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 Sobre a Deficiência Visual


O Olho e o Cérebro: A Psicologia da Visão

R. L. Gregory

-excerto-

Imagem de 'La Dioptrique'
imagem em 'La Dioptrique'

Temos de aprender a ver?

Desde a remota antiguidade se põe em filosofia esta questão: — Como se nos tornou conhecido o mundo?

Os sistemas de filosofia podem considerar-se divididos em dois grandes grupos: metafísicos — os que pretendem que já nascemos com um certo conhecimento do mundo — e os empíricos — os que afirmam que devemos todo o conhecimento à experiência sensível. Para um filósofo da escola metafísica, é evidente a possibilidade — desde que o pensamento se concentre suficientemente e seja convenientemente orientado — de se fazerem descobertas acerca do mundo, sentados numa cadeira de braços. Não importa que a descoberta em vista consista em saber quantos são os planetas. Até neste caso, não há necessidade de alguém se levantar e ir contá-los. Para um empirista esta pretensão é absurda. Para saber é preciso observar.

Durante 2.000 anos, os metafísicos mantiveram as suas opiniões chamando a atenção para as matemáticas, especialmente para a geometria, onde novas verdades estavam a ser continuamente descobertas, e não através de experiências ou de observações, mas sim pelo pensamento e pelo partido tirado dos verdadeiros jogos malabares a que se prestam os símbolos. Foi só no século passado que se compreendeu que as descobertas de carácter matemático eram de natureza especial, pois que representam não o conhecimento do mundo exterior mas o dos arranjos possíveis entre os símbolos. As descobertas da matemática dizem respeito à matemática e não ao mundo. Sabemos que só é possível existir uma geometria. Podem-se inventar outras, mas decidir qual delas melhor se ajusta ao nosso mundo é uma questão empírica. A matemática é útil quando se trata de definir as fases de um raciocínio e quando permite que se sucedam automaticamente as passagens que conduzem do enunciado de um problema à sua solução. Isto admitindo que um método adequado foi encontrado. É ainda útil para a apresentação metódica e ordenada de dados que convém ter presentes, mas incapaz de estabelecer, como faz a observação, verdades acerca do mundo exterior. Há, todavia, muitos animais que parecem saber o que é este último, mesmo antes de com ele terem tomado contacto. Os insectos são bem sucedidos no jogo das escondidas a que se entregam, tanto com os seus perseguidores como com as suas presas, antes de terem tido tempo de aprender os segredos do tal jogo. As aves migratórias fazem uso das posições relativas das estrelas para se guiarem sobre a imensa monotonia dos oceanos, mesmo que, antes disso, nunca tivessem visto o céu. Como podem tais coisas acontecer, se os empiristas têm razão e todo o conhecimento provém dos sentidos?

A psicologia experimental nasceu da filosofia e o fumo e as cinzas das velhas controvérsias ainda a ela se apegam. Os psicólogos estabelecem uma distinção entre reacções inatas e adquiridas. As primeiras supõem a existência do conhecimento independentemente de qualquer acontecimento anterior com ele relacionado; as segundas, a existência do conhecimento como filho da observação. Mas o objectivo dos psicólogos difere do objectivo dos filósofos que os precederam. Para os filósofos, o problema punha-se assim: — Podemos saber antes de termos sentido? Para os psicólogos a pergunta é: — Podemos sentir antes de termos aprendido a sentir? Por vezes, confunde-se uma destas perguntas com a outra, quando, na realidade, são bem diferentes. Só nos interessa a segunda, a questão posta pelos psicólogos. Não há dúvida de que os insectos e os pássaros podem reagir adequadamente à hostilidade do mundo exterior logo da primeira vez que com ela deparam, mas isto não faz deles filósofos metafísicos. São herdeiros, por direito próprio, de um estado de conhecimento conquistado à custa de desastres ancestrais. O que é aprendido por um indivíduo não pode ser herdado directamente pelos seus descendentes, mas os caracteres genéticos podem ser modificados pela selecção natural no sentido de habilitarem o indivíduo a enfrentar a hostilidade da realidade ou de se acomodarem a situações que lhes eram, até ao momento, completamente desconhecidas. A forma de proceder em certas circunstâncias e o dom de reconhecer certos aspectos do mundo exterior, como a presença de velhos inimigos, são tão importantes para a sobrevivência de uma criatura como a sua própria constituição. Não têm os membros e os sentidos qualquer utilidade, se não estiverem habituados a actuar, como são inúteis os instrumentos que não sejam manejados e guiados por mãos adestradas. Da mesma forma que reflexos simples, adquiridos sem aprendizagem, servem para proteger um animal muito novo dos perigos de uma queda ou de uma asfixia, assim as percepções inatas podem-no proteger de outros perigos.

Os animais que estão muito longe do topo da escala da evolução dependem quase inteiramente da percepção inata do mundo exterior. Mas os limites da sua percepção são muito apertados e todas as suas reacções estereotipadas. Não há dúvida de que certos insectos são capazes de aprender, e aprendem, através da percepção, mas quase tudo o que sabem continua a ser de origem inata. Os seus conhecimentos adquiridos em pouco mais consistem do que na localização exacta da colmeia ou do abrigo que lhes serve de base ou refúgio quando regressam das suas expedições. A abelha não tem o trabalho de aprender o que se passa com as flores. Liba onde as suas antepassadas encontraram néctar, porque foi o néctar que lhes permitiu sobreviver. O tipo de pétalas que encerra néctar ficou gravado no cérebro da abelha, porque aquelas que não receberam ou deixaram apagar essa codificação morreram por falta de mel.

Se admitirmos que a estrutura do organismo se aperfeiçoa pela selecção natural, não surpreende que o mesmo aconteça com o comportamento e a percepção. O que, vendo a Natureza como a vê um empirista, seria, na verdade, surpreendente o depararmos com o «reconhecimento» imediato de formas artificiais ou pouco importantes. É o que aconteceria, por exemplo, se uma criança fosse capaz de compreender uma língua que não lhe tivesse sido ensinada, porque tal conhecimento não poderia ter sido codificado geneticamente. Mas não existem provas da existência deste género de conhecimento inato e imediato.

O que fica exposto pode hoje parecer evidente, mas não há muito tempo os metafísicos afirmavam muito a sério que, pelo pensamento puro e sem recurso à observação, podia-se saber qual o número dos planetas. Esta opinião pareceu incontestável numa época em que as opiniões dos empiristas foram consideradas absurdas e sem qualquer relação com a realidade.


A cura da cegueira infantil

O homem é completamente indefeso durante o longo período da sua infância. Durante todo este tempo, exactamente porque a criança é um ente essencialmente passivo, que não pode reagir de forma adequada, existe a maior dificuldade em descobrir até onde vai a sua percepção do mundo exterior. O problema que se põe ao psicólogo é o de descobrir o que a criança é obrigada a aprender e o que lhe é oferecido como brinde, sob a forma de conhecimento nato, pela Natureza. O grande psicólogo americano William James descreveu o mundo dos bebés como uma tremenda confusão de som e imagens. Será realmente assim? Como poderemos avaliar aquilo com que se parece o mundo visual do bebé? Esta pergunta vem fascinando os filósofos que tentam descobrir, interrogando homens que só muito tarde tiveram possibilidade de se servir dos olhos, como as crianças principiam a ver. É muito raro um cego de nascença adquirir, já depois de adulto, o sentido visual, mas casos desta natureza já se deram.

