
ilustração de "Papirofobia" - Susanna Tamaro, Ed. Atlántida, 2000.
Ao sair de casa, naquela manhã, Leopoldo sabia que já não voltaria atrás. O dia anterior tinha sido o do seu aniversário
― o seu oitavo aniversário ― e tinha sido um dia tristíssimo. Tinha pedido como prenda uma coisa que queria havia já tanto tempo: umas sapatilhas, uma vez que, apesar de viver na cidade, gostava imenso de correr. Quando corria sentia o ar bater-lhe na cara e sentia-se feliz. Porém, tinha poucas ocasiões para correr: de facto
― exceptuando o horário da
ginástica na escola ―, não tinha mesmo nenhuma. Ele gostaria de poder correr pelos campos ou pela beira-mar. Tantos dos seus colegas de escola, aos fins-de-semana, iam com os pais para o campo, mas
ele não. Nem o pai nem a mãe gostavam de sair da cidade. A mãe tinha pavor de
ratos e aranhas, e o pai era muito preguiçoso; assim, todos os seus tempos livres eram passados em casa, a ler.
LER É IMPORTANTE
Pela consistência e pelo peso, apercebera-se
imediatamente de que não era de esperar nada de bom do embrulho que a mãe lhe
fizera escorregar para as mãos. Desembrulhara-o lentamente, com circunspecção, como
se lá dentro estivesse uma bomba prestes a explodir. Quando, em vez das sapatilhas, lhe apareceram dois livros de capa luzidia, não aguentou mais e desatou a chorar, tal a raiva que sentia. No rosto dos pais estampara-se uma grande desilusão. Meu anjo
― dizia a mãe ―, não é preciso chorares
agora, choras depois de os teres lido. Olha! já viste que lindas ilustrações coloridas? dizia o pai, prazenteiro. Leopoldo tinha-os atirado ao chão com raiva e,
batendo com a porta, tinha-se ido refugiar no quarto. Desde que nascera que, pelo seu aniversário, não
tinha recebido senão livros. Primeiro, livros fofos de pano, depois, livros com
grandes desenhos e poucas palavras, depois, ainda livros, mas com muitas
palavras e poucos desenhos. Da sua cama, ao erguer o olhar, não conseguia ver
senão estantes e estantes cheias de livros e, de todos esses livros, não havia
sequer um que ele tivesse desejado. Pouco depois, naquela mesma tarde, quando a mãe com
voz persuasiva, por detrás da porta, o fora convidar para apagar as velas do
bolo, ele gritara: Apaguem-nas vocês! ― e depois, para não ouvir mais
nada, enfiara a cabeça debaixo do travesseiro. Estava triste e furioso. Parecia-lhe impossível que
os seus pais, após oito anos de convivência, não conseguissem perceber que os
livros não lhe interessavam para nada! Que os pais gostassem, tudo bem, mas não
era por isso que ele haveria de gostar. Bastava-lhe olhar para aquela superfície branca
cheia de gatafunhos pretos, para que a cabeça lhe começasse a andar à roda como
se fosse um carrossel. No ano anterior, a mãe, preocupada com os seus
péssimos resultados escolares, tinha-o inclusivamente levado a um psicólogo. O
psicólogo tinha-lhe feito imensas perguntas, tinha-o feito brincar com uns
cubinhos de plástico e depois, no fim, tinha dito: Papirofobia, mais um caso de papirofobia. Papirofobia?! ― tinha repetido a mãe, alarmada, e aí
o psicólogo tinha-lhe explicado que se tratava de um problema recentíssimo e em rápida
expansão: os primeiros casos tinham sido registados nos Estados Unidos dez anos
antes e, de lá, como uma epidemia invisível, tinha invadido todo o mundo
civilizado. A culpa, minha senhora ― dissera ele, enquanto os
acompanhava até à porta ―, é da televisão, dos jogos de vídeo. Tire-lhos,
obrigue-o a ler, a usar a cabeça e em poucos meses há-de notar incríveis
melhoras. Ao ouvir tais palavras, Leopoldo bem gostaria de
protestar mas, mesmo que o tivesse feito, teria sido completamente inútil
porque, entretanto, já se encontravam no patamar e o psicólogo tinha
desaparecido atrás da porta. Mas eu pouca televisão vejo ― dissera-lhes Leopoldo
ao entrar para o carro. Ouviste o psicólogo, não ouviste? respondera a
mãe. ― Vê-se que até esse pouco te faz mal. E nunca tive um único jogo de vídeo! A mãe encolhera os ombros: Eu sei lá o que tu fazes na escola! Se calhar, em
