Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual


O Cego e a Guitarra

Fernando Pessoa


Cego - aguarela de Jaime Martins Barata

 

O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.
 

       *

Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
 

 

fernando pessoa
Fernando Pessoa |13Jun1888 — 30Nov1935


 

ϟ

Versos extraídos do livro
"Fernando Pessoa - Obra poética - Volume único"
José Aguilar Editora, 1972, págs 542/543.
Organização, Introdução e Notas de Maria Aliete Galhoz.


Δ

13.Jun.2016
Publicado por MJA