O que um cego aprende, com o tempo e com a prática, foi objecto da atenção de Descartes no seu La Dioptrique. Descartes pondera a forma como um cego descobre o mundo, percutindo-o com a sua bengala:
 

«É verdade que, sem muita prática, esta espécie de sensação é um tanto confusa e pouco intensa, mas, se considerarmos homens que nasceram cegos e dela fizeram uso durante toda a sua vida, verificaremos que tacteiam com tal exactidão e perfeição que poderíamos dizer que vêem com as mãos.» (Discurso VI).

Pode-se daqui deduzir que este género de aprendizagem é talvez necessário para que a criança normal desenvolva o seu mundo visual.

John Locke (1632-1704) recebeu de Molyneux uma carta célebre em que formulava esta pergunta:

«Suponhamos um cego, agora adulto, que aprendeu pelo tacto a distinguir uma esfera de um cubo feito do mesmo metal. Suponhamos ainda que o cubo e a esfera estão colocados sobre uma mesa e que o cego passou a ver. Pergunta-se: ser-lhe-ia possível, só pela vista, antes de os ter tocado, distinguir o cubo da esfera e dizer qual era o cubo e qual a esfera?... Um espírito penetrante e judicioso responde: não. O homem sabe, por experiência, que o cubo e a esfera impressionam o seu tacto desta e daquela maneira, mas ignora completamente de que maneira um e outro impressionarão a sua vista.»  [ver aqui Molyneux's Problem]

Locke comenta da seguinte forma:

«Concordo com este avisado gentleman, que me orgulho de contar entre os meus amigos, na resposta que dá à pergunta. Sou de opinião que o cego, a princípio, não seria capaz de dizer com certeza qual era o globo e qual era o cubo...»

Temos aqui uma experiência de carácter psicológico que foi, no passado, assunto para especulação filosófica e, hoje, se tornou matéria de investigação de carácter experimental.

George Berkeley (1685-1753), o filósofo irlandês, também se ocupou do problema. Diz-nos ele:

«Para libertarmos os nossos espíritos de ideias preconcebidas que possamos ter em relação ao assunto de que estamos a tratar, nada mais indicado do que meditarmos no caso de um cego de nascença que, mais tarde, já adulto, conseguiu ver. E, posto que talvez não seja tarefa fácil pormos inteiramente de parte o que já aprendemos, usando a visão, e passarmos a pensar exactamente como o faria um cego, temos, apesar disso e tanto quanto possível, de nos esforçar por conceber o que se passaria no seu espírito.»

Berkeley continua dizendo que devemos estar preparados para que tal pessoa não saiba se um objecto está

«...colocado em sítio alto ou baixo, direito ou invertido... porque os objectos a que até ali estava habituado a aplicar os termos para cima e para baixo, em cima e em baixo, só existiam na medida em que afectavam o seu sentido do tacto ou eram, de qualquer forma, por ele percepcionados; mas as realidades exteriores, que são geralmente conhecidas através da visão, criam novas ideias, ideias inteiramente distintas, diferentes das primeiras e estranhas à percepção obtida pelo tacto.»

Berkeley ainda prossegue para dizer que, em sua opinião, seria necessário algum tempo para que a pessoa aprendesse a associar o tacto com a visão. Isto é uma afirmação clara de que os bebés só têm percepção depois de certa aprendizagem. Postulado este geralmente aceite pelos filósofos empiristas.

Tem havido vários casos do género do imaginado por Molyneux. O mais famoso foi descrito por Cheseldon, em 1728, e diz respeito a um rapaz de 13 anos. Foram registados ao todo cerca de sessenta casos desde um, em 1020, até ao último da série, investigado poucos anos atrás pelo autor e por um seu colega, referente a um homem que foi cego desde os 10 meses até aos 52 anos de idade.

Alguns dos casos de que há notícia correspondem, em grande parte, àquilo que os filósofos empiristas esperavam. Os pacientes pouco podiam ver a princípio e eram incapazes de notar diferenças entre objectos ou formas muito simples ou, mesmo, de as designar. Por vezes, foi preciso um longo período de aprendizagem antes que pudessem tirar partido da visão. Muitos nunca chegaram a adaptar-se e desistiram, continuando a viver a vida dos cegos depois de terem sofrido graves perturbações emocionais. Por outro lado, também houve quem passasse a ver bastante bem, quase de início, especialmente os que eram inteligentes, activos e tinham recebido uma boa educação quando cegos. A grande dificuldade que estas pessoas tiveram em dizer os nomes dos mais simples objectos que a visão lhes revelava e a lentidão com que se desenvolvia a sua percepção impressionaram a tal ponto o psicólogo canadiano D. O. Hebb que atribuiu alto significado a estes factos e aceitou que a aprendizagem da percepção é importante para a criança.

É, todavia, indispensável não esquecer que nem todos os casos estudados revelam extrema dificuldade ou lentidão na aquisição da visão. Devemos também ter presente que é inevitável a perturbação que a operação cirúrgica provoca na óptica do olho de modo que não podemos contar com a formação de uma imagem razoável antes que o olho, a seguir à operação, tenha tido tempo de se reajustar. Isto é talvez de capital importância no caso da ablação do cristalino ou da operação da catarata (as primeiras operações foram todas deste tipo), mas, nos outros casos, em que é possível operar — opacidade da córnea — os estragos suportados pelo olho no seu todo são sensivelmente menos acentuados. As operações de enxerto da córnea são todas relativamente recentes. O caso que tive a oportunidade de investigar antes de outrem dele se ter ocupado era deste último género.


O caso de S. B.

Chamaremos S. B. ao homem a quem aconteceu o que vamos relatar. Tinha 52 anos e fora sempre, quando cego, inteligente e activo. Costumava dar passeios de bicicleta acompanhando um amigo cujo ombro segurava para se guiar. Muitas vezes punha de parte a sua bengala branca, do que resultava ir bater contra automóveis e camiões estacionados e magoar-se. Gostava de trabalhos manuais. Tinha um barracão no seu jardim, onde fabricava, com instrumentos muito simples, pequenos objectos. Durante toda a sua vida procurara imaginar como seria o mundo da luz e, ao lavar o carro do cunhado, o que era frequente, esforçava-se por fazer uma ideia tão exacta quanto possível da forma do automóvel. Suspirava pelo dia em que pudesse ver, ainda que o seu caso tivesse sido considerado incurável e que nenhum cirurgião se mostrasse disposto a desperdiçar com ele uma córnea doada. Finalmente, fez-se uma tentativa que foi coroada de êxito. Mas, embora a operação tivesse sido bem sucedida, tudo acabou numa tragédia.

Quando, pela primeira vez, lhe tiraram as ligaduras dos olhos e deixou de ser cego, ouviu a voz do cirurgião. Voltou-se na direcção donde vinha o som e apenas viu uma névoa. Compreendeu, por causa da voz, que estava ali um rosto, mas nada pôde distinguir. Não viu de repente o mundo exterior tal como nós o vemos quando descerramos as pálpebras.

Todavia, dentro de poucos dias, conseguiu tirar partido dos olhos; caminhou ao longo dos corredores do hospital sem fazer uso do tacto e conseguiu mesmo ver as horas num grande relógio de parede, porque costumava usar um relógio de bolso sem vidro que consultava com as pontas dos dedos. Passou a levantar-se ao amanhecer e a ver passar, da sua janela, os automóveis e os camiões. Ficou encantado com os progressos que fazia, progressos, na verdade, muito rápidos.