vez de estudares, passas horas e horas agarrado aos jogos dos teus colegas. A partir desse dia, para tratar a papirofobia, os
pais tomaram medidas drásticas. A televisão fora embrulhada num saco preto do
lixo e selada com uma corrente e três cadeados. Todas as manhãs, antes
de ir para a escola, a mãe polvilhava-lhe as pontas dos dedos com carvão, para
ver se ele brincava com jogos de vídeo. Depois, enquanto Leopoldo descia as
escadas, dobrado sob o peso da mochila, gritava atrás dele: Ai de ti, se voltas com as mãos limpas! Se as medidas tivessem ficado por aí, Leopoldo, de
uma maneira ou de outra, teria conseguido sobreviver. No fundo, a televisão não lhe dizia
grande coisa. A verdadeira tragédia era o "Tantum Quotidianum" estabelecido
pelo pai. Eu, com a tua idade ― dissera-lhe o pai, mal fora
revelado o funesto diagnóstico ―, tinha lido, pelo menos, o equivalente a
metade do meu peso. E agora que tenho trinta anos, posso dizer com orgulho que
os volumes que li, pesam, pelo menos, dez vezes mais que eu. Li centenas de
livros, centenas de metros cúbicos de papel impresso. Se não consegues ler
porque estás doente, quer dizer que é preciso que te trates. E como é que se
trata um doente? Tomando remédios com regularidade e constância, e é isso que
também tu irás fazer. Partindo deste princípio, determinara que Leopoldo
deveria começar o dia com cem gramas de leitura, cem gramas na primeira semana, duzentos na segunda, trezentos na terceira e por aí adiante. Se as etapas
fossem sendo respeitadas, antes do Verão teria chegado, com certeza, ao quilo
quotidiano, e então estaria curado. No dia seguinte, para assegurar o perfeito
funcionamento do Tantum Quotidianum, pusera a velha balança de cozinha ao pé da
porta da rua. Antes de sair, Leopoldo deveria colocar num dos pratos, tudo o
que tinha lido. Nada de peso, nada de jogos. Desde o início do Tantum Quotidianum, Leopoldo
começara a sofrer de terrores nocturnos. Sonhava que andava de bicicleta como o
fazem os campeões numa prova por etapas: pedalava e pedalava, para baixo e para
cima nas subidas, sempre em frente nos caminhos direitos. Depois, de repente,
quando era quase certo que teria vencido, divisava perante si uma figura
gigantesca ― parecia um papão mas, em vez de ter aqueles pêlos todos e os
longos caninos, era todo feito de livros; caminhava de forma desconchavada,
agitando no ar as mãos feitas de livros policiais e colecções baratas: em vez
de pernas, tinha pilhas e pilhas de enciclopédias, avançava a cada passo na sua direcção
de forma cada vez mais ameaçadora. Leopoldo carregava nos travões, mas não
havia maneira de eles responderem, fincava então os pés no chão, mas era
demasiado tarde: o papão já estava ao pé dele, em cima dele, desabando sobre
ele... precisamente um minuto antes de ser esmagado pela Enciclopédia Britânica
em peso, Leopoldo abria os olhos a gritar e acordava lavado em suores. De manhã, depois de ter tido aqueles sonhos,
Leopoldo sentia-se cansado. Na escola, adormecia com facilidade ou então
punha-se a chorar. Alguns dias antes do seu aniversário, a mãe, vendo-o piorar
cada vez mais, perguntara ao marido se não seria caso de interromper o
tratamento. Querida, isto é um tratamento homeopático; é natural
que no início os sintomas tendam a piorar ― respondera então o pai. Naquela mesma tarde, tinham saído para lhe comprar a
prenda e, em vez de terem ido a uma loja de artigos desportivos, foram a uma
livraria. De todas estas coisas se lembrou Leopoldo enquanto
estava com a cabeça debaixo do travesseiro no dia do seu aniversário. E enquanto se lembrava
delas, dava-se conta de ser como uma panela de pressão: mais uma semana de
Tantum Quotidianum e explodiria. Precisava de tomar uma decisão, fazer qualquer
coisa, mas o quê? Quando a mãe o chamou para o jantar, já tinha as
ideias claras. Iria perguntar aos pais por que é que ler era assim tão
importante. Pensando e repensando nos últimos meses, de facto, dera-se conta de
que não tinha havido uma única vez em que lhe tivessem explicado por que é que
