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 Sobre a Deficiência Visual


O Cego

Almeida Garrett

Blind Man with Stick - Howard and Catharine Pyle, 1915
 

— «Abre a porta, Ana, abre de mansinho,
Que venho ferido, morto do caminho.»
— «Se vindes ferido, pobre coitadinho!
Ireis muito embora por outro caminho.»
— «Ai! Abre-me a porta, abre de mansinho,
Que tão cego venho, não vejo o caminho.»
— «Porta nem postigo não abro ao ceguinho,
Vá-se na má hora pelo mau caminho. »
— «Ai do pobre cego que anda sozinho
Cantando e pedindo por esse caminho!»


— «Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho
Como canta o cego que perdeu o caminho.»
— «Se ele canta e pede, dá-lhe pão e vinho;
E o pobre cego que vá o seu caminho.»
— «O teu pão não quero, não quero o teu vinho,
Quero só que Aninhas me ensine o caminho.»
— «Toma a roca, Ana, carrega-a de linho,
Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.»
— «Espiou-se a roca, acabou-se o linho,
Fique embora o cego, que este é o seu caminho.»


— «Anda mais, Aninhas, mais um bocadinho,
Sou um pobre cego, não vejo o caminho.»
— «Ai! Arreda, arreda para este altinho,
Que aí vêm cavaleiros por esse caminho.»
— «Se vêm cavaleiros, vêm devagarinho,
Que há muito me tardam por este caminho.»
A cavalaria passou de mansinho...
Cego, lo meu cego (*) já via o caminho.
Montou-me a cavalo com muito carinho...
Um cego me leva... e vejo o caminho!

 

nota: 

* lo - Este é um modo de dizer provinciano bastante usado do nosso povo em quase todo o reino: Filho, lo meu filho; madre, la minha madre, etc., ocorre em muitas cantigas populares, romances e semelhantes. São relíquias do antigo asturiano que o nosso dialecto conservou tanto e mais do que o castelhano. O mesmo fizeram os nossos vizinhos de Galiza. Tem sido tenaz nestes belos arcaísmos a poesia do povo, porque a salva dos iatos que tanto repugnam.


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Romanceiro - Almeida Garrett (capa)
 

Almeida Garrett in «Romanceiro» Sobre 'O Cego':

«Disfarçado em trajos de cego mendigo, um senhor de alta jerarquia falou de amores a uma donzela de muito inferior nascimento que vivia com sua velha mãe. Por acordo, mais ou menos expresso entre os dois amantes, se apresenta este por noite à porta da velha com a sua caramunha. A mãe dorme; e Aninhas, que responde ao cego, parece fazê-lo ou com ironia ou em pique de ciúmes, e por nenhum modo lhe quer abrir porta ou postigo.

Põe-se o cego a cantar lamentosamente a sua desgraça; e com a chorada cantilena se abranda ou finge abrandar-se o coração da rapariga. Desperta a mãe para que o venha ouvir; e quando esta condoída lhe manda dar esmola, o cego recusa, não quer senão que o ponham no caminho que perdeu. E a própria velha, coitada, é que diz à filha que lho vá ensinar. E assim fogem os dois, com a maior tranquilidade, com que ainda fugiram amantes.

Note porém a mestria do nosso poeta popular. A fugitiva sustenta sempre aquela tão perdoável hipocrisia feminina, último protesto do pudor moribundo. Fiando homericamente na sua roca, vai fingindo guiar o cego, vai parecendo acreditar que não sabe aonde nem a que vai. Senão quando, aparece um tropel de cavaleiros: é a comitiva do nosso rei encoberto, príncipe  ou conde pelo menos. Adeus gaivão de cego, e andrajos de mendigo! A cavalo e trotar largo! Já o cego vê, já a donzela sabe onde vai. E com este seu fino e malicioso dito, conclui a trova: Um cego me leva, e vejo o caminho.» 

fonte:  Romanceiro de Almeida Garrett (1843|1851)
 


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11.Dez.2015
Publicado por MJA