Quando deixou o hospital, levámo-lo para Londres e mostrámos-lhe muitas coisas que nunca conhecera pelo tacto, mas passou a sentir-se estranhamente desanimado. No jardim zoológico foi capaz de dizer os nomes da maior parte dos animais, porque tinha afagado animais domésticos e perguntado que diferenças existiam entre os cães e os gatos, que conhecia pelo tacto, e os outros animais. Como é natural, eram-lhe familiares os brinquedos e os modelos. Não havia dúvida de que utilizava o que anteriormente aprendera pelo tacto e o que ouvira às pessoas que podiam ver, para dizer, vendo-os, os nomes dos objectos. Nisto guiava-se principalmente pelos aspectos mais característicos do que tinha diante de si. Mas o mundo parecia-lhe monótono. Incomodava-o a pintura estalada de uma parede e as manchas e defeitos que notava nos objectos. Gostava das cores brilhantes, mas ficava deprimido quando a luz se extinguia. O seu abatimento foi-se tornando cada vez maior e mais generalizado. Pouco a pouco, deixou de viver uma vida activa e, três anos depois, morreu.

Parece que as pessoas que recuperam a vista, depois de muitos anos de cegueira, ficam profundamente deprimidas. A causa desta depressão é, provavelmente, complexa, mas para isso deve ter contribuído o compreenderem quanto perderam enquanto estiveram cegas — e não só por quanto deixaram de ver mas, também, por quantas oportunidades para elas nunca existiram. Algumas dessas pessoas voltam, passado pouco tempo, a viver sem luz e deixam de fazer qualquer esforço para ver. S. B., muitas vezes, não dava volta ao comutador quando anoitecia e continuava sentado, na escuridão.

Procurámos descobrir com que se parecia o seu mundo visual, fazendo-lhe perguntas e propondo-lhe testes de percepção muito simples. Quando ainda estava no hospital, antes de ser atacado de depressão, mostrava-se muito cuidadoso com as opiniões que emitia e com as respostas que dava. Verificámos que não era normal a forma como avaliava as distâncias. Outro tanto anteriormente acontecera em relação a pessoas na mesma situação. Julgava que poderia tocar o solo com os pés, se se pendurasse no peitoril da janela, mas o solo estava a 10 ou 12 metros abaixo desta! Por outro lado, conseguia calcular muito razoavelmente tanto distâncias como dimensões, desde que já as conhecesse pelo tacto. Posto que ficasse demonstrado ser a sua percepção nitidamente anormal, poucas vezes se mostrava surpreendido fosse com o que fosse.
 


Desenho de S.B. de um elefante, antes de o ter visto
 

Desenhou um elefante antes de lhe termos mostrado um no Jardim Zoológico, mas, quando o viu, disse imediatamente «ali está o elefante» e afirmou que se parecia muito com aquilo que tinha imaginado. Um objecto houve e um objecto que nunca poderia ter conhecido pelo tacto — a Lua — que lhe causou a maior surpresa. Alguns dias depois da operação, viu o que lhe pareceu ser um reflexo numa janela: não era um reflexo mas sim um dos quartos da Lua. Perguntou à enfermeira-chefe de que se tratava e, quando esta lhe respondeu, disse que sempre pensara ser a Lua qualquer coisa semelhante a uma fatia de bolo. Durante o resto da sua vida mostrou-se fascinado por reflexos em espelhos. Costumava passar horas, sentado no café da sua terra, a olhar para um espelho onde se reflectiam as imagens das pessoas.

S. B. nunca aprendeu a servir-se dos olhos para ler embora lesse os caracteres Braille que lhe tinham ensinado na escola dos cegos. Todavia, viemos a verificar que conhecia à vista as maiúsculas de imprensa e os números e isto sem necessidade de qualquer treino ou ensino especial. Foi para nós uma grande surpresa. Apurou-se que lhe tinham ensinado a ler, na escola de cegos, as maiúsculas mas não as minúsculas. Costumavam dar ali aos alunos letras em relevo, sobre blocos de madeira, a fim de aprenderem a conhecê-las pelo tacto. Mas, ainda que S. B. lesse, imediatamente e à vista, as maiúsculas de imprensa, levou muito tempo a aprender as minúsculas e nunca foi capaz de ir além da leitura de palavras muito simples. O certo é que esta descoberta da possibilidade de leitura imediata e à vista de letras que tinham sido aprendidas por meio do tacto veio mostrar claramente que conhecimentos antigos, devidos ao tacto, podiam ser utilizados a favor de uma recém-adquirida visão. Isto é de muito interesse para o psicólogo, porque prova que o cérebro não está nitidamente dividido em compartimentos como muitas vezes se supõe. Mas tudo o que se pode averiguar, em casos desta natureza, é de difícil ou, mesmo, impossível aplicação ao bebé inteiramente normal que começa a ver. O adulto cego sabe muito acerca do mundo exterior, pois muito aprendeu através do tacto e do que lhe disseram pessoas dotadas de visão: é-lhe, assim, possível usar parte desta informação para, a partir de indicações muito ligeiras, completar a identificação de objectos. É também obrigado a aceitar o seu novo sentido e a nele confiar, o que equivale ao abandono de hábitos radicados pela passagem de muitos anos. Na realidade, o seu caso é muito diferente do do bebé.

O uso feito por S. B. do que anteriormente aprendera pelo tacto nota-se claramente naquilo que desenhou, a nosso pedido, quando internado no hospital e durante todo o ano que se seguiu a esse internamento. A série de desenhos de autocarros revela a sua incapacidade para desenhar fosse o que fosse em que ainda não tivesse tocado. No primeiro desenho, as rodas têm raios porque os raios são a parte da roda mas facilmente perceptível ao tacto. As janelas parecem ser representadas tal como ele as conhecia do interior do veículo — e, mais uma vez, pelo tacto. É impressionante a completa ausência de toda a parte da frente do autocarro, parte que lhe era impossível inspeccionar com as mãos e que seis meses, ou até um ano mais tarde, ainda não aprendera a desenhar. A gradual aparição de letreiros nos desenhos foi um sinal de que a educação visual se estava a processar. Durante todo o ano que se seguiu à operação, a complicada inscrição do último desenho continuou a não ter, para S. B., qualquer significação, se bem que, quando ainda internado no hospital, já soubesse ler as maiúsculas das letras de imprensa que lhe tinham ensinado a conhecer por meio das mãos. Parece que, logo a seguir à operação, passou a utilizar largamente tudo quanto aprendera pelo tacto durante a sua cegueira e muito tempo decorreu antes que a sua visão deixasse de estar estreitamente cingida àquilo que já sabia anteriormente.
 


O primeiro desenho de S. B. representa um autocarro (48 horas depois da operação de enxerto da córnea)
 

O que desenhou tinha, provavelmente, aprendido pelo tacto. Falta a parte da frente que nunca tacteara e que não foi capaz de desenhar, mesmo quando lhe pedimos que o fizesse.
 

   
autocarro - 6 meses mais tarde  |   autocarro - 1 ano mais tarde  
 

Seis meses depois — Já aparece a escrita e os raios das rodas (com origem em antigas sensações tácteis) foram suprimidos, mas ainda não é capaz de desenhar a parte da frente do autocarro. Um ano depois, acrescenta os letreiros, mas a parte dianteira falta sempre.

