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 Sobre a Deficiência Visual


O DOSVOX em Minha Vida

Leniro Alves

Cupido com óculos escuros - O amor é cego

 

Quando soube que estavam solicitando depoimentos para saber como o DOSVOX teria mudado a vida de seus usuários, interessei-me em prestar o meu, mas, me faltava a solução para um problema: não gostaria de me identificar. Por que? Os que se derem ao trabalho de ler vão entender com certeza. Até que surgiu este "amigo" que, por não poder honrar certa dívida que tem para comigo, resolveu ante proposta, que lhe fiz, visando perdoá-la, emprestar-me o nome para que pudesse eu contar minha história. (Vejam que até para pagar dívidas, ele apenas empresta). Mas, esqueçamos este indivíduo e vamos à história:

— "DOSVOX, o que você deseja?".

Esta pergunta me persegue desde o dia em que a ouvi pela primeira vez. Percebi que, para ouvi-la por iniciativa própria, deveria antes mesmo de ter um computador, dominar o teclado da máquina de escrever. Daí, quando disse lá em casa que iria entrar numa aula de datilografia, ante o par de perguntas: — "Pra quê?" "E como você vai saber aonde estão as teclas?" — dei apenas uma resposta:

— "É que, diferentemente das coisas aqui em casa, as teclas estão todos os dias no mesmo lugar".

Considero importante dizer que me casei muito cedo e entendo que, como minha mulher nunca tinha visto um cego, muito menos eu uma vidente, ficamos encantados um com o outro. Tenho a impressão de que ela confundiu a admiração que sentiu por mim, quando viu que apesar de ser cego, eu podia falar, andar, rir, etc, principalmente etc com paixão. E eu, por minha vez, fiquei apaixonado pela paixão que ela sentiu por mim.

Diante da minha resposta, considerada mal criada como a maioria delas, esqueceu-se da outra pergunta e fui deixado em paz quanto às aulas que, provavelmente, foram colocadas na conta de mais uma maluquice minha, mais uma daquelas coisas que gostava de fazer e que não serviam para nada — segundo a opinião dos lá de casa — como a prática do rádio amadorismo, por exemplo. É bem verdade que, às vezes, eu gritava tanto que cheguei a pensar que o rádio seria dispensável, que o cara ia acabar me ouvindo aonde quer que ele estivesse. Em compensação, tive a vantagem de, de lá para cá, nunca mais ter ficado rouco. Infelizmente, minha mulher não percebia essas vantagens e implicava com o meu inofensivo passatempo. Assim é que acabou sendo para ela mais conveniente esquecer-se de questionar a razão pela qual iria eu entrar para uma aula de datilografia. Com certeza, ela deve ter pensado que o barulho das teclas lhe daria menos dor de cabeça. E com o objetivo de um dia dedilhar e poder ler/ouvir o por mim escrito, já que conhecera o DOSVOX através de, esse sim, um amigo, dediquei-me àquelas aulas. Em pouco tempo, (não tão pouco assim, mas, também não tanto!), estava dominando razoavelmente o teclado. Ali Estava o primeiro resultado do meu entusiasmo com o DOSVOX.

Na verdade, fui me entusiasmando com ele aos poucos. Meu amigo foi me mostrando o que conseguia fazer com toda aquela parafernália e, talvez, por distração, (frise-se que o sentido pretendido é por distração mesmo!), resolvi adquirir o tal do computador. Quando dei a notícia em casa, o terremoto não veio de pronto, mas, já foi se desenhando:

— "E pra que você quer isso?"

Na verdade, eu mesmo não sabia bem pra quê. Contudo, se até então sofrera com a acusação dos mais diversos acusadores, de não querer nada... Pronto, finalmente, resolvera querer alguma coisa!

— "Mas, e a enceradeira nova, e a televisão que está precisando de outra, e a obra do banheiro? Etc... Etc..."

Nunca respondi a tais perguntas. Ou por outra, respondi com a chegada, um dia lá em casa, do computador que veio por mãos indicadas pelo tal amigo. E eu que até então me contentara em não querer nada, ouvindo meu radinho e/ou assistindo os jornais da TV, sem falar no já citado diálogo com meus macanudos (forma de se chamarem uns aos outros dos usuários do PX, uma faixa de rádio amador), eu entrava ali numa nova vida.

Diante daquela pergunta — “DOSVOX, o que você deseja?" — via-me tendo que desejar alguma coisa e fui desejando... Desejei jogar o jogo dos palitinhos (coisa que sempre fiz, mas, de outra forma e com outro nome). Desejei jogar o jogo da forca, e lá ia eu, desejando e jogando. Então, já não podiam dizer que eu não queria nada!

