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 Sobre a Deficiência Visual


O Cego Andaré Tchuvisco

Mia Couto

Netsuke de um fantasma tentando, em vão, assustar um homem cego Japao - escultura em madeira, séc. 19
"Netsuke" de um fantasma tentando, em vão, assustar um homem cego  - escultura em madeira - Japão, séc. 19


O cego Andaré Tchuvisco: o que ele via eram futuros. Nada em actual presença. Sabia de suas tintas, seus pincéis. Ele, pintor de um único objecto: a cadeia da PIDE. Andaré pintava e repintava apenas as paredes da prisão. As gentes se duvidavam: como alcançava esse moço pintar, ele que não via nem nariz nem palmo. Na verdade, Tchuvisco conhecia a prisão de cor e salteado.

Do mais, ele desconhecia acerto. Política? Ignorava. Cegos que fossem, seus olhos se guardavam no chão. Tchuvisco dizia: os vivos têm sombras que se desenham no tempo.

— Vocês não vêem essas sombras?

O cego não via para crer. Se os visuais enxergavam luzes, como não distinguiam penumbras que se sucedem? Cada ser tem duas margens, uma em cada lado do tempo.

— Os senhores apenas avistam a primeira margem.

Só o inspector Lourenço de Castro deitava suspeição no cego. Os outros o credenciavam, ele e mais seu estado sem atestado. E riam, acreditando as palavras de Tchuvisco serem poesia, doença de irrealizar o mundo. Pobre do Tchuvisco, que outras compensações ele ganhava? Diz-se que cegou logo cedo, na poscedência do parto. Estava o pai aguardando os quenquelequezês, a apresentação do menino à lua. A criança repousava num cesto, resguardado desses maus cacimbos que impedem o encerramento da cabeça. As doenças entram pela moleirinha, essa fresta onde não somos nem corpo nem alma.

Foi então que ele foi mordido. Mais rasteira que poeira, veio essa cobra, a tal que rasteja só pelo luar. Não é que é nocturna, não. É bicho luadeiro. Morde doce, quase uma ternura de dois canos. É o que se diz, verdades: neste mundo, só inspiram medo os açucarosos venenos. A serpente lhe fincou os dentes e, no imediato, seus olhos se azularam, opacos de porcelana. E nunca mais ele leu em nossa visibilidade.

Outros avançavam outra versão. Seu caso tinha sido um próprio, de vida e morte. Acontecera que a morte visitara Andaré mesmo antes de ele nascer. O ventre de sua mãe ainda o fabricava quando a morte com ele fez encontro. E disse:

— Venho roubar o seu moya.

— Mas tão cedo? — perguntou o antenascido.

— É para não chegar a haver tempo.

— Mas, assim, sem que eu devidamente tenha nascido?

— É para, desta vez, não me acusarem. Estou cansada de ser maldiçoada na voz das gentes.

E a morte iniciou suas inactividades para anular naquele ser o milagre de estar vivo. Mas, nisto, um estranho som se aventurou pelos ares. Era a mãe de Andaré que cantava. É sabido: a morte não suporta canto de mãe. E assim, atrapalhoadamente, a morte levantou voo e se retirou. Mas já seus malefícios se haviam praticado; os olhos do menino nunca mais descortinariam a luz.

A família Castro sabia bem que tudo isso não passava de fantasices. A verdade sobre Andaré Tchuvisco era outra. O moço tinha vindo com eles de Pebane, onde o pai Joaquim de Castro começara a sua missão em África. O moço, nessa altura, não era cego. Fora contratado como pintor. Joaquim de Castro tinha essa obsessão: as paredes brancas deveriam permanecer assim, alvas e puras, sem vestígio de sangue. O chão da prisão tinha sido encerado de vermelho. Justo para que não se detectasse o sangue dos torturados. No chão, sim. Nas paredes, nunca. De onde vinha esse medo de as paredes revelarem as vermelhas nódoas? Quem sabe o sangue é mais vivo que o próprio corpo?

Andaré era um jovem educado em escola, recomendado pelos padres que o escolarizaram. Trabalhou ali durante uma meia dúzia de anos. E biscateava na oficina de Custódio Juma, onde labutava o mulato Marcelino, Nos intervalos das pinturas, Andaré sempre comparecia para avaliar as paredes da prisão.

Espreitava e tacteava, anotava o desluz de um vermelhinho. A mais mínima nódoa e já ele repincelava.

A certa altura, porém, o moço adoeceu das vistas. Seus olhos começaram a desbotar, mais e mais azulecidos. Estaria o moço consumindo desses álcoois que roubam a luz dos viventes? O certo é que, para ele, o mundo escureceu, dissolto em trevas.

Ele pensou ter sua ocupação chegado ao fim. Mas o inspector Castro condescendeu: o homem continuasse em seu ofício, dispensado de visão.

