Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual


O Dervixe Cego e a Primeira Flauta

Tom Thumb

O Cego - Arthur von Ferraris [1856-1936]
O Cego ― Arthur von Ferraris  [1856-1936]


Kifkef começou:

Vocês entendem, com certeza, amigos, que a vida no deserto está longe de ser fácil. Se não se morre de sede, de calor, da exposição ao vento, ataques de febre, ou ataques de assassinos nómadas ― há sempre a possibilidade de a nossa mente ceder, sob pressão da vastidão infinita que de todos os lados pesa sobre nós.

Contudo, a minha história trata de um homem santo que, há muito tempo, gostava de vaguear sozinho pelos desertos de movediças dunas de areia. Nesses lugares os mapas não passam de guias vagos e o território  desconhecido está apenas parcialmente explorado. Os mais ignorantes ainda sustentam que é lá que fica o Fim do Mundo. Sim, meus amigos, o deserto não era menos extraordinário ou misterioso do que o oceano para os marinheiros medievais que buscavam novos continentes.

No deserto também  circulavam rumores de ilhas verdejantes de fartura fértil e as raras que foram descobertas permaneceram segredos bem guardados.

No entanto, embora o deserto fosse, como ainda continua a ser, um domínio perigoso e insondável, o herói da minha história  vagueava muitas vezes sozinho pelas suas profundezas. A primeira regra quando se viaja no Saara é juntarmo-nos a outros para aumentar as probabilidades de sobrevivência. Mas este homem ignorava as advertências dos mais prudentes e fazia frequentemente viagens em que dava mostras de uma coragem e audácia surpreendentes.

Os seus feitos tornavam-se ainda mais extraordinários pelo facto de ele ser cego de nascença.

Esta parte da história do dervixe diz respeito à altura em que ele partiu das montanhas do Chade, caminhando para norte na direcção do oásis secreto de Azsabada. 

Ele subiu e desceu as encostas das dunas, ocasionalmente tropeçando mas mantendo sempre a direcção correcta. Os seus olhos eram como berlindes brancos sempre erguidos para o céu em busca de orientação. Ao estilo dos beduínos, tecido finos cobriam-lhe o corpo, a cabeça e a maior parte do rosto e carregava uma pequena mochila contendo apenas três odres de água, um cobertor, uma tigela e uma faca.

Para o dervixe, o deserto era um lugar de enorme paz. Ali, estava livre do ruído e tagarelar incessantes das vilas e cidades... Ali, não havia ninguém para lhe fazer perguntas irritantes de como e por que razão um homem cego escolhia caminhar sozinho no mundo,  quando na verdade o mundo continha perigos suficientes mesmo para aqueles que possuíam o luxo da visão.

Estas questões entristeciam-no pela falta de fé que demonstravam. Essa gente realmente imaginava que Alá abandonaria um verdadeiro crente? Será que não sabiam que o verdadeiro devoto nunca está sem um guia?

O dervixe não precisa de olhos para encontrar o seu caminho ― como se esse fosse o único sentido dado ao Homem. Sem a distracção da visão, ele nunca sofria as tentações do desejo. Em vez disso era capaz de escutar as verdadeiras vozes do mundo que a maior parte das pessoas nunca escutara.

Ninguém jamais poderia enganá-lo com doces falas ou uma cara bonita. De facto, quando uma pessoa falava, ele já nem sequer ouvia as palavras, a sua atenção focava-se apenas naquilo que ela realmente dizia por detrás de todo o tagarelar.

A sua clareza e sabedoria eram tão valorizadas que os tribunais de justiça lhe pediam para se ocupar de casos complicados, oferecendo-lhe em troca muitos lugares de destaque dentro do sistema. Mas tal como ele era capaz de ouvir a verdade nas palavras do povo, ele também escutava alto e bom som os sons das coisas. O martelo do juiz ecoava a podridão e o discurso legal soava como correntes enferrujadas.

Quando andava pelas ruas cada casa tentava contar-lhe a história da sua vida mas simplesmente não havia tempo suficiente para escutar todas as histórias. As ruas falavam-lhe dos reinos antigos que tinham rolado pelas suas calçadas e ficava embaraçado quando as roupas das pessoas na rua lhe sussurravam os segredos de alcova dos seus donos.

Objectos de ouro lançavam convites escondidos à sua atenção. Lâminas murmuravam ameaças escuras do fundo das bainhas. Imponentes minaretes criticavam a sua heterodoxa espiritualidade e os bairros miseráveis imploravam a sua misericórdia e alguns poucos dinares que lhe sobrassem.

Esta era a razão porque, mais do que tudo, ele amava perder-se pela imensidão do deserto. A areia, se tinha uma voz, mantinha-a misericordiosamente silenciosa. Quase nada vivia aqui para tagarelar histórias inúteis aos seus ouvidos e quanto mais longe ele caminhava sobre as dunas, mais sereno ficava. Os ventos sussurravam-lhe o caminho a seguir, as suas línguas assobiando e dobrando-lhe os lóbulos das orelhas para corrigir-lhe o curso, cada vez que ele se desviava do caminho.

Mas os ventos são criaturas esquivas e pouco confiáveis e, tal como com as pessoas, pode-se  conhecer boas e más. Os guias, que agora o acompanhavam, pareciam relutantes em segui-lo para norte, no caminho para o oásis. E, como ele insistia nesta jornada, a pressão exercida nas suas orelhas foi diminuindo mais a cada quilómetro. Uma a uma, as brisas abandonaram-no e deixaram-no encontrar sozinho o seu caminho.