era preciso ler. Assim, enquanto a mãe lhe fazia escorregar para o prato uns
pasteizinhos meio queimados, Leopoldo tomou fôlego e então, de uma só vez,
disse: Mas por que é que é preciso ler? Àquela pergunta seguiu-se um instante de silêncio. O
pai deu uma dentada num pastel e cuspiu-o logo de seguida porque o recheio estava
incandescente. O que é que estás para aí a dizer? perguntou a mãe,
sentando-se à mesa. Por que é que é preciso ler? insistiu Leopoldo. Porque ― respondeu o pai, bufando ― quem lê conhece
as coisas. E quem as conhece, domina-as. Porque ler é importante ― prosseguiu a mãe. Leopoldo tocou com o garfo num pastel. O Papa também é importante e nem toda a gente é
Papa. Ler... bem... ― observou a mãe. ― Se não se lê, a
cabeça começa a girar em roda livre e isso não é nada bom. Ler torna-nos diferentes ― acrescentou o pai que, no
entretanto, lá tinha conseguido engolir um pastel. Sem livros não se pode ser
feliz. Leopoldo escutou tudo sem responder e sem pôr
objecções. Depois, quando acabou de comer, levantou-se, disse obrigado e voltou
para o seu quarto. Apagou a luz e fingiu que dormia. De todas as respostas que
os pais lhe tinham dado, não havia uma única que lhe parecesse credível e
verdadeira. Uma vez, tinha ido jantar a casa do seu colega de
carteira. Os pais dele tinham uma pastelaria e em toda a casa ― fora a lista
telefónica ― Leopoldo não vira um único pedaço de papel. Tinha comido coisas
deliciosas e tinha-se divertido como jamais se divertira na sua própria casa.
Embora nunca tivesse lido um livro, a família do seu colega tinha-lhe parecido
uma família feliz. E então? Se os livros não serviam para tornar as pessoas
felizes, para que é que haviam de servir? De madrugada, Leopoldo encheu a mochila da escola
com uma camisola e um pijama e nos bolsos laterais pôs uns bolinhos. Tinha decidido fugir de
casa e não havia nada, absolutamente nada, que o pudesse fazer mudar de ideias.
Tal como todas as manhãs, cumprimentou a mãe à porta de casa, disse-lhe mais um
adeus já do pátio enquanto ela o olhava da janela e depois, com o passo mais
normal possível, seguiu pelo caminho que fazia todos os dias para ir para a
escola. Mas em vez de voltar à direita no cruzamento, continuou sempre em
frente até que, de repente, encontrou um autocarro parado com as portas
abertas. Sem olhar à sua volta, saltou lá para dentro e, escondido entre as
pernas das pessoas grandes, afastou-se de casa, da escola, daquele
mundo onde tanto tinha sofrido. Na verdade, Leopoldo, como todas as crianças que
fogem de casa, não tinha a mínima ideia de para onde ir. Assim, fez todo o
percurso do autocarro, e quando este parou no fim da linha, desceu juntamente
com os últimos passageiros. Olhou em seu redor. Tinha chegado a uma grande praça
desconhecida. De um lado havia um enorme armazém e, do outro, a entrada de um
parque. Leopoldo enfiou-se logo no grande armazém e, pelas escadas rolantes,
chegou à secção de artigos desportivos. Aí, sobre uma prateleira cintilante, estavam expostas sapatilhas de todas as formas e
cores. Com o coração a bater-lhe fortemente no peito, parou para as ver. Como
as desejava! Daria qualquer coisa para ter um par assim nos seus pés. No exacto momento em que esticava a mão para o par
que lhe parecia mais bonito, ouviu uma voz atrás de si: Desejas alguma coisa, pequenote? Leopoldo voltou-se; era uma empregada de loja com ar
de abelhuda. Onde está a tua mãe? perguntou-lhe ela
imediatamente. Leopoldo sentiu-se corar. Está na outra secção ― respondeu mentindo e, antes
que a empregada lhe pudesse perguntar qualquer outra coisa, desceu a correr as
escadas e abandonou o grande armazém a toda a velocidade. O parque é muito melhor, pensou, lá há tantas
crianças e ninguém fará caso de mim. E dirigiu-se com grandes passadas para a
entrada. Durante algum tempo, andou a vaguear pelas pequenas estradinhas do
parque. Quando chegou à zona de parque infantil, parou para brincar. Andou de
escorrega, para cima e para baixo, de baloiço, para a frente e para trás.
