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— «Abre a
porta, Ana, abre de mansinho, Que venho ferido, morto do caminho.» — «Se vindes ferido, pobre coitadinho! Ireis muito embora por outro caminho.» — «Ai! Abre-me a porta, abre de mansinho, Que tão cego venho, não vejo o caminho.» — «Porta nem postigo não abro ao ceguinho, Vá-se na má hora pelo mau caminho. » — «Ai do pobre cego que anda sozinho Cantando e pedindo por esse caminho!»
— «Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho Como canta o cego que perdeu o caminho.» — «Se ele canta e pede, dá-lhe pão e vinho; E o pobre cego que vá o seu caminho.» — «O teu pão não quero, não quero o teu vinho, Quero só que Aninhas me ensine o caminho.» — «Toma a roca, Ana, carrega-a de linho, Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.» — «Espiou-se a roca, acabou-se o linho, Fique embora o cego, que este é o seu caminho.»
— «Anda mais, Aninhas, mais um bocadinho, Sou um pobre cego, não vejo o caminho.» — «Ai! Arreda, arreda para este altinho, Que aí vêm cavaleiros por esse caminho.» — «Se vêm cavaleiros, vêm devagarinho, Que há muito me tardam por este caminho.» A cavalaria passou de mansinho... Cego,
lo meu cego (*) já via o caminho. Montou-me a cavalo com muito carinho... Um cego me leva... e vejo o caminho!
nota:
* lo - Este é um modo de dizer
provinciano bastante usado do nosso povo em quase todo o reino:
Filho, lo meu filho; madre, la minha madre, etc., ocorre em muitas cantigas
populares, romances e
semelhantes. São relíquias do antigo asturiano que o nosso dialecto conservou
tanto e mais do que o
castelhano. O mesmo fizeram os nossos vizinhos de Galiza. Tem sido tenaz nestes
belos arcaísmos a
poesia do povo, porque a salva dos iatos que tanto repugnam.
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Almeida Garrett in «Romanceiro» Sobre
'O Cego':
«Disfarçado em trajos de cego mendigo, um senhor de alta
jerarquia falou de amores a uma donzela de muito inferior nascimento que vivia
com sua velha mãe. Por
acordo, mais ou menos expresso entre os dois amantes, se apresenta este por
noite à
porta da velha com a sua caramunha. A mãe dorme; e Aninhas, que responde ao
cego,
parece fazê-lo ou com ironia ou em pique de ciúmes, e por nenhum modo lhe quer
abrir
porta ou postigo.
Põe-se o cego a cantar lamentosamente a sua desgraça; e com a chorada cantilena
se abranda ou finge abrandar-se o coração da rapariga. Desperta a mãe para que o
venha
ouvir; e quando esta condoída lhe manda dar esmola, o cego recusa, não quer
senão que
o ponham no caminho que perdeu. E a própria velha, coitada, é que diz à filha
que lho
vá ensinar. E assim fogem os dois, com a maior tranquilidade, com que ainda
fugiram
amantes.
Note porém a mestria do nosso poeta popular. A fugitiva sustenta sempre
aquela tão perdoável hipocrisia feminina, último protesto do pudor moribundo.
Fiando homericamente na sua roca, vai fingindo guiar o cego, vai parecendo acreditar
que não
sabe aonde nem a que vai. Senão quando, aparece um tropel de cavaleiros: é a
comitiva
do nosso rei encoberto, príncipe ou conde pelo menos. Adeus gaivão de cego, e
andrajos
de mendigo! A cavalo e trotar largo! Já o cego vê, já a donzela sabe onde vai. E
com
este seu fino e malicioso dito, conclui a trova:
Um cego me leva, e vejo o caminho.»
fonte: Romanceiro de Almeida Garrett (1843|1851)
11.Dez.2015
Publicado por
MJA
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