A família Castro se moveu de Pebane para Moebase e o cego os acompanhou. Se instalou em recanto tão discreto, que os brancos não ousavam visitar. Diz-se que apenas Irene se aproximava do lugar de sua vivência.

Quando o velho Castro morreu não houve funeral: Nem podia haver, sem resgate do corpo despenhado no oceano. O cego Tchuvisco trouxe uma mão-cheia de terra e depositou-a junto à residência do falecido. Foi poeira varrida no exacto seguinte. A vassoura limpasse o chão desse pó contaminado de espíritos: era mando de Lourenço que nunca gostou do pintor. O cego se permitia altivez que nenhum outro negro exibia: E os brancos aceitavam, enfraquecidos pela sua deficiência.

Para o inspector da PIDE, Andaré Tchuvisco merecia espessas dúvidas políticas. Porque ali, em Moebase, havia o desoculto rabo de um gato. Alguma mão ajudava os negros a escapar além-fronteira e a juntarem-se aos guerrilheiros que atacavam os interesses portugueses. Não se vislumbrava quem.

Esse subversivo devia ser um incapaz de levantar suspeita. Para Castro, ali cabia bem o cego. Faltavam, no entanto, todas as provas. Porque, até ao presente, o cego Tchuvisco seguia em sossegada existência. E mais não se sabia. E que outra veracidade se podia peneirar? Um cego semelha uma ilha: navegante à espera de viagem, um silêncio frente ao espelho.

Indiferente a tudo Tchuvisco se dava a metafísicas:

— Vocês vêem os vivos, eu vejo a vida.

E ria com todas as sílabas. A horas certas ele se afastava do passeio onde se esbanjavam as vendedeiras. E partia sem aparência de rumo, seus passos gaguejando pelas bermas. Mas avançava com estudada elegância. Como se o pé não apenas andasse, mas saboreasse o espaço.

— Sou íntimo do nada. Por isso, chego a arredores onde vocês nunca tocarão.

Por onde ia nesses poentes? Dá azar seguir um cego. Mesmo Lourenço de Castro, carregado de suspeitas, nunca ousou perseguir o homem. E quando perguntava sobre os destinos de Tchuvisco, nunca recebia nenhuma resposta. Ninguém nunca conferira onde ele se ocultava, nos acasos desses ocasos. A perdiz esgaravata a areia num lugar onde ninguém a conhece. Mas nem no sonho o povo se permitia invocar o cego. Que os azuis olhos de Tchuvisco não sossegavam quem os contemplasse. Como quem trouxesse o céu no rosto só para nos fazer cair do voo abaixo.

Mas, certa vez, alguém encontrou Tchuvisco por baixo da grande maçaniqueira, rabiscando desenhos na areia. A árvore se plantara onde se cruzam os caminhos do este e do oeste. Ali tinham sido enterrados Marcelino e seu tio Custódio. Suas sepulturas olhavam o poente, como mandam os antigamentes.

Hoje, não restava sinal de seus túmulos. Apenas o vago entrelaço de dois panos brancos, suspensos dos ramos da árvore. E, agora, os rabiscos do cego Andaré Tchuvisco. Como, desenhos? Não seria coisa por de mais inacontecível? E quem sabe do impossível?

Pode a mão de um cego apurar visões de um pintor de artes?

Uma coisa é pintar a lisura da parede. Outra é desenhar o traço e encher o volume de belezas.

— Quero ver isso com meus próprios olhos — exclamou o pide.

Dia seguinte, Lourenço de Castro foi espreitar essa grande teia que era o chão onde sombreava a árvore sagrada. E surpresa; os desenhos eram de belezas tamanhas, pareciam nem caber na terra. Os traços abraçavam os olhos de quem os tocasse, as cores eram certeiras, as formas em delicada pontiagudeza. Os temas não variavam. Eram sempre mulheres, corpos totalmente verdadeiros que semelhavam mover-se, em ilusão de dança.

Como as dançarinas do tufo, essa dança das dengosas damas que se saracoteiam sem sair do sítio.

Figurinhas assim arredondosas, essas mulheres curvilindas despertando febres: tudo se maravilhava na moldura do chão. A Lourenço surgiu, em flagrante visão, que aquelas esculturas insinuavam ser Irene, todas elas inspiradas em sua tia. O coração dele se enregelou, ave desninhada. E saiu, afastando-se em largas e urgentes passadas.

E logo ali se juntou um corrupio de povo. Tantos ali vinham espreitar, que os desenhos se esvaneceram, de pisados e poeirados. E as vozes, bazarinhadas:

— Eh pá! Lá apagaram a merda dos desenhos!

— Foi o inspector!

— Não foi, foram vocês mesmo. Vocês, caraças, são mesmo população: Calcaram essas belezas, parece estão a pisar cascas do amendoim...

— Vamos mas é daqui, que isto vai chamar azares...

