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 Sobre a Deficiência Visual


O Presidente Cego

William Safire

Cego - Vasily Perov, 1878
Cego - Vasily Perov, 1878
 

PRÓLOGO

Qual a extensão do termo “incapacidade” e quem deve decidir a respeito? — John Dickinson, de Delaware, em 27 de agosto de 1787, durante a Convenção Constitucional, proferiu a única referência registrada no tocante à cláusula da sucessão presidencial. A pergunta de Dickinson não foi respondida.

A vigésima quinta Emenda à Constituição dos Estados Unidos, aprovada pelo Congresso em 6 de julho de 1965, e ratificada pelos necessários três quartos dos estados em 10 de fevereiro de 1967, tem a seguinte redação:

1.ª Secção. Em caso de destituição do Presidente do cargo, ou por sua morte ou renúncia, o Vice-Presidente será o Presidente.
2.ª Secção. Quando ocorrer a vacância do cargo de Vice-Presidente, o Presidente nomeará um Vice-Presidente, que deverá tomar posse após ser confirmado pela maioria de votos de ambas as Casas do Congresso.
3.ª Secção. Quando o Presidente transmitir ao Presidente pro tempore do Senado e ao Presidente da Câmara dos Deputados sua declaração por escrito de que se encontra impossibilitado de exercer os poderes e os deveres de seu cargo, e até que ele lhes transmita uma declaração em contrário, por escrito, tais poderes e deveres deverão ser exercidos pelo Vice-Presidente como Presidente Interino.
4.ª Secção. Quando o Vice-Presidente e a maioria dos principais funcionários dos departamentos executivos ou de outro órgão como o Congresso, como prevê a lei, transmitir ao Presidente pro tempore do Senado e ao Presidente da Câmara dos Deputados suas declarações por escrito de que o Presidente está impossibilitado de exercer os poderes e os deveres de seu cargo, o Vice-Presidente deverá assumir imediatamente os poderes e os deveres do cargo como Presidente Interino.

Consequentemente, quando o Presidente transmite ao Presidente pro tempore do Senado e ao Presidente da Câmara dos Deputados sua declaração por escrito de que não existe incapacidade, ele reassumirá os poderes e os deveres de seu cargo, a menos que o Vice-Presidente e a maioria dos principais funcionários do departamento executivo ou de outro órgão como o Congresso, como prevê a lei, comuniquem dentro de quatro dias ao Presidente pro tempore do Senado e ao Presidente da Câmara dos Deputados suas declarações por escrito de que o Presidente está impossibilitado de exercer os poderes e os deveres de seu cargo. Imediatamente o Congresso decidirá a respeito, reunindo-se dentro de quarenta e oito horas com esta finalidade, se não estiver em sessão.

Se o Congresso, dentro de vinte e um dias após ter recebido a última declaração por escrito, ou se o Congresso não estiver em sessão, dentro de vinte e um dias após ser convocado, decidir por dois terços dos votos de ambas as Casas que o Presidente está impossibilitado de exercer os poderes e os deveres de seu cargo, o Vice-Presidente continuará a exercer os mesmos direitos e deveres como Presidente Interino; em caso contrário, o Presidente reassumirá os poderes e os deveres de seu cargo.


I

A EMBOSCADA E SUAS CONSEQUÊNCIAS


O AGENTE DO SERVIÇO SECRETO /1

Falsificação era o seu negócio. Trabalho meticuloso, de resultados satisfatórios. Harry Bok retirou da carteira uma nota falsa de cem dólares e analisou uma efígie bem impressa de Benjamin Franklin. Com a mão, amarrotou a nota: o papel não era perfeito, o peso era ligeiramente excessivo. Teve pena do impressor, que trabalhara tão esforçadamente e vira seus cuidados serem inutilizados pelo erro de seu fornecedor de papel.

Harry olhou para fora da janela do Air Force One e concluiu que passara demasiado tempo no sector errado do Serviço Secreto. Durante todos esses anos — era um veterano com vinte e cinco anos no Serviço, começara aos vinte e um — ele estivera “emperrado” na área de proteção, principalmente de presidentes. Era um guarda-costa.

Os contornos da pardacenta zona rural russa tornaram-se mais nítidos à medida que o avião lentamente descia rumo à casa de campo no Mar Negro. Perguntou-se como seria tratada a falsificação na União Soviética. O homem sentado a seu lado era um guarda russo que protegia o Ministro do Exterior russo, que estava, neste momento, numa reunião, na cabina do Presidente, com o Presidente Ericson e o Secretário de Estado.

Harry perguntou:

— Vocês têm muitos casos de falsificação na Rússia? — Precisou explicar o que era falsificação. O russo sacudiu negativamente a cabeça: havia muita prostituição e brigas de bêbados, alguns assaltos e crimes de rua, mas nenhuma falsificação. Harry assentiu com a cabeça, e voltou a seus devaneios. O Serviço Secreto dos Estados Unidos fora fundado devido à falsificação. Na década de 1860, quando todos os bancos emitiam dinheiro em espécie, um em cada três dólares era falso. Isso representava grave problema nacional. Lincoln ordenou a criação de um grupo antifalsificação, chamado Serviço Secreto, na manhã do dia em que foi assassinado. Após o assassínio de Lincoln, ainda não havia serviço de proteção; o Serviço então declarou guerra às notas falsas. Harry lembrou-se da ironia que lhe havia sido contada pelos instrutores do centro de treinamento em Beltsville, Maryland, há muitos anos atrás: uma quadrilha de falsificadores, na tentativa de conseguir livrar seu chefe da cadeia, elaborou um plano para roubar o cadáver de Lincoln da sepultura em Springfield. Tencionavam trocá-lo por seu companheiro vivo, mas o Serviço soube de tudo e houve um tiroteio no cemitério. Assim, o primeiro Presidente que o Serviço Secreto protegeu foi um cadáver. Após esse episódio, em razão de ser o único órgão federal encarregado de fazer cumprir a lei, recebeu a função de proteger, e um século mais tarde a cauda da proteção crescera mais do que o cachorro da antifalsificação.

— Você é o agente mais velho que conheço — disse o russo, e imediatamente Harry concluiu que ele falava inglês demais.

— Só estou com vinte e seis anos, mas o caso é que bebo muito — replicou Harry. O companheiro de assento calou-se. Evidente que o russo tinha razão: a função de Harry deveria ser desempenhada por homem mais moço. Aos quarenta e seis anos, Harry Bok era um anacronismo, talvez um perigo. Já não tinha os reflexos de antes, nem estava certo de estar pronto a interpor o corpo entre o Presidente e uma bala. Por isso queria ser designado para o sector de falsificações, onde pudesse concorrer com artistas, não com loucos. O som de um balão de gás estourando era o bastante para que ele sentisse como que uma garra lhe apertando o coração. No sector de proteção, ele precisava estar sempre pronto para agir rapidamente, mas na área de falsificação, não precisaria ser ágil como um jóquei para ser um policial.

Harry estava pronto para enfrentar o facto de que era um agente “idoso”, mas ninguém mais aceitava essa constatação. Ele era o favorito dos Presidentes, sempre fora. Quatro Presidentes o haviam escolhido para ser o agente mais próximo deles, do lado direito, ligeiramente para trás, sempre disponível para tratar de crianças ou mulheres, de amigos ou birutas. E para conversar. Harry se perguntou por que razão os Presidentes achavam que era bom conversar com ele. Talvez pela expressão tolerante que seu rosto assumia naturalmente, mesmo quando ele não se sentia especialmente tolerante. Suas rugas, as bochechas e os plácidos olhos castanhos davam a impressão de estender-se, para assegurar ao interlocutor de assuntos altamente confidenciais que Harry era um repositório de confiança e compreensão.

Os Presidentes sempre o passavam a seus sucessores, a despeito das brandas objeções do diretor do Serviço e de sua própria declarada preferência por trabalho policial menos atlético e mais criativo. Ele sabia por quê. Herb Abelson, o médico do Presidente Ericson, lhe havia dito francamente, há apenas seis meses, quando o quadragésimo primeiro Presidente dos Estados Unidos tomou posse: “Ele tem inúmeros agentes extremamente dedicados e leais, Harry, prontos a se atirarem à frente de uma bala para salvá-lo. Sven Ericson precisa, porém, de um agente pançudo e de meia-idade, atormentado por dúvidas. Ele não necessita de um robô, e nisto não vai nenhuma crítica a seus colegas, Harry, e sim de um mensch". [nota: Homem, em alemão.]

O chão estava se aproximando. Harry resmungou no assento, levantou-se do lado do guarda soviético, e se meteu no lavatório. Pendurou o paletó e abriu o pequenino sabonete com o emblema presidencial no envoltório. Era uma lasca de sabonete, não era um sabonete; sabonete era o que se tinha em casa, em sua própria saboneteira, sobre o qual podia reclamar de sua mulher que estava com o fundo encharcado; ela, à sua vez, se queixaria de que “você não ficava em casa o suficiente para virar o sabonete regularmente”. Ele borrifou-se liberalmente com loção após a barba, um dos fringe benefits do Air Force One. Pôs uma pilha no cinto, colocou o fio em volta do colarinho, certificando-se de que ele não se emaranhasse com o coldre passado em volta do ombro, enfiou o receptor cor de carne no ouvido, vestiu o paletó em cima de todos esses acessórios e verificou o alfinete verde e branco da lapela, que seria alterado dali a dias, em cor e formato. Olhou no espelho a imagem cheia de fios para obter sons e se indagou o que aconteceria se um agente do Serviço Secreto tivesse dificuldade de audição. Seria ele o único a andar por aí sem um aparelho auditivo, a adotar atitudes estranhas, como um harpista numa orquestra só de mulheres?

Buffie Masterson o esperava do lado de fora do lavatório. De cabelo acaju, sem maquilhagem, com o corpo jovem e atlético enfiado numa veste verde e, como de hábito, insistente:

— Quero dar uma volta no helicóptero, Harry. Você consegue isso pra mim?

Ele disse automaticamente que não, sabendo que Buffie logo o apoquentaria. Ela era a fotógrafa oficial do Presidente, e a melhor de todos os fotógrafos oficiais nos últimos anos — ganhadora de todos os tipos de prémios — e parte de seu talento era uma agradável mania de insistir para obter o que queria. O advogado do Presidente, Hennessy, a chamava de “falsa despreocupada”, e ele deveria saber o que dizia, pois era um especialista em avaliar o grau de irritação das pessoas.

— Você tentaria me conseguir isso, em troca de um suborno?

Ela exibiu um esboço do perfil de Harry contra a portinhola do avião: era a carvão, e fora feito em papel granulado de artista, que o carpinteiro da Casa Branca poderia emoldurar lindamente, para que Harry o pendurasse no estúdio. Quando Buffie não conseguia levar a máquina para retratar uma situação, como, por exemplo, num tribunal ou em algumas reuniões, ela levava o bloco de desenho e registrava suas impressões. Isto a tornava duplamente valiosa.

— Borrife fixador no desenho — disse-lhe ele. — O último suborno que você me deu ficou todo marchado. Depois que eu sair da cabina do Chefe, você espera uns cinco minutos e lhe pede você mesma. É um helicóptero russo, todos os assentos já foram designados, e você é uma mulher robusta. Não sei se ele vai deixar.

Ela não era uma mulher robusta. Seu corpo era bem talhado para se adaptar a situações apertadas, mas Harry não sabia se o Presidente Ericson gostaria que ela o acompanhasse no helicóptero, ou se ela deveria ir com o pessoal da imprensa e manter os ouvidos abertos. O plano era que o Presidente, acompanhado pelo Secretário de Estado e pelo Ministro de Relações Exteriores soviético, chegasse ao Aeroporto de Simferopol em alguns minutos, onde seria cumprimentado pelo Secretário-Geral Kolkov. Há quatro dias que Ericson e Kolkov se estavam reunindo em Moscou; enquanto Ericson percorria Leningrado, Kiev e Minsk, Kolkov fora para sua dacha no Mar Negro aguardar o Presidente americano para o último fim de semana da visita. O aeroporto da Criméia distava quase duas horas de carro da dacha de Yalta. Seguindo sugestão soviética, os dois líderes — acompanhados apenas por guardas e um intérprete — seriam levados de helicóptero à dacha, seguidos por um outro helicóptero de vigilância. Os demais membros do grupo — cerca de duzentos correspondentes, uma centena de funcionários da comitiva e alguns elementos que haviam conseguido juntar-se à caravana — receberiam instruções no hangar do aeroporto, e depois seriam conduzidos, de carro ao Hotel Oreanda, em Yalta. Isso proporcionaria a Ericson e Kolkov umas duas horas não-oficiais para ficarem juntos, sem que nenhum pool da imprensa se queixasse de não estar perto o suficiente para vê-los.

Harry permaneceu no amplo corredor do avião, menos preocupado com a segurança do que normalmente. Na Rússia, como na China, o perigo de um maníaco à solta era mínimo: havia policiais postados de cinquenta em cinquenta metros nas rodovias, e a segurança eletrônica em redor das dachas era intensa. Ainda mais importante, não havia tradição recente de assassinatos nessas sociedades, como ocorria no Oriente Médio e nos Estados Unidos. Quando os americanos, solicitaram permissão para que seu Presidente voasse em território da União Soviética no Air Force One, contrariando o protocolo, não foi em nome da segurança; foi mais por relutância em servir à propaganda soviética, ao aparecer num jato supersônico russo. E também, acrescentou Harry para si próprio, para se manterem em contato. No estrangeiro, quando longe do Air Force One, a única área segura de comunicações era a limusine do Presidente; e era bastante incômodo fazer reuniões da comitiva no carro.

Harry não estava muito satisfeito com relação ao iminente passeio de helicóptero, mas não por razões de segurança. Helicópteros lhe transtornavam o estômago. Ele preferia que todos seguissem de carro, mas o Ministro de Relações Exteriores, Vasily Nikolayev, estava ansioso para exibir o novo equipamento soviético, e por isso os funcionário da Casa Branca, que haviam chegado antes à Rússia para verificar as condições de segurança, haviam concordado. Harry admitiu que a volta de helicóptero duraria apenas vinte minutos, e que os barulhentos batedores de ovos ofereciam mais segurança do que um desfile de carros. Mesmo se houvesse problemas de motor, os helicópteros seriam capazes de aterrar com segurança. Ademais, outro helicóptero os seguiria, de modo que não haveria problemas de segurança.

Francamente — se disse Harry — estava mais preocupado com a viagem de volta aos Estados Unidos. A primeira parada seria no Aeroporto das Lajes, nos Açores, que recentemente passara a fazer parte do território americano: o Presidente achava que devia parar lá. Em seguida, continuariam viagem até a Base Andrews da Força Aérea, em Washington. Seus humores orgânicos começaram a borbulhar, irritados com essa perspectiva, e ele os acalmou ao pensar na segurança inerente a uma ditadura, especialmente num país governado tão rigidamente quanto a Rússia de Kolkov.

À ideia de Kolkov, ele se lembrou de uma pergunta que queria fazer, por curiosidade, pois nada tinha a ver com suas funções. Harry sentou-se ao lado de Lucas Cartwright, o Chefe da Casa Civil do Presidente. Normalmente, Cartwright estaria sentado na cabina do Presidente durante a realização de quaisquer reuniões, mas Ericson solicitara ao Secretário Curtice que lhe fizesse companhia e Cartwright não era do tipo que se insinuava. Harry imaginou que o Chefe da Casa Civil achava que o Presidente estava elevando o moral de George Curtice, pelo facto de estar sozinho com ele e o Ministro das Relações Exteriores soviético. Curtice precisava dessa demonstração de confiança, ao passo que o veterano Cartwright certamente a dispensava.

Cartwright estava lendo um romance. Ninguém mais no Air Force One se poderia dar ao luxo de ser apanhado lendo um romance, pois se supunha que o passageiro estava a bordo do avião mais importante do mundo, ele se deveria ocupar de forma também importante, e leria material vedado às pessoas em geral, ou que ninguém sentisse vontade de ler: resumos de instruções sobre assuntos altamente confidenciais, pormenorizados itinerários presidenciais, manuais de códigos, minutas de ensaios sobre posições assumidas, artigos de alto nível sobre política externa, ou o Resumo de Notícias do Presidente. Harry Bok e Lucas Cartwright eram veteranos, porém; de folga, Harry era perito em tirar rápidas sonecas, e o Chefe da Casa Civil costumava entreter-se com alguma imitação de "E o Vento Levou".

— Sua viagem está sendo agradável, Sr. Bok? — O assessor grisalho era o último cavalheiro da Casa Branca. Harry e Cartwright haviam trabalhado juntos na administração de Johnson, e Cartwright começara a trabalhar na Casa Branca na época de Truman, “quando rapaz, um rapazinho mesmo”, ele postava de acrescentar. Os Presidentes gostavam de Cartwright, mas não da mesma forma como gostavam de Harry Bok: o fazendeiro-cavalheiro do Tennessee era o perfeito assessor presidencial, o homem probo que jamais precisava de supervisão nem, de ser vigiado; era desprendido, seguro de si, tinha prazer em servir e não era apegado ao cargo. Cartwright era o único homem da Casa Branca que idolatrava Cordell Hull. [nota: Secretário de Estado da Administração F. Roosevelt, cuja integridade em reconhecida por todos.] Harry o vira em situações críticas, quando ele se mantivera digno de confiança e frio, normalmente até sábio; algumas vezes cometera enganos, mas nunca sérios: ele era um elo de continuidade entre as presidências anteriores. Sem ele, essa continuidade pertenceria apenas aos mordomos, jardineiros e guardas. O rosto de Cartwright, embora familiar, jamais convidara maiores intimidades. Harry gostava dele porque adicionava uma nota de zombeteira formalidade a uma administração que tendia a ser muito séria e na qual os nomeados se esforçavam para combinar com o estilo despreocupado e calmo de Ericson. O Presidente também gostava de Cartwright — não de modo pessoal, pois os dois homens eram ligados apenas profissionalmente — porque achava que um Presidente quase cinquentão deveria ter um Chefe da Casa Civil quase setentão, cheio de recordações úteis, grandes ligações em Washington, e um insignificante centro pessoal de gravidade.

— Não é de minha conta — disse Harry — e ninguém me diz nada, mas tenho a impressão de que essa conferência de cúpula é um enorme fracasso.

— Não é bem assim — disse firmemente Cartwright, — A primeira viagem de um Presidente ao estrangeiro não é jamais um fracasso. Ou é um colossal triunfo pessoal, ou... se as coisas não funcionam do jeito que ele esperava... a viagem é o princípio de um valioso processo de exploração e proveitosa troca de opiniões.

— Por que será que foi um fiasco? — perguntou Harry. — Dizem que Ericson é muito competente em matéria de relações exteriores. Ele foi até professor de matéria!

Cartwright dobrou cuidadosamente o canto de uma página e fechou o livro.

O comunicado — respondeu — transmitido hoje de manhã pelo Secretário de Estado ao Secretário de Imprensa diz o seguinte: O objetivo da visita do Presidente Ericson foi, em primeiro lugar, travar conhecimento com o Camarada Kolkov, o que ele realizou brilhantemente.

— Eles fizeram um bocado de brindes — admitiu Harry.

— Em segundo lugar, o Presidente estava resolvido a descobrir se os boatos de uma brecha na aliança Estados Unidos-União Soviética eram verdadeiros, e se os soviéticos estavam sondando as potências do Extremo-Oriente. Esse objetivo foi atingido.

— Ótimo! — exclamou Harry.

— Na verdade, isso é mau — continuou Cartwright. — Isto é confidencial, mas o pouco que o Presidente descobriu é inquietante. O Secretário-Geral Kolkov é uma velha raposa matreira — o Chefe da Casa Civil verificara isso pessoalmente. — Estou parecendo uma revista de atualidades. Kolkov não revela o que pensa e, ao que nos conste, nem Nikolayev, supostamente seu protegido, nos pode assegurar quais são as tendências do velho.

— Então a viagem foi um fracasso — resumiu Harry.

— O princípio de um valioso processo — concordou Cartwright.

— Acontece que nosso chapa Curtice é íntimo de Nikolayev. Isso podia ser útil.

— Harry, o primeiro Secretário de Estado dos Estados Unidos negro não deve nunca ser chamado de “chapa”.

— Sou polaco — protestou Harry. — Tenho licença de proferir desrespeitos étnicos.

— Isso é uma fenda na sua armadura. — Cartwright sorriu, e depois ficou sério.

— Nunca sei se é boa ideia, isso de fingir que se entendem, como pessoas. Na verdade, amizade não tem nada a ver com esse negócio, os interesses sempre vêm em primeiro lugar.

Harry Bok, que participara de cerca de trinta conferências de cúpula — mais do que qualquer outra pessoa — concordou. De tanto escutar atrás de portas, ou de discutir os assuntos com o Presidente à noite, na limusine, no seu papel de ouvinte atento, sabia que os relacionamentos pessoais serviam para fazer-se cartaz em casa, mas raramente ajudavam nos negócios entre nações.

— Ericson é bom nesse tipo de coisa? — perguntou a Cartwright.

Há cerca de um ano Harry vinha observando Ericson: seis meses de campanha, depois o intervalo, e menos de seis meses desde a cerimónia de posse — e não tinha tanta confiança em Ericson quanto o próprio Ericson.

— É cedo para dizer. Você o conhece melhor do que eu. Você, Dr. Abelson, Hennessy e Melinda McPhee: que é que o pessoal “de dentro” acha? — A realista exclusão de Cartwright desse círculo não teve nenhum sinal de ressentimento.

— Herb Abelson nunca põe o nariz para fora de sua maleta preta; está sempre com medo de haver esquecido de trazer algum comprimido. Hennessy ficou em casa, aborrecido porque não foi convidado a fazer esta viagem. Melinda acha o Presidente meio presunçoso — informou Harry.

— Melinda tem bons instintos — disse Cartwright evasivamente. — O Presidente tem sorte de ter uma secretária assim.

Quer dizer que Cartwright também achava que o Presidente estava voando alto demais! Harry deduziu que suas desconfianças deviam ser válidas. A projeção mundial realmente sobe à cabeça de um homem: um Presidente começa a julgar que sua própria personalidade faz grande diferença.

O alarme preso a seus quadris disparou, vibrações lhe invadiram o corpo, e lhe deram vontade de urinar pelas pernas. Harry levantou-se do assento ao lado de Cartwright e foi ao posto de comando acima da cabina presidencial. O subchefe da segurança desdobrou um mapa e detalhou as tarefas dos doze homens a bordo. Harry seria o único agente a acompanhar 'O Homem' no helicóptero. Lembrou-se de pedir alguns comprimidos de Dramamine ao Dr. Abelson; seria um vexame ele vomitar no colo do Presidente. Sempre pensava nisso, mas o horrível momento jamais chegara. Achava que, se acontecesse algum dia, seria a forma mais rápida de chegar à Divisão de Falsificações.
 

O LIDER SOVIÉTICO /1

— Vamos, aperte o botão — disse sorrindo o Presidente. — Não vai fazer explodir o mundo.

Vasily Nikolayev apertou o botão. A escrivaninha na cabina de trabalho do Air Force One baixou até se transformar numa mesa de café. Uma unidade modular contendo canetas, clipes e papel de rascunho recuou sob a parte de cima e foi recoberta por um painel deslizante de fórmica, enquanto outra unidade aparecia e exibia nozes e frutas secas. O Ministro das Relações Exteriores soviético se inclinou para a frente e se serviu de uma noz. Era fresca, e ele se permitiu mostrar-se impressionado.

— Seu avião pode ser vagaroso, mas é bem suprido — disse ele ao líder americano. Nikolayev achava-se íntimo o suficiente do Presidente Ericson para criticar-lhe a relativa morosidade do jato jumbo Boeing 747.

Faltava ainda um ano para os Estados Unidos introduzirem seu avião supersônico, e o atual presidente resolvera não acompanhar os Concordes e Tupolevs de outros líderes mundiais, e utilizar-se de um jato militar. Nikolayev achou sábia a resolução de Ericson: os americanos podiam dar-se ao luxo de desprezar a liderança temporária que outras nações desfrutavam na aviação comercial. Em alguns anos eles estariam muito à frente do resto do mundo. O enorme e pesadão 747 como avião presidencial era uma expressão de confiança. Somente os Estados Unidos poderiam perguntar: “Para que a pressa?”.

— Apreciamos sua compreensão — disse o terceiro homem na cabina, o Secretário de Estado americano — em nos permitir utilizar este avião para viajar pela União Soviética.

Nikolayev inclinou polidamente a cabeça. Seu equivalente americano era formal, inexperiente e negro, e não tinha o sang froid do Presidente Ericson. Não havia necessidade de mencionar novamente a concordância soviética à solicitação americana.

— Deve ser agradável estar rodeado por todas essas comodidades — respondeu Nikolayev. — Nossos aviões são estritamente funcionais.

Diplomaticamente, ignorou a verdadeira razão pela qual os americanos se haviam mostrado ansiosos para utilizar seu próprio avião nesses vôos internos. Sendo a primeira viagem do Presidente Ericson à União Soviética, ele indubitavelmente se sentiria mais seguro por poder manter contato estreito com o centro de comando em Washington.

Este era o sétimo dia da visita de nove dias. Os quatro dias de negociações em Moscou haviam sido curiosamente inconclusivos; alguns acordos de pequena expressão, previamente negociados, haviam sido assinados, mas o velho Kolkov fora incomumente evasivo no tocante a grande número de assuntos, para os americanos e para seus próprios companheiros. Nikolayev visualizou Kolkov nesse momento, andando para lá e para cá no Aeroporto de Simferopol; como sempre, chegara muito cedo e as mãos estavam cruzadas atrás das costas; com a barriga proeminente, sua aparência era desoladora, distante, os lábios se moviam silenciosamente, enquanto ensaiava o que gritaria para as câmaras de televisão, tendo a esguia figura do Presidente americano avantajando-se ao seu lado.

O plano incluía um aperto de mão e um rápido discurso no aeroporto, em frente aos fotógrafos. Em seguida os dois líderes, acompanhados apenas por um intérprete e uns dois guardas, voariam num helicóptero militar soviético até a dacha selecionada para uso do Presidente, uma grande casa de hóspedes perto da dacha do Secretário-Geral. O pessoal americano que se antecipara à viagem oficial para fazer as sondagens de hábito não gostara da ideia do helicóptero, mas a viagem do aeroporto às dachas levava mais de hora por carro, e teria sido considerado insulto recusar um convite no helicóptero mais avançado da União Soviética.

— Na minha opinião, as reuniões de cúpula foram bem até aqui — declarou o Secretário de Estado George Curtice. Nikolayev inclinou a cabeça, como se concordasse. Na verdade, as discussões tinham sido más, quase desastrosas. Não só para os americanos, mas também para a União Soviética, de acordo com o ponto de vista de Nikolayev. Kolkov, com seus setenta e tantos anos e cada vez mais ignóbil e paranóico, tentara tranquilizar os americanos com promessas de maiores limitações de armas estratégicas e mútuas reduções de contingentes na Europa. Normalmente, isso teria agradado a Nikolayev, mas não neste caso. Vasily Nikolayev tinha certeza de que o velho Kolkov, vivendo seus dias de decadência, estava secreta e individualmente levando a União Soviética a uma política desastrosa.

Nikolayev começou a escolher as frutas secas: pegou um damasco, uma pêra e um pêssego, e desprezou as ameixas. Ao selecionar com determinação, pensou em Kolkov, quando este lhe fizera algumas confidências, há apenas duas semanas:

— Vasily, sou forçado a confiar em você — lhe dissera o velho. — Há quinze anos que os americanos exploram a dissidência no mundo comunista. Na década de setenta, isso nos causou bastantes aborrecimentos. Desde, porém, que as potências do Extremo-Oriente se uniram, a influência americana naquela região se tornou insuportável. Não nos podemos dar ao luxo de ter um bilhão de chineses, dispondo de tecnologia japonesa, em oposição a nós. Devemos trabalhar com eles, liderá-los, não lutar contra eles. Comecei o rapprochement.

Vasily Nikolayev deduziu, então, que o velho perdera noção da realidade. Na opinião de Nikolayev, a única maneira pela qual um equilíbrio de forças poderia ser obtido era através da união da Rússia com os Estados Unidos. Se Moscou tentasse aliar-se a Pequim e a Tóquio, acabaria como a parte mais fraca num mundo comunista, não como o líder, mas como liderado. Nikolayev achava que derrotar o capitalismo seria ótimo, mas não se representasse a submissão da Mãe Rússia às hordas de orientais.

Como se estivesse lendo-lhe a mente, o Presidente americano lhe disse:

— Soubemos que a missão comercial soviética em Cantão está para fechar negócio para trocar computadores por petróleo. O senhor acha que seja um bom acordo?

Nikolayev suavemente assegurou ao Presidente que o negócio era insignificante, um nada em comparação com as oportunidades comerciais do consórcio ocidental.

— Diga isso aos fuzileiros [nota: A expressão em inglês é: “Tell that to the marines”. Significa “Não me faça de tolo”.] — replicou calmamente o Presidente Ericson. — Vocês estão tentando dar início a um movimento lá.

Para mudar de assunto, Nikolayev perguntou o que queria dizer a referência a “fuzileiro” feita pelo Presidente, e aprendeu algo desnecessário sobre gíria americana. O Presidente Ericson, que evidentemente gostava de linguagem, recruzou as compridas pernas e principiou uma longa explicação sobre a opinião dos marinheiros sobre os fuzileiros simplórios que ajudavam nos navios, nos primórdios da Marinha americana. Nikolayev começou até a se divertir com a história. Ele gostava do Presidente americano, se o verbo “gostar” pudesse ser aplicado por um político realista em relação a um outro chefe de estado. Ericson era alto — 1,94 m — e angular, sentado reclinado na poltrona e falando acima dos joelhos salientes. “Lincolniano” era o termo que os admiradores usavam frequentemente para descrevê-lo, e ele obviamente adotara a posição curvada e os maneirismos do grande homem, para sua vantagem política. Nikolayev achava que o rosto do Presidente era interessante e estranho, com os traços meio selvagens e linhas marcadas que as mulheres acham tão atraentes. O russo não poderia culpar o americano por tacitamente comparar-se a Lincoln. Se ele, Nikolayev, se parecesse com Lênine, ostentaria um Vandyke, mas fora amaldiçoado com aparência eslávica. As superfícies largas de seu rosto e a testa baixa ocultavam o que ele sabia ser o cérebro por baixo.

Sob muitos aspectos, seria uma genuína tragédia que o Presidente Ericson tivesse de ser morto numa emboscada ao helicóptero, dali a mais ou menos uma hora.

O russo recruzou as pernas na espaçosa cabina e pareceu interessado no que dizia o americano. Nikolayev achava ter muito em comum com o Presidente Ericson: ambos se estavam aproximando dos cinquenta anos, perto da plenitude da vida e do ápice do poder. Partilhavam a compreensão da necessidade do poder, e ambos demonstravam confiança na capacidade de manejá-lo. Como Ericson, Nikolayev sentia-se à vontade no centro da acção, incentivado e não intimidado pela possibilidade de um sonoro fracasso; ao contrário de Ericson, Nikolayev ainda não assumira o comando, mas isso era apenas questão de horas ou dias, após o assassinato desse dia.

Nikolayev sentiu que estava realmente entristecido pelas exigências da trama assassina que concebera; não estava triste pelo velho Kolkov, que já obtivera muito e merecia amplamente morrer, mas por Ericson, com quem ele gostaria de haver lidado no cenário mundial.

— Diga-me algo sobre Kolkov — disse o Presidente. — Você o conhece melhor do que ninguém, Vasily. Ele mudou muito nos últimos dez anos? Endureceu? Ficou mais esperto?

Nikolayev sabia que Ericson queria saber se o Secretário-Geral estava ficando senil. Não era esse o problema de Kolkov, nem a razão pela qual ele precisava ser retirado do caminho. A senilidade exigiria uma saída suave, não medidas drásticas.

— Mais vivo é uma boa descrição — replicou Nikolayev, sem querer mentir. — O Secretário-Geral é hoje menos paciente do que antes. Quer rapidamente chegar ao âmago dos assuntos.

A verdade completa era que o velho estava atacado de paranóia, e quase diariamente mudava de desconfianças e de lealdades, agarrando-se a dois postos: Secretário-Geral do partido e Primeiro-Ministro do governo — de medo de um concorrente. O último impulso de Kolkov — e era certamente um impulso, sem qualquer base na Realpolitik nem em uma percepção racional do maior perigo — tiraria a estabilidade da ordem mundial. Sacrificar a cooperação Estados Unidos-União Soviética, tão esforçadamente construída nos últimos anos, em favor de um realinhamento com as potências orientais sobre base comunista era, na opinião de Nikolayev, tão sem sentido que beirava a loucura. O problema era que Kolkov possuía o poder e a astúcia para realizar o realinhamento. Então o velho morreria feliz, e deixaria a Nikolayev e a outros enfrentar o domínio de um bilhão de chineses. Pois isso era seguramente o que os aguardava: sem a aliança americana, a União Soviética seria o aliado mais fraco do comunismo oriental.

A única maneira de evitar a acção secreta de Kolkov era assassiná-lo hoje. Nikolayev nunca antes estivera envolvido numa conspiração de assassinato. Sua firme subida ao posto de Ministro das Relações Exteriores fora sempre suavizada por Kolkov, seu protetor, que o havia resguardado das manobras mais rígidas do Kremlin. Nikolayev se interessava pela própria reação à sua primeira jogada violenta pelo poder: não sentia nem euforia nem culpa, apenas nervosismo. Devia seu cargo a Kolkov, porém nada mais que isso; o que o mundo pensava ser afeição de um velho por seu protegido era apenas um desagrado menos intenso por ele do que pela maioria dos outros membros do comitê diretivo.

Foi lamentável a inclusão do líder americano na emboscada. Lamentável, porém necessária. Nikolayev sentiu que Ericson o olhava: eram olhos frios, inteligentes, de um azul nórdico, que inspiravam confiança mas não convidavam a intimidades — e desejou não se ter deixado afetar por aquilo a que a imprensa americana gostava de chamar “o melancólico magnetismo” de Ericson. Enquanto o russo falava sobre o caráter mutável de Kolkov, procurava reforçar sua decisão de que os dois lideres mundiais tinham de morrer juntos.

O assassínio de apenas Kolkov dividiria o Politburo em campos pró e antiorientais, e Nikolayev não tinha a certeza de poder controlá-lo. Entretanto, as mortes dos dois líderes juntos — cuja culpa seria atribuída às potências do Extremo-Oriente — revigoraria a aliança da União Soviética com os Estados Unidos. Em Moscou a facção pró-chineses teria de se preocupar com a reação do povo americano à morte de seu líder em solo soviético. A morte de Kolkov ajudaria a reparar a culpa russa. Em Washington a morte dos dois líderes seria um vínculo de sangue que aglutinaria, com a morte de Kolkov, uma espécie de justificativa pela morte de Ericson. A tendência natural dos americanos de procurar um vilão os afastaria dos chineses e japoneses durante décadas.

O plano fazia sentido para Nikolayev, um realista. A oportunidade de selar a aliança Estados Unidos-União Soviética, de isolar as potências do Extremo-Oriente e — mais urgentemente — de evitar que Kolkov revolucionasse a ordem mundial surgia aqui em Yalta. A oportunidade assumiria formato de uma emboscada, presumivelmente pelos chineses, contra ambos os líderes Soviético e americano. O helicóptero que transportava os dois homens do aeroporto à dacha de Kolkov seria derrubado a tiros pelo helicóptero que os escoltava.

O russo, enquanto examinava um pêssego seco, desejou que o Presidente americano pudesse saber por que nobre causa iria morrer. A reação aos assassinatos de Kolkov e Ericson evitaria uma mudança nas potências mundiais que certamente teria isolado, e possivelmente até destruído os Estados Unidos. Embora a razão fundamental de Nikolayev para o duplo assassinato fosse obstar a submissão da União Soviética ao eixo Pequim-Tóquio, o sacrifício da vida do Presidente americano contribuiria diretamente para a proteção do continente americano. Ericson estava marcado para morrer em nome dos melhores interesses de seu país, e não havia melhor forma para um líder perder a vida. Nikolayev reprimiu um suspiro.

Um homem corpulento, num terno de aparência barata que salientava um coldre no ombro, pôs a cabeça na porta e perguntou:

— Os senhores se incomodam se lhes fizer companhia na aterragem?

Nikolayev sabia que esse era Harry Bok, pois havia estudado os registros e o conhecia de algumas reuniões em Moscou. O cargo de agente do Serviço Secreto exigia que ele se sentasse ao lado do Presidente nas aterragens.

— Você já conhece Harry — disse Ericson, fazendo-lhe um sinal para entrar.

— Sabemos tudo sobre ele — disse agradavelmente Nikolayev. O relatório sobre Bok identificava o agente não apenas como guarda-costas presidencial, mas como amigo, confidente e agenciador ocasional. — O amigo da Mona Lisa acrescentou Nikolayev, para introduzir uma nota de mistério zombeteiro.

— Vocês devem ter alguma pasta sobre mim na Praça Dzerzhinski — disse Harry Bok, afivelando o cinto de segurança com alarde, para que o Presidente o imitasse, o que não aconteceu.

— Praça Dzerzhinski — disse o Secretário Curtice vagarosamente, e “matando” a charada. — É lá que fica o quartel-general do KGB. A Prisão Lubyanka. É lá que eles guardariam uma pasta sobre um homem do Serviço Secreto, especialmente alguém como você, Harry, com seu retrato perto de três ou quatro Presidentes cerca de mil vezes. Mas não consigo perceber a referência à Mona Lisa, Vasily.

— É o sorriso do Harry — disse o Presidente. — Alguns o julgam enigmático, mas eu acho que ele só parece assim quando tem câimbras intestinais.

— Minha primeira função no Serviço Secreto — explicou o agente a Curtice — foi em 1963, quando a Mona Lisa foi enviada da França para ser exibida na National Gallery. Eu protegi o quadro durante três meses. Após certo tempo, aquele sorriso começou a me dar nos nervos. Pedi então transferência, e me mandaram para a Casa Branca. Essa história foi contada num perfil de jornal a meu respeito, e é o tipo de coisa que o serviço soviético de informações manteria numa pasta.

Nikolayev sabia que Bok estava escalado para morrer na emboscada. O Secretário Curtice viveria; ele e Nikolayev, juntamente com os ônibus da imprensa e do pessoal da Casa Branca, fariam parte do desfile de carros até o Hotel Oreanda. Apenas Ericson, o intérprete soviético, Kolkov, um guarda soviético, um americano — Harry Bok — dois pilotos e uma comissária estariam no helicóptero que voaria às dachas de Kolkov. Após cinco minutos no ar, num local belíssimo perto da margens do Mar Negro, ornamentado de arbustos de flores amarelas, o helicóptero extra, que supostamente acompanhava o grupo do Secretário-Geral como precaução de segurança, abateria a tiros a aeronave com os dois líderes a bordo. Uma só granada que explodiria a meia nau realizaria a tarefa. Viajando a mesma velocidade, com cerca de apenas vinte e cinco metros de intervalo entre os helicópteros, a pontaria do atirador estava assegurada.

Os assassinos — quatro pilotos de confiança, todos mongóis, agindo sob ordens do comandante da Força Aérea soviética, que era o mais íntimo aliado de Nikolayev nessa empreitada — aterrariam perto da praia e embarcariam numa pequena lancha com destino ao que eles julgavam seria um submarino à espera. Evidentemente, não haveria submarino; a lancha seria destruída por um avião de caça soviético para vingar as mortes do líder soviético martirizado e de seu convidado. Logo apareceriam provas de que os assassinatos foram obra dos chineses.

— Quem foi Dzerzhinski? — quis saber o Presidente.

— O primeiro chefe da polícia secreta russa — respondeu Nikolayev. — Era chamado de “Félix de Aço”. Era um homem odioso, pioneiro da tortura e do assassinato. Na nossa história, ele aparece quase como um animal.

— Mesmo assim — observou Curtice — vocês não mudaram o nome da praça.

— Foi um lapso. — Nikolayev não se sentia à vontade com Curtice, como se sentia com Ericson e Bok. Era lastimável que não pudesse substituir Bok por Curtice no helicóptero. O negro dava a impressão de estar sempre sob tensão, sempre cauteloso. Nikolayev estava acostumado a tratar com líderes africanos, com suas atitudes e sensibilidades, mas jamais lidara com um negro americano. Curtice não era homem de se levar por lisonjas, possivelmente nem por blefes. Nikolayev precisaria procurar um outro meio de derrubá-lo.

Uma luz branca acendeu-se no telefone próximo ao Presidente, que o pegou, escutou, e disse:

— Claro, ela pode entrar — e desligou. Num minuto, uma linda moça apareceu à porta, com três máquinas de fotografia a tiracolo.

— Não se levante, Vasily — disse Ericson. — Esta é nossa Fotógrafa Oficial. — Ele pronunciou as palavras com letras maiúsculas. — Ela vai registrar este momento para a história.

Nikolayev notou Ericson observar os olhos dos outros homens na cabina enquanto a fotógrafa se inclinou na ombreira da porta, numa pose toda sua, para compor algumas fotos. Os olhos azuis pálidos de Ericson registravam divertido prazer; Nikolayev os havia visto, na semana passada, brilharem de raiva, tornarem-se atemorizantemente frios, dardejarem para negociadores a uma mesa e adotarem uma expressão singularmente distante, de mero espectador, como se o Presidente não fosse um participante das reuniões. Quando o olhar de Ericson pousou em Nikolayev, o russo olhou apreciativamente para a jovem, para lisonjear o gosto do Presidente.

Sabia-se nos círculos de serviço de informações, mas era mantido discretamente para um pequeno grupo da Casa Branca, que a fotógrafa oficial era a mais constante companheira de cama do Presidente Ericson. Ele tinha óbvio orgulho nela, observou Nikolayev, e havia motivos de sobra para isso: mesmo com o corpo oculto num estranho conjunto verde de uma peça, a jovem irradiava excitação, e era difícil não lhe retribuir o sorriso. Também sabia tirar boas fotos. Uma razão pela qual a fofoca não era muito divulgada era que seu talento como fotógrafa e artista era reconhecido, e ela atacava ferozmente como “chauvinista” a insinuação de que o emprego era seu por motivos outros que não suas qualificações profissionais. O elemento mais significativo para que essa fofoca fosse abafada era o facto do Presidente ser um homem divorciado; seu “caso” era discreto, sem envolver adultério, sem escândalo.

Depois de haver zanzado pela cabina, fotografando de ângulos diferentes, ela perguntou ao Presidente:

— Há alguma possibilidade de eu também fazer o passeio de helicóptero? Vai ser um grande momento histórico.

Os olhos de Ericson desviaram a pergunta para Nikolayev. O russo tentou pôr-se no lugar do Presidente: se estivesse para morrer, gostaria que sua amante morresse com ele? Havia algo romântico quanto a isso — como Mayerling — de morrer juntos, negando a outros homens a mulher que era sua. Por outro lado, Ericson parecia ter traços de humanidade em si e Nikolayev resolver que ele provavelmente preferiria que a moça continuasse a viver após sua própria morte.

— Que diz você, Vasily? perguntou-lhe o Presidente. — Há algum assento desdobrável no helicóptero?

— Eu consigo ficar de cócoras e ficar bem pequenininha — acrescentou a moça, agachando-se num canto para ilustrar o significado do termo desconhecido “cócoras”.

Nikolayev sacudiu tristemente a cabeça, como se a decisão não lhe coubesse:

— O pessoal da segurança não gosta de mudanças de última hora.

Fingiu não ouvir a moça resmungar “Droga!”, e observou-a levantar-se de um salto e sair de fininho. Mais tarde ela recordaria este instante com terror e alívio. Nikolayev não tinha prazer em bancar Deus, e ficaria contente quando seu trágico dever terminasse. Disse a si mesmo que estava sacrificando algumas vidas para salvar milhões de outras; em certo sentido, era o que os franceses chamavam “triagem”: num campo de batalha, alguns feridos se recuperavam sem ajuda, para outros, nenhuma ajuda adiantaria; a pessoa que tomava a decisão tinha de gastar seus remédios e seu tempo no terceiro grupo, o daqueles que poderiam ser salvos. O assassinato de Kolkov e Ericson, junto com mais ou menos uma dúzia de outras mortes, era necessário para salvar milhares, talvez milhões de pessoas, que seriam as perdas de um súbito desequilíbrio e instabilidade no poder mundial. Ele cumprimentou tristemente esse bom homem Ericson, e o homem de ascendência polaca que era seu guarda-costas. Nikolayev, porém, não sentia vergonha daquilo que havia começado.


A FOTÓGRAFA OFICIAL  /1

— Nem você conseguiu viajar no helicóptero, Buffie?

A fotógrafa oficial do Presidente, que se havia entregue a dez minutos de rabugice até se sentir melhor, sorriu e sacudiu a cabeça. Ela não se importava em fazer parte do grupo de fotógrafos por algum tempo. Como membro da equipe de sondagens que chegara havia duas semanas, Buffie havia voado e andado de carro pela maior parte de Yalta, desde o Aeroporto de Simferopol, onde a entrevista à imprensa estava para começar. Fotografara o caminho através da Reserva de Caça da Criméia, a qual o helicóptero do Secretário-Geral estaria provavelmente sobrevoando agora, percorrera a cadeia de montanhas no litoral até o Mar Negro, de lá passara além de Yalta, onde a imprensa e a comitiva estavam hospedados, e finalmente fora até os aposentos de hóspede do Presidente, no Palácio Vorontsov, em Alupka.

— Já fotografei a maior parte da área, Charlie. — Buffie chamava todos os integrantes da equipe de imprensa de Charlie, exceto os outros fotógrafos, a quem tratava com mais respeito. Ela tivera alguma dificuldade para resolver como deveria chamar Sven Ericson na intimidade. Chamar um Presidente pelo primeiro nome lhe parecia constrangedor, e a intimidade de que desfrutavam fazia “Sr. Presidente” parecer ridículo. Ela se decidira, portanto, pelo acrônimo registrado na relação interna de telefones: “Pdeu”, isto é, Presidente dos Estados Unidos. O Presidente havia resolvido modificar o título do cargo de Buffie, de “fotógrafa pessoal do Presidente” para “fotógrafa oficial”, para que se pensasse que seu relacionamento era oficial e não pessoal. Pdeu lhe havia dado todas as oportunidades nessa primeira viagem ao estrangeiro: ele a deixara viajar na frente com o pessoal da “sondagem” e a instruíra para esquecer o orçamento, fotografar o que quisesse e copiar o quanto quisesse. Sua primeira pilha de negativos já cruzara o Atlântico de volta e ela já podia mostrar cópias dos pontos de interesse e dos prováveis cenários aos fotógrafos.

James Smith, o Secretário de Imprensa do Presidente, estava ao microfone, que testava soprando, e lhe perguntou:

— Como se soletra Palácio Vorontsov, Buffie?

— P-A-L-Á-C-I-O — respondeu pressurosamente mas, como não provocasse riso, acrescentou a grafia da palavra russa. Outra voz indagou como era o Hotel Oreanda, e ela retrucou: — É um ninho de pulgas. Deve ter uns cinquenta anos, talvez mais. Dormimos quatro em cada apartamento, todo mundo fica íntimo.

— Quem são seus companheiros de quarto, Buffie?

— Três sujeitos do Serviço Secreto e eles estão apavorados, Charlie. — Ela fora designada para dividir um quarto com Marilee Pinckney, a substituta de Smitty, o que era uma boa oportunidade. Marilee era uma aristocrata, não só bem-educada como inteligente, uma beleza esbelta que sabia tudo sobre Buffie e o Presidente. As duas mulheres se admiravam e não competiam; tendo vindo de mundos diferentes, sabiam que voltariam a eles após o término da existência de oito anos de contos de fadas. Ao contrário de Buffie, Marilee era uma feminista, mas devido à sua inteligência e boa aparência, tinha problemas em encontrar gente que discriminasse contra ela. Buffie a achava “legal”, e apreciava a forma como Marilee arrasava quem insinuasse que a fotógrafa oficial do Presidente conseguira o cargo por outras razões que não o talento profissional. Isso maldosamente trazia à baila Melinda McPhee, a secretária do Presidente, que Buffie classificava como uma puta metida a besta, de trinta e muitos anos, porque tratava a fotógrafa do Presidente como se ela fosse uma vagabunda. Possessiva, protetora, pensava — aos olhos de Buffie — que sua lealdade era tão feroz e sua lembrança de favores e pormenores políticos tão valiosa, que se podia dar ao luxo de bancar a supermãe de Ericson. Buffie sabia que Melinda não aprovava o caso do Presidente com sua fotógrafa, e como a outra não podia ter o Presidente para si mesma, provavelmente desejaria que ele se ligasse a Marilee ou a alguém de sua classe social. Alguém de unhas envernizadas, pés sem calos e “careta”. Buffie perguntou-se rapidamente se Melinda McPhee dormira com Ericson há dez anos atrás, quando começaram a trabalhar juntos na universidade. Era possível; ela era bastante atraente para uma mulher de sua idade; seu cabelo era negro, o busto bonito. Buffie tinha certeza de que nada havia entre eles agora. Olhou em volta, à procura da funcionária da Casa Branca de que ela menos gostava, e localizou Melinda apoiada na parede, de braços cruzados, tensa, esperando que Smitty começasse a dar as instruções. Buffie fotografou-a com a expressão rabugenta no rosto. Mais tarde lhe presentearia a foto. Outro Charley perguntou a Buffie sobre a comida em Yalta.

— Tem um lugar chamado Pectopah — respondeu ela, inocentemente. — Na verdade, deve ser uma cadeia de restaurantes. Muito bom. Peça galinha. — Ela sabia que pectopah significava “restaurante” no alfabeto crítico, mas gostava de bancar a burra, desde que todos soubessem que estava brincando. — Sabe — acrescentou séria — é mais fácil trabalhar aqui do que em Moscou ou nas outras cidades. Pode-se andar por aí, que ninguém atrapalha. E num lugar de veraneio, os russos ficam dispostos a falar. São gente boa, e alguns falam inglês. Não é como em Moscou. — Mais tarde ela falaria para alguns dos Charlies mais bonzinhos sobre as garotas horosho, prostitutas amadoras que andavam pelas ruas à cata de homens, e que provavelmente não deviam ser boas de cama, mas falavam inglês razoavelmente, e poderiam contar muito aos repórteres sobre o lado menos apresentável da vida russa. Buffie silenciou porque Smitty estava começando a dar as instruções, localizado num comprido pódio com duas estantes, como um cenário de debates, junto de seu equivalente russo.

— Darei as instruções — disse Smitty — e aqui o meu colega, Sr. Mishnikov, me interromperá se eu me desviar.

As pessoas que estavam no canto do hangar se acomodaram rapidamente. Repórteres e funcionários da Casa Branca, carregados de máquina de escrever, gravadores, máquinas fotográficas, chapéus de pele de souvenirs e balalaicas de Kiev frágeis demais para enviar junto com a bagagem normal queriam que a sessão terminasse logo para participarem do desfile de carros e se dirigirem ao “ninho de pulgas”. Buffie soubera que havia certo ressentimento na imprensa porque o Presidente e o Secretário-Geral haviam partido sozinhos sem nenhum acompanhamento da imprensa, e portanto não poderiam ser observados na maior parte do dia.

— O Presidente e o Secretário-Geral — prosseguiu Smitty — deverão estar chegando a suas acomodações daqui a pouquinho. O percurso de helicóptero demora cerca de dezenove minutos.

Aterrarão no gramado do Parque Alupka e o Presidente dará entrada no Palácio Vorontsov.

— Foi aí que ficou FDF? [nota: Franklin Delano Roosevelt]

Smitty olhou para o representante russo, que replicou:

— Não, o Presidente Roosevelt ficou no Palácio Livadia, hoje um sanatório que presta assistência médica gratuita aos cidadãos soviéticos.

— Continuando — prosseguiu Smitty — os dois líderes não têm nada programado o resto da manhã. Suponho que se reunirão para um almoço informal, para nadar um pouco, ou algo assim. — Smitty escutou alguém sussurrar-lhe ao ouvido. Buffie sabia que o Secretário de Imprensa não era muito organizado, e dependia muito de Marilee. — Estou informado de que, ao almoço, terão a companhia do Secretário de Estado Curtice, do Ministro das Relações Exteriores Nikolayev, e de dois intérpretes.

Buffie supunha que Lucas Cartwright e Melinda McPhee também fossem estar presentes, mas faziam parte da comitiva, por isto seus nomes não eram citados. E por que não a fotógrafa oficial? Se Pdeu não precisasse de fotografias, ela poderia fazer desenhos a bico de pena e a tinta. As fotos que ela tirava pertenciam ao público e eram distribuídas de modo equânime para a imprensa, mas os desenhos lhe pertenciam, e algum dia ela faria uma grande jogada e os reuniria num livro, numa exposição, ou algo assim. Ajudaria se Pdeu deixasse que ela participasse do almoço. Estava ficando rabugenta de novo, e resolveu parar; estava com a maior “mina” de seus vinte e seis anos de vida: tinha um caso com um homem fascinante, que lhe estava dando um grande empurrão na carreira.

— Vocês já foram informados sobre as observações quanto ao aeroporto — disse Smitty. — Quando chegarem ao hotel, haverá textos disponíveis. Como sempre, há uma sala para a imprensa. Hoje não haverá declarações. Vocês estão livres até as quatro e meia da tarde, quando haverá uma “oportunidade de fotos” ou, conforme costumávamos dizer, uma oportunidade de caçar uma foto. Os ônibus sairão da frente do Hotel Oreanda às quatro horas.

— Uma péssima hora para fotografias — gritou o fotógrafo de uma revista. Buffie levantou a vista das cópias que tinha nas mãos e viu que Smitty olhava em sua direção. Ele lhe perguntou se aquela hora era mesmo péssima para fotografias.

— Dificulta um pouco as fotos em cores, Smitty. Com o sol desaparecendo, há muitos tons de vermelho.

O Secretário de Imprensa disse que lamentava, mas não iria alterar a programação preparada junto com a segurança soviética.

— Essa será uma oportunidade para fotos preto e branco.

— Por que não foi ninguém da imprensa no helicóptero, Smitty?

Buffie esperava, pelo bem do Presidente, que Smitty tivesse uma boa justificativa para que os líderes tivessem viajado incomunicáveis. Não teria sido nada demais levar alguns repórteres ao palácio nos helicópteros, apenas para ter uma ideia da situação e fazer um relatório conjunto.

— Sem nenhum representante nosso lá — acrescentou irritada a voz — ficamos sem nenhum contato durante oito horas, poxa! Não arrastamos nossas carcaças por meio mundo só para ficarmos olhando uns para as caras dos outros.

— Não há nenhum representante da imprensa porque o Secretário-Geral e o Presidente quiseram ficar sozinhos; esta a razão — informou Smitty. Buffie teve de admitir que a resposta fora sincera. — E mantendo constante contato com Harry Bok — acrescentou Smitty, dando um tapinha no rádio preso à cintura — e quando eu estou em contato, vocês também estão. Se houver alguma coisa, mando avisar no hotel, mas por enquanto, há uma folga até as quatro e meia.

Muitos repórteres gostaram da notícia; a “folga” significava que poderiam dar voltas em Yalta o dia todo, sem se preocupar em perder alguma súbita entrevista com a imprensa.

A ranzinzice de Buffie desapareceu quando lhe ocorreu que a folga do dia inteiro a liberava para que se pudesse esticar na praia de areias negras em frente ao hotel. Usaria seu “biquininho” e os “caras”, provavelmente sem assunto, estampariam uma foto sua nos jornais. Isso irritaria Melinda, mas Pdeu não se importaria e a publicidade pessoal seria útil quando seu trabalho na Casa Branca terminasse. A filosofia de Buffie era “aproveite ao máximo as oportunidades”. Esperava poder encontrar lugar na praia para se deitar; os turistas russos estavam todos lá como lemingues [nota: Pequenos roedores das regiões árticas.] desde cedo, para conseguirem seus lugares, onde se sentavam o dia inteiro, extraindo todo o segundo de sol que podiam de suas férias.

— É mesmo necessário que gastemos esse tempo todo em minúcias domésticas? — rugiu uma voz lá de trás, a alguns passos de Buffie. — Quando teremos uma sessão realmente substancial?

Quem falou foi Samuel Zophar, o colunista, um “cobrão” da mídia; Smitty não poderia dar-lhe um fora através de um tom ríspido ou de uma piada.

— Estou a par de sua preocupação, Sam — disse Smitty, em tom diferente. — Esperamos poder organizar uma sessão realmente informativa tão logo o Presidente e o Secretário-Geral tenham algo para transmitir.

Seria melhor que isso acontecesse logo — pensou Buffie — ou Zophar e os “grandalhões” como ele poderiam escrever artigos insinuando que os dois líderes haviam tido atritos. “Atritos” era uma dessas palavras que, de tanto ser usada, virava moda. Buffie gostava de não precisar usar chavões em suas fotos; até mesmo fotos de dois políticos apertando-se as mãos podiam ser feitas de modo diferente todas as vezes. A essa ideia, ela anotou no seu registro de fotos que deveria tirar um close-up de Ericson e Kolkov apertando-se as mãos. As mãos de Kolkov eram pequenas, magras, mãos de gente velha; já Ericson tinha mãos enormes de homem muito alto, e dedos fortes de um pianista ou jogador de basquete. Teve a sensação de senti-las em seus ombros; os dedos às vezes deixavam marcas, o que não a incomodava absolutamente. Reparou que Kolkov usava as duas mãos para apertar as de Ericson, cobrindo o aperto de mãos com sua outra mão, como se para ocultar a diferença de tamanho. Seria uma boa foto, essa da grande mão de Ericson envolvendo a do russo; se não conseguisse essa foto, poderia desenhar o gesto entre os dois.

Buffie suspirou alegremente. Um cameraman que estava na plataforma acima a ouviu e abaixou-se para acariciar-lhe a cabeça acaju. Ela sorriu-lhe em agradecimento, e quando ele voltou ao que fazia, ela se levantou e cutucou-o furiosamente, depois se virou e correu para o ônibus da imprensa.

Foi a primeira a entrar, deu um soquinho no braço do motorista, virou-lhe o chapéu ao contrário e sentou-se o mais perto possível da porta, para que fosse a primeira a sair. Com as cópias de fotos nas mãos, um pouco arquejante, examinou as fotos que tirara havia duas semanas, da Reserva de Caça da Criméia, a qual o Presidente e seu anfitrião devem ter acabado de sobrevoar. Havia árvores, folhagem, cerrada vegetação rasteira, mas nenhuma fotografia de animal. Buffie fora informada de que aí vivia enorme quantidade de ursos, javalis, avestruzes e até lhamas, além de coloridos pássaros, porém ela nada conseguira avistar do helicóptero de reconhecimento. Tinha um pouco de medo de animais, e não tivera vontade de pedir ao piloto para descê-la naquela selva. As fotos das folhagens eram boas: havia muitas copas de árvores mas também infinidades de uma linda flor amarela.


O AGENTE DO SERVIÇO SECRETO /2

Era impossível conversar nesse barulhento helicóptero, por isso os dois líderes simularam comunicação apontando para fora da janela para algum objeto na terra, assentindo gravemente com a cabeça, levantando sobrancelhas para demonstrar admiração, e enunciando perguntas e respostas sem nenhuma importância, que o intérprete transmitia devidamente entre eles. Ericson e Kolkov estavam de frente um para o outro, em assentos giratórios, e Harry Bok e o intérprete soviético se encaravam lado a lado. Dois guardas de Kolkov estavam sentados atrás.

Harry determinou-se a ignorar seu estômago. Quando o helicóptero levantou vôo para a viagem de vinte minutos, concentrou sua lembrança na mulher e nos filhos em Washington. Depois visualizou Buffie de maiô, deitada no trampolim da piscina atrás da Casa Branca, e comparou-lhe o corpo, ponto por ponto, com o da enfermeira Kellgren, a sueca alta de busto volumoso que trabalhava com o médico do Presidente. Isso desviou-lhe parcialmente a mente das guinadas do aparelho para a frente, à medida que o helicóptero ganhava velocidade. Ao ajeitar-se para o vôo, o agente recorreu à costumeira ladainha mental sobre os Presidentes que ele havia protegido, e as razões que eles lhe haviam dado para não o colocar no sector de falsificações. Pensou no seu primeiro Presidente, que teve uma reação paternal quando Harry não passou no teste de tiro ao alvo: “Harry, confio na sua opinião e nos seus instintos. e isso é muito mais importante do que você ser capaz de atirar em alguém depois que ele atirou em mim...”. Ele se lembrou do seu segundo Presidente, que tinha respeito exagerado pela folha de guerra de Harry, e achava que um garoto extremamente dedicado e leal, que havia atravessado uma saraivada de balas de metralhadora e recebido uma medalha no início da guerra do Vietnã automaticamente poria sua vida à disposição do homem cuja vida ele foi encarregado de proteger.

À medida que passavam os anos, os Presidentes achavam outras razões para não o transferir: Bok era totalmente discreto, sabia esquiar, as primeiras-damas e suas filhas tinham integral confiança nele, lembrava-se de estatísticas de esportes e pormenores sobre velhos filmes. Entrementes, seu ritmo ficava mais lento, e ele evitava exercícios de alvos sempre que podia, e se preocupava mais com a possibilidade de se desmoralizar e ao Serviço, se e quando houvesse oportunidade. Seu último Presidente, Ericson, lhe dera este fio de esperança: “Você é pé quente. Desde que começou a trabalhar aqui, nenhum Presidente foi assassinado. Harry, sinto-me mais seguro com um velho recauchutado pé quente do que com um atleta pé frio.”

Olhou pela janela e viu que se estavam afastando das casas em redor do conjunto de prédios do aeroporto e dirigindo-se à floresta, um parque nacional e uma reserva de caça. Olhar para baixo não lhe fez bem ao estômago. Olhou para cima e para trás, para o helicóptero-reboque, que levava dois agentes da segurança da Casa Branca a bordo, além de técnicos médicos e um grupo de policiais russos. O segundo helicóptero estava a cerca de trezentos metros atrás e dez metros mais alto, conforme registrado no plano de vôo.

A robusta comissária russa apareceu com uma garrafa de vodca enfiada no gelo. Kolkov e Ericson retiraram um cálice, brindaram-se em silêncio, e os jogaram para trás, conforme mandava a tradição. Harry e o intérprete recusaram o drinque. Harry ia aceitar os canapés de caviar, mas pensou melhor. Observou que as compridas pernas do Presidente eram um problema, porque Ericson evidentemente não iria ficar de joelhos perto do Secretário-Geral, e o helicóptero não fora construído para joelhos tão salientes. O Presidente girou no assento e virou as pernas para o corredor.

Harry respirou profundamente, localizou o saco de enjôos mas não o tocou, e resolveu manter os olhos no helicóptero que os seguia, que estava lá fora em pleno ar fresco e oferecia algo em que se podia concentrar.

Franziu a testa. O helicóptero-reboque estava a apenas algumas dezenas de metros, e talvez a uns quinze metros mais elevado, o que não estava previsto no plano. Se o piloto russo desconhecia o plano de vôo, por que razão um dos agentes de Harry, da segurança da Casa Branca, que estava a bordo, não o informava sobre o plano correto? Esses caras não eram turistas nem fotógrafos amadores que precisassem de um close-up; supunha-se que estivessem voando em formação.

Pior ainda, eles estavam abrindo a porta lateral em vôo, o que era idiota. Harry teria de escrever um relatório a respeito e alguém aguentaria as consequências. Ele entendia a vontade de se pegar ar fresco, e desejava que alguma janela de seu próprio helicóptero tivesse sido deixada aberta, mas regras eram regras. Fez menção de tirar a caneta, mas o que viu o fez sacar a arma.

O corpo de um homem estava sendo empurrado para fora da porta lateral do outro helicóptero. O homem não estava saltando, mas seu corpo estava sendo rolado para fora e impelido para baixo no ar, até que ficou fora do alcance de visão de Harry. Seguiu-se um segundo corpo. Harry fez sinal para os guardas soviéticos atrás do helicóptero para olharem pela janela traseira; eles se surpreenderam com sua pistola e sacaram também as suas, enquanto um olhava para fora e outro o observava, caso ele estivesse querendo bancar o engraçadinho.

Um terceiro corpo, vestido de branco, rolou para fora. Harry deduziu que fosse o técnico médico americano, o que significava que os dois outros corpos tinham sido os de seus agentes. Um longo tubo de metal, que poderia ser o cano de uma arma ou uma bazuca, surgiu na porta do outro helicóptero, com uns dois homens atrás dele.

Harry enfiou a arma no cinto, virou-se, agarrou o Presidente pelos ombros, e o atirou no chão. Lançou-se então à frente do helicóptero, abriu a porta do piloto, estendeu o braço acima do seu ombro e comprimiu a barra de controle para a frente, mergulhando a aeronave para baixo momentos antes da explosão.

O helicóptero tremeu e inclinou-se de lado. O piloto russo, que devia ter pensado que Harry era o perigo, começou a lutar com ele, e Harry selvagemente o silenciou com um golpe de pistola. Agarrou o fone de cabeça quando sentiu uma rajada de vento fresco; atrás dele, o co-piloto estava pendurado para fora da aeronave através dos vidros espatifados que abrigavam a cabina do piloto. O corpo de uma comissária estava caído.

A barra estava solta, não havia controle. Harry supôs que a granada tivesse atingido a cauda e não o meio do helicóptero, como pretendido. Seu bote para mudar a direção do helicóptero havia protelado o desastre por alguns segundos. Ele agarrou o fone de cabeça do piloto e berrou: “Mayday Mayday!” [nota: Sinal radiotelefónico internacional, utilizado por navios e aviões com problemas. Corruptela do francês m’aider (ajude-me!).] no microfone e voltou rapidamente à cabina principal, onde o Presidente e Kolkov jaziam no chão. O motor estava morto e o helicóptero estava afundando, mas não bateria como um avião — a lâmina rotativa ainda girava, provavelmente caindo em cima das copas das árvores.

Um dos agentes russos disparava a pistola através de uma janela quebrada, enquanto o outro posicionava uma metralhadora de mão que havia sido escondida sob seu assento. Harry sabia que não era um grande atirador, por isso deixou que os russos devolvessem os tiros enquanto ele se agachava, colocava almofadas debaixo e perto da cabeça do Presidente — Kolkov que se virasse — e preparava-se para um choque. O helicóptero atacante subitamente assomou à janela, a menos de vinte metros de distância, caindo com eles, e Harry pôde ver o cano da bazuca pela porta aberta ficar novamente visível. O guarda russo com a metralhadora de mão também viu, e três compridos estouros enfiaram balas no atacante, depois na direção da cabina do piloto e reprimiram o fogo até que a segunda aeronave desviou o rumo para longe das árvores.

Harry escutou sons de coisa se dilacerando, a lâmina se agitando e depois o desastre.

Harry estava consciente. Seus cotovelos amparavam os dois lados da cabeça do Presidente, que sangrava — uma das almofadas se havia soltado. Sentiu cheiro de gás e o calor das chamas. Agarrou Ericson pelas axilas e o arrastou para fora dos destroços até as sombras da floresta, o mais longe que pôde do helicóptero, antes de desmaiar. Auscultou o peito do Presidente e sentiu-lhe as batidas do coração. Olhou em volta e viu um dos guardas russos carregando Kolkov nas costas como faz um bombeiro, e enxergou também a imagem bem-vinda do homem com a metralhadora de mão que seguia atrás.

O russo com a arma fez um movimento para cima, e foi então que Harry se deu conta de que o rugido que ainda escutava não era em sua cabeça, e, sim, do segundo helicóptero, que sobrevoava e descia, provavelmente procurando uma clareira para realizar o derradeiro ataque. Harry sacudiu negativamente a cabeça; já salvara a vida do Presidente, não queria outra briga de fogo. Eles não conseguiriam correr com os dois homens inconscientes. Lembrou-se de haver mandado pedido de auxilio pelo rádio.

O helicóptero em fogo quase se desintegrou numa explosão horrenda, deveria haver agora uma espécie de clareira. Os pilotos, a comissária e o intérprete estavam mortos, e Harry levantou-se vacilante para seguir a direção do russo com a metralhadora portátil, que parecia estar escolhendo uma pequena ravina para montar um perímetro de defesa. Harry não queria mover o Presidente, cujo crânio ferido lhe fazia escorrer sangue pelo rosto e que tinha sabia-se lá quantos ferimentos internos, mas não havia escolha. Pegou o Presidente e seguiu os outros até uma pequena cratera.

O outro helicóptero aterrara e desligara o motor. Harry ouviu vozes de homens e ruídos de galhos secos que vinham em sua direção. Calculou que seriam uns cinco ou seis. Harry e os dois guardas russos não fizeram nenhum som; esperavam um tiro, e Harry amaldiçoava os dias em que “matara” os exercícios de tiro ao alvo. Não havia praticamente nenhum campo de fogo, o que era mau para eles.

Um rosto chinês foi a primeira surpresa para Harry. Atirou nele e sua próxima surpresa foi ver o rosto se desintegrar. Agora, porém, a posição deles era conhecida e começou a haver fogo de carabina de três lados. O guarda russo se arriscou e ficou de joelhos sobre a beira da ravina para borrifar a área à frente deles, mas foi imediatamente abatido.

O outro guarda russo entregou a Harry seu revólver, tirou a arma do companheiro que jazia à beira do buraco, e começou a atirar, ao mero som de arbustos pisados. Os sons pararam. Logo começaram a explodir granadas de mão em volta deles, que mataram o outro guarda e castigaram as costas e os lados de Harry com estilhaços. Ele olhou para ver se o Presidente Ericson estava vivo, e estava, mas Kolkov fora atingido pela explosão de uma granada e estava morto ou morrendo. Harry arrastou o corpo de Kolkov para cima do de Ericson, fazendo um escudo para a cabeça e as costas do Presidente e deixando que suas pernas ficassem de fora, e pegou a metralhadora de mão para esperar o último ataque.

À sua esquerda, começou um grande barulho e sons de resfolegos muito estranhos. Harry parou de atirar. Um grito humano percorreu a floresta e três homens ergueram-se, expostos, para correr da origem do barulho. Harry matou o grupo de uma só vez. O barulho e o resfolegar chegaram à sua frente e outro corpo se levantou para correr; antes que Harry pudesse apertar o gatilho, congelou ao ver um homem ser perfurado pelos chifres de um javali, a besta de aparência mais feroz que Harry jamais vira, como um medonho porco selvagem com ânsia de sangue. Ele atirou no moribundo e no animal selvagem até cessarem os gritos e a agitação.

Harry esperou, já agora consciente das próprias costas que sangravam e da incapacidade de mexer as pernas, sem munição e sem poder lutar. Ninguém mais se mexia nessa área. Olhou para trás para o corpo de Kolkov enrolado ao do Presidente, que talvez estivesse vivo, talvez não. Que diabo acontecera? Por que os atacantes se haviam mostrado aterrorizados para que ele os pudesse abater tão facilmente? De onde viriam animais selvagens numa maldita estação de veraneio como aquela?

A Reserva de Caça da Criméia. A percepção de que estava cercado de animais e outros perigos desconhecidos foi muito forte para Harry, e ele desmaiou em cima da arma, a alguns centímetros do cadáver do Secretário-Geral do partido comunista soviético deitado em cima do que Harry esperava não fosse o cadáver do seu Presidente.
 

O OFTALMOLOGISTA

— Mas por que eu?

Em toda a sua breve carreira médica, o Dr. Perry Lilith jamais fora tirado da cama por uma chamada de emergência. Ele era oftalmologista, um especialista em doenças dos olhos, e uma das razões pelas quais escolhera esse ramo era porque não gostava do frenesi dos telefonemas noturnos que perturbavam a maioria dos médicos. Evidente que todos os especialistas em olhos do Hospital Naval de Bethesda, nos arredores de Washington, D. C. davam plantão noturno, mas os plantões eram sempre marcados com grande antecedência e compensados por tempo de folga.

O comandante do hospital que o acordou por telefone empregou o posto naval de Lilith para lembrar-lhe de que não era um médico civil, do que o oftalmologista se ressentiu imediatamente.

— Para ser franco com o senhor, Capitão, os dois oftalmologistas de posto mais elevado que o seu não estão disponíveis. Um está doente e o outro de férias. Isso quer dizer que sobrou o senhor.

— Mas de que se trata? Não sei o que devo levar nem nada.

Lilith achou que o almirante fora desnecessariamente grosseiro a essa altura.

— Doutor, o senhor é oficial da Marinha dos Estados Unidos. Estou lhe ordenando que prepare sua maleta com tudo o que for preciso para um tratamento urgente de olhos, e que esteja pronto para ser apanhado em frente de casa daqui a exatamente vinte minutos, por um veículo da Casa Branca. O carro estará aí às 04:00. O senhor será transportado à Base da Força Aérea de Andrews, onde se reunirá a outros médicos e receberá mais suprimentos oftalmológicos. Tudo entendido até aqui?

— Completamente, senhor — respondeu Lilith sarcasticamente. Ele só tinha mais um ano de serviço militar. — O senhor permite saber para onde iremos de lá, e quem deverá substituir-me nas consultas de amanhã?

— No devido tempo o senhor saberá seu rumo replicou o almirante — e conseguirei alguém para substituí-lo, possivelmente do Hospital Naval ou de outro lugar qualquer. Não fale a ninguém de sua missão, incluindo sua mulher. Não dê nenhum telefonema. Esta é uma operação altamente secreta e a segurança não será quebrada por ninguém sob meu comando.

— Almirante, não sou risco de segurança.

A frase parecera suavizar o almirante, e Lilith gostou de haver mantido o sangue-frio.

— Perry, solicitaram-nos que reuníssemos imediatamente uma junta médica, e o pedido incluiu um oftalmologista. O hospital e a Marinha contam com você.

Ele desligou o telefone, remexeu nas roupas — estava irritado por não saber aonde ia nem o que deveria vestir — e meteu tudo o que pôde imaginar na maletinha preta. Corria agora pelo caminho em frente de sua casa de subúrbio para alcançar o Mercury preto que chegara antes das 04:00 horas ou, como ele se disse que um ser humano normal diria, quatro horas da manhã. No assento de trás havia outro passageiro, um civil.

— Já peguei os dois — escutou o motorista dizer a um microfone de mão ligado ao painel — e vou seguir para Andrews.

— O senhor é médico? — perguntou Lilith ao homem sentado a seu lado.

— Não, sou advogado. Persigo ambulâncias, ganho muito dinheiro em processos.

Um engraçadinho. Exatamente o tipo que Lilith queria evitar a essa hora da madrugada. O carro rodou rumo ao aeroporto em velocidade ilegal. O sujeito enfiado no outro canto do banco traseiro era pequeno, de aparência belicosa e fumava sem parar. Ao acender seu isqueiro descartável, exibiu cabelo encaracolado e uma pele sardenta e malhada.

— Gostaria que o senhor não fumasse — disse Lilith.

— Estou acostumado a fumar — disse o homem — e este carro é de fumantes. O avião não tem uma seção para não-fumantes.

Lilith resmungou “Sei” no modo mais mordaz que pôde, e abaixou a vidraça. A cento e trinta quilômetros por hora, o vento soprava fagulhas vindas da ponta do cigarro em todo o banco traseiro e o fumante apressadamente apagou o cigarro. Surpreendentemente, o homem estendeu a mão e disse:

— Sou Mark Hennessy, consultor especial do Presidente. Gosto de gente que retruca. Suponho que você seja o melhor médico de olhos da área de Washington.

— Obrigado — disse o espantado Lilith, sem negar nem confirmar a opinião. — Você sabe de que trata tudo isso?

— Não, respondeu firmemente Hennessy, e Lilith percebeu que mentia. O médico de olhos teve uma ideia. Inclinou-se para a frente para pedir ao motorista para ligar o rádio na estação de notícias que ficava funcionando a noite toda. Tinha um palpite de que essa história devia envolver o Presidente, que estava a milhares de quilômetros de distância, reunindo-se com os russos em Yalta. Se tivesse havido um acidente, seria noticiado pelo rádio.

Não teve sorte. Quando o noticiarista falou do Presidente em seu resumo final, disse apenas que o Presidente Ericson e o Secretário-Geral Kolkov se haviam cumprimentado no Aeroporto de Criméia há algumas horas, e que Ericson se havia dirigido de helicóptero para um velho palácio, onde se reuniriam durante as próximas horas. Era hora do almoço em Yaita. O Presidente estava passando muito bem. Lilith se aborreceu.

— Não trouxe um jogo extra de lentes de contato — queixou-se — caso seja disso que se trate.

Calma — disse Hennessy — desfrute da emocionante vida de Washington. Você vai deixar essa janela aberta o caminho todo?

Lilith subiu a vidraça e pegou na alça de sua maleta preta. O homem a seu lado talvez tivesse brincado sobre a vida emocionante de Washington, mas isso era verdade, sob certo aspecto. Talvez os acontecimentos futuros tivessem influência sobre sua carreira.

— Supõe-se que o Presidente diria a seu consultor — implicou com o assessor da Casa Branca — se fosse algo importante.

A ironia atingiu Hennessy.

— Como você é implicante! — Lilith enrijeceu à sutil referência de Hennessy a efeminação, mas sorriu por haver tocado num ponto sensível.

— Tudo que sei é — fulminou Hennessy — que me mandaram enfiar a bunda num avião para as Lajes, nos Açores, e certificar-me de levar um oftalmologista. Depois me disseram também para não fazer uma coisa, que não é da sua conta, e tampouco me deram uma merda de explicação qualquer. Se eu estivesse fazendo essa viagem à Rússia, que deveria ter feito, Cartwright não teria de providenciar essa porra às pressas.

Nessas observações havia uma pequena informação: Lilith pensou nos Açores. Havia lido algo a respeito de uma visita que o Presidente faria ao local, ao voltar da Criméia, pois as ilhas haviam recentemente se tornado território americano. O povo de lá se aborrecera com Portugal, ou coisa assim.

— Espero que haja um hospital e médicos nos Açores — disse.

Seu companheiro saiu pela tangente.

— Você não acha que ficaria mais elegante dizer-se “optalmologista” ao invés de “oftalmologista”?

— Suponho que sim — replicou secamente, sentindo-se irritado pelo comentário idiota do outro. Lilith não se considerava excessivamente implicante e, sim, organizado. — Na maioria das vezes, digo optalmologista porque os leigos me chamam assim. Vem do grego — oph é “olho”, e thalmus é “câmara”, que é onde eu trabalho.

Como era possível se ter metido numa explicação dessas? Hennessy queria desviá-lo de fazer mais perguntas. Lilith começou a recordar o que lera sobre Hennessy em algum perfil de jornal: era um advogado de divórcios de Nova York, que conhecera Ericson há cinco ou seis anos quando este era governador, e tratara do seu divórcio. Em seguida se tornara seu confidente e “carrasco” oficial. Estava sendo apontado como futuro chefe da Casa Civil, mas foi barrado porque fez muitos inimigos na campanha presidencial e também — Lilith o comprovava — porque era belicoso, exaltado e desorganizado, Por isso, foi nomeado consultor especial. O médico de olhos sorriu. Ele teria algumas informações “quentes” para comentar no próximo coquetel a que comparecesse, a respeito das pessoas que conheceu nessa missão. Prudentemente, começou a esperar com ansiedade o que estava por vir. Gostaria de ter a certeza de haver trazido o equipamento e os remédios corretos.

O carro da Casa Branca parou em frente à sala VIP de Andrews, Lá dentro, Lilith foi apresentado a mais outros seis médicos, a um técnico de raio X, a um anestesista e a várias enfermeiras, todos impecáveis e atentos, o que o fez sentir-se ligeiramente impatrióptico por não se ter desde o início emocionado com a oportunidade de viajar até o meio do Atlântico. Lá fora, um jato de tamanho médio esquentava as turbinas, profusamente iluminado, o que ressaltava suas cores azul e prata, e as letras negras que diziam: “Estados Unidos da América”. Lilith viu Hennessy retirar um grande envelope do bolso de dentro do paletó, olhá-lo para se certificar de que o tinha, e pô-lo de volta, após dar-lhe um tapinha de segurança. Lilith estava satisfeito por estar em meio a tão distinta companhia médica. Os outros médicos incluíam o melhor cardiologista e o mais famoso cirurgião de cérebro da área. Ficou contente porque os oftalmologistas mais antigos do que ele não haviam podido vir. O grupo médico do qual ele fazia parte estava tenso, mas não nervoso; o jovem médico de olhos procurou relaxar, seguindo a sugestão de Hennessy, e remar conforme a maré. Algum dia, porém, ele se desforraria do advogado do Presidente, por haver insinuado que era efeminado.
 

A ENFERMEIRA

A enfermeira Inge Kellgren, Primeiro-Tenente da Força Aérea dos Estados Unidos, ligada ao consultório do médico pessoal do Presidente, sabia que não devia dilatar o travesseiro do agente ferido, Harry Bok. Ele tinha estilhaços de granada encravados na coluna, as pernas estavam paralisadas e, apesar do sedativo, o menor movimento fazia com que todos os músculos não paralisados de seu corpo sofressem um espasmo.

Não achava boa a ideia de os três visitantes virem conversar com ele naquelas condições, mas como um deles era seu chefe, o Dr. Herbert Abelson, ela não poderia objetar. O Dr. Abelson, amigo de longa data do Presidente, não bancava o grande médico, como todos sabiam. Por isso, o homem mais próximo do Presidente costumava ser o assistente do Dr. Abelson, um médico classificado de técnico médico, treinado em casos de emergência. Infelizmente, esse assistente morrera durante a emboscada.

O Dr. Abelson estava acompanhado pelo Secretário de Estado Curtice e o Chefe da Casa Civil Cartwright. Os dois homens mais graduados ficaram de lados opostos da cama de Harry Bok, enquanto o médico se postou ao pé da mesma. O doutor mandou-a retirar-se com um sinal da cabeça e a enfermeira Kellgren dirigiu-se à outra extremidade da comprida enfermaria que havia sido esvaziada para formar um quarto particular para o americano.

O hospital não era moderno, pois se tratava de um velho palácio de tzar convertido em um sanatório, e o salão de dezenove metros escolhido para o isolamento ficava sob um teto abobadado.

Ela se sentou na extremidade do aposento e, para sua surpresa, pôde ouvir o que estava sendo sussurrado ao redor da cama do paciente. Calculou que fosse devido a algum truque de som causado pela abóbada, e não sabia se deveria levantar-se e sair pela única porta, que ficava perto do leito do paciente. Decidiu ficar onde estava.

— Você vai viver, Harry — escutou o Dr. Abelson dizer com voz formal. — Está com uns pedaços de metal na espinha que terão de ser extraídos, e você terá de ficar imóvel por umas duas semanas, mas no fim vai ficar bom.

Ela não conseguia ver o rosto de Harry, mas pôde ouvir sua pergunta temerosa:

— E o Presidente?

— O Presidente está vivo — respondeu Lucas Cartwright. — Há cerca de meia hora ele voltou a si, mais ou menos depois de duas horas da emboscada. Ele tem alguns problemas, mas está bem. O Secretário-Geral morreu.

Harry começou a mexer-se e seu corpo arqueou-se num aperto doloroso dos músculos doloridos. Logo que pôde, perguntou:

— Não há microfones aqui?

— Seus colegas pensaram nisso — respondeu Cartwright. — Eles nos afirmaram que sua cama e a área próxima foram investigadas, e não contém nem transmissores nem microfones.

A enfermeira Kellgren perguntou-se se deveria levantar-se e dizer-lhes que a acústica dessa velha sala era estranha e que ela os podia ouvir daquela distância, embora não conseguisse ouvi-los a alguns metros de distância. Isso, porém, faria com que todos ficassem com cara de bobo, e talvez ela estivesse enganada. Continuou sentada e não pôde evitar ouvir.

— Sr. Bok — disse o Secretário de Estado, com sua voz de baixo. — são agora onze e meia da manhã. O helicóptero foi abatido há pouco mais de duas horas. São quatro e meia da manhã em Washington. O senhor está orientado em termos de tempo?

— Estou.

— Ninguém sabe de nada ainda — continuou o secretário — nem o pessoal da imprensa viajando conosco, nem o povo russo. Apenas um pequeno número de agentes russos de segurança, sob o comando direto do Ministro das Relações Exteriores Nikolayev. Ele fez questão de manter sigilo absoluto sobre o caso, a pretexto de proteger o Presidente, mas na verdade para primeiro informar aos membros do Politburo.

— Nós fomos exaustivamente contrários — disse Cartwright.

— Podemos, porém, empregar bem esse tempo, com o senhor — disse o secretário. — Por isso pedimos ao Dr. Abelson que não lhe desse muitos analgésicos. Precisamos que nos conte exatamente o que aconteceu: o senhor é a única testemunha.

Harry começou a contar a história da emboscada. Os três homens se inclinaram para a frente para escutá-los sussurrar, e a enfermeira Kellgren só conseguiu pegar alguns trechos de sua narrativa da tragédia:

— ... então eu o arrastei para fora dos destroços... estabeleci um perímetro... rosto chinês, bem entre os olhos... sujeito com uma metralhadora manual pegou... as granadas me atingiram, mataram Kolkov, e arrastei o corpo dele para cima do do Presidente... um animal muito selvagem e eles foram todos alvos muito fáceis... eu devo ter desmaiado.

A enfermeira Kellgren enxugou os olhos com um lenço Kleenex.

Harry Bok era um homem bom, que costumava brincar com ela, de modo paternal, sobre seu vulto estatuesco, com o enorme busto, e que fazia questão de que fosse tratada com respeito pelos outros agentes. Ele a chamava de “mudinha” porque ela não falava muito, às vezes lhe fazia confidências. Ela lhe contara sobre a ordem do Dr. Abelson para não lhe dar muitos calmantes para que ele pudesse ser interrogado, e ele aceitara a dor como parte de suas obrigações de agente. Evidentemente, ela não contara ao paciente que escutara uma das enfermeiras russas que falavam inglês comentar que os médicos soviéticos achavam que Harry Bok jamais voltaria a andar.

— Os russos que responderam a seu sinal de socorro encontraram o Presidente com o corpo de Kolkov em cima — disse o secretário. — Isto é importante: teria sido possível que Kolkov, enquanto ainda vivo, tentasse proteger o Presidente com o próprio corpo?

— Acho que ele estava morto. Eu o arrastei para lá.

— Mas não teria sido possível que Kolkov não estivesse morto, e tentasse engatinhar até lá para proteger o Presidente?

Lucas Cartwright interrompeu a segunda negativa de Harry Bok para dizer:

— O secretário não lhe está pedindo para ter certeza de nada, Harry. Acontece que todo mundo está terrivelmente nervoso depois do assassinato de Kolkov. Ninguém pode afirmar quem estava por trás disso. Os russos não nos estão deixando sair daqui tão rápido quanto gostaríamos, e isso de não contar imediatamente à imprensa vai nos causar problemas.

— Eles vão ficar possessos — acrescentou o Dr. Abelson.

— Por essa razão o secretário está procurando algo que possa melhorar a situação. Como um acto de heroísmo da parte de Kolkov — explicou Cartwright.

— Algo de que os russos se possam orgulhar e que os americanos tenham de agradecer — disse o Secretário Curtice. — Mas não estamos pedindo que você não diga a verdade.

— Lucas, isso está certo? — perguntou Harry Bok.

Cartwright respondeu:

— O secretário acha que é muito importante. Foi um momento terrível, Harry... ninguém espera que você se lembre de tudo. Apenas esboce algumas das possibilidades. Não precisa ser nada definido. Talvez consiga fazer com que vamos embora mais depressa.

— Está certo — a enfermeira Kellgren escutou Harry dizer.

— Talvez Kolkov tivesse engatinhado até o Presidente, eu não sei, tudo aconteceu ao mesmo tempo.

— Então é possível — perguntou Curtice — que Kolkov tenha salvado a vida do Presidente?

— É.

— Uma coisa dessas certamente aplacaria a reação anti-soviética nos Estados Unidos — disse Curtice, e a enfermeira desejou que ele deixasse Harry em paz.

— Não posso jurar. Pode ter sido.

A enfermeira Kellgren levantou-se e começou a andar pelo quarto. O Dr. Abelson a viu e disse algo aos outros no sentido de não se cansar o paciente. À metade do caminho, a enfermeira Kelgren não conseguiu escutar nada do que estava sendo dito perto do leito de Harry. Quando chegou perto, Cartwright dizia:

— ... prioridade é fazer com que o Presidente receba todos os cuidados médicos. Em solo americano. Herb, o Presidente está em condições de voar?

— Sempre é um risco...

— Precisamos decidir, Herb.

— A ida até ao aeroporto me preocupa — hesitou o médico. — Um helicóptero seria melhor que um carro, se não for abatido. Tudo vai ficar bem quando entrarmos no Air Force One. A questão é que precisamos de um especialista...

— Harry vai poder ir também?

À pergunta de Cartwright, a enfermeira transmitiu um olhar alarmado ao médico.

— Não — respondeu o médico, e a enfermeira Kellgren concordou com a cabeça. — Harry só vai poder ser removido depois que se operar.

— Tenente — dirigiu-se Cartwright a ela, recordando-lhe amavelmente sua patente nas forças armadas — a senhora se ofereceria para ficar com o agente Bok e levá-lo de volta assim que estiver melhor?

— Sim senhor.

— Sr. Secretário — disse Cartwright formalmente — o senhor é o americano mais graduado aqui. Parece-me que a atitude mais sensata é tirar o Presidente daqui antes que aconteça mais alguma coisa.

— É essa a sua recomendação?

— É.

— Eu concordo — disse o secretário.

— Agora depende do senhor — disse Cartwright — fazer com que Nikolayev cancele o sigilo e com que voltemos imediatamente para casa.

— É mais fácil dizer do que fazer.

— Agora, porém, o senhor tem uma carta para jogar — lembrou-lhe Cartwright — fornecida por nosso corajoso amigo aqui. Harry — virou-se para o agente — você agiu segundo a melhor tradição do Serviço. Você vai ser um herói, e seu retrato vai ser pendurado em...

— Quero um cirurgião americano — disse-lhe Harry.

— Um cirurgião está a caminho, junto com um completo grupo de médicos, incluindo equipamento — assegurou-lhe Cartwright. — Pouco antes de lhe virmos falar, fizemos uma chamada, a única comunicação que os soviéticos nos permitiram. Para o Hospital de Bethesda. Marcamos um encontro com uma junta médica nos Açores. Um oftalmologista e mais um ou dois médicos vão voltar conosco para os Estados Unidos; o resto deles virá para cá examinar você. Já estão a caminho.

— Um oftalmologista?

O Dr. Abelson acrescentou:

— O Presidente está com um problema de visão, Harry.

Após um silêncio, o agente disse algo que pareceu curioso à enfermeira Kellgren:

— E melhor chamar Hennessy.

— Que coincidência você dizer isso! — exclamou Cartwright.

— O Presidente disse as mesmas palavras logo depois de recobrar a consciência. Mark Hennessy vai estar no avião, junto com os médicos.

— Se Furmark estiver vivo — acrescentou Harry — ele deve encarregar-se da segurança.

— Ele já o fez. A enfermeira está nos enxotando, mas quero que você saiba que pretendo recomendar que o Serviço Secreto dê o nome de Harry Bok à sua linha de tiro ao alvo, onde você passou tanto tempo, aproveitou tão bem.

— Falsificações — murmurou Harry, o que fez a enfermeira pensar que ele estava perdendo a consciência. Em seguida, a voz lhe voltou forte: — Herb, ele precisa que o fotografem de vez em quando.

— Eu sei — disse o doutor. — Vou providenciar.

No vestíbulo do lado de fora da enfermaria, a enfermeira Kellgren disse ao Dr. Abelson que ele não tivesse certeza de que sua conversa não fora ouvida pelos russos, pois a acústica do quarto era muito estranha. O médico, perturbado e nervoso, disse que passaria a informação.


O SECRETÁRIO DE ESTADO

— Vamos embora agora, Vasily.

— Não imediatamente.

O Secretário de Estado sentiu uma onda de fúria e não disse nada até passar a sensação. Estavam no escritório da administração do hospital, originalmente uma sala de espera do andar térreo do palácio do tzar, que o Ministro das Relações Exteriores ocupara para servir-lhe de posto de comando. Lá em cima, o Presidente dos Estados Unidos jazia vivo, consciente, mas incapaz de ver, e necessitava dos melhores cuidados médicos do mundo. No fundo do vestíbulo onde ficava o quarto do Presidente, o agente Bok ocupava uma grande sala. Não se sabia exatamente suas condições, mas era provável que estivesse paralítico. Tinham-lhe dado sedativos, e não sentia dor, mas precisava de um cirurgião em quem todos pudessem confiar. No andar de cima, sendo fotografados, estavam os cadáveres do Secretário-Geral soviético Kolkov, de seus guardas, e os de seus assassinos chineses.

George Curtice olhou novamente para o relógio: era meio-dia e meia, hora de Yalta, três horas desde a emboscada aérea, e uma hora e meia desde que o Presidente abriu os olhos e pronunciou suas primeiras e vacilantes palavras: “Estou vivo?” Mantê-lo deitado lá, sendo atendido por dois médicos Soviéticos desconhecidos e por seu próprio incompetente médico pessoal, era uma situação impossível. Igualmente ruim, a mais ou menos quilômetro e meio de distância, a imprensa mundial esperava. Muitos jornalistas tomavam banho de sol na praia, desconhecendo inteiramente o assassínio do líder da União Soviética e as condições críticas do líder dos Estados Unidos. Tanto quanto sabiam, os dois líderes haviam partido para desfrutar de agradável almoço, e só deveriam aparecer em público para a sessão de fotografias às quatro e meia.

— Você não pode manter o caso em segredo por mais cinco minutos — disse Curtice, controlando a voz. — A vida do Presidente vem antes de qualquer outra consideração.

— Concordo inteiramente — disse Nikolayev, sentado atrás da escrivaninha, e sem fazer qualquer movimento para pegar o telefone. — Há, porém, dificuldades logísticas. Você mesmo disse que ele não pode ser transportado por carro pelas estradas, e que seria preciso um helicóptero.

— Você tem helicóptero no campo de pouso, eu os vi quando chegamos — insistiu Curtice. sabendo que o russo estava “fazendo hora”. — É perigoso postergarmos. Você. .. e eu o responsabilizo pessoalmente por isso... está pondo em perigo a vida do Presidente.

Nikolayev levantou-se.

— Não diga algo que não é verdade. Já ordenei o helicóptero. Já mandei que o aeroporto fosse interditado e mantido sob segurança. Preciso, porém, ter certeza absoluta de que os homens que costumamos usar para pilotar o aparelho são leais, e não aliados dos assassinos chineses.

— Quanto tempo isso vai demorar?

— Se representa proteção à vida do seu Presidente, o tempo é bem gasto.

— Não aceito isso.

Curtice sabia exatamente o que Nikolayev estava fazendo, e talvez, no seu lugar, tivesse agido da mesma forma: manteria a situação em sigilo e proibiria a divulgação de qualquer noticiário, até que seus companheiros líderes do Politburo pudessem ser informados e se decidisse o curso imediato de acção. Nikolayev estava sob enorme pressão: a mais leve omissão, uma tomada de atitude contrária àquela que os homens principais julgassem que deveria ser tomada provocariam contra ele acusações de transgressões num momento crucial.

— Seu protesto formal é notado — disse o russo.

— Pelo amor de Deus, Vasily — Curtice quase gritou do outro lado da escrivaninha — isto não é nenhuma formalidade — ele tateou em busca das palavras certas, e terminou debilmente com um clichê banal — é vida ou morte.

Mais do que isso, a reputação de Curtice dependia de sua capacidade de fazer com que eles saíssem do local rapidamente e de obter a liberação das notícias. Todas as providências, todos os momentos, todos os atrasos mínimos seriam analisados por repórteres e historiadores durante anos, e estava resolvido a não permitir que lhe imputassem a culpa. Sentiu uma picada na consciência ao pensar em como ele pareceria mais tarde nessa situação, e voltou a fazer pressão:

— Quanto mais você ficar sentado nesse barril de pólvora, pior será a explosão quando se souber no que houve. Você não compreende que só está piorando tudo?

— O Secretário-Geral está morto — disse o Ministro das Relações Exteriores. — Que pode ser pior do que isso?

Curtice achou melhor não rebater a pergunta, e Nikolayev respondeu à própria pergunta:

— Sei que poderia se pior se seu Presidente tivesse morrido. Acontece que ele não está moribundo. No tocante à vida dele que, como diz você, é de importância fundamental, a necessidade de medidas de segurança é maior agora do que a de médicos especialistas.

— Não temos certeza de estarmos em segurança aqui — pressionou Curtice, enquanto uma expressão de inutilidade surgia no rosto severo de Nikolayev.

— Que me diz de um ataque ao hospital? Poderia acontecer. Poderia haver gente invadindo isso aqui a qualquer momento, você não tem nem vinte homens protegendo o local.

Isso era inútil, Curtice sabia que era simplesmente tergiversação. O russo estava trabalhando num esquema de comunicações, depois que as primeiras linhas de força estivessem montadas, a história seria divulgada, e o Presidente teria licença de partir. Os atrasos eram “inevitáveis”, e quaisquer objeções seriam gentilmente ouvidas, mas ignoradas. E Nikolayev tinha uma vantagem: o primeiro negro americano Secretário de Estado era novo no cargo e tinha de demonstrar calma e sangue-frio, sem estilo bombástico, na sua primeira crise. A explosão que talvez fosse tolerada num branco seria criticada num negro. Era uma vantagem subtil, mas o Ministro das Relações Exteriores soviético estava pronto para utilizá-la.

— O hospital está bem protegido — disse Nikolayev. — E o aeroporto está no processo de ser protegido.

— Quanto tempo de atraso?

O russo sacudiu a cabeça.

— Não é atraso. A logística exige pelo menos quatro horas.

Curtice agarrou-se a esse pormenor como a uma arma, uma base de negociação.

— Quatro horas! Você percebe o que está dizendo? Isso seria depois da hora combinada para a entrevista que os dois dariam à imprensa. Você quer mentir à imprensa? Você não compreende o pessoal da imprensa americana, eles...

— Compreenda meu problema também, George.

Nikolayev tentou criar um vínculo pessoal entre os dois, o que Curtice achou bem-vindo, a essa altura.

— As pessoas precisam ser preparadas para essa informação na União Soviética. Vai ser um tremendo choque. Algumas cabeças quentes quererão ir contra as potências orientais, sem esperar nada. O atraso, como diz você, o tempo necessário, é no nosso interesse mútuo.

— Você está enganado, Vasily — disse Curtice. Sua menção da reação da imprensa americana, que ele evocara como um ponto de debate, estava também começando a impressioná-lo cada vez mais. — Todo minuto que passa é uma mentira. Quando a história for divulgada, eles quererão saber o que aconteceu depois da emboscada, como complemento da notícia. Seremos acusados de encobrir o que houve, ou de fazermos parte de uma conspiração; haverá todo o tipo de desconfiança. Uma nota de pânico emergiu da voz de Curtice, sem nenhuma intenção.

— Você talvez não se preocupe com isso aqui, mas nós nos preocupamos. E Lucas Cartwright, que é um antigo funcionário da Casa Branca, já conhece esse tipo de coisa, e diz que temos de sair daqui o mais rápido possível. E você me fala em quatro horas!

— Daqui a quatro horas serão quatro e meia, quando a sessão de fotografias está marcada. Podemos anunciar tudo então.

Curtice tentou o expediente de incluir outra pessoa na argumentação.

— Se eu disser a Cartwright que temos de ficar aqui, com o Presidente em condições críticas, durante quatro horas, ele vai dizer isso ao Presidente, e garanto que este vai ficar furioso com você e comigo. Se ele sobreviver, Vasily, não se esquecerá disso, e eu só vou poder dizer que Vasily Nikolayev não pôde afirmar sua autoridade num momento crucial.

O russo sacudiu raivosamente a cabeça e disse:

— Quatro horas. Se você explicar minha situação ao Presidente, ele compreenderá. Ele visualizará toda a problemática, o que evidentemente você não visualiza. Nada é mais importante do que a ordem estabelecida para evitar erros crassos.

Curtice deu um soco na mesa, em frustração. Foi para o lado de Nikolayev, abriu umas duas gavetas, tirou duas folhas de papel um carbono.

— Você quer uma nota oficial? Pois vai tê-la.

Enquanto o russo observava friamente, Curtice escreveu, com sua caligrafia de letras aglomeradas: “Ao Governo da União Soviética. Neste momento, doze e trinta e cinco da manhã, hora de Yalta, ou seja, mais de três horas depois do ataque ao Secretário Kolkov e ao Presidente Ericson, os Estados Unidos protestam contra o deliberado” — Curtice pensou em acrescentar “despropositado” mas não quis arriscar-se a cometer um erro de ortografia — “atraso, pelo Ministro das Relações Exteriores soviético...”

Nikolayev segurou-lhe a mão.

— Rasgue isso — disse. — Três horas. Se você não o rasgar, quatro horas.

Curtice não rasgou, mas deixou a nota sem terminar. Colocada na mesa naqueles termos, não era uma nota diplomática nem uma garatuja sem nexo: no seu entendimento, era uma ameaça. Sabia que Nikolayev não poderia ser mais forçado a nada, mas três horas não satisfariam Cartwright nem o Presidente, e ele se preocupava cada vez mais, que seria crucificado pela imprensa americana por haver ocultado a maior notícia da geração.

Curtice não conseguiu pensar em outra saída. Persuadiu-se de estar agindo no interesse de obter cuidados médicos apropriados para o Presidente, e de divulgar os factos. Jogou seu trunfo. Numa voz diferente e mais tranquila, disse:

— Acabei de vir da cabeceira da cama do agente do Serviço Secreto ferido, Harry Bok.

Curtice andou até a janela e recordou-se de que suas palavras estavam provavelmente sendo gravadas, por isso as escolheu com cuidado:

— O agente Bok não está certo do que aconteceu em terra, quando os atacantes foram em cima dele. Sua insegurança é compreensível, pois ele sangrava devido aos ferimentos de granada, e tudo estava acontecendo muito depressa.

Curtice fez uma pausa, para que o elemento de insegurança ficasse bem aparente:

— Continue — disse Nikolayev, traindo um nervosismo incomum.

— Ele não está certo — disse lentamente Curtice — mas parece que se lembra que o Secretário Kolkov engatinhou-se até o Presidente, que estava inconsciente na vala. Ele acha que se lembra do corpo do Secretário em cima do do Presidente, servindo de escudo com seu próprio corpo.

— Ele se lembra disso?

Parecia que Nikolayev estava avaliando mentalmente as possibilidades.

— Sua memória está meio nebulosa, afinal de contas, o agente sente dores, e está parcialmente sob a acção de sedativos. Quando melhorar, pode ser que se lembre de que o Secretário Kolkov teve uma morte heróica, ao salvar a vida do Presidente Ericson. Ou — era atraente para o Ministro das Relações Exteriores. Se Kolkov morresse como herói, então Nikolayev, o sucessor escolhido de Curtice deu de ombros — se lembrará de que o Secretário simplesmente morreu.

Ele deixou que o russo raciocinasse. Curtice sabia que a sua oferta de Kolkov, ficaria fortalecido na União Soviética. O Secretário de Estado americano não podia saber as maquinações que ocorriam em Moscou naquele momento, nem o peso relativo da necessidade de se esperar, em comparação com o facto do heroísmo de Kolkov. Curtice preocupou-se em que talvez Nikolayev quisesse desacreditar Kolkov, e que não desejaria qualquer menção a heroísmo.

— Duas horas — disse Nikolayev.

— Imediatamente — retrucou Curtice. Havia vencido.

— Trinta minutos.

— Certo.

Estendeu a mão; Nikolayev apertou-a e pegou o telefone. Deu algumas ordens em russo, presumivelmente a médicos, e fez uma chamada para Moscou.

— Diga a seu Presidente — disse Nikolayev — que sua cama será levada para o gramado fronteiro do palácio em exatamente meia hora. Uma ambulância, um helicóptero, o pegará e o levará ao Air Force One, que será liberado para levantar vôo logo que chegue o Presidente.

— E a imprensa?

Nikolayev rejeitou a ideia.

— Fale com seu Secretário de Imprensa, e mande-o procurar Mishnikov. Tenho melhores coisas com que me ocupar na próxima meia hora.

Curtice apanhou a cópia da nota que minutara, amassou-a e a pôs no bolso. Andou apressado pelo vestíbulo até a escada e daí ao quarto do Presidente. Os vestíbulos estavam silenciosos e seus passos ecoaram. De alguma forma — pensou ele — as multidões deveriam estar se reunindo, barricadas sendo montadas, passes sendo exigidos. Será que a notícia só foi realmente conhecida quando divulgada, ou na ocasião do acidente? Um guarda solitário o deteve à porta do Presidente; num segundo, saiu um americano, e se identificou:

— Furmark, chefe interino da segurança da Casa Branca, Sr. Secretário — disse, e esperou Curtice dizer o que queria.

— Posso entrar?

— Vou perguntar, senhor.

— É importante.

— Claro. Vou perguntar.

O agente entrou e fechou a porta. Curtice inspirou fundo, expirou, e refletiu que era bom haver tanta segurança em torno do Presidente, mas, pelo amor de Deus, ele era o Secretário de Estado, e acabara de negociar a liberação do Presidente.

Lucas Cartwright saiu do quarto.

— O senhor conseguiu liberar-nos, Sr. Secretário?

— Gostaria de contar ao Presidente, Sr. Cartwright.

— Ele, bem, sei que ele quer vê-lo, mas me pediu que lhe viesse perguntar o que houve.

Estranhou o Presidente não querer vê-lo. O Secretário de Estado interpretou essa atitude como querendo dizer que ele era um instrumento, um acessório do poder, sem nenhum lugar no centro. Suas boas notícias lhe amargaram a boca.

— Não é hora para visitas — admitiu ele. — Lucas, o truque deu certo. Nikolayev queria paralisar tudo até o final do dia, mas a possibilidade de o agente se lembrar de que Kolkov era um herói fez com que mudasse de decisão. Diga ao pessoal do Serviço Secreto que os médicos levarão o Presidente até o gramado fronteiro e o porão no helicóptero às duas e trinta e cinco.

— Ótimo trabalho, George — disse Cartwright com sinceridade. Curtice desejou que o entusiasmo do chefe da Casa Civil se transmitisse ao Presidente. — Você pode esperar aqui um momento?

Curtice não tinha para onde ir. Ficou andando para lá e para cá enquanto o chefe da Casa Civil consultava o Presidente. Rememorou as razões pelas quais devia ter sido impedido de entrar no quarto. Por que era negro? Não, isto seria, no mínimo, uma vantagem. Curtice fora nomeado para o cargo porque Ericson não só queria um negro no Gabinete, como também nas Relações Exteriores, para que ele pudesse ser mais duro ao fazer exigências às nações africanas. Por que não era íntimo há muito tempo de Ericson? Isso também não seria razão: Cartwright estava lá dentro com o Presidente, e Curtice vira como Cartwright fora humilhado pelo desejo do Presidente pela presença de Mark Hennessy, seu advogado. Quando ficou difícil para Curtice pensar em Cartwright se interpondo entre o Secretário de Estado e o Presidente, o ressentimento de Curtice se aplacou. O único motivo que restava para sua expulsão do quarto do hospital do Presidente era o desejo deste de não o ver, e Curtice não estava disposto a enfrentar esse facto diretamente. Achou mais provável que Ericson estivesse deitado, perturbado e confuso pela falta de visão, e não quisesse nenhuma outra presença a seu redor.

O Secretário de Estado parou de andar, cruzou os braços, e se apoiou na parede em frente à porta do quarto do Presidente. Ocorreu-lhe que podia ser muito mais útil não como alguém simplesmente participante da viagem de volta aos Estados Unidos, e sim aqui, na União Soviética, na Casa Spaso, a embaixada americana em Moscou. O embaixador americano era um funcionário do Ministério das Relações Exteriores que não gozava da confiança do Presidente. Seria importante ficar no país durante a época mais delicada de provação de Nikolayev: isso poderia cimentar um relacionamento que talvez fosse útil. E — depois das primeiras informações aos repórteres aqui, em alguns minutos — ele estaria fora do fluxo de notícias. A reação inicial da imprensa seria de pressa, para enviar a história; a segunda, que ele preferiria até perder, seria de raiva contra os que esconderam o acontecido por tanto tempo.

Cartwright saiu do quarto:

— O Presidente está pessoalmente muito agradecido, Sr. Secretário. Suas exatas palavras foram “Sabia que podíamos contar com Curtice”.

O Secretário, embora sem querer, ficou orgulhoso dessas observações transmitidas por um terceiro, possivelmente até inventadas por esse diplomático assessor.

— A propósito — acrescentou Cartwright — não achei que fosse a ocasião de contar ao Presidente sobre Bok, inclusive as providências tomadas por você etc. Quando o Presidente estiver melhor, podemos contar-lhe tudo.

Curtice teria preferido receber aprovação presidencial de sua ideia de encorajar as recordações de Bok no sentido de tornar Kolkov heróico, mas não podia realmente insistir em nenhuma decisão a ser dada por um Presidente ferido e sofrendo. Contou a Cartwright sua intenção de ficar na Rússia durante a crise pós-assassinato, desde que Nikolayev o quisesse lá.

— Boa ideia — disse Cartwright, que estava evidentemente tomando todas as decisões. — Você é o americano mais graduado presente.

Curtice gostou da ideia de Cartwright dizer aquilo, o que era apenas formalmente verdadeiro.

— Tudo que você resolver sobre sua permanência será feito.

— E a imprensa?

— Sinto-me como uma grande, pesada e escura nuvem — suspirou o grisalho Cartwright — que ainda não pôde fazer chuva. Vamos usar o telefone no escritório de Nikolayev.

— Quem está com o Presidente?

— Melinda. E o agente Furmark, que assumiu o lugar de Bok.

Desceram rapidamente as escadas e receberam permissão de um assessor do Ministro das Relações Exteriores soviético para usar o telefone para chamar James Smith, o Secretário de Imprensa, com a recomendação de que seria concedida uma entrevista à imprensa, mas que nenhuma informação poderia ser transmitida a respeito até as treze e trinta. O assessor soviético pegou abertamente na extensão para assegurar-se de que suas instruções seriam seguidas.

Smitty? Escute cuidadosamente. — Cartwright foi explícito. — Convoque uma coletiva com a imprensa no hotel às treze e trinta, isto é, daqui a quinze minutos. Lamento ter de interromper a folga, mas o pessoal vai ter de se reunir aqui, pois o assunto não pode mais ser adiado. Não posso dizer-lhe do que se trata; estou sob restrições. O Secretário de Estado dará as informações. Não, eu não vou estar presente. A sessão de fotos? Está cancelada. Desculpe, mas você saberá na reunião. Olhe, Smitty, sei exatamente como se sente, mas é assim que tem de ser. Espere.

O chefe da Casa Civil cobriu o bocal com a mão.

— Ele deve dizer a Mishnikov que Nikolayev também comparecerá?

Curtice lhe fez um sinal para esperar, foi à sala onde o Ministro das Relações Exteriores falava em russo rápido num telefone antigo e interrompeu dizendo:

— Você vai comigo à reunião?

Nikolayev continuou a falar e fez sinal com a cabeça que sim. Curtice sorriu ligeiramente à vontade do russo de certificar-se de que a história do heroísmo de Kolkov seria divulgada, mas tranquilizou-se por não precisar aguentar sozinho a saraivada de perguntas. Curtice voltou a Cartwright, que pacientemente explicava por que não podia revelar nada a Smitty, e assentiu com a cabeça.

— Concluindo — disse Cartwright — o Ministro das Relações Exteriores soviético se juntará ao secretário na reunião. À uma e meia em ponto. E providencie para que haja alguns ônibus no local. Agora um cunho pessoal: espero que você não tenha desfeito as malas. Sim. Olhe, Smitty, prepare-se para alguma coisa. Certo? Adeus.

Curtice voltou a Nikolayev.

— O Presidente me solicitou — disse a seu equivalente russo — que lhe dissesse de minha disposição de permanecer na União Soviética, se isso lhe for útil, por alguns dias.

— Por que ele quereria me ajudar?

Nikolayev não parecia evidentemente ansioso para dever um favor aos americanos.

— Esqueça a ideia, então.

— É uma boa ideia do Presidente — disse o Ministro das Relações Exteriores — mostrar que nossos dois governos estão trabalhando unidos para descobrir quem fez isso e por quê. Além de ser uma demonstração de confiança pessoal em mim.

Ele sufocou as últimas palavras:

— Estou grato, George. Você irá a Moscou no meu avião, depois que o Presidente sair daqui.

Curtice achou que ao dizer “meu avião”, Nikolayev quis dizer o avião de Kolkov. O poder tinha de ser passado, e era no interesse dos Estados Unidos que passasse para alguém conhecido pela Administração de Ericson. Ele assentiu com a cabeça e voltou a Cartwright:

— Vou ficar por aqui — informou ao chefe da Casa Civil. — O Ministro precisa de mim aqui.

— O Presidente vai lhe agradecer por isso — disse o assessor. Curtice sabia que isso era verdade; Ericson não fazia muita questão de ter seu Secretário de Estado por perto, mas a melhor razão era que Curtice provavelmente poderia ser mais útil ao ajudar a facção pró-Nikolayev com sua presença. Com o veterano Cartwright e o Secretário de Defesa Preston Reed, o Presidente disporia do necessário assessoramento de política exterior em Washington; depois que o posto de assessor da segurança nacional fora eliminado no início da Administração de Ericson, grande parte da rivalidade burocrática havia temporariamente diminuído.

— Você não deve aludir a essa possibilidade na sua reunião com a imprensa — disse Cartwright — mas, se for preciso que o Presidente se afaste temporariamente do cargo, eu aviso logo a você.

A ideia de que o Presidente talvez tivesse de deixar o cargo como incapacitado já ocorrera a Curtice, mas ele a rejeitara depois que Ericson recobrou a consciência. Estaria o Presidente realmente em boas condições? Ele só tinha a palavra de Cartwright em que confiar. A possibilidade de um governo nas mãos do Vice-Presidente Arnold Nichols o aterrorizou.

— Deus salve o Presidente! — disse Curtice a Cartwright, com toda a sinceridade. Foi apanhar Nikolayev para depois darem a notícia da emboscada ao mundo.


O MÉDICO DO PRESIDENTE /1

Há sete horas longe de Yalta, o Air Force One começou a descer em direção ao Campo das Lajes, nos Açores americanos.

O Dr. Herbert Abelson estremeceu nervosamente quando a cigarra de seu relógio de pulso disparou. Prometera a Sven Ericson que o acordaria meia hora antes da chegada, e só assim o Presidente tomara o analgésico de que precisava.

Ele calcou a cigarra com força até que ela parou de tocar. Eles tinham dado ao médico do Presidente um relógio todo incrementado que dizia a hora no mundo inteiro, brilhava, tocava cigarra, contava as batidas do coração e media a pressão do sangue. Eles deram ao Presidente e sua comitiva a aterragem mais suave do mundo, pois o piloto fora treinado para tocar o centro de energia de vôo no concreto como se estivesse pousando num campo cheio de ovos quentes, e era melhor para sua “saúde” que ele não cometesse o pecado de bater com força desta vez, com a cabeça de Ericson ainda em semiconcussão. E deram a homens como Abelson úlceras, hemorróidas ou um tique no olho, enfim, algum tipo de lembrete físico de que as pressões de seu cargo são excessivas para que pessoas normais possam lidar com elas sem nenhuma evidência tangível de deterioração. Com Herb Abelson, o problema fora, hemorróidas; ele mudou de posição e gemeu.

Ele errara ao aceitar esse cargo, pensou. Era exatamente o tipo de vida que decidira não viver, razão pela qual há alguns anos deixara de fazer clínica a favor de uma vida mais metódica de redator médico. Nunca deveria ter deixado Ericson convencê-lo a entrar na vida política. O candidato dissera:

— Venha logo, Herb, é só durante a campanha. Você vai presenciar de dentro o jogo do poder, é fascinante.

E o coordenador da campanha, aquele sacana do Leigh, lhe havia assegurado que:

— A única coisa que você vai precisar dar a ele serão aspirinas e comprimidos contra resfriado.

Abelson continuou a pensar: “E eu, como um idiota, entrei nessa”.

O redator de uma vitoriosa revista médica mensal jamais deveria ter permitido ser colocado na posição de ter de lidar com corpos humanos de carne e sangue, especialmente — Abelson sacudiu lentamente a cabeça — olhos.

Sven Ericson, seu colega de universidade, que com ele dividira um quarto, já na faculdade fora um “cara de pau”, e usava os colegas com a maior facilidade. Ericson continuava a usá-lo; ele, em troca, lhe estava prestando um desserviço. Abelson se acusou de que o Presidente dos Estados Unidos estava com problemas porque recebera cuidados médicos inadequados. Mexeu-se novamente no assento. Tinha de manter a promessa de acordar o Presidente a tempo de ele recobrar sua atitude antes que a junta médica viesse a bordo.

Para Abelson, a parte mais intolerável da situação era saber que apenas ele, de todas as pessoas em redor do Presidente, estava a par do pior aspecto do problema. Não o aspecto médico, mas o aspecto político. Com Harry Bok imóvel em Yalta — pobre sujeito, nunca mais andaria — só Herb Abelson carregava o peso do conhecimento culpado. Tinha de partilhá-lo, não o toleraria sozinho. Por isso ansiava por ver Hennessy, junto dos médicos, nas Lajes. Transmitiria o segredo político a Hennessy e então a responsabilidade já não estaria em suas mãos. Depois comunicaria o segredo médico à junta de Bethesda, para que a responsabilidade médica pelo paciente ficasse onde devia.

O médico dirigiu-se ao local de dormir do Presidente e o encontrou já sentado na cama.

— Você está acordado — disse, e pensou que falara bobagem, mas depois achou que nem tanto, porque anunciara sua presença a um homem que não podia ver.

Ericson sentia dor. O cenho estava franzido, os olhos fixavam o vácuo, e os dedos tocavam ligeiramente as gases em volta da cabeça para verificar se estava muito cheio de panos.

— Estou um pouco tonto e enjoado, e minha cabeça dói — informou.

O doutor observou que ele estava lúcido; as queixas foram discriminadas.

— Você tem sorte de estar vivo, Sven.

— Tem razão. Como está Harry?

— Vai ficar bem.

Abelson não achava que fosse a ocasião certa para falar da paralisia; o Presidente já tinha bastante com que se preocupar.

— Nós o deixamos lá no hospital, com aquela grande enfermeira loura, e vamos enviar médicos.

Houve silêncio.

— Está bem, Herb, que é que você acha? — perguntou o Presidente. O médico passou a mão em frente aos olhos do Presidente algumas vezes. Ele não piscou. — Você está fazendo vento em frente ao meu rosto, Herb. Que é que você acha?

— Você consegue distinguir o escuro do claro, quero dizer, a janela à sua esquerda, há muito sol, mas aqui está mais escuro. Você consegue distinguir a diferença?

— Não consigo ver nada — disse o Presidente — droga nenhuma.

— Já vamos aterrar nos Açores — disse Abelson rapidamente — e o oftalmologista de Bethesda está lá nos esperando. Teremos um diagnóstico, e saberemos bastante mais do que agora. Uma concussão como essa pode levar uns dois dias, depois você vai ficar novo em folha.

— Quanto tempo durou da última vez?

— Quarenta e uma horas.

— Dura mais da segunda vez?

— Por Deus, Sven, quisera saber — disse o médico. — Como foi mantido em segredo, eu tive medo de ficar perguntando. É um campo muito especializado, um ramo totalmente diferente da medicina...

O Presidente fechou os olhos e concordou com a cabeça.

— Esse médico de olhos que vem a bordo, pode-se confiar nele?

— Nunca o vi mais gordo. Foi ele que Bethesda mandou, deve ser bom.

— Discreto?

— Quem sabe? Você quer dizer que não deseja que ele divulgue que você não está enxergando? Suponho que possamos mantê-lo calado por algum tempo, mas quando fazemos com que um oftalmologista voe até aqui para ver você, poxa, isso se espalha. E eu tinha de chamá-lo, porque talvez haja alguma coisa que precise ser feita. Ainda perco o sono quando penso na última vez.

— Não é isso que quero dizer — explicou o Presidente. — Teremos de contar a verdade sobre minhas condições quando aterrarmos em Andrews. De modo natural, diremos que é apenas o efeito temporário da concussão. E que em alguns dias já estarei bom. O problema não é esse. O problema é a última vez.

— Você está me dizendo que não quer contar ao doutor sobre a última vez?

— Só se for indispensável, Herb.

Ele alcançou o jato de ar fresco, brincou com ele e dirigiu o ar para o rosto:

— O que preciso saber de você é o seguinte: é muito importante para a elaboração do diagnóstico que ele saiba o que houve a última vez?

Abelson era o primeiro a admitir que não sabia muito sobre medicina, mas sabia o suficiente para determinar o valor da história do, paciente a um médico não-familiarizado com o caso.

— É muitíssimo importante que nós lhe contemos que isso já aconteceu antes, há apenas seis meses, sob circunstâncias semelhantes, e que você ficou bom em quarenta e uma horas. Poderia afetar o seu tratamento. De outra maneira, ele estaria caminhando às cegas...

Abelson começou a dizer “se você me perdoar a expressão”, mas parou no “se”.

— Eu perdoo a expressão, Herb. Deus, como me dói a perna!

— Vou dar-lhe um analgésico.

Ericson começou a balançar a cabeça, o que o fez tremer, e disse:

— Não, agora não. Não posso estar dopado quando eles falarem comigo. Que é que a imprensa sabe?

— Não muito. Sabe que você tem uma concussão, e um problema com os olhos. Nós deixamos tudo muito vago: pode ser um problema de acomodação da vista, ou outra coisa qualquer. Foi isso que Cartwright instruiu a Curtice para dizer aos jornalistas.

— Ótimo. Quanto menos, melhor.

— Smitty disse que eles estão possessos por não terem um pool neste avião. Os aviões da imprensa nos estão seguindo, e estarão aqui em mais ou menos meia hora, quando devemos estar prontos para partir novamente rumo a Andrews.

Abelson se prometeu que, após chegar à Base Aérea de Andrews, iria para casa e ficaria sem fazer nada por uma semana.

— Mande Curtice entrar.

Para o médico isso foi perturbador; o Presidente esquecera que Curtice ficara na Rússia com Nikolayev. Abelson lhe lembrou, e acrescentou à sua apreensão o facto de se esconder da junta médica a experiência prévia de Ericson com a cegueira, no trem de campanha, há menos de um ano.

— Não lhes diga uma palavra, Herb. Sei o que estou fazendo. Não quero insinuações, nada. Nunca. Vamos recapitular sobre quem mais está a par do caso.

— Buffie estava no compartimento com você. Ela sabe, e tem se portado muito bem a respeito. Você e eu sabemos. E Harry Bok. E aquele sacana do Leigh sabia. Só esses.

Depois ele mencionou os nomes das pessoas que provavelmente deveriam ter sido informadas, mas que não o haviam sido.

— Nada foi dito nem mesmo a um oftalmologista. Cartwright, Hennessy, Smitty, Melinda: nenhum deles sabe, eu não disse nada.

— Continue assim — disse o Presidente, num tom de ordem presidencial. — Vou contar a Hennessy sobre a última vez. Pensando bem, conte-lhe você, Herb, quando Hennessy vier a bordo agora. E Herb — ele buscou atrás de si um travesseiro, e o médico moveu-lhe a cabeça para lhe dar o apoio que queria — se você tiver perguntas sobre o que deve fazer, e não conseguir entrar em contato comigo por algum motivo, trabalhe com Hennessy. — O Presidente respirou fundo para combater a náusea. — Ele é minha pessoa de confiança total, meu honcho nesse caso, ninguém mais. Onde está a moça?

Abelson engoliu em seco.

— Ela está no avião da imprensa. Acho que Buffie não contou nada sobre a última vez, ou teríamos sabido pelo rádio. Smitty está aqui conosco, em contato com eles.

O Presidente disse:

— Ninguém sabe que estou cego ainda.

Era a primeira vez em que usava a palavra — observou o médico — mas não pareceu perturbado.

— A primeira oportunidade que você tiver, Herb, diga-lhe para não contar nada sobre a última vez.

Abelson assentiu com a cabeça.

— Você faz isso para mim?

— Faço, Sven — disse o médico em voz alta.


O CONSELHEIRO ESPECIAL

Hennessy subiu de dois em dois os degraus da rampa à frente da junta médica, e deu de cara com Melinda McPhee.

— Nunca pensei que ficaria contente de vê-lo — disse ela sobriamente.

— E o Chefe?

— Ele não consegue enxergar.

O peito de Hennessy se contraiu.

— Está cego?

— Não consegue enxergar, só isso.

A voz dela, assim como seu rosto, estavam rigidamente controlados. Hennessy olhou para trás: os médicos estavam mostrando seus passes de Bethesda, um a um, e Furmark cuidadosamente comparava as fotos com os rostos à sua frente. À medida que cada homem era liberado, era mandado para a parte superior do jumbo, para a sala de reuniões, e não para a cabeceira do Presidente. Isto significava que as condições do Presidente não eram críticas. No meio do Atlântico, Hennessy e os demais no avião médico haviam escutado os primeiros noticiários sobre a emboscada em Yalta, a morte heróica de Kolkov, e os ferimentos de Ericson, cuja dimensão não era conhecida. Fora anunciado que o Air Force One estava voando de volta a Andrews, mas a breve parada nos Açores para pegar a junta médica não fora mencionada, presumivelmente por razões de segurança.

Durante as duas horas de espera pela chegada do Presidente no Campo das Lajes nos Açores, Hennessy havia andado para lá e para cá na pista de macadame do aeroporto, com um pequeno rádio na mão, tentando deduzir o que acontecera. As frases usadas pelo Secretário Curtice na entrevista à imprensa foram: “... ferimentos no crânio”. .. “... lacerações”. .. “... recobrou a consciência...“ “... possível concussão...“ “... problema com os olhos”.

Se o “problema” não fosse sério, não teria sido citado; o facto de tê-lo sido provava, para Hennessy, que Curtice estava diminuindo a importância do facto, e que era essa a razão para o oftalmologista. Qual a razão para se haver chamado Hennessy? O advogado raciocinou que ele era o homem que levava a Carta. Todos os Presidentes haviam escrito acordos com os Vice-Presidentes sobre a transferência de poder em situações de emergência, a serem utilizados antes que algo tão drástico quanto a Vigésima Quinta Emenda fosse mesmo examinado. Se queriam Hennessy, queriam-no com a Carta, para certificar-se de que ele não a entregasse prematuramente. Bateu de leve no volumoso original assinado por Ericson, colocado em seu bolso do paletó, enquanto caminhava pela pista de macadame e olhava impertinente para o mais desolador conjunto de pedras e penedos que já vira no mundo, aborrecido por não haver sido logo de início convidado para participar da viagem com o Presidente.

Herb Abelson, o médico do Presidente, chegou por trás de Melinda, agarrou Hennessy pelo braço e o empurrou para as escadas que levavam à sala de reuniões no bojo da parte fronteira do jato.

— Primeiro conto o que sei aos médicos — disse Abelson — e depois preciso vê-lo a sós imediatamente.

— Gostaria de ver o Presidente enquanto você está informando aos médicos, Herb.

À beira da histeria, Abelson quase gritou:

— Fique comigo!

Engoliu em seco, e disse:

— Preciso contar-lhe umas coisas antes que você veja Sven. Não sei que merda devo fazer. Você está aqui por uma razão, e tem de ficar grudado em mim, entendeu?

Hennessy começou a preocupar-se com os cuidados médicos que Ericson tinha estado recebendo — ou não — desde a emboscada, e deixou-se guiar até o local onde a junta médica estava reunida. O primeiro problema era acalmar Abelson para que ele pudesse dar informações explícitas, e não comunicar ao mundo que o médico do Presidente estava uma pilha de nervos.

— Melinda disse que você tem estado sensacional, Herb — sussurrou-lhe, como se para uma testemunha. — Agora se acalme e dê-lhes os factos precisos. Depois disso a responsabilidade é deles.

— As drogas das minhas mãos estão atadas — replicou o angustiado médico. Respirou fundo, olhou em volta para os inúmeros médicos e enfermeiras apinhados na sala com Melinda, Smitty, Cartwright e Hennessy, e pareceu mais dono de si.

— A emboscada aconteceu às 9:19 da manhã, hora de Yalta, e 2:19 da noite, hora de Washington, isto é, há nove horas e meia atrás.

Todos os lápis começaram a escrever, e Hennessy observava soturnamente, enquanto cada um dos médicos presentes começou a tomar notas para alguma publicação médica.

Abelson continuou:

— Isto é o mais próximo que posso reconstruir do que houve. No desastre o Presidente sofreu um golpe na têmpora direita, a um centímetro do couro cabeludo, e começou a sangrar profusamente, devido a um ferimento de nove centímetros no crânio. Ao ser arrastado para fora do helicóptero pelo agente Bok, ele recebeu pequenas contusões nas mãos e pernas. A explosão de uma granada fez com que um pedaço de estilhaço se incrustasse no tornozelo de sua perna direita.