Brincava mas não se divertia nada. Havia como uma pequena nuvem negra dentro de
si, e essa nuvem fazia sombra sobre tudo o resto. Se calhar é culpa da fome,
pensou a um certo ponto e, deixando o baloiço, foi à procura de um lugar
afastado onde pudesse comer o seu bolinho. Percorreu duas vezes o parque, para
a frente e para trás, sem encontrar um único banco livre. Por fim, viu um, onde estava sentado apenas
um senhor de muita idade, de bengala e óculos escuros. Deve ser um cego, pensou
Leopoldo e, sem perder mais tempo, sentou-se ao pé dele, abriu a mochila e
tirou de lá o bolo. Ao ouvir o barulho do papel, o velho estremeceu,
levantou a cabeça e perguntou: Quem és tu? Leopoldo ficou com o bolo suspenso no ar. Fujo ou
não fujo?pensou, mas depois respondeu: Eu chamo-me Leopoldo! És uma criança? Sim ― respondeu Leopoldo com a boca cheia. E por que
é que não estás na escola? Leopoldo sentiu o nariz crescer como o do Pinóquio. A professora hoje estava doente ― disse, sem grande
convicção. O velho ficou uns instantes em silêncio. Sabes ― disse depois ―, quando encontro uma criança
de manhã, penso sempre que fugiu de casa. O que vale é que é cego, pensou então Leopoldo,
porque sentia as faces ficarem cor de púrpura. E sabes porque é que penso assim? retomou o velho. ― Porque eu, com a tua idade, fugi de casa. A sério?! ― exclamou Leopoldo, ficando quase
sufocado com o bolo. Pois é. Era muito infeliz em casa, e por isso fui-me
embora. E para onde... bem... onde é que dormia? ― perguntou
Leopoldo, muito interessado nos pormenores práticos. Não vais acreditar, mas apesar de ser baixote,
embarquei num veleiro. Como grumete? Sim, como grumete. Dito isto, o velho começou a contar a sua vida.
Tinha dado a volta ao mundo umas boas dezoito vezes. Dando voltas e voltas à
Terra, tinham-lhe acontecido coisas absolutamente extraordinárias. Caçara
baleias ferocíssimas de cores inacreditáveis, combatera contra os piratas da
Malásia e do mar da China, escapara deles agarrando-se a um tronco, sobre esse tronco andara à deriva e chegara
a uma ilha com um vulcão, uma ilhazinha perdida no meio do oceano indico. Ali
conhecera selvagens que eram tão pequenos que cabiam na palma da sua mão, estes
tinham-no eleito seu rei, mas também de lá tinha fugido. No dorso de um golfinho, chegara a uma outra ilha. Nessa ilha vivia uma princesa lindíssima e ele apaixonara-se imediatamente por ela, só no dia
anterior ao casamento descobrira que era uma bruxa: se se tivesse casado, nessa mesma noite, ela tê-lo-ia transformado em
porco. Então, atirara-se ao mar e nadara e nadara até
chegar a um transatlântico que fazia rota para ocidente. Dali fora até à
Crimeia e, da Crimeia, montado num belíssimo cavalo, atravessara a Rússia e a
Sibéria inteiras. Nessa mesma manhã, dera-se o terrível acontecimento que o
deixara cego. Aconteceu na Mongólia ― disse com um profundo
suspiro. ― Tomando-me por um espião, uma tribo de rebeldes tirou-me a vista com
uma espada incandescente.