Aos poucos, os ânimos esmoreceram e a praça vazou de gente e de vozes. Mas, a partir daquele episódio, não era só Lourenço a duvidar do real obscurecimento do cego. A suspeita alastrou-se. Como pode um cego autenticado produzir tais desenhações? Afinal, o tipo fingia de conta que não via. Só para lhe devotarem caridades, autorizarem as controversáteis manias dele?

Irrefutáveis, porém, eram os olhos azuis de Andaré. Aquela era a contraprova, a incontestável descoloração em seu rosto negro. E os viventes se arrependiam de alguma vez terem duvidado. Só o pide Castro dava deferimento a suas antigas suspeitas.

Regressando a casa na sua viatura Lourenço percorre, lento, a velha estrada. Os olhos são da louva-a-deus. E se espetam na mulher do passeio, essa que assa e vende maçaroca. Lourenço pára o carro e fala com ela. Tudo em autoritária confidencia. Ela que fingisse ofertar a espiga ao cego. Mas, ao invés, lhe estendesse a ponta do ferro e, nela espetado, um carvão aceso. A vendedora não diz sim nem não. Castro lhe pergunta se entendeu. A mulher acena afirmativamente.

Seu plano era de um mais um. Caso Andaré evitasse pegar o carvão era sinal que a tão propalada cegueira não passava de uma mentira. E eis que o cego se chega à vendedeira. Trocam invisíveis palavras. Depois, ele estende a mão e aceita pegar a acha em brasa. Longe, entre as moitas, o português escuta o grito lancinante. Mas ninguém mais, senão ele, ouve o lamento de Andaré Tchuvisco. Porque, se diz, nem um som saiu da boca do cego.

FIM

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Vinte e Zinco, de Mia Couto:
reconstruindo a identidade moçambicana
por GABRIELA FERREIRA PINHEIRO

A obra literária de Mia Couto, que já foi objeto de inúmeras distinções e prêmios literários, reflete o seu profundo compromisso com a cultura do sudoeste africano e com a divulgação da luta do povo moçambicano pela sobrevivência e na construção de uma nação, conforme destacam estudiosos de sua obra. Este estatuto incontestado deve-se não só à forma como descreve e trata os problemas e a vida cotidiana de Moçambique contemporâneo, mas, principalmente, à inventiva poética de sua escrita, em uma permanente descoberta de novas palavras através de um processo de mestiçagem entre o português canónico e as várias formas e variantes dialetais introduzidas pelas populações moçambicanas. [...]
Há em Vinte Zinco a narração de doze dias: de 19 a 30 de abril, os dias que, imediatamente, antecederam e que seguiram à Revolução dos Cravos. Essas datas conferem títulos a cada capítulo, conferindo o formato de um diário ao romance. Além disso, cada capítulo é introduzido por uma epígrafe, que serve como indicador do tema a ser desenvolvido no capítulo. A origem das epígrafes varia, cinco delas são extraídas dos cadernos e diários da personagem Irene; Andaré Tchuvisco, Lourenço de Castro, Jessumina, Custódio Juma e Marcelino são personagens que tem sua voz ou pensamento expresso também nas epígrafes; as outras duas pertencem a Shaka Zulu, chefe tribal zulu e estrategista militar e Nozipo Maraire, médica e escritora nascida no Zimbábue. Toda a movimentação da história se passa na Vila de Moebase, em Moçambique. O espaço é compartilhado por brancos e negros. O elenco de personagens que compõem a obra está dividido em dois grupos: no primeiro, os moçambicanos, representados por Andaré Tchuvisco, personagem cego, que detém o poder de predizer o futuro, por Jessumina, mulher de poderes sobrenaturais, por Custódio, dono da oficina, homem de hábitos e pensamento antigos, Marcelino, personagem mestiço, por ser filho de uma negra e um branco, mas vincula-se ao grupo dos negros, e Dona Graça, Irmã de Custódio e mãe de Marcelino; no segundo, os portugueses, representados por Joaquim de Castro, inspetor da PIDE e pai de Lourenço, por Dona Margarida, mãe de Lourenço, por Lourenço de Castro, que assume o lugar do pai, após a morte deste, e por Irene, irmã de Margarida, além deste núcleo familiar, também se tem o agente Diamantino, o padre Ramos, o médico Peixoto e o administrador Marques.
O romance é marcado pela forte disputa entre negros e brancos. Se a ocupação territorial e a imposição de poder são recursos do branco, o negro age por meio de outras ferramentas, mais ardilosas, pois pertencem à esfera do imaginário, ou seja, a misticidade africana perturba e desarma a identidade racional européia. 

 

“Cegueira é ver o nada.
O não ver nada é a morte.”
Dos cadernos de Irene
21 de Abril
 

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O cego Andaré Tchuvisco

excerto de:
VINTE E ZINCO
Romance de MIA COUTO
Colecção Caminho de Abril
Editorial Caminho
1.ª edição, 1999
(edição comemorativa dos 25 anos do 25 de Abril)


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25.Abril.2013
Publicado por MJA