O médico exibiu várias fotografias de um documento de uma página e as distribuiu.

— Este é um relatório feito por médicos soviéticos. A parte escrita à mão por eles está em cima, e a tradução está datilografada em baixo. O texto descreve a retirada do estilhaço, a sutura do ferimento no crânio e a hora em que o Presidente voltou a si, às 11:40, duas horas e vinte minutos depois do desastre.

— E o raio X? — perguntou um médico, provavelmente o que, segundo deduziu Hennessy, trouxera todo o equipamento de raio X.

— Estou com as chapas aqui — disse Abelson, e depositou três compridos negativos de celulóide na mesa, imediatamente examinados pela maioria dos médicos.

— O relatório não menciona o principal problema que o Presidente enfrenta agora, isto é, ele, bem, não consegue enxergar. Suponho que tenham omitido isso por razões de segurança.

— Não aparece nenhuma penetração do crânio nem fratura nestas chapas — disse um médico.

— E a pressão sanguínea? — perguntou outro. Hennessy sentiu vontade de gritar-lhes que o Presidente estava em ótima forma, exceto pelo facto de estar cego. Por que não faziam perguntas sobre isso? Eles prosseguiam, irritantemente, tomando notas sobre temperatura, pressão sanguínea, e até sobre um exame de urina feito no hospital. Abelson manteve-se firme: ele sabia as respostas.

Finalmente, o oftalmologista que Hennessy julgara com jeito efeminado perguntou:

— Ele tem alguma percepção de cor?

— Ele diz que não — respondeu Abelson — mas talvez não saiba o que procurar, o senhor vai ter de determinar isso.

— Tem problemas de audição?

— Não.

— Alguma concussão anterior? — perguntou o médico de olhos. Abelson abafou um suspiro e estudou sua pasta, para responder depois:

— É certo que nunca antes tivemos um Presidente cego. O senhor quer vê-lo agora?

O homem mais graduado da junta, num uniforme de capitão, disse:

— Preparamos uma sequência de exames. Primeiro o cérebro, depois o coração, os olhos, e em seguida os outros. No máximo três de nós estaremos junto ao Presidente de cada vez. Podemos transmitir os resultados dos exames a Bethesda, o que nos deverá dar uma boa vantagem para quando ele chegar.

O grupo se levantou e seguiu Abelson pela escada em espiral até os aposentos do Presidente. Hennessy, que vinha atrás, escutou o oftalmologista dizer:

— Se tivéssemos sabido antes, teríamos trazido um neurocirurgião.

O advogado do Presidente começou a dirigir-se a Cartwright, para “mandar brasa”, na linguagem da Casa Branca, mas o Dr. Abelson, que voltava do quarto, agarrou-se novamente ao braço de Hennessy.

— Você precisa saber de uma coisa — disse Abelson, com um sentido de urgência na voz. Os dois procuraram um lugar para falar à vontade, mas seus assentos ficavam numa cabina com outros nervosos assessores e agentes, e alguns dos médicos permaneceram na sala de reuniões. Abelson empurrou Hennessy para a “copa” e expulsou a comissária.

— O Presidente tem um problema — começou Abelson estranhamente, e parou.

— Esse negócio da cegueira — disse Hennessy.

— Não, quer dizer, só Deus sabe que é um problema, mas existe outra coisa que não era importante antes e que torna as coisas piores. Você se lembra do trem da campanha em setembro, a grande ideia do sacana do Leigh para que se voltasse a fazer política ao velho estilo?

Hennessy lembrava-se bem: numa era de spots na televisão, de jatos, e de se chegar às pessoas através de tubos de plástico, tinha sido considerado “inteligente” adotar-se os meios mais tradicionais de fazer campanha política. O passeio de trem forneceria material novo para os spots na televisão, além de ser um assunto sobre o qual o candidato falaria nas paradas do avião a jato que utilizasse para percorrer o país. Arthur Leigh, o gerente da campanha, conhecido como “o sacana do Leigh”, denominou o trem de “minha mudança de ritmo”. Ele escolhera Ohio, um estado “quente” que dispunha de boas facilidades de comunicação, como o pano de fundo para o “desfile de apitos” de Ericson. A experiência fora incrivelmente cansativa para todos: quatorze horas num trem especial, sacudindo e chacoalhando num péssimo leito, de estrada, com a maioria da comitiva amontoada em compartimentos menores do que a cabina do avião ou o habitual quarto de hotel. Tudo isso dera nos nervos do pessoal. A encenação fora uma perda de tempo. As equipes de televisão tinham dificuldade em enviar seus filmes de lugares como Lima, Ohio, e a imprensa escrita — estragada pela constante disponibilidade de meios de comunicação em toda a campanha — “meteu o malho” no trem.

— Você se lembra de que cancelamos a última parada do trem — relembrou Abelson — e demos uma desculpa qualquer sobre laringite?

Hennessy relembrou aquele período, há menos de um ano, mas numa outra vida. Aquele sacana do Leigh, que disfarçava a falta de inteligência com algo que Hennessy sempre considerara uma exagerada reputação de demagogo, insistira na necessidade da apelação popularesca. Ele disse que a imagem de Ericson era de alguém muito sofisticado e indiferente:

— Temos um arrogante professor de economia — grunhia Leigh — um homem divorciado, um governador que assumiu de pura sorte e parece que está abusando dela, e um homem que espera que as pessoas compreendam palavras complicadas. Temos de tentar desfazer essa imagem, mostrar que ele não faz parte do “café-society”.

Quando Hennessy duvidou desse ponto de vista, pois era contra essa falsa demagogia por razões práticas de que Ericson perderia votos nas áreas em que era mais popular, Leigh teve uma resposta algo mais sutil:

— É uma questão de respeito. Ele pode ser requintado, desde que não ostente sua sofisticação. Ele pode trepar com todas as donas boas que quiser, desde que não se vanglorie disso. Os eleitores apreciam um líder mais inteligente do que eles, de mais sorte do que eles, mais rico do que eles, e que trepe mais do que eles, mas querem que ele os respeite. Querem que reconheça que eles são os chefes, e reverencie suas convenções sociais. A maioria deles sabe que é uma coisa forçada isso de ele andar num trem antiquado, a maior parte sabe que é umas das maneiras pelas quais um ricaço metido a besta age para agradá-los. O facto, porém, de que ele os bajula é importante, é democrático.

Hennessy achava que isso tudo era uma merda, e o disse; quando a campanha terminou, ele fizera questão de mostrar a Ericson que havia certos assuntos duvidosos no passado de Leigh que poderiam trazer embaraços à Administração de Ericson. Ele tinha jogado Leigh para escanteio, e esperava ganhar sua posição, mas Ericson queria uma alma inofensiva e com percepção do Establishment de Washington, alguém como Cartwright. A insinuação de Abelson provocara essa torrente de ideias em Hennessy; o advogado não conseguia ver a relevância do assunto nessa ocasião, e o disse ao médico.

— É um bocado relevante, conselheiro — disse o médico. — Você se lembra de que cancelamos a programação para os dois dias seguintes enquanto o candidato se recuperava de uma laringite?

Hennessy assentiu com a cabeça, e achou que se Abelson ia começar a recapitular coisas, era melhor que ele tomasse um drinque. Começou a vasculhar com a vista os pequenos compartimentos da copa do avião, e só encontrou pacotinhos de amêndoas e nozes.

— Bem, não era laringite, nem era febre, como eu disse à imprensa, instado por Leigh. Hennessy, isto é importante.

— Bem, vou me conformar com uma dessas garrafinhas de amostra de bebida — disse o advogado, agora de joelhos, procurando nas gavetas de baixo. — Pelo som de sua voz, parece que o que você me vai dizer vai fazer com que eu precise mesmo de um drinque.

Abelson se agachou ao lado dele, e lhe disse, em tom de urgência:

— O que aconteceu foi que Ericson estava no beliche de cima com Buffie, a fotógrafa, dando umas trepadinhas entre as paradas do trem. Quando o maldito maquinista pisou com força nos freios, Sven bateu com a cabeça na extremidade do beliche. Buffie começou a berrar e a acenar com um braço nu através das cortinas do beliche... talvez ela não tivesse conseguido sair debaixo dele, não sei... mas Harry Bok estava lá no corredor, fez com que ela se calasse, tirou-a dali e me buscou.

— E daí?

Hennessy não se iria irritar por causa de um começo de caso de Ericson.

— O candidato ficou inconsciente mais de uma hora enquanto Leigh, Bok e eu ficamos sentados perto. Eles não me deixaram chamar um hospital.

— Ninguém mais soube? — perguntou Hennessy, que encontrara o estoque de garrafinhas de uísque. Percebeu aonde levava a história de Abelson e lhe prestava total atenção, mas aparentava não estar ligando muito.

— Leigh insistiu em que todos mantivessem o bico fechado. Não contou nem mesmo a Smitty, sob a alegação de que ele não precisaria mentir. A mim, ele permitiu que mentisse. Finalmente, após cheirar amônia, Ericson voltou a si, mas não conseguia enxergar. Pensamos que ele tivesse ficado cego.

Hennessy abriu uma garrafinha para o médico e outra para si mesmo. Abelson não precisava de incentivo:

— Nós enrolámos toalhas em volta do pescoço dele e o levamos pelo braço; quando chegamos à estação do trem, o enfiamos num carro e depois numa cama em Cleveland. Ericson não deixou que eu consultasse nenhum médico: disse que eu era o único doutor em quem confiava. Afirmou que isso já lhe acontecera antes, quando era garoto, e ele tinha voltado a ver. Fui a uma biblioteca médica e li sobre concussões e seus efeitos sobre os nervos ópticos. Deduzi que a única coisa a fazer era esperar, isso não poderia fazer mal, quero dizer, não havia perigo em não se tratar imediatamente do problema.

Hennessy acabou com a garrafinha e deu outra a Abelson.

— Ele voltou a ver gradativamente, ou de uma vez só?

— No primeiro dia, ele conseguiu distinguir o claro do escuro, e no segundo, a pressão saiu do nervo quando passou a inchação, e ele voltou a enxergar tão bem quanto antes.

— Então, além da preocupação com que a história seja divulgada — disse Hennessy suavemente — você tem medo de que a visão dele não volte.

— Desta vez ele ainda não consegue distinguir o escuro do claro. E quando essas coisas acontecem mais de uma vez, não é bom. Por isso eu disse que estava pouco me importando com o resto e que desta vez eu lhe conseguiria um oftalmologista antes que alguém me impedisse. Cartwrigh enviou uma mensagem a Bethesda sem discutir; ele não sabia dos antecedentes. E nem sabe ainda. O Presidente disse que você deveria ser o único a saber, e que você seria sua pessoa de confiança nesse assunto, seu honcho. [nota: Palavra japonesa; significa “de total confiança”.]

— Ele gosta dessa palavra. Honcho significa também “chefe da equipe”.

Os apartes de Hennessy tinham a intenção de minimizar as preocupações do médico, mas desta vez isso não deu certo.

— É muito bom agir-se fria e profissionalmente, Hennessy, mas estamos numa filha da puta duma enrascada. Vamos ter de anunciar ao mundo, quando voltarmos a Andrews, que o Presidente está cego, e que esta é a segunda vez que isso acontece.

— Temos de encarar o assunto como espectadores — disse o advogado. O médico fechou, os olhos e balançou a cabeça em frustração. — Não — continuou Hennessy — não há problema em revelarmos totalmente o estado atual de saúde do Presidente, quando chegarmos aos Estados Unidos. Ele está de posse completa de suas faculdades, a não ser de uma, e você e o especialista poderão ser capazes de sugerir que a perda de visão do Presidente é apenas temporária. Não baseados nos acontecimentos passados — acrescentou cuidadosamente — mas sim no seu conhecimento geral dos nervos ópticos e de concussões.

— Por que não podemos contar toda a história? Poxa, ele agora é Presidente, o povo sabe que ele gosta de mulheres, que não é casado.

— Acho que você não percebeu integralmente a preocupação do Presidente, Herb — Hennessy aprendera imediatamente o verdadeiro problema, e isso o preocupava mais do que desejava demonstrar. — Como você sugere, o aspecto da mulher-no-beliche é relativamente insignificante. O facto, porém, de que ele não informou a natureza de seu ferimento durante a campanha poderia provocar reação desfavorável.

Observou Abelson meditar sobre isso. O advogado não estava dizendo ao médico o que fazer, mas o estava conduzindo a tomar a decisão que o advogado queria que tomasse.

— Isso daria pano pra mangas — disse Herb, sem perceber a situação. — De qualquer modo, não vai acontecer mais cedo ou mais tarde?

— Nem cheguei a falar com o Presidente sobre isso — observou Hennessy — mas segundo o que você me disse que ele falou, parece que está preocupado que seus inimigos possam utilizar o incidente da campanha no trem para tentar tirá-lo do cargo. A cegueira anterior então não tinha importância, mas é importante agora, como você disse no início. Muito importante. Não estou sugerindo o que você deva fazer, apenas que pense a respeito.

Procurou outro argumento que ajudasse Herb a manter-se calado sobre o assunto:

— Pense na ética médica, de contar a estranhos mais do que os pacientes gostariam que você lhes contasse sobre confidências feitas sob o relacionamento médico-cliente.

Abelson assentiu hesitantemente.

— Quero que você fique ao meu lado durante essa crise, conselheiro. Tenho a impressão de que o assunto já me está fugindo ao controle.

— Então a primeira coisa que você tem de fazer é parar de tomar biritas enquanto estiver de plantão.

Hennessy sorriu, e lhe passou mais três garrafinhas.

— Na verdade, “confidências” é uma das minhas palavras favoritas. Não seja um “derrubador” de confidências.

Ele apertou o ombro do médico e seguiu pelo corredor para encontrar Cartwright.

Ao andar pelo corredor, olhando pelas janelas para os montes de rochas, pedras e mais pedras que compunham a ilha, Hennessy sentiu a enormidade do triplo problema do Presidente começar a penetrar-lhe novamente. A ameaça de um levante na União Soviética, ou de vingança contra o povo que seria julgado culpado pelo assassinato, tinha de ocupar a mente do homem eleito para proteger a sobrevivência da nação. Os órgãos de informações dos Estados Unidos pouco sabiam sobre a dinâmica interna do poder no Kremlin, ou seu relacionamento com as potências orientais. Talvez Ericson tivesse alguma ideia de como lidar com Nikolayev, e havia sido uma boa ideia fazer com que Curtice ficasse junto dele, mas quem sabia realmente a tensão que pairava no ar, ou em que ponto a tensão se poderia resolver no espasmo de uma guerra? E isso era apenas o começo do problema para o Presidente, pensou Hennessy, pondo-se no lugar de Ericson. Ele estava cego — possivelmente, temporariamente, julgando pela experiência anterior — mas mesmo por alguns dias, precisaria tatear física e mentalmente, dando aparência de incapacidade, até de paralisia, numa ocasião em que a situação exigia aparência de suprema capacidade.

E depois a complicação: o encobrimento da cegueira anterior. Hennessy examinou o caso: na época, no trem da campanha, teria sido vital esconder o facto de que o Presidente se estava divertindo com uma moça entre as paradas do trem. As palavras “paradas do trem” teriam assumido significado inteiramente novo, oferecendo à oposição um instrumento de ridículo num momento em que uma campanha política não se podia permitir isso. O advogado percebeu rapidamente que “o sacana do Leigh” precisara abafar o acidente, ficar quietinho uns dois dias e esperar que acontecesse o melhor. A inocente ocultação do caso era agora a suspeitosa ocultação de uma “cegueira anterior”, que convidava à acusação de que Ericson falhara em revelar tudo sobre sua saúde antes da eleição. isso não era nenhum pecadilho que pudesse ser usado apenas como combustível para fofoqueiros, mas, sim, uma queixa real contra uma base falsa para assumir as rédeas do poder.

Isso fez o advogado recordar Roy Bannerman, o Secretário do Tesouro, que fora rival de Ericson na obtenção do poder dentro do partido. Se Bannerman soubesse da cegueira anterior, talvez se inclinasse a preparar um desafio para o Presidente enquanto ainda estava cego, fazendo que ele fosse posto de lado, ao invocar os termos da Carta ao Vice-Presidente, ou até a Vigésima Quinta Emenda.

Hennessy sorriu para as rochas, da janela. Sentia-se emocionado por ser o homem necessário para conter a situação, para que um Presidente pudesse dedicar-se à missão de exercitar o intelecto e o poder para manter a paz. Os riscos mais ousados. Exatamente o que ele tinha em mente ao unir-se a Ericson na sua luta pela Presidência. Nos primeiros meses ele se decepcionara e aborrecera por não ter feito parte da comitiva que fora à Rússia, mas agora havia sido alegremente sugado por um aspirador de pó. Ericson confiava nele e precisava dele e isso, que Hennessy admitia abertamente, era um maná dos céus. Da mesma forma que Ericson precisava do poder para ser um homem por inteiro, e necessitava de uma “coisinha fofa” para controlar de vez em quando como símbolo de sua capacidade para flexionar esse poder, também Hennessy tinha necessidade de que confiassem inteiramente nele. E ele era digno dessa confiança — admitiu para si mesmo — pois não era como os Cartwrights da vida, leais à instituição da Casa Branca, nem como os puxa-sacos como Smitty, ansiosos para granjear uma reputação que lhes pudesse ser útil quando terminasse o período na Casa Branca; nem como Melinda, que tinha algo antigo e perverso, semelhante à relação Pigmalião-Galatéia, com Ericson, sem que nenhum dos dois soubesse quem estava moldando quem. Hennessy estava certo de poder provar que era o apoio mais importante para Ericson: ele encarava o homem como amigo, compatriota, líder, partilhador do poder e, mais importante ainda, como cliente, relacionamento que ninguém mais tinha com o Presidente.

Hennessy correu os dedos rechonchudos pelo curto cabelo ruivo e lambeu os lábios. Lucas Cartwright, o homem que trabalhava no escritório da esquina da Ala Oeste, onde ficava Hennessy, e que estava agora conservando intacto o Governo dos Estados Unidos, em grande estilo — e Hennessy lhe era grato por isso — desconhecia a cegueira anterior de Ericson. Quando o momento da verdade — isto é, da necessária falsidade — chegara, fora a Mark Hennessy, e não a Lucas Cartwright, ou ao espalhafatosamente eficiente Procurador-Geral, Emmett Duparquet, que Ericson recorrera. Hennessy sentia o gosto dessa oportunidade, e estava grato a Ericson e à sua mente forte, que lhe havia permitido fazer a escolha certa.

Os olhos de Ericson podiam ser um problema, e um episódio de seu passado podia ser um grande problema, mas seu discernimento era bom e isso representava metade da batalha. Animado pela agressividade à la Truman de seu líder, e lembrando-se de que Cartwright não devia saber de sua cegueira anterior, dirigiu-se à cabina do chefe da Casa Civil.


O CHEFE DA CASA CIVIL

Lucas Cartwright lera em algum lugar que seres celestiais pousados numa estrela há cerca de duzentos anos-luz, e que observavam a terra neste momento, estariam vendo a Revolução Americana e suas consequências. Nessa situação, o que significaria “agora”? — quando acontecesse na terra, ou quando pudesse ser descortinada por uma mente inteligente? Cartwright costumava imaginar-se vivendo nessa época do nunca-nunca, entre o mundo de decisão e o mundo do aviso, entre o acontecimento e a percepção, entre o facto acontecido e o interpretado.

O assunto dramático que acontecera naquele dia fora a não-divulgação da notícia sobre a emboscada, mas o veterano chefe da Casa Civil já presenciara muitos outros casos menos dramáticos em seus anos de serviço na Casa Branca. A maioria das notícias tinha seu tempo de comando, um processo produtor de acontecimentos ainda mais inexorável do que o processo de tomada de decisão. A dualidade fazia com que ele vivesse de óculos bifocais, parcialmente observando os acontecimentos anunciados e parcialmente os não anunciados chegarem ao conhecimento público.

— Faça a escrivaninha virar uma mesa de café — pediu Hennessy ao chefe da Casa Civil. — Gosto de ver a brincadeira do poder.

— Jamais brinco com botões presidenciais — replicou Cartwright. — Isso é tentar o destino. Além disso, você provavelmente poria os pés na mesa de café, como de hábito. Aliás, o Presidente me pediu que lhe falasse severamente a respeito disso.

Cartwright, o Velho do quadro do pessoal da Casa Branca, sentia-se quase contemporâneo de Hennessy e seus quarenta e cinco anos; mais do que, por exemplo, do Secretário de Imprensa, um cinquentão, que funcionava num mundo de preto e branco, capaz de carregar responsabilidade porque não sentia o peso que ela representava, como sentiam Cartwright e Hennessy. Cartwright estava em aparente desvantagem porque se juntara ao pessoal da Casa Branca durante o interregno, enquanto a maior parte dos outros conhecera o Presidente durante a campanha ou no escritório estadual do capitólio. Isso, na realidade, era uma vantagem: ele não participara de lutas pelo poder, só devia lealdade ao Presidente e — melhor que tudo — era desconhecido do “pessoal de Ericson”. Era uma pessoa da Casa Branca, uma relíquia, de certa forma, de um passado harmonioso; não era nem rival, nem amigo de ninguém. O cargo de chefe da Casa Civil era, talvez, “o cargo mais solitário do mundo”, e Cartwright o sabia, mas tivera satisfação em assumi-lo. Sem ser “prussiano”, nem mesmo um gerente muitíssimo eficiente, sabia que se enquadrava nas necessidades de Ericson do início de sua administração, quando o novo Presidente necessitava de gente com experimentado discernimento, respeito sofisticado da imprensa, contenção. O chefe da Casa Civil não se importava absolutamente de ser chamado de “polido” pelos auxiliares em geral, e seu estilo — excessivamente educado, gongórico e lento — era um bom disfarce para o tempo de que precisava para refletir.

Cartwright sabia que Hennessy queria seu cargo, mas não se importava. Era até possível que Hennessy o conseguisse um dia, desde que aprendesse a controlar o génio; até lá, ele teria de esperar.

Hennessy colocou a Carta na mesa. Cartwright a pegou e leu o aviso: “Para Ser Lido Apenas pelo Vice-Presidente”. Abriu-a e a leu e releu lentamente. Julgou-a excessivamente pormenorizada, mas não transmitiu essa opinião a Hennessy, o provável autor.

— Eu não havia visto isso antes, Irmão Hennessy, embora o Presidente me tenha familiarizado com seu conteúdo. Logo que ele recobrou a consciência, disse-me que queria você e a Carta a seu lado, e não distante meio mundo. Supus que ele tivesse com isso querido dizer que temia que você entrasse em pânico e entregasse a Carta prematuramente.

— Sempre sonhei em liderar um golpe de estado.

Antes que o gracejo fosse mal interpretado, Hennessy mudou de assunto:

— Por que me arrastaram para fora da cama?

— O Presidente não está enxergando — disse Cartwright. — A notícia será anunciada tão logo cheguemos de volta aos Estados Unidos. Quem vai anunciá-la, em que local, e a que horas, será objeto de discussão logo que os médicos terminem de examiná-lo. Porém, o que eu gostaria de antecipar com você não é a reação imediata... alívio porque ele não está morto, solidariedade, choque, tudo isso... mas a reação subsequente, de que a incapacidade do Presidente seja tão séria que ele não possa agir como Presidente.

Devolveu a carta a Hennessy, seu depositário.

— Se os médicos disserem que ele vai ficar bom daqui a algumas horas ou alguns dias, não haverá problema. Se disserem que ele está permanentemente cego, então teremos um problema para o qual nos deveremos preparar para enfrentar. Se eles disserem o que acho que vão dizer... que ainda não há como afirmar nada, que precisam de mais exames, de esperar para ver... estaremos naquela área cinza da incerteza, que poderia causar enormes problemas para o país.

— Um Presidente está incapacitado — disse Hennessy cuidadosamente — quando ele assim o afirma, ou quando não consegue comunicar se está incapacitado ou não. Se ele, porém, disser que não está incapacitado, então ele não está, ponto final.

— ... a não ser que esteja louco, o que não é o caso, ou se estiver enganado quanto à sua incapacidade.

— Ele é o único juiz disso — afirmou firmemente o advogado. — O povo elege um homem, e confia em que ele faça o que é certo ou, pelo menos, o que ele acha que é certo. Se ele está enganado ou errado, o ónus da comprovação não é dele: pertence, em primeiro lugar, ao seu ministério, e depois a dois terços do Congresso.

Cartwright assentiu com a cabeça. Seu colega demonstrara sua familiaridade com o óbvio, embora estivesse fazendo uso inadequado do “ónus da comprovação”, ao invés de dizer “remédio”, talvez intencionalmente. Perguntou-se qual seria o real objetivo do Presidente ao mandar chamar Hennessy. Proteger-se contra a entrega prematura da Carta? Absurdo. Devido à confiança em ter por perto um colaborador de muito tempo? Isso era mais plausível. Preparar Hennessy para assumir a posição de chefe da Casa Civil numa situação difícil? Isso era sempre possível. Não obstante, Cartwright sempre observara que o Presidente, nas situações difíceis, tendia a apertar o círculo à sua volta, não a aumentá-lo. O tempo diria; Ericson não era seu primeiro Presidente, e os anteriores com quem trabalhara nunca se haviam sentido obrigados a contar tudo a seu chefe da Casa Civil.

— Conselheiro, você precisa ter disponível uma definição legal de cegueira, uma definição médica de cegueira, e ser capaz de citar algumas autoridades que demonstrem que a incapacidade de ver não afeta o discernimento. Eu não exageraria a ponto de dizer que “a cegueira faz bem” — continuou Cartwright — mas seria útil alguma evidência de sua natureza não-catastrófica, pelo menos segundo a lei.

— Vamos usar a palavra “cego”?

— É uma palavra dura.

Quando Cartwright apertou uma campainha, Melinda McPhee apareceu. Ele pediu um dicionário, que ela trouxe rapidamente, e lhe pediu que ficasse. Cartwright pôs os óculos, e procurou a página com a palavra: “Cego de ambição”; “Cego de amor”, aqui está: “Cego: Sem visão”. Sven Ericson está assim, sem dúvida, mas tem uma conotação de permanência, não tem? “Ter menos de um décimo da visão normal no olho mais eficiente quando efeitos refratários são totalmente corrigidos por lentes”.

— Isso parece uma definição legal — disse Hennessy. — Melinda, pelo amor de Deus, qual é o problema? Você não pára de morder o lábio.

A secretária lhe dardejou um olhar raivoso.

— Vocês dois aí, calculando todos os ângulos, sabem o que ele está passando lá dentro? É a coisa mais assustadora que pode acontecer a um ser humano. Ele está lá deitado e apavorado. Nunca o vi apavorado antes, e isso me assusta. Eu ficaria menos assustada se vocês dois demonstrassem alguma compreensão da agonia que ele está sofrendo.

— Obrigado, Melinda — disse Cartwright — é sempre bom ser lembrado das considerações humanas.

— Agora controle-se — retrucou Hennessy. — A última coisa de que o Chefe precisa é de auxiliares histéricos numa ocasião como esta.

— Eu não estou histérica — disse friamente a secretária do Presidente. — Nem empedernida.

— Então, de modo nem histérico nem empedernido — interveio Cartwright — faça o favor de informar o chefe da junta médica que o aparelho parte para Washington em exatamente dez minutos. Os que vão permanecer a bordo para o vôo de volta permaneçam; os que se ocupam da transmissão de dados das Lajes a Bethesda saiam agora, junto com o grupo que vai continuar até Yalta para cuidar de Harry Bok.

Melinda movimentou-se depressa. Cartwright a admirava, mas notou que Hennessy não se dava absolutamente com ela. Talvez houvesse entre os dois uma competição para ver quem era o “mais chegado” a Ericson. Quando Cartwright entrou para a Casa Branca, costumava achar que esse tipo de burla era tolo e um gasto inútil de tempo; agora ele o considerava normal, humano, e às vezes até útil.

Ela voltou num momento, e informou:

— Os médicos querem uma reunião com vocês e com todos nós agora mesmo. Inclusive com o Secretário de Imprensa. E querem que o avião só parta em vinte minutos, para dar tempo ao operador do eletroencefalograma de terminar o trabalho.

— Eta palavrinha difícil! — exclamou Hennessy. — Como é que você...?

— Ondas cerebrais — disse ela, sumariamente. — Lucas, que acha?

— Cartwright julgara que haveria a solicitação de adiamento, e sua brevidade era boa notícia. Ele ainda poderia decolar na hora em que os aviões da imprensa estivessem chegando, e assim evitaria os pedidos renovados para que um pool da imprensa subisse a bordo. Levantou-se para ir à sala de reuniões após subir a escada, mas estava muito preocupado. O chefe da Casa Civil não estava tão esperançoso quanto Herb Abelson sobre a visão do Presidente Ericson.

A sala na parte superior do jato estava cheia de médicos que pareciam preocupados e importantes, como costumam os médicos, como faz parte de seu modo de ser, além dos auxiliares do Presidente. Cartwright notou Melinda com um caderno, Hennessy, que tentava parecer entediado, Herb Abelson fazendo tudo para não torcer as mãos, Smitty carrancudo, e Jonathan, o jovem redator de discursos — Cartwright não conseguiu lembrar-se de seu sobrenome, e não gostava de perguntar — tenso e alerta, com um pequeno gravador na mão. O chefe da Casa Civil fez sinal com a cabeça para o redator, de que podia gravar a reunião. Era até bom haver um registro preciso, que pudesse ser apresentado a um irado grupo de jornalistas.

O chefe da junta médica, que usava galões de capitão, começou a reunião com a boa notícia:

— A vida do Presidente não corre perigo. Comecemos pelo cérebro.

— Concussão branda — diagnosticou o especialista. — Não houve penetração do crânio. Ainda não temos o encefalograma. Fratura ligeira do canal óptico. O oftalmologista falará sobre isso. Em termos de leigo: o cérebro do Presidente não foi afetado.

— Coração.

— Perfeito — disse o cardiologista. — Normal para ele.

— Internamente.

— Nenhum sangramento interno — repetiu o especialista. — Os médicos russos aplicaram os primeiros socorros adequados às contusões de seus membros, e o estilhaço da perna foi removido antissepticamente, sem complicações.

— Chegamos agora à área de problema — disse o capitão. — Dr. Lilith, os olhos do paciente.

— Por que o senhor não nos fala das condições do Presidente em termos de leigo, Dr. Lilith? — sugeriu Abelson.

Cartwright assentiu com a cabeça; ele tampouco queria depender da interpretação do médico pessoal do Presidente. Lilith pigarreou, olhou nervosamente o gravador do redator de discursos e a secretária, que já tomava notas, e começou:

— O Presidente sofreu uma concussão, que é um ferimento no cérebro que resulta na perturbação da função cerebral. — Parou um instante. — A função do cérebro que está perturbada, como todos sabem, é a visão. Neste momento, dez horas após o ferimento, ele está totalmente cego. Não tem percepção de luz, nem de cor, nada: só vê preto.

“A causa é... a provável causa é. .. — recomeçou. — Uma possível causa é o bloqueio ao córtex das sinapses que conduzem aos nervos ópticos. O ferimento provocou uma inchação que pode ser temporária; neste caso, ele poderia recuperar a visão dentro de alguns dias. Existem outras possibilidades: a avaria permanente do cérebro, o que significaria cegueira parcial ou total. É muito cedo para dizer. Os olhos em si estão ótimos, os globos oculares não foram afetados. A mensagem, ou fotografia, que o olho está enviando não consegue atravessar o cérebro.

Não é um pouco cedo, doutor — interrompeu Hennessy — para usar a palavra “cego”? Quero dizer, não seria mais exato dizer que o ferimento do Presidente lhe afetou temporariamente a visão?

— Eu poderia concordar com isso — disse cuidadosamente o Dr. Lilith — mas acontece que talvez não seja temporário. Tentamos não usar a palavra “cego” nesta fase porque é uma palavra assustadora. Eu diria “perda de visão, talvez temporária, causada pelo inchamento da concussão”. Francamente, estaria mais otimista se ele tivesse algum histórico sobre o assunto, e tivesse emergido de pancadas na cabeça após um breve período de falta de visão.

Os outros médicos interrogaram mais pormenorizadamente o oftalmologista sobre a cegueira do Presidente, mas Cartwright não encontrou nada útil na análise técnica. Sua tarefa agora era fazer com que o Presidente chegasse a Washington, informar ao mundo que ele estava em forma, que a tomada de decisão nos Estados Unidos estava indo bem, e evitar alarme sobre a cegueira de Ericson. Tinha também de garantir ao Presidente que tudo estava sendo feito.

O médico mais graduado olhou para o relógio e, de acordo com sua palavra, concluiu rapidamente a reunião com tarefas para a junta médica: quatro deles deveriam continuar em seu próprio avião até Yalta, para atender Harry Bok, dois deveriam supervisionar a transmissão de dados vindos das Lajes, e os seis restantes deveriam voltar com o Presidente no Air Force One.

Parecia, porém, que a reunião não terminara. Cartwright percebeu a razão para a pausa constrangida, e chamou a fotógrafa do Presidente para registrar o momento. Quando Buffie começou a tirar as fotos, os médicos, que até então tinham aparência de totais profissionais, assumiram ares preocupados. Quando ela lhes agradeceu e disse que tinha terminado, Buffie dardejou um olhar malicioso a Cartwright e murmurou:

— Todos nós temos papéis a desempenhar.

O chefe da Casa Civil concordou com a cabeça.

— Herb — disse Cartwright para o médico do Presidente — faça o favor de sentar-se aqui com o Dr. Lilith e o Irmão Jonathan — ele fez um sinal indicando o redator de discursos — para redigir a declaração médica que o capitão deverá revisar. Acho que o Dr. Lilith deveria ser a pessoa encarregada de lê-la para a imprensa, uma vez que é um ferimento especializado, concorda, Capitão?

O médico mais graduado não pareceu gostar da sugestão, mas assentiu com a cabeça.

— Enquanto isso, Smitty, gostaria de saber suas sugestões sobre quando e como deveremos dar a notícia.

Os médicos se separaram em subgrupos, saíram, e os motores do avião começaram a rosnar.

— Seguimos a regra de Hagerty — disse Smitty — dizemos tudo a eles duas vezes por dia. O avião da imprensa estará em Andrews quando chegarmos lá junto com a televisão ao vivo. O doutor lê a declaração lá mesmo e responde a todas as perguntas. Mais tarde, no mesmo dia, teremos outra coletiva... ao vivo, a tempo do noticiário da noite... diretamente do centro de imprensa do hospital.

— Perfeito — disse Hennessy. — Convença o país e o mundo de que o Presidente dos Estados Unidos está tão cego como um morcego, e incapaz de desempenhar o cargo.

— Olhe aqui, Hennessy, você não estava conosco em Yalta — explodiu Smitty. — O pessoal da imprensa está danado da vida, e com toda a razão. Os russos simplesmente proibiram a divulgação do atentado, e ninguém soube de nada durante quase três horas. Podemos pelo menos culpar os russos por isso. Mas a ideia de não se ter um pool da imprensa no Air Force One na viagem de volta foi de Cartwright, e ninguém pôde fazer nada. Não se consegue lidar adequadamente com a notícia de uma tentativa de assassinato.

Cartwright disse brandamente:

— Nem todas as minhas ideias têm inspiração divina.

A ideia em questão fora inspirada pelo Presidente, e o chefe da Casa Civil fora designado para levar a culpa.

— Na ocasião, devido à necessidade de apanharmos o pessoal médico, pensei que talvez viéssemos a precisar do espaço designado para o pessoal da imprensa. Por isso contrariei suas veementes objeções, Smitty, embora tivesse acedido à sua solicitação de ficar a bordo.

Cartwright não sentiu qualquer remorso por haver inventado essa história. O próprio Presidente proibira a presença de um pool da imprensa após recuperar a consciência em Yalta. O chefe da Casa Civil aceitou a reprimenda de forma tão serena, que estava certo de poder passar por um detetor de mentiras. A proteção ao Presidente fazia parte do seu cargo.

— Você se enganou, Lucas — pressionou o Secretário de Imprensa — e um dia vai reconhecê-lo. Nunca nos perdoarão por isso: um pool de imprensa tem o direito de estar a bordo agora.

Melinda McPhee interveio:

— Smitty, talvez você fizesse jus ao seu salário se nos dissesse como vai fazer com que as manchetes anunciem “Presidente Vivo e em Recuperação” ao invés de “Presidente Está Cego”.

— Eu lhe digo como tomar ditado?

— Pelo amor de Deus, Smitty — disse Hennessy, elevando a voz — você é o Secretário de Imprensa do Presidente, não o Secretário de Imprensa da imprensa. Você já foi bastante claro, já pode escrever seu maldito livro com a consciência limpa, mas agora é melhor que o ponha de lado e faça sua tarefa. Se você não se erguer contra a tendência natural da imprensa de levar tudo para o pior lado, é possível que o maldito mundo acabe se dissolvendo.

O chefe da Casa Civil interveio para reiterar o argumento de Hennessy de modo mais suave.

— Existe também o aspecto da segurança nacional. A União Soviética poderia estar num estado de revolta: o assassinato de Kolkov, a reunião do Politburo, a supressão de notícias de dentro e a divulgação vindo do lado de fora... Na verdade não sabemos quem irá pegar o telefone do lado de lá, se resolvermos usar o telefone vermelho. O Secretário Curtice acha que é de nosso interesse ajudar Nikolayev a acalmar as coisas, mas não estamos certos nem disso. Sabemos apenas que não é do nosso interesse nacional espalhar boatos alarmistas sobre as condições do Presidente. Pelo contrário. Devemos afirmar ao mundo que não existe incapacidade que reduza a nossa defesa.

— Mas não podemos mentir — preveniu Smitty.

— Ninguém sugeriu que se mentisse — disse Cartwright com o máximo de sinceridade que pôde reunir. — O que estamos obrigados a fazer é garantir que a verdade apareça, sem exageros que a deturpem. Facto número um: o Presidente está vivo e os médicos afirmam que fora de perigo. Número dois: ele está lúcido e em contato com seus assessores, e logo emitirá uma declaração pessoal sobre o acto heróico do Primeiro-Ministro Kolkov, que lhe salvou a vida. É muito importante que enfatizemos isso, segundo o Secretário de Estado, que ficou na Rússia e necessita de todo o apoio que puder conseguir. “Número três — Continuou Cartwright — e apenas número três, e não número um: o Presidente ainda não consegue ver, mas os médicos lhe disseram que existe boa probabilidade de que recupere totalmente a visão quando passar o inchaço. Tudo que isso significa no momento é que o Presidente transmitirá suas notícias peio rádio e não pela televisão.

Ele esperava que o Secretário de Imprensa aceitasse aquela forma de minimizar o facto de que o líder do mundo livre estava aleijado de modo jamais experimentado por nenhum Presidente.

— Isso é razoável — disse Smitty. — Vou adotar esses argumentos para a coletiva. Mas pode estar certo de que a cegueira será o principal tópico da reunião.

— Cegueira não — corrigiu Hennessy. — A incapacidade temporária de visão do Presidente.

— Ao invés da declaração no aeroporto e da coletiva com a imprensa — Smitty continuou — poderíamos anunciar agora que a declaração será feita hoje à noite no hospital. O oftalmologista poderia ler seu diagnóstico e recusar-se a responder a perguntas, sob a alegação de que ainda é muito cedo para qualquer afirmação definitiva, e de que ele se recusa a especular; outro médico poderia dizer que o coração do Presidente está ótimo ou algo assim, e eu poderia informar sobre os detalhes da emboscada, que ainda está na ordem do dia. Isto será tudo para essa noite, e as perguntas sobre os olhos se acumularão para amanhã de manhã.

— Então devemos ter outros três especialistas para consultar — disse Melinda, cuja opinião Cartwright respeitava — e ainda será muito cedo para se afirmar algo. É possível que ele então já esteja melhor, ou, pelo menos, que o mundo esteja menos excitado sobre o caso.

— Ou talvez amanhã o Presidente pudesse fazer uma pequena declaração pelo rádio — ponderou Hennessy — sobre Kolkov. Isso manteria o centro da coisa no heroísmo, e mostraria que o Chefe não está biruta. E talvez tivéssemos até uma oportunidade, pois pode haver uma pequena melhora em seus olhos amanhã.

— Você fala como Scarlett O’Hara — disse o apaziguador Secretário de Imprensa. — Amanhã é outro dia.

— Eu considero a chegada do amanhã — falou Cartwright — como uma vitória por si mesma.

Ele terminou a reunião e tomou o corredor, para apresentar-se ao Presidente. Furmark, o agente do Serviço Secreto, disse que ele estava descansando, e Cartwright virou-se para ir embora, mas a voz do Presidente chamou:

— É você, Lucas? Quero vê-lo.

O chefe da Casa Civil sentou-se perto da cama e rapidamente resumiu os planos que estavam sendo preparados.

— Infelizmente — achou que devia acrescentar — o relatório do oftalmologista é uma grande interrogação, e não podemos fazer nenhum plano baseado nele.

Suponha — disse Ericson — que eu estarei enxergando de novo em três ou quatro dias.

Ele parecia certo de si. Cartwright admirou-se com o otimismo natural dos Presidentes.

— Minimize o assunto ao máximo possível durante as próximas quarenta a quarenta e oito horas para dar uma oportunidade a Nikolayev, de modo que a facção contrária no Kremlin não resolva que chegou a hora de atacar a China. Você vai ter de depender muito do Smitty; ele vai querer mostrar minhas chapas de raio X na televisão, e você terá de dar a impressão de que eu logo estarei bem. Quero que você realmente suponha isso, Lucas... estou certo de que é verdade.

— Eu também, senhor.

Ele desejou ter tanta confiança nisso quanto estava certo de que o Presidente não confiava inteiramente nele.

— O senhor quer falar com Hennessy? Nós fizemos com que ele voasse até aqui para voltar conosco no último percurso, conforme o senhor desejava.

— Sim, rapidamente. Estava preocupado de que ele pudesse perder o controle e entregar aquela carta a Nichols, mas acho que foi bobagem pensar assim. Lucas, logo que voltarmos, quero que você comece a vigiar Bannerman. Se tivermos algum problema interno, provavelmente virá dele.

O Secretário do Tesouro, poderoso adversário da candidatura de Ericson dentro do partido, fora trazido para o Gabinete, contra o conselho de Cartwright, baseado na velha teoria de Lyndon Johnson de que era melhor ter um velho adversário “dentro de casa, dando suas cagadas”.

— Acho que o senhor está exagerando seu problema de incapacidade — afirmou o chefe da Casa Civil. — Ninguém vai dizer nada exceto “Graças a Deus que ele está bem” durante os próximos dias, quando o senhor já deverá estar em forma. Eu não insistiria no assunto, se fosse o senhor.

Pois sim que ele não insistiria: se estivesse no lugar de Ericson, Cartwright estaria pensando sem cessar como seria um Presidente cego, e se o interesse público exigiria renúncia imediata. Esperaria, porém, que seu chefe da Casa Civil lhe dissesse para esquecer o caso por alguns dias.

— Você tem razão, Lucas. E você vai ver que estarei novo em folha, daqui a alguns dias.


A SECRETÁRIA PESSOAL /1

Na torre do Hospital Naval de Bethesda, perto do vestíbulo do quarto de onde o Secretário de Defesa James Forrestal saltara de uma janela, o Presidente escutava o noticiário da televisão. Melinda McPhee estava lá para contar-lhe o que aparecia na tela, se a imagem fosse importante, o que raramente era.

— Da matriz do Noticiário da CBS em Washington, este é o noticiário noturno da CBS.

A imagem mostrou um grupo de pessoas que se movia numa redação, lidando com as mensagens de cada um. Melinda observou que isso dava a impressão de falsidade. Aquelas pessoas sabiam estar sendo focalizadas e eram atores, cada qual manipulando a mensagem do outro.

— Cinco dias após o Presidente dos Estados Unidos haver sobrevivido a uma emboscada em Yalta — reportou o noticiarista — a nação começa a perceber que, pela primeira vez na história, está sendo conduzida por um homem cego. Para a última palavra sobre ao estado do Presidente Ericson, vamos ao Hospital Naval de Bethesda.

Apareceu a imagem de um repórter na frente do hospital. Melinda murmurou:

— Uso demagógico de uma cortina de fundo. — Ele poderia igualmente ter dado as notícias direto do estúdio, mas a necessidade de espetáculos de dar aparência de realidade o colocara à frente de um prop gigantesco. Quanto mais trabalhava na Casa Branca, pensou Melinda, menos gostava dos noticiários da TV.

— Os médicos do Presidente continuam a enfatizar que seu paciente está em excelente estado de saúde física e mental — disse o repórter para a câmara — à exceção de uma deficiência que não melhorou em cinco longos dias: ele não consegue enxergar.

O repórter fingiu consultar suas anotações para que o telespectador não percebesse que ele estava lendo de um lembrete à sua frente.

— A cegueira do Presidente torna-se mais ameaçadora a cada dia que passa. Uma junta de proeminentes oftalmologistas reuniu-se com repórteres há alguns momentos atrás e o Dr. Perry Lilith deu este relatório pessimista:

“Embora seja ainda muito cedo para dizer, e ainda seja possível que haja acentuada melhora, não podemos garantir que a visão do Presidente volte”.

— Imagem de Lilith nas escadas lá de baixo — informou Melinda ao Presidente, que estava sentado numa cadeira de balanço, vestido de roupa esporte.

Voz do repórter:

— Isto significa que o senhor acha provável que ele permaneça totalmente cego nos próximos quatro anos?

Doutor:

— Não quero especular, baseado nas informações de que dispomos agora, quanto ao tempo ou à percentagem da cegueira do Presidente.

Corte para o repórter ao vivo:

— Pela primeira vez, os médicos do Presidente deixaram de pisar em ovos para evitar a cruel palavra que têm evitado a semana inteira: cegueira. É um facto que o Presidente e a nação terão de enfrentar nos próximos dias.

De volta ao noticiarista:

Ouçamos a reação quanto à possível natureza permanente da incapacidade do Presidente, indo primeiro ao Presidente da Câmara dos Deputados, o Republicano Mortimer Frelingheusen, que julga prematuro esse tipo de especulação.

O Presidente da Câmara, fumando cachimbo no seu escritório:

— É cedo demais para dizer algo. Deixemos que o homem se recupere para ver como enfrenta essa nova situação. A cegueira é uma coisa horrível, mas muita gente cega leva uma vida útil e produtiva. Devemos agradecer que o Presidente não tenha morrido.

Voz do noticiarista referindo-se a um filme do Secretário do Tesouro T. Roy Bannerman ao sair do Hospital de Bethesda, após breve encontro com o Presidente:

— Não podemos minimizar a cegueira. É uma incapacidade que preocupa profundamente o Presidente, não só por si próprio, mas pela nação. A presidência é um cargo difícil, e isso é uma desvantagem. Rezemos para que seja temporária.

Melinda disse entre dentes:

— Muito obrigado, amigão.

O Presidente sorriu:

— É o que eu esperava de Roy. Mas Frelingheusen foi bom.

Ela girou o botão para outro canal, e pegou uma cobertura ao vivo por satélite, do enterro de Kolkov em Moscou.

— ... de Estado George Curtice, representante pessoal do Presidente ao funeral e que permaneceu aqui na União Soviética desde a emboscada fatal do lendário ucraniano. Os observadores ocidentais aqui, ao buscar uma pista para a sucessão, notaram que as três principais pessoas que carregam o caixão são Georgi Mendeyev, o idoso Presidente das Repúblicas Socialistas Soviéticas e um “testa de ferro”, Mihail Voroshilov... lá está ele, mais perto da câmara... o ardoroso e jovem teórico do partido, um líder dos “linha dura” do Kremlin, e o Ministro das Relações Exteriores Vasily Nikolayev, um moderado, que o ocidente conhece bem nos últimos vinte anos, mas cuja base no partido comunista não é a mais forte.

— Engano dele — comentou Ericson com Melinda. — Isso é o que todos dizem, mas Kolkov me contou que Nikolayev tinha base sólida no partido, e Voroshilov é que tinha problemas. Faça uma anotação para informarmos à CIA o que Kolkov me disse no helicóptero antes que fosse derrubado. E a ponha na minha agenda, também.

— Especula-se aqui em Moscou que o Politburo vai selecionar uma troika, talvez essas três pessoas segurando as alças do caixão, para liderar o governo no período de transição, ou numa época de levante. A orquestra estatal soviética começa a tocar o hino...

Mais um girar para outro canal, que informava sobre o fechamento da última grande fábrica americana de sapatos porque a Administração resolvera, nas severas palavras do comentarista, não proteger os fabricantes de sapatos da competição estrangeira, numa “decisão consciente”. Melinda ouviu o Presidente murmurar:

— Isso era chamado de “livre comércio” — e depois, num tom mais ditatorial: — Que se dane o resto do programa, Melinda. Leia-me o Sumário das Notícias.

Melinda desligou, por controle remoto, o aparelho de TV, e logo apanhou o Sumário de Notícias do Presidente, uma publicação datilografada de quarenta páginas, preparada todas as noites por uma equipe de cinco pesquisadores — “os duendes”, como eram chamados, porque quem trabalhava de dia raramente os via — e que circulava apenas entre vinte funcionários da Casa Branca. A operação custava cerca de cem mil dólares anuais, mas valia: o Presidente estava sempre informado não apenas do fluxo de notícias, mas de seu desenrolar. O objetivo do sumário era mostrar não apenas o que estava acontecendo, mas como os acontecimentos eram encarados pela imprensa diária, pela televisão, e até pelas pequenas revistas de atualidades. Melinda sabia que os duendes da meia-noite do Edifício dos Escritórios de Executivo trabalhavam bem porque o Presidente sempre lhes mandava bilhetes elogiosos. O valor desses bilhetes, rabiscados à mão, foi descoberto por Ericson logo após tomar posse, ao ler que um bilhete pessoal que escrevera há três anos a um colega professor fora vendido em leilão por trezentos dólares. Desde então, ele mandara elogios escritos à mão para quem fizesse algo fora do comum na Casa Branca.

— No papel da Presidência, vale pelo menos quinhentos dólares; não que eles fossem vender, mas é bom saber — dissera encantado. — É como dar uma gorjeta de quinhentos dólares, sem que isso custe um centavo.

Para um pão-duro como Sven Ericson, esse era um dos melhores proveitos colaterais da Presidência. Melinda perguntou-se o que faria ele agora para usar como “gorjetas”: poderia ainda escrever, ou aprender a fazê-lo? Mandaria pequenas fitas de ditafone? Talvez ela pudesse datilografar os bilhetes e anexar a fita da voz dele.

— Sumário de Notícias do Presidente Número 146 — leu ela em voz alta. Observou que eram cento e quarenta e seis dias na Presidência, mais três anos na Mansão do Governador de Illinois, mais quatro anos na universidade, acompanhando esse homem de emprego a emprego, à medida que ele ascendia ao ápice. Ela estava agora com quarenta anos, e testemunhara o infeliz casamento de Ericson, seu feliz divórcio, e suas ligações ocasionais com mulheres cujo nome ela escrevera a lápis na agenda presidencial, e ela mesma havia desprezado suas próprias oportunidades de um segundo casamento vitorioso. Eles dois haviam tido um momento de intimidade especial cerca de três meses depois que ela começara a trabalhar para ele, porém ela dissera que se recusava a que Melinda McPhee fosse apenas um interlúdio marcado a lápis de alguém, e eles haviam concordado em que não deveriam misturar cama e escritório. Ele havia exposto o caso com uma frase bastante deselegante, por sinal: que não era sensato ter a latrina junto da sala de reuniões...

“Vou pular a parte da televisão; o senhor já está a par disso — disse ela — e ir direto para os jornais. Duas colunas no Times, uma no Post, três no L. A. Times. Todas elas tratam do relatório do hospital de ontem sobre a crescente preocupação de que o Presidente fique permanentemente incapacitado. Os mercados financeiros mundiais estão muito instáveis devido à expectativa da incerteza soviética e de Ericson, e do perigo de guerra. Bannerman diz que o Presidente vai fazer a coisa correta, seja lá qual for, e aconselha calma. Há histórias também sobre o funeral de Kolkov e especulações sobre seu sucessor. Boa reportagem no Times sobre as atividades do Vice-Presidente Nichols durante a trágica semana.

— Nichols atarraxou o rabo numa cadeira e posou para fotografias — disse Ericson. — Foi isso o que mandei que fizesse. Quero que todos se lembrem da minha alternativa: Arnold Nichols é minha arma secreta. Para minha informação particular, Melinda, faça com que Cartwright verifique se Bannerman e o Vice têm estado juntos.

Ela escreveu a anotação à margem do Sumário de Notícias, que mais tarde seria sua agenda de telefonemas. Ela achou que ele estava desnecessariamente preocupado em ser expulso do cargo. Era a insegurança da cegueira que se manifestava através de uma forma branda de paranóia política. Se ela conhecia bem Ericson, isso deveria passar, pois ele se adaptava a tudo. A vida dele, desde que trabalhavam juntos, tinha sido de viver em mudanças, usando-as em seu benefício, transformando desvantagens em vantagens e aproveitando-se das oportunidades que sempre se ofereciam a ele.

— Eis aqui algo de que o senhor não vai gostar — disse ela, e leu: — Uma coluna abaixo do encarte no Post, mais uma página inteira no corpo da revista, sobre a pergunta “O que significa a assinatura do Presidente agora?” Começa a história: “Os presidentes assinam uma pilha de documentos diariamente: alguns são importantes, e transformam decretos em leis, outros são convencionais, e nomeiam amigos políticos para sinecuras em comissões. Os peritos da constituição perguntam se, à luz da cegueira do Presidente, um homem pode ser julgado responsável legalmente por assinar algo que ele não viu e, mais especificamente, se a assinatura de um Presidente cego é válida numa lei. Afinal de contas, enfatizam eles, pode estar assinando um documento que lhe tenha sido adulterado por assessores...

— Não havia pensado nisso — murmurou Ericson, passando uma perna sobre o braço da cadeira. — Filho da puta! Por isso Cartwright não me tem enviado o pacote diário de notícias. Melinda, dê-me caneta e papel.

Ele as pegou,assinou o nome três vezes e estendeu o papel para que ela o pegasse.

— Parecem com minha assinatura? Estão diferentes?

— Não estão tão desleixadas como de costume — respondeu ela. — O senhor tomou cuidado ao fazê-las. Quando relaxar, vai ver que o banco aceita até seus cheques.

Ela sabia que o problema constitucional não era esse; estaria ele conseguindo determinar o que era?

— É importante que a assinatura seja a mesma de antes — disse o Presidente. — Quero que você me devolva tudo que eu assinar que pareça estar errado, porque estou até visualizando a comparação nas revistas sensacionalistas: “O velho e o novo Ericson”. Vamos agora à questão básica da lei — ela descansou, ele estava dando o enfoque real — instrua Hennessy para que me faça um memo sobre isso. O Secretário de Estado assina junto comigo outros documentos; tem sido assim há séculos. Descubra por que as comissões... você sabe as nomeações que se penduram na parede... têm duas assinaturas, e por que as leis têm uma só. Talvez pudesse haver um atestado de comprovação em todos os documentos que eu assine, dado pelo Secretário de Estado, dizendo algo como “Eu mesmo li o texto para o Presidente”. Diga isso a Hennessy. Se necessário, transformaremos Curtice em tabelião.

Ela ia recomeçar o Sumário de Notícias, mas ele a interrompeu.

— Que é que eu estou fazendo no hospital? Não estão fazendo nada por mim aqui. Se eles quiserem, podem montar o equipamento de exame de olhos na Casa Branca. Quero sair agora daqui.

Ele pegou o telefone.

— Abelson — disse, sabendo que a telefonista da Casa Branca estaria na linha na fração de segundo em que ele levasse o receptor ao ouvido. Dez segundos de resmungos para si mesmo e depois:

— Herb? Quero ir agora para casa. Há alguma razão médica que me impeça?

Melinda acionou a “tecla morta” de seu ramal e escutou a resposta:

— Não há nenhuma razão médica, Sven, mas há razões de relações públicas. Você queria que o povo se preocupasse por você estar doente, lembra-se? Não apenas com seus olhos, mas com todo o seu corpo após a emboscada. Nos primeiros dias recebemos uma porção de perguntas sobre isso.

— Isso já acabou — disse o Presidente. — Há alguém de nosso pessoal aqui no hospital agora?

Smitty estava na sala de imprensa, junto com Marilee Pinckney, sua “segunda”.

— Pegue os dois e venha com eles aqui ao meu quarto agora.

Ele disse a Melinda:

— Continue a ler.

— Artigo do Tribune de Chicago sobre os Olhos e os Ouvidos do Presidente: como os assessores da Casa Branca funcionam nessa emergência.

Ela leu devagar, para que o Presidente desfrutasse disso:

— “O maneiroso Lucas Cartwright não ‘usa o chicote’ como era feito pelos ex-chefes da Casa Civil da Casa Branca, e diz-se não possuir a necessária ‘qualidade de assumir’ exigida pelo momento. O conselheiro especial e velho amigo de Ericson, Mark Hennessy, está agora mais perto do centro de poder para encarregar-se das missões difíceis, o que é indicação segura da iminente queda de poder de Cartwright, mas Hennessy... explosivo, temperamental e gozador... não é homem que inspire confiança. Não existe conselheiro de segurança nacional, já que Ericson fez com que essa função retornasse aos departamentos da Defesa e do Estado. Do quadro sênior, o homem que surge como aquele a quem o Presidente mais ouve é o decidido e experimentado James Smith, de cinquenta anos, ex-executivo de jornal e agora Secretário de Imprensa do Presidente. Como James Hagerty durante a doença de Dwight Eisenhower, o Secretário de Imprensa não é apenas a janela pública da Presidência, como também o principal contato do Presidente com o mundo, e Smith está correspondendo à ocasião. Os bem-informados acham, e muitos repórteres esperam, que a influência de Smith continue a aumentar depois que termine a emergência no hospital. Muitos se recordam de que foi Smith que andou se desentendendo com Cartwright e com o Secretário de Estado Curtice em Yalta, quando ambos queriam concordar com a não-divulgação de notícias propostas pelos soviéticos. A insistência de Smith em que houvesse consideração para com a imprensa levou ao fim antes do previsto à não-divulgação dos acontecimentos, à sua presença no Air Force One, e às suas coletivas desde aquela ocasião. A subsecretária de Smith, Marilee Pinckney, cuja beleza desmente sua seriedade de propósitos, também impressionou a difícil-de-impressionar imprensa.

“A maior parte do tempo do Presidente tem sido gasta com seus médicos, Herbert Abelson e Perry Lilith... médicos realistas... e com sua secretária de longos anos, a severa e protetora Melinda McPhee...”

Melinda fez uma pausa. O Presidente não reagiu.

— Pule para a seção de atualidades — instruiu. — Que diz Zophar?

Enquanto ela virava as páginas, ele indagou:

— Quem escreveu aquela bosta?

E ela deu prontamente a resposta:

— Evelyn Benn. Ela é amiguinha de Marilee. Não acho que Smitty tenha sido o responsável.

O Presidente resmungou.

— Eis a coluna de Samuel Zophar. Vamos ver como os duendes a resumiram: “A preocupação com a visão do Presidente toldou um assunto de importância muito mais fundamental para os líderes mundiais: a ameaçadora competição entre o Terceiro e o Quarto Mundos. A súbita paralisação da aliança das superpotências soviética e americana dá à outra aliança de superpotências, China e Japão, a inesperada abertura. Eis a ordem de batalha:

“O Terceiro Mundo — riqueza árabe incentivada por tecnologia israelense, fortalecida por mão-de-obra e o arsenal atômico da Índia — tem recebido a maior dose de apoio da aliança soviética-americana. Será que a situação permanecerá a mesma, agora que Kolkov morreu e o futuro de Ericson é incerto?

“O Quarto Mundo — as nações famintas e menos desenvolvidas da África, América Latina e Sudeste da Ásia, combinadas com a surpreendentemente militante entente canadense-mexicana — tem sido apoiado pelas Nações Unidas e pelas superpotências do Extremo-Oriente. Seu poder e influência têm crescido e agora quase rivaliza com seu afluente alvo: o rico de recursos Terceiro Mundo.

“É vantajoso para os dois grupos de superpotências — escreve Zophar — que o Terceiro e o Quarto Mundos entrem em competição, mas é desvantajoso para todos se um ou outro lado ‘vencer’ ou entrar em guerra — então o precário equilíbrio, tão cuidadosamente mantido há quase uma década, seria derrubado e a ordem mundial se perturbaria.

Há dez anos, era inconcebível que árabes e israelenses viessem a trabalhar juntos. Agora eles o estão fazendo — só que bem mais. Há alguns dias, era igualmente inconcebível que as superpotências ocidentais pudessem ser subitamente paralisadas e torturadas e que talvez falsas oportunidades fossem oferecidas às superpotências orientais. Será que os líderes chineses e japoneses se aproveitarão dessa oportunidade para combater o que chamam de ‘perigo branco’? Será que as superpotências ocidentais se manterão unidas, ou formarão os soviéticos uma frente única de ataque aos orientais? É isso que preocupa os homens e mulheres nas chancelarias do mundo, numa época de testes que poderia ser o prelúdio ao desastre.”

— Sam costuma ser taciturno — observou o Presidente — mas desta vez não foi o bastante. Ele não sabe metade da história. E eu devo passar tudo para nosso Vice-Presidente Regulador de Pressão? Ele é exatamente do que o mundo precisa agora.

Abelson bateu e olhou pela porta entreaberta. Melinda fez sinal para que entrasse, e o médico foi seguido por Smitty, Marilee, e Jonathan Trumbull, o redator de discursos. Por que razão os redatores de discursos eram camaradas tão legais, normalmente chamados Jonathan?

— Ele está bem? — perguntou Jonathan a Melinda.

— Estou aqui — disse o Presidente. — Você pode falar direto comigo.

Melinda poderia ter dito ao redator que, nos últimos cinco dias, a coisa que mais irritava Ericson era o facto de visitantes falarem a terceiras pessoas, como se ele não estivesse lá.

— Eu estou ótimo, e por isso queria falar-lhes a todos.

Ericson disse a Melinda:

— Chame Cartwright pelo telefone interno, ele deve participar disto.

Quando o chefe da Casa Civil veio à linha, o Presidente perguntou-lhe:

— É o “maneiroso Lucas Cartwright” quem fala?

Todos haviam lido o Sumário de Notícias; Smitty estremeceu.

— Quero ir para casa — afirmou Ericson. — Que é que isso envolve?

— Quando o senhor chegar à Casa Branca — preveniu Cartwright — começará o trabalho. O senhor precisará ter uma reunião de Gabinete: acha que está preparado para isso? Terá também de preparar um discurso à nação, ou uma conferência com a imprensa a ser televisionada: é isso o que deseja fazer agora?

Melinda lamentou por Ericson. O hospital, embora não oferecesse vantagens especiais de saúde, garantia proteção dos deveres normais da presidência. Ao buscar a segurança do ambiente familiar, ele precisaria enfrentar as atividades normais que subitamente se mostrariam desconhecidas, sem o uso da visão.

— Quem é que diz isso? — desafiou o Presidente. — Eu estarei me recuperando. Não marcarei nada na agenda durante uma semana. Ficarei no andar de cima, na cama, jamais irei à Ala Oeste. A questão de assinatura de papelada pode ser resolvida por você, Hennessy e o Procurador-Geral.

— Logo começará a haver pressão para que o senhor fale — disse Smitty, apoiando Cartwright.

— O que não poderei fazer com um termômetro na boca — disse Ericson. — Alguma outra negativa?

— Sr. Presidente — disse Cartwright — a nação ficará eufórica com sua volta à Casa Branca.

“Sujeito sensato” — pensou Melinda. Não adiantara discutir com Ericson quando este estava determinado a sair do hospital.

— O Secretário de Imprensa preparou um excelente memo sobre esse movimento, quando ocorrer — concluiu Cartwright.

— Você tem estado se antecipando aos acontecimentos, Smitty. — disse o Presidente com ar de aprovação. — Como li nos jornais que você está dirigindo o país, isso é um consolo.

— Nada tive a ver com aquela porra daquele artigo, juro — protestou Smitty. — É o tipo do cargo bumerangue, esse meu. O senhor sabe que eu não apunhalaria ninguém assim. Li o artigo e fiquei enojado.

Olhou furioso para sua subsecretária, Marilee Pinckney, que baixou os olhos. Melinda não a culpava absolutamente por haver incentivado aquele artigo: ela estava prestigiando seu chefe, não à custa do Presidente, e seu chefe precisava desse prestígio nessa ocasião de tensão. E se Cartwright desse um fora, ou fosse posto de lado, e Smitty promovido, Marilee seria a escolha lógica para secretária de imprensa. E ela faria um bom trabalho no cargo: era infinitamente mais instruída e inteligente que Smitty, tinha mais habilidade com os repórteres, e era mais sensível, às necessidades de pesquisas de opinião pública do Presidente. Ela já ensinava certos macetes a Smitty, antes de ele dar suas coletivas. Melinda reconhecia que Marilee, além disso, era uma dama, não uma prostituta como a fotógrafa. Melinda toleraria, se soubesse que o Presidente estava de caso com Marilee. Mas depois admitiu que isso era mentira.

— Aquela história no Tribune foi culpa minha, Sr. Cartwright — disse Marilee. — Peço desculpas, eu confundi a repórter.

— Não tenho a menor ideia a que história vocês se referem — afirmou Cartwright — mas Srta. Pinckney, “sua beleza desmente sua seriedade de propósitos”.

O Presidente Ericson atirou a cabeça para trás e deu um riso breve e alto. Melinda gostou de vê-lo rir assim de novo, e subitamente sentiu-se mais triste do que nunca.

— Smitty, conte-nos o que você escreveu no memo sobre nossa saída daqui.

— Temos três opções — disse o Secretário de Imprensa — admitindo que sua saída do hospital é a principal notícia do dia. Primeira opção: fazermos um verdadeiro carnaval, com apertos de mão, poses com os médicos, uma declaração do Presidente para a TV, filmagem pela televisão na Casa Branca, que mostraria o Presidente sendo recepcionado na porta da frente, as expressões felizes dos auxiliares, essa demagogia toda.

Smitty aguardou comentários.

— O problema com isso tudo — disse Melinda — é que o Presidente poderia tropeçar e cair. E que ele seria visto sendo amparado pela mão, ou tateando.

— Não apenas isso — concordou o Secretário de Imprensa. — As câmaras fariam close-ups de seus olhos ao fazer a declaração. Close-ups intensos. Isso provocaria a pergunta: deve o Presidente usar óculos escuros? Considerando tudo, a opção “carnavalesca” não é recomendada. No outro extremo, há a terceira opção...

— Isso não é justo, Smitty — disse a voz de Cartwright pelo speakerphone. — Não apresente as decisões de modo a que a única escolha do Presidente seja o meio entre os extremos. Tenho a impressão de que se fizermos muito isso, ele vai escolher uma das opções extremas só para irritar o pessoal.

— Muito bem, Lucas. Sr. Presidente, há um meio menos formal de lidarmos com o assunto. Selecionaríamos um pool de imprensa para reportar a saída. Não haveria declarações, e apenas o senhor teria de andar da entrada lateral do hospital até o carro, o que representa uns dez passos. O senhor acenaria para os fotógrafos a uns dez metros de distância; não haveria tempo para close-ups nos olhos, nem necessidade de óculos escuros. O carro se afastaria lentamente, e o senhor estaria acenando pela janela como sempre. Escusado dizer que acho que essa alternativa faz sentido.

— A outra opção — concluiu Smitty — é sair escondido daqui como um ladrão. Simplesmente ir embora, e depois anunciar à imprensa que na hora tal, o Presidente teve vontade de voltar para casa, e ele pode ser entrevistado em seu endereço da Pennsylvania Avenue.

— Prefiro essa última — disse o Presidente. — Não há perigo de um tropeção, não haverá nenhuma fascinação mórbida com fotos dos meus olhos, e terei mais uma semana inteira para me habituar a lidar com o problema. Diga que como a tentativa de assassinato ocorreu há apenas alguns dias, o Serviço Secreto insistiu numa retirada rápida e sigilosa.

E acrescentou:

— E eles concordarão com isso, se você lhes pedir.

— Acho que parece que estamos com medo — opinou o chefe da Casa Civil. — Melinda, você que é severa e protetora, que acha?

Raposa esperta! Ela estava pronta para discordar do Presidente, e sua opinião seria o prato do dia. Smitty a adoraria, Cartwright gostaria de tê-la usado, e o Presidente a respeitaria por sua independência de opinião. Ora, merda! De qualquer forma ela estava encurralada e teria de dizer o que achava.

— Sou pelo “pequeno carnaval”. Pela opção do aceno, e depois ir correndo para casa. Não haveria nenhuma grande recepção na Casa Branca, o Presidente iria direto para cima, onde ficaria alguns dias, e, pelo amor de Deus, conseguiríamos as melhores pessoas do mundo para ensiná-lo a enfrentar o problema.

O Presidente encolheu os ombros exageradamente, e resignou-se: foi daquela maneira que ele voltou à Casa Branca.


O VICE-PRESIDENTE

Acima de tudo, ele estava resolvido a não cometer enganos. Seria um erro mostrar-se seguidor servil do Presidente. Seria um engano contrariar a linha da administração num problema de substância. Parecer desinformado só porque ele não sabia seria não apenas um engano, mas erro crasso. Demonstrar conhecimento dos assuntos financeiros da campanha ou de outros assuntos proibidos seria o que os jornalistas gostavam de chamar de “um fora de grandes proporções”.

Cada entrevista, cada discurso de inauguração apresentavam novas oportunidades para o Vice-Presidente dar uma gafe, cada voto-empate no Senado era uma oportunidade de dar um passo em falso. Arnold Nichols admitia sua capacidade de dizer o que não devia toda vez que abria a boca. Teria cuidado e algum dia seria Presidente. Que outros jogassem para vencer: tudo que ele tinha a fazer era jogar para não perder.

Consequentemente, o Vice-Presidente sabia que seria acusado de ser “do outro lado”, um homem de um estado fronteiriço. Ele estava pouco ligando. Com quase setenta anos, Nichols estaria velho demais para ser reeleito se o Presidente concorresse novamente, como Ericson certamente faria. Este Vice-Presidente tinha uma oportunidade de chegar ao topo: ficar lá, firme e pronto, incorruptível e incontestado, se o Presidente morresse.

Se o Presidente morresse — raciocinava Nichols, e não raciocinar nesse sentido seria tolo, para isso havia os Vice-Presidentes — seria melhor para o país e para ele que acontecesse no início do mandato. O “Presidente acidental” poderia então estabelecer uma sólida base para concorrer e servir mais um período por direitos adquiridos, especialmente se a idade fosse considerada desvantagem.

A emboscada em Yalta não foi “a gota” — pensava ele, olhando pela sacada da casa que dava para a Massachusetts Avenue tomada do Chefe de Operações Naval há alguns anos. Poderia ter sido “a gota”, mas não tinha sido. Agora a possibilidade de sucessão após um assassinato era remota, porque não se esperava que Ericson andasse mais em meio de multidões. O Serviço Secreto poderia ser especialmente protetor, e o Presidente não precisaria provar sua masculinidade através da rejeição dessa superproteção. Por outro lado, o Vice-Presidente precisaria estar especialmente visível, saltitando de um aeroporto para outro no país. Nichols estava preparado para isso: seria um erro não assumir esse aspecto do cargo. Não obstante, ele estava certo de que o destino não o teria feito subir tanto à-toa; um dia ele teria sucesso, em ambos os sentidos. [nota: Em inglês, o verbo succeed quer dizer ter sucesso e também suceder a alguém. Esta a intenção do autor.]

A limusine de Bannerman apareceu na entrada de carros. O Vice-Presidente jamais se entusiasmara com essas reuniões semanais sobre assuntos económicos com o Secretário de Tesouro porque Bannerman era um pedagogo impaciente, da mesma forma que ele era um político inábil. Mais importante do que as informações transmitidas era a regularidade de poderem estar juntos. Mostrava que Arnold Nichols era mantido a par das informações, não por algum assistente de nível médio, mas pelo homem que realmente importava nos círculos financeiros mundiais. T. Roy Bannerman fora um dos três mais importantes banqueiros de investimentos do mundo antes de ser nomeado para chefiar a pasta do Tesouro, e nunca permitia que seus colegas o esquecessem. Sua celebridade não era a da fama rápida devido à nomeação, mas do nome de família, que estava na subsuperfície da atenção pública. Proveitos adquiridos desonestamente há tanto tempo, que podiam ser usados para comprar uma respeitabilidade inatacável. Era um grande homem, de grande reputação e grandes ideias. Era bom para a administração — pensava Nichols — e inteligente o bastante para demonstrar mais respeito pelo Vice-Presidente do que a maioria; sua aliança informal recompensaria a ambos.

Curiosamente, Bannerman o havia puxado de lado após uma reunião do comitê do Gabinete sobre política económica, e lhe perguntara quando poderiam falar reservadamente. Era curioso porque a única conversa particular que os homens de altas posições em Washington poderiam ter seria numa reunião pública. Todas as demais reuniões eram apenas isso: reuniões, e eram conhecidas apenas por aqueles que realmente precisassem ter conhecimento delas. O Serviço Secreto fazia parte do Tesouro, mas seus homens eram leais ao Presidente, fosse quem fosse. Se Bannerman desejava uma reunião sem que o Presidente soubesse, isso não estava no contexto. A frequência regular dessas tediosas reuniões económicas era uma fachada conveniente para o assunto que Bannerman quisesse discutir. O Vice-Presidente decidira que a visita de hoje provavelmente seria a propósito da divisão de responsabilidade dos assuntos internacionais, após a tentativa de emboscada. No Gabinete de Ericson, o velho sistema do Conselho de Segurança Nacional fora eliminado. O próprio Presidente dirigia as questões internacionais, junto com um Secretário de Estado negro que Nichols considerava um testa-de-ferro. Todos concordavam que Bannerman orientava brilhantemente a economia internacional, e o Secretário de Defesa Preston Reed estava em processo de absorver a parte secreta da CIA para a centralização dos assuntos de segurança. Internamente, o próprio país praticamente se dirigia, isto é, os governadores tinham grande autonomia com seus fundos de participação de renda, e estavam empenhados em administrar as cidades fracas. Nas palavras que Bannerman apreciava: “A única responsabilidade económica nacional que temos é manter o dólar sólido e o círculo de negócios harmônico”.

Roy Bannerman não ia falar de política económica hoje. Abruptamente, ele começou:

— Sr. Vice-Presidente — esta saudação formal era para dar a Nichols a impressão de que a reunião seria solene — o senhor e eu temos de discutir um assunto que parece ninguém mais está disposto a enfrentar.

— A doença do Presidente — sugeriu o Vice-Presidente.

— A cegueira do Presidente — corrigiu Bannerman. — Todos estão pisando em ovos, fingindo que se trata apenas de um ferimento que desaparecerá em alguns dias, mas não é bem assim. E o que temos aqui e agora é uma crise nacional.

O Vice-Presidente emitiu sons apaziguadores, mas Bannerman continuou.

— Sei de fonte limpa que o Presidente está cego para sempre. Você sabe que não me precipito em concluir coisas, Arnold. Mas esse assunto é por demais importante para ser deixado apenas a um mortal e a um punhado de bajuladores que gostam de andar por aí em jaquetas de vôo, com os selos presidenciais bordados no bolso.

— Quem é a “fonte limpa”? — perguntou Nichols, com o interesse ativado.

— O diretor do Hospital de Nova York — disse-lhe Bannerman. — Durante anos, fui presidente da Junta de Provedores. O homem que o hospital naval mandou para atender ao Presidente é funcionário deles. E disse claramente que sem haver uma história médica nesse tipo de coisa, as possibilidades são de que o Presidente esteja cego para sempre. Essa notícia é má, é trágica. Mas a realidade é essa, e é errado de nossa parte pensar que desconhecemos nossa responsabilidade no caso.

O Vice-Presidente não sabia se lhe seria conveniente discutir o assunto.

— Sr. Secretário, o senhor acredita — Nichols também podia ser formal — que seria correto eu assumir qualquer papel neste assunto? Repito, qualquer papel?

Bannerman teve a intenção de rejeitar essa ideia: parou e pensou um instante. O Vice-Presidente estava satisfeito; Bannerman podia ser o tigre mais feroz na selva da economia, mas quando se tratava de minúcias constitucionais, o Vice-Presidente podia dar aulas.

— Sei aonde quer chegar — disse mais lentamente Bannerman. — O senhor não poderia nunca ficar numa posição de lhe imputarem ansiedade de usurpar o poder. Mas uma discussão da incapacidade do Presidente é certa e adequada, porque o senhor tem certas responsabilidades a cumprir, isto é, se julga que ele está incapacitado.

— Escute, Roy — disse rapidamente o Vice-Presidente. — Não posso participar de nenhuma cabala. É esta a palavra que eles usam: “cabala”. Se acha que o Presidente está definitivamente incapacitado, e não pode desempenhar seus deveres, então cabe a você discutir isso com ele. Ele lhe agradeceria por ser honesto com ele. Talvez não receba conselhos tão francos de seus assessores. De qualquer forma, não conte comigo.

— Acho que conheço Sven Ericson — disse Bannerman. — Já nos empenhamos em algumas disputas. Ele é um intelectual e um teórico, querido pelo povo de Georgetow, [nota: Bairro “bem” de Washington, onde se desenrolam acontecimentos sociais a que comparecem os ricos.] e todos os colunistas o amam, porque ele tem uma postura à Lincoln. Acontece que não é Lincoln. Ele vai se agarrar ao osso, independente do que isso possa causar à nação, porque em uma espécie de megalomania.

— Você está sendo cruel — objetou o Vice-Presidente.

— Ele acha que é um idiota, Arnold — continuou Bannerman — e você sabe disso. Ele já declarou isso inúmeras vezes, desde a convenção, quando insisti em que formasse a “dobradinha” com ele. Ele vai utilizá-lo como uma justificativa para ficar no cargo.

O Vice-Presidente engoliu em seco. Bannerman estava certo, mas errado ao tentar arrastá-lo para isso, e desnecessariamente grosseiro. Talvez algum dia tivesse de prestar depoimento numa comissão do congresso sobre isso; Nichols não gostaria de falar sobre uma discussão de incapacidade que pudesse ter tido hoje.

— Mas deixe de lado o aspecto pessoal — continuou Bannerman. — Pense no país. Você acha que nos podemos dar ao luxo de ter um Woodrow Wilson no último ano de vida, praticamente um vegetal, e sua mulher tomando as decisões por ele? Ou de um Roosevelt em Yalta, doente demais para enfrentar Stalin e muito teimoso para reconhecê-lo?

O Vice-Presidente sabia que havia lógica em tudo o que Bannerman dizia, mas gostaria que ele parasse de dizer-lhe.

— Pelo amor de Deus! — Bannerman quase gritou. — O Presidente dos Estados Unidos no momento... e no futuro previsível... não consegue andar direito pelo quarto! Deixe de sentir pena dele, sinta pena do país: se ele não é capaz de desempenhar suas funções, alguém terá de fazê-lo por ele.

— Por favor, lembre-se de minhas palavras, Roy — disse Nichols. — As palavras são: “Diga ao Presidente, não a mim”. Vou repetir, para que nós dois jamais as esqueçamos: “Diga ao Presidente, não a mim”.

— Sua resposta é muito adequada — admitiu Bannerman ignorando-a como o Vice-Presidente sabia que faria — mas é você quem terá de convocar uma reunião do Gabinete se um Presidente cego recusar-se a renunciar. O Secretário de Estado jamais o fará: ele é “peixinho” de Ericson, e descobrirá agora sua real oportunidade de agir como um verdadeiro Secretário de Estado; além disso, ele tem mais nível do que eu. Mas você convocará a reunião...

— Tenho autoridade para tal?

— Existe o precedente de Nixon durante a doença de Eisenhower, Mande alguém pesquisar a respeito.

Nichols assentiu com a cabeça.

— Não confie em Curtice — preveniu Bannerman. — Ele encara o caso como a grande oportunidade do seu sector, de ser um figurão enquanto o país manca sem um Presidente que possa legalmente assinar o nome. Esteja também de olho no Procurador-Geral: ele é totalmente homem de Ericson.

— Não vou falar com ninguém sobre nada — disse Nichols.

— Isso não vai virar uma acareação. Você deve dizer ao Presidente o que acha, Roy; ele agirá da melhor forma para o país. Mas não o force muito, entende? Se você falar com ele como falou comigo, isso seria, digamos, improdutivo... contraproducente.

— Não lhe estou pedindo para dizer nem uma palavra, Arnold — disse o Secretário do Tesouro, levantando-se para ir embora. — Quero apenas que, quando as coisas esquentarem, possa contar com você como patriota. Mesmo se isso envolver algum risco.

— Não se precipite.

Nichols perguntou-se como deveria expressar seu próximo argumento para que mais tarde não parecesse que ele interferira na situação:

— O Presidente vai enfrentar dificuldades terríveis nos próximos dias. Quero dizer que coisas simples, que ele talvez não perceba agora, lhe causarão muitos problemas. A primeira reação dele... e a sua e a minha... seria lutar, mas ele sabe que o país vem em primeiro lugar. Quando ele compreender o que é ser cego, como isso cria obstáculos ao exercício da presidência, então, quem sabe? Talvez não precisemos fazer nada, a não ser aplaudir seu sacrifício.

— Bom senso — disse Bannerman, e Nichols desejou não haver um tom de surpresa em seu comentário. — Não havia pensado nisso, no elemento humano. Concordo com isso, Esperaremos alguns dias. Mas se nada acontecer.

O Vice-Presidente deu de ombros, e repetiu o catecismo:

— Diga ao Presidente, não a mim.


O TERAPEUTA/ 1

— O Presidente quer que saiba — disse-lhe o Dr. Abelson — que ele precisa de imediata ajuda operacional, não de ajuda psicológica.

— Ele precisa enfrentar as situações do dia-a-dia — acrescentou Melinda McPhee. — Como movimentar-se, vestir-se, organizar-se.

O terapeuta assentiu com a cabeça, e acrescentou:

— Compreendo.

Sempre verbalizava após um sinal silencioso, caso houvesse algum cego presente. Compreendia a razão básica de preocupação dos auxiliares do Presidente. Hennessy lhe dissera na véspera, ao telefone, que se estavam arriscando muito ao convocar um psicólogo para a Casa Branca:

— Deus sabe que este terreno aqui abunda em material para psicanalistas — dissera Hennessy. — Mas o povo americano ficaria furioso se soubesse que seus líderes precisavam de alguém para evitar que ficassem furiosos. Assim, o senhor não pode vir nessa condição profissional. Tem de ser identificado publicamente como um homem cego que se ofereceu para ajudar o Presidente a se adaptar às necessidades físicas de não poder enxergar, mesmo temporariamente, ou seja, ao ABC: andar com bengala, ler braille, etc.

— Não precisam apresentar-me como “Doutor” — disse suavemente o Dr. Fowler para o médico e a secretária do Presidente. — Meu nome é Hank, Hank Fowler, e estou aqui como alguém que é cego há muito tempo, e pode ensinar ao Presidente alguns truques dessa condição.

Abelson respirou aliviado.

— Disseram que ele era o melhor que há — disse a Melinda. — Ele percebe rápido as coisas.

Esse era o erro crasso da terceira pessoa: falar em presença de um cego como se ele não estivesse presente, e Fowler perguntou-se se deveria corrigir imediatamente os assessores do Presidente. Decidiu esperar. Mais tarde poderia ensinar-lhes como tratar com um homem cego; agora estava mais interessado em chegar ao Homem. Todas essas afirmações de não-psicologia eram necessárias não apenas para estar-se de acordo com os supostos estigmas na mente do público, como também na do paciente. Ele estaria apenas ensinando a andar com uma bengala.

— Ele tem certas vantagens — disse a voz feminina, vibrante, cálida, rara numa pessoa cujo ponto forte era a eficiência — que o senhor pode aproveitar. O Serviço Secreto está constantemente com ele, e pode deslocá-lo para qualquer lugar. As telefonistas do pessoal permanente estão sempre a postos para conseguir o lugar ou a pessoa que ele desejar. Todo o governo está à disposição dele.

— Ele usa o telefone como uma muleta — acrescentou o Dr. Abelson. — Antes, preferia reuniões cara-a-cara.

— Ele tem uma vantagem em relação à maioria das pessoas cegas — concordou o terapeuta, e depois arriscou-se num assunto que lhe era mais útil. — Como é que ele está reagindo? Sei que isso me faz parecer um psicanalista, e não quero que pareça, mas pode ajudar saber antes que o conheça. Ele está mais irritável agora? Ou estranhamente quieto? Em que ele lhes parece diferente?

— Ele realmente se adaptou esplendidamente — começou a mulher, mas o homem que andava pelo quarto a interrompeu.

— Melinda, pelo amor de Deus, o homem é médico. Está aqui para ajudar. Ele vai jogar o nosso jogo de fazer com que tudo pareça puramente fisiológico, mas temos de ser francos com ele. Ericson está diferente.

— Se não estivesse — disse o terapeuta — ele seria maluco.

— Está certo — disse a voz da mulher. — Ele está muito misterioso. Reluta em dizer o que pensa. Olhe, ele nunca foi muito aberto, mas para nós, em particular, ele costumava desabafar. Estamos todos juntos na Presidência, compreende? Agora, ele não se abre com ninguém. Está com medo, e não quer que nós o percebamos.

— É mais profundo do que isso — disse a voz do homem. Abelson mudou de posição. Fowler teria de preveni-lo sobre isso. Um cego gosta de que as pessoas fiquem onde estão ou, pelo menos, que falem enquanto se movem.

— Ele sempre foi totalmente independente, e agora está dependente. Isso o aborrece, e ele sabe que é irracional, e se zanga consigo mesmo por deixar que isso aconteça. Ericson é uma pessoa extremamente fria, e jamais se permitiu ficar vulnerável a alguém ou alguma situação. Agora, está totalmente vulnerável. Preocupa-se que vá perder tudo. Quem sabe isso talvez lhe fosse benéfico em algum aspecto, mas ele é um homem diferente num mundo diferente.

Melinda acrescentou, como uma segunda reflexão:

— Ele não quer perder seus poderes. Isso sempre lhe foi importante, agora mais do que nunca.

Fowler teve a impressão de que as duas pessoas com quem conversava estavam animadamente desempenhando seus próprios papéis em relação a Ericson. Abelson parecia sentir especialmente a euforia que se experimenta à beira da histeria, e havia certo prazer em verificar a fraqueza de um homem cuja invulnerabilidade anterior o irritava. A mulher parecia mais serena, e reagia bem ao facto de ser mais necessária, mas ele se reservava o julgamento final sobre isso. Sua observação sobre a necessidade de poder do Presidente o interessou.

— Posso tocar seu rosto? — perguntou-lhe. Estendeu o braço e tateou-lhe o rosto com as pontas dos dedos: pele suave, maçãs salientes, nariz aquilino, lábios cheios, linha do queixo acentuada. Ele agradeceu por lhe haver deixado fazer aquilo em parte por curiosidade, porém principalmente para arraigar um sentido de pasmo pelos poderes possivelmente sobrenaturais da pessoa cega. Uma mística jamais magoava um psicanalista. Ele perguntou se seria possível ver o Presidente; a mulher fez a chamada e obteve o sinal verde.

“Dr. Abelson — disse o terapeuta, levantando-se. — Deixe-me pegar-lhe o braço e vamos indo. Por favor, ande depressa, eu o acompanharei. Quando eu estiver com o Presidente, se o senhor puder encontrar uma forma de se desculpar e nos deixar sozinhos, eu lhe agradecerei.

Eles andaram depressa para fora do consultório do médico no subsolo da residência central da Casa Branca, até um elevador e, depois de dez segundos, entraram numa sala de pé direito alto, onde ecoavam as passadas. Cortesmente, Abelson descreveu a peça para Fowler: o vestíbulo central, um comprido corredor ao longo da residência, largo o bastante para ser decorado como uma sala. Foi conduzido à esquerda, e Abelson descreveu o Salão de Espera Oval à sua direita, depois a Sala da Rainha à esquerda, depois a pequena Sala de Estar Lincoin, onde Abelson o anunciou ao Presidente. Fowler estendeu a mão e disse:

— Herb, que tal fazer com que apertemos as mãos?

Abelson orientou-lhe a mão até a mão estendida do Presidente.

— A esta altura — disse Fowler, apertando a mão grande e calorosa na sua própria mão — alguém costuma dizer que o roto está conduzindo o esfarrapado...

Abelson reprimiu o riso nervosamente e guiou Fowler a uma poltrona, enquanto dizia ao Presidente:

— Hank é o principal perito mundial em ajudar gente que não consegue ver a logo tornar-se “funcional”. Ele tem alguns macetes. Vou embora agora; pra variar, Furmark está do lado de fora da porta.

O terapeuta esperou que o Presidente falasse primeiro.

— Disseram-me que o senhor tem experiência própria do assunto — disse Ericson, e Fowler apenas concordou:

— É verdade.

A última coisa que as pessoas cegas gostam de escutar são os problemas de outras pessoas cegas. Os cegos há pouco tempo tampouco gostavam de conhecer gente nova, cujas vozes não podiam ser ligadas a rostos conhecidos.

— Deixe-me descrever-me, senhor — disse ele, com a voz baixa mas falando rápido. — Sou baixo, mais para gordo, rosto redondo. Tenho cinquenta e dois anos, sou liberal, estou ficando careca em cima, e meu bigode é negro.

— O senhor mesmo o apara?

— Faço tudo sozinho, Sr. Presidente. Não porque precise, pois minha mulher poderia fazê-lo para mim, mas dirijo minha vida porque isso me envaidece, e preciso sentir-me assim.

Após o primeiro contato, o terapeuta fez com que o paciente cumprisse uma tarefa simples:

— Esta é a famosa Sala de Estar Lincoln? O senhor poderia descrevê-la para mim?

— Claro.

Fowler imaginou que Presidentes gostassem de descrever partes da Casa Branca; isso estabelecia sua ligação com tudo que havia antes.

— Esta cadeira de balanço onde estou pertenceu ao Presidente Buchanam. Era velho quando veio para a Casa Branca, e disse: “Todos os meus amigos estão mortos, e todos os meus inimigos são hoje meus amigos”. Boa frase, gostaria de saber quem a escreveu para ele. À minha esquerda, e sua direita, fica uma estante, onde antigamente havia a vida de Lincoln, escrita por Carl Sandburg, e todas as obras de Lincoln, mas eu as pus para baixo na biblioteca oficial porque preciso do espaço aqui para livros que estou lendo agora.

Fez uma pausa.

— Acho que podem pôr o Sandburg de volta. A única coisa que é Lincoln nesta sala agora é um busto, esculpido por Volk, na escrivaninha, à minha direita.

— Coloque-se no centro de um relógio — disse o terapeuta — como nesses filmes de força aérea, e suponha ser meio-dia. Onde está a escrivaninha?

— Nas três horas.

— O telefone?

— Há dois aqui. Um na escrivaninha, digamos nas duas horas, e o outro à minha mão direita, quase nas cinco horas.

— Janela?

— Atrás de mim. Nas seis horas.

— O banheiro?

— Nas três horas, é apenas um vaso, sem chuveiro. Meu banheiro fica no fundo do corredor, perto do meu quarto.

— Pronto para a lição número um? Leve-me lá.

O Presidente levantou-se muito devagar, tocou o ombro do visitante, e o conduziu para fora da Sala de Estar Lincoln. Fowler podia visualizá-lo, de braço estendido, tateando pelas paredes que julgava poder lembrar. O Presidente passou pelo Quarto de Dormir Lincoln, e disse ao agente que não ajudasse nem dissesse nada. Quando chegaram ao que Fowler julgou fosse o vestíbulo central do itinerário, o Presidente movimentou-se à frente com mais confiança, até que enfiou a mão numa parede.

— Isso aqui é uma parede — anunciou Ericson. — É nova, nunca antes de hoje esteve aqui.

— Existe uma porta à direita?

Fowler lembrava-se de haver entrado por uma porta, e era lógico supor que fosse uma entrada para o vestíbulo central. Ericson os levou pelo vão da porta até o vestíbulo central, na direção de onde Fowler saltara do elevador.

— Viramos à esquerda aqui — disse o Presidente. — Tente não derrubar nenhuma antiguidade. Jackie Kennedy teve um trabalhão com elas.

Esbarraram num sofá, recuaram, e entraram no quarto do Presidente por uma porta. O Presidente foi até a cama, que lhe era familiar, e sentou-se nela.

— O banheiro — disse ele, com algum esforço — fica a sete passos de onde estou. Se o espaldar da cama está nas doze horas, a porta do banheiro está nas quatro horas.

Perto dele, Fowler perguntou:

— Sete passos seus devem corresponder a dez meus. Lembra-se da foto de Romulo seguindo MacArthur na praia?

— Se o senhor não está mesmo com vontade de usar a privada, sou capaz de matá-lo.

— Volto logo, logo.

Fowler atravessou o quarto, tateou a porta, tocou rapidamente a cortina do chuveiro, a pia, o vaso, a toalha, e começou a urinar. Depois deu a descarga, lavou as mãos, e cantarolou o tempo todo, como se o banheiro lhe fosse familiar. Sabia que Ericson devia ter passado momentos agônicos lá dentro, tateando pela toalha, quebrando frascos. Anotou mentalmente para dizer a Abelson que trocasse os frascos e os copos para plásticos e que instalasse uma alça no chuveiro.

Fowler saiu do banheiro e escutou o Presidente rir baixinho.

— Está achando graça de quê, Presidente?

— Conheço essa canção que o senhor estava cantarolando. Ela é engraçadíssima. Você deve ser um gozador, Fowler.

Isso agradou ao terapeuta; poucos de seus clientes percebiam a ironia ou apreciavam "I Only Have Eyes For You" [nota: Só Tenho Olhos para Você.] sendo cantada por um psicanalista cego. Se Ericson gostava de uma brincadeira, isso seria utilíssimo.

— Agora deixe-me levá-lo de volta à Sala de Estar Lincoln — disse animadamente. — Agarre meu braço e vamos depressa.

Levou o Presidente até o vestíbulo, pelo vão da porta, de volta ao lugar de onde haviam saído, tudo isso de modo confiante e fácil.

— Bom truque, doutor. Conte-me como é que se faz.

— Obviamente, pela contagem dos passos — disse-lhe Fowler. — Seis passos para fora da porta, vinte e sete pelo corredor, vão da porta, doze passos até a Sala Lincoln, nove através dela até a sala de estar. Agora vamos aprender como é que não se bate nas paredes. Existe um macete novo para isso.

Ele apresentou um objeto redondo e grosso numa correia de relógio e o pôs com força na mão do Presidente.

— Este é um relógio sonar, ainda não disponível comercialmente, mas o senhor pode usá-lo ao invés de uma bengala. Já escutou a expressão “cego como um morcego?” Os morcegos podem ser cegos, mas não esbarram nas coisas, porque têm esse dispositivo de eco embutido. É o mesmo princípio.

Enquanto o Presidente delicadamente prendia o relógio no pulso, Fowler começou o treinamento, e pôs a mão perto do sonar, o que provocou leve vibração.

— Isso revela objetos à sua frente. Desempenha a função de uma bengala comprida.

— Estava preocupado por ter de usar uma bengala — disse o Presidente. — Isso me faria objeto de piedade. Essa geringonça eletrônica é muito melhor, Hank.

Fowler resolveu jogar-lhe um jato de água fria.

— Não é tão bom quanto uma bengala, Sr. Presidente. A utilização habilidosa de uma bengala comprida ainda é o melhor meio de locomoção de uma pessoa cega. O relógio sonar é apenas uma engenhoca para se usar até a pessoa não se importar mais em ser objeto de piedade. Definindo melhor: um relógio tem melhor aparência, uma bengala funciona melhor.

— Nesta altura — observou Ericson — estou infinitamente mais interessado na aparência. Se eu começar a tropeçar por aí, ou a agir como alguém que não pode ir daqui para ali sem a bengala de um cego, haverá gente que me dará uma caneca de estanho e me dirá para trocar de emprego.

O terapeuta tinha outras engenhocas eletrônicas para dar a Ericson um rápido empurrão no moral. Para o outro pulso do Presidente, ele surgiu com um relógio que dizia a hora pelo toque. Em cinco minutos, Ericson dominou a técnica dessa simples operação, mas isso provocou outro assunto: braille.

— Em menos de seis meses o senhor conseguiria aprender os rudimentos do braille — disse-lhe Fowler. O Presidente nada respondeu. — Se o senhor está balançando a cabeça, Sr. Presidente, isto não me ajuda.

— Desculpe — disse apressadamente Ericson. — Esqueci. Quero dizer, não tenho seis meses para me dedicar a aprender uma nova língua. É melhor que Melinda leia para mim.

— Vou lhe dizer o que vou fazer — disse Fowler. — Tenho aqui um gravador, do tamanho de um maço de cigarros, e um sistema simples para fazer com que seu dispositivo de audição se equilibre com seu dispositivo de leitura. Se o senhor lê depressa, deve ler cerca de 225 palavras por minuto. Quando as pessoas falam depressa, falam no máximo à metade daquela velocidade. Eis o que fazemos para executivos cegos que precisam absorver informações pelo menos tão rapidamente quanto costumavam ler. Gravei essas minhas palavras. Vou agora reenrolar, e tocar de novo no dobro da velocidade, não tão veloz ao ponto de ficar uma algaravia, mas apenas para que o senhor apreenda o sentido.

Ele tocou a fita acelerada do último minuto de suas palavras e esperou a reação.

— Isso é até mais bacana que a sua valise cheia de relógios de pulso, doutor.

Ele conseguiu ouvir o sorriso de Ericson.

— Hoje em dia Melinda demora bem uns quarenta minutos para me ler o Sumário de Notícias. Ela poderia gravá-lo e eu economizaria metade do tempo.

— Mais do que isso, o senhor poderia acelerar as partes menos interessantes ou até pulá-las.

— Agora sim! — disse animadamente o Presidente. — Esse negócio de se movimentar, contar passos, minha aparência, tudo isso é importante para restabelecer a confiança pública. Não é importante para meu desempenho no cargo: os agentes podem guiar-me por aí. O problema, porém, que me vem atormentando é a capacidade de enfrentar o cargo. Poderei absorver todas as informações que me chegam? Poderei organizar dados para uma decisão? Você me está provando que há mais esperança do que eu imaginava.

Agindo mais lentamente, ao entrar em áreas mais difíceis de treinamento, Fowler demonstrou ao Presidente como realizar um feito que as pessoas que enxergam aceitam sem discutir: a elaboração de uma lista. No quadro-negro limpo em sua mente, um cego poderia escrever, e ver o que escreveu. Fowler o testou com alguns números e símbolos, e ficou satisfeito ao comprovar que seu aluno era arguto; nem todos os executivos aprovavam nesse tipo de treinamento.

— Em umas duas semanas, o senhor achará que está começando a poder enfrentar bem — disse ele — e daqui a uns dois meses, com treinamento intensivo, o senhor e seus assessores estarão habilitados a programar seu computador mental algo diferente, e o senhor estará realmente pronto. Suponho, Sr. Presidente, que o senhor foi capaz de se desempenhar de seu cargo quando podia ver...

Após esse gracejo, respeitoso mas não servil, o terapeuta achou que já estava na hora de fazer esta pergunta:

— O senhor tem algum problema ao se levantar?

A gélida reação do Presidente ficou no ar.

— Como assim, Hank?

— Fiquei cego aos trinta e poucos anos, como resultado de um acidente, o mesmo que lhe ocorreu, e o que me aborrecia demais era acordar de manhã. Antes do acidente, eu acordava, abria os olhos... isto era parte do acto de despertar. Agora, não ver nada quando se acorda, é como não saber que se tinha acordado, que ainda se estava sonhando, ou algo assim. Depois comecei a sonhar que estava acordado quando não estava, e isso só piorou o acto de despertar. Era uma sensação meio lúgubre. Eu começava os dias agoniado.

— Isto não me acontece — disse o Presidente. — Estou sempre bem de manhã.

“Esse vai ser um osso duro de roer”, pensou Fowler. “E só se adaptará às atividades de seu novo cargo quando enfrentar a realidade de que é um homem cego.” Essa terapia envolvia muita coisa: não apenas as suaves atividades presidenciais, mas as esperanças de vinte milhões de pessoas com defeitos físicos na América. Fowler teria muito cuidado com esse paciente. O Presidente podia estar eufórico agora, ao descobrir dispositivos eletrônicos e a ginástica mental, mas logo entraria na depressão típica dos cegos há pouco tempo, algo de que Fowler se lembrava vivamente.

— Você acha que vou conseguir, Hank?

— Qualquer homem que ache que pode liderar este país — respondeu Fowler — deve ter um ego quilométrico. Vamos começar explorando isso. Se o senhor acha que consegue realmente liderar a nação, provavelmente pode convencer-se de que pode governá-la com uma deficiência física, qual seja, uma perda de fala, de visão, ou de audição, ou de pernas. Acho que podemos dizer sem medo de errar que o senhor tem motivação.

O terapeuta indagou-se se poderia ir mais longe nessa fase inicial, e “jogou verde”:

O Sr. Hennessy me disse para lhe dar minha opinião sobre se o senhor é capaz de desempenhar os deveres de seu cargo. Olhe: vou sair daqui, pegar um táxi para o aeroporto, voar até minha casa em Atlanta, fazer malas para ficar aqui um mês, e voltar... tudo isso sem nenhuma ajuda de gente que enxerga. Depois vou fazer um trabalho de terapia ocupacional com o senhor que me vai tornar um herói junto a todos os psicólogos do país. Isso porque sou vaidoso e duro, e muitíssimo competente. Não sei se o senhor é capaz de desempenhar os deveres de seu cargo, ou se chegará a sê-lo, mas se não der certo, a culpa será sua, não minha.

O Presidente se levantou, foi até a escrivaninha, empurrou alguns papéis para o lado, e sentou-se em cima. Fowler o seguiu com os ouvidos.

— Quero perguntar-lhe algo como a um americano, Hank, não como a um psicólogo, nem cego: Você acha que devo fazer a tentativa?

Fowler sabia o que o Presidente queria ouvir, mas decidiu dar-lhe uma amostra de como era a vida para um cego:

— Nunca peça a um cego para não pensar como cego.

O médico pessoal do Presidente fez saber de sua presença à porta da sala de estar, provavelmente convocado, julgou Fowler, por um botão perto da mão do Presidente.

— Interessante — disse Fowler, com voz forte — qual é o código dos seus botões para chamar gente?

— A maior parte das vezes uso o telefone — respondeu o Presidente. — Ao telefone, sou igual a todo o mundo, por isso vou continuar utilizando esse meio. O problema é que não posso tomar notas de uma conversa. Bem, suponho que o gravador de memória seja a solução. Quanto aos botões, a bateria de botões é novidade para você, Hank.

Ele se aproximou de uma engenhoca mais ou menos do tamanho de um botão de controle remoto de televisão, com seis botões:

— O de cima é Melinda, minha secretária; o segundo é Furmark, o agente à porta; o terceiro é aqui o Herb; o quarto é a telefonista da Casa Branca, para me ligar caso eu não consiga achar o telefone; o quinto é Cartwright, o chefe da Casa Civil.

— E o de baixo? — perguntou o terapeuta, tocando-o.

— Manda o mundo pelos ares — disse o Presidente.

Mesmo sendo piada, Fowler retirou o dedo.

— Na verdade, esse botão é para o homem da valise negra, caso haja necessidade de um ataque nuclear retaliatório. Dá início a um processo que tem todos os tipos de verificações cruzadas e proteções embutidas.

— Como é que o senhor pede uma xícara de café?

— Através de duas chamadas para Melinda; ela aí manda o garçom. Três toques é a soda de dieta.

— E dois toques para o Dr. Abelson querem dizer: “Tire esse sujeito daqui. Use uma desculpa médica” — resumiu Fowler.

— O senhor entendeu tudo — disse Abelson. — Estamos tentando organizar as coisas. Vou colocar uma pilha de livros sonoros da Biblioteca do Congresso aqui na mesa, junto com a máquina que os toca. Foi uma boa sugestão, Hank, o bibliotecário de lá estava esperando ser chamado. Eles têm bastante espaço para livros sonoros resumidos.

— Que livros você escolheu para mim, Hank? — perguntou o Presidente.

— Um deles foi o Moby Dick — disse o médico. — Você escreveu um trabalho sobre ele na faculdade, lembra-se? Pode-se escutar tudo de novo, literalmente, em seis horas. E a biografia de Lincoln escrita por Sandburg, porque é adequado a esta sala, e o livro que você pôs na cabeceira no mês passado, mas nunca leu: Raising Keynes, do Professor Lord. Pus também um outro que foi ideia de Hennessy — fez um barulho na mesa — o último e apelativo bestseller sobre duas lésbicas sensíveis. Eu o escutei ontem à noite, e foi mais rápido do que se o tivesse lido.

— Sempre surpreende as pessoas — comentou Fowler com o Presidente — que uma pessoa cega mencione um romance atual. É boa ideia querer mostrar que se está à frente das pessoas que enxergam.

— Vou adotar isso. Herb, qual a última notícia sobre Harry Bok?

— Falei com ele hoje de manhã. Não passa bem. Está deitado de costas, imóvel, não tem nenhuma sensação nas pernas. Nosso cirurgião está lá, e talvez o opere amanhã. Ele me disse que é uma intervenção delicadíssima, e pode resultar em paralisia.

O Presidente chamou o agente à porta, comprimindo o botão, e fez um estranho pedido:

— Consiga-me uma nota falsa de vinte dólares e um crayon vermelho.

Furmark respondeu também estranhamente:

— Se uma nota falsa de dez dólares servir, senhor, eu tenho uma aqui. Muitos de nós as carregam como lembrança.

Ericson a apanhou, pegou uma caneta com tinta vermelha, e escreveu uma mensagem na nota:

— Você consegue ler isso, Herb?

O doutor leu:

— “Ajude-me a lutar contra os falsários, Harry! Grato, Sven Ericson”.

O Presidente perguntou:

— Parece com minha caligrafia?

Abelson respondeu:

— É bastante parecida para fazer com que essa nota falsa passe a valer um bocado de dinheiro verdadeiro. Vou mandá-la para ele pelo malote.

— Pelo menos quinhentos dólares — disse o Presidente, e acrescentou: — Providencie para que tratem bem de Harry. Curtice continua lá? Mande-o visitar Harry antes da operação, envie já o recado. Além disso — acrescentou, em tom diferente — é melhor que o Secretário de Estado permaneça lá por algum tempo, pois ele seria necessário para se convocar uma reunião do Gabinete aqui.

— Harry me passou a tarefa de combinar as sessões fotográficas — acrescentou o médico do Presidente, e Fowler achou a observação irrelevante. — Por favor me informe quando quiser fotos.

— Logo, logo — respondeu Ericson. — Quando for o caso, vou dar três toques longos.

Fowler balançou a cabeça, aturdido com a vaidade de um homem público que queria um registro fotográfico de suas experiências mais penosas. Ele ainda não tinha um retrato definitivo de seu novo paciente: agora frio, depois generoso, uma hora enganador, outra hora incisivo, agora atormentado, depois confiante. De qualquer maneira, era uma tremenda oportunidade, que o terapeuta estava resolvido a não perder.


A FOTOGRAFIA OFICIAL /2

— Alô, Pdeu! Está com saudades?

Normalmente, ela teria feito uma pose estonteante contra a umbreira da porta que levava do vestíbulo da Ala Oeste ao Salão Oval, chacoalhando as três câmaras e inclinando-se num tripé, mas o Homem não podia mais apreciar isto, de modo que ela apenas chegou ali, entregue por Herb Abelson às oito da noite, marcadamente consciente de sua função mais importante na Administração Ericson.

— Buffie! Que é que você está vestindo?

— Me apalpe para saber.

Ela escorregou para o colo dele para que Ericson pudesse enterrar os dedos nas costas e descer até os quadris e lembrar-se, seguramente, do macacão verde em que ele a vira tantas vezes. Herb lhe havia dito para vestir algo de que o Presidente se lembrasse, e que não experimentasse nenhum perfume novo, nem agisse diferentemente. Eles estavam programando as pessoas de forma a que elas pudessem lidar com Ericson como se este fosse uma máquina sem uma peça, mas que continuasse a funcionar perfeitamente, na ilusão de que a máquina ignorasse a falta da peça. Suas mãos enormes eram as mesmas, enquanto ele a apalpava ferozmente, e depois a tirava do colo. Ela sentou-se no tapete com os braços cruzados nos joelhos dele, enquanto ele se sentava numa cadeira de balanço em frente à lareira do Salão Oval.

— Não me deixaram aproximar-me de você desde a emboscada. Cartwright mandou que eu não tirasse fotos, e não havia Harry para me conseguir fazer chegar a você. Você está realmente num casulo, sabe, mais do que pensei.

Entretanto, ela sabia que se Ericson a tivesse querido por perto, teria encontrado um modo de fazê-lo. Ele não era justo ao insistir em que ela fosse exclusiva e depois mantê-la no gelo assim, mas ele havia sofrido um bocado na última semana. Ela sabia que deveria ter mais consideração; talvez não estivesse conseguindo manter o membro duro, e estivesse constrangido. Ela acarinhou-lhe as pernas. Herb Abelson tinha razão: era diferente estar perto dele quando aqueles olhos não estavam dardejando olhares gélidos em sua direção, quando estavam abertos, olhando para o vazio.

— Vou te dar uns óculos bacanas, Pdeu — disse-lhe ela, porque não havia sentido em não dizê-lo. — Quero pensar que você continua a me olhar.

— Você acha que devo usar óculos escuros?

Ele havia obviamente pensado na pergunta. Ela não lhe tirava a razão por não querer parecer um mendigo cego: óculos escuros, caneca de alumínio, cartaz pendurado no pescoço, um cachorro esquálido ao lado, tudo convidava à piedade.

— Não “óculos escuros” — corrigiu ela. — Talvez um desses aparelhinhos com espelhos “legais”, que os motoqueiros usam.

— Eu ia ficar um “estouro” com um casaco de couro e óculos prateados — murmurou Ericson. Ela balançou a cabeça; ele não costumava se importar a mínima com sua imagem, a não ser que o não se importar fosse parte da imagem. Ele agora provavelmente falaria da diferença de idade entre eles.

— Você sente falta da geração “pão com cocada”, Buffie?

— Diga-me de novo há quantos séculos você é o Lama Superior de Shangri-lá.

Ele sorriu sem graça. Ela esperava ter uma oportunidade de chegar-se a ele, durante a noite, para demonstrar-lhe o que sentia: uma espécie de amor incondicional e meio servil, mas amor, e para tirar-lhe um pouco de força para ela, porque estava abalada pelos acontecimentos, que poderiam afetar-lhe os planos de um futuro excitante. Ela esperava que ele a houvesse mandado chamar para que pudessem estar juntos de verdade, não para uma trepada “de coelho” no escritório antes que ele voltasse ao trabalho ou começasse uma daquelas intermináveis discussões sem sentido com Hennessy. A cabina telefónica era divertida; fora ela que lhe ensinara a alegria de fazer sexo de repente no escritório, mas a essa altura seria apenas o modo de ele se provar que ainda era o chefe, e seria bom se não precisasse provar isso.

— Que é que você tem ouvido, Buffie? Lá pela sala de imprensa.

Era a pergunta favorita dele: “Que é que você tem ouvido?”. A mesma pergunta que fazem todos os políticos preocupados.

Ela fingiu estar exasperada, e ele gostou:

— Você mandou Melinda me dar um recado falso! Você mandou que a maioria dos agentes do Serviço Secreto saísse da entrada Oeste do Executivo para a Ala Oeste. Você fez com que seu médico pensasse ser uma espécie de gigolô; quero dizer, o pobre infeliz está muito constrangido, tudo para me ter aqui a seus pés, e agora quer o resultado de uma pesquisa de opinião? Qual é a sua?

Ela ficou contente por ver que isso o relaxou, e esfregou-lhe a perna lentamente.

— Na verdade — informou ela, porque ele perguntara e porque ela observara — estão todos se aprontando para uma coletiva.

— Sempre estão.

Ah, mas não dessa forma. Querem ver se você agora é um inválido inútil de quem podem ter pena.

Ela tocou na protuberância entre as pernas dele e disse:

— Você não mudou muito. Vou espalhar isso.

— Você não disse nada sobre aquela outra vez, não é, Buffie? No trem?

Como se ela fosse espalhar uma coisa daquelas! Havia ocasiões cm que o Homem era tão inteligente, tão à frente dela, que ficar perto dele era o máximo, e havia vezes em que ele a decepcionava ao considerá-la uma boazuda imbecil que ele conservava para ser um conveniente receptáculo.

— Nem sequer me lembro o que houve da outra vez, Pdeu — replicou. — Mas agora que você tocou no assunto: esse é um bom sinal, não é? Isto é, você já se livrou disso antes, pode acontecer de novo.

Ele tirou-lhe o cabelo da testa, aninhou-lhe o rosto entre as mãos, inclinou-se e beijou-a longa e ternamente. Depois se recostou na cadeira de balanço.

— Da última vez, naquele trem de campanha, durou apenas dois dias, lembra-se? Já faz cinco dias que não consigo ver, Buffie. Esperava estar bom há muito tempo.

— Da segunda vez — disse ela, como se tivesse algum conhecimento médico cigano — demora mais. Talvez duas semanas. Depois você vai enxergar novamente. Mas que este seja o último aviso; chega de bater com a cabeça, ouviu bem?

— O motivo pelo qual temos de nos calar sobre a última vez — disse ele, voltando ao assunto como se ela não compreendesse — não é porque nós dois estivéssemos tendo relações no trem de campanha. Na ocasião foi esse o motivo. A razão pela qual temos de nos calar agora é por que não dissemos nada na ocasião.

— Você não acha que deveríamos ter contado tudo ao mundo naquela ocasião, não é?

— Não, não poderíamos. Na verdade, gostaria que o tivéssemos feito. Nada há de errado em dar uma trepadinha entre as paradas do trem... — Ele acariciou-lhe o cabelo como se para mostrar que o gracejo não fora falta de respeito, e continuou: — mas estaríamos afrontando as pessoas. O povo espera que um candidato à presidência tenha relações à noite, na cama, com sua mulher, numa posição decente.

— Mas não é isso que eles fazem — insistiu ela. — Você não tem ideia da trepação que acontece em escritórios, em salas escuras, na parte traseira de carros, na parte fronteira de aviões. Este foi sempre seu problema — acrescentou Buffie. — Você era tão metido a besta até me conhecer!...

Falar sobre isso teve um efeito especial sobre ele; ela o tocou novamente.

— Você está ficando tesudo, tesudo. Está na hora de subirmos, ter relações, jantar, conversar, brincar.

— O problema agora — disse ele — é que o facto de não havermos contado nada torna o caso sinistro. — Pdeu não costumava ser tão ansioso para transmitir um ponto de vista. — Não é só o facto de eu não querer admitir que tinha relações entre as paradas. Acontece que, eu enganei o povo sobre minhas condições de saúde antes da eleição. Naquela oportunidade, foi apenas uma pequena burla sobre o sexo, mas isso agora parece ser um grande logro, sobre a visão perdida. Compreende?

— Compreendo — disse ela, desejando que eles pudessem sair do escritório e ficar juntos na residência. — Vou jantar hoje à noite, ou você vai engrossar?

— Não estou com fome — disse ele. Isto não era verdade, Ericson já estava esfaimado; talvez fosse a cegueira, talvez ele estivesse aprendendo a comer o que não podia enxergar. Talvez não quisesse mostrar a fraqueza de um homem sendo alimentado na boca.

— Você pode usar os dedos — assegurou-lhe ela. — Seria como um piquenique.

Ela olhou-lhe as calças e percebeu que a conversa ia parar por ali.

— Você é o piquenique — disse ele. — Está na hora da cabina telefónica.

Ela suspirou, tomou-lhe a mão, inclinou-se com força para trás para puxá-lo da cadeira, e o levou até a porta meio oculta à esquerda da porta do vestíbulo da Ala Oeste. Na tarde do dia da posse, Pdeu lhe mostrara o pequeno quarto de um metro e noventa por dois e oitenta, junto ao Salão Oval, onde os Presidentes descansavam ou faziam outras coisas. Originalmente fora a cabina telefónica, quando se construiu a Ala Oeste no início do século, aonde os Presidentes iam atender aos raros telefonemas. Pdeu dissera que quando a amante de Warren Harding revelara, nas suas memórias, haver mantido relações com o Presidente numa cabina telefónica, todo mundo pensou que ela estava inventando, mas essa cabina telefónica era do tamanho exato. Mesmo para o esguio Ericson, que às vezes deitava diagonalmente na cama.

Ela o empurrou para trás e lhe esfregou as compridas pernas.

— Então você acha que deveríamos ter dito a verdade sobre o trem, não é? — implicou, sabendo que iria continuar a discussão por muito pouco tempo.

— Falando moralmente — disse ele, desabotoando a braguilha — o correto teria sido contarmos tudo. A manchete teria sido: “Ao ter relações com a moça entre paradas do trem, o candidato rachou a cabeça e ficou temporariamente cego”.

— No colégio, você ganharia medalhas por sua honestidade — disse ela, recebendo tranquilamente a ereção na mão.

— Teríamos perdido a eleição de peito aberto, e eu não estaria com esse pequeno problema de visão hoje.

Ela mergulhou a cabeça no colo dele, pensando em como a cabina telefónica teria sido usada antes, e por homens tão estranhos. Provavelmente para relações tradicionais. Perguntou-se se as moças antigamente faziam tudo como as de hoje. Ela o beijou suavemente, e se retraiu.

— Ei, Pdeu, acha que você e eu somos os primeiros a fazer isso aqui?

— Todo mundo quer ser o primeiro — disse ele, risonho, quase perdendo a força. — Provavelmente não somos, querida. Você quer um primeiro lugar histórico? Pois bem: esta é a primeira vez em mais de dois séculos de história americana que um Presidente cego foi chupado por sua adorável fotógrafa oficial tão perto do Salão Oval. Ninguém vai refutar isso.

Ela deu de ombros e voltou à sua tarefa, entretida, mas não completamente afinal de contas, não era seu dever de patriota — pensando que um dia desses, quando Pdeu pudesse ver de novo e não precisasse provar que podia dominá-la desta forma, ela lhe pediria para mudarem seu relacionamento para algo mais justo, do tipo dar-e-receber. Isso agora seria errado, pois ele se preocupava com uma série de poderes que possuía. Ela gostava de dar-lhe prazer assim, e subitamente parou e olhou para cima, pensando na última observação dele.

— Sabe o que estou fazendo? — perguntou ela, e respondeu orgulhosamente. — Estou entrando para a história.

Ele sequer sorriu. Em certas ocasiões, Pdeu perdia o senso de humor.

— Pdeu — perguntou ela, mais tarde. — Você vai ficar bom?

— Acho que voltarei a ver, Buffie.

— Sei disso, quero dizer que você... eu, não estou recebendo as vibrações certas, meu amigão.

— Tenho estado doente.

— Você tem sofrido o pão que o diabo amassou, e quase morreu, e está preocupado em que alguém como eu abra o bico, e está cego, e não pode dizer a ninguém por que está certo de voltar a ver, eu sei disso tudo. Mas relaxe, tá? Sou eu. Confie em mim. Descanse.

Ela precisava dizer-lhe isso. Ninguém mais iria fazê-lo.

— Você está achando que vai perder o sentido das coisas, e isso está fazendo com que realmente o perca. Eu me amarrei em Sven Ericson, não nesse sujeito estranho. Volte a ser você.

— Essa incapacidade eu nunca pensei que tinha.

Ele acariciou-lhe a cabeça, ela estava sendo mandada embora. Que merda!

Por que temos de ficar brincando de esconder? — perguntou. — Você é solteiro, eu também. Você acha que o povo americano espera que seu Presidente viva como um ermitão? Por que eu simplesmente não me mudo para o andar de cima? Não precisamos casar-nos, nem eu preciso ser sua anfitriã oficial. Podemos apenas viver juntos, como fazem as pessoas.

— Você sabe que eu gostaria disso, mas não podemos. Precisamos ser discretos. O Presidente pode trepar quase tanto quanto todo mundo, desde que seja discreto. O povo me deixa fazer tudo, desde que não me gabe a respeito.

— Isso é ser hipócrita.

— Está certo, Buffie, a palavra é essa mesma: “hipócrita”. Este é “o pagamento que o vício faz à virtude”. Mas existem certos padrões, e o povo espera que o Chefe do Executivo os mantenha em público. Independente do que ele faça em particular.

— Merda! — comentou ela.

Sei que você odeia ficar se escondendo e ter de chegar a mim através de Harry ou Herb. Mas as aparências importam.

— Muito?

— Às vezes — disse ele seriamente — as aparências importam mais do que a realidade, porque a realidade vai e vem, mas as aparências permanecem. Uma aparência que importa é que ninguém seja jamais crucificado no museu nacional chamado Casa Branca.

— Eu não seria a Primeira-Dama — disse ela, ignorando o que ele explicara, e alimentando a fantasia. — Eu seria a Primeira Grande Idiota.

Ela pôs o pénis dele de volta às calças e fechou a braguilha.

— Haveria posters em toda a parte. Eu mesma os fotografaria, na velocidade de 8 pés por cem, com a luz aqui mesmo da cabina.

Ela foi até a porta.

— Que bicho a mordeu? — perguntou ele. Ela não respondeu. — Buffie? — Ela não respirou, observando os olhos sem visão no rosto torturado. — Buffie, você está aí?

Ela se atirou a ele numa súbita onda de emoção que era superior à que ele lhe havia demonstrado. Ela não ficara triste quando ele a mandara embora após alguns minutos porque sabia que era disso que ele precisava, e ela lhe daria. E nas condições atuais, não era fácil se conviver com ele.


O SECRETÁRIO DE IMPRENSA

Quando um Presidente começa a se preparar para uma coletiva com a imprensa, o poder executivo entra em grande movimentação. Smitty deleitava-se nessas ocasiões. O escritório do Secretário de Imprensa é a fonte de perguntas antecipadas, orgulhoso de sua reputação na Casa Branca, de sempre preparar perguntas muito mais impertinentes e exaustivas para o Presidente do que as que são realmente feitas em coletivas com a imprensa. As prováveis perguntas são espalhadas pela burocracia federal e suas respostas são apresentadas pelos chefes de departamentos para apoiar ou resumir suas opiniões, ou rapidamente passadas sem conhecimento dos chefes de departamentos por funcionários astutos que desejam que uma política favorita seja enunciada por um confiante executivo.

Smitty delegou ao chefe do Sumário de Notícias a tarefa de coletar as perguntas, de recortes de jornais e revistas, pesquisas de repórteres e da equipe de notícias da Voz da América, junto com perguntas fornecidas pelos porta-vozes oficiais dos Departamentos do Exterior, do Tesouro, da Defesa e do Conselho de Assessores Económicos. A subsecretária de Smitty, Marilee Pinckney, lhe lembrava áreas inexploradas por essas fontes, e Smitty enviava notas com perguntas diversificadas, que deveriam ser respondidas em vinte e quatro horas. Os prazos da Casa Branca não eram jamais ignorados. Todos os departamentos sabiam que se suas respostas não fossem incorporadas ao “livro negro”, seriam substituídas pelas respostas de outra pessoa, o que permitiria a reelaboração da política por omissão.

Smitty gostava de “tirar a pele” do governo com perguntas ferozes porque considerava seu cargo como a consciência da Casa Branca. Estava resolvido a que houvesse verdade em suas duas reuniões diárias, e a reputação que construíra ao longo dos anos por trabalhar na imprensa não seria aviltada, como acontecera com vários antecessores seus. Ao recordar-se, Smitty teve de admitir que, como repórter, ele forçara um pouco a barra, adulando excessivamente uma fonte de informações, puxando saco de um chefe de redação, difamando uma autoridade que não quisera passar-lhe uma inconfidência e roubando algumas histórias de carbonos de competidores, mas tinha granjeado a reputação que queria: de ser duro, correto, incorruptível, cético. Havia caprichado em suas relações públicas pessoais, voz sóbria inclusive, e se decepcionara amargamente ao ser preterido na escolha de um alto executivo. A seleção de Smitty por Ericson como seu auxiliar de imprensa na campanha presidencial veio numa hora perfeita para sua carreira. Após alguma dúvida quanto a se valeria a pena “atravessar a rua”, ele agarrou-se à oportunidade.

Agora o “livro negro” era seu. O Livro de Informações do Presidente, uma pasta de folhas soltas, ficava o tempo todo na escrivaninha do Secretário de Imprensa, exceto quando era enviado ao Presidente, antes das coletivas. Sempre que vinham respostas rebuscadas dos departamentos e funcionários da Casa Branca, Smitty voltava a ser editor, e devolvia a maioria delas para serem encurtadas e refeitas mais duramente pelos redatores de discursos, e ele mesmo fazia, às vezes, brilhantes leads ou fechos. Prefaciava todas as edições do livro negro com a sua própria estimativa do fluxo do interrogatório, e geralmente acertava, assombrando o Presidente e seus colegas com sua sensibilidade incrível sobre o que se passava na cabeça de seus ex-colegas de imprensa. Para dizer a verdade, isso era fácil, com a ajuda de Marilee. Era o melhor emprego que jamais tivera, depois que tomara a decisão.

A Decisão era o dilema moral que lhe havia sido apresentado por Hennessy durante o interregno:

— Antes que você aceite o cargo, Smitty, quero que me diga como lidar com a seguinte situação: digamos que o dólar tenha de ser desvalorizado. Essa decisão precisa ser protegida. Qualquer anuência de que o governo está considerando a desvalorização impulsionará um maciço dumping do dólar por especuladores, e seria diretamente contrária ao interesse público. O Secretário do Tesouro, como tem acontecido desde os tempos de Alexander Hamilton, negará veementemente a desvalorização até o minuto em que for anunciada. Digamos que você me telefona e diga: “Hennessy, estão me perguntando se há alguma ideia de se desvalorizar o dólar; que devo responder-lhes?” Diga-me o que você quer que eu faça, Smitty Quer que eu diga: “É verdade, mas não lhes podemos dizer isso, você tem de negar a verdade? Ou preferiria que eu lhe dissesse para ir pra puta que o pariu, que isso não é da sua conta?

— Jamais conscientemente direi uma mentira — afirmara Smitty. Ele estava orgulhoso dessa posição, e algum dia teria de citá-la num livro. — Por que simplesmente não posso responder à pergunta sobre a desvalorização com esse comentário: “Não responderei a isso”.

— Mas isso estaria respondendo à pergunta. Nesse caso se você não nega, confirma, e o público sofreria.

— Então acho, Hennessy, que você teria o direito de me mandar pra puta que me pariu. Não negarei o que sei ser verdade; e fizesse isso uma vez, arrasaria com minha credibilidade e não seria mais útil ao Presidente.

— Você está gravando isto? — perguntara Hennessy, no seu jeito de engraçadinho. Smitty desejou tê-lo gravado. Era uma decisão crucial para um secretário de imprensa, e significava que Smitty não teria acesso a algumas das decisões-chave. Às vezes ele se perguntara se teria agido errado... que ele poderia ter feito mais pela causa da verdade se trabalhasse do lado de dentro, mesmo que isso significasse a rara mentira oficial... mas essa decisão fora há muito tempo atrás. Era inteligente o bastante para saber que Hennessy... e o velho e maneiroso Cartwright, que provavelmente sugerira a pergunta ao advogado... desde o começo tinha mexido seus pauzinhos para excluí-lo do círculo dos íntimos apesar das alegações do Presidente de que ele ficaria no centro. Que fosse assim; era melhor do que se torturar com complexidades morais. Smitty detestava parecer idiota, mas às vezes era mais inteligente parecer idiota do que venal.

Em seu escritório cheio de sol da Ala Oeste, bebericou o café e leu os telegramas da manhã antes da reunião das onze horas. Ele venceria a reunião da manhã porque não estaria de costas para a parede arrasando com perguntas, e, sim, dominaria desde o início com a declaração que faria. Puxaria o lóbulo umas duas vezes — era um sinal para que os cinegrafistas filmassem, pois a fala seguinte seria importante — e diria: “Senhoras e senhores, tenho uma declaração a fazer. O Presidente decidiu não fazer um discurso esta semana sobre sua saúde e sobre a atual situação internacional.

Pausa para resmungos.

“Ao invés disso, daqui a dois dias, na quarta-feira, no horário do leste de nove horas da noite, e pelo horário do Pacífico seis da noite, duas semanas depois da emboscada em Yalta, o Presidente terá uma reunião coletiva com a imprensa, televisionada diretamente da Sala Leste da Casa Branca.”

Isso mudaria o ambiente negativo de perguntas como “Quem o ajuda a vestir-se?” e “Há possibilidade de que ele entre em licença?” para um nível superior de perguntas tais como “Como é que ele se prepara para a reunião?” e “Quando é a volta oficial do Presidente ao trabalho?”