![Miguel Strogoff cego - [Júlio Verne] desenho de Jules Férat, 1876](http://www.deficienciavisual.pt/Quadros/Michel_Strogoff_cego-desenho%20de%20Jules_Ferat-1876.jpg)
Miguel Strogoff cego - desenho de
Jules Férat (1876)
para a obra Miguel Strogoff de Júlio Verne
Que coisa assustadora ― murmurou Leopoldo. Pois é, é realmente assustador ― disse o velho. ― Mas sabes, por mais que te possa parecer estranho, não lamento nada do que fiz.
Se voltasse a nascer, faria exactamente as mesmas coisas, do princípio ao fim. Seguiu-se um longo silêncio. Os sinos de uma igreja
bateram uma hora. O velho levantou-se. Vem comigo ― disse ―, vamos comer qualquer coisa. Foram a uma charcutaria e comeram seis croquetes de
arroz cada um. Enquanto engolia o sexto croquete, o velho disse: Sabes, Leopoldo, há pouco disse-te uma mentira... Qual foi? Que não lamento nada do que fiz. Na verdade, tenho
pena de uma coisa, sabes o que é? É não ter acabado um livro. Um livro! ― exclamou Leopoldo como se o velho
tivesse dito uma barbaridade. Como é que se podia ter pena de não ter acabado
um livro? Chama-se "O Vagabundo das Estrelas" ― continuou o
velho. ― Já estava quase no fim quando os mongóis me cegaram. Como é que era a história? perguntou Leopoldo,
por pura gentileza. O velho começou a contar. Era a história de um homem
mantido prisioneiro injustamente e por muito tempo. Acorrentado e no escuro,
começara a viajar com o pensamento. Como se tivesse à sua disposição a máquina
do tempo, conseguira viver vidas de pessoas de épocas longínquas. Vencida a inicial reserva, Leopoldo seguia avidamente o
desenrolar da história. Era uma história fascinante, cheia de magia. E depois, precisamente, não consegui ler o resto ― disse o velho, desconsolado. Leopoldo esmagou sobre a fórmica um grão de arroz
que caíra do croquete. Tenho uma ideia! exclamou de repente, em voz alta. O que é? Vamos a uma livraria e acabamos de o ler! O velho levantou-se e pagou a conta. Uma óptima ideia, realmente
― disse, enquanto saía
de braço dado com Leopoldo. A livraria não ficava longe. Perguntaram logo a um empregado
onde se encontravam os livros de aventura e, uma vez chegados à frente da
estante, Leopoldo encontrou-o quase imediatamente. Foram para um cantinho longe
dos olhares indiscretos e procuraram a página em que a história tinha sido
interrompida. Está aqui! ― exclamou Leopoldo, passando os gordos
títulos dos capítulos e, depois de ter aberto bem o livro, tossiu para
clarificar a voz. Seguiu-se um instante de silêncio. Leopoldo olhava
para as páginas e sentia as lágrimas virem-lhe aos olhos. Por mais que, daquela
vez, tivesse vontade de ler, estava-lhe a acontecer uma coisa que lhe acontecia
cada vez que abria um livro: todas as letras negras se estavam a transformar
num aglomerado de formigas bêbedas que, sem nenhuma regra ou ordem, saltavam de
um lado para o outro da folha. E então? ― perguntou o velho, já impaciente. Um momento ― disse Leopoldo com a voz turva pelo
choro. ― A página é uma grande confusão. Não sabes ler? perguntou o velho, desconfiado. Claro que sei, já estou na terceira classe ― respondeu
Leopoldo. Naquele momento passou a seu lado uma empregada da
livraria. Vendo Leopoldo a afastar e aproximar o livro dos olhos, disse ao
velho: O seu netinho deve ter-se esquecido dos óculos. Por que é que não me disseste isso antes? perguntou
o velho. Mas eu não uso óculos! respondeu Leopoldo. Se só consegues ver gatafunhos à tua frente, quer
dizer que devias usar. Dito isto, o velho dirigiu-se à caixa e pagou o
livro. Logo que saíram da loja, disse: Uma vez que foste tão simpático ao fazeres-me companhia
durante tanto tempo, vou acompanhar-te a casa. Leopoldo, a esse ponto, gostaria de lhe ter dito que
fugira de casa, mas não teve coragem e, assim, entrou no autocarro e fez, ao
contrário, o percurso que fizera sozinho naquela manhã. Quando bateram à porta, o coração de Leopoldo batia
fortemente. A mãe, ao vê-lo, deu um grito de alegria e esmagou-o
com um abraço mais próprio de uma serpente. Depois, desculpando-se pelas
lágrimas, fez entrar o velho para a sala e ofereceu-lhe um café com aguardente.
