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 Sobre a Deficiência Visual


O Cego e o Mealheiro

Teófilo Braga

1883

A blind man on a track  - Anna Elisabeth Munch [1876-1960]
Cego num caminho - Anna Munch [1876-1960]


Era uma vez um cego que tinha ajuntado no peditório uma boa quantidade de moedas. Para que ninguém lhas roubasse, tinha-as metido dentro de uma panela, que guardava enterrada no quintal, debaixo duma figueira. Ele lá sabia o lugar e quando arranjava outra boa quantia, desenterrava a panela, contava tudo e tornava a esconder o seu tesouro.

Ora um vizinho espreitou-o, viu onde é que ele tinha a panela, foi lá e roubou tudo. Quando o cego deu pela falta, ficou muito calado, mas começou a dar voltas ao miolo para ver se arranjava maneira de tornar a apanhar o seu dinheiro. Pôs-se a considerar quem seria o ladrão e achou que por força teria de ser o vizinho. Tratou de ir à fala com ele e disse-lhe:

― Olhe, meu amigo, quero contar-lhe uma coisa muito em particular, que ninguém nos oiça.

― Então o que é, senhor vizinho?

― Eu ando doente e isto há viver e morrer. Por isso quero dar-lhe parte que tenho algumas moedas enterradas no quintal, dentro de uma panela, mesmo debaixo da figueira. Já se sabe, como não tenho parentes, há-de ficar tudo para si, que sempre tem sido um bom vizinho e me tem tratado bem. Ainda tenho aí num buraco mais umas moedas de ouro e quero guardar tudo junto, para o que der e vier.

O vizinho, ao ouvir aquilo, agradeceu-lhe muito a intenção. Naquela noite tratou logo de ir enterrar outra vez a panela de dinheiro onde ela estava, com a intenção de apanhar o resto do tesouro. Quando bem entendeu, o cego foi ao sítio, encontrou a panela e levou-a para casa. Depois desatou num grande berreiro, para que o vizinho ouvisse:

― Roubaram-me! Roubaram-me tudo!

E daí em diante guardou as suas moedas num sítio onde nunca ninguém soube.

FIM
 

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in  Contos tradicionais do povo português:
com um estudo sobre a novelística geral e notas comparativas
Teófilo Braga [1843-1924]
Livraria Universal, Porto
1883
 

fotografia de Teófilo Braga

Fonte do texto: Biblioteca Nacional Digital


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9.Fev.2012
Publicado por MJA