De desejo em desejo, fui descobrindo outros. Descobri que podia ler e/ou escrever a hora que me desse na telha. Só não podia, então, ler o que quisesse, mas, o que tinha disponível. Até que desejei a tal da Internet. Desejei porque sempre quis ler jornais. Não só jornal, é claro, mas, quando ia ao trabalho, antes de me aposentar, sempre invejei meus colegas que ficavam lendo jornal. Dizia-se que eles, os que ficavam lendo jornais, não queriam nada, mas eu queria. Queria ler jornais!

Consegui, com muito custo, primeiro ter o tal computador, o telefone e ligar um no outro. Isso ajudado e incentivado por meu amigo que, cada vez mais se tornava inimigo da minha mulher. Não sei a qual dos dois ela detestava mais, se a ele ou ao computador! Fato é que fui desejando e daí a pouco, estava, imaginem, trocando cartas (e-mails) com pessoas e eu mesmo podendo ler e escrever e podendo ser lido por qualquer um! (inclusive por minha mulher se ela o soubesse).

Aquilo havia sido um desejo meu tão remoto que já nem me lembrava que o tivera. E ainda não era nada diante do que estava por vir. Não é que, quando ainda nem havia curtido devidamente o embevecimento por estar trocando e-mails, já me surgia a possibilidade de ler jornais! Infelizmente, não no trabalho como meus colegas de então. Isso me fez tomar mais uma decisão: me aposentaria, como de fato o fiz. Outra notícia que caiu como uma bomba aonde já estava se dando o terremoto, exatamente no mesmo lugar onde antes havia sido meu mais ou menos tranqüilo lar.

Após a calmaria gerada pelas compras que fiz com o dinheiro que me veio às mãos quando da aposentadoria, a coisa explodiu de vez, após ter descoberto o PAPOVOX e por conta de uma paixão imprevista (como qualquer outra, embora aquela fosse um pouco mais por conta de meus, então, 27 anos de casado). Anunciei que faria uma viagem. Minha mulher disse que iria comigo, o que foi prontamente contestado por mim que contra argumentei que me seria impossível arcar com duas passagens de avião a Manaus ida e volta. Se bem que, indo sozinho, não tinha a certeza de que voltaria dado o fogo e o tamanho da paixão.

— "E que diabos vai você fazer em Manaus!?" — perguntou-me ela, para o que, disse-lhe que ia conhecer um amigo que havia feito através do  PAPOVOX. E, papo vai, papo vem, ela me deu a sentença definitiva:

— "Se você for, pode voltar para casa de sua mãe! Suas coisas vão estar todas lá".

Achei ótimo não ter que me preocupar com mudanças, embora já estivesse completamente mudado e comprei minha passagem de ida para Manaus. Conheci a Lúzi no PAPOVOX, não com esse apelido, é claro. Para falar a verdade, em princípio, não me senti atraído pelo PAPOVOX porque achava mais confortável meu rádio PX e mesmo o papo ao vivo. Mas, quando conheci a Luzimar, — por sinal que, quando ela me disse o nome, senti algo meio inexplicável, mas logo detectei que era por conta de certo trauma de infância, ou quase infância, pois este era o nome de um professor de matemática que tive e que me reprovou, pelo menos umas 3 vezes! — entendi o valor do PAPOVOX. Percebi que havia sido criado para nós!

Foi uma dessas paixões fulminantes que, de fato, mudaria minha vida. Não custei muito a decidir que iria conhecê-la pessoalmente. Poucas vezes nos falamos por telefone e sua voz embora um tanto, como direi, indefinida, me fez sentir que nossos espíritos eram irmãos. E lá fui eu, que até então havia viajado no máximo para campos, aqui no Rio de Janeiro mesmo, em minha primeira viagem de avião para Manaus encontrar a minha Lúzi (ela preferia que a tratasse assim) e Lúzi era mesmo mais bonitinho. Não sentia falta do mar do nome dela, pois mesmo em se tratando do outro, nossas relações nunca foram tão íntimas assim, embora sempre tenhamos estado tão próximos. Exatamente o contrário do que aconteceu com a Lúzi. Fomos ficando, apesar da distância, rápida e perigosamente íntimos. Naturalmente, minha expectativa era a de que nos tornássemos mais ainda quando nos encontrássemos.

Assim é que, chegando a Manaus, fui procurá-la no endereço para onde enviara um CD que lhe mandei de presente por ocasião do Natal. Não combinara com ela o dia de chegada, onde deveria procurá-la, nada disso, visto que minha decisão foi um tanto repentina e exigiu certa brevidade pelo ambiente gerado em meu lar de então. Apenas enviei-lhe um e-mail informando-lhe que, finalmente, iríamos nos conhecer pessoalmente. Expliquei-lhe, resumidamente, a razão da minha ida repentina e nem houve tempo de aguardar resposta, posto que minha mulher providenciou para que meu computador fosse desativado, bem como tudo mais que pudesse ser meu, para que o mais rapidamente possível pudessem tomar o rumo da casa da mamãe.

