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 Sobre a Deficiência Visual


O Contador de Histórias de Tolstoi

Rosamund Bartlett

Dois camponeses russos cegos conduzidos por um rapazinho, 1861
Dois camponeses russos cegos conduzidos por um rapazinho, 1861

 

Tolstoi lembrava-se também de uma excursão mágica num dia quente, em que a família foi para o bosque colher avelãs. A avó foi transportada num cabriolé puxado não por cavalos, mas pelos servos do pai, Petrucha e Mariucha, que abaixavam os galhos para que ela pudesse colher as nozes.

Mais tarde a mesma carruagem amarela seria usada para os passeios de verão até à pequena casa de madeira com venezianas construída por Serguei Volkonski em Grumant, onde havia uma vista pitoresca: de um lado, o rio Voronka serpenteando entre os prados; do outro, florestas.

Nas imediações havia um pomar com uma nascente, fonte de água fresca usada pela família Tolstoi; grandes quantidades de água eram transportadas diariamente para Iásnaia Poliana. Havia também uma lagoa funda repleta de tencas, bremas, carpas, percas e esturjões, onde os meninos e o seu tutor podiam pescar.

A babuchka Pelageia Nikoláievna, que não sentia grande entusiasmo pela ideia de se distrair na companhia da vaqueira Matriona e seu vestido esfarrapado, não se juntava aos netos nessas viagens, mas as crianças adoravam as tardes que passavam com Matriona, sua filha e as crianças camponesas, ocasiões em que se regalavam com nacos de pão preto e de leite tirado directamente da vaca. Elas gostavam de se ver cercadas pelas vacas e galinhas e pelo bando de cães do vilarejo que se reuniam em volta de Bertha, a setter do tutor.

As lembranças mais intensas que Tolstoi  guardava da avó estavam relacionadas com a alegria de passar a noite no quarto da babuchka na companhia de Liev Stiepanitch, o contador de histórias cego.

Na Rússia pré-emancipação, servos contadores de histórias, que eram negociados pela nobreza como peças de mobília, eram bastante comuns. Liev tinha sido comprado para Pelageia Nikoláievna por seu falecido marido, e por isso fora trazido para Iásnaia Poliana no seu séquito de servos. Ele era totalmente cego, tinha uma memória excepcional e era capaz de se lembrar de qualquer história, desde que tivesse sido lida para ele algumas vezes, palavra por palavra.

Na lembrança de Tolstoi, o cego Liev vivia em algum lugar da casa principal, mas só aparecia à noite, quando subia as escadas para o quarto da avó e se preparava para a história da noite.

Usando uma comprida sobrecasaca azul com mangas bufantes, Liev sentava-se no peitoril baixo da janela, e enquanto aguardava Pelageia Nikoláievna, alguém trazia o seu jantar. Uma vez que Liev era cego, a avó de Tolstoi  despia-se na frente dele sem o menor receio e, depois, junto a algum dos netos, acomodava-se confortavelmente na cama para ouvir a narrativa da noite.

Tolstoi  lembrava-se com exactidão do momento em que a vela era apagada no quarto da avó, deixando apenas a luz bruxuleante de uma pequena lamparina ardendo sob os ícones a um canto. Ele via o perfil indistinto da avó deitada e coberta na cama sobre uma pilha de travesseiros — novamente uma visão totalmente branca, dessa vez com um gorro na cabeça. A um comando dela, a voz baixa e serena de Liev começava a desfiar alguma história fascinante — Tolstoi  lembrava-se em especial do cego narrando um dos contos das Mil e uma Noites. O pequeno Liev ouvia, mas os seus olhos estavam fixos na sombra trémula do perfil da avó na parede. 

FIM
 

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capa da obra: Tolstoy: A Russian Life by Rosamund Bartlett

excerto de

Tolstoi — A Biografia
por Rosamund Bartlett
tradução: Renato Marques
Biblioteca Azul
título original: Tolstoy: A Russian Life by Rosamund Bartlett, 2010


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6.Mar.2014
Publicado por MJA