Vimos a forma impressionante como se manifestou a dificuldade de S. B. em fazer uso da sua vista e de confiar nela ao atravessar uma rua. Antes da operação, o tráfego não lhe metia medo. Costumava atravessar sozinho, com a bengala ou o braço teimosamente estendido diante de si, e era ver o tráfego serenar e abrandar como as águas diante de Cristo. Depois da operação, eram necessários dois homens, um de cada lado, para o obrigar a atravessar uma rua. Em toda a sua vida, nunca dele se apossaria um terror igual ao que sentia nestas ocasiões.

Logo após a saída do hospital, quando só ocasionalmente a depressão de que veio a sofrer o atormentava, preferia por vezes usar unicamente o tacto para identificar os objectos. Mostramos-lhe um simples torno, aparelho de que sempre desejara fazer uso, e ficou muito excitado. Mostrámos-lhe primeiro dentro de uma montra do Science Museum — o Museu da Ciência — em Londres e depois abrimos a montra. Enquanto esta esteve fechada, o seu único comentário foi que a parte mais próxima do torno parecia ser um eixo — e realmente era-o. Tratava-se do eixo de transmissão transversal. Logo que o deixámos fazer uso do tacto, fechou os olhos, colocou uma mão sobre ele e afirmou com convicção que era um eixo. Durante cerca de um minuto, manteve os olhos fechados e passou sofregamente as mãos sobre o resto do torno. Depois recuou um pouco, olhou fixamente e disse: «Agora que lhe toquei, posso vê-lo».

Ainda que muitos filósofos e psicólogos pensem que casos desta natureza podem permitir-nos aprender bastante a respeito do desenvolvimento da percepção normal nas crianças, penso que tais casos bem pouco nos ensinam. Como vimos, a grande dificuldade consiste no facto de o adulto, com o seu grande repositório de conhecimentos recebidos doutros sentidos, e por descrição de pessoas dotadas de visão normal, diferir muito do bebé a quem nada ainda aconteceu, desprovido de qualquer conhecimento experimental. É extremamente difícil e, talvez seja completamente impossível, usar casos desta natureza para responder à pergunta formulada por Molyneux. Aquilo que se nos depara é, na verdade, interessante e comovente, mas, tudo ponderado, pouco nos diz acerca do mundo do bebé. Os adultos a quem a vista foi restituída, ou a quem foi dada, não são fósseis vivos de crianças.


Estudo directo dos bebés

Para descobrirmos quanto tem o bebé humano de aprender para poder ver é-nos indispensável possuir indicações de natureza muito diferente da dos factos que acabámos de passar em revista. Temos de averiguar directamente o que um bebé pode ver ou de aumentar os nossos conhecimentos pelo que diz respeito às possibilidades dos adultos quando se trata de aprender a ver objectos insólitos. Em primeiro lugar, examinemos os elementos que o próprio bebé nos pode fornecer.
 

Os movimentos dos olhos do bebé

Frantz abordou recentemente, de forma completamente diferente de tudo o que até aqui tem sido dito, a questão de se descobrir até onde vai a visão do bebé. Contornou a dificuldade representada pela quase completa ausência, no bebé, de movimentos controlados, aproveitando um dos poucos movimentos deste género que o bebé possui: a faculdade de voltar os olhos para os objectos que lhe despertam interesse. Frantz instalou, confortavelmente deitados de costas e a olhar para cima, bebés muito novos, quase recém-nascidos e colocou sobre as suas cabeças pares de figuras, desenhadas sobre grandes cartões, de modo que pudessem facilmente voltar os olhos para elas. Os olhos foram observados e fotografados por meio de uma máquina de filmar, sendo cuidadosamente registado o tempo durante o qual se voltaram para cada uma das duas figuras. Verificou-se que os bebés fixavam durante mais tempo um desenho representando um rosto humano do que um desenho em que figuravam, dispostas ao acaso, as mesmas linhas que tinham servido para representar aquele rosto. Parece que para um bebé que ainda nada aprendeu de especial, a face humana tem já uma significação e, se assim é, estamos em presença de uma nova, simples e importante descoberta.

Notou-se também que os bebés, entre um objecto simples e redondo e a sua representação plana parecem preferir o próprio objecto, o que fez pensar possuírem um sentido inato de profundidade.

Estas experiências podem constituir a prova da existência de uma reacção visual imediata a realidades biologicamente importantes, mas mesmo isto está longe de poder ser considerado uma certeza, porque os bebés tinham visto anteriormente os rostos das mães e é possível que a preferência por modelos semelhantes a rostos tão cedo verificada não seja realmente inata, mas, sim, qualquer coisa que foi assimilada com grande rapidez, talvez por aparecer ligada aos prazeres da amamentação.
 

O «Precipício Visual»

A Senhora Eleanor Gibson, um dia em que fazia um piquenique à beira do Grand Canyon, perguntou a si própria se um bebé colocado à beira do precipício teria, instintivamente, um movimento de recuo. A pergunta foi o ponto de partida para uma bela experiência que incluiu a construção de um Grand Canyon — mas em miniatura e inofensivo. O dispositivo compõe-se essencialmente de uma «ponte» central formada a um dos lados por um vulgar e sólido soalho e, do outro, por uma grande e forte lâmina de vidro por baixo da qual fica o «precipício». Um bebé na idade de engatinhar ou, noutras experiências, um animal muito novo, é colocado sobre a «ponte». A pergunta para que se procura uma resposta é: será o bebé capaz de engatinhar sobre a lâmina de vidro que se sobrepõe ao «precipício»? O que acontece é que o bebé não sai da «ponte» pelo lado da lâmina de vidro, mesmo que a mãe o chame sacudindo o seu chocalho, o que o não impede de engatinhar alegremente do outro lado, onde o soalho é semelhante a qualquer outro. Parece, assim, que os bebés, naquela fase em que andam de gatinhas, se apercebem pela vista da existência de uma cova ou de um fosso. O valor prático desta noção da altura perigosa é, todavia, um tanto diminuído pelo facto de a criança esquecer por vezes onde tem as pernas e rodar sobre si própria, de modo que cairia de costas no «precipício», se não estivesse protegida pelo soalho transparente. Esta experiência, imaginada por Mrs. Eneanor Gibson, faz o bebé, ou um animal muito novo, defrontar um precipício, coberto por uma placa de vidro. O bebé recusa-se a engatinhar sobre o vidro que cobre o precipício e mostra, assim, ter a noção da profundidade e ver o perigo.
 

Imagens deslocadas

O que acabámos de dizer é, muito aproximadamente, tudo quanto é conhecido de maneira directa acerca da percepção dos bebés. Para levar por diante o estudo da forma como se processa a educação da percepção temos de concentrar a nossa atenção em indicações menos directas e muito diferentes das anteriores. Até onde é capaz um ser humano adulto de se adaptar a mudanças bizarras do seu mundo visual?

Antes que Kepler tivesse compreendido que, devido à interposição do cristalino, a imagem que se forma na retina é uma imagem invertida, Leonardo supunha que os raios luminosos para darem uma imagem direita, tinham de se cruzar em dois pontos no interior do olho: na pupila e no humor vítreo. É de presumir que Leonardo estivesse convencido de que uma imagem invertida faria com que víssemos o mundo «de cabeça para baixo». Mas seria assim?
 

Mecanismo da Visão - Leonardo da Vinci, desenho 1492
Mecanismo da Visão - Leonardo da Vinci, desenho 1492
 

O assunto foi minuciosamente examinado por Helmholtz que afirmava não ter importância o ser a imagem direita ou invertida, desde que ela permanecesse sistematicamente ligada às realidades do mundo exterior tal como o conhecemos pelo tacto e outros sentidos.