Quando perguntei pela Luzimar no endereço aonde cheguei de mala e cuia, (resolvi ir ao endereço antes mesmo de procurar um hotel com a esperança de que ela me convidasse para que ficasse ali mesmo), estranhei tanto o clima que se formou que não consigo nem definir bem qual tenha sido. As pessoas que me atenderam ficaram entre o que chamaria de assustadas e com certo ar cômico, sei lá. Se elas ficaram assustadas, imagine eu!

Minha surpresa começou quando me deparei com algo que me pareceu ser uma instituição, pois esperava encontrar uma simples casa, já que a Lúzi me dissera que morava sozinha. Depois de algum tempo, alguém me disse:

— "Olha, na verdade, aqui não mora nenhuma Luzimar!"

— "Como não mora nenhuma Luzimar?!" Perguntei aparvalhado. Disse que havia mandado uma encomenda pelo correio, inclusive registrada, e que recebi a confirmação de que a mesma fora entregue ao destinatário. Pediram-me então para aguardar um pouco, pois o diretor não estava. Foi quando soube que ali, de fato, era uma instituição, local onde residiam alguns cegos. Eu disse cegos. Ou seja, ali residiam apenas homens.

Acho que meu cérebro, se já teve alguma coisa, se esvaziou naquele instante, pois não me lembro direito do meu estado até o momento em que o tal diretor chegou e, tendo sido posto a par do que houve, por alguns dos ali residentes, disse-me que, infelizmente, tudo aquilo havia sido fruto de um lamentável engano.Disse-me isso, antes mesmo que lhe dissesse eu a que viera. Foi logo me dizendo que havia sido prevenido por um dos residentes de que um outro havia, por brincadeira, se passado por mulher. Dizendo isso, chamou o tal Luzimar para que ele mesmo pudesse se explicar para mim.

O cara entrou e ficou em silêncio. Eu também não conseguia dizer nada. O diretor então tomou a iniciativa de nos apresentar. O cara ficou meio esquivo, não quis me estender a mão, com certeza com medo da minha reação que bem poderia ser agressiva, mas, acabou por fazê-lo e, inexplicavelmente, inclusive para mim mesmo, acho que a última coisa que faria ali seria ter uma reação agressiva. Estava era me sentindo (perdoem-me o termo mas, não há um outro que seja tão fiel!) um grande babaca, o maior do mundo! Como me deixara enganar assim! Como fora tão adolescente àquela altura da vida! E, assim ia pensando, quando ouvi a voz do cara dizer:

— "Puxa vida, cara, sei que isso é indesculpável, mas, pô, nunca imaginei que fosse dar nisso! Quis brincar. Talvez, tenha exagerado, mas..."

Ao que acrescentei:

— "É, dei bobeira mesmo, devia ter sido mais maduro!"

Foi quando o diretor, que então se apresentou bonachão, disse:

— "Bom, espero que vocês saibam reconhecer onde erraram e que não levem isso a diante. Não há como desfazer o que está feito. Você está vindo do Rio, não é?"

Disse-lhe que sim e ele imediatamente me fez um convite para que permanecesse com eles, não ali mas, em sua casa. Estava tão estupidificado que não vi outra coisa a fazer que não aceitar. E foi ótimo. Fui muito bem acolhido por sua família. E por termos nos tornado amigos, conversamos bastante e meu espírito se desanuviou muito mais rapidamente do que supus a princípio.

Relutei um pouco em voltar a tal instituição para conhecer os residentes, mas terminei por ir e fiz uma boa camaradagem com alguns, inclusive com o Luzimar, cujo nome mesmo nem era esse. A turma acabou por fazer muitas molecagens conosco e, na verdade, o cara era um tremendo boa praça e o espírito desportivo acabou prevalecendo tanto em mim quanto nele. Pude conhecer através deles algumas garotas e, se não surgiu nenhuma que me tivesse arrebatado tanto quanto a "Luzimar", ao menos deu pra tirar aquele gosto de ressaca da boca. E eu que, afinal de contas, não havia mentido para minha mulher, quando voltei, tive que ir mesmo para casa de minha mãe. O engraçado foi o comentário dela, quando lá cheguei:

— "Não falei que esse casamento não ia dar certo?!"

Lá fiquei por um bom tempo.

E você ainda me pergunta:

— "DOSVOX, o que você deseja?"

Desejo que você continue me perguntando sempre e me fazendo desejar cada vez mais, pois, tanto quanto navegar, desejar é preciso.


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NOTAS

(*) Sistema Operacional com síntese de voz criado e desenvolvido no Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ. Dispõe de editor de texto, correio eletrônico, navegador na Internet entre outros programas e aplicativos utilizados por pessoas cegas.  voltar ao texto  >>


(**) programa do DOSVOX com salas de bate papo.  volta ao texto  >>

 


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2.Dez.2015
Publicado por MJA