Em breve ficou sem qualquer orientação e parou para reavaliar sua posição. Tinha passado a maior parte do dia a caminhar e já tinha bebido a maior parte da água. Mesmo que os ventos o ajudassem a seguir outro caminho, não podia esperar fazê-lo sem víveres. Fosse qual fosse o motivo, ele percebeu que os ventos tinham decidido deixá-lo morrer ali. Levantou as mãos numa súplica a Deus e clamou:

“Allah hu Akbar.” Deus é grande. “La ilaha illa Allah.” Não há outro Deus para além de Alá.

E continuou em frente, apenas com a sua fé a guiá-lo.

Após mais três horas a tropeçar através das areias, com a perspectiva do fracasso cada vez mais densa na garganta seca, o dervixe de repente ergueu-se sobre os pés e deitou a cabeça para trás. Então, com um sorriso, relaxou. As suas narinas informaram-no que, apesar da traição dos ventos do deserto, ele seguira na direcção certa. O perfume das flores de bambu e de laranjeira flutuando na sua direcção anunciaram-lhe que tinha chegado à entrada do Azsabada.

Usando agora o nariz para se guiar, o dervixe abriu caminho na direcção dos férteis pomares. Elevava a mão em "salaam" à sua frente, para poder cumprimentar qualquer obstáculo com os dedos, ao invés de com o rosto. A água no profundo poço gritou-lhe promessas de frescura e os últimos metros, pareceram-lhe milhas. Levantou por fim a tampa de pedra e puxou para cima um balde cheio, da fonte que ficava uns cinquenta metros abaixo.

Satisfeita a sede, deu graças a Deus com um  “Hamdulualah”  [Louvado seja Deus] e, com um bolo de milho na mão, reflectiu sobre como havia de dar uma lição aos ventos. Tinha confiado nas suas palavras, pusera a sua segurança nas mãos deles e não podia deixar impune a traição.

Percebeu que a primeira coisa a fazer era esfriar a cabeça. Com toda a raiva e sede de vingança que lhe invadiam a mente nunca conseguiria arquitectar nada. E, na verdade, uma vez esvaziada a mente, a resposta tornou-se-lhe clara e dedicou-se à tarefa com a cabeça limpa e fresca. 

Caminhou até onde crescia o bambu e cortou um bocado, do comprimento do seu antebraço. Então, sentou-se debaixo de uma palmeira e começou a trabalhar com a faca, enquanto a noite caía. Quando o sol lhe voltou a aquecer o sangue, esfriado pela noite do deserto, a sua obra estava concluída.

Ergueu no ar a sua flauta virgem, para o sol, com a sua luz âmbar, a ver e abençoar. Os ventos viram-no e aproximaram-se, curiosos em ver o que o estranho cego estava a fazer. Teriam gostado de chicotear as ondas de areia e enterrá-lo ali onde ele se encontrava. Mas a serenidade do oásis era uma lei sagrada que mesmo eles respeitavam e portanto resolveram suspender a violência até que ele partisse. Ainda assim, os ventos também eram bem-vindos no Azsabada pelo alívio que traziam ao calor e enrolaram-se como gatos à volta do dervixe.

— Ooo quee éee issoo que fizeessste com cinco buracosss? Perguntaram eles. — Nuuunca vimosss naaada parecido com issooo aaantes. — É praa rezaaar?

— Não é nada. Respondeu distraidamente o dervixe. — Absolutamente nada.

E continuou a dedicar toda a sua atenção à tarefa de suavizar os buracos para os dedos.

— Diz-nosss. Gritaram os ventos com uma excitação crescente. — Éee uma armaaa pra destruir demóniosss ou um oráculo para predizer o futuro?

— Oh, não ― Assegurou-lhes o dervixe. — É, apenas um pau, realmente, com nada de interesse dentro.

— Ooo que teeem deentro? Gritaram eles, desesperados por saber e jorraram pela flauta dentro. Num movimento rápido, o dervixe colocou os dedos e o polegar de uma das mãos nas notas e a boca e a outra mão em cada extremidade. Sussurrou lá para dentro o nome de Deus e a oração selou as saídas, prendendo os ventos lá dentro.

— Deixa-nosss saiiir. Choramingaram. — Descuuulpa-nosss. Mas o dervixe respondeu:

— Há muito tempo já, que todos os que vivem no deserto, ouvem os vossos sermões. Vocês sussurram tentações nos ouvidos das pessoas, enquanto elas dormem à noite; enterraram vivas, em tempestades de areia, tribos inteiras e fizeram perder-se no deserto inúmeros peregrinos. Agora é a vossa vez de ouvir e, para sempre, assim será.

Poisou os lábios na flauta e soprou, através dela, louvores sussurrados retirados do Alcorão. Os ventos viram-se derrotados pela profundidade do coração do dervixe e reconheceram, com vergonha, as suas acções pecaminosas. Ele inalou a respiração do Céu e através do bocado do bambu deu-lhe uma voz. Os ventos no interior não puderam senão deixar soar aquela pureza que não se atreviam a corromper.

O dervixe ficou no oásis até uma nova tribo nómada chegar, dez dias depois. Fê-los cortar pedaços de bambu e mostrou-lhes como fazer as flautas. Encostou à ponta da sua flauta cada novo instrumento e, com um sopro, passou uma parte dos espíritos para dentro deles.

Cada flauta verdadeira que existe hoje no mundo descende desta flauta original.

FIM

ϟ

Tom Thumb (foto)

The Tale of the Blind Dervish and the First Flute
autor: Tom Thumb
mail: tom@tomthumb.org
tradução do Inglês: Maria José Alegre, 2012

Fonte do texto:
http://www.tomthumb.org/Tales/tales_dervishflute.shtml

 


Δ

[7.Jun.2012]
Publicado por MJA