Acreditava que temos de aprender a ver o mundo relacionando as sensações visuais com as sensações tácteis, mas que nada se perdia por a imagem ser invertida. Helmholtz defendia a tese de que é importante não retardar a educação da percepção, apontando o que acontece aos adultos que nascem cegos e, mais tarde, passam a ver graças a uma operação. Na realidade, Helmholtz não chegou a provar de forma concreta que temos necessidade de «aprender a ver correctamente», mas estava firmemente convencido de que a dificuldade que muitos doentes têm em dizer nomes de objectos e avaliar distâncias apoiava a sua teoria empírica de que a percepção depende da educação. Já vimos algumas das dificuldades que surgem quando se tenta uma interpretação para estes casos.

Podemos estudar a ideia de Helmholtz, de que é necessária uma aprendizagem para não vermos tudo «de cabeça para baixo», através daquelas experiências em que, propositadamente, foi tornada direita a imagem invertida que se forma na retina.
 

Imagens invertidas

As experiências podem dividir-se em dois grupos: aquelas em que a posição ou orientação da imagem é alterada e aquelas em que a imagem é, propositadamente, deformada. Principiaremos pelo trabalho clássico do psicólogo americano G. M. Stratton que, colocando diante dos seus olhos lentes que invertiam as imagens, veio a ser o primeiro homem em cuja retina se formaram imagens direitas.

Stratton construiu uma grande variedade de dispositivos ópticos destinados a deslocar ou inverter as imagens da retina. Utilizou sistemas de lentes e espelhos, incluindo telescópios especiais, montados em armações de óculos que permitiam uma utilização contínua. Os sistemas de lentes determinavam inversões, tanto horizontais como verticais. Stratton verificou que, se usasse simultaneamente dois sistemas de lentes inversoras para obter uma visão binocular, deixava de existir a convergência normal e daí resultava um grande mal-estar em consequência desse «stress». Por tal motivo, aplicou um telescópio inversor a um dos olhos e manteve o outro vendado. Quando não fazia uso das lentes inversoras, vendava ambos os olhos. A princípio, ainda que as imagens invertidas fossem nítidas, os objectos pareciam ilusórios, irreais.

«...as imagens da visão normal que a memória conservava e apresentava continuavam a ser o padrão e a estabelecer o critério da realidade. Os objectos eram assim vistos de uma maneira e «pensados» de outra inteiramente diferente. O mesmo se dava em relação ao meu próprio corpo, cujas partes eu sentia estarem onde as veria se tirasse o aparelho (as lentes inversoras) mas que me apareciam numa outra posição. Todavia, a localização indicada pelas anteriores percepções visuais e tácteis continuava a ser a localização verdadeira».

Mais tarde, porém, os objectos costumavam por vezes parecer quase normais.

A primeira experiência de Stratton durou três dias e, nesse espaço de tempo, fez uso do «aparelho» durante 21 horas. Chegou, então, às seguintes conclusões:

«É-me quase possível afirmar que o problema principal — o da importância da inversão da imagem da retina para se obter uma visão direita — foi completamente resolvido pela experiência, isto porque se a inversão da imagem da retina fosse absolutamente necessária à visão direita difícil seria compreender como a cena, no seu conjunto, poderia ter aparecido, mesmo temporariamente, direita, num momento em que a imagem formada na retina não era uma imagem invertida».

Ainda assim, só ocasionalmente os objectos pareciam normais pelo que Stratton procedeu a uma segunda experiência, usando durante oito dias o dispositivo monocular inversor que concebera. Pelo que diz respeito ao terceiro dia, escreveu:

«Passar pelos estreitos espaços que os móveis deixam entre si exigia muito menos cuidado do que até então. Quando escrevia, podia olhar para as minhas mãos sem que isso me perturbasse ou fizesse hesitar».

Ao quarto dia, achou mais fácil distinguir o lado direito do esquerdo, destrinça que anteriormente fora muito difícil:

«Quando olhava para as minhas pernas e para os meus braços, ou mesmo quando concentrava a atenção nas minhas novas representações visuais, o que via parecia-me mais direito do que invertido».

Ao quinto dia, Stratton pôde andar pela casa com facilidade. Quando se deslocava rapidamente os objectos que o rodeavam pareciam quase normais, mas, quando os examinava com atenção, tinham tendência para parecer invertidos. Algumas das partes do seu próprio corpo pareciam não estar no seu lugar, em especial os ombros que, naturalmente, não podia ver. Mas, quando chegou à tarde do sétimo dia, ao dar o seu passeio, apreciou pela primeira vez toda a beleza da cena que tinha diante de si.

Ao oitavo dia, pôs de parte os óculos inversores e verificou que:

«...a cena parecia estranhamente familiar. A forma como a vista dispunha os objectos era a antiga, a dos dias que tinham precedido as experiências, mas a reversão que se tinha operado em tudo, em relação ao que fora a ordem a que me habituara durante a semana anterior, dava ao que me rodeava um aspecto estranho que só se desvaneceu passadas várias horas. Mas não se tratava da sensação de estar fosse o que fosse de cabeça para baixo».

Ao ler os relatos de Stratton e dos investigadores que se lhe seguiram, fica-se com a impressão de que existe sempre qualquer coisa de bizarro no seu mundo visual, muito embora todos eles tenham a maior dificuldade em explicar exactamente do que se trata. É possível que não seja o mundo invertido que criaram que se torne normal, mas sim eles próprios que deixem de notar quão estranho ele é, até que a sua atenção seja atraída por qualquer pormenor que venha pôr em evidência as anomalias existentes. Lemos descrições de casos em que a escrita aparece perfeitamente centrada no campo visual e, à primeira vista, inteiramente normal, mas, quando a tentam ler, apresenta-se invertida.

Stratton procedeu a outras experiências menos conhecidas, mas tão interessantes como as que acabámos de descrever. Construiu um jogo de espelhos que, montado numa armação, deslocava visualmente o seu próprio corpo, fazendo-o aparecer disposto de forma horizontal diante dele e à altura dos seus olhos. Stratton usou este jogo de espelhos durante três dias (aproximadamente 24 horas de visão) e diz-nos:

«Tinha a impressão de que estava mentalmente fora do meu corpo. Senti, por várias vezes, essa impressão fugidia, mas muito acentuada enquanto durava... Logo que me concentrava e que passava a analisá-la, toda a simplicidade de que o fenómeno se revestia desaparecia e as minhas acções visíveis passavam a ser acompanhadas por uma duplicação delas próprias, expressa nas condições visuais anteriores.»

Stratton, por meio de um espelho, viu-se a si próprio suspenso no espaço diante dos seus olhos. Deu os seus passeios pelo campo usando este dispositivo.

Stratton resumiu os seus trabalhos da seguinte forma:

«As diferentes percepções sensoriais, qualquer que seja a extensão que acabem por assumir, são coordenadas num sistema espacial consistente e harmonioso. Chega-se à conclusão de que a harmonia consiste na coincidência daquilo que acontece com o que esperávamos que acontecesse... As condições essenciais para que exista harmonia são simplesmente as necessárias para que os dois sentidos — a vista e o tacto — se possam controlar reciprocamente. Esta opinião, inicialmente baseada nos resultados obtidos por meio de lentes inversoras, deve ser agora tomada em sentido mais lato, uma vez que, como o mostra a última experiência, a uma determinada posição táctil pode corresponder um espaço visual não só em qualquer direcção mas também a qualquer distância dentro do campo visual.»