Ele então lhes apresentaria Hank Fowler. O terapeuta cego impressionaria favoravelmente, demonstraria alguns truques como ligar nomes a vozes — ele escutara algumas reuniões pelo alto-falante na sala do Secretário de Imprensa — e, anunciaria um “curso de orientação” de duas semanas, não apenas para o Presidente, mas para seus assessores em “organização auricular”, para que fosse possível governar o país com os olhos fechados. Smitty anotou essa frase. Se a reação pública à cegueira de Ericson pudesse mudar de um temor de terrível incapacidade para um tipo de jogo merecedor de comentários do tipo “Como conquistará ele esse obstáculo?”, as perguntas desagradáveis sobre incapacidade e renúncia seriam abafadas.

O artigo de Zophar que saíra de manhã no Post provocara vagas dúvidas na mente, e Smitty leu novamente, e com seriedade, sua coluna:

“Uma nação agradecida pela sobrevivência de seu Presidente de um encontro com a morte é também uma nação preocupada com a capacidade do Presidente de desempenhar os deveres terrivelmente complexos de seu cargo.

“Chegou a hora de perguntar: Não deve o Presidente, incapacitado no momento de dirigir-se ao povo, se afastar provisoriamente, segundo as provisões da Vigésima Quinta Emenda?

“Não é preciso que ele renuncie. É possível, como esperamos todos que recupere a visão, e logo esteja em condições de assumir sua conhecida e vigorosa liderança. Nesse interim, porém, enquanto ele se encontra tão patentemente incapacitado, e enquanto se adapta dolorosamente à escuridão exigida pelo destino, não é preciso que o Governo dos Estados Unidos fique paralisado. Depende dele ser o primeiro Presidente a se afastar temporariamente, para nomear seu companheiro de chapa na recente eleição como Presidente Interino enquanto ele se recupera ou se adapta, e depois — quando apenas Sven Ericson determine — reassume o cargo ao declarar-se apto a desempenhar seus deveres”.

A coluna de Zophar prosseguia para relembrar o episódio da longa enfermidade final de Woodrow Wilson, quando o país ficou sem líder eleito capaz de trabalhar. Sam Zophar gostava de exibir sua percepção da história, pensou Smitty, ao notar como o editor do jornal captara a sugestão e estampara fotos da Sra. Wilson — que dirigira o país da cabeceira do seu marido — e de Thomas Riley Marshall, o Vice-Presidente nascido em Indiana que jamais tivera a oportunidade de ascender ao cargo, e só era lembrado pela observação que fizera durante um áspero debate no Senado: “Este país precisa de um bom charuto de cinco centavos”.

Marilee Pinckney estava de pé em frente à escrivaninha do chefe, sem interromper-lhe as ideias. Ele fez-lhe sinal para sentar-se e indagou quais as perguntas que ela achava seriam feitas durante a reunião preparatória da coletiva com a imprensa.

— Ele vai usar óculos escuros?

— Esta é uma pergunta idiota.

Smitty gostava de fustigar Marilee, porque ela era rica, inteligente, bonita e tão segura de si que isso jamais parecia perturbá-la, e também porque ela estava muito de olho no emprego dele.

— Deus ajude este país depois que você me expulsar daqui — acrescentou Smitty. — Admito que você conhece bem a algaravia económica, mas este escritório começaria a distribuir notas sobre a ótima aparência do Presidente, de que forma foram preparados os ovos que comeu de manhã, e toda essa zorra. “Ele vai usar óculos escuros”? Nossa!

— Você está se esforçando para ser um chauvinista, mas não está conseguindo — disse Marilee. — A maioria dos homens o é, mas tenta não ser. Por isso é que todas as mulheres do sector de imprensa são suas escravas, Smitty.

— Foi você que as admitiu, não eu. Pensei que se você selecionasse no os colaboradores, teríamos alguns sujeitos inteligentes por aqui, mas tudo que conseguimos foi a escória de Vassar e Smith.[Entidade educacional feminina dos Estados Unidos, onde estudam as moças ricas.]

— Com tudo isso, o sector de imprensa é invejado por toda a Casa Branca. A propósito, Buffie me disse que ele vai usar óculos escuros.

Ela olhou para o relógio, que indicava cinco para as sete.

— Você quer me perseguir em redor da mesa ou quer aprontar-se para sua reunião?

Smitty admitiu que gostaria de persegui-la mesmo; ela, porém, não só era de uma geração diferente, como de classe social distinta. A única alavanca real que tinha no respeito dela por ele como executivo era seu respeito por ela como mulher executiva, e não estava pretendendo jogar tudo isso fora por causa de uma “cantada” que seria seguramente rejeitada. Ademais, ele esperava ansioso a reunião.

— Alguma notícia de Harry Bok? — perguntou ele. — Seria bom, para mostrar a consideração do Presidente.

— O Presidente falou com ele ao telefone — informou Marilee — logo depois que Harry saiu dos efeitos posteriores à operação. Isso foi ontem à noite. O prognóstico não é favorável. Abelson disse que o doutor lhe informou que Harry talvez fique paralítico da cintura para baixo, mas você ainda não deve divulgar isso: diga apenas que ele se está recuperando lentamente da extração da bala na coluna, e que ainda é cedo para se ter um prognóstico definitivo.

— Que merda! — exclamou Smitty. Ele não teria dificuldade em ocultar parte dessa história. Não estaria mentindo, apenas protegendo a privacidade de um paciente. Pegou o telefone e discou para Melinda McPhee no intercom para perguntar-lhe o que sabia da conversa do Presidente com Bok. Ela respondeu que não fizera a ligação nem a ouvira. Nos últimos dias o próprio Ericson estava fazendo muitos telefonemas.

— Nenhum telegrama especial esta manhã — disse Marilee, revolvendo uma pilha de notícias em papel branco da AP [nota: Associated Press.] e de papel amarelo da UP. [nota: United Press] — A inflação baixou para 9%, dizemos que isso não é o ideal, mas que é um progresso. Os números da balança de pagamentos serão anunciados hoje à tarde, e espera-se que mostrem a força dos Estados Unidos, apesar da compras de petróleo e cereais à China. Isso vai aborrecer o pessoal do Quarto Mundo, é bom você tomar cuidado com o assunto e encaminhar as perguntas para a Agricultura.

Smitty estava desligado.

— Sabe aquele relógio sonar que ele usa? — perguntou a ela. — Você gosta disso?

— É muito melhor do que uma longa bengala branca — replicou a moça. — Se der certo, contribuirá muito para eliminar a imagem de um homem cego. Mostra que ele é moderno, eletrônico, capaz de enfrentar seu problema, tudo isso.

Que é que você acha de um cachorro guia de cegos?

Marilee pareceu genuinamente chocada.

— É uma jogada óbvia para despertar simpatia. Não tem nada a ver com o Presidente Ericson. Espero que você não esteja falando sério.

— Eu não o sugeri. Sei que o chefe se zangaria. Mas não sei, os Presidentes sempre têm cães, e Ericson gosta deles. Parece errado não ter nenhum. Estou pensando num vira-lata.

— Um vira-lata?

— O seu avô, Marilee — recordou-lhe Smitty — o contrabandista de bebidas que enriqueceu, era um imigrante. Sim, minha cara, um vira-lata, sem pedigree nenhum. Apenas um cão inteligente, treinado pelo pessoal do Seeing Eye [nota: Organização americana que treina cães para servirem de guias a pessoas cegas.] para ajudar um Presidente. Num instante o cão ficará famoso.

— Se você está atrás da imagem da caneca de alumínio...

— Sei que tem seus aspectos negativos. Mas a engenhoca eletrônica também pode ter.

Ele saiu da poltrona. Ela “vazaria” para seu namorado que trabalhava numa rede de televisão que se estava pensando em dar um cachorro para andar com o Presidente, e isso era tudo o que Smitty queria por enquanto.

— Vamos, as estrelas estão brilhando.

As luzes de sinais na sala de reuniões da imprensa estavam piscando, chamando as mariposas para a chama.

— Fala era um Scottish terrier puríssimo — disse Marilee, caminhando pelo corredor — e os beagles de Johnson poderiam ter sido campeões! Liberty, o retriever dourado de Ford, popularizou ao máximo sua raça neste país por algum tempo.

Ele gostava de vê-la irritada.

— Acho que até Nixon tinha um setter irlandês. Smitty, sei que você está fazendo isso para me fazer pensar que raça é mais adequada, e se realmente um cão é o adequado, mas realmente...

Ela vazaria a informação como uma ideia que já tivesse sido rejeitada, supôs ele. Tanto melhor. Isso faria com que todos os proprietários de cachorros insistissem com suas raças.

— É melhor você se certificar de que todo mundo dê o melhor de si quanto ao livro negro — disse a ela, quase correndo. — Nunca foi tão importante. Não entendo como ele faz para guardar na cabeça as informações do livro, mas é melhor que ele tenha uma fórmula.

Na reunião das 11 horas, depois que Smitty anunciou que o Presidente daria uma coletiva, a primeira pergunta foi:

— Ele vai usar óculos escuros?

— Evidente — replicou Smitty; ele estava pronto para responder a isso.

— Haverá alguma limitação de assuntos?

— Nenhuma. O Presidente espera que as perguntas sobre sua saúde sejam feitas nos primeiros dez minutos, para que ele possa falar sobre muitos assuntos de política interna e externa. Mas se vocês não estão interessados no que vai pelo mundo, isso é com vocês.

— Ele tem conhecimento de que alguns membros do Gabinete andam comentando que ele vai abrir mão do cargo?

— Quais membros do Gabinete e que disseram? — Smitty não ia tolerar nenhum “jogador de verdes”. — Vocês sabem que não reajo a nenhuma história idiota cuja fonte desconheça.

— Ele consegue distinguir claro do escuro, ou vê tudo preto?

— Não tenho a menor ideia — respondeu o secretário. — Pergunte-lhe você mesmo, na quarta à noite.

A incipiente coletiva de notícias da presidência arrefeceu o porta-voz. Ele conseguiu esquivar-se das perguntas sem ofender, pois o alvo principal logo apareceria. Smitty abreviou a reunião, o que significava que as estações de TV teriam de usar sua declaração sobre a coletiva do Presidente como o principal tópico do noticiário noturno. Tampouco queria ter de responder a uma pergunta que certamente seria feita, se ele continuasse por ali:

— Isto quer dizer que o Presidente não está em condições de fazer um discurso?

Ericson não poderia discursar porque não poderia ler um discurso. Improvisar uma palestra de meia hora ao vivo seria tensão muito grande. Será impossível gravar pequenos trechos de cada vez, pois o objetivo básico da aparição na TV seria mostrar que o Presidente era capaz de lidar com a realidade.

Smitty trabalhou em cima do livro negro em seu escritório com Marilee durante umas duas horas, e depois foi até o subsolo, onde ficavam as acomodações residenciais do Presidente. Não levou o livro negro incompleto, pois Ericson gostava de receber o trabalho completo e Fowler, o terapeuta, estava preparando, com Melinda, um jeito de enfiar as perguntas e respostas na cabeça do Presidente. Quando ele entrou na Sala de Estar Lincoln, o funcionário de informações do Departamento de Defesa estava saindo, o que era bom.

— Eu disse a eles que o senhor usaria óculos escuros — informou ao Presidente. — Talvez seja melhor o senhor se ir habituando a usá-los.

Ericson apalpou o bolso do casaco e retirou os óculos. Smitty achou que Ericson parecia deprimido ou, pelo menos, não se estava esforçando em parecer alegre.

— Vamos ter muito trabalho para escrever o lead que queremos sobre isso aqui, Smitty.

Esta era a Regra Número Um das coletivas com a imprensa: sempre estar com o lead das notícias na cabeça, para não se estrepar ao lhes fornecer um lead que eles mesmos fizessem. O lead do entrevistado era uma boa notícia; o lead da mídia era má, arrancada do entrevistado ou o resultado de um escorregão ou de uma armadilha. Smitty não se deixaria absorver pela depressão do Presidente; o Homem tinha de se animar para sua entrevista.

— O senhor tem alguma boa notícia sobre seus olhos? Se houvesse algum jeito de se colocar a palavra “melhora” em sua resposta, isso seria ótimo.

— Eles continuam na mesma — disse Ericson gravemente.

O senhor só vê preto?

— Não, eu não diria isso.

O Presidente fez sinal para uma janela:

— Posso distinguir que lá existe uma janela, com uma mancha de luz, e consigo distinguir vagamente quando as formas se movimentam.

— Quer dizer então que o senhor não está totalmente cego?

Smitty fez com que seu entusiasmo transparecesse.

— O oftalmologista e os advogados dizem que estou totalmente cego. O facto de ser capaz de distinguir o claro do escuro não quer dizer que não se esteja cego.

— Espere um pouco. O senhor sempre pôde distinguir o claro do escuro, desde que acordou depois da emboscada?

— Claro, eu... bem, deixe-me ver.

Smitty esperou enquanto o Presidente pensava sobre o assunto.

— Na semana, passada — disse ele finalmente — tudo estava completamente preto. As cores eram realmente negras. Nos últimos dias, houve algum progresso. Nada dramático, mas devo dizer que é encorajador. Deixe-me mostrar-lhe.

Ele levantou-se.

— Leve-me daqui, depois me traga de volta, e faça com que eu me vire algumas vezes.

Smitty fez o que lhe pediram, e o Presidente ficou de frente para a parede, longe da janela. Ericson virou-se e apontou para a janela:

— A luz vem de lá.

Eis nosso lead: “Uma melhora”. O oculista sustentará essa afirmação?

— Claro que sim — disse firmemente Ericson — e Fowler também. Mais tarde vou discutir o caso com eles.

— É possível que algumas perguntas sejam muito pessoais — avisou Smitty. — Como, por exemplo, como é que o senhor se barbeia...

— O barbeiro da Casa Branca faz minha barba da mesma forma que antes.

Sua tensão crescia.

— ... como o senhor escova os dentes...

— Nossa mãe!

Ericson tapou os lábios com as mãos, como fazia quando ficava furioso.

— Essas perguntas são de sacanear! — disse finalmente o Presidente. — A última, então...

Ele tentou refazer-se.

— Vai-se ao banheiro — disse, num borbotão de palavras — e se derruba o copo com a escova dentro. Depois começa-se a tatear... em volta do copo quebrado no chão, para pegar a escova de dentes. Depois pega-se a pasta de dentes e pergunta-se se é mesmo a pasta, ou se é o tubo do xampu. Depois tenta-se espremer a bosta da pasta, se for mesmo a pasta, na pequena área que é a extremidade da escova de dentes, não se acerta e a pasta cai na pia. Então repete-se tudo, espreme-se a pasta na palma da mão, e com a escova se pega a pasta. Se há alguma vez em que alguém se sinta tão... inútil, é quando se tenta fazer uma porcaria duma coisinha automática como escovar os dentes. Dou graças a Deus por Fowler, ele me ensinou a escovar os dentes.

Smitty não sabia o que dizer, mas lembrou-se de alguns conselhos do terapeuta, e foi duro.

— O senhor está me fazendo chorar, Sr. Presidente. Agora me diga: quando um repórter, que está querendo vê-lo em pedaços, lhe perguntar como o senhor escova os dentes de manhã, qual será sua resposta?

Ericson respirou profundamente e respondeu docemente:

— No início é surpreendentemente difícil, Sr. Smith, mas após algum tempo pega-se o jeito e faz-se o serviço melhor que antes. Viu? — E fez uma careta com os dentes para fora.

— Eles vão querer saber sobre a validade das leis assinadas pelo senhor já que não está podendo ver o que assina.

— Isso também me preocupou — disse Ericson, continuando a usar sua voz especial para coletivas com a imprensa. — Graças, porém, à esplêndida colaboração dos poderes legislativo e judiciário do governo, acho que elaboramos um método que satisfará amplamente a lei.

Ele voltou a usar a voz normal.

— Cartwright diz que está tudo pronto. Sempre que eu assinar um decreto, será também assinado pelo Secretário de Estado, pelo Presidente da Câmara, e por um juiz federal, junto com uma declaração jurando que estiveram presentes quando o decreto me foi lido. Vamos conseguir alguém de gabarito para iniciar um processo judicial na primeira vez em que o fizemos, e levá-lo até o Supremo Tribunal. O Assistente do Procurador-Geral... um bom advogado mas não é político... diz que imediatamente se legislará a respeito, e que já são favas contadas.

Smitty observou que o Presidente já saíra do seu estado emocional.

— Devo falar com o Presidente da Câmara para consolidar o assunto — acrescentou Ericson, pegando o telefone e dizendo à telefonista da Casa Branca:

“Ligue-me com o Presidente da Câmara dos Deputados, Mortimer Frelingheusen, e ponha Melinda num ramal morto.

Essa chamada era formal e deveria ser registrada de alguma forma. Ele disse a Smitty:

— Graças a Deus que existe o Mort numa hora dessas. Ele é republicano e suas teorias económicas são antediluvianas, mas seu papel nas últimas duas semanas tem sido correto, e isso é mais do que posso dizer em relação a Bannerman.

O telefone soou:

— Mort? Estou aqui com Smitty trabalhando em algumas perguntas feias que me deverão ser feitas na coletiva com a imprensa quarta-feira.

Smitty pegou a extensão e deu a conhecer sua presença. Ericson disse:

— Primeiro, queria ter certeza de que você está conosco.

— O senhor vai ter uma boa votação — afirmou o Presidente da Câmara. — Muita gente quer certificar-se de que o senhor está compos mentis. [nota: Em perfeito gozo das faculdades mentais.]

— Quero agradecer-lhe pelo trabalho de contra-assinar os documentos. Sei que vai ser incômodo, e levará pelo menos umas duas horas por semana, mas talvez você possa delegar essa tarefa, após certo tempo.

— Não, terei prazer em sentar e escutar a leitura dos documentos em voz alta — observou o Presidente da Câmara em seu monótono tom de voz oriundo de Nova Jersey. — Pode ser até que abreviemos alguns deles, o que seria vantajoso. Aproveitando nossa conversa, Sr. Presidente.

Eram assim que Frelingheusen conduzia a maioria de seus assuntos; Smitty sabia que ele aproveitava o “rabinho” dos telefonemas dados por outras pessoas.

— ... a Comissão de Relações Internacionais e a Comissão de Defesa estão preocupadas com as violações no acordo de controle de armas sendo feitas pelos chineses e japoneses. Os dois têm vendido mísseis nucleares ao Zaire e à Uganda. Se os africanos os usarem contra a aliança árabe-israelense, estaremos todos com problemas. O Secretário de Estado continua na Rússia e o Secretário de Defesa nos tem evitado. Seria muito útil a nós se o senhor, na coletiva com a imprensa, fizesse uma declaração de que a administração irá incontinenti consultar o Congresso sobre o assunto, e não apenas o Senado.

— Quero ouvir o que o Secretário Curtice tem a dizer quando voltar de Moscou no fim da semana, Mort.

Ericson não queria conceder muitos poderes de fiscalização ao Congresso.

— Ele me informou que parece que Nikolayev vai assumir, e o serviço de informações deles é muito superior ao nosso, quando se trata do Extremo-Oriente. Posso declarar na coletiva que vamos consultar, se você fizer questão, mas não gostaria de estabelecer datas.

— Por que não dizer que o senhor pretende mandar seus homens aqui na próxima semana?

Ericson não estava em posição de resistir.

— Acho justa esta concessão, Mort.

Na verdade, não era uma grande concessão. Depois de uma calorosa despedida, o Presidente desligou.

— Cara durão — comentou com Smitty. — Está agindo como eu agiria.

— O senhor vai conseguir meter essas coisas todas na cabeça em dois dias, Sr. Presidente?

Normalmente o livro negro continha oitenta perguntas e respostas, que levavam de um a dois minutos cada uma, e incluíam informações logísticas sobre alguns assuntos sobre os quais o Presidente não sabia muito, como o socorro às vítimas das enchentes do Alabama. De todas as perguntas, apenas vinte seriam feitas na coletiva de meia hora com a imprensa, talvez até menos, se o Presidente divagasse nas respostas, Nunca se sabia, porém, as vinte perguntas que seriam feitas, por isto o Homem tinha de estar preparado para todas.

Ericson tirou os óculos escuros e os girou na mão.

— Não se preocupe, traga-me o livro negro lá pelas nove da noite. Fowler e Melinda vão gravá-lo e condensá-lo, e amanhã estudarei tudo umas três ou quatro vezes. Você vai ver como vou absorver tudo. Depois ensaiaremos como vou andar pela Sala Leste, como fiz para o meu casamento.

Ocorreu ao Secretário de Imprensa que o casamento do Presidente acabara em divórcio, mas ele disse apenas.

— É possível que a imprensa o ataque bastante, Sr. Presidente.

— Você acha que eles têm razão na sua má vontade, não é? E que mereço que eles sejam agressivos comigo porque não deixei que participassem dos acontecimentos após a emboscada.

Smitty foi cauteloso.

— Por que o senhor diz isso, Sr. Presidente?

— É fácil. Quando você está do lado deles, você os chama de “imprensa”. Quando está do meu lado, você os chama de “mídia”.

— É mesmo?

Smitty detestava ser tão transparente. Lembrava-se de que a Casa Branca, no início da década de setenta, mudara a nomenclatura de “conferência de imprensa” para “conferência de notícias” para transferir a ênfase da imprensa para as notícias que o Presidente originaria.

— De qualquer forma, o senhor saiu ganhando com um secretário de imprensa e não com um secretário de mídia.

— Suponho que sim — concordou o Presidente, e Smitty sabia que Ericson achava que o oposto era verdade.


O APARELHO DE TELEVISÃO

Os aparelhos de televisão da sala do Secretário de Imprensa são quatro, condensados em quatro grandes telas que ocupam quase uma parede, e transmitem simultaneamente o que ocorre em quatro redes de televisão. O som é controlado a distância, de onde se senta o espectador. Durante as coletivas de imprensa, os quatro reguladores de som ficam em volume baixo, pois o telespectador habitual está ausente, e seu escritório fica vazio. O Secretário de Imprensa pode ser visto nas quatro telas quando os diretores escolhem ir para o equipamento de pool que fica na Sala Leste da Casa Branca. Acompanhado por sua subsecretária, o Secretário de Imprensa fica de pé na plataforma, de frente para os quatrocentos repórteres espremidos em pequenas poltronas douradas, à vista para todas as tomadas de cenas, e fora de alcance para tomadas do pódio com o emblema presidencial.

— Senhoras e senhores, o Presidente dos Estados Unidos.

O som da voz do adido militar pôde ser ouvido nos quatro alto-falantes. As quatro telas mostraram os jornalistas se levantando enquanto o Presidente caminhava pelo corredor do meio, em direção ao pódio.

Sozinho, andando rapidamente, o Presidente deu dezoito passos para a frente, parou, deu mais um passo, fez uma meia curva para a esquerda, caminhou mais cinco passos para o degrau que levava à plataforma, e deu uma meia curva para a direita. Ainda sozinho, dirigiu o dorso do pulso para o chão. Os quatro alto-falantes começaram a murmurar variações da frase “O Presidente Ericson está usando seu relógio sonar para determinar a localização dos degraus”.

Ele subiu os dois degraus, dobrou à direita, deu quatro passos à frente, estendeu a mão à direita e tocou a tribuna. Segurou a plataforma de madeira com as duas mãos, e depois fez uma pose familiar à la Ericson, ao se apoiar na plataforma com um cotovelo, as compridas pernas cruzadas atrás, com um dedão no chão. Deu um grande sorriso e o pessoal da imprensa irrompeu em aplausos entusiásticos.

— Sentem-se, por favor — disse ele, como de hábito, e também como de costume apontou para o correspondente sênior das agências de notícias, sentado no centro da primeira fila.

— Senhor Presidente, o senhor tem direito a uma “facilzinha”. Aí vai: como se sente?

O Presidente sacudiu a cabeça e respondeu:

— Há sempre uma pergunta para a qual não se está preparado. Risos. Depois, seriamente, a imagem estampada nas quatro telas disse:

— Fisicamente, sinto-me bem. Os galos e os ferimentos estão praticamente curados. Emocionalmente, começo a me adaptar ao choque... porque é um choque... de não poder ver. Preciso absorver informações através dos ouvidos e não dos olhos, e isso demora um pouco para que a pessoa se habitue. Mas eu me arranjo.

“Quando você me pergunta como me sinto, devo dizer-lhe como estou pesaroso com a tragédia de dois outros homens. Do Secretário- Geral Kolkov, o corajoso homem que arrastou o corpo ferido até mim e que me salvou a vida enquanto perdia a sua. E de Harry Bok, do Serviço Secreto dos Estados Unidos, que absorveu estilhaços que me eram dirigidos. Falei com Harry num hospital de Yalta ainda há pouco, e com o cirurgião que o operou, e as perspectivas não são boas... é possível que as pernas dele fiquem paralisadas. Portanto, quando penso no Secretário-Geral Kolkov, e em Harry Bok, não consigo ter pena de mim mesmo.

Os habituais pulos, acenos e gritos para despertar atenção para a pergunta seguinte não ocorreram desta vez. O pessoal da imprensa havia evidentemente resolvido adotar um processo mais disciplinado, e o correspondente júnior das agências de notícias perguntou:

— Sr. Presidente, qual a última notícia sobre as condições de sua visão?

O homem de óculos escuros no pódio virou-se ligeiramente na direção da voz e replicou:

— É possível que eu tenha algumas prudentes notícias boas a esse respeito. Quando recuperei a consciência, não conseguia ver nada: tudo era preto, com algumas variações escuras. Mais ou menos a partir da última semana, comecei a ser capaz de distinguir a diferença entre claro e escuro; por exemplo, consigo ver uma forte fonte de luzes naquela direção, onde a iluminação da televisão costuma ficar. Isto, porém, não é garantia de que meus olhos estejam quase bons. De qualquer modo, me dá esperanças. Eu diria assim: no momento estou oficialmente cego... usemos a palavra cruel, cego... porém minha visão parece estar melhorando.

— O senhor não acha que seria no melhor interesse da segurança nacional que o senhor se afastasse temporariamente, sob as provisões da Vigésima Quinta Emenda, até ser capaz de desempenhar integralmente seus deveres?

— Não — respondeu o Presidente. Não disse mais nada, e houve uma pausa. A câmara focalizou o rosto do Secretário de Imprensa e de sua subsecretária, que estava séria.

— Continuando... e com todo o respeito por sua coragem, senhor... não acha que sua cegueira desafia sua capacidade de servir?

— Não. Muita gente achava que eu não podia dar conta do recado quando eu podia ver.

A meia piada não obteve reação.

— O senhor nos pode dizer como sabe o que está assinando?

O Presidente estava evidentemente pronto para esta pergunta e demorou-se em pormenorizar o procedimento das duas assinaturas, elogiou o Presidente da Câmara Frelingheusen e disse esperar que a norma fosse logo aprovada pelo Supremo Tribunal.

— Senhor, julga que o Vice-Presidente daria um bom Presidente Interino? O senhor confia nele?

Apanhado na rede, o Presidente tirou os óculos um momento; as telas mostraram instantaneamente um intenso close-up de seus olhos, que pareciam normais, e depois os colocou novamente.

— Tenho toda a confiança no Vice-Presidente. Como afirmei ao escolhê-lo, se eu morresse ou ficasse incapacitado durante minha gestão, ele poderia perfeitamente assumir. Acontece, porém, que não morri nem estou incapacitado.

A câmara do pool focalizou algumas das expressões perturbadas dos repórteres. O Secretário de Imprensa olhava para o chão.

— Há alguns assuntos bastante importantes ocorrendo no país e no mundo — disse o Presidente. — Se os senhores estão preparados para fazer perguntas sobre outros assuntos, eu as responderei agora.

O próximo inquiridor, um cavalheiro grisalho do Christian Science Monitor, disse, em sua voz conhecida:

— Nós não lhe dizemos quais deveriam ser suas respostas, Sr. Presidente, e não creio que o senhor deva dizer-nos quais deveriam ser nossas perguntas. Minha pergunta é: qual é sua definição da frase “incapacidade de exercer os deveres de seu cargo”? Segunda pergunta:...

— Uma de cada vez — retrucou o Presidente. — Se você quer uma definição legal, estou certo de que o Procurador-Geral pode prepará-la. Mas da forma como o entendo, o Presidente é eleito pelo povo, que nele confia para decidir sobre sua capacidade ou incapacidade, e eu já resolvi isso. Próxima pergunta.

— Segunda pergunta — continuou a voz — o senhor já considerou seu afastamento como uma opção, ou desde o começo eliminou essa hipótese?

— Não é de minha filosofia ignorar enfermidades, Sr. Harley, nem buscar sua cura ao fingir que ela não existe. Pensei no afastamento como uma opção e a rejeitei, e isso já não me ocorre mais. Vamos olhar para a frente.

A câmara captou um instantâneo da reação do Secretário de Imprensa balançando a cabeça. As quatro telas exibiram o sacudir de cabeça de James Smith quanto à depreciação presidencial das perguntas do Christian Science.

— O senhor está preocupado que a venda de mísseis nucleares pelas potências do Extremo-Oriente às nações africanas seja uma revogação unilateral dos acordos de controle de armas?

A tela mostrou o Presidente endireitando os ombros e demonstrando alívio por ter de responder a uma pergunta sobre política externa.

— Como sabe — informou — uma das principais razões de minhas reuniões com o Secretário-Geral Kolkov era explorar nossa mútua reação ao armamento do Quarto Mundo pelas potências do Extremo-Oriente. Creio termos tido uma proveitosa troca de ideias sobre o assunto. O Secretário de Estado Curtice permaneceu na União Soviética para descobrir o que pensa a liderança atual sobre o problema. Uma guerra entre o Terceiro Mundo do Oriente Médio e o Quarto Mundo da África e da América Latina poderia muito rapidamente se espalhar até as alianças das duas superpotências. O problema fundamental da década de oitenta é evitar isso.

“O Presidente da Câmara dos Deputados, Frelingheusen, me tem solicitado enviar o Secretário de Defesa à Câmara para testemunhar sobre as vendas de armas para... bem, a Nigéria, e eu lhe assegurei que sua solicitação será atendida no final da próxima semana.

O Presidente espichou-se para pegar um copo dágua numa mesa próxima à estante. A câmara mostrou que sua mão mexeu-se quarenta e cinco centímetros desde o canto da mesa de feltro verde pela beira, depois trinta centímetros para o centro da mesa, até pegar confiantemente o copo. Houve um close-up do copo dágua indo até a boca do Presidente, e depois sendo devolvido à pequena mesa. A mão de Ericson soltou o copo e retraiu-se, mas seu relógio sonar prendeu no feltro, puxou-o, e o copo se espatifou no chão. A câmara permaneceu em silêncio, mostrando o copo quebrado.

— São as pequeninas coisas que acabam com a pessoa — gracejou o presidente. - Próxima pergunta.

Perguntas sobre o país dominaram os próximos dez minutos da conferência. Ericson as respondia de forma meio insegura, mas suas respostas duravam noventa segundos e ele terminava todas com um fecho decorado. Após o “Obrigado, Sr. Presidente” vindo do repórter da agência de notícias, as telas exibiram um súbito clarão, e depois escuro; uma lâmpada antiquada se queimara em cima do Presidente, e causara uma reação nas lentes sensíveis.

— Isso veio dali — disse o Presidente, meio fora do microfone. — Passei no teste de vocês?

O som colheu alguma amargura em sua voz enquanto ele tentava alcançar o degrau com o pé, desceu os dois degraus da plataforma, e abriu caminho — acompanhado, desta vez, pelo Secretário de Imprensa e por dois agentes do Serviço Secreto — através da multidão, até sair da Sala Leste.

Os sons do aparelho de quatro telas se misturaram: “Após um bom começo, o desempenho do Presidente nessa crucial coletiva com a imprensa decaiu muito... descontando-se a tensão em que ele se achava, sua disposição estava quase belicosa, diferente do homem gentil e espirituoso que conhecíamos. Ele agora é um homem irascível e algo amargurado, que nunca havíamos visto... O erro mais óbvio foi confundir o país que recebeu os mísseis nucleares da África, certamente não a Nigéria, a menos belicosa das nações do Quarto Mundo... embora francamente eu não possa culpá-lo por mostrar-se irritado quando um fotógrafo quebrou as normas da coletiva para fotografar-lhe o rosto. O Presidente interpretou o gesto como uma prova ofensiva de que ele não dizia a verdade, após haver afirmado que podia distinguir o claro do escuro, mas, sinceramente, não pensem que o modo pelo qual ele realmente passou na prova significa que ele ganhou um ponto. .. a verdade é que o ambiente de solidariedade logo se transformou em um clima de hostilidade, fosse de quem fosse a culpa...“

Uma hora mais tarde, quando uma secretária apagou as luzes e os aparelhos de TV da sala, o murmúrio cessou e as imagens se transformaram em quatro pontinhos brancos que logo desapareceram.


O CONSELHEIRO ESPECIAL /2

Hennessy irrompeu no escritório de canto de Cartwright após a conferência com a imprensa da forma que ele se recordava que o Segundo-Tenente Pulver abrira com estardalhaço a porta da cabina do comandante na última cena de Mister Roberts.

Smitty lá estava, junto com Melinda e Fowler, ambos deprimidos, e o Secretário de Imprensa dizia:

— Ele estragou tudo. Estava com tudo nas mãos e estragou tudo.

Hennessy sabia que não deveria falar. Ter um acesso de raiva quando isso servia a um objetivo era uma coisa; explodir por causa de uma satisfação pessoal ou sem nenhuma razão, era outra. Sentou-se e escutou a “lavagem de roupa suja”.

— Eles não fizeram nenhuma pergunta que não estivesse no livro negro insistiu Smitty. — Eu mesmo as revisei. Melinda as registrou. Fowler as condensou e enfiou na cabeça de Ericson diversas vezes. E ele as sabia de cor: eu o escutei relembrá-las hoje à tarde. Que droga deu nele?

Lucas Cartwright ignorou a pergunta direta e disse a Fowler:

— Ele certamente se movimentou dentro e fora da Sala Leste e até a plataforma, com grande autoridade, graças a você. Isso foi notável, Hank.

— Meu coração afundou quando escutei o copo quebrar replicou o terapeuta. — Eu juraria que ele estava pronto para isso.

— Não foi culpa sua — disse o chefe da Casa Civil — nem dele. Acidentes acontecem. Para compensar, tivemos o incidente da lâmpada. Nada do que pudéssemos ter dito teria ilustrado mais dramaticamente a tese de que o Presidente pode ver uma fonte de luz.

— O sacana — disse o Secretário de Imprensa, mudando de alvo — ele fez aquela lâmpada explodir só para ver se o Presidente estava mentindo. Vai passar muito tempo para aquele fotógrafo voltar a fazer parte do pool da imprensa...

— Acho que a tensão foi excessiva — disse Melinda McPhee. — Sabíamos que ele sempre conseguia amansar a imprensa, e por isso supusemos que o faria de novo. Foi um erro deixar que tentasse tão depressa: ele ainda não pode estar seguro de si.

— Não é mais do que isso, Melinda.

Pareceu a Hennessy que Smitty estava agindo como se fora um espectador de fora, num velório.

— Aquela investida contra o sujeito do Christian Science Monitor foi muito feia mesmo, nunca vi Ericson fazer isso antes. E aquele fora sobre a Nigéria, aquilo não foi distração, não, ele tinha confundido os factos todos. Hennessy, suponho que você ache que seu garotão de olhos azuis fez tudo certo hoje.

— Eu vi pela televisão disse Hennessy lentamente. — Não estava na Sala Leste. E nunca na vida assisti a um desempenho mais nojento e desleal de um Secretário de Imprensa.

— Escute aqui, Mark — começou Cartwright, mas Melinda interrompeu o chefe da Casa Civil dizendo:

— Não fale assim com ele; ele está certo. Smitty foi pior que o Presidente.

— Toda a vez que o Presidente errava — continuou Hennessy — a câmara focalizava você, Smitty, e você lhe dava o que eles queriam: balançava a cabeça, olhava para o chão com expressão de desgosto, etc. Você encenou um grande espetáculo, meu chapa. Salvou mais uma vez sua credibilidade, e enfiou uma faca nas costas do Presidente.

— Isto é mentira.

— Faça com que passem o tape, para você — disse Hennessy, conservando a voz baixa. — Vai ver como você parecia, como a mídia o usou para enfatizar cada engano. Não entendo por que você não foi lá e sacudiu o Presidente para fora da plataforma.

Smitty olhou para Cartwright em busca de socorro, mas este deixou que Hennessy prosseguisse.

— Galinha vai ter dentes, Smitty — continuou Hennessy. — Antes que você apareça de novo em rede nacional na TV, para bancar o bacana e proteger o próprio rabo. De agora em diante, sua assistente pode ficar lá; ela, pelo menos, sabe manter um rosto impassível. Você pode assistir à coletiva naquele espalhafatoso aparelho de TV da sua sala em todas as telas, e pode resmungar à vontade, para deliciar seu coração em particular.

Cartwright meteu-se na conversa.

— Vamos estudar as formas de suavizar os danos. O fora com o sujeito religioso me parece ser o primeiro tópico a ser tratado.

— Se você quiser uma nova secretária de imprensa — disse Smitty contendo a raiva crescente — ela está aqui, prontinha para assumir.

— É bem de você, abandonar agora o navio — disse Hennessy, mudando de direção. — Você alguma vez pensa em outra reputação que não a sua?

Chega, Hennessy — interrompeu-o Melinda bruscamente. — Você já disse o que queria, agora chega. Vamos continuar.

O advogado notou que Fowler, sentado num canto, aceitava tudo isso sorrindo ligeiramente, com a bengala de lado. A cena devia parecer-lhe um programa de rádio dos idos de trinta.

— A coletiva vai ser comentada nas edições dos matutinos disse Smitty, relanceando um olhar para Hennessy — e não haverá tempo para editoriais a respeito. Os colunistas só deverão escrever sobre o assunto daqui a dois ou três dias. Os noticiários noturnos de amanhã serão o primeiro lugar para a reação principal, por isso temos de fazer algumas coisas sobre as quais eu possa falar na reunião de amanhã com a imprensa. E precisamos também arranjar algumas reações amistosas, para que os comentários da TV não sejam todos sobre o tema de que o Presidente não consegue enfrentar sua cegueira.

— Por que o Presidente não convida o cara do Monitor para uma entrevista exclusiva no final da semana? — sugeriu Melinda. — Ele pode fazer isso logo de manhã, e na sua reunião, Smitty, você pode suavizar a investida do Chefe contra o fulano. Vou fazer com que o Chefe dê esse telefonema. Os problemas religiosos são ruins, e precisam ser imediatamente justificados.

— O fora da Nigéria — disse Cartwright — foi apenas um lapso. É claro que ele queria dizer Uganda. Quantos americanos vão condenar um homem porque ele substitui Nigéria por Uganda? As duas nações ficam no mesmo continente e tudo.

— Assuma um enfoque diferente com aquele fotógrafo que fez explodir o flash — sugeriu Hennessy. — Diga ao pessoal da imprensa que você gostaria de uma ampliação da foto para a sala de imprensa, pois ela prova nosso ponto. Se houver uma foto, provaremos que estamos tranquilos com a história toda, e se não houver, todos saberão que aquele porra-louca sequer tinha filme na máquina.

— Srta. McPhee — disse Cartwright — gostaria de pedir desculpas pela linguagem usada por alguns dos meus colegas em presença de uma dama. Eles devem estar sob grande tensão.

— Isto é uma humilhação, Lucas. Não me importo absolutamente. Isso prova que eles me consideram “um deles”.

— Eu nunca pensarei em você como “um deles”, Melinda.

Hennessy admirou a forma pela qual o chefe da Casa Civil estava conseguindo desanuviar o ambiente com seu exagerado charme.

— Smitty — continuou Cartwright — acha que seria possível que sua subsecretária engabelasse seu inamorato, que trabalha para a televisão, para que ele solicite uma declaração do Presidente da Câmara amanhã?

— Que ela engabelasse o seu o quê?

— O sujeito com quem ela tem trepado — traduziu Hennessy. — Aquele de quem você tem ciúmes.

— Vou conseguir com que isso seja feito — disse o Secretário de Imprensa. — Vai se bom obter uma firme declaração de Frelingheusen. Aquela gafe de política externa realmente preocupa; eles poderiam mesmo cair em cima do Chefe por ter errado o nome do país.

— Esta é a única administração — anunciou Hennessy — em que um confronto de olho a olho é impossível.

Essa observação arrancou um resmungo até mesmo do amável Fowler.

— Você não gosta de humor negro? — perguntou-lhe o advogado. — Você é racista?

O telefone tocou, e uma luz nervosa indicou que o chamado era do Presidente. Cartwright atendeu e respondeu:

— As nossas reações são as mais variadas. Smitty preferia que o senhor tivesse seguido a imorredoura lengalenga do livro negro. A referência a Kolkov e Bok foi muito boa. Sobre política externa, Hennessy acaba de fazer a piada de maior mau gosto que já escutei em todos os meus anos de funcionário federal, e estou certo de que ele mesmo vai querer repeti-la para o senhor.

O chefe da Casa Civil escutou um pouco, e depois inseriu suavemente suas objeções:

— Suas observações ao jornalista do Monitor certamente serão o principal assunto em todas as salas de leitura da Christian Science (Ciência Cristã) [nota: Religião.] através do país, Sr. Presidente. Talvez o senhor queira fazer algo para suavizar essa reação.

Ele escutou e depois, satisfeito, assentiu com a cabeça para Smitty:

— Vou dizer a Smitty que combine isso para sexta-feira, e que informe a imprensa sobre o caso amanhã de manhã.

Pausa.

— Acontece que a Sra. Cartwright assistiu à coletiva durante um jantar ao qual compareceram os Bannermans, e vou saber o que o secretário disse. Foi um dia longo, senhor, por que não toma um copo de leite quente e vai para a cama?

Ele escutou os comentários finais do Presidente, e disse apenas:

— Tome um copo disso, então — e desligou.

— O líder do mundo livre gostaria de vê-lo em sua sala de estar antes de dormir — disse Cartwright a Hennessy, e depois virou-se para Melinda:

— É verdade que ele vomitou em cima da senhorita na última vez em que tomou um copo de leite quente?

O conselheiro espacial do Presidente precipitou-se pela Ala Oeste, atravessou as colunatas da residência, cumprimentou Buffie, a fotógrafa, com a cabeça, que passou silenciosamente por ele no vestíbulo — o que o surpreendeu, visto que ela sempre o cumprimentava alegremente — e continuou até a Sala de Estar Lincoln.

— Você arruinou tudo — disse Hennessy ao Presidente quando entrou na sala, esbaforido — seu sacana idiota, você arruinou tudo.

— Eu sei — disse Ericson. — Deixe de me “consolar”, sim?

— Você os tinha comendo na sua mão quando subiu lá. Tudo que precisava fazer era ser você mesmo. Que foi que lhe deu?

Hennessy sabia que não teria sido chamado se o Presidente não desejasse uma avaliação franca, e até brutal. Ele era a própria imagem da frieza, com os pés cruzados languidamente no escabelo à sua frente, condescendente com um pouco de autocrítica de seu alter ego. Hennessy pensava que indiferença era ótimo, mas Ericson às vezes exagerava.

— Você fica aí sentado — repetiu a frase — olhando pela vida através de uma retina descolada.

— Foi essa a piada que Cartwright julgou de mau gosto? Não é má. De qualquer forma, não é de mau gosto.

— Fui muito duro com Smitty por ele ficar balançando a cabeça cada vez que você fazia uma besteira. As câmaras o pegaram fazendo isso. Talvez seja bom você dizer-lhe que não tem importância, que eu sou superprotetor.

— Vou fazer isso — concordou Ericson com a cabeça. — Qual foi meu pior erro?

Era difícil começar. O Presidente já sabia todos os enganos que cometera.

— O pior foi que você não se controlou. O verdadeiro Presidente Ericson jamais se irrita, jamais perde o senso de humor, nem seu estilo. Quem foi que eles viram, porém? Um sujeito cego que se ofende à toa, e censura asperamente. Isso foi o pior.

— É — disse Ericson. — Droga!

— Olhe, ainda não discutimos algo.

Hennessy estivera esperando o momento certo para desfechar uma pergunta cruel contra seu cliente.

— Esqueça tudo o que aconteceu antes, ou o que poderia acontecer se alguém descobrir. Eis a pergunta crucial: Você acha que está agindo certo?

— Agindo certo em quê?

— Em não renunciar, pelo amor de Deus. Você pode dar conta do recado?

— Como diabos vou saber, Hennessy? Nunca fui Presidente antes. Você tem certeza de que vai ser um grande conselheiro íntimo?

— É o que estou sendo agora.

Hennessy achou que seria melhor adoçar um pouco a pílula.

— Estou sentado numa saleta abrilhantada pelo espectro de Abraham Lincoln. Estou falando com o quadragésimo primeiro Presidente dos Estados Unidos, que deve ter desfrutado de uma das reações negativas mais rápidas na história dos Estados Unidos após uma coletiva com a imprensa. E aventei o assunto de moralidade com M maiúsculo, e perguntei se ele, no fundo do coração, acredita ser capaz de desincumbir-se de seus deveres do cargo. Para que outra droga serve um conselheiro íntimo?

Ericson sorriu.

— Você se encontrou com Buffie?

— Ela estava com uma expressão radiante: conspiratória, mulheril, satisfeita, aturdida.

Na verdade, ela parecia preocupada ou zangada, mas Hennessy se podia dar ao luxo de lisonjear seu cliente de longos anos.

— Sven, você ainda é um bom esgrimista, mas continua a ser um estadista?

— Está certo — disse o Presidente, sério. — Vamos discutir os prós e os contras. Primeiro os contras.

— Isto quer dizer que os prós vão vencer — predisse Hennessy.

Certíssimo, mas pensei demoradamente no assunto. Os contras são, primeiro, que estou substancialmente menos capaz de fazer meu trabalho do que estava antes. Ninguém, incluindo eu mesmo, sabe em que porcentagem, nem vai saber por algum tempo.

“Segundo, as potências do Extremo-Oriente poderiam interpretar que minha cegueira significa que nosso governo está paralisado, incapaz de reagir rapidamente a uma retaliação de poder. Portanto, não interessa se sou capaz ou não de desincumbir-me de meus deveres: se os sino-japoneses acham que não posso, é tão perigoso como se eu realmente não pudesse. Este é o maior argumento contra a minha permanência.

“Terceiro, existe o problema psicológico do país. O povo americano quer um líder, uma pessoa forte e confiante ao leme, alguém que possam criticar e que não desmorone por causa disso. Um homem cego ou aleijado não pode ser isso: na era da televisão, nem mesmo FDR escaparia impune, pois seria visto e lamentado. Isso é mau para o líder e para os liderados.

“Quarto... bem, esqueci o quarto — disse irritado o Presidente.

— Cite-me um outro ponto contrário.

— É simples: você vai passar tanto tempo aprendendo a enfrentar a cegueira, que não terá tempo para dirigir o país. Isto significará má administração, oportunidades perdidas, enganos, possível que você venha a ser, relativamente, um péssimo Presidente.

— Este é o quarto argumento negativo — concordou rapidamente Ericson — Vamos aos positivos. Primeiro, nunca é sensato tomar grandes decisões apressadamente. Será que serei capaz de enfrentar minha cegueira, de desincumbir-me de meus deveres? Quem sabe? Talvez eu seja. Minha coletiva à imprensa foi ruim... talvez eu me saia melhor da próxima vez. Daqui a um mês, veremos. Mas não podemos dizer isso, porque é uma demonstração de fraqueza, e todos se divertiriam tentando adivinhar como será a vida na futura administração. Eu quero tomar essa decisão, não quero que a tomem por mim.

Então Ericson deseja agir como se não houvesse possibilidade de seu afastamento — pensou Hennessy, desde que ele não se esteja enganando. Em Washington, as possibilidades assumem vida própria, tornam-se probabilidades e depois certezas, através da combinação de esperança, pavor e comunicação em massa.

“Segundo — continuou Ericson — esse negócio de ‘afastamento’ é um monte de besteiras. Quando se sai, se sai: ninguém poderia dirigir o país com os homens de outras pessoas, sem poder planejar para o ano próximo e a ideia de voltar ao poder quando a pessoa se julgar capaz só provocaria muitos danos no centro. Grandes discórdias, brigas do Gabinete e incerteza sobre quem estaria responsável e por quanto tempo. Isso é perigoso, isso é que é a verdadeira paralisia. “Afastamento” como disse Zophar, “é uma forma polida de dizer saia daí para sempre”.

“Terceiro, você está anotando, Hennesy? Faça-o, por favor. A presidência não é um cargo que se abandona apressadamente. Quando isso acontece, ocorre a instabilidade. Quando se é eleito, é para suportar todas as consequências, e uma vez que o povo se convença de que os Presidentes de que não gosta, ou que ache que não esteja fazendo um bom trabalho, devem renunciar, o período de quatro anos começa a desmoronar. A não ser que ele esteja absolutamente certo de que ficará incapacitado por muito tempo, sem poder realmente trabalhar durante longo período, o dever de um Presidente é permanecer no cargo.

“Quarto, e este é um argumento prático: acontece que temos um Vice-Presidente que é um simpático imbecil. Ele não foi escolhido porque seria um bom Presidente, e sim porque seria um bom Vice-Presidente. Essa escolha não foi minha, foi do partido, especialmente de Bannerman. Funcionando com vinte por cento de minha capacidade, eu seria melhor Presidente do que Arnold Nichols funcionando com cem por cento da dele.

Hennessy concordou que isso era verdade.

— Quinto: há uma porção de gente portadora de defeitos físicos neste país que está esperando que...

O Presidente parou quando Hennessy começou a cantarolar Hearts and Flowers. [nota: Canção piegas.]

— Está certo, só usarei esse argumento se for preciso.

“Sexto, ou quinto, ou sei lá eu o número... e, Hennessy, não escreva isso... quero ser Presidente. Foi dificílimo chegar aonde estou. Perdi minha visão porque sou Presidente; o cargo me deve alguma coisa. E não vai ser tão duro ser cego, se você conseguir imaginá-lo, desde que eu tenha o cargo mais importante do mundo. Sei que isso é egoísta.

— Não é egoísta — interrompeu Hennessy — é irrelevante. O que acontece a você não deve fazer parte de sua decisão. Que diabo é você, um homem ou um Presidente?

— Quero ser Presidente.

— Então pare de agir como ser humano. Você é o Chefe de Estado; pode até enfrentar decisões como quem deve morrer e quem deve viver. Você toma suas decisões por razões de Estado, e se isso significar a eliminação de uma cidade ou sua infelicidade pessoal pelo resto da vida, é irrelevante.

O Presidente ficou calado um pouco. Quando falou, pilheriou:

— Você acha que FDR teve de tolerar esse tipo de besteiras de Harry Hopkins? Ou Wilson do Coronel House?

Hennessy entendeu a insinuação para se refrear.

— Nós, conselheiros íntimos — disse ele — preenchemos as funções de bobo da corte. Podemos dizer tudo, desde que o façamos sorrindo.

— É disso que eu preciso, de um bobo da corte sincero. Ninguém por aqui tem senso de humor. Você é um bom conselheiro íntimo, Hennessy, mas é um chato quando se trata de rir. Está bem, que é que você acha?

Hennessy tentou ser imparcial, lembrando de sua própria parcialidade por querer que seu amigo fosse Presidente e por querer ele mesmo permanecer no centro da acção.

— No lado negativo, você tem razão: o aspecto mais sério é a tentação que os sino-japoneses sentirão em testar um ponto fraco. E você omitiu que está no início de sua gestão: três anos e meio é muito tempo para brincar de cabra-cega.

Olhou para sua relação, perguntando-se como Ericson poderia visualizá-la.

— No lado favorável, você enfatiza excessivamente a estabilidade e o período de quatro anos. Não acho que isso tenha tanta importância. Lembre-se da renúncia de Nixon: a presidência não é tão débil assim. Isto é um ponto de venda, não de decisão.

— E a comparação com Nichols? Com Bannerman dando as cartas?

— Esse é um bom argumento para decisão, mas não para convencer. Na minha opinião, o argumento mais positivo é que não há pressa em se tomar uma decisão irrevogável. Nenhum Presidente decide nada antes que isso seja imprescindível. Como sabemos que a sugestão de “afastamento” é embromação, devemos adiar a decisão até todos os factos se definirem. Quem sabe, daqui a umas duas semanas, talvez uns dois meses.

O Presidente se tranquilizou e resvalou na cadeira.

— Você julga que essa teoria seja sensata e honesta? Detestaria apoiar um slogan como “Deixemos a poeira assentar”.

— Você se surpreenderia com a reação a isso — disse-lhe Hennessy, já agora o advogado substituindo o juiz. — “Vá com calma” tem certa atração. O ónus de arregimentar apoio não é seu, pelo menos ainda não. Se Bannerman tentar forçar... digamos putsch, [nota: Em inglês: push, trocadilho com putsch, que em alemão significa tentativa de derrubar um governo.] que tem interessante conotação nazista... obrigue-o a definir totalmente sua tese, antes de começar a derrubá-la.

— Não terei mais acessos de génio — prometeu Ericson. — Vou “passar a conversa” no repórter do Monitor de forma jamais vista por você. Consiga-me informações sobre Brigham Young.

— Esse foi o dos mórmons — disse Hennessy, sem saber se o Presidente brincava. — Vou conseguir-lhe informações sobre Mary Baker Edy, a fundadora do movimento da Ciência Cristã.

Diga-me, porém, uma coisa: como é que você e Buffie conseguiram que aquele fotógrafo explodisse uma lâmpada no seu rosto?

Alegremente, Ericson atirou um chinelo na direção de Hennessy, e o conselheiro do Presidente fingiu ter sido atingido. Após despedir-se e ir embora, ocorreu a Hennessy, no vestíbulo, que deveriam planejar o acompanhamento das informações que Cartwright receberia de sua esposa sobre a reação de Bannerman. Ele girou nos calcanhares e voltou para encontrar o Presidente ao telefone, com aparência triste, que dizia:

— Está certo de que discou o número certo, Herb? Onde diabos ela poderia estar? Quem a viu depois que ela saiu daqui? Hennessy disse que a encontrou no vestíbulo, e ela parecia radiante.

O conselheiro virou-se silenciosamente e partiu.


O REDATOR DE DISCURSOS /1

A razão pela qual Buffie não pôde ser encontrada é que estava passando a noite no apartamento do redator júnior de discursos do Presidente, Jonathan Trumbull.

Ela aparecera no apartamento dele havia umas duas horas antes e anunciara:

— Você está me paquerando há meses, e chegou sua grande oportunidade. Quero passar a noite com você. Há mais alguém no apartamento?

Aconteceu que não havia. Ele quis escrever um memorando sobre a coletiva com a imprensa, e em rápida sucessão houve um drinque, um selvagem primeiro beijo, um rasgar de roupas, e um ataque de prolongadas acrobacias sexuais que desde a adolescência ele não experimentava. Depois, houve lágrimas da moça, suas revelações, a atitude apaziguadora do rapaz, e agora ele estava deitado na cama, com os travesseiros empilhados de forma a que pudesse olhar pelas janelas do Columbia Plaza no Kennedy Center. Tentou ordenar tudo, numerando os itens como fazia Ericson.

Primeiro: tenho vinte e sete anos, e este é meu primeiro emprego depois que me formei. Dois: acabei de trepar com a amante do Presidente. Três: estou a caminho do desastre.

O panorama não era agradável. Jonathan tentou novamente. Um: sou um redator de discursos de terceira categoria, e até recentemente passava a maior parte do tempo escrevendo bobagens sobre superficialidades da Casa Branca. Dois: ultimamente, minha carreira tem progredido grandemente porque os outros dois homens mais velhos e infinitamente mais experientes que escrevem para Ericson lhe têm fornecido coisas que julgavam que ele pudesse utilizar, enquanto eu lhe venho fornecendo exatamente o que sei que ele quer. Embora isto tenha feito com que o resto do grupo de pesquisa e redação me apelidasse de “Peixinho do Chefe”, significa que subitamente me tornei o redator favorito do Presidente. Três: o facto de que agrado ao Presidente me fornece uma visão resumida de como se faz a história deste país, exatamente como eu esperava quando Ericson se lembrou de um aluno de primeiro ano que tivera aulas de economia com ele, e que escrevera uma defesa apaixonada das teorias de David Ricardo, e mandou me buscar para ser membro do seu quadro de auxiliares. Quarto: o Presidente Ericson é um cara espetacular, é ótimo trabalhar com ele, e o Sr. Cartwright já insinuou que em pouco tempo posso ser promovido a assistente especial, ganhando mais e em nível de igualdade com os demais redatores, que falam muito sobre integridade e status de assessores, mas que não estão dando ao Velho o que ele quer. Cinco:...

Ele tocou a moça adormecida, que puxou as cobertas e se afastou. Cinco: a cegueira do Presidente foi um golpe pessoal para mim, claro que não da magnitude que deve ter sido para ele, mas se um homem não pode ler, que lhe adianta um redator de discursos? Será que isso significa que me limitarei a reescrever mensagens ao Congresso e cartas para a assinatura do Presidente, o que me manterá afastado do centro do poder e tornará impossível escrever um livro de memórias válido e significativo mais tarde? Não devo usar “significativo”; o Presidente odeia essa palavra, assim como “viável”, “relevante”, “ambivalente” e “estilo de vida”. Seis: agora essa moça estranha e adorável irrompe na minha vida, que está muito ocupada no momento. Não apenas em termos de garotas, porque não há outro sector da vida no qual exista tanta preocupação com sexo quanto a política, pois o poder é afrodisíaco etc., mas ocupada em absorver ideias e vomitá-las de forma usável, fazendo constantes anotações o tempo todo, que se tornariam basicamente o recheio da história.

Ele se sentia atraído por Buffie: os dois haviam sentido a tensão no escritório do pessoal do Air Force One. Não apenas por serem contemporâneos, mas porque reconhecidamente eram os espíritos liberais, que haviam lido e provado Paris, juventude, noite e a lua. A vida na Casa Branca é — ele admitiu alegremente — um romance, e logo se cria uma ânsia de partilhá-la com mais uma, duas ou três pessoas. As pessoas mudam muito rapidamente nesse cadinho. Talvez mais tarde voltem a seus verdadeiros egos, ao que o cínico Sr. Hennessy chama de “vida real”. Havia mesmo atração entre eles, mas era voz comum que Buffie era a garota do Presidente, fora do alcance de todo o mundo, e certamente Jonathan Trumbull não iria tomar uma atitude que seria não apenas burra e desleal, mas perigosa.

Aqui estava ela, com seus pêlos púbicos dourados, o corpo esguio e exuberante, decisivamente sensual, uma desenfreada cortesã. Não obstante, ao tentar desafogar-se ela conseguira atingi-lo.

— Ele mudou — dissera ela. — Ele estava mudando já antes da emboscada, mas agora a coisa está indo muito mais depressa.

Quando se trabalhava na Casa Branca, não era nunca necessário dizer quem era “ele”.

Não gosto disso — lhe dissera Buffie. — Não sou receptáculo de esperma, nem prostituta. Nos velhos dias da campanha, dávamos umas trepadinhas rápidas, claro, e sempre achei que isso era uma espécie de estímulo, quando todos esperavam um discurso, ou algo, mas havia sentimento. Era divertido. Nós dois trocávamos algo. Não precisávamos estar muito juntos, porque estávamos muito unidos quando finalmente conseguíamos. Ele tinha a sua vida, eu tinha a minha, e quando estávamos juntos saía fogo. Havia ternura, também, o que é bom de vez em quando.

— Você tem certeza de que me quer contar tudo isso?

— Está chateando você?

— Não, isto é, isso é assunto pessoal, entre você e ele.

Subitamente lhe ocorrera a imagem de Buffie na cama com o Presidente, contando-lhe sobre o redator de terceira categoria.

— Você precisa ser discreta, Buffie.

— Devo ser mais discreta do que você jamais saberá, Irmão Jonathan. Por que Cartwright o chama de Irmão Jonathan? Ele é um “careta” simpático, não é? Vocês se gostam.

Ela estava certa.

— No princípio houve esse problema de lacuna entre as gerações entre Pdeu e mim, e pensei que isso encheria o saco, mas ele foi muito bacana a respeito. Disse que sempre teria idade bastante para ser meu pai, e eu sempre seria jovem o bastante para ser sua amante. Vocês caras que sabem usar as palavras...

— Como é que ele está mudando? Você disse que começou antes da emboscada.

— Está ficando possessivo. Antigamente, ele não me prendia, por isso eu não trepava com mais ninguém. Há uns dois meses, começou a agir como O Presidente, e tive a impressão de que Harry Bok me vigiava. Por isso andei trepando com alguns caras, não porque quisesse especialmente, nem fosse gente pela qual eu me sentisse atraída, como no seu caso. Dormi com uns dois repórteres, e ele me fez um enorme sermão. Não quer que eu saia do sério. Talvez eu conte segredos de estado, ou coisa assim. Por outro lado, ele pode andar por aí.

— E ele anda?

— E por que não deveria? Eu não me importo, desde que não saiba com quem. Mas você conhece aquela frase de cinema “Quero ser necessária”? Como se isso representasse muito para uma mulher, isso de ser necessária. Comigo não. Quero não ser necessária.

— Mas agora — dissera Jonathan — é claro que você é mais necessária do que antes. E isso a aborrece.

— O que está me botando maluca é a sensação de culpa que estou sentindo agora. Por que será que eu o estou magoando? Que tipo de pessoa eu estou ficando?

— Você se preocupa em perder tudo?

Me preocupava.

Ela se espreguiçou. Jonathan ficou excitadíssimo de vê-la espreguiçar-se.

— Mas agora não, porque controlo todos eles, mas nunca vou usar isso, porém eles não sabem e assim não há muita pressão. Então, controlo a dor de dentes e venho a você.

— Você está com dor de dentes?

Isso foi modo de falar, Jonathan. Peguei isso de Hennessy. Você é redator, devia saber essas coisas intuitivamente.

Às vezes ela o esnobava assim. Ele lhe era superior em instrução, na percepção dos acontecimentos mundiais, e estava preparado para aceitar alguma superioridade dela na sua experiência de relacionamentos, mas não no seu próprio campo: fragmentos de compreensão ou emprego de palavras perfeitas ocasionalmente eram parte de seu método para surpreendê-lo. Essa moça nada tinha de boba. Jonathan adormeceu, contente porque ela não gostava de se enrodilhar junto e assim não estragaria seu modo de dormir todo espalhado.

De manhã o redator júnior de discursos do Presidente foi habilmente acordado através de toques, e sonhadoramente chegou a um clímax que jamais esqueceria, ao começar o dia com uma espetacular relação, e ao encontrar uma mulher ainda mais insaciável e deliciosa à luz do dia. Ela não gostava de sexo oral, mas o surpreendeu ao empurrá-lo para o chuveiro com ela e fazer a espuma do sabão voar.

O corpo de Buffie se derretia nele enquanto ele a enxugava com a toalha, e depois ela pegou a toalha — que era a única que ele tinha, e isso era constrangedor — e ao invés de amarrá-la na cintura, usou-a como turbante para seus cabelos molhados. Não houve nenhuma vergonha no acto, pensou ele, e também pipocas, vergonha de quê?

— Você está preparado para algo realmente íntimo? — perguntou ela, olhando-o no espelho do banheiro.

— Não há nenhum limite — replicou ele.

— Você tem desodorante?

Pedir emprestado o desodorante de outra pessoa era, para ele, o máximo da intimidade. Abriu o armarinho de remédios e pôs à disposição dela todos os objetos. Rapidamente e, segundo ele observou, intimamente — ela usou o desodorante dele debaixo do braço.

— Você devia conhecer o Secretário Bannerman — disse ela, cheirando o frasco da loção após a barba, e fazendo uma careta.

— Você aprenderia um bocado com ele.

— Economia não é meu forte — Jonathan encolheu os ombros.

— Certa vez discuti com o Presidente quando ele ensinava usando uma pesquisa que não tinha nada a ver, de algum economista morto. Não quero forçar a sorte.

— Eu estava pensando em outra coisa.

Jonathan também estava pensando em outra cosa, olhando no espelho para a cabeça com turbante e o rosto lavado da moça. Saíram do banheiro e voltaram à cama. Ele nunca suspeitara que poderia agir como agiu. Mais tarde, preparou o desjejum enquanto ela, sentada no chão de pernas cruzadas, com o turbante ainda na cabeça, meditava transcendentalmente, ou sobre alguma outra coisa. Ele ficou satisfeito de ter bastante quantidade de flocos de aveia: ela era vegetariana e ele se sentia mal comendo bacon e ovos.

Falando de boca cheia, ela voltou a falar de Bannerman e ele disse:

— Pretendo deixar os discursos à Câmara de Comércio para os outros redatores. E quanto às respostas do livro negro, devo isso a Marilee, inclusive os juros e o saldo que isso possa render.

Ele imediatamente percebeu que não dissera a coisa certa: o cenho dela se franziu.

— Nossa, você também vai começar a elogiar Marilee, a Mulher Perfeita? Não, eu estava pensando em que Bannerman é um homem interessante para se conhecer no futuro, isto é, quando todos voltarmos para casa.

O redator de discursos teve de balançar a cabeça. O futuro era aqui e agora, com quatro anos à frente, talvez oito, e essa moça falava do futuro do futuro.

— Quando você apareceu aqui ontem à noite, Buffie, não pensei que fizesse planos a longo prazo.

Ele não gostou do olhar dela.

— Não no sentido negativo, claro — acrescentou. Ele definiu “caprichosa” como a palavra para definir os humores dela.

— Esse sujeito é podre de rico — disse ela, mastigando ruidosamente — e tencionava aplicar a grana em boas coisas. Como fundar uma revista ou comprar uma editora. A família dele é dona da maior organização distribuidora de tapes de filmes, e isso é só uma gota no oceano do que eles possuem.

— Se ele é tão rico, por que — Jonathan ia dizer “continua a mamar na vaca”, mas instantaneamente mudou isso para — se conforma com um lugar secundário na política? O dinheiro pode comprar felicidade, mas não compra poder.

Essa frase era criação sua, ele a usava sempre, mas nunca a tentara com essa moça e com utilização tão adequada. Decepcionou-se porque ela não a notou. Buffie parecia resolvida a enfatizar seu argumento.

— Pense no futuro — pressionou ela. — Seria divertido trabalharmos juntos numa revista, hem? E talvez como sócios? Como a Rolling Stone ou a Voice. Olhe, algum dia vamos ter trinta anos.

— Você, talvez — Jonathan riu. — Eu sou Peter Pan. Mas se você diz que eu deveria conhecer Bannerman, para mim está ótimo. Sua mente torpe me deixa ligadão.

Ela lavou a louça e saiu da cozinha como se jamais tivesse um pensamento “torpe”. Nas mãos, levava um tomate.

— Vamos matar trabalho hoje — disse, mordendo profundamente o tomate, e deixando que o suco e as sementes lhe escorressem pelo queixo até a sua (dele) camiseta. Ele percebeu que era um chamamento bastante óbvio ao sexo, e sentiu-se excitar.

Ele telefonou para a Casa Branca e disse estar doente. A milionésima mensagem ao Congresso sobre o programa de preservação da energia podia esperar mais um dia.


O SECRETÁRIO DO TESOURO

Ao olhar pela janela para a East Executive Avenue, T. Roy Bannerman pôde ver o Secretário de Defesa sair da Ala Leste da Casa Branca e atravessar a rua para o Departamento do Tesouro. Lá embaixo, o elevador privativo do Secretário do Tesouro esperava; seu colega membro do Gabinete logo estaria aqui em cima.

As demais janelas de seu escritório davam para o sul, em direção ao Monumento a Washington, nas longas sombras de um fim de tarde em junho. Bannerman achava a cidade bem planejada, se se gostava de parques, avenidas e monumentos; pelo menos, era limpa. O turbilhão de Nova York não se sentia aqui, nem Washington podia oferecer a sociabilidade de Londres. Seu visitante, o Secretário de Defesa Preston Reed, fora Embaixador à Corte de St. James há alguns anos, e eles se tinham conhecido em alguma das frequentes viagens de Bannerman ao Reino Unido, quando ele tentava escorar os mercados financeiros daquela ex-capital das finanças. Bannerman respeitava Reed: era um advogado de Wall Street, boa cabeça, opinião independente, com influência em grandes empresas. O Secretário de Defesa podia abrir caminho através da terra de ninguém situada entre o Estado e a Defesa sem fazer explodir as minas e acionar todos os vazamentos de informação. Ele mantinha seu pessoal rigidamente fora da economia internacional, como garantira a Bannerman que o faria; era digno de confiança. Podia também ser duro, ao requerer de Bannerman apoio orçamentário para específicos projetos de defesa, bem como canais de apoio político no Congresso que poucos dos novos homens da Administração de Ericson sabiam existir.

Ele e Reed haviam conhecido os locais do poder muito antes de surgir Ericson, e neles permaneceriam quando Ericson fosse apenas uma lembrança. No governo ou fora dele, independente de quem controlasse o Executivo ou o Congresso, suas mãos pousavam comodamente em pelo menos algumas das alavancas. Alexander Hamilton o primeiro de seus predecessores, cujo retrato estava pendurado na parede, teria aprovado. Bannerman era um progressista e um ativista, acostumado a ser ridicularizado como sendo um liberal de limusine, mas tinha a certeza de que o país estava bem servido por uma aristocracia de responsabilidade. Havia uma classe criada para governar ou, se não para governar, pelo menos para, suave mas firmemente, orientar a governança. O emprego judicioso do dinheiro ajudava, mas os críticos preocupados com a superficialidade se enganavam: o poder de Bannerman e o remendo de Reed não vinham do dinheiro e, sim, da garantia, da vida toda, de que o dinheiro não era problema, e do facto de pertencerem à teia de amigos e colaboradores no mundo inteiro que carregavam o ónus de fazer com que os sistemas financeiros e os governos dessem certo.

Um agente do Serviço Secreto introduziu Reed na sala. Pequeno, esguio, grisalho, dono de si. Quando Bannerman apontou uma poltrona perto da lareira, Reed balançou a cabeça.

— Roy, estive o dia inteiro encerrado em escritórios e o primeiro sopro de ar fresco que recebi foi ao atravessar a rua para cá. Por que não tentamos nosso Bernard Baruch? [nota: Financista e conselheiro americano de Presidentes.]

Bannerman sorriu sua concordância e juntos foram ao Parque Lafayette, do outro lado da rua da Casa Branca, para um local onde antes já haviam conversado. Era um simples banco de parque perto da estátua de Andrew Jackson, que ostentava uma placa com os dizeres: “O Banco da Inspiração de Bernard M. Baruch”, onde aquele idoso estadista, odiado por Harry Truman, gostava de aconselhar os membros do Gabinete de Truman após a Segunda Grande Guerra.

— É um bom lugar para se especular — gracejou Bannerman, sabendo que Reed seria um dos poucos a perceber sua alusão à autodescrição de Baruch de especulador, antes da, há muito esquecida, Comissão Pujo. Sabia que era um bom lugar para Reed ter certeza de que não seriam ouvidos nem que sua conversa seria gravada no escritório do Departamento do Tesouro, origem do Serviço Secreto, e também para os dois se sentirem em igualdade, sem que um não estivesse visitando o outro. Bannerman julgava a inteligência, o prestígio e a habilidade de Reed equivalentes aos seus próprios, mas achava que o outro lhe era inferior em poder a longo prazo, porque o nome de família era menos importante que o seu, e considerava-o superior a si em desprendimento, pois não tinha metas de poder pessoal.

— Quis conversar com você — começou o Secretário do Tesouro — porque estou convencido de que Ericson precisa sair.

— Se você está planejando derrubar o governo através de força e violência — disse secamente Reed, cruzando as pernas e olhando a acção da água no repuxo em frente à Casa Branca — eu teria de reunir as forças armadas para resistir.

— Quero salvar este governo — disse lentamente Bannerman — por todos os meios constitucionais, de um homem cuja arrogância e teimosia não o deixam perceber que está fisicamente incapaz de governar.

O Secretário de Defesa pensou um pouco e disse:

— Roy, suponha que você fosse Presidente, e ficasse cego. Ou tivesse um derrame que lhe prejudicasse seriamente a fala. Você renunciaria?

Bannerman já se debatera com essa pergunta.

— Eu me afastaria sem hesitação. E você também, Preston. O Presidente deve sempre colocar o país em primeiro lugar... é uma condição de fé... e se se está incapaz de funcionar com todas as faculdades, tem-se a obrigação moral de renunciar. Ou, pelo menos, de se afastar.

— Obrigações morais — disse o Secretário da Defesa — costumam ser citadas por gente que não dispõe de argumentos legais em que se apoiar. Sua posição legal é fraca, Roy.

Bannerman ponderou: seu colega evidentemente pesquisara a Vigésima Quinta Emenda sobre a transição do poder. Reed estava raciocinando segundo as mesmas linhas, e à sua própria maneira, e poderia muito bem concluir o que Bannerman concluíra. Ele iria tentar argumentar com o raciocínio de Bannerman, discordar dele, e estabelecer seu próprio processo de ideias, mas as possibilidades eram pelo menos razoáveis de que a conclusão seria idêntica. O enfoque seria diferente, mas a índole dos caracteres era a mesma. Bannerman permitiria a Reed chegar aonde ele queria por si próprio.

— Segundo a Vigésima Quinta Emenda — disse Bannerman — se o Presidente está incapacitado ou não está disposto a se declarar incapacitado de desempenhar seus deveres, o Vice-Presidente e a maioria simples do Gabinete podem fazer essa declaração ao Congresso, e então o Vice-Presidente se torna Presidente Interino.

— Chegou perto — disse Reed. — Mas a chave é a palavra “incapacidade”. A emenda trata da incapacidade do Presidente agir, não de sua impossibilidade, muito especificamente, não da impossibilidade. Qualquer bom advogado pode estabelecer que a intenção legislativa era proteger um Presidente em coma, capturado por um inimigo, ou enlouquecido. Não um Presidente que tenha uma deficiência física. Se ele tem condições de discutir a respeito... a não ser que você ache que ele está maluco, o que não é facto... pode governar.

Bannerman concordou com o argumento legal.

— Mas você tem de admitir que existe alguma área duvidosa no caso, isto é, onde o Presidente pode ou não pode estar totalmente capaz de julgar corretamente sua própria capacidade. Vimos, na coletiva à imprensa, que Ericson não estava dono de si: não conseguiu nem lembrar-se direito do nome de um país estrangeiro. O recurso de forçá-lo a sair contra sua vontade não teria sido colocado na Vigésima Quinta Emenda a não ser que se reconhecesse essa área duvidosa. O homem doente não é o melhor juiz de sua própria capacidade: o Gabinete é que é. E no caso de desacordo, cabe ao Congresso decidir.

— Fraco — afirmou Reed. — Você não teria meu voto no Gabinete com esse argumento.

— Que argumento teria seu voto?

O Secretário de Defesa parou de tergiversar.

— Não importa se Ericson é capaz ou não de desempenhar seus deveres. O âmago da questão é se as potências do Extremo-Oriente, e também a União Soviética, acham que ele é capaz de desempenhá-los. Se eles supuserem, embora erradamente, que este governo talvez não reaja imediatamente a uma ameaça nuclear, então nossas negativas não terão nenhuma importância. E deixarão de ser negativas. É nesta situação que nos encontramos neste momento.

— Você acha que estamos em perigo de ataque agora mesmo?

Bannerman gostou do apoio, mas argumento tão forte daria um cunho alarmista ao incentivo à Vigésima Quinta Emenda. Isso era estranho, Reed costumava ser um sujeito de cabeça fria.

— O retrato no seu escritório — respondeu evasivamente — é de Hamilton, isto é, de documentos federalistas, de um forte governo central, de uma classe governante, de um sistema bancário sólido. No verdadeiro sentido, nenhuma retórica: é esta a herança de seu cargo e sua mesma.

Esperou um instante e prosseguiu:

— O retrato na minha sala no Pentágono é de Forrestal, o primeiro Secretário de Defesa. Lei de Wall Street operações bancárias de investimento, Ministério da Guerra, guerra fria. A pressão o levou à loucura, e ele saltou da torre em Bethesda. Portanto, o legado do meu cargo, sem nenhuma dramaticidade, é tentar viver com toda a ameaça de destruição. É meu dever exigir que o Presidente faça explodir metade do mundo se eu achar que mísseis inimigos estão chegando aqui. Não quero exagerar, Roy, mas viver com isso é algo que realmente incomoda.

Bannerman não disse nada. Reed jamais falara assim, e não terminara ainda.

— Vê aquele homem na esquina, perto do seu agente do Serviço Secreto?

Reed apontou com a mão.

— É aquele sujeito que está com os fios ligados à Sala de Guerra. Se chegar o grande momento, eu tenho menos de dez minutos para tomar uma decisão, ir ao Presidente e obter a sua decisão, e ordenar a desforra. Roy, nunca fui um cara indeciso, mas o que lhe contei tem consequências que podem levar um homem à indecisão.

— A cegueira do Presidente Ericson aumentou as possibilidades de ter de tomar essa decisão. O Serviço de Informações do Departamento de Defesa fez essa estimativa: que neste instante as potências do Extremo Oriente se julgam na melhor posição para atacar. A escolha do momento seria perfeita, com um homem que eles acham estar incapacitado de ordenar a retaliação na hora oportuna. O cego Sven Ericson é esse homem. O Vice-Presidente Nichols não é nenhum Dwight Eisenhower, mas, pelo menos, dá aparência de capacidade, essa mesma aparência reduz o risco de guerra.

Ele se deteve.

— Portanto, como Secretário de Defesa... — instigou-o Bannerman.

Reed continuou relutantemente.

— Como Secretário de Defesa, já instei o Presidente para que renunciasse. Não apenas se afastasse, mas renunciasse. E numa iniciativa do Gabinete como a que suponho você tenha em mente, eu votaria de acordo com minha convicção.

“Agora somos dois”, disse-me Bannerman. Se seu colega queria basear sua decisão em motivos tão provincianos, o problema era dele.

— Há mais uma coisa que me preocupa — acrescentou o Secretário de Defesa, mexendo os dedos em frente ao rosto e murmurando baixinho, como se temendo que alguém pudesse decifrar-lhe os movimentos labiais ou o som do que dizia, com uma câmara ou microfone a longa distância:

— Nosso amigo Vasily Nikolayev. Não é impossível que tenha maquinado a emboscada, ele agora está no ápice. Temos algumas provas de que foi coisa dele, para que os chineses levassem a culpa.

— Provas conclusivas?

— Não, mas terão de ser mostradas ao Presidente, mesmo se forem erradas. Isso poderia rapidamente estragar nossa aliança com os soviéticos: o Presidente talvez ficasse algo desconfiado de um líder soviético que tentou matá-lo. Essa equação pessoal poderia, como consequência, prejudicar outros projetos nossos, como o programa conjunto de satélite. Talvez não seja verdade, mas a possibilidade introduz um elemento pessoal na nossa aliança que é enfraquecedor. Se for verdade, seria melhor que Ericson e Nikolayev renunciassem.

Olhou vivamente para seu colega.

— Que é que há, Roy, você parece perturbado.

Bannerman, que frequentemente expressava choques retóricos, sentia-se genuinamente chocado. Referências abstratas a elementos repressivos nucleares eram uma coisa, mas uma séria suspeita de que o chefe de uma superpotência era o assassino do outro era algo diferente.

— Isso é muito perturbador — foi tudo o que disse, e depois acrescentou: — Espero que você verifique suas informações ao máximo, antes de transmiti-las ao Presidente. Poderia ser o tipo de coisa que o faria querer perpetuar-se no cargo mais ainda.

— Estou esperando para ver se podemos resolvê-lo com a CIA. E para discutir o caso com nosso peripatético Secretário de Estado.

— Curtice volta amanhã — disse Bannerman, pensando numa contagem de votos. — Você acha que pode fazê-lo ficar do nosso lado?

— É improvável — disse Reed. — Ele é homem de Ericson, não tem nenhuma base própria, e estaria perdido numa Administração de Nichols. Eu ainda não lhe confiaria a possibilidade de Nikolayev ser um assassino. O Secretário de Estado acha que ele tem agora bases sólidas junto à liderança soviética.

— Então nenhum de nós dois deve falar-lhe sobre o assunto. Bannerman conscientemente falou “nós”, incluindo Reed, e enquanto analisava o resto do Gabinete, sugeriu:

— Talvez eu possa encontrar alguém para conseguir, através de outra pessoa, pelo menos uma abstenção. O próximo é Andy Frangipani, de Recursos Humanos.

A reforma do Gabinete, que ocorrera em administração anterior, facilitara a obtenção da maioria numa situação como esta. Os departamentos do Interior, da Agricultura, e parte do Departamento de Comércio fundiram-se no Departamento de Recursos Naturais, e o HEW, [nota: Health, Education and Welfare: Saúde, Educação e Bem-Estar.] o HUD [nota: Housing and Urban Development: Habitação e Desenvolvimento Urbano.] e a maior parte dos Departamentos do Trabalho e do Transporte foi reunida no Departamento de Recursos Humanos, o que reduziu o Gabinete de pouco manejáveis onze para manejáveis seis departamentos: Estado, Defesa, Tesouro, Justiça, Recursos Naturais e Recursos Humanos.

— Se há algum membro do Gabinete com interesse em votar com o Presidente, é o Carcomano — observou Reed, e Bannerman concordou. Frangipani, ex-prefeito de Nova York, chefiava agora o Departamento de Previdência Geriátrica, e qualquer acção que pudesse ser interpretada como aviltar os incapacitados era objeto de seu ódio. Empregos para os deficientes físicos era uma de suas causas favoritas; a cegueira num Presidente era, para esse grupo, um ponto positivo. Seu rival institucional e pessoal do Gabinete, o Secretário de Recursos Naturais Mike Fong, provavelmente se inclinava para o outro lado, julgava Bannerman. O partido democrático forçara Ericson a nomear Fong, parcialmente a mando de Bannerman, da mesma forma que lhe havia sido imposta a escolha do Vice-Presidente.

— Vamos supor que Fong fique conosco — disse Bannerman — e que o Procurador-Geral fique com o Presidente.

Bannerman lembrou-se de que deveria começar a chamar o Presidente de Ericson dali para frente, e não mais de “Presidente”.

— Estamos três a três — disse Reed — o que não basta. A emenda requer “o Vice-Presidente e a maioria do Gabinete”.

Precisaríamos de mais um. Suponho que você possa convencer o Vice-Presidente. Toda esta nossa discussão seria académica, se ele usasse seu veto.

Bannerman assentiu com a cabeça.

— Se tenho maioria, eu tenho o voto dele. Poderíamos eliminar o P. G. [nota: Procurador-Geral.] sob alegação de conflito de interesse?

— Nem pensar. Duparquet vai querer tirar disto toda a publicidade possível, porque sabe que a lei está do lado dele.

— Quer dizer que Curtice é o ponto fraco. Terei de convencê-lo. Falarei em garantir o cargo, coisas assim.

Reed levantou-se, respirou profundamente o ar da noite, contemplou a Casa Branca iluminada, os repuxos dançando, a bandeira esvoaçando no telhado, sob o pô-do-sol. Continuidade.

— Curtice talvez esconda o jogo.

Bannerman sorriu. Já podia escutar o Secretário de Estado.

— Embora, pessoalmente, acredite que o Presidente possa e deva continuar no cargo, não darei o voto que negue ao Congresso o direito de trabalhar conforme deseja. Dou meu voto no sentido de que a questão seja levada ao Congresso.

Andaram pelo caminho de tijolos em direção à esquina do parque onde seus auxiliares esperavam.

— Aquele é Rochambeau — disse Bannerman, apontando para uma das quatro estátuas de estrangeiros que ajudaram George Washington. — Ele liderou as tropas francesas que ajudaram Washington, mas Lafayette é que teve todas as honras.

— Washington poderia ter usado um agente de informações decente — replicou o Secretário de Defesa. — Seu pessoal de informações era horrível.

— Tem razão, Prestou.

Decidiu que uma insinuação cairia bem:

— Tenho alguém muito chegado a Ericson, e forte possibilidade de uma segunda pessoa. É importante saber o que ele pensa. Deve estar tendo ataques de depressão. Podemos agir segundo os humores dele. Talvez evitar um confronto e ter uma transição sensata.

— Isso não acontecerá. Ericson é um Presidente, ele vai se agarrar ao osso como um buldogue. Mas o cara do serviço de informações que você conseguir talvez possa fazer uma diferença.

Bannerman concordou com a cabeça. Ericson era realmente um Presidente, com toda a obstinação que a palavra implicava. Isso era uma pena: numa ocasião assim, um homem menos teimoso seria melhor para o país. Bannerman ergueu a mão para acenar para Reed e informou ao motorista do Serviço de Informações postado na esquina que não precisaria dele à noite. Sempre que o Secretário do Tesouro agia assim para proteger sua privacidade, Bannerman sabia que os agentes do serviço logo concluíram que ele estava farreando. O que ele nunca fazia: admirava — e amava — sua mulher de vinte e cinco anos de união, e jamais faria nada que a magoasse, nem que o comprometesse. Mas as suposições maliciosas que havia na organização lhe convinham. Já dissera a Susan Bannerman que estava planejando um encontro clandestino com a namorada do Presidente e com o redator de discursos do Presidente aquela noite, num escuro restaurante chinês em Bethesda.

Essa instigação de deslealdade não era o objetivo do negócio que lhe desse qualquer prazer. Ele considerava a moça uma oportunista vulgar, uma presa fácil para suas promessas editoriais; surpreendia-se que um homem como Ericson, que podia ter quase qualquer mulher do país, se tivesse envolvido tão profundamente com ela. Talvez devido à menopausa masculina, uma moléstia que Bannerman evitara vitoriosamente, que poderia fazer com que uma figura política cuidadosa em quase todos os outros aspectos, desse a outros a possibilidade de desgastar sua base de poder. Ericson era forte em alguns aspectos; chegava mesmo a ser admirável, mas era fraco em outros. Saber quando jogar a toalha não era, na opinião de Bannerman, uma fraqueza e, sim, uma força. Achava que a maior lástima era que a nação tivesse de sofrer porque Sven Ericson não tinha essa força.


II.

A VIGÉSIMA QUINTA EMENDA


O CHEFE DA CASA CIVIL /2

Logo que Lucas Cartwright entrou no carro da Casa Branca o telefone tocou. A telefonista da Casa Branca o advertiu:

— Esta comunicação está precária, senhor, é o Presidente quem chama.

— Lucas? Você vai bem?

— Esta comunicação está precária, Sr. Presidente. Às sete da manhã, sinto-me especialmente precário

— Já leu o Sumário das Notícias?

— Estou começando a ler. Pode ser o ponto negativo do meu dia.

— Melinda acabou de lê-lo para mim.

A voz do Presidente estava preocupada.

— É mais ou menos tão mau quanto pensávamos. Venha tomar o café comigo, na sala de jantar da família, quando você chegar. Veja se consegue saber as fontes de informação das colunas, e vamos também discutir o editorial do Post. Sua mulher foi uma boa repórter?

— Como sempre, Sr. Presidente. Eu lhe contarei tudo quando já não estivermos transmitindo para toda a Washington neste inseguro dispositivo. E para todos vocês que estão sintonizados conosco, esta é a sociedade de dramaturgia Escola Landon, que se despede.

Ia ser um dia daqueles. Trinta e seis horas após a coletiva noturna de quarta-feira com a imprensa, irrompia a tempestade de reações. Era sexta-feira, e suas manchetes negativas seriam seguidas pela curiosa calma dos fins de semana do verão, e então na segunda-feira — quando saem as revistas de atualidades — o assunto seria reativado, mais uma vez com toda a corda, e seria um incentivo novo para os diários e os noticiários pela televisão focalizarem novos ângulos, abrangendo a cobertura semanal da cobertura diária. O Congresso, graças a Deus, logo entraria em recesso de verão.

A Sra. Cartwright — ele gostava de chamar a mulher de “Sra. Cartwright” e ela gostava de chamá-lo “Sr. Cartwright”; era seu pequeno código de intimidade — lhe informara tudo que lhe haviam contado sobre a reação de Bannerman à coletiva com a imprensa, após um jantar em Georgetown. O Secretário de Tesouro se abstivera de sacudir a cabeça ou resmungar algo durante a provação do Presidente, e apenas dissera solenemente no fim:

— Temos de apoiá-lo, incondicionalmente, até que ele volte a ser o que era.

Os homens haviam, então, se retirado para o estúdio, acompanhados por uma repórter simbólica: Bannerman, Zophar, um senador da Geórgia, um redator de editoriais de Washington, e um advogado politiqueiro. A mulher do advogado contou à Sra. Cartwright no dia seguinte tudo que fora dito “Só por contar”: Bannerman e outras pessoas não especificadas da administração estavam profundamente preocupados com a capacidade do Presidente em enfrentar seu problema. Disse também que o Presidente temia convocar uma reunião do Gabinete. Que Ericson era prisioneiro do seu staff, especialmente do “degolador” Hennessy. Que os membros do Gabinete esperavam que a coletiva com a imprensa provasse que Ericson estava capaz de desempenhar seus deveres mesmo com sua deficiência, mas que a esperança se desvanecera.

Cartwright mordiscou a ponta dos óculos de leitura, e olhou mas não viu as folhagens McLean que levavam à Ponte Chain. Bannerman sabia como se agia em Washington; sabia que nada ficava muito tempo sem que seu autor fosse identificado; sabia que era certo que sua reação chegaria ao conhecimento do Presidente. Ele não se importava? Estava disposto a arriscar-se? Estaria blefando? O chefe da Casa Civil colocou os óculos e leu alguns dos resultados do rancor do Presidente e da traição do Secretário do Tesouro:

Sumário de Notícias do Presidente:

Inclui Notícias de Sexta-Feira Até Meio-Dia

TV: Todas as três redes comerciais começaram seus programas com notícias da coletiva, enfatizando a gafe da Nigéria e o copo quebrado, sendo que a ABC e a NBC se concentraram no que foi dito ao repórter do Christian Science Monitor, e em seguida apresentaram as reações de protesto de porta-vozes do Monitor. Apenas a CBC acrescentou um comentário do repórter do Monitor de que tinha um encontro com o Presidente sexta-feira, na Casa Branca. A quarta rede de TV comentou desfavoravelmente as reações do Secretário de Imprensa. Os comentários pela televisão, que até a data expressavam simpatia, tornaram-se negativos. A maioria dos democratas entrevistados para dar sua opinião disse que o Presidente deve considerar um afastamento temporário. A maioria dos republicanos diz que é assunto para os próprios democratas resolverem entre si (solidarizando-se com o Presidente Frelingheusen, da Câmara dos Deputados, que disse à NBC: “Quando se trata de coletivas com a imprensa, eu mesmo vivo dando foras. Aconteceu apenas que o Presidente não estava numa boa noite”. “Sr. Presidente, o senhor acha que ele está em condições de desempenhar seus deveres?” “Leia sua Constituição. Se ele está em condições de dizer que é capaz, então ele é capaz”).

Cartwright pulou para as colunas.

O Grupo Altman-Peterson informa que “pessoas bem-informadas dizem que os assessores da Casa Branca estão divididos. Os ‘Estou do lado de Ericson’, liderados pelo misterioso Mark Hennessy, amigo e advogado que fez o divórcio do Presidente, incluem a influente Melinda McPhee, a secretária executiva de Ericson, e o terapeuta novo do Presidente, Dr. Henry Fowler. Outro grupo, que põe as necessidades da nação à frente da ambição pessoal, parece estar-se formando entre o franco Secretário de Imprensa James Smitty e o médico pessoal do Presidente, Herbert Abelson. O chefe da Casa Civil, Lucas Cartwright, ainda não indicou para que lado sua balança vai pender...”

— George, pare de subir o morro — disse Lucas Cartwright em voz alta.

O motorista olhou rapidamente para trás:

— O rio não está cheio, senhor, só está com um pouco de lama por causa da chuva a noite passada.

— Isso é bom — disse o chefe da Casa Civil, refletindo que as colunas “por dentro” sempre continham pelo menos um ponto de verdade. A fonte? A ideia de que Smitty fosse tudo menos leal saltava de sua expressão desolada durante a coletiva, e era equivocada; as conjeturas sobre Hennessy e McPhee correspondiam à verdade e eram óbvias. Haviam sido deduzidas quando Hennessy fora convocado para voar no Air Force One e pela reputação de Melinda por sua dedicação pessoal. A indicação do médico do Presidente, porém, não era óbvia, e significava que alguém de dentro estava falando. Abelson não parecia ser o ponto fraco; Cartwright perguntou-se como o repórter descobrira acerca das apreensões do médico. Através do próprio Abelson? Improvável. E o tópico intermediário sobre Cartwright era ou de um colunista indeciso ou de alguém jogando verde para plantar a discórdia entre o Presidente e um homem em quem ele confiava. Esse “alguém” poderia facilmente ser Bannerman.

A coluna de Zophar era fácil de prognosticar: ele mostrara sua posição antes de todos, e, no seu estilo rebuscado, estava resolvido a fazer uma cruzada do resto da história.

“Como consequência da lamentável, imprudente e prematura coletiva à imprensa do Presidente, uma onda de intrigas bizantinas deverá inundar a Casa Branca. O Presidente está profundamente ferido, talvez mais seriamente do que alguns de nós temíamos; os jovens leões começam a se agitar.

“Num momento como este, com todos os danos que a incerteza pode causar os que duvidam do Presidente devem moderar-se. Qualquer instigação no sentido de que ele se afaste é contraproducente, e só contribuirá para fortalecer a famosa determinação de Ericson. Pelo contrário, esta é a ocasião para uma ‘pausa criativa’, um momento de esperar um acto de genuína demonstração de estadista do Presidente.

“Não é fácil para um homem tão dinâmico, ambicioso e idealista como Sven Ericson, se afastar. Reconhecer a ‘derrota’, mesmo quando através de um acto de um assassino. Sua decisão é cruciante.

“Não obstante, os Presidentes se elegem para tomar as decisões dolorosas, mesmo a grande custo pessoal. Que a cacofonia dos aduladores cesse. Que o Presidente possa refletir sobre o assunto. Ele concluirá, como qualquer patriota, que o bem-estar do país vem antes de qualquer outra consideração.”

Cartwright achou que o lead do editorial do Post demonstrava apoio, era menos tedioso, e mais sutilmente efetivo:

“... não esquecer que há menos de quatro semanas, o Presidente Ericson era um líder saudável e exuberante, determinado a ‘moldar os acontecimentos para se adaptarem a nossos conceitos de boa sociedade’. Ele se feriu, mas pode estar grato, assim como seus compatriotas, por não ter morrido. A questão de sua incapacidade — e não há como ignorar o assunto — cabe a ele resolver ou dissipar. A questão não é ‘Pode um cego ser Presidente?’ mas, sim, ‘Pode esse cego, neste momento da história, ser um bom presidente, ou estaria o país mais bem servido se ele se afastasse segundo o que prevê a Vigésima Quinta Emenda?”

“Esta é uma época difícil e de profunda auto-interrogação. A impossibilidade do Sr. Ericson não é a ‘incapacidade’ do coma, diferença com que grandemente se preocuparam os redatores da emenda. A decisão é do Presidente, a primeira grande — e talvez última — resolução de sua presidência. Enquanto ele reflete se deve pôr de lado os poderes e os deveres que lhe foram confiados, seus compatriotas — que oram ardentemente por sua recuperação — atrevem-se a esperar que ele colocará o bem-estar da nação antes de quaisquer conceitos de orgulho ou...”

Parecia que já havia certa tendência a se insistir no assunto do afastamento. Após as revistas de atividades da semana seguinte darem à questão o incentivo atrasado, os resultados das pesquisas começariam a surgir. Muito dependia da forma em que as perguntas fossem feitas.

— Você acha que o Presidente deve afastar-se até estar em melhores condições de trabalhar sem sua visão?

Resposta: 80% de “sim”.

— Você acha que a cegueira do Presidente deve forçá-lo a renunciar?

Respostas: 80% de “não”.

Cartwright anotou: Fazer com que nossos próprios pesquisadores façam as perguntas certas.

Parou de ler. Como deve sentir-se um Presidente ao ler tudo isso sobre si próprio ou, no caso de Ericson, ao ter alguém lendo para ele? A superfície de Ericson era áspera de forma civilizada, como um couro curtido; dentro, havia uma gentileza que surpreendia e encantava os homens que trabalhavam com ele; e mais abaixo ainda, havia no âmago uma dureza esperada quando se olhava originalmente para a superfície. Talvez dureza fosse a palavra errada, popularizada nos frios dias de Kennedy; talvez fosse força. Ou obstinação. Fosse lá o que estivesse no centro de Ericson, força ou um frio vazio, o cadinho da Casa Branca o tornaria puro e perfeito antes do fim. Era isso o que Cartwright mais apreciava, e às vezes mais temia, sobre o facto de trabalhar lá.

Mas a atitude da imprensa o intrigava e desgostava. Nos dias de Eisenhower, há apenas uma geração, a imprensa se teria unido em proteção tácita à Casa Branca, minimizando o perigo da indecisão quando o Presidente estava incapacitado. Mais tarde — meses, anos depois — os repórteres históricos narrariam de que forma o país fora governado de um hospital ou de uma sala do Gabinete. Isto já não acontecia. Expor a incapacidade ao primeiro sinal de fraqueza era o que o pessoal de notícias devia logo fazer. Essa pressa em apresentar a dura verdade era impatriótica para gente antiquada como ele. Ele admitia que a devassa clínica fosse realista, mas era cruel. A crueldade — e até a selvageria — na busca de notícias era atualmente considerada aceitável. Se lhe fosse dada a opção, Cartwright esperava ser duro o bastante para errar do lado da bondade.

O carro parou na entrada do Subsolo Oeste. Fez um sinal de cumprimento com a cabeça para o guarda, subiu a estreita escada que levava ao primeiro andar da Ala Oeste, o que ele considerava bom exercício para um velho, e dirigiu-se à sua sala do canto. Precisava de alguns momentos para inteirar-se de seus recados telefónicos antes de tomar o desjejum com o Presidente.

Na ante-sala, um rapaz, Jonathan, o novo redator favorito do Presidente, o esperava. Cartwright gostaria de lembrar-se do sobrenome do jovem. Normalmente apreciaria conversar com ele, mas não agora.

— Você não deveria trabalhar até tão tarde — disse-lhe Cartwright. — Vá para casa e durma.

— Senhor, há algo de que lhe preciso falar.

Sujeitinho desenxabido! Cartwright detestava parecer estar com pressa, mas o Presidente o esperava, e ele podia ver inúmeros recados telefónicos, dispostos em ordem cronológica na sua mesa.

— Você sabe que minha porta está sempre, aberta, Jonathan — disse Cartwright, fazendo uma anotação mental de dizer à sua secretária para fechar a porta quando ele fosse embora à noite — mas El Número Uno requer minha presença. Depois do almoço está bem? Lá pelas três?

O rapaz, obviamente perturbado, murmurou que sim, e foi embora. Cartwright olhou o monte de recados, escolheu três no painel como um experiente negociante de frutas, e os pôs na carteira; o resto, ele pegou e largou na mesa da secretária. Quando ela chegasse às quinze para as oito, apressadamente responderia aos telefonemas. Diria aos que o haviam chamado e que já estivessem no escritório, que o Sr. Cartwright gostaria de telefonar-lhes mais tarde: à noite estaria bem? Diria também às secretárias daqueles que ainda não tivessem chegado que o Sr. Cartwright respondera aos seus chamados. Esse procedimento dava a impressão de um eficiente chefe da Casa Civil ansioso para voltar às pessoas, e punha os auxiliares que trabalhavam no horário normal na defensiva.

Desjejum com o Presidente, quando este podia ver, era um acontecimento familiar, mas hoje Cartwright não sabia como seria. Alguém o iria alimentar? Ele ficaria tateando para pegar a comida? Seria aconselhável alguém tentar ajudá-lo? Deveria ter perguntado a Hank Fowler qual o procedimento correto. De sua sala de canto, Cartwright passou pelo Salão Oval com o guarda na frente, pela sala do Secretário de Imprensa, onde as máquinas começavam a taramelar, desceu uma rampa, passou pelo Jardim das Rosas e entrou no subsolo da residência da Casa Branca, onde os retratos das Primeiras Damas estavam em exposição. Fez um sinal com a cabeça para a Sra. Coolidge, uma beleza aquilina com uma aparência de Scott Fitzgerald e um wolfhound branco ao lado, e depois subiu rápido a escadaria de mármore até a Sala de Jantar do Estado. Cada um dos guardas pelos quais passava ia alertando o próximo, que lhe fazia um sinal com a cabeça gentilmente, todos parecendo surdos, com pequeninos receptores nos ouvidos. A Sala de Jantar da Família que ficava embaixo era um terço do tamanho da Sala de Jantar do Estado, o que lhe dava um sentido comparativo de intimidade, algo que um aposento de treze metros de comprimento raramente possuía.

Um mordomo estava retirando o prato do Presidente quando Cartwright entrou. Melinda anunciou sua presença e sua própria saída, carregando o Sumário de Notícias condensado e gravado. Ericson empurrou a cadeira para trás e bebericou de uma grande caneca de café. Cartwright sentou-se à mesa que havia, há um século, servido de mesa do Gabinete do Presidente Grant, e pediu seu habitual prato de flocos quentes de aveia.

— Ninguém mais pede mingau, Lucas — disse o Presidente. — Acho que preparam uma panela diariamente só para você.

— O mingau de aveia da Casa Branca tem uma consistência agradável, difícil de achar em outro lugar — disse Cartwright entre sério e sorridente. — Acho que eles põem areia em água fria, depois fazem-na ferver. A Sra. Cartwright costuma jogar a aveia em água fervente, o que faz com que o mingau fique encaroçado. Por isto tomo sempre meu desjejum na Casa Branca. E porque é mais barato, também.

Ericson sorriu aquecendo as mãos em volta da caneca de café.

— Isso me ensina mais sobre mingau de aveia do que me interesso em saber.

— Que tal seu paladar pela comida, Sr. Presidente? Disseram-me que quando se perde a vista, os demais sentidos se aguçam mais.

— Bobagem disse Ericson, cortando o ar com a mão. — Chama-se compensação, e simplesmente não acontece. Supõe-se que se escute melhor, ou que isso aperfeiçoe o tato, o olfato ou o paladar. A verdade é que a pessoa se concentra mais, como quando se escuta música; você fecha os olhos? Eu costumava fechá-los. Eliminam-se os motivos de distração, por isso se parece escutar melhor. Não, nada melhora quando não se pode ver, apenas usam-se mais os outros sentidos. Hank me está ensinando a comer, para que eu não me comporte como um porcalhão nos jantares oficiais. Espere até me ver mandar voltar o vinho. Quem foi a fonte da coluna que falou sobre Abelson?

Esse homem tinha um jeito de subitamente mudar totalmente de direção e atingir o âmago dos problemas.

— Essa parte também me perturbou — respondeu Cartwright.

— Seu médico tem parecido meio adoentado, parece que exagera na solidariedade à sua doença, Presidente.

— Herb é o único por aqui que quer que eu renuncie — disse Ericson. — Não me zango com ele por isso. Mas ele não é uma língua de trapo, e não diria sua opinião lá fora. Alguém daqui mesmo é que andou falando demais. Quem?

— Eu eliminaria Melinda, que é uma ostra quando se trata da imprensa. Eu não fui. Smitty é uma possibilidade, talvez Marilee, que sabe uma porção de coisas através dele, mas ambos têm bastante cuidado ao lidar com as colunas de mexericos.

Cartwright examinou então uma sutileza:

— Tão obviamente não é Hennessy, que foi cognominado de “degolador”, que poderia ser Hennessy.

Não era provável, mas era possível.

— Talvez Fowler. Ele é bastante simplório quando se trata de responder a perguntas. Talvez uma fonte secundária pudesse “vazar’: o assistente de Herb, ou a secretária de Melinda. Depois é a vez do pior língua solta de todas as presidências.

— O próprio — disse o Presidente.

— Não se pode confiar no homem. Ele é um vazamento só, consciente e inconscientemente, no escritório, ao telefone.

— Vou pensar nisso. Você fique de antenas ligadas. Qualquer fofoca que souber de sua mulher; perdoe-me, Lucas, sempre esqueço o nome dela.

— Sra. Cartwright.

— Isso mesmo.

Ericson sorriu segurando a caneca de café.

— Sabe, quando alguém se casa muitas vezes, é uma boa ideia chamá-las assim; pode evitar momentos constrangedores.

O sorriso desapareceu.

— Que disse Bannerman?

Cartwright lhe contou a fofoca toda sobre como ele fora apunhalado pelas costas no jantar.

— Sacana milionário — disse Ericson, satisfeito e aliviado por constatar que suas desconfianças eram exatas. — Ele vai nos atacar. Por culpa minha, fui muito presunçoso, não deveria ter dado aquela coletiva tão depressa. Eu não estava bastante confiante, e deveria ter mandado todo mundo plantar batatas mais uma semana. Bem, isso já passou.

Cartwright ficou satisfeito: o Presidente jamais lhe fizera considerações tão francas. Ericson cuidadosamente posou a caneca de café na mesa, levantou-se e ficou atrás da cadeira, enquanto os dedos corriam pela madeira.

— Vamos calcular a estratégia deles, Lucas. Primeiro, mandam um cara falar a você para apelar ao meu patriotismo.

— Certo. Como isso não vai funcionar, mandarão outro emissário, possivelmente através de mim, pois parece haver uma ideia de que eu não estou cem por cento com o senhor, para mostrar como o senhor não tem nenhuma possibilidade de vitória numa votação do Gabinete.

— Na imprensa, a pressão vai aumentar para que eu me “afaste” — interveio o Presidente — e haverá uma série de artigos sobre a opção de lados.

— E depois?

Cartwright não quis tomar a decisão sobre o próximo passo.

— Depois nós mostramos a eles — disse o Presidente — que não estamos aceitando tudo isso passivamente, e desfechamos o contra-ataque.

— O senhor será então acusado de fazer pressão — disse Cartwright, sentindo-se melhor — de abusar do poder da presidência ao fazer promessas estúpidas e horríveis ameaças a determinados membros do Gabinete para apoiá-lo numa crise do Gabinete.

— Eis a manchete — concordou Ericson. — “Crise no Gabinete”. Uma linha diagonal na primeira página das revistas de atualidades. Então toda a atenção se concentrará em convocar uma reunião do Gabinete sem mim.

— Torna-se uma conclusão antecipada que essa reunião se realizará — prosseguiu o chefe da Casa Civil. — A questão não é mais “se”, e sim “quando”. Haverá um movimento no sentido de que essa seja a primeira reunião do Gabinete a ser televisionada.

— Talvez devamos incentivar esse movimento — disse o Presidente. — Isso vai apavorar uns sujeitos por aí.

O jogo de guerra parou quando os dois homens pararam para meditar sobre o ponto a que a projeção dos acontecimentos os tinha levado.

— Não gosto — disse finalmente o Presidente. — A melhor maneira de vencer essa luta é evitá-la. Façamos tudo que pudermos para obstruir a reunião antes que ela aconteça.

— A Casa Branca é nosso forum — disse Cartwright. — Podemos continuar a tentar reprimir as notícias.

— Veja se você consegue reviver aquela história de que estou melhor, Lucas. Insista com Smitty sobre isso, que meus olhos estão melhor, e já distinguem o claro do escuro. Essa notícia ficou meio apagada porque só deram ênfase aos meus foras na coletiva, mas vale uma tentativa.

Cartwright resolveu arriscar-se.

— Apenas para meus objetivos de planejamento, Sr. Presidente... e espero que o senhor não interprete de forma errada... a melhora é significativa, mesmo?

O “mesmo” foi bem mais oportuno do que “de verdade”...

— Um pouco — disse o Presidente. — Não muito. No início eu já conseguia formar imagens, mas não quis dizer.

Ericson inclinou-se para a frente na poltrona.

— Você me perguntou isso para ver se eu confiava em você, Lucas, e eu confio. Agora, chega de testes. Que temos hoje?

— A reunião de nove horas sobre segurança nacional, que hoje será liderada pelo chefe do Estado-Maior do Exército, General Lawton. É um sujeito alto e magricela do Alabama, que adora futebol americano. Às dez, o Conselho de Assessores Económicos, com os três membros, de caráter meramente informativo, sobre as cifras da semana seguinte. Nenhuma decisão será necessária. Às onze e meia, ainda no Salão Oval, o repórter do Christian Science Monitor. Ele está predisposto a ser gentil. Prepare-se para discorrer sobre a África. Ele já trabalhou em Acra, em Gana.

— Nossa! — suspirou o Presidente. — Espero que o General Lawton conheça seu assunto sobre o Quarto Mundo. Alguma informação sobre o repórter?

— Ele é um estudioso de pássaros. Sobre isso, o jardineiro da Casa Branca disse que dois pássaros frequentam o Jardim das Rosas: um gaio azul, que canta sem parar, e um cardinal que não canta Nenhum dos dois é raro, mas servem para mostrar que o senhor sempre se interessou profundamente por pássaros.

— Provavelmente são lindos de ver — acrescentou tranquilamente Ericson. — Nunca me interessei em olhar para eles. Quer dizer que é um gaio que faz a barulheira toda? Que mais?

— Há mais quatro horas marcadas comigo e com outros assessores, relacionados para fazer a agenda parecer cheia, mas na verdade o senhor só tem algo importante às cinco horas. É quando o Secretário Curtice se apresentará, de volta da Rússia.

— Por que tão tarde? Não vai dar tempo de ele aparecer no noticiário noturno da TV.

— É a hora em que o avião chega a Andrews, e nós vamos trazê-lo de helicóptero até aqui.

— Faça com que o avião dele chegue umas duas horas antes — instruiu o Presidente. — Ele se encontra aqui comigo, sai e diz que eu estou muito bem-informado sobre tudo. Eles o entrevistam na varanda às quatro horas, e as redes de TV terão um lead de política externa.

Ele estava certo. Cartwright se enganara ao planejar a agenda do Presidente com base na agenda de outra pessoa. A hora de chegada de Curtice poderia facilmente ser trocada através de um telefonema internacional, e o Secretário de Estado poderia apresentar-se ao Salão Oval do Presidente em hora a ser devidamente aproveitada.

— Dei um fora — reconheceu o chefe da Casa Civil. — Curtice estará aqui às três e meia, e dará uma coletiva improvisada às quatro horas, na varanda.

Ericson mudou de assunto.

— Será que Curtice vai ser o homem a ser utilizado por Bannerman para convocar a reunião do Gabinete?

— Acho que não — respondeu Cartwright. — Ele está incomunicável, para começar. Cuidamos disso. E o Secretário de Estade, deve estar do nosso lado. Ele certamente não tem outra base política, a não ser com o senhor. Bannerman lhe prometerá a lua, mas Curtice conhece melhor ao senhor.

O Presidente perguntou:

— Quem mais pode convocar a reunião?

— Qualquer membro do Gabinete, ou o Vice-Presidente, pode convocar uma reunião do Gabinete para considerar a incapacidade do Presidente.

Cartwright estivera estudando a Vigésima Quinta Emenda.

— E todos eles estão na cidade e gozam de saúde.

— Lamentavelmente — respondeu Cartwright. — Mas a tarefa que os espera não é fácil. Precisam da aprovação do Vice-Presidente, e da maioria dos chefes dos principais departamentos; isto representa seis membros do Gabinete. O que significa que os iniciadores de uma moção de incapacidade perderiam se a votação fosse três a três. Eles precisam de quatro para ganhar.

— Ou de três e uma abstenção.

Cartwright assentiu com a cabeça, mas deu-se conta de que isso nada significava para Ericson, e disse:

— É evidente.

— Não é tão difícil assim para eles, Lucas. Essas coisas criam um ímpeto. Não vivo há muito tempo nesta cidade... ela é mais sua cidade do que minha... mas aqui a característica é acompanhar a maioria no que toca a ideias e movimentos. Nós mesmos já experimentamos isso, lembra-se? Primeiro foi a lua-de-mel, depois o mês em que todos se queixaram e depois a tensão, quando nos envolvemos de verdade com assuntos externos. A disposição e o ímpeto são importantes. Podem levantar poeira contra nós.

— O senhor talvez se engane. — Não valeria a pena deprimir o Presidente. — Ninguém gosta de se apressar em graves assuntos constitucionais. Há algumas cabeças frias por aí, especialmente no Congresso.

— Não quero que o assunto vá ao Congresso — disse rispidamente o Presidente. Temos de podá-lo ainda em arbusto, antes de obter um voto do Gabinete. Se falharmos, e houver a reunião, é aí que começa a ferver, e será nossa vez de atacar. E depois posso recomeçar tudo.

— O senhor vai precisar de um coordenador de campanha.

— Me adiantei a você, Lucas. O Procurador-Geral é o nosso homem. Posso confiar nele, e ele é bom. Vou logo telefonar-lhe.

Por quê? O senhor só vai conseguir excitá-lo, e isso vai contribuir para a febre do “vamos convocar uma reunião”. Saia dessa. Não suponha que isso vá mais adiante do que o estágio de conversações. E preciso considerável — Cartwright buscou a palavra — temeridade para reunir um grupo e investir contra a Presidência. Haverá acusações de usurpação e até de traição.

— Quanto mais falarem nisso, melhor.

Ericson pareceu animar-se.

— Esta é a palavra, Lucas: “usurpação”. Não, não estou a fim de entregar este país a gente como T. Roy Bannerman. Eis a estratégia. Vamos levar a coisa friamente. Só entrarei em contato com o P. G. quando soubermos da iminência de alguma trama. Pensando bem, no momento exato, mande que ele me telefone. Eu me ocuparei, ficarei aqui na Casa Branca, em Camp David ou outro lugar, e vamos ganhar a parada.

— Ótimo, isto é ótimo.

Cartwright permitiu-se o entusiasmo.

— Tenho uns dois assuntinhos domésticos para tratar. O senhor gostaria de falar com o Presidente de Uganda a semana que vem? Ele gostaria de vê-lo.

— Não, por que ficar relembrando a todo mundo meu fora político? Já basta ver o homem do Monitor.

— Sua fotógrafa oficial deixou um recado tarde da noite ontem: ela gostaria de fotografá-lo hoje à hora do almoço.

Hoje não, diga a ela. Onde está Abelson? — perguntou irritado o Presidente.

— Ele ontem foi, para casa resfriado — disse Cartwright. Ele mesmo diagnosticou.

Pareceu-lhe estranho que o Presidente notasse tão depressa a ausência de seu médico pessoal.

— Ele disse que esperava estar de volta ao batente amanhã. Nesse interim o assistente dele está aqui.

— Seria bom se Herb ficasse em casa e não atendesse ao telefone. Abelson está conosco, e confio inteiramente nele, mas ele se preocupa demais, e percebe-se.

— O descanso lhe fará bem — disse Lucas Cartwright, e levantou-se. Viu Hank Fowler de pé, à porta da grande sala de jantar.

— Entre, Hank, o Presidente agora fica sob sua responsabilidade.

Observou com admiração o terapeuta dar sete passos à frente, com a bengala a orientá-lo, bater com a ponta numa cadeira, aproximar-se dela e sentar-se confiantemente, ajeitando a mão de forma a que o mordomo nela colocasse uma xícara de café.

A voz de Hank Fowler o impediu de sair.

— O senhor fez parte da Administração de Eisenhower, não é verdade, Sr. Cartwright?

Ele assentiu que fora assistente do chefe da Casa Civil de Ike, Sherman Adams, e o terapeuta indagou:

— O senhor teve ocasião de presenciar alguma deficiência física de Eisenhower? Ele tinha problemas estomacais, e sofreu um enfarte.

Fowler estava começando um papo que ambos planejaram ter na frente do Presidente, como se fosse espontâneo.

— Vi uma vez o Presidente, não muito depois do seu derrame em 1958 — relembrou Cartwright. — Nunca disse nada a ninguém sobre isso. Foi no seu quarto de hospital, aonde eu levara uns papéis para serem assinados. Ike apontou para um termômetro na mesinha ao lado da cama e disse: “Dê-me isso”. Eu perguntei: “O termômetro?” E ele disse: “A palavra é essa”. O Presidente sentou-se um pouco na cama, segurando o termômetro, sem dizer nada, e depois me contou que estava tendo problemas para se lembrar das palavras que descreviam os objetos comuns. Eisenhower nunca foi homem de se desesperar, mas jamais esquecerei a expressão de seu rosto naquele dia em que ele não conseguiu encontrar a palavra, e em que ele deve ter-se perguntado se recobraria o pleno uso do cérebro. Isso durou uns dez dias, e o Governador Adams só deixou alguém entrar para vê-lo quando teve certeza de que ele não iria ficar tateando em busca de palavras. Quando Ike se recuperou, nunca falamos sobre o período na Casa Branca em que ele não esteve funcionando plenamente.

— Nesse período, durante aqueles dez dias — disse Fowler, como combinado — Eisenhower deve ter sofrido um bocado.

— Sua expressão era a mais lúgubre que já vi num rosto de homem — admitiu Cartwright. — Foi sorte não haver acontecimentos extraordinários do mundo naquela época, que ele se tenha livrado daquela, e que nenhuma decisão tivesse de ser tomada.

Ele pediu licença e saiu da sala. O chefe da Casa Civil não tinha o menor constrangimento em representar para o Presidente Ericson, em lembrar-lhe que outros haviam enfrentado seu dilema em outras épocas. A visita ao hospital de Eisenhower era verdade.

O dia da Casa Branca deu muito trabalho a Cartwright. Quanto mais recados telefónicos ele respondia, mais recebia. As chamadas que tinha todo o cuidado em responder vinham do Congresso: o Presidente não se podia dar ao luxo de desagradar ninguém lá, no caso de que o instrumento jurídico número um (a reunião) acontecesse, e que o instrumento jurídico número dois (votação para declarar o Vice-Presidente, Presidente Interino) seguisse, o que Cartwright julgava bem poderia ocorrer. A essa altura, Ericson refutaria ter de passar o poder, e o Congresso seria o último instrumento jurídico a ser acionado.

Pêssegos e requeijão na mesa lhe recordaram o delicioso desjejum da manhã — comer na Casa Branca era um verdadeiro prazer, sempre o fora — e ficou surpreso ao ver surgir, às três horas em ponto, o jovem redator de discursos, Jonathan das Couves. Cartwright esquecera de anotar o encontro na agenda, e de dizer à secretária para adiar a data até a semana seguinte. Por isso, lá estava o rapaz, parecendo muito desalentado para não ser atendido.

— O senhor é a única pessoa aqui em quem confio, Sr. Cartwright — começou Jonathan. O homem mais velho fez sinal com a cabeça: o pessoal mais jovem tinha uma tendência para confiar nele e ele neles, o que era um erro, pois o acto de se confiar em alguém não dependia de idade. Ele levantou um dedo, e falou para o inter-com:

— Não recebo nenhum chamado nos próximos dez minutos, exceto se for do Presidente.

Isso informou ao visitante de quanto tempo dispunha, de forma gentil.

— Acho que vai haver uma tentativa, senhor, de tirar o Presidente do cargo — disse o redator, engolindo em seco. — Sei que é uma coisa horrível de dizer, mas é isso mesmo que eu acho.

Muito calmamente, como se estivesse empenhado num conselho estudantil, o chefe da Casa Civil do Presidente perguntou:

— Que foi que o levou a pensar assim, Jonathan?

— Meu relato deve levar mais de dez minutos, senhor, se eu começar do princípio.

— Tenho muito tempo — disse Cartwright. O que não era verdade; nesse momento, o som do helicóptero anunciava a chegada do Secretário de Estado Curtice ao gramado; o Presidente queria que Cartwright participasse da reunião, mas isso teria de esperar. Ao mesmo tempo, Hennessy telefonava para tratar de algo que ele considerava urgente, e Smitty objetava contra a improvisada coletiva dali a meia hora, Herb Abelson não estava em casa nem no escritório, o que poderia causar problemas.

— É um dia sem muito para fazer — mentiu Cartwright — só tenho uma pilha de uns malditos memorandos para ler. Conte-me o que há.

— Buffie, a fotógrafa que dorme com o Presidente, foi ao meu apartamento na noite da coletiva com a imprensa — disse impulsivamente o redator. A princípio hesitantemente, depois com ávida articulação, ele rememorou sua tentação e queda em desgraça, até o ponto em que estava partilhando uma garota com o Presidente, com grande risco pessoal para seu futuro.

— Jonathan, se lhe fez bem contar isso tudo a outra pessoa — disse Cartwright — estou contente de tê-lo ouvido. Isso talvez o surpreenda, mas mesmo naqueles anos aborrecidos e sensatos, há uma geração, da última vez em que trabalhei na Casa Branca, havia um montão de pulos de cama para cama. Você está continuando o que só pode ser chamado de uma grande tradição, embora ninguém possa protegê-lo das consequências dessa ligação em especial.

— Eu não tomaria seu tempo apenas para lhe dizer que dormi com a namorada do Presidente, senhor. Foi sobre o que aconteceu depois disso que lhe vim falar. Sobre a trama para assumir o cargo, acho que se pode chamá-lo assim.

Cartwright não se permitiu uma reação, e continuou a ouvir.

— Bem, o senhor entende, depois que nos conhecemos bastante bem, Buffie sugeriu que eu conhecesse o Secretário do Tesouro, Sr. Bannerman. Eu disse que economia não era meu forte, e ela falou que nada tinha a ver com discursos, e que precisávamos pensar em nossas carreiras depois que deixássemos a Casa Branca, no que Bannerman poderia ser muito útil, com revistas sobre finanças etc. Eu então respondi que talvez, quem sabe, um dia desses eu o conheceria, e ela insistiu e perguntou: “Que tal hoje à noite?” Isso foi ontem à noite, e nos encontramos no restaurante North China, em Bethesda, onde se come uma comida apimentadíssima, as lágrimas correm pelo rosto.

— Muito condimentada — disse Cartwright, que era mais do mingau de aveia.

— A essa altura, comecei a achar que talvez estivesse sendo usado. Quero dizer, quando ela apareceu lá em casa, achei que estava apenas querendo dormir comigo, e isso não é coisa muito estranha por aqui. Sr. Cartwright, não sei como era na época de Eisenhower, mas creia-me, todo mundo está trepando com todo mundo por aqui, é incrível como conseguimos chegar ao fim do dia. De qualquer modo, Buffie trepa mais que todos e melhor que todas que conheci, e eu estava totalmente perturbado, quando ela veio com a história de que eu deveria conhecer Bannerman. Foi muito cedo, sabe? E logo naquela noite. Ele é o Secretário do Tesouro, um homem ocupado. Como é que ela podia saber que ele estaria disponível tão depressa, a não ser que tivesse um encontro com ele? E a não ser que eu desde o início fizesse parte desse encontro?

— Boa dedução — disse o homem mais velho, assentindo com a cabeça. — Obviamente você estava sendo usado, ou lhe prepararam uma armadilha.

— Comemos essa refeição horrível, nós três. Eu estava realmente fodido de cansaço... desculpe-me, senhor... eu estava pregado, física e mentalmente, por isso simplesmente escutei tudo com uma expressão cheia de vida, devo ter parecido um idiota ao Secretário Bannerman. Ele me lisonjeou a princípio e disse que ouvira falar do ótimo trabalho que eu tenho feito para o Presidente Ericson. Quis saber se eu era íntimo do Presidente. Eu então exagerei, como sempre faço, e disse que era o redator favorito do Presidente.

— E você é — interveio Cartwright — no que toca às, digamos, observações sobre o Jardim das Rosas. [nota: Significa que nos assuntos mais amenos. “Jardim das Rosas” é o jardim que rodeia a Casa Branca (Rose Gardens, em inglês)]

— A frase é “fofocas do Jardim das Rosas”, senhor. De qualquer maneira, o Secretário Bannerman começou a perguntar minha opinião quanto à cegueira do Presidente, e eu respondi que achava horrível, que ele já não podia ler um discurso. Ele começou uma lengalenga sobre os homens que apreciavam mais o Presidente se deveriam arregimentar em torno dele, apesar de ele mesmo. Ele queria dizer com isso que o verdadeiro teste de lealdade a Ericson era a lealdade ao país, que vem em primeiro lugar, e ninguém o nega. Depois, talvez meia hora mais tarde, depois que eu bebera uns drinques, ele disse que um pequeno grupo de gente leal a Ericson se estava reunindo para ajudar o Presidente a tomar a decisão correta quanto ao afastamento, por algum tempo, até estar em condições de dar conta do cargo. Eu perguntei: “O senhor quer dizer que vão roubar a presidência dele?” Ele quase teve um troço, e Buffie me chutou debaixo da mesa. Ele respondeu que não, que a intenção era ajudá-lo a ajudar o país numa hora crítica, ajudar Ericson a compreender o seu dever, que era, evidentemente, afastar-se temporariamente. Dessa forma, ele poderia voltar mas continuou ele, se o Presidente permanecesse no poder e só fizesse besteiras, não seria apenas mau para o país, como Ericson também acabaria caindo de quatro. Por assim dizer.

Por assim dizer — repetiu Cartwright. — O Secretário Bannerman lhe pediu para fazer alguma coisa?

— Para manter contato com Buffie, para ficar alerta para o que talvez seja a missão mais importante de minha carreira, seja lá qual seja, e para contar a ele qualquer facto que indicasse que o Presidente estava ficando biruta, agindo errado etc.

— Irmão Jonathan, você lhe perguntou quais eram seus planos?

— Não, achei que isso me faria parecer abelhudo.

Cartwright deduziu que o jovem não era tão imbecil quanto parecia: era um agente duplo nato.

— Ele só disse que haveria uma reunião do Gabinete para solicitar ao Presidente que se afastasse daqui a pouco tempo, talvez no início da próxima semana. Disse que ele e outros membros do Gabinete estavam sendo “pressionados pelo Departamento de Recursos Naturais para agirem depressa.

— Pelo Secretário Fong?

— Acho que sim, não perguntei.

— Bom, em tudo isso, Irmão Jonathan, esteja alerta para as pessoas e as datas, mas nunca force nada. Algo mais?

— Continuei a beber água e cerveja para tirar o fogo da boca, por isso tive de ficar interrompendo a toda hora para ir ao banheiro, o que fez as coisas um pouco desconexas. Ele me pediu segredo, e sugeriu que eu faria fama e fortuna se ficasse ao lado dos “únicos amigos verdadeiros do Presidente Ericson”. Entramos no meu carro e eu o deixei em casa, e depois Buffie. Buffie não quis que eu entrasse, porque estava preocupada que o Serviço Secreto a estivesse vigiando. Eu não me importei acho mesmo que não estava em condições de mais nada. Ela é mesmo sensacional.

— Deve ser — concordou Cartwright. Estava convencido de que o jovem à sua frente, uma combinação de redator e espião, podia ser muito valioso na campanha para a manutenção do Presidente. Não apenas no que pudesse saber, mas no que pudesse informar ao grupo interessado em subir ao poder. Como Bannerman era burro, em confiar assim num estranho! Talvez, porém, o Secretário do Tesouro achasse que todos tinham um preço, e que era improvável que alguém da Casa Branca não tivesse os valores costumeiros ou talvez Buffie tivesse exagerado para Bannerman sua influência sobre o rapaz. Cartwright continuou a tratar Jonathan — tinha de descobrir seu sobrenome e lembrar-se dele — com respeito.

— Que é que você acha que devemos fazer agora?

— Julguei que o senhor soubesse, Sr. Cartwright. Para lhe falar a verdade, estou bem perturbado. Este não é meu ramo de trabalho.

— Daria um bom livro mais tarde.

— É. É possível que o Presidente saiba que estou comendo a namorada dele?

— Que expressão deselegante! — brincou Cartwright. — Se você quiser, guardarei sua identidade de informante só para mim. O Presidente não precisa ficar a par do interesse que você e ele parecem repartir.

— Só o senhor e eu, então? Ótimo.

— É uma promessa. Se tiver de revelar sua identidade, Irmão Jonathan, pedirei primeiro seu consentimento. Continue como até aqui; suas aptidões para o assunto são boas. E deixe de se preocupar, você está agindo certo, o que é moral. Perdoe o uso dessa palavra antiquada.

Conversaram um pouco sobre moralidade, sobre golpes de estado e derrubadas de poder, sobre a Constituição e a intenção dos seus redatores. Cartwright tinha muito tempo. Deu ao rapaz seu telefone particular no escritório e em casa, e o levou lentamente à porta e até o elevador. Quando se fechou a porta do elevador, o chefe da Casa Civil dirigiu-se rapidamente ao Salão Oval, para pegar os últimos momentos da reunião com o Secretário de Estado.

Antes de entrar — o chefe da Casa Civil tinha direito de participar de todas as reuniões do Presidente e, neste caso, Ericson queria que ele estivesse presente desde o início — Cartwright parou para pensar o que deveria revelar do que acabara de saber. Para o Secretário Curtice, ele apenas levantaria a possibilidade de que a iniciativa da reunião partisse de Fong, e a fonte de Cartwright seria protegida pela alegação de que se tratava de informação de um jornalista. Para o Presidente, depois que Curtice saísse, ele acrescentaria a iminência da reunião sobre seu afastamento dali a uns três dias. Deveria contar a Ericson a triste notícia da deslealdade de Buffie? Era ela, provavelmente, a fonte de informações ao colunista sobre as apreensões de Herb Abelson. E Abelson era o contato dela com o Presidente, quando queria combinar encontrar-se com ele e por isso, em vista de Abelson estar doente em casa, ela recorrera a Cartwright.

