Virginia MacGregor
-excerto-

Milo com o porquinho Hamlet
Milo e Nadja dividiam a carteira dupla que
ficava na frente de toda a sala; Nadja porque havia pedido, e Milo porque
a senhora Harris achava que assim ele enxergaria melhor o quadro-negro.
Mamãe e Papai deviam ter explicado à senhora Harris aquela coisa da
retinite pigmentosa, mas ela não parecia ter entendido que de longe é
melhor para enxergar pelo buraco da agulha. E que, se a classe inteira
está atrás de você, você vira um alvo fácil.
Milo guardou o envelope na mochila.
— Arrumem suas coisas, deixem a cadeira embaixo da carteira e façam
uma fila perto da porta.
Milo estreitou os olhos e olhou para o relógio. Faltava uma hora para
sair da escola e o céu já estava escurecendo. Vovó estava no Não Me
Esqueças havia horas.
— É melhor vocês se comportarem, quinta série. Queremos causar uma
boa impressão para o policial Stubbs.
Desde setembro eles vinham recebendo bombeiros, lixeiros e
paramédicos. Fazia parte do aprendizado para serem bons cidadãos — “e
nunca é cedo demais para pensar nas alternativas profissionais”, disse a
senhora Harris. O problema era que Milo sabia que seria inútil em
qualquer uma dessas profissões. Um bombeiro que não conseguiria ver as
chamas saindo pela lateral da casa ou um lixeiro que pegaria apenas uma
parte do lixo ou um paramédico que não veria uma segunda pessoa caída
na estrada com a perna quebrada. Era preciso enxergar direito ou você
deixaria passar coisas, deixaria as pessoas na mão e seria demitido.
A sala da palestra era uma tenda, sem paredes de tijolo ou telhado.
Havia cadeiras enfileiradas e uma televisão velha em uma prateleira. O
policial Stubbs ficou diante da classe; estava usando uniforme preto e
chapéu azul-marinho com uma faixa quadriculada em branco e azul,
colete à prova de balas, gravata e ombreiras azul-marinho, camisa branca
e, por cima, um casaco de náilon amarelo fluorescente com o rádio preso
no peito e coisas penduradas no cinto, como o cassetete e as algemas,
uma arma de verdade e outros objetos para prender criminosos.
Ao entrarem, ele deu a cada aluno uma etiqueta para que escrevessem
seus nomes.
— Boa tarde. — A voz do policial era tão grave e clara que a classe
ficou em silêncio imediatamente. Até mesmo Stan fechou o bico por um
segundo. Milo desejou ter uma voz capaz de causar aquele efeito. — Sou o
policial Stubbs e hoje vou explicar como vocês podem ajudar a polícia a
fazer de Slipton um lugar mais feliz e seguro. Para começar, vou mostrar a
vocês um vídeo bem curto.
Um burburinho se instalou na classe. A senhora Harris raramente
permitia que assistissem a filmes.
O policial Stubbs ergueu as mãos pedindo silêncio e pigarreou.
— O que vocês verão é a reconstituição da cena de um crime. Quero
que prestem muita atenção. Depois vou fazer algumas perguntas.
A tevê foi ligada.
Milo se concentrou e olhou fixamente através do buraco da agulha. Ele
gostava de televisões, com sua moldura fixa: eram muito mais fáceis de
ver do que a vida real.
Quando terminou o vídeo, o policial Stubbs congelou a imagem
mostrando uma senhora de idade usando rede no cabelo, parada na
calçada diante de uma unidade da Sociedade de Proteção aos Animais.
— Então, vamos ver se temos algum futuro detetive por aqui — o
policial Stubbs disse. — O que é que vocês viram?
— Aquele cara colocou a mão na bolsa da senhora — Stan disparou.
— Levantem as mãos, por favor — a senhora Harris pediu.
O policial Stubbs deu uma olhada na etiqueta com o nome de Stan.
— Muito bem, Stan. Você está certo, foi isso o que aconteceu. Mas eu
estava esperando mais detalhes.
Milo gostou que o policial tivesse colocado Stan no seu devido lugar.
Todo mundo tinha visto qual era o crime — não era preciso ser detetive
para isso.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo.
— Ele tinha um bigode...
— Era alto...
— Não, ele não era...
— Levantem as mãos, classe.
— Ele estava usando uma camiseta cinza.
— Não era cinza, era branca.
— Olhos azuis...
— Não, verdes...
— Agasalho Adidas...
— A senhora estava usando uma peruca...
— Não, não estava...
— Estava, sim...
— Não estava...
— Classe, um de cada vez, por favor.