Vários investigadores continuaram o trabalho de Stratton. G. C. Brown utilizou prismas para rodar de 75° o campo visual de ambos os olhos, tendo notado uma diminuição na percepção da profundidade e que o uso continuado dos prismas não parecia conduzir a qualquer melhoria a tal respeito, isto muito embora ele, Brown, e os seus ajudantes tivessem acabado por se adaptar ao seu mundo inclinado. Ewert procedeu a estudos ulteriores, repetindo a experiência de Stratton, mas usando um par de lentes inversoras apesar de sentir, nos olhos, os efeitos do «stress», ou mal-estar, já sofridos por Stratton. O trabalho de Ewert tem o grande mérito de incluir medições, sistemáticas e objectivas, da capacidade para localizar objectos das pessoas com quem trabalhou. Concluiu que Stratton tinha exagerado um tanto ou quanto o grau de adaptação verificado e isso levou a uma controvérsia que continua indecisa.

O estudo do problema foi continuado por J. e J. K. Paterson que usaram um sistema binocular semelhante ao de Ewert. Passados catorze dias, ainda não tinha havido adaptação à nova situação. Quando, oito meses mais tarde, repetiram as experiências, utilizando a mesma pessoa que se prestara aos estudos anteriores, verificaram que, logo que as lentes eram aplicadas, apareciam todas as modificações de comportamento que se tinham então processado devido ao uso dos óculos inversores. Parecia, pois, que a aprendizagem consistia mais na sobreposição à percepção original de uma série de percepções específicas do que na reorganização de todo o sistema de percepção original.

As mais recentes e completas experiências em seres humanos foram as realizadas em Innsbruck por Erismann e Ivo Kohler.

Kohler e as pessoas que observou usaram os seus óculos inversores durante longos períodos. Tanto as experiências de Stratton como as de Kohler baseiam-se em narrações verbais. Kohler interessa-se muito pelo «mundo interior» da percepção seguindo a tradição europeia que encontramos nos escritores gestaltistas alemães e, mais recentemente, nos trabalhos de Michotte sobre a percepção da causalidade. Esta tradição opõe-se à tradição behaviorista americana e é lamentável que pouquíssimos movimentos das pessoas que se prestaram às experiências tenham sido filmados no decurso destas últimas. É difícil, guiando-nos por narrações verbais, fazermos uma ideia do «mundo adaptado» daqueles que foram objecto das observações, porque as suas percepções parecem ter sido curiosamente confusas e, até mesmo, paradoxais. Por exemplo: depois das imagens terem sofrido uma reversão da direita para a esquerda, os transeuntes eram claramente vistos do lado da rua onde caminhavam enquanto as roupas pareciam invertidas! De quanto foi observado, a escrita é uma das coisas que causa maior perplexidade. Parecia normal quando para ela se olhava de passagem, mas como que reflectida num espelho quando fixada com atenção.

O tacto influenciava fortemente a visão: durante as primeiras fases da adaptação os objectos tinham tendência para, logo que eram tocados, parecerem normais, como tinham tendência para parecer normais sempre que a aparência que lhes era dada pela reversão se tornava fisicamente impossível. Por exemplo, uma vela parecia invertida antes de ser acendida, mas tornava-se instantaneamente normal, como a chama da parte superior, logo que principiava a arder.

Estas experiências conduziram a estudos em que foram ajustados a animais dispositivos oculares de vários géneros. Uma macaca a quem puseram óculos inversores ficou imobilizada e recusava-se obstinadamente a fazer quaisquer movimentos. Quando, finalmente, se decidiu andar, recuou em vez de avançar, facto que não deixou de ter interesse dado que os óculos inversores tendem a produzir uma reversão na percepção da profundidade. Outras experiências semelhantes foram feitas com frangos e galinhas. Pfister adaptou aos olhos de frangos e galinhas prismas que originavam uma inversão entre os lados direito e esquerdo e passou a observar a forma como debicavam o grão. As galinhas mostravam-se muito perturbadas e não fizeram progressos durante os três meses em que foram obrigadas a usar os prismas. A mesma falta de adaptação foi notada por Sperry em certos anfíbios com que trabalhou. Quando à sua visão era imposta uma rotação de 180°, enganavam-se na direcção em que deviam mover as línguas para procurar alimentos e teriam acabado por morrer de fome se os tivessem deixado inteiramente entregues a si próprios. Hess chegou a resultados análogos com frangos cujos prismas não produziam qualquer reversão de imagens, mas apenas as deslocavam de 7º para a direita e para a esquerda. Pareceu a Hess que os frangos continuariam sempre a debicar ao lado do grão e que nunca se adaptariam à mudança da imagem causada pelos prismas triangulares acabando por concluir:

«Tudo leva a crer que é inata no frango a imagem referente à localização dos objectos no seu mundo visual e que esta imagem não pode ser modificada pela educação, se aquilo que se exige é substituição de uma reacção instintiva por outra que lhe é antagónica.»

Parece claro, a julgar pelas experiências realizadas, que os animais adaptam-se muito menos a deslocações ou reversões de imagens do que os seres humanos. De todos eles, apenas os macacos foram capazes de certa adaptação.

Ficou recentemente provado, em especial pelos trabalhos de R. Held e seus colaboradores, entre os quais Hein, que para terem lugar as compensações de imagens deslocadas é indispensável que o ser vivo examinado faça, com certa energia, movimentos correctivos. Held é de opinião que para estas compensações são de vital importância os movimentos enérgicos e, até, que estes movimentos sejam, logo de início, a base da educação da percepção. Uma das suas experiências com gatinhos é particularmente engenhosa e interessante.

Criou gatinhos na escuridão, só lhes permitindo o uso da visão durante as experiências — o que, no mínimo, era uma maneira de operar pouco usual. Dois gatinhos foram colocados em dois cestos ligados às extremidades de uma vara que podia girar em volta do seu centro. Os cestos também podiam ter movimentos de rotação. O dispositivo estava montado de modo que a rotação de um dos cestos imprimisse ao outro movimento semelhante e, assim, ambos os gatinhos tinham, muito aproximadamente e durante o mesmo tempo, as mesmas oportunidades de fazer uso da visão. Um deles foi colocado no cesto completamente fechado na parte inferior de modo que era transportado sem fazer qualquer movimento, enquanto o outro foi colocado no cesto com aberturas por onde passavam as suas pernas. Andava e fornecia a força motriz de todo o sistema. Held verificou que só o gatinho que fazia exercício desenvolvia a percepção. O outro animal continuava praticamente cego. Ele aventou a hipótese de que a associação do tacto com o movimento era indispensável ao desenvolvimento da percepção.


Imagens deformadas

No seu conjunto, os trabalhos sobre as inversões e deslocações das imagens da retina mostram que os animais menos evoluídos que o homem e o macaco não possuem adaptação. A adaptação nos macacos é certamente muito limitada e ainda se desconhece até onde pode ir no homem. As narrações verbais são um tanto ambíguas, e poucos dados dignos de confiança possuímos a respeito da adaptação motora, posto que seja certo poderem as pessoas reagir muito satisfatoriamente depois de fazerem uso dos óculos durante alguns dias. Não sabemos ao certo se a adaptação consiste na reeducação da percepção, ou na sobreposição de novas reacções às antigas já existentes. Nem mesmo é conhecida a importância da reeducação básica, porquanto, durante as nossas vidas, muitas vezes nos acontece deslocarmos as imagens da retina. Basta para isso que inclinemos a cabeça ou olhemos para um espelho para nele nos admirarmos a nós próprios.