Percebeu tudo agora: por isso o Presidente lhe perguntara sobre Abelson, quando soube que Buffie queria fotografá-lo hoje. Com o médico do Presidente ainda em casa, e fora da jogada, Cartwright tinha controle do acesso de Buffie ao Presidente. Provavelmente ela não passaria por cima dele e iria à Melinda, que talvez a desprezasse. E no seu papel de fotógrafa oficial, Buffie teria poucas informações valiosas para o grupo que queria derrubar Ericson.

Reunidas, essas migalhas de informações levaram Cartwright a resolver não contar naquele dia ao Presidente sobre o papel duplo de Buffie. Algumas das informações do redator de discursos poderiam ser transmitidas, sem revelar imediatamente a fonte, e isso era bom. Ele teria a oportunidade de falar sobre tudo isso com a Sra. Cartwright à noite, e o Presidente seria poupado, pelo menos por vinte e quatro horas, de saber que era chifrado, para usar um termo antigo. À porta, o chefe da Casa Civil se perguntou novamente: Haveria alguma informação que Buffie poderia ter, ou obter no dia seguinte, que seria valiosa para o grupo contra Ericson? Improvável. Saberia ela algo sobre a condição dos olhos de Ericson que o chefe da Casa Civil desconhecia? Evidente que não. Cartwright entrou na reunião.


O SECRETÁRIO DE ESTADO /2

Era essa a primeira vez em que George Curtice, Secretário de Estado, passara um período substancial de tempo com o Presidente. Em outras reuniões, uma terceira pessoa estivera presente: Cartwright, um redator ou uma secretária tomando notas, ou outro membro do Gabinete, como se Ericson precisasse de alguma outra testemunha de suas conversas para protegê-lo aos olhos da história. Para conservar Curtice honesto. O Secretário admitiu que talvez estivesse sendo supersensível, mas certa hipersensibilidade era inerente nos negros que galgam posições de real poder num mundo de brancos.

Em seus vinte minutos juntos, Curtice sentiu uma satisfação que não admitiria para ninguém, nem mesmo para seu diário: o Presidente, que não podia ver, não podia sequer ser afetado subconscientemente pela cor da pele de um homem. Para ser verdadeiramente cego às cores, precisava-se ser totalmente cego. Esse pensamento errante foi varrido na avalancha de observações que Curtice estava fazendo do homem que o escolhera para ser o principal agente de política externa da nação.

Ericson parecia concentrar-se mais agora. Não superficialmente, como se poderia esperar, mas profundamente: escutava, atento, o que Curtice tinha a dizer, e às vezes pedia que um ponto fosse repetido. Sua preocupação humana tampouco era superficial, como Curtice sempre desconfiara que fosse dantes. As perguntas sobre Harry Bok, o agente do Serviço Secreto, não eram formais nem frívolas: Ericson obviamente se importava com a outra vítima sobrevivente da emboscada. E — esta era a diferença, muito mais que outra coisa — Ericson não era mais tão irritantemente arrogante nem indiferente.

Lucas Cartwright abriu a porta e olhou. Curtice fora rapidamente instruído por Melinda McPhee e por um terapeuta cego sobre como agir com o Presidente, e ele seguiu as instruções.

— Eis Lucas — disse Curtice ao Presidente. — Faz duas longas semanas que não o vejo.

— Entre e sente-se — disse o Presidente, indicando o sofá; ele e Curtice estavam sentados nas poltronas de abas laterais, perto da lareira do Salão Oval, o que significava que seriam tiradas fotos antes que eles partissem.

— Por favor, Lucas, não se sinta rejeitado, mas desejava ficar algum tempo a sós com o Secretário de Estado.

— Não me importo absolutamente — disse o chefe da Casa Civil. — Fiquei com um pouco de dor nas costas de olhar pela fechadura.

— George esteve me dizendo que Harry Bok está paralisado da cintura para baixo — disse tristemente o Presidente. — Está recebendo o melhor tratamento, está animado, mas poxa! Quero ver o que o Serviço pode fazer para ele, na divisão de falsificações. Um homem não precisa ficar andando para examinar notas falsas.

— Ele gostaria disso — disse Curtice, olhando para Cartwright, com quem lançara a ideia do heroísmo de Kolkov à cabeceira de Bok. — O país lhe deve muito.

Perguntou-se se Cartwright revelava ao Presidente a ligeira alteração de ênfase no tocante à emboscada: não era vital que Ericson soubesse disso, e Curtice não o mencionaria, se Cartwright não o fizesse. O suposto heroísmo de Kolkov ajudou a difundir calma num momento assustador, apressou a partida do Presidente ferido, e auxiliou Vasily Nikolayev a solidificar sua posição como o sucessor lógico do Kremlin. Essa mentirinha ajudou a causa da paz e a aliança entre as superpotências, e quanto menor o círculo dos que a soubessem, melhor. Bok, Cartwright e Curtice teriam um elo a uni-los a vida toda.

— Informe resumidamente a Lucas as consequências da emboscada — instruiu o Presidente. — O resumo também me será útil.

O Ericson de um mês atrás teria acrescentado a última frase.

— Vasily tem agora controle efetivo — informou o Secretário de Estado. — Disse-me que a emboscada foi preparada pelas potências do Extremo-Oriente, numa tentativa para acabar com a aliança soviético-americana. Entrementes, eles vão incentivar o Quarto Mundo para atacar o Terceiro...

— Um mundo de cada vez — fez Lucas, abanando a cabeça. Essa foi uma boa jogada, a de fingir-se confuso para que Curtice ralentasse a marcha e o Presidente pudesse absorver tudo.

— O Primeiro Mundo é a aliança soviético-americana — recomeçou Curtice. — A intenção era fragmentá-lo com o assassinato do Presidente americano na Rússia. Então, o Segundo Mundo, as potências do Extremo-Oriente, o Japão e a China, seriam a superpotência dominante. Seria do interesse de chineses e japoneses ter o Terceiro Mundo, as potências do Oriente Médio, os árabes, os israelenses e a Índia, sob ataque do Quarto Mundo, as nações subdesenvolvidas da África e da América Latina. Não apenas sob o ataque dos cartéis económicos quanto às matérias-primas, mas também sob pressão militar não-nuclear.

— Não se esqueça dos bons vizinhos — disse Ericson.

— Dentro dessa situação estratégica mundial — explicou Curtice — temos um problema imediato em nossas fronteiras, como sabem: os habitantes de Quebec e os mexicanos estão alinhados contra nós, e lideram o Quarto Mundo, junto com a Nigéria. Isso torna importantíssima a aliança soviético-americana, para que o mundo não se desintegre.

— Afora isso, nada de novo — disse o Presidente.

— O Presidente por acaso lhe mencionou alguns dos acontecimentos que têm ocorrido aqui enquanto você estava vagabundeando por aí? — perguntou Cartwright a Curtice.

— Ainda não havíamos chegado a esse ponto — replicou o Secretário de Estado. Ele achava que os assuntos mais importantes tinham de ser tratados em primeiro lugar: vindo do aeroporto, e dando uma olhada nos jornais, Curtice ficara apavorado com a falta de atenção para a perigosa situação internacional, e a preocupação da mídia com as dificuldades físicas do Presidente. Com a sobrevivência do mundo em jogo, a única coisa pela qual a imprensa americana se interessava era o mau desempenho do Presidente numa coletiva à imprensa. Evidente que a cegueira de Ericson era um assunto altamente contristador, e uma tragédia pessoal, mas na escala das preocupações humanas, era minúscula, em comparação com o perigo de guerra.

— O Secretário do Tesouro — disse Cartwright, ligeiramente entediado — tem tentado convencer o Vice-Presidente e alguns outros membros do Gabinete que o Presidente está praticamente em coma. Quer convocar uma reunião do Gabinete para declarar a incapacidade do Presidente para trabalhar, e para nomear Nichols Presidente Interino. Então, quando o Presidente Ericson duvidar disso, Bannerman acha que pode conseguir dois terços de ambas as casas do Congresso no sentido de que concordem que o Presidente eleito não pode continuar no cargo. É um esquema doido, não pode dar certo.

— Bannerman está falando sério?

Curtice fora informado a respeito enquanto estava na Rússia, e seu assistente o atualizara minuciosamente a respeito do helicóptero que o trouxera à Casa Branca, mas o caso lhe parecia falta de assunto de jornal. Assemelhava-se mais às manobras do Kremlin do que da Casa Branca.

— Talvez esteja — disse Cartwright. — Bannerman tem muita ascendência sobre o Vice-Presidente, você sabe como é Nichols, e vai utilizar grande sutileza para assumir a liderança do Gabinete. O Secretário Fong deverá ser a pessoa a sondar você, George.

— Mike Fong está do lado deles? — perguntou, surpreso, o Presidente. — Filho da puta! Eu o tirei da obscuridade total.

— Eu sou o membro de maior hierarquia do Gabinete — acentuou o Secretário de Estado. — Na ausência do Presidente, não me cabe convocar as reuniões do Gabinete?

— Não neste caso — respondeu Cartwright, — Qualquer membro pode convocar reuniões, se o objetivo for declarar incapacidade, e todos vocês devem comparecer. Bannerman e Fong provavelmente tentarão realizá-la no início da semana que vem, para pegar a opinião pública ainda efervescente.

— Não pressione George sobre isso, Lucas — disse o Presidente. — Se ele acha que a política externa do país estaria em melhores mãos sob o Vice-Presidente Nichols, com um Presidente eleito impugnando a legitimidade do usurpador a cada alguns meses e os líderes estrangeiros sem saber com quem lidar... Diabos, a decisão cabe ao Secretário Curtice e não quero influenciá-lo.

— O Secretário Bannerman vai se apoiar em você — disse-lhe Cartwright tranquilamente. — Obviamente, o Presidente não vai. Não ousaria dar-lhe minha opinião, a não ser que solicitado.

— Qual é sua opinião, Lucas?

Curtice admirou a técnica de Cartwright: embora sua proximidade ao Presidente lhe desse mais poder do que qualquer membro do Gabinete, ele sempre acatava os membros do Gabinete, o que lhe reforçava o poder.

— Um golpe... e é isso o que seria, independente das emendas à Constituição que forem citadas... jamais sairia vitorioso. Um golpe malogrado, que é o que aconteceria numa reunião do Gabinete, faria os Estados Unidos parecerem uma republiqueta de bananas aos olhos do mundo, e até talvez incitasse algum dano internacional. Por essa razão, julgo que seria desastroso se houvesse essa reunião do Gabinete.

— Duvido muito que chegue a isso — disse Curtice, sem se comprometer antes de ser preciso, mas deixando a impressão de que era leal ao Presidente. — Devo agora falar aos jornalistas lá fora, ou adiar a conversa com eles por um dia e fazer uma coletiva com a imprensa no Departamento?

— Depende inteiramente de você — disse o Presidente. — Eles estão aí, doidos para falar-lhe, e você tem muito a dizer. Suponho que você poderia fazer as duas coisas, se quisesse: rápidos comentários agora, e uma coletiva à imprensa mais demorada amanhã, no seu escritório.

— Está certo — concordou Curtice. Já eram duas mordidas na maça. Saiu do Salão Oval com Cartwright, que disse, a caminho do escritório do Secretário de Imprensa:

— Os comentários que lhe fiz sobre o boato político, evidentemente as suspeitas de Cartwright eram bem fundamentadas;

— O assunto não foi sequer aventado — assegurou-lhe o Secretário de Estado. — Minha reunião com o Presidente aconteceu antes que você chegasse, e é sobre ela que falarei à imprensa.

Cartwright o levou a Smitty, que o encaminhou à sala de reuniões com a imprensa. Um assessor do Departamento de Estado lhe entregou um bilhete antes de ele subir à plataforma: “O Secretário Fong ligou para dizer que esperava que o senhor não respondesse a nenhuma pergunta sobre assuntos constitucionais internos antes de ele ter uma oportunidade de conversar com o senhor”. Evidentemente, as suspeitas de Cartwright eram bem fundamentais; era um bom assunto a ser evitado, até que ele se inteirasse das coisas. Curtice lembrou-se de que esse era o pessoal de imprensa agressivo e petulante da Casa Branca, interessado em assuntos locais, e não o grupo mais urbano que cobria o Departamento de Estado.

— A última vez em que vi o secretário — disse Smitty aos repórteres, à guisa de introdução — foi há três semanas, quando ele lutava pelos direitos do pessoal de imprensa americana em Yalta, tentando fazer com que toda a história fosse logo divulgada. Ele vai informá-los sobre sua reunião com o Presidente, responderá a algumas perguntas, e estará depois disponível para uma coletiva em grande escala às dez da manhã, amanhã, na sala grande do Departamento de Estado. O Secretário Curtice.

O Secretário de Estado subiu ao pódio, as luzes se acenderam, e as câmaras na extremidade da sala piscaram suas luzes vermelhas. George Curtice lhes deu dois minutos de assuntos gerais sobre sua reunião com Ericson. Ao se aproximar do fim, um questionador interrompeu-o impertinentemente:

— O Presidente lhe pareceu capaz de desempenhar adequadamente seus deveres?

— Que pergunta estranha! Na última vez em que o vi, ele estava deitado de costas, em Yalta, feliz por estar vivo. Hoje ele estava de pé e se movimentando, escutando o meu relatório. Este é um grande progresso em pouco mais de três semanas.

Do fundo da sala, alguém gritou:

— O senhor sabe de alguma coisa sobre uma reunião de Gabinete convocada para discutir a incapacidade do Presidente?

— Não.

— Sua resposta à primeira pergunta, Sr. Secretário, foi uma cortina de fumaça — disse o primeiro questionador, — O senhor acha que ele é capaz de executar seus deveres ou não?

— O senhor não é o primeiro a ficar insatisfeito com uma resposta minha — disse Curtice suavemente — nem será o último, mas já obteve minha resposta.

Ele descobrira que quando eles o imprensavam a melhor atitude era fazer jogo defensivo; eles então o tratavam com mais respeito.

— Senhor, já esteve em contato com outros membros do Gabinete, ou com o Vice-Presidente, desde que Voltou?

— Não falei com nenhum deles.

Ele não reagiu ao “em contato com”, e imperceptivelmente o mudou para algo que ele pudesse manipular.

— Minha primeira tarefa foi informar ao Presidente de alguns acontecimentos extremamente importantes de política exterior. Estava preparado para esquivar-me a suas perguntas sobre eles, mas parece que não terei de fazê-lo até amanhã.

Sua frase foi recebida com um sorriso.

— Vai haver guerra? — indagou uma voz à esquerda.

— Vou responder a essa pergunta com a seriedade que ela merece — respondeu Curtice, preparando-se um momento para responder, o que indicou aos cameramen que essa era a parte da conferência que deveria decorrer tranquila.

— Entramos num período de altas tensões no mundo. Há razões para crer que a emboscada foi basicamente dirigida ao Presidente Ericson, como alvo principal, e ao Primeiro-Ministro Kolkov como segundo alvo. Conviria a algumas potências ou algumas facções de algumas potências, uma ruptura na aliança soviético-americana. Não devemos permitir que isso aconteça, porque essa aliança é fundamental para a paz no mundo de hoje.

— Quem a planejou, Sr. Secretário? o senhor sabe, pode dizer?

— Ainda não estamos preparados para fazer nenhuma revelação sobre quem eram os assassinos, ou quem os instruiu e contratou. Os soviéticos estão realizando detalhadas investigações. Estamos em contato com eles, e nós mesmos estamos fazendo investigações. Mas o assunto é extraordinariamente sensível, e o momento é difícil. Não sou, de forma alguma, um alarmista, mas informei o Presidente, de forma preliminar, de meus demorados debates com Vasily Nikolayev, e o Presidente Ericson e eu nos reuniremos novamente no fim de semana.

— Pela natureza das perguntas que lhe fez, o senhor teve a impressão de que o Presidente apreendeu totalmente o significado de tudo que lhe contou?

Os cachorros não estavam a fim de abandonar o osso.

— Já respondi a isso, mas devo acrescentar que o Presidente estava preocupadíssimo com o progresso de Harry Bok, cujas pernas parecem estar paralisadas. Lamento não ter tido boas notícias para transmitir sobre esse corajoso homem.

Este era um bom momento para escapar.

— Preciso ir, mas amanhã estarei disponível por mais tempo. E com repórteres que têm uma perspectiva bastante diferente, ele poderia ter dito mais.

Em sua limusine — o Departamento de Estado mantinha os compridos Cadillacs, para não fazer feio — Curtice resmungou para seu assessor, um funcionário do corpo diplomático de idade, sexo, credo e origem desconhecidos:

— Que é que há com esta cidade? A única coisa com que se preocupam é a política, poder, quem está em cima, quem está embaixo, quem é o próximo. O Presidente está cego, isso é horrível para ele, mas no contexto do que está acontecendo no mundo neste instante, não representa nada. Se Nikolayev conseguir atribuir essa coisa aos chineses, as consequências serão enormes. Ou se foi iniciativa do bloco árabe-israelense, preocupado com o negócio de petróleo que estamos fazendo com os soviéticos, será uma convulsão com outro rumo. Todas as chancelarias do mundo estão em suspenso, e de que falam aqui? Da vista de Ericson. Puxa!

— O Secretário Fong perguntou se pode ir à sua casa antes do jantar, senhor. Disse que é assunto da maior gravidade.

Curtice olhou vivamente para seu assessor.

— “Maior gravidade”... isso é expressão sua ou dele?

— Na verdade, é minha. Acho que ele disse que era urgente para danar.

— Isso é mais do jeito de Fong. Vou para casa agora dormir um pouco, já passa de meia-noite para mim, no horário de Moscou, e o receberei às oito. Ele pode jantar conosco.

— E se ele não puder a essa hora?

Curtice sorriu levemente.

— Mike vai poder a qualquer hora em que eu puder.

Após uma soneca restauradora para Curtice, os dois membros do Gabinete jantaram na residência do Secretário de Estado e conversaram durante três horas. O argumento do Secretário Fong era bem mais convincente do que Curtice julgara inicialmente: Ericson perdera a capacidade de governar, e o povo estava começando a perder a confiança nele. Essa perda logo começaria a ser catastrófica. Faltavam três anos e meio de mandato, o que poderia ser um período irremediavelmente longo se não houvesse nenhuma verdadeira liderança, e o Presidente era muito teimoso ou, pior ainda, estava muito confuso para tomar a providência necessária de se afastar temporariamente Se o Gabinete permitisse o precedente de deixar de agir face a tão óbvia incapacidade do Presidente, a Vigésima Quinta Emenda não valeria nada, e nenhum Gabinete futuro teria a coragem de votar pelo afastamento de um líder ferido.

Curtice quis saber se o grupo que queria a saída de Ericson — o Presidente o chamava de “grupo usurpador” e Fong pegou uma frase de jornal que os identificava como “o grupo da vigésima quinta” — tinha possibilidade de vitória. O Voto do Vice-Presidente seria deles? A resposta de Mike Fong foi que o Vice-Presidente não julgava apropriado que o homem a tomar o lugar do Presidente influenciasse a decisão do Gabinete, e não votaria contra nenhuma acção da maioria.

Os dois homens saíram para a varanda, num morro com vista para o Potomaque.

— Você deve estar exausto, George — disse Fong. — Não precisa decidir hoje.

Mike Fong, ex-governador do Novo México, era o homem indicado para dar início à acção, reconheceu Curtice. Era um homem de fala macia, que vendia bem seu peixe, e que a maioria estimava. Bannerman era excessivamente dominador e era mais eficaz operando de longe.

— Dos seis votos, Sr. Secretário, quantos o senhor tem?

— O único que temos certeza de não ter é o do Procurador-Geral. Ele quererá ater-se à mais rígida interpretação da lei, definindo “incapacidade” como uma coma demorada em alguma enfermidade sem cura. Bannerman e eu estamos cem por cento juntos. O Secretário de Defesa está se inclinando para nosso lado. O Secretário de Recursos Humanos, bem, Andy Frangipani tem muitas razões políticas para ficar ao lado de Ericson incondicionalmente, mas pode surpreender. Votará de acordo com sua consciência num assunto dessa importância. Então, o panorama é o seguinte: pela retirada de Ericson: dois “sim” e um “não” certos; um “sim” provável, e um “sim” talvez. E você.

— Evidentemente — disse cautelosamente Curtice — não me importa, num assunto desse tipo, que lado tem mais votos. Como você diz, é uma questão de consciência, e se eu achasse que o Presidente estava incapacitado de funcionar, ou se sua cegueira fizesse outros pensarem que estamos vulneráveis, eu votaria pela sua remoção, mesmo que esse voto estivesse condenado, e mesmo que me custasse minha carreira política.

— Naturalmente — Fong fez sinal afirmativo com a cabeça. — O mesmo se passa conosco.

— Se eu disser não, e tudo indicar que vocês perderão, abandonarão a causa?

— Vamos realizar a reunião do Gabinete segunda-feira, George, e minha opinião é de que a maioria votará pelo afastamento de Ericson. Seria melhor para o país se a votação fosse o mais próximo possível da unanimidade. Por isso sua decisão é tão importante. Daria um sentido de continuidade, de unidade, tudo isso.

Curtice ponderou sobre isso. Duas abordagens tinham ficado disponíveis ao grupo de Bannerman: agir como se o voto de Curtice fosse crucial e decisivo e que eles necessitassem desesperadamente dele, ou fingir que já eram favas contadas, e era melhor para ele juntar-se ao grupo, se desejasse permanecer em Washington nos três anos e meio seguintes. Haviam escolhido a última abordagem. Ou estavam blefando, ou tinham forçado o Secretário de Defesa e era provável que o Secretário de Recursos Humanos desertasse de Ericson.

— Só decidirei quando for preciso — disse a Fong. — Diga a Bannerman que minha mente está aberta.

— Discuta com o Secretário de Defesa — sugeriu Fong. — Vocês dois são as duas autoridades mais antigas do Gabinete, e Reed ainda não se decidiu tampouco. Acho que ele encara o assunto de um ângulo diferente, e inclui as preocupações de política externa e sua superposição.

Curtice disse que o faria. Depois que Fong partiu, foi para seu pequeno quintal dos fundos no bairro de Foxhall Road — a vizinhança continuava a ser puramente branca, mas por razões económicas — e ficou sozinho na suave noite de verão de Washington.

Quer dizer que eles realmente falavam a sério! Fong era um homem bom, sincero, e queria fazer o que fosse certo. Inclinava-se a ser dominado pessoalmente por Bannerman e ideologicamente por aquela ala do partido, mas no geral seus motivos não poderiam ser refutados. Bannerman era outra coisa: um intermediário do poder cansado de sê-lo a vida toda, e ansioso para tornar-se um Controlador do poder. Curtice achava que, em termos de política e do exercício do poder, Bannerman, com todos os seus modos despópticos, talvez fosse melhor do que Emmet Duparquet, o Procurador-Geral, que certamente era o membro do Gabinete que Ericson julgava poder fazer seu sucessor. Ele não confiava inteiramente em Duparquet, um sulista, judeu rico, que desprezava as aspirações do Quarto Mundo. E falando francamente, Curtice tinha de reconhecer que tampouco confiava em Sven Ericson.

Devia, porém, muitíssimo ao Presidente. A nomeação de Curtice como Secretário de Estado fora Coisa só de Ericson, sem envolver nenhuma pressão política nacional nem gratidão. Como pareceria se o primeiro Secretário de Estado negro devolvesse essa confiança ao virar-se contra seu Presidente, num golpe frustrado do poder? Por outro lado, como pareceria para o primeiro negro Secretário de Estado ficar grudado no osso, à maneira de um Tio Tom [nota: Personagem negro de A Cabana do Pai Tomás.] agradecido, quando homens sérios e patriotas invocassem vitoriosamente a Vigésima Quinta Emenda e conseguissem remover da presidência um homem, teimoso mas fisicamente incapaz?

Curtice lembrava-se da história do juiz corrupto que chamou dois advogados a seu escritório e enfatizou que um lhe havia oferecido cinco mil dólares para absolver o réu, e o outro lhe oferecera dez mil dólares para condenar o mesmo réu. Quando Curtice contava a piada em jantares, sempre se riam dela: “Então que é que vocês me dizem, amigos, o primeiro sujeito me dá mais cinco mil dólares, e resolvemos o caso segundo seus próprios méritos?”, concluíra o juiz.

Ele pensaria nisso, com toda a solenidade que merecia, e o discutiria com o Secretário de Defesa. Curtice respeitava muitíssimo os julgamentos imparciais de Preston Reed. A opinião de Vasily Nikolayev também era importante: ele parecia respeitar muito Ericson. O Secretário de Estado americano resolveu que o melhor era esperar para ver; sempre era possível que não fosse preciso tomar nenhuma decisão.
 

O MÉDICO DO PRESIDENTE /2

O Refeitório da Casa Branca, duas salas de jantar dos funcionários, situadas no subsolo da Ala Oeste, sem janelas e com lambris de madeira, vedadas à imprensa, mas onde membros do staff podem receber seus convidados, acomodam cerca de cinquenta pessoas. A comida é simples mas saborosa; não se servem bebidas alcoólicas durante o dia, exceto uma margarita [nota: Drinque mexicano, feito de tequila, suco de limão ou lima, e açúcar.] ao almoço das quinta-feiras, dia do almoço mexicano especial. O refeitório não cobra caro, e representa um prestigioso fringe benefit para o pessoal sênior do staff que não é bem remunerado, e uma vantagem para o staff júnior excessivamente bem pago. Ademais, impressiona bastante os convidados para almoços que ultrapassam a “Sala da Situação” do outro lado do vestíbulo. Aos sábados não se exige gravata nem paletó porque a presença de um funcionário na “panela de pressão” do país, num dia em que quase ninguém trabalha, lhe dá direito ao privilégio de se vestir informalmente.

O Dr. Herbert Abelson, atacado pelo resfriado e irritável, vestido de jeans e camisa aberta, entrou de cabeça baixa no Refeitório ao meio-dia e sentou-se à mesa reservada para os funcionários que estivessem sozinhos. O doutor pensou que não deveria absolutamente ter vindo: estava espalhando os germes de um tremendo resfriado de verão. Entretanto, o noticiário de TV da noite anterior mencionara um “fatídico fim de semana na Casa Branca, em que muita coisa estava pesando na balança”, e ele supunha que o médico do Presidente deveria estar por perto. Enquanto esperava pelo almoço “C”, a dieta especial, Abelson ficou deprimido, ao ler o Sumário de Notícias. A declaração de Curtice era o lead, o que estava bem — pelo menos servia para lembrar ao povo que o resto do mundo estava em má forma — mas havia uma série de histórias idiotas sobre uma “revolta do Gabinete” e estudos secretos sendo realizados no Departamento de Justiça, acerca da Vigésima Quinta Emenda.

“A submanchete do Post cita o repórter do Monitor que teve uma entrevista exclusiva com o Presidente e disse”: ... Abelson apanhou um exemplar do Post para ver o que era uma “submanchete’. A segunda história mais importante da primeira página tinha uma manchete lúgubre: “Repórter do Monitor afirma que Ericson ‘Não Está em Si”. Nem mesmo a tentativa de consertar a gafe dera certo, e o Presidente julgara que seria ‘canja’ ”.

Ele apanhou o telefone perto da mesa e pediu à telefonista que o ligasse com Melinda McPhee.

— Como está o Chefe hoje?

— Acho que ele pegou seu resfriado — disse ela. — Está assoando o nariz, resmungando e chutando o gato.

— Nós temos um gato?

— Se tivéssemos, ele o estaria chutando. Como não temos, ele está se desforrando em mim. Por que você não o procura e lhe dá umas gotas para acalmá-lo?

Ele combinou com ela examinar o Presidente à uma hora. Quando desligou, a telefonista da Casa Branca o chamou de volta e disse que Buffie Masterson o estivera procurando, e se ele gostaria que ela o ligasse com a fotógrafa. Ele disse que sim, e desejou que Harry Bok já tivesse voltado: esta faceta de intermediário não lhe agradava.

— Alô, Herb! — fez a voz alegre e rouca — eu não deveria estar fotografando o que acontece no “fatídico fim de semana?”

— Vou vê-lo daqui a pouco, Buffie, e lhe perguntarei se quer ser fotografado para a posteridade.

— O que eu quero dizer é que... ei, onde é que você está, no Refeitório? Estou pertinho daí, e já vou para aí.

Dentro de meio minuto surgia ela; a sala de fotos também ficava no Subsolo Oeste, e ao vê-la o coração de Abelson se constrangeu ainda mais: ela era tão viçosa e despreocupada! Sentou-se perto dele, roubou três pedaços de tomate de sua salada, e disse baixinho, para que o garçom filipino não escutasse:

— Eu quis dizer hoje à noite. A noite toda, se ele quiser. Bem, diga-lhe que é isso o que eu quero. Você se importa de eu ser franca com você? Você é médico.

— Buffie, você não é uma receita que se possa aviar.

— Você está com péssima aparência. Como é que vem à Casa Branca barbado? — Ela pôs-lhe a mão no braço. — Você esteve realmente doente ontem, não foi para me evitar, não é verdade?

— Tive uma gripe branda. Talvez o Presidente a tenha pegado. E suponho que você está disposta a correr o risco do contágio.

A mão dela era forte, sem esmalte, seus dedos eram insistentes.

— Quero vê-lo. Por favor, diga-lhe isso. Acho que ele também quer me ver. Estarei na minha sala, ou deixarei recado com a telefonista de onde estarei.

Ela tirou uma fatia de queijo do prato dele, fez um rolinho, e piscou enquanto sumia pela porta.

Abelson comeu o que lhe restava do almoço, assinou o vale, e subiu para a ante-sala entre o Salão Oval e a Sala do Gabinete, que eram os domínios de Melinda McPhee. Ela estava ao telefone e ele chegara antes da hora, por isso foi até a Sala do Gabinete. Hank Fowler estava sozinho, sentado na poltrona da mesa do Gabinete do Presidente, correndo os dedos suavemente pelo mata-borrão, pela agenda do Presidente e pelos botões e equipamento de telefone sob a mesa.

O médico do Presidente entrara silenciosamente na sala — a porta estava aberta, mas Fowler imediatamente olhou em sua direção.

— Você me pegou — disse o terapeuta, envergonhado. — Quem é?

— Apenas seu cordial médico do interior, visitando seus pacientes. — Abelson resolveu parar de fingir o alegre. — Como é que você está indo, Hank? Este lugar me deixa nervoso.

— Ajude-me a conhecer esta sala. Você está habituado a ela, doutor, mas para mim é tudo história recente.

Abelson fez um sinal para o guarda à porta.

— Guarda, fale um pouco sobre a Sala do Gabinete para este senhor.

— A Ala Oeste foi construída durante a administração de Theodore Roosevelt — começou o guarda, como se tivessem apertado um botão — e esta sala foi primeiramente usada como Sala do Gabinete na Administração de Taft. Já houve pelo menos dez mesas aqui no Gabinete; esta, de nogueira, foi presente do antecessor do Presidente Ericson. O caminho lá fora, que leva, através das portas envidraçadas, ao Jardim das Rosas, foi feito para servir à cadeira de rodas do Presidente Franklin Roosevelt. Cada membro do Gabinete tem sua cadeira determinada, onde está afixada uma plaqueta de alumínio nas costas, com seu nome e a data de sua nomeação. Tradicionalmente o Presidente a compra do governo e a presenteia ao membro do Gabinete que sai.

— Onde o senhor está sentado — continuou monotonamente o guarda — é a cadeira do Presidente, e na verdade o senhor não deveria sentar-se nela.

Fowler levantou-se e ficou de pé atrás da cadeira.

— Do outro lado da mesa fica a cadeira do Vice-Presidente, à direita do Presidente fica a cadeira do Secretário de Estado e à sua esquerda, a do Secretário de Defesa. Desde a reorganização do sector executivo, só oito cadeiras rodeiam a mesa, quatro de cada lado, e nenhuma nas cabeceiras. Quando a sala é usada para reuniões da liderança dos dois partidos, algumas das cadeiras encostadas nas paredes são trazidas à mesa, que pode então acomodar dezoito pessoas.

Fowler começou a movimentar-se em redor da mesa, e a tocar em todas as cadeiras.

— Há algum retrato na parede? — perguntou.

— Cada Presidente escolhe o de três Presidentes. Sobre a lareira, o Presidente Ericson colocou o retrato de Woodrow Wilson, e deste lado da sala, os de Grover Cleveland e Herbert Hoover.

— Nós gozamos um bocado a escolha de Hoover — disse Abelson. — Obrigado, guarda. Podemos usar esta porta para ir ao terraço? Vamos sentar-nos no alpendre, Hank, você vai gostar do Jardim das Rosas.

Os dois se sentaram nos degraus que conduziam ao jardim.

— As árvores acabaram de florescer. Você devia ter estado aqui na primavera, Hank.

Abelson se deu conta de que, de qualquer modo, o psicólogo cego não poderia tê-las visto: quando alguém se sente na fossa, a presença de um cego faz com que a pessoa seja grata pelo que tem.

— Você parece um pouco deprimido, doutor.

— É tão evidente assim? Sinto-me péssimo. É a gripe, creio.

Foi bobagem dele tentar enganar um psicólogo profissional, ainda mais, que tinha um sexto sentido apuradíssimo.

— A verdade é que somos um bando de zumbis. Sven Ericson está morto e não sabe.

Fowler não disse nada.

— Você tem uma boa técnica — disse-lhe Abelson. — Não diz nada, e a pessoa com quem você está se sente constrangida, e tenta preencher a lacuna. Mas isso também dá certo com as pessoas cegas?

Fowler sorriu.

— Com os cegos, emprego uma tática diferente. Você está querendo desabafar, sentir-se livre. Estou-lhe fazendo uma gentileza profissional, não cobro nada.

Abelson sentiu os temores frustrados lhe subirem à tona.

— Ele é um velho amigão meu, o infeliz filho da puta. Ele ainda nem avaliou o que o atingiu. Todos aqui ficam dizendo a ele que vai conseguir vencer isso, que é apenas mais um desafio que ele pode superar, mas não sabem que ele já não é uma pessoa completa. Sabe o que quero dizer?

Fowler fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— É uma boa maneira de colocar a coisa. É verdade, ele já não é uma pessoa completa.

— Cartwright gosta da vida na Casa Branca, é bom funcionário, e está eufórico por estar de volta. Hennessy é fascinado pelo poder, pelo contato com personalidades, pela publicidade. Ele sorve tudo isso, e está se divertindo como nunca. Melinda vive pelo Chefe, e o põe em primeiro lugar, mas até ela faz parte do grupo do “vai dar-tudo-certo”, porque acha que ele se destruirá, se não puder continuar como Presidente. Smitty está reunindo material para um livro, e precisa de mais recordações antes de poder começar a escrever suas malditas memórias.

— E você?

— Estou apavorado. Sabe com que estamos lidando? Com guerra, paz, milhões de vidas. É tarefa para um homem completo, e pode até ser difícil demais para um homem em perfeitas condições. A questão é mais do que a perda de visão. Sven vai demorar muitíssimo até poder coordenar mentalmente as coisas, como costumava fazer. E todos nós talvez nos tornemos parte desse trabalho malfeito em relação ao mundo.

— O Presidente — o terapeuta cego começou a falar, mas o médico o interrompeu.

— Você pensa nele como “o Presidente”, com “P” maiúsculo, porque ele o era quando você o conheceu. — Abelson sacudiu a cabeça em frustração. — E todo o mundo por aqui, os “Assistentes do Presidente”, o “Conselheiro Especial”, o secretário disso ou daquilo. Eles não são nada disso: são sujeitos como você e eu, que assumem cargos, e subitamente ficam muito, muito prestigiados. Você deveria tê-los visto na campanha. Assustados, admirados, animados, como eu estou agora. Você já viu o ensaio de alguma peça? Minha mulher Bárbara foi atriz. Nos ensaios, um ator pode estar de camiseta representando um rei. Todos os outros, os súditos, estão vestidos como eu agora, de jeans etc. A pessoa olha e pergunta: “É esse que é rei, e isso é uma corte?” Depois, quando estão todos vestidos para os papéis, maquilados, e as luzes se acendem, a pessoa tenta entrar no espírito da coisa, mas sabe que é tudo representação. É difícil acreditar que o ator que se viu de camiseta é um rei de verdade.

— Mas o Presidente é um Presidente de verdade — disse Fowler. — Você sabe disso.

— Ele é o fulano do ensaio de camiseta, e está com o papel de Presidente, e pronto, ele é o Presidente, mas é também apenas um sujeito, apenas Sven Ericson, não um super-homem. Ele está ferido, não pode fazer seu trabalho. Por que será que todos nós tentamos fazê-lo crer que ele pode? Vou dizer-lhe por que: porque todos nós temos um interesse velado. Você também, Hank, gostaria de ver um cego superar sua deficiência, e de representar o papel que a professora de Helen Keller desempenhou. Não deixe que isso aconteça, amigo. Pense no seu paciente.

— Ele não é meu paciente, é meu aluno.

— Isso é embromação. Todos fingimos que você só o está ensinando a se alimentar e andar por aí, mas você é um psicólogo profissional. Sua responsabilidade não é técnica. Não sou um grande médico, Hank, mas de um médico para outro, esse sujeito não se está dirigindo para uma débâcle? Que diabo vai acontecer se ele estiver na fossa e houver uma crise internacional?

Fowler ponderou no assunto e Abelson se calou.

— É um facto — disse finalmente o terapeuta — que na maioria dos casos de cegueira súbita, a um período de coragem e determinação se segue uma perda de vontade, um fraquejar que às vezes é descrito como depressão. Isso ainda não ocorreu com Ericson, e talvez nem ocorra. Mas provavelmente ocorra, e não vai demorar. Quem está aí?

Melinda estava atrás deles.

— Qual de você dois pode curar um resfriado? O Presidente vai receber aquele que puder.

Abelson foi ao Salão Oval, disse ao seu paciente para enrolar a manga da camisa, e tomou a pressão sanguínea de Ericson, que estava alta, mas era normal para ele. Enfiou um termômetro na boca do Presidente, e enquanto lhe tomava o pulso, disse:

— Encontrei com Buffie no Refeitório, na hora do almoço. Ela está com tesão e gostaria de saber por que eu tenho mantido vocês dois separados.

— Sei — disse o Presidente.

— Se você quiser, eu farei com que ela vá ao terceiro andar lá pelas dez da noite. Sua agenda informa que você vai jantar às sete horas com o P. G. Depende de você.

Ericson retirou o termômetro de sob a língua e disse:

— Pode mandar que ela venha — e enfiou o termômetro de volta.

— Vai lhe fazer bem — concordou o doutor, enquanto o olhava mais atentamente. — Você está com um resfriado ou o quê?

— Você é o médico pessoal do Presidente dos Estados Unidos — disse Ericson, retirando novamente o termômetro da bôca. — Você recebe sessenta mil dólares por ano dos contribuintes para saber tudo a respeito da saúde do Presidente. Que diriam nas faculdades médicas do país se soubessem que você acabou de perguntar se eu tenho um resfriado ou o quê?

— Ah, mas será que eles seriam capazes de editorar uma revista médica?

— Se eu pudesse ver, Herb, leria este termômetro para você. Quer mandá-lo a Bethesda?

— Você está com trinta e sete e meio, está febril. Parece que está resfriado. Talvez seja o que eu tive nos dois últimos dias.

De quatro em quatro horas vou dar-lhe aspirina e uma anti-histamina. Comece já.

O Presidente engoliu as pílulas.

— Vá com calma hoje, Sven. Guarde suas energias para a noite.

Abelson saiu do Salão Oval. Cartwright o esperava no vestíbulo e lhe pediu para entrar no seu escritório de canto.

— Doutor, estou lhe falando na sua condição de médico do Presidente, sobre um assunto que poderia afetar a saúde do seu paciente — disse Cartwright formalmente.

— Invoca-se aqui o privilégio doutor-paciente — replicou Abelson. — Vou levá-lo comigo para a sepultura. Que é que há?

— Não sei como lhe dizer isso, Herb — disse Cartwright desajeitadamente. — Soube de algumas coisas que o Presidente precisa saber. Vou agora contar-lhe que Bannerman já começou a agir. O Secretário Fong convocou uma reunião do Gabinete para meio-dia de segunda-feira, ou seja, daqui a quarenta e oito horas, sobre o tema da incapacidade do Presidente para desempenhar seus deveres do cargo.

— Eles têm os votos necessários?

— Bannerman é um, Fong, dois, Reed, três. Precisam de um quarto. Frangipani e o Procurador-Geral estão totalmente conosco, e o P. G. vai defender nosso caso na reunião. O Secretário Curtice estava do nosso lado até hoje de manhã, mas acabou de ter um encontro perturbador com o Secretário, de Defesa, e talvez esteja vacilante. Acho que vai ficar conosco e a moção será derrotada, mas ninguém sabe com segurança.

— O facto de que eles convocaram a reunião já é uma derrota, não é? Isto é, era isso que estávamos tentando evitar.

— Bem, volta-se à posição anterior. Mas este não é problema com o qual vou aborrecê-lo.

— Como posso ajudar?

Abelson desejava que o Presidente se afastasse antes mesmo da reunião do Gabinete, mas agora que a batalha começava a tomar forma, o médico do Presidente seria um bom soldado.

— Seu relacionamento com o Presidente — começou Cartwright — é íntimo e pessoal. O meu é apenas profissional. Há um assunto pessoal que seria melhor você discutir com ele, e não eu. Tem a ver com a adorável jovem com quem o Presidente tem um caso.

Abelson esperou: isso não era da conta de Cartwright.

— A jovem — prosseguiu o chefe da Casa Civil — é uma fonte de preocupações porque é um “vazamento” potencial.

O médico fez uma careta; se Cartwright soubesse como essa jovem era discreta, não se preocuparia em que ela fosse um risco para revelar segredos. O episódio no trem de campanha, o acidente e o dia anterior de cegueira, o abafamento do caso e a decepção que o abatera tão profusamente quando ocorreu a segunda e permanente cegueira, tudo isso estava gravado na mente da moça, e jamais fora revelado.

— Você não concorda — falou Cartwright. — Sei de fonte segura que a fotógrafa oficial do Presidente jantou num pequeno restaurante chinês, há duas noites passadas, com o Secretário Bannerman. O objetivo era recrutar outro membro do staff da Casa Branca para a conspiração destinada a tirar o Presidente do cargo.

Abelson sentiu uma dor no coração e sentou-se, paralisado. Se Buffie trabalhava para Bannerman, então este sabia de tudo. Estava tudo acabado. De certa forma, seria um alívio.

— Isto não é um assunto que nos deva preocupar muito — dizia Cartwright — mas é algo de que o Presidente deve ter conhecimento. Ou para esfriar a ligação com ela, ou para continuá-la, sabendo de que lado está a moça. Você está bem, Herb?

O doutor assentiu com a cabeça: Depois balançou-a negativamente: ele não estava nada bem. Dariam eles a oportunidade a Ericson de renunciar honrosamente, ou insistiria Bannerman em revelar a “falta de sinceridade” do Presidente durante a campanha?

— Não reaja exageradamente — disse Cartwright, que desconhecia as informações que Abelson sabia — mas apreciaria se você encontrasse um momento propício para prevenir o Presidente contra o risco de segurança antes que ele reveja a jovem. Francamente, embora não seja da minha conta, e admito as implicações emocionais disto, talvez fosse útil se ele não contasse a ela que sabemos de sua traição ao Presidente. Seria uma forma útil de se enviar informações erradas por ela.

Abelson precisava ver Hennessy.

— Tenho de falar com Hennessy.

— Ele já vem — replicou o chefe da Casa Civil. — Vamos juntos contar ao Presidente sobre a reunião do Gabinete. Depois disso, apreciaria se você falasse com o Presidente sobre o assunto pessoal.

— Não, primeiro preciso falar com Hennessy. A sós, por favor.

— Como quiser — disse Cartwright friamente. — Use minha sala, vou verificar como andam as notícias sobre a tentativa de derrubada do poder.

Quando Hennessy chegou e viu Abelson vestido de jeans e sentado no sofá, perguntou:

— Que tipo de roupa é essa para se usar num fim de semana fatídico? — Depois viu a expressão sombria de Abelson e acrescentou: — Olhe, estamos numa luta, mas vamos vencer, anime-se. Lucas lhe falou que o problema da votação é arriscado?

— O problema não é esse, Hennessy. Cartwright tampouco está a par do que seja. Sou o único que sabe o que é.

O conselheiro especial sentou-se perto da janela.

— Ponha-me a par do problema. Sou advogado, meu privilégio é igual ao seu.

— Cartwright fica dizendo que não nos preocupemos com nada, mas Nossa Mocinha Buffie está trabalhando para Bannerman. Ela tentou recrutar um membro do staff para ir trabalhar com ele na outra noite.

Abelson deixou que as ramificações dessa revelação fossem absorvidas.

— Merda! — exclamou o conselheiro especial do Presidente. — Isso é um problema. Você tinha razão. Puxa, meu Deus!

— Hennessy, você sabe o que isso significa? Que Bannerman está com a faca e o queijo em relação ao Presidente. Significa que não adianta lutar.

— Você falou com Buffie sobre isso?

— Não, acabei de saber agora. Eu a vi no Refeitório na hora do almoço, e devo levá-la para se encontrar com o Chefe às dez da noite.

— Há quanto tempo Cartwright sabe? — perguntou Hennessy.

— Sei lá. Ele não se dá conta da importância do que sabe, sobre o facto de Buffie estar a par da cegueira anterior. Bem feito, por não havermos confiado nele.

— É uma possibilidade que se arrisca. Acalme-se, Herb, talvez isto não seja o fim de tudo.

O médico o olhou desanimado. Pensou num desenho animado de dois homens acorrentados à parede de um calabouço, e de um dizendo: “Escute meu plano”. Abelson suspirou e perguntou:

— Está certo, conselheiro, onde é que está a esperança?

— Estou surpreso de não termos sido contatados por Bannerman — disse Hennessy. — Se eu fosse Bannerman, e tivesse o testemunho de Buffie, pediria que fosse declarada a incapacidade do Presidente baseado em que ele não revelou seu potencial para a cegueira antes da eleição. Não me arriscaria em reuniões de Gabinete.

— Isso é demais para mim — disse Abelson. Realmente, era demais. Não obstante, era um peso que lhe tiravam das costas, de certa forma, com o fim bem próximo. — Você fala com Ericson, Hennessy — disse ele, entrecortadamente. — Eu não tenho coragem.


O CONSELHEIRO ESPECIAL /3

— Deixe-me entrar sozinho primeiro — pediu Hennessy a Cartwright. — Herb não quer contar-lhe sobre a moça, por isso eu o farei, e talvez seja melhor se estivermos os dois sozinhos.

— Evidente — disse Cartwright — mas você não pode esperar? Temos essa notificação especial de um membro do Gabinete de que o Presidente talvez seja removido do cargo, e é o tipo de coisa que ele deve saber imediatamente.

Hennessy achou que não lhe cabia ampliar o círculo das pessoas familiares com a história da cegueira anterior. Esta era uma decisão de Ericson sobre em quem deveria confiar e até onde. E ele achava que o Presidente devia saber da possível defecção de Buffie para Bannerman, para que pudesse enfrentar esse golpe, antes de ser atingido pelo outro. Primeiro Ericson teria de lutar contra o inesperado, depois poderia lidar com o esperado.

— Lucas, a ligação com Buffie não é apenas um caso ligeiro. O Chefe o trata assim, mas a moça tem importância para ele, e no seu estado atual, isso pode afetá-lo seriamente. Confie em mim, não vou demorar muito, e depois ele estará mais em condições de falar sobre a reunião do Gabinete.

Cartwright aquiesceu com a cabeça.

— Vou ficar sentado perto do telefone.

— Ele vai querer saber uma coisa: Bannerman está dormindo com Buffie?

Cartwright ficou espantado, e Hennessy reformulou a pergunta:

— Sei que isto parece meio fora de propósito, mas Buffie e Bannerman estão de caso?

— Oh, não, não! — O chefe da Casa Civil parou de abanar a cabeça e acrescentou: — Não que eu saiba. Creio que o relacionamento deles é de interesse mútuo, e ele está prometendo a ela a lua no futuro.

— E quem é que ela tentou recrutar do staff?

— Dei minha palavra de que não diria.

— Homem ou mulher?

Cartwright não falou, e Hennessy não forçou. O advogado foi até a ante-sala do Salão Oval, cumprimentou Melinda e Hank Fowler, e entrou para ver o Presidente, que estava no sofá da pequena sala contígua ao Salão Oval, a “cabina telefónica”, sozinho, escutando o Sumário de Notícias através de fones de cabeça. Hennessy lhe deu uma pancadinha no joelho e Ericson retirou os fones.

— Sou eu, o conselheiro especial e assessor íntimo, e não trago muito boas notícias. Na verdade, se não fosse sábado, seria a Sexta-Feira Negra.

O Presidente sacudiu a cabeça e disse:

— Eu podia ter jurado que tratei bem o repórter do Monitor. Talvez esteja perdendo a bossa.

— Como se sente?

— Estou resfriado, e anti-histaminas sempre me deprimem.

— Esse é o menor de seus problemas — disse Hennessy. — Tenho de pô-lo a par de algo, que é uma bomba. Não há tempo de suavizar a coisa, por isso prepare-se.

— É sobre Buffie.

O Presidente tinha estado preocupando-se com ela. Hennessy pensou que não era boa coisa.

— Como é que adivinhou?

O Presidente alisou o cabelo para trás, e depois literalmente se firmou nos braços da poltrona.

— Vamos logo.

— Cartwright tem informações de que ela está de combinação com Bannerman. Eles tiveram um pequeno tête-à-tête na noite de anteontem. Ela tentou conseguir um membro do staff da Casa Branca para passar-lhes informações.

O Presidente meditou sobre isso.

— Buffie e Bannerman — disse finalmente. — Você acha que é só negócio entre eles?

— Não estão dormindo juntos, se é isso que você quer saber — garantiu-lhe Hennessy, como se esta não tivesse sido sua primeira preocupação, conhecendo Ericson. — Mas isso não é importante. Vamos, concentre-se nisso. Ela sabe que você esteve cego durante a campanha, e que nós o escondemos, e isso é bastante para botar todo mundo louco, agora. E ela está de parceria com o homem que está tentando acabar com você.

— Minha primeira reação não foi essa — disse estupefato o Presidente. — Você está certo, não estou concentrando-me no que é importante.

— Há uma forte possibilidade de que Bannerman saiba, e ele está esperando para nos bombardear com isso amanhã ou logo, logo. Também é possível que ela ainda não tenha contado a ele, porque ele não nos procurou para exigir que você se afastasse discretamente.

— Se ela está no team dele — perguntou-se o Presidente — por que não lhe contaria?

— Vamos percorrer as alternativas — disse Hennessy, fazendo o que ele fazia melhor. — Primeiro: ela é apenas uma boazuda burra que não percebe a importância da informação que tem. Segunda: ela é muito viva e está guardando a informação para a hora certa. Terceira: ela está jogando dos dois lados: trabalha para ele, mas não revela um segredo nosso, e fica bem com qualquer dos dois lados que vença. Quarta: ela gosta de você, e lhe é difícil fazer algo que possa vir a acabar com você.

— Repita as alternativas para mim — disse Ericson. Hennessy obedeceu, e o Presidente disse: — Prefiro a última, mas tenho um palpite que é a terceira: ela está jogando nos dois teams.

Ele deu um suspiro fundo.

— Puxa, Hennessy, essa é dura de aguentar.

— Não fale de mulheres a um advogado de divórcios — retrucou o Hennessy, esperando dissipar a expressão arrasada do rosto do Presidente. Tentou outra coisa: — Como Dorothy Parker dizia, a foda que se consegue não vale a foda que se recebe.

— Isso é engraçado — disse tristemente o Presidente.

— É isto que tem de ser feito agora: primeiro, precisamos descobrir se ela abriu a matraca. Você vai dormir com ela hoje, o Herb me contou. Portanto, descubra.

Ericson sacudiu a cabeça automaticamente. Hennessy tinha a impressão de que o Presidente, no seu estado, faria o que seu conselheiro sugerisse.

— Agora, Cartwright está lá fora. Quer entrar para lhe contar que seu leal Gabinete está atrás do seu couro. Ele está do nosso lado, Sven, e acho que devemos contar-lhe sobre sua cegueira anterior.

— Não — disse firmemente o Presidente. — Já há muita gente que sabe. Ele vai falar para a mulher, que é uma espécie de CIA. Vamos manter o segredo entre os que sabem ou necessitam saber.

Hennessy reviu sua opinião sobre a maleabilidade de Ericson nesse estado. Ericson pegou o telefone.

— Diga ao Sr. Cartwright para entrar — ordenou à telefonista — e à Melinda também.

A Hennessy, ele disse:

— Vamos ao Salão Oval para isso, é como se fosse uma cerimónia formal. É o primeiro e histórico acontecimento desse tipo: a revolta do Gabinete.

Ele sacudiu a cabeça.

— É uma merda duma coisa atrás da outra: eles vão mesmo fazer a reunião.

Pegou o braço de Hennessy e foi dirigido até a cadeira do Presidente atrás da mesa do Presidente, perto da bandeira do Presidente. Cartwright entrou pela porta do vestuário e Melinda pela porta de sua sala, e quando se sentaram em redor da mesa, o Presidente disse cordialmente:

— Disseram-me que Buffie é agora um risco de segurança. Bom trabalho de detetive, Lucas, todos temos de tomar cuidado com o que dizemos a ela.

— Na verdade, podemos fazer com que isso seja uma vantagem para nós, Sr. Presidente — disse Lucas alegremente — e passar informações erradas no momento apropriado. No cinema chamam isso de agente vira-casaca. Imagino que a CIA tenha uma expressão mais burocrática.

— Sexo com extremo preconceito — disse Hennessy.

— Melinda, sempre lhe disse para não confiar naquela moça — Ericson brincou consigo mesmo — mas você insistia que ela era uma grande fotógrafa, uma artista sensível, que faria milagres para a minha imagem.

— Lamento tê-la imposto ao senhor — disse Melinda com um esgar. Hennessy se afastou das cadeiras em redor da mesa do Presidente e se sentou no sofá, para observar o panorama. Lá estavam eles, discutindo uma dona boa, e Melinda deveria estar perversamente encantada com a queda de alguém que ela odiava cordialmente, e Ericson magoado com a defecção política da mulher de que precisava para manter seu moral elevado agora, e por quem tinha afeição. Melinda provavelmente adivinhara o grande segredo há muito tempo, mas o conservou para si. Cartwright não sabia o significado da defecção de Buffie, apenas os pormenores, mas guardava um segredo para si, o facto de que Buffie estava trepando com um funcionário do staff da Casa Branca que fora correndo contar a notícia ao chefe da Casa Civil. Hennessy teve certeza da infidelidade sexual de Buffie no momento em que Cartwright se recusou a dizer se seu informante era homem ou mulher. Cartwright não contaria ao Presidente a promiscuidade de sua amante porque dera sua palavra à fonte, provavelmente um amigo seu. Hennessy não falaria ao Presidente sobre sua dedução porque era o tipo do choque elementar que poderia fazer com que um homem cego se afundasse de vez. O conselheiro especial refletiu que havia um emaranhado de gente na Ala Oeste, entre pessoas do mesmo lado. Certamente o outro lado estava sendo igualmente falso entre si. E havia também este pequeno passatempo como prelúdio da notificação formal da incapacidade do Presidente. Hennessy sabia que deveria prestar atenção, pois história estava sendo feita.

— Melinda está tomando notas desta reunião, Sr. Presidente — informou o chefe da Casa Civil ao executivo cego — e se houver algum comentário que o senhor não deseje registrar, é só falar.

Hennessy achou que o assunto seria melhor que qualquer fita gravada que ele conhecia.

— Às dez e meia da manhã — declarou Cartwright — recebi um telefonema do Secretário de Recursos Naturais, Michael Fong, para me dizer que pretendia convocar uma reunião do Gabinete para discutir a incapacidade do Presidente em desempenhar seus deveres, como prevê a Vigésima Quinta Emenda. Ele disse que o objetivo do telefonema era perguntar se o Presidente Ericson se dava conta de sua incapacidade.

Ericson nada disse, apenas girou a cadeira para frente e para trás.

— O senhor há de estar lembrado, Sr. Presidente, de que já havia previsto, para mim, esse telefonema ou uma visita, e que discutimos qual deveria ser minha reação, na nossa reunião das cinco e quarenta e cinco de ontem à tarde. O senhor me instruiu que informasse a todos os membros do Gabinete que me abordassem, que não tem nenhuma intenção de se declarar incapacitado e, pelo contrário, que não havia nenhuma incapacidade e que o senhor resistiria vigorosamente a qualquer tentativa de lhe usurpação do poder.

Ericson concordou com a cabeça, e continuou a girar a cadeira. Cartwright continuou:

— Dei seu recado ao Secretário Fong, e o memorando dessa conversa, que o Secretário e eu concordamos fosse registrado, está anexado aqui.

Entregou um papel a Melinda e disse:

— Como mostra o memorando, não tentei dissuadi-lo de convocar a reunião. Deixei claro que o senhor estava certo de possuir a capacidade para lidar com quaisquer acusações que surgissem quanto à sua incapacidade. Transmiti seu recado de que o senhor estava certo de que ele agia impelido por motivos patrióticos, mas que estava profundamente mal orientado.

— Você usou a expressão “mal orientado?” — perguntou o Presidente.

— Concordamos com ela ontem — replicou Cartwright. — Ele então disse que lamentava muito tudo isso, e que esperava que o senhor reconsiderasse, mas que estava enviando uma notificação da reunião do Gabinete aos seus colegas membros do Gabinete, e ao Vice-Presidente. Disse que uma cópia dessas cartas, com uma carta capeando todas elas dirigida ao senhor, me seria entregue em mãos à uma hora de hoje, sábado.

— Agora é uma e meia — disse o Presidente, com os dedos no mostrador de seu relógio.

— E já estou com as cartas. A reunião foi convocada para as dez da manhã de segunda-feira, aqui na Sala do Gabinete. Suponho não haver objeção a que eles usem a sala do Gabinete.

— À vontade — fez o Presidente. — Lamento não poder estar presente.

— Seria um interessante problema constitucional se o senhor insistisse em comparecer — disse Cartwright. — Falei com o Procurador-Geral após o telefonema de Fong, e ele disse não haver nada na Vigésima Quinta Emenda que impeça o seu comparecimento, mas que ele achava que seria inapropriado e inconveniente. Disse também que, ao receber sua convocação à uma hora, escreveria ao Secretário Fong e ao senhor para dizer que considerava essa reunião de acordo com a Vigésima Quinta Emenda, e que pretendia combater a moção com todos os argumentos à sua disposição. Depois, como um P. S., o Procurador-Geral afirmou que achava que seu papel seria “uma barbada”, pois isso era uma tentativa de usurpação de poder, e uma deturpação do objetivo dos elaboradores da emenda.

— Pelo menos algumas pessoas têm suas cabeças assentadas certo — murmurou Melinda.

— Mas que “barbada”! — interveio Hennessy. — O senhor vai estar com o P. G. hoje à noite para jantar, Sr. Presidente. É melhor que lhe diga que é uma barbada com grandes azarões. A batalha vai ser dura.

— Leia-me a carta de Fong — instruiu o Presidente.

— Foi uma evasiva astuciosa — disse Cartwright. — É uma carta a mim, para transmissão ao senhor. Eles não querem admitir que o senhor está em condições de compreender uma carta que lhe é dirigida. Aqui vai: “Prezado Sr. Assistente do Presidente.” Nunca antes vi essa saudação. “Como uma cortesia, anexo cópias de cartas ao Vice-Presidente e a meus colegas membros do Gabinete, convocando uma reunião do Gabinete para as dez horas da manhã de 17 de junho, na Sala do Gabinete, sobre o assunto da incapacidade do Presidente para desempenhar seus deveres e poderes, segundo o terceiro parágrafo da Vigésima Quinta Emenda da Constituição.” Agora vem a estocada: “Agradeceria que o senhor procurasse comunicar o conteúdo das mesmas ao Presidente Ericson, com a afirmação de que eu, como todo americano, espero ansioso o dia em que ele possa novamente assumir os deveres e poderes da presidência, quando se recuperar.”

— O sacana... — disse Hennessy. — “Procurasse comunicar” uma ova. Isso é um erro, o povo não vai gostar disso. Os truques de advogados não se bandeiam para júris.

— O senhor deve responder à carta, Sr. Presidente — disse Melinda — não Cartwright.

— Boa ideia, Melinda — disse Hennessy. — “Como meu chefe da Casa Civil conseguiu comunicar-me sua mensagem, o senhor me faria agora a gentileza de dizer ao Secretário do Tesouro, que é quem está mandando no senhor, que pegue a Vigésima Quinta Emenda e a enfie no rabo.”

— Não com essas palavras — disse Cartwright. — Mas a ideia tem mérito. Uma pequena nota escrita à mão pelo senhor seria perfeito; o senhor conseguiria fazê-lo num pedaço de papel? Tente com a orientação do Dr. Fowler.

— Boa ideia, garota — disse Hennessy para Melinda, do sofá.

— Só falta você saber tirar fotografias.

— No dia em que não mais precisarmos de você, Hennessy — replicou a secretária pessoal do Presidente — vai ser um dia feliz para mim e um grande dia para o país.

— Chega disso — interferiu bruscamente o Presidente, tirando um lenço do bolso e assoando o nariz. — Só me falta isso agora, para coroar tudo: um maldito resfriado no nariz.

— Há mais alguma coisa que precise dizer a ele? — perguntou Melinda a Cartwright, fazendo sinal para que eles saíssem.

— Estou bem aqui — disse o Presidente — e não sou “ele”.

— Costumávamos chamar meu pai de “Ele Mesmo” — retrucou Melinda.

— Calma, garota — fez Hennessy. — Ericson não é “Ele Mesmo”.

— Está certo, está certo — Ericson estava irritado. — É só que está tudo vindo ao mesmo tempo. Quero ficar sozinho. Mandem Fowler aqui.

Melinda saiu à frente do grupo do Salão Oval, e mandou que o terapeuta cego entrasse. Os dois homens ficaram juntos à mesa da secretária, olhando pelas portas envidraçadas, como se não estivessem dispostos a voltar a seus escritórios solitários.

— Engraçado que ele tenha dito aquilo — comentou Hennessy.

Melinda o olhou e repetiu:

— “Quero ficar sozinho, mandem Fowler aqui”?

Evidentemente também ela estivera matutando sobre a frase.

— Nunca pensei que chegaria o dia — disse Cartwright, mudando de assunto — em que eu não poderia transmitir ao Presidente uma mensagem importante do diretor da Agência Central de Inteligência.

Ele levantou um dos papéis que levara à sala do Presidente.

— Isso pode esperar — disse Melinda.

— Vai ter de esperar — concordou Cartwright.

— Que é que diz aí?

Hennessy estava pronto para tudo.

— Até aqui, a posição da CIA sobre a emboscada tem sido de que a armadilha foi provavelmente inspirada pelas potências do Extremo-Oriente, para causar a ruptura de nossa aliança com os soviéticos. Agora a Agência de Informações do Departamento de Defesa quer objetar contra essa avaliação. Eles dizem que as provas apontam para um golpe maquinado por nosso amigo Nikolayev. Se for verdade, o Presidente terá de mudar seu conceito do mundo.

— E o que quer o diretor da CIA?

— Ele quer que o Presidente saiba que a Agência de Informações do Departamento de Defesa estudou a avaliação da CIA, e que existe a possibilidade de que sua opinião minoritária seja correta. No caso de um míssil surgir aqui, é o tipo de coisa que um Presidente precisa saber como agir.

— O resto do mundo pode ficar quietinho por uns dois dias — sentenciou Melinda. — Temos nossos próprios problemas para resolver.

— Desculpe, mas você se engana — disse-lhe Hennessy. — Lucas tem de informar isso ao Presidente daqui a mais ou menos uma hora, mesmo que o Chefe se desespere.

Melinda balançou a cabeça e disse:

— O Chefe está à beira de um colapso nervoso. Todas essas notícias de hoje, e mais esse tolo resfriado podem ser a última gota. Não, espere um pouco. Amanhã você pode informá-lo, contar-lhe sobre o pacote da segurança nacional.

— Você está certa, mas está errada — disse Hennessy, explicando-se. De agora em diante, temos todos de agir como se o Gabinete lhe houvesse tirado a presidência, e o assunto estivesse nas mãos do Congresso. Eles têm três semanas para decidir quem é Presidente, e todos nós seremos chamados para depor.

Hennessy deu a volta na mesa e os encarou:

— Estamos sob juramento, e o conselheiro da comissão dirá: “Eis uma comunicação vital da CIA, que foi entregue à Casa Branca a tal hora. Quando foi transmitida ao Presidente? Como? Esperaram vinte e quatro horas para comunicar-lhe? Que querem dizer com sobrecarga de trabalho? Como, ele estava resfriado? Sua decisão nessa hora foi que o Presidente estava incapacitado para tratar de informação tão crucial? Isto não configura uma incapacidade para desempenhar seus deveres?”

— Você é bom para fazer perguntas — disse Cartwright.

— E é melhor que você seja bom nas respostas, Lucas. Seria bom se você pudesse dizer: “Primeiro discuti o assunto demoradamente com o conselheiro especial do Presidente, solicitei esclarecimentos da CIA sobre tal e tal pontos, e depois levei o caso diretamente ao Presidente, que ordenou que os serviços de informações reavaliassem tudo ou fizessem o que costumam fazer nesses casos”.

— Esse filho da puta está certo — disse Melinda, com voz cansada, a Cartwright. — Depois que ele tiver acabado de falar com Fowler, eu farei com que você entre para falar-lhe. Não é apenas o que façamos, mas como tudo ficaria num julgamento.

— E como estaremos contestando a ascensão do Vice-Presidente ao poder — lembrou Cartwright — não poderemos alegar imunidades. Sugiro que anotemos apenas nas nossas agendas as informações que poderíamos submeter ao Congresso sem maiores problemas.

— Vocês estão com cara de quem precisa de um drinque — declarou Melinda. Ela foi ao armário de bebidas e serviu três bourbons puros com gelo. Eles beberam sem fazer brindes.


O TERAPEUTA /2

— O truque das flores não dá certo quando se está resfriado — disse soturnamente o Presidente quando Fowler entrou no Salão Oval para sentar-se lateralmente à grande mesa. Dois dias antes, como parte do treinamento do desenvolvimento dos outros sentidos — para ajudar Ericson a localizar-se num aposento familiar — Fowler solicitara que uma jarra de rosas fosse colocada na mesa de café, perto da lareira. A fonte do odor tornou-se um marco para o Presidente e deram-se instruções rígidas para que jamais se tirasse a jarra da mesa. Entretanto, como disse o Presidente, isso não adiantava quando o olfato da pessoa cega estava obstruído por um resfriado.

— Não se pode ganhar todas — disse Fowler, com sua voz macia. — O senhor achou que o truque do relógio lhe foi útil para orientar-se?

— É, esse truque dá certo. Desde que minha audição se conserve, ou que ninguém se esqueça de dar corda no relógio.

O paciente estava com uma disposição negativa. O “truque do relógio” era o uso de conhecidas fontes de sons como marcos. Na mesa do Presidente, do centro para trás, havia um porta-caneta com um relógio pequeno e de rápida pulsação. Do outro lado da sala, perto da porta do vestíbulo, haviam recentemente instalado um dos relógios antigos conhecidos como “relógio do vovô”, com um tiquetaque lento e baixo. A qualquer hora, mesmo acordando de uma soneca ou ao se virar, Ericson podia escutar onde estava sua mesa e a porta do vestíbulo, calcular sua distância de cada uma delas. Se queria cumprimentar alguém vindo do vestíbulo, ele se dirigiria para a direita da fonte do tique-taque lento; se quisesse ir ao banheiro, perto da cabina telefónica, sabia que a porta estava à esquerda daquele som. E quando desejava assinar algo, podia escutar sua caneta. Para um visitante, o tique-taque não era perceptível, e fazia parte do cenário da sala. Eram meios simples e bons de ajudar um cego a se orientar.

— Como vai seu amigo do jardim? — perguntou Fowler, já que estavam falando de sons. Na véspera, o Presidente insistira em escutar o gaio azul no Jardim das Rosas: o pássaro discutia consigo mesmo sem parar, como o gaio num conto de Mark Twain, e acrescentava dimensão aos sons “normais”.

— Os malditos pássaros não impressionaram o repórter do Monitor — resmungou Ericson. — Pensei que tinha conquistado o sujeito, mas ele me escapou. Não gostei do modo como ele me perguntou coisas em voz alta, como se eu não pudesse ouvir, e talvez isso me tenha desnorteado.

— Isso não deveria ter sido uma surpresa — disse o terapeuta.

Você sabe que gente que pode ver faz coisas assim. Foi uma das primeiras coisas que solicitei a seu staff que fizesse: manter as vozes no tom normal.

— Deu muito certo com Hennessy — observou o Presidente. — Ele é um sujeito baixinho com um vozeirão, e costumava encher a sala com a voz. Agora percebo que luta para mantê-la baixo, e isso é anormal.

Ericson não queria fazer o treinamento diário, o terapeuta o percebeu. Isso era uma mudança de comportamento; até então, o Presidente mergulhara nos exercícios de treinamento, e se concentrava nos truques e nas muletas mentais que poderiam fazer com que ele convivesse bem com o início de sua cegueira. Ericson não dera nenhuma oportunidade para introspecção, e Fowler não o forçaria. O Presidente sabia que estava sendo ajudado na sua reabilitação por um psiquiatra profissional, e no devido tempo poderia vir a utilizar-se dos talentos não-técnicos de Fowler.

— Como parte do treinamento de identificação de sons — começou Fowler — trouxe esse gravador. Tenho percorrido a Casa Branca gravando os sons que o senhor pode vir a ouvir durante um dia normal. O jogar de envelopes numa mesa, o ar condicionado, o som que um agente do Serviço Secreto faz ao andar, comparado ao som de uma secretária andando. O senhor ficaria surpreso como...

— Hoje, não, Hank. Vamos só conversar.

O terapeuta escutou a respiração ofegante de Ericson por algum tempo, até que o Presidente disse:

— Olhe, estou pensando em atirar a toalha.

Fowler esperou.

— Ainda não discuti o assunto com ninguém, e você deve manter o sigilo, mas talvez eu deva mandar tudo pro diabo. Tenho a sensação de que tudo me está encurralando.

— Poxa, já era tempo de o senhor ter uma depressão! — reanimou-o Fowler. — Estava começando a pensar que o senhor era biruta.

Fowler aguardou, no silêncio que se seguiu, que o Presidente prosseguisse.

— Se você pudesse ver, Hank, e se eu pudesse olhá-lo, você estaria vendo meu olhar desconfiado para você. Que diabos quer dizer com isso?

— A coisa que mais me preocupou na coletiva à imprensa, e até no livro de informações que o ajudou a preparar-se para ela, foi sua conversa sobre a melhora de sua visão. Se o senhor acreditasse nisso, estaria numa enrascada.

O Presidente usou a tática do silêncio com ele, o que mostrou que estava aprendendo e Fowler continuou:

— Isto é, a maioria das pessoas cegas se agarra à ideia de que sua visão logo voltará, e que a solução está próxima. Recusam-se a enfrentar o facto de que jamais voltarão a enxergar. Perguntei-me se era isso que o senhor estava fazendo, fugindo da realidade.

— Não havia percebido — disse calmamente o Presidente — que a maior parte das pessoas acha que ser cego é ver tudo preto. Desde o momento em que voltei a mim depois da emboscada, pude perceber alguma luz e cores diferentes. Por isso achei que tinha havido uma melhora, para dar ao público alguma esperança e conseguir um pouquinho de tempo para mim mesmo. Eu estava mentindo, mas não para mim.

— Deduzi isso, quando o oftalmologista não soube o que dizer.

Fowler sorriu à lembrança da perplexidade do oftalmologista.

— Para muitas das pessoas, é arrasador quando se dão conta de sua cegueira.

— Eu já me dei conta — disse o Presidente.

— Já mesmo? Eis um teste: quanto tempo o senhor vai ficar cego?

— Como diabos vou saber, não sou oftalmologista! — A cadeira do Presidente fez sons de que estava sendo movida: — Quanto tempo você vai ficar cego, Hank?

— Vou ser cego pelo resto da vida.

As palavras ficaram no ar.

— Vejo o que quer dizer. É uma coisa difícil para ser pronunciada.

— Bem? — perguntou o terapeuta.

Em voz firme, o Presidente afirmou:

— Vou ser cego pelo resto da vida.

— E também produtivo, se o senhor quiser — acrescentou rapidamente Fowler. — No caso de o senhor estar curioso sobre por que prefere o relógio sonar em detrimento da bengala de Hoover, ou por que não quer um cão-guia, tudo faz parte de sua natural rejeição à ideia de ser cego. O senhor não quer usar os símbolos dos cegos. Depois que tiver confrontado plenamente a ideia, vai querer utilizar toda a ajuda de que puder dispor, para tornar-se mais móbil.

— Você pode estar certo quanto à bengala, mas sempre preferi gatos a cães, se fosse para eu ter um animal aqui. Responda-me isto, Hank: o que o assusta mais?

— Perder a audição — respondeu o terapeuta. — Se eu não pudesse ouvir, seria a mesma coisa que um legume.

— É — disse Ericson. — Essa foi a primeira coisa em que pensei, depois que o truque do relógio funcionou. Que mais o assusta?

— Presidente Ericson — disse suavemente Fowler — isso não está no mesmo nível dos truques. O senhor me está fazendo perguntas na minha condição de psicólogo profissional, um especialista na adaptação mental dos recém-privados de visão. É exatamente isso que todo mundo na Casa Branca me diz para esquecer. Estou aqui apenas porque sou a bengala mais rápida do oeste. [nota: Alusão aos famosos cowboys americanos.]

— Deixe isso, não tenho tempo para deitar-me num sofá e contar-lhe a história de minha vida. Antes eu podia ver, e agora estou cego.

Hoje de manhã, achava que podia resistir a tudo, e agora, à tarde, penso em renunciar à Presidência. Você pode me ajudar ou não?

— Claro, pode usar-me à vontade.

Fowler teria de esperar para fazer perguntas; agora, seu paciente precisava de apoio imediato.

— Essa sensação que tenho não é uma depressão, é como uma desolação. Estou numa armadilha. Você diz que essa reação é normal, que vai passar? Logo, logo voltarei a ser eu mesmo, etc, etc.?

— Não disse isso — respondeu Fowler, — Tudo que eu disse foi que depois da percepção, vem a depressão, na maioria dos casos. Depois a pessoa cega se recupera em parte, ou não. De qualquer forma, ela jamais volta a ser o que era, o modo que se sabia ser. Sua auto-imagem precisa mudar.

— Não comece com sua cantilena — retrucou rápido o Presidente. — Por que não consigo dormir à noite, e por que preciso tirar uma soneca à tarde, como um velho?

— O senhor ainda não formou o hábito de dormir segundo a hora, o senhor continua a dormir segundo a luz. Isso é normal. Os vigias noturnos aprendem a ter sono de manhã e não à noite, em questão de semanas.

— Por que me sinto, de forma geral, tão mal? Recuperei-me fisicamente, faço exercícios todas as manhãs, mas nunca me senti tão podre na vida.

— Tensão emocional constante resulta em perda do tono corporal — respondeu rapidamente Fowler. Estas eram as perguntas-padrão. — Quando o senhor dominar a tensão mental, seu corpo se sentirá melhor. A propósito, nunca se consegue superar inteiramente a tensão mental: sempre se tem de estar mais alerta do que todos. Precisa-se exercitar os outros sentidos, e isso desgasta.

— Boa explicação — disse Ericson. — Você faz sentido. Quando isso lhe aconteceu, quando você ficou cego, teve problemas para tomar decisões?

Fowler resolveu que já era hora de ser firme.

— O senhor não está falando apenas com uma pessoa cega, Sr. Presidente, partilhando uma experiência comum. O senhor está falando com alguém a quem chamam de “dissecador de cérebros”, com um profissional, que cobra cinquenta dólares a hora, e que conhece as reações de milhares de pessoas nessas circunstâncias.

— Perdoe-me, Dr. Fowler — disse o Presidente — mas por que o senhor está encontrando dificuldades para responder à minha pergunta?

Fowler resolveu rapidamente que não era a hora para ser muito firme, e talvez fosse melhor dar ao Presidente as respostas que ele queria.

— No início tive realmente problemas de tomar decisões — disse o terapeuta — parcialmente porque eu fora destruído e não confiava em mim mesmo, e parcialmente porque minha família e meus amigos começaram a tomar todas as decisões por mim. Eles sempre dependeram de mim, e sempre se ressentiram disso um pouquinho, e agora o papel fora invertido, e gostavam disso. Comecei a fraquejar e a deixá-los fazer o que quisessem com minha vida. Aí me rebelei e busquei a ajuda de um psiquiatra, e consegui voltar a estruturar meu ego e minha capacidade de tomar decisões.

— É isso o que está acontecendo aqui? Hennessy e Melinda têm sido espetaculares, mas tenho uma sensação esquisita de que estão tendo um perverso efeito estimulante com meu problema, e não gosto disso.

— O que nos leva à próxima pergunta — disse Fowler, pois havia escutado, sem querer, algumas conversas perto do Salão Oval, travadas entre pessoas que achavam que cegos não escutavam — e tem a ver com sexo. A resposta é que, pelo menos nas duas próximas semanas, o sexo é mais importante do que em qualquer outra época de sua vida.

— Graças a Deus! — exclamou Ericson — Pensei ter perdido todo o sentido de prioridades. Se há algo que um Presidente deve ter, é uma noção do que vem em primeiro lugar. Há poucos minutos, me informaram sobre uma reunião de Gabinete para me derrubar do cargo. Eu me dizia que a coisa mais importante de que me devia lembrar era o bem-estar a longo prazo do país, e a segunda mais importante era a estabilidade da presidência. Mas me lembrei muito de uma moça, e me perguntei se ela me estaria evitando, e se eu seria capaz de ser o mesmo com ela. E na verdade ela não me é tão importante assim, Hank. Ela era um divertimento, alguma coisa que me transmitia juventude, você compreende. Agora ela é importante. Talvez fosse importante antes para mim, e eu não o soubesse, mas duvido. E há uma falta de prioridades mesmo dentro da minha falta de prioridades.

Fowler resmungou, para mostrar que continuava ali. Ericson estava começando a dirigir as perguntas a si próprio e não ao terapeuta, o que era um bom sinal.

— Essa moça... ela é Buffie, a fotógrafa, e isso não é nenhum segredo... tem uma importância política, algo que ela sabe e algo que está fazendo. Ms não estou nem preocupado com isso. Estou preocupado se ela vai trepar com outro sujeito, ou se vai mudar em relação a mim. Isso me diria que já não sou Sven Ericson, e apenas um homem cego de quarenta e oito anos que deixou de precisar dela. Conheço essa moça, e vou admitir isso para você, o que nunca admiti nem mesmo para mim: gosto um bocado de controlar a vida dela, e nosso relacionamento. Um dos pegas que eu tinha com ela era que ela achava que eu nunca precisava dela, que a qualquer hora havia mais uma porção de moças tendo casos comigo, mais inteligentes e mais bonitas do que ela. Bem, agora realmente preciso dela, e se lhe disser isso, eu a perderei, e se a perder...

— Terá perdido sua atração pelas mulheres? Sua masculinidade? Deixe disso, essa reação é tão previsível que o senhor deveria poder afastá-la sem nenhum problema.

— Vou ter mais relacionamentos sexuais do que nunca, bem no meio de todas as espécies de crises, e não vou ter remorso algum — anunciou Ericson, com espécie de determinação despreocupada.

Agora que o moral de Ericson estava elevado, Fowler fez a pergunta que julgava central à situação:

— O senhor precisa do cargo?

— O cargo precisa de mim — respondeu o Presidente precipitadamente. Evidentemente, ele não estava preparado para explorar as áreas sensíveis de suas próprias necessidades de poder, e de como elas aumentaram durante sua perda de visão.

— Mesmo cego, posso trabalhar melhor do que Nicholas e Bannerman. O cargo precisa de mim muitíssimo mais do que eu dele, não se esqueça nunca disto, Hank.

O médico lançou um dardo.

— Suas palavras me dizem uma coisa, Sr. Presidente, mas sua hostilidade me diz outra.

Pausa.

— Está certo. Que é que estou pensando mesmo?

— Este não é um jogo telepático, senhor. O que é importante é que o senhor sabe o que está pensando.

— Hank, muitos amigos meus têm se consultado com psiquiatras, inclusive minha mulher, sobre quem não pretendo falar.

Fowler sabia, através de Hennessy, que a mulher de quem Ericson se divorciara, suicidara-se logo após o divórcio ser concedido, e apesar de isso ter sido devidamente noticiado, esse era um assunto que Ericson jamais discutia com ninguém.

— O truque é que o paciente fala até fazer todas essas incríveis descobertas sobre o que houve de errado no seu cercado de criança. Há um súbito clarão de percepção íntima, e o problema se resolve apenas porque a própria pessoa o resolveu. A jogada não é essa?

Bem, acontece que, na minha situação, não tenho tempo para ela. Se você tem algo a dizer-me sobre mim mesmo que me possa ser útil, vá dizendo, porque é agora que preciso saber.

— Eles me expulsariam da Associação — disse Fowler, para aliviar o tom da conversa. Ericson estava no caminho de uma séria auto-análise, num processo bastante normal de negá-la com grande determinação e o analista estava satisfeito.

— O senhor resolveu largar o cargo ou não?

— Você está maluco, Hank? Só disse aquilo para ver sua reação. É assim que Presidentes incentivam o debate livre. Na verdade, Dr. Fowler, alegro-me por termos tido essa conversinha. Procure-me a qualquer hora com seus problemas. Veja se consegue animar alguns dos desanimados por aqui, e tenha um papo sério com Herb Abelson.

Ele tocou um botão debaixo da mesa: Melinda enfiou a cabeça na sala, e perguntou-lhe o que queria. Fowler observou que Ericson preferia tratar por telefone com todas as pessoas, mas inclinava-se a chamar Melinda pessoalmente.

— Diga a Hennessy que eu gostaria que ele comparecesse ao jantar de hoje à noite com o P. G. E mande Marilee aqui, depressa.

Fowler podia sentir a expressão carrancuda de Melinda.

— Cartwright precisa vê-lo imediatamente.

— Está bem, depois de Marilee.

O Presidente rodou a cadeira em direção ao terapeuta.

— Essas depressões, que você afirma serem normais, quanto tempo duram?

— Em alguém de ego forte, umas duas semanas. Em seguida se forma uma personalidade substituta, que enfrenta as novas circunstâncias. A antiga auto-imagem desaparece... Não, assim não. O senhor terá também momentos de euforia, como ainda há pouco.

— Você é um bom médico, Hank, mas isso não é euforia. Esqueça aqueles receios momentâneos de há pouco. Eu às vezes fico meio rabugento quando estou resfriado.

Marilee, a substituta de Smitty, surgiu na sala. Fowler observou que ninguém jamais batia à porta do Salão Oval. A teoria era que, se a pessoa não era esperada nem tivesse sido convidada a entrar, não estaria lá. Os membros do staff entravam de modo diferente: apressadamente, como Hennessy, respeitosamente, com Cartwright, relutantemente, como Melinda, ou reverencialmente, como Marilee.

— Faça-me um favor — disse-lhe o Presidente. — Pegue cem dólares de Herb Abelson. Vá à Garfinkle’s, ou a outra loja qualquer, e compre um vidro de Ma Griffe. Depois compre uma boa echarpe de seda e embrulhe o perfume nela. Quando Melinda não estiver olhando, ponha na mesa dela. Hoje é seu aniversário.

Marilee sorriu afetadamente e exclamou “sei!” e saiu para executar o serviço.

— Foi um gesto delicado para Melinda — disse Fowler — mas não acha que é um pouco humilhante para a mulher que é substituta do Secretário de Imprensa?

— É impossível humilhar Marilee — disse o Presidente, com admiração. — Ela sabe que gosto dela, mas não sabe quanto. Nem eu sei.

Fowler observou que estava surpreso que o Presidente soubesse o perfume a comprar, e Ericson o surpreendeu também:

— Sou um perito em perfumes. Quando eu era garoto, no exército na Coréia, imaginei um meio de ganhar dinheiro. Comprei todas as principais marcas de perfume francês e paguei baratíssimo no Reembolsável local. Embarquei tudo para um amigo nos Estados Unidos, como pacotes do exército isentos de taxa, e ele vendeu tudo por cerca de vinte por cento menos que nas lojas. Ganhei alguns milhares de dólares quando mais os necessitava, e me tornei um perito em todos os perfumes.

— O senhor sabe diferençá-los?

— Evidente, é apenas questão de treinar o olfato, doutor. E uso uma ajuda mnemônica para me lembrar: Ma Griffe significa “Minhas muletas”, que é a Melinda.

Fowler aliviou sua tensão com uma risada.

— Você provavelmente se admira por eu ficar brincando com bobagens quando algumas pessoas pensam que o mundo se está acabando — disse o Presidente. — Ao usar Marilee como usei, fortaleço seu relacionamento com Melinda, o que me dá controle mais firme das operações da imprensa. Ao ser gentil com Melinda quando ela menos o espera, a farei minha escrava por um mês, e esta é justamente a ocasião em que eu preciso de uma escrava. Também é uma prova, se houver necessidade de demonstrá-la, de minha consideração, e o tipo de prova, que faria o maior sucesso com as mulheres do país.

— Eu me enganei — disse Fowler — julguei que o senhor estivesse sendo um bom sujeito.

— Vou lhe dizer algo para o livro que você vai escrever algum dia, contrariando a ética médica, sobre como salvou o Presidente. As trivialidades são muito importantes quando as grandes coisas estão em marcha. Quando nada está acontecendo, a pessoa tende a se perder em grandes pensamentos; quando tudo está acontecendo ao mesmo tempo, tende-se a pensar sobre coisas pequenas e insignificantes. É uma forma de manter contato com o familiar. Coloque isso no seu capítulo acerca dos modos de se estabelecer segurança.

Fowler sacudiu a cabeça:

— Estou sacudindo a cabeça — informou. — Em troca, gostaria de lhe dar uns conselhos políticos, mas não consigo pensar em nenhum.

— Você vai conseguir. Provavelmente serão bons. Política é a arte de parecer confiante enquanto se está engatinhando no escuro. Olhe, vamos esquecer o treinamento com sons hoje, está certo? Cartwright tem algo importante para me dizer. Você continue a coletar todos os barulhos, estalos e coisas que acontecem por aqui em seu gravador, e amanhã nós os estudaremos. Depois da igreja. Sim, este é um bom domingo para ir à igreja. É melhor, contudo, você não gravar mais nada: o último sujeito que fez isso aqui se deu mal.

O telefone ao lado da mesa emitiu três ruídos agudos e Ericson o tirou do gancho.

— Sim, Hennessy, estou ouvindo.

Depois de um momento:

— Isso não é meio melodramático?

Mais um momento:

— Também gosto disso. Vamos adiante. Você fale com Herb Abelson e faça com que ele a entregue às nove em ponto. Em ponto, e depois Herb parte imediatamente. Meu quarto de dormir dá para o Salão de Estar Oval. Diga ao mordomo que jantarei lá.

Pausa:

— Diga isso agora ao P. G., para que ele possa planejar sua agenda, e nós o lembraremos ao jantar de que será ouvido secretamente a começar das nove. Você é um cúmplice sacana, Hennessy. Qual é o segundo tópico?

Longa pausa.

— Você não precisa lembrar-me, farei o possível para descobrir. Terceiro assunto?

Longa pausa.

— Não sabia disso. Não, acho que não devemos, isso é uma idiotice. Eles devem saber acerca da possibilidade de exoneração, devem querer que eu entre em pânico. Diga, porém, ao P. G. que vamos pensar no caso, e que isso talvez seja um dos tópicos a discutir depois das nove horas. Está bem, mas certifique-se de que Herb a entregue na hora.

Ele desligou o telefone e contou a Fowler parte da conversa, que o terapeuta supôs fosse um esforço para demonstrar que confiavam nele.

— O P G. e Hennessy estiveram estudando a lei. Parece que eu tenho poderes de demitir qualquer membro do Gabinete, ou todos eles, entre agora e a hora da reunião. A Vigésima Quinta Emenda não incluiu essa possibilidade.

— Eu pensei que o grupo da derrubada do cargo tivesse pensado nisso — disse Fowler. — Poderiam ter convocado a reunião apressadamente.

— Por isso acho que é uma jogada furada — concordou o Presidente. — Eles gostariam que eu tentasse exonerá-los. Isso estaria diretamente contra o espírito da emenda, e constituiria prova de que desejo permanecer no poder a todo o custo. E o povo americano não admite truques obtusos assim. Se eu fizesse isso, o episódio seria chamado de “O Massacre da Noite de Domingo”. Haveria uma moção para o seu impedimento... sem razões fundamentadas, sem haver cometido nenhum crime, mas fomentaria a agitação. Não, tenho de permitir que se realize a reunião do Gabinete, mas no meio tempo posso apertar Bannerman um bocado.

Fowler pôde sentir o sorriso de Ericson.

— Esse Hennessy é mesmo um sacana!


A FOTÓGRAFA OFICIAL /3

Deitada na cama do Presidente, Buffie podia ouvir vozes abafadas no Salão de Estar Oval — a “sala amarela” — ao lado. Podia também escutar os movimentos de um relógio na mesa de cabeceira com o telefone, o que lhe pareceu estranho — ela achava que todos os relógios agora eram elétricos — e um rádio portátil tocando baixinho na sala, perto da poltrona. Herb Abelson a levara ao quarto de Ericson, e lhe dissera sem jeito:

— Ele está tendo uma reunião durante o jantar com o P. G. e Hennessy, mas não se preocupe, a porta está sempre trancada, e o único meio de se chegar ao quarto é pela porta do vestíbulo. Ele não sabe quanto tempo vai durar a reunião, mas disse para você ficar aqui, que ele pode dar umas chegadinhas.

Ela sorriu, e saiu da cama para procurar em uma das gavetas o longo cardigã de cachemira do Presidente. Balançou-o na ponta dos dedos, posou nua em frente ao espelho de corpo inteiro, e depois balançou a cabeça, aborrecida porque ele não podia ver nada. Não era nem preciso iluminar o quarto. O abajur era para uso dos convidados.

Esta não era a primeira vez em que eles cumpriam a rotina do jantar no salão de estar. Quando a administração se estava formando, e reuniões tardias aconteciam quase todas as noites, ele realizava uma reunião lá, vinha tê-la durante um intervalo sexual de vinte minutos, e depois voltava à reunião calmo, retemperado, sem tensão, e finalmente voltava e a encontrava adormecida, querendo ser acordada. Tinham sido períodos ótimos, e a excitação se fundia: nunca se sabia se se estava no auge devido ao que se acabara de fazer, pelo que se estava fazendo, ou pelo que se iria fazer.

Ela vestiu o suéter dele, e perguntou-se como seria para ele, agora, a cama. Ele gostava de contemplá-la, e ela sempre refinara ao máximo, ao se movimentar em liberdade absoluta, e fazendo poses graciosas e acrobáticas, que o ajudavam a preparar um álbum de gravuras mentais. Isto já não era possível, e ela esperava que ele conservasse as velhas imagens vívidas na mente. Já não era preciso o espelho. Ela franziu o cenho, recordando das posições que ele a fazia adotar, para que pudesse fazer e observar ao mesmo tempo. O facto de ser cego significaria que ele teria prazeres diferentes? Dizem que o tato melhora; estaria ele sentindo mais, através das pontas dos dedos?

Vozes. Buffie tinha um trabalho para fazer depois da hora, e talvez pudesse ouvir algo útil. Desligou o abajur, sentou-se de pernas cruzadas junto à porta da sala do desjejum, e pelo espaço mínimo da parte inferior da porta, conseguia escutar quase toda a conversa.

— ... não há razão por que não possamos fazê-lo — a voz de Hennessy trovejava. — Nós os exoneraremos antes que eles tenham ocasião de se reunir. Cortamos o mal pela raiz. Olhem, esperemos até o último minuto. Na segunda de manhã, Bannerman vem à Casa Branca, para a reunião, Cartwright lhe entrega um envelope onde diz que ele foi exonerado e que seu substituto foi nomeado Secretário do Tesouro. Que é que Bannerman vai fazer? Berrar como um porco ferido, mas perde o direito de participar da reunião. Não é, Emmett?

Uma voz profunda e ligeiramente sulista que Buffie não reconheceu, disse:

— Não haveria dúvidas sobre a decisão. A emenda cita “os principais funcionários dos departamentos executivos”. Se um homem foi exonerado cinco minutos antes da reunião, não tem nenhum papel a cumprir nela. O cargo estaria vago e seria ocupado pelo chefe interino do departamento, que seria então a pessoa a dar o voto. O exonerado, porém, não participaria mesmo.

— Só decidiremos no último minuto — disse o Presidente. — Hennessy, faça com que os envelopes estejam prontos. Eu lhe direi o que fazer quando Bannerman e Fong chegarem na segunda de manhã.

O Secretário Bannerman adoraria saber disso. Buffie escutava uma porção de conversas jurídicas difíceis de acompanhar, e então o papo tratou de personalidades que ela conhecia.

— Bannerman julga ter o Secretário de Defesa do seu lado — disse Hennessy — Sabemos que não é bem assim. Os meninos lá de Wall Street estão trabalhando nele, e está começando a ceder. Talvez Bannerman possa exercer alguma pressão de Wall Street para escorar Preston Reed, mas a não ser que ele o faça, o voto da Defesa vai oscilar para o Presidente.

— Não sei por que vocês estão tão preocupados — disse a voz de Ericson. — O Vice-Presidente estará lá. Mesmo se perdermos no Gabinete, o que não vai acontecer, ele tem o poder de vetar a decisão do Gabinete no sentido de que ele assuma a Presidência. E o Vice- Presidente Nichols me garantiu pessoalmente que vetaria qualquer tentativa de minha derrubada, exceto se fosse unânime. Acontece que ele não disse isso a Bannerman. Roy Bannerman vai tomar um grande choque se acha que já ganhou.

— Quais os três pontos que devem resumir esta nossa reunião? — perguntou Hennessy em sua voz alta, de tribunal. Buffie podia ouvi-lo perto da porta, e concentrou-se no resumo: Primeiro: estamos prontos para surpreender Bannerman com exonerações quando ele chegar, segunda de manhã. Segundo: vamos manter a pressão sobre Reed, e Bannerman não é bastante ousado para aplicar a contrapressão de Wall Street. E terceiro: não dizemos nada a ninguém sobre o Vice-Presidente, que está pronto para trair Bannerman, se necessário.

Depois disso houve mais alguma conversa, que impressionou pouco Buffie, que repetiu os três pontos para não os esquecer. Quando ouviu as cadeiras na sala de desjejum rasparem o chão, tirou a cachemira de Ericson e se enfiou debaixo dos lençóis.

Ele bateu uma vez, abriu a porta do vestíbulo e a fechou silenciosamente.

— Alô, Pdeu! É só intervalo?

— Não, a reunião acabou. Tenho a noite livre.

— Apaguei a luz — disse ela — especialmente para você.

Ela viu o corpo dele dirigir-se à poltrona, onde ele depositou o paletó, a camisa e as calças. Sentou-se na beira da cama para tirar os sapatos e chegou a ela.

— Você sabe andar direitinho neste quarto — disse ela. Eu já teria dado uma topada.

— Quando as luzes estão apagadas, nós dois estamos em igualdade de condições.

Ele jogou o lençol para trás e sua mão contornou-lhe os seios. Depois as duas mãos percorreram o corpo dela, que teve a sensação de estar sendo estudada no escuro.

— Pdeu, você está preocupado? Eles vão tirar você daqui?

Ele a afastou para o lado e subiu na cama.

— Claro que estou preocupado, mas não tanto como Bannerman. Hennessy e o P. G., com quem eu estive agora, já resolveram tudo. Mas há um assunto externo que é meio sério. Acho que você está engordando.

Ela achou que estava ficando com remorso porque não gostou da sensação que experimentava. No passado, Ericson a usara e brincara com ela, e tirara tudo que um homem pode tirar de uma mulher, mas jamais a maltratara, nem deliberadamente a humilhara ou tentara impor-lhe suas maneiras. Uma sensação incômoda lhe dizia que ele não merecia o que lhe estavam fazendo, pelo menos, não da parte dela. Nunca antes ela jogara dos dois lados, e talvez nunca voltasse a fazê-lo. Ela desejou poder compensá-lo.

— Você tem me evitado, Pdeu. Está com outra namorada?

Ele nunca respondia a isso, nem ela esperava que o fizesse, mas sabia que ele gostava de pensar que ela estava com ciúmes. Ele pôs-lhe a mão no umbigo, o que sempre a excitava. Ela foi para baixo dele e reagiu a princípio ternamente, depois selvaticamente. Durante quarenta minutos, segundo o marcador luminoso do velho relógio de tique-taque da mesa de cabeceira, ela rolou em cima dele, saltou, contorceu-se sob ele, acariciou-o e inesperadamente, porque tencionava primeiro fazer com que ele chegasse ao orgasmo, gritou aliviada, um lamento longo, fino e entrecortado, como se emitido pela terceira pessoa entre eles. Ela não sabia se ele terminara ou não; ia perguntar-lhe, mas deitou-se de novo, exausta. Para variar, ele não fez nenhuma fria observação sobre o desempenho. Ela esperava que ele a beijasse, mas isso não era do seu feitio, por isso ela o beijou.

— Isso nunca me ocorreu antes — disse-lhe ela. O que era mentira, mas que não fazia mal em dizer. Ela queria que fosse verdade. Ele nada disse e ela sabia que ele não acreditara.

— Na verdade, aconteceu quatro vezes antes — disse ela clinicamente, para recuperar-se — mas nunca na capital da nação.

Ericson ajeitou-a do modo que gostava, no seu colo, enquanto ele se apoiava no espaldar da cama, de onde podia tocar-lhe a nudez quando desejasse, da mesma forma que gostava de olhá-la. Ela sabia que ele não acreditara, acerca do orgasmo.

— Pra dizer a verdade, eu sou sempre assim com vocês, caras cegos — acrescentou ela, o que o fez rir.

Ela encontrou a curva do queixo dele que se enquadrava na curva do seu próprio nariz e testa, e dormiu algum tempo contra ele, o que só fazia com Ericson. Geralmente, quando acabava de fazer amor, ela se transformava num tatu, com a espinha virada para dentro e os cotovelos protetores. Ela sabia que ele gostava que os dois dormissem juntinhos, que ela ficasse de pernas abertas, vulnerável, e que ele costumava ficar acordado enquanto ela dormia uma meia hora.

Depois de algum tempo ela acordou, quando Ericson tirou o braço e saiu da cama para beber água no banheiro escuro. Ele saiu, movimentando-se agilmente entre as sombras, em volta da cama, até a janela, e depois se sentou na poltrona. Buffie também saltou da cama, tateou para achar o suéter dele, vestiu-o e sentou-se aos seus pés, segurando-lhe as pernas.

— Você está ficando notívago — disse ela. — Movimenta-se no escuro como um gato. Você tem uma vantagem à noite.

— Só consigo dormir tarde — disse ele, com a mão nos cabelos dela. — Hoje deve ser melhor.

— Você não deve pensar em perder o cargo — disse ela. — Se acontecer, aconteceu, e não seria por muito tempo, você logo voltaria.

— Não, quando se sai, é definitivo. Não há retorno. Você continuaria comigo, Buffie?

Ele fez a pergunta com um tom de sarcasmo de que ela não gostou. Ela cruzou as pernas, pegou um pé dele, e começou a massageá-lo lentamente, separando os ossos, fazendo com que cada dedo se sentisse um só e não parte do pé, e não respondeu. Passou cerca de cinco minutos com esse pé comprido e ossudo, e depois o descansou no ombro, e pegou o outro pé que estava no seu ciclo.

— Derrota — disse ele, após certo tempo. Longa pausa. — Não é muita gente que sabe como enfrentá-la.

Ela torceu-lhe o dedão.

— Ui! — exclamou ele, provavelmente com um sorriso idiota — mas como é que se transforma derrota em vitória?

— Você não analisou o que estou fazendo — disse ela. — Estou lhe dando esse prazer fantástico não porque você queira, mas porque eu quero. É uma forma de expressão que você jamais entenderá.

— Continue expressando-se — disse ele. — Faz com que eu me sinta um rei. Deve um Presidente sentir-se um rei? Acho que não. Portanto, o que estamos fazendo é errado.

Ela notou que as unhas dos dedos dos pés dele estavam compridas.

— Qual foi a última vez em que fiz as unhas de seus pés?

Ele jamais tratara dos pés antes que ela, na segunda ou terceira noite que passaram juntos, os tivesse tratado. Poucos homens cuidavam disso, e a visão de uma mulher liberada cuidadosamente cortando-lhes as unhas dos pés dava à maioria dos homens sensações de domínio, de que elas poderiam ser facilmente controladas.

— Logo depois da posse, aqui mesmo nesta cadeira — recordou-se ele. — Você me tirou um bife do dedinho, lembra-se? Foi sangue por todo o lado. Chega de tratar dos pés.

Ele se calou. Provavelmente pensava o mesmo que ela: que cortar unhas agora, sem poder ver, seria difícil para ele.

— Bem, pelo menos não vou mais tratar-me com pedicuras amadoras.

— Pense sempre em mim como amadora — sorriu ela. — Como fotógrafa uma profissional, é claro, mas como amadora em todas as outras coisas.

— Onde diabos você se meteu na noite da coletiva à imprensa? Eu podia ter precisado de você.

Ela parou de mexer no segundo pé, e retirou o outro do ombro.

— Não dependa muito de mim, Pdeu. Sou livre, compreende? Quando estou com você, é porque quero estar. — Ela achou que poderia ser mais gentil, e acrescentou: Há vezes em que preciso ficar só. Você sabe que dou longos passeios a pé.

— Isso é perigoso por aqui.

— Ninguém vai me violentar, eu ando com um enorme alfinete.

Ficaram calados uns momentos.

— Quando Harry Bok estava aqui — disse ela — havia um agente designado para me vigiar à noite. Eu detestava aquilo, Pdeu. Não era para me proteger, era para proteger você. Era para espionar a sua propriedade.

— Harry fez isso? Ele nunca me disse.

Ela pegou no pé dele, e puxou gentilmente o dedão até que ele estalou. Isso lhe lembrou o que tinha de dizer a Bannerman: as cartas exonerando os membros do Gabinete quando eles chegassem na segunda de manhã. Ela estalou o segundo dedo: isso era em nome da pressão de Wall Street sobre Reed, o Secretário de Defesa. Puxou o terceiro dedo, que não estalou. Ela desistiu e tentou o quarto dedo, que estalou. Isso lhe recordou a possibilidade de uma traição a Bannerman pelo Vice-Presidente, depois que o Gabinete houvesse votado. Três estalos, três pontos para contar a Bannerman quando ela lhe telefonasse amanhã. Ela agora se sentia menos culpada quanto à sua deslealdade.

— Posso confiar em você, Buffie?

— Não inteiramente. Quando você me sufoca, fico com vontade de sair por aí. Vou dar o rabo ao próximo agente que você botar no meu rabo. Vou fazer de tudo com ele, e mandá-lo de volta a você com um relatório daqueles. Alguns dos agentes são super, Pdeu.

— Você está querendo brigar — disse o Presidente. — Você quer ser desagradável. Por quê?

Ela não disse nada. Ele começara a briga, e quando ela reagiu, ele a acusou de querer brigar. Era um bom truque, a punha na defensiva, mesmo quando ela sabia exatamente o que estava havendo. Havia um bocado de motivos para pô-la na defensiva, mais do que ele sabia, o que a fez duplamente resolvida a não aceitar a situação.

— Fiz um grande trabalho de relaxar esse pé — observou ela frivolamente — e agora ficou todo tenso. Esforço perdido. Uma foto perfeita que se estragou no revelador.

— Aah! — fez ele, retirando o pé e voltando para a cama. Ela ficou na poltrona.

— Você não quer dizer “aah!” — disse ela. — Você quer dizer arrff! — Tentou de novo. — Arrff! — Ela fez sons mais guturais e leoninos e finalmente foi até ele na cama e gritou Arrrfff! no ouvido, mordeu-lhe o pescoço, mergulhou a cabeça entre as pernas dele, e o devorou.

Mais tarde, juntinhos, com a cabeça no peito dele, ela murmurou:

— Nós estávamos na cama, como é que acabamos na cadeira?

Ela não acompanhara tudo o que acontecera tão clinicamente quanto costumava. Na cadeira com ele, totalmente no colo, não se lembrara de como chegaram lá.

— Você só está me tratando bem porque tem pena de mim — disse-lhe ela. — Não tolero que tenham pena de mim.

— Não é que eu tenha pena de você — disse ele, jogando um jogo de reverter papéis que eles costumavam jogar para expor o que desconfiavam estivesse na cabeça do parceiro — é que eu acho bom, para uma moça cega, fazer muito sexo.

— Preciso desesperadamente de você — sussurrou ela. — Preciso, preciso, preciso. Se eu não posso ver, isso quer dizer que já não vou desfrutar de uma boa trepada?

— Você está melhor do que nunca, não precisa de ninguém.

Ericson acariciou-lhe o cabelo e disse:

— Sua deficiência é um tesão.

— Você não vai rir de mim quando eu tirar o braço? — perguntou ela.

— Basta mostrar-me o encaixe. — Ele estava ficando bom no jogo. — Farei o que você quiser, desde que você não fique possessiva.

— Mas você tem de prometer-me que ninguém mais vai usar meu encaixe.

— Aos diabos com isso — rosnou ele. — Tenho de ser livre. Se você me disser que posso trepar com quem quiser, eu lhe serei eternamente fiel. E aí não terei nada contra que me revoltar.

— Por que não me deixa confiar em você? — perguntou ela, como se fosse ele. — Tenho uma necessidade imensa de confiar em alguém, e pode ser você.

— Porque não quero que confiem em mim — respondeu ele como Buffie. — Isso significa controle. Por isso trairei você sempre.

— Não sempre — disse Buffie. — Não nas grandes ocasiões. Você pode me decepcionar nas pequenas coisas, mas quanto ao grande segredo você me protegerá, e sabe que você não é uma merda total, não quanto ao grande segredo...

Buffie percebeu que o jogo a levara a dizer mais do que pretendera. Mas não fazia mal que Ericson soubesse que mesmo se ela o traía com algumas coisas, jamais contaria sobre o incidente de trem na campanha, e o sigilo sobre sua cegueira de então. Passar uma inconfidenciazinha para Bannerman era como dormir com um agente do Serviço Secreto: divertido, e uma forma de ficar quites com a vida ou de progredir, mas não significava ir até o fim, como ter um caso de amor às claras com outra pessoa. Umas fofocazinhas e umas trepadinhas faziam seu gênero, mas traição mesmo, não, não era com ela. Ela achava que Pdeu compreenderia.

Após algum tempo, ele perguntou:

— O violão ainda está no armário?

Há muito tempo, durante a campanha, ele descobrira que ela sabia tocar alguma coisa no violão, e que sua voz era bem razoável. Ela guardou o instrumento no armário do quarto dele, pois não podia carregá-lo para trás e para frente, parecia uma grande metralhadora no estojo, e ela tocaria quando tivesse vontade, normalmente depois de fazer amor, e ainda mais quando ele não a satisfazia.

Ela sempre achara que o violão era algo que ele tolerava, porque ela estava aprendendo a tocá-lo e nunca tinha tempo para chegar a tocar bem. Esta era a primeira vez em que ele lhe pedia para tocar, e a ideia lhe agradou.

— Você Rei Saul, mim Davi? — perguntou ela do armário, procurando atrás dos ternos.

— Você sabe a Bíblia — sorriu ele.

— Sei meus filmes sobre a Bíblia — disse ela, deixando acesa a luz do armário para ver a imagem dele, quando se sentou de pernas cruzadas no chão. Gregory Peck era Davi, e ficava dedilhando o violão. Isso aplacou o velho rei.

— Aplaque-me — disse o Presidente.

Ela não sabia o que cantar, mas a fala sobre a Bíblia lembrou-lhe o hino que tantos cantores de folclore costumavam cantar para animar as platéias. Assim, lentamente, começou, concentrando-se nas cordas e não nas palavras:

— Amazing grace,
How sweet the sound,
That saved a wretch like me.

[nota: Surpreendente graça - Que doces sons - Que salvaram um desgraçado como eu.]

Ela encontrou o acorde certo e continuou, com mais confiança:

— I once was lost,
But now am found

[nota:* Certa vez me perdi Mas agora me encontrei]

Ela parou abruptamente, abominando o que quase fizera. Não confiava em sua voz.

— Por que parou?

— A canção não era essa — atrapalhou-se.

Ele saltou da cama, chegou-se a ela, tocou-lhe o cabelo, passou-lhe a mão no rosto molhado, e acariciou-lhe os olhos. Beijou-a suavemente, e disse:

— Cante toda ela. Faz lembrar-me do meu tempo de religioso. Era mais um teste para ela do que para ele, e por isso ela o fez doce e perfeitamente, sem perder um acorde.
 

Amazing grace,
How sweet the sound,
That saved a wretch like me
I once was lost,
But now am found,
Was blind, but now I see.
[nota: Estava cego, mas agora enxergo.]

Ela engoliu em seco umas duas vezes e pôs os dedos nas cordas.

— Todo mundo conhece essa canção, não é? — disse ele, pensativo

— Quase todo mundo, Pdeu — respondeu ela, já com a voz firme. — Todo batista que vai à igreja conhece esse hino porque o canta domingo de manhã, e o pessoal jovem conhece porque os cantores de folclore o cantam. Ficou muito tempo em primeiro lugar nas paradas. Parece que pessoas de lugares diferentes se unem nessa canção.

— É o hino favorito de Carter — lembrou ele. — Como Home on the Range era de FDR, e Missouri Waltz, de Truman. É uma boa idéa escolher uma canção popular como favorita.

— Você a conhece, então.

— Só conheço seus princípios políticos — sorriu ele tristemente. — Como sei que The Battle Hymn of the Republic se tornou a canção de Bobby Kennedy durante algum tempo, depois que foi cantada no enterro dele enquanto o cortejo do funeral passava. Mas tampouco sei a letra toda.

Ericson estava sentado na poltrona. Os compridos braços estavam ao longo dos braços da cadeira, e as mãos agarravam as extremidades, semelhante à estátua de Lincoln, no monumento.

— Eu talvez seja a única pessoa na América — disse ele, pensativamente — que não sabe a letra de Amazing Grace. E eu deveria, ensine-me, Buffie.

Ela a ensinou a ele com bastante facilidade, e depois lhe perguntou por que ele queria alongar-se sobre algo que lhe lembrava e a todos, de cegueira.

— Nunca se deve fugir de nada, minha cara — disse ele. — As pessoas têm medo de ficar cegas. É o pior medo que há, vem lá de dentro, exceto quando já se está cego; e depois o medo mais terrível é de perder a audição. Mas se um cego foge da ideia de estar cego, ou se estremece a expressões como “a olho nu” ou semelhantes, ele dá ainda mais medo às pessoas. É uma incrível demonstração de fraqueza. Fowler sabe como tratar disso, e Hennessy é o melhor de todos: ele procura fazer brincadeiras com palavras que falem de cegueira, e todos rimos, ou resmungamos. Esta é a melhor atitude: forçar o medo a se expor. Confrontá-lo.

Ela subiu na cama com o violão e sentou-se perto dele. Ele tentou acariciar-lhe o ombro; ela, porém, sabia que ele estava pensando em Amazing Grace, repisando a letra para memorizá-la.

— Todo mundo sabe esse hino — disse ele, como se falasse sozinho. — Algum dia posso vir a precisar dele. E também da ideia que ele contém. Engraçado como isso me escapou todos esses anos.

— Terá sido por falta de visão?... — brincou ela.

— Boa! — aprovou ele.

— Por que você está passando a mão no violão, Pdeu?

Isso o tirou de suas meditações; ele estivera tocando na curva do instrumento e não na mulher junto dele na cama, o que era cômico bastante para que ele transportasse sua atenção para o presente e para a pessoa alegremente investida do papel de professora.

Ericson a apertou, o que ela julgou fosse um carinho. No passado, ele a agarrava, tocava, acariciava ou atacava; ela não se lembrava de um único gesto carinhoso. Buffie não sabia se havia gostado disso tampouco; era um gesto paternal, meio ilógico para dois amantes entre assaltos sexuais.

— As pequenas fofocas reveladas não fazem mal — disse ele. — Você está certa: basta que jamais revele a grande fofoca que sabe.

— Você está começando a amadurecer, Pdeu — disse a moça. — Algum dia vai entender que nada tem a ver com o que temos juntos; eu apenas me divirto um pouco, sem ser nada de sério.

— Não — respondeu Ericson. — Jamais tolerarei isso. Dar trepadinhas por aí está errado, porque me irrita bastante. Fazer um pouquinho de fofocas também está errado, mas consigo suportá-lo, porque não há outro jeito.

Ela não pensou: “Somente enquanto não houver outro jeito, e enquanto você fizer com que sua garota se sinta perturbada pelo remorso, porque aí então ela acha que tem de compensá-lo”. De vez em quanto ela amava esse homem, concluiu, tocando as cordas com os dedos e recordando-se dos três tópicos que teria de contar a Bannerman de manhã.


O SECRETÁRIO DO TESOURO /2

A residência de Washington de T. Roy Bannerman era pequena, mas pretensiosa. Era uma casa de tijolinhos na Travessa das Embaixadas na Massachusetts Avenue, e ficava no meio do caminho entre a Casa Branca e a residência do Vice-Presidente, no Observatório Naval. A Sra. Bannerman considerava sua estada em Washington como um exercício temporário no serviço público desempenhado pelo marido e não trouxe de sua casa de Nova York nenhum dos tesouros de arte nem as antiguidades, o que seu marido achou ótimo, pois já se cansara deles.

No domingo do “fatídico fim de semana” — esse chavão se estava tornando privativo da linguagem política — o Secretário do Tesouro passou a manhã ao telefone, andando para cima e para baixo no felpudo tapete branco de seu espaçoso estúdio, e arrastando um fio de dez metros. Sua fonte clandestina da Casa Branca — aquela desprezível oportunistazinha, a fotógrafa e amante de Ericson — telefonara depois do desjejum com três tópicos de informação. Primeiro, a possibilidade de exonerações quando Fong e Bannerman chegassem segunda-feira, à Casa Branca para a reunião do Gabinete acerca da incapacidade do Presidente. Segundo, a necessidade de escorar Reed no Departamento de Defesa, como pressão de Wall Street. E finalmente, a traição em potencial do Vice-Presidente.

Ele transmitiu as notícias a Susan Bannerman, que respondeu a ponto por ponto:

— O Presidente seria um tolo se exonerasse você. E você seria um tolo de se apoiar em Preston Reed, ou mandar que alguém o fizesse por você. Sobre o Vice-Presidente, não estou bem certa: ele é do tipo que ficaria do lado da última pessoa com quem falasse.

Bannerman admirava o bom senso da mulher, e normalmente dava crédito ao que ela dizia, mas neste caso, sua fonte de informações era pessoa muito de dentro da Casa Branca para que ele não levasse em conta suas informações, que chegavam em hora importante. Ademais, todo o tempo desconfiara do Vice-Presidente — o sujeito era o que o pai de Bannerman chamava de “oportunista” — e seria bem ao estilo de Nichols deixar que o Gabinete fosse adiante, reunisse todas as ideias, e depois os traísse e vetasse sua decisão.

— Nichols poderia acabar conosco — explicou ele à mulher. — A Vigésima Quinta Emenda estabelece que a incapacidade do Presidente seja declarada pelo Vice-Presidente e pela maioria dos principais funcionários dos departamentos executivos, isto é, pelo Gabinete. Assim, podemos desprezar o voto de Curtice, e vencer por quatro a dois, que é a maioria do Gabinete. Se o Vice-Presidente não vetar, torna-se o Presidente Interino no momento, independente do que diga o Presidente. Se o Vice-Presidente vetar, a acção do Gabinete vira apenas um enorme constrangimento, e não significa nada, porque se o Vice-Presidente não estiver disposto a acompanhar o voto da maioria, o Presidente continua Presidente.

— Eu não me tinha dado conta de que Ericson poderia ser deposto, se resolvesse lutar, sem que o Congresso tomasse parte em alguma altura do problema.

— Não use a palavra “deposto” — disse Bannerman sem jeito. — Ericson continuaria com o título de Presidente, e a ocupar tecnicamente o cargo de Presidente. Os “poderes e deveres” da presidência, porém, seriam delegados... esta é a palavra, “delegar”... ao Vice-Presidente, como Presidente Interino.

Susan Bannerman abriu sua caixinha de sacarina.

— E se Ericson mandar tudo isso para o inferno?

— Então cabe ao Congresso decidir a questão. Se conseguirmos que dois terços do Congresso concordem que o Presidente está incapacitado de funcionar, num prazo de três semanas ele terá de sair e Nichols permanecerá como Presidente Interino.

Susan Bannerman serviu café e comentou:

— A frase dita por Lady Macbeth me vem à cabeça: “E se falharmos?”

— “Falhamos”. — Bannerman citou a frase seguinte. — Puxa, Susan, você escolhe as mais horríveis alusões literárias. Não haverá sangue na mão de ninguém. Se falharmos, ou se Nichols nos trair, Ericson providenciará para que todos que tentaram tirá-lo do cargo sejam escorraçados de Washington.

— Por que deveria Nichols recusar a presidência? Ele quer ser Presidente.

— Mas quer ser Presidente por mais de três semanas — replicou Bannerman — e não quer passar à história como um frustrado usurpador que o Congresso derrotou. Por outro lado, se ele recusasse a oportunidade da primeira vez, estaria provando sua lealdade a Ericson do modo mais dramático. Então ele talvez conseguisse que Ericson proclamasse sua auto-incapacidade, sem nenhuma briga. Ou talvez, num segundo repto, haveria mais possibilidade de o Congresso apoiar o Vice-Presidente para que fosse Presidente.

A sensata mulher de Bannerman balançou a cabeça:

— Acontece que seu velho amigo Arnold Nichols não pensa tão sinuosamente assim, Roy. Você, sim. Ericson também, mas não Nichols.

— Coloquei esse joão-ninguém onde ele está hoje — disse Bannerman, permitindo-se ligeira irritação. — E agora, com o bem-estar do país em jogo, ele está pensando em me trair.

— Alguém diz que ele está.

— O Presidente dos Estados Unidos diz que ele está.

— Você acredita nele? — perguntou ela. Isso deteve Bannerman: talvez Ericson estivesse mentindo sobre seu trato com Nichols. Era uma possibilidade. Não se podia absolutamente confiar em Ericson nesse caso.

O mordomo anunciou o Secretário Fong. Quando seu colega entrou, Bannerman não perdeu tempo em amenidades e foi direto a seu relatório de informações supridas por Buffie.

— Mike, poderíamos ser exonerados no minuto em que entrássemos lá amanhã de manhã.

— Não vai acontecer nada — disse Fong. — Ele estaria provocando seu impedimento.

— Foi isso que eu disse — exclamou satisfeita Susan Bannerman.

— Estaríamos até melhor com um processo de impedimento — acrescentou Fong. — Para conseguir-se o impedimento, é necessário uma simples maioria da Câmara, e dois terços do Senado. Mas para declarar incapacidade, são precisos dois terços em ambas as Casas. Acho que poderíamos obter maioria contra Ericson na Câmara, mas não dois terços, a não ser que o Presidente da Câmara votasse a favor, e ele não é favorável à nossa causa.

— Então Ericson estaria melhor em nos combater na sua segunda linha de defesa — disse lentamente Bannerman. — Bem, mais tarde trataremos disso. Primeiro, vamos garantir nossa vitória no Gabinete.

Bannerman contou a Fong da necessidade de pressionar Reed; Fong não se sentiu à vontade para fazê-lo, mas concordou, “porque você compreende melhor o pessoal da Wall Street do que eu, Roy”.

O Secretário do Tesouro foi ao telefone para começar a agir no campo que ele conhecia muito bem. Primeiro ligou para um advogado, depois para um banqueiro aposentado, para o atual embaixador à Corte de St. Jaimes em Londres, e para o único ex-Secretário de Defesa vivo. Depois de acionar esses instrumentos de persuasão, Bannerman chamou o presidente da diretoria do New York Hospital, e solicitou ao velho amigo que enviasse seus médicos para ficarem de sobreaviso em Washington naquela noite.

E Curtice? — perguntou Fong. — A única pessoa que pode convencer o Secretário de Estado é o Secretário de Defesa, e não estamos certos da posição dele.

— O melhor a fazer — disse Susan Bannerman — é conseguir que Preston Reed comece a influenciar George Curtice, e enquanto for convencendo Curtice, se convencerá também. É muito melhor do que forçar Reed. Ele é o tipo de homem igual a meu pai, que não gosta de ser forçado a nada. Está bem, Roy, vou calar a boca.

— Ela tem razão, sabe? — disse Fong a Bannerman.

— Ela foi responsável por este tapete — comentou Bannerman. — Você já viu tapete mais inadequado para a residência do Secretário do Tesouro?

— É um tapete bem interessante — disse Fong cautelosamente. — Deve ter custado uma fortuna.

— Esse tapete branco felpudo é um desastre — afirmou desembaraçadamente a senhora. — Reconheço meus erros. Boa sorte com Reed, mas não posso deixar de pensar em meu pai. Vamos assistir ao Encontro com a Imprensa? Eles vão fazer um programa especial sobre este “fatídico fim de semana”.

A tela do televisor se acendeu e assistiram a um corpo de jornalistas entrevistar dois técnicos da Constituição:

Pergunta: Em primeiro lugar, o que significa “incapacidade”, aos olhos da Constituição?

Técnico: A Constituição não explica. A palavra é usada no Artigo II, da 1.a Seção, 5.a Cláusula, que diz: “Em caso de destituição do Presidente do cargo, ou da sua morte, renúncia ou incapacidade de exercer os poderes e os deveres de seu cargo, o Vice-Presidente deverá assumir... Mais tarde, a redação muda “incapacidade” para “impossibilidade”, ao dizer “até que cesse a impossibilidade”.

Pergunta: Que pretendiam os “Pais da Constituição” [nota: Os redatores da Constituição americana, principalmente James Madison.] dizer com “incapacidade”?

Técnico: A cláusula vice-presidencial foi acrescentada no final da Convenção Constitucional, como uma espécie de conclusão posterior. Não existe nenhuma definição de incapacidade para nos orientar. E a história legislativa da Vigésima Quinta Emenda tampouco ajuda em nada. Os elaboradores dessa emenda acharam que seria um erro atar as mãos dos futuros Gabinetes e Congressos com uma definição específica de “incapacidade”. Por assim dizer, deixaram isso a nosso cargo.

— Isso é bom — comentou Bannerman. — A palavra “incapacidade” é o que este Gabinete diz que é. Não há precedentes. Nós mesmos criaremos os critérios.

Pergunta: Bem, então, qual o seu conceito de “incapacidade”?

Técnico: Na minha opinião, significa “incapacidade de governar”. Nos debates sobre esta emenda, o caso de James Madison foi lembrado. Ele quase foi capturado pelos ingleses, na guerra de 1812. Se um Presidente fosse feito prisioneiro por um poder hostil, ou sequestrado por revolucionários, a Vigésima Quinta Emenda claramente especifica que o Vice-Presidente deve assumir os poderes e deveres. Eu interpretaria isso como querendo dizer que as verdadeiras condições físicas do Presidente são apenas um elemento ao se determinar a “incapacidade”. Especialmente numa era nuclear, temos de dar amplas conotações a essa palavra, para abranger qualquer eventualidade sob qual o Presidente não esteja capaz de governar. Uma combinação de incapacidade física tal como a do Presidente Ericson, ou seja, cegueira, mais o consenso do país de que ele não consegue enfrentar as imensas responsabilidades de seu cargo, seriam motivos, a meu ver, para uma decisão do Gabinete quanto à sua incapacidade.

Pergunta: O senhor concorda, Deão McAllister?

Técnico II: Não, eu daria uma interpretação menos ampla à palavra “incapacidade”. Essa emenda não foi incluída na Constituição para incentivar a usurpação. Uma vez que comecemos a falar de “incapacidade para governar”, começamos a dizer que um Presidente impopular pode ser destituído em meio à sua gestão porque o povo já não gosta dele; este não é certamente o espírito da Constituição. Não, eu diria que “incapacidade” é mais especificamente um mal físico que se pode demonstrar, provar e afiançar que torne a pessoa incapaz: uma coma, insanidade óbvia, ou algo que não seja duvidoso. Quando um Presidente insiste em que está capacitado para exercer seus deveres, apenas a mais inequívoca prova de incapacidade, fornecida por uma junta de médicos reconhecida- mente capazes, deve ser usada para refutar essa afirmativa.

— É melhor você ter um bom apoio médico — disse Fong a Bannerman. — Ericson vai estar com seu médico pessoal e o psicólogo cego preparados para atestar que ele está em ótima forma.

— Os médicos sempre discordam entre si — disse Bannerman.

— Essa não é uma decisão médica, e sim política. Não se trata da incapacidade de andar e falar, e sim da incapacidade de governar. A chave do assunto é essa.

Pergunta: Isso não é muito confuso? Num “governo de leis, não de homens”, o senhor está dizendo que a Constituição não provê nenhuma orientação ao Gabinete sobre como despojar de seu carpo um Presidente incapacitado, e que isso depende exclusivamente dos homens, e não da lei?

Técnico I: É claro que é confuso: esta foi a intenção desde o início. A Constituição precisa ser flexível. Por isso a emenda dá uma alternativa ao Gabinete: fala dos “principais funcionários dos departamentos executivos, ou de outro órgão como o Congresso, como prevê a lei”. Isso no caso de a ideia do Gabinete não dar muito certo, e porque talvez outra geração prefira que a decisão seja tomada por uma junta médica, ou pelo Supremo Tribunal. Afinal de contas, não havia Gabinete quando se redigiu a Constituição. Pode resultar em que seja uma instituição financeiramente irresponsável, ou incapaz de tomar uma decisão.

Técnico II: Como pessoa que interpreta a Constituição, gostaria de chamar sua atenção para a história legislativa acerca deste mesmo ponto. A Comissão Judiciária da Câmara reconheceu sua incapacidade para definir “incapacidade” e disse que teriam de confiar num governo de homens. Eis o que diz seu relatório de 1965: “O êxito final de qualquer acordo constitucional para obter continuidade nos casos de incapacidade deve depender da opinião pública, em que prevaleça um sentido de “moralidade constitucional”. Sem esse sentimento de responsabilidade, não pode haver garantia absoluta contra a usurpação. Nenhuma solução mecânica nem processual fornecerá uma resposta completa, se se supuserem casos hipotéticos nos quais a maior parte dos envolvidos seja de tratantes, e nos quais não exista um sentido popular de propriedade constitucional. Parece necessário que se adote uma atitude que presuma que sempre estaremos lidando com “homens sensatos” no mais alto nível governamental.” Isso põe a responsabilidade no Gabinete, de agir com um sentido de “moralidade constitucional”. Apossar-se do poder de um Presidente relutante é o caso mais grave de incapacidade óbvia.

Pergunta: O senhor concorda?

Técnico I: Acho que o trecho que meu colega acabou de ler mostra exatamente o contrário: que o Gabinete tem a oportunidade de fazer o que julgar seja certo para o país. Não agir segundo o sentido literal de uma lei deliberadamente vaga, mas fazer o que é certo em sua opinião. Isto é moralidade: o sentido do que é certo.

— Perfeito, perfeito! — exclamou Bannerman. — Vão ficar discutindo o dia inteiro e, pensando bem, a decisão depende inteiramente de nós. Desligue essa coisa, sim, Susan? Mik e eu temos de preparar nossa estratégia para amanhã.

O Secretário de Recursos Naturais começou a andar pela sala, quase tropeçou no tapete felpudo, voltou e sentou-se.

— Você deve aparar essa grama — murmurou, e depois tratou do assunto de sua visita: “Tudo vai se articular em torno de George Curtice, Roy. Você vai conseguir seus médicos, eu vou lembrar todos os pontos históricos que estou estudando, e vamos dar um espetáculo que será sempre relembrado. Mas o que vai acontecer naquela sala não mudará voto de ninguém.

— Então o problema é: que “calor” podemos dar no Secretário de Estado, sabendo que ele é particularmente sensível quanto a lhe dizerem o que deve fazer?

Fong assentiu com a cabeça.

— Há alguma coisa estranha em nossas relações com a União Soviética. Reed lhe contou o que pensa a CIA, e que o Serviço de Informações da Defesa discordou. A opinião da minoria é que Nikolayev armou a emboscada. Se isso for verdade, Curtice vai ficar mal, porque é chapinha de Nikolayev. Hoje de manhã Reed vai dizer isso tudo a Curtice, e vai deixá-lo apavorado.