— Havia outro cara em pé na esquina, na frente do açougue. Um metro
e oitenta e oito de altura, cabelo castanho com gel, vinte e poucos anos,
uma marca no rosto, sapatos de couro marrom, calça jeans preta
desbotada, capuz vermelho. Ele era o vigia.
A classe ficou em silêncio.
Todos olharam para Milo.
As sobrancelhas da senhora Harris se arqueram tanto que Milo achou
que elas iriam sumir na linha do cabelo.
Um sorriso surgiu na boca do policial Stubbs.
— E quem é este jovem? — ele perguntou para a senhora Harris.
— O nome dele é Milo. Milo Moon.
— Muito bem, parece que você tem um olho muito bom, Milo.
Stan bufou sonoramente, mas desta vez ninguém achou graça.
Milo não entendeu muito bem aquela comoção. Era fácil: bastava olhar
para aquilo que você achava que ninguém iria notar. Ele jogava esse jogo
de observação com Vovó o tempo todo: ficavam olhando para a rua da
janela do sótão, tentando perceber coisas que as outras pessoas não viam.
Isso fazia parte do treinamento de Vovó para ajudá-lo com seus olhos,
como o jogo da audição. Também faziam isso com cheiros e, às vezes, até
com sabores, tentando descobrir todos os ingredientes de uma das
refeições de micro-ondas que Mamãe fazia.
Na saída da palestra, o policial Stubbs entregou seu cartão a cada um
dos alunos e disse que, se algum dia quisessem saber mais sobre o que
precisavam fazer para se tornarem policiais – ou se notassem qualquer
coisa estranha nas ruas de Slipton –, poderiam telefonar para ele.
Quando Milo se aproximou, o policial Stubbs disse a ele:
— Você é realmente muito bom, Milo. Precisamos de garotos como
você na força.
— Ele não passaria no exame físico — Stan falou, irrompendo atrás de
Milo.
— Como é? — o policial Stubbs perguntou. Dava para ver que ele não
gostava de Stan.
— Ele é cego como um morcego — Stan falou.
Os alunos da Slipton Júnior percebiam que Milo tinha um problema nos
olhos, apesar de ele tentar esconder.
O rosto do policial Stubbs ficou vermelho como um pimentão.
Milo sentiu os olhos arderem. Pegou o cartão do policial Stubbs,
guardou no bolso, disparou pelo corredor e cruzou os portões da escola
naquela tarde escura de dezembro.
FIM
ϟ
-
- Virginia MacGregor
foi criada na Alemanha, na França e na
Inglaterra por uma mãe que não se cansava de contar histórias. A partir
do momento em que conseguiu segurar uma caneta na mão, Virginia começou
a escrever suas próprias histórias, geralmente tarde da noite ou na
parte de trás dos livros, na escola. Virginia deve seu nome a duas
grandes mulheres: Virginia Wade e Virginia Woolf, pois sua mãe tinha a
esperança de que ela se tornasse escritora e uma estrela do tênis.
Virginia passou a infância rabiscando, adorando os dias chuvosos e
rezando para que um raio acertasse seu professor de tênis. Depois de
estudar em Oxford, começou a escrever regularmente enquanto trabalhava
como professora de inglês e inspetora em um internato. Virginia mora em
Berkshire (Inglaterra) com seu marido, Hugh, e a sua filha. 'O Olhar de
Milo' é seu primeiro romance.
-
ϟ
UM OLHAR ESPECIAL SOBRE A INFÂNCIA, A VELHICE E OS
DESENCONTROS QUE TORNAM NOSSAS
VIDAS ÚNICAS:
Milo Moon tem nove anos e sofre de retinite pigmentosa. Ele está
perdendo a visão e logo ficará cego. Mas, por enquanto, vê o mundo por um buraco
de agulha e percebe coisas que as outras pessoas não notam. Mas quando a adorada
avó de Milo começa a sofrer de demência e vai para uma casa de repouso, ele
percebe que há algo de muito errado naquele lugar. Os adultos não lhe dão
atenção e, por isso, com a ajuda do cozinheiro Tripi e de Hamlet, seu porquinho
de estimação, Milo decide mostrar o que realmente acontece na casa de repouso e
quem é a sinistra enfermeira Thornhill. Perspicaz, inteligente e surpreendente,
O olhar de Milo é um romance cheio de grandes ideias, verdades simples e uma
mensagem emocionante, capaz de tocar todas as pessoas. Milo vê o mundo de uma
forma muito especial e será impossível não se apaixonar por ele, saborear cada
momento e depois compartilhar sua história.
ϟ
O Olhar De Milo
-excerto-
Virginia MacGregor
Leya Brasil (2014)
2.Set.2016
Publicado por
MJA