Aí, o velho contou a história toda do dia até ao momento em que Leopoldo tinha
tentado ler. O vosso filho é míope ― disse, bebendo o último gole
de café. ― Míope ou astigmático ou coisa que o valha. Resumindo, para ler,
precisa de usar óculos. Leopoldo viu a mãe ficar vermelha como o traseiro de
um macaco, e o pai, roxo como uma beringela madura. Dentro de si, sentia uma
vozinha que o fazia rir; a nuvem tinha desaparecido e já só tinha vontade de
cantar. O pai tossiu de atrapalhação. Óculos? repetiu. ― Claro, vamos já tratar disso. Saíram de casa todos juntos. Primeiro acompanharam o
velho a casa, depois foram ao oftalmologista. Passados dois dias, Leopoldo tinha sobre o nariz
duas lentes tão espessas como fundos de garrafa. Passou a noite inteira a ler "O
Vagabundo das Estrelas" e, na tarde seguinte, foi ter com o velho ao parque para
lhe contar o fim da história. Depois daquele livro, muitos outros leu. Quando passou de ano, recebeu umas sapatilhas e,
pelo menos uma vez por semana, ia ao parque correr. Quando estava cansado,
sentava-se ao pé do velho e os dois falavam sobre livros. Precisamente numa
dessas tardes, quando já era um pouco maior, disse ao seu velho amigo que tinha
descoberto que a história que este lhe contara acerca da sua vida, se parecia
com a de Ulisses e do capitão Ahab, com a de Miguel Strogoff e com a de
Guliver, parecia-se com a vida dos tigres da Malásia e com tantas outras
histórias que lera nos livros. O velho desatou a rir. É verdade, eu menti-te, não era um marinheiro mas um
guarda-nocturno. Para combater o tédio e para me aguentar em pé, lia sem parar. O
mar, não o vi senão em postais, e agora, jamais o poderei ver; porém, quando
estou aqui sentado no banco ― sozinho e na escuridão ― à minha frente vejo
todos os mares do mundo. Vejo-os e sinto-lhes o odor a salitre, distingo as
brisas leves das que anunciam a tempestade, como se na verdade tivesse dado, no
cesto da gávea de um veleiro, dezoito vezes a volta ao mundo.
FIM

Susanna Tamaro
nasceu em Trieste, Itália, no ano de 1957. Formou-se em Realização no Centro Experimental de Cinematografia de Roma. Durante dez anos
trabalhou para a televisão como realizadora de documentários científicos.
Atualmente, é uma das escritoras italianas mais conhecidas e aclamadas em todo o mundo, e o
conjunto da sua obra, que inclui títulos bem conhecidos do público português – Vai Aonde Te Leva o Coração, Com a Cabeça nas Nuvens, Para Uma Voz Só, Escuta a Minha Voz
ou Regresso a Casa – vendeu vários milhões de exemplares à escala mundial.
Ed. Presença
ϟ
texto integral de
'O Menino Que não Gostava de Ler'
Susanna Tamaro
título original: "Papirofobia", 2000
tradução: Maria Luísa Jacquinet
Editorial Presença
1.ª edição: Lisboa, 2000
[17.Dez.2012]
Publicado por
MJA
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