— Faz parte do plano — concordou Bannerman com a cabeça

— Reed deve garantir ao Secretário de Estado que vamos apoiar suas atitudes depois da emboscada, quaisquer que tenham sido, o que Ericson talvez não fizesse.

Fong sacudiu a cabeça, preocupado.

— Curtice vai ficar realmente num dilema. Vou vê-lo hoje à noite, e de novo cedinho amanhã, e lhe direi que o único lugar em que estará seguro será conosco. Vou relembrá-lo do episódio Lansing.

— Que episódio foi esse? — perguntou Susan Bannerman, quase fora da sala com a bandeja de café; ela pareceu reconhecer o nome.

— Quando Woodrow Wilson estava enfermo em 1919, e sua mulher e alguns assessores maia íntimos tomavam as decisões por ele, o Secretário de Estado, Robert Lansing, tentou conseguir o afastamento do Presidente para que o cargo passasse para o Vice-Presidente Marshall. Logo que Wilson pôde aparecer em público, a primeira coisa que fez foi exonerar Lansing.

A mulher de Bannerman sorriu sombriamente, e relembrou as consequências em termos familiares:

— E esse foi o fim da influência da família Lansing, que durou mais de uma geração, até que seus sobrinhos, Foster e Allen Dulles, voltaram no governo de Eisenhower. Quando um Presidente expulsa alguém por deslealdade, o estigma dura muito tempo.

Depois de dizer isso, ela saiu da sala.

— Ela tem razão — observou Bannerman.

— Não, Roy, não é isso — disse Fong. — A questão é que, se se ataca um rei, tem-se de matá-lo; acho que foi Oliver Wendell Holmes que disse isso. Nenhum de nós se pode dar ao luxo de perder, sob pena de haver um bocado de emporcalhação: estaremos arruinados, e nossos nomes cairão na lama.

— Curtice tem de entender — disse Bannerman com firmeza — que se eu cair, ele não colherá nenhum benefício. Tratarei, durante o resto da vida, de fazer com que ele se arruíne, e que o primeiro negro Secretário de Estado americano seja lembrado como um covarde e um fracasso degradante.

Fong tirou os sapatos para poder passear pelo tapete.

— Farei com que Curtice entenda tudo isso, mas não o ameaçarei. Esse vai ser o truque da semana. Antes que eu esqueça, você está com aquele parecer sobre a abstenção?

Bannerman solicitara ao reitor da Faculdade de Direito de Yale um parecer sobre o problema da abstenção na reunião do Gabinete para considerar a incapacidade presidencial. Seria possível a um membro do Gabinete recusar-se a votar? Neste caso, o homem logo abaixo, em seu departamento, poderia ser convocado para votar’ O membro do Gabinete dispunha desse direito pessoalmente, ou o voto pertencia ao departamento, e havia a obrigatoriedade de ser proferido?

— Tentarei estar com o parecer — disse o Secretário do Tesouro. — Curtice deve poder abster-se, se é disso que vamos precisar para obter a maioria dos votos.

— É claro que vamos precisar disso. O Vice-Presidente terá de dar o voto de Minerva, se o P. O. for contra, o que fará se for inteligente. E Duparquet é bem espertinho.

Bannerman concordou; o Procurador-Geral, Emmett Duparquet, era habilidoso e competente. Seria um bom defensor do Presidente, e um adversário difícil para eles.

— Não se preocupe com o Vice-Presidente Nichols, Mike. Ele está cem por cento conosco.

Fong sorriu. Bannerman sabia que, como ex-governador e político há muito tempo, Fong estava a par da reputação de indeciso do Vice-Presidente. Em nome da credibilidade, Bannerman acrescentou:

— Está conosco cem por cento, desde que ache que vamos vencer.

— O VP é responsabilidade sua — disse Fong, calçando os sapatos para ir embora — e eu sou responsável pelo Secretário de Estado. Perdendo ou ganhando, não terei remorsos, porque acho que Ericson está errado em tentar continuar aos trancos e barrancos. Vou ser sincero com você, Roy: caso percamos, não tenho os seus recursos para me apoiar.

— Vamos ganhar — disse Bannerman firmemente. — No Gabinete e, se preciso for, no Congresso. Mas ganhando ou perdendo, nossa aliança é para a vida inteira, Mike. Os Bannermans jamais esquecem um amigo. Aprendemos isso com os Rothchilds, os Kennedys e os Rockefellers.

Estão em boa companhia — disse Fong. — Quanto a você, lembre-se de Robert Lansing.


O PROCURADOR-GERAL/ 1

Como sempre, ele chegou cedo ao tribunal. Quando Enunett Duparquet praticava direito criminal, gostava de sentar-se no tribunal mais ou menos uma hora antes que todos chegassem, para sentir o ambiente e absorver familiaridade com um caso através da familiaridade com um local. Mentalmente, ele punha pessoas sentadas no júri, enchia o banco dos réus e o assento do juiz, e fazia sua argumentação de abertura em silêncio, muito antes do grito do meirinho.

O Procurador-Geral chegara antes que as equipes da televisão estivessem prontas para tomar declarações, e apenas o pessoal do rádio e da imprensa o encontrou a caminho da Ala Oeste.

— Estive com o Presidente no fim de semana, conversei com seus médicos, e estou convencido de que não há incapacidade.

Quando lhe perguntaram se a moção era um acto desleal de “cabala”, ele não engoliu a isca:

— O Gabinete tem o dever de discutir o assunto franca e amplamente. Estou preparado para fazê-lo.

Duparquet não estava tão preparado quanto gostaria de estar, mas não houvera tempo para a exaustiva análise e preparação que um caso histórico como este exigia. A respeito, o Assistente do Procurador-Geral, um respeitado e apartidário ex-reitor da faculdade de Direito, havia elaborado um memorando jurídico para os membros do Gabinete, distribuído domingo à noite. Essencialmente, o memorando pormenorizava o procedimento para declarar a incapacidade, explicava como o Vice-Presidente se tornaria Presidente Interino no momento em que desse seu voto e houvesse maioria do Gabinete, e determinava o método pelo qual o Presidente deposto teria de refutar essa decisão. O Vice-Presidente continuaria como Presidente interino até que o Congresso tomasse a decisão final, dentro de vinte e um dias.

Na sala vazia do Gabinete, Duparquet ficou de pé atrás de sua cadeira, à direita da do Vice-Presidente, do outro lado da mesa e em frente à cadeira do Presidente, que ficaria vazia. O sol matinal de verão escoava pelas portas envidraçadas. A vinte passos dali, o Presidente trabalhava no Salão Oval, e continuaria lá, sendo ostensivamente informado sobre acontecimentos externos, durante toda a manhã. O Procurador-Geral, que recebera o comando da campanha para manter o Presidente no cargo, decidira que seria melhor que Ericson encenasse um espetáculo de que estava lidando normalmente com seu trabalho. Ninguém acreditaria que ele não estivesse secretamente ouvindo o que se passava naquela sala, mas simbolismo tinha grande efeito nos acontecimentos.

O Procurador-Geral andou lentamente pela sala, como faria mais tarde, olhando para os fantasmas nas cadeiras, enquanto formulava sua argumentação defensiva. Pois seria uma defesa; a carga toda do seu argumento seria contra a promotoria, contra os membros que queriam declarar a incapacidade de Ericson. Mas aqui os promotores tinham uma vantagem que não existia nos tribunais criminais, onde Duparquet passara a vida advogando, e depois como juiz: não precisavam provar seu caso “sem nenhuma sombra de dúvida”. Era evidente que ele insistiria para que o provassem, mas eles poderiam insistir, com igual força, que se existia dúvida suficiente quanto à incapacidade do Presidente para funcionar, então os membros do Gabinete seriam obrigados a votar pela sua remoção. Não havia outro órgão legal a invocar: era um território legal virgem.

Ele não estava dirigindo-se a um júri, lembrou-se o alto filho da Flórida. A metáfora do Gabinete como júri não era absolutamente adequada. A maioria dos votos já fora resolvida. As cadeiras vazias estavam cheias de espectros: Bannerman e Fong, e Reed provavelmente, a favor da remoção; Frangipani e o Procurador-Geral, firmemente contra. O sexto voto era de Curtice, o Secretário de Estado. Duparquet foi para trás da cadeira do Secretário, à direita da do Presidente. Se Curtice se mantivesse firme contra a remoção, não haveria maioria; se ele apoiasse o grupo de Bannerman, Ericson estaria deposto, pelo menos até que o assunto fosse para o Congresso. Se ele tentasse abster-se, o Procurador-Geral lutaria contra seu direito de fazê-lo, porque isso daria a maioria de três a dois às forças favoráveis à remoção.

O caso, então, não seria decidido por um júri, mas por um só juiz: George Curtice. A argumentação tinha de ser feita para ele, enfatizando seu desejo de não ser aquele a quem caberia a decisão.

— Se você achar que vamos perder — dissera Lucas Cartwright a Duparquet logo que ele chegara lá minutos atrás: — solicite um recesso antes do voto. Pode ser que eu tenha um trunfo contra Curtice. Detestaria tê-lo de usar, mas o farei se for absolutamente necessário.

Sob certo sentido, o juiz de apelação estava presente: o Vice-Presidente, que presidiria à reunião e indubitavelmente diria muito pouco após declarar a sessão aberta, e seria a segunda linha de defesa de Duparquet. Da cadeira do Secretário de Estado, o Procurador-Geral olhou para o lugar de Nichols à mesa: talvez ele pudesse ser manejado pela argumentação. O Procurador-Geral teria de apresentar sua defesa de forma que — se perdesse Curtice e o Gabinete — ainda pudesse vencer, com o veto do Vice-Presidente. Não seria fácil: Curtice se ressentiria da certeza e da firmeza à qual Nichols reagiria favoravelmente.

O Procurador-Geral saiu da Sala do Gabinete, através do escritório anexo ao Salão Oval, onde Ericson estava sentado, com uma xícara de café na mão, conversando com Hennessy. Nos velhos tempos, em que os companheiros políticos eram Procuradores-Gerais, Hennessy provavelmente teria o cargo de Duparquet.

— Eis que adentra o gramado o astro da peleja — disse Hennessy a Ericson — para receber instruções finais do seu treinador, antes do grande jogo. Chute e reze para fazer gol, é o que digo.

O Presidente não estava com boa aparência. Evidentemente, passara mal a noite: uma expressão soturna lhe enchia o rosto, e ele massageava as juntas das enormes mãos. Duparquet ficou satisfeito de não precisar usá-lo como testemunha. Ericson perguntou ansioso:

— Leu os jornais, Procurador? Os artigos são nojentos. E o noticiário da TV hoje de manhã!. Parece que está todo mundo excitado, como se fosse assistir a um enforcamento.

— Vamos vencer — disse o Procurador-Geral convictamente, embora não tão resolutamente quanto o afirmava. — Aposto meu cargo.

Hennessy riu desdenhosamente:

— Você já o apostou. Se você vencer, a próxima vaga do Supremo Tribunal será sua; se perder, Bannerman o fará embaixador em algum país onde cozinham embaixadores em grandes panelas.

— Não tinha percebido que havia tanta coisa em jogo — disse Duparquet. — Julguei que isso só ocorresse com a presidência.

Ele não gostou da forma pela qual Ericson estava reagindo, e sabia que Hennessy tampouco estava gostando.

— Sr. Presidente — disse formalmente o Procurador-Geral em pé junto à mesa do Presidente, e pensando nas fofocas que Hennessy faria, ou nas memórias que o Presidente escreveria — o Gabinete está prestes a se reunir para discutir se declara sua incapacidade para exercer os poderes e os deveres de seu cargo. Minha opinião, baseada em observações pessoais do senhor nos últimos dias, é de que essa acção, se tomada pelo Gabinete e pelo Vice-Presidente, seria a primeira usurpação do poder presidencial na história de nossa nação. Pretendo resistir a ela com todas as forças de que disponho. Existe algo que o senhor gostaria que eu soubesse, além do que já me disse, antes que eu entre na reunião?

— Não deixe Curtice escapar-nos — disse Ericson — e lembre-se de que Bannerman fez um bocado de pressão sobre Reed. Talvez Preston não tenha gostado disso.

Indicações táticas não eram o tipo de conselhos históricos que Duparquet tinha em mente. Ele deu de ombros e preparou-se para partir.

— A vitória vale o campeonato — disse Hennessy.

— Procurador! — chamou Ericson.

Ele parou à porta.

Você não está agindo no interesse de um Presidente hoje de manhã. Você estará servindo a todos os Presidentes que me sucederem, e um deles será outro Lincoln, e estará exposto aos ataques mais selvagens. Pense nele.

— Pensarei, Sr. Presidente. E esse foi um pensamento digno de um Presidente.

Faltavam cinco para as dez, e todos os membros do Gabinete estavam na sala. O Vice-Presidente, segundo o protocolo, chegou sentou-se; Duparquet e os demais sentaram-se em seguida.

— Antes de começarmos — disse o Vice Presidente Nichols, sem se dirigir a ninguém especialmente — gostaria de saber se o Gabinete julga que esta reunião deva ser gravada, taquigrafada ou registrada de alguma outra maneira.

— Eu não faço objeção — declarou o Procurador-Geral — a que todos os procedimentos sejam gravados pela Agência de Comunicações da Casa Branca. Certamente há interesse público no que será dito aqui nesta ocasião, e um registro completo poderia mais tarde eliminar quaisquer mal-entendidos.

— Esta é uma reunião do Gabinete — interveio Bannerman — e reuniões do Gabinete nunca são gravadas. Recebemos uma página de acta e nada mais.

O Vice-Presidente olhou em volta, em busca de outros comentários. O Secretário Fong opinou:

— Acho que devemos conduzir esta reunião do Gabinete da mesma forma que as demais. Poderemos todos falar mais livremente se soubermos que nossas palavras não estão sendo anotadas.

Não sou contrário a isso, tampouco — disse o Procurador-Geral, mostrando-se disposto a concordar. — Não existe nenhuma exigência legal para esse tipo de registro. Como não há nenhum funcionário do quadro presente, Sr. Vice-Presidente, o senhor talvez queira designar a tarefa de anotar a ata a um membro do Gabinete.

— Andy, você faria isso para nós?

O Vice-Presidente escolheu o Secretário de Recursos Humanos, Angelo Frangipani, que aquiesceu com a cabeça. O Vice-Presidente pigarreou e disse:

— São agora 10:05 da manhã de segunda-feira, 17 de junho, e o Gabinete está em sessão. A reunião foi convocada por solicitação do Secretário Fong, com o objetivo de discutir a possível incapacidade do Presidente de exercer seus poderes e deveres.

Nichols sentou-se mais à frente da cadeira em concentração; era a imagem de um homem sendo especialmente cuidadoso e imparcial.

— Esta é uma triste ocasião, que causou a necessidade desta reunião. À luz da seriedade de nossa reunião, gostaria de voltar à tradição da Administração de Eisenhower, e começar a reunião do Gabinete pedindo a todos vocês que se unam a mim num momento de oração silenciosa.

Duparquet achou que fora uma boa jogada essa, irrepreensível. Nichols não poderia dizer bobagens durante uma oração silenciosa.

— Estou sendo informado — disse o Vice-Presidente, quebrando o silêncio — neste excelente memorando legal preparado pelo Assistente do Procurador-Geral, que, para os fins desta reunião, o Vice-Presidente não é membro do Gabinete. A Vigésima Quinta Emenda diz que eu participo “com” os principais funcionários dos departamentos executivos nesta reunião, e suponho que tenha o poder de vetar qualquer acção que, os senhores resolverem tomar. Sr. Procurador-Geral, estou certo na minha suposição da lei?

O Procurador-Geral sabia que sua posição não era bem correta, mas ele o emendaria sem dar a perceber:

— Está, Senhor Vice-Presidente. Se a maioria dos votos do Gabinete declarar a incapacidade do Presidente, e resolver também investi-lo dos poderes e deveres daquele cargo, o senhor tem o poder de vetar essa acção. Acrescento que não existe orientação precisa na Constituição quanto a quem preside a esta reunião, embora minha opinião é de que a intenção dos autores da emenda era de que ela fosse presidida pelo Vice-Presidente. Sugiro que seja registrado que o Gabinete o eleja presidente da reunião.

Bannerman apresentou a moção, secundada por Frangipani, e todos votaram favoravelmente. O Vice-Presidente disse:

— Pretendo falar muito pouco nesta reunião. Secretário Fong, já que a reunião foi convocada por solicitação sua, passo-lhe a palavra.

— Permitam-me principiar — disse solenemente Fong, lendo anotações — com a pergunta feita na Convenção Constitucional de 27 de agosto de 1787 por John Dickenson, do Estado de Delaware, acerca do assunto que vamos debater hoje. O Sr. Dickenson leu a cláusula sobre a ascensão ao poder do Vice-Presidente, motivada pela “morte, renúncia ou incapacidade” do Presidente de agir como tal “até que cesse a incapacidade”, e depois perguntou: “Qual a extensão do termo ‘incapacidade’ e quem deve julgá-lo?”

“Advirto que a primeira parte da pergunta jamais foi respondida. Não estamos comprometidos moralmente com nenhuma definição, constitucional ou histórica, das palavras ‘incapacidade’ e ‘impossibilidade’, Todas as tentativas de defini-las especificamente, o que hoje nos deixaria de mãos amarradas, foram rejeitadas pelos autores da Constituição e da Vigésima Quinta Emenda.

“A segunda parte da pergunta do Sr, Dickenson — ‘Quem deve julgar a extensão do termo ‘incapacidade’? — foi claramente definida na emenda. A esta altura, o Gabinete é o único juiz disso. É nossa responsabilidade solene, e apenas nossa, assegurar que a presidência seja sempre ocupada por uma pessoa capaz de cumprir suas funções, Não podemos fugir a essa responsabilidade, As considerações de amizade, gratidão e sentimentos devem ser rejeitadas, de forma a que a única consideração seja a do nosso dever.

“Portanto — disse Fong, evidenciando seu primeiro ponto — não existe definição de ‘incapacidade’ para nos orientar, e somos os juízes exclusivos, neste momento, sobre se o Presidente está ou não em condições de desempenhar seus deveres, Sr. Procurador-Geral, na sua condição- de principal autoridade jurídica da nação, e não como patrono do Presidente atual, concorda com essa interpretação da Constituição?

— Prossiga com sua argumentação, Mike — disse Duparquet, com voz tranquila. — Mais tarde eu a dissecarei. Você está indo muito- bem.

Ele não estava a fim de se envolver numa argumentação legal pormenorizada com o grupo Bannerman a esta altura. Sabia que era mais difícil fundamentar um caso sozinho, por isso os deixaria sós. Tampouco adotaria a atitude formal de tribunais, nem a rigidez de um interrogatório. O assunto precisava ser tratado como se um grupo de amigos estivesse reunido para conversar sobre a derrubada do Presidente.

— Como o Procurador-Geral prefere manter seu parecer legal para si mesmo disse Bannerman, interrompendo a argumentação de Fong — gostaria de dizer que a Vigésima Quinta Emenda não poderia ser mais clara do que é neste ponto: temos um dever a cumprir, embora doloroso. Como todos sabem, lutei contra a nomeação de Ericson. Sabem também que lutei ao lado dele na campanha. Considero-o um amigo, e se o destino não houvesse decidido em contrário, ele poderia ter sido um ótimo Presidente, Acontece que houve a emboscada, a tragédia o atingiu, e ele agora está incapacitado para tomar a decisão que deve tomar no interesse do país. Temos de tomar essa decisão por ele.

— E se estivermos errados? — perguntou Frangipani. — Esse é um passo gigantesco a se tomar: retirar a presidência de um homem eleito pelo povo, e dá-la a outra pessoa. Especialmente quando ele insiste que é capaz de exercê-la.

Duparquet desejou que Frangipani se calasse, mas nada disse.

— Se estivermos errados — interrompeu Fong, bem preparado para a questão — a emenda possibilita ao Congresso corrigir o erro. Se apenas um terço do Congresso resolver que o Presidente não está incapacitado, ele recebe a presidência de volta, e tudo bem. Se estivermos certos, porém, e o Presidente não tiver mesmo condições, e deixarmos de cumprir nosso dever, então não haverá ninguém para tomar a decisão acertada. Se falharmos aqui, agora, privaremos o Congresso da oportunidade de dar a esse urgente assunto a consideração que ele merece.

“Um a zero para eles”, pensou o Procurador-Geral, embora esse ponto talvez fosse mais bem empregado no fim.

— Além disso, Andy — acrescentou Bannerman, falando para Frangipani, mas dirigindo-se a Curtice e Nichols — não o estamos “retirando” do cargo. Estamos providenciando para que outro homem eleito pelo povo como seu companheiro de chapa assuma o poder até Ericson estar bem para voltar. Existe um procedimento pelo qual ele poderá declarar que recuperou suas condições, e se o Vice-Presidente concordar, ele receberá o cargo de volta sem maiores complicações. Se o Vice-Presidente não concordar, ele pode voltar ao Congresso, e se um terço, apenas um terço, concordar com Ericson, ele recebe a presidência de volta. A presunção de que ele não está incapacitado é sempre do lado do Presidente. Se sua visão melhorar, e se sua... bem, se sua cabeça se desanuviar, e ele puder trabalhar sem aqueles incríveis erros... será nosso dever anunciar isso publicamente, e ajudá-lo a recuperar o cargo.

“Um a um para nós”, pensou o Procurador-Geral. Ele usaria esse ponto em relação ao Secretário de Defesa, que pareciam pouco à vontade. Provavelmente meditava sobre os desafios congressionais e o perigo de que o cargo de presidente ficasse meio confuso por prolongado período.

— Vamos ao ponto básico do assunto — disse Fong. — O Presidente está ou não incapacitado? Para ajudar-nos a decidir, reporto-me à página 309 da História Legislativa, depois do trecho que diz que nós, o Gabinete, somos o órgão mais capacitado para resolver. “Supõe-se”, diz o trecho, “que tal decisão só será tomada após convenientes consultas com renomados médicos”.

Gostaria de propor uma moção, Sr. Presidente. Devido a essa orientação específica dos autores da emenda...

— Mike, por que você não espera um pouco antes de propor a moção? — sugeriu George Curtice. — Vamos conversar um pouco sobre o que você tem em mente. Talvez não seja necessário votarmos.

— Boa ideia — disse Bannerman.

— Está bem, o ponto é o seguinte — concordou Fong. — As únicas opiniões médicas a que atualmente temos acesso, ou que têm acesso ao Presidente, estão nas mãos de três homens. Um é um oftalmologista de terceira classe do hospital naval local. O segundo é o médico pessoal do Presidente, que é um grande sujeito e um velho amigo, mas que todos sabemos tem o cargo porque é chapinha do Presidente, não porque seja bom médico. E o terceiro é um “psicólogo”. Sabe-se lá o que significa isso mas não significa que ele seja um psiquiatra com um M. D. [nota: Doutor em Medicina.] após o nome, e ele foi contratado para ensinar o Presidente como usar urna longa bengala branca, coisas assim. Ora, esse grupo não é lá grande coisa, principalmente para o Presidente dos Estados Unidos. Se devemos resolver sobre sua capacidade para funcionar, precisamos dos melhores pareceres dos médicos mais renomados do país, nas áreas física e mental, segundo prevê o relatório legislativo que acabei de ler.

— Qual é a sua ideia? — perguntou Curtice.

— Fazer com que o Presidente seja examinado hoje, agora, por uma junta de grandes médicos, que o Secretário Bannerman e eu providenciamos para que estivessem em Washington e disponíveis. São homens do maior renome, e credenciais inatacáveis. Não tomarão a decisão por nós, mas podemos, pelo menos, resolver com fundamento, desde que o Presidente consinta ser examinado por eles. Se ele não permitir — Fong levantou as mãos — estará praticamente reconhecendo sua incapacidade.

O Procurador-Geral balançou a cabeça de pasmo, e continuou a balançá-la até que todos os olhos se concentraram nele.

— O Presidente está cego — disse calmamente. — Afirmo que está totalmente cego. Não consegue enxergar. Ele pode, evidentemente, distinguir a diferença entre claro e escuro, todos vimos que isso foi dramaticamente provado, e é possível que haja outras melhoras. Acontece que ninguém está sugerindo que ele não esteja totalmente cego, segundo qualquer definição legal do termo. Permitam-me constatar se os compreendi perfeitamente, Mike. Você propõe recorrer a vários dos maiores oftalmologistas do país para repetir-nos que o Presidente está cego? Já o sabemos, Mike. Você acha que este Gabinete vai ter mais certeza desse facto se um desfile de médicos entrar aqui e for repetindo, um após o outro: “Poxa, como ele está cego!” “Ele está realmente cego!” Isso é para nos apavorar?

— O senhor não compreende. Sr. Procurador-Geral — disse Bannerman. — Alguns dos assessores íntimos do Presidente, que querem subir ao poder a qualquer preço, têm estado espalhando para a imprensa, e têm até conseguido o apoio do Presidente, que a visão de Ericson está melhorando. Isso cria falsas esperanças. Essa falsidade precisa ser destruída, e sua relutância em submeter seu cliente ao exame médico desses técnicos demonstra como é falsa e ilusória.

— Em primeiro lugar, Sr. Secretário — replicou Duparquet — talvez eu seja antiquado, mas acharia de bom-tom que aqui na Sala do Gabinete da Casa Branca, nós nos referíssimos ao Presidente dos Estados Unidos como “o Presidente”, e não como “Ericson”.

— Retifico o que disse — admitiu imediatamente Bannerman.

— Em segundo lugar, considero ofensa pessoal o senhor citar o Presidente como meu “cliente” neste caso. Isso denota certa incompreensão dos papéis constitucionais. Estou aqui como membro do Gabinete, do Gabinete de Ericson, se assim deseja, e estou no meu direito próprio, e não como defensor de outra pessoa. Como o senhor, tenho um voto. Não faço segredo de minha posição, mas me ofendo profundamente com sua contestação de meus motivos, ao dizer que ajo não como membro do Gabinete mas como um advogado de um “cliente”.

— Deixe disso, Procurador — interrompeu Fong — saia de sua torre de marfim..

— Em terceiro lugar — continuou Duparquet — o senhor pode trazer aqui todos os oftalmologistas do país e fazer com que eles jurem que o Presidente está tão cego quanto um morcego, e eu lhes farei uma pergunta, e apenas uma: “Doutor, o senhor arriscaria sua reputação profissional quanto à impossibilidade de os olhos desse paciente melhorarem nos meses e anos que virão?” Se o senhor desejar que o interrogatório se estenda, eu perguntarei: “Doutor, a quatro semanas depois de um acidente, qual o grau de certeza que o senhor pode ter de que uma pessoa cega não melhorará sua visão? Dez por cento? Quarenta por cento? Sessenta por cento?” E o senhor quer que despojemos do cargo um Presidente, baseado nesse tipo de obscura possibilidade?

— Ele tem razão, Roy — interveio o Secretário de Defesa Reed. — Ele já afirmou que o Presidente está cego, total e legalmente cego. Acho que todos concordamos que a possibilidade que ele melhore é questão de adivinhação. Estamos pensando em hoje. Ele hoje está cego. Se voltar a ver amanhã, existe um recurso na Constituição, e ele poderá recuperar a presidência. Não estamos, na verdade, discordando sobre oftalmologistas. Vamos prosseguir.

— Quando à saúde geral do Presidente — continuou o Procurador-Geral, sem esperar nenhum rebate à sugestão de Reed — Mike sugeriu que o médico pessoal do Presidente é incompetente.

— Eu não disse isso...

— Mas o sugeriu, todos nós o ouvimos e entendemos.

— Sugeri que existem muitos outros médicos mais competentes.

— Claro — disse o Procurador-Geral. — Mike, estou certo de que foi sem querer, mas você realmente nos pregou uma peça. Lembra-se de sua citação da História Legislativa? Sugiro que a releia e, desta vez, termine a frase, não a interrompa.

Fong estava indeciso.

— O que li foi o que está aqui. Não trouxe o documento original.

— Eu termino por você — disse Duparquet, que havia decorado a frase que ele tinha certeza seria relembrada na reunião. — “Tal decisão só será tomada após consultas adequadas com renomados médicos”, eis a parte que você não mencionou, “que tenham estado inteiramente familiarizados com as condições físicas e mentais do Presidente”.

O Procurador-Geral esperou para que a frase surtisse efeito.

O Grupo de Bannerman fora apanhado usando um truque fora do contexto, e isso tinha de preocupar Curtice, que era o juiz. Em seguida, o Procurador acrescentou:

— Evidente que esse final altera o significado. Não estamos falando dos maiores peritos mundiais em medicina, estamos falando do médico que mais conhece a saúde do Presidente. “Inteiramente familiar”.

— Suponho que eles quisessem dizer “intimamente familiarizados” — disse o Vice-Presidente, e depois fez uma expressão de quem desejava não haver dito nada.

— Você tem razão, Arnold — disse Frangipani. — Leia-se “intimamente” e não “inteiramente”. Estamos falando de um ser humano, não de uma máquina.

Duparquet ficou satisfeito com a mudança de disposição; de nada adiantaria ser duro quando o grupo queria algum alívio da tensão.

À guisa de conversa, ele disse:

— Sabem, existe um erro na Vigésima Quinta Emenda. O único erro tipográfico da Constituição. E diz respeito a nós.

Ele pegou um exemplar da emenda, que todos tinham à sua frente, junto com o memorando jurídico, e disse:

— Olhem a Secção 4, linha dois. Diz “os principais funcionários dos departamentos executivos”... plural, e representa o Gabinete. Depois olhem mais para baixo, para a quinta linha do parágrafo seguinte. Diz “os principais funcionários do departamento executivo”... no singular. Isso poderia significar o posto do Presidente. Obviamente, os autores queriam dizer o plural, mas depois que o texto foi ratificado pelos estados, eles não poderiam mudar o maldito erro, a não ser que tivessem de emendar novamente a Constituição.

— Eles passaram dez anos labutando para conseguir os melhores termos na redação dessa emenda — admirou-se Frangipani — e acabam com um erro tipográfico. Lembro-me da observação de um de meus predecessores em Nova York: “Quando cometo um engano, é daqueles de lascar!”

— Meu argumento sobre a saúde geral do Presidente — disse o P. G., retornando ao debate — é que o médico do Presidente é o único doutor que tratou dele no último ano. E tem estado constantemente com ele desde o mês passado. Sua familiaridade é, para usar aquela palavra, “inteira”. Submeto-lhes uma declaração assinada pelo Dr. Abelson, escrita hoje de manhã, após exame do Presidente, e que atesta a boa saúde geral do seu paciente.

Duparquet apresentou um monte de papéis, que Bannerman encarou soturnamente.

— Para seu exame de hoje, o Dr. Abelson recorreu ao Hospital Naval de Bethesda, e a um especialista em contagem de glóbulos do Johns Hopkins Hospital. Todos os factos e números estão aqui, elaborados por seis dos homens mais qualificados em seus respectivos campos. Mike, se você tem alguém que vai reptar este relatório sobre o estado geral de saúde do Presidente, você será o responsável pela primeira discordância pública entre médicos na história da Associação Médica Americana.

— O preclaro advogado está torcendo meu pensamento — disse Fong. — Não são a pressão sanguínea nem a pulsação do Presidente que estão em debate. É possível que sua saúde em geral seja bastante boa, excetuando o facto de que ele está totalmente cego. É sua saúde mental, o trauma resultante do choque da nova cegueira, que o torna incapacitado. É disso que quero falar, Procurador, não da maldita temperatura dele.

— E que sugere para determinar a incapacidade mental do Presidente?

— Temos uma junta de psiquiatras. Eles estão de plantão, na sala de espera da Ala Oeste.

Duparquet levantou-se da cadeira e apoiou-se com as juntas dos dedos na mesa do Gabinete.

— O senhor submeteria o Presidente dos Estados Unidos a um exame por uma junta de psiquiatras, para determinar se ele está em condições de exercer o cargo?

Isso mesmo! — Fong praticamente gritou.

— Cavalheiros — ponderou Bannerman, a lógica personificada. — Dirijo sua atenção para o retrato que ocupa o lugar de honra nesta sala. Em 1919 Woodrow Wilson sofreu sério derrame. Foi cercado por seus assessores da Casa Branca e por sua mulher, que determinavam o que ele poderia apreciar e o que não poderia. As decisões sobre a Liga das Nações estavam pressionando o país, e cerca de vinte e oito textos urgentes legislativos tornaram-se lei sem que ele os assinasse. Pelo que sabemos, a Sra. Wilson era o Presidente Interino. As acções do Presidente Wilson eram, à luz do conhecimento psiquiátrico atual, obviamente paranóicas. Quando seu Secretário de Estado, Sr. Lansing, sugeriu seu afastamento, o chefe da Casa Civil na época, Joseph Tumulty, o censurou e providenciou que o Secretário Lansing fosse rapidamente exonerado.

Bannerman desviou o olhar do retrato para o Secretário Curtice:

— O senhor ocupa a cadeira de um homem de grande valor e coragem. Tenho isto a dizer-lhes, cavalheiros: se o Gabinete de Wilson tivesse o poder que agora temos, o Presidente Wilson teria sido examinado por competentes psiquiatras e teria sido forçado a renunciar. Não pode haver nenhum mal nesse exame psiquiátrico, só pode haver bem.

— Nenhum mal? — perguntou Duparquet. — Que acontecerá à sua capacidade para governar, se ele tiver de ser julgado por um supremo tribunal de “dissecadores de cérebros”? Forçar um Presidente a ter sua cabeça examinada: isso seria desprestigiar o cargo e o homem. E quem somos nós, para ceder nossa decisão em favor de um punhado de psiquiatras? Será que já não é bastante para ele estar cego? Teremos também de implantar a sugestão na mente do povo de que ele também está maluco?

Duparquet sabia que não estava conseguindo nada: o sarcasmo funcionava com um júri, raramente com um juiz. Mas também sabia, assim como Bannerman devia saber, que o orgulho de Ericson jamais permitiria que ele se submetesse a uma avaliação psiquiátrica pública, especialmente quando este relatório contivesse linguagem que o leigo poderia achar alarmante. O Procurador-Geral não tinha nenhuma decisão a tomar: Ericson deixara claro que não lançaria o precedente de exames psiquiátricos de presidentes que não estivessem realmente malucos, por isso tentou reduzir o impacto da recusa junto a Curtice. Tinha de provar que a recusa categórica de Ericson era razoável. Subitamente, perguntou a Fong:

— Quem é o maior psiquiatra que está aí?

— O Dr. Paul Whitney, presidente da Associação Psiquiátrica Americana, seria considerado uma escolha lógica para liderar a junta.

— Traga-o aqui — disse o Procurador-Geral. — Vamos falar com ele.

Bannerman pareceu alarmado, o que Duparquet notou com satisfação. A estratégia deles era mandar os médicos embora sem que fossem consultados, e apresentar esse facto como evidência de que um Presidente instável não toleraria nenhum exame. Bannerman não havia avaliado o que um experiente advogado criminal podia causar à credibilidade de qualquer psiquiatra.

O Dr. Whitney entrou, e sentou-se na extremidade da mesa. O Vice-Presidente fez com que jurasse sigilo e lhe agradeceu pelo patriotismo em vir. Nichols olhou então para Duparquet, que disse a Mike Fong:

— Ele é todo seu. Deseja que ele faça uma declaração, ou o quê?

Fong olhou indeciso para Bannerman, que disse:

— Dr. Whitney, poderia dizer ao Gabinete o que seria necessário, em termos de tempo, para nos dar um relatório acerca da saúde mental do Presidente?

— Supondo que tempo seja a essência — respondeu o psiquiatra, com as mãos calmamente cruzadas à sua frente — dois dias de testes e entrevistas. Mais um para consultas, e para redigir o relatório. Acredito que o tempo seria o mesmo que para um testemunho urgente de um perito num julgamento em tribunal.

O Secretário de Estado Curtice virou-se para o Secretário de Defesa Reed, sentado ao seu lado, em frente à cadeira vazia do Presidente:

— Se isso ficasse conhecido, o que significaria para uma possibilidade de intimidação?

Reed deu-lhe um breve sorriso.

— Se uma potência hostil julgasse que nosso Presidente estava maluco, nossa intimidação seria ainda mais forte. Sanidade, a preocupação humana com vidas, enfraquece uma intimidação: um homem são é menos inclinado a lançar um ataque retaliatório na devida ocasião.

— Então um exame não o perturbaria?

— Não.

Bannerman interveio:

— Apenas daquilo que o senhor pôde observar pela televisão, doutor, e de sua própria experiência com pacientes que sofreram um choque como a perda da visão, qual seria, na sua opinião, o efeito da emboscada de Yalta no tocante às faculdades do Presidente?

O resto do Gabinete não olhou para o médico e sim para Duparquet, para ver se ele seria contrário a essa pergunta, o que não ocorreu.

— Jamais tentaria fazer um julgamento individual de longe — respondeu o médico. — Falando geralmente, e não sobre o Presidente Ericson, eu diria que um choque traumático como o súbito advento de uma cegueira, teria um efeito prejudicial mensurável na capacidade da pessoa mediana para... bem, tomar decisões.

— Que diria o senhor doutor, posso, Roy? — Duparquet interveio suavemente, como se estivesse ajudando o exame. — Se uma pessoa ficasse subitamente cega, fisicamente abalada e inconsciente, escapasse de uma sangrenta tentativa de assassinato na qual um homem morreu em cima dela e, depois disso tudo, esse homem não sofresse quaisquer perturbações mentais?

O psiquiatra foi cuidadoso.

— Não seria uma reação normal.

— Vou dizê-lo de outra forma. Se uma pessoa saísse disso tudo completamente calma, absolutamente em comando de todas as suas faculdades, a própria essência da moderação, o senhor diria que seria anormal?

— Se o senhor compreende “anormal” como querendo significar não a reação da pessoa comum, eu diria que sim.

— Em outras palavras — resumiu o Procurador — a pessoa teria de estar maluca para não ficar perturbada, muito perturbada.

— Eu jamais usaria um termo tão impreciso quanto “maluca”, senhor. Mas compreendo seu ponto de vista, e foi bem apresentado. Gostaria de...

— Dr. Whitney, prosseguindo — Duparquet não queria que a testemunha do “outro lado” fizesse uma declaração — gostaria de explorar com o senhor a terminologia usada nos relatórios psiquiátricos. Esqueçamos os indivíduos, falemos geralmente. É possível uma pessoa ter tendências maníaco-depressivas, ou tendências esquizofrênicas, sem ser psicótica?

— Evidente! Esses termos, quando usados, por leigos, são assustadores, mas quando usados com alguma precisão por módicos, são necessários para se compreender a estrutura mental do paciente.

Duparquet assentiu com a cabeça, como se estivesse do lado do médico.

— Esses termos são frequentemente extraídos do contexto por leigos, não é verdade?

O psiquiatra concordou com a cabeça.

— Que me diz de palavras como “psicóptico” e “neuróptico”?

— Psicose é uma séria perturbação mental, uma fuga da realidade — respondeu o psiquiatra — e neurose é qualquer das várias perturbações funcionais sem nenhum visível efeito, tal como uma ansiedade inexplicada.

— Muita gente tem neuroses?

— A maioria das pessoas, de uma forma ou de outra, mas são controláveis.

— Isso quer dizer que se fizessem um relatório sobre mim, por exemplo, talvez, dissessem que tenho esta ou aquela tendência neurótica, que me inclino a depressões ocasionais, e a certas manifestações esquizóides relativamente brandas.

— Percebo aonde quer chegar, Sr. Procurador-Geral — começou o psiquiatra, mas Duparquet o forçou a voltar à pergunta específica:

— Por favor, senhor, permita que o Gabinete decida aonde quero chegar. O senhor se limite a ser nossa testemunha técnica e a responder àquela pergunta específica.

— Os termos que indicam padrões normais de conduta aos médicos costumam ser assustadores para os leigos. Contudo...

— Obrigado, doutor.

Deixe-o terminar, pelo amor de Deus! — interveio Bannerman. — Continue, doutor, o senhor não está depondo.

— Eu queria enfatizar que, numa situação delicada como esta, os médicos evidentemente evitariam utilizar qualquer terminologia que pudesse ser mal compreendida pelo povo em geral.

— É claro — disse o P. G. — E se um repórter de televisão enfiar um microfone na cara de um membro da junta e perguntar:

“O Presidente está ou não neuróptico?”, o médico responderá firmemente “Absolutamente não!”

— Bem — tergiversou o psiquiatra — o senhor não poderia esperar que ele dissesse que...

— Mudemos de assunto — interrompeu Duparquet. — Qual sua opinião sobre psicólogos? O senhor os poria na mesma classe que quiropratas, charlatães ou o quê?

— Os bons psicólogos costumam dar excelentes terapeutas. Não são médicos, como os psiquiatras são, e às vezes alguns deles, sem nenhuma qualificação, chamam-se de psicólogos; e esses podem causar muito mal.

— O senhor diria que alguém com um grau de doutorado em psicologia pela Faculdade de Medicina de Harvard, membro da diretoria da Associação Psicóloga Americana, e cujos artigos sobre dificuldades psicológicas específicas dos cegos têm aparecido no Journal of the American Medical Association, é “qualificado”?

O psiquiatra assentiu com a cabeça.

— O Dr. Henry Fowler é um dos mais brilhantes psicólogos do país, e o Presidente Ericson tem sorte em contar com seus serviços. Ele não é, porém, um psiquiatra.

O P. G. achou que já era hora de dispensar o testemunho do médico.

— Algum outro membro do Gabinete tem perguntas? Então quero agradecer-lhe muitíssimo por sua colaboração, doutor.

E então lisonjeou quase imperceptivelmente o médico:

— Quando eu estudava em Tallahassee, admirava muito seu trabalho sobre as crises de identidade, Dr. Whitney. E sei que meu colega tem orgulho pelo facto de que esse estudo tenha sido financiado pela Fundação Bannerman.

— Muito amável em lembrar-se — disse encantado o psiquiatra, evidentemente satisfeito que seu apoio anterior não fosse secreto. — Sempre quis agradecer-lhe, Secretário Bannerman, pela grande assistência que sua família tem dado a muitos de nós nesse campo.

— O prazer foi todo nosso — disse Bannerman secamente.

Depois da saída do psiquiatra, Fong disse:

— Você ainda é capaz de confundir o depoimento de uma testemunha, Procurador, tenho de reconhecer isso. Mas está cansado de saber que o Presidente Ericson é um homem doente, doente da cabeça e cego, ou não estaria agarrado ao poder, contra toda a lógica. E você sabe que um exame psiquiátrico profundo provaria isso, e por isso ele se recusa a submeter-se.

Duparquet recordou-se de que Curtice era o alvo, não o resto da sala, nem os registros, nem a “história”. Como dizia um célebre Secretário de Estado: “Mostre-me um bom perdedor e eu lhe mostro um perdedor”. Se ele perdesse Curtice, perderia a Presidência de Ericson, por isso não podia deixar de marcar todos os pontos.

— Acontece que você está errado, Mike — disse o P. G. — e ainda bem que o seu homem elogiou as credenciais de Henry Fowler. Eis aqui uma declaração do Dr. Fowler, repito que datada de hoje, e que contém uma análise das condições mentais do Presidente. É muito franca e completa, e altamente confidencial. Afirma, sem sombra de dúvida, que o Presidente está de posse de suas faculdades, e que se está adaptando satisfatoriamente a um dos traumas mais arrasadores que uma pessoa pode sofrer.

Os homens na sala fizeram uma pausa para ler a declaração de Fowler, que não era tão inequívoca como a classificara Duparquet, e ele rapidamente prosseguiu:

— Além disso, acabamos de desembaraçar-nos de nosso dever nesta reunião, ou seja, o de buscar e estudar opinião médica qualificada de médicos “inteiramente familiarizados” com o Presidente. Sabemos que ele não está mentalmente enfermo. Sabemos que não está fisicamente doente. E sabemos que ele é cego. A única pergunta que devemos responder é: É impossível a um homem cego exercer os poderes e os deveres da presidência?

— Não aceito isso — disse Bannerman. — Você está restringindo demais a pergunta. Ericson, o Presidente Ericson, está confuso e apavorado. Está indeciso, e certamente já não é o mesmo homem. A cegueira não é algo com o qual ele tenha aprendido a conviver. Talvez um homem nascido cego, e que portanto soubesse enfrentar o problema, pudesse concorrer à Presidência, ser eleito e ser capaz de trabalhar. Mas estamos falando de uma cegueira repentina, total e chocante, e o homem está literalmente cambaleante. Não pode fazer seu trabalho adequadamente.

O Procurador-Geral vislumbrou uma brecha.

— Será que o compreendi dizer que um homem nascido cego poderia ser um Presidente eficaz?

— Não torça minhas palavras, Procurador. Estamos discutindo um ponto sutil, e você não está representando para a platéia.

— Perdoe minha falta de sutileza, mas se a cegueira não é uma causa ipso facto para uma declaração de incapacidade, você não tem nada em que se apoiar.

Duparquet reconheceu que essa metáfora fora meio confusa, mas talvez fosse uma abertura.

— Meu ponto é o seguinte — disse lentamente Bannerman. — Não estamos apenas falando de cegueira, estamos falando da incapacidade de conseguir sobrepujá-la. Hank Fowler é cego, mas conseguiu conquistá-la. Levou anos, talvez a maior parte da vida. Um Presidente subitamente cego não tem tempo. Ele precisa enfrentar o facto agora, esta tarde. E você sabe que Ericson não pode.

— Fowler não nasceu cego — disse Duparquet — só ficou cego há alguns anos. Você diria que ele pode ser Presidente?

— Droga! — explodiu Bannerman, batendo a palma da mão na mesa, como Duparquet esperava que fizesse. O Secretário do Tesouro, porém, rapidamente dominou a raiva:

— Procurador, o pior cego é o que não quer ver, conforme diz o ditado. Você se recusa a ver a diferença entre o facto de o povo americano eleger um homem cego, e o de ter um cego subitamente imposto. Essa faz toda a diferença do mundo.

— Calma, Procurador — disse Preston Reed. — Se um cego concorresse à Presidência e fosse eleito, não haveria debate quanto à incapacidade. Teria sido uma decisão do povo. Essa súbita investida da cegueira é uma situação completamente diferente: o povo não elegeu um cego.

— Não é como se Ericson usasse óculos de lentes duplas — acrescentou Bannerman — ou que tivesse um passado de problemas nos olhos. Se fosse esse o caso, e o povo soubesse o risco e o elegesse de qualquer forma, então você poderia dizer que o povo sabia o que estava fazendo, e que um cego conviria.

— Ericson não tinha esse passado — afirmou Duparquet. — Nunca na vida teve um minuto de problemas com os olhos. Isso lhe aconteceu no desempenho do dever. Empecilhos acidentais são um risco que assumimos na eleição de qualquer homem.

Ele se arrependeu de haver entrado nessa área, e gostou quando Frangipani o socorreu, com uma irrelevância.

— Não me importaria de que todos os candidatos a presidente fossem submetidos a exames psiquiátricos — disse ele, totalmente fora de hora, mas demonstrando sensatez. — Isso proporcionaria ao Gabinete, numa ocasião como esta, algo em que se basear, para servir de cotejo.

— Isso teria impossibilitado Abraham Lincoln de ser Presidente? — interveio Duparquet.

— Então talvez não seja uma boa ideia — disse Frangipani, virando uma moeda de dez centavos, e olhando para Fong:

— Mike, tente perceber como eu vejo o assunto. Você concorda que o Presidente não está biruta, que não está caindo aos pedaços nem em coma, e que a própria cegueira não é uma causa definitiva de remoção do cargo. Que argumentos lhe restam? Que ele derrubou uns copos? E daí? Que ele trocou o nome de Uganda? Eu faço isso sempre. Que ele ficou danado com um repórter atrevido? Grande coisa.

Ninguém interrompeu Frangipani.

— Eis o que eu acho — continuou ele. — Estamos todos pensando em nosso eleitorado. O P. G. está preocupado com o precedente legal, que facilitaria a usurpação futura da presidência. Curtice tem de pensar na nossa imagem perante o mundo. Eu... droga, tive de passar por uma fila de piquete instalada em frente ao edifício do Departamento de Recursos Naturais hoje de manhã. Era gente coxa, aleijada, cega, gente que dizia que se fizermos o Presidente sair, mataremos a oportunidade de uma vida decente para trinta milhões de pessoas deficientes físicas. Quero dizer isto: todos nós estamos considerando o assunto individualmente, todos estamos “certos”. Estamos convencidos de que sabemos o que devemos fazer, mesmo quando nos defrontamos em campos contrários. Eu digo que, quando a gente não sabe o que fazer, não deve fazer nada. Estamos bastante divididos quanto ao assunto, portanto, vamos deixar por isso mesmo, esperar que o Presidente melhore e, se ele não melhorar, tentaremos convencê-lo a se afastar voluntariamente. Se tudo der errado, daqui a um ou dois meses, nos encontramos novamente, se for preciso. É isso o que eu acho, e acredito que um bocado de gente neste país concorda comigo.

— Esta foi uma convincente explanação, Andy — disse o Secretário de Defesa. — Você tem razão ao dizer que encaramos esta terrível situação do nosso estreito ponto de vista. Julgo, porém, que só há uma coisa “certa” para nós fazermos como Gabinete. Deixe-me apresentar o problema segundo o enfoque da Defesa. Talvez vocês achem desprezível. Importam-se se eu andar?

Preston Reed levantou-se, foi até a cadeira vazia do Presidente, e inclinou-se contra o seu espaldar.

— Nossa mais importante responsabilidade é a sobrevivência dos Estados Unidos. Todos nós, o Presidente, o Gabinete, e mais tarde talvez o Congresso, precisamos nos lembrar sempre disso. Não há realmente tempos “seguros”, mas os cientistas nucleares têm um meio de avaliar a tensão internacional, usando os ponteiros de um relógio. Em certa época da década de sessenta, estávamos a “dois minutos para a meia-noite”. Depois, quando houve a aliança soviético-americana, o perigo retrocedeu. No final da década de setenta, o relógio dos cientistas indicou que estávamos a vinte e cinco minutos para a meia-noite. Este ano, o perigo cresceu de novo, como sabemos todos. O Segundo Mundo do Extremo-Oriente está fomentando problemas entre o Terceiro Mundo e o Quarto Mundo, crendo, talvez, que se possa travar uma guerra secundária, que atrairia o Primeiro Mundo e deixaria o Extremo-Oriente com as cartas.

“Voltamos, então, aos dois minutos para a meia-noite. A emboscada de Yalta poderia possivelmente ser o Saravejo desta geração. Achamos que sabemos a razão da emboscada de Yalta, e quem estava por trás dela, mas podemos estar enganados. Se estivermos, e o principal alvo fosse o líder soviético e não o Presidente americano, é possível que a aliança soviético-americano esteja sob grande tensão, e uma guerra talvez esteja iminente.

Curtice franziu o cenho. O Vice-Presidente engoliu em seco. Frangipani suspirou alto para Fong:

— Quem foi Sarajevo? — e não recebeu resposta. Bannerman permaneceu impassível e o P. G. o imitou.

— Nessa ocasião — continuou Reed a sobrevivência dos Estados Unidos seria enormemente ajudada pela aparência de estabilidade e continuidade, o potencial de sobrevivência seria muito prejudicado pela aparência da instabilidade e incerteza. Favor observar que digo “aparência de”. Nesta situação estamos tratando dos planos de outras potências e como parecemos aos olhos delas é ainda mais importante do que aquilo que realmente somos. Sei que é estranho dizer isso, mas é importante que percebamos o seu sentido. Sabemos que existe uma moralidade constitucional enraizada em todo americano, e que nos faz estáveis enquanto outras democracias desmoronam. Sabem isso, mas os outros não o sabem. Sentimos nossa estabilidade nos ossos, mas eles não podem sentir o que está nos nossos ossos.

— Se parecemos paralisados — Reed se aproximou do seu argumento é como se estivéssemos paralisados. Isso, em si mesmo, incentiva os elementos mais militantes da aliança do Extremo-Oriente, e talvez da União Soviética, a entrar em acção. Somos alvos abertos para um ataque nuclear. A crise se auto-alimenta.

“Alguns de vocês estão com aquela expressão — continuou Reed — que as pessoas adotam quando o Secretário da Defesa fala sobre o Armageddon. Não sou alarmista, mas, por favor, acreditem-me quando lhes digo que estou muitíssimo preocupado. E acho que, se não tomarmos uma atitude que acabe com esse impasse, que termine com a aparência de paralisia, estaremos fazendo um convite à catástrofe. E a catástrofe virá.

“Este é o meu pensamento. Se o Presidente é o patriota que julgo que seja, ele poderá ser persuadido a ir embora. Não a se afastar, sejamos realistas, mas a renunciar. Devemos enviar Você, o Procurador-Geral, como nosso mensageiro do Gabinete, dizer que a decisão desta reunião é que ele deveria servir melhor ao seu país através da renúncia. Claro que ele e Você estão pensando na estabilidade da presidência, o que é inteiramente digno de vocês dois. Vocês, porém, devem colocar a sobrevivência da nação acima disso. Faça-o, Procurador. É a Coisa certa a ser feita. Não nos force a depor o Presidente.

Eles têm três votos, pensou Duparquet, contra os nossos dois. Se Curtice resolvesse se abster, e conseguisse realmente não votar, eles teriam maioria.

Preston — replicou da cadeira — lembra-se daquela frase de antes da Guerra Civil, quando ele disse aos sulistas que eles não haviam prestado um juramento no céu para destruir a União, e que ele fizera esse juramento para preservá-la? O ónus de ter iniciado a guerra foi deles. O ónus de precipitar essa crise é sua, não nossa.

Foi a vez do Procurador-Geral levantar-se e andar pela sala.

— Roy Bannerman nos disse que Woodrow Wilson, talvez incapaz de exercer seus poderes, foi simplesmente isolado por seus assessores. Sven Ericson está isolado? Ele não está disponível para ver qualquer de vocês?

A palavra não era bem essa; ele se recuperou e voltou atrás:

— ... não está disponível para receber qualquer de vocês? O Presidente Garfield, quando foi ferido por um assassino, ficou em coma por oitenta dias enquanto seu Gabinete discutia se o Vice- Presidente Arthur deveria assumir o posto. Sven Ericson está em coma? Está, por acaso, inconsciente e moribundo?

Curtice, Curtice, Curtice, e ele também não devia esquecer o possível veto do Vice-Presidente.

— Somos um governo de leis e de homens. Os autores da Vigésima Quinta Emenda, que queriam certificar-se de que as ocasiões perigosas de Garfield e Wilson não voltassem a acontecer, supuseram que os membros dos futuros Gabinetes não seriam tratantes, e sim, homens sensatos. Não previram, talvez não pudessem, que não é necessário haver tratantes para que ocorra profundo desacordo entre eles. Não acuso ninguém aqui de tentar apossar-se do poder, embora, só Deus saiba, alegações de usurpações venham a ser ouvidas neste país de um lado a outro, se vocês derrubarem o Presidente.

“Preston, se seu principal argumento é que a nação não dê a impressão de estar paralisada, por que não nos unimos e afirmamos haver cumprido nosso dever, que achamos que o Presidente é capaz de desempenhar suas tarefas, e depois nos reunimos para apoiá-lo e instamos o país a seguir nosso exemplo? Isso resolveria o assunto, e removeria o perigo contra o qual o Secretário da Defesa tão sensatamente nos preveniu. Vocês não têm nenhum juramento para derrubar o Presidente, mas o Presidente prestou juramento de cumprir seu dever conforme julgar conveniente. Ao lutar às suas costas, vocês minam sua capacidade de governar.

— Esta conversa não está levando a nada disse Bannerman.

— Sr. Procurador-Geral, considero seu uso do termo “derrubar” especialmente ofensivo. Não sou um traidor, não estamos pensando em nenhuma traição. Secretário Fong, vamos dar prosseguimento ao assunto.

Fong pegou um pedaço de papel e leu: “Proponho que os principais funcionários dos departamentos executivos, agindo sob a autoridade que lhes é conferida pela Vigésima Quinta Emenda à Constituição dos Estados Unidos, declarem o presente ocupante do cargo de Presidente dos Estados Unidos incapaz de exercer os poderes e deveres do dito cargo, e que os poderes e deveres do cargo de Presidente sejam delegados ao Vice-Presidente, como Presidente Interino.

— Nunca houve momento mais lamentável nesta sala — disse Andy Frangipani.

— Mike — acrescentou o Procurador-Geral — você vai se arrepender dessas palavras pelo resto da vida.

Virou-se então para Bannerman:

— Pelo menos Mike Fong acredita no que diz. Você objetiva a subir bem alto, Bannerman, como sempre ocorreu. Deus ajude este país, se gente como você subir ao poder.

— Secundo a moção — foi a resposta de Bannerman, enquanto olhava firme para Duparquet.

— A moção foi proposta e secundada disse o Vice-Presidente, e acrescentou pouco convincentemente: — Algum debate?

O Secretário Curtice levantou o dedo:

— Uma questão de informação, Sr. Presidente. Antes que votemos, gostaria de saber se a lei exige que todos votemos, ou se a abstenção estaria de acordo com os regulamentos.

O Procurador-Geral esmoreceu mas, para não aparentá-lo, aprumou-se na cadeira. O Vice-Presidente o olhou e perguntou:

—- Poderia o ProcuradorGeral nos esclarecer a respeito?

— Ele deveria ser a última pessoa no mundo a nos esclarecer — disse rapidamente Bannerman. — Ele é, em primeiro, segundo lugar e sempre, o defensor do Presidente. Se ele nos fornecesse uma decisão, haveria um gritante conflito de interesses. A decisão deve partir do senhor, Vice-Presidente.

— É claro que a decisão partirá do Presidente da assembléia — disse o Procurador-Geral — mas ele tem o direito de pedir ao homem que o Senado confirmou como principal autoridade legal da nação uma interpretação da lei.

Duparquet pensou que seria melhor pedir um recesso. Que Cartwright aproveitasse a ocasião para fazer o que pudesse com Curtice, alegasse tudo o que possuísse contra o Secretário de Estado, para fazer com que ele votasse a favor do Presidente. Não deveria preocupar-se agora com que o tiro saísse pela Culatra: a persuasão não dera certo.

— Para dizer a verdade, uma informação dessa importância merece alguma pesquisa, e até consulta com o Assistente do Procurador-Geral. Em vinte minutos poderei obter uma resposta definitiva.

Concede-se um recesso de vinte minutos — disse o Vice-Presidente. — Solicito que todos permaneçam na área próxima à Sala do Gabinete e da Sala Roosevelt, do outro lado do vestíbulo, para que possamos voltar a nos reunir rapidamente.

O Procurador-Geral levantou-se junto com os demais, foi ao telefone instalado sob a mesa do Gabinete, no assento do Presidente, e ostensivamente pediu à telefonista que o ligasse com o Assistente do Procurador-Geral, o homem no Departamento de Justiça que tratava da maioria dos debates junto ao Supremo Tribunal.

— Charlie, surgiu o tema da abstenção. Procure na História Legislativa, no trecho que fala sobre depoimentos na Câmara, creio, e depois é repetido no relatório da comissão, e me telefone daqui a quinze minutos para a Sala do Gabinete.

Seu assistente começou a dizer-lhe que não precisava de quinze minutos, pois sabia a resposta, mas Duparquet falou em voz alta:

— Precisa ser em quinze minutos, Charlie — e desligou.

Foi até o saguão da Ala Oeste, viu Lucas Cartwright em pé defronte de sua sala no fim do corredor, e o seguiu à sua sala do canto.

— Curtice quer abster-se — informou. — Vou forçá-lo a votar, mas ele votará favoravelmente à saída do Presidente, a não ser que você tenha um meio de fazer com que volte atrás.

— Vou despejar uma tonelada de tijolos em cima dele — disse rápida e tristemente Cartwright — pois sua sensibilidade já não importa. Alguma sorte com Preston Reed?

— Ele está acabando conosco — disse Duparquet. — Para falar a verdade, chegou até a me apavorar.

— Isso é estranho. A Sra. Cartwright disse que a Sra. Reed comentou que ele estava furioso com a pressão contra Ericson, que estava recebendo de Wall Street.

— Isso talvez o tenha irritado, mas ele é um sacana de princípios. A aparência de estabilidade é tudo, e o voto dele se baseia apenas nisso.

Cartwright refletiu um instante, e sugeriu:

— Então contra-ataque com a instabilidade.

— Como?

— Se Ericson for derrubado, recorrerá ao Congresso para conseguir de volta a presidência. Serão vinte e um dias de discussões. Se ele perder, voltará de três em três semanas para declarar que está capacitado, e eles terão de discutir o assunto e votar todas as vezes. De cada oportunidade, serão vinte e um dias. Isso poderia simplesmente paralisar o país.

— Ele não faria isso.

— Como é que você pode ter certeza? E se você disser que essa é a intenção do Presidente, poderá Preston Reed ter certeza de que você está errado? Se você quiser uma prova dramática, peça-nos um esclarecimento: estaremos prontos.

— Vou tentar. Olhe, não sobra muito tempo. Ataque Curtice de todas as formas possíveis.

O Procurador-Geral desceu os degraus em direção ao Refeitório da Casa Branca, entrou no local onde estavam as máquinas de vendas de artigos diversos, e comprou uma rosquinha e uma caixa de leite. O leite era para a úlcera, e a rosquinha destinava-se a melhorar sua disposição. Sozinho, no balcão sem banquinhos, foi sugando o leite através do canudinho e avançando mentalmente desde o provável voto do Gabinete para derrubar o Presidente até o momento em que o Vice-Presidente Nichols teria de tomar sua decisão. Duparquet tencionava interceder nessa altura, com um apelo, em que lembraria Nichols da restrição demonstrada pelos Vice-Presidentes anteriores, e sugerir que a primeira utilização da Vigésima Quinta Emenda não deveria ser um tópico controvertido, e que o Presidente deveria agir voluntariamente ou, pelo menos, estar inconsciente e não se opor a ela. Se assim não fosse, a própria emenda poderia ser rechaçada, sob a alegação de que seria um convite a futuras usurpações. Talvez isso desse certo. Nichols poderia assustar-se à ameaça de ser considerado um usurpador, e de ser violentamente odiado pelos homens leais a Ericson. Duparquet avaliou rapidamente seus próprios sentimentos: naquele momento, parte dele era o advogado analítico, agindo segundo a estratégia do rato encurralado; parte era o lutador visceral, que solicitava auxílio a Cartwright com todo o tipo de pressão que pudesse ser usada; parte dele era o partidário, que odiava ser derrotado, e era leal ao homem que o pusera onde estava; parte era o estadista, que defendia o posto do presidente de uma captura iníqua, embora legal, e que desfrutava de todos os momentos de sua participação numa hora histórica; a última parte cabia ao observador, que estava avaliando tudo isso ao invés de estar lá em cima, caso alguma ligeira vantagem pudesse ser acrescida à sua causa com a sua presença. Deixou a rosquinha no balcão, inacabada, e voltou ao trabalho.

— Sirvamos a nosso país — foram as palavras iniciais do Procurador-Geral, após Nichols haver reaberto a sessão — e recusemos fazer história. A primeira vez em que a Vigésima Quinta Emenda deveria ser invocada, com toda a majestade e solenidade na transferência do maior poder na terra, deveria ser numa ocasião em que uma arrasadora maioria de americanos pudesse concordar com sua necessidade. Não quando homens de boa vontade divergem tão profundamente a ponto de lançar dúvidas sobre a legitimidade daquela transferência.

Para evitar olhar para o Vice-Presidente, ele encarou Bannerman:

— Eu o incluo, senhor, entre os homens de boa vontade, e retiro meus arrebatados comentários quanto aos seus motivos.

— Aceito sua justificativa — disse Bannerman, com o queixo firme e a expressão fria. — Comecemos a votação. Seu assistente concordou com sua posição, ou você descobriu outra pessoa na Justiça que apoiasse sua opinião?

— Oh, não há dúvida acerca disso — exclamou alegremente Duparquet. — O Assistente do Procurador-Geral confirmou minha reação inicial. A história legislativa é muito específica ao determinar que se espera que todos os departamentos executivos votem. Se o chefe do departamento estiver doente, ou não estiver disposto a votar por outra razão qualquer, o chefe interino do departamento vota pelo departamento.

Voltou-se para o Vice-Presidente:

— O parecer formal do Departamento de Justiça, Sr. Presidente, que o senhor solicitou, é este: se algum membro do Gabinete desejar se abster de votar quanto à incapacidade do Presidente, tem a liberdade de fazê-lo pessoalmente, como indivíduo, mas o voto do seu departamento deve ser dado por seu substituto imediato. Como há seis departamentos, deve haver seis votos. Isso, evidente, se se quiser forçar o que estiver dando a impressão de um impasse a um voto. Pessoalmente, acho que, na ausência de uma maioria evidente para qualquer um dos lados, o que significaria que o Presidente não teria de se afastar, o país e este Gabinete estariam mais bem servidos com a retirada total da moção.

Fong disse:

— Não, obrigado. Acho que talvez possamos ter uma maioria definida.

Olhou para Curtice, que assentiu levemente. O coração de Duparquet sucumbiu: a pressão de Cartwright não funcionara. O Secretário de Estado parecia desolado, mas determinado.

Depois de uma pausa, o Vice-Presidente disse:

— Bem, obedecendo ao conselho do Procurador-Geral e de seu assistente, minha decisão, Secretário Curtice, é que as pessoas se podem abster, mas não os departamentos. Cada um dos senhores, ou seu subordinado imediato, deverá dar seu voto, se o Secretário Fong não retirar a moção.

Nichols suspirou sua relutância em ser levado à fase dos procedimentos.

— Antes de votarmos — disse o Secretário de Defesa — como não existe muita dúvida sobre o resultado final da votação, não poderíamos persuadir o Procurador-Geral a convencer o Presidente a cumprir com o seu dever? Seria certamente melhor para o país, e no interesse da paz, que o Presidente invocasse voluntariamente a Vigésima Quinta, e não insistisse em ser expulso.

— O Presidente Ericson não está insistindo em ser expulso — replicou o Procurador-Geral, com tristeza na voz. — Ele está servindo no seu cargo para o qual foi eleito por maioria de votos de um povo democrático. Vocês é que estão insistindo em expulsá-lo. Ele é obrigado a resistir a uma injusta captura do poder presidencial.

— Você está, portanto, absolutamente certo — disse o Secretário Reed — de que o Presidente pretende levar o caso até uma crise constitucional.

— Vocês, não ele, estão precipitando a crise.

Duparquet agarrou-se à sugestão de Cartwright:

— E ainda mais, vocês não se detiveram para considerar as consequências à segurança nacional do seu acto.

— Como assim? — indagou Reed.

— Se — disse o Procurador-Geral — e creio que sua certeza sobre o resultado final da votação não tem razão de ser, mas se o Gabinete resolver votar pela saída do Presidente, e se o Vice-Presidente não evitar que vocês o façam Presidente Interino, o que, evidentemente, ele tem o poder de vetar, o Presidente Ericson já deixou absolutamente claro que tenciona levar o assunto ao Congresso para a decisão final.

— Sabemos que isso é o que ele pretende agora — disse Reed — mas certamente, depois que ele considerar...

— Conheço o homem — interrompeu Duparquet. — Sven Ericson lutará contra essa injusta captura do cargo enquanto respirar. E não se esqueçam de que ele continuaria Presidente. Ocupará o cargo de Presidente, apenas os poderes e deveres da presidência lhe seriam retirados. Sabem que mais? Ele me disse que seguirá literalmente as implicações da palavra “cargo”, e continuará a viver na Casa Branca, e a usar o Salão Oval em sua campanha para recuperar os poderes e os deveres, se estes lhe forem esbulhados. Aí então, Preston, você vá dizer ao mundo que os Estados Unidos têm posição estável. E você diga ao mundo, George, que os negócios de estado podem ser conduzidos com segurança.

— Ele certamente não faria isso — disse Reed. — A ideia da Vigésima Quinta Emenda foi de que o Vice-Presidente se tomaria Presidente Interino, e que permaneceria como tal durante os vinte e um dias de qualquer impugnação lançada pelo antigo Presidente. Isso foi para evitar um problema de legitimidade, ou de uma mudança de poder de lá para cá. Você agora diz que o Presidente Ericson realizaria uma espécie de sit-in? [nota: Greve ou forma de protesto na qual os trabalhadores se recusam a abandonar o local de trabalho.]

— As pessoas que chegam a Presidentes — disse o P. G., percebendo que estava conseguindo impressionar Reed — são muito fortes e resolvidas. Lutam duríssimo. Vamos agora discutir as consequências de acções posteriores. Digamos que vocês vençam aqui. Digamos que o Vice-Presidente cometa o maior erro de todos os Vice-Presidentes da história e ponha a coroa na própria cabeça. Digamos, ainda, que o Congresso dê maioria de dois terços e concorde com isso. Sabem o que aconteceria?

— Diga-nos — falou Bannerman, imperturbável.

— Leiamos o segundo parágrafo da Seção 4.

O P. G. apanhou o documento e leu:

— “Quando o Presidente transmite... sua declaração por escrito de que não existe incapacidade, ele reassumirá os poderes e os deveres do seu cargo...“ Sabem o que significa isso? Que, se for declarada incapacidade, o Presidente Ericson tem o direito de recorrer ilimitadas vezes ao Congresso, não há restrição constitucional quanto ao número de vezes, e exigir que eles votem a restauração de seus poderes.

Bannerman moveu impacientemente a mão.

— Isso não faz sentido. Ele perderia por maioria cada vez maior, a cada oportunidade. Seria considerado um tolo e uma pessoa nociva e, na verdade, sua capacidade mental seria ainda mais questionada.

Frangipani interveio.

— Por outro lado, ele poderia ser considerado, por muita gente, como a consciência da presidência, batendo à porta do Congresso de três em três semanas, exigindo e conseguindo que seu caso fosse votado. O assunto não sairia da pauta, ele agiria como o Rei Lear.

— Isso seria desastroso — comentou friamente Reed. — Seria um convite ao aventurismo de nossos inimigos. Nenhum homem que ponha seu país antes de si mesmo faria isso.

— Se você não me acredita, pergunte a ele. — sugeriu Duparquet.

— Votemos — disse Bannerman.

— Espere, Roy, isto é importante — falou Reed. — Aonde você quer chegar, Procurador?

— Apertemos o botão sob a cadeira de Ericson e solicitemos a entrada de sua secretária. Eu lhe falarei sobre a intenção do Presidente Ericson, e vocês verão por si mesmos.

— É — disse Frangipani — talvez Emmett esteja blefando.

Sem uma palavra, o Secretário de Defesa Reed inclinou-se até a cadeira vazia do Presidente e apertou um botão; em instantes, Melinda McPhee entrou, com o caderno de taquigrafia na mão.

— Srta. McPhee — começou o Procurador-Geral — faça-nos o favor de sentar-se um instante e anotar este meu recado ao Presidente:

Ele não fez uma pausa por temer que Bannerman rompesse o ímpeto da ocasião:

“Senhor: Por favor, escreva, de seu próprio punho, a atitude que pretende tomar na eventualidade, que considero improvável, de o Gabinete, o Vice-Presidente e o Congresso declararem sua incapacidade. Gostaria de mostrar sua resposta por escrito a meus colegas do Gabinete o mais rápido possível”.

Melinda não parou para reler o recado; voltou-se e saiu da sala.

— Esse foi um grande erro — disse Bannerman. — O senhor está excluindo suas opções. O senhor também está aceitando a inevitabilidade da derrota. Sr. Procurador-Geral, creio que lamentará a precipitação de sua atitude.

Duparquet deduziu que Bannerman não compreendia o pôquer político, em que os riscos eram grandes. Quando se está certo de perder, aumenta-se a “parada”; quando se está à beira da falência, pede-se mais emprestado, o que torna impossível aos credores apertarem o cerco sem se prejudicar. Evidente que isso tudo era um jogo, e essa era a filosofia do jogo: jogar com a certeza dos outros de que se empregaria sem hesitar toda a força que se tivesse. E nenhuma opção, na verdade, era excluída; se o truque falhasse, o Presidente poderia mudar de ideia.

Em alguns momentos, em que nada se disse, Melinda McPhee abriu a porta, dirigiu-se à cadeira do Procurador-Geral e colocou o pedaço de papel de carta esverdeado à sua frente. Ele pensou que ela era uma mulher e tanto: digna de confiança, competente, corpo harmonioso de traços agradáveis. Observou-a fechar a porta e depois pegou o papel, que Ericson e Cartwright deviam ter começado a preparar antes do fim do recesso.

— A caligrafia é obviamente do Presidente, e a tinta ainda está molhada. Eis o que ele diz: “Sr. Procurador-Geral: Não sou o pessimista que o senhor é. Porém, se tiver de recorrer ao Congresso para garantir minha capacidade, eu o farei repetidas vezes”.

Frangipani deu um largo sorriso:

— Essa é uma velha expressão de Roosevelt “repetidas vezes”.

Duparquet dirigiu-se a Reed:

— Eu não estava blefando. Ericson realmente tem toda a intenção de fazer o que disse. Se vocês quiserem mergulhar esta nação em três anos e meio de uma liderança amargamente disputada, a responsabilidade é toda sua.

— Que coisa horrível de dizer — exclamou Reed. — E isso que o Presidente acabou de fazer foi algo mau, podre e corrupto. Sven Ericson não é um patriota, Procurador: é um homem que coloca sua própria ambição política acima dos interesses do país.

Quando o Secretário de Defesa começou a descompor Ericson, Duparquet sentiu a esperança renascer.

— Estou envergonhado por Ericson — disse Reed — e por servir em seu Gabinete. Esse homem se consome em uma volúpia devoradora pelo poder, e é totalmente destituído de princípios.

Obedecendo a uma olhadela de Bannerman, Fong disse:

— Proponho que votemos.

Reed o olhou azedo:

— Você está maluco?

Fong pareceu perplexo.

— Não compreende? — perguntou Reed. — Ele nos transferiu um grande peso. Se fizer o que ameaça, e o filho da puta seria bem capaz, a nação ficará paralisada. Não apenas em aparência, mas em realidade. E isso significaria que estaríamos suplicando por uma guerra. Não posso votar a favor disso.

— Vamos esclarecer bem isso, Preston — disse Fong.

— Se você insistir em que votemos — disse rápido o Secretário de Defesa — terei de votar contra a saída de Ericson. O Secretário de Defesa não tem outra escolha. Em termos de guerra e paz, é melhor um Ericson cego como Presidente, do que dois Presidentes.

Fong, confuso, olhou para Bannerman, que disse:

— Votemos.

— Mas não pode haver maioria para removê-lo — interrompeu Curtice. — O Promotor, Andy e agora Reed estão com ele. Que adianta forçar uma votação?

— Ele está certo — disse Fong, atirando-se desanimado na cadeira. — Digamos apenas que tivemos um proveitoso debate.

— Votemos — repetiu Bannerman, olhando raivosamente para Reed. — Quero que conste da ata que pelo menos alguns membros deste pusilânime Gabinete quiseram cumprir seu dever.

O Procurador-Geral olhou para Bannerman, um homem duro e inflexível. Reed também tinha uma medula de aço, e durante todo o debate fora cruelmente consistente. Os olhos de Duparquet foram até Curtice, que mostrara surpreendente força de suportar o que Cartwright lhe dissera, e indicara sua disposição de arriscar a carreira. Frangipani permanecera firme. O pobre Fong estava numa entalada, e Bannerman era o responsável. Não era um Gabinete sem brios, como Duparquet o avaliara; na verdade, era extraordinariamente forte. Pena que seria logo dissolvido.

— A moção foi devidamente feita e registrada — disse o Vice-Presidente desanimadamente. — Roy, você quer mesmo continuar com isso?

Bannerman com o rosto contraído, assentiu com a cabeça.

— Então vocês votarão segundo a ordem de precedência. Quanto à saída do Presidente, qual o seu voto? Estado?

Curtice olhou para Bannerman, deu de ombros e respondeu:

— Não.

— Defesa?

Reed respondeu:

— Não.

— Tesouro?

— O Secretário do Tesouro vota “sim” — disse Bannerman.

— Justiça?

Duparquet afirmou:

— Não.

— Recursos Naturais?

Fong comentou:

— Esta é a primeira vez em que voto contra moção proposta por mim mesmo, mas não vejo mais nenhum objetivo nisso. E Roy Bannerman deve ter a honra de ficar sozinho. Voto não.

— Recursos Humanos?

— Não! — trovejou Frangipani.

— Cinco a um para os votos negativos — disse o Vice-Presidente Nichols. — Sr. Procurador-Geral, é possível que eu dê meu voto apenas para fins de registro?

— Não — disse Duparquet, que não admitiria “caronas” no assunto. — Para esse fim, o senhor não é membro do Gabinete. Pode, se desejar, dizer o que quiser sobre como votaria, se o assunto tivesse de ter sido deliberado pelo senhor.

— Gostaria apenas de dizer que teria votado “não”. Na minha opinião, o Presidente é capaz e corajoso, e o Gabinete e a nação se deveriam unir a seu redor.

Duparquet reconheceu que o Vice-Presidente fora bastante adequado em suas declarações, e se perguntou se isso seria verdade, e se Nichols realmente se teria oposto a assumir a Presidência.

— Concordo inteiramente — disse Frangipani. — Quem vai dar a boa notícia ao Homem? Procurador, foi você o herói.

O Procurador-Geral sacudiu a cabeça:

— Acho que seria mais conveniente se o Vice-Presidente o fizesse. Andy, por que não vai ao Presidente?

— Quando estiver com ele — disse amargamente Preston Reed — pode dizer-lhe para pegar o cargo de Secretário da Defesa e enfiar no ouvido. Daqui a uma hora ele receberá minha carta de renúncia.

— A coisa errada pela razão certa — comentou Bannerman. — Essa é a história de sua vida, Preston. Deus salve esta nação de homens atormentados pela necessidade de permanecer tolamente consistentes.

Enquanto os demais iam saindo, Bannerman e Duparquet ficaram para trás, sentados frente à frente.

— Admirei sua insistência pela votação — disse o Procurador- Geral. — Desejo-lhe felicidades na vida particular.

— Você ganhou a primeira batalha — disse Bannerman. — A guerra não terminou. Aquele egoísta incompetente não chegará ao fim do mandato.

— Deixe disso, Roy, desista. Reed proferiu a melhor frase da reunião: Um Presidente cego é melhor do que dois Presidentes.

Bannerman balançou a cabeça:

— Um Presidente Interino capaz é melhor do que um Presidente deficiente físico que não admite sua incapacidade.

Olhou Duparquet demoradamente.

— Você é uma personalidade atraente, Procurador, e um consagrado obtentor de votos. Você joga para vencer. Você vem do único estado sulista em que os nortistas confiam. É bastante jovem, pode percorrer um longo caminho. Eu, por outro lado, pareço o estereótipo do ricaço, e meu nome de família é algo negativo na política. Preciso negociar através de outros e, quem sabe, talvez chegue o dia em que negociarei através de você. Sei, porém, o que é melhor para este país, Procurador. Talvez algum dia você descubra isso.

— Acredito que você ache mesmo isso — disse Duparquet. — É isso o que o faz tão perigoso.

Levantou-se e deixou Bannerman sentado lá. Que teria Cartwright contra Curtice? E não seria Cartwright um bom substituto para Reed? O Procurador-Geral gostaria que o Vice-Presidente e Andy Frangipani terminassem logo com as necrópsias. Ele tinha muito a discutir com o Presidente.

 

III

O MALDITO DISCURSO


A SECRETÁRIA PARTICULAR /2

Ela fora uma vez ao quarto do Presidente, num passeio com alguns outros assessores seniores da Casa Branca, mas esta era a primeira vez em que Melinda McPhee estava lá às sete da manhã, sentada à cabeceira do Presidente enquanto Ericson, recostado nos travesseiros, bebericava o café e ria alto com o desenrolar das notícias. Na noite anterior, ele lhe telefonara para dizer:

— Não quero que você grave o Sumário de Notícias desta vez. Quero que leia este aqui para mim, bem devagar. Pode haver alguns tópicos que eu queira ouvir duas vezes.

Ela se sentia constrangida. Ler para ele numa cama de hospital era uma coisa, uma função adequada que um membro do staff desempenharia para um chefe necessitado, mas fazer parte do desjejum na cama era aviltante, e ela o disse:

— Escute, Sr. Presidente, por que eu não destaco algumas das notícias na sala de estar ao lado, enquanto o senhor veste um roupão e depois vai até lá?

— Qual o problema, Melinda?

— Meus modos à cabeceira de uma cama são horríveis. E o senhor não deveria estar trabalhando aqui se não está doente, o que não está.

— Você está constrangida — disse, divertido, o Presidente — e é maluca. A porta está aberta, Furmark está lá com uma arma, e você está completamente a salvo. Nem seria motivo de fofoca se alguém soubesse que você está aqui.

Ela raciocinou tristemente que isso era verdade. Fazia oito anos desde que ela e Ericson tinham passado certa manhã na cama, e ela não gostava do contraste nas circunstâncias.

— O senhor quer ouvir o Sumário de Notícias, ou quer brincar?

Ela fez barulho de papel amassado ao se dirigir à porta.

— Em um minuto estarei organizada na mesa de jantar.

Ericson surgiu um momento depois, com a caneca de café na mão, usando a comprida bengala. Ela observou que era a primeira vez que ele o fazia; devia estar ficando menos inibido.

— Leia-me o Sam Zophar primeiro — instruiu ele — a reunião de ontem deve ter sido um golpe para esse filho da puta.

Ela procurou a seção de editorial.

— A coluna está com o título de “O Erro de Curtice”, e principia assim: “Na reunião extraordinária do Gabinete, realizada segunda-feira, convocada para examinar a óbvia incapacidade do Presidente em exercer seus deveres, o voto crucial que manteve Sven Ericson no cargo foi dado pelo Secretário de Estado George Curtice. À medida que corria a histórica discussão, ficou evidente que o Gabinete estava dividido: três contra e três a favor da permanência. Curtice perguntou se poderia abster-se, o que permitiria às forças contra Ericson a maioria. O político Procurador-Geral, após um recesso passado em pressionar os profissionais do Departamento de Justiça para apoiar sua decisão já tomada, disse não. Então, o Secretário Curtice, sob a teoria de que uma luta prolongada pela presidência seria prejudicial ao país, relutantemente deu seu voto para apoiar o Presidente, e carreou consigo o Secretário da Defesa. A essa altura, até o Secretário Michael Fong, autor da resolução para substituir o Presidente, bateu em retirada, e deixou o único voto a ser dado com honra naquela sala para T. Roy Bannerman. Só no tempo de Salmon P. Chase houve um Secretário do Tesouro que...

Ela interrompeu a leitura.

— Ele está muito por fora, não foi isso que aconteceu.

— Como é que você sabe? — perguntou o Presidente.

— Andy Frangipani nos contou que Curtice fez pé firme, mesmo depois que Cartwright o pressionou, e só veio para nosso lado quando Reed virou a casaca. E o Procurador-Geral confirmou isso. Essa coluna do Zophar é um bocado de... informações erradas.

— Que é a verdade? — ponderou Ericson, ainda de bom humor, e sem esperar resposta. — Pode não ter sido verdade antes, mas agora que Zophar escreveu, a matilha toda vai atrás, e se tornará a verdade. E, Melinda, quem sabe? Talvez tenhamos recebidos informações incorretas, e Curtice tenha sido nosso real salvador.

— O senhor não acredita mesmo nisso, não é?

— Não, não acredito.

Apoiou a bengala no lado da cadeira.

— Aconteceu que George Curtice contou a história a Zophar e acentuou o que queria, sabendo que Zophar o ignoraria e iria a Bannerman. Agora todos acham que Curtice estava do meu lado, e a cabeça de Curtice não poderia rolar. Foi uma jogada inteligente. Dê crédito a George, ele está tentando diminuir as perdas.

Essa faceta de Ericson, Melinda não sabia se gostava: o político indiferente, o quase-realista, que não confiava em ninguém, que se professava um admirador da técnica e não ligava muito para o certo e o errado.

— A dupla Sander-Bennet está com tudo — comentou ela, e leu:

“A pele política do Presidente Sven Ericson foi salva pela vigorosa defesa do Procurador-Geral Emmett Duparquet, com a ajuda do “carcamano” de Nova York, Angelo Frangipani. Washington aguarda o expurgo. O Secretário de Defesa Preston Reed já renunciou. George Curtice, do Departamento de Estado, é uma interrogação, e os “usurpadores do poder” Bannerman e Fong certamente serão exonerados. Quanto ao representante da Flórida, Emmett Duparquet, sua estrela está evidentemente em ascensão. O salvador sulista do Presidente, com seu cabelo grisalho, é hoje o segundo homem mais poderoso da vacilante Administração de Ericson.”

— Boa, bom! — disse Ericson. — Temos de prestigiar o P. G. Quem foi a fonte dessa notícia?

— Smitty disse que falou com Sanders e Marilee falou com o sócio dele.

— Diga a Smitty que foi uma boa providência. É exatamente esse tipo de coisa que queremos seja divulgado.

Melinda no tinha tanta certeza.

— Detesto ver alguém virar um cavaleiro de armadura reluzente. Esta é a Administração de Ericson, e o papel principal pertence ao Presidente.

— Você é excessivamente leal, Melinda — disse alegremente o Presidente. — Gosto de espalhar reconhecimento pelas boas atitudes. Mas você está cheirando bem.

— Obrigada pelo perfume — disse ela, envergonhada por não lhe haver agradecido antes. — Esta foi a primeira vez que o senhor se lembrou do meu aniversário, e isso realmente me emocionou. Quem lhe lembrou?

— Acho que Marilee. De qualquer modo, a data está agora gravada a fogo na minha memória. A razão pela qual quero ver Duparquet prestigiado, amiguinha, é que ele é dos meus. Ninguém pode aparecer mais que o Presidente, a não ser que o Presidente queira. Quero demonstrar que tenho um grande grupo comigo. Ele é a principal jóia do meu diadema. E não representa ameaça, como o Vice-Presidente representaria, se fosse competente.

— Duparquet é um homem ambicioso — disse Melinda. Apesar de si mesma, ela se sentia atraída por ele, por isso não confiava nele.

— Ele poderia ser o próximo Presidente — disse o Presidente — ou se seguiria ao próximo. Não faço restrições a ele. Todo Gabinete precisa de, pelo menos, um presidente em potencial, como Hoover no Gabinete de Harding.

— Qual o motivo de sua admiração por Hoover?

— Ele foi um grande Presidente, muito mal compreendido — respondeu Ericson. — Ele e Wilson acabaram falidos e odiados, como eu acabarei, mas a história nos fará justiça.

Foi um pensamento melancólico, dito num tom de leve ironia, e ela não soube deduzir se ele fora sincero.

— Comece agora o Sumário de Notícias, e o leia todo. Só a interromperei para lhe ditar.

O sumário levou quarenta e cinco minutos para acabar. Ele quis ouvir os textos dos comentários editoriais e congressionais sobre a reunião do Gabinete. O outro tópico que lhe dizia respeito — Melinda o sabia — era este:

— O Times informa que os serviços de informação estão em completo desacordo sobre quem concebeu a emboscada de Yalta. Alguns dizem que foram as potências do Extremo-Oriente, mas uma minoria insiste em que o homem forte soviético, Nikolayev, maquinou ele mesmo o assassinato para apoderar-se do poder. À óbvia pergunta “Quem foi, afinal”?, devemos acrescentar esta outra: “Qual dos dois líderes era o verdadeiro alvo?”

— Há três dias — o Presidente ditou o memorando para Cartwright — a ideia de que Kolkov era o alvo principal era o maior segredo da cidade. Informe ao Serviço de Informações da Defesa que desaprovo a forma pela qual estão jogando o jogo. Eu os escutei, eles não precisavam divulgar nada lá fora. No que me diz respeito, seu vazamento de informações empresta credibilidade à opinião contrária. Assegure-se de que eles sejam informados disso. É a única maneira de calá-los.

Melinda saiu da sala e atravessou o Jardim das Rosas para chegar à sua própria sala. Saiu de novo com uma tesoura, e cortou três flores, rotina para a qual já havia obtido o consentimento do jardineiro da Casa Branca, homem teimoso e intratável, para colocar na mesa de café do Salão Oval. Ao voltar, segurando cuidadosamente as rosas para evitar os espinhos, encontrou Hennessy derramado no sofá:

— É cedo para você — disse ela; Hennessy gostava de julgar-se um “homem da noite”.

— Me disseram que você tomou café na cama com o Presidente — observou ele. — É, os tempos estão mesmo mudados.

— Detestaria que minha mente fosse igual à de um advogado de divórcios — replicou ela. Sabia que Hennessy seria o único a fazer uma observação daquelas. — Você olha para a vida através de uma fechadura.

Ele pôs os pés na mesinha de café para irritá-la; ela, porém, recusou-se a se irritar.

— Garotinha — era assim que Hennessy a agradava, ambos sabiam disso. — Sou o único do seu lado, algum dia vai se dar conta disso. Quanto mais cego ele fica, mais bonita você parece.

Melinda arrumou lentamente as rosas no jarro, reunindo as ideias para chegar ao nível adequado de resposta.

— Sabe por que você não tem amigos, Hennessy? Porque é muito vulnerável, sensível e apavorado. Você ataca as pessoas, porque acha que a ofensa é a melhor defesa. Tem medo de que alguém pudesse gostar de você se não fosse assim, e então teria de contar-lhe a verdade sobre como você é realmente odioso.

— Mais um “dissecador de cérebros!” E pensar que até alguns meses nunca entrara um psicólogo na Casa Branca! Bem — suspirou — alegre-se, Melinda. Goze sua grande vitória. Deixe que o Homem faça o mesmo, até depois do almoço. Preciso falar com ele hoje à tarde.

— Você sabe que a tarde está bloqueada para Hank Fowler.

— O assessor íntimo diz que vai falar com ele — espicaçou Hennessy.

— Por que você não pega sua assessoria íntima — começou ela, mas se deteve. Isso era gracejo, não discussão; era uma válvula de escape após uma crise, entre amigos e aliados, e o assessor íntimo e a secretária particular estavam do mesmo lado. Algum dia, muito depois que tudo tivesse terminado, ela o enlouqueceria ao recusar-se a permitir que ele falasse pelo telefone com o ex-Presidente, e se consolou com a ideia.

— Por que você não vai até o cercado de crianças — era assim que ela chamava a sauna, conhecida como “unidade de saúde” — e sua o bastante para expulsar os venenos de seu sistema?

— Boa ideia. Melinda, você é jóia. Um bonito corpo, e é esperta o bastante para chamar a atenção para isso ao disfarçá-lo tanto. Um rosto bonito não é tudo. Bebi um bocado ontem à noite, julgando que passara a crise, e hoje não me sinto bem.

— Não sei como percebi isso.

Ela se irritou com a forma displicente pela qual ele dissera a verdade sobre seu modo de vestir-se.

— Consiga que eu fale com o Presidente lá pelas três. Ele terá uma oportunidade de saborear sua vitória, e eu vou suar, dormir e depois ver os quadros no Fenwick. Se ele quiser saber o que quero, diga-lhe que tive notícias de um velho amigo da campanha, e verá que a expressão dele vai mudar. Mas não conte a mais ninguém.

Melinda foi até sua mesa, chamou duas secretárias que trabalhavam com ela, e mergulhou na pilha de telegramas e cartas que haviam chegado para desejar boa sorte ao Presidente no “fatídico fim de semana”. A maior parte da correspondência era peneirada rotineiramente do outro lado da rua por um computador, e respostas “personalizadas” feitas pelo computador eram enviadas pelo correio. Nomes da lista dos “amigos” do Presidente, ou de VIP’s numa lista mestre, eram passados a Melinda para um verdadeiro tratamento pessoal. Ela consultava seu arquivo de cartões para saber os nomes de batismo e das esposas — “Carinho para Maxine e Carlinhos do S. E.” fazia enorme diferença, e só Melinda estava encarregada da caneta especial de Ericson, o toque impessoal que assinava seu nome a tinta milhares de vezes por semana, uma tradição presidencial para ganhar tempo, iniciada por John F. Kennedy.

Smitty entrou enquanto ela trabalhava, “peruou” um pouco e se meteu numa reunião na Sala Roosevelt, considerada uma sala de Gabinete do pessoal. Ao mesmo tempo, uma reunião da comissão de Gabinete sobre a reforma antitruste, um dos temas favoritos de Ericson, se realizava na Sala do Gabinete. Lá em cima, o Conselho Doméstico escutava uma delegação de patronos dos consumidores. Lá embaixo, na Sala de Reuniões, o Comitê de Administração da Casa Branca estava realizando um seminário sobre administração federal, o que realmente não era uma utilização dramática na sala mais dramática da Casa Branca, mas conseguir espaço para reuniões era um bônus. Se outro grupo se tivesse querido reunir naquela manhã, o abrigo contra bombas sob a residência teria sido usado. Melinda descansou nessa atividade; depois do mês anterior, um dia normalmente agitado era um alívio.

— Me disseram que você é a única pessoa que consegue arranjar mesa no Sans Souci.

A voz era suave e confiante. Ela olhou e contemplou o rosto moreno do Procurador-Geral.

— Já passa de meio-dia, Procurador — sorriu ela. — O senhor realmente deveria planejar com mais antecedência. Para quantas pessoas?

— Só nós dois — disse ele. — Você precisa livrar-se dessa correspondência dos admiradores, que provavelmente já está ficando injuriosa, e eu preciso afastar-me dos defensores do monopólio. Espero que perdoe minha impetuosidade e aceite meu convite.

Chamavam-no de “O Sedutor de Tallahassee” e estavam certos; Melinda ficou mais encantada do que gostaria de admitir. Pegou o telefone e pediu à telefonista da Casa Branca:

— Por favor, faça uma reserva para dois no Sans Souci, para daqui a dez minutos. Em nome da Srta. McPhee e um convidado.

Ele simulou sua resignação e disse:

— Você tem razão, meu nome nada significa lá. Raramente como fora. O Departamento de Justiça fica num bairro de baixo poder aquisitivo.

No restaurante, sentaram-se na varanda, de onde dava para se observar o panorama no recinto central. Um funcionário do staff da Casa Branca não tinha status para conseguir uma cabina reservada ou assentos no recinto central, e o maître não contava com a presença do Procurador-Geral, mas Melinda sabia que a elevação seria útil a Duparquet, para observar o fenômeno do almoço em Washington. Ela gostou do jeito em que ele abertamente demonstrou sua fascinação, e estava confiante em que não haveria mexericos por estar almoçando com um homem casado: ele era membro do Gabinete. Ela era importante na Administração, ambos eram aliados políticos, e ninguém viria ao Sans Souci se estivesse fazendo algo que precisasse esconder, a não ser que utilizasse a teoria da carta sonegada, de Pöe.

— Havia um comercial de televisão sobre um sistema de calefação residencial — disse Duparquet, enquanto examinava a multidão — que mostrava, em cores, as ondas de calor que fluíam numa casa, e como poderiam ser controladas com um recém-lançado termostato. O mesmo acontece aqui embaixo, onde se podem ver as oscilantes ondas do poder.

— Mostre-me uma onda oscilante de poder.

— Ali — apontou ele. — Olhe agora, para que saibam que os estamos olhando. É o diretor do FBI, McCoy, com o chefe dos conselheiros da Comissão de Superintendência do Senado, gentilmente tentando apavorar-se mutuamente. Naquela cabina mais adiante, perto da escada, está o subsecretário de Estado, tentando convencer alguém de que seu patrão George Curtice realmente apoiou Ericson na reunião.

— É o chefe da sucursal do Los Angeles Times — disse ela, desejando ajudar Duparquet a fundamentar seu raciocínio, mas sem querer ser-lhe superior.

— Bem, bem — disse ele. — Vim almoçar com a mulher certa. Srta. McPhee...

— Melinda.

Ela não conseguiu distinguir se ele dissera “Senhora” ou se pronunciara “Senhorita” ao estilo sulista.

— Ótimo. Chame-me Procurador, sempre detestei meu primeiro nome. E lá embaixo, quem são aquelas três fofoqueiras?

— A bem vestida, de frente para nós, é a Sra. Cartwright. O Presidente acha que ela poderia ser agente da CIA. À sua direita está Susan Bannerman, provavelmente felicíssima por voltar a Nova York. Nenhuma delas é “fofoqueira”, Procurador. Não conheço a terceira.

Ela recomendou que a terceira senhora parecia ser mesmo fofoqueira.

Ele foi à cesta do pão, ignorou as bolachas de gergelim envolvidas por celofane, pegou um pãozinho francês, e arrancou um pedaço. Melinda gostou do gesto: ela estava sempre de dieta, mas se o homem com quem estava queria pão, não deveria ficar perdendo tempo com afetadas bolachas de regime. Desejou estar usando uma roupa diferente, com uma gola alta, mas como poderia adivinhar que seria convidada para almoçar pelo homem em quem estivera pensando? Desde a cegueira de Ericson, ela não se sentia encorajada para melhorar de aparência.

— Difícil compreender isso — dizia Duparquet. — Cartwright era cem por cento contra Bannerman na luta, e suas mulheres são amigas íntimas, amigas do peito. Perdão, não quis parecer fofoqueiro.

— Não é assim tão difícil de entender — disse ela. — Existe uma ligação nessa história. Lucas sempre gosta de manter os canais abertos, caso alguém queira mandar um recado, ou balão de ensaio. Na verdade, ele mandou um bilhete ao Presidente dizendo que sua mulher ia almoçar hoje com a Sra. Bannerman.

— Você disse a seu patrão que íamos almoçar juntos?

— Você me acha insegura?

— Acho que direi à minha mulher que almoçamos. Não sou tão seguro quanto você.

Ela lhe perguntou por que sua estratégia de deixar que George Curtice inventasse seu papel na reunião, e foi motivada parcialmente porque queria saber, mas principalmente porque — com este homem — ela desejava permanecer no chão firme da intriga política.

— Ele vai ficar com um segredo sujo, e nós o saberemos — explicou ansiosamente Duparquet. — Isso também vai fazer com que ele ande na linha nos próximos meses, quando Ericson mais precisar. Também porque não quero dar a impressão de que a votação foi tão difícil como foi.

— Quem vai receber o bilhete azul?

— Bannerman e Fong. Reed já pediu demissão. Eu me arriscaria com Curtice, mas isso é tudo.

Ela concordou, e teria ido além — também exoneraria o hipócrita do Secretário de Estado — mas jogou uma isca para Duparquet.

— Isso é vingança por eles haverem sido francos. Será que vai ficar bem para o Patrão isso de parecer que ele só quer vaquinhas de presépio no Gabinete?

— Eles que se danem. O Presidente não se pode dar ao luxo de demonstrar fraqueza, não agora, quando está fraco.

Ela se recostou na cadeira:

— Acho que acabei de ser atingida por uma oscilante onda de poder.

— Sabe de uma coisa? Gosto de você — disse ele. — Você não acredita em bobagens, e não preciso ter cuidado com o que falo. Gostaria de ter alguém como você.

Ele não disse para quê.

— Algum dia, talvez seja possível — disse ela, escolhendo o lado profissional. — O Presidente Ericson acha que você daria um ótimo Presidente.

— Ele disse isso?

O Procurador-Geral pareceu um pouco ansioso demais, mas depois se recuperou com uma manifestação súbita da honestidade que costumava livrá-lo de problemas:

— Melinda, estou à sua mercê. Seu chefe disse mesmo isso?

Ela gostou de dar-lhe a boa nova:

— Ele disse que todo Gabinete deveria ter um Presidente em potencial, e que você é o potencial desse Gabinete.

Ela não mencionou a comparação Harding-Hoover.

— Ele tampouco se preocupa com que você fique no centro das atenções, mas não estou certa se ele tem razão sobre isso.

Ele agora poderia afirmar que o almoço valera a pena; ela deixaria que ele pagasse a conta.

— Por que ele não deveria ter?

Duparquet não usou de rodeios; era parte do seu encanto evitar rodeios encantadores. O garçom veio anotar o pedido e ela começou a pedir uma salada, mas o Procurador-Geral interferiu:

— Por que uma saladinha mixuruca? Você é uma mulher saudável, trabalha muito. Coma decentemente.

Ela concordou com prazer, pediu vitela e acrescentou para o garçom:

— Peça a Paul para descobrir quem está almoçando com a Sra. Cartwright e a Sra. Bannerman.

Duparquet fez um sinal admirativo com a cabeça e perguntou:

— Muito bem, Melinda, quem está dentro e quem está fora?

— Agora chegamos ao verdadeiro objetivo do almoço — disse ela.

— O verdadeiro objetivo do almoço — retrucou ele — é lançar as bases para lhe passar uma cantada pra valer. Como não nos conhecemos o suficiente, e como detesto ser recusado por alguém que respeito, preciso ater-me à política, pelo menos no início. Certo? Agora me diga quem está dentro e quem está fora.

— Você está dentro — retrucou ela, e corrigiu — isto é, o Gabinete. Cartwright está dentro, como você sugeriu ontem à noite, e vai substituir Reed na Defesa. A propósito, Reed disse ao Presidente que não sabia o que o pusera mais furioso: se a ameaça do Presidente, ou se a não-solicitada pressão de Bannerman e seus amigos em Wall Street.

Ótimo! — Duparquet sorriu. — Quer dizer que a porção de baboseiras que encenei adiantou de algo. Continue... e Bannerman?

— Está fora. Vai receber sua exoneração por telefone, amanhã de manhã, pelo Presidente. O Patrão está doido para fazer isso. Hennessy diz que vai haver uma investigação no Congresso sobre a ligação entre as decisões do Tesouro e o império imobiliário de Bannerman, mas oficialmente o Presidente não tem conhecimento disso. Hennessy está botando pra quebrar.

Duparquet assentiu com a cabeça, e ergueu o copo de uísque.

— O Procurador dos Estados Unidos em Nova York também está examinando o assunto. Haverá uma minuciosa investigação.

— Vocês são todos iguais.

— Não, não somos — disse Duparquet asperamente. — Quando um homem tenta esganá-la, você o ataca o mais forte possível. Ericson e eu estamos de acordo nisso. Mas se eu fosse Presidente, e subitamente ficasse cego, renunciaria. Nada de afastamento temporário, eu simplesmente renunciaria.

— Então como é que você pode...

— Porque é uma decisão que cabe ao Presidente, e só a ele. Se se diz que ele não pode tomar a decisão errada, então diz-se que ele não pode tomar a decisão. O maior perigo é a ameaça de usurpação, que transforma o país numa republiqueta de bananas.

Melinda não escondeu a surpresa:

— O Presidente sabe que essa é sua opinião?

— Não, e espero que você não lhe diga.

Ao colocar sua confiança nas mãos dela, ele a trouxe para o seu lado, Melinda conhecia o truque e não iria cair nele.

— Acho que o Presidente deve ter o poder de decidir — disse ele — e Ericson é claramente competente para tomar essa decisão. Quando isso acontecer, devemos todos apoiá-lo, e eliminar a oposição. Ele foi eleito para tomar essa decisão, e não eu, ou você ou o Gabinete. Não tenho nenhum problema em defendê-lo.

— Fong permanece — continuou Melinda, como fora instruída. Antes de sair para o almoço, pedira licença para lavar as mãos e telefonara ao Presidente para saber o que ele queria fosse dito a Duparquet — porque sem Bannerman ele não é problema. E foi ele o autor da moção para se declarar a incapacidade, e o facto de ele continuar mostra que o Presidente não se está vingando.

— Faz algum sentido — disse Duparquet, de má vontade. — Quem vai substituir Bannerman?

— O subsecretário. Esqueci o nome dele. É um sujeito que colocamos lá para representar os interesses do Presidente. Odeia Bannerman agora mais do que nunca, o que o torna altamente cotado conosco.

— E que é que Cartwright tinha contra Curtice? Ela o olhou irritada.

— Que é que você quer por um mísero almoço, todos os segredos da República?

— Estou pagando um jantar para saber.

— Vamos fazer uma coisa: você descobre isso de Lucas Cartwright, me conta, e eu pago o jantar.

Duparquet mudou de assunto.

— Interessante o que o Presidente desconhece. Há um bocado de gato escondido por aí. Suponho que isso seja parte do divertimento.

Melinda manteve o rosto inexpressivo. A suposição do Procurador de que o Presidente não sabia o que Cartwright tinha contra Curtice se baseava em sua própria suposição de que, se o Presidente soubesse, Melinda também saberia, e como Melinda disse que não sabia, então o Presidente tampouco sabia. Mas era claro que o Presidente sabia: Cartwright o informara rapidamente sobre como Curtice instigara a memória criativa de Harry Bok relativa ao heroísmo de Kolkov, e Ericson, encantado, o revelara a Melinda. Se Melinda se permitisse uma aparência de quem sabia, o que era bom para o ego, Duparquet conseguiria fisgar o que estivera tentando pescar: se a “tonelada de tijolos” de pressão sobre Curtice viera diretamente do Presidente. Por isso ela fora em outra direção, e agira irritada como se Cartwright não lhe tivesse contado, nem o Presidente. Isso levou o Procurador-Geral a engolir a própria isca, e a concluir erradamente, o que deixou Melinda satisfeita.

O garçom voltou à mesa e disse rapidamente que o nome da terceira senhora à mesa da Sra. Cartwright era Sra. Arthur Leigh. Melinda franziu o cenho.

— Quem é? — perguntou o Procurador-Geral, totalmente desinteressado.

— Mulher do velho coordenador da campanha, aquele que não tinha primeiro nome. Nós todos o chamávamos de “Leigh, o sacana”. Fez-se detestado por todos, e não conseguiu nenhum cargo depois da eleição.

— O arquivo da FBI sobre ele é tão comprido quanto seu braço — disse o Procurador. — Aliás, um belo e comprido braço.

Melinda não conseguiu perceber se o gracejo dele era somente troça mesmo, ou se escondia um propósito; nem sabia como reagiria se ele continuasse. Ela pensou no caso durante todo o substancial almoço. Quando saíram, recusou o convite dele para uma carona, pois a Casa Branca distava apenas dois quarteirões.

— Que é que você quer que eu diga ao Presidente, Procurador?

— Diga-lhe que o velho “Sedutor de Tallahassee” tentou tudo, fez todo o charme possível, mas não conseguiu nada.

Duparquet sorriu.

— Eu jamais conscientemente faria o Presidente concluir coisas erradas — replicou ela, ambiguamente. Ele que pensasse sobre sua frase. Ela lhe apertou suavemente as mãos, tentando não mostrar que seu aperto era firme, atravessou a rua, passou pelo velho Prédio do Poder Executivo e dirigiu-se à entrada oeste do subsolo da Casa Branca, enquanto pensava no chefe e no seu melhor amigo político recente. As diferenças entre os dois eram estas: Ericson tinha quarenta e oito anos, e parecia mais: Duparquet tinha cinquenta e quatro e aparentava menos; era uma combinação de alguém abertamente rural e suavemente urbano. Ericson era introvertido, deliciosamente complexo, sabendo demonstrar cordialidade quando queria. Duparquet, extrovertido, homem de acção, jogador, com um sorriso cativante e a capacidade de projetar um tom gelado e cruel na voz. O Presidente era episcopal, um participante nato das grandes coisas, alguém que dava sorte ou, pelo menos, costumava dar. O Procurador-Geral era judeu, um forasteiro talentoso, que previa problemas. Ericson se interessava mais pelo governo e “o povo”, enquanto Duparquet tinha mais interesse em política e gente verdadeira. Melinda achava que as afinidades entre os dois eram incríveis: a constante premeditação, o flirt autolisonjeador. Ambos amavam o poder, e se alegravam por estar no centro das acções, usando os amigos, e deixando que os amigos os usassem, e se diziam tanto que eram idealistas sob o cinismo que realmente se tornaram idealistas. Ela conhecia muito bem um deles, e não tão bem o outro, mas gostava da forma como os dois se respeitavam, com a cordialidade exclusiva dos vultos políticos que se podiam ajudar e que provavelmente não teriam de competir entre si.

Se Duparquet ficasse cego na Presidência, renunciaria mesmo? Ela parou à entrada da Casa Branca. Evidente que não; o Procurador-Geral dissera isso — como Ericson diria se os papéis fossem invertidos — para cativar e despertar a curiosidade de uma mulher que lhe poderia ser útil um dia. Melinda sabia que ser ofendida num mundo de hipócritas acontecia a muitas secretárias. Estava mais preocupada com sua própria necessidade desse tipo de intimidade com homens que costumavam confundir o poder de seu sexo com a atração sexual do seu poder. Ao saltar do pequenino elevador da Ala Oeste, reintegrou-se ao cargo para o qual fora admitida, e foi ao telefone contar a Hennessy que a mulher do “sacana do Leigh” estava na cidade.


O COORDENADOR DA CAMPANHA

Ele queria um apartamento para casal do lado do parque, dando para a Casa Branca. Quando o funcionário da reserva do Hay-Adams Hotel disse que não havia nenhum apartamento disponível assim, Arthur Leigh esperou umas duas horas, ligou para o gerente, e sem maiores problemas conseguiu o quarto certo, com a vista certa. Isso porque Leigh sabia insistir, sem esperar impotente nem iradamente, mas objetivamente. Depois que terminaram as campanhas, ele se divertia usando o único emblema político que jamais usaria: “Grande Trabalho, Garoto, Agora Suma”, e sabia a diferença entre andar por aí tendo muitas esperanças, e esperar com metas específicas.

Depois da vitória de Ericson no último novembro, ele não ficara por ali. Ericson usara Leigh demais na campanha, para aguentar o impacto da maior parte dos ressentimentos, e houvera um acordo particular entre o antipolítico candidato e o superpolítico coordenador da campanha de que a recompensa seria dada algum tempo depois que o habitual. Em salário, Leigh fora regiamente pago: quinze mil dólares mensais por dez meses de campanha política, mas seu acordo tácito com Ericson era de que uma vitória mereceria um bônus, a ser determinado mais tarde. Uma espécie de vale para uma oportunidade específica.

Poucas pessoas pertencentes ao círculo íntimo de Ericson compreendiam isso. Quando o “sacana do Leigh” não recebera um cargo no governo logo após a vitória, os jornalistas deduziram que ele e Ericson se haviam desentendido. Hennessy, especialmente, expressou essa dedução para o pessoal do seu meio, durante o interregno, lembrando a selvagem luta entre o recém-eleito Woodrow Wilson e seu coordenador de campanha de Nova Jersey, em 1912. Leigh era o pára-raios para as explosões de raiva da campanha de Ericson, o “abominável joão-ninguém” que eliminava as ofensas e, depois da batalha vencida, fora aparentemente posto de lado por um candidato que concordava com os que não gostavam do joão-ninguém. Mais importante do que isso, Leigh fizera centenas de promessas vagas durante a campanha, e se tornara o ponto de contato de inúmeras pequenas dívidas. Se Leigh não estava na Casa Branca, ninguém estaria lá para lembrar-se disso. As pessoas que se julgavam com alguma ascendência sobre Ericson não poderiam encontrar mais essa influência. Em novembro, Ericson se livrava de Leigh como de uma velha pele de cobra e se enfiara na Casa Branca, com encômios por sua independência política. Vários e aborrecidos vales de dívidas foram cancelados pela metamorfose.

Sentado à janela do apartamento do Hay-Adams que dava para o parque, e olhando para o outro lado do Lafayette Park para o repuxo em frente à Casa Branca, Arthur Leigh esperava. Leu o Post e passou os olhos no Star. Leu as revistas de atualidades que só tinham sido postas à venda após a reunião do “fatídico fim de semana”, e esperou mais. Mandou a mulher almoçar fora, fez com que Hennessy soubesse de sua presença e ficou quieto.

Com a pança tapando-lhe o cinto, chinelos gastos pendurados nos pés estendidos numa banqueta, Leigh leu acerca da renúncia de T. Roy Bannerman e ficou satisfeito. Desprezava o tipo de espertalhão que não suportava ser vencido. Leu sobre o surpreendente facto de Ericson haver mantido Fong no Gabinete, meditou a respeito, e deu crédito ao Presidente: mostrava confiança de que ele já não seria desafiado.

Após uns dois dias, o paciente Leigh leu sobre a nomeação de Lucas Cartwright para Secretário de Defesa, o que fez sentido para ele, e da nomeação de Hennessy para substituir Cartwright na chefia da Casa Civil da Casa Branca, o que já não fez tanto sentido para Leigh, a não ser que o Presidente ainda estivesse preocupado em agarrar-se à presidência.

Leigh sabia agora a razão disso: com Hennessy, o pessoal da Casa Branca teria de manter alto sigilo sem a possibilidade de haver vazamento do pequeno segredo sujo do Presidente, sua cegueira anterior. Leigh sabia que há um mês atrás o episódio acontecido há um ano, com Buffie, no trem de campanha, mereceria apenas um pequeno rodapé nuns dois livros de memórias. Agora o episódio assumia todo o tipo de sinistras implicações, como prova de que o povo não votara em um Presidente, perfeitamente consciente de sua incapacidade em potencial. Leigh surpreendeu-se realmente de que a moça ainda não tivesse aberto a boca, ou de que algum repórter não houvesse investigado tudo, mas isso era um ponto a favor do velho coordenador: dava-lhe um pouco mais de poder, caso ele viesse a necessitar.

— A pistola ainda está queimando — disse ele, em voz alta. Sua mulher, acostumada a frases sem sentido proferidas pelo marido, que estava envelhecendo, o olhou e perguntou apenas:

— Quanto tempo vamos ficar em Washington, Arthur?

— Mais uns dois dias, talvez uma semana.

Na sexta-feira, três dias depois de haverem se hospedado no hotel, veio um telefonema da Casa Branca: Melinda McPhee convidava os Leigh para uma pequena recepção, seguida de jantar, domingo à noite, se eles ainda estivessem na cidade. A mulher de Leigh, ao telefone, repetiu em voz alta o convite, e o marido resmungou:

— Lamentamos, mas vamos embora amanhã.

A Sra. Leigh apresentou suas desculpas e desligou.

— Não sei por que não podemos ficar mais um dia, Arthur — queixou-se. — Não é sempre que nos convidam para a Casa Branca. A última vez foi na Administração Eisenhower.

— Não estamos aqui para nos amarrarem as mãos — disse-lhe Leigh. — Daqui a pouquinho Hennessy vai ligar, depois que a garota de Ericson lhe disser que estamos indo embora.

— As secretárias já não gostam de ser chamadas de “garotas”.

— Essa dona McPhee não se importaria de ser chamada de garota — sorriu Leigh. — Ela jamais gostou do jeito com que Ericson a tratava, como se fosse um dos caras.

O telefone tocou.

— Deixe que eu atendo — disse Leigh. — Ela deve ter telefonado diretamente do colo de Hennessy.

Ele atendeu e resmungou:

— Sim?

— Quem está falando é o sacana do Leigh?

— Posso receber você agora, Hennessy, mas não tenho o dia livre.

— Deixe de bancar o gostoso, Arthur. Você não tem nenhum encontro marcado por uma semana.

— Você talvez tenha razão, mas o próximo encontro é um estouro.

Isso fez com que Hennessy fizesse uma pausa, como Leigh sabia que aconteceria. Hennessy podia intimidar qualquer pessoa que conseguisse irritar, mas Leigh o conhecia bem: o divertido desprezo de um verdadeiro sacana em relação a um sacana em potencial. Os artigos dos jornais chamavam Hennessy de “o segundo homem mais poderoso da América”, mas isso não era verdade; o advogado ruivo era apenas um “produto derivado”, e Leigh sabia que Hennessy sabia que Leigh sabia. O novo Chefe da Casa Civil era um homem com um grande cargo, não um grande homem num cargo.

— Posso encontrar-me com você no bar de seu hotel — disse Hennessy — ou posso servir-lhe algumas doses do bourbon deixado por Cartwright aqui no seu elegante escritório de canto, você escolhe.

Leigh preferiu ir à Casa Branca, andando descansadamente pelo parque naquela tarde quente, com os escassos fios grisalhos de cabelo desarrumados pela brisa, e pensando no que objetivava conseguir. Esta era sua última oportunidade de obter muito dinheiro. Se conseguisse a nomeação de seu protegido para diretor do departamento de estradas de rodagem do Tennessee, poderia esperar uma decisão consciente quanto à construção de uma estrada de acesso a propriedades sobre as quais ele tinha opção, e depois vendê-las a um construtor. O homem que faria a nomeação, com o apoio do governador do Tennessee, queria uma palavra oficial da Casa Branca, para que Ericson passasse a dever um favor ao governador. Isso seria um “suborno honesto”, nas palavras de George Washington Punkitt. O homem a ser nomeado diretor do departamento de estradas de rodagem era competente e ficaria agradecido. A estrada de acesso estava dentro ou próxima das propriedades sobre as quais Leigh tinha opção: o negócio não feria o interesse público. E o vale de débito que Ericson tinha para com Leigh desde a campanha ficaria liquidado.

No Portão Oeste, o guarda já estava de posse do seu nome e fez um sinal de boas-vindas com a cabeça, enquanto abria o portão. Leigh caminhou pela pista de rolamento até o novo pórtico fora da Ala Oeste, e passou por um comentarista de televisão que posava para uma equipe de operadores de câmara, tendo ao fundo a sala do Presidente. Leigh esperava que Hennessy não mencionasse o episódio do trem da campanha — isso seria coisa de amador, a palavra mais insultuosa no vocabulário de Leigh — e esperava também que o novo Chefe da Casa Civil não o levasse ao Presidente, o que seria constrangedor para Leigh e um erro para Ericson. Não se falava com o Presidente sobre assunto insignificante como esse. Tampouco ele desejava nem precisava ver Ericson, de quem apenas se recordava como um candidato despreparado mas sortudo, que ocultava seu amor pelo povo na sua ofensa a multidões.

Leigh murmurou rispidamente seu nome para a recepcionista da Ala Oeste, uma tranquila ex-colaboradora da campanha cheia de laquê, que o reconheceu, mas fingiu que não o havia reconhecido. Enquanto esperava, olhou em torno para as antiguidades, os quadros heróicos com panoramas americanos, e os aparadores com objetos de estanho. Tinha a sensação de ser um produtor teatral que escolhe o elenco de uma peça à qual não se espera que ele assista.

Leigh povoara esse lugar com seus residentes atuais, e não se impressionaria com seus ocupantes, que se impressionavam tão enormemente consigo mesmos. Hennessy era a mulher velha que morava num sapato, e tinha tantos filhos que não sabia o que fazer, mas Arthur Leigh fora a necessária calçadeira. [nota: História infantil americana.]

Uma moça “incrível” vestida de jeans e com uma câmara na mão entrou na recepção, olhou-o calmamente, e disse:

— É você que chamam de “sacana do Leigh”.

— Só meus amigos me chamam assim.

— Sou Buffie Masterson, a fotógrafa oficial, e soube que você estava aqui. Você é uma lenda viva, e quis conhecê-lo. Não compreendo por que todo mundo o odeia tanto?

Ela era tão cheia de vida, radiante, jovem e atraente, que ele resolveu chocá-la:

— E você é a boazuda que arrastamos de baixo do candidato depois que ele esborrachou a cabeça na parede.

Buffie ficou lívida. Após alguns instantes, disse, baixinho:

— Agora compreendo por que todos o odeiam.

— A franqueza não costuma ser apreciada.

— Sabe, Sr. Leigh... — ela chegou-se a ele, com ares de conspiradora — não falamos muito sobre aquele incidente por aqui, viu?

— Eu não contei pra ninguém — disse ele, gostando do diálogo. — E você?

— Nunca disse a viv’alma — disse ela, levantando a mão direita, com a câmara firmemente segura. — Nem nunca direi. E você?

— Quem foi que a mandou falar comigo?

— Hennessy, evidente. Meu trabalho era amaciá-lo e levá-lo lá para dentro. Mas você me deu um coice, só porque perguntei por que todos o odeiam.

Leigh simpatizou com a moça, cuja espontaneidade era calculada.

— A resposta para isso é que eles odeiam o tipo de gente em que se estão transformando, e se vêem em mim.

— Você é o espectro do Natal futuro ?

A moça lia Dickens, não era apenas um corpo bonito. Leigh a observou meditar sobre o que ele dissera, e depois comentar:

— Isso não tem nada a ver. Você acabou de inventar a frase, ou vive dizendo a mesma coisa?

— Um “filósofo” me disse essa frase há algum tempo — disse ele, com displicência, e era verdade, mas ele sabia que ela não acreditaria.

Ele gostava de dizer a verdade de tal forma que se pensasse que era mentira.

— Se existisse um “filósofo” desses — disse ela — ele seria redator de discursos aqui.

Leigh concluiu que o Presidente sabia o que “caçava”. Essa moça fazia com que se quisesse agarrá-la, segurá-la e conversar com ela durante horas, nas quais ela violentaria seus pensamentos.

— Por que você não vai dizer a Hennessy que conseguiu me amolecer como devia — resmungou ele — para que eu possa logo falar com ele e não perder meu tempo.

— Você quase acertou — reconheceu ela. — Agora que eu consegui derreter-lhe o coração, devo levá-lo a Hank Fowler, para amaciá-lo ainda mais.

— O psicólogo cego?

— Você vai gostar dele. Hennessy está com o Presidente, e é melhor você ir, do que ficar aqui, assustando todo mundo.

Leigh sorriu e a seguiu pelo vestíbulo do Salão Oval — a porta do vestíbulo estava fechada — até uma sala minúscula, em que estava um homem baixinho que usava audiofones. Buffie foi por trás dele, pôs-lhe as mãos nos olhos e perguntou:

— Adivinhe quem é.

Fowler retirou os audiofones.

— Estava escutando o Sumário das Notícias, Buffie. Sr. Leigh?

Leigh rosnou um cumprimento. A moça sorriu-lhe, ofereceu-se para fotografá-lo, recebeu um sonoro “não”, e foi embora.

— Só temos uns minutos — disse o psicólogo — por isso, vou direto ao assunto. O senhor tem algo a me ensinar?

Leigh contraiu os olhos, deu-se conta de que expressões faciais eram inúteis com um psicólogo cego, por isso contraiu os olhos no tom da voz.

— Ensinar quanto a quê?

— Sven Ericson. As coisas que o entusiasmam, as suas deficiências, qual é sua força oculta. Seu negócio é a psicologia de massas, o senhor certamente me pode ajudar.

Leigh achou graça. Primeiro a mulher, agora a lisonja de um técnico, fingindo perguntar o que fazia Ericson vibrar. Hennessy estava lhe abrindo o caminho. Ele resolveu que lhes contaria a verdade através de algumas frases curtas que eles pudessem interpretar como bobagens, e pudessem convenientemente ignorar.

— Enquanto o homem necessitar do poder, o poder não necessitará do homem. Entendeu até aqui?

— Siiimmm.

Claro que ele não estava entendendo; o que Leigh dissera era profundo demais para que esse amador percebesse de imediato. Ele prosseguiu:

— Pense no poder como um grande cavalo de raça, com o pescoço forte envolto em trovão, segundo falam. Esse cavalo, esse poder, tem de ter um cavaleiro. Por isso, ele examina os jóqueis.

“O jóquei número um tem necessidade de montar esse cavalo-poder. Ele só será um homem completo quanto puder montá-lo. Essa necessidade é uma fraqueza, e o cavalo-poder sabe disso, mas a fraqueza pode ser tolerada desde que o jóquei tenha pulso firme e aja confiantemente. O jóquei número um precisa do poder, e sabe lidar com ele, por isso o cavalo-poder permitirá ser montado. Esse era Ericson, antes da emboscada.

“O jóquei número dois também precisa montar o cavalo, para transformar-se num homem completo, mas como não sabe manipular as rédeas, ele age às cegas. O cavalo vai derrubá-lo, o cavalo-poder não suportará uma dupla fraqueza. Esse é o Ericson de hoje.

Leigh começou a levantar-se, após pronunciar sua pequena palestra, mas o homem cego pareceu sentir-lhe o movimento, e fez-lhe sinal para ficar.

— Continue — disse Fowler. — Com o jóquei número três. Ele não precisa do poder, não tem essa fraqueza, mas tampouco tem pulso firme, e não sabe como tratar com o poder. O cavalo-poder permitirá que o jóquei número três o monte?

Leigh sorriu. Esse psicólogo era bem espertinho.

— O senhor não deveria falar assim do Vice-Presidente dos Estados Unidos — disse-lhe Leigh. — Nichols gostaria de dar uma volta, mas não é uma coisa indispensável para ele. De certo modo, isso é uma força; o cavalo deixará que ele o monte, mas alguém como Bannerman terá de estar lá para segurar as rédeas.

— Vamos ao jóquei número quatro — pressionou Fowler — o que não precisa do poder, mas sabe lidar com ele. Não tem fraquezas interiores, e seu pulso é firme.

— Ah! — exclamou Leigh — o senhor está falando agora de alguém como Eisenhower, o tipo de sujeito que se poderia eleger todas as vezes. O cavalo-poder chegará até a andar devagar, para os que forem assim.

— Agora, a pergunta crucial — disse o psicólogo, fazendo com que Leigh se sentisse constrangido, mas sem poder escapar à extensão de sua própria analogia. — Podem os jóqueis mudar, e o cavalo percebê-lo?

— Ericson já mudou de jóquei número um para jóquei número dois — disse lentamente Leigh — de um homem que precisa do poder e sabe lidar com ele, para um homem que continua a precisar do poder mas já não sabe lidar com ele. É claro que ele poderia mudar mais ainda, para um homem que não precisa do poder nem sabe lidar com ele. Esse seria o jóquei número três, como Nichols, mas de que adianta isso? O senhor quer que Ericson continue, embora vacilante?

— O senhor acha que não há possibilidade de ele se tornar o jóquei número quatro — declarou Fowler.

Leigh concordou:

— Isso significaria que ele teria de mudar por dentro, e depois por fora. Nunca vai acontecer. Bem, eu não diria nunca, mas não com rapidez. Não na atual gestão.

Leigh levantou-se, cenho carregado. Fora induzido a falar demais, o que não era do seu feitio. Tencionara parar no jóquei número dois, porque nunca lidara com um candidato que não tivesse aquela lacuna que clamava para ser preenchida. Não saberia como tratar com um homem tão seguro que podia montar o cavalo ou deixá-lo em paz, e Leigh não fazia questão de conhecer o jóquei número quatro. Buffie surgiu à porta e o levou à sala de Hennessy.

— Eis o “sacana do Leigh” — anunciou ela — todo amaciado.

— Todo endurecido corresponde mais à verdade — resmungou ele para o advogado. Ela acenou adeus e fechou a porta.

Leigh e Hennessy participaram então dum minueto que durou quarenta minutos. Lembranças da campanha, discussão sobre o “fatídico fim de semana”, quem do pessoal da campanha estava dando certo no staff presidencial, a acidez estomacal de Hennessy, uma justificativa para não levá-lo para falar com o Presidente, que estava repousando na residência — e isso foi um alívio para Leigh — e este levantou-se para ir embora.

— Você talvez receba um telefonema do Tennessee — disse o político ao sair — para saber informações de um cara chamado Kerr, para o cargo de diretor do departamento de estradas de rodagem. Acho que ele foi útil durante a campanha. É um sujeito competente.

Hennessy fez sinal com a cabeça cautelosamente, como deveria, e levou o visitante ao pequeno elevador.

— Você quer me lembrar de algo?

Estava jogando verde para pressioná-lo; Leigh desconfiou de que Hennessy talvez fosse um osso duro de roer nesses assuntos.

— Não — disse Leigh. — Não desejo lembrar-lhe nada. Eu mesmo não me lembro de nada especial.

Esperava que Hennessy deixasse o assunto parar por aí, o que realmente aconteceu. Pelo amor de Deus, o coordenador da campanha não era nenhum chantagista. Era esse o favor que lhe deviam.

Quando Leigh abriu a escura porta de madeira do quarto no Hay-Adams, sua mulher tinha um recado:

— Susan Bannerman acabou de ligar. Nos convidou para jantar hoje, só nós quatro.

— Que foi que você disse?

— Que você talvez precisasse ficar na Casa Branca até tarde, e que eu ligaria depois.

— Ótimo.

Bannerman agira depressa; certamente ele tinha alguém na Casa Branca que vigiava quem os assessores do Presidente recebiam, e não desistiria de lutar.

— Arthur, vamos à casa dos Bannerman. Nossa única alternativa é comer no quarto, e isso já está nos custando muito caro.

Leigh tinha de supor que Bannerman desconhecia a cegueira anterior do Presidente. Também achava que Bannerman não sabia por que Leigh entrara em contato com ele, e achava ainda mais que Bannerman julgava que Leigh sabia algo contra o Presidente. Leigh também calculou que Hennessy, a quem provavelmente haviam contado o incidente do trem, estava preocupado com o facto de que Leigh poderia cometer uma indiscrição sobre a informação. Hennessy logo saberia, através do Serviço Secreto, que os Bannerman e os Leigh estavam jantando juntos. Por isso Leigh mandara a mulher almoçar no Sans Souci. Isso induziria Hennessy — e o Presidente — a manter Arthur Leigh feliz e calado. Não se tratava de chantagem, apenas de posição.

— Vamos aceitar o convite dele — disse ele à mulher. — É o mínimo que Bannerman pode fazer por nós. Eu o ajudarei a fazer de seu amigo idiota o Vice-Presidente.