Até aqui, temo-nos ocupado de experiências em que as imagens são invertidas ou deslocadas, mas é possível produzir perturbações de outro género. Estas perturbações são importantes, porque implicam mais uma reeducação interna do próprio sistema de percepção do que simples modificações na relação existente entre o mundo do tacto e o da visão. Também aqui se recorre ao uso de lentes especiais, mas estas agora deformam mais do que deslocam as imagens da retina.

J. J. Gibson notou, durante uma experiência em que usou prismas que desviavam o seu campo visual para um dos lados (15° para a direita) que a inevitável distorção que acompanha a deslocação das imagens pelos prismas tornava-se gradualmente menos acentuada com o tempo, isto é, com a continuação do uso dos prismas. Passou a proceder a medições rigorosas da adaptação à distorção (curvatura) produzida pelos prismas e verificou que o efeito diminuía mesmo que os olhos se movessem livremente em várias direcções. A adaptação era até ligeiramente mais acentuada quando as figuras eram inspeccionadas à vontade, com os olhos a moverem-se livremente, do que quando se mantinha a vista tão fixa quanto possível sobre elas.

Existe uma outra espécie de adaptação, à primeira vista semelhante à estudada por Gibson por meio dos seus prismas deformantes e, mais tarde, com as suas lentes, mas que é, sem dúvida, muito diferente dela pelo que se refere à origem e influência sobre a teoria da percepção. Estes efeitos são conhecidos por «pós-efeitos de figuras» e foram objecto de numerosas experiências durante os últimos anos.

Podem-se provocar pós-efeitos de figuras olhando para uma figura durante algum tempo (cerca de meio minuto) com os olhos o mais imóveis possível. Se uma linha curva for fixada desta maneira e, imediatamente a seguir, desviarmos a vista para uma linha recta, esta última parecer-nos-á, durante segundos, também curva mas no sentido contrário à primeira. O efeito é semelhante ao efeito de Gibson, mas, no caso dos pós-efeitos das figuras, é indispensável manter os olhos rigorosamente imóveis enquanto que, quando se usam os óculos deformantes de Gibson, os olhos podem mover-se livremente em todas as direcções.

Estes efeitos mostram que a adaptação pode ter lugar no sistema da percepção humano. Estas adaptações não são simples reajustamentos entre o tacto e a visão: podem representar um novo escalonamento do espaço visual. Nada indica a existência deste género de correcções em animais menos evoluídos do que o homem.

Ivo Kohler fez recentemente uma descoberta notável usando óculos sem qualquer poder deformante mas cujos vidros eram metade vermelhos e metade verdes, de modo que tudo lhe parecia vermelho quando olhava para a esquerda e verde quando olhava para a direita. Kohler descobriu um novo efeito da adaptação que nada permitia prever. O efeito das cores diminuía gradualmente e, quando tirava os óculos, tudo o que era visto com os olhos voltados para a direita parecia vermelho, tudo o que era visto com os olhos voltados para a esquerda parecia verde. Este efeito é completamente diferente daquele outro em que a formação de pós-imagens é devida à adaptação da retina a uma luz colorida. O efeito de Kohler não está relacionado com a posição da imagem na retina, mas com a posição dos olhos na cabeça e é, necessariamente, devido a uma compensação que tem lugar não nos olhos mas no cérebro.

As inversões que é possível obter por meios ópticos simples situam-se dentro de apertados limites, mas K. U. Smith inventou recentemente uma nova técnica para as conseguir. Smith faz uso de uma câmara de televisão e de um receptor que, neste caso, funciona como monitor em relação à pessoa submetida à observação. Esta vê a sua própria mão no receptor que está ligado electronicamente à câmara de televisão de modo que possa apresentar todas as inversões que deseje produzir.

Torna-se, assim, fácil obter reversões da imagem, quer da esquerda para a direita (laterais) quer de cima para baixo (verticais ou inversões propriamente ditas) sem que sejam afectados os movimentos do olho e da mão. Neste dispositivo a mão fica colocada ao lado da pessoa que está a ser observada e por trás de uma cortina, de modo a não poder ser vista directamente. (Uma vez que o aparelho está longe de ser portátil, os estudos limitam-se a curtas sessões experimentais, o que é preferível às reversões contínuas, com a duração de muitos dias.) A câmara de televisão pode tomar qualquer posição e produzir, além da reversão, a deslocação da imagem no espaço. Mudando de lentes e dispondo a câmara a várias distâncias, podemos conseguir tanto variações no tamanho da imagem como o aparecimento de deformações.

Estas técnicas vieram mostrar que uma reversão de cima para baixo (inversão propriamente dita) causa maior perturbação do que uma reversão lateral em que aparecem trocados os lados direito e esquerdo, posto que a combinação destes dois tipos de reversão seja por vezes menos perturbante do que qualquer delas isoladamente. As mudanças de dimensão não têm, na prática, qualquer influência na maneira como aparece o que se desenha ou escreve.


A deslocação das imagens no tempo

O virtuosismo a que chegou a técnica da televisão torna possível a deslocação das imagens da retina tanto no espaço como no tempo. Esta última deslocação, o retardamento das imagens, é uma deslocação de novo género que promete vir a ser da maior importância. O método consiste em utilizar uma câmara de televisão e um receptor da forma acima descrita mas introduzindo entre a câmara e o receptor um registador «video tape» e um «tape loop» sem-fim de modo a conseguir um retardamento entre o registo feito pela câmara e o «play back» — a aparição da imagem — sobre o receptor. A pessoa que está a ser observada vê as suas mãos ou qualquer outro objecto «no passado»; o atraso é regulado pelo espaço entre o registo e as cabeças do «play back».

O estudo destas deslocações não é de interesse puramente teórico. Tem grande importância na prática, porque os órgãos de comando dos aviões e de muitas máquinas são de acção retardada. Se o atraso perturba o operador e diminui a sua aptidão, as consequências podem ser graves. Verificou-se que um pequeno retardamento (cerca de meio segundo) era o suficiente para que os movimentos passassem a ser bruscos e mal coordenados de modo que se tornava quase impossível desenhar e era muito difícil escrever fosse o que fosse. Este estado de coisas pouco ou nada mudava com a prática.
 

Que devemos concluir?

Passámos em revista uma série de experiências sobre várias espécies de deslocações de imagens da retina. Em todos os casos, as deslocações foram sistemáticas e uma grande variedade delas foi investigada: deslocações verticais e horizontais (simples ou combinadas), distorções (com ou sem liberdade de movimentos dos olhos) e deslocações no tempo.

Não é fácil proceder a uma avaliação dos resultados, mas, a traços largos, parece que os seres humanos são susceptíveis, até certo ponto, de se adaptarem a todas estas deslocações (excepto às deslocações no tempo) e que não existem indicações de qualquer adaptação em animais menos evoluídos do que o homem, excepto, talvez, no macaco.

Significará isto que os bebés humanos têm necessidade de aprender a ver? Com certeza que não, mas se, na verdade, for exacto que os adultos são capazes de modificar drasticamente o seu sistema de percepção para compensar mudanças sistemáticas, será pelo menos plausível admitir que uma aprendizagem inicial é importante. Infelizmente, não sabemos em que medida a adaptação é uma reeducação básica e em que medida consiste numa sobreposição das novas interpretações de percepções às interpretações mais antigas. Mas, em qualquer dos casos, é evidente que o sistema de percepção humano é notavelmente flexível e capaz de se adaptar às novas condições, o que é excelente num mundo que se transforma continuamente.

Quando há realmente adaptação, como acontece nas experiências com pessoas efectuadas por Stratton e Gibson e em que a imagem é invertida ou deformada, não se prova que o mundo acabe por parecer normal. É provável que apenas as suas singularidades deixem de despertar a atenção, o que não é a mesma coisa. Tanto nas experiências de Held, em que pares de gatinhos foram criados na escuridão e só aprendeu a ver, em cada par, o gatinho obrigado a movimentar-se, como nas experiências de Reisen que, precursor deste género de trabalhos, criou chimpanzés em completa escuridão e verificou que, quando trazidos para a luz, em pouco ou nada se lhes desenvolvia a visão, as interpretações geralmente aceites como boas não chegam a constituir certezas.

Os animais criados na escuridão tornam-se geralmente passivos e pouco aprendem seja do que for. Alguns dos indivíduos em que a visão não se pôde chegar a desenvolver parecem ter sido extraordinariamente estúpidos. Um houve que não era capaz de distinguir uma esfera de um cubo pelo tacto! Estas experiências são interessantes e importantes, mas, neste momento, não é possível fazer sobre elas um juízo definitivo. Não há dúvida que, no homem, a percepção é susceptível de se desenvolver por meio de uma aprendizagem. Todo o estudante de Medicina que, pela primeira vez, trabalha com um microscópio fica a saber isto perfeitamente, mas é muito difícil dizer onde se situa o limite entre o que é inato e o que é aprendido durante a infância.

Para aumentar as nossas dificuldades na apreciação deste assunto aparece ainda um problema de lógica que, embora curioso, nos lança na perplexidade, dado que cria dúvidas quanto ao que se deve entender por percepção, principalmente quando interpretamos experiências com animais. Consideremos, por exemplo, a experiência de Held com o gatinho activo e o gatinho passivo. Suponhamos por um momento que o gatinho passivo realmente aprende a ver — no sentido de os estímulos da sua retina passarem a dispor-se de modo a formarem objectos distintos — quando o seu companheiro o faz andar à volta. Como poderíamos nós compreender que o gatinho, no sentido a que nos referimos, aprendeu a ver? Como poderia ele reagir de forma apropriada, se nunca existiu qualquer relação entre o seu comportamento e a sua percepção nos objectos?

Isto põe uma questão relevante: devemos chamar percepção a algo de subjectivo, ao que nos vem dos nossos repetidos contactos com o mundo exterior, ou limitar o estudo ao comportamento controlado pela informação sensorial? Para o behaviorista puro, a experiência ganha através de contactos com o mundo exterior, e não pode ser objecto, nem constituir matéria de estudos sobre a percepção, mas somos obrigados a admitir que, numa sala de concertos ou numa galeria de pintura as pessoas estão sob a influência de alguma coisa que pertence ao seu mundo exterior e que essa alguma coisa foi suficientemente forte para as atrair àqueles recintos. Sempre que os críticos de arte discutem, o assunto das suas discussões não é o simples comportamento dos patronos das artes, antes é o que eles próprios sentem ou pretendem interpretar. E poderemos nós falar do que a percepção dos animais lhes permite assimilar através dos seus contactos com o mundo exterior? Talvez não seja esta a grande e embaraçosa dificuldade. Tal como não compreendemos o mundo das percepções dos bebés, também não compreendemos o mundo das percepções dos animais e o seu comportamento, qualquer que ele seja, não nos fornece informações suficientes. A linguagem é aqui de particular importância, porque transcende a situação imediata criada pelos estímulos e pelas reacções visíveis. Mas, neste caso, a linguagem, com todas as suas armadilhas, está ausente quando dela mais precisávamos.

 

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NOTAS

Uma exposição dos casos de cura da cegueira que se verificaram até 1932 pode ser encontrada no Space and Sight, de M. Von Senden, tr. P. Heath, Methen/Free Press, 1960. O relevo que assumiram estes casos nos tratados de psicologia principiou com o importante livro de D. O. Hebb The Organisation of Behaviour, Chapman and Hall/Wiley, 1949. O caso mais recente verificado é descrito por R. L. Gregory e J. G. Wallace «Recovery from early blindness: a case study» Exp. Psychol. Soc. Monogr. No. 2, Cambridge 1963. Compreende a descrição completa do caso de S. B., exposto resumidamente neste capítulo.

Acerca dos trabalhos de registo dos movimentos dos olhos dos bebés, quase recém-nascidos, ver R. L. Frantz «The Origin of Form Perception», Sci. Amer. 204, 66 (1961).

Quanto às importantes experiências com animais criados na escuridão, ver E. H. Hess, «Space perception in the chick» Sci. Amer. 195, 71 (.1956), bem como A. H. Reisen, «The development of perception in man and chimpanzee», Science 106, 107 (1947) e A. H. Reisen, «Arrasted vision», Sci. Amer. 183, 16 (1950).

Para estudo dos trabalhos de Stratton, ver os seus artigos: «Some preliminary experiments on vision» Psychol. Rev. 3, 611 (1896). «Vision without inversion of the retinal image» Psychol. Rev. 4, 341 (1897) e Psychol. Rev. 4, 463 (1897). Os trabalhos de Ewert, um tanto mais complicados que os anteriores, são descritos por ele no «A study of the effect of inverted retinal stimulation upon spatially coordinated behaviour» Genet. Psychol. Monogr. 7, 177 (1930) e ainda outros dois artigos sobre «Factors in space localization during inverted vision», Psychol. Rev. 43, 522 (1936) e 44, 105 (1937). J. e J. K. Peterson vieram a seguir com «Does practice with inverting lenses make vision normal?», Psychol. Monogr. 50, 12 (1938). Os últimos trabalhos foram resumidos por I. Kohler «Experiments with goggles» Sci. Amer 206, 62 (1962). Outras referências e mais trabalho original, especialmente no que se reporta à deslocação de imagens no tempo, pode ser encontrado em Perception and Motion: an Analysis of Space-structured Behaviour, Saunders, 1962, de K. U. e W. M. Smith. O importante trabalho de Richard Held e dos seus colegas acerca da adaptação de seres humanos a prismas que desviam a luz encontra-se dispersa por vários artigos. Ver R. Held e A. Hein, «Movement-produced stimulation in the development of visually guided behaviour», J. Comp. and Phys. Psychol. 56, 872 (1963) para os pormenores da experiência com gatinhos activos e passivos descrita no texto.

O primeiro artigo sobre o efeito dos óculos que produzem distorções pertence a J. J. Gibson, «Adaptation, after-effect and contrast in the perception of curved lines» J. exp. Psychol. 16, 1 (1933). Os chamados fenómenos de pós-efeito das figuras são descritos em dois artigos: W. Köhler e H. Wallach, «Figural after-effects», Proc. Amer. phil. Soc. 88, 269 (1944) e C. E. Osgood e A. W. Heyer «A new interpretation of figural after-effects» Psychol. Rev. 59, 98 (1951). Para uma apreciação geral dos pós-efeitos das figuras, ver P. McEwen. Figural After-effects, C. V. P. 1958.

 

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Eye and Brain : The Psychology of Seeing - imagem de capa

excerto - cap. 11 de

O Olho e o Cérebro - A Psicologia da Visão
Richard L. Gregory
[Membro do Colégio de Corpus Christi Cambridge]
Título original:
EYE AND BRAIN: The Psychology of Seeing - London, l966
Tradução:  Ilídio Sardoeira e Álvaro Salgado
Editorial Inova, Porto
obra integral aqui.

 


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[25.Jul.2012]
Publicado por MJA