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 Sobre a Deficiência Visual

 

O Bruto

Guy des Cars
 

Guy des Cars - O Bruto (capa)

 

Índice
1. O Acusado
2. As Testemunhas de Acusação
3. As Testemunhas de Defesa
4. A Acusação
5. A Defesa
6. O Veredicto

 

1. O ACUSADO

Há quase meio século, ele atravessava invariavelmente, três vezes por semana, a Galeria Marchande, após ter passado pela Sala dos Passos Perdidos. Achava que aquele passeio, para ele indispensável, lhe permitia "respirar o bom ar do Palácio".

Tudo, desde seu passo arrastado até aquela maneira que lhe era peculiar - quando cruzava com algum colega - de puxar levemente sua roupa com a ponta dos dedos para esboçar uma vaga reverência, fazia parte de sua rotina. Às segundas, quartas e sextas, exatamente à uma hora da tarde, era certo encontrá-lo a subir os degraus da grande escadaria externa que dava para a alameda do Palácio e se dirigir, sem prestar atenção a quem quer que fosse, para o vestiário dos advogados.

Lá, deixava quase com pena seu chapéu-coco durante o inverno e seu chapéu de palha amarelecido na época do verão para cobrir a cabeça com um barrete gasto que ele usava bem para trás para esconder sua calva. Enfiava então uma toga surrada na qual não se viam condecoração alguma ou medalha de Honra ao Mérito, sem se dar ao trabalho de tirar seu casaco esverdeado. Essa duplicata de roupas lhe emprestava uma corpulência que ele estava longe de possuir na realidade, embora já tivesse ultrapassado a casa dos 60 anos. No momento de deixar o vestiário para começar sua ronda habitual, ele completava sua figura, enfiando debaixo do braço esquerdo uma velha pasta de couro cujo único conteúdo certo era a Gazette du Palais.

Era somente assim, investido de seus atributos profissionais, que começava a cumprimentar os seus colegas, acreditando que havia trocado o incógnito da vida civil pelos esplendores da vida judiciária. De vista, conhecia todo mundo no Palácio, desde os mais ilustres presidentes das Cortes até os mais humildes escreventes, passando pela lista inumerável dos procuradores, juízes, advogados importantes e insignificantes que ele tantas vezes encontrava nas diferentes Varas superlotadas, nos corredores poeirentos e nas escadarias intermináveis. Conhecia todo mundo, mas ninguém sabia exatamente quem ele era. Alguns colegas mais jovens chegavam a se perguntar o que fazia aquele fantoche mal vestido, de bigodes caídos e lorgnon fora de moda, a perambular pelo imenso edifício onde raramente defendia uma causa.

Aliás, ele se importava muito pouco com a opinião que na Justiça tivessem dele. Ia de cartório em cartório e de Vara em Vara para consultar os quadros onde se anunciavam os "casos pendentes". Quatro ou cinco vezes por ano, podia-se encontrá-lo diante de qualquer Vara Correcional onde ele se esforçava para obter a indulgência do Tribunal para um malandro inveterado. Sua atividade profissional, seus talentos oratórios e sua ambição pareciam limitar-se a isso. Assim era Victor Deliot, inscrito na Ordem dos Advogados de Paris há 40 anos.

Estava sempre só. Alguns raros veteranos lhe atiravam de passagem um cumprimento amigável, mas sem , parar, preferindo evitar um colega tão insignificante e completamente incapaz de lhes levar um caso interessante. Por isso, Victor Deliot ficou surpreso e inquieto quando ouviu um contínuo a chamá-lo no saguão:

- Mestre Deliot ... Há 20 minutos que o procuro por toda parte ... O Dr. Musnier pede que compareça com urgência no seu gabinete...

- O Presidente da Ordem? - gaguejou o velho advogado. - O que ele quer comigo?

- Não sei - respondeu o contínuo - mas é coisa de urgência! Ele está a sua espera.

- Obrigado. Já vou.

Conhecendo Musnier de longa data, não se apressou demais. Haviam feito juntos o curso de Direito e inscreveram-se na Ordem dos Advogados de Paris no mesmo ano, depois de Deliot ter ajudado seu colega a preparar sua tese. Musnier não se mostrara particularmente brilhante durante seus estudos, ao passo que Deliot havia deslumbrado o Júri.

Desde esses tempos longínquos, as coisas haviam mudado muito. Musnier tivera a chance notável de ser designado oficialmente, logo no início da sua carreira, para defensor num caso de costumes, escandaloso, tendo conseguido absolver uma cliente já condenada previamente pela opinião pública. Depois disso, o jovem advogado só teve de se deixar levar por sua reputação de grande causídico, glória exagerada na opinião de Deliot, que considerava seu amigo um defensor execrável. Mas, após 45 anos de mediocridade, o vencido da batalha resignava-se a vegetar, apanhando os casos desprezados por seus colegas. Victor Deliot vivia das migalhas do Palácio.

No fundo, ele detestava cordialmente Musnier que, como todos os arrivistas, não gostava de encontrar, em seu caminho glorioso, velhos companheiros que o haviam conhecido muito menos brilhante. Já havia acontecido a Deliot ter cruzado com Musnier nos salões do Palácio da Justiça, depois que este fora eleito para o invejável cargo: consciente da sua importância, ele mal se dignara a responder ao cumprimento do antigo colega.

Deliot não se surpreendera demais, reconhecendo perfeitamente que ele era a vergonha da classe aos olhos de um homem como Musnier, que não admitia a má sorte persistente. Foi nesse estado de espírito que o velho e fracassado advogado bateu timidamente à porta do gabinete de S. Exa. o Presidente da Ordem dos Advogados de Paris.

- Bom dia, Deliot - disse-lhe este com uma amabilidade desusada. - Faz um bocado de tempo que não nos vemos. Por que não aparece de vez em quando para conversarmos?

Deliot estava pasmado: seu antigo camarada lhe aparecia quase sorridente.

- Bem, você sabe! - balbuciou ele. - Eu não o quero atrapalhar. Você anda sempre tão ocupado!

- Nada disso, meu velho! Nunca estou ocupado quando se trata de receber um amigo ... Um charuto?

Deliot hesitou antes de enfiar a mão na luxuosa caixa que lhe foi apresentada e acabou por dizer, servindo-se:

- Obrigado. Deixo para saboreá-lo esta noite...

- Vamos! Tire mais alguns!

O presidente lhe estendeu um punhado de charutos que Deliot se apressou em guardar, pela abertura da sua toga, nos bolsos do colete.

- Sente-se, meu caro!

Deliot obedeceu. Musnier conservou-se em pé e, caminhando de um lado para outro no seu amplo gabinete, continuou:

- Diga-me: já ouviu falar do caso Vauthier?

- Não.

- Tratando-se de você, isso não me surpreende! Será que nunca vai mudar? Afinal o que é que você faz no Palácio o dia inteiro?

- Ando por aí ...

- É exatamente isto o que me desgosta ... De qualquer forma, lembrei-me de você...

Deliot arregalou os olhos atrás de seu lorgnon.

- Este caso Vauthier, que você ignora, fez um bocado de barulho há seis meses ... Vauthier matou um americano a bordo do De Grasse, durante uma travessia de Nova York ao Havre ...

Um crime inexplicável, cujo verdadeiro motivo ainda não foi descoberto. Vauthier matou um homem que nunca vira, que não o conhecia e do qual nada roubou! Naturalmente, o comandante do De Grasse o prendeu imediatamente a bordo, entregando-o à polícia que veio buscá-lo no porto do Havre. Atualmente, ele está internado na prisão da Santé, onde aguarda o julgamento que será dentro de três semanas. É tudo.

- E foi para me contar isso que me mandou procurar com tanta urgência?

- Sim ... porque tenho a intenção de lhe confiar o caso ...

- A mim?

- Exatamente.

- Mas eu não sou criminalista!

- Uma boa razão para que você se torne um! Já não está farto da Vara Correcional? Ouça, meu caro: magoa-me profundamente ver um homem com seu valor e sua idade a desperdiçar tempo e talento com histórias de cães atropelados, ladrões de galinha ou leões-de-chácara! Mexa-se um pouco, Deliot! A Correcional é para rir, enquanto que o Tribunal Criminal é coisa séria ... Desde que um indivíduo arrisque a cabeça, você sabe muito bem que a opinião pública se apaixona.

E é com ela que contamos em nossa carreira. Saiba, com certeza absoluta, que, se você se der bem com o caso Vauthier, atrás dele virão outros, importantes e lucrativos!

- Evidentemente - reconheceu Deliot. - Talvez você tenha razão e eu lhe agradeço por ter pensado em mim ...

- Devo adverti-lo, logo de início, de que não deve esperar grandes lucros: financeiramente, o caso Vauthier não é interessante. Não há dinheiro metido nisso ... Mas, publicitariamente, para você será um bom negócio ... Ah, um detalhe importante de que me ia esquecendo: já há dois colegas nossos nesse caso ... Charmaux e De Silves. Conhece-os?

- De nome ...

- Isso também não me admira! Mas será que você nunca vai conhecer gente importante, meu amigo? É por isso que nada arranja! Entre colegas, um escora o outro, passam-se causas, a solidariedade profissional funciona. Enfim, vamos ao que interessa. Charmaux devolveu os autos após ter estudado o caso durante algum tempo, sem apresentar suas razões ... Falei com De Silves, que é um rapaz muito brilhante e que me deixara perceber que o caso Vauthier lhe interessava. Alguns dias mais tarde, Charmaux lhe entregava tudo. Pessoalmente, tive a impressão de que ele estava aliviado por se ter livrado dele...

Tudo corria normalmente quando, na semana passada, inesperadamente, De Silves veio me procurar para me dizer que, decididamente, não podia continuar com esse caso ... e isso a três semanas da abertura do julgamento! Tive de me pôr imediatamente à procura de um novo defensor e, acredite se quiser, não o encontrei! Todos se recusaram ... Sou portanto obrigado, de acordo com o Presidente Legris, que conduzirá os debates, a convocar alguém oficialmente. Foi quando pensei em você...

Ao pronunciar estas últimas palavras, o olhar do eminente advogado evitou o de Deliot que finalmente descobriu a verdadeira razão da amabilidade excessiva com que estava sendo tratado.

- Aqui está o processo - continuou Musnier vivamente, designando uma pasta volumosa, entulhada de papéis, que ocupava o centro da sua escrivaninha.

Depois de se ter levantado, o velho advogado examinou o dossiê antes de responder:

- Compreendo muito bem ... Em todo o caso, nunca vou poder dizer que meus ilustres predecessores não acumularam um número impressionante de provas ... Esperemos que sejam todas convincentes!

Sem mais uma palavra, enfiou o processo na pasta, onde o caso Vauthier foi fazer companhia à Gazette du Palais, e dirigiu-se para a porta.

- Deliot - disse-lhe o Presidente da Ordem, bastante constrangido. - Você deve me detestar!

- Mas claro que não! Você fez seu papel, eis tudo! E eu vou procurar fazer bem o meu ...

- Você não deve levar as coisas por esse caminho! Ontem, antes de me decidir a chamá-lo, folheei o processo a fim de saber por que motivos os outros colegas o rejeitaram. E acho que cheguei a uma conclusão. O caso em si parece muito banal: o crime é evidente ... Aliás o assassino não tentou negá-lo de modo algum. A personalidade da vítima me pareceu inofensiva, ao passo que a do criminoso, esse Jacques Vauthier, é das mais curiosas. Talvez tenha sido exatamente ela a causa da rejeição de sucessivos defensores ...

- Ah, você vai sem dúvida me anunciar que se trata de um monstro?

- Não o quero influenciar... Leia o processo: você mesmo vai descobrir ... Talvez vá necessitar de uma prorrogação de prazo. Se acha que tem pouco tempo, não hesite: venha falar comigo e adiaremos o julgamento.

- Farei o impossível para evitar isto - respondeu Deliot. - Quando o vinho é servido, tem de ser bebido: assim também, quando um crime é cometido, deve-se julgá-lo o mais breve possível. Ou o acusado é culpado e deve ser condenado sem mais demora, ou é inocente e considero injusto prolongar sua prisão preventiva.

- No caso em questão, meu caro, parece que a culpabilidade de seu novo cliente não pode ser posta em dúvida. Além do mais, por sua atitude imediata ao crime, tudo faz supor que se declarará culpado ...

- Permita-me observar-lhe, meu caro presidente, que esse ponto preciso só diz respeito a ele e a mim...

- Sem dúvida. Mas afinal ele matou, declaradamente! E, nesse caso, seis ou oito meses de prisão preventiva não farão grande diferença no total da pena que ele pegará, mesmo que você consiga salvar-lhe a pele!

- Voltarei dentro de oito dias para lhe dar minha opinião - disse Deliot, simplesmente, à guisa de despedida.

Achou que seria supérfluo apertar a mão daquele inimigo cordial que o incumbia de uma causa perdida.

Pela primeira vez, atravessou rapidamente a Galeria Marchande. Na entrada da Sala dos Passos Perdidos, esbarrou em Berthet, um daqueles inumeráveis colegas que normalmente fingem não vê-lo.

- Você, Deliot! - exclamou Berthet. - Como vai o meu caro amigo?

Deliot quase deixou cair a pasta, de espanto: qual, aquele era mesmo um dia de surpresas.

- E parece que as coisas vão bem! - continuou seu interlocutor, apontando para a pasta inchada pelo processo Vauthier.

- Trabalho é o que não lhe falta. É pelo menos interessante?

- Realmente - respondeu o velho advogado, assumindo um ar confidencial. - Estou com um caso importante ...

- É mesmo? Correcional?

- Criminal! - declarou negligentemente Deliot e se afastou, deixando Berthet completamente estupefato.

Enquanto se encaminhava para o vestiário, para trocar seu barrete deformado por seu chapéu-coco amarrotado, o novo defensor de Vauthier pensou que pela primeira vez em sua vida acabara de marcar um ponto. Somente o fato de ter podido pronunciar essa palavra, ao mesmo tempo terrível e mágica, Criminal, havia levantado seu moral extraordinaríamente. Agora, precisava, de qualquer forma, ganhar a causa... Mas o que poderia haver naquele processo para que ninguém o aceitasse?

Ele o soube algumas horas mais tarde, após ter lido e relido as peças acumuladas por seus dois predecessores. Algumas estavam cheias de anotações pessoais. Deliot começou por apagar todas as apreciações de seus colegas. Ele jamais anotava coisa alguma, preferia ater-se unicamente às provas, cuja conexão lhe bastava, confiando mais em sua memória.

Fora, a noite invernal já havia caído, se bem que ainda não fossem mais que cinco horas. O gabinete de trabalho, que era também biblioteca e sala de visitas do modesto apartamento onde Victor Deliot morava há anos, no quinto andar de um velho edifício da Rua Saints-Peres, só estava iluminado, naquela noite, pela lâmpada de um abajur verde, colocado sobre a escrivaninha. O advogado se dirigiu, com seus passos arrastados, até um cabide dissimulado ao fundo do vestíbulo: apanhou um roupão desbotado que vestiu, como sua toga, sobre o paletó.

Entrou então na pequena cozinha para esquentar o café, que a empregada deixara pronto. Levou o bule e uma xícara lascada para sua mesa de trabalho: o primeiro foi colocado em seu lugar habitual, sobre o fogareiro, única fonte de calor do apartamento; a segunda, ele a deixou sobre o tapete gasto, aos pés de uma velha poltrona, onde se instalou, após ter acendido um dos charutos oferecidos pelo Presidente da Ordem. Ao cabo de algum tempo, a beatitude desse conforto aconchegante pareceu completa ao velho e solitário advogado.

Victor Deliot refletia, os olhos semicerrados. Apenas por duas vezes, saiu de seu torpor aparente para estirar o braço até a escrivaninha, onde se encontrava o telefone:

- Alô? Mestre Charmaux? Aqui fala Deliot ... Ainda não nos conhecemos pessoalmente, pois infelizmente não tivemos ocasião de nos encontrar por motivos profissionais ...

Creia, meu caro colega, que o prazer teria sido todo meu ...

Tomei a liberdade de lhe telefonar a respeito do caso Vauthier que acabo de herdar, se é que se pode dizer assim! ... Não, não está mais com o Dr. De Silves ... Sim, aceitei! É exatamente por esta razão que venho lhe perguntar, a título puramente profissional e estritamente confidencial, por que desistiu do caso?

A resposta foi longa e embaraçada. Victor Deliot escutava, sacudindo a cabeça e pontuando de vez em quando as frases de seu colega com "veja só!, veja só!", ou então "que coisa estranha!". Quando finalmente Charmaux terminou suas explicações, o velho advogado lhe disse com uma delicadeza absolutamente profissional:

- Peço-lhe desculpas novamente, meu caro colega, por tê-lo incomodado. Compreendo perfeitamente os motivos imperiosos que o obrigaram, contra sua vontade, a renunciar a este caso.. Agradeço desde já sua gentileza e espero ter o prazer de conhecê-lo pessoalmente qualquer dia...

Desligou repetindo: "Curioso! Curioso mesmo!" Alguns minutos mais tarde, discou um outro número:

- Alô? Gostaria de falar com o Dr. De Silves, da parte de seu colega Deliot ... De de Denis e Liot, um pouco parecido com Lion ...

Constatou imediatamente que seu nome não devia ser pronunciado com freqüência na casa de seu ilustre colega, o que para ele era completamente indiferente.

- Alô? Mestre De Silves? Aqui fala Deliot...

Apresentou as mesmas desculpas pelo incômodo, fez a mesma pergunta, escutou, sacudiu de novo a cabeça, agradeceu e desligou murmurando: "Estranho! Estranho mesmo!" O silêncio voltou a reinar na pequena sala aromatizada pelo cheiro do charuto interminável. Lá fora, estava cada vez mais escuro, mas a lâmpada do abajur verde ficou acesa até de madrugada...

Quando a empregada, no dia seguinte bem cedo, entrou no apartamento, surpreendeu-se de encontrar o dono da casa adormecido na poltrona. Quando inspecionava o quarto de dormir para verificar se o advogado usara a cama, ouviu a voz pastosa de Deliot que lhe perguntava:

- É você, Louise? Que horas são?

- Oito horas, senhor.

- Já! - resmungou o advogado antes de acrescentar: - E quantas vezes preciso repetir-lhe que a maioria dos mortais nos costuma chamar de mestre? Por quê? Não me pergunte, só sei que é assim! Faça-me logo um bom café.

- Bebeu todo o que deixei?

- Sim.

- Parece que quase não dormiu.

- É, realmente dormi muito pouco ...

Durante aquela noite de insônia, Victor Deliot havia recebido uma visita, pouco depois da conversa telefônica com o Dr. De Silves:

- Boa noite, mestre. Estava preocupada: procurei-o por toda parte no Palácio ...

- Vim mais cedo que de costume.

- Espero que não esteja doente...

- Não, minha filha ...

Danielle não era sua filha, nem mesmo sua parenta, mas ele se habituara a chamar assim a jovem estudante que terminava o curso na faculdade de Direito. Como tantas outras colegas, Danielle Gény sonhava com o Foro. Por outro acaso, havia encontrado, alguns meses antes, Victor Deliot no terraço de um café na Alameda Saint-Michel. Rapidamente, o homem experimentado do Palácio e a advogada em formação se tornaram bons amigos. Com seu espírito de contradição habitual, Victor Deliot tentou dissuadir sua jovem colega de exercer a profissão, mostrando-lhe com muitos exemplos que o Direito conduzia ao sucesso, uma vez que se desviasse da sua trilha.

Danielle, que chegara à capital cinco anos atrás transbordante de ambições juvenis e de esperanças, ficara um pouco chocada.

Seu novo amigo não lhe descrevia, com uma franqueza comovente, a miséria que a esperaria, se não conseguisse afirmar-se logo nas primeiras defesas? Fê-la compreender que ele, melhor que ninguém, estava em posição de lhe dar conselhos.

- Aquela modéstia tão sincera acabou por criar uma corrente de simpatia. A jovem descobriu logo que não devia tomar todas as palavras do advogado por verdades evangélicas e se obstinou em sua carreira. Pouco a pouco, Victor Deliot acabou por se interessar por seus estudos. Danielle e Louise, a empregada, eram as únicas mulheres que podiam entrar a qualquer hora na intimidade um tanto boêmia do apartamento do velho solteirão.

Por um momento, Danielle se perguntara se seu novo amigo não estaria apaixonado por ela, mas compreendeu rapidamente que Victor Deliot jamais amaria alguém. Não por egoísmo, mas por princípio, ele detestava as mulheres. Seria por elas jamais lhe terem dado atenção? E, entre todas, execrava absolutamente suas colegas de profissão sobre as quais pronunciava seu juízo lapidar:

- Ou elas fazem o Júri dormir, ou o irritam. De qualquer forma, o resultado é sempre desastroso!

A jovem Danielle tencionava ser criminalista, no futuro, e essa fora mesmo a razão principal de sua aproximação com aquele rude solitário que lhe ensinara um monte de coisas e segredos incríveis do ofício. Ela sempre se admirara de que Victor Deliot não tivesse feito uma carreira brilhante.

Era ela que datilografava, na velha máquina de escrever de seu gabinete de trabalho, as raras cartas que ele não podia deixar de enviar por necessidade de trabalho, apesar de seu horror instintivo por qualquer tipo de correspondência.

- Scripta manen!, costumava ele dizer... "enquanto que ninguém vem remexer em minha memória!" - Minha filha - repetiu o sonhador de charuto, quando a jovem já havia entrado em seu gabinete - Se fez a gentileza de me visitar esta noite é porque a preparação de sua tese pode esperar... Você me vai prestar um grande favor, sentando-se agora mesmo à máquina de escrever para bater uma carta com cinco cópias. Uma vez isso feito, só terá de acrescentar à mão Senhora ou Senhor de acordo com os endereços que lhe darei em seguida.

- É para um novo caso da Vara Correcional? - perguntou a moça, sentando-se.

- Desta vez, não ... Acabo de tomar uma grave decisão ...

Renuncio à Correcional para me consagrar à Criminal.. Está vendo esse processo impressionante sobre minha escrivaninha? É do primeiro homem do qual vou tentar salvar a vida... O caso não é nada fácil... Não se trata de um cliente comum. Posso mesmo afirmar, sem medo de errar, que jamais houve um caso como este. Para começar, ele não quer ser defendido, o que dificulta as coisas: isso implica em sua culpabilidade e, como pretendo defendê-lo apesar de sua recusa, acredito que teremos alguns choques! Está pronta? ... Ponha a data de hoje... Deixe um espaço branco para Senhor ou Senhora e escreva:

"Tendo sido designado para assumir a defesa de Jacques Vauthier, cujo julgamento se iniciará a 20 de novembro próximo, diante do Tribunal Criminal do Sena, pelo assassinato de John Bell, cometido em 5 de maio passado a bordo do navio De Grasse, peço a V. S. o obséquio de marcar uma entrevista ou passar no meu escritório o mais breve possível, visto que o prazo para a primeira audiência é bastante exíguo. Esperando sua pronta resposta, agradeço antecipadamente, etc ... " - Pronto! Anote agora os cinco endereços para sobrescritar os envelopes que você levará com toda a urgência à agência central da Rua do Louvre, assim que eu assinar as cartas. Elas deverão seguir ainda esta noite: os destinatários as receberão amanhã e nós ganharemos um dia... Escreva: Mme. Jacques Vauthier, Hoter Regina, 16 bis, Rua das Acácias, Paris. É seu último endereço conhecido, segundo as informações do processo. Não se esqueça de acrescentar Urgente. Segundo endereço: Mme. Simone Vauthier, 15, Avenida do Général-Leclerc, Asnieres. Terceiro: Dr. Dervaux, 3, Rua de Paris, Limoges. As duas últimas cartas vão para o mesmo endereço: Instituto São José, Sanac, Haute-Vienne, com os nomes respectivos de M. Yvon Rodelec e de M. Dominique Tirmont. É tudo... Você tem aula amanhã na faculdade?

- Somente uma que posso matar.

- Então faça isso. Gostaria que viesse para cá às oito horas da manhã e ficasse o dia todo. Estarei fora o dia inteiro e não voltarei antes das nove da noite. Espere até eu chegar e atenda ao telefone. Se uma das pessoas para as quais acabo de escrever der sinal de vida, marque uma entrevista para depois de amanhã, a qualquer hora: darei um jeito. Peço-lhe que não saia, nem mesmo na hora de refeição. Falarei com a empregada que lhe prepare o almoço.

- Mas, mestre, se eu tiver de me comunicar urgentemente com o senhor, onde poderei encontrá-lo?

- Não sei! Espere a minha volta ... Pronto, as cartas estão assinadas. Leve-as depressa para a Rua do Louvre!

- Mestre, seria indiscrição perguntar-lhe quem são essas pessoas para as quais escreveu?

- Muita, minha filha, mas vou dizer-lhe assim mesmo já que vai ser a minha assistente neste caso. Esses cinco desconhecidos para nós me parecem capazes de dar excelentes testemunhos de defesa. O que não significa que todos devam comparecer ao Tribunal! Dependerá de mim encontrar os argumentos que poderão decidi-los ...

A jovem partiu sem pedir mais explicações, sabendo de antemão que o advogado não as teria dado.

O resto da noite foi ocupado pelo longo sonho de Victor Deliot, que pensava, degustando os charutos do presidente da Ordem, que agora lhe era absolutamente indispensável travar conhecimento com seu cliente ...

Não mentira ao ter dito a Louise, quando esta chegara, de manhã, que quase não havia dormido.

Após ter engolido seu pequeno-almoço frugal, preparado pela dedicada Louise, e ter tirado o roupão amarrotado, fez uma toalete matinal sumária, sem mesmo dar-se ao trabalho de se barbear. Saiu então, dizendo:

- Louise ... A senhorita Geny Chegará dentro em pouco e ficará aqui o dia inteiro até minha volta. Prepare-lhe um bom almoço, não se esquecendo de que na idade dela as pessoas têm um apetite voraz ... Até amanhã ...

Uma hora mais tarde, munido das autorizações necessárias, atravessava um dos corredores da prisão da Santé. O guarda que lhe servia de guia perguntou:

- O senhor vai ver o n. 622?

- Vou.

- Desejo-lhe boa sorte. Se conseguir arrancar qualquer coisa daquele bugre, será um verdadeiro milagre! Ele é trancado como uma porta de prisão!

- Sua piada não foi de bom gosto, meu amigo.

- Oh! Eu disse isso, mestre, apenas para preveni-lo ...

Todos os advogados que vieram vê-lo recusaram-se a defendê-lo... É um pobre infeliz que deveria ser mandado para o hospício... Dizem mesmo que não se conseguirá um advogado para ele.

- Enganou-se duplamente: meu cliente não é um pobre infeliz e ele tem um defensor: Eu!

- Já chegamos - murmurou o guarda, pensando: "Este advogado deve ser um louco ou um sádico!" As chaves rangeram e a pesada porta de grades se abriu.

O guarda entrou na sela e fechou cuidadosamente a porta dupla atrás deles. Ajustou então seu lorgnon para contemplar seu novo cliente ...

Lá estava ele, agachado no chão, no canto mais escuro de exígua cela. E, apesar daquela estranha posição, parecia colossal...

O rosto retangular, terminado por um queixo enorme e coberto de pêlos duros, nada tinha de uma face humana. O advogado teve um movimento de recuo, perguntando-se, por um instante, se se encontrava na presença de um monstro fugido de uma longíngua floresta virgem. Não era possível que existisse uma criatura mais impressionante. O busto era enorme, com os braços caídos ao longo do corpo e terminando por mãos peludas de matador... mãos que esperavam sua presa...

O que mais chocava naquele rosto era a ausência de vida - os olhos estavam abertos mas apagados, os lábios bestiais, os malares salientes, as sobrancelhas proeminentes e espessas, a cor baça na penumbra: cadavérica. A única expressão de vida vinha de sua respiração ofegante. Jamais, em toda sua vida, já bastante longa, Victor Deliot se encontrara na presença de um indivíduo semelhante. Teve de fazer um grande esforço para perguntar ao guarda:

- Ele fica sempre nessa posