caixões, lançando os seus longos olhos cegos na direcção da luz.

Barro azul, diz a mãe. Ela espreme-o entre dedos afilados. Faz qualquer coisa, Emily. Cria uma forma.

O barro é mole; nas suas mãos, a sensação é de pele viscosa. Leva-o à boca; tem o sabor da parede da banheira quando ela encosta lá a língua: quente, ensaboado, um pouco amargo. Cria uma forma, diz a mãe; e as mãos da menina começam a explorar o pedaço de barro azul viscoso, a afagá-lo como um cachorrinho molhado, a acariciá-lo e a descobrir a forma interior.

Mas é um absurdo, claro. Não se recorda do pedaço de barro. Na verdade, não existem recordações nenhumas de todos esses anos em que ela possa, em geral, confiar. Aprendeu por imitação; é capaz de repetir todas as palavras. E sabe que havia um pedaço de barro; passou anos no atelier, duro e denso como uma cabeça fossilizada.

Mais tarde, foi vendido a uma galeria, todo bem montado e moldado em bronze. A um preço excessivo, talvez; mas há sempre um mercado para esse género de coisa. Recordações de crimes, nós de carrasco, pedaços de osso; os símbolos de uma triste celebridade vendidos a coleccionadores por toda a parte.

Ela esperara um memorial melhor. Mas isto, pensa, terá de servir. À falta de melhores lembranças, contentar-se-á com a cabeça de barro, moldada em bronze, e as letras gravadas no latão há quase trinta anos.

Primeiras Impressões (diz a inscrição).
Emily White, 3 anos de idade.

A mãe era uma artista. As cores eram a sua vida. Emily White aprendeu a gatinhar no chão do atelier da mãe; antes de saber falar, já conhecia o odor pulverulento das aguarelas e do giz, o cheiro metálico dos acrílicos, o aroma fumado dos óleos. A mãe cheirava a terebentina; a primeira palavra da criança foi "papel"; os seus primeiros brinquedos foram os rolos de pergaminho guardados debaixo da secretária; recordava a maneira fascinante como se enrugavam, o seu cheiro a pó.

Enquanto a mãe trabalhava, Emily aprendeu a conhecer os sons do seu progresso: o som húmido e cheio das pinceladas de fundo; o arranhar das pontas de caneta; o sibilar suave dos pastéis e das esponjas; o bater das tesouras; o raspar dos lápis no papel de desenho.

Eram estes os ritmos da mãe; por vezes, acompanhados por sons breves de irritação ou satisfação, por vezes por passos de um lado para o outro, mais frequentemente por um comentário incessante sobre as cores e as tonalidades. Quando fez um ano, Emily ainda não aprendera a andar, mas sabia os nomes de todas as cores na caixa de tintas da mãe. Os nomes ressoavam como carrilhões na sua cabeça: damasco, umbra, ocre, dourado; garança, violeta, carmesim rosa.

Violeta era a sua favorita; o tubo estava quase completamente espremido, enrolado como uma corneta de festa para fazer sair o resto. O branco estava cheio, mas só porque o tubo era novo; o preto estava seco, pois raramente era usado, enfiado no fundo da caixa de tintas entre os pincéis sem pêlos e os trapos de limpeza.

― Pat, ela tem um ritmo de desenvolvimento lento. O Einstein era igual. ― Esta recordação deve ser falsa, pensa ela, como tantas outras desses primeiros tempos: a voz da mãe muito acima dela a resposta hesitante do pai.

― Mas, querida, o médico...

― Que se lixe o médico! Ela sabe o nome de todas as cores na caixa.

― Só está a repetir o que lhe dizes.

― Não está nada!

Uma nota aguda familiar treme na voz da mãe, um registo avinagrado que se lhe prende nos seios perinasais e lhe traz lágrimas aos olhos. Não sabe que nome tem ― ainda não, embora mais tarde venha a aprender que é fá sustenido ― mas distingue-o no piano do pai. Mas isso é um segredo, mesmo para a mãe; as horas passadas juntos ao velho Bechstein, o pai com o cachimbo na boca, Emily sentada ao seu colo tocando ao de leve no teclado com as mãos pequenas enquanto ele toca a "Sonata ao Luar" ou "Für Elise" e a mãe julga que ela está na cama.

― Catherine, por favor...

― Ela vê perfeitamente!

O cheiro a terebentina intensifica-se. E o cheiro da angústia da mãe e do seu terrível desapontamento. Pega na criança ao colo ― o rosto de Emily apertado contra o peitilho das suas jardineiras ― e, quando se vira, os pés de Emily arrastam-se sobre a bancada de trabalho, espalhando tubos, frascos e pincéis, ratatã, ratatá, pelo soalho de madeira.

― Catherine, ouve... ― Como sempre, a voz do pai é humilde, quase contrita. Como sempre, ele cheira vagamente a tabaco Clan, embora oficialmente nunca fume dentro de casa. ― Catherine, por favor...

Mas ela não está a ouvir. Em vez disso, segura na criança e lamenta-se. ― Consegues ver, não consegues, Emily, meu amor? Não consegues?

Deve ser uma recordação falsa. Emily não tinha mais do que um ano; era impossível que compreendesse ou recordasse tão distintamente o que quer que fosse. Contudo, parece recordá-lo claramente: as suas lágrimas confusas, os gritos da mãe e o contraponto balbuciado do pai. O cheiro do atelier e a tinta nas jardineiras da mãe a colar-lhe as pontas dos dedos e sempre aquele agudo e trémulo fá sustenido na voz da mãe, a nota das suas expectativas frustradas, como um harmónico persistente numa corda excessivamente esticada.

O pai sabia quase desde o princípio. Mas era um homenzinho dócil e reflexivo, o contraponto perfeito para as fúrias da mãe. Já em pequena, Emily sentia que ela o considerava inferior; que ele a desiludira. Talvez por causa da sua ausência de ambição; talvez porque levara dez anos a dar-lhe a criança que ela desejava. Ele era professor de música em St. Oswald; tocava vários instrumentos, mas o piano era o único que a mãe tolerava dentro de casa e os outros foram vendidos, um a um, para pagar os tratamentos e as terapias dela.

Não foi nenhum sacrifício de maior, disse o pai. Afinal, tinha acesso a todos os recursos do seu departamento. Era mais que justo; a mãe de Emily sofria de dores de cabeça e Emily era uma criança irrequieta, propensa a acordar ao mais leve ruído. Por isso, ele transferiu os seus discos e música para a escola; podia sempre ouvi-los à hora de almoço ou nos intervalos e, além disso, era na escola que passava a maior parte do tempo.

― Tens de compreender como ela se sentia.

É o pai a falar; sempre a arranjar desculpas, sempre pronto a saltar em defesa dela, como um velho e fatigado cavaleiro ao serviço de uma rainha louca que perdeu o seu império. Emily demorou muito tempo a compreender a causa da subserviência do pai. O pai fora infiel uma vez com uma mulher que não significava nada para ele mas a quem tinha feito um filho. E agora estava em dívida para com Catherine ― uma dívida que nunca poderia ser paga ―, o que queria dizer que, até ao fim da vida, se conformaria sempre com o segundo lugar, nunca se queixando, nunca protestando, nunca parecendo esperar mais do que servi-la, dar-lhe o que ela queria, redimir o irredimível.

― Querida, tens de compreender.

Viviam do salário dele; ela considerava seu legítimo direito perseguir as suas ambições artísticas enquanto o pai trabalhava para sustentar os dois. De tempos a tempos, uma pequena galeria vendia uma das colagens da mãe. Aos poucos, a ambição da mãe passou por uma mudança. Dizia que tinha nascido antes do tempo. As gerações futuras reconhecê-la-iam. Aquilo que podia tê-la levado a refugiar-se em si mesma tornou-a ferozmente determinada; fixou-se na vontade de ter um filho muito depois de as modestas expectativas do pai terem morrido.

Emily chegou finalmente. Oh, os planos que fizemos ― é o pai que fala, embora eu duvide que lhe tenha sido permitida qualquer participação no planeamento da jovem vida de Emily ― As aspirações que tínhamos para ti, Emily. Durante sete meses e meio, a mãe de Emily tornou-se quase domesticada: tricotava carapins em tons pastel; tocava música das baleias para um parto relaxado; desejava um nascimento natural mas no último momento quis ser anestesiada. Foi por isso o pai que contou os dedos das mãos e dos pés de Emily, sustendo a respiração perante a maravilha que chorava nos seus braços; o macaquinho careca com os olhos completamente fechados e os pequenos punhos cerrados.

― Querida, ela é perfeita.

― Oh, meu Deus...

Mas ela tinha nascido quase dois meses antes do tempo. Deram-lhe demasiado oxigénio; o processo descolou-lhe as retinas. Ninguém reparou de imediato; nesse tempo, bastava saber que Emily tinha os braços e as pernas todos. Quando mais tarde a cegueira dela se tornou evidente, Catherine negou-a.

Emily era uma criança especial, dizia. Os seus dons levariam tempo a desabrochar. A amiga da mãe, Feather Dunne ― uma astróloga amadora ― já tinha vaticinado um futuro brilhante: uma união mística entre Saturno e a Lua confirmava que ela era excepcional. Quando o médico começou a ficar impaciente, a mãe de Emily trocou-o por um terapeuta alternativo que recomendou eufrásia, massagens e terapia pela cor. Durante três meses, viveu numa névoa de incenso e velas; perdeu o interesse pelas suas telas; nem sequer penteava o cabelo.

O pai desconfiou de depressão pós-parto. Catherine negava sempre, mas oscilava periodicamente entre um extremo e o outro, um dia protectora, recusando-se a deixá-lo aproximar-se; no seguinte sentando-se, num estado de letargia, indiferente à trouxa ao seu lado que berrava sem parar.

Por vezes, era ainda pior, e o pai teve de pedir ajuda aos vizinhos. Tinha havido um engano, dizia Catherine; o hospital tinha confundido os bebés; por qualquer razão, tinha trocado a sua menina perfeita por esta defeituosa.

― Olha para ela, Patrick, dizia. Nem sequer tem aspecto de bebé. É hedionda. Hedionda.

Disse isso a Emily quando ela tinha cinco anos. Disse que não podia haver segredos entre elas; faziam parte uma da outra. Além disso, o amor é uma espécie de loucura, não é, querida? O amor é uma espécie de obsessão.

Sim, era a voz dela; era Catherine White. Ela sente as coisas mais do que qualquer um de nós, costumava dizer o pai de Emily, como que a desculpar-se por parecer sentir muito menos. E contudo, foi o pai que manteve as coisas a funcionar, durante o esgotamento dela e mais tarde; era o pai que pagava as contas, que cozinhava e limpava; que mudava fraldas e dava de comer; que diariamente conduzia Catherine com ternura ao seu atelier abandonado e lhe mostrava os pincéis e as tintas e a bebé a gatinhar entre os rolos de papel e as aparas estaladiças de madeira.

Um dia, ela pegou num pincel, inspeccionou-o por um momento e voltou a pousá-lo; mas era a primeira manifestação de interesse que ela revelava há meses e o pai interpretou-a como um sinal de melhoras. E era: quando Emily fez dois anos, já a paixão criativa da mãe regressara; e embora fosse agora quase exclusivamente canalizada através da criança, não era menos fervorosa do que antes.

Começou com aquela cabeça em barro azul. Mas o barro, se bem que perfeitamente interessante, não reteve a atenção dela por muito tempo. Emily queria coisas novas; queria tocar, cheirar, sentir. O atelier tornara-se demasiado pequeno para a conter; aprendeu a seguir as paredes para outras salas; a descobrir o lugar maravilhoso debaixo da janela onde o sol batia; a usar o gravador para ouvir histórias; a abrir o piano e a tocar as notas com um dedo. Adorava brincar com a lata de botões soltos da mãe; enfiar bem as mãos lá dentro; entorná-los no chão e organizá-los por tamanho, forma e textura.

Em todos os aspectos menos num, Emily era uma criança normal. Adorava as histórias que o pai gravava para ela; adorava passeios no parque; adorava os pais; adorava as bonecas. Fazia, não com frequência, as pequenas birras de uma criança pequena; adorava visitar a quinta em Pog Hill e sonhava ter um cachorrinho.

Quando Emily aprendeu a andar, já a mãe quase se resignara à sua cegueira. Os especialistas eram caros e as suas conclusões eram inevitavelmente variações sobre o mesmo tema. O seu estado era irreversível; só reagia à luz directa mais intensa e, mesmo assim muito pouco. Não conseguia distinguir as formas; mal reconhecia o movimento e não tinha qualquer consciência da cor.

Mas Catherine White não tencionava dar-se por vencida. Lançou-se na educação de Emily com toda a energia que noutro tempo havia dedicado ao trabalho. Primeiro, o barro, para desenvolver a consciência do espaço e estimular a criatividade. A seguir, os números, num grande ábaco de madeira com contas que tiniam e retiniam. Depois as letras, usando uma pauta em braille e uma máquina de gravar. Depois, por conselho de Feather, a "terapia pela cor", destinada, ao que ela disse, a estimular as zonas visuais do córtex por associação de imagens.

― Se funciona com o filho da Gloria porque é que não há-de funcionar com a Emily?

Era esta a frase que ela usava sempre que o pai tentava protestar. Não importava que o filho de Gloria fosse um caso inteiramente diferente; o que importava a Catherine White era que Ben ― ou o Rapaz X, como o Dr. Peacock lhe chamava, com típico pretensiosismo ― tinha, de algum modo, adquirido um sentido extra; e se o filho de uma mulher-a-dias era capaz, porque não a pequena Emily?

A pequena Emily, claro, não fazia ideia do que estavam a falar. Mas queria agradar; sentia-se ávida por aprender e o resto seguiu-se com toda a naturalidade.

A terapia pela cor resultou até certo ponto. Embora as palavras em si não significassem mais para Emily do que os nomes das cores na sua caixa de tintas, verde evoca a memória de relvados estivais e relva cortada. Vermelho é o cheiro da Noite das Fogueiras, a 5 de Novembro; o som da lenha a crepitar. Azul é água; silencioso; fresco.

― O teu nome também é uma cor, Emily ― disse Feather, que tinha cabelo comprido, que fazia cócegas e cheirava a patchouli e a baço. ― Emily White. Não é lindo?

Branco. Branco de neve. Tão frio que quase queima as pontas dos dedos, gelando, escaldando.

― Emily! Não gostas da neve bonita?

Não, não gosto, pensa Emily. A pele é bonita. A seda é bonita. Os botões são bonitos na lata, ou o arroz ou as lentilhas a deslizar frrrrrp através dos dedos. A neve não tem nada de bonito porque magoa as mãos e faz os pés escorregar. Além disso, o branco não é uma cor. O branco é o horrível brrrrr que aparece entre as estações de rádio, quando o som se quebra e não fica nada senão ruído. Ruído branco. Branco de neve. A Branca de Neve, meio morta, meio adormecida sob um vidro.

Quando tinha quatro anos, o pai sugeriu que Emily fosse para a escola. Talvez em Kirby Edge, disse ele, onde havia recursos especiais. Catherine, claro, recusou-se a discutir o assunto. Com a ajuda de Feather, disse ela, a sua instrução já quase operara um milagre. Sempre soubera que Emily era uma criança excepcional; não ia desperdiçar os dotes dela numa escola para crianças invisuais onde lhe ensinariam a fazer mantas e a sentir pena de si própria, nem numa escola normal onde seria sempre considerada de segunda categoria. Não, Emily ia continuar a receber instrução em casa, de modo que, quando recuperasse a vista ― e Catherine não tinha a mais pequena dúvida de que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde ―, estivesse preparada para enfrentar o que o mundo tinha para lhe oferecer.

O pai protestou o mais veementemente que pôde. Mas não foi suficiente; Feather e Catherine mal o ouviram. Feather acreditava em vidas passadas, e achava que, se estimulassem as partes correctas do cérebro de Emily, ela recuperaria a sua memória visual; e Catherine acreditava...

Bem, já sabes no que Catherine acreditava. Teria sido capaz de viver com uma criança feia; mesmo com uma criança deformada. Mas uma criança cega? Uma criança que não compreendia as cores? Cores, cores, cores. Verde, rosa, dourado, laranja, púrpura escarlate, azul. Só o azul tem um milhar de variações: cerúleo, safira cobalto, azul-ultramarino; desde o azul-celeste ao mais profundo azul-tinta, passando pelo índigo e pelo azul-marinho, pelo azul-bebé e o azul-eléctrico, o azul-miosótis, o azul-turquesa, o azul-verde e o azul de Saxe. Emily compreendia a notação das cores. Conhecia os termos e as cadências; aprendeu a repetir as notas e os arpejos da sua escala de sete tons. Mas a natureza das cores continuava a escapar-lhe. Era como uma pessoa sem ouvido para a música que aprendeu a tocar piano, sabendo que o que ouve nada tem a ver com música. Mas desenvencilhava-se; oh, sim, desenvencilhava-se bem.

― Olha os narcisos, Emily.

― Bonitos narcisos. Narcisos dourados, amarelos como o sol. ― Na verdade, eram desagradáveis ao toque; frios e algo carnudos, como fatias de fiambre. Emily preferia as folhas gordas e sedosas da orelha-de-lebre ou as alfazemas com as suas flores nodosas e aroma sonolento.

― Vamos pintar os narcisos, querida? Queres que a Cathy te ajude?

O cavalete estava montado no atelier. Havia uma grande caixa de tintas à esquerda, com as cores etiquetadas em braille. Três recipientes com água encontravam-se à direita, juntamente com uma selecção de pincéis. Os preferidos de Emily eram os pincéis de zibelina. Eram os de melhor qualidade, e macios como a ponta da cauda de um gato. Gostava de passá-los pelo ponto imediatamente por baixo do seu lábio inferior, um ponto tão sensível que sentia cada pêlo do pincel, e onde o pêlo levantado de uma tira de veludo se distinguia com maior precisão. O papel ― papel de desenho grosso e brilhante com o seu cheiro a lençóis frescos e lavados ― estava preso ao cavalete com grampos e dividido em quadrados como um tabuleiro de xadrez, por meio de arames esticados sobre o papel. Dessa forma, Emily tinha a certeza de não sair fora das margens da imagem nem de confundir céu com árvores.

― Agora as árvores, Emily. Óptimo. Muito bem.

As árvores são altas, Emily pensa. Mais altas do que o meu pai. Catherine deixa-a tocá-las, encosta-lhe a cara à sua superfície rugosa, como se abraçasse um homem barbudo. Há igualmente um cheiro e sugestão de movimento, distantes mas ainda ligados, ainda de algum modo em contacto. ― Está vento ― sugere Emily, esforçando-se, ― A árvore está a mexer-se com o vento.

― Óptimo, querida! Muito bem!

Uma pincelada húmida. Agora o papel branco, incolor, está verde. Ela sabe porque a mãe a abraça. Emily sente-a tremer. Há também uma nota na sua voz ― desta vez não é fá sustenido, mas algo menos estridente e dilacerante ― e uma parte de Emily incha de orgulho e felicidade porque ama a mãe; adora o cheiro a terebentina porque é o cheiro da mãe; adora as aulas de pintura porque enchem a mãe de orgulho ― embora, mais tarde, quando chegam ao fim e Emily se esgueira de novo para o atelier e tenta em vão perceber por que razão a fazem tão feliz, apenas sinta um levíssimo enrugamento e encolhimento do papel, como as mãos depois de serem lavadas. É tudo o que sente, mesmo com o lábio inferior. Procura não se sentir demasiado desapontada. Tem de haver ali alguma coisa, pensa. A mãe diz que sim.

Ξ

Emily tinha cinco anos e meio quando o pai a levou pela primeira vez à escola onde dava aulas. Até então, era um lugar misterioso (remoto e sedutor como todos os lugares míticos) que os pais por vezes discutiam à mesa do jantar. Mas não com frequência: Catherine não gostava do que chamava a "conversa de trabalho" do Pai e muitas vezes desviava a conversa para outros tópicos precisamente quando ela se tornava mais interessante. Emily deduzia que "escola" fosse um sítio onde as crianças se juntavam ― para aprender, ou pelo menos era o que pai dizia, embora Catherine parecesse discordar.

― Quantas crianças ?

Botões numa caixa; feijões num frasco. ― Centenas.

― Crianças como eu?

― Não, Emily, como tu, não. St. Oswald é só para rapazes.

Por esta altura, já ela lia avidamente. Os livros em braille para crianças eram difíceis de encontrar, mas a mãe criara livros tácteis com feltro e bordados e o pai passava horas, todos os dias, a transcrever cuidadosamente histórias ― todas escritas ao contrário, usando a velha máquina de gravar. Emily já sabia somar e subtrair, além de dividir e multiplicar. Conhecia a história dos grandes artistas; tinha estudado mapas do mundo e do sistema solar em relevo. Conhecia a casa como as palmas das suas mãos. Entendia de plantas e animais das visitas frequentes à quinta infantil. Sabia jogar xadrez. Sabia também tocar piano ― um prazer que tinha em comum com o pai ― e as suas horas mais preciosas eram passadas com ele, na sala dele, a aprender escalas e notas e a abrir as pequenas mãos num esforço vão para abarcar uma oitava.

Mas pouco sabia sobre outras crianças. Ouvia as suas vozes quando brincava no parque. Tinha acariciado uma vez um bebé que emanava um cheiro vagamente azedo e parecia, ao tacto, um gato adormecido. A vizinha do lado chamava-se Mrs. Brannigan e, por qualquer razão, era inferior ― talvez por ser católica; ou talvez porque vivia numa casa alugada, ao passo que a deles lhes pertencia e já estava paga. Mrs. Brannigan tinha uma filha um pouco mais velha do que Emily, com quem teria gostado de brincar, mas que falava com um sotaque tão forte que, da primeira e única vez em que tinham falado, Emily não entendera uma palavra.

Mas o pai de Emily trabalhava num sítio onde havia centenas de crianças, todas elas a aprender Matemática, Geografia, Francês, Latim, Arte, História, Música e Ciências; além de lutarem no recreio, gritarem, conversarem, travarem amizade, correrem umas atrás das outras, comerem o almoço numa sala comprida, jogarem críquete e ténis na relva.

― Gostava de andar na escola ― disse ela.

― Não gostavas nada. ― Foi Catherine quem falou, com um registo de advertência na voz. ― Patrick, pára de falar de trabalho. Já sabes como ela fica perturbada.

― Não fico nada perturbada. Gostava de andar na escola.

― Talvez a possa levar um dia comigo. Só para ver...

― Patrick!

― Desculpa. É só... já sabes. Temos o concerto de Natal no próximo mês, querida. Na capela da escola. Sou eu que vou reger. Ela gosta...

― Patrick. Não estou a ouvir!

― Ela gosta de música, Catherine. Deixa-me levá-la. Só esta vez.

E assim, só uma vez, Emily foi. Talvez por causa do pai; mas sobretudo porque Feather era a favor da ideia. Feather era uma firme defensora dos poderes curativos da música; além disso, lera recentemente a A Sinfonia Pastoral de Gide e achava que um concerto podia estimular a terapia pela cor de Emily, que se encontrava em declínio.

Mas a ideia não agradava a Catherine. Agora acho que era, em parte, por ter um sentimento de culpa; a mesma culpa que a levara a eliminar de casa todos os vestígios da paixão do pai pela música. O piano era uma excepção; mesmo assim, fora relegado para um quarto livre, entre caixotes de papéis esquecidos e roupas velhas, no qual Emily não estava autorizada a entrar. Mas o entusiasmo de Feather inclinou a balança a seu favor e, na noite do concerto, encaminharam-se todos para St. Oswald, Catherine cheirando a terebentina e a rosas (um cheiro cor-de-rosa, diz ela a Emily, bonitas rosas cor-de-rosa), Feather falando numa voz aguda e muito rápida e o pai de Emily guiando-a ternamente pelo ombro, com cuidado para ela não escorregar na neve molhada de Dezembro.

― Tudo bem? ― sussurrou ele ao aproximarem-se do local.

― Mm-mm.

Ela ficara desapontada ao saber que o concerto não ia ter lugar na escola propriamente dita. Gostaria de ter visto o local de trabalho do pai; de ter entrado nas salas de aula com as suas carteiras de madeira, cheirado o giz e a cera; ouvido o eco dos seus passos nos soalhos de madeira. Mais tarde, foi-lhe permitido o acesso a estas coisas. Mas este evento ia ter lugar na capela vizinha, com os meninos do coro de St. Oswald e o pai a reger, o que, de algum modo, ela sabia que significava conduzir; indicar o caminho aos cantores.

Estava uma noite fria e húmida que cheirava a fumo. Da estrada chegavam sons de carros e campainhas de bicicletas e pessoas a falar, quase completamente abafados pelo ar enevoado. Apesar do seu casaco de Inverno, estava com frio; os seus sapatos de solas finas pisavam o cascalho encharcado do caminho, e tinha gotas de humidade no cabelo. O nevoeiro faz, de algum modo, com que o exterior pareça mais pequeno; tal como o vento expande o mundo, fazendo as árvores rumorejar e projectar-se para o céu. Nessa noite, Emily sentia-se muito pequena, reduzida quase à insignificância pelo ar morto. De tempos a tempos, alguém passava por ela ― sentia o ruge-ruge de um vestido de senhora, ou talvez fosse a toga de um professor ― e ouvia um fragmento de conversa que depressa se desvanecia.

― Não vai estar apinhado, Patrick? A Emily não gosta de multidões. ― Era Catherine novamente, a sua voz tão esganada como o corpete do melhor vestido de festa de Emily, que era bonito (e cor-de-rosa) e que tinha sido tirado do armário para uma última saída antes de deixar de lhe servir por completo.

― Não há problema. Têm bilhetes na primeira fila. Na verdade, Emily não se importava nada com multidões. Era do barulho que não gostava: dessas vozes monótonas e indistintas que confundiam tudo e viravam tudo ao contrário. Agarrou na mão do pai, com muita força, e apertou-a. Um só aperto significava amo-te. Dois, eu também. Outro dos seus segredozinhos, como o facto de ela ser quase capaz de abarcar uma oitava, se fizesse saltar a mão sobre o teclado, e tocar a melodia base de "Für Elise", enquanto o pai tocava os acordes.

Estava fresco na capela. A família de Emily não frequentava a igreja ― embora a vizinha, Mrs. Brannigan, o fizesse ― e ela entrara uma vez em St. Mary's, só para ouvir o eco. A capela de St. Oswald tinha o mesmo som; os seus passos ressoavam no pavimento duro e liso e todos os sons no espaço pareciam elevar-se, como pessoas a subir uma escadaria cheia de ecos e a conversar pelo caminho.

O pai explicou-lhe depois que era porque o tecto era muito alto, mas na altura ela imaginou que o coro estaria sentado por cima dela, como anjos. Pairava também um odor; semelhante ao patchouli de Feather, mas mais forte e fumarento.

― É incenso ― explicou o pai. ― Queimam-no no santuário.

Santuário. Ele explicara a palavra. Um lugar onde as pessoas se podem sentir seguras. Incenso e tabaco Clan e vozes de anjos. Santuário.

Agora havia movimento à volta deles. As pessoas estavam a falar, mas em vozes mais baixas do que o habitual, como se tivessem medo dos ecos. Quando o pai foi ter com os meninos do coro e Catherine lhe descreveu o órgão, os bancos e as janelas, Emily ouviu um restolhar a toda a volta, seguido de uma série de ruídos de pessoas a sentar-se e um silêncio quando o coro começou a cantar.

Era como se qualquer coisa se tivesse revelado dentro dela. Isto, e não o pedaço de barro, é a primeira memória de Emily: sentada na capela de St. Oswald, com as lágrimas a correr-lhe pela cara e entrando-lhe na boca sorridente, e a música, a música maravilhosa, elevando-se à sua volta.

Oh, não era a primeira vez que ouvia música; mas o plim-plim caseiro do velho piano ou os transístores metálicos do rádio da cozinha não podiam transmitir mais do que uma partícula disto. Não havia um nome para descrever o que ouvia, nem palavras para explicar esta nova experiência. Era, pura e simplesmente, um despertar.

Mais tarde, a mãe tentou dourar a pílula, como se isso fosse preciso. Pessoalmente, nunca apreciara música sacra ― e muito menos canções de Natal, com as suas melodias simplistas e letras sentimentais. Uma composição de Mozart teria sido bem mais apropriada, cada qual com seu igual, se bem que a lenda tenha uma dezena de variações ― de Mozart a Mahler e até ao inevitável Berlioz ― como se a complexidade da música tivesse alguma relação com os próprios sons ou as sensações que eles evocavam.

De facto, a peça não era mais do que uma versão a capella em quatro partes de uma velha canção de Natal.

Em pleno Inverno agreste
O vento gelado rumorejou,
A Terra endureceu como ferro,
E a água petrificou;

Mas há algo de único nas vozes dos rapazes; uma qualidade trémula, um pouco hesitante, perpetuamente à beira de perder o tom. É um som que combina uma doçura de tonalidade quase inumana com um registo cru que é quase doloroso.

Ela escutou em silêncio os primeiros compassos, sem ter bem certeza daquilo que estava a ouvir. Depois as vozes elevaram-se de novo:

A neve caíra, neve sobre neve,
Neve sobre neve...

E na segunda neve, as vozes arranharam aquela nota, o agudo fá sustenido que sempre fora um ponto de misteriosa pressão nela, e Emily começou a chorar. Não de mágoa ou sequer de emoção; era simplesmente um reflexo, como a retracção das papilas gustativas depois de se comer algo de muito azedo, ou o travo de malaguetas frescas no fundo da garganta.

Neve sobre neve, neve sobre neve, cantavam, e tudo nela reagia. Estremecia; sorria; voltava o rosto para o tecto invisível e abria a boca como um pintainho, quase esperando sentir os sons como flocos de neve a cair-lhe na língua. Durante quase um minuto, Emily permaneceu sentada a tremer, na pontinha do banco, e de vez em quando as vozes dos rapazes elevavam-se até esse estranho fá sustenido, essa nota mágica de gelado e dor de cabeça, e mais uma vez as lágrimas brotavam dos seus olhos. O seu lábio inferior tremia; os seus dedos estavam dormentes. Sentia-se como se estivesse a tocar em Deus...

― O que foi, Emily?

Não conseguiu responder. Só os sons eram importantes.

― Emily!

Todas as notas pareciam penetrá-la de um modo delicioso; todos os acordes um milagre de textura e forma. Rolaram mais lágrimas.

― Alguma coisa não está bem. ― A voz de Catherine parecia vir de muito longe. ― Feather, por favor. Vou levá-la para casa. ― Emily sentiu-a a começar a mexer-se; a puxar pelo casaco que estava a usar como almofada. ― Levanta-te, querida, não devíamos ter vindo.

Aquilo era satisfação na voz dela? A sua mão na testa de Emily era febril e pegajosa. ― Ela está a arder. Feather, dá-me aqui uma ajuda...

― Não! ― sussurrou Emily.

― Emily, meu amor, estás transtornada.

― Por favor... ― Mas agora a mãe estava a pegar nela ao colo; tinha os braços de Catherine à sua volta. Captou um odor passageiro a terebentina por detrás do perfume caro. Procurou desesperadamente qualquer coisa, um truque mágico qualquer que obrigasse a mãe a parar: algo que transmitisse a urgência, o imperativo de ficar, de ouvir.

― Por favor, a música...

A tua mãe não se interessa muito por música. A voz do pai; distante mas nítida.

Mas porque é que Catherine se interessava? Qual era para ela a linguagem de comando?

Estavam agora a levantar-se dos assentos. Emily tentou debater-se; uma costura rasgou-se debaixo do braço do seu vestido demasiado apertado. O casaco, com a sua gola em pele, asfixiava-a. Novamente o cheiro a terebentina, o cheiro da febre da mãe, da sua loucura.

E subitamente Emily compreendeu, com uma maturidade invulgar, que nunca visitaria a escola do pai, nunca assistiria a outro concerto, nunca brincaria com outras crianças, não fossem elas magoá-la ou empurrá-la, nunca correria no parque para não cair.

Se se fossem agora embora, Emily pensou, a mãe conseguiria sempre impor a sua vontade, e a cegueira, que no fundo nunca a incomodara, arrastá-la-ia finalmente até ao fundo, como uma pedra amarrada à cauda de um cão, e afogar-se-ia.

Devia haver palavras, disse para consigo; palavras mágicas para obrigar a mãe a ficar. Mas Emily tinha cinco anos; não conhecia palavras mágicas nenhumas; e agora estava a descer a coxia com a mãe de um lado e Feather do outro, e as vozes maravilhosas submergindo-as como um rio.

Em pleno Inverno agreste
Há muiiiito tempo...

E então ocorreu-lhe. Tão simples que soltou um arquejo perante a sua própria audácia. Conhecia, sim, palavras mágicas, apercebeu-se. Dezenas delas; aprendera-as praticamente no berço mas até agora nunca lhes encontrara um uso. Conhecia a sua temível energia. Emily abria a boca, invadida por uma súbita e demoníaca inspiração.

― As cores ― murmurou.

Catherine White deteve-se em pleno passo. ― O que é que disseste?

― As cores. Por favor. Quero ficar. ― Emily respirou fundo ― Quero ouvir as cores.

Ξ

Ouvir as cores. Talvez se recordem da frase. Engenhosa na boca de um adulto, deve ter soado insuportavelmente comovente na de uma menina cega de cinco anos. Seja como for, resultou. Ouvir as cores. Sem o saber, Emily White abrira uma caixa de palavras mágicas e estava embriagada com o seu poder, emitindo ordens como um diminuto general, ordens a que Catherine e Feather ― e mais tarde, claro, o Dr. Peacock ― obedeciam com inquestionável alegria.

― O que é que vês?

Acorde em fá menor diminuído. As palavras mágicas desdobram-se como papel de embrulho, todas elas.

― Rosa. Azul. Verde. Violeta. Tão bonitas.

A mãe bate palmas, deliciada. ― Mais, Emily. Diz mais. Um acorde em fá maior.

― Vermelho. Laranja. Magenta. Preto.

Era como um despertar. O poder infernal que ela descobrira em si própria desabrochara de uma forma espantosa e a música fazia de súbito parte do seu currículo. O piano foi tirado do quarto vago e novamente afinado; as aulas secretas do pai tornaram-se oficiais e Emily foi autorizada a praticar sempre que queria, mesmo quando Catherine estava a trabalhar. Depois, apareceram os jornais locais e começaram a chover as cartas e as prendas.

A história apresentava imensas potencialidades. Com efeito, continha todos os ingredientes. Um milagre de Natal; uma menina cega fotogénica; música; arte; um pouco de ciência vulgar, graças ao Dr. Peacock, e muita controvérsia do mundo da arte, que foi mantendo os jornais entretidos durante os cerca de três anos que se seguiram, sempre com especulações. A televisão acabou por pegar no caso; e a imprensa também. Houve mesmo um disco ― que chegou ao Top Ten ― de uma banda rock de cujo nome me esqueci. A canção foi mais tarde usada no filme de Hollywood ― uma adaptação do livro ― com Robert Redford no papel do Dr. Peacock e uma jovem Natalie Portman no papel da jovem cega que vê música.

Inicialmente, Emily não deu muito valor à coisa. Afinal, era muito jovem e não tinha qualquer termo de comparação. E sentia-se muito feliz ― ouvia música durante todo o dia; estudava aquilo de que mais gostava e todos estavam satisfeitos com ela.

Ao longo dos doze meses seguintes, Emily assistiu a uma série de concertos, bem como a espectáculos de "A Flauta Mágica", do "Messias" e do "Lago dos Cisnes". Visitou várias vezes a escola do pai, para conhecer os instrumentos através do tacto.

As flautas, com os seus corpos esguios e teclas complexas; os violoncelos e os contrabaixos bojudos; as trompas de pistões e as tubas que lembravam grandes jarros cheios de som; os violinos de cintura fina; as campainhas; os tambores redondos e os tambores planos; os pratos de corte e os pratos de ataque; os ferrinhos e os timbales e as trombetas e as pandeiretas.

Por vezes, o pai tocava para ela. Quando Catherine não estava, ele era diferente: dizia piadas; era exuberante, fazendo Emily dançar ao som da música, até ficar tonta de tanto rir. Ele teria gostado de ser músico profissional: o clarinete, e não o piano, fora o seu instrumento preferido, mas não havia grande procura de um clarinetista com formação clássica e uma paixão secreta por Acker Bilk, e as suas modestas ambições nunca haviam sido expressas nem notadas.

Mas havia outra faceta na conversão de Catherine. Emily levou meses a descobri-la; mais ainda a compreendê-la. É aqui que as minhas recordações perdem toda a coerência; a realidade funde-se com o mito, de modo que não confio na minha própria capacidade para ser exacta ou verdadeira. Só os factos falam por si; e mesmo estes foram tão disputados, questionados, erradamente transmitido e interpretados que apenas subsistem fragmentos de alguma coisa que pudesse mostrar-me como realmente foi.

Os factos, então. Devem conhecer a história. Entre o público nessa noite, sentado na terceira fila, na ponta, estava um homem chamado Graham Peacock. Sessenta e sete anos de idade; uma personalidade muito conhecida na terra; um bom garfo; um excêntrico simpático; um generoso patrono das artes. Nessa noite de Dezembro, durante um recital de canções de Natal na capela de St. Oswald, o Dr. Peacock viu-se envolvido num incidente que mudaria a sua vida.

Uma menina pequena ― filha de um amigo seu ― sofrera uma espécie de ataque de pânico. A mãe começou a levá-la para fora, e na disputa que se seguiu ― a criança debatendo-se corajosamente para ficar, a mãe tentando com igual valentia tirá-la dali ― ele ouviu a criança proferir uma frase que o atingiu como uma revelação. Ouvir as cores.

Na altura, Emily mal compreendia o significado do que dissera. Mas o interesse do Dr. Peacock deixou a mãe num estado de quase euforia; em casa, Feather abriu uma garrafa de champanhe e até o pai parecia satisfeito, embora pudesse ter sido simplesmente por causa da mudança em Catherine. Contudo, não aprovava; mais tarde, depois de a coisa estar em marcha, a sua voz era a única discordante. Escusado será dizer que ninguém ouviu. No dia seguinte, a pequena Emily foi chamada à Casa da Lareira, onde foram realizados todos os testes possíveis para confirmar os seus talentos especiais.

A sinestesia (escreve o Dr. Peacock no seu ensaio "Aspectos da Modularidade") é uma condição rara em que dois ― ou por vezes mais ― dos cinco sentidos "normais" aparentemente se fundem. Isto parece estar relacionado com o conceito de modularidade. Cada um dos sistemas sensoriais tem uma área correspondente, ou módulo, do cérebro. Embora existam interacções normais entre os módulos (como o uso da visão para detectar movimento), o entendimento actual da percepção humana não pode explicar o estímulo de um módulo que induz actividade cerebral num módulo diferente. No entanto, num sinesteta, é exactamente isso que se passa.

Em suma, um sinesteta pode experimentar qualquer uma das seguintes situações ou todas elas: a forma como gosto, o tacto como olfacto, o som ou o gosto como cor.

Tudo isto era novidade para Emily, se não para Feather e Catherine. Mas compreendia a ideia ― afinal todos conheciam o caso do Rapaz X ― e, pelo que ouvira sobre o dom especial dele, não era muito diferente das associações de palavras e das aulas de arte e das terapias pela cor que aprendera com a mãe. Na altura, tinha cinco anos e meio; desejava ardentemente agradar; e mais ainda ser bem-sucedida.

O esquema era simples. Da parte da manhã, Emily ia a casa do Dr. Peacock onde tinha uma aula de música e outras disciplinas; e à tarde tocava piano, ouvia discos e pintava. Era a sua única obrigação e, como lhe era permitido ouvir música e tocá-la, o fardo não era muito pesado. Por vezes, o Dr. Peacock fazia-lhe perguntas e gravava o que ela dizia.

― Emily, ouve. Que é que vês?

Uma única nota tocada no velho e pesado piano, na Casa da Lareira. Sol é índigo, quase negro. Uma simples tríade leva-o mais longe; depois um acorde ― sol menor, com uma sétima diminuída nos graves ― resolve-se numa carícia violeta aveludada. Ele anota o resultado no seu bloco de notas. Muito bem, Emily. Linda menina.

Segue-se uma série de acordes suaves; dó sustenido menor; ré diminuído; mi bemol menor de sétima. Emily indica as cores, marcadas a braille na caixa de tintas.

Para Emily, é quase como tocar um instrumento, com as mãos nas pequenas teclas coloridas; e o Dr. Peacock toma nota no seu caderninho rabiscado e depois tomam chá diante da lareira, com o jack russell do Dr. Peacock, Patch II, que fareja na esperança de biscoitos, fazendo cócegas nas mãos de Emily e deixando-a a rir. O Dr. Peacock fala com o cão como se também ele fosse um venerando académico, o que faz Emily rir ainda mais, e em breve o cão passa a razer parte das suas aulas juntos.

O Patch II gostaria de saber ― diz ele na sua voz de fagote se Miss White se sente hoje inclinada a examinar a minha colecção de sons gravados...

Emily desfaz-se em gargalhadinhas. ― Quer dizer, ouvir discos?

― O meu colega peludo apreciaria muito.

Ouvindo a sua deixa, Patch II ladra.

Emily ri-se. ― Pode ser ― responde.

Durante os trinta meses que se seguiram, o Dr. Peacock tornou-se cada vez mais parte das suas vidas. Catherine andava delirante de felicidade; Emily era uma aluna capaz, passando três ou quatro horas ao piano por dia, e de súbito todos descobriram o foco que faltava nas suas vidas. Duvido que Patrick White tivesse conseguido pôr-lhe fim, mesmo que quisesse; afinal ele também tinha um interesse na questão. Também ele desejava acreditar.

Emily nunca se interrogou por que razão o Dr. Peacock era tão generoso. Para ela, ele era simplesmente um homem bondoso e cómico que se exprimia por longas e rebuscadas frases e que nunca os visitava sem levar flores, vinho ou livros. Quando Emily fez seis anos, ofereceu-lhe um piano novo para substituir o antigo e estragado em que ela aprendera a tocar; ao longo do ano, havia bilhetes para concertos, paus de pastel, tintas, cavaletes, telas, guloseimas e brinquedos.

E música, naturalmente. Sempre música. Ainda agora, é o que mais dói. Pensar num tempo em que Emily podia tocar todos os dias durante o tempo todo que quisesse, em que todos os dias eram uma fanfarra, e Mozart, Mahler, Chopin e até Berlioz se perfilavam como pretendentes aos seus favores, para serem escolhidos ou rejeitados ao sabor dos seus caprichos...

― Vá, Emily, ouve a música. Diz-me o que ouves.

Era Mendelssohn, "Lieder ohne Worte", Opus 19, Número 2, em lá menor. A parte da mão esquerda é difícil de dominar, com os seus blocos compactos de semicolcheias, mas Emily tem praticado e agora é quase perfeita. O Dr. Peacock fica satisfeito. A mãe também.

― Azul. Um azul bastante escuro.

― Mostra-me.

Ela tem agora uma nova caixa de tintas, sessenta e quatro cores dispostas como um tabuleiro de xadrez, quase tão largo como o tampo da secretária. Não consegue vê-las, mas conhece-as de cor; organizadas por ordem de intensidade e tom. Fá é violeta; sol é índigo; lá é azul; si é verde; dó é amarelo; ré é laranja; mi é vermelho. Os sustenidos são mais claros; os bemóis mais escuros. Também os instrumentos têm cores próprias dentro da palete orquestral; a secção de sopro é muitas vezes verde ou azul; as cordas, castanhas e laranja; os metais, vermelhos e amarelos.

Ela pega no seu pincel grosso e passa-o na tinta. Hoje está a usar aguarelas e o cheiro evoca giz e avós, como violetas de Parma. O Dr. Peacock afasta-se para o lado, com Patch II enroscado aos seus pés. Catherine e Feather estão do lado oposto, prontas a passar a Emily tudo o que ela precisar. Uma esponja, um pincel; um pincel mais pequeno, um saquinho de pós brilhantes.

O Andante é uma abstracção indolente, como um dia na praia. Ela molha os dedos na tinta e passa-os pelo papel macio e não tratado para que se contraia em cristas, como a areia nos baixios, e a tinta dissolve-se e desliza para os sulcos que os seus dedos deixaram. O Dr. Peacock fica satisfeito; ela ouve o sorriso na sua voz de fagote, embora não compreenda a maior parte do que ele diz, submergida numa onda de música maravilhosa.

Por vezes, aparecem outras crianças. Ela recorda-se de um rapaz, bastante mais velho do que ela, que é tímido e gagueja e não fala muito, mas se senta a ler no sofá. No salão, há sofás e cadeiras, um banco na janela e (o seu favorito) um baloiço, pendurado no tecto por duas cordas resistentes. A sala é tão ampla que Emily pode baloiçar-se tão alto quanto quiser, sem colidir contra nada; além disso, toda a gente se afasta do seu caminho e não há choques.

Há dias em que ela não pinta; senta-se antes no baloiço, na Casa da Lareira, e escuta sons. O Dr. Peacock chama-lhe o Jogo da Associação de Sons, e se Emily se aplicar, diz ele, no fim haverá um presente. Só tem de se sentar no baloiço, ouvir os discos e dizer-lhe que cores vê. Algumas são fáceis ― já as tem organizadas na cabeça como botões numa caixa ― outras não. Mas gosta das máquinas de som do Dr. Peacock e dos discos, especialmente os antigos, com as suas vozes há muito mortas e as cordas arranhadas num gramofone de corda.

Por vezes não há música, mas apenas uma série de efeitos sonoros e estes são os mais difíceis de todos. Mas Emily dá na mesma o seu melhor para agradar ao Dr. Peacock, que toma nota de tudo que ela diz, numa série de cadernos forrados a pano, por vezes com tanta força que fura o papel com o lápis.

― Ouve, Emily. O que é que vês?

O som de um milhar de westerns; uma arma dispara, uma bala ricocheteia contra a parede de um desfiladeiro; Fumo de arma; Noite das Fogueiras e batatas queimadas. ― Vermelho.

― É tudo?

― Garança. Com um laivo de carmesim.

― Óptimo, Emily. Muito bem.

No fundo, é muito fácil; basta-lhe dar largas à imaginação. Uma moeda cai ao chão; um homem assobia desafinado; um único tordo; um puxador de porta; o som de uma mão a bater palmas. Vai para casa com os bolsos a abarrotar de rebuçados. O Dr. Peacock bate todas as noites as suas conclusões a uma máquina de escrever com uma voz à Pato Donald. Os seus ensaios têm títulos como "Sinestesia Induzida", "O Complexo da Cor" e "Longe da Vista, Longe do Coração". As suas palavras são como a anestesia que o dentista lhe dá quando tem de brocar um dente; ela perde-se sob a sua carícia trémula e nem todos os perfumes do Oriente a podem salvar.

Ξ

― Vermelho. Vermelho-escuro. Vermelho-sangue, com veios roxos.

O Nocturno Número 2 de Chopin em mi bemol maior. Ela tem bom ouvido para a música, e com seis anos já consegue tocar a maioria dos acordes, embora as complexas filas duplas da escala cromática ainda escapem à aptidão dos seus dedos rechonchudos. Isto não perturba o Dr. Peacock. Ele está muito mais interessado na sua apetência para a pintura do que em qualquer talento musical.

Segundo Catherine, já encaixilhou e pendurou meia dúzia de telas de Emily nas paredes da Casa da Lareira ― incluindo o seu Toreador; as suas Variações Goldberg; e (a favorita da mãe) o seu Nocturno em Ocre Violeta.

― Têm tanta energia ― diz Catherine, numa voz trémula. ― Tanta experiência. É quase místico. A forma como retiras as cores à música e as representas na tela... sabes, Emily? Quem me dera ver o que estás a ver agora.

Nenhuma criança podia deixar de se sentir lisonjeada com tais elogios. As pinturas dela trazem felicidade às pessoas; valem-lhe recompensas do Dr. Peacock e a aprovação dos muitos amigos dele Sabe que ele está a planear outro livro, em grande parte baseado nas suas conclusões recentes.

Sabe que não é a única pessoa com quem ele fez amizade na sua investigação da sinestesia. No seu livro "Para Além do Sentido", explica que já escreveu extensivamente sobre o caso de um rapaz adolescente, simplesmente mencionado como Rapaz X, que parecia exibir sinais de sinestesia olfactiva-gustativa adquirida.

― Que é que isso quer dizer? ― pergunta Emily.

― Experimentava as coisas de um modo especial. Ou, pelo menos, dizia que sim. Agora, por favor, concentra-te nas notas...

― Que tipo de coisas é que ele via? ― diz ela.

― Não me parece que visse alguma coisa.

Até à entrada de Emily em cena, o Rapaz X tinha sido o grande projecto do Dr. Peacock. Mas entre uma menina-prodígio cega que consegue ouvir cores (e pintá-las) e um rapaz adolescente com uma afinidade com cheiros, não podia haver verdadeira competição. Além disso, o rapaz era um chupista, disse Catherine; pronto a inventar todo o género de sintomas falsos para chamar a atenção. A mãe era ainda pior, disse ela; qualquer idiota era capaz de ver que tinha convencido o filho a alinhar naquilo, na esperança de deitar a mão ao dinheiro do Dr. Peacock.

― És demasiado crédulo, Gray ― disse ela. ― Outra pessoa qualquer tinha-os topado a quilómetros. Viram logo que te podiam levar, meu caro. Deram-te completamente a volta.

― Mas os meus testes mostram claramente que o rapaz reage...

― O rapaz reage ao dinheiro, Gray. E a mãe a mesma coisa. Umas libras aqui, uma nota de dez ali. Tudo ajuda, e quando deres por ti...

― Mas, Cathy... ela trabalha no mercado, por amor de Deus... tem três filhos, o pai desapareceu. Precisa de alguém...

― E depois? Precisa tanto como metade das mães no bairro camarário precisam. Vais pagar as despesas desse rapaz até ao fim da vida dele?

Sob pressão, o Dr. Peacock admitiu que já contribuíra para as propinas escolares do rapaz, mais mil libras para um fundo de poupança ― Para a universidade, Cathy, o rapaz é muito inteligente...

Catherine White ficou furiosa. O dinheiro não era dela, mas enfurecia-a tanto como se lhe tivesse sido roubado da carteira. Além disso era quase cruel, disse ela, ter levado o rapaz a alimentar tantas expectativas. Provavelmente ele teria passado muito bem se ninguém lhe tivesse metido ideias na cabeça. Mas o Dr. Peacock encorajara-o transformara-o num descontente.

― É o que ganhas, Gray, a tentar fazer de Pigmaleão ― disse ela. ― Não esperes gratidão do rapaz... aliás, estás a prejudicá-lo, a levá-lo a crer que pode viver à tua custa em lugar de arranjar um emprego como deve ser. Até pode vir a dar num indivíduo perigoso. Dá-se dinheiro a esta gente e que é que fazem? Compram bebidas e drogas. As coisas saem fora de controlo. Não seria a primeira vez que uma pobre alma benevolente era assassinada na cama pelas mesmas pessoas que tentou ajudar...

E por aí adiante. Finalmente, na sequência de uma acalorada discussão entre o Dr. Peacock e Catherine, o Rapaz X cessou as suas visitas à Casa da Lareira, para nunca mais voltar.

Catherine foi magnânima na vitória. O Rapaz X não passara de um erro, disse ela. Generosamente pago pela sua colaboração nas experiências do Dr. Peacock, era perfeitamente natural que uma pessoa do seu tipo tentasse explorar a situação. Mas agora estavam perante a coisa genuína: uma verdadeira sinesteta, cega de nascença, cuja visão renascera através da música. Era uma história fabulosa e merecia por si só destaque. Não haveria ninguém que minasse a originalidade do Fenómeno Emily White.

Ξ

Uma mentira tem um ritmo próprio. A de Emily começou com uma abertura empolgante; suavizou-se num solene andante; foi elaborada sobre vários temas e variações; e finalmente emergiu num triunfante scherzo, perante estrondosas ovações e intermináveis aplausos.

Foi o seu grandioso intróito. A sua apresentação formal à comunicação social. A Rapariga Y servira o seu propósito; agora estava pronta para subir ao palco. Faltavam três semanas para fazer oito anos; era inteligente e exprimia-se bem; o seu trabalho era perfeito, graças à prática intensa, e estava pronta a confrontar o escrutínio. Como parte da fanfarra, a imprensa fora informada; haveria um leilão das suas pinturas numa pequena galeria perto de Kingsgate em Malbry; o novo livro do Dr. Peacock estava quase a sair e, de súbito, ou pelo menos assim parecia, Emily White andava nas bocas do mundo.

Esta pequena figura (dizia o Guardian), com o seu cabelo castanho à pajem e rosto melancólico, não tem a aparência de um prodígio típico. (Porquê?, pergunta-se. O que é que esperavam?) De facto, à primeira vista, parece-se perfeitamente com qualquer outra menina de oito anos, excepto na maneira como os seus olhos deslizam e dardejam, dando ao autor a desconfortável impressão de que lhe lê o mais fundo da alma.

O autor era um jornalista idoso, chamado Jeffrey Stuarts, e se tinha alma, ela nunca lhe captou o mais vago vestígio. A sua voz era sempre demasiado alta, com um toque de percussão, como ervilhas secas numa tigela ― e cheirava a loção da barba Old Spice tentando esforçadamente abafar um odor latente a suor e a ambição frustrada. Nesse dia, todo ele era afabilidade.

Parece inconcebível (continua ele) que as telas que clamam e se elevam das paredes desta pequena galeria próxima de Kingsgate, em Malbry, possam ser obra exclusiva desta menina tímida. E, no entanto, existe algo de arrepiante em Emily White. As pequenas mãos pálidas agitam-se incessantemente, como borboletas. A cabeça está ligeiramente inclinada de lado, como se captasse sons que nenhum de nós consegue ouvir.

Na verdade, ela estava simplesmente enfadada.

― É verdade ― perguntou ele ― que és realmente capaz de ver a música?

Obedientemente, ela assentiu com a cabeça; atrás dele, ouvia as gargalhadas sonantes do Dr. Peacock sobre um chilrear de fundo. Interrogou-se onde estaria o pai; pôs-se à escuta da sua voz e, por um segundo, pensou tê-la ouvido, enredada na cacofonia crescente.

― E estas pinturas... representam de facto o que vês? Ela assentiu novamente com a cabeça.

― Então, Emily, qual é a sensação?

Posso estar a dramatizar excessivamente, mas sinto que ela é um pouco como uma tela em branco; tem uma qualidade sobrenatural que cativa e repele ao mesmo tempo. As suas pinturas reflectem isso; como se a jovem artista tivesse, de algum modo, obtido acesso a outro plano de percepção.

Minha nossa. Mas o homem gostava da aliteração. Havia muito mais na mesma vela; era mencionado Rimbaud (inevitavelmente); o trabalho de Emily era comparado com o de Munch e Van Gogh, e era até sugerido que ela passara pelo que Feather chamava canalização, o que significava que tinha, por qualquer razão, sintonizado uma frequência aberta de talento (possivelmente associada a artistas mortos há muito) para produzir estas pinturas assombrosas.

À primeira vista (escreve Mr. Stuarts), todas as suas telas parecem abstracções. Grandes e arrojadas manchas de cor, algumas com texturas de tal modo fortes que quase são esculturas. Mas notam-se aqui outras influências que não podem ser coincidências. A Heróica de Emily White evoca a Guernica de Picasso; Bach de Aniversário é tão denso e complexo como um Jackson Pollock e Sonata ao Luar Estrelado tem mais do que fugazes semelhanças com Van Gogh. Poderá ser, como sugere Graham Peacock, porque toda a arte tem uma base comum no inconsciente colectivo? Ou será que esta menina é um canal para algo que excede a sensibilidade dos comuns mortais?

Havia mais ― muito mais ― nesta linha. Uma versão resumida foi parar ao Daily Mirror com o título. SUPERSENTIDO DE MENINA CEGA. O Sun também a publicou, ou algo de semelhante, com uma fotografia ao lado de Sissy Spacek tirada do filme Carrie. Pouco depois, uma versão mais extensa foi publicada num jornal chamado Aquarius Moon, juntamente com uma entrevista a Feather Dunne. Por esta altura, já o mito estava bem lançado; e embora nesse dia em particular não houvesse sinais das facas que não tardariam a ser brandidas em resposta, acho que mesmo assim a atenção a inquietava. Emily detestava multidões; detestava ruído e todas as pessoas que iam e vinham, as suas vozes debicando-a como galinhas esfomeadas.

Mr. Stuarts estava agora a falar com Feather; Emily ouvia a voz dela, gutural e carregada de patchouli, a dizer que muitas vezes crianças com aptidões diferentes eram hospedeiros ideais de espíritos benignos. À sua esquerda estava a mãe, parecendo um pouco bêbada; o riso dela ecoava demasiado alto no meio do fumo e do ruído.

― Sempre soube que ela era uma criança excepcional ― Emily ouviu por sobre o barulho. ― Quem sabe? Talvez ela seja o degrau seguinte na escada evolucionária. Uma das Crianças de Amanhã.

As Crianças de Amanhã. Credo, que frase! Feather usou-a na sua entrevista ao Aquarius Moon (tanto quanto sei, é muito capaz de a ter inventado), e só por si deu origem a uma dezena de teorias de que Emily permaneceu ditosamente ignorante ― pelo menos até ao colapso final.

Agora era simplesmente enervante, e ela levantou-se da cadeira e começou a dirigir-se para a porta aberta, seguindo a linha lisa da parede, sentindo o ar doce no seu rosto erguido. Estava quente lá fora; sentiu o sol poente nas pálpebras e inalou o perfume das magnólias no parque do outro lado da rua.

Um cheiro branco, dizia a voz da mãe na sua cabeça. Branco de magnólia. A Emily soava doce e achocolatado, como um nocturno de Chopin, como a Cinderela, um aroma a magia. Em comparação o calor do interior da galeria era opressivo; as vozes daquela gente toda ― convidados, académicos, jornalistas, todos a falar ao mesmo tempo e a plenos pulmões ― sacudindo-a como um vento quente. Nunca até então fizera uma exposição. Nem sequer tivera uma festa de anos digna desse nome. Sentou-se no degrau da galeria ― havia uma balaustrada de ferro fundido e ela encostou a face quente à sua superfície crivada de pequenos orifícios e ergueu o rosto para o cheiro branco.

FIM

 

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Joanne Harris nasceu no Yorkshire, em 1964, de mãe francesa e pai inglês, ambos professores. Cresceu sentindo-se deslocada por força do seu bilinguismo, num meio adverso ao cosmopolitismo. Refugiou-se portanto na leitura, que povoou a sua fantasia de amigos imaginários, sobretudo nos primeiros dez anos da sua vida. Passou grande parte da sua adolescência a escrever, imitando os seus autores favoritos, à procura do seu próprio estilo. Ao terminar o ensino secundário, ingressou no St. Catherine's College de Cambridge, onde se diplomou em Línguas e Literaturas Medievais e Modernas, Variante de Estudos Franceses e Alemães. Entre outros, escreveu Chocolate, Vinho Mágico, Cinco Quartos de Laranja, A Praia Roubada, Na Corda Bamba, Danças & Contradanças, Valete de Copas e Dama de Espadas, Xeque ao Rei e Sapatos de Rebuçado. Com Chocolate (1999), conheceu um retumbante sucesso internacional e foi nomeada para um Prémio Whitbread.

 

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EMILY
Joanne Harris
é um excerto de 'O Rapaz de Olhos Azuis'
Romance
Título Original: Blue-eyed boy, 2010
Edições Asa ― 1.ª Edição, 2010


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[15.Nov.2012]
Publicado por MJA