— Se alguém nesta cidade nos deve alguma coisa, Arthur, como é que estamos morando fora daqui e eles estão todos aqui?

— Porque eles odeiam o tipo de gente em que se estão transformando, e se vêem em mim.

Ela lhe deu um olhar que pareceu exprimir sua vontade de ver se ele estava com febre.

— Que foi que você disse?

— Nada.

Aquela frase soara melhor quando ele a dissera àquela moça “incrível”, a fotógrafa. Olhou pela janela para a Casa Branca, e se permitiu sonhar acordado com Buffie durante algum tempo.


O PRIMEIRO-MINISTRO INTERINO

As três limusines Zis negras espremeram-se através do estreito portão do muro do Kremlin, aceleraram os motores e irromperam pela Praça Vermelha. Os poucos turistas e bêbados que por ali vagueavam, às 3 horas da madrugada, observaram o espetáculo de poder burocrático: um desfile de três automóveis, sem flâmulas ou motocicletas, passando em alta velocidade, com persianas arriadas, na calada da noite. Impressionante para alguns, assustador para outros.

Vasily Nikolayev afundou-se no assento traseiro direito do carro do meio. Ele era o Primeiro-Ministro Interino, tendo substituído temporariamente Kolkov em uma de suas duas funções — significativamente não como Secretário Geral do partido, posto deixado vago por ora. A reunião do Politburo daquela noite não lhe fora favorável. Nikolayev fora confrontado com o facto — nebuloso, difícil de decifrar, porém, um facto — de que Kolkov não fora o herói que estavam fazendo parecer. A história de Kolkov salvando a vida do Presidente americano era supostamente invenção de Nikolayev, destinada a ajudá-lo a herdar o manto de Kolkov. A ironia era que a acusação era falsa.

— Estou surpreso com você, Vasily. — O homem sentado ao seu lado, Slovenski, não era amigo nem inimigo, mas o escolhido para fazer a viagem com Nikolayev porque era aceito como neutro por todas as facções. — Você sabia que o quarto do hospital tinha microfones.

Claro que Nikolayev sabia que a sala do agente do serviço secreto estava “preparada”: uma sala abobadada fora selecionada com o fito de tornar possível a vigilância a distância. Contudo, lhe disseram que nada extraordinário fora escutado, nem mesmo quando o agente, Bok, foi visitado pelo Secretário Curtice e o homem do Presidente, Cartwright, naquelas horas terríveis após a emboscada. Nikolayev recebera o relatório de Curtice como verdadeiro, ou, pelo menos, não como falso: aquele em que Bok apresentara realmente a possibilidade de que Kolkov morrera protegendo o Presidente Ericson. Todavia, a fita era ambígua, com trechos que não se conseguiam ouvir, e o Politburo poderia somente suspeitar. Nada estava confirmado ainda.

— Nós vamos perguntar, nós vamos escutar, nós vamos descobrir — ele replicou. Percorreram o resto do caminho para o aeroporto militar em silêncio.

O avião supersônico Tupolev deixou-os na Criméia em menos de duas horas. No hospital de Yalta, o KGB tinha os preparativos à mão: o americano pertencente ao corpo médico, na sala de Bok, fora drogado, assim como a enfermeira. Os médicos da comitiva dos Estados Unidos estavam alojados a dez minutos de distância, e os motoristas tinham ordens de não trazer pessoal algum do hospital sem autorização.

Nikolayev e Slovenski, com um engenheiro de gravação, foram levados à sala aonde Bok fora encaminhado para a entrevista. O agente americano do serviço secreto estava profundamente adormecido. O pentotal, com um excitante de consciência, foi-lhe ministrado, e Slovenski fez as perguntas:

— Seu nome.

— Harry Bok.

— Esse é o seu nome verdadeiro?

— Bokstansky, Harold.

O agente foi levado através das horas da emboscada até o ponto na ravina. Nikolayev, de coração apertado, estava se convencendo de que a história Curtice-Cartwright fora instigada, e se poderia provar ser fraudulenta. Ninguém acreditaria que ele não tomara parte na trama inventada.

— E, a essa altura, o Secretário-Geral Kolkov estava vivo?

— Não, estava morto. Granada. E deve ter recebido uma dúzia de projéteis no corpo.

— E como foi que o corpo do Secretário-Geral Kolkov surgiu em cima do Presidente Ericson?

— Eu o arrastei e o coloquei ali. Não lhe faria mal: estava morto.

— E quando foi que teve a ideia de que o Secretário-Geral Kolkov salvou a vida do Presidente Ericson?

— Aqui nesta sala, com Cartwright. Curtice eu não sei, mas Cartwright é um homem em quem se pode confiar. Era isso que Curtice e Cartwright desejavam escutar. Eu nunca digo que tenho certeza, também; só digo que é impressão minha. Não posso jurar.

O interrogador repassou as perguntas e obteve as mesmas respostas gerais. Nikolayev desligou. Percebia o que Cartwright e Curtice tinham feito, e era o tipo de expediente que ele teria usado, fossem os papéis invertidos: apresentar uma boa história de cobertura a fim de poder ajudar o homem local em comando — naquela hora e lugar, Nikolayev — a levar uma vantagem; ser trocado por segurança imediata. O erro americano foi deixar seu homem para trás, vivo.

Talvez a situação ainda pudesse ser remediada a fita da conversa entre Curtice e ele mesmo estava disponível, e Nikolayev sabia que ela dava oportunidade a diferentes interpretações. E quem sabe o Politburo pudesse ser convencido de que havia grande vantagem em deixar os americanos comprometidos. Essa seria uma boa contra-cartada para jogar, pensou o russo: o conhecimento secreto de que os americanos haviam afirmado falsamente que Kolkov salvara a vida do seu presidente. Poderia ser utilizada em alguma situação crítica e, pelo menos até então, seria aconselhável ao Politburo reter Nikolayev como Primeiro-Ministro. E, com o tempo...

— Vamos tirar uma soneca no avião para Moscou — disse Slovenski, — Eu, pelo menos, vou. É melhor você planejar o que dizer na reunião das Oito horas da manhã.

Ocorreu uma ideia a Nikolayev.

— Faça esta última pergunta ao agente: o Presidente Ericson sabe a verdade sobre Kolkov?

Quando apresentada a Bok, a pergunta provocou resposta duvidosa:

— Eu não lhe contei. Acho que, a esta altura, Curtice ou Cartwright já devem ter-lhe dito.

— Você dirá a verdade ao Presidente quando o vir novamente?

— Claro que sim. Não escondo segredos do Presidente.

Bom homem, pensou Nikolayev. Era importante que Ericson ficasse a par de que o “sacrifício” de Kolkov fora uma fraude, e que sua Administração conspirara com Nikolayev para sua realização.

Na tarde seguinte, em Moscou, Nikolayev examinava um questionário vindo de um embaixador norte-americano indignado acerca de atividades suspeitas no hospital de Yalta na noite anterior. A enfermeira e o médico americanos insistiam que haviam sido drogados, e não podiam responder por um período de quatro horas. Bok não se recordava de coisa alguma. Nikolayev instruiu o Ministro do Exterior que pusesse imediatamente um avião à disposição dos americanos em Yalta, desde que assumissem responsabilidade pela segurança de Bok em trânsito; ele não permitiria que qualquer suspeita do gênero envenenasse o ambiente diplomático. O embaixador americano recuou; pediria instruções.

— Estávamos planejando dar-lhe uma medalha — foi a mensagem indignada de Nikolayev — porém, se desejam Bok de volta ao lar agora mesmo, nós a mandaremos pelo correio.

O pormenor importante — Nikolayev deixou claro para Slovenski — era o de que não seria deliberadamente divulgada nenhuma informação coletada na entrevista em que fora utilizado o soro da verdade em Bok. Essa divulgação poderia ser usada para constranger a já vacilante Administração de Ericson, e um escândalo poderia fazê-la desmoronar. Ele insistia em que o interesse soviético não seria beneficiado pela queda de Sven Ericson.

— Por que não? — Slovenski era, como sempre, cauteloso.

— Porque eu tenho o que Churchill chamaria de “relações especiais” com Ericson — afirmou Nikolayev. — Ele precisa de mim para permanecer no poder, em Washington. Podemos usar isso.

— Tem certeza de que a coisa não é ao contrário, Vasily?

Nikolayev sabia que isso era verdade, também, mas rejeitou a questão:

— O presidência de Ericson combina com nossos interesses. Nenhuma informação sobre a mentira do agente deverá ser divulgada.

Slovenski deu de ombros. Nikolayev percebeu que, se fosse conveniente à facção dominante do Politburo deixar que se conhecesse a verdade acerca da duplicidade, no ataque a Kolkov e Ericson, então a informação seria ventilada. Caso contrário, se o segredo fosse mantido, significaria — junto com o próprio Nikolayev — uma carta na manga.

O Primeiro-Ministro Interino estava bem a par de que seu futuro se achava agora ligado intimamente ao Presidente americano, o qual ele infelizmente condenara à morte há apenas algumas semanas. A continuação de Ericson na presidência era necessária a Nikolayev na consolidação do seu poder.

O russo tentou imaginar formas de assegurar que a facção oposta no Kremlin não divulgasse coisa alguma das fitas de Bok que enfraquecesse a posição de Ericson. A represa era tão grande como a de Dneproetrovski, e era difícil dizer onde a rachadura começaria a surgir.


O AGENTE DO SERVIÇO SECRETO /3

“Bok voltou!” Harry sorriu diante do cartaz com letras vermelhas carregado por uma delegação de filhos de agentes do serviço secreto marchando na direção da rampa, enquanto sua cadeira de rodas era levada para baixo por dois integrantes do corpo médico. Esse era o tratamento de herói que voltava e Harry achou-o um bocado simpático. Para dizer a verdade, ele o merecia, e era também bom para o Serviço, informar ao mundo que seus homens estavam prontos para oferecer suas vidas. O maduro agente sempre se perguntara se agiria de forma correta quando chegasse a hora — essa dúvida fora agora sanada. Ele tinha certeza, igualmente, de que jamais poria sua vida à disposição novamente.

O novo Secretário do Tesouro, Zack Parker, aquele que surgiu para tomar o lugar de Bannerman, estava ali, já que o Serviço Secreto era uma divisão do Departamento de Tesouro. O Secretário fez um pequeno discurso para as câmaras, o chefe do Serviço Secreto apertou-lhe a mão, e as famílias dos agentes aplaudiram. Muito bem; Harry esperou que isso o ajudasse a obter um cargo no sector de falsificações — pode-se fazer um trabalho burocrático de uma cadeira de rodas. Ele estava disposto a não levar o resto dos seus dias úteis com uma pensão por incapacidade.

Harry beijou sua esposa de novo para os fotógrafos, e recebeu os abraços dos dois filhos, de quatorze e doze anos — dois canastrões, que olhavam para as câmaras enquanto davam boas-vindas ao pai — e foi levado para a sala VIP a fim de conceder entrevistas filmadas. Ele fora instruído: o chefe lhe enviara por telex cópias do que fora dito a respeito da emboscada, pelo Presidente, por Curtice e por Cartwright. Ninguém o informou exatamente sobre o que deveria dizer, a não ser a insinuação geral de permanecer indefinido. Até Smitty, o secretário de imprensa, mandou-lhe um recado: “Guarde alguma coisa para as suas memórias; as ofertas já estão começando a chegar”.

— Poderia dizer-nos, com suas próprias palavras, Senhor Bok, exatamente o que aconteceu na ravina durante o último ataque ao Presidente?

Harry não gostou daquele “com suas próprias palavras”. Parecia história de coluna sentimental, ou da derrubada de alguém sem o domínio do idioma. Mas ele não se deixou irritar; heróis, se desejam continuar heróis, são modestos.

— Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo — declarou aos jornalistas — e não me posso referir com toda clareza aos detalhes. Pareceu-me que o Secretário-Geral Kolkov tentava alcançar o Presidente, ou se arrastava até ele. Não posso jurar isso, porém. De qualquer forma, um bocado das balas e do fogo antiaéreo que atingiu seu corpo teria ferido o Presidente se o corpo de Kolkov não o estivesse protegendo. Todavia, os detalhes ainda me fogem, desculpem. — Não dissera nenhuma mentira; as pessoas poderiam interpretar como quisessem; bem análoga à descrição de Curtice, porém, não tão específica.

Dois dias mais tarde, após ter recebido toda a adulação e espalhafato por sua volta à pátria como jamais se repetiria, Harry recebeu um telefonema mandando que se apresentasse no Salão Oval.

Um agente empurrou-lhe a cadeira até lá; o Presidente, de óculos escuros, estava meio sentado à beira da velha mesa de Hoover. Outro agente pegou o braço do Presidente e o trouxe até a cadeira de rodas de Harry, onde as mãos de protetor e de protegido fizeram contato. O Presidente pediu aos outros agentes que se retirassem, e passou para uma cadeira de balanço, agilmente se desviando da mesa de café repleta de flores.

— É bom vê-lo novamente, Senhor Presidente — falou Harry, e então se perguntou se deveria evitar o termo “ver”.

— Estou vivo, meu chapa, graças a você. — O Presidente parecia forte e animado a Harry; diferente com aqueles óculos, é claro; e a falta de jeito no momento do aperto de mãos não poderia ser esquecida;porém, a despeito disso, Ericson parecia sentir-se confortável no Salão Oval. — E graças a Kolkov, suponho.

— Bem... talvez.

— Cartwright me disse que houve certa confusão a esse respeito, e vocês todos decidiram dar a Kolkov o benefício da dúvida.

— Hã... — Se o Presidente quisesse conhecer a história, calculou Harry, perguntaria; se desejasse saber apenas o que ele sabia, Harry Bok ficaria de matraca fechada.

— Se abra comigo, Harry.

— O corpo de Kolkov estava deitado lá — Harry se abriu, aliviado — e eu o atirei em cima do senhor. A ideia de ele ter salvo a sua vida surgiu quando Curtice e Cartwright entraram no meu quarto do hospital.

— Nenhuma chance de a coisa ser verdade, então? — Havia um tom lastimoso na voz do Presidente; se ele precisava de algum consolo quanto a isso, Harry poderia dar-lhe.

— Claro que há uma chance — ele retrocedeu. — Ele estava com o braço na sua direção, o que deve ter sido seu jeito de cair, ou talvez estivesse engatinhando. Talvez eu o tivesse ajudado a alcançar o senhor; ele poderia estar vivo, não sei, não parei para tomar sua pulsação. Talvez fosse até verdade, não posso jurar que sim ou que não. Foi por isso que não combati a ideia do Curtice.

— Ótimo — disse o Presidente. — Reparei na maneira com que você manejou o assunto na sua entrevista no aeroporto. Evasivo. Harry... — Ericson esticou-se, pés num escabelo, e tirou os óculos. — Nunca minta. Lembre-se de que já lhe disse isso, quanto às suas memórias. O que eu quis dizer foi: “Nunca minta”.

— Nem mesmo a respeito das “donas boas?” — Claro que ele jamais escreveria alguma coisa acerca das mulheres na vida de Ericson, mas gostava de brincar sobre isso, e sabia que Ericson gostava que brincassem com ele a respeito delas.

— Escreva tudo sobre as mulheres — disse Ericson seriamente — mas, lembre-se: elas jamais foram “donas boas”. Não diga coisa alguma enquanto eu estiver vivo, porém, depois que eu morrer lembre-se, primeiro, do meu bom gosto. Mulheres interessantes. A Buffie tem me dado um bocado de dor de cabeça, por falar nisso; quero que você tome providências — Harry ficou surpreso: teria o Presidente esquecido que seu antigo chefe de serviços especiais era agora um aleijado? — e segundo: decoro. Jamais me exibi, nem deixei qualquer mulher ofender o povo americano, morando na Casa Branca. Mantive as aparências. E nunca houve adultério: somente garotas solteiras, de moral elevada, ligeiramente supersensuais — Hank Fowler acha que isso não apresenta contradições de termos.

— Quem é ele?

— Esqueci que você esteve desligado até agora: Fowler é meu psicólogo; o melhor “encolhedor de cabeças” cego do mundo. Dizemos que ele está aqui para me ensinar os truques de como andar por aí, porém, é mais do que isso. Não lhe diga que revelei isso; ele pode ter ideias indesejáveis. Vai ser bom você também falar com ele acerca da vida numa cadeira de rodas.

Harry não pôde evitar a lembrança de que recentemente — apenas há algumas semanas antes — os olhos de Ericson nada perdiam, e suas próprias pernas, que vinham diminuindo o ritmo, ainda funcionavam. O Presidente leu sua mente:

— Sou um cego e você um aleijado, Harry. Pelo menos por enquanto, e talvez para toda a vida. Vai descobrir que no início a depressão é um inferno, mas depois você sai dessa.

— O senhor saiu?

— Quase. Bannerman e Fong, e creio, nosso leal Vice-Presidente, tentaram me botar para fora há uma semana, faz hoje; você soube disso. Eu não confessei a ninguém, exceto um pouco, a Fowler, mas quase desmoronei naquele fim de semana, droga! Fowler, Duparquet, Hennessy: eles me mantiveram inteiro. E quando me senti ferido e quis mostrar a todos que não me podiam imprensar, fiquei cem por cento novamente. Agora estou por cima. O ambiente deste local mudou. Duparquet está na capa do Time e de Newskeek; soube que até a Melinda está caída por ele, e estou pensando em fazer um discurso.

— Como o senhor vai ler o discurso?

— Com um ponto eletrônico na orelha. Mas o principal é que o momento está do meu lado. Bem, para definir melhor, passou a ocasião de me afastar, e as coisas estão mais ou menos no ponto crítico, Entretanto, agora eu aguento qualquer coisa que joguem contra mim, até cair de cara em público. O sentimento de desesperança está, pode-se dizer, lá no fundo, e posso empurrá-lo mais para trás. Não sumiu, mas eu aguento.

Harry assentiu com a cabeça. Quando se lembrou de que Melinda lhe dissera que o Presidente não podia escutar esse gesto, Ericson já estava falando de novo.

— Portanto, a razão pela qual lhe conto isso, e não falei nada para ninguém, bem, há duas razões. Uma é que você é um bom ouvinte, sempre foi, só que agora vai ter de adquirir o hábito de resmungar ocasionalmente, e eu sei que não deixará nada transpirar. Exceto aquilo que eu deseje divulgado. A segunda razão é que sei o que você tem passado, falando sem rodeios, e posso ajudar.

— Vai me ajudar com aquele emprego?

— Bok, você às vezes é um bocado burro. — O Presidente levantou-se, evidentemente pensando em andar pela sala, mas pensou melhor e resolveu sentar-se de novo. — A falsificação pode esperar. Quero você por aqui. Bem pertinho. Há três pessoas em que posso realmente confiar: Hennessy, Melinda e você. Não me posso dar ao luxo de perdê-lo. Além disso — acrescentou; para eliminar parte do sentimento — Herb Abelson não tem bom gosto.

Não vai ficar bem — avisou Harry, sentindo-se seguro o bastante para argumentar contra seus próprios interesses — o inválido guiando o cego.

Ericson rejeitou o argumento:

— Você salvou minha vida, quero-o como companhia e como uma frente. Quem poderá criticar? — Mudou de assunto subitamente: — Acha que os russos o forçaram a falar quando não sabia?

O médico e a enfermeira que o assistiram se queixaram de terem sido postos para dormir naquela noite?

— Pode ser — Harry não sabia disso. Seria verdade, e o que ele lhes teria contado? Ele tinha muito para falar, se os russos soubessem o que perguntar acerca dos métodos e códigos do Serviço Secreto. E dos hábitos do Presidente, das mulheres, tudo. — Acho melhor falar com o Furmark para começar a mudar as coisas por aqui, só como precaução.

— Você não se lembra de nada a respeito de ter sido interrogado, ou incomodado de noite, ou alguma coisa assim?

— Não. A enfermeira americana costumava sentar-se perto de mim até eu dormir. Eu gostava dela por ali. Tinha uma cara inexpressiva, mas um corpo sensacional.

— Isso me faz lembrar — falou Ericson. Desta vez ele caminhou até as portas-janelas, abrindo-as para respirar um pouco do abafado ar de verão, deixando entrar certa dose de humidade no escritório refrigerado. — Dê uma olhada por aí para mim, Harry. Estou um tanto ligado emocionalmente à Buffie, e isso não é bom, preciso de uma válvula de escape. Nada complicado. Entende o que quero dizer? Sabe muito bem o que quero dizer porque Herb me disse que sua vida não foi afetada pela paralisia nas pernas. Fiquei preocupado com isso por sua causa.

— Vai ser meio difícil, mas querer é poder... — Harry falava de si próprio, contudo o mesmo se aplicava ao preenchimento das necessidades do Presidente.

— Quando vocês, caras, quiserem parar — exclamou Hennessy, batendo no umbral da porta — podem apresentar-se como “o aleijado, o coxo e o cego”. Farão uma fortuna no mundo dos discos.

— Acha que ganhamos o voto de simpatia, Hennessy? — O Presidente parecia satisfeito; isso devia exigir alguma prática, raciocinou Harry.

— A Canção para Bernadette devia ser seu primeiro grande sucesso. Isto aqui parece um dia movimentado em Lourdes — Hennessy apertou o ombro de Bok. — Anime-se, olhos claros; antes você que eu. Olhe, trouxe-lhe uma comissão. — E mostrou um documento grande e moldurado, que dizia em letras escritas à mão: “Haroldo Bokstansky, de Illinois. Assistente Especial do Presidente para ligação com antigos Presidentes.”

Harry engasgou.

— Essa é demais! — Um pensamento lhe ocorreu. Mas, não existem antigos presidentes vivos.

— Isso lhe deixa um bocado de tempo para a sua outra função — rebateu Hennessy — e, além disso, Sven Ericson é a coisa mais parecida com um ex-Presidente, após a semana passada. Você está de licença do Serviço Secreto, acumulando direitos de pensão e antiguidade.

— Eu gostaria, Hennessy, que você discutisse essas coisas comigo primeiro — começou Harry, porém, o novo chefe de pessoal interrompeu-o com:

— Mas isso dá uns cinquenta mil — Bok disse: — Aceito.

— Este não é local para pormenores domésticos — disse Ericson. — Aqui é o centro do poder, o Salão Oval. Que está havendo de importante?

— Você não tem escutado o velocíssimo projétil de alta velocidade, o Sumário de Notícias? — perguntou Hennessy. E olhou para Harry: — Você deve ouvi-lo; a porcaria parece um boletim meteorológico para esquilos.

— Já que tocou no assunto — exclamou o Presidente — você podia ler para o Harry o trecho a respeito do comitê Bannerman. Acho bom a gente pô-lo a par de tudo.

— Cliché — falou Hennessy, imitando a velha figura de retórica dos fonógrafos.

— Touché — exclamou Ericson.

— Ei — interpôs Harry — se toda essa gozação está sendo usada em meu benefício, podem parar.

— Leia — disse o Presidente para Hennessy. — Você está carregando a página no seu bolso, arrancada do Sumário de Notícias. — Ele conhecia seu assessor.

— “Duas redes de televisão reportaram” — reportaram, reparem — “comunicados sobre o Comitê para Substituir o Presidente Incapacitado” — leu Hennessy — “com o ex-Secretário do Tesouro, T. Roy Bannerman, como presidente nacional, e uma ilustre junta de industriais, banqueiros e médicos, localizada principalmente no nordeste. Bannerman disse que seria apartidário, e lançaria um movimento de âmbito nacional para admissão de seguidores daqui a duas semanas.” “Não estamos contra Sven Ericson” — falou o senhor Bannerman — “somos pró-Presidência. ..“ O Secretário de Imprensa da Casa Branca, James Smith, declinou de fazer comentários, porém, o Procurador-Geral Duparquet apontou o comitê como “um punhado de maus perdedores, e o povo americano não gosta de maus perdedores”.

— Boa frase — falou Harry.

— Boa pra cachorro — disse o Presidente, caminhando para a mesa e sentando-se na sua beirada de novo. — Eu mesmo a forneci ao P. G. — Dirigiu-se novamente às portas e começou a mexer na maçaneta. — Vamos pegar um pouco de sol; hoje não está muito calor.

Harry fez sinal para o agente na porta do corredor, que alertou os agentes no Jardim das Rosas. Hennessy e o Presidente saíram e se sentaram nos degraus. Bok deslocou sua cadeira de rodas para o topo da escadaria. Ericson virou o rosto na direção do sol, sem semicerrar os olhos.

— Melinda está com o rosto apertado contra a janela olhando para nós — disse Harry. A sala dela era a única outra que dominava o Jardim de Rosas.

— Diga a ela para vir aqui — disse o Presidente. Bok acenou para ela com insistência, e a mulher se juntou aos três.

— Sem roupa de banho? — Hennessy começou a implicar com Melinda, contudo Harry, que sabia que o Presidente tinha alguma cosa em mente, mandou-o calar a boca com um gesto.

— A família é esta — Ericson disse. — Só nos quatro. Um advogado divorcista, uma solteirona, um aleijado e um cego; e estamos comandando uma grande parte do mundo. Temos de confiar um no outro para tudo. Não temos de confiar em mais ninguém. — A voz de Ericson saiu baixa, e Harry calculou que o Presidente pensara um pouco antes de afirmar isso. — Deixem-me explicar primeiro acerca da confiança mútua. Confiança é sempre um risco. Nesta situação, maior é o risco que sofremos ao abrir brechas em informações que nos poderiam matar. Vejam Lucas Cartwright. Ele é homem de confiança, e um patriota, mas não é um dos nossos. Quando descobriu que Buffie fazia contato com Bannerman, não conseguiu ficar a par daquilo que não sabia, isto é, minha cegueira anterior e o incidente no trem com Buffie. Por isso aguardou alguns dias, quando toda a presidência poderia ter entrado pelo cano naquele período. Não foi culpa de Cartwright; é que simplesmente eu não confiava nele totalmente, e tive de pagar o preço.

“Por isso minha teoria é a de que nós quatro temos de partilhar nossas informações a respeito de tudo. Não nos podemos dar ao luxo de lacunas. Hennessy, você não sabe o que Melinda sabe quanto à minha cegueira naquele dia no trem da campanha; pois estou lhe dizendo agora: Melinda sabe. Melinda, você não sabe que Hennessy sabe que você passou a noite de ontem com P. G. no seu apartamento no Columbia Towers; pois Hennessy sabe. Harry: você não sabe que Hennessy e Melinda sabem que os russos lhe tentaram arrancar a verdade; eles sabem, e você terá de contar-lhes tudo a respeito do que acabamos de conversar sobre a emboscada. Nada de segredos neste grupo, senão a gente vai acabar sendo expulsa daqui.

Ericson não terminara. Harry sabia que ele não precisava de perguntas.

— Agora, acerca de confiar em outras pessoas: não confiem. Hennessy, descubra quem foi o contato de Cartwright, o que nos deu a dica sobre Buffie e Bannerman, porém, não conte a Lucas a respeito da cegueira anterior. Melinda, trabalhe o mais chegado que quiser com Duparquet, divirta-sei espero que se torne a Primeira Dama dele algum dia, mas, só lhe conte o que desejamos que saiba, e vou ter de decidir o que isso é. Por exemplo: quero que você conte ao P. G. acerca de Harry, Kolkov e a emboscada porque ele não se pode sentar no Conselho de Segurança Nacional com Lucas Cartwright e Gene Curtice como meu contato principal sem estar a par disso. No entanto, Duparquet não necessita saber do incidente no trem da campanha.

— Harry — Bok observou o Presidente virar-se nos degraus e olhar de modo geral na direção de sua cadeira de rodas, pegar a roda e puxar a cadeira para mais perto dele. — Estou contando com você para mandar os agentes observarem de perto, não-oficialmente, o Vice-Presidente, caso algum negócio esquisito esteja ocorrendo lá. Também Buffie e Bannerman. E Arthur Leigh, o sacana. O chefe do Serviço não pode saber do meu interesse porque tudo é oficialmente fora da minha alçada, e o Serviço Secreto não é um sector de espionagem do Presidente, porém, Harry, você é amigão deles e pode trabalhar por trás da cerca. Entendeu? Não gesticule, fale.

— Entendi.

— Agora vamos recapitular quem não sabe o quê, e quem sabe o quê — disse o Presidente calmamente. Harry gostou da forma por que ficou completamente encarregado de tudo. — Além de nós quatro, as únicas pessoas que sabem a respeito da cegueira no trem da campanha são Buffie, Leigh, e Herb Abelson. Eu tomo conta de Buffie. Você, Hennessy tome conta de Leigh. E Melinda, você escore o Herb quando ele precisar, e me diga quando eu tiver de ajudar.

O Presidente raciocinou por um momento.

— Outro assunto: as únicas pessoas que conhecem a pequena história de Harry a respeito de Kolkov, além de nós, são Curtice, Cartwright, e em breve o Procurador-Geral Duparquet.

— E talvez os russos — acrescentou Harry.

— E talvez os russos saibam de tudo a respeito da cegueira na comitiva de campanha, também, exclamou Melinda.

— Como? — O Presidente perguntou asperamente.

— Se conseguiram arrancá-lo do Harry — ela sugeriu.

Altamente improvável — falou Hennessy. — No podemos estruturar nossos planos nessa remota possibilidade.

— Vamos manter a possibilidade no subconsciente — disse o Presidente. — Muito bem: nenhum segredo entre nós, nenhuma informação deve ser dada a qualquer outra pessoa sobre a qual eu não esteja a par.

— E eu gostaria de dizer apenas — falou Hennessy no fim da palestra — que acho o Procurador-Geral dos Estados Unidos um homem de muita sorte, que eu pessoalmente invejo.

Harry viu Melinda lutar contra reagir, o que a tornou mais rubra.

O senhor ficaria satisfeito em saber, Sr. Presidente — disse-lhe Harry — que a sua secretária está corando. É gostoso saber que alguém por aqui ainda consegue fazer isso.

— Você aguenta um bocado de abuso, Melinda — falou o Presidente — mas eu não posso ficar sem você. Sem Hennessy eu conseguiria mas não sem você.

— Que vamos fazer agora? — perguntou ela, levantando-se — Ficar sentados e contar piadas sujas? — Harry reparou que a revelação do caso de Melinda, feita pelo Presidente, não fora engolida  facilmente, como o Presidente, na sua “jogada” de todos-por-um, poderia ter esperado que fosse. Melinda provavelmente não ficara zangada por Hennessy saber, ou por Harry, que sempre sabia dessas coisas, porém, quanto ao Presidente saber e não se importar, ou parecer não se importar. Harry maravilhou-se diante da complexidade das relações de Melinda com o seu patrão, porém, tinha de admitir que o Presidente não poderia ter evitado de lidar com assunto em família.

Ela empurrou a cadeira de rodas para sua sala, deixando o Presidente e Hennessy na varanda, diante do Jardim de Rosas. Ela fechou as portas envidraçadas por trás de si para conservar o ar condicionado, e ficou atrás da cadeira dele, com os dedos apertando firme os puxadores.

— Acho que sei qual é o problema — Melinda lhe disse quando se achou pronta. — Acho que o problema é que estou assustada.

Harry aguardou. Na campanha do último ano ela de vez em quando confidenciava seus sentimentos a ele; e ele aprendera que perguntas jamais faziam com que ela se abrisse.

— Assustada não é a palavra certa — ela Continuou. — Fiquei assustada a semana passada, pouco antes da reunião do Gabinete, mas depois isso acabou. Agora tenho esse peso profundo no peito. Pavor. Tenho pavor do que vai acontecer. Fico suspirando o tempo todo. Não suspiro desde criança. Harry, você compreende?

O agente conhecia a sensação. Harry lembrou-se de quando deu cobertura a uma multidão num estádio esportivo, dia de inauguração, e um Presidente ia atirar a primeira bola. Deu as costas para o Presidente, e seus olhos haviam percorrido incessantemente duas possíveis fontes de perigo, mas ele se preocupava em que houvesse algum outro ponto que ele deveria estar vigiando. Nada acontecera. O Presidente atirou a bola, assistiu ao jogo durante alguns turnos e saiu discretamente. Sua agitada ansiedade declinou, porém, jamais desapareceu realmente depois disso. Fez com que se sentisse à beira da inutilidade, e pôde entender a necessidade de suspirar de Melinda, de encher os pulmões com ar fresco na esperança de que isso dissolveria o pavor.

— Você acha que alguém vai trair os segredos — disse Harry — e então todo mundo se virará contra nós?

— Não — falou ela, ainda detrás da cadeira dele. Quando eu penso assim, fico preocupada, mas não é a mesma coisa. Mesmo se o episódio do trem vier à tona, a gente pensa numa saída e acaba ganhando. Ericson simplesmente não é um perdedor, você sabe disso. Ele aparece com um Duparquet na hora exata, ou com um discurso de Checkers, ou um discurso dos ministros de Houston, e acaba dando a volta na coisa, acredito nisso. E você também devia acreditar, Harry.

— Obrigado pela conversa animadora — disse Harry. — Mas sobre o que você está resmungando?

— Jamais terminará — ela falou. Vai até ficar pior. E quanto mais a gente se mexe na areia movediça, mais impossível fica sair dela. Acho que meu pavor é se ele vai cair; e a única coisa que o Patrão possui agora é que jamais falhou. Você sabe o que sinto por ele, Harry, e eu gostaria de ajudar, mas ele me afastou, me enfiando num pombal. Secretária leal. Não posso chegar a ele; nunca pude, porém, agora parece que não existe droga nenhuma de qualquer esperança.

Harry surpreendeu-se começando a suspirar, e cortou logo essa.

— Talvez seja uma ideia boa ter um homem como Hennessy por perto — disse. — Eles todos precisavam de um inflexível sarcástico.

— Hennessy aprendeu um bocado daquele papo chato, na última campanha, com aquele sacana do Leigh — disse ela, finalmente soltando os puxadores da cadeira de rodas e caminhando para a sua mesa. — Hennessy se desesperou uma vez a respeito de alguma coisa, e Leigh cuidadosamente escreveu um bilhete num pedaço de papel e lhe entregou, mandando-o manter sempre na carteira. Dizem que o sustentou na política através de todas as guerras. Aposto que Hennessy ainda o tem. Diz: “É Dureza em Toda Parte.”

Harry observou Melinda endireitar a blusa e revirar uma pilha de cartas, encenando estar muito ocupada — o que a levou realmente se ocupar. A luz do seu telefone piscou.

— Irmão Jonathan — disse firmemente — já é hora de você merecer o dólar dos contribuintes. O Homem gostaria que você trabalhasse num discurso com ele. Seu bilhete diz: “Relações exteriores, quinze minutos e nada mais; quero Jonathan trabalhando diretamente comigo; e ninguém convocado da Secretaria do Estado”. — Lendo de cabeça para baixo, Harry viu que o bilhete transcrito de uma fita de ditafone dizia: “Providencie o tal Jonathan não-sei-de-quê; quero alguém que transcreva minhas ideias, não que tente vender-me as suas”.

Harry empurrou sua cadeira até a porta do corredor da Ala Oeste. Furmark, chefe dos serviços de segurança estava parado perto da estatueta de Nathan Rale, e se aproximou para ajudar.

— Não quero você — avisou Harry. — Quero a Tenente Kellgren, minha enfermeira. Gosto do jeito de ela empurrar: muito suavemente, mas, com firmeza.

— Ela está na sala de repouso dos agentes — disse Furmark, empurrando-o até o elevador. — Ela é bem quieta. O pessoal acha que ela é muita alta e peituda para você, mas eles a aceitaram.

— Que bom! — exclamou Harry. Diga a eles que olhem, mas não toquem. Tenho planos para ela. E me arranje uma geral sobre Bannerman e Leigh, e sobre Buffie e o Vice. Por falar nisso, diga a quem lhe deu a dica sobre Melinda e o Procurador-Geral pra calar a boca e deixar de ser um fofoqueiro intrometido.

— Falou — disse Furmark. — Tem alguma viagem por aí?

— Nenhuma viagem — disse Harry. — Ericson fica sentadinho aqui mesmo. Ele gosta da Casa Branca.


O COLUNISTA

— Eu escrevo como um jumento pretensioso — disse Samuel Zophar à filha, que gentilmente lhe trouxera uma xícara de chá. — Já reparou nisso?

— Não é verdade — respondeu a jovem, que já deveria estar casada, a esta altura, mas que o cronista reconhecia como incorrigível perfeccionista quanto a homens e palavras. — Você escreve como os melhores escritores, sentado frente a uma máquina de escrever. Apenas, o que você escreve sai como se tivesse sido escrito por um jumento pretensioso.

— Não é fácil — disse Zophar. — Qualquer um pode escrever prosa inglesa boa, limpa e lúcida. Nem todo mundo, porém, pode mergulhar na pretensão de uma forma que intimide políticos e leitores ao mesmo tempo.

— Por isso é que o chamo de “Pai” — concordou ela — e não de “Paizinho”, “Papá”, nem “Papaizinho”. Nem pelo seu primeiro nome, como fazem tantas filhas agora. Uma das razões pela qual todos nós o amamos é que você se esforça para ser um jumento pretensioso, que achamos que temos de ajudá-lo nisso.

— Se uma filha minha me chamasse pelo primeiro nome — retrucou ele — eu a deserdaria no acto. Esse é o problema da família americana de hoje em dia: não há deserdações suficientes.

— Tem-se de ser rico para deserdar alguém; de outra forma não vale.

— Ah, mas sua herança tem mais valor do que dinheiro, minha querida: é o poder. O nome Zophar provoca um calafrio nos corações dos poderosos. Apareço em trezentos jornais e cento e sessenta e oito estações de televisão. E tudo se fundamenta na minha suposta pretensão. — Tirou os óculos e a olhou carinhosamente. — Você entende, claro, que alguém que esteja fingindo ser um asno pretensioso, jamais poderá sê-lo, no fundo do coração.

— Nem tanto — sua filha o contradisse novamente, conforme ele lhe ensinara, mas começava a se arrepender. — Você costumava somente fingir que era pretensioso. Acontece que assumiu bem demais o papel de pretensioso, durante tempo demais, e agora a imagem se transformou no homem.

— Você tem trinta anos de idade — assinalou Zophar. — Por que não acha um marido para atormentar com sua tola psiquiatria de amadora?

— Tenho fixação paterna pretensiosa — falou ela, beijando-o na cabeça — e sou o que eles chamam de “sem graça”. É hereditário, contudo não culpo você.

— Aparência não conta mais. Ou conta? — Zophar fez uma anotação no seu bloco, e jogou-a na gaveta de “ideias para a coluna”. — Estarão as pessoas com medo de políticos com boa aparência, preocupadas em serem envolvidas por um rosto bonito? Ou ainda estarão encantadas pelo boa-pinta Harding, que se encaixa na imagem que um diretor de elencos tem de um Presidente?

— Harding foi o único editor de jornais que se tornou Presidente — disse sua filha, fechando a porta suavemente.

Zophar olhou fixo para a parede branca à sua frente. A parede nua era sua melhor “fonte”. Ele recebia uma dica de vez em quando, uma confidência ou uma análise passada adiante numa festa, mas não agia como um repórter. Correr por aí em busca de notícias não condizia com seu auto-retrato do Colunista de Washington. A contribuição que tinha de fazer era a de detetar ou dirigir tendências, de fazer reluzir ou manchar reputações; e introduzir um toque de sabedoria — sabedoria não era termo muito exagerado nos papos e na feitura de notícias agitadas no centro da política. A parede nua era sua companheira lá embaixo, na sala de jantar onde deslumbrava os ataviados personagens transitórios no poder, ele revestira as paredes com quadros assinados e anotações dos grandes ou famosos. Aqui, à sua máquina de escrever, nenhuma distração: apenas uma pretensiosa parede vazia.

As aparências contavam, concluiu Zophar. Não a beleza, mas a aparência confortadora e tranquilizadora. Cara de ator de cinema podia ser negativo, porém, traços rudes eram quase divinos. Ericson tinha cara de Presidente: era mais velho do que parecia, alto e ligeiramente curvado, montões de rugas que lhe emprestavam personalidade, peludo, cabelo desalinhado, maxilar forte, olhos penetrantes. Costumava ter olhos penetrantes, Bannerman, por outro lado, era fisicamente semelhante à caricatura frequentemente feita dele: imponente, impassível, grande demais para ser bom. “O simples tamanho não é pecado”, dizia o Presidente Taft, com todos os seus cento e vinte quilos, porém ninguém confiava num homem desse tamanho. Zophar também não confiava em Bannerman, mas por motivo menos superficial. o ex-Secretário do Tesouro desconhecia sua própria arrogância. O financista convencera-se de que agia no interesse público o tempo todo; não ocorria a Bannerman que ele gostava — e até vivia da atração do poder. Zophar, que frequentemente assumia de propósito um papel olímpico, não conseguia compreender como qualquer homem podia realmente acreditar que vivia no topo do Olimpo.

Ericson e Bannerman. As relações desses dois talvez dessem um bom livro, da forma como o prendado Stewart Alsop contratava Nixon e Rockefeller. O afastado-dos-eleitores Bannerman não era um Rockefeller, e o friamente irônico Ericson estava a grande distância de Nixon, todavia, a presença de uma cobra e um mangusto no mesmo lado da avenida política era instrutivo. Zophar achava que Bannerman estava certo a respeito de Ericson: o Presidente estava errado em se apegar ao poder quando obviamente não podia corresponder à função; entretanto, ficaria Zophar mais à vontade com Bannerman dirigindo a nação através do seu zero-à-esquerda, o Vice-Presidente Nichols? E se falava de Harding! No todo, calculou o cronista, um Nichols manipulado era melhor do que um Ericson inutilizado.

Sua filha bateu e meteu o rosto pela porta.

— Um homem ao telefone chamado Gregor — falou. — Não deu outro nome. Deve pensar que é a Garbo. Parece muito misterioso, possivelmente um pirado. Devo dizer a ele para escrever?

Zophar tinha um número telefónico que não constava no catálogo, o que era arriscado para um jornalista — como a piada do número do Corpo de Bombeiros de Beverly Hills que não constava na lista — mas ele não era do tipo que recebia dicas não solicitadas. Nem tinha uma extensão do telefone no seu estúdio porque poderia tentá-lo quando estivesse escrevendo. Hoje ele não tencionava atender a chamados.

— Ele é russo — disse à filha. — Eu atendo.

Gregor era uma fonte razoavelmente boa, semi-oficial, útil não apenas pelo que revelava, mas no facto de ser ele a revelar. Jamais telefonara para a casa de Zophar antes, nem o colunista lhe dera o número. Lá embaixo, em frente ao retrato de George Marshall feito por Karsh, Zophar pegou o fone, escutou um pedido de encontro, e concordou quanto à hora, porém mudou o local para o bar do Hotel Hay-Adams. Lugares públicos eram melhores.

No fim da tarde, Zophar pôs o chapéu mole de feltro — ninguém usara um desde a posse de Eisenhower — e entrou no seu Checker Marathon: ninguém importante possuía um desses espaçosos táxis, tampouco. O motorista levou-o da sua residência, em Wesley Heights, para o estúdio de televisão perto da Casa Branca, onde ele gravou um vídeo-tape de dois minutos acerca de provável cisma no mundo semita. Ele sempre acreditou que “lá no fundo, judeus e árabes ainda não confiavam uns nos outros”, e continuava sem aceitar o estarrecedor facto de sua recente aliança, que viera contra sua opinião, frequentemente expressa.

Zophar chegou cedo para seu encontro no Hay-Adams, contudo um homem de rosto enrugado e uma barriga displicentemente derramada cumprimentou-o no vestíbulo.

— É “o sacana do Leigh” — disse o colunista animadamente, e convidou o político para beber. Uísques puros nas mãos, discutiram o estado da Administração Ericson, e Leigh — para surpresa de Zophar — não demonstrou animosidade. O colunista soubera, por Bannerman, que as forças anti-Ericson consideravam Leigh do seu lado. No entanto, Bannerman atualmente era um perdedor, e Zophar acreditava que perdedores não tinham aliados, somente ex-amigos. Em vão tentou sondar Leigh algumas vezes, admirou suas evasivas não comprometedoras, e finalmente divisou Gregor, seu contato soviético, olhando para ele de uma cadeira do outro lado do salão escuro. — Arthur Leigh — e levantou o copo em despedida — eu o saúdo com a clássica fala de Shakespeare: “Deus: levante-se para os sacanas!”

— Zophar gostava desse tipo de aparte. Deixou Leigh e se juntou ao homem que viera ver.

— Por favor, vá direto ao assunto, Gregor — disse. — Sem suas habituais recordações dos almoços que fizemos nas “agulhas espaciais”, vendo Moscou de cima.

— Eu me esquecera desse almoço — observou o compacto agente Soviético. — Você apostou que nossa encantadora garçonete era sueca, e eu disse que era russa, e você pagou no momento em que ela falou Pajolsta.

— Por que estamos nos encontrando?

— Tenho uma informação importante — disse Gregor. — Talvez seja a maior história que jamais consegui transmitir. Por algum motivo, minhas fontes desejam que o ouvinte seja você.

Zophar nada disse. A lisonja e a fala promocional faziam parte do Contato, embora Gregor parecesse mais agitado do que usualmente se permitia demonstrar.

— A emboscada em Yalta — disse Gregor — foi tramada por Vasily Nikolayev e o Presidente Ericson. O alvo era Kolkov. Ele era o único alvo.

Zophar conteve uma reação, depois deu um olhar de desprezo para o agente soviético.

— E o Presidente Ericson concordou que o cegassem só para dar a impressão de uma emboscada comum.

— Reconheço ser uma ideia difícil de assimilar imediatamente. Não, Ericson não deveria ser machucado. A suposta história dizia que ele foi salvo pela acção heróica de Kolkov, que deveria morrer no momento em que salvasse Ericson dos atacantes.

— Prossiga — disse o cronista. Estava surpreso porque um agente russo qualquer recebera o “vá-em-frente” para divulgar essa espécie de história. Podia significar que Nilcolayev estava sob ataque em Moscou naquele mesmo instante. Isso era muito mais interessante do que a coisa sem-pé-nem-cabeça que Gregor propagava.

— Nikolayev e Ericson concordaram que a emboscada fosse efetuada — Continuou o russo — e que Kolkov fosse assassinado. Kolkov foi morto instantaneamente conforme planejado, assim que o helicóptero foi forçado a aterrar. Por que outra razão o aparelho não foi destruído no ar? O chefe de segurança do Serviço Secreto americano Harry Bok, atirou o corpo sem vida de Kolkov em cima de Ericson, na vala, conforme combinado. Depois, cumprindo ordens do seu Secretário de Estado, ele veio com a história de que Kolkov morrera tentando proteger Ericson, transformando Kolkov num herói. Ericson não deveria ser ferido, sua concussão e a cegueira não podiam ser previstas.

— Qual foi o propósito disso tudo?

— Kolkov estava pensando em um golpe pré-esvaziador nas potências do Extremo-Oriente. Nikolayev, que todos pensávamos fosse homem leal a Kolkov, queria detê-lo e tomar seu lugar. Entretanto, a força de Nikolayev no Politburo vinha dos homens de Kolkov, portanto, Kolkov tinha de ser um herói morto para Nikolayev ser seu sucessor natural. Está me entendendo?

Zophar fez sinal com a cabeça para que continuasse.

— O acordo foi montado entre Cartwright e Curtice, representando Ericson, e o americano em comando da operação era o Bok.

— Como é que os soviéticos nada disseram, e Nikolayev é o Primeiro-Ministro Interino?

Gregor sacudiu a cabeça vigorosamente e deu um gole na bebida.

— Nikolayev não está mais no poder. Está no processo de ser substituído. A história da coisa terrível que os americanos fizeram deveria partir dos americanos, como parte da sua tradição de investigações. Foi por isso que me ordenaram transmitir-lhe tudo.

Zophar estava cauteloso. Tinha muito a perder se o que Gregor dissera fosse parcialmente verdade, e ele o desprezasse. Tinha mais a perder ainda se acreditasse, e a história fosse ou uma difamação ou uma encenação malograda de poder por uma minoria anti-Nikolayev no Kremlin.

— Preciso da corroboração de alguém mais alto do que você, Gregor. Talvez do embaixador.

O agente soviético balançou a cabeça.

— O embaixador é homem de Nikolayev que dentro em breve será substituído. Ele pode até ter entrado na trama com Cartwright e Curtice. Riria de você.

— Provas — disse Zophar. — Sem dúvida você tem provas para me convencer disso. Antes que eu use qualquer partícula da informação, preciso ver as provas. — O propósito da sondagem do agente soviético, calculou Zophar, era conseguir que um poderoso colunista fizesse perguntas no mais alto nível do lado americano, o que talvez provocasse uma reação no país, capaz de ser útil a uma “panelinha” que tentasse destituir Nikolayev em Moscou. Isto é, se ele já não tivesse sido exonerado, nunca se sabia. — Eu estaria doido — exclamou Zophar — se pusesse toda a Casa Branca em polvorosa baseando-me na sua frágil teoria, sem um simples traço de prova genuína. Que provas você tem?

— Não tenho nenhuma — disse Gregor. — Somente a verdade. E ela surgirá; se não por seu intermédio, por intermédio de alguém. É apenas questão de tempo.

Zophar deu de ombros; ele não se precipitaria.

— Como você sabe que é verdade, Gregor, e não simplesmente um conto de fadas anti-Nikolayev? Tenho certeza de que não o embromaria, nem que você tentaria me embromar com base num telefonema interurbano. O que você tem em seu poder?

O russo balançou a cabeça:

— Estou de posse dessa dica por três dias; depois eles usarão outra pessoa ou outra técnica inteiramente diferente. Faça as suas verificações, eu farei algumas por mim. e veremos o que lhe pode ser revelado do meu lado. Quanto tempo precisa para obter uma resposta do Ericson?

— Não estou dizendo o que farei ou não farei — disse o colunista. — Onde, fisicamente, está Nilcolayev neste momento? Sob prisão domiciliar? Em Moscou?

— Não sei.

— Dê-me um detalhe que seja confirmável; se a sua história for verdadeira, a Casa Branca saberá que a conheço.

O agente soviético hesitou. Zophar imaginou que estava tentando parecer dramático. Finalmente Gregor disse:

— Bok talvez tenha falado sem saber. Foi por isso que Ericson o chamou de volta aqui tão repentinamente.

— Sem saber?

Gregor balançou a cabeça; isso era o máximo que iria revelar. Pegou o resto da bebida, tomou-o, e falou:

— Vou deixar você pagar as bebidas, mas não ponha meu nome nas suas despesas de representação. Vamos nos encontrar aqui, amanhã, para o desjejum às nove horas. Se não me puder mostrar como investigou a história, ficarei decepcionado e pouco comunicativo.

Zophar saiu rapidamente do Hay-Adams, acenou para o motorista do seu Checker Marathon, entrou no carro e ficou sem jeito ao reconhecer que não sabia que destino informaria ao motorista.

— Aguarde aqui — falou depressa, e entrou correndo de novo no hotel. De uma cabina telefónica, ligou para o Departamento de Defesa e mandou chamar Lucas Cartwright. O antigo chefe da Casa Civil, agora Secretário da Defesa, estava no Alasca. O colunista pensou em ligar para o Departamento de Estado, porém achou que George Curtice iria apenas confundi-lo. O assunto teria de ser encaminhado ao Presidente para comentários, e voltar diretamente a ele, sem se espalhar pela cidade toda. O diretor-substituto da CIA era um amigo de longa data, contudo Zophar sentia que a CIA fora cortada do caso. Se alguma parte da história tivesse acontecido mesmo — continuava ele, com seus botões, verificando sua inclinação para aceitar a história de Gregor como parcialmente genuína — no mínimo a dica significava que uma facção do Kremlin acreditava seriamente num golpe contra as potências do Extremo-Oriente, e poderia estar tentando aliciar alguns homens pró-Kolkov para seu lado. Isso tinha de ser levado à atenção do Presidente.

Zophar conhecera Hennessy em festas, e não confiava nele nem um pouco; ele estava fora de cogitações. O Procurador-Geral? Não, tinha de ser a Casa Branca, e alguém que desse proteção à história. Por que não o Secretário de Imprensa? Normalmente seria contrário ao código do colunista apelar para o Secretário de Imprensa, a quem recorria todo o resto da imprensa, porém, com Lucas Cartwright ausente, James Smith podia ser o homem. Zophar ligou para a Casa Branca.

O Secretário de Imprensa não se achava lá. Era bem de Smitty, ir na mesma viagem idiota ao Alasca exatamente quando se precisava dele, pensou Zophar, furioso — e deixar o sector de imprensa presidencial nas mãos de algum jovem enfeite de Vassar. Que tipo de governo estava supostamente encarregado de dirigir os Estados Unidos? A maior parte dos cargos estava entregue a gente em quem ele não confiava, ou a gente que não conhecia, ou a gente que conhecia e em quem confiava, mas que se achava fora da cidade. Zophar não tinha alternativa: deixou recado que iria visitar imediatamente Marilee Pinckney.

Entrou no carro, rodeou o Parque Lafayette, saltou perto do portão da Avenida Pennsylvania, mostrou rapidamente o pouco usado passe de imprensa, e entrou no escritório do Secretário de Imprensa, ocupado por uma jovem alta, digna, de suéter e saia formais, com quem o colunista trocou um aperto de mãos.

— Só vou tomar um momento do seu tempo — falou, querendo dizer que só dispensaria a ela um momento do tempo dele, pois desejava mostrar que não estava acostumado a lidar com subalternos, a menos que eles lhe trouxessem informações úteis. Reparou que a Senhorita Pinckney não fez espalhafato nem o adulou: simplesmente uniu as graciosas mãos e esperou seu pronunciamento. — Entrei na posse de certas informações — prosseguiu ele — que, se verdadeiras, poderiam representar uma fonte de problemas para o Presidente e a nação. Como jornalista responsável, quero verificar os factos antes de correr para imprimi-los.

— É claro, Senhor Zophar — disse respeitosamente a jovem. —- Estou à sua disposição. Qual é a história?

— Já que concerne tão direta e pessoalmente ao Presidente, eu prefiro discuti-la com ele a sós.

Ela sacudiu a cabeça:

— Não vejo nem como eu poderia pedir uma entrevista exclusiva com o Presidente em seu nome, sem saber do que se trata.

Ele se levantou.

— Não assuma para si mesma a tarefa de dizer “não” sem verificar junto ao próprio Presidente, Senhorita Pinckney. Por favor, diga-lhe, primeiro, que é um assunto de grande preocupação pessoal para ele mesmo e sua presidência. Depois, diga-lhe que espero, naturalmente, ter minha exclusividade assegurada.

Ela hesitou.

— Não me pode dar nem uma indicação? De outro modo, vou parecer inexperiente ou indigna de confiança, e nenhum de nós deseja isso.

Ele reconheceu a necessidade dela. Era, evidentemente, uma mulher competente, não no nível com o qual ele gostaria de lidar, mas poderia ser útil para se chegar ao topo rápida e silenciosamente. Ocorreu-lhe também que essa mulher simpática e inteligente poderia ter um canal direto com o Presidente.

— Deixe-me escolher as palavras cuidadosamente — disse ele, e ficou satisfeito ao vê-la pegar um lápis. — É uma questão que certo agente do Serviço Secreto revelou sem perceber. — Ela esperou por mais. — Isso é tudo que direi — falou ele.

— Entendi — disse ela, destacando o recado do bloco. — voltarei ao senhor amanhã.

— Esta noite seria melhor — pressionou ele. — Não sou do tipo melodramático, Senhorita Pinckney, mas este não é um assunto que tolere demoras de qualquer espécie. Se tem acesso ao Presidente, leve-o a ele diretamente; senão, leve-o a alguém que o faça, e informe-o da urgência que estou lhe tentando transmitir.

— Pode confiar em mim, Senhor Zophar — disse ela — e sei que o Presidente saberá dar valor ao seu senso de responsabilidade ao vir nos procurar em primeiro lugar.

Bem posto. Zophar torceu para que ela tivesse um relacionamento íntimo com o Presidente, para bem de todos.


O NOVO CHEFE DA CASA CIVIL

— Não é nada de mais — assegurou Hennessy à moça. — Acho que sei aonde ele quer chegar.

— Samuel Zophar é o jornalista mais pretensioso que já conheci — disse Marilee, encarapitada na cadeira Queen Anne para visitantes, na sala antigamente ocupada por Lucas Cartwright, que se mudara para o Pentágono. — Ele é um prodígio. Intimidou-me até as entranhas. Pensei que era o fim do mundo. — Ela sorriu afetuosamente para Hennessy. — Você é um verdadeiro consolo, sabia? Eu estava prestes a entrar em pânico e ir correndo para o Presidente. Por falar nisso, onde está o Homem?

— Na Sala de Estar Lincoln — replicou suavemente Hennessy — onde os Presidentes se escondem. O Jonathan Não-Sei-De-Quê, o redator, está com ele; andaram trabalhando a semana toda com um discurso sobre relações exteriores. Se quiser, revele isso na reunião de amanhã.

Hennessy viu Marilee escorregar para o fundo da cadeira, mordiscando a ponta do lápis e estudando o sofisticado candelabro. A mulher mais genuinamente linda e mais conscientemente desinibida da Administração Ericson, pensou Hennessy, e este pensamento neutro fundia-se com a constrição induzida pelo pânico, na cavidade do seu peito. Puxa!, pensou ele, começou o primeiro desmoronamento, com as notícias saindo da boca de um tolo.

— Devo voltar a falar com Zophar hoje à noite — disse ela. — Por que lhe fui prometer isso?

— Porque deseja mostrar que trabalha à noite — disse-lhe Hennessy — que não fica por aí transando com os caras, e está pronta a empurrar o Smitty para o esgoto.

— Não é verdade. Quero que Smitty vença. Em algum lugar.

— Quando o Secretário de Imprensa ligar da Vertente Norte — falou Hennessy casualmente — não entre no assunto com ele; Smitty quereria lidar com o caso pessoalmente, e isso é uma coisa que o Presidente gostaria de ter oportunidade de resolver. — A sensação de pânico que o dominara assim que ela transmitiu o recado estava diminuindo. — Diga ao Zophar, por volta das dez da noite, que você falou comigo e eu disse que me reuniria com o homem do Serviço Secreto de manhã bem cedo.

— E você vai mesmo?

— Sim; acho que foi Harry Bok quem falou enquanto dormia, ou outra coisa que aconteceu na Rússia, e ele pode ter revelado um daqueles códigos ou senhas do Serviço Secreto. Não é nada demais; eles podem aprender a rosnar alguma coisa diferente, ou usar microfones diferentes. Que foi mesmo que Zophar disse?

Ela releu suas anotações:

— “É uma questão que certo agente do Serviço Secreto revelou sem perceber”.

Hennessy assentiu com a cabeça, como se isso confirmasse a pouca importância da coisa.

— Trate o Zophar seriamente; ele acha que tem uma grande informação. De qualquer forma, você deseja manter sua boa vontade.

Eu lhe direi o que falar a ele de manhã. — Até onde Zophar conhecia a história? Teria Buffie contado? — Tire o rabo da cadeira e diga à Melinda pra enfiar a cabeça aqui dentro quando você sair.

Marilee levantou-se em lânguida serenidade.

— Sem dúvida você passou do degrau de Assessor Íntimo para o de Executivo, Senhor Patrão. Agora existe um quê realmente excitante na sua voz.

Ele sorriu, sentindo-se mal. Quando a porta se fechou por detrás dela, pegou um fone e disse:

— Diga ao Bok que preciso falar com ele agora mesmo, e que faça aquelas rodas queimarem borracha.

Derramou uma colherada de espesso antiácido branco, engoliu, fez uma careta, e pôs as mãos no estômago por um momento. Quem transmitiria a informação para Zophar? E em que quantidade?

Hennessy sugeriu a si mesmo que se organizasse, começando com os factos à mão. Seis ou sete pessoas estranhas ao Serviço Secreto sabiam da possibilidade de Harry Bok ter falado aos soviéticos sob hipnose ou soro da verdade naquela última noite antes de ser levado para fora da União Soviética. Qualquer outro que soubesse da cegueira anterior do Presidente também seria capaz de somar dois mais dois, pela forma apressada com que Harry fora arrebatado de volta. Uma possibilidade: a de que os russos estivessem divulgando o que houvessem sabido de Harry Bok acerca da cegueira anterior de Ericson. Outra possibilidade: a de que Buffie, Herb Abelson — que ainda se encontrava abalado e cada vez mais preocupado — ou Leigh houvessem dado uma pista que tivesse chegado a Zophar. Talvez um deles tivesse informado Bannerman, que deu a dica a Zophar. Fique calmo, disse Hennessy para si mesmo; isso pode ser uma daquelas pescarias organizadas, e quando você é o peixe parece que o oceano fica cheio de anzóis, mas quando você é o pescador parece que o oceano é muito grande e tem poucos peixes.

Melinda e Bok chegaram quase simultaneamente.

— Marilee me informou — disse Melinda — sobre algum assunto sem importância, a respeito de um colunista a par de que Harry cantou alguma coisa para os russos.

— Merda! — exclamou Bok, afundando na cadeira de rodas. — Eles arrancaram alguma coisa de mim, sabe Deus o quê.

Hennessy fez uma anotação no seu bloco: descobrir, com Hank Fowler, se era possível pôr alguém sob hipnose ou o soro da verdade e extrair dele o que já revelara a outra pessoa, forçado pela mesma técnica ou droga. Ajudaria saber quanto os russos sabiam.

— Primeiro temos de descobrir o que foi revelado — disse Hennessy, mostrando-se convenientemente calmo. — É provavelmente algum detalhe que foi transmitido numa questão de horas, já que Zophar está preocupado em que algum jornalista “fure”, e está agindo depressa. Harry e a Buffie?

O agente do Serviço Secreto pegou o transmissor em seu colo, falou brevemente e sintonizou o receptor no ouvido. Logo após reportou:

— Ontem à noite ela esteve com o redator, Jonathan Trumbull, e hoje pela manhã esteve no laboratório fotográfico; esta tarde, até o momento, está ocupada em compromissos aqui na Casa Branca. Não telefonou a Bannerman ultimamente, nem fez nada fora do comum. Ela me abordou há cerca de uma hora atrás: quer estar com o Chefe hoje à noite, mas eu tenho coisa melhor para ele, e disse que não.

Hennessy não aguentou aparentar calma. Deixou-se caminhar pela sala.

— E Abelson? — Ele não gostava da maneira apática pela qual agia o médico do Presidente. Bok balançou a cabeça:

— Não — Herb está em Camp Hoover, ainda pescando. Mandei alguns caras comprarem truta viva e desviar o rio que desce das montanhas; Herb pegará mais ou menos um terço das que passarem. Dizem que ele é um bocado fechado; não tem telefone e nem recebe visitas.

— E Leigh? — Hennessy não estava preocupado com Leigh; há dois dias viera um telefonema do Tennessee a respeito de um homem recomendado para diretor do departamento de rodagem, e Hennessy pessoalmente dera ordem ao gabinete do governador para o nomearem. O “vale” estava pago, e Leigh era um político. Hennessy não esperava problemas da parte dele, visto que guardar segredo era essencial para Leigh.

Bok operou seu equipamento de comunicações, franziu a sobrancelha, pediu verificação e repetiu:

— Leigh tem visto Bannerman aqui em Washington na casa de Bannerman nos últimos dois dias.

— Hoje, esta tarde?

— Esta tarde — disse Bok. — Arthur Leigh teve o que o agente descreveu como o que “parecia um encontro casual” no vestíbulo do Hay-Adams com o colunista Samuel Zophar. Beberam durante uns dez minutos, então Leigh foi à casa do Vice-Presidente Nichols, onde se acha agora.

— O descarado — desabafou Hennessy — o filho da puta traidor! E eu pensei que tinha “cuidado” dele — Hennessy não cogitara da possibilidade de que Leigh pudesse receber oferta melhor.

— A que horas ele bebeu com Zophar?

Bok confirmou:

— De cinco e vinte às cinco e meia.

— Imediatamente após, Zophar fez contato com Marilee — observou Melinda.

Hennessy fechou os olhos.

— E ele esteve na sala dela às seis, e ela esteve aqui antes das seis e meia. É isso. Aquele filho da puta do Leigh; nunca pensei que o informante da cegueira anterior pudesse ser ele.

— Não se precipite — avisou Bok — vamos conseguir um relatório daquele jantar nos Bannermans hoje à noite.

— Esperarei por isso — replicou Hennessy, devolvendo um olhar agudo. — Preciso saber quem esteve lá e tudo o que falaram. Dê muita força a isso, Harry. Se tiver de se arriscar um pouco, valerá a pena. Cuidado com Zophar, viu? Não quero ser apanhado de olho nele; e provavelmente ele está com um pé na frente e outro atrás agora mesmo.

Ficaram em silêncio por um momento.

— Tinha de acontecer — disse Melinda. — Desde aquele macete de uma-grande-família-feliz do outro dia, eu sabia que tinha de acontecer.

Hennessy atirou-lhe um olhar duro; não queria que ela desmoronasse ou se emocionasse. Isso ia requerer rigidez mental e certa vontade de jogar, e todos eles precisavam ter os nervos em forma. Ele torceu para que Ericson estivesse à beira de uma grande decisão. Bok disse que ia jogar outra mulher que não Buffie na cama do Patrão naquela noite, o que era bom. Ericson tinha sentimentos difíceis de definir em relação a Buffie — descontando o bom gosto — mas o que se precisava esta noite era de uma coisa satisfatória e não complicada. E a enfermeira de Bok, de seios grandes, serviria perfeitamente.

O Presidente se achava na Sala de Estar Lincoln com Jonathan, o redator de discursos que, Hennessy bolara, andava trepando com Buffie também. O garotão provavelmente estava com medo de que o Presidente descobrisse. Por bondade, nem Bok nem Hennessy haviam ainda mencionado a ligação Buffie-Jonathan a Ericson. Talvez fosse boa ideia escondê-la do Presidente porque ele ia precisar muito daquele redator, e logo. Não era de espantar que o garotão quisesse proteção de Cartwright, como recurso: ele estava jogando o Presidente para o alto. Qualquer outro desejaria que o Presidente soubesse de sua lealdade. Hennessy resolveu ainda não dividir essa conclusão com Melinda e Bok.

— Então, o que acontece agora? — perguntou Bok. — A gente nega a história e espera que ela desapareça?

— Podíamos esperar a volta do Smitty — disse Melinda — e ele negaria tudo. Ele não estava na comitiva de campanha; estaria dizendo a verdade

— Não adiantaria — declarou Hennessy — e seria moralmente reprovável. Chega de mentiras; chega de viver com um segredo horrível. De agora em diante, diremos a verdade.

Hennessy divertiu-se com a maneira com que olharam para ele.

— Não, isto não está sendo gravado — disse ele. Suas ideias estavam apenas semiformadas, porém, ele as testava neles. — A sinopse número um é aquela em que a gente espera para ser atingido. Zophar, Leigh, Bannerman e Nichols: pegam todos os seus patos numa fileira e acabam conosco. Calculo que eles operem com perfeição: primeiro a coluna é passada pelo “fio”, depois todo mundo cobre a história na televisão. Engendramos algumas desculpas esfarrapadas e diz que sentimos muito não ter dito antes que o Presidente estava cego, e a merda se espalha pelo Congresso. “O Presidente mentiu pra nós. Ele não revelou tudo! Tem mentido o tempo todo, enquanto a gente se solidariza com ele”. Tudo isso, e então vem a sugestão do impedimento, e todo mundo berra para que ele renuncie

— Tem outra sinopse, Hennessy? — perguntou Melinda.

— Sim. Golpe pré-esvaziador. Vamos admitir que nossa suposição sobre Leigh e Zophar seja verdadeira e esta noite o Vice-Presidente e Leigh tramem a sucessão. Saberemos lá pelas onze horas, certo, Harry? — Bok assentiu com a cabeça. — Muito bem. A gente bola um discurso fantástico, confessando a cegueira anterior. Isso nos ocupa o dia todo amanhã. Depois Fowler opera aquele doido alimentador-de-áudio-para-discursos de que tem falado, e que planejamos usar no discurso de política externa, e rapidamente requisitamos o horário principal, e vamos ao ar em quarenta e oito horas a contar de agora.

Melinda tinha dúvida:

— E Zophar aguentará calado esse tempo todo?

Hennessy afastou a objeção:

— A gente o enrola; promete-lhe uma exclusiva com o Presidente, esse tipo de coisa, e o deixa espernear depois. Vai ficar chateado, e, confessemos, é antiético, porém é mais importante o Presidente apresentar seu caso de cegueira anterior ao povo do que algum comentarista gritão ganhar crédito com a indiscrição de Leigh.

Melinda concordou com a cabeça:

— Marilee pode fazê-lo. O Smitty longe daqui é uma boa.

— Gosto disso — disse Bok. — É muito melhor do que ficar sentado enquanto tudo entra pelo cano. E, quem sabe, o discurso pode causar uma explosão. Nunca se sabe a reação do público.

Hennessy gostou mais agora, que se tinha ouvido em voz alta. Havia alguma coisa especial em detalhar um plano em voz alta, que lhe dava forma e veracidade. Ele examinou a agenda das atividades presidenciais para o dia seguinte, e sacudiu a cabeça sombriamente:

— Amanhã vai ser uma merda. Esta noite, por volta das onze, direi ao redator para ficar de prontidão, e darei instruções ao Chefe. Se Ericson concordar, a gente põe a sinopse número dois para funcionar. Eu instruo o garoto Jonathan, e ele pode trabalhar a noite toda num esboço. Enquanto isso você, Harry, providencie para que o Chefe seja atendido e durma à uma. Ele, eu e o redator poderemos começar a trabalhar no discurso às oito da manhã, e lhe ler a redação final amanhã à noite. Depois botamos Hank Fowler na jogada para passar tudo para a cabeça de Ericson.

— O Chefe vai topar — disse Melinda. — Não tem outra escolha. E talvez seja melhor revelar logo a cegueira anterior, para podermos combatê-la de uma vez por todas.

— Apenas certifique-se de que sua coleguinha Marilee trabalhe a nosso favor — disse Hennessy à Melinda — e não me interessa o que terá de fazer para retardar Zophar.

— Você nunca se interessa.

Hennessy informou que falaria com eles mais tarde, pegou um Sumário de Notícias e desceu ao refeitório para comer.

— O de sempre — murmurou para um garçom. O “de sempre” de Hennessy consistia em um melão, um bife à minuta e uma garrafa de Château Lafite Rothschild safra 1966, sobra de um jantar de Estado. O almoço custava cinco dólares: um fringe benefit.

Sozinho, o ex-advogado divorcista repassou o Sumário de Notícias, temendo estar um dia atrasado. Forçou-se a ler as notícias do estrangeiro: Nikolayev faltara a uma grande recepção e havia boatos de que estava doente. Marcou isso com lápis vermelho para ver se a CIA tinha alguma novidade a respeito. Os sino-japoneses denunciaram que as potências semitas interferiam nos negócios internos da Índia, que se tornara um caso económico insignificante, mas possuía um arsenal nuclear de tamanho considerável e provocava falatório de guerra em relação ao rico Koweit, localizado a pouquíssima distância. Isso não era novidade. Hennessy parou; lembrou-se de que queria perguntar ao Presidente qual seria o tópico abordado no discurso de relações exteriores. Escreveu isso no seu caderninho “perguntar ao Chefe”. Fosse como fosse, esse discurso teria de esperar.

Após o jantar, de volta ao seu escritório de canto, com a vista da Elipse na escuridão que baixava, o novo Chefe da Casa Civil tentou achar falhas na sua própria análise.

Poderia a revelação de informação ter vindo de outro local — inadvertidamente, de alguém da família, dele mesmo? Sempre era possível, e por isso ele se estava arriscando e mandara Harry Bok verificar junto à garota de um agente que era a garçonete de Bannerman.

Poderia Zophar ter elaborado a história por si só? Não era do seu estilo — colunistas recebiam matéria, não saíam pesquisando.

Desconheceria ainda Zophar a cegueira anterior, e estaria atrás de outra coisa? Talvez de uma história inteiramente diferente? Muito improvável, pensou Hennessy, especialmente visto que o palpite de Zophar se baseava no que Harry dissera aos russos, e a vantagem soviética era saber da fraqueza secreta do Presidente: sua cegueira não-revelada. Hennessy não conseguia pensar em mais nada que Harry lhes pudesse ter contado.

A dúvida pessoal dissipou-se com uma ligação de Bok:

— Bannerman e Leigh falaram a respeito de uma Administração de Nichols e acerca de Arthur Leigh como o distribuidor de cargos públicos importantes. Sempre tiveram o cuidado de assinalar que seria após a Administração de Ericson, daqui a três, ou quatro anos.

— Um não confia no outro, e ambos têm razão — disse Hennessy, convencido de que Zophar não podia ter outra história além daquela sobre a cegueira anterior. — Provavelmente Bannerman instalou microfones no local. Há mais alguém lá?

Harry disse que não, somente os Leighs e os Bannerman, e acrescentou que o palpite de Hennessy parecia exato; Leigh estava do lado deles. O nome de Zophar fora levantado durante a conversa, segundo a garçonete conseguira captar.

O novo Chefe da Casa Civil ligou para o Presidente, que ainda estava na Sala de Estar Lincoln, com o redator de discursos:

— Preciso falar com você agora durante uma meia hora, e gostaria que o redator ficasse por perto, mas não conosco. Vou precisar falar com ele após falar com você.

Que é que há?

— Um problema — esquivou-se Hennessy — mas tenho uma forma de lidar com ele. Vou já para aí.

Foi correndo para o saguão, atravessou a colunata ao longo do Jardim de Rosas, entrou no pavimento térreo da residência para pegar o elevador. O guarda esperava-o, e levou-o ao segundo andar, onde Jonathan sei-lá-de-quê estava sentado numa cadeira de balanço no saguão central, e exibia a expressão radiante de um jovem que acaba de alcançar o topo de uma montanha. Hennessy mandou o redator ficar por ali, sem sair, enquanto ele falasse com o Presidente na Sala de Estar Lincoln.

— Ei, ei — disse Hennessy a Ericson — estou aqui. — O Presidente usava camisa aberta, calças esporte, e estava sem óculos. Os olhos se fixavam adiante, no vácuo, o corpo longo esticado no sofá. — Que tem feito, Sven?

— Sido Presidente — disse Ericson. — Emprego interessante. Relações exteriores nunca foram meu forte, exceto o lado económico, mas acho que me estou familiarizando com a coisa.

O ex-professor gostara de falar novamente com um jovem e inteligente estudante, calculou Hennessy, e se pode aprender um bocado ensinando. Jonathan seria o redator indicado para esta noite.

— Deixe-me contar direto a coisa — disse Hennessy — e se você gosta mesmo do emprego, talvez queira lutar. Primeiro, precisamos de um drinque.

Serviu dois, e pôs o do Presidente em sua mão.

— Divulgaram informação? — falou Ericson em forma de pergunta, mas que era a declaração de um facto por que já esperava.

— Arthur Leigh, o sacana, foi visto com Sam Zophar esta tarde. Meia hora depois, Zophar estava na sala de imprensa pedindo à Marilee uma entrevista com você para contar um grande história.

— Hã... Pensei que você tinha dito que ia cuidar do Leigh.

— Eu pensei que tinha cuidado — disse-lhe Hennessy. — Não vou entrar em minúcias, porém, cuidei de um assunto para ele... nada de extraordinário. Contudo, evidentemente não foi o bastante, ou ele recebeu melhor oferta. De qualquer modo, ele se vendeu.

— Não se pode ter certeza — advertiu Ericson, inclinando-se para a frente, esfregando as têmporas. — Que foi que Zophar disse?

— Disse que tinha a ver com alguma coisa que Harry Bok revelou sem saber. Um punhado de gente sabe como a gente trouxe Harry depressa de volta, Senhor Presidente. Não seria preciso uma tremenda imaginação para que Arthur Leigh calculasse que Harry contou aos russos a respeito do seu acidente na comitiva de campanha.

— Talvez sim, talvez não. Marilee vai estar amarrando Zophar?

— Nenhum problema esta noite. Do jeito que vejo a coisa, temos duas opções. Uma: sentar firme e deixar explodir, ou duas: tomar público nós mesmos. Você devia saber que este momento chegaria; nós todos sabíamos, e eu vinha fazendo planos.

Hennessy explicou com detalhes as alternativas, enquanto Ericson resistia a cada milímetro do caminho que seu novo chefe da Casa Civil desejava que ele percorresse.

— Não sei se eu poderia fazer o melhor discurso possível tão repentinamente, Hennessy. E não tenho certeza de que posso conseguir que qualquer sistema de feitura de discursos funcione tão cedo. Daqui a algumas semanas, talvez; não em quarenta e oito horas. Eu podia estragar tudo.

— Isso podia mesmo — lhe disse seu advogado. Hennessy não tencionava pressionar realmente, sabia que pressionar não combinava com Ericson, entretanto, chegava uma hora em que era preciso ser decisivo. — Se você fizer um discurso contando como foi a cegueira provocada, e como está convalescendo agora, e cada vez mais capaz de cumprir sua função, estará na frente da linha de notícias. Senão, ficaremos reagindo e nos desculpando e vão acabar com a gente.

— O que dizem os outros? — Ericson, ao contrário do seu habitual, parecia precisar de um consenso.

— São apenas Melinda e Harry. Eles acham que faz sentido. Melinda acha que você ficará aliviado quando a coisa fizer parte do passado; vai limpar o ar.

— Ela está enganada — disse o Presidente. — Estou mais feliz com tudo do jeito que está. Esta é a hora errada de balançar o barco. Preciso de tempo.

Hennessy calou-se por instantes para deixar Ericson raciocinar. Após alguns momentos, o Presidente disse:

— Mande a Marilee espremer o Zophar para ver o que ele sabe. Não quero tomar providências sem ter certeza. Talvez ele não tenha história alguma, afinal. Pode ser uma outra coisa... mas, não, não se veio de Arthur Leigh.

Hennessy dominou seu génio; essa era uma droga de maneira para um presidente dos Estados Unidos agir: ficar pisando em ovos quando deveria ficar à frente dos acontecimentos. Bem, Ericson era novo; Hennessy, também, no seu cargo de Chefe da Casa Civil, e admita que um pouco de precaução podia ser uma boa ideia.

— Por que não fazemos assim? — sugeriu ele — eu ponho a Marilee para dar recados ao Zophar — graças a Deus Smitty não está aqui — e darei um jeito de vê-lo pessoalmente amanhã de tarde. Enquanto isso, vamos ficar de sobreaviso caso decidamos entrar no esquema do discurso. Vamos instruir o redator Jonathan, esta noite, e mandar que faça um esboço do discurso para amanhã de manha. A gente bota o Hank Fowler por dentro então, se você gostar do discurso, e começa a enfiar o texto na sua cabeça. Podemos revelar a qualquer hora. Se Zophar tiver somente um pequeno trecho da história, ou tiver tudo errado, então podemos ficar quietinhos sem fazer nada. Só perderíamos um dia de trabalho.

Ericson sacudiu a cabeça num “não”.

— Isso abriria a porta para mais duas pessoas, nenhuma delas particularmente leais a mim. Você sabe como é quando se entra nos preparativos de um discurso: você se envolve tanto, que quer fazer revelações; tem aquele momento, também, que pode arrastar a gente pela bosta do despenhadeiro.

— Você quer pensar mais no assunto? — Hennessy concluiu que havia perdido.

— Sim. Volte de manhã cedo.

Hennessy apoiou-se no umbral da porta. Podia ver o redator na sua cadeira, no Salão de Estar Oval amarelo, a vinte metros dali, fazendo anotações em relação a algum discurso de relações exteriores que jamais seria feito.

— Sven, quer um conselho do seu ex-assessor íntimo, agora chefe da Casa Civil?

O Presidente não respondeu imediatamente.

— Eu sei qual é o conselho e não gosto dele — Ericson hesitou. — Muito bem, Hennessy o que você acha?

— O garotão aí é leal a você. Acho que é a fonte de Lucas Cartwright; a que lhe contou acerca de Buffie e Bannerman.

— Como o garotão sabe?

— Ele é seu cunhado.

O Presidente ficou atordoado, e então Hennessy deu o golpe final:

— Ele está comendo a Buffie. — Isso pairou no ar enquanto o sangue sumia do rosto de Ericson. — O garotão não queria que você soubesse — Hennessy continuou. — Por isso Lucas estava tão misterioso. Jonathan é leal; foi ele quem delatou Buffie e Bannerman. Podemos contar com Jonathan para ficar de boca fechada pelo menos durante uns dois meses.

— Depois, então, ele poderá escrever suas memórias — Ericson balançou a cabeça. — Não me importa o que ele diz. Isso não é verdade, eu me importo; por isso é que conversei com ele durante horas hoje à noite, enquanto seu lápis corria para que ele registrasse na História uma faceta minha que um montão de gente desconhece. Tem certeza quanto a ele e Buffie?

— Não — Hennessy demonstrou seu sarcasmo. — Vou perguntar a ele.

— Fique — disse Ericson, esticando uma das mãos na direção de Hennessy. — Não quero que o menino saiba que eu sei. Hennessy me amarrei naquela garota, especialmente agora, e estou chateado comigo mesmo por causa disso. Puxa! A gente paga por tudo.

— Você estimulou uma ligação com uma mulher com a metade da sua idade, Sven — disse Hennessy calmamente; não mais o chefe da Casa Civil ou mesmo o assessor íntimo oficial, porém, o velho amigo e ex-advogado divorcista. — Acontece com um monte de caras. E você tem razão, a gente passa um mau pedaço depois de algum tempo; paga com sangue; mas chega a hora em que você acaba de pagar. Aparece alguma coisa nova. O tempo cura todos os feridos.

— Conselhos... só me faltava essa.

— Olhe — disse Hennessy, rápida porém tão gentilmente como podia — a melhor notícia que ouvi acerca do seu estado de espírito foi quando Harry Bok me disse que você queria uma garota diferente para esta noite. Isso significa que deseja abalar sua dependência do apoio emocional e sexual de Buffie porque isso se fortaleceu muito. Bom para você. Não pode permitir-se a necessidade dela: é uma fraqueza.

— Quantos psiquiatras temos por aqui?

Hennessy socou o umbral.

— Não sei quem o Harry convidou para esta noite, velho chapa, mas se é aquela enfermeira dele, a alta com as pernas fantásticas e as tetas grandes, então você está melhor do que eu, Gunda Din. — Se Ericson precisava de um pequeno estímulo no ego para seu machismo, calculou Hennessy, isso era fácil de providenciar.

— Dizem que a cara dela não é grande coisa.

O moral de Hennessy baixou: aqui estava o Presidente dos Estados Unidos, homem recentemente cegado por um ataque, com seu segredo vazando, e o vazamento necessitando desesperadamente de ser tampado, e ele preocupado com a atração de um rosto que jamais veria, a fim de elevar seu ego ferido.

— Lembra-me a Ingrid Bergman — mentiu Hennessy. — Não usa maquilagem; por isso alguns palhaços não conseguem perceber sua boa aparência. Mas você jamais gostou de pintura pesada.

Ericson levantou-se e mudou de assunto:

— Traga o redator Jonathan aqui — disse firmemente. — Vamos instruí-lo juntos quanto à cegueira anterior. Deixe de lado a parte do acidente na comitiva que aconteceu comigo e Buffie; isso não deve mesmo vir a público. Talvez a gente consiga construir uma história, Hennessy, pelo menos veremos como sai escrito, de manhã.

— Vou alertar o Fowler, também — disse Hennessy, contente porque o Presidente resolvera se encarregar da questão.

— Não; vamos apenas dar um passo de cada vez e somente se necessário. Talvez — acrescentou Ericson — também possamos inserir algo sobre relações exteriores no discurso, falar do futuro e essa coisa toda. Nada se desperdiçará.

— O senhor está penetrando na situação, Senhor Presidente — disse Hennessy orgulhosamente. — Mostrando aprovação, e tudo mais.

— Eu só tinha uma tremenda vontade — disse Ericson uma última vez — que pudéssemos ter certeza de não estarmos super-reagindo ao que pensamos que Zophar sabe.

— Isso já está sobrepujado — disse-lhe Hennessy. Não era presidencial ter pensamentos adicionais após uma decisão. O novo chefe da Casa Civil acenou para que Jonathan entrasse na sala, e os três foram trabalhar no discurso.


O REDATOR DE DISCURSOS /2

Woodrow Wilson, é com ele que Ericson parece, pensou Jonathan; só que mais humano e menos austero. O mesmo idealismo, a mesma característica de grandeza, mas sem a arrogância. O sonho despedaçado. Durante quase três horas ele estivera a sós com o Presidente enquanto Sven Ericson expunha seus sonhos para o povo do país e sua visão de liberdade no mundo inteiro. Ele era imperturbavelmente piegas em certas coisas, também; não o frio e desprendido participante-como-observador que era considerado. Ericson se abrira bastante com Jonathan Trumbull, que tinha muita sorte em estar no local com um lápis na mão e a capacidade de transmitir à História. Houve momentos em que Jonathan se emocionara demais para escrever — esses ele podia reconstituir.

Grande visão era o que Ericson tinha, concluiu o redator, o olho para o detalhe do momento; a capacidade de sentir fraqueza num líder estrangeiro e a força oculta em outro; a compreensão dos pontos fracos humanos, que transformavam grandes homens em verdadeiros homens. Ao mesmo tempo, Ericson exibia o amplo raio de acção de sua estratégia: como trazer à tona as correntes ocultas que motivavam as potências do Extremo-Oriente, como jogar isso contra as forças que agitavam as potências semitas e certa fatalidade que parecia mostrar que a um Presidente só se dava uma pequena arena, principalmente económica, na qual manipulava homens ou comandava acontecimentos. “Irmão Jonathan”, como o chamavam, anotara tudo: Ericson estivera vulnerável e em excelente forma. Nos próximos anos ele incorporaria parte dessa visão do Presidente a esboços de discursos, o que seria uma forma de — para um rapaz relativamente sem experiência — causar impacto no mundo e dar sua contribuição à acção e à emoção do seu tempo, mesmo que só um pouco, e de segunda mão.

Que noite! — maravilhou-se Jonathan, no assento traseiro do carro da Casa Branca que o levava de volta a Columbia Plaza. Era a primeira vez que tinha um carro à disposição, mas o Presidente e Hennessy evidentemente não gostariam que ele rodasse por Washington sozinho nessa noite. E que noite! Primeiro, as horas com o Presidente, a intimidade de discutir os seus sonhos; depois a bomba sobre a cegueira anterior, quando Hennessy chegou. Balançou a cabeça num espanto admirado pelo que o Presidente deveria estar passando nas últimas semanas. Finalmente agora dependia do Irmão Jonathan, de sua máquina de escrever e de sua habilidade com as palavras, apresentar a história de forma que minimizasse o terror do julgamento e acentuasse o desejo presidencial de gozar da confiança do povo, já que o Presidente se recusava a perpetrar uma mentira.

— Nada de pieguices — instruíra o Presidente Ericson. Deveria apenas dizer o que ocorreu em sequência durante a campanha: como ele perdera a visão temporariamente após um choque, como nada fora dito durante um dia inteiro, enquanto seus assistentes se perguntavam se ele recuperaria a visão, como se julgou erroneamente, depois, que seu estado fosse puramente temporário e não se repetiria. Esse engano deveria ser admitido francamente, em retrospecto. Que as pessoas, com a percepção tardia dos factos atingissem plena satisfação. Deveria lembrar-se de que — disse o redator a si mesmo — essa percepção tardia dos factos poderia obter solidariedade em relação ao Presidente.

Jonathan dera forma mentalmente ao discurso quando o carro parou à sua porta e o motorista falou:

— Vou ficar aqui até ser substituído, por isso não precisa ligar pedindo carro. O senhor é um figurão esta noite, senhor Trumbull; aproveite.

Ele pôs a chave na fechadura do apartamento e reparou que não estava com duas voltas. As luzes se achavam acesas. Buffie dormia numa cadeira à frente da televisão. O coração de Jonathan apertou; jamais deveria ter-lhe dado a chave. De todas as noites em que precisava ficar sozinho, esta era a própria.

E o segredo; ela não deveria saber sobre o que ele ia escrever. Não, ele dolorosamente compreendia que esta não era noite para Buffie. Tocou-lhe o ombro, e depois se lembrou do carro lá fora. O motorista a veria. Deveria mandá-la para casa no carro da Casa Branca? Deus, não! Isso sem dúvida chegaria ao conhecimento do Presidente. Não podia deixá-la aqui; tinha de preparar um discurso em sete horas, mas não podia mandá-la para casa. Jonathan não sabia exatamente o que fazer, por isso sacudiu-lhe o ombro até que acordasse.

— Eu me sentia só, por isso vim para cá. — Ela se espreguiçou. — Depois peguei no soninho. Zangado? Não está com outra garota ali no vestíbulo, está? Se está, mande ela entrar, eu não...

— Não, não, estou contente em vê-la. — Ela ficava adorável ao acordar. — É que tenho um discurso para acabar e vou precisar escrever a noite inteira.

— Grande drama — sussurrou ela. — Eu fico trazendo café, e massageando suas costas. Nós dois vamos salvar o mundo. — Especulativamente, ela lhe tocou a perna.

— Não, olha, é sério, Buffie. Tenho de começar o trabalho. Se me atrasar com isso, estou perdido.

— Qual é o assunto?

— Relações exteriores — respondeu, em meia verdade. — Escute: temos trabalhado nisso a semana toda, e agora eles estão precisando imediatamente. Hennessy não é como Cartwright, com ele é imediatamente mesmo. — Trabalhar no discurso do Presidente, saber do segredo do Presidente, estar com a garota do Presidente, e ter um prazo até a madrugada: tudo era demais. Jonathan precisava de um pouco de tempo para ordenar as coisas. — Vá para o quarto, caia na cama — sugeriu — e vá dormir. Assim, não ficará só, eu estarei aqui mesmo.

Se ela saísse para dar uma olhadinha no discurso, ele tinha esboços do material sobre relações exteriores em que estivera trabalhando. Deixaria tudo espalhado, ela não estava interessada nisso. O segredo da cegueira, que seria tão útil a Bannerman, Buffie não poderia ver.

— Tá bem — bocejou ela. Deliberadamente, não provocantemente, despiu-se diante dele, colocou a roupa debaixo do braço e o beijou. — Todo mundo anda tão ocupado, que uma garota não consegue mais nem que trepem com ela — disse virando-se. À porta do quarto de dormir, acrescentou: — Última oportunidade.

— Suma.

— Ih, você é tão mandão! Você Tarzan, mim Jane. Você Sansão, mim Dalila. Você Casanova, mim... como era mesmo o nome?

Jonathan lançou-lhe um olhar súbito e vazio:

— Boa ideia.

— Que ideia? Você vai usar o Tarzan no discurso? “E agora” — assumiu um tom sério, de discurso — “como demonstração especial de respeito aos nossos aliados africanos, resolvi adotar um chimpanzé-guia. E aqui está ele agora”. — Ela pegou na mão de um chimpanzé imaginário e deu a volta pela sala, gritando “Espere por mim, Chita!” Após um instante, parou. — Sua ideia não era essa?

— Sansão — repetiu Jonathan — Bíblia. Tipo da referência de que eu precisava.

— Você vai mesmo pôr esse negócio de Bíblia?

— Sansão perdeu a visão, mas isso não o deteve. Óbvio. E você tem razão, Buffie: a história da Bíblia está no local errado. — Foi até o quarto, pegou o telefone e ligou para sua pesquisadora. — Sally? Tenho um desafio. Está de pé? Ora, levante-se, chapinha, a noite é uma criança. Olhe, preciso que você encontre um poema de John Milton, um poema longo chamado Samson Agonistes. É um pouco tarde para ir à Biblioteca do Congresso, mas não lhe vou dizer o que fazer. Consiga o poema, leia-o, ache alguma passagem que se aplique ao Presidente Ericson e me chame de volta daqui a algumas horas. Se precisar de um carro da Casa Branca, use meu nome; esta noite funcionará. Muito bem, mexa-se.

— Você é um terror — disse Buffie. — Eu detestaria trabalhar para você. — Ela continuava com a pilha de roupas no braço. — Quer me dar algumas ordens? Estalar o velho chicote? Eu não diria não. O Novo Você tá fazendo eu me ligar.

Jonathan tinha coisas mais importantes a fazer.

— Você deu sua contribuição — interrompeu ele, divertindo-se. — Agora saia de cima de mim.

Ela inclinou a cabeça respeitosamente e fechou a porta do quarto.

Problema adiado. Ele agora precisava fazer o discurso mais importante de sua vida. Daria conta disso, também. Jonathan sentia-se inesperadamente confiante, em parte porque sempre soube que poderia fazê-lo, e principalmente porque tinha o início na cabeça: “Há um assunto em minha consciência que sinto devo compartilhar com meus compatriotas americanos” — esta seria a abertura. Começaria com o forte voto de confiança do Gabinete. Depois faria um rápido retorno à campanha, para explicar que, na ocasião, a perda temporária da visão parecera insignificante. Depois viria a segunda cegueira, e a pergunta: Que dizer agora? A certeza inicial do Presidente, de que iria enxergar de novo em breve, igual à primeira vez. Depois o engano, que seria reconhecido; e isso desarmaria todos, quanto ao encobrimento. O dilema, sua luta com a consciência, sua decisão de contar tudo. Seria veemente quanto à nova capacidade de Ericson para enfrentar as coisas, falaria um pouco dos problemas com Moscou e das potências do Extremo-Oriente, depois falaria sobre a visão presidencial de paz. Pode um homem cego ter uma visão? Boa imagem. Jonathan, que gostava de fazer primeiro as partes fáceis do esboço de um discurso, escreveu a abertura e o fecho, e delineava algumas linhas soltas para inserir depois, quando ouviu o telefone tocar.

O telefone ficava no quarto de dormir. Sua pesquisadora não poderia ser tão rápida. Quem ligaria a esta hora, meia-noite e meia? Abriu a porta, lembrando-se subitamente da mulher, e ficou atônito ao ver Buffie, nua e sentada na cama, segurando o fone e dizendo:

— Sim, ele está. Quem quer falar? — Buffie sorriu e lhe entregou o receptor. — É o Presidente — disse.

Jonathan fechou os olhos, apavorado. Buffie riu por entre os dentes.

— É a telefonista da Casa Branca, amor, não Ericson. Eu não faria isso com você.

— Alô?

— O Presidente quer falar, Senhor Trumbull Quer aguardar? — Buffie deu-lhe espaço na cama. Ele sentou-se na beira, olhando para longe.

— Já terminou tudo? — A voz do Presidente estava tranquila e animadora, sem sinal de esgotamento nem alegria forçada.

— Estou com a primeira página na máquina — disse Jonathan.

— Estou brincando, Jonathan. Vá com calma, tem a noite toda. E há uma possibilidade, também, de que eu não o use por uns dois dias.

— Não há mais urgência?

— Bem, você sabe como é o Hennessy; tudo tem de ser para ontem. — Jonathan acabara de fazer a mesma observação. Obviamente o Presidente e seu redator estavam sintonizados. Ele hesitou em receber a confidência de Ericson num assunto tão íntimo como uma crítica ao chefe da Casa Civil. — Veremos. Ouça: acabo de falar com Herb Abelson, que está todo preocupado; por isso quer botar no seu rascunho que eu mantive tudo em silêncio, mesmo contra a opinião dele? Ele gostará disso, e pra mim não custa nada. Não contei ao Herb acerca do discurso, é claro. Ninguém além de você, eu e Hennessy sabem dele, e temos de manter a coisa assim.

— O discurso sobre relações exteriores — disse Jonathan, pensando em Buffie atrás dele.

O Presidente parou.

— Esse mesmo — disse finalmente — Bem, eu estava me sentindo bem, e quis que soubesse que tenho toda confiança em você, e que só vou precisar do rascunho às nove horas. Vá em frente. — E desligou.

Jonathan virou-se

— Bem, era o Presidente, e ele não lhe mandou recomendações, graças a Deus.

— Ele estava acordado, não é? E sentia-se bem?

Ele concordou com a cabeça. Ela pensou no caso durante certo tempo, com o sono lhe fugindo, e observou de bom humor:

— Ele fica assim depois de comer uma mulher. Gosta de ligar para alguém e falar de negócios. Não sei quem diabos ele acha que impressiona.

— Está com ciúme, Buffie? Não é do seu feitio. — Ocorreu a Jonathan que Buffie devia estar imaginando outra mulher no seu lugar, ao lado do Presidente, naquela noite, fazendo com ele o que ela fazia quando estava lá. Buffie, porém, se enganara presumindo que o Presidente só fazia isso para se mostrar ou fazer graça; o chamado tivera um objetivo: acrescentar o texto sobre o Dr. Abelson.

— Às vezes detesto esse sacana — respondeu ela, bem desperta — porque ele é muito importante para mim. Estou amarrada nele. — E pôs o dedo por dentro da bochecha e puxou, para ilustrar.

— Você o ama?

— Claro que o amo, e ele é doido por mim.

— Então por que o está espionando para o Bannerman, que só deseja arruiná-lo? — Jonathan tinha muito o que fazer, mas valia a pena descobrir isso.

— Não há futuro para mim e Ericson. Começamos a nos separar no instante em que nos juntamos — Buffie saiu da cama e foi até a janela, com os seios firmes demais para balançar, de mãos unidas como se para aquecê-las, na frente do ar condicionado. — Para ele sou um pedaço de carne que ficou inconveniente, e agora ele está emocionalmente envolvido e sente pena de si mesmo por necessitar de uma mulher em especial, e especificamente por necessitar de uma à margem de sua classe.

— Deixe disso, ele não é esnobe...

— Só é! Ele não tem nada que lhe interesse para conversar comigo. Quando se dirige a mim só está tentando descobrir o que as pessoas jovens pensam, ou as mulheres pensam, ou como falamos. Eu sei disso. Ele usa os outros; quero dizer usa totalmente, nada é desperdiçado. Ele fabrica lembranças, sabia? Sempre que estou com ele sei que está pensando em como vai se lembrar da coisa quando eu já tiver ido embora há bastante tempo e ele estiver lidando com gente do seu próprio mundo. Com seu próprio grupo enrugado e decrépito.

— A cegueira não muda nada?

— Sim, põe a carga toda em cima de mim, o que ele sempre desejou. Então eu sou a puta porque me afastei, agora que ele precisa tanto de mim, e essa palhaçada toda. Tenho de cuidar de mim sozinha porque ele jamais cuidará, cego ou não. — Correu as pontas dos dedos pelos braços encolhidos. Quando não estou com ele, não sinto sua falta. É quando estou, que mais sinto sua falta.

Jonathan disse a si mesmo que algum dia teria de aprofundar esse sentimento, mas agora ele tinha um prazo na madrugada.

— Vá dormir um pouco — disse ele, de cabeça fria, mas Buffie não estava pronta para isso.

— Qual a importância de um maldito discurso? Você só vai se atrasar algumas horas. Não me abro assim com vontade para qualquer um. Está com medo de ver meu interior?

Jonathan sacudiu firmemente a cabeça.

— Desculpe, mas é uma merda de um discurso importante, e as necessidades da nação vêm primeiro.

— Ele vai revelar o grande segredo?

— Que grande segredo?

— Você é um bom risco de segurança, Jonathan — disse ela, com um sorriso desconcertante. Ele se perguntou quanto ela saberia, e quanto Bannerman saberia por intermédio dela. Ela, porém, não conseguiria nada através desse redator de discursos.

— Ele vai contar tudo acerca do que houve no trem — continuou ela — e você tem de juntar as peças para que tudo pareça inocente.

Ela sabia.

— Você sabe! — disse ele, estupidamente. Entretanto, se ela sabia, por que todo mundo não sabia? Por que Bannerman não usara aquilo para expulsar Ericson da presidência? — Pensei que fosse o segredo mais bem guardado do mundo — disse alto para si mesmo — e a primeira pessoa que encontro sabe de tudo.

— Então Pdeu vai mesmo abrir o jogo — disse Buffie. Ele é quem sabe. É um acto corajoso.

— Você contou ao Bannerman?

— Claro que não. Que espécie de pessoa você pensa que sou?

— Uma traidora — especificou Jonathan — um dedo-duro, uma garota que ama um homem e o entrega ao seu pior inimigo.

— Mas não conto o principal. Conto mixaria, claro: é uma oportunidade de subir um degrau na carreira. — Subiu na cama e se enfiou sob as cobertas. — Mas não chupo o sangue. Não sou uma puta.

— Como é que você sabe? O Presidente lhe contou, Buffie?

— Sobre não enxergar antes?

Ali estava, em palavras diretas, de alguém que sabia.

— É, é isso, sobre a cegueira prévia.

Ela riu.

— Ele não contou como foi?

Jonathan sacudiu a cabeça.

— Você vai querer botar isso no discurso — disse ela, com seriedade debochada — para dar colorido. Uma historieta para animar a legenda do quadro. Bem, nós estávamos trepando no beliche superior do trem da campanha, nos sacudindo que nem doidos, e eu estava quase gozando...

— Meu Deus! — exclamou Jonathan. Desejou não estar escutando.

— ... quando ... bam! Os freios foram acionados, e ele estava em cima de mim assim, e minhas pernas estavam desse jeito, e pam! Lá bateu ele com a cabeça no espaldar de aço. Ele ficou com um peso morto, porém ainda de pau duro, e ainda dentro de mim. Eu não conseguia respirar, não conseguia tirar ele de dentro de mim, por isso berrei um bocado e Harry Bok apareceu e nos salvou. Depois...

— Essas são coisas íntimas — interrompeu firmemente Jonathan — suas e do Presidente dos Estados Unidos, e você devia guardá-las para si. Não me contaram isso. E pode ter certeza absoluta de que não vai aparecer no discurso.

— Que pena! — suspirou Buffie. — Ele ganharia um bocado mais de solidariedade. O que é que você vai fazer ele dizer: que deu de cabeça num assessor económico?

— Não entro nessa espécie de minúcias; ele bateu com a cabeça, e pronto. — Ele teve uma ideia. — E é bom pra você não comentar como aconteceu. Se isso vier à tona e Bannerman souber que você sabia e o embromou o tempo todo sem contar nada, então ele porá você na lista negra para o resto da vida. Isso não ajudaria sua carreira.

Ela balançou a cabeça e mordiscou uma unha.

— Eu não tinha pensado nisso. Esqueça o que eu falei. Foi tudo mentira.

— Buffie — disse ele — por que você tem de jogar com as duas pontas contra o meio? Essa gente com quem anda mexendo é poderosa.

— Acho que, se for um pouco leal a todo mundo, todo mundo será um pouco leal comigo. E não posso ser cem por cento para o Ericson: eu cairia numa armadilha e jamais sairia. — Ela sentou-se e olhou inexpressivamente para Jonathan. — Estou mais feliz com você, aqui e agora, do que jamais seria com ele, mesmo na cama do Senhor Lincoln. — Ele viu o ânimo dela mudar a essa ideia. — Imagino a mulher que Harry arranjou para ele. Provavelmente a Sam Silenciosa, a enfermeira sueca de mamas grandes e lábios carnudos.

— Você é uma fraude — disse Jonathan.

— Mas não um fraude genuína — ela tentou escapar à acusação.

— Uma fraude genuína, sim. Você me vem com essa merda toda sobre carreira, e como devemos olhar para a frente, e fazer média com os poderosos que ficarão após sairmos da Casa Branca, mas nada disso é a realidade. Você não está indo para frente: está se divertindo. Esse negócio todo é uma tremenda curtição de ego para você, mas você não confessa isso, nem para si própria. Deita com o Presidente, deita com o seu redator... está deitando com Bannerman também?

Essa pergunta estivera no seu subconsciente desde que ela o apresentara a Bannerman, mas ele imediatamente desejou poder engolir as palavras porque ficou com medo da resposta de uma garota com tamanha fidelidade à infidelidade. Jonathan estava mais profundamente envolvido com ela do que queria reconhecer, e começava mesmo a se ressentir do seu caso com o Presidente.

— Ele é um homem aterrador sob muitos aspectos — disse ela, sem responder. — E eu realmente não gostaria de aborrecê-lo. Acho melhor calar a boca a respeito do trem e da minha participação. Você também, tá?

A possibilidade não negada de que o corpulento Bannerman também gozasse dos favores de Buffie subitamente enfureceu Jonathan, que desejava vê-la como um espírito livre e não como uma espécie de devassa, como uma inteligência superior na farsa de um cúmplice, e como uma mulher que podia pertencer a ele. O redator de discursos, com seu prazo até a alvorada, atirou as cobertas para trás e olhou para o corpo jovem, mas já usado demais, que estava curvado pela surpresa. Despiu-se e irrompeu por dentro dela como o faria um multimilionário perigoso ou um candidato num trem da campanha. Satisfez-se, retirou-se antes que ela tivesse oportunidade de atingir o clímax, tomou um banho frio e voltou à sala, de calças jeans e sem camisa, para terminar o discurso.

A redação caminhou bem. O interlúdio feroz e punitivo devia ser exatamente do que ele precisava, pensou Jonathan. Um novo começo. Garota estranha, aquela. Inseriu uma passagem na peroração, acrescentou a linha sobre o Dr. Abelson que o Presidente queria, aconselhando que toda a verdade fosse revelada desde o princípio, e começou a grampear os parágrafos em sequência, em folhas brancas. Ele trabalhava assim, usando pedaços de trechos. Às vezes o primeiro rascunho era uma colagem, mas seu método era esse. Olhou para o relógio elétrico: 3:15. O dia ainda não rompera. Começou um segundo esboço do início.

O que ele conseguia enxergar do Rio Potomaque estava virando de preto para cinza quando o telefone tocou novamente, às 4:35. Desta vez ele andou depressa para evitar que Buffie o atendesse de novo; ela, porém, estava toda espalhada, descoberta e profundamente adormecida; quando dormia, dormia mesmo. Ele atendeu à chamada.

— Estou com o Sr. Hennessy na linha, Sr. Trumbull — disse a telefonista. — Desculpe incomodá-lo a esta hora.

— Já fez tudo? — perguntou Hennessy. Sua voz era inexpressiva.

— Não está ruim — respondeu Jonathan. — Ainda preciso de umas duas horas, para reduzi-lo para meia hora. — O redator se sentira cansado há meia hora atrás, mas a sensação de esgotamento passara e ele estava com um segundo fôlego, que ficaria funcionando bem até as duas da tarde, quando, sem dúvida, ele cairia aos pedaços.

— Olhe, estamos com um problema — disse Hennessy. — Herb Abelson tomou pílulas demais e morreu.

— Suicidou-se? O médico do Presidente?

— Talvez, talvez tenha sido acidente. Vou agora para Camp Hoover; são cerca de duas horas de carro. Se não houver bilhete, não foi suicídio.

— O Presidente falou com ele esta noite, ligou para mim e disse...

— É, eu sei — disse Hennessy. — Estou com o registro dos telefonemas. No discurso, fale dele usando o verbo no passado. Diga que foi um acidente, ou melhor, não o inclua no discurso; uma coisa nada tem a ver com a outra. Se o Presidente quiser divagar sobre o caso, não deixe.

— Você acha que a tensão do segredo e talvez a ideia de que ele não abriu o jogo para o oftalmologista tenham sido demais para o Dr. Abelson?

— Creio que ele estava preocupado com alguma coisa, talvez sua própria vida particular, e talvez tenha esquecido de quantas pílulas estava tomando. — A voz de Hennessy era fria e controlada. — Não superdramatize isso, não tire conclusões precipitadas. Vou examinar os vestígios, conversar com o guarda florestal de lá e trazer o corpo de volta. Isso pode ser apenas uma coincidência. A razão por que liguei para você é para ter certeza de que está fazendo o maldito discurso porque vamos ter de usá-lo mais cedo do que o Presidente pensa.

— Estou fazendo.

— Ótimo! Devo estar de volta lá pelas dez da manhã. Leve o discurso a Melinda, na sala dela, às oito. Ela, você e o Presidente começarão imediatamente a trabalhar nele. Direi a ela que chame o Hank Fowler para participar na mesma hora. Não diga nada sobre Abelson até eu voltar. Isso inclui especificamente essa boazuda aí na sua cama.

E desligou.

— Boa viagem — Jonathan desligou o fone. Sabia que o esboço do discurso estava bom, mas já não tinha certeza de que seria bem recebido. A pressão para Ericson revelar tudo deve ter sido intensa, e a decisão do Presidente de confessar o assunto pareceria mais um acto de necessidade do que de consciência. — Presságio — disse em voz alta para a garota na cama, a fim de diminuir a sensação que teve ao identificá-lo. Ela não se moveu. — Tristeza e condenação — sugeriu. Talvez a sensação pesada em seu peito fosse apenas o resultado de uma noite insone, e talvez o regozijo de trabalhar diretamente com o Presidente num discurso logo voltasse. Sabia, porém, que algumas coisas não poderiam ser encobertas, nem mesmo para uma Candida: a morte do médico do Presidente, o medo controlado na voz de Hennessy, a horripilante suspeita de que a piada de Hennessy sobre a boazuda na cama fosse baseada em vigilância à sua casa e não em mera conjetura. — Trepidação iluminada — disse à forma de Buffie e, como resposta, ela rolou o corpo.


O TERAPEUTA /3

— Pensei que lhe mandara ter uma conversa franca com Herb Abelson, Hank — disse o Presidente, com voz fria.

— E mandou mesmo, senhor, mas nunca cheguei a fazê-lo. — As consequências por não haver cumprido a determinação oprimiam e assustavam o psicólogo. — Parecia que sempre havia coisas mais importantes a fazer. Falhei com o senhor e falhei com Herb — Hank Fowler pôs-se à prova por haver confundido suas prioridades. Sua falha para com Abelson fora consideravelmente maior do que sua falha para com o Presidente.

Não foi culpa sua, foi minha, mais do que de qualquer outra pessoa. Ontem à noite, quando falei com ele, não avaliei bem a situação. Herb parecia estar mal, extremamente irritado e nervoso, mas não à beira de alguma coisa drástica.

Fowler ouviu o débil som de uma unha sendo roída. Houve um silêncio, um suspiro, e depois:

— Que foi que você achou do discurso? — perguntou o Presidente. O redator, Jonathan Trumbull, o lera para eles momentos antes e depois fora mandado de volta à máquina de escrever.

— O discurso em si ou o conteúdo?

— Analise tudo, Hank. Preciso saber a sua posição antes de entrarmos nas atividades do dia, que podem vir a ser algo febris.

O psicólogo, com um cotovelo apoiado na mesa do Presidente, no Salão Oval, resistiu à tentação de reagir como um cego, e relembrou estar lidando com um paciente com problema. — Primeiro, a respeito do discurso em si. Levou cerca de vinte minutos, que acho podem ser cortados para uns quinze. Acho que seria a duração conveniente para o senhor.

— Concordo — disse o Presidente.

— Eu teria de ouvi-lo novamente algumas vezes — disse Fowler, ganhando confiança com as minúcias — mas creio que se divide naturalmente em cinco segmentos de, digamos, três minutos cada. Podíamos separá-lo e o senhor o usaria melhor dessa forma — Fowler sabia que itens pormenorizados ajudariam a reforçar a confiança do Presidente, e a sua própria. O terapeuta sentia-se orgulhoso do seu método de segmentar um discurso, resumindo cada segmento com um gravador que poderia ser escutado num pequeno audiofone. Permitia a um cego falar de improviso, com notas auriculares “sopradas” pela sua própria voz gravada.

— Você sabe como eu trabalho — disse o Presidente. — Em quanto tempo eu aprenderia a fazer isso?

Fowler considerou que Ericson era um rápido assimilador. Com esse estudante-paciente a preparação podia ser acelerada.

— Eu diria que o senhor precisaria de umas seis ou sete horas. Se resolver como vai ser o discurso até as dez da manhã, poderia discursar hoje à noite — Fowler preferia que o discurso fosse feito no mesmo dia; excesso de ensaios ou de memorização eliminaria a espontaneidade necessária.

— Ótimo, talvez eu precise mesmo — falou o Presidente. Começou a estalar os dedos. Fowler sabia que deviam ser cinco estalos; três em uma das mãos, dois na outra. Ao som do quinto, o psicólogo mencionou o conteúdo do discurso, a parte mais difícil da sua opinião.

— Quando à sua cegueira anterior — começou. — Acho que o senhor errou.

— Sempre gosto de me submeter a um julgamento moral — disse o Presidente — por quem não estava lá.

— Não, não estou julgando o caso de que o senhor devia ou não ter tornado público a cegueira de dois dias no trem antes das eleições — Fowler fez uma pausa, permitindo-se pequeno julgamento. — Eu acho que deveria, porém, com toda a confusão, posso ver que — ele estudou a frase — o não dizer nada poderia fazer parte da semiconsciência aliada ao período pós-concussão. Bem-posto. O problema não é esse.

— Muita gente pensará que o problema é precisamente esse.

— Sei... bem, isso é uma coisa a ser discutida ou explicada — Fowler resolveu fazer pressão desse item com o Presidente, já que representava um perigo que Ericson, evidentemente, não sabia que enfrentava. Discuti-lo poderia contribuir para o sentimento de culpa de Ericson quanto ao suicídio de Abelson, mas isso teria de ser confrontado rapidamente, de qualquer forma. — Creio que o senhor errou em não informar os seus médicos a respeito da cegueira prévia, após a tentativa de assassinato em Yalta.

— Isso é fácil de dizer, Hank — falou o Presidente, não tão friamente desta vez — porém, eu não queria apressar decisão alguma. E visto que eu passara por alguma coisa semelhante antes, no trem da campanha, calculei que seria passageiro. Você tem de compreender: as relações médico-paciente não me teriam protegido, a história viria a público. Com toda probabilidade, eu teria perdido aquela votação de incapacidade no Gabinete. Eu precisava de tempo.

Fowler sacudiu a cabeça e disse automaticamente:

— Estou balançando a cabeça para dizer “não”. O senhor está raciocinando política e taticamente, Senhor Presidente. Eu estou raciocinando medicamente, como Herb Abelson deve ter pensado: um médico escondendo de um especialista relevante sintoma médico, e talvez causando o tratamento errado. Posso compreender por que ele não aguentou.

O Presidente aguardou, e Fowler abriu o jogo:

— Não sou homem de medicina, porém me interessei realmente em conhecer alguma coisa a respeito das causas da cegueira. Na primeira vez em que o senhor se acidentou, no trem, talvez tenha rompido o canal óptico: o encaixe do nervo óptico que fica entre o olho e o cérebro.

— Herb mandou tirar alguns raios X — replicou Ericson. — Pôs nas chapas nomes de alguns membros do pessoal e mandou que os lessem em Bethesda. E disse que não revelavam nenhum dano permanente.

— Sei... — fez Fowler — e pode ser que não houvesse nenhum. Entretanto, como da segunda vez em que aconteceu, em Yalta, seguiu-se a cegueira, talvez o tratamento devesse ter sido diferente.

— Que quer dizer?

— Não sou médico — preveniu Fowler de novo — mas pode ser que, se soubesse de uma cegueira anterior, um oftalmologista, ao examinar seus sintomas após a emboscada, mandasse chamar um neurocirurgião.

— Vamos logo — interrompeu Ericson. — Vá direto ao assunto.

— Talvez — disse Fowler sem se apressar — um neurocirurgião tivesse resolvido, sabendo da cegueira anterior, operar e levantar o alto do canal óptico para aliviar a pressão do nervo. Uma operação podia ter ajudado — Fowler deixou o Presidente pensar isso, depois tratou de amenizar o golpe: — É claro que ele poderia não ter recomendado nada disso. E que uma operação poderia não adiantar. Só estou sugerindo que o comportamento poderia ter sido diferente, caso os médicos estivessem a par de todos os factos.

— Então, se eu não tivesse decidido manter isso em segredo — disse o Presidente — eu talvez não estivesse cego hoje.

— Isto é ser muito dramático — falou o psicólogo. — Pelo amor de Deus, não comece a encarar uma possibilidade remota como um facto concreto. Não passa de uma possibilidade. Só trouxe o assunto à baila agora para que o senhor entenda o que Abelson estava sofrendo.

— Meu Deus! — disse o Presidente. — Ele se estava dizendo que, por me ter escutado e não ter revelado tudo ao médico de olhos, foi o responsável por minha cegueira.

— Bem, é isso que um montão de outros médicos vai pensar.

— E dizer. — A cadeira do Presidente rangeu debilmente quando ele se inclinou todo para trás. — “Ericson, com sua propensão ao segredo, aguentou a carga sozinho. Não foi culpa do médico, foi culpa do paciente: é um campo inteiramente novo da imperícia. Não gastem sua solidariedade com o sacana. Sua própria ânsia pelo poder foi responsável pela sua cegueira. E os moralistas vão ter o prato do dia: vêem o que acontece quando se escondem as cosas? Deus revida.” — Após uma pausa, Ericson acrescentou: — E talvez seja isso o que Deus faz.

— Nenhum médico iria ao ponto de afirmar que um tratamento alternativo teria evitado a sua cegueira — protestou Fowler.

— E nem precisaria, com essas palavras. Basta fornecer a Bannerman um pretexto; e, por falar nisso, Bannerman tem alguns médicos na mão, e eles dirão exatamente isso por estarem justamente indignados. — O Presidente suspirou, e disse suavemente: — Ainda hoje de manhã, eu falei: “Podia ser pior”; e, sem dúvida, é.

Fowler procurou uma saída:

— Muita coisa depende de como reage o seu oftalmologista.

— Sei... — O psicólogo notou, não que fosse muito importante, que o Presidente adquirira o hábito de assentir com a cabeça na presença de uma pessoa cega. — Hank, após o discurso desta noite, gostaria que você tivesse uma conversa com o comandante do Hospital Naval de Bethesda. Ele talvez possa consultar com o pessoal do sector de olhos, e sugerir que eles podiam ter feito a mesma coisa a despeito de qualquer obstáculo, mas que, de qualquer modo, a operação teria sido perigosa nas minhas condições. Você faria isso, com tato?

Fowler hesitou.

— Você está aí, Hank?

— Eu falarei com ele, Sr. Presidente. Talvez eu esteja apenas antecipando problemas que ainda não existem.

— Não, não; foi bom você ressaltar aquilo. Talvez possamos evitar declarações de um médico de olhos com a cuca quente.

Fowler deu um risinho.

— Qual é a graça?

— Eu estava imaginando um médico de olhos com a cuca quente.

O Presidente pegou um fone e disse:

— Ponha-me em contato com o Secretário de Imprensa, James Smitty, lá no Alasca, ou sei lá onde. Siga a pista dele. — Para Fowler, acrescentou: Acho melhor botar o Smitty por dentro agora; estão aparecendo mais ângulos do que eu calculava.

— Pensei que Smitty estivesse praticamente inalcançável.

— Essas telefonistas localizam qualquer um em qualquer lugar. Elas são capazes de arrancá-lo de um iglu e trazê-lo até um telefone num trenó puxado por cães, você vai ver. Preciso dele agora. Será que terei mesmo de aparecer na televisão hoje à noite? Talvez haja uma forma de ganhar tempo com Zophar.

Fowler não entendeu a referência do Presidente ao colunista, mas sentiu que Ericson podia usar a equipe à sua volta para preparar o discurso. Já que fazer o discurso era um acto de Consciência — uma confissão para limpar o ambiente e dar sólida base moral ao Presidente — ir adiante com isso era um acto a ser incentivado. Porém, Fowler se perguntou por que Ericson estava impelido a apresentar as notícias da cegueira anterior agora, hoje, e com tamanha pressa aparente.

Parece que o Presidente leu seus pensamentos:

— Existe certa urgência nisto, Hank, porque suspeitamos de que alguém falou, e que a notícia está a ponto de ser divulgada. Um dia eu ia contar tudo, com calma, mas agora não temos muita escolha. Posso até eliminar o discurso, posso adiá-lo indefinidamente, mas quero que você me prepare, caso eu resolva discursar hoje à noite. — Ao telefone, o Presidente disse: — Mande Marilee vir aqui, se já voltou do desjejum, mas não precisa procurá-la — Tocou uma cigarra que Fowler escutou soar na mesa de Melinda, do lado de fora do Salão Oval, e num instante a secretária entrou na sala. — Mande o Jonathan voltar aqui e chame também o Harry Bok. Pegue seu caderno de notas, Melinda, e vamos ver se você ainda sabe taquigrafia.

O psicólogo gostava da maneira pela qual o Chefe do Executivo conseguia limpar sua mente da autodívida e se concentrar no assunto em pauta — neste caso, um discurso, Ericson reuniu sua tropa, mostrando a cada um onde sentar-se em volta da mesa, depois mandou o redator ler o seu discurso em voz alta e integralmente. Enquanto Jonathan prosseguia, o Presidente murmurava seus comentários para Melinda, e Fowler estruturava um discurso em cinco partes na própria mente.

— Muito bem: o primeiro passo é cortar — disse Ericson — o longo parágrafo que diz que eu sinto muito não haver tratado antes desta questão. Pode ser dito como uma boa frase, que seja pesarosa, citável, e vamos nos livrar logo disso. A referência à percepção tardia está excessivamente espirituosa; não quero esforçar-me para conseguir impressionar, portanto corte isso. Reduza o incidente no trem da campanha para a metade do tempo que tem agora, e dê força às circunstâncias em torno da decisão após a emboscada. Melinda, leia meus comentários administrativos específicos. — Ela leu; Fowler percebeu que o Presidente ia dando forma ao discurso para uma apresentação mais prática, apresentando mais um esclarecimento do que uma desculpa, com um enaltecimento emocional no fim, como apelo ao povo, contra a influência dos comentaristas.

— Agora são nove e meia — disse Ericson, tocando no relógio. — Veja se faz essas mudanças depressa, Irmão Jonathan, e depois use a Melinda para rebater à máquina. Não se preocupe com a limpeza, Melinda, não posso ver, de qualquer jeito, mas quero o discurso em forma para ler para o Hank, que poderá dividi-lo em seções para mim.

— Marilee está aqui — disse Melinda. — Quer que ela entre?

— Sim. Todo mundo saia e vá trabalhar. Harry — dirigiu-se ao agente do Serviço Secreto — dê seus palpites quando quiser: você tem sensibilidade para o modo como essas coisas se encaminham. Hank, fique aqui comigo.

O elenco saiu rápido, e Fowler cumprimentou Marilee quando ela se sentou onde estivera Melinda.

— Que é que há com Zophar?

— Ele não é suscetível a encantos, Senhor Presidente. Eu lhe apliquei o tratamento completo, porém ele não foi nessa. Nem estava presunçoso como de hábito. Ficou como um repórter nervoso por causa da sua história. — Sua voz estava tensa. Fowler escutou-lhe as longas unhas batendo leve e nervosamente na mesa do Presidente.

— Qual é a informação que ele tem? — Interrogação clínica de Ericson, observou o psicólogo, isso era bom.

— Informações com minúcias consideráveis, é o que ele deseja que pensemos, acerca do que Harry Bok contou aos soviéticos sob o soro da verdade ou hipnose, na véspera em que arrastamos Harry de volta. Zophar disse que é algo genuinamente escandaloso...

— Foi esse o termo que ele usou? Escandaloso?

— Ele usou essa palavra — disse Marilee. — Falou que é um jornalista responsável e que não deseja exagerar nem brincar com suas fontes, nem permitir ser usado. Por isso deseja vê-lo pessoalmente, Senhor Presidente. Ele disse que se todos os membros do Gabinete tivessem sabido da coisa, o voto para declará-lo incapacitado teria passado.

— Foram essas as palavras dele? “Todos os membros”?

— Sim, Sr. Presidente.

No silêncio que se seguiu, Fowler interrompeu:

— Essa história certamente teria causado impacto em alguns dos seus adeptos. O Procurador-Geral, por exemplo, deu grande importância ao facto de não haver qualquer indicação, antes da eleição, de que teria havido alguma coisa nesse sentido. E nos contou sobre...

— Agora não, Hank. — Quando o Presidente o interrompeu, o psicólogo percebeu que Marilee não estava ainda inteirada do conteúdo do discurso. — Marilee, a terminologia exata aqui pode ser importante — disse Ericson cautelosamente — Ele falou mesmo:

“se todos os membros do Gabinete tivessem sabido da coisa”, ou você está parafraseando? Ele não disse: “Se o Gabinete tivesse sabido”?

— “Todos os membros” repetiu Marilee. — Foi há somente alguns minutos atrás, por isso ainda posso escutar as palavras dele no meu cérebro.

A cigarra do telefone soou e Ericson apanhou-o:

— Smitty? Quero você de volta correndo. Não, agora mesmo. Está explodindo uma história que você não a conhece, e talvez eu tenha de ir à TV com um discurso esta noite — Fowler pôde ouvir as reclamações estourando durante um momento até que o Presidente interrompeu: — Quero você aqui depressa, numa questão de horas, para me ajudar a decidir se vamos falar ou não, mas, nesse interim, explique à Marilee como se consegue tempo nas redes de televisão rapidamente. Não posso mandá-la fazer uma coisa sem a sua aprovação. — Isso era uma mentira, contudo, certamente um adoçante em cima do Secretário de Imprensa. — Ligue para ela do aeroporto, Smitty; não faça ligação alguma do avião; não é seguro. Você tem pistolão junto ao Sam Zophar? Ótimo. Volte depressa. — E desligou.

— Eu disse ao Zophar que ele poderia falar com Hennessy hoje à tarde, por volta das cinco — disse Marilee. — Hennessy podia retardá-lo ainda mais com uma promessa de deixá-lo ver o senhor amanhã. E por falar no diabo, aqui está o nosso chefe da Casa Civil, com uma cara de quem chegou ao fim.

— Foi uma longa noite — falou Hennessy da porta.

— Está se sentindo bem? — O novo tom de preocupação na voz de Marilee formou uma imagem do chefe da Casa Civil na mente de Fowler: amarrotado, descabelado, com olhos injetados.

— Estamos olho com olho — disse Hennessy — e não interessa quem pisque, porque vocês, caras, jamais diriam a diferença.

— Ele está bem — falou Marilee.

— Se manda, beleza — disse Henessy fatigado. — Vou procurá-la daqui a alguns minutos a respeito de Zophar, para você me dar as dicas.

— E Smitty vai voltar no fim da noite — avisou ela, com a voz sumindo no vestíbulo.

— Quem diabos chamou o Smitty? — Evidentemente, Hennessy não ficou satisfeito com a perspectiva do regresso do secretário de imprensa.

— O líder eleito por 250 milhões de americanos mandou chamá-lo — replicou o Presidente.

— Não havia bilhete, reportou Hennessy. — Ou Herb não cometeu suicídio algum, que é a posição que defenderei, ou remeteu o bilhete para alguém: sua esposa, talvez, da caixa de correio a milha e meia estrada abaixo, o que é improvável. — Com um exagerado gemido atirou-se no sofá.

— Onde...

— Numa capela funerária perto da sinagoga de Adas Israel — disse o chefe da Casa Civil. — Ele era judeu. Melinda pode dar a notícia à esposa dele; ela a conhece.

— Foi uma dose exagerada de pílulas para dormir? — perguntou Fowler.

— Sim: o que não significa automaticamente suicídio — alertou Hennessy.

— A maioria das pessoas pensa dessa forma — opinou Fowler. Ele não queria encorajar alguém a afastar o Presidente da realidade.

— Sem bilhete, não há suicídio — falou Hennessy persistentemente. — Que a companhia de seguros prove o suicídio. Até então a esposa dele receberá a quantia pela qual ele foi segurado.

— Ah! — exclamou Fowler. Ele se irritou por haver esquecido esse ângulo. Ainda bem que um advogado experimentado estava envolvido e poderia proteger a família. Fowler estava contrariado por haver pensado que Hennessy só desejava salvar a Casa Branca de um constrangimento.

— Pode ter sido um acidente — rosnou Hennessy. — Havia uma garrafa de uísque perto, eu a mostrei ao guarda florestal, Herb poderia estar deprimido, e bebendo, e esquecera a quantidade que bebeu. Não nos precipitemos. Nada é oficial a menos que seja oficial. Sei que dose excessiva acidental de pílulas parece esquisito, mas não será fácil transformar isso na dura realidade de um suicídio sem, pelo menos, um bilhete.

Pobre Herb — disse o Presidente, com voz que Fowler mal pôde escutar. — Frequentamos a escola juntos. — Após um momento, em tom normal: — Hank, diga ao Hennessy por que você acha que Herb andava deprimido. — O psicólogo informou o chefe da Casa Civil quanto à possibilidade de abrir o topo do canal óptico após uma segunda avaria, e que, como não houve tal cirurgia, isso pode ter perturbado o médico que Herb Abelson quase fora.

Hennessy gemeu, mas não por causa de Abelson.

— Essa bichinha desse médico de olhos poderia ter simplesmente ignorado a discrição do caso.

— Hank disse que ele falaria com o comandante de Bethesda a esse respeito — disse o Presidente.

Fowler balançou a cabeça, acrescentando: — Hã... — para Ericson, não muito feliz com sua missão, embora contentasse um paciente. E provavelmente era a verdade; as probabilidades eram fortemente contra o facto de que um tratamento diferente pudesse fazer toda uma enorme diferença.

— Vamos nos fixar no assunto central — prosseguiu o Presidente — se vamos ou não falar na TV esta noite.

— Você poderá preparar o Presidente, Hank?

— Não se preocupe com isso — interrompeu o Presidente. — Estarei pronto para um discurso, se precisar estar. A questão é: terei de estar? Fale com Marilee, Hennessy, e veja o que Zophar sabe. Ela disse que ele afirmou ser alguma coisa escandalosa e que teria significado uma votação diferente do Gabinete se, e aqui está o termo exato, “se todos os membros do Gabinete tivessem sabido da coisa”. Que diabos quer isso dizer?

— Examinando bem, parece significar que um ou mais dos membros do Gabinete sabiam a respeito da cegueira anterior. O que não é verdade — Hennessy fez uma pausa. — Você chegou a contar ao Duparquet?

— Nunca — disse o Presidente. — As pessoas que sabem, agora, são da família, e temos de incluir o Hank na família, e o redator de discursos, Jonathan. Marilee não sabe.

Fowler sentiu, e não ficou envergonhado por isso, a emoção de estar no centro do poder, recebendo toda a confiança. Eles não podiam evitar de confiar nele, todavia, mesmo assim, era emocionante.

O fluxo de acontecimentos parecia estar tomando velocidade e Hank Fowler estava sendo carregado junto.

— Eu dobro o Zophar esta tarde — disse Hennessy — com Smitty, se ele chegar. E se o Smitty não cair aos pedaços sob a pressão, esse sacana metido a virtuoso. Acho que as redes de TV precisam de um aviso de três horas antes, portanto podemos tomar uma decisão às seis para ir ao ar às nove. — Ele se espreguiçou e gemeu; a noite insone o atingia — Só mais três anos para terminar. Se quiser se eleger de novo, arranje outro cara. Vou mandar Melinda falar com a mulher do Herb.

— Mande-a primeiro entrar com o discurso — falou o Presidente.

Quando Hennessy saiu, Fowler usou os momentos antes de o redator de discursos voltar, para ver como andavam a mente e o ânimo do Presidente. Sem perguntas capciosas:

Como está se sentindo?

— Como se estivesse cometendo um erro — replicou calmamente Ericson. — Estou fazendo a coisa certa moralmente ao dizer a verdade acerca da cegueira anterior. Porém, estou sendo apressado a fazê-lo, e isso é ruim. Não gosto de comprometer tudo, a menos que seja absolutamente necessário. Por isso, ao confessar a verdade estou certo, e ao fazê-lo agora posso estar enganado. Prematuro. Sentimentos misturados.

— Nenhum alívio por finalmente a coisa estar vindo à tona? O senhor deve estar em conflito — disse Fowler, pensando também que o Presidente estivera muito precavido contra seu psicólogo até agora.

— Não estou ansioso por fazê-lo, Hank. É cedo demais, não é bom haver muitos choques seguidos: não é bom para o povo. E importante que eu me mantenha neste posto.

— Pelo senhor ou pelo povo?

— Por ambos. — A cadeira rangeu de novo, e Fowler escutou o baque surdo dos pés do Presidente na mesa. — Analise a alternativa: Nichols seria um desastre. Seria uma marionete para Bannerman; e Hank, você não conhece isso tão profundamente quanto eu, Bannerman não é um homem de bom caráter — Essa frase ficou no ar até Ericson acrescentar: — Sei o que está pensando. Quem diabos sou eu para falar em caráter depois de ter enganado as pessoas acerca da cegueira? Bem, não fiz nada venal, nada nascido de um motivo para mentir ou trapacear ou roubar, mas somente para estabilizar uma situação até eu poder lidar inteligentemente com ela. A revelação total da verdade não era importante antes das eleições. Só se tornou importante após a emboscada, em retrospecto, todavia, naquela ocasião havia outras coisas mais importantes. — Ele saiu da cadeira e caminhou até as portas envidraçadas, virou de costas para elas e falou diretamente para Fowler, no outro lado da sala:

— Fiquei nesse estado porque estava tentando fazer alguma coisa pelo país, pela paz do mundo. Falo sério, você sabe que sim. E se eu puder me aguentar no cargo, se conseguir resolver isso, farei bem meu papel; não apenas bem, porém infinitamente melhor do que nosso Vice-Presidente e Bannerman, que poderiam atamancar isso tragicamente. Sim, eu sinto muito por haver cometido alguns erros táticos. Contudo, talvez fizesse as mesmas coisas, se tivesse de repeti-lo; não estou arrependido quanto às concessões, Hank, porque é isso que você tem de fazer para entrar e ficar. E você não pode fazer droga de bem algum se não está dentro.

— O senhor não estará apenas racionalizando seus sentimentos de culpa?

— Claro que estou racionalizando — irritou-se Ericson. — Não seja tolo, essa é a única forma de você poder viver com sua culpa. O único aborrecimento maior que me atormenta retrocede a um ano atrás, em julho, na convenção, quando comprei meu ingresso ao concordar em aceitar o nome que Bannerman apontou para meu colega de chapa. Esse foi o grande engano. Pelo amor de Deus, homem, não posso deixar a nação sofrer por esse erro; não enquanto tiver um sopro de vida. Certo: vou fazer concessões, vou conspirar e vou aparar algumas arestas da mesma forma que todos os homens que já trabalharam neste cargo tiveram de fazer. Contudo, vou manter este local fora do alcance de Bannerman nem que seja a última coisa que eu faça, o que talvez vá acontecer. E, melhor ainda: vou ser um bom Presidente, você verá, melhor do que teria sido enxergando. Não sou tão frio como antigamente, nem tão objetivo, e talvez isso seja bom; talvez eu não me devesse concentrar numa pequena e honesta paixão a vida toda. Gosto daqui. Pertenço a este lugar. Vou ficar e vou fazer um trabalho dos diabos. Ouviu isso, Hank? — Virou-se na direção da porta que levava à sala de sua secretária. — Melinda, onde diabos está aquele discurso? Atravessou a passos largos o fundo no Salão Oval rumo à porta e Fowler pôde ouvir a pancada de uma cabeça contra uma porta que não deveria estar fechada. O psicólogo atravessou a sala num instante, e alcançou o Presidente bem na hora em que este caía ao chão, amaldiçoando e berrando, mais de frustração do que de dor. Fowler sentiu o sangue pegajoso na têmpora de Ericson. Depois o psicólogo se preocuparia porque o primeiro pensamento que ocorreu à sua mente naquele instante foi o de que o talho poderia ser coberto por maquilagem na hora da apresentação na TV.


O SECRETÁRIO DE IMPRENSA /2

— Só um arranhão — insistiu Hennessy. — Ele bateu com a cabeça e se levantou na contagem de quatro. O novo doutor examinou-o, pôs-lhe um pedaço de esparadrapo cor da pele na fronte, e com a maquilagem na televisão, ninguém verá nada.

Ocorreu a Smitty que Hennessy estava minimizando tudo. Após uma viagem supersônica de seis horas vindo dos campos petrolíferos da Vertente Norte, o Secretário de Imprensa chegou à Casa Branca, e foi atingido por cinco impactos diferentes de informação. Primeiro, a pendente revelação de Zophar; depois soube pela primeira vez da cegueira anterior, quando lhe mostraram o esboço do discurso adiantadamente, cópia do qual não seria divulgada; em seguida soubera do suicídio de Abelson, o qual fora anunciado como provável acidente, e isso era dilacerar a verdade; e havia também a possível reação do público quanto ao “ele mesmo que causou isso”, que Hank Fowler temia; e, finalmente, havia notícias acerca de um discurso iminente com intuito de se adiantar às declarações de Leigh-para-Zophar, que o Presidente poderia fazer à noite.

— De acordo com você, tudo é muito simples — falou Smitty para Hennessy, à mesa da sala do chefe da Casa Civil — só que quando se mete a mão, a coisa é bem pior do que parece.

— Está demais para você, Smitty? Sei que voar esgota um homem da sua idade.

— O Sr. Zophar chegará daqui a alguns minutos — Marilee mudou de assunto. — Qual será a estratégia?

O Secretário de Imprensa não gostou da piada de Hennessy em referência à sua idade — um homem mais idoso pode ser um excelente chefe da Casa Civil como demonstrara Lucas Cartwright, com quase setenta; muito melhor do que o agressivo advogado divorcista que o Presidente escolhera. — Smitty tampouco gostou da forma pela qual Marilee se intrometeu nos seus assuntos durante uma curta viagem à região norte.

— Tem havido muita droga de estratégia aqui nos últimos dias — irritou-se ele. — Podíamos ter evitado um monte de problemas para nós mesmos, se tivéssemos dito a verdade.

— Eu sabia — disse Hennessy, saltando de uma cadeira e se aproximando da janela, onde ficou, mexendo com as chaves no bolso. — Devíamos tê-lo deixado lá, caçando esquimós. Eu lhe disse que a primeira coisa que ele diria é: “Eu avisei a vocês”.

— Eu nunca avisei a vocês porque nunca soube — lembrou-lhe Smitty. — E por que você me queria aqui, já que não gostam de me escutar?

— O Presidente insistiu na sua presença aqui durante a crise — falou Marilee suavemente. — E eu estou contente mesmo que tenha voltado. E o Hennessy também, mas ele está encontrando certa dificuldade em expressar-se.

Hennessy virou-se, com a disposição subitamente modificada:

— Ela tem razão. Desculpe, Smitty; talvez você trabalhasse melhor no meu cargo, mas ele é meu, pelo menos por enquanto. Quer ajudar?

— Estou aqui, estou aqui — disse Smitty, sentindo-se melhor. Talvez pudesse transformar a situação; do jeito que estava, dificilmente poderia piorar, e ele conhecia Zophar fazia muito tempo. — A primeira coisa que Sam Zophar vai perguntar é o que o Presidente tem lido ultimamente.

— Hem? — Hennessy deu-lhe um olhar esquisito.

— É o estilo do Zophar — explicou Smitty. — Não importa a urgência do seu assunto, ou o que ele realmente deseje discutir, começa com os livros que o Presidente está lendo. Tem feito isso desde que o conheço, há uns vinte e cinco anos.

— Mas o Presidente está ce... — Hennessy deteve-se. — Não, ele tem lido livros. Nós combinamos uma coisa com o Bibliotecário do Congresso, de onde ele manda aqueles livros falantes, as fitas. Marilee... — apontou para o telefone na mesa de Smitty, o qual ela usou para saber as solicitações que o Presidente fizera. — Quer que ela fique aqui para isso, Smitty?

— Não precisamos da Marilee — começou Smitty, provocando o interrogativo olhar de desespero da mulher ao telefone — porém, ela pode ficar, também, já que iniciou isto com Sam Zophar. Quero que ela esteja pronta para assumir no momento em que eu for ocupar o seu cargo.

— Como deveremos proceder — disse Hennessy atenciosamente — nunca não dizendo a verdade? — Smitty notou a negativa dupla, que era um pouquinho diferente de “sempre dizendo a verdade”.

— Eu farei o mocinho, e você o bandido — disse Smitty, e Marilee tapou o telefone para acrescentar:

— Ele jamais adivinhará a verdade.

Smitty grunhiu, e continuou:

Verei o que deseja, e quanto poderei arrancar do homem; você fica calado, a gente discute um pouco, você amolece e diz que ele poderá ver o Presidente mais tarde. Então verei o que mais a gente pode extrair dele.

— Se ele sabe da história da cegueira anterior em detalhes — disse Hennessy cautelosamente — então lhe direi que o Presidente tenciona revelar tudo pela televisão esta noite. Direi que sinto muita pena porque sua história foi “furada”, mas que talvez lhe possamos dar alguns detalhes exclusivos após o discurso.

— Detesto fazer isso com um jornalista — disse Smitty. — uma traição; eles jamais nos trarão qualquer coisa para averiguação de novo, se não protegermos uma exclusiva. — Isso tudo tinha sido resolvido antes de sua volta do Alasca, acrescentou para si mesmo.

— Você sabe que se nós não contássemos a verdade, estaríamos acabados, Smitty. Deixe essa decisão para mim, contrariando sua objeção, está bem? — O Secretário de Imprensa ficou satisfeito porque Hennessy entendeu seu recado. O chefe da Casa Civil prosseguiu: — E se o Zophar não souber de coisa alguma? O Presidente suspeita de que tudo seja uma sondagem: ele está somente jogando verde; recebeu uma dica de Arthur Leigh, e não informações reais. Talvez ele tenha uma história diferente, alguma coisa sem importância. Isso significa que podemos aguardar um dia ou dois, quem sabe abafar a coisa um pouco...

— O Presidente tem de fazer este discurso — disse firmemente Smitty — e quanto mais cedo, melhor. Não farei parte de um embuste. — Ele viu Hennessy estremecer a esse aparte, mas continuou a “vender seu peixe”: — Não estou dizendo que vocês todos encobriram um crime. Homens honestos poderiam diferir quanto à data da revelação da história toda. Mas isso poderia ser interpretado como uma farsa por Bannerman e o resto, e a gente ficaria muito mal vista, especialmente o Presidente.

— Quer dizer especialmente você.

— É isso mesmo.

Hennessy visivelmente provocava o outro:

— Você certamente ficou a favor da verdade nua e crua no momento em que soube dela, Smitty, e Marilee é nossa testemunha. — O chefe da Casa Civil falava como se estivesse fazendo uma declaração a ser registrada. A cabeça loura com o telefone encostado balançou.

— É essa a história toda? — Smitty sentiu que tinha de perguntar isso, para também ser registrado. E nem sabia se queria uma resposta.

— Ainda sou o conselheiro especial do Presidente — falou Hennessy. — Existe uma relação advogado-cliente que ele e eu temos, que poderia ser o motivo pelo qual eu consegui o cargo de chefe da Casa Civil. Talvez haja outra questão envolvida, e suponho que teria de contá-la a vocês, se me encostarem na parede, mas vocês teriam de fingir que jamais ouviram nada a respeito.

— Não sou advogado — disse Smitty, e ficou aliviado quando Hennessy entendeu a dica e ficou calado. Marilee desligou e leu do seu bloquinho:

— Ele pediu três livros a semana passada, e Melinda disse que se divertiu com os três. Um é o atual best-seller e não-ficção, Partners in Pain, a dupla biografia de Jacqueline Kennedy e Pat Nixon: e os outros são mais antigos, de ficção: Billy Budd, de Herman Melville, e The Man that Corrupted Hadleyburg, de Mark Twain.

— É isso que ele faz de noite? — Até Hennessy ficou surpreso.

— São títulos bastante respeitáveis — reconheceu Smitty.

— Eu fiz um curso sobre Melvilie — disse Marilee. — Billy Budd é um jovem marujo que acaba enforcado porque matou um companheiro depravado. Culpa e inocência; o bem e o mal...

Que diabos você está resmungando aí? — Hennessy estava atônito. — Estamos todos contra a parede; o Presidente dos Estados Unidos está aguardando nosso sinal para ver se faz o discurso mais duro de sua vida esta noite, e você fica nos ministrando um curso de literatura para calouros de Vassar.

— Zophar deve estar no saguão oeste agora — disse Smitty, vendo que eram 5 horas da tarde no seu relógio. — Marilee, traga o homem. — Quando ela foi buscá-lo, o Secretário de Imprensa e o chefe da C. C. não conseguiram pensar em nada para se dizer. De certa forma, Smitty desejava não ter sido chamado de volta.

— Cavalheiros! — Zophar, pedante como sempre, mas ainda, achou Smitty, agora que estava barrigudo, entrou na sala do Secretário de Imprensa, acenou mais do que apertou mãos, e começou a estudar as telas nas paredes. — Aqui está Jim Hagerty, Smitty, que você gostaria de imaginar como seu protótipo, mas os secretários de imprensa eram mais poderosos no tempo de Eisenhower.

— Hagerty teve de lutar com uma verdadeira incapacidade — foi tudo o que Smitty falou. Então calculou que sua velha associação com esse pretensioso velho espertalhão poderia ser usada em vantagem do Presidente, e acrescentou: — Você já as viu ir e vir, Sam.

— Não creio que você ficará muito tempo nesse emprego — disse o colunista objetivamente — a menos que queira receber ordens de Nichols. Não sei se lêem minha coluna — esperou que todos acenassem com a cabeça, o que Smitty zelosamente fez — mas defendo claramente a posição de que a Administração Ericson terá curta duração — Smitty pensou, de início, que o colunista pronunciara mal “curta duração” com o som de “visão”, mas deduziu que Zophar falara certo e estava se exibindo.

— Por que acha isso, Sam?

O colunista ignorou a pergunta com um gesto; ele viera para perguntar, não para ser interrogado, parecia dizer a mão imperiosa; e certamente não para apressar suas perguntas nem discutir assuntos de grande importância com gentinha. Smitty recordou-se de que deveria fazer o papel de Senhor Bonzinho.

— Normalmente eu começaria perguntando que livros o Presidente tem lido, Smitty, mas isso dificilmente seria de bom...

— Melville, creio — disse Smity, calmamente. — Marilee, você estava verificando aqueles livros sonoros da Biblioteca do Congresso fintes de eu partir para o Alasca, não é?

— O gosto dele é bastante eclético — informou ela tranquilamente, e Smitty ficou satisfeito por que ela usou uma palavra valiosa: — Um pouco de Melville, um pouco de Twain, e a nova biografia de Kennedy e Nixon. E também William Blake.

— O que, de Melville? — Zophar estava desconfiado.

— Billy Budd.

O colunista sorriu:

— “Deus abençoe o Capitão”... Como era o nome dele?

— “Deus abençoe o Capitão Vere”... foram as últimas palavras do marujo — replicou Marilee sem se alterar. Smitty sentiu uma onda de orgulho; a turma que trabalhava com James Smith não tinha instrução superior. Mas que diabos estaria Ericson fazendo, lendo esses velhos romances, quando havia tanto dever de casa presidencial a ser feito?

— Não queremos tomar muito do seu tempo, Sr. Zophar — disse Hennessy.

— E eu não quero tomar nenhum tempo de vocês — replicou o colunista. — Gostaria de falar com o Presidente sobre um assunto da maior gravidade.

— Marilee nos contou um pouco do que você desejava saber, Sam — disse Smitty. — Poderia explanar um pouco além?

— Não, respondeu Zophar. — Eu o respeito, Smitty, e é por isso que estou aqui, mas é simplesmente fundamental que eu veja o Presidente.

— Isso não é impossível — falou o Secretário de Imprensa — e quero lhe assegurar que todos compreendemos que você não pediria uma entrevista para tratar de assunto sem importância. Ficamos gratos, também, pela oportunidade de comprovar uma história. No caso de a sua dica ser errada, isso evitará situações embaraçosas para todos.

— Eu não lido com “dicas”. Minhas informações são reais, não sofro o risco de ficar embaraçado, e não vim aqui para passear.

Smitty permaneceu frio:

— Voei seis milhas para comparecer a esta reunião, Sam, e eu ficaria bem melhor aos olhos do meu chefe se tivesse alguma indicação...

— Foi esse o papel que a Senhorita Pinckney representou ontem para mim, e já estou farto dele. Se você vai ficar bem ou mal não é problema meu. Vou falar com o Presidente agora, esta noite, ou devo publicar a história conforme a recebi?

— Se eu fosse você, Smitty — disse Hennessy com a voz firmemente controlada — daria primeiro um chute na bunda desse cavalheiro para expulsá-lo imediatamente da Casa Branca. Depois lhe diria que os três ou quatro alcaguetes que sabemos serem suas fontes nesta Administração... incluindo Lucas Cartwright... serão convidados a deixar de ser seus informantes. E ele já pode saber que não vai mais ser convidado para jantares oficiais e festinhas íntimas, inacessíveis a colunistas, que ele gosta de frequentar. Eu lhe diria, usando as imortais palavras de Thomas Jefferson: “Publique e vá pro diabo que o carregue!”

— Felizmente você não é o secretário de imprensa — disse Smitty a Hennessy, com um olhar severo. — O Sr. Zophar está nos fazendo um favor por estar aqui, e se não pode tratá-lo com civili...

— Ah, pelo amor de Deus! — exclamou Zophar. — Acabem com essa palhaçada de mocinho e bandido. Já vi essa peça encenada aqui mesmo, nesta sala, uma dúzia de vezes, e muito mais bem representada. Vocês vão ou não me facilitar as coisas?

Hennessy surpreendeu Smitty ao sorrir cordialmente para Zophar.

— Você está igual a um velho juiz que conheci em Nova York. Era advogado divorcista antes de ser nomeado. Jamais consegui arrancar-lhe um níquel. Por falar em velha-guarda: por onde anda aquele velho sacana do Arthur Leigh?

— Encontrei-o ainda outro dia — disse inocentemente o colunista — muito por acaso. Parecia, porém, meio por fora. (Smitty admirou a forma por que Zophar protegia sua fonte, confessando seu encontro com Leigh para o caso de terem sido vistos juntos — contudo inocentando-o como improdutivo.)

— Olhe, Sam — disse Smitty, dando a impressão de capitular. — Por que você não nos conta tudo o que sabe da história que vai revelar, e então veremos o que se pode fazer?

— Os Soviéticos arrancaram algumas informações de Harry Bok — explicou Zophar. — Informações que, se conhecidas na ocasião da sessão do Gabinete sobre a incapacidade do Presidente, teriam resultado na proclamação de que o Presidente estava incapacitado e na nomeação do Vice-Presidente como Presidente Interino. Isso porque as informações extraídas do Sr. Bok eram simplesmente capazes de provocar um escândalo.

— Uma rápida pergunta — disse Hennessy. — Você falou a Marilee que alguns membros do Gabinete já estavam a par da notícia?

— Eu disse isso a ela? Devo ter ficado atônito pelos seus encantos. Como é, vou conseguir falar com o Presidente ou não?

— Fique aqui com a Marilee — falou Hennessy. — Smitty e eu voltaremos já.

Smitty ouviu as opiniões de Hennessy no vestíbulo, entre a sala secretário de imprensa e o Salão Oval, e depois foi ao encontro Presidente, que aguardava com Melinda e Harry Bok,

— Detesto passar a perna na exclusiva de alguém, Sr. Presidente — disse Smitty a Ericson, sentado atrás da mesa, pondo os dedos para cima, — Mas acho que ele tem a história, e seria melhor o senhor contar ao povo americano à sua moda.

— Hennessy está aí com você? — o Presidente não ficou alegre com a notícia de Smitty.

— Estou bem aqui. Sobre o caso de alguns membros do Gabinete saberem: Zophar não confirmou, talvez não seja verdade. Ele usou a palavra “escândalo” com muita ênfase. Acho que você seria louco se esperasse, a menos que esteja encontrando dificuldades em conseguir preparar-se para o discurso.

— Ele acabou de nos dar uma demonstração — disse Melinda. — Precisa só de uns retoques para o Presidente estar pronto.

— Sr. Presidente — disse Smitty dolorosamente — não vejo a coisa da mesma forma que Hennessy. Não creio seja importante saber que droga de história o Zophar tem. Mesmo que fosse uma coisa inteiramente diferente, o senhor tem de contar a verdade a respeito da sua cegueira. É a única coisa certa a fazer. Eu, por exemplo, não poderia trabalhar a seu favor lá fora, naquele covil de lobos, sabendo que o senhor estava vivendo uma mentira.

— Não quer encostar uma arma na cabeça dele, “seu” merda? — bufou Hennessy. Para o Presidente, acrescentou: — Ele só disse isso para que conste no seu futuro livro de memórias. E assim não vale. Tem de decidir o que é mais prático para se fazer agora.

— Se eu pudesse escolher — disse o Presidente, após pensar um pouco — não faria o discurso agora. Daqui a umas duas semanas, e sob as circunstâncias certas, eu o faria melhor. — Pausa. — Estamos entrando em pânico e com base em bem pouca informação: não gosto disso. — Outra pausa. — Sabem por que vou fazê-lo? Pela razão que me deu medo o tempo todo: porque o discurso está pronto; estou com ele na cabeça; estou animado e não me animarei facilmente de novo. Além disso, nunca fui grande jogador, mas gostaria de lançar os dados após sacudi-los na mão o dia todo — Ericson não terminara ainda, e Smitty não se aproximou do telefone. — Por tudo isso, e também porque seria difícil à beça para mim contrariar todos os conselhos de vocês. Não existe absolutamente nada me afastando disto, e o impulso está mais ou menos me empolgando. Não é assim que gosto de tomar decisões. — Smitty sabia que todo mundo na sala estava sem graça, mas às vezes um homem tem de ser obrigado a fazer o que é certo. — Mas nem sempre consigo fazer o que gosto. Portanto, prosseguiremos. Todo mundo vá fazer o que tem de ser feito para armar o esquema, e eu atuarei. Hank e eu trabalharemos aqui.

Smitty achou que Ericson tinha sorte em possuir um chefe da Casa Civil — mesmo sendo Hennessy — que podia elaborar uma decisão quando o chefão se sentia relutante em tomá-la. Ele tinha a certeza de que Ericson se mostraria à altura dos factos, e se apressou em ir dizer a Zophar que sua história fora passada para trás. Era uma pena quanto à exclusividade, mas o Presidente decidira falar na TV.


O APARELHO DE TELEVISÃO

O aparelho de televisão com quatro telas, cada uma focalizando uma rede de emissoras, aparecia na sala do secretário de imprensa naquela noite com a mesma imagem: a Casa Branca superiluminada, vista das fontes do gramado fronteiro. As vozes nas telas eram diferentes, e misturavam diferentes versões sobre o mesmo motivo de pasmo.

— ... há somente três horas atrás, quando o Secretário de Imprensa do Presidente pediu este horário para o que ele descreveu como uma “importante alocução pessoal”. Este será o primeiro discurso preparado feito pelo Presidente Ericson desde a emboscada em Yalta, há seis semanas atrás...

“... nenhuma publicação prévia de um texto; na verdade pode não haver nenhum texto, pois este é o primeiro discurso de um Presidente que está incapacitado de ler. O Presidente tem andado em relativa reclusão nas últimas horas. Os únicos membros do staff a vê-lo foram o Doutor Henry Fowler, o psicólogo cego que o ajudou a preparar sua apresentação, e sua fotógrafa oficial, Buffie Masterson, que registrou alguns momentos históricos antes deste histórico ‘primeiro’...

“... somente especulações, mas disso há bastante. Alguns dizem que o Presidente foi profundamente afetado pelo aparente suicídio do seu médico pessoal, o Doutor Herbert Abelson. A Casa Branca tem sugerido que a morte pode ter sido o resultado de uma superdose acidental de remédios. Por que o médico do Presidente tiraria a própria vida, se foi isso o que ele fez? A pergunta está nas bocas do corpo jornalístico reunido aqui esta noite. Existem também conjeturas de que este pode ser o momento em que o Presidente Ericson resolveu renunciar de acordo com as cláusulas da Vigésima Quinta Emenda, agora que se abandonaram as pressões para retirá-lo do Gabinete. A teoria é que, tendo resistido vitoriosamente contra seu afastamento, ele talvez agora esteja pronto para sair, de espontânea vontade...

“... e senhores: o Presidente dos Estados Unidos.

As quatro trilhas sonoras se fundiram em uma só, e a voz de Svn Ericson disse:

— Boa noite, meus concidadãos. — As quatro cabeças de um homem, cada um com um colorido ligeiramente diferente, surgiram no conhecido cenário do Salão Oval, por trás da mesa e à frente das cortinas, com bandeiras à esquerda e à direita, sem retratos de família nem outros pontos que desviassem a atenção, pois Ericson não tinha família para mostrar.

“Esta é a primeira oportunidade que tenho de conversar com vocês desde o assassinato do Secretário-Geral Kolkov, há seis semanas.

“Desde aquele dia trágico me venho recuperando do ataque. Tenho me adaptado à cegueira que o ataque provocou. Realizei uma coletiva com a imprensa para responder às perguntas mais prementes. E tenho lutado para proteger a presidência contra um confisco sem precedentes dos seus poderes.

“Agora, finalmente, posso comparecer diante de vocês para discutir um assunto pessoal do passado, e para revelar nova iniciativa que afetará o futuro.

“Deixem-me primeiro explicar como estou fazendo este discurso. Este pequeno aparelho na minha orelha não é um aparelho auditivo — não há nada errado com minha audição, graças a Deus — é um minúsculo fone de cabeça ligado ao gravador aqui da mesa. De vez em quando vou apertar um botão que tocará para mim uma gravação de minha própria voz, feita hoje, resumindo o que desejo dizer. Farei uma pausa de alguns segundos, ouvirei minhas anotações e depois prosseguirei falando de improviso. Não é refinamento: estou agindo desta forma para não esquecer de nada que lhes desejo dizer, e que precisem ouvir. Portanto, quando me virem fazendo uma pausa, será para escutar minhas anotações.

A câmara do pool mostrou o gravador em cima da mesa, e o dedo do Presidente tocando nele durante três segundos. Na sala do secretário de imprensa, Smitty disse:

— Isso é bom: ele está interessando todo mundo no processamento do discurso. Não está escondendo coisa alguma.

Sua substituta, assistindo junto com ele, sacudiu a cabeça:

— Isso é apelo emocional. Não é do estilo de Ericson.

— Primeiro, e resumidamente, as más notícias. Muitos de vocês têm me mandado cartas e gravações com preces... pelo que serei sempre grato. Porém meus médicos me dizem não haver nenhuma evidência que me dê esperança de recuperar a visão. Como um milhão e meio de outros americanos, estou cego, e devo ficar assim pelo resto da vida.

“Já não luto contra a ideia. Não tenho pena de mim mesmo, e a última coisa que desejo é que alguém tenha pena de mim. Será um teste para meu próprio caráter aprender a viver com a cegueira; e será um teste do caráter nacional que o povo americano aprenda a conviver com um Presidente cego. Juntos, passaremos por esses testes.

“Houve, porém, um momento em que eu talvez tenha falhado nesse teste, e quero falar-lhes a respeito. Mostra como é importante encarar os factos, independente de quão desagradáveis eles possam ser. Aprendi uma lição com esse episódio, lição que me foi proveitosa nas últimas semanas, e quero compartilhá-la com vocês.

Na sala, Smitty disse:

— Aí vem. — Marilee suspirou:

— Jonathan armou bem a coisa.

— Durante a campanha de eleição no ano passado, fiz, num velho trem, um circuito de paradas em Ohio. Foi um recurso publicitário, como se diz em campanhas... como o feito pelos partidários de Lincoln e que disseram que ele estragou, coisa que jamais fez. Foi algo de limpa e tradicional alegria... mas houve um acidente no trem. Como alguns de vocês devem lembrar-se, e divulgamos na ocasião, quando o trem fez uma parada perto de Lima, perdão, pronúncia de Laima, fui atirado contra um anteparo e sofri uma leve concussão.

“Anunciamos que eu tinha sido ‘posto 'knock-out', o que não deixava de ser verdade. Houve outra coisa, porém, que não foi revelada: mais ou menos durante um dia após eu haver batido com a cabeça, fiquei sem enxergar. Não me ocorreu que ficara temporariamente cego; pareceu-me apenas que estava demorando muito para recuperar totalmente a percepção. Assim, nada divulgamos sobre o caso, e ficamos aguardando para ver, na própria acepção da palavra. E foi o que ocorreu: após mais ou menos um dia, meus olhos estavam bons de novo.

Smitty:

— Marilee, o que é que você acha?

— Nossa! Eu não sabia dessa! Pobre homem!

— Em retrospecto, suponho que meus auxiliares deveriam ter divulgado que eu perdera a visão durante algumas horas. Porém, francamente, recusei-me a encarar o facto. Recusei-me a crer que não fazia parte do processo de receber uma pancada e ver estrelas. E aguardei, e nada mais disse a respeito quando recobrei a visão.

“Bem, aprendi minha lição. Com o benefício da percepção tardia do facto, posso dizer isto: é importante encarar o facto da cegueira, dizer a verdade a respeito dela, e então triunfar sobre ela. E é por isso que lhes estou contando tudo isso esta noite; os que me podem estar apoiando, na esperança de que minha visão voltará, ponham essa esperança de lado. Aprendi a viver com a cegueira, e vocês devem fazer o mesmo.

A câmara enquadrou a mão do Presidente usando o gravador com suas anotações. Smitty olhou para Marilee:

— Ele inverteu o quadro todo; não é nenhum escândalo: é uma lição. Ah, aquele garoto redator, se foi ideia dele, o homem é bom pra danar. Não estava desse jeito no rascunho que eu li: começava com uma confissão.

Marilee, de olhos cheios d'água postos nas telas, gesticulou para que se calasse.

— Após a emboscada em Yalta no mês passado, enquanto eu estava inconsciente, meu pessoal nada contou aos soviéticos acerca da minha perda de visão. Isso mostrou bom senso, já que o objetivo básico era tirar a comitiva presidencial da zona de perigo e trazê-la de volta ao solo americano o mais depressa possível.

“Após recobrar a consciência, no Air Force One, percebi que não enxergava. Mandei que meu pessoal mantivesse a cegueira em segredo por enquanto. Eu não queria que alguma potência estrangeira pensasse que os Estados Unidos estavam incapazes de reagir a uma ameaça. Eu tinha razão em fazer isso. Talvez eu tenha errado, por não confidenciar aos meus médicos a concussão do ano passado. No entanto, naquele momento, a cegueira anterior não parecia tão pertinente. Meu pessoal e eu nos preocupamos, em primeiríssimo lugar, em assegurar que a nação e o mundo soubessem que o Presidente dos Estados Unidos estava bem o bastante para tomar certas decisões, e, se necessário, repelir qualquer ataque.

“Naqueles momentos cruciais a nação e eu tivemos a felicidade de contar com dois grandes servidores públicos me assistindo: George Curtice, o Secretário de Estado, e Lucas Cartwright, que era então meu chefe da Casa Civil e é agora Secretário de Defesa. Esses dois homens foram muralhas de força em Yalta. Hoje eles são as autoridades mais importantes de Gabinete do país. — Ele accionou o gravador para ouvir as anotações.

“Após consultá-los mandei, esta tarde, que estendessem um convite ao novo Primeiro-Ministro da União Soviética, Vasily Nikolayev, através de canais diplomáticos normais. O governo dos Estados Unidos está preparado para reatar negociações no ponto em que foram tragicamente interrompidas em Yalta. Nossa sugestão é que essas conversas vitais tenham lugar em Washington em futuro próximo, possivelmente perto do Dia do Trabalho. Deixem-me acrescentar isto, meus concidadãos: a Administração Ericson está pronta, disposta e capaz de conduzir essas negociações. — Ele operou novamente o retrocesso do gravador.

Smitty balançou a cabeça, preocupado:

— Ele está embromando: os russos ainda não responderam à sondagem; ele a fez somente esta tarde. Precisava de uma frente.

Marilee rejeitou a frase de Smitty:

— Não é nada demais. Nikolayev virá um dia desses. O Presidente não se arriscaria assim, sem saber. — O momento com o gravador acabou.

— Permitam-me agora tocar num assunto pessoal. Tive de fazer a mim mesmo uma pergunta muito séria e profunda há não muito tempo atrás. A pergunta era essa: O que seria melhor para o povo americano, a minha saída ou a minha continuação? Muitos homens e mulheres de boas intenções e sensatos me ressaltaram que nenhuma pessoa é indispensável. Certamente não tenho ilusões de grandeza nem sede de poder. Fui eleito para fazer o que for melhor para a nação, não o que for melhor para mim. E considerei cuidadosamente o argumento de que uma outra pessoa, no gozo de todas as suas faculdades, seria mais capaz como Presidente do que eu, que não tenho a faculdade da visão.

“Enquanto eu refletia sobre isso, houve um movimento para me destituir, para usurpar minha autoridade constitucional, através do uso sem precedentes de uma nova emenda até então nunca utilizada. Não tive dúvida de que o rumo certo era o de resistir a essa tentativa de golpe. Como Presidente não podia permitir que me expulsassem do cargo, o que consequentemente o enfraqueceria em definitivo. Não foi para isso que fui eleito.

“Entretanto, agora que a crise passou, tive de estudar o caso de novo. Sem pressão, sem coação — o que é melhor? Alguns versos de John Milton, no poema épico Samson Agonistes me foram relembrados. O cego Sansão, na agonia de seu cativeiro, implorou alguma forma pela qual ainda pudesse ser capaz de servir ao seu povo. — O Presidente escutou as anotações e então falou:

“Agora cego, desalentado, envergonhado, desonrado, subjugado,
Em que posso ser útil, como servir
À minha nação...

“Deus atendeu ao brado de Sansão e lhe devolveu a força para confrontar seus inimigos, para fazer seu sacrifício, para libertar seu povo.

“Não sou Sansão, inclinado à destruição. E não tenho o génio de Milton. Todavia, sei que o povo americano elegeu um homem, um ser humano para Presidente. Não um computador com memória infalível; não um gerente, com algum método supremamente eficiente; nem uma águia, com olhos de águia. Vocês elegem um homem, com seus defeitos e fraquezas, e seu caráter; porém, o mais importante de tudo, vocês elegem um homem que pode — todos esperamos — crescer junto com sua função, grande demais para qualquer homem que ainda não a tenha exercido.

“Acredito, não estou certo, mas acredito, que bem posso estar a caminho de ser esse homem. A emboscada em Yalta custou-me a visão, mas talvez me tenha dado uma percepção com que talvez, de outra forma, eu jamais tivesse sido aquinhoado.

“Por isso é que vou prosseguir. Este cargo, esta Casa Branca, têm sido ocupados por homens atormentados, por homens aleijados, por homens que venceram grandes empecilhos nas suas vidas.

“Ao relembrar as últimas semanas, compreendo agora que minha cegueira, minha cegueira permanente, não foi minha maior deficiência; meu maior obstáculo foi a minha própria incerteza: saber ao certo se permanecer no cargo era a atitude correta.

“Posso não enxergar, o que é problema técnico, mas já não sou deficiente. Com a ajuda de Deus, com a ajuda de vocês, sei agora que posso cumprir a missão para a qual vocês me elegeram. E tenciono seriamente cumpri-la.

“Obrigado e boa noite.”

O Presidente retirou o fone de ouvido e o colocou na mesa, perto do gravador. Tirou os óculos e os pôs também na mesa, inclinando-se bem para trás na enorme cadeira. As quatro telas do aparelho de televisão desviaram-se da imagem do Presidente e focalizaram os objetos em cima da mesa, enquadrando-os, em silêncio, durante quase trinta segundos.

Smitty assoou o nariz:

— Porra, ele conseguiu! Eu sabia que conseguiria. Eu sabia ser a coisa certa a fazer!

Marilee, com os polegares apertou as lágrimas que caíam e depois procurou o lenço, para enxugá-las:

— Estou tão orgulhosa! Nunca fiquei tão orgulhosa!

Smitty aumentou o som de um dos canais, e cortou o dos outros. O repórter que resumia o discurso, ao reconhecer seu conteúdo emocional usou um tom de voz respeitoso:

— ... misturou as más notícias da natureza permanente de sua cegueira com as boas notícias da continuação das negociações com a União Soviética, provavelmente no começo de outono.

Ele também revelou um facto do qual não tínhamos conhecimento: que durante a campanha de eleição no ano passado um acidente o cegou durante uns dois dias, e que a divulgação dessa cegueira prévia foi abafada. — Virou-se para alguns analistas, que começaram a dissecar as possibilidades de outra reunião de cúpula.

— Estas não são sugestões feitas por alto — disse um. — Um convite para reunião de cúpula nunca é feito publicamente a menos que haja sido aceito particularmente.

— Puxa! — grunhiu Smitty, mudando de canal. Em toda parte a reação era em surdina, como se a televisão aguardasse uma dica dos jornais matutinos sobre como divulgar as notícias. Políticos abordados para fazer comentários mostravam-se reservados, também, exaltando a coragem do Presidente, embora julgando cautelosamente o “episódio do trem de campanha”, como já começava a ser chamado. Repórteres disseram que não ouviram comentário algum da "Comissão para Substituir o Presidente incapacitado", “que evidentemente fora apanhada de surpresa”, e T. Roy Bannerman estaria em Londres a negócios. O correspondente de uma rede de TV na Casa Branca declarou que soubera que o chefe da Casa Civil do Presidente, Mark Hennessy, se opusera a quaisquer revelações no discurso, mas que “pelo menos um membro” do staff do Presidente ameaçara renunciar, a menos que a verdade viesse a público. As telas encheram-se com outros comentários cautelosos até as nove e meia, e voltaram à sua programação normal.

Na sala com as quatro telas escurecidas, a família oficial do Presidente reuniu-se não-oficialmente a fim de comparar reações. Melinda McPhee foi a primeira a se reunir a Smitty e Marilee, seguida por Hennessy.

— Ele botou pra fora! — comentou Melinda, maravilhada. — Não soou tão mal... Ou estou maluca?

— Quando se faz o que é certo — disse o Secretário de Imprensa, com os pés na mesa — não se pode estar errado. Hoje até o Hennessy concordará com isso.

O chefe da Casa Civil estava exultante, mas não arrebatado:

— Você aparece com uma boa desculpa por não dizer nada durante seis semanas; você mantém o auditório preso pela forma com que apresenta o discurso, com truques de audição-rápida, e eles não entendem direito o que está dizendo; você embaralha uma decisão de não dizer que estava cego no trem de campanha e, rápido como um coelho, culmina com um comunicado sobre relações exteriores; você apela para o sentimento, dizendo que será cego a vida inteira e usa isso como contraponto para apagar a falha de não revelar a verdade antes das eleições. Faça tudo isso, Smitty, e não poderá estar errado.

— Nossa — disse Marilee — esse discurso não foi o que eu ouvi...

Smitty rejeitou o aparte:

— A gente acertou em cheio. Entre, Buffie: devemos registrar para a posteridade a feliz foto do staff do Presidente no momento do seu maior triunfo.

Buffie se movimentou pela sala do Secretário de Imprensa, captando algumas fotos “espontâneas” autoconscientes, enquanto eles falavam.

— Onde está o Irmão Jonathan? — perguntou Melinda. — Alguém devia dar um tapinha nas costas do garoto. — Marilee apanhou o telefone para descobrir onde estava ele.

— Sam Zophar deve ter ficado roxo — disse Smitty — por ter um furo mundial arrancado de suas mãos.

— Gostei daquela do Sansão — admitiu Hennessy. — Um Presidente cego citando um poeta cego a respeito de um herói bíblico cego; essa foi grande!

— Sem dúvida maior do que um chimpanzé-guia — resmungou Buffie irrelevantemente.

— Se já terminou o papo furado — Smitty falou para sua substituta — vá à sala de imprensa e diga-lhes que estamos sendo asfixiados por telegramas, e que a mesa telefónica da Casa Branca não consegue dar conta dos chamados.

— Mas os telegramas foram desativados no ano passado — protestou Marilee.

— É... Bem, o principal é frisar que a mesa telefónica está realmente ocupada.

— É melhor eu falar com a telefonista...

— Puxa vida, Marilee! — explodiu Smitty benevolentemente. — Nunca houve um discurso presidencial, desde que Franklin Delano Roosevelt começou a usar o rádio, que não fosse seguido por uma avalancha de telefonemas. A desgraçada da mesa telefónica da Casa Branca foi feita para ficar congestionada após um discurso. Vá até a sala de imprensa e diga que a mesa telefónica está congestionada, senão eles vão pensar que ninguém viu o programa.

Marilee foi cumprir sua missão, e passou por Harry Bok no vestíbulo quando era empurrado pela enfermeira alta e silenciosa. Harry encaminhou-se à sala de Smitty, olhou as telas sem imagem e o grupo risonho, e perguntou:

— Quem está com o Homem?

— Pensei que fosse você — disse Hennessy. — Acho bom a gente lhe dizer como ele esteve ótimo, senão vai pensar que fracassou de novo.

O advogado caminhou pelo saguão. Harry Bok olhou para Melinda, sorriu de lado para Buffie, que o fotografava, e fez sinal à enfermeira Kellgren para que o empurrasse atrás de Hennessy, rumo às dependências do Presidente.


O COLUNISTA /2

Samuel Zophar apertou o controle remoto que desligava o aparelho de televisão. Levantou-se e colocou o controle em cima do aparelho onde poderia achá-lo novamente sem os óculos, mas se perguntou por que usava aquilo, afinal, já que tinha de se afastar e aproximar do aparelho. O dispositivo talvez se justificasse porque dava a alguém a decisão de poder controlar a programação.

Ericson estava se transformando num Presidente, isso ele tinha de admitir. Nem todo homem que foi eleito Presidente se tornou um Presidente, porém Sven Ericson tinha o caráter e a astúcia necessários — de leão e de raposa — para se habilitar. Pareceu ao colunista que o discurso fora elaborado com extraordinário cuidado, apresentado com vacilante perícia — exemplo do uso poderoso da comunicação em massa na liderança política. Entretanto, quando Zophar trabalhava numa coluna com igual cuidado, sua perícia era geralmente para encobrir o que ele não sabia, ou para semear uma ideia casualmente, à qual pudesse voltar meses depois, quando anunciara que chegara, com sua perspicácia, à frente do resto da turma. Zophar suspeitou que havia alguma coisa no discurso de Ericson que não batia bem no ouvido.

O colunista estava irritado com o Presidente por não o ter recebido, mas deixou isso de lado; obviamente o homem planejara esse discurso durante os últimos dias, e se Zophar estivesse no lugar do Presidente, preparando uma bomba caseira, não daria entrevista a colunista algum a respeito de um assunto de relações exteriores. Todavia, um elemento de falsidade escondia-se no momento da verdade de Ericson — ele tomou nota dessa frase — porém ele não conseguia captar o que fosse.

Para Zophar, o episódio no trem da campanha era de menor importância. Poder-se-ia admitir falha na revelação da verdade total quanto ao estado de saúde do candidato antes das eleições, porém somente imbecis acreditariam nisso. A dúbia afirmação de Ericson de que não sabia quando se apercebera do assunto, verdade ou não, dava cobertura ao Presidente nesse ponto — abrir os olhos não faz parte do acordo? Não, a parte falsa devia ter algo a ver com grandes acontecimentos, com a nova iniciativa junto aos soviéticos. Era essa moeda que um cérebro cético teria de morder.

Ele pegou o bloco branco pautado de anotações e escreveu os factos que conhecia.

De Gregor, o agente soviético, sabia o facto real — ou a alegação convincente — de que Harry Bok, do Serviço Secreto dos Estados Unidos, revelara uma fraude fantástica dos americanos contra os russos, que Kolkov fora transformado num herói que não era e que Vasily Nikolayev fazia parte do embuste americano para retratar Kolkov como tendo sacrificado a vida para salvar a de Ericson.

Depois, de sua própria dedução, Zophar conhecia o facto superficial — ou conjetura promissora — de que uma facção do Kremlin lutava ativamente para derrubar Nikolayev naquele instante, e mandara Gregor difundir a história junto à imprensa ocidental.

Terceiro: pelo discurso de Ericson ele via o contrário — deduzido de longa experiência — que os soviéticos haviam concordado informalmente em mandar Nikolayev aos Estados Unidos a fim de continuar as negociações, o que significava que o antigo Ministro de Relações Exteriores estava firme na sela.

Zophar sublinhou essa frase e olhou para a página durante longo tempo. Não, não havia forma de esses factos se encaixarem, se a história de Gregor tivesse, pelo menos, alguma verdade. Virou uma página em branco e escreveu algumas perguntas.

Por que Ericson se esforçara para agradar Curtice e Cartwright? Cartwright mostrara-se leal durante a crise do Gabinete, mas Curtice não — devia haver alguma coisa unindo os dois homens além dos assuntos nacionais, o que fez Ericson desejar ligá-los a ele.

Por que Gregor não estava disposto a mostrar-lhe alguma prova concludente? O agente soviético tinha alguns factos; disso o colunista tinha certeza — a coisa precisava ser arrancada dele. O provável tópico era uma fita gravada com as revelações de Bok sob hipnose ou acção de drogas.

O colunista sublinhou outra linha. Que poderia ele fazer para verificar os factos em seu poder? Primeiro: podia certificar-se de que os soviéticos haviam concordado em mandar Nikolayev por volta do Dia do Trabalho, e talvez descobrir também por que se passou tanto tempo entre o comunicado e a conferência. Depois ele poderia apoiar-se em Gregor.

Zophar consultou seu caderninho de endereços, bojudo fichário de couro com folhas soltas, entulhado de números, ocorrências, historietas e lembretes de nomes de esposas, e ligou para a casa de um ex-Secretário de Estado. O velho amigo seria capaz de descobrir, naquela noite, um pouco do que Zophar precisava saber; e o ex-Secretário devia certas coisas ao colunista. Após a ligação, com seu pedido encaminhado, Zophar dirigiu-se a Gregor.

— Preciso falar com você aqui e agora disse com premência ao russo, pelo telefone. — Sua reputação profissional depende disso. Já sabe o endereço. Venha. — E desligou. Quem estivesse gravando as conversas de Gregor que desvendasse essa.

A primeira de suas iscas a produzir uma fisgada foi através do ex-Secretário de Estado:

— Samuel, parece que houve apenas uma pequena confusão com o convite para a reunião de cúpula. — O colunista sabia que nada agitava o velho cavalheiro: seis anos de Gabinete deram para ver tudo. — Habitualmente, ou pelo menos na ausência de um conselheiro de segurança nacional, nosso homem em Moscou sonda seu equivalente sobre um convite, para ter certeza de que será recebido favoravelmente. Parece que isso não aconteceu neste caso, e ninguém do Serviço Secreto sabe que droga os russos vão dizer. Ou Ericson se precipitou... o que não é do seu estilo... ou teve uma conversa semiparticular com Nikolayev pelo telefone vermelho.

— Nesse caso — disse Zophar — o Conselho de Segurança Nacional saberia e informaria ao Diretor da CIA.

— Certo. Sabe, vocês estão bem informados! Verifiquei isso, e o Diretor da CIA não sabe nada a respeito de ligações pelo telefone vermelho nas últimas semanas. Pode ser que o Presidente esteja forçando a barra ou que simplesmente presuma que seu convite será aceito, baseado em alguma mensagem intermediária não-oficial.

Às onze e meia, cerca de duas horas do término do discurso de Ericson, Gregor apareceu na casa de Zophar. O colunista serviu lentamente um conhaque, lançou um olhar furioso, acendeu um cigarro, olhou zangado de novo, e, num tom ameaçador, declarou:

— Foi uma sorte dos infernos eu não ter confiado em você.

Gregor não recuou:

— Minha informação é precisa.

— O Presidente dos Estados Unidos — falou Zophar, acentuando as sílabas — acaba de comparecer diante do mundo e demonstrar que sua informação não passou de besteira. A facção contra-revolucionária que você evidentemente representa, Gregor, foi esmagada. Nikolayev está tão firme no comando que se pode dar ao luxo de sair do Kremlin e vir à América. Somente meu bom senso e meu ceticismo natural quanto a informações não-comprovadas evitaram que eu usasse a sua falsa informação. Isso quer dizer que mantive minha reputação, e você a vida.

— Você está tão seguro de que tem razão — disse Gregor.

— Prove o contrário.

— Neste momento — falou lentamente o agente Soviético — Nikolayev se acha na prisão de Lubyanka. Foi destituído de todos os seus poderes e está sendo preparado para um julgamento.

Zophar sentiu o peito latejar diante da súbita posse de uma informação exclusiva e em seguida uma descontração, ao considerar a probabilidade de estar errada. Assumiu um olhar entediado.

— Você conta histórias fantásticas, meu amigo. Eu gostaria que mc desse uma base com que prosseguir.

— Você não confirmou isso junto ao Presidente? Foi à Casa Branca duas vezes hoje... que foi que ele lhe disse? Ele não confessou que a história de que Kolkov lhe salvou a vida foi um embuste?

— O Presidente... — Zophar pretendia elucidar a si mesmo. — Não tenho a liberdade de dizer o que ele me contou, além de afirmar que tudo o que me foi dito por você é mentira. Nada confere. Jamais acreditarei em você novamente, meu bom homem, e também nunca mais...

Gregor cedeu, ou fingiu que sim. Nada de dramático, nada de baixar os ombros ou pendurar a cabeça — apenas uma piscada perceptível de olho e um leve sorriso. Ele foi até o saguão, onde deixava a capa de chuva, e voltou com um pequeno gravador.

— Tenho duas fitas aqui. Está familiarizado com a voz do agente Harry Bok?

— Não.

— Não importa; não é a fita importante. Ele está drogado, e quem sabe o que um homem pode dizer quando está drogado? A fita agora no aparelho é a do quarto de hospital do agente Bok, quando era visitado pelo seu Secretário de Estado e por Lucas Cartwright. Está familiarizado com as vozes deles, claro.

— É lógico.

— Use o fone de ouvido — disse Gregor.

— Não gosto dessas coisas. Ligue o gravador bem alto, e pronto.

— Use o fone de ouvido; de outra forma não é fácil escutar — Zophar sabia que Gregor julgava que a sala, esta sala, estava aparelhada com microfones ocultos, e não queria uma gravação feita da sua gravação. Homem desprezível! Ele pôs o fone de ouvido, fez uma careta para a música de fundo, escutou tudo de uma vez só, e pediu que tocasse de novo. Na segunda vez ele entendeu não apenas as vozes como também muitas das palavras.

Bok: Aí eu o arrastei para fora dos destroços... estabeleci um perímetro... rosto chinês, bem no meio dos olhos... o cara com a arma pipocando acertou... granadas me acertaram, mataram Kolkov, e eu arrastei seu corpo para cima do Presidente...

Curtice: Não teria sido possível que Kolkov, enquanto ainda vivo, tentasse proteger o Presidente com seu próprio corpo?

Bok: Morto, eu acho. Arrastei-o.

Cartwright: Então o Secretário está procurando por alguma coisa que ajude a melhorar a situação. Como certo heroísmo da parte de Kolkov.

Curtice: Uma coisa de que os russos se possam orgulhar...

Bok: Muito bem; pode ser que Kolkov tenha se arrastado...

Isso era tudo. Zophar retirou o fone de ouvido, sentindo a onda de emoção diante das notícias nas suas mãos, e a sensação doentia de expor a fraude americana, o que beneficiaria a União Soviética.

— Isso foi o que se pode chamar de “conduzindo a testemunha” — disse o colunista.

— Reconheceu as vozes de Curtice e Cartwright?

Triste, Zophar disse:

— Quanto ao Curtice não posso jurar; não o conheço tão bem, mas o outro era Lucas Cartwright, a menos que você tenha conseguido um tremendo imitador para trabalhar para você. — Mandou Gregor rodar a segunda fita, em que Bok enumerava o que ocorrera. Como ele temia, a voz drogada do agente confirmava o que fora ouvido no quarto de hospital. A prova era tão firme como qualquer uma que Zophar provavelmente conseguiria para qualquer artigo, e agora ele se achava propenso a aceitar mais do que Gregor tinha para oferecer.

— Há quanto tempo Niklayev está na prisão de Lubyanka?

— Quatro, cinco dias.

— E nós não sabíamos? Ninguém sabia?

Gregor sorriu.

— Uma falha da informação do seu lado. Olhado de outro ângulo, ninguém deu a informação, pra variar. Até que estivéssemos prontos.

— O Kremlin acusará o Presidente de conspirar com Nikolayev para assassinar o Secretário-Geral Kolkov?

— Não, quanto a isso, mudaram de opinião. Ericson aprovou a mentira, porém não tomou parte nos planos. É de nosso interesse nos apegarmos à verdade neste caso.

O colunista balançou a cabeça e se levantou.

— Desculpe tê-lo insultado antes, mas era a única forma de obrigá-lo a falar sério.

Gregor deu de ombros:

— Você acha que Ericson sabe sobre Nikolayev e que o convite no seu discurso desta noite foi um truque muito inteligente?

Zophar, com a informação recebida mais cedo através do ex-Secretário de Estado, tinha bons motivos para duvidar disso, mas não estava a fim de fornecer a Gregor qualquer coisa que os soviéticos pudessem usar.

— É possível — replicou. — Com Ericson, nunca se sabe.

Gregor pegou a capa de chuva e o gravador e saiu para a rua de Georgetown. Zophar, à janela, viu o carro partir. Homenzinho Inteligente, esse russo, perito em sobrevivência; não era desprezível, conforme o condenara antes, muito apressadamente. Gregor vivia num ambiente repleto da rotina da fraude, em que a meia-verdade era meia-norma. Os pensamentos de Zophar passaram para Lucas Cartwright, que ele conhecia e em quem confiara durante a maior parte de sua vida adulta. O que motivava aquele honorável homem a abraçar esse tipo de negócio? A pressão deve ter sido enorme.

— Talvez parecesse uma boa ideia, na ocasião — disse alto o colunista, e subiu para sua parede vazia e sua máquina de escrever.


O AGENTE DO SERVIÇO SECRETO /4

Bok empurrou sua cadeira de rodas até o escritório de Hennessy, e escutou o advogado dizer de cara fechada:

— Você acaba de ser eleito para pôr a campainha no pescoço do gato.

O agente olhou para Melinda McPhee, Hank Fowler e Hennessy sentados em torno da mesa no canto ao sul da Ala Oeste, e balançou a cabeça. Harry calculara que seria o candidato lógico a ler, para o Presidente, a coluna de Zophar e os comentários das agências noticiosas em torno da coisa. Naquele momento, Bok se odiou — tudo ia tão bem; houvera um dia inteiro de reações favoráveis ao discurso do Presidente, trinta e seis horas antes, e agora esse impacto da parte cega — quanto a um assunto diferente — talvez como resultado de algum engano que Harry Bok cometera; uma inconfidência na qual fora participante involuntário. Ele era uma figura apagada; um rosto no segundo plano das fotos dos jornais, subitamente atirado ao centro do palco. Por que ele? Harry Bok não queria aquilo; ele não era bom na coisa. Seu negócio era falsificação.

Ainda não eram 8 horas da manhã daquele dia de verão intenso e de baixa humidade, que tornava a tristeza na Casa Branca ainda mais completa. Harry tirou um pão doce da mesa e aguardou enquanto Melinda lhe servia uma xícara de café; jogou dois comprimidos de sacarina e comeu outro pão doce.

— Quando tudo isso for entendido — falou Hank Fowler suavemente — todos verão que Harry estava apenas cumprindo com seu dever naquilo que julgou melhor para os interesses do país.

Melinda não foi tão gentil:

— Nenhum segredo entre nós quatro, lembra-se? Foi o que o Presidente falou. Você devia ter nos contado que o heroísmo de Kolkov foi uma farsa, Harry. Talvez houvesse uma forma de nos prepararmos para isso. O Chefe sabia?

Harry não sabia se devia responder a essa.

— Mais ou menos — ele não se comprometeu. — Francamente, não imaginei que a situação iria dar nisso. Esse filha da puta desse colunista faz tudo parecer uma conspiração entre os dois países, ou uma trama de Ericson para ajudar a manobrar o poder no Kremhn. Eu jamais vi a coisa dessa forma. Não foi assim que aconteceu. Creio que não. Ele não podia ter certeza; o que fizera Cartwright? Ou Curtice? Ou, quanto a isso, o que fizera Ericson após descobrir que Kolkov não era o herói que apresentaram? — Acho bom eu ir ler essa história para o Presidente antes que ele ligue o rádio.

— Leve também o Sumário de Notícias — disse Melinda, entregando-lhe o gravador e a fita cassete para a audição-dinâmica do Presidente. — Às quatro horas desta madrugada, quando o sumário ficou completo, tinha um pacote de boas notícias. Eu até dormi bem. Escutar isso vai fazer com que ele se sinta melhor depois que você ler a coluna para ele.

— Diga-lhe que estou a caminho — Harry impulsionou sua cadeira sozinho para o corredor. Ele dera a manhã de folga à enfermeira Kellgren, e um agente o empurrara pela colunata até a residência. O Presidente estava de roupas íntimas no quarto de dormir, barbeando-se, e seu entusiasmo radiante fez Harry sentir-se pior. Enquanto o barbeiro ficou ali ele tocou o Sumário de Notícias para o Presidente; quando o auxiliar saiu, Harry parou a gravação e disse: — E agora as más notícias. Parece que estávamos preocupados com o que não deveríamos, e o que não estava nos preocupando deveria ter-nos preocupado.

— Quer dizer que Zophar não sabia da cegueira anterior? — Ericson armou uma carranca, que parecia dizer “eu avisei”. — Muito bem, Harry, vá direto ao assunto.

— A coluna de hoje, de Zophar ocupa o maior espaço de primeira página — disse Harry, indo direto demais ao assunto: — Esta é a manchete: “Líder Soviético Declarado Destituído; Acusado O Conluio Nikolayev-Ericson”.

— Hem?!

Harry leu a manchete de novo, e os primeiros parágrafos da coluna:

— “Vasily Nikolayev, que substituiu o assassinado Alexei Kolkov como Primeiro-Ministro soviético há um mês atrás, provavelmente foi deposto... e possivelmente preso... porque seus colegas do Politburo suspeitaram que ele conspirou com o Presidente Ericson para consolidar seus poderes no Kremlin.”

— Nossa! — exclamou Ericson. — Leia tudo.

Harry leu, e continuou:

— “Gravações em fitas, de posse das autoridades soviéticas, e que este repórter escutou, mostram que o Secretário-Geral Kolkov não salvou heroicamente a vida do Presidente Ericson. Essa foi uma história engendrada pelo Secretário de Estado, George Curtice, após a emboscada, e o então Chefe da Casa Civil Lucas Cartwright, e obedientemente repetida pelo agente do Serviço Secreto Harry Bock”. — Bok parou. — Ele escreveu errado o meu nome.

— Pode deixar — o Presidente assegurou-lhe — você vai ser um nome popular muito em breve. Mas já não como herói. Vá lendo.

Bok leu a coluna toda até a conclusão:

— “Ainda não sabemos se o convite feito esta semana pelo Presidente a Nikolayev foi manobra desesperada para salvar a vida e o emprego do líder soviético, ou se, embora seja bastante confuso, a Administração Ericson ainda não percebeu que ocorre uma convulsão do Kremlin. O que sabemos é isto: O Presidente, ao enaltecer seus auxiliares no discurso desta semana, pôs o seu selo de aprovado na burla Curtice-Cartwright e uniu-se à tentativa de enganar tanto o povo dos Estados Unidos quanto o da União Soviética.”

— Continue lendo — ordenou Ericson, pegando o telefone e mandando a telefonista chamar Hennessy. Enquanto Harry continuava lendo, o Presidente disse: — Diga ao Diretor da CIA, se já estiver acordado, que desejo saber o que a agência sabe a respeito da situação de Nikolayev: se está na cadeia ou no poder. Agora me dê sua opinião — Escutou por um momento, então balançou a cabeça. — Não, Smitty vai ter de desmarcar a reunião das onze horas porque ele não pode ter coisa alguma a dizer antes que eu o informe, e não sei o que informar a ele até eu saber o que está havendo com Nikolayev. Isto é, para que temos a droga da CIA? Quinze bilhões de dólares por ano, e não sabemos quem comanda a Rússia, pelo amor de Deus! Sei... — Ele escutou, depois interrompeu: — Se eles não bolarem uma ótima ideia dentro de uma hora, vou pegar o telefone vermelho e mandar chamar pelo maioral para ver quem diabos atende. Não estamos indefesos. Mande o Curtice vir à minha sala em meia hora, e diga ao Cartwright para tirar o rabo de onde estiver, e que ambos devem ficar de boca fechada no caminho. Certo — O tom de voz do Presidente era malevolente; Harry sentiu o seu desamparo em não saber se a afirmação básica de um problema urgente era verdadeira e por não poder reagir até certificar-se de que era um problema real que exigia uma reação. Congele tudo — Ericson disse rápido a Hennessy — até eu descobrir o que há nisso de verdadeiro. Aí decidirei. Ninguém mais deverá tomar decisões ou fazer quaisquer declarações. Se você puder descobrir onde Zophar colheu esse material, ajudaria muito. Sem dúvida não foi do Arthur Leigh.

Ericson foi até onde ficavam suas roupas e começou a vestir-se rapidamente. Alcançou confiantemente cada peça, sem pensar no treinamento, enquanto praguejava para Bok o tempo todo:

— Eu endireito toda a merda da história da cegueira anterior; tiro o peso das costas, e agora isto. Harry, nunca ninguém me disse que tramamos com Vasily para bolar uma história fazendo de Kolkov um herói.

— Se o senhor está dizendo... — Essa era uma possível saída: Harry poda dizer realmente que jamais revelara claramente o embuste para o Presidente. Podia dizer que apenas “indicou”. “Indicar” era uma palavra ambígua: não significava que ele tinha certeza de haverem compreendido o que ele divulgara.

Abotoando o colete, o Presidente fez uma pausa.

— Talvez isso fosse pior: eu não saber. Talvez fosse melhor se eu tivesse sabido e ratificado a acção, no interesse nacional.

Harry franziu as sobrancelhas; estava confuso, ao tentar imaginar onde estava a verdade. Ele contara para o Presidente? Será que o Presidente o compreendera — que Kolkov não era herói? Entendera o Presidente a coisa agora, e estaria reagindo à política do problema? O Presidente gostaria que Harry Bok lhe contasse mais alguma coisa?

— Sabe? — pensou alto o Presidente. — Quando a história a respeito de Kolkov estava sendo preparada, eu me achava inconsciente, semimorto. O motivo de se preparar a história do heroísmo não foi venal, droga! Lucas e George só queriam evitar uma reação furiosa, talvez uma guerra. E eles queriam me retirar da Rússia às pressas. Depois, quando fui informado, achei que seria prudente não dizer coisa alguma na ocasião.

Na coletiva à imprensa o senhor disse que Kolkov era um grande herói — lembrou-lhe Harry, ainda sem saber se Ericson estava elaborando uma cena ou narrando algo de que realmente se lembrava.

— Na ocasião não recebi informações completas — respondeu Ericson conjeturalmente. — Não, isso não colaria. — Tentou outra jogada: — Achei melhor dar apoio à opinião experiente dos meus altos assessores. — Ele gostou mais dessa, e Harry percebeu sua expressão descontrair-se, mas endurecer depois. — Gostaria de não ter convidado Vasily para vir aqui, no discurso de ontem à noite, porém, eu precisava de uma frente e jamais me ocorreu que a CIA desconheceria uma grande mudança no Kremlin. Eu devia ter feito a coisa pela Secretaria de Estado, merda, para sentir Moscou primeiro. Sou culpado disso. A outra coisa, a história inventada, foi uma ideia do Curtice e do Cartwright, que eu posso ter acertado ou errado ao ratificar, mas eu estava abalado, e talvez ela seja defensável. Porém, convidar Vasily foi ideia minha, e sei que pegou a Secretaria de Estado de surpresa, e a de Defesa também. — Botou o paletó e verificou pelo tato se o cabelo estava penteado.

— Qual é o mal em convidá-lo?

— Harry, você não está raciocinado. Se eu sabia que Vasily Nikolayev estava acabado e o convidei a vir aqui, parece que eu estava tentando influenciar o Kremlin para que o mantivesse no poder. Se eu não soubesse que Vasily estava acabado e o convidasse ... e acabei de saber hoje de manhã que ele foi engaiolado... então eu ia parecer o Presidente mais burro desde Warren Gamaliel Harding. A essa altura não me posso dar ao luxo de parecer imbecil. Não nas grandes coisas.

Harry rolou a cadeira de rodas até a porta:

— Me dê um empurrão — pediu ao Presidente. Ericson pegou as barras e empurrou, guiado pelos freios de Harry. O agente tentou analisar mentalmente as alternativas de Ericson: se devia parecer ardiloso, mentindo para o mundo, ou confuso, admitindo que jamais esteve no controle da verdade. Escolha difícil.

Ericson parecia à vontade empurrando a cadeira de rodas, e Harry fez sinal ao agente seu colega, no elevador, de que a estranha dupla não precisava de assistência. Na base do “meio à esquerda” e “tudo à direita” Harry fez com que o Presidente o levasse ao andar principal, fora da residência, depois do Jardim de Rosas.

— Buffie está tirando uma foto nossa — disse Harry, enquanto passavam pela colunata. — Ela está nos degraus perto da entrada da Sala do Gabinete.

— Deixe — disse Ericson. — Mostra que sou bondoso; que faço tudo para auxiliar os deficientes.

— Nós dois precisamos de um pouco de solidariedade hoje — disse Harry.

— Eu gostaria muito que você fosse um cão-guia — respondeu o Presidente enquanto sacolejava a cadeira. — Um cão saberia lidar com uma coletiva à imprensa. Ficaria sentado lá, uivando, até que parassem de torcer sua cauda.

Harry resmungou. Essa era a forma de Ericson dizer-lhe que Harry Bok estaria enfrentando a imprensa hoje, sem ajuda de Smitty, que estaria protegendo a própria reputação.

— Tudo à esquerda, motorista. Aqui está Buffie, com um vestido azul de zuarte e câmaras penduradas. Olá, Buffie.

Ericson parou de empurrar e Harry observou Buffie aproximar-se deles. Ele relutou em continuar a descrição para o Presidente porque teria sido cruel.

— Esta é uma boa situação — ela falou. — Mostra que você tem bom coração, Pdeu.

— Eu estaria melhor com um bom serviço de informações — disse o Presidente.

— Aqui está um beijo pro Harry — disse Buffie, inclinando-se para dar um rápido e barulhento beijo na boca de Harry porque estavam à vista de meia dúzia de pessoas, e o agente tinha de ser o substituto de Ericson. — Eu tenho bom coração também — disse ela. Ericson empurrou a cadeira de rodas novamente, e Buffie disse: — Boa sorte para hoje.

— Todo mundo lida com o senhor por meu intermédio — assinalou Harry. — Mais três passos, as portas envidraçadas estão abertas, e aqui estamos. Lá está Melinda, parecendo confiante, e Hennessy, austero, como se fosse Deus, e triste comigo por ter entregue a maçã à Eva.

— Você devia ter me contado, Harry — disse Hennessy, falando ao Presidente por intermédio de Harry. — Não se escondem factos do advogado. Eu não sabia que estávamos apenas brincando, a respeito de Kolkov. Talvez se eu soubesse, poderia ter feito planos para hoje de manhã.

Ericson sentou-se detrás da mesa Hoover e falou:

— Cheguem-se e façam algum ruído — Hennessy, Melinda e Harry falaram, para que o Presidente conhecesse suas posições na sala. Estavam reunidos em torno da grande mesa junto com Smitty, Marilee e Hank Fowler. — Curtice vem? — perguntou o Presidente.

Hennessy, com voz de nojo, falou:

— O Secretário de Estado recusa-se a ser convocado de maneira tão brusca. Escutei isso do seu impertinente assistente; Curtice nem quis falar comigo no maldito telefone.

— Entendo as razões dele — falou brandamente Ericson. — Melinda, convide o George Curtice para vir almoçar aqui por volta do meio-dia; e peça com delicadeza. Lucas vai voltar?

— Cartwright está a caminho — avisou Hennessy. — Chegará de noite.

— Vai me fazer muito bem a entrevista com a imprensa esta manhã — disse Smitty. — Que diabos vou dizer? Nikolayev está dentro ou fora? O Kolkov salvou sua vida ou não? Se Sam Zophar tiver razão, por que droga você...

— Cale essa boca, Smitty — disse Hennessy, para alívio de Bok. — Vamos ter contato com a imprensa daqui a um minuto.

— Não, não — disse Ericson, ainda gentilmente; pareceu a Hank, que ele abafara sua fúria e não estava ofendendo ninguém esta manhã. — Smitty: conte-me a reação à coluna.

— Foi ruim — falou o Secretário de Imprensa. — E está ficando pior a cada minuto que a gente não der informações. Francamente, nunca vi a coisa tão feia. Marilee estava na sala de imprensa, conte a ele.

— Eles estão em pé de guerra, irritando-se uns aos outros — disse tranquilamente Marilee. — No outro dia, com o discurso, houve um sentimento diferente. Não tinham tanta certeza sobre o que estava certo ou errado, ou como seria interpretado. Mas esta manhã tem um bocado de gente com a cabeça quente na sala de imprensa. Falam de mentira, incapacidade, tudo.

— Sei — disse Ericson, virando sua cadeira na direção de Melinda, que se achava próxima à cadeira de rodas de Bok. — Vamos ouvir notícias de Ma Griffe. — Harry reparou que a secretária estava usando mais perfume do que o habitual, e o Presidente podia distingui-lo facilmente.

— Os telefonemas são de preocupação — disse ela. — Eu transmiti ao Diretor da CIA o seu desejo e ele deu a impressão de estar... bem, calmo e indefeso, acho. O Procurador-Geral ligou para registrar sua esperança de que um esclarecimento seria imediatamente publicado. Sua tia Flora ligou — ela era o parente vivo mais chegado do Presidente, frequentemente usada como catavento situacionista da opinião pública pelo pessoal da Casa Branca — e disse que o comentarista da televisão de hoje de manhã devia ser fuzilado pelo que disse sobre o senhor, a menos que ele estivesse certo, e se fosse assim então o senhor é que devia ser fuzilado.

— E o Congresso?

— Esbravejando como de costume — informou Melinda — mas o Presidente Frelingheusen ligou para dizer que sustaria qualquer comentário até ver a sua declaração de que eu deveria informá-lo sobre quando o senhor tenciona fazê-la. É a maneira dele de se apoiar no senhor um pouco.

— Eis o que faremos — disse Ericson. — Smitty, adie a sua entrevista coletiva matutina até as duas da tarde.

— Não será justo com os jornais da tarde...

— A vida é injusta, segundo dizem. Mas você pode comunicar que lhes apresentará Harry Bok esta tarde para ser interrogado à vontade. Harry vai contar a verdade acerca de Kolkov: que ele nada pode afirmar; havia estilhaços voando por toda parte; ele mesmo entrou em choque; e que acha que a notícia do heroísmo pode ser genuína, mas, é claro, há uma probabilidade de ter tido essa ideia enquanto em estado de choque. O testemunho de Harry, segundo me descreveu, é ambíguo e confuso. Como geralmente é a verdade. Na hora em que ele estiver fazendo declarações à imprensa esta tarde eu terei instruções para você, Smitty, a respeito do que dizer sobre Nikolayev — Bok gostou da forma pela qual Ericson estava agindo num momento de aperto. — Melinda, mande meu tradutor de russo vir aqui agora mesmo, e separe o vídeo-tape para o telefone vermelho. Muito bem, a reunião acabou; agora só quero o Hennessy. Todo mundo de cabeça erguida, nada de rostos sombrios, exceto o Smitty, que normalmente é sombrio. Vai ser um longo dia. Vamos em frente.

O pessoal saiu, com Harry empurrando sua cadeira pela varanda, para a sala de Melinda, ao lado, onde o caminho fora feito gerações antes para a cadeira de rodas de Roosevelt. Ele olhou para ela, com sua saia preta bem arrumada e blusa branca, fazendo a ligação para o tradutor e alertando o Departamento de Comunicações da Casa Branca sobre o telefonema pelo telefone vermelho. Os meios de gravação requeriam uma ordem assinada pelo Presidente e contra-assinada por Hennessy, que Harry observou Melinda preparar. Ericson tocou a cigarra; Melinda ligou a chave de escuta para ouvi-lo dizer:

— Certifique-se de que George Curtice não diga nada a nenhum jornal antes de falar comigo — e então, olhando para Harry Bok, ela deliberadamente não desligou a chave do intercomunicador.

— Cretino — escutaram Hennessy falar. — Você não precisava disso. Era evitável.

— Tem razão, Irmão Hennessy — replicou a voz de Ericson. — Essa confusão toda podia ter sido evitada se você soubesse que diabos estava fazendo — Bok numa ouvira Ericson usar aquele tom agressivo na voz antes, mas Melinda evidentemente que sim.

Minha culpa? Está me culpando? Eu estava a dez mil milhas de distância...

— Não sobre o caso Kolkov, sobre a cegueira anterior.

— Que droga é essa, Sven?

— Eu jamais precisaria fazer o maldito discurso!

Hennessy ficou em silêncio, e o Presidente, friamente aborrecido, prosseguiu:

— Zophar não estava de posse da história da primeira cegueira. Ele sabia a história de Kolkov. Eu lhe perguntei dez vezes: tem certeza de que ele sabe? E você respondia que sim. Acontece que ele sabia de alguma coisa, sim, mas não o que você pensava. Você entrou em pânico, me fez entrar em pânico, e então eu tive de fazer o maldito discurso, e agora você está enrolado até o pescoço.

— Sven, eu nem sabia que existia uma história sobre Kolkov. Banquei o paspalho bonzinho, junto com o resto da América do Norte. Calculei que você, Harry, Curtice e Cartwright estavam dizendo a verdade quanto a ele ser um herói...

— Não embrome, Hennessy, você sabia que estávamos bolando alguma coisa em cima disso. Não preciso definir todas as minúcias para você. Você, porém, tinha a mente fixa no outro grande segredo culpado; a cegueira anterior, e na hora em que alguém começou a fazer perguntas a respeito de certa coisa... alguma outra coisa... você se precipitou e concluiu erradamente. Harry não contou aos russos sobre a cegueira, ele lhes contou a história falsa sobre Kolkov ... mas você tinha tanta certeza! Ah! Você tinha tanta certeza... Eu nunca — neste trecho a voz de Hennessy uniu-se a de Ericson, terminando a frase: — precisaria ter feito o maldito discurso.

— Certo, eu estraguei tudo — confessou Hennessy. — Quer outro advogado? Quer Cartwright de volta? Ou Smitty?

— Preciso de Cartwright no Gabinete e não confio no Smitty, por isso estou entalado com você. Mas pare de ser tão malditamente certo de si, está me custando a presidência.

— Já estudou a possibilidade, Senhor Presidente, de que minha errónea suposição pode ter sido a maior chance que já teve? Já imaginou como estaríamos hoje se a história de como você e seu chapinha Vasily andaram esculhambando os factos por aí viesse à tona... e se ainda não nos tivéssemos livrado da história da primeira cegueira?

— Eu jamais precisaria fazer o maldito discurso — repetiu Ericson.

— Fazer o maldito discurso foi a coisa mais feliz que aconteceu por aqui em três meses — Hennessy deslocara-se de uma possibilidade para uma certeza. — Agora já é passado, e não nos atormenta mais. Pensamos que o teto ia cair; que o Gabinete se ia reunir de novo e reabrir o caso com novas provas; lembra-se do escândalo que Duparquet fez por não saber, antes das eleições, de qualquer vestígio de cegueira? A gente pensou que eles nos matariam por causa disso... mas isso não aconteceu. Você confessou, você foi grande, você conseguiu livrar-se de tudo. Não entende?

— Se eu não tivesse de fazer o maldito discurso, não teria necessitado de me agarrar a uma frente, e não teria cometido aquele engano sobre Nikolayev. Agora estou entalado nele. Saia da defensiva, advogado, e tente compreender a forma pela qual as paredes estão nos esmagando.

— Sabe por que você fica tão calmo numa crise? — a voz forte de Hennessy trovejou. — Fica calmo porque está apavorado demais. Claro, isso dá um orgasmo à Melinda, e à Marilee também, ver você frio e equilibrado, mas a verdade é que você está paralisado por dentro. Você quer repetir o catecismo? Vamos lá: “Eu jamais precisaria fazer o maldito discurso”.

Houve silêncio durante alguns minutos. Harry Bok olhou para o interfone na mesa de Melinda e ficou com medo de dizer qualquer coisa, por pensar que ele recebia e transmitia. Melinda segurava um café e aguardava.

A voz do Presidente rompeu a pausa:

— Aahh! Talvez tenha sido pro bem.

— Poxa, Sven, desculpe! Eu pensava que estava agindo certo, mas o tempo todo andei quebrando a cara. Deixei você mal. Cartwright jamais...

— Você está exagerando um pouco a mea culpa, Hennessy.

— Você acha? Tem um tom na minha voz que eu ainda nem usei. Ele acaba com um júri; “advogado durão se dobra”, é um macete.

— Gozado como a primeira cegueira não causou uma explosão — A raiva se dissipara, e agora o Presidente estudava as ironias. — Eu tinha certeza de que aquilo era tudo de que eles precisavam para tirar os meus poderes, todavia, após divulgarmos a história, a reação ficou mais ou menos no ar: nem isto, nem aquilo. E agora esse negócio do Kolkov-herói... que eu nunca achei fosse nada demais; nunca me detive realmente nele... talvez se torne incontrolável. Não é fácil saber.

— Vamos viver um dia de cada vez, Sven. Isso passa.

— Estou começando a admitir a possibilidade de talvez não sermos tão bons nesse tipo de serviço.

— Você está melhorando a cada hora — assegurou-lhe Hennessy. — O trabalho do pessoal tem sido um pouco negligente ultimamente.

— Não sei. Se eu não sou bom na coisa... — A voz de Ericson sumiu.

— Comparando a quê?

— Sério. Nunca deveria ter deixado o Bannerman ter-me empurrado o Nichols.

— O seu choro terminou, Sr. Presidente?

— Não se culpe por tudo, Hennessy, mesmo que, só Deus sabe, tudo tenha sido culpa sua. Você acha que eu tinha de fazer aquele discurso?

— Você jamais teve de fazer o maldito discurso. Agora vamos ver nosso tradutor e fazer uma ligação direta pelo telefone vermelho para não sei quem. Pergunte a ele como está o tempo em Moscou e peça por favor para soletrar o próprio nome.

Melinda, desligou a chave do aparelho e esperou que Hennessy saísse. O chefe da Casa Civil parou, sentou-se à beira da mesa dela e pôs a mão na caixa silenciosa:

— Encheu os ouvidos, boneca? Gostou do pedaço em que eu falei que você tinha um orgasmo sempre que ele agia calmamente durante uma crise? Ficou corada?

— Quer dizer? — Ela tentou bancar a burra; Harry ficou contente porque Hennessy não olhou para ele.

— A luz estava acesa no aparelho dele, ao lado da mesa. Ele não podia ver, mas eu sim, e sabia que você estava na escuta. Diga-me: quando ele está comendo uma dona lá dentro você se diverte olhando pela fechadura?

Abalada, Melinda olhou para Harry:

— Você continua andando com uma arma? Me dê ela aqui; vou matá-lo — Harry sabia que ela não falava a sério, porém, havia uma ameaça real na sua voz. Harry sabia que ela odiava Hennessy de certa forma, às vezes; e odiava o lado de Ericson que se transformara num Hennessy.

— Isso me lembra — Hennessy virou-se para Harry — chega de Buffie, mesmo se ele a quiser: o risco é muito grande. Nunca fomos tão vulneráveis. Toda vez que ele tiver tesão, chame aquela sua enfermeira, ou seja lá quem for que você use. — Harry não gostava do jeito com que Hennessy se deliciava ao falar assim na frente de Melinda. — Mantenha-o cansado, Harry. Use a cabina telefónica. Buffie não aponta mais a arma pra gente: a maior parte do segredo foi divulgada. Agora o problema é evitar que ela descubra como estamos sensíveis e mande o Bannerman dar o golpe fatal. Estou com a razão; vocês dois mantenham a Buffie afastada. Com quem mais devemos nos preocupar?

— Herb está morto — disse friamente Melinda.

— Você falou com a mulher dele?

— Dei a notícia à Bárbara — acrescentou Melinda. — Ela está com uns amigos.

— Amigos nossos?

— Que diabos quer dizer?

— Não quero problemas desse lado — disse-lhe Hennessy. — Não quero saber de histórias dizendo que Ericson levou o marido dela ao suicídio.

— Bárbara Abelson é gente nossa — disse Melinda.

— É mais do que se pode dizer do marido dela — resmungou Hennessy, ao que Melinda retrucou com:

— Herb não era durão, mas não cometia erros imensos e estúpidos — Hennessy deu a impressão de gostar da abertura para uma grosseria:

— Olhe, Velha Fiel: você não acabou de passar a noite investigando um suicídio com um tira nas suas costas enquanto tentava descobrir um bilhete de suicídio que poderia estragar tudo. Você não regressou com um corpo num saco. Você não foi acusada pelo patrão por ter sido uma idiota, quando tudo o que fez foi tornar possível a ele permanecer no emprego, e quando sua maior desvantagem era não saber o que certos génios das relações exteriores andavam esculhambando. E você não foi humilhada pelo papai, como uma criancinha surpreendida numa besteira, enquanto sabia que seus respeitados colegas estavam observando às escondidas e gozando tudo. Portanto, foda-se, Melinda.

Bok resolveu que era hora de intervir:

— Tenho uma coisa a dizer — falou, e Melinda e Hennessy deixaram de se olhar iradamente para olhar em sua direção. — Desculpe ter escutado. Isso foi um erro. Não foi uma coisa que fizemos conscientemente, Hennessy, apenas começou a sair pelo interfone e a gente não desligou.

— Não peça desculpas — falou Melinda, com a voz tremendo. — Provavelmente ele mandou instalar um microfone na sua cadeira de rodas.

— Eu estava pensando, agora mesmo, como é lá na Rússia — Continuou Harry, não apenas para interromper a discussão dos dois, mas porque desejava dizer isto: — onde você tem de observar tudo o que diz. Sempre tem alguém escutando, ou obrigando você a falar quando não sabe nada, sem mais nem menos. E não há defesa contra isso: mais cedo ou mais tarde eles alcançam você. Eu devia ter pensando nisso quando começamos a escutar, mas eu só pensei: “Poxa, Isso é interessante” e também: “É importante que a gente saiba disso”. Isso é mentira. Não podemos fazer isso, meus velhos; temos de nos respeitar mutuamente ao máximo que pudermos.

— Não me venha com moralismos — disse Hennessy, e riu forte. — Melinda e eu gostamos de nos irritar, Harry; nunca falamos a sério. Mande o Hank Fowler explicar-lhe isso: é uma relação amor-ódio.

Houve uma pausa na qual todos evitaram ferir-se mutuamente.

Hennessy puxou as calças para cima e falou:

— De volta ao trabalho. Faremos a ligação pelo telefone vermelho da Sala de Reuniões. O tradutor já deve estar lá. Levarei o Chefe.

Melinda, empurre esse aleijado. Lembre-se, Harry: mantenha Buffie a uma milha de distância, e traga mulheres pra dentro e pra fora sempre que ele tiver um minuto. É melhor ele trepar do que se preocupar.

— Eu não sou um dos rapazes — disse Melinda firmemente. Hennessy examinou seus seios insolentemente, deu de ombros e voltou para o Salão Oval. Melinda fechou os olhos, respirou fundo e prendeu o ar; vagarosamente, exalou.

— Veja a coisa por este ângulo — sugeriu Harry. — Em algum ponto disso tudo ele usou a palavra “amor”. — Pode ter sido a forma de um amargo advogado divorcista dizê-lo, mas Harry reparou na referência amor-ódio e não queria deixar a observação despercebida.

— Nunca fui tão humilhada — irrompeu Melinda, abrindo uma gaveta e tirando raivosamente alguns lenços de papel de um recipiente e apertando-os contra os olhos, agora que Hennessy saíra.

— Ele estava sendo simplesmente maldoso...

— Harry, estou humilhada comigo mesma, não percebe? — Quando ela afastou os lenços, seus olhos ainda estavam quentes pelas lágrimas. — Eu fiz uma coisa nojenta: eu o espiei quando ele estava absolutamente nu. Ele jamais esquecerá isso e não posso culpá-lo. Que será que este local anda fazendo conosco...

— Espere um pouco — disse Harry, meio atrasado.

— E eu arrastei você nisso; na escuta clandestina — falou Melinda, amargurada. — Da mesma forma que Cartwright e Curtice fizeram em Yalta. Não foi culpa sua; você apenas concordou com o que eu estava fazendo. Depois, quando você fez seu pequeno discurso, juro que nunca me senti tão pequena em minha vida.

Isso era verdade, pensou Harry; seus pecados resumiam-se principalmente em concordar com as pessoas em quem confiava.

— Todo mundo comete erros — falou ele.

— Desculpa manca — ela disse, sem pensar, e então reagiu ao duplo significado: — Poxa! — olhando para o teto — tem de se observar tudo o que se fala perto desses caras. Vamos, eu vou “empurrar o aleijado”, como diz o Hennessy, quando deseja bancar o piedoso.

Ela empurrou-lhe a cadeira de rodas pelo saguão, até o elevador, pelo subsolo, para fora passando pela sala de descanso dos agentes, e desceram uma rampa até a Sala de Reuniões. Na hora em que chegaram, ela já se havia se recuperado; empurrar uma cadeira de rodas era provavelmente uma espécie de terapia.

Harry sempre ficava desapontado na Sala de Reuniões: um bocado de mapas, algum equipamento eletrônico, uma tela de televisão — um lugar provável para se ir numa crise, mas a disposição monótona do aposento não enfatizava o drama da forma como ele imaginava que deveria. O agente à porta assentiu com a cabeça e sorriu ligeiramente para Melinda. Agora que Harry pensara naquilo, a nova versão do telefone vermelho — um telefone-televisão em contato constante por satélite — hoje seria especialmente útil. Nesta situação, ver Vasily Nikolayev era tão importante como ouvir a sua voz: uma voz poderia ser imitada por telefone.

Quando Ericson tomou seu lugar à mesa o membro da WHCA [nota: White House Communications Agency.] falou em inglês pelo seu bocal:

— O Presidente dos Estados Unidos está chamando o Primeiro-Ministro da União Soviética.

O tradutor americano repetiu a mensagem em russo para um dos microfones na mesa. Uma voz respondeu em russo e uma voz russa traduziu:

— Sua comunicação foi recebida. Por favor, aguarde. — Harry sabia que a comunicação não era uma surpresa completa para Moscou: as telefonistas se haviam sinalizado há cerca de meia hora antes, a respeito de uma ligação pela linha especial. Eles observaram a tela preta para ver a cara de quem ia aparecer.

O rosto eslavo de Vasily Nikolayev encheu a tela e Harry Bok soltou o fôlego, aliviado. Então ocorreu-lhe que o Presidente ainda não recebera a mensagem que os olhos podiam ver, e sussurrou para Ericson:

— É Nikolayev — enquanto que a voz russa dizia:

— Senhor Presidente, que prazer falar com o senhor! — Após a tradução, Nikolayev sabia falar inglês, porém, o protocolo da linha especial exigia tradução oficial que seria controlada por outros funcionários em ambas as capitais, Ericson disse:

— Isto não é — repito — não é uma emergência militar. — Isso também era padrão: alertas causavam grandes despesas.

— O propósito desta ligação — disse Ericson, como se o propósito já não tivesse sido amplamente alcançado ao ver Nikolayev no cargo — é o de acelerar meu convite público para que o senhor visite este país e continue nossas reuniões. Não foi possível, devido a razões internas, fazer um contato particular primeiro, o que fazemos normalmente.

— A época não é boa — disse o russo. — Lamento não lhe poder dar uma resposta imediatamente. O Presidium [nota: Comissão Administrativa Permanente.] terá de estudar isso cuidadosamente.

— Por favor, dê meus cumprimentos aos membros do Politburo que eu conheci durante minha visita, antes de Yalta — disse o Presidente. — A composição desse grupo é a mesma de quando eu estive aí?

— O Presidium considerará seu gentil convite — falou o russo, olhando direto para a câmara — e ficará contente quando eu lhes disser que sua recuperação parece ser progressiva. — Muito formal e bastante evasivo.

A voz de Ericson tornou-se igualmente formal:

— Uma palavra pessoal, Primeiro-Ministro Nikolayev: chegou ao meu conhecimento a cuidadosa assistência médica que o senhor tão gentilmente prestou ao meu auxiliar do Serviço Secreto, Sr. Bok, que regressou recentemente.

Harry não sabia se ficava alegre ou preocupado. Estaria Ericson dizendo a Nikolayev que sabia acerca da droga ministrada, e, sendo assim, o russo entenderia?

— O agente Bok é considerado um herói — falou o Primeiro- Ministro Soviético — e um dia, quando ele vier a aceitá-lo, nós lhe daremos a mais alta medalha por bravura que oferecemos a um membro de nação estrangeira. Ele é um digno produto de seus fuzileiros. Todos os membros do Presidium serão informados de seus agradecimentos ao nosso pessoal do hospital — Harry achou que ele entendera e preferiu ouvir apenas o “gentilmente” de Ericson. Num tom ligeiramente impaciente, Nikolayev concluiu: — Mais alguma comunicação neste canal de emergência, Sr. Presidente? — Essa foi uma repulsa.

— Obrigado e bom dia — disse Ericson, e o funcionário desligou. Àqueles na Sala de Reuniões o Presidente ordenou: — Hennessy, Bok, McPhee, CIA, fiquem — os outros saíram. — CIA — disse o Presidente.

— Vamos passar de novo — disse o chefe do sector soviético na CIA.

A repetição durou só um minuto. Harry observou Ericson desta vez, e não a tela: o Presidente parecia fatigado, e esfregava a têmpora.

— Evidentemente Nikolayev está encrencado — disse o analista da CIA. — Ele disse que o Presidium, o grande Conselho, estava estudando o convite: isso é anormal. O senhor percebeu isso, Senhor Presidente, quando perguntou sobre o Politburo, e ele repetiu “o Presidium”. Como o senhor sabe, o Politburo, a assembléia menor, sempre esteve no comando durante transições; se não está agora, e o Presidium muito maior é o foro, o poder está todo difuso, e ninguém sabe quem está no comando.

“Dois: quanto a ele não se poder definir sobre vir aqui, na minha opinião isso é terrível, senhor. É uma confissão de impotência, contrária ao estilo de Nikolayev, e ao de qualquer líder soviético de alguma influência.

“Três: a maneira pela qual não respondeu à sua pergunta acerca da composição do Politburo, e a forma pela qual cortou o senhor no final foram insultantes... a menos que ele não tivesse alternativa. Presumo que ele estava sem espaço para manobrar; que tinha instruções específicas para nada dizer, e nada foi o que ele disse. — O analista consultou suas anotações. — Quatro: houve algum significado secundário na sua referência a Harry Bok que eu não entendi. De que se tratava?

Harry também ficou intrigado com aquilo. O Presidente tinha bons motivos para crer que o chefe de segurança do seu Serviço Secreto fora drogado e interrogado no hospital de Yalta: o emprego de “gentilmente” por Ericson deve ter sido sarcástico.

— Eu queria dar uma entrada a Vasily para que nos contasse alguma coisa — disse Ericson lentamente, ainda esfregando a fronte. — Ele nos disse que Harry ainda é considerado um herói, o que significa que eles vão insistir na história de que Kolkov foi também um herói, pelo menos por enquanto. Acho que estão esperando para ver de que lado o gato vai pular.

— A referência a Bok ser um fuzileiro pareceu injustificada — disse o analista. — Seria alguma pista?

Harry sacudiu a cabeça:

— Eu estive na Marinha quando garotão; jamais fui fuzileiro.

A cabeça de Hennessy voltou-se rápido para ele:

— “Diga isso aos fuzileiros”.

— O senhor acha que é isso? — perguntou tensamente o analista. — Nikolayev estaria a par do significado de um americanismo como esse?

— Sim — disse Ericson, sentando-se. — Eu o usei em Moscou quando passava uma guarda dos fuzileiros diante da embaixada, e contei ao Vasily que vinha de uma antiga reação do Exército quanto a fuzileiros burros. Eu lhe disse: “Diga isso aos fuzileiros” significa “Vá contar isso a outro”. Ele sabe, e, mais importante, ele sabe que eu sei que ele sabe.

— Então vamos inverter o significado da frase anterior — O homem da CIA consultou as anotações. — Ele disse: “O agente Bok é considerado um herói”. A verdade, então, é que Bok não é considerado um herói, e provavelmente Kolkov também não... isto é, se não nos estamos precipitando quanto à referência dos fuzileiros.

— Não se precipite — falou Hennessy, olhando duro para Melinda.

— Vasily pode ter entrado pelo cano — concluiu o Presidente. — Ele pode estar acabado e se arriscou demais nos dizendo isso. Alguém por lá acha que ele nos pode manter em desvantagem não trazendo a público a mudança no poder, ou tentando nos convencer com aquela conversa de Presidium. Não acredito nisso: não é a forma que eles operam. Sabem que estou preso ao meu convite, por isso me estão dando um pouco mais de corda. Não confirmam a história de Zophar, que Nikolayev e sua panelinha estão fora; tornam possível para mim desmenti-lo, errar, e me afundar mais.

— O que o senhor não fará — disse Melinda.

— Não se eu puder evitar — falou o Presidente. Após um silêncio, acrescentou: — Não, não posso, não importa no que dê. Vou ter de ficar manso nessa e deixar passar. Não podemos deixar os russos pensando que me fazem mentir para o mundo.

— Então você vai confirmar a história de Zophar? — perguntou Hennessy. — Confessar que convidou Nikolayev sem saber que ele estava deposto?

— Obrigado, Frank — o Presidente dispensou o homem da CIA. — Instrua seus companheiros; diga ao seu Diretor para assistir ao filme. — Assim que o analista saiu, Ericson perguntou: — Quem ficou aqui, só nós?

Melinda respondeu:

— Hennessy, Harry e eu. Só a família.

— Eu vou fazer uma terrível figura — comentou o Presidente — como um homem que não sabe que diabo vai fazer em relação a outra superpotência. Incompetente, incapacitado, tudo. Mas tenho de aceitá-lo, sabiam? Não posso deixar os filhos da puta de lá pensarem que montaram em mim.

— Não estou entendendo nada! — exclamou Melinda. Harry ficou satisfeito porque ela disse isso.

— Os homens no poder em Moscou atualmente, sejam quem forem, acham que Ericson e Nikolayev conspiraram para pôr Nikolayev no poder — disse Hennessy lentamente. — Portanto, o que nos estão oferecendo agora é uma espécie de meia cobertura para que neguemos a história do Zophar. Vão manter Nikolayev no posto por algum tempo a fim de evitar que o Presidente pareça um idiota total; mas nós lhes ficaríamos devendo um favor, eles poderiam revelar a verdade a qualquer hora. — A Harry pareceu que Hennessy admirava a técnica. — Eles estão tentando fazer conosco o que acham que tentamos fazer com eles...

— Falou bem, apoiou o Presidente, acrescentando: Eu jamais precisaria fazer aquele maldito discurso.

Harry perturbou-se com a injustiça da crítica que viria:

— O senhor vai fazer a coisa certa para o país, mas vai ser pixado. Isso é uma patifaria.

— Acaba dando certo — disse o Presidente. — Eu me safei lindamente por haver ocultado a primeira cegueira. Tive de agir errado, e uma coisa puxa a outra, e só o confessei porque o Hennessy gosta que eu faça discursos. E o que acontece? A merda toda explode. Devo admitir, porém, que vou pagar indefinidamente pelo engano a respeito de Nikolayev. Bannerman se encarregará disso.

— De volta ao trabalho — disse Hennessy. — Você vai almoçar no escritório com o Secretário Curtice, e então...

O Presidente interrompeu:

— Direi que foi uma pena ele não ter chegado mais cedo; eu queria sua presença aqui quando fiz a ligação pela linha especial.

— É — Hennessy sorriu mostrando os dentes como um lobo. — Depois direi ao Smitty o que falar para as suas hienas, e ele fará a reunião da imprensa com Harry, e com Curtice também. Deixemos o velho George tomar parte na festa. Kolkov-o-herói foi ideia dele, pra começar. Vamos ganhar o dia. Direi aos duendes para não prepararem um Sumário de Notícias, é deprimente demais.

— Falarei com o Presidente Frelingheusen pessoalmente — disse o Presidente.

— Diga-me uma coisa — Harry achou que tinha de interceder. — Esta suspeita que os russos têm de que o senhor e Nikolayev fizeram um conchavo para ajudá-lo a chegar lá em cima, era verdade?

— Tenho de lhe dar algum motivo para ler as minhas memórias, Harry — disse o Presidente, levantando-se.

Enquanto Harry ia sendo empurrado para os degraus, recordou a pergunta de Melinda para Hennessy: “Você acha que esta é uma das ocasiões em que a gente espera pelo pior, mas ele não acontece?” E a resposta de Hennessy: “Durante os próximos dias, mocinha, este local vai parecer a casamata do Hitler.


IV

AS CENTELHAS VOAM PARA O ALTO


O REDATOR DE DISCURSOS /3

— Você é um bolinador de mamilos — disse Buffie, de costas, com as mãos por trás da cabeça, enquanto Jonathan aumentava a tensão entre seu polegar e o dedo médio, e a cada dez segundos, como um geyser infalível, apertava-lhe o mamilo. — Pior que isso — ela afirmou: — você é um apertador de mamilos preocupado. Você pensa que está escrevendo um livro, e o herói diz então: — e aprofundou a voz para imitar um herói: — “Eu franzi as sobrancelhas pensativamente, apertando-lhe o mamilo, só de brincadeira, sem me importar em como eu a estava deixando louca de paixão, fazendo-a ansiar por mim com meu desinteresse.”

— Palavras como “preocupado” e “desinteresse” não são usadas por pessoas reais — ele falou, despertado pela imaginação dela, com os olhos numa pilha de esboços a tinta de Buffie, em cima de sua mesa. Eles captavam mais em algumas poucas linhas intuitivas do que ele jamais conseguiria captar em prosa. — Mas continue, o que diz a heroína?

— Ela não diz nada, mas se contorce apaixonadamente — brincou Buffie. — Na realidade ela não é a heroína, é apenas um personagem secundário que você põe na história para dar tempero ou mostrar que a necessidade de sexo e a necessidade de poder são iguais. Ela conhece seu lugar: a trepada favorita de todo mundo, quando eles não estão ocupados demais

— Você está fabricando imagens mentais de tudo isso — contra-atacou o redator, enquanto seu dedo médio voava novamente para o alvo. — Você não apenas deseja ser um personagem dó meu livro, como também deseja ser o ilustrador

— Que aparece junto à minha imagem? — ela sorriu com afetação, imitando uma contorção apaixonada.

— Um homem bonitão e viril — falou Jonathan — bem amadurecido para a sua idade, deitado nu, enviesado na cama, tocando preguiçosamente num corpo esguio, macio, com o joelho levantado e o dedo do pé em ponta, para dar mais atração. Sua imagem está deliberadamente fora de foco. Luz matutina, no crepúsculo do apetite, impotência da saciedade.

— Esta é a imagem — ela assentiu com a cabeça. — Luz de fundo, para disfarçar os rostos, mas o corpo cujo mamilo está sendo apertado não pode ser disfarçado, não há outro igual no mundo. Impressão granulada, em preto e branco. Ambiente gostoso, perfumado. — Ela suspirou de felicidade. Ele imaginou que ela ficasse felicíssima com sonhos de sucesso.

— Por que você nunca usa perfume, Buffie?

— Eu digo se você fizer questão, mas você não se interessa.

— Se perguntei é porque quero saber — disse Jonathan. — Sei suportar a dor. — Ele na verdade, não podia, e imaginou se estaria se desviando para uma daquelas áreas onde ela deveria fazer que ele sentisse uma ferroada de medo ciumento.

— Não uso perfume porque Sven Ericson está ligado em odores — disse ela. — Sempre esteve, porém, agora mais do que nunca. Ele sabe que Melinda cheira a Ma Griffe e aquela secretária de imprensa debutante, Marilee, cheira a Femme. Sam Silenciosa, a enfermeira de Bok, com as tetas balançantes, cheira a algum Lily of the Valley barato. Ele classifica as mulheres dessa forma. Ele me deu um perfume, que eu aposto a Melinda escolheu, e supostamente devo usá-lo para me encaixar na minha categoria. Mas eu não o uso. Nem outra coisa qualquer.

— Então como ele sabe que você está por perto? — Jonathan sentiu-se impelido a descobrir, mesmo suspeitando que não desejava saber o motivo.

— Eu cheiro a mim — disse ela. — Quando me aproximo dele, ou o toco, fico excitada. Fico molhada, entende? E quem tem nariz sensível realmente sabe dizer quando uma garota como eu fica com tesão.

Jonathan tentou não demonstrar a dor que o atravessou. Ali estava ela, pronta para fazer amor com ele por causa de um aperto no bico do seio, contudo disposta a lhe descrever sua excitação por outro homem, como se ele fosse seu irmão ou um conspirador. Jonathan conhecia bem aquele odor almiscarado; ficava impregnado nele o dia todo após se haver regalado com Buffie. Ele odiava tomar o banho que apagara o cheiro de mulher.

— A Tenente Kellgren não tem peitos balouçantes — disse ele para feri-la, como vingança. — Ela tem um busto firme e cheio, que faria qualquer mulher orgulhosa. Ficam bem nela. Você tem razão: ela fala pouco, mas não é vulgar.

Essa a atingiu; Buffie rolou para fora da cama e se sentou no peitoril da janela.

— Você vai bulinar os meus mamilos pensando naqueles seios balouçantes da Força Aérea — anunciou. Após a raiva passar, voltou para ele e começou a massagear-lhe o pé. — Você não tem ido trabalhar nos últimos dois dias — disse. — Desde o discurso que escreveu. Ninguém sente sua falta no escritório, Deus sabe, mas eu sim. — Seu argumento era certo: a presença de um redator após um discurso era tão intensamente desejada como a de uma rameira após uma trepada.

Jonathan não tinha vontade de regressar à Casa Branca naquele dia. Ele vira as fotos da irada linha de piquete, das demonstrações na Praça Lafayette, dos ônibus nariz-com-nariz em torno da Ellipse, mantendo a área inacessível. Lera, antes, a tépida reação ao discurso que supostamente escrevera, e, no dia seguinte, as histórias acerca da fraude em Yalta. Assistira na televisão, na noite anterior, a um longo programa deplorando a forma pela qual o Presidente estava estragando as relações com a União Soviética. O redator sentiu-se duplamente traído: o rascunho do discurso que ele apresentara fora revisto e distorcido pelo Presidente, transformado numa ardilosa omissão de tópicos. Além disso, ele soubera apenas depois do sector de imprensa, sobre as mentiras nos altos escalões acerca da emboscada em Yalta. Aquilo mostrara uma faceta negativa de Ericson que ele não percebera: sua duplicidade em questões pessoais e a fraude em negócios de estado. Jonathan não estava pronto para demitir-se nem mesmo para expressar seu descontentamento — e certamente não para se juntar a Bannerman — mas tampouco estava preparado para voltar imediatamente ao trabalho na Casa Branca. De qualquer forma, ninguém sentia sua falta.

— O discurso que Ericson fez não foi o discurso que escrevi — disse a Buffie. — Escrevi um discurso que confessava uma farsa de campanha e pedia desculpas por isso. Não me espanta ele não o ter lido: ele sabia de uma mentira maior a respeito de Yalta, aguardando para explodir no seu rosto a qualquer hora. Mas eu não sabia isso. Tinha poucas informações para utilizar.

— Nunca ouvi você chamá-lo de “Ericson” antes — observou Buffie, irrelevantemente, pensou ele. — Você sempre disse “o Presidente”, até quando falava nele entrando em mim.

— O Presidente ainda é o Presidente — disse ele, irritado — e eu sou um membro leal do seu staff. Quando ele “entra” em você, como diz tão romanticamente, ele representa ele mesmo, e não 250 milhões de outros americanos. Quando você trepa com ele, Buffie, está trepando com um indivíduo, e não com o seu país. Um pénis não é um mastro de bandeira — Jonathan ficou surpreso consigo mesmo; no fora isso que ele começara a dizer. A incrível metáfora no final, porém, fora inteiramente espontânea, mesmo não sendo o tipo de imagem que ele costumava usar.

Ele observou Buffie atravessar o quarto até o armário, escolher uma gravata e ficar diante do espelho em tamanho natural, nua, vagarosamente dando o laço em volta do pescoço. Ela puxou um cinto das calças dele e o apertou em volta da cintura — os buracos ficavam afastados demais para se encaixar na fivela, porém, ela improvisou. Usando apenas a gravata e o cinto, ela calçou um par dos seus sapatos, se aproximou da beira da cama, ajoelhando-se para alcançar-lhe o pénis. Ela o acariciou, apertou e brincou com ele até o rapaz atingir uma ereção palpitante, e então ela subitamente ficou de costas, fez continência e começou a cantar The Star Spangled Banner, o Hino Nacional. Quando ele começou a rir, perdeu a ereção e ela desfez a continência.

Que mulher! — riu ele, levando-a de volta para a grotesca pantomima. Era a única mulher que conhecera que era birutamente sensual, ou sensualmente pirada e, ao mesmo tempo, decididamente desleal. “Inexorável impulso”, plagiando Churchill. Ele tinha de se lembrar para não descarregar suas frustrações e decepções relativas a Ericson em cima dela, porque certamente seriam transmitidas a Bannerman. A imagem de Buffie nas mãos de Bannerman, ou pior, Bannerman nas de Buffie, apagou o sorriso do rosto de Jonathan.

Ele apertou-lhe novamente o bico do seio, o que o ajudou a raciocinar. Com quem poderia discutir isso? Seus amigos, a maioria conservadores cheios de princípios, lhe haviam recusado confiança, quando se passou para o centrista Presidente democrático. A garota que ele amava era uma espécie de agente duplo atraída para o perigo e de exuberante duplicidade. O novo chefe da Casa Civil era um advogado divorcista agressivo e oportunista. O velho chefe da Casa Civil, Lucas Cartwright, que Jonathan sempre achara que oferecia sólida base de honradez e idealismo na Casa Branca, regressara do Alasca na véspera, para ser atacado numa coletiva de imprensa. Pés de barro. Mas seria justo encostar pés de barro no fogo?

— Vai trabalhar? perguntou ela, quando ele começou a se vestir — Como seu único e verdadeiro amor, lamento, porém, como contribuinte, é bom de ver.

Ele pensou em contar ao seu único e verdadeiro amor que estava de saída para o Pentágono a fim de falar com Lucas Cartwright e arrancar-lhe um pouco de verdade, mas resolveu esconder isso dela; seria melhor que ela não tivesse nada interessante para relatar a Bannerman a respeito do seu paradeiro aquela semana. Podia ser, também, que Bannerman não fosse o Homem Mau, mas o Homem Bom num disfarce terrivelmente eficaz.

— Você me arrancou da depressão, Buffie — disse ele, de forma a parecer mentira. — Quando sair, limpe o banheiro. Recebo um monte de queixas quando você deixa as suas coisas em cima da pia. — Isso queria dizer que ele, ao chegar à casa encontrava um recado de Buffie escrito com batom no espelho, o que o animaria de novo, desde que não soubesse que ela estava dormindo com o Presidente ou sendo seviciada por um derrubador de Presidente.

Na saída, Jonathan disse:

— Me compre uma loção após-barba; não quero que o Presidente me dê uma cantada. — Ele estivera imaginando essa frase de despedida havia dez minutos e se sentiu melhor por haver mentido quanto a procurar Lucas Cartwright.

No Pentágono, o guarda à mesa não se impressionou com o passe sofisticado da Casa Branca de Assistente Especial do Presidente, exibido por Trumbull. Ele não marcara entrevista com o Secretário de Defesa e sua secretária não permitiu que ele aguardasse na sala de espera de audiências. Um general-brigadeiro veio ao telefone, e Jonathan se escutou dizendo:

— Sou assistente especial do Presidente dos Estados Unidos, e vou falar com o Secretário de Defesa no primeiro momento possível. O senhor me encaixará entre duas entrevistas, general, ou terá um inimigo implacável na Casa Branca.

Funcionou; com os quilos de coronéis no Pentágono, os assistentes especiais podiam não ser muita coisa dentro do velho edifício do Executivo, mas nos departamentos, o título tinha algum peso.

Lucas Cartwright, que parecia cansado após o longo vôo e uma provação de dois dias com a mídia, estava cordial como nunca.

— Você ficará contente em saber — disse, na sua forma gentil, que descontraiu Jonathan — que deixou o general de uma estrela com quem falou com uma poça de mijo embaixo da mesa. Suponho que você se identifica com os militares?

Jonathan assentiu com a cabeça, afundando-se no canto de um sofá de couro, de frente para a mesa do Secretário, sob o retrato de Forrestal. Ele sabia que Cartwright estava sob tanta tensão como seu predecessor, por isso foi direto ao assunto:

— Meu estoque de heróis está acabando, Senhor Cartwright.

— Você não devia ficar deprimido, Irmão Jonathan. Seu discurso da outra noite foi brilhante. Escutei-o numa pequena tenda na base da Vertente Norte, e fiquei profundamente comovido. Você devia ficar orgulhoso, sendo relativamente tão jovem, por ter...

— Eu não escrevi o maldito discurso.

— Ah! — Cartwright piscou os olhos — me disseram que sim.

— Sim, eu fiz o rascunho de um discurso. Bom discurso. Objetivo, sem lugar para compaixão, seguindo uma orientação fixa. Mas esse não foi o discurso que o Presidente apresentou.

— Ele adulterou o que você escreveu?

— Não, não. Ele fez um discurso inteiramente diferente. Esconder o que ocorreu naquele trem de campanha foi moralmente errado: o povo tinha o direito de saber que um candidato a Presidente ficou quase dois dias sem conseguir enxergar. No meu esboço de discurso confessei isso; usei de franqueza, porém, o Presidente deturpou tudo. Reduziu a coisa a quase nada. E não foi quase nada, foi errado.

Cartwright tirou os óculos, esfregou os olhos e pôs os óculos em cima da mesa de café, próximos a um jornal com uma manchete que dizia: “Contestadores Rodeiam a Casa Branca”. Ele disse:

— Eu não me havia realmente concentrado nisso, Jonathan; tenho andado muito ocupado com a outra história, a que a imprensa gosta de chamar de “Fraude de Yalta”. No discurso do Presidente, a referência ao cego Sansão...

— Essa foi minha — disse Jonathan rapidamente. — A dica do Sansão foi a única parte minha.

— Achei que era. Foi muito tocante.

— Não posso fazer com que ele entenda — disse Jonathan para a mesa de café. — Isso apenas deu força à fraude. Foi tudo uma fraude.

— Tudo?

— A essência da coisa. O Presidente Ericson embromou todo mundo na época das eleições; embromou-os com o discurso, e ninguém está percebendo isso. Ao contrário, todo mundo está revoltado quanto à sua Farsa de Yalta.

— Gostaria que você não se unisse a essa caracterização geral, Irmão Jonathan — falou Cartwright com um olhar pesaroso, e o redator de discursos deu-lhe uma olhada acusadora. — Você faz com que eu me sinta como o Joe Jackson Sem-Sapato. — Aí vem uma daquelas intermináveis histórias do Cartwright, pensou Jonathan, e esperou enquanto o Secretário de Defesa contava: — Em 1919, acho, houve o escândalo Black Sox do beisebol. Joe Jackson Sem-Sapato, o grande arremessador, foi acusado de entregar o Campeonato Nacional para que alguns jogadores pudessem faturar. Aí um jovem fã aproximou-se do heróico Joe Sem-Sapato, com lágrimas nos olhos, e implorou: “Diga que é mentira, Joe”. Isso abalou a nação. — Após uma pausa, Cartwright disse: — Posso deduzir da sua expressão sombria que minha lembrança do Joe Sem-Sapato não transmitiu a perspectiva que eu esperava. Bem, não faz mal.

O telefone interrompeu-os:

— Senador, o senhor... sim. — Longo silêncio. — Senador, seu tom de voz me aflige. Nós nos conhecemos há muitos anos e esta é a primeira vez em que duvida da minha integridade. Vou creditar isso ao calor do momento, e não vou recordar-lhe o caso quando a tempestade passar — Jonathan reparou na confusa metáfora, a menos que se referisse aos relâmpagos do calor. Cartwright escutou o senador até ele desligar, aplacou sua raiva o melhor que pôde, o que fazia bem, e se voltou para o jovem na sala: — Esse chamado foi de um dos nossos ardentes adeptos e mais francos defensores. Alguns dos outros telefonemas não são tão gentis.

— Não me sinto culpado por me sentir culpado — disse Jonathan — nem de estar aqui incomodando-o quando tudo o que o senhor realmente deseja é a lealdade cega. Quero uma boa razão para ficar do lado de Ericson. Não posso conversar com o Hennessy porque o acho um homem genuinamente mau, e Smitty tem o raciocínio bastante lento; quanto aos outros não conheço bem. Isso deixa o senhor como o único a quem posso apelar para que dê algum motivo pelo qual eu não deva tomar parte na corrida pelos botes salva-vidas.

— Há um ditado na Marinha — disse Cartwright pesarosamente. — Quando a água atinge o nível superior, siga os ratos.

Jonathan franziu o cenho.

— Sua compreensão e sua vontade de continuar junto ao Presidente — disse o homem mais velho com evidente sinceridade — é mais importante para mim do que você pensa. Pergunte-me qualquer coisa: serei franco e confiarei completamente em que você não revelará o que eu lhe disser.

— Por que o senhor inventou aquela história de Yalta?

Lucas Cartwright não titubeou:

— Era urgente que tirássemos o Presidente e sua comitiva de lá. Ficámos com medo de que a emboscada fosse apenas parte de uma tentativa para matá-lo. Foi uma ideia que George Curtice bolou: combinar com Nikolayev nossa partida imediata. Pensando melhor e sensatamente, talvez tenha sido um erro, mas naquela hora parecia uma mentira ingénua, uma história que não prejudicaria a reputação de ninguém, somente a enalteceria. E também uma história que esfriaria as paixões que pudessem ter surgido entre os Estados Unidos e a União Soviética. Aquela mentira ingénua pode hoje parecer a Farsa de Yalta, porém, na ocasião, pareceu uma ideia fantástica.

— Isso foi na ocasião — disse Jonathan. — Mas, após o seu regresso não houve necessidade de prosseguir com a mentira. O Presidente sabia?

Cartwright hesitou:

— Não seria direito discutir com alguém, mesmo com você, o que eu disse ao Presidente. Nem você deveria, caso alguém faça semelhante pergunta acerca de suas conversas particulares com o Presidente. Mas lembre-se de que o Presidente Ericson esteve em choque durante os dois últimos meses, recentemente cego e sob enorme e inacreditável tensão. A responsabilidade por não esclarecer a situação é minha e do Curtice, não do Presidente.

— Se o senhor cometeu um terrível engano — pressionou Jonathan — não deveria renunciar e admitir a culpa toda como sendo sua e do Curtice?

— Essa seria a minha tendência. Mas não vou renunciar porque desejo minha leal traseira plantada naquele assento do Gabinete se houver outra tentativa de expulsar o Presidente.

— Isso está sendo tramado?

— Pode ser. Mike Fong continua lá. Se essa tempestade da opinião pública sair do controle bem poderá ocorrer outra tentativa de usurpação.

Jonathan sacudiu a cabeça; ele queria desviar-se da estratégia e entrar a fundo na corrupção.

— Por que o Presidente não lhe contou a respeito da cegueira anterior... ele não confiava no senhor?

— Evidentemente não... não; nem posso dizer isso. Ele confiava em mim, e ainda confia, e tem razão em fazê-lo. Ele achou que eu não tinha necessidade de saber do incidente do trem, e o comunicado ficou limitado àqueles que tinham necessidade de saber, como o pobre Herb Abelson. Uma vez que se começa a romper o princípio do precisa-saber, se abrem exceções realmente se insultam todos os outros.

— Mas o senhor precisava saber. A cegueira anterior era importante para as decisões que o senhor tomou em Yalta após a emboscada.

— Ah, isso é verdade. Não me deixar a par do segredo foi, em retrospecto, um terrível engano.

— Senhor Cartwright — insistiu Jonathan — foi errado. — Ele queria escutar essa palavra dos lábios do Secretário de Defesa.

— Não, um equívoco, mas não foi errado. Foi uma decisão tática, não uma questão moral, de certo contra errado. — E amenizou: — Fiquei profundamente magoado lá no Alasca quando escutei aquele discurso, e soube da cegueira anterior. Acreditava gozar da total confiança do Presidente, o que eu merecia. Sou humano, fiquei enfezado com a coisa e sem dúvida teria ficado ranzinza durante anos com minha esposa. Mas isso são negócios de Estado; grandes homens têm grandes motivos para manter seus próprios segredos e nenhum assistente pode insistir em penetrar em cada segredo do Presidente. Por isso ele tem diferentes assistentes para funções diferentes.

— Como Hennessy?

— Mark Hennessy não é o homem venal que você pensa que é.

Se Cartwright ia defender Hennessy, pensou Jonathan, ele ia assumir um grande problema de credibilidade:

— Mark é mais inclinado do que você e eu a pôr os fins antes dos meios — disse Cartwright. — O que não é automaticamente imoral, se os bons fins são urgentes. Paulo, o Apóstolo, tinha muito orgulho de ser “todas as coisas para todos os homens”, como afirmava, porque achava essa tática às vezes necessária para salvar todos os homens. Não estou dizendo que homicídio ou incêndio premeditados são admissíveis como meios para um bom fim, mas já se apararam algumas arestas na Casa Branca a fim de servir a bons fins durante muitos anos. Em benefício da nação.

— Hennessy dedica sua lealdade a um só homem, Ericson, acima de tudo. Isso é errado.

— Certo; a lealdade pode tornar-se um vício, mas é uma qualidade baseada mais na virtude do que no vício. Foi o Hennessy quem mudou a ênfase do seu discurso?

— Acho que sim — falou Jonathan. — Não pode ter sido Hank Fowler e sei que não foi a Melinda.

— Possivelmente o Presidente teve alguma coisa a ver com isso — sugeriu conjeturalmente Cartwright, acrescentando rapidamente — embora sempre seja possível que ele tenha sido obrigado a se desviar do seu texto recto-e-estreito para seguir a ultraleal opinião do Senhor Hennessy. De qualquer forma, se o culpado pela redação final foi Hennessy, sua dedicação ao Presidente não precisa ser assim tão depreciada. Cartwrights e Hennessys vão e vêm, você sabe.

Jonathan não se incomodou em desafiar esse argumento de não-culpe-o-patrão porque tinha sua próxima pergunta cuidadosamente engatilhada:

— Por que os jornais estão agitados por causa da Fraude de Yalta quando não reagiram diante da farsa maior do trem? Por que todo mundo, inclusive o senhor, está fugindo do ponto principal: que a venalidade real não foi tanto a de enganar os russos em Yalta, mas de enganar o eleitorado americano, ao acobertar a cegueira anterior?

Cartwright balançou a cabeça:

— “Venalidade”, “acobertar”, essas palavras são fortes, sabe disso. Temos de lidar com a crise real, não com a crise que você acha deveria estar havendo. Se pensa que as decisões sobre Yalta eram defensáveis, como parece estar dizendo, então deveria estar ajudando a convencer as pessoas de que o Presidente e a nação não foram tão mal servidos. Pelo menos a intenção foi boa. Mais tarde, se quiser, nós dois poderemos analisar minuciosamente a moralidade do episódio da primeira cegueira.

Jonathan não podia aceitar essa:

— Diga-me sem rodeios: o senhor não se levanta, por estes dias, sentindo um peso no coração? Não pega o seu jornal matutino calculando qual a nova bomba inventada? Nunca se pergunta se o que vem fazendo está errado, profundamente imoral, realmente podre?

Cartwright entregou-se a um profundo suspiro.

— Sim para todos os itens. Mas depois me pergunto: como tanta coisa pode ter saído tão errada com um íntegro patriota como eu, aqui no centro de tudo? Mas nem tudo é o que parece. “Aquilo que você planta, é aquilo que você colherá”, diz a Bíblia. Nós não plantamos isso. Ou, se o fizemos, plantamos a coisa inconscientemente durante um prazo de um ano, e agora tudo está sendo colhido em uma semana, o que desvirtua a colheita. Da forma por que tudo se está delineando, parece que todos nós nos sentamos e conspiramos para enganar o mundo em relação a tudo. Mas não aconteceu assim. Homens diferentes efetuaram acções diferentes por motivos diferentes. E fizemos tudo pelo melhor interesse do país, e com o Presidente em mente. Para equilibrar.

— Os fins não...

Cartwright levantou um dedo pedindo silêncio.

— ... justificam os meios, você ia dizer. Memorizei uma citação de Charles De Gaulle quanto a este assunto, e a tenho repetido de vez em quando para vários Presidentes: “Todo homem de acção possui forte dose de egotismo, orgulho, aspereza e astúcia. Todavia, todas essas coisas lhe serão perdoadas e serão até mesmo encaradas como altas qualidades se ele puder transformá-las nos meios para atingir grandes fins”.

— O poder corrompe — citou Jonathan de volta.

— O poder tende a corromper — falou Cartwright, corrigindo a citação — contudo, não existe garantia de que ele corrompa. Às vezes os homens corrompem o poder. E os fins geralmente não justificam os meios, porém, às vezes o fazem. Talvez isso confirme a regra. Se há alguma coisa que eu aprendi servindo a três Presidentes é que o absolutismo leva ao desastre. — E emendou: — Às vezes o que leva ao desastre é uma ausência absoluta de absolutismo. Essa é uma citação citável?

— Pragmatismo — falou Jonathan com o que ele esperava fosse o grau certo de sarcasmo.

— Do Latim pragmaticus — instruiu Cartwright — que significa “relativo a assuntos de Estado”, e só recentemente veio a significar “prático”.

O ímpeto de Jonathan arrefeceu um pouco:

— E uma outra coisa, desejo ardentemente que o Presidente fique afastado da minha garota — ele deixou escapar. Era verdade; ele ficou alegre porque a coisa saiu, embora ridículo como ele sabia que parecera.

— Não pode haver droit du seigneur — concordou Lucas Cartwright rispidamente. — Você tem toda a razão quanto a isso. Concluo, então, que a jovem a que se refere também deseje que as atenções do Presidente não lhe sejam mais dirigidas?

— Droga, não! Toda vez que ele chega perto dela, ela fica excitada — disse ele. E não apenas figurativamente, podia ter acrescentado. Cartwright dava a impressão de conter um sorriso com certa dificuldade, e falou:

— Se você conseguir tomar conta dela, alguns de nós poderão cuidar dele. Mas não posso lutar suas batalhas por você em relação à moça.

— Ah, eu nunca devia ter tocado no assunto. Desculpe; esqueça.

Outro telefonema:

— Sim, Hennessy. Sim, Jonathan está aqui no meu gabinete neste instante. Trouxe algumas questões éticas, porém, eu diria que ele é digno de confiança. Hã... Eu não sabia que ele conhecia a moça. Mais alguma coisa? — Hennessy, o sacana furtivo, estava investigando-o; provavelmente alguém do Pentágono informara à Casa Branca que um redator de discursos presidenciais estava falando com o Secretário de Defesa, e Hennessy prontamente quis saber por quê. Ele tinha razão em desconfiar.

— Se eu fosse você, Mark... — Cartwright era o único a chamar Hennessy pelo primeiro nome, que era sua forma de ser formal — e, como sabe, eu não sou mesmo você, eu verificaria o alegre ânimo geral do nosso garoto de olhos azuis, o Procurador-Geral. A discrição não seria a mesma se ele abrisse a boca. Como você, fiquei preocupado principalmente com a reação à Fraude de Yalta, como foi caritativamente apelidada, porém, o Irmão Jonathan sugeriu que o júri talvez ainda esteja ocupado com a revelação da primeira cegueira — Hennessy deve ter feito alguma referência a redutores de discursos faladores porque Cartwright prosseguiu: — Entretanto, as sensibilidades morais do jovem bem poderiam estar mais intimamente de acordo com as do público em geral do que as suas ou as minhas. Isso quer dizer que o Procurador-Geral Duparquet ficará desconcertado. Ele deu grande ênfase, na reunião de Gabinete, quanto a não haver meios de saber em Yalta que o Presidente estivera cego antes, lembra-se? De certo modo o Procurador-Geral beneficiou-se de um erro, porque seu cliente mentiu para ele. Constrangimento pode obrigar um homem como Emmett Duparquet a fazer coisas estranhas. — Evidentemente Hennessy discordava.

Cartwright continuou: — Bem, você está aí bem no centro da situação na Casa Branca, e eu não. Uma outra coisa... realmente? Ele ficou surpreso. — Eu tenho um receptor aqui. Vou olhar também. Falo com você mais tarde — Cartwright apertou calmamente um botão e disse à secretária: — Parece que vem alguma coisa pelo receptor telegráfico, é aquela máquina lá no saguão com o papel amarelo, não o branco, acerca de um grupo de repórteres entrevistando a viúva do Doutor Abelson após o funeral. Quer trazer a mensagem aqui? E depois fique procurando “anúncios” posteriores, como os chamam, e os traga aqui, também.

Jonathan sentou-se.

— Tem um rádio? — Cartwright assentiu com a cabeça, pegou um radiotransistor na gaveta da mesa, e ligou numa estação só de noticiários; antes de a cópia do receptor telegráfico chegar, o boletim entrou no ar:

“A viúva do médico do Presidente disse hoje, após o funeral, que o Doutor Herbert Abelson tirou sua própria vida porque, palavras suas: ‘não poderia viver com uma mentira’ “.

Jonathan aproximou-se da mesa de Cartwright e ficou ao lado do Secretário da Defesa, que amparava as más notícias nas mãos. O locutor recapitulou os pormenores da morte de Abelson três noites antes, causticamente leu o texto da declaração da Casa Branca divulgado no dia seguinte, e que sugeria que poderia ter sido causado por uma dose excessiva de comprimidos soporíferos e se interrompeu para mudar para o canal do correspondente da rede na casa de Abelson.

“A viúva abalada pela dor acaba de libertar cópias da carta do seu falecido marido, o médico do Presidente, que chegou na correspondência desta manhã, a manhã do funeral de Herbert Abelson. Aparentemente o Doutor Abelson escreveu a carta em Camp Hoover, um conjunto rústico de casinholas a umas duas horas de Washington, e caminhou até uma caixa de correio mais ou menos a uma milha estrada acima, além do isolado retiro. Em profunda depressão, regressou e tomou a dose fatal de pílulas soporíferas. Aqui está o texto da carta — estou lendo uma fotocópia que alguns amigos da viúva, Senhora Barbara Abelson, distribuíram há alguns momentos atrás. Certos parágrafos foram suprimidos, provavelmente com intimidades que a Senhora Abelson prefere continuem íntimas, porém, a maior parte do texto é a que segue”.

Cartwright afundou tristemente na cadeira e deixou o radiotransistor na mesa. Jonathan permaneceu de pé, visualizando o rosto do homem morto cujas palavras estavam sendo lidas:

“Querida Bárbara: não aguento mais. Não posso viver comigo mesmo. Sempre fui um covarde e agora estou adotando a solução de um covarde.

Devido a eu ser um fraco, o Presidente dos Estados Unidos está cego. Devido a eu ser um fraco, existe um horrível segredo na Casa Branca comendo as entranhas do nosso governo. Desculpe se isso parece superdramático, porém, você pode se dar ao luxo de ser dramático num bilhete suicida. Após o acidente no trem, quando Sven Ericson recobrou a consciência e não podia ver, eu quis chamar um oftalmologista imediatamente. Contudo, Sven disse que não, e o coordenador da sua campanha, aquele sacana do Leigh, disse-me que eu não tinha o direito de alarmar o povo. Então fiz o que médico algum que se respeita faria: concordei com meu paciente numa decisão médica. Achei que tudo ia bem quando sua visão retornou no dia seguinte, porém, estava errado. Deve ter ocorrido alguma ruptura capilar no canal óptico. Sua visão era vulnerável porque eu pus a política adiante da medicina, porque eu deixei o Senhor Durão me influenciar.

Depois da emboscada em Yalta, eu sabia que tinha de relatar aos médicos a sua cegueira anterior. Todavia, o Presidente se apoiou em mim, mas eu já estava até o pescoço envolvido na fraude, por isso me deixei levar. Não contei ao médico de olhos o que ele precisavá saber para fazer um diagnóstico adequado. Se eu tivesse contado, sem dúvida ele teria chamado um neurocirurgião, e talvez Ericson restaurasse a visão.

Que foi que deu em mim? Como pude deixar esses caras, especialmente o Hennessy, evitarem que eu cumprisse meu dever como médico? Todos ficaram me lembrando que eu era um péssimo médico; que o item mais importante na minha maleta preta era o número do telefone de um médco de verdade de Bethesda, e eles tinham razão até certo ponto. Mas um péssimo médico é igual a um mau padre: pode fazer certas coisas corretamente e marcar um tento. Eu fracassei com meu paciente, fracassei com a nação, e estou cansado de fracassar. Estou cansado da forma pela qual Sven falou comigo esta noite, me dando tapinhas na cabeça e me dizendo que não me preocupasse. Ele costumava ser meu amigo. Desisti de um bocado de coisas por causa dele para trabalhar nesta maldita panela de pressão, e acho que ele está alucinado pelo poder: faz tudo para permanecer no cargo, independente do seu grau de incapacidade e de quem tenha de mentir por ele.”

O locutor, com o tom de voz mudado, falou:

“Em seguida há diversos parágrafos suprimidos, provavelmente despedidas pessoais à sua esposa e filhos. Um parágrafo final”:

“Vou caminhar até a caixa de correio, que Deus sabe a que distância fica, no meio da noite, e remeter esta carta. Se eu tiver medo e não levar a cabo o que tenciono, ficarei em casa algumas manhãs para interceptar a correspondência antes que você a receba. Se eu conseguir fazê-lo, voltarei e tomarei uma dúzia de Seconal. Eu a amo. Não aguento mais. Adeus. Herb.”

O transistor empoleirado na mesa murmurou mais alguns minutos contando a cena em frente à casa dos Abelson, com os espelhos tapados com tecido preto, a chegada de crianças e parentes, e então:

“A senhora Abelson vai encarar os microfones e câmaras agora. Soubemos que vai tentar falar sobre este...”

Cartwright desligou seu transistor e ligou o aparelho de televisão do escritório. O rosto inchado e devastado de Barbara Abelson surgiu na tela. A voz ao fundo disse que ela ia ler o bilhete de suicídio do marido.

— Meu Deus! — exclamou Jonathan — ela vai ler aquilo, e com esta serão cinco vezes hoje: nos noticiários da noite, de amanhã de manhã, como quando Ruby matou Oswald. — Ele sabia que o assunto seria incutido na alma americana, repetido mais e mais vezes até que a maioria dos espectadores pudesse recitar as palavras e jamais esquecer o rosto. Como era de se esperar, assim que a viúva começou a ler a carta em voz alta, a câmara cortou para a foto da mesa da sala de jantar do seu falecido marido, depois deu uma panorâmica de outra foto da família reunida, voltou para a viúva, depois focalizou os objetos marcantes da campanha que o médico do Presidente orgulhosamente reunira, as cartas emolduradas de Ericson, sua nomeação em pergaminho e finalmente a lamentosa, perseverante ex-atriz lendo as últimas palavras do marido.

Jonathan resolveu que deveria continuar ao lado do Presidente porque ficou preocupado com o impacto devastador da apresentação pela televisão. O redator de discursos não pensava tanto em Abelson, ou sua viúva, mas sim no efeito que a apresentação que provocava lágrimas teria sobre o público telespectador. Ele calculou que deveria constranger-se por causa da sua aparência insensível, mas ficou satisfeito por se manter de um lado. Estudou a fisionomia de Cartwright, olhando para a tela, queixo caído e olhos húmidos. O homem estava mais profundamente afetado do que ele; Jonathan sentiu-se bem por isso.


O EX-SECRETÁRIO DO TESOURO

— Desligue isso — disse Bannerman a Mike Fong, que desligou a ofegante recapitulação do locutor sobre o desempenho da viúva do Abelson. Bannerman, que regressara na noite anterior de Londres, ficara furioso com a maneira pela qual a Comissão para Substituir o Presidente Incapacitado estivera deitando a perder o ataque a Ericson. Ele convocou Fong, o Vice-Presidente Nichols e Marty Quinn — o agente de imprensa que acabara de ser contratado para dirigir o pesioal da comissão — para uma reunião na sua casa. Quinze minutos antes de surgirem as notícias da programação sobre Abelson, Bannerman lhes ensinara alguma coisa acerca de como atacar um Preildente.

— Vocês deixaram passar a melhor: a baixeza moral — ele lhes disse — e fizeram o maior alvoroço em torno daquilo que jamais servirá para destituí-io. Por que não posso confiar estratégia a alguém? Devia ter sido óbvio. Só espero que não tenham estragado tudo.

— Há piquetes marchando em volta de toda a Casa Branca, Roy — assinalou o Vice-Presidente. — Isso foi providência da comissão.

— Um bando de garotos e desordeiros com quem você pode contar para qualquer negócio — rosnou Bannerman.

— Mas estão recebendo uma cobertura enorme — explicou Quinn, o agente da imprensa. — Televisão, editoriais; a frase “Fraude de Yalta” já faz parte do vocabulário.

— Esqueça os seus inconsequentes retalhos de jornal! — Bannerman não tentou esconder suas frustrações quanto à incapacidade dos seus aliados. — Dizem que Roosevelt traiu a América em Yalta; Isso o prejudicou? Não estamos procurando ferir Ericson à luz da História ou derrotá-lo nas próximas eleições; estamos a fim de forçá-lo a sair agora, recrutando toda a raiva do povo americano e a fúria dos veículos noticiosos.

— Calma, Roy — disse o Secretário Fong. — Marty está fazendo um bom trabalho. A coluna de Zophar foi uma bomba, e nós a apoiamos com toda a organização: os telegramas, as cartas, as marchas, as declarações no Congresso, tudo. Ericson está pelo pescoço.

Bannerman disse a si mesmo que não se poderia dar ao luxo de ofender Fong ou Nichols, tinha de esfriar o ânimo, mas a estupidez deles o irritava. Explicou lentamente, como se para crianças:

— Nós não vamos vencer no campo das relações exteriores. Veremos uma grande bagunça, e um bocado de barulho, e os redatores idosos de editoriais cacarejando e resmungando para bancarem os formidáveis. Mas o que o homem da rua pensará? Vai achar que tem um Presidente cujo pessoal tomou decisões difíceis após uma tentativa de assassinato, pelo bem do país...

Ele tentou isso no discurso, e quebrou a cara — disse Quinn.

— Com quem a coisa fracassou? — zombou Bannerman. — Zophar fez com que ele parecesse um tolo, mas a grande plebe vai formar fileiras com seu Presidente, se a questão for ele contra os russos. Qual a conclusão? Ericson tentou passar a perna nos soviéticos? O sujeito comum vai dizer: “Que há de tão ruim nisso? Então o Ericson deu um fora, mas, pelo menos, está do nosso lado.”

— Você acredita mesmo nisso, Roy? — o Vice-Presidente estava preocupado.

— Não apenas isso — Bannerman não resistiu a falar abertamente: — Acontece que acho que Cartwright e Curtice agiram certo ao retirá-lo rapidamente do perigo. Quando for Presidente, Arnold, só espero que o seu pessoal o sirva tão bem. Esse Harry Bok, ele não é um mentiroso... é um herói, penso eu. Esse Ericson decidiu explorar isso para ajudar a pôr um homem do Kremlin no poder, e que tinha uma dívida com o Presidente americano, então eu digo que lhe tiremos o chapéu por isso. E depois que a multidão de espertinhas parar de bufar e urrar a respeito de fraudes, você verá que a maior parte das pessoas do país terá a mesma opinião. Vá, então, tentar conseguir que Ericson desista. Anotem o que digo: todo esse maldito escândalo sobre a Fraude de Yalta vai virar, a menos que a gente a ponha de lado e entre no essencial imediatamente.

— Qual é o essencial, Senhor Bannerman? — O agente de imprensa era maleável; fora contratado para cumprir ordens. Bannerman esperara mais bom senso de Fong, que pelo menos estava na política havia muito tempo, ou mesmo de Nichols, que talvez os anos pudessem ter feito um pouco menos ingénuo. Mas não, Bannerman teria de comandar o espetáculo sozinho. Não sairia do país por nenhum motivo.

— Enganou o povo nas últimas eleições, isto é o essencial — disse-lhe. — O povo tem o direito de saber; lembre-se daquela frase: “Um direito de saber”, se os seus candidatos presidenciais já estiveram internados num manicómio, foram comunistas na juventude ou foram cegos em alguma ocasião. Ericson encobriu isso. Ele mentiu. Não revelou a verdade completa sobre sua incapacidade, e ela agora paralisa a nação; e não por escolha da nação: o povo jamais soube. Ele tinha o direito de saber, mas o perigo lhe foi deliberadamente, corruptamente escondido. Isso é errado, imoral. Deus castigou Ericson por causa disso, e agora ele deve ser afastado.

— A Constituição não prevê isso — resmungou o Vice-Presidente. — Nem mesmo diz que por não se revelar a verdade completa se deva ser afastado. Não existe impedimento por esse motivo, não é um grave crime. Temos de mostrar que ele está incapacitado e não pode funcionar.

Fong uniu-se a Nichols na ofensiva:

— Pelo menos a Fraude de Yalta fez o povo achar que Ericson não sabe droga nenhuma do que ocorre na Rússia. Isso é prova de incapacidade. Porém, creio que o Roy está certo, o povo pode debandar para o lado dele em assuntos de relações exteriores.

Bannerman fechou os olhos. Valeria a pena derrubar Ericson, para admitir gente que não entendia de moldar a opinião e de manejo do poder? Ele respondeu com uma afirmativa à própria pergunta porque seria capaz de usá-los para governar bem um país.

— Primeiro temos de esclarecer qual o caminho a seguir — falou o ex-Secretário do Tesouro. — Se o do impedimento, ou o da Vigésima Quinta Emenda. Se for através do impedimento, teríamos de contar com um grave crime, uma obstrução da justiça, ou um abuso de poder. Ainda não temos isso. Portanto, o impedimento permanece como ameaça, como alternativa, não nossa principal arremetida. Temos de percorrer a rota da Vigésima Quinta Emenda: criar uma tempestade na opinião pública tão severa, que até um Gabinete passivo, de apoio tenha de jogar a questão para o Congresso, por medo de que se não agisse, faria com que o próprio Gabinete fosse Impedido.

— Não é por isso que nos devemos concentrar no facto de Ericson não saber quem estava governando a Rússia? — Nichols ainda não entendera a situação.

— Certamente que vamos utilizar isso — disse-lhe Bannerman — mas é somente um argumento intelectual. Você tem razão, Arnold, a questão é a da incapacidade; mas um erro crasso não é suficiente. O único fator capaz de obrigar o Gabinete a cumprir sua missão é uma opinião pública furiosa. E o público vai ficar possesso quando descobrir que foi enganado. Então a rota da Vigésima Quinta Emenda será uma forma conveniente de executar a vontade do povo. Entendeu? A desculpa será incapacidade, mas o motivo real será o de que ele roubou nas eleições quando deixou de revelar a verdade nua e crua acerca de sua cegueira. E não precisamos esgotar o processo todo: só até ao ponto em que ele renuncie.

Eles entenderam o plano. O impacto de Barbara Abelson lendo o bilhete de Suicídio do marido foi emocionalmente discutido pelos outros três. Bannerman sentou-se silencioso, com sua teoria justificada, tentando encontrar uma fórmula lógica de acompanhar o caso, para manter a Casa Branca em estado de sítio.

— O médico de olhos — disse Bannerman finalmente. Pensou no jovem e inseguro médico, na sua obscuridade, que parecia fraco nas coletivas de imprensa, e que se escudava no jargão médico. — Ele é o elo mais próximo. Vamos dar em cima dele. Mike, você conhece meus contatos no mundo médico; primeiro temos de fazer um escândalo acerca do auto-sacrifício do Doutor Abelson — fracote miserável, pensou ele; qual era o problema de Ericson, cercando-se de gente que não resistia a pressão? — atormentar o pessoal da Associação Médica Americana, tudo isso. Mas falem com o médico de olhos, arranjem uma coletiva com a imprensa, não amanhã, mas depois de amanhã, para falarmos sobre como ele teria tratado Ericson diferentemente caso soubesse a respeito da cegueira anterior. Todos os médicos gostam de descarregar em cima dos seus pacientes, de culpá-los pelas falhas científicas. Ele com certeza vai esfoçar-se por atingir isso em grande estilo.

— Talvez os militares tentem botá-lo na linha — disse Quinn. Esse foi o primeiro comentário útil de meus partidários, pensou Bannerman.

— Temos amigos que garantirão ao doutor um futuro na clientela particular — disse Bannerman. — Se fizerem pressão nele dos altos escalões de Bethesda, a fim de que cale a boca, poderemos explorar isso. Contudo, comecem já a trabalhar no caso através da imprensa médica. Abelson era redator médico; devem estar furiosos.

Isso deu uma ideia a Bannerman: como teria Ericson tentado abafar o escândalo da cegueira anterior? O encobrir é sempre mais trabalhoso do que o acto original: envolve mais gente, parece indigno e sua exposição mantém a panela fervendo. Talvez o jovem redator do Presidente recebesse um pedido para escrever alguma coisa ambígua. Buffie, a de todo mundo na Casa Branca, era a chave para ele. Talvez Arthur Leigh, que foi mencionado no bilhete suicida de Abelson como “o sacana do Leigh”, se lembrasse de como o encobrimento fora conduzido, e estivesse pronto para falar.

— Senhor Vice-Presidente — disse Bannerman formalmente — a reunião está a ponto de chegar ao âmago do assunto, e não há necessidade de o retardarmos aqui.

Nichols entendeu sua “deixa” e ficou feliz em partir. Bannerman mandou Quinn trazer Buffie e Leigh depressa.

Leigh foi o primeiro a chegar, contente com a chegada numa limusine e a nova notoriedade.

— Os repórteres estão seguindo-me por aí como se eu fosse uma cadela no cio — rosnou.

Mike Fong abriu o jogo para o ex-coordenador de campanhas: Que outras minúcias ele tinha para contribuir, em relação ao encobrimento da primeira cegueira?

— Tem um ângulo sexual na questão — sugeriu. — Sem dúvida Erlcson não mencionou isso no discurso daquela noite; porém, quando o trem de campanha foi obrigado a parar, ele estava na cama com a garota, a fotógrafa, trepando nos intervalos das paradas da campanha. Ele estava montado nela quando bateu com a cabeça. Bok sofreu tentando separar os dois, com ela xingando e berrando no leito superior enquanto a gente tentava manter tudo em silêncio. Isso deve acrescentar certo tempero à história.

A puta. Os olhos de Bannerman apertaram-se. Isso queria dizer que Buffie sabia o tempo todo sobre a cegueira anterior de Ericson, c nada falou. De posse dessa informação há duas semanas atrás, ele poderia ter arrancado Ericson do cargo. A cadela o retardara, deixando-o pensar que ela estava traindo o Presidente, enquanto só lhe passava inúteis e pequeninas dicas. Talvez fosse uma agente dupla. Bannerman a subestimara; subestimara o uso que Ericson fazia dela. Sua onda de raiva dirigiu-se primeiro à mulher, depois à sua imperdoável superconfiança. No entanto, agora ele tinha uma vantagem: Buffie ainda não sabia que ele sabia tudo o que ela sabia. E ele usaria isso para dominá-la e usá-la.

Bannerman forçou-se a permanecer calmo, e dirigiu sua atenção para Leigh: Por que ele ficou acessível tão rapidamente? O político, um desses intermediários improdutivos com quem se tinha de lidar no caminho para o poder, normalmente negociava suas informações. Bannerman esperava que Leigh tirasse alguma vantagem, ou promessa, ou alguma consulta; todavia, aqui estava ele, oferecendo espontaneamente informações vitais. Por quê? Uma razão era a de que Leigh não sabia o que o seu “ângulo sexual” realmente revelara a Bannerman: que Buffie andara escondendo informação vital. Outra razão podia ser a de que, tarde na vida, Leigh estava aprendendo a lidar com homens de recursos — para Bannerman um presente dado sem restrições exigia retribuição com dividendos, e seria de maior valor para o doador do que qualquer emolumento exigido por um contrato. Um Bannerman não se poderia dar ao luxo de criar dívidas com um Leigh por coisa alguma. Uma terceira possibilidade ocorreu-lhe: a de que Leigh possuísse algo mais, de valor muito maior — possivelmente embaraçoso ou obscuro — para revelar na devida hora. O ângulo sexual poderia ser apenas um aperitivo.

Bannerman afastou Leigh dos outros para que os dois pudessem conversar livremente. No pátio, olhando para a longa faixa de relva, e longe de qualquer provável vigilância eletrônica, ele fez a oferta abruptamente:

— Arthur, qual é a sua ambição? O que deseja na vida?

— Você quer dizer qual é o meu preço? — Sacana ordinário, pensou Bannerman. O mundo ficaria melhor sem esses grosseiros intermediários políticos.

— Não, se quisesse saber o seu preço, Arthur, eu lhe teria perguntado qual era ele. Não sou acanhado. Porém, me disseram que você é um homem de talento, e me ocorreu que a forma de alistá-lo na causa é descobrir diretamente o que você deseja. Poder? Posição? Dinheiro? Fama?

— Fico com a coluna três — disse Leigh. — Dinheiro. Estou cansado de política. Pus um Presidente na Casa Branca, e não há coisa alguma que se possa fazer que supere isso. Portanto, está na hora de tratar do meu conforto.

— Certo — falou Bannerman, aliviado por se tratar de uma questão simples. — Vou fazer-lhe um empréstimo, dizer-lhe onde investir e garanti-lo contra perda. Em seis meses será um homem rico. A gente calcula o lucro mais tarde.

— Não me esquecerei.

— Agora fale sério — ordenou Bannerman. — Estamos sozinhos; estou com a corda no pescoço; agora é a hora de você se abrir e me dizer o que Ericson fez para esconder a sua cegueira anterior — Leigh estava comprado; e permaneceria comprado, como costumava dizer Henry Clay Frick, até surgir uma oferta maior.

— Isso pode me meter num sério problema — argumentou Leigh, especulativamente. Bannerman calculou que ele não estava sendo pudico, mas que se preocupava em se envolver numa negociata de corrupção. E tentou esperar que ele falasse. Leigh sabia esperar, também, e finalmente Bannerman disse:

— Você vai ser bem pago pelas suas dificuldades, e bem protegido juridicamente, a fim de diminuir qualquer dificuldade que dizer a verdade lhe possa trazer. Os melhores advogados do mundo nada lhe custarão.

Leigh resolveu-se:

— Hennessy tentou subornar-me. Ele pensou que eu ia revelar seu grande segredo... o que, francamente, eu jamais teria feito. Daí perguntou se havia alguém que ele pudesse nomear, no meu Estado, que me pudesse ser útil.

— A nomeação foi feita? — Bannerman sabia que isso era importante porque promessas não cumpridas não eram venais, pelo contrário: eram prova de pureza política.

Sim, apesar de protestos locais. A pressão veio da Casa Branca, porém, e o governador do Tennessee não pôde dizer não.

— O que a pessoa nomeada poderia ter feito por você?

— Negócio de rodovia, zoneamento, esse tipo de coisa. Contudo, nada foi feito por essa pessoa. Nem lhe foi ainda pedido. — Somente Hennessy agira corruptamente; Leigh não tentara embolsar dinheiro.

Bannerman caminhou até um banco baixo de pedra, olhando por cima dele para o exuberante parque. Provavelmente Leigh extorquira a nomeação de Hennessy, ameaçando revelar o segredo, e o assistente do Presidente consentira em fazer uma nomeação de aparência inocente. Agora Leigh queria transformar isso numa oferta de suborno. Bannerman resolveu que essa acusação subsistiria? Poderia chegar a atingir o próprio Ericson? Sam Zophar seria o homem a divulgar a história.

— Chame Zophar; conte-lhe tudo. Não tente redimir-se totalmente; todo mundo sabe que você é grandinho.

— Estaremos correndo um risco — disse Leigh. Verdade: Hennessy provavelmente contra-atacaria a extorsão ou filtraria outras iniquidades do sombrio passado de Leigh.

Bannerman foi direto ao assunto:

— Quanto você pretendia ganhar?

— Uns dois milhões só da terra.

— Isso dá só um milhão e meio líquido, após os impostos, com muito otimismo — disse Bannerman. — Seu antigo cálculo, que você não deixa sair de sua mente. Vamos estabelecer como novo objetivo dois milhões líquidos. — Aí ele o dispensou: era um empregado caro, fazendo um trabalho desagradável. Hoje é quarta-feira. Não desperdice a história nos jornais de sábado: faça com que seja publicada nos matutinos de segunda-feira. Fale com seu amigo Zophar.

Bannerman desceu os degraus da varanda, pegou um telefone no quarto de dormir e chamou um assistente em Nova York. Soletrou o nome de Buffie Masterson: não sabia seu primeiro nome verdadeiro; e pedia ao FBI uma sindicância informal da garota e sua família imediata, por telefone, dali a meia hora. Ligou para a esposa Susan, em Nova York, para pedir-lhe que controlasse o paradeiro da Senhora Arthur Leigh durante os próximos dias.

Bannerman refletiu acerca de contar a Fong e ao membro do staff, Quinn, quanto à próxima acusação de suborno de Leigh contra Hennessy.

Mas sacudiu a cabeça: eles não precisavam saber. De volta à sala de estar ele disse ao membro do staff para começar a concentrar a pressão da associação médica sobre Andy Frangipani, da Secretaria de Recursos Humanos, através da pergunta: Deveria um homem que não confia no próprio médico lidar com o destino do país? Até agora a pressão da Secretaria de Recursos Humanos fora toda a favor de Ericson, pelos politiqueiros, e a favor dos deficientes. O suicídio de Abelson deveria forçar a mudança dessa atitude.

Despediu Fong e Quinn, e se concentrou em como faria a garota falar. Lá embaixo, no seu escritório-quarto de dormir, Bannerman recebeu o telefonema do seu contato no FBI. Curiosamente, e inutilmente, a garota jamais estivera em encrencas, e os únicos relatórios do FBI falavam da investigação feita em todos os campos quando ela foi trabalhar na Casa Branca. Os relatórios dos agentes faziam fofocas sobre sua moral — nada novo nisso — porém, nunca foi presa. Não havia nenhuma informação degradante; somente registros de prémios pelas suas fotografias, e alguns prémios de espetáculo de arte.

— Diga-me os contatos de influência — pediu ao homem, fazendo anotações minuciosas a respeito da família e dos amigos dela. — Quem era seu protetor antes de Ericson? — Ele anotou a resposta, a qual era, coincidentemente, atualizadíssima: uma ligação feita de Nova York para investigar a agência de publicidade onde o ex-amante de Buffie trabalhara, descobria que ele fora despedido naquela manhã, numa dispensa geral da agência. — Verifique a linha de crédito, e o banco, da loja de alimentos vegetarianos em Fond du Lac, e qualquer vulnerabilidade financeira. — Desligou sem despedir-se. Havia anos que Bannerman descobrira quanto tempo se podia economizar, e quantos subalternos se lembravam de sua posição pela simples atitude de nunca se dar ao trabalho de dizer olá ou até logo.

Ele reconheceu que precisava da satisfação de provar a essa garota e a si mesmo que ninguém traía T. Roy Bannerman. Admitiu, também, que sua satisfação em puni-la não deveria chocar-se com sua necessidade contínua de um par de olhos e ouvidos na Casa Branca. Precisava de sua lealdade exclusiva, a qual, se não podia ser obtida pela esperança de recompensa futura, viria do medo da retribuição imediata. Ele não a subestimaria novamente, nem ela a ele.

— Lavei o rosto antes de vir — disse Buffie, referindo-se delicadamente à florista da peça de Shaw quando em ambiente estranho e luxuoso. Ela vestia colete curto e saia, roupas de trabalho da fotógrafa da Casa Branca; mas estava sem câmaras. Os saltos altos chamavam a atenção para suas pernas longas, e Bannerman pôde imaginar de que modo ela exercia sua influência; não apenas com sua aparência agressiva, ou a silhueta flexível, mas também com o modo de caminhar, o ímpeto que parecia desejar dar aos outros. A muitos outros, ele sabia, em campos demais.

— Você tem escondido coisas de mim, Buffie.

Ela assumiu um olhar intrigado, depois riu nervosamente:

— Poxa! Nunca pensei que estivesse interessado em mim dessa forma, Senhor Bannerman.

Ele fez sinal para que ela se sentasse na cadeira reta de frente para a mesa do quarto de dormir. Seu rosto estava normalmente impassível, e ele mantinha a voz baixa, desprovida de sentimentos.

— Não estou interessado nas suas qualidades como prostituta; estou interessado somente no seu valor como fonte de informações.

Ela empalideceu e se levantou.

— Ei! Não sou prostituta de ninguém, meu chapa; e não sou obrigada a levar esporro de...

— Sente-se. — Ele não levantou a voz. Ela sentou-se. — Você tem se divertido um bocado — continuou — jogando nas duas pontas contra o meio. Com você tem sido como num jogo. É amiga de todo mundo, confidente de todo mundo, traidora de todo mundo.

Ela nada disse, parecendo a Bannerman estar convenientemente amedrontada. Medo não seria o bastante.

— Você estava a par da primeira cegueira do Presidente — ele prosseguiu. — E não me contou. Ao invés, deu-me pequenas e inúteis informações, com o conhecimento do Presidente, apenas me embromando o tempo todo. Velho e estúpido Bannerman.

— Como sabe que eu sabia? — sussurrou ela.

— Você estava deitada de costas, com as pernas em torno dele, quando aconteceu.

— Ele sabe que eu sabia — ela disse, como se para si mesma. Pegou a bolsa de lona que deixara perto da cadeira e a colocou gentilmente no colo, contendo-se e segurando seus haveres, aguardando os próximos acontecimentos.

— Pergunto-me se você se dá conta — disse-lhe calmamente Bannerman — de como era importante para mim, e para a nação, saber a respeito da cegueira anterior há semanas atrás, quando o Gabinete se reuniu.

Passado um instante ela disse:

— Era importante mesmo?

— Não banque a loura burra comigo. Você resolveu me sacanear, jogando para ganhar uma nota alta se jogasse as cartas certas. Mas não jogou. Perdeu. Agora vou lhe dizer o que perdeu.

Apanhou um pedaço de papel com suas anotações e observou-o durante mais ou menos um minuto. Ela rompeu o silêncio:

— Suponho que a ideia sobre aquela revista gorou, né?

Ele a olhou como se ela tivesse falado em idioma estrangeiro:

— Parece que você não entende, Buffie. Você me traiu. Não posso permitir que pessoa alguma me traia e fique impune. Se eu não reagisse vigorosamente a notícia se espalharia de que eu podia ser traído impunemente. Não posso deixar isso acontecer. Você vai pagar pelo que fez. Vai se arrepender disso pelo resto da vida.

— Olhe aqui, sei que o senhor está chateado, e tem esse direito; não fui cem por cento com o senhor. Mas nunca menti. As informações que lhe dei foram úteis, não foram?

Bannerman encolheu os lábios, esperava que ameaçadoramente.

— Você me contou o que Ericson desejava que eu soubesse. Você pensou que me podia manejar do modo como manejou todos os outros homens com quem entrou em contato. Agora vai descobrir como estava errada.

— Se bater em mim, eu grito. Não topo essa jogada de sadismo; não vou deixar que me machuque.

— Não vou tocar em você — ele assegurou-lhe, gozando o momento. — Vou apenas destruir a sua vida e as vidas daqueles que você ama. Não gosto disso, mas é o que terei de fazer. Quer ver como vai ser feito?

— Não. Quero ir embora. Posso ir?

— A porta está aberta — falou ele. — Está livre para sair a qualquer hora. — Ela se levantou, apertando a sacola de lona com as mãos — Fond du Luc, Wisconsin — murmurou ele. — Estou no ramo bancário, Buffie, e tenho muitos amigos nesse sector. Diz aqui, que a Masterson’s Health Foods tem uma linha de crédito de quinze mil dólares, dos quais deve uns onze mil atualmente. Muito bem: da noite para o dia esse crédito vai ser extinto, e não será renovado. A Masterson’s Health Foods vai passar tempos difíceis, bem como as duas pessoas às quais pertence.

Ela balançou a cabeça.

— Você está fazendo tipo — ela disse, não acreditando. — O velho banqueiro perverso vai antecipar a hipoteca do pequeno personagem. Isso não pode acontecer mais; não neste dia e nesta época.

Ele acenou com a cabeça, de modo prático.

— Entendo. Você prefere uma coisa mais sofisticada. Que mais tenho na lista aqui? Um cara chamado Stanley Marcowitz: você viveu com ele em Nova York durante quase três anos, ligação prolongada para você. Ficaram amigos, como se diz. Muito bem; como uma espécie de amostra grátis... uma pré-estréia de coisas que virão para você e os seus... ontem à noite falei com um amigo que falou com um cliente que fez contato com uma agência de publicidade. E uma coisa aconteceu hoje que vai afetar adversamente a vida do seu ex-amante.

— Ninguém pode fazer isso — disse ela. — Você acha que é Deus; e acha que pode me assustar, mas não consegue. Está blefando.

— Pague para ver. O telefone está ali. Tem o número da agência?

Tinha. Ligou direto e disse:

— Olá, Sally. O Stanley está aí? — Logo após seu rosto empalideceu e demonstrou pânico. Ela desligou sem falar.

— Você o alcançará em casa — disse Bannerman. — E vai alcançá-lo nesse local durante muito, muito tempo, porque nenhuma outra agência em Nova York estará inclinada a empregá-lo.

— Ele trabalhava lá havia dez anos — ela falou, sentando-se novamente, entorpecida. — A vida toda. Como pode fazer isso?

— Só estou começando — disse Bannerman, homem de negócios integral, examinando a lista. — Tem a sua irmã em Milwaukee. Ela está na condicional após aquela prisão por tóxicos. Daqui a uma semana vai ser encontrada carregando umas “bonecas”, como eles dizem, e a lei será estritamente obedecida. A penitenciária federal para a qual ela provavelmente será levada fica em Joliet...

— O senhor venceu. Pare. Chega com tudo isso — Buffie curvou-se para a frente na cadeira, com a cabeça apertada contra a sacola no colo, e Bannerman viu seu corpo oscilar com um soluço seco, depois outro. Ela se endireitou após longo momento e, corajosamente, admitiu Bannerman, sussurrou: — Sabe mesmo como ferir uma garota.

Bannerman, a meio caminho do seu objetivo, levantou sua massa da cadeira e caminhou até a janela. Ela fora abalada, mais do que impressionada, contudo faltava fazer mais.

— Provavelmente você pensa que seu amigo, o Presidente, poderá bloquear essas providências. Verá que ele não tem força num nível tão baixo. Ele pode comandar o mais temível ataque atómico, mas não pode mandar que um banco local faça um empréstimo, que uma loja empregue uma fotógrafa, ou que um guarda deixe de efetuar uma prisão. Ou que uma agência de publicidade não despeça um bom elemento cujo erro foi se juntar a uma mulher que mais tarde se revelou uma traidora do seu país.

— Olhe aqui, desculpe. Vamos ser amigos. O que é que eu tenho de fazer para evitar que o teto caia na cabeça de todo mundo? É só dizer, senhor Bannerman, que eu faço. Não vai haver mais tapeação, prometo.

Isso ainda não era o bastante.

— Cometi um erro ao confiar numa prostituta — disse ele tranquilamente, olhando para a paisagem. — Não farei o mesmo erro de novo. Aparentemente você acha que suas desculpas são o suficiente. Não compreende que você traiu o seu país. O que fez, reter prova vital, é, a meu ver, nada menos que traição. Você merece ser destruída. E será, junto com seus pais, sua irmã e seu amigo. Não preciso mais de você. Adeus. — Ele virou-se para a olhar, e pela primeira vez viu o tremor de medo que desejava. Ela começou a torcer a sacola nas mãos.

— Eu poderia contar-lhe algumas coisas sobre o Hennessy — ofereceu ela.

Ele não estava interessado:

— Hennessy estará sem emprego dentro de setenta e duas horas — disse ele. — É um corrupto. Você não tem coisa alguma de valor para mim. Bom dia.

— Que tal um grande corpo? — Ela levantou-se para mostrar-lhe. — Todo seu, quando quiser. E eu faço coisas doidas; qualquer negócio. Não sou puta, sério que não sou, mas não há coisa alguma que eu não faria com você...

Ele sacudiu a cabeça:

— Eu já sabia que você ia fazer essa oferta há muito tempo. Sempre funcionou a seu favor, não foi? Obrigado, mas não estou interessado. Você é usada demais.

— Poxa, moço, tem de haver alguma coisa!... — Ela se ajoelhou. — Estou de joelhos, Senhor Bannerman. Desculpe, desculpe, eu não sabia em que estava me metendo... — E finalmente começou a chorar, o que logo se transformou em uma histeria gratificante para observar, e a bofetada dele fez com que ela rolasse por metade do aposento.

Buffie apoiou-se na cama, compôs-se, e ficou sentada por algum tempo, respirando profundamente. Levantou-se, tirou lentamente a roupa e se deitou na cama, apoiada em um dos cotovelos, esfregando a face.

— Se quer me machucar, vá em frente. Eu grito no travesseiro. Ninguém vai ouvir. Eu fico marcada facilmente, mas Pdeu jamais verá.

Ele estudou-a cuidadosamente. Ela não fazia pose falsa como as vagabundas das revistas de mulheres. As lágrimas não lhe estragaram os olhos. O corpo tinha uma graça natural, o colorido clássico da loura meio ruiva natural encantava o fluxo dos seus movimentos, o vermelho dos lábios e dos bicos dos seios dignos de um dos seus Bouchers, talvez até o Titiano para o qual dera certa vez um lance. Lindo nu. Bannerman lembrou-se de que uma das torturas de Ericson devia ser a ideia de que não podia mais ver uma beleza dessas. Terminado o exame, ele não se moveu na direção da cama. A garota de Ericson devolveu o olhar fixo, com os olhos, temendo que sua última carta não marcasse ponto, e fez um gesto final, convidativo; deplorável, porém, nada desajeitado.

— Sou casado e feliz há trinta e três anos — disse Bannerman à jovem mulher que se oferecia a ele — e jamais fui infiel à minha mulher. Não vou começar agora, com um lixo que também é traidora.

Ele não viu quando ela se vestiu porque descobriu que estava com vontade de fazê-lo. Quando ela acabou, apanhou a sacola e, juntando alguma dignidade, dirigiu-se a ele sem lágrimas.

Talvez eu seja um lixo aos seus olhos, Senhor Bannerman, porém, não aos meus. E não sou traidora. Só estava tentando ajudar todo mundo um pouquinho, e usei um pouquinho do meu íntimo.

— Pode ir agora — ordenou ele.

— Estou apavorada, Senhor Bannerman — disse ela, sem parecer nem um pouco apavorada. — Estou com medo de que o senhor não me dê outra oportunidade. Farei qualquer coisa que mandar. Sou sua escrava. Farei qualquer coisa.

Como se relutantemente, ele assentia com a cabeça.

— Qualquer coisa — repetiu ela, e ele sentiu que ela falava sério.


O TERAPEUTA /4

— De manhã, toda vez que vou até a porta da frente apanhar o jornal — disse Hennessy — eu tenho um troço.

Hank Fowler não estava acostumado com o termo:

— Você tem o quê?

— Diga a ele o que é um troço, Hennessy — falou Melinda. Os três estavam no pequeno pátio do lado de fora do escritório, perto do Salão Oval, de frente para o Jardim das Rosas.

— O troço que eu sinto — disse Hennessy, saboreando a definição — é um súbito afluxo de merda no coração.

— A sensação que se sofre — explicou Melinda — quando a gente vai jantar tora, em algum lugar, e de repente se lembra de que convidou uma dúzia de pessoas para jantar na sua casa uma hora antes.

— Ou quando se está sentado à mesa — falou o ex-advogado divorcista — feliz como um mexilhão na maré alta, isto é quando os pescadores de mexilhões não conseguem pegá-los, e um garoto chega e diz: “O senhor não devia estar no tribunal agora para o último sumário desta manhã?” Isso é um troço! Uma espécie de pequeno pânico sádico, referente a alguma coisa em que a culpa é toda sua, cruel e frio de sua parte, uma coisa que não tencionava fazer, mas que pessoa alguma acreditará nisso.

— Tudo o que você pode é dizer: “Ih, meu Deus!”— acrescentou Melinda. — Conheço a sensação, porém, não conhecia o termo que a definia até que Hennessy falou “troço” um dia.

Fowler sorriu, e anotou mentalmente que devia usar aquela palavra num seminário para psicólogos — o minipânico indefensável, auto-atribuível, era comum e lhe seria útil a nomenclatura. Era aplicável tanto ao dotado de visão quanto ao privado dela.

— Vocês dois tiveram um troço ontem — ele lhes disse — quando a senhora Abelson deu a coletiva à imprensa.

Ambos acompanharam seus acenos com a cabeça num “É...”, como ele lhes ensinara. Fowler sabia que Melinda estava nervosa por não ter dado mais atenção aos avisos de Hennessy quanto aos “amigos” da senhora Abelson. Talvez, cercada por pessoas diferentes, ou em retro, a viúva não tivesse atacado o Presidente e trazido a público o bilhete do suicida. Hennessy abstivera-se de repisar o facto; como revelara a Fowler, sentia-se culpado por não ter efetuado a missão para a qual se designara em Camp Hoover: achar e destruir o bilhete suicida.

Teria significado cinquenta mil para a viúva, e teria impedido que o doido do Herb causasse um grande prejuízo. Tive um palpite de que a nota estava naquela caixa de correio na estrada. Devia ter bolado uma forma de apanhá-la.

Fowler tinha suas dúvidas quanto a isso. Era mais provável que Hennessy, que adorava atacar Melinda McPhee de vez em quando, estivesse tentando compartilhar de sua vulnerabilidade neste caso. Homem perverso, pensou o psicólogo, que encontrava satisfação em nadar contra qualquer correnteza de culpa ou crédito em vigência.

— Cadê o Homem? — perguntou Hennessy à Melinda. Estava quase na hora do almoço, e o Presidente ainda não aparecera na Ala Oeste. Fowler dormia lá, num quarto antigamente ocupado por Harry Hopkins, mas descia para o desjejum toda manhã, às sete.

— Na Sala de Estar Lincoln, com Harry Bok — replicou ela. — Ele está de baixo astral. O facto de Barbara ter lido aquela carta atingiu-o de verdade. Ele escutou a droga da coisa meia dúzia de vezes. Não consegui fazer com que parasse; ficou o tempo todo voltando a fita e tocando de novo.

Fowler perguntou o que o Presidente fazia naquele momento, e ficou intrigado quando Melinda lhe informou que Ericson estava escutando, com audição-dinâmica, partes da Bíblia.

— Não espalhe isso por aí — avisou Hennessy. — É muito cafona. Não combina com Ericson. O povo vai pensar que ele está abalado. Quais capítulos?

O Livro de Job, creio. Ele maneja bem rápido aquelas fitas.

— Hank, como é que ele se está aguentando? — Hennessy parecia preocupado.

— Surpreendentemente bem, apesar de tudo — Fowler não queria discutir o ânimo do seu paciente com pessoa alguma, mas Me linda e Hennessy eram extensões de Ericson. Eram a sua antena de receber sinais; seus tentáculos para manipular outros. Fowler disse-lhes que estava animado pela forma com que Ericson estava lidando com as tempestades da semana: o suicídio de Abelson; a suposta necessidade de confessar a primeira cegueira; a carga contra a Fraude de Yalta e em seguida a segunda e muito mais séria onda de reação ao suicídio. Ocasionalmente o Presidente sacaneava, porém geralmente apoiava o pessoal ao seu lado. Uma razão para isso, presumiu Fowler, era o ritmo dos acontecimentos — todo dia um impacto ou contra-impacto — o que deixava pouco tempo para introspecção. Na semana seguinte, quando Ericson talvez tivesse tempo para preocupar-se, essa seria a hora certa para ele se preocupar. Enquanto isso, a natureza apaixonada da atividade trazia, em si, a própria terapia.

— Quero que ele saia da defensiva — disse Hennessy. — Vamos marcar-lhe um evento na próxima semana que seja controvertida, mas presidencial: assuntos nacionais. Alguma coisa que envolva o seu namorado, Melinda. O que anda deixando ele doido atualmente, além de você?

Fowler gostou da forma pela qual Melinda ignorou a pretensa provocação:

— O Procurador-Geral, que é um amigo mas não um namorado, tem insistido com a gente para conseguir que o Presidente o acompanhe ao duocentésimo aniversário de alguma grande data constitucional em Colonial Williamsburg. Dia do Direito. Você disse que não. Ele tentou a aprovação passando por mim, mas — ela retrocedeu antes que Hennessy percebesse o duplo sentido — ele me pediu para interceder, e eu discordei.

— Talvez a gente faça isso. Na semana que vem estaremos muito pró-Constituição. Hank, você conseguiria que o Homem subisse numa plataforma para fazer discurso?

— Provavelmente ele gostaria disso — replicou Fowler, e uma voz suave disse-lhe, ao ombro, que havia um telefonema na sua sala. Ele pegou a bengala e atravessou a sala de Melinda até seu próprio cubículo, que lhe fora indicado por Hennessy com a piada: “Você é o único membro do pessoal que não reclamará de uma sala sem vista. Se quiser diga aos seus amigos que tem uma janela.

O preocupado comandante do Hospital Naval de Bethesda estava ao telefone:

— Não posso realmente ser responsabilizado por isso, Doutor Fowler — disse a voz agitada. — Eu estava seguindo ordens. — Gentilmente Fowler perguntou do que se tratava, e não se perturbou, ao saber que o oftalmologista, Lilith, estava a ponto de “subir pela chaminé”, como disse o comandante. A explosão do médico de olhos de quem se ocultara a verdade já era esperada, e Hennessy providenciara para que outros oftalmologistas e neurocirurgiões definissem a explosão com declarações periciais que efetivamente trariam balbúrdia à questão.

— Almirante, que forma tomará o protesto do Doutor Lilith?

— Ele está convocando uma maldita coletiva de imprensa na associação médica esta tarde. Já pensou, um médico? É essa atenção toda que ele vem recebendo nos dois últimos meses: subiu-lhe à cabeça, o imbecil acha que é uma celebridade.

— Você lhe sugeriu que a ética da medicina, e a tradição naval...

— Claro que sim, Fowler, e isso é parte do problema. Ele estava todo agitado... você sabe que ele é oficial da reserva, não de Anápolis... e eu lhe lembrei as relações médico-paciente. Ele disse que eu deveria ter contado isso ao Presidente. Então fiquei quicando dentro das calças e o avisei de que se botasse a boca no mundo eu lhe daria um chute no rabo, e ele cairia na enfermaria de um varre-minas nas Aleutas.

Hank Fowler suspirou:

— Ele não reagiu bem a isso, suponho?

— Foi quando ele começou a gritar a respeito da sua obrigação para com a pátria e a dignidade da profissão médica, e Deus sabe o-que-mais. Eu fiquei brabo e me arranquei; infelizmente quebrei nosso sigilo na certeza de que o faria cair em si.

Fowler sentiu pequena sensação de terror diante da possibilidade de seu próprio envolvimento na provação de Ericson, não como respeitado psicólogo, mas como participante criticável.

— Prossiga, Almirante; o senhor lhe contou sobre a nossa conversa?

— Lamento o que houve; eu lhe contei, sim, mas apenas para Impressioná-lo com o facto de que não podia esperar ajuda da Casa Branca, quando baixássemos o pau de surriola nele.

— Almirante, a única coisa que lhe pedi foi para lembrá-lo da ética profissional.

Bem, pelo que recordo, o senhor foi um pouco além disso, ou eu fui e o senhor me acompanhou — o oficial naval estava protegendo a traseira — mas, de qualquer forma, ele ficou todo perturbado com o que chamou de pressão da Casa Branca para negar-lhe o direito à livre expressão. Disfarce... argumentou ele... esse tipo de papo. Ele simplesmente não é um oficial de confiança, e é uma dessas malditas ironias do destino que nosso homem principal em Bethesda  tivesse doente quando houve a emboscada de Yalta.

— O senhor achou que eu queria que o senhor o pressionasse?

— Olhe, Doutor Fowler, estamos juntos na coisa. Não sei exatamente o que o Presidente, que é meu comandante-em-chefe, lhe contou, no entanto, o que percebi, lendo nas suas entrelinhas, foi que ele desejava que esse homem fosse um bom marujo. Esforcei-me ao máximo para cumprir a vontade do Presidente, e sinto muito que ela tenha sido... é... contraproducente.

Fowler agradeceu-lhe e desligou antes que ele complicasse a Casa Branca mais ainda. Foi para perto de Melinda, aguardou que ela largasse o telefone, e lhe pediu que o acompanhasse até a sala de Hennessy. O chefe da Casa Civil também recebera uma ligação nos últimos minutos. Ambos estavam a par da próxima entrevista do Doutor Lilith com a imprensa.

— Tive um troço — disse-lhes Fowler, e relatou seu telefonema com o comandante de Bethesda. — Estou com medo de haver piorado a situação. — Mesmo contando a história do seu telefonema inicial para o almirante, ele se viu minimizando o principal tópico da ligação à medida que enfatizava a ética profissional que mencionara. Fowler sentira uma ferroada na consciência quando ligou pela primeira vez para o almirante, contudo não achara sua providência de tentar reprimir o oftalmologista tão ruim assim, e certamente fora em boa causa.

— Não é culpa sua, Hank — disse Melinda.

— É totalmente culpa sua — falou Hennessy. — Sua e do Presidente por confiar àquele almirante burro de Bethesda uma função que exigia certo refinamento. Eu sabia que Lilith era bicha. Agora vamos aparar isso. Bem-vindo ao clube, Doutor Fowler.

Fowler se perguntava como uma coisa destas podia estar acontecendo a ele:

— Estou assustado — disse sinceramente.

— Não fique — ordenou Hennessy. — Durante certo tempo será o assunto do dia, mas depois acabará e será esquecido. Grande consolo! Anime-se, garoto; pelo menos você não poderá ver as negras manchetes: “Psicólogo Cego Aterroriza Corajosa Bicha da Marinha”.

Fowler sentia-se alegre porque Hennessy estava por perto numa ocasião destas:

— Se o senhor concorda — disse ele, mexendo no bigode, sinal de que estava agitado — acho melhor eu não assistir à coletiva da imprensa. Ponha-se no lugar do Doutor Lilith, Melinda: o almirante ameaçando-a, dizendo que o psicólogo da Casa Branca mandou que ele torcesse seu braço. Sinto empatia pelo médico de olhos.

— Sinta empatia por si mesmo, Hank — disse Melinda. — Não comece a enxergar isso pelos olhos dos outros. Vai acabar biruta.

— Vamos, vamos — apressou Hennessy — temos coisas a fazer. Hank, sente-se e dite o que recorda que disse ao almirante; e se a ideia de se apoiar no médico de olhos foi sua, e não do Ericson, anote isso também. Mandarei os médicos do nosso lado desacreditarem Lilith por haver procurado álibis e por haver tomado as decisões erradas. Melinda instruirá o Homem.

— Certo — disse Fowler, inepto colaborador. — Diga ao Presidente que sinto muito.

— Pelo amor de Deus, pare de se desculpar disse rápido Hennessy. — Esses lances aparecem sempre. Pra começar eu dei um fora sobre a necessidade da merda do discurso, mas isso já é passado. Melinda insistiu na porra do controle da viúva do Abelson, a atriz, mas isso é passado. Você insistiu na porra do médico de olhos bicha, e, daqui a vinte e quatro horas, isso tudo será passado.

A voz de Melinda acrescentou, em murmúrio:

— Quanta porra por aqui! — Para Hank, disse: — Essa é a primeira vez que falo essa palavra horrível em voz alta na minha vida; sério mesmo. Hennessy deve estar me corrompendo.

— Deixe o Procurador-Geral corrompê-la — disse Hennessy. — Lucas Cartwright diz que é perto do Duparquet que se deve ficar no caso de haver outro putsh no Gabinete. Hank, chore bastante, se preferir, mas não deixe isso afetar a maneira como ajuda o Homem, como psicólogo.

Fowler saiu para trabalhar com o gravador no seu memorando para arquivo. Quando escutou a televisão na sala de Melinda, aproximou-se da porta para ouvir o Doutor Lilith.

A atuação do oftalmologista, em contraste com a da senhora Abelson no dia anterior, começou sem emoção. Muito banalmente, quase afetadamente, apresentou uma série de logros médicos do Presidente Ericson e sua equipe pessoal, após os exames nos Açores. Depois o médico mostrou como a falta de conhecimento da cegueira anterior levou a um tratamento diverso do tratamento “correto” o qual, afirmou com grande segurança, teria sido o da neurocirurgia, a fim de aliviar a pressão no nervo óptico. A apresentação de Lilith, que Fowler sabia era feita em frente a um quadro negro com todos os diagramas adequados e impressionantes, absolveu Lilith de culpa pela continuidade da cegueira de Ericson. O médico apresentou a questão — com exatidão injustificável, pensou Fowler — da cegueira permanente, como sendo culpa total de Ericson. O psicólogo perguntou-se se se tornara tão partidário de Ericson e das pessoas cegas, que permitia às suas próprias emoções influir nas suas análises científicas. Ao escutar o homem que Hennessy caracterizara tão cruelmente como “bicha”, Fowler deduziu que suas emoções haviam feito exatamente isso, e ele não estava infeliz com esse resultado.

A coletiva à imprensa em tom baixo do Doutor Lilith assumiu um teor não-médico quando ele se referiu ao discurso do Presidente e à sua evocação bíblica de Sansão:

— Qualquer pessoa que leia aquele poema de Milton hoje em dia — disse o oftalmologista às câmaras — não pode deixar de se emocionar com este verso, que se refere ao herói cego: “Quão bem recaem sobre ele seus merecimentos.” Não sugiro, de forma alguma, que qualquer ser humano mereça ser cego, porém, sugiro, sim, que a mentira deliberada do Presidente aos seus médicos foi a causa primária da permanência da sua perda de visão. Não precisava ter sido assim: a neurocirurgia podia ter feito toda a diferença. O Presidente Ericson se castigou.

Em seguida o médico de olhos desandou. Fowler estremeceu ao escutar a voz de Lilith, agora começando a tremer, contar sobre “a intensa pressão diretamente da Casa Branca” a fim de manter o silêncio; as ameaças do almirante, mencionando os funestos avisos da ruína de sua carreira naval feitas pelo “não-médico que se intitula médico”, Henry Fowler. O psicólogo encolheu-se, sacudiu a cabeça e voltou à sua sala; era penoso demais escutar diretamente da fonte. Havia tempo suficiente para fazer a audição-dinâmica dessa fala no sumário do dia seguinte; ou para ouvi-la repetida nos noticiários, ou no saguão da Ala Oeste, como parte daquela série de ecos ricocheteando nas paredes da casamata da Casa Branca.

Fowler sentiu-se emporcalhado. Após a onda inicial da injustiça que arrastou redemoinhos de culpa, sua ligeira variação do reto e do direito, nada séria, era interpretada como terrível pressão.

Contudo, ele podia ver agora, que, do lado de lá após o exagero compreensível do almirante, bem poderia ter parecido uma pressão terrível. Henry Fowler não achou que estivesse realmente errada — fora ideia do Presidente — no entanto, Fowler sabia que havia errado porque era responsável por suas próprias acções. Era um assunto tão sem importância, suspirou, ampliado para algo tão escandaloso: a televisão, os editoriais, as denúncias verbais de “mais embustes da Casa Branca”. Um ligeiro escorregão, uma conciliação errónea de um paciente, e ele se tornara comparsa — pior, tornara-se prova adicional — da venalidade corrosiva de Ericson, que de certa forma se supunha estar relacionada à sua incapacidade.

Estaria mesmo? Poderia um homem atacado como um odioso Maquiavel ser destituído por ser incapaz de cumprir os deveres do cargo? Isso não parecia consciente para Hank Fowler. Ele observou os matizes da sua perspectiva interior e se perguntou como ajudara a unir a improvável combinação de acusações: sinuosidade e incapacidade. Ele se acusou de haver falhado ao Presidente, falhado à causa dos deficientes, falhado à sua própria escalada desde a inutilidade até o respeito. Onde errara? Devia ter estudado a questão com Hennessy antes de fazer aquela ligação. Neste aposento cheio de gás, somente homens experientes tinham permissão de usar fósforos, de ser protetores presidenciais. Ericson era uma força fundamental, não um protetor; não era função do Presidente acobertar uma reação a uma acção imprópria — essa era função dos seus assessores mais chegados. E eles tinham de ser homens muito cautelosos, não cegamente leais, e nem garotos inexperientes, como o Doutor Fowler.

Ele se perguntou por que tentava tão arduamente não culpar o Presidente. Essa questão analítica o preocupava; voltaria a ela quando tivesse tempo. Enquanto isso, o psicólogo permitiu-se afundar durante dez minutos na sua angústia, e a refletir o medo de um médico combatendo uma epidemia, ao olhar para as mãos e calcular se ele mesmo contraíra a doença.


O NOVO CHEFE DA CASA CIVIL /2

Hennessy inspecionou os estragos da semana apresentados à sua frente na forma de recados telefónicos cor-de-rosa. Numa das extremidades da longa mesa que ele herdara com o emprego e a sala, estava um grupo de recados de deputados e funcionários graduados. Essas papeletas rosadas ficaram expostas em formato de leque, como uma explosão de queixas contra o discurso presidencial pela televisão; solicitações para falar com o chefe da Casa Civil sobre assuntos que agora pareciam história antiga. Depois arrumados numa longa fileira que contrastava com o leque de reclamações, havia um lote de mensagens sobre a Fraude de Yalta, uma reação à coluna de Zophar, a maioria vinda de jornalistas e dos membros do Congresso que se consideravam “sérios”, isto é, preocupados com relações exteriores. Todos estavam decididos a derramar no ouvido do homem que tinha acesso ao Presidente todos os tipos de conselho e todos os tipos de perguntas. Um terceiro agrupamento, correndo paralelamente igual à montagem de um jogo de paciência — sua secretária fizera isso artisticamente, reparou Hennessy tristemente — era composto de pessoas afetadas pelo suicídio de Herb Abelson, a maior parte de velhos amigos do Presidente e do seu falecido médico. Um conjunto do grupo da “paciência” fora grampeado junto, antes da reação da viúva; um composto mais espesso estava datado após a espetacular apresentação de Barbara no vídeo. As notas após a conferência com a imprensa a respeito do ultraje do oftalmologista surgiam em seguida, no conjunto isolado, formado por algumas das mesmas pessoas que haviam ligado antes, naquela semana, e mais alguns tipos políticos que desejavam soar o alarma da reação local. Hennessy já tinha em mãos uma boa medida da reação local na forma de pesquisas-relâmpago, que mostravam a popularidade de Ericson corroída em grandes quantidades no que se pensava fosse o “fundo rochoso”: de 42 por cento a 30 por cento em uma semana.

Ele pegou o interfone e se queixou com a secretária:

— Por que todos esses recados telefónicos estão em papeletas cor-de-rosa? Isto é cor pra mulher. Me arranje papeletas de recado para um executivo homem. Azuis talvez. Sim, azul-claro. E dê todas estas que estão inundando a minha mesa para outra pessoa responder. — E apanhou o último pacote de recados, o das ligações que teria de atender. Uma de Cartwright, que lhe diria como dirigir aquela zorra, e lhe recordaria para ficar em cima de Duparquet. Uma de Duparquet, feita havia somente meia hora, e ele cuidaria dessa dentro em breve. Uma do filho de Hennessy que vivia em Boston com a filha e a esposa de Hennessy; sua família, que ele não visitava havia mais de mês e da qual ficava contente em se afastar. O rapaz provavelmente queria dinheiro, o que podia esperar, ou explicações, que podiam esperar mais ainda. Uma de Smitty: dane-se essa, pensou ele, se fosse importante, o Secretário de Imprensa teria descido até o saguão e invadido sua sala. Mas parou quando viu uma do “Senhor Bom-Amigo”.

O “Senhor Bom-Amigo” era Marty Quinn, o agente da imprensa que Hennessy colocava na Comissão de Bannerman para Substituir o Presidente Incapacitado. Através de Marty, Hennessy dera à comissão de Bannerman seu nome duro e de ataque-direto, em vez de um título institucional que seria mais eficaz em termos de opinião pública. O recado de Quinn não trazia número para resposta.

Hennessy começou a fazer uma ligação para o Procurador-Geral Duparquet quando sua secretária chegou, fechou a porta por trás de si, e falou:

— Tem uns detetives do FBI lá fora, na sala de espera, pedindo para lhe falar.

— Sondadores de terreno? — O FBI vivia mandando homens para investigações completas de pessoas a serem contratadas ou comissionadas.

— Não; querem tratar de um assunto relacionado ao senhor. Eu lhes disse que marcassem uma entrevista, porém foram persistentes: disseram que vão ficar por lá até o senhor ter um momento livre.

Hennessy franziu a testa. Evidentemente algum membro da equipe da Casa Branca metera seu dedo nisso. Irritado, disse à secretária para mandar os agentes do FBI entrarem imediatamente. Este não era o dia para um funcionário de nível médio ser apanhado numa confusão.

Os agentes foram educados, como sempre. Um tinha cabelos grisalhos a fazia as perguntas; o mais moço anotava e parecia de respeito.

— Desculpe incomodá-lo, senhor, quando tem tantos chamados para responder — disse o agente mais velho, dando uma espiada no monte de papeletas cor-de-rosa.

— Eu jogo paciência com elas. Qual é o problema?

— Há quanto tempo conhece um homem chamado Arthur Leigh?

— Ele não é candidato a emprego — falou rápido Hennessy. — Se for, há um engano.

— Esta não é uma sindicância de recrutamento, senhor. Conhece-o há muito tempo?

— Desde a campanha do ano passado. — A única coisa que Hennessy devia a Leigh eram desculpas por presumir erroneamente que o ex-coordenador da campanha cantara a pedra para Sam Zophar quando, na verdade Leigh cumprira sua palavra no combinado.

— Quando o viu pela última vez?

O instinto de advogado de Hennessy apareceu:

— De que se trata?

Não tenho a liberdade de revelar, senhor; é uma verificação preliminar. Ele esteve aqui recentemente?

O agente era um perito interrogador, jamais deixando um comentário isolado, e sempre encerrando com uma pergunta. Claro que o FBI sabia quando Leigh visitara Hennessy — todo visitante da Casa Branca é registrado pelo Serviço Secreto. Hennessy tocou no botão do “gente me aborrecendo” por baixo da mesa.

— Lembro-me de que esteve aqui há algumas semanas atrás — falou Hennessy — e lhes darei a data exata dos meus registros com prazer — Sua secretária bateu e entrou por causa do “gente-me-aborrecendo”, e disse:

— Estão aguardando o senhor. Disseram que a reunião não pode começar sem a sua presença.

— Marie, estes cavalheiros desejam a data e a hora da visita que Arthur Leigh fez há algumas semanas passadas — disse Hennessy, com a expressão de quem sentia muito ter de sair correndo. — Dê-lhes a informação e, se quiserem, marque outra hora para falarem comigo amanhã. Espere, amanhã é domingo... Segunda-feira, após a reunião do staff.

— Podemos esperar até que o senhor volte — falou atenciosamente o agente mais velho.

— Não gosto de desperdiçar dinheiro dos contribuintes — disse Hennessy. — Nem insultar o Bureau, fazendo com que seus melhores homens fiquem plantados aqui dentro — Detetives no vestíbulo da Ala Oeste, atraindo a atenção da imprensa; era disso que ele não gostava.

— Existe certa urgência no caso — pressionou o agente.

— Meus deveres me chamam em outro local, no momento — explicou o chefe da Casa Civil do Presidente, ainda gentil — e eu não lhes vou dar respostas apressadas a perguntas importantes. Estou a par da Seção 1001 do código 18 dos Estados Unidos — Isso era uma lei às vezes invocada para causar problema quando outras íeis não podiam ser usadas para aquele propósito, e tornava crime contar uma mentira a qualquer agente federal. Não precisava de juramento, era uma lei deficiente. Hennessy queria que os agentes soubessem que ele não estava a fim de cair na armadilha de fazer declarações danosas para um relatório de agente. Ele sabia por que o agente mais velho trouxera o outro, e o advogado não ia dar entrevista alguma sem uma testemunha própria.

Hennessy saiu da sala, atravessou o saguão energicamente, e desapareceu no Salão Roosevelt. Apreciou os quadros durante um minuto — gostava do Remington de Teddy Roosevelt, com seus homens subindo San Juan Hill — e quando se assegurou de que os homens do FBI se haviam retirado, retornou à sala e ligou para o Procurador-Geral.

— Que diabo está havendo, Emmett? Alguns rapazes seus estão rondando por aqui — Hennessy reprimiu sua raiva porque o Presidente precisava de Duparquet como nunca antes. — Por acaso estacionei em local proibido na porta de uma casa de massagens?

— Eu liguei para você faz pouco — a voz de Duparquet estava formal, o que Hennessy interpretou como havendo outra pessoa no escritório dele — para dizer que o diretor do FBI designou alguns homens para investigarem Arthur Leigh, e que ele e eu esperamos que você coopere, se for convocado para uma entrevista.

— Qual é o caso?

— Alegação de corrupção.

— De quem?

— Não posso dizer — Essa atingiu Hennessy como um torpedo. Significava que provavelmente ele era o alvo das investigações do FBI. Alguém deve ter descoberto o acordo que Hennessy fizera para tratar do problema da rodovia de Arthur Leigh.

— Senhor Procurador-Geral, deixe-me fazer-lhe uma pergunta inteiramente adequada. Sou eu o alvo de sua investigação?

— A essa altura — disse calmamente Duparquet — nenhum indivíduo é um alvo. Se o assunto é considerado pelo Procurador dos Estados Unidos neste distrito como merecedor de consideração de um grande júri, qualquer que seja o alvo será informado, como de direito. Atualmente, você não é o alvo. Como autoridade federal espera-se que você coopere com qualquer investigação que o FE possa empreender. — O Procurador da República local provavelmente estava sentado ao lado dele, Hennessy pensou. Sua primeira reação foi pensar como isolar o Presidente de quaisquer acusações de corrupção contra seu chefe da Casa Civil.

— Como o senhor sabe, Procurador, eu uso dois chapéus aqui; o de chefe da Casa Civil e o de conselheiro jurídico do Presidente. Acha que esta é uma boa ocasião para o Presidente nomear outra pessoa a fim de preencher a função de conselheiro?

Duparquet parou um instante, depois disse firmemente:

— Acho. Digo isso sem nenhum preconceito contra o senhor, mas como medida de precaução. Para evitar qualquer conflito potencial de interesses.

— Compreendo — Agora vinha um item importante ser registrado: — Procurador, por favor discuta isso pessoalmente com o Presidente; é minha intenção cooperar com o FBI, responder a todas as devidas perguntas, e não discutir este assunto com o Presidente de forma alguma.

— Óptimo — disse Duparquet, novamente após um momento de pausa. — Acho isso muito conveniente. Quanto mais cedo falar com os agentes, melhor — Hennessy teve a impressão de não estar falando com um só homem, mas com o Departamento de Justiça.

As ligeiras pausas provavelmente eram olhares trocados, acenos positivos ou negativos com a cabeça, na sala do P. G..

Ele desligou, abriu espaço no meio das papeletas cor-de-rosa e colocou uma colher, um copo e seu vidro de antiácido branco na mesa. O estômago ardia e o coração disparara, agora que o telefonema fora encerrado.

Quando Leigh pedira aquela nomeação para diretor do departamento de estradas de rodagem, Hennessy percorrera desde o concessionário de cargos públicos da Casa Branca até ao contato político no gabinete do governador do Tennessee. A nomeação saíra, conforme ele prometera a Leigh. Agora, Hennessy se perguntava, onde estava a vulnerabilidade? Provavelmente era cedo demais para o diretor do departamento de estradas de rodagem ter elaborado um despacho para beneficiar Leigh financeiramente. O concessionário ou o homem do governador podia ter botado a boca no mundo, mas que crime fora cometido? Nenhum. Hennessy resolveu descontrair-se. Tomou uma colher cheia do antiácido, fez uma careta, e tomou outra. Visualizou as paredes do estômago sendo revestidas, como nos comerciais da televisão, e se sentiu aliviado.

Possivelmente eles poderiam argumentar que ele teria dado a ordem para a nomeação do diretor do departamento de estradas de rodagem em troca do silêncio de Leigh acerca da cegueira anterior, o que era verdade, mas quem podia confirmar isso? Somente Leigh, e ele já provara ser mais de confiança do que Hennessy suspeitara. Portanto, que restava ao FBI? Só a acusação de que a Casa Branca cedera aos desejos de um velho partidário político quanto à nomeação de um amigo seu, o que vem sendo feito desde tempos imemoriais. Sem o quid pro quo, nenhuma venalidade.

A menos, claro, que o sacana do Leigh fosse a fonte da alegação. Hennessy começou a afastar isso do pensamento, com raiva por não haver confiado em Leigh antes, porém a coisa voltou: o que poderia Leigh ganhar botando Hennessy e ele mesmo numa encrenca?

— Poderia ganhar um montão de dinheiro — disse em voz alta para o vidro de antiácido. Se Leigh resolvera “entregar” a Bannerman, poderia derrubar Hennessy facilmente — desde que o próprio Leigh estivesse disposto a cair também. Leigh poderia argumentar que Hennessy tentara suborná-lo, e Hennessy contra-atacaria com extorsão — só que os registos mostrariam que ele fez o favor para Leigh. Hennessy teria de penetrar a fundo, afirmando não ter havido quid pro quo, mas ninguém acreditaria nele. Bannerman nem precisava de uma condenação de Hennessy num tribunal, mais tarde: somente uma denúncia, agora, de um assessor da Casa Branca, sujaria um pouco o Presidente.

O que diria ele aos agentes do FBI? Hennessy declararia, com uma testemunha sua presente, que Leigh recomendara um homem para o cargo, e ele concordara — afinal o homem tinha um “vale” político. Nada fora mencionado, em qualquer ocasião, a respeito do silêncio acerca da cegueira no trem da campanha. Se a história de Hennessy estivesse em desacordo com a de Leigh, então azar. Nenhum Procurador-Geral razoável solicitaria uma condenação baseada na acusação fundamentada de um homem contra outro. Ou solicitaria? Hennessy sentiu a necessidade de um advogado criminalista.

Pelo interfone, sua secretária avisou que o “Senhor Bom-amigo” estava de novo ao telefone.

— Estamos com um caso importante junto à associação médica — disse-lhe Marty Quinn, duma cabina telefónica. — Bannerman acha que a revelação da primeira cegueira é muito mais importante do que a Fraude de Yalta. Está com o médico oculista sob controle e lhe ofereceu um negócio fora da Marinha, creio eu. Você tinha razão quanto a Bannerman, Hennessy: é um filho da puta de primeira categoria.

Hennessy não estava muito interessado nisso:

— Que há com o Arthur Leigh?

— Ele se reuniu com Bannerman e Nichols anteontem — relatou Quinn. — Bem na hora da coletiva da Barbara Abelson com a imprensa. Bannerman levou Leigh para fora; não sei o que deu daí.

— O que deu daí fui eu — murmurou Hennessy. — Olhe: no caso de eu ter de me mandar, ou ficar doente, ou qualquer coisa, quero que você faça contato novamente comigo — Harry Bok foi o primeiro a vir à mente, porém o corpulento homem da cadeira de rodas estivera afundado nos papéis esta semana, e talvez recuasse frente à necessidade espalhafatosa de permanecer no poder. Hennessy sabia que Marty Quinn, que se arriscava dessa forma, não confiaria num associado de segunda categoria: isso só deixava Melinda. Hennessy deu-lhe o número particular do telefone dela e baixou o fone lentamente.

Ele pensou em Melinda. Frequentemente fazia isso, e quase perdia o sono, porém, agora Hennessy pensava nela como um dos últimos apoios humanos deixados ao Presidente. Uma mulher solitária, diziam todos, mas todos podiam estar errados: muitas vidas intercruzavam com a sua. Hennessy sentia prazer em pensar nela intimamente, e ocasionalmente deixava-se pensar entrando nas calcinhas dela, contudo seu relacionamento, calculava ele, estava fadado à caçoada, ao passatempo e à confiança forçada. Ele não conseguia definir a conexão Ericson-McPhee, que não podia ser meramente a relação esposa de gabinete, mãe-protetora que aparecia na superfície. Como se sentiria ela a respeito do que o Presidente sentia acerca do seu caso com Duparquet — e como, realmente, ele se sentia?

Melinda se mostrava menos dura e mais forte do que Hennessy calculara originalmente, e ela ficava cada vez mais forte. Ele se deixou imaginá-la como sendo Beau Geste no Fort Zinderneuf, galantemente colocando cadáveres nos parapeitos para que os atacantes pensassem que o forte ainda era defendido. Hennessy se confessou que sentia inveja de Ericson por possuir a lealdade dela, e Inveja de Duparquet por possuir sua afeição, porém era bom que ela se encontrasse em ambas as situações: o Presidente precisava dela agora como nunca antes, e seu domínio sobre o Procurador-Geral, se era sério como Hennessy mais ou menos esperava, ajudaria a manter Duparquet partidário da causa de Ericson. Melinda punha suas prioridades à frente; não era o tipo de pessoa que deixava a paixão cortar o caminho da lealdade.

Ela apareceu à soleira de sua porta — como sempre, silhueta delgada, pernas de bailarina, um pouco agressiva — para dizer: — Acabei de saber. O Chefe diz que estão procurando por você.

O Procurador-Geral dera o telefonema, e indubitavelmente aconselhara Ericson a não discutir, absolutamente, o assunto com Hennessy, nem se envolver com ele de nenhuma forma.

— O Homem quer ver você.

Ele se perguntou se ela estaria dizendo a verdade.

— Acho que ele não deve, não se for sobre esse assunto. Previna-o.

— Emmett já disse a ele para não falar com você — disse ela — mas ele insiste.

— Por acaso o Homem pediu seu conselho, Melinda? Que foi que você lhe disse?

— Eu lhe disse que se ele pensasse duas vezes sobre não receber você, eu lhe quebraria a maldita bengala branca.

— Foi uma fraqueza — disse zombeteiramente Hennessy, para ocultar seu alívio. — Dei um grande fora. De novo. Que acontece com gente que só dá fora?

Pela primeira vez, ela não respondeu aos modos agressivos dele.

— Todos os que dão foras vêm para Washington e trabalham com Sven Ericson — disse ela, suavemente. — Todos nós erramos. Ora, Hennessy...

Ele a interrompeu.

— Primeiro vou consultar meu advogado criminalista. Depois, falarei com os agentes do FBI, e a minha secretária anotará tudo. Depois, se eu achar que é sensato, discutirei o caso com o Presidente. Lembre-se, e falo sinceramente, lembre-se disso para depois: podemos proteger o Chefe, mas ele não nos pode proteger. Nunca se esqueça disso e, pelo amor de Deus, compre e use uma blusa decotada.

Ainda uma vez, ela não reagiu a isso, o que o deprimiu.

Durante as horas que se seguiram, o chefe da Casa Civil do Presidente discutiu o assunto com um amigo de longa data, que era advogado criminalista em Nova York. Depois Hennessy se entrevistou com os agentes. Como era de esperar, o interrogatório parecia baseado em informações fornecidas por Arthur Leigh. Conforme instruções do seu advogado, Hennessy apresentou uma história simples e insistiu nela: Leigh merecia que suas recomendações fossem consideradas; o homem que recomendara tinha capacidade; não houve quid pro quo; nada sobre “ficar calado” de que Hennessy pudesse lembrar, e achou que disso se lembraria. Hennessy jamais falou: “ele disse”. Apenas: “ele indicou”, palavras vazias, e confundiu mais ainda com: “não recordo das palavras de Leigh, mas seu principal tópico pelo que entendi, foi...” Hennessy tornou-se um réu difícil de condenar, pelo menos no tocante a “uma negociata”. No entanto uma denúncia... isso era diferente.

Ele se servira de uma dose de uísque, pensando que poderia ir falar com o Presidente, quando Ericson bateu com a bengala na maçaneta da porta e o Presidente surgiu logo atrás:

— Eu devia ter-lhe arranjado aquele cão-guia — disse Hennessy indo até a porta e trazendo Ericson para uma cadeira. — Isso teria arrancado algumas lágrimas dos nossos rapazes no banco dos reservas.

— Está falando como se já estivesse no caminho da rua — falou Ericson. — Você precisa é de um Hennessy, como o que eu tenho, ele lhe daria ânimo.

— Você quer dizer “enfie um bastão na bunda”. Diga o que tem em mente, Sven.

— Presidentes não falam como advogados divorcistas — Ericson segurou o copo de uísque que Hennessy encaixara em uma de suas mãos. — Muito bem — suspirou o Presidente. — Como é que a gente tira o rabo dessa?

— A gente fica de olho na rosca, e não no buraco — disse-lhe Hennessy, sentindo-se melhor o suficiente para usar a filosofia que viu na parede de um restaurante. — Você é a rosca; a gente lhes dá o buraco.

— Sei... Preciso de você. Não se precisa transformar num mártir.

—Aí está a coisa — explicou Hennessy. — Eles já recrutaram um júri. Ouviram Arthur Leigh dizer que o subornei para não contar sobre a cegueira, e aposto que o sacana do Leigh diz que eu lhe contei que você sabia de tudo. O Procurador-Geral vai fazer eu entrar lá na segunda-feira para me obrigar a contradizer a história dele de qualquer forma. Se eu o fizer, eles estarão com uma acusação pronta para ser entregue no acto.

O Presidente jogou o gelo no copo:

— Acusação de quê?

— Aí está a parte mais bonita. Não por subornar Leigh com a promessa de uma nomeação que não significa comportamento criminoso algum: isso nem havia lugar no tribunal; não, eles me acusariam de perjúrio, contando até dez, toda vez que eu discordasse de Leigh. Seria a palavra dele contra a minha: em quem acreditar? Num julgamento, poderia acontecer qualquer coisa. Nenhum de nós tem cara de digno.

— E se você apelasse para a Quinta?

Hennessy balançou a cabeça vagarosamente, depois se lembrou o falou em voz alta:

— Não adianta. Um assistente do Presidente não pode alegar auto-incriminação. Seria o mesmo que dizer que Leigh diz a verdade, e isso seria o seu último cartucho.

— Apele para a Quinta — disse firmemente Ericson. — Falo sério. Não vou deixar que se exponha à acusação. Esse negócio está saindo do controle. — Ericson passou as mãos nos cabelos. — Eu deixo Herb se suicidar; arruíno as possibilidades de Harry refazer a vida; pego um sujeito bacana como o Hank Fowler e arraso com sua reputação, e não vou ver você ir para a cadeia. Desculpe. O cargo não vale isso.

— Corte essa, Sven. Temos de planejar. Eu não poderia viver depois de apelar para a Quinta e você sabe disso. Vou prestar declarações e serei magnífico: contarei ao júri tudo sobre a reunião na casa de Bannerman, onde a coisa foi bolada com o Vice-Presidente no local. Forçarei os acusadores a chamar Bannerman e Nichols como testemunhas, e eles vão ter de cometer perjúrio até ficarem vermelhos de vergonha. Esse negócio de júri é uma faca de dois gumes. Se pegarmos um jurado desleal que espalhe a nossa versão da história para um repórter amigo, o que podemos fazer, poremos aqueles caras na defensiva. Não farei as coisas tranquilamente, não é meu estilo; vou armar um inferno de um rolo. Não serei julgado seis meses após a acusação, quando você ou continuará no cargo e a histeria terá acabado, ou já terá saído, e ninguém vai querer ser vingativo. Dará certo.

— Toda vez que você diz “dará certo” — falou o Presidente — eu me preocupo. Excepto quanto ao divórcio e às eleições. Nada mais deu certo.

— Ganhamos as grandes paradas. — Sentaram-se silenciosos por alguns minutos. Hennessy prosseguiu: — Roy Bannerman não é otário. Ele armou bem a jogada; talvez tenha abordado a esposa do Herb; sem dúvida abordou o oftalmologista bicha, ele jamais pôs a mão no seu joelho? Será que existem oculistas bichas? E Bannerman fez contato com Leigh. Talvez ele tivesse metido a mão no caso Zophar. Eu soube que há uma certa espécie de velha relação entre Bannerman e Zophar. Dê crédito ao filho da puta que ele joga bocha sem luva.

— Você é paranóico, Hennessy.

— Até um paranóico tem alguns inimigos verdadeiros — ele citou sua máxima favorita da sabedoria freudiana. — Olhe, se eu estiver certo quanto àquele júri, estarei livre lá pelo meio da semana que vem. Divulgue uma declaração de que está convencido da minha inocência, porém concorda que eu fique afastado até a questão ser julgada. Eu pego o Nichols numa coletiva da imprensa, acusando-o de estar presente à sessão de “derrubação”, e você o “congela”. Quem tem em mente para chefe da Casa Civil?

— Smitty, creio. O círculo está se fechando.

— Faz sentido; aí Marilee passa a secretária de imprensa. Todo mundo vai gostar dessa. Minha saída talvez aumente a fogueira em vários sentidos.

— Grande! Em quem vou confiar?

— Em Melinda. Ela terá um bom contato que você não precisa saber pelas costas de Bannerman. Não confie em Buffie, por falar nisso. Trepe com ela, se quiser, porém mantenha a boca realmente fechada; ela agora é um problema. Lucas é firme, ainda, no entanto Mike Fong está pronto para esfaquear você pelas costas de novo: por que não o dispensa?

— Ele pode maquinar um impedimento — disse o Presidente. — Demonstraria que tenho medo do meu próprio gabinete — Hennessy ficou alegre porque Ericson resolvera analisar a situação. — Que foi que houve entre você e Melinda, de repente tão chapinhas? Vocês costumavam se atracar.

— Isso quando ela não sabia onde era seu lugar — disse Hennessy. — Ela anda bem; não comete erros. Muita coisa depende de seu namorado se manter na linha. — Para nós dois, pensou ele: Duparquet podia decidir o destino de Ericson no Gabinete, e o de Hennessy no tribunal.

— Caso você esfrie a sua fanfarronice no fim de semana — avisou o Presidente — e resolva apelar para a Quinta, ficarei contente. Tem razão: você teria de sair daqui em qualquer um dos casos. Deus! é como jogar a partida final e perder a rainha.

— O oftalmologista é a rainha, não eu.

— Onde foi o erro? — Ericson torceu a bengala branca em ambas as direções ao mesmo tempo, com uma das mãos no sentido do relógio, e com a outra em rumo contrário. — Qual a jogada errada, que eles pegaram você dessa forma?

— Se pudesse enxergar, me veria sacudindo os ombros. Eu tinha de dar ao Leigh o que ele desejava, não é? E você estava totalmente por fora da coisa.

— Totalmente — disse Ericson automaticamente.

— E o assunto jamais foi levantado quando dissemos adeus.

— Nunca. Suponho que agora seja o adeus, então. — Era este o propósito da visita dele, e somente agora Ericson pareceu perceber a coisa.

— Por algum tempo.

— Sei... — O melhor de se trabalhar para um homem cego, pensou Hennessy, era que ele não podia ver os seus olhos. Após alguns momentos, quando confiou na própria voz Hennessy falou:

— É você que está na minha sala, não eu na sua, lembra-se?

Ericson levantou-se.

— Apenas me aponte o centro do poder.


A SECRETÁRIA PARTIULAR /3

— Não quero ouvir todo o Sumário de Notícias esta manhã, Melinda — disse-lhe Ericson — leia-me apenas o pior.

Passava das nove e ele continuava na cama como se relutasse em enfrentar o dia; estava agindo assim desde a última semana, desde o maldito discurso, e esse hábito era ruim. Ela resolvera inserir “reunião de pessoal, sala de desjejum, residência” de 8:30 às 9:30 na agenda pública.

Entretanto, ele tinha razão quanto ao Sumário de Notícias. As manhãs de terça-feira eram pior, pois recapitulavam a nova redação e interpretação que as revistas da atualidade faziam da semana prévia, que explodiam como uma bomba de acção retardada, exatamente quando se esperava que o pior tivesse passado. As revistas semanais normalmente adicionavam alguma sujeira extra para se manterem “na onda”, à que era depois usado pelos jornais e pela televisão, aumentando o ímpeto do desastre iminente. Nas terças-feiras o Sumário de Notícias trazia tudo isso, mais as ocorrências da segunda-feira que já haviam superado nas datas as revistas de atualidades, fazendo com que as velhas más notícias competissem com as recentes notícias.

— A capa do Times é a Fraude de Yalta — disse ela, de leve — com uma montagem de Cartwright, Curtice, Harry Bok e Nikolayev, todos numa espécie de teia de aranha.

— “Ah!, mas que teia complicada nós traçamos” — recitou Ericson desanimado — “quando de início nos exercitamos na fraude”. Isso é simbolismo. Muito sutil. Bem, antes isso que Barbara Abelson.

— Ela é a capa do Newsweek. Ou metade dela; a outra metade é o Doutor Lilith. Hennessy costumava chamá-lo de médico oculista bicha, e tinha razão. — Ela engoliu em seco; Hennessy saíra há dois dias atrás, e já se dizia “Hennessy costumava. ..“

— A coletiva de Hennessy à imprensa pegou bem? Ela pôs a questão da melhor maneira:

— Recebeu uma boa cobertura. A história surgiu na coluna de Zophar na segunda-feira de manhã, dizendo que ele enfrentaria o júri naquele dia, portanto Hennessy ficou meio na defensiva. As manchetes foram: “Assessor de Ericson Acusado de Tentativa de Suborno”, o que não é bom, e houve uma chamada ontem na televisão que o mostrou atacando Bannerman e Nichols como os “grandes manipuladores” da coisa toda.

— Mas isso já acabou, não?

— Bem, foi mencionado em alguns dos editoriais desta manhã. O Times diz: “é questionável a conveniência da presença do Vice-Presidente na casa do Senhor Bannerman enquanto esta questão era presumivelmente discutida”.

— Que mais dizem?

— Troços sobre segredos do júri, nada de pré-julgamento, e depois a facada: “Seja ou não verdadeira essa última acusação, o facto é que o público americano — após uma semana inteira de choques acerca das provas da fraude e da duplicidade da Casa Branca — está pronto a acreditar no pior quanto à capacidade do Presidente Ericson de poder controlar seu staff. Ele tem se mostrado um homem que — ao passo que seus próprios instintos possam ainda estar bons — está num estado no qual deve ‘concordar’ com as decisões dos homens à sua volta, ratificando, portanto, uma política de mentiras. As revelações da semana passada, a começar pelo seu discurso precipitado e mal recebido, lançaram sérias dúvidas sobre a capacidade de governar do Presidente. Seu Gabinete, embora repleto dos seus amiguinhos, tem a responsabilidade de invocar os dispositivos da Vigésima Quinta Emenda. Claro que a solução mais racional seria o afastamento voluntário do Presidente.”

Ericson escorregou para dentro da cama e pôs as mãos atrás da cabeça, no travesseiro:

— Que espécie de atenção o Procurador-Geral vem recebendo?

— Emmett tem recebido ótimos comentários da imprensa — disse Melinda, irritada. — O Procurador da República apresentou-lhe a acusação do Leigh na semana passada, e nosso chapa Duparquet mandou-os jogar o FBI em cima do Hennessy, apesar da repercussão. Todo mundo gostou da maneira pela qual ele avisou o Presidente para que jamais se metesse nisto: mostrou sua independência.

Ericson riu pesarosamente por entre os dentes:

— Quando os membros do meu Gabinete fazem alguma coisa que não agrada à imprensa, é porque eu perdi o controle; mas quando Duparquet solta os cachorros em cima do meu melhor amigo, é porque ele está sendo maravilhosamente independente.

— Eu não me irritaria contra a imprensa — disse Melinda. — Pelo menos eles não escreveram sobre como o senhor fica na cama a manhã toda, com sua secretária ao lado como uma espécie de manicura. — Ela jamais se acostumara com essa situação; ainda se ressentia, embora, Deus sabia, Ericson não tivesse tirado vantagem disso nos últimos anos. Ela gostava de se queixar da coisa e ele gostava de escutar as reclamações, e assim eles iam em frente.

— As minhas unhas precisam ser cortadas? — perguntou o Presidente, tocando-as. — Você tem razão, sabe? Eu devia estar no meu gabinete, enfrentando a batalha. Você precisa mesmo tomar banho desse perfume?

— Emmett gosta dele — disse ela sem emoção. — Tomo banho nele para o homem da minha vida, não para o senhor. Além disso, esta sala tresanda a Lily of the Valley, ou Apple Blossom, ou sei lá a que droga barata.

— Não arrase com o gosto da minha amiga — sorriu o Presidente.

— Enfermeiras deviam cheirar a linimento — espicaçou ela.

— Não sei por que todo mundo presume que minha amiga seja a enfermeira Kellgren — exclamou Ericson, animando-se e estendendo a mão para pegar o roupão que ela lhe entregou. — Harry vive pra cima e pra baixo com ela e jamais fomos devidamente apresentados. Ela é do tipo calado: não queixa, massageia bem; a esta altura da minha vida, é exatamente do que preciso.

— O senhor sente falta de Buffie — Melinda podia sentir sua dor.

— Pôxa! Sim. Mas deixe-a pra lá; já tenho dores de cabeça demais.

Ela sabia que ele a provocava desta forma por um motivo, no entanto, ela não ia ajudá-lo. Finalmente ele tocou no assunto do Procurador-Geral:

— Melinda, podemos confiar no Duparquet? Ele é um homem bom?

— É um homem razoavelmente bom — avaliou ela. — Não sei se podemos confiar nele.

— Um desses caras que defende sua integridade não importa a quem doa, mesmo que para isso chegue até a Casa Branca?

— Não seja sarcástico. Ele fez um bocado pelo senhor. — O que deveria ela lhe dizer? Que Emmett era um amante atencioso, gentil? Que ficara realmente pesaroso por não ficar disponível aos domingos e na maioria das noites? Que ela lhe arrumara um jantar na sua casa na noite anterior, à base da luz de vela e vinho, que nem um casal de universitários, e que lhe deu uma “geral” seguindo cuidadosas instruções de Hennessy, enquanto ele sabia exatamente o que ela fazia? — Ele é ambicioso como o senhor. E tem princípios, como o senhor. Entretanto, não passou pelo que o senhor tem passado. Nunca o atingiram tão duro.

— Tenho muitos planos para esse homem — disse Ericson lentamente. — Quero me aguentar durante uma gestão para depois entregar o cargo a alguém em quem eu confie. Pode ser ele.

— Pode deixar — disse Melinda dramaticamente. — Jamais direi isso a ele.

O Presidente, a caminho da cadeira do barbeiro, riu sem amargor.

— Se você ainda não lhe contou, pode fazê-lo. Cada cinco minutos, mais ou menos, toque no assunto. Você me entende tão facilmente, Melinda; espero que possa adivinhar os desejos dele também. Mande o barbeiro entrar. Temos manicura?

— O senhor precisa das suas unhas para se agarrar às coisas — exclamou ela enquanto acenava para que o homem no saguão juntasse seu equipamento.

— Como está o seu moral, minha chapa? — O Presidente lhe fez a pergunta suavemente, mas a mulher sabia que era importante dar-lhe uma resposta séria.

— Gozado, sinto-me melhor agora do que há uma semana atrás. Eu estava aguardando, apavorada, que o outro sapato caísse. Eu sabia que a semana passada teria de acontecer, e foi pior do que eu pensava, porém agora isso é passado. Como diz minha mãe: isso é uma bênção.

— Caíram muito mais sapatos do que eu havia planejado. Tem certeza de que não foi atingida?

Ela não tinha certeza alguma:

— Talvez eu esteja anestesiada...

— ... como diz a enfermeira Kellgren.

— ... vai ver, eu sou clarividente.

— Eu conheci a Claire, manicura no velho Roney Plaza. Ela estava resolvida a encerrar seu pensamento: — Mas tenho a impressão de que atingimos o fundo. Não há outro desastre a caminho, que eu saiba; o que acontecer daqui pra fronte será surpresa. Isso é melhor do que saber que alguma coisa terrível está para ocorrer. Entende o que digo?

— Continue pensando dessa forma — avisou Ericson. — O pior que pode acontecer é a gente perder nossos empregos, enfraquecer a presidência, destruir a liberdade, etc. o momento mais escuro antes da madrugada. — Surgiu um tom de amargura no tom de sua voz, que não agradou a ela.

— Não entende o que quero dizer?

— Ah!, Melinda, entendo, sim, e gostaria de enxergar agora mesmo — e estendeu as mãos como se para emoldurar o que pudesse ver. — Se eu pudesse ver, estaria olhando para o seu cabelo castanho, os olhos desconfiados; e olhando pela janela para um dia glorioso, e, logo após, olhando para o rosto redondo do homem que tem tanto orgulho em ser o barbeiro particular do Presidente dos Estados Unidos. Todavia, só o que consigo enxergar neste instante é o rosto do Herb Abelson me olhando, acusando-me, e o rosto da Barbara Abelson me olhando e odiando-me. Ainda bem que não conheço o rosto do Hank Fowler, senão eu o veria me olhando.

— E o Shoeless Joe Jackson? — Sua referência ao jogador favorito de Lucas Cartwright fez com que ele sorrisse um pouco.

— Diga que não é assim, Melinda.

— Deixe disso — murmurou ela — aqui está o barbeiro. — No saguão ela divisou Harry Bok sendo empurrado pela enfermeira Kellgren. — Acho bom você ir falar com ele, Harry; está um pouco abatido. — Um pensamento súbito: — Ei! ela sabe tratar de mãos?

Harry virou-se na sua cadeira de rodas:

— Você sabe tratar de mãos? — A enfermeira Kellgren sorriu e acenou com a cabeça, inclinando o chapeuzinho branco. — Ela sabe — disse Harry. — Provavelmente é a melhor manicura de Washington.

— Fique aqui — Melinda disparou para a dispensa no andar de cima e voltou com uma saboneteira, um pouco de sabão e uma toalha de mão. Mergulhou a mão na bolsa e tirou uma lixa e um cortador de cutícula, e entregou esse material à eficiente enfermeira, que o juntou ao Lubriderm que sempre trazia no bolso do uniforme.

— Harry, entre com ela, bata um papo amigável com ele e não o deixe ficar de brincadeira. Faça com que ele desça ao gabinete dentro de alguns minutos. Enfermeira, por que você não bota um pouco daquele seu adorável perfume? O Presidente gosta dele e o ajuda a saber onde você está.

Melinda desceu, sentindo-se melhor. Quando ela mimava Ericson, o fazia sentir-se culpado acerca de sua autocompaixão, e o auxiliava a sair da situação. A visão que o homem cego tivera de olhos acusadores na escuridão perturbou-a e ela a afastou; com a partida de Hennessy, ela teria de carregar um peso naquele dia e naquela noite.

A correspondência, a qual ela supervisionava, estava aumentando em hostilidade. O sector de expedição recebera a recomendação de não fazer nenhum levantamento dos prós e dos contras, por medo que o resultado transpirasse, mas a amostragem que lhe fora enviada trazia porcentual mais alto do que o normal de correspondência negativa. O esquadrão de bombas relatou quatorze cartas-bombas no fim de semana, quase o total dos seis meses anteriores na presidência; esses dados jamais foram divulgados com medo de inspirarem mais malucos. O que mais deprimia Melinda eram as cartas dos partidários desanimados, a correspondência tipo “João sem Sapatos”, e Melinda deu uma espiada numa: “... confiava no senhor porque não era um político; mas por que teve de mentir a respeito da cegueira? Eu teria votado no senhor, de qualquer maneira. E então, como Presidente, o senhor não teria nada a esconder”. Outra: “... precisava demonstrar seu machismo. Você deu tudo o que tem à sua função, e obviamente não está à altura dela. Não faça o país sofrer por causa da sua deficiência. Existem ótimas instituições de cegos e a Casa Branca não é uma delas..”

Ela discou para a sala do pesquisador:

— Vinte e oito por cento e continua descendo — disse ele. — Vocês acabam de atingir o ponto mais baixo dos anos Nixon, e estão a cinco pontos do nível mais baixo de Truman.

Ela achou que não havia necessidade de passar isso adiante. Seu coração apertou um pouco quando viu os homens da Administração de Serviços Gerais removendo os arquivos da sala de Hennessy, e introduzindo as coisas de Smitty, porém seu ânimo cresceu quando Marilee lhe mostrou como pretendia refazer a sala de imprensa de Smitty. As coisas seriam feitas rapidamente, e não haveria monotonia. Ela se lançou ao planejamento do Dia do Direito a ser comemorado no dia seguinte, em Williamsburg. Emmett Duparquet, que ficara tão ansioso pela participação do Presidente na semana anterior, não tinha mais certeza de que a ideia era boa.

O Presidente contudo, começara a ansiar pela coisa — não faria nenhum discurso formal, apenas alguns comentários a respeito da Constituição e da formulação da lei — e seria um alívio escapar do ambiente de casamata da Casa Branca. Melinda encarregou-se das divisões dos quartos e arranjou para si mesma um chalé, perto da casa do Procurador-Geral: eles jamais haviam passado uma noite inteira juntos.

Smitty, o novo chefe da Casa Civil, entrou na sala dela, propositadamente de modo casual, para procurar algumas cartas. Ela calculou que ele provavelmente não sabia o que fazer com a agenda de Ericson, precisava dos seus conselhos, porém não queria abrir mão de sua nova autoridade. Viu-se tentada a cozinhá-lo um pouco, mas decidiu cooperar:

— Esqueci de dizer-lhe, Smitty: o Presidente espera que você e Lucas Cartwright passem algum tempo juntos em breve. Ele estava pensando que você poderia dirigir o gabinete como Lucas dirigiu e não como Hennessy.

— Era isso que eu estava pensando também — disse Smitty — de modo mais acessível. Hennessy operava muito na intimidade. Não era bem isso, pensou Melinda: o Presidente jamais confiara totalmente em Cartwright e não confiava totalmente nele. Em Hennessy ele confiava. Por outro lado, Melinda admitia que Lucas estivera no cargo num período mais ameno, e se o Presidente tivesse confiado mais em Lucas Cartwright e lhe contasse a respeito da cegueira, muito pranto poderia ter sido evitado. — O Conselho de Assessoria Económica quer falar com o Chefe — disse Smitty, sem emoção.

— Ele estará livre esta tarde às cinco, ou amanhã de manhã às nove — replicou ela. — Você precisa de uma data para Curtice e de um resumo da política exterior, também?

— Se não for muito...

— É para isso que pagam a ele: para ser Presidente. — Ela estava decidida a encher a agenda de Ericson, para dificultar-lhe o ficar apático. — Se preferir, pode trazer os economistas aqui esta tarde, e Curtice e a CIA amanhã, exatamente antes que ele parta para Williamsburg.

— Não será demais para ele?

Claro que é, boneco cretino, pensou ela, e ele ficará furioso com você; depois me dirá que eu mande você se acalmar, mas respondeu:

— Acho que ele está ansioso. E será algo para Marilee contar aos repórteres também. Mas se certifique de lembrar ao Presidente do Conselho para lhe conseguir um resumo de uma página da situação, antes da reunião: isso é padrão.

— Claro.

Claro. Melinda descobriu que subitamente estava dirigindo o governo dos Estados Unidos, ou pelo menos dirigindo aquela pequena parte sob controle do Presidente. Não realmente dirigindo, mas, na ausência de um forte chefe da Casa Civil, e com um Presidente moroso, dependia dela forçar as pessoas a se reunirem. Se as pessoas, incluindo os membros do Gabinete, pensassem que o Presidente não queria recebê-las, não pediriam para vê-lo. Todo mundo tinha medo de ser rejeitado. Ericson, no seu estado atual, era passivo — disponível se queriam vê-lo, porém ele não os convocaria nem exigiria um relatório. De repente dependia dela fazer com que o Presidente e sua Administração pensassem que cada um estava por cima do outro.

— Você tem de dar-lhe crédito — disse o ex-secretário de imprensa. — O Chefe está realmente se aguentando bem. Reparei como ele praticamente deu um passo à frente há umas duas semanas atrás, começou a se recuperar bem, mas pensei que os choques da última semana pudessem tê-lo abalado.

— Não — respondeu Melinda — ele voltou lá do fundo da fossa quando teve aquele horrível resfriado e não conseguia escutar nem sentir cheiro muito bem, mas desde então vem se fortalecendo mais e mais.

Se isso fosse verdade... Era meia verdade, porém; Ericson vinha se desempenhando como nunca antes, até o episódio do maldito discurso e tudo que se seguiu. Smitty não estava por dentro, contudo, e se ficasse convencido de que Ericson não fora desanimado pela luta, essa boa notícia se espalharia. Especialmente agora, que já não era mais secretário de imprensa: agora não era mais um propagador, mas um participante. Repórteres o creditariam com informações verdadeiras dos bastidores. Ela teria de lembrar isso ao Presidente.

Cerca de uma hora mais tarde, Marilee enfiou a cabeça na sala:

— Ei, Melinda! Está interessada no meu sucesso contínuo? — A secretária do Presidente, ao telefone com Williamsburg, sorriu e assentiu com a cabeça, concordando. Marilee, com aparência radiante e aristocrático como Melinda sempre desejara ter, afundou-se numa cadeira e disse: — Smitty está agindo como se soubesse qual é o grande problema daqui, mas não sabe. Tenho um jantar hoje com três vacas de sininho, e eu gostaria de lhes entregar alguma coisa recente. Bem cheia de perspicácia. Sabe de alguma coisa assim?

Melinda tapou o telefone:

— O Chefe estava se sentindo um pouco abalado no fim de semana. Uma espécie de crise pessoal. Depois Duparquet intercedeu por ele, falou em integridade, e o Chefe gostou disso.

— Ele não ficou zangado porque o Procurador-Geral lançou o FBI em cima do Hennessy? É o que a maioria das pessoas pensa.

— O que a maioria das pessoas pensa não é o que ocorre aqui; você sabe disso.

— Vá em frente — disse Marilee — eles darão um jeito nisso.

— O Presidente gostou quando o Procurador-Geral lhe disse para não mais fazer contato com o Hennessy. O Presidente cortou-o logo, mesmo eu sabendo que Hennessy tentou falar com o Chefe para ver se ele mandava Duparquet tirar seus cachorros de cima dele.

— Ei! Isso é coisa quente. O Smitty sabe?

— Marilee, minha chapa, eu confio em você mas não conheço Smitty tão bem assim. Vamos nós duas cuidar uma da outra, está bem?

— Certo. Smitty será um superchefe da Casa Civil, vai mesmo, mas sinceramente foi uma merda como secretário de imprensa. Que mais devo saber?

Melinda fingiu estar pensativa, depois recolheu certas informações pelo telefone e desligou:

— A segunda razão pela qual Ericson está se sentindo muito mais forte hoje: está alegre porque Hennessy saiu daqui, e alegre porque Smitty entrou.

— Acho melhor anotar — disse Marilee, pegando emprestados um lápis e papel. — Por que isso?

— Hennessy estava tentando tirar vantagem da cegueira do Presidente, centralizando poder demais. Ericson não gosta disso; ele é seu próprio patrão. Nem deseja seu Gabinete dominado por nenhum membro da Casa Branca.

— Entendi. Com a saída de Hennessy você ficou em muito melhor forma, também, Melinda, não é mesmo? Você e Hennessy... bem, era muita tensão.

— Não quero bancar a sabidona, mas percebi que Hennessy seria uma força maléfica desde o começo. Estamos melhor sem ele, e com muita sorte de termos o Smitty no seu lugar. — Ela observou Marilee anotar todos os itens. — Tudo isso fica nas entrelinhas do tema principal que você deve apresentar àqueles caras: hoje o Chefe está mais forte do que nunca, e é por isso que age dessa maneira, e por isso assumirá uma carga muito maior de atividades.

— Eu sei, eu sei — falou Marilee, passando os óculos para o topo da cabeça. — Smitty acaba de me mostrar a nova agenda e me disse que o Presidente quer mais coisas para fazer.

Melinda apanhou sua correspondência e começou a mexer nela tediosamente. Entregou um cartão-postal a Marilee e explicou:

— Recebemos um bocado deste tipo. — O cartão dizia: “Aguenta firme, Senhor P!”

— Me deixe com ele. Vou botá-lo na minha mesa, onde todo mundo tenta ler de cabeça pra baixo.

Melinda fez menção de retornar aos seus deveres.

— Pode divulgar o que quiser; não vou julgar a imprensa.

— Isso faz de Hennessy o cara que caiu — disse Marilee impassível — e sei como você se sente, mas eu até que gostava dele, de forma meio biruta. Uma outra coisa: acha que vou estar com o Presidente muito mais agora?

— Não — falou Melinda e a sério. Marilee não insistiu no assunto, porém agradeceu à sua aliada e saiu. A secretária do Presidente levantou-se, fechou a porta, voltou para sua mesa e pegou o caderno de anotações. Folheou as páginas taquigrafadas, com as instruções que Hennessy lhe dera para incuti-las na mente de Marilee, que as passaria à imprensa. Ela as transmitira todas, até sua ideia de “força maléfica”, que ela considerara exagerada.

Melinda não se sentia mal. Ela e Hennessy haviam discutido a esse respeito e ele a convencera de que, já que partia, seria melhor levar uma parte do ódio existente na Casa Branca com ele. Portanto, ela seguira sua sugestão. Entretanto, passaria muito tempo antes que Ericson encontrasse outro membro do staff que pusesse os interesses do Presidente em primeiro lugar, mesmo ao custo de sua própria reputação. Mesmo porque, recordou Melinda, Hennessy gostava de ser odiado.


O SECRETÁRIO DE RECURSOS HUMANOS

Angelo Frangipani não gostava de espremer-se no assento traseiro de um carro compacto. Quando prefeito da cidade de Nova York, “o Carcamano” andava numa comprida limusine equipada com sereia, na qual ele andava “a toda”, conforme a tradição flamejante do seu predecessor, Fiorello “Carcamaninho” La Guardia. Mas agora que era um figurão de Washington, conforme rosnava frequentemente, tinha de rodar num atraente e pequeno Ford Pinto que tinha dificuldades para andar quando atolava num pedaço de goma de mascar. Essa era uma concessão que teve de fazer, num dia inspirado, em manobra política antipoluição, e ele gostava de dizer que fora o pior erro da sua estada em Washington.

— Sou o único membro do Gabinete, em cinquenta anos, que não tem motorista — dizia a todo mundo — porque preciso do espaço no meu carro. — Realmente o esquema dirija-você-mesmo o carro pequeno, era um truque bem-sucedido, adicionado à sua inatacável imagem de bom sujeito. — O segredo da minha imagem de bom sujeito — dizia a seus quatro filhos que não queriam sair de casa — é que eu realmente sou um bom sujeito.

Estacionou no espaço reservado em Capitol Hill para o Presidente da Câmara, e subiu as escadas, para a sala de Mortimer Frelingheusen. Há vinte anos atrás, como deputado novato de Brooklyn, Frangipani trabalhara numa comissão cujo presidente era o homem de Wyoming que mais tarde se tornou Presidente da Câmara. Mort era um republicano, e Andy um democrata, o que indicava que ambos estavam inclinados a se gostar, e o Secretário de Recursos Humanos estava satisfeito porque, se tinha um amigo político em quem podia confiar nesta cidade, era o francamente partidário Presidente da Câmara, que apoiava a Administração de Ericson em política exterior, opunha-se a ela nos assuntos domésticos, e sempre era responsável por um tom de contenção, quando os adeptos da Vigésima Quinta Emenda começavam a perturbar.

Andy largou o chapéu branco de palha na mesa da recepcionista, anunciou-se e passeou pela velha sala de espera ornamentada, interessando-se pelos quadros nas paredes e pensando no que iria dizer.

A Administração da qual ele era parte orgulhosa estava em apuros. Embora a burocracia funcionasse e os cheques fossem emitidos, o espírito dominante em Recursos Humanos, seu Departamento cuja tendência era gostar de Ericson — era o de que o Presidente era um zumbi político. Ele sabia que em Washington os ânimos assumiam vida própria e ecoavam pela imprensa, reforçados por pessoas que lidavam com ela. A cidade andava igual à velha montanha-russa de Coney Island, só que jamais se sabia se o carro poderia sair dos trilhos.

Numa ocasião como esta, um bom político deveria contar os números favoráveis. Andy sabia os números do Gabinete; o Presidente saberia os da Câmara e teria boa noção quanto aos do Senado. Se os números capazes de expulsar Ericson não estivessem lá, chegara a hora de algum político sensível transmitir essa alegre notícia ao Presidente e à habilidosa imprensa. Caso os números se achassem ali, então Angelo Frangipani deveria refletir sobre eles e resolver o que fazer.

Ao Presidente da Câmara — homem cadavérico — Andy desabafou rapidamente o que trazia no coração:

— Não gosto do que está acontecendo no país. Ninguém me mandou vir falar com você, Mort, e o que dissermos aqui será segredo de túmulo, porém não pode continuar deste jeito. Tem de ser resolvido.

— O Presidente está incapacitado para cumprir seus deveres?

— isso era bem do velho Mort: ia logo ao assunto.

— Ele os cumpriria, se o deixassem — disse Andy — mas não estão deixando, o que significa que ele não pode cumpri-los. Se todo mundo acha que você não tem capacidade para governar, então você não tem. É uma máxima auto-alimentada.

— Auto-realizadora.

Andy lançou um olhar de desespero para o companheiro.

— Eu sei o que é máxima auto-realizadora. Eu disse “auto- alimentada”, o que é uma impropriedade cheia de cor. Se você entendeu isso, Mort, vai ter futuro na política.

O Presidente da Câmara acenou com a cabeça, tirou uma garrafa e dois copinhos de uma gaveta da mesa e serviu dois uísques. Bebericaram em silêncio por um momento. O Presidente perguntou:

— Como é a situação com Ericson, pessoalmente, digo, ele não enxerga, não sabe de onde vem a próxima paulada, deve estar sofrendo. Ele está abatido? Bebendo? De porre? Nervoso? O quê?

— Dizem que ele trepa um bocado —- replicou Andy — o que é um sinal sadio. Não está bebendo. Dorme demais, talvez, o que também faço quando não quero enfrentar determinado dia. No total, porém, anda reagindo melhor nas últimas semanas do que a maior parte das pessoas sob tais circunstâncias. Ele é um lutador, Mort, jamais o subestime. Ele gosta daquele cargo.

— Está arrancando dele as soluções de que precisa?

Andy rejeitou a pergunta.

— O Departamento de Recursos Humanos dirige-se por si próprio. É, de longe, o maior departamento atualmente e a única colher que o Presidente pode meter nele é para dizer: “Cresçam somente dez por cento neste ano fiscal.” Isso ele pode decidir: se serão cinco, dez ou quinze por cento, dentro de alguns meses, quando terá de consolidar o orçamento. O resto são despesas domésticas. Disso cuido eu.

— Ele se sente culpado quanto à Fraude de Yalta? — perguntou o Presidente da Câmara.

— Não.

— Isso é bom — Mort surpreendeu-o com essa reação. — Não se pode andar por aí sentindo-se culpado e ser um chefe do executivo. Ele errou no tocante à primeira cegueira. Deveria ter contado e seguido em frente depois.

— Foi isso que ele tentou — disse Andy — mas depois a merda entrou no ventilador.

O Presidente balançou a cabeça:

— Ele tentou deixar passar essa da cegueira, mas quebrou a cara naquela outra jogada: a de Yalta. Ele não teve o comportamento correto na campanha, e, o que é pior, desde então tem manejado mal a coisa.

— Concordo — afirmou Andy. — Isso é motivo para substituí-lo pelo Nichols?

— Agora chegamos ao principal. — O Presidente observou o líquido âmbar no seu copinho de bebida. — Se dependesse de mim, eu daria uma oportunidade ao homem. Quanto a não divulgar a cegueira anterior, ele deve confessar, francamente, que errou por completo. Na questão de Yalta, ele pode alegar que seu pessoal fez o que pensou fosse melhor para a nação diante de um problema crucial, e a turma o apoiará. Ele não precisa desculpar-se por tudo.

Andy apresentou o caso abertamente:

— Se o Gabinete não o declarar incapacitado, o Congresso vai tentar o impedimento?

— Já existem votos suficientes para impedi-lo neste instante, uma escassa maioria. Contudo, o processo leva meses e nunca se sabe qual será a disposição na hora da votação. Enquanto isso, o país ficaria bastante paralisado. Por isso eu reprimi o pessoal a favor do impedimento; o Congresso está aguardando para ver o que o Gabinete fará.

A bola estava de novo nas mãos de Andy:

— Se o Gabinete votar pela saída dele e ele levar essa decisão ao Congresso, este apoiará o Gabinete?

— Só é necessária a maioria do Congresso para impedimento — disse o Presidente, sem hesitar — no entanto, são precisos dois terços da Câmara para confirmar uma remoção feita pelo Gabinete. Já pensei muito no assunto e fiz algumas sondagens, e eis o que penso: se a coisa seguir a rota do impedimento, a Câmara terá maioria para o impedimento de Ericson, e o Senado provavelmente o condenará, pelos necessários dois terços. Porém, se seguir os trâmites do Gabinete, usando a Vigésima Quinta Emenda, então a Câmara não terá os dois terços de que necessitaria para confirmar o Gabinete e manter Ericson fora do cargo.

Frangipani assoviou:

— Então a situação não será resolvida. Você está me dizendo que não há jeito de chegar lá partindo daqui.

— Estou dizendo-lhe que Ericson tem um apoio supersólido de quarenta por cento da Câmara, isto é, da maioria dos democratas e alguns dos meus republicanos que sabem que tipo de homem é Bannerman, e alguns cobras jurídicos que acham que um “alto crime” tem de ser traição. Isso é suficiente para negar uma votação de dois terços ao Congresso. Pode contar com isso.

— Se o Gabinete resolver destituí-lo — disse lentamente Andy — então você pensa que essa manobra falhará na Câmara. Se o Gabinete não agir, então você acha que a Câmara declarará o impedimento e o Senado condenará o Presidente. É isso?

— Você sempre soube contar, Andy. Teria um grande futuro no Congresso. Qual a sua contagem no Gabinete?

Fong é a favor da destituição, claro. Hoje é quarta-feira; o Presidente está em Williamsburg por causa daquela festa do Dia do Direito, com Emmett Duparquet; Ericson foi para dar apoio ao Procurador-Geral, que anda meio abalado. Emmett não gostou nem um pouco da história do Hennessy, e considera questão de honra pessoal o Presidente tê-lo enganado quanto à primeira cegueira.

— Cartwright, da Defesa, ficará com o Presidente — analisou o Presidente da Câmara. — Ele é desse tipo.

— Lógico. Curtice, do Estado, provavelmente, posso estar errado, votará pela destituição. No Tesouro, Ericson pôs o Zack Parker, que odeia tanto a Bannerman a ponto de apoiar o Presidente até em estado de rigor mortis. Assim, são dois certos a favor do Presidente, um pela destituição, e dois mais ou menos com tendência à destituição.

— E o Secretário de Recursos Humanos?

Frangipani abriu as mãos:

— Não sei. Todos estes anos, sempre que alguém me dizia estar “indeciso”, eu costumava dizer: “Este filho da puta não confia em mim”. O facto é que estou indeciso. Esse é o motivo verdadeiro da minha vinda, Mort. Algum conselho?

Não. — O Presidente acabou a bebida de um só gole. — Você tem a sua responsabilidade constitucional, eu tenho a minha. Você joga primeiro.

Andy levantou-se para ir embora; mais exatamente, levantou-se para falar nos minutos finais antes de sair.

— Ericson não pode governar porque todos dizem que não está em condições, A alternativa é Nichols, que é instrumento de Bannerman. Ele é o que meus amigos judeus do Brooklyn descrevem como “camaleão”: venal e perigoso.

— Não lhe invejo a escolha, Andy. Dos males o menor.

— O que eu gostaria de fazer — disse Andy; e esperava que não muito astutamente — era inventar uma alternativa. Estamos na política, pelo amor de Deus, deve haver outra solução.

— Diga ao Presidente que lamento por ele e desejo suas melhoras — falou o Presidente da Câmara. — Estou preocupado com o argumento de “incapacidade para governar”, isso amplia demais a Vigésima Quinta Emenda. Se o Presidente está incapaz física ou mentalmente, é uma coisa; mas se ele é impopular, fraco, ou está na iminência de perder apoio... temos de aguentá-lo durante mais quatro anos porque foi para esse período que o elegemos. E não sou o único que pensa dessa forma.

— Quarenta por cento “supersólidos”, hem? — Andy esperava poder forçar o prognóstico de Frelingheusen até se tornar um compromisso, e ficou surpreso por não estar desapontado.

— Se eu precisar ir ao fundo disto — disse o Presidente da Câmara — tenho alguns “vales” que revolucionariam a questão. Eu os colocaria em fileira, como costumava fazer o Sam Rayburn e, no caso de não precisar deles, eu os deixaria votar segundo suas consciências ou seus distritos. Contudo, se precisasse deles, estariam presentes.

Andy não desejava forçar sua sorte, nem dar tempo ao Presidente de explicar sua observação. Ele viera solicitar conselho e algum apoio, e saía como transmissor da garantia voluntária do Presidente. Frelingheusen repetiu-lhe à porta:

— Ericson tem maioria contra ele aqui na Câmara, suficiente para o impedimento. Porém, aqui não haverá dois terços para ratificar nenhuma usurpação. Aja de acordo. Se quiser transmitir isso aos ouvidos do Presidente, Andy, não faço objeção, no entanto, terei de negá-lo caso o leia em algum lugar.

O Secretário de Recursos Humanos atravessou correndo o saguão e passou pelos degraus que levavam ao seu pequeno carro na vaga do Presidente da Câmara. Havia uma multa de estacionamento nele. Começou a dar marcha à ré para dar um jeito na coisa, mas mudou de ideia: dane-se! — ele pagaria os dez dólares. Frelingheusen fizera o bastante pelo poder executivo naquele dia.


O PROCURADOR-GERAL /2

Emmett Duparquet caminhou até o atril, assentiu cordialmente com a cabeça para seu apresentador e recebeu os aplausos durante aquele momento alegre antes de transmitir o que, ele tinha certeza, era um excelente discurso. O auditório em Colonial Williamsburg era da Prefeitura de Burgueses, impregnado de história virginiana, um dos auditórios mais antigos da América. A platéia, espremida, era constituída de eminentes advogados e juristas, incluindo muitos que ele conhecia, e que seu olhar localizou no grupo. O corpo de imprensa da Casa Branca estava lá também, espalhado pelas laterais do salão longo e estreito, e se queixara amargamente da sua posição ruim, mas a reclamação não foi aceita pelos funcionários do Dia do Direito.

O Procurador-Geral estava ambivalente quanto à presença do Presidente Ericson na plataforma. De um lado, a decisão de Ericson quanto à sua primeira incursão fora da Casa Branca após a emboscada acentuava a importância da ocasião; o corpo de imprensa que acompanhava o Presidente transformou o que teria sido uma função de elite, pouco divulgada, num evento de âmbito nacional dos meios de comunicação. Um excelente discurso de Duparquet, que de outra forma teria passado despercebido, seria selecionado para a televisão naquela noite, e visto por 80 milhões de norte-americanos. Por outro lado, o Procurador-Geral teria ficado mais satisfeito se ficasse desligado do Presidente durante a semana na qual o Departamento de Justiça estava para indicar seu principal assessor. Duparquet estava zangado com o Presidente, ele confessava a si mesmo: defendera Ericson no Gabinete, numa hora de grande crise, e o cliente lhe omitira uma informação, vital. Duparquet fora enganado, e se comprometeu a jamais ser enganado duas vezes.

Entretanto, o Presidente ali estava, em pessoa, com seus olhos sem visão — não usava mais óculos escuros — à vista total da platéia. Duparquet era membro do seu Gabinete e seu anfitrião nas cerimónias do Dia do Direito; e qualquer demonstração de frieza seria aumentada fora de proporções — na verdade, nas proporções merecidas. Se você ajuda a criar uma situação, disse a si mesmo o Procurador-Geral, deve agir conforme ela o exigir.

— Na Força Aérea, durante a guerra no Vietnam — começou ele, essa referência ao seu heroísmo como piloto não estava deslocada neste contexto — e mais tarde, na vida política, tenho tido o privilégio de conhecer muitos homens corajosos. É uma honra compartilhar desta tribuna, hoje, com um homem cuja bravura pessoal é uma inspiração para todos os norte-americanos, Presidente Sven Ericson. — Muitos aplausos; uma reverência à bravura de Ericson era inatacável mesmo para aqueles que discutiam sua capacidade de governar, ou se achavam desgostosos com sua tolerância em relação aos partidários corruptos ou capciosos.

“O Presidente fará algumas observações informais no fim da tarde — disse ele — o que me fez sentir como Edward Everett, o homem que foi o relator principal em Gettysburg. — Talvez isso fosse um pouco de exagero, contudo a frase foi bem recebida pelo público disposto a perguntar ‘gostamos-de-você-mas-quem-é-seu-amigo?’. Duparquet pôs os óculos e se lançou a dissertar sobre as regras da lei, o que sabia seria interpretado à luz da investigação sobre Hennessy, e da duplicidade de alguns dos seus colegas membros do Gabinete. Sua passagem mais eficaz — a que seu assessor de Imprensa marcara para as câmaras de televisão — concluía com uma referência a John Adams e o conceito de ‘um governo de leis, não de homens’.

O bonitão queimado de sol, vindo da Flórida, sentou-se ao som dos merecidos aplausos, nem gentis nem estrepitosos — o emprego ponderado da admiração de seus pares jurídicos. Duparquet era um homem numa situação difícil, e a platéia sabia que ele sabia que eles sabiam disso.

O presidente da solenidade, magistrado aposentado do Supremo Tribunal, agradeceu-lhe e, consciente da conveniência, apresentou o Presidente com as oito palavras de praxe. [nota: Senhoras e Senhores, o Presidente dos Estados Unidos.]

Duparquet e todas as pessoas na Prefeitura de Burguesses observaram Ericson levantar-se, fazer meia-volta à esquerda, dar deliberadamente cinco passos, dar meia-volta para a direita, caminhar confiantemente, e tocar no atril. Isso foi um alívio. Então, antes de o Presidente poder dizer palavra diante dos aplausos, começou a demonstração visual.

Duparquet empalideceu. Em quatro pontos, demonstradores bem vestidos, que se haviam misturado aos advogados na platéia, levantaram-se e deram a conhecer sua presença, mostrando cartazes antes escondidos debaixo dos assentos. Um cartaz dizia: “Renuncie”; outro “Fraude”; mais um “Aceite a Vigésima Quinta”; e outro mais: “A Verdade Nua e Crua”. A platéia reteve a respiração e os aplausos morreram.

Como os demonstradores estavam em silêncio, Duparquet ficou num dilema: deveria aproximar-se do Presidente, agora em pé sozinho diante do atril, e lhe contar sobre os cartazes? Deveria deixá-lo falar sem saber que eles estavam ali? Se ele se levantasse, daria força ao argumento dos manifestantes: o de que o Presidente era praticamente indefeso, quando sem auxílio do seu pessoal; se não se levantasse, a tensão angustiante continuaria sem parar. Não houve providências do Serviço Secreto no sentido de remover os manifestantes ou seus cartazes.

— Todos se descontraiam — disse o Presidente. — Posso dizer, pelo som da tomada de fôlego, considerável, aliás, que a demonstração teve início.

Os manifestantes silenciosos ficaram intrigados. As câmaras que antes focalizaram os cartazes viraram-se para o Presidente.

— Para vocês que não estão bem situados — falou tranquilamente o Presidente — os cartazes dizem: “Renuncie” e “Aceite a Vigésima Quinta”, e sentimentos similares. O propósito de uma demonstração visual e silenciosa, sem o berreiro habitual, é o de mostrar como estou indefeso e dependente.

“A verdade é: estou dependente dos outros quanto à faculdade da visão. Esta manhã os agentes do Serviço Secreto me disseram que diversos cartazes estavam sendo contrabandeados para a Prefeitura de Burguesses e escondidos debaixo das cadeiras.

“Eu lhes disse para deixarem o plano da demonstração ir em frente porque seria uma ponte para eu também fazer uma demonstração.

“Estamos reunidos hoje num salão antigo, palco dos primeiros movimentos da liberdade americana. Especialmente em tal cenário, e num dia em que se comemora a prática da lei, seria errado de minha parte fazer alguma coisa que infringisse o direito de qualquer um de falar livremente.

Os assistentes achavam-se ainda chocados demais para reagir. O senso de ocasião de Duparquet sugeria-lhe que o Presidente tinha algumas palavras bem preparadas para dizer que capitalizariam aquele choque, aliviando a platéia da tensão, e isso refletiria bem sobre ele. O Procurador-Geral não podia deixar de torcer pelo homem no pódio, como fariam mais tarde milhões, vendo um filme pela televisão.

— Não tenho discurso para hoje — continuou Ericson. — Não o poderia ler se tivesse. Esta é uma hora para refletir seriamente sobre todas as coisas admiráveis e sábias que nosso Procurador-Geral falou quanto à nossa devoção à aplicação da lei. — Silêncio total. O auditório estava magnetizado; os manifestantes, paralisados.

“Um episódio da história nos vem à mente, contudo: talvez seja apenas uma lenda, porém dizem que Lorde Nelson, numa batalhe naval, ouviu de um tenente assustado que estavam sendo atacados por uma enorme armada. O ajudante apontou para a frota de navios vindo em sua direção e insistiu para que Nelson retirasse seu navio do caminho deles.

O Presidente fez uma pausa.

— Nelson, como se lembram, era cego de um olho e usava uma venda sobre ele. Disse a seu tenente: “Dê-me seu telescópio”. Pegou o telescópio e, de modo que todos os seus homens pudessem observar, levou-o até a altura do olho cego. Fingiu descortinar o horizonte e disse então: “Não vejo nenhuma armada. Prossigam.” E prosseguiram para a Batalha de Trafalgar, e venceram a luta que mudou o curso da história.

Fez outra pausa para dar efeito.

— Olhando para este salão hoje, não vejo sinais que me assustem. Vou prosseguir e esta Administração permanecerá.

O Presidente virou-se, aguardou que um agente lhe pegasse no braço e saiu do palco. O salão explodiu em vivas; juristas normalmente discretos gritavam palavras de encorajamento; até advogados mais convencidos da necessidade da renúncia de Ericson batiam palmas vigorosamente. Os manifestantes arriaram os cartazes e não fizeram menção de reclamá-los quando os cameramen os enquadraram de perto. Duparquet, junto com os outros, aplaudiu até o Presidente estar fora do alcance das palmas.

— Espetáculo danado de bom — disse o Procurador-Geral horas depois, no chalé que Melinda havia reservado. — Hoje de manhã exibia grande velocidade de raciocínio. Foi ideia do Ericson?

Ela concordou com a cabeça.

— Ele só recebeu o recado meia hora antes de o helicóptero levantar vôo. Chamou o Jonathan Trumbull, e juntos bolaram a jogada do Nelson.

— E por coincidência o redator tinha a historieta da Batalha de Trafalgar na ponta da língua?

A secretária do Presidente sorriu abertamente.

— Ele tem coletado todos os episódios sobre cegueira que já aconteceram, de Sansão em diante. Aquela do Nelson foi usada por Hank Fowler um dia. Provavelmente não é verdade, por isso o Chefe disse que poderia ser uma lenda, assim os bufões historiadores não poderão atacá-lo.

O telefone tocou. Ele levantou a sobrancelha quando ela se preparou para atendê-lo.

— Por que não diz a eles que está de folga esta noite?

— Direi. — Justiça era justiça: se ele ia se arriscar a não estar disponível naquela noite, o mínimo que ela poderia fazer seria não receber telefonemas. — Não, Harry, eu não ia pegar o helicóptero para voltar — ele escutou-a falando. — uma hora de vôo; tempo demais num negócio daqueles. Meu estômago já sofre normalmente. Ele está satisfeito consigo mesmo? Ótimo. Não, eu vou ficar por aqui. Volto no fim da manhã. — Ela mordeu o lábio, insegura quanto a certo detalhe. — Hennessy disse para barrá-la. Quem? Absolutamente não. Nunca a Marilee, escutou? Deixe que seja a Buffie, então: é melhor um diabo que a gente conheça. Muito bem, mas avise a ele. E diga à telefonista que vou dormir e não me chame a menos que os mísseis estejam a caminho. Boa noite, Harry; foi um bom dia. Você teria ficado orgulhoso.

— Que negócio é esse — Duparquet não tinha direito de fazer essa pergunta, e ficou surpreso quando ela lhe deu uma resposta sem rodeios:

— A namorada do Presidente consta na folha de pagamentos do Bannerman. Isso dificulta as coisas.

— Roy Bannerman faria isso? — Duparquet estava genuinamente chocado. Aquilo era uma combinação suja, o tipo da jogada que se associaria a Arthur Leigh ou Mark Hennessy. Por outro lado, pensou ele, Leigh andava evidentemente associado a Bannerman, e poderia haver fraude em ambas as direções.

Só lhe disse porque você me perguntou — disse Melinda. — Se não deseja saber de uma coisa, tome cuidado com o que pergunta. Confio em você.

— Por que está tão boa comigo esta noite?

— Estou feliz porque meu patrão se saiu tão bem hoje, acho. — E então ela disse o que ele queria: — E porque estou com você, sem você ter de sair correndo. — Ela serviu-lhe um uísque, ignorou o sofá e se sentou longe dele. — Emmett, eu não sou do tipo coelho.

— Temos de parar de nos encontrar desse jeito — zombou ele. Ela se espreguiçou — ele gostava de vê-la curvar as costas — e se aproximou dele. Beijo longo, só boca a boca durante bastante tempo; nada de agarramento porque ele tinha muito tempo esta noite. Ela soltou-lhe e lhe afrouxou a gravata; meteu a mão e massageou o grupo de músculos na nuca. Ele lhe pegou nos seios, apoiando gentilmente seu peso enquanto ela esfregava, e se mordiscavam de modo íntimo, até ela recuar.

Você não usa batom.

— Só do tipo incolor, nada que alguém possa ver no seu colarinho. E por que acha que sempre encontra sabonete branco puro no banheiro lá de casa?

— Porque você não quer que eu fique cheirando a sabonete de mulher. — Ele não pensara antes nessa atenção.

— Não sou destruidora de lares — falou ela calmamente, tirando um dos seus longos fios de cabelo negro do paletó dele. — E não desejo perdê-lo.

— Há um tempo para construir e um tempo para destruir — ele lhe disse, não tão suavemente. Ele queria achar uma ocasião para Jogar a imagem da ideia de que suas intenções, como se dizia, não eram totalmente desonrosas. Não queria contrair compromissos, porém desejava que ela se envolvesse mais com ele. Ele tinha cinquenta e quatro, ela trinta e oito; ele perdera, havia muito, o interesse pela esposa e seus filhos já estavam fora de casa na escola; ele se via construindo vida nova com esta mulher, que não precisava ser informada dos antecedentes de tudo. Ele podia falar com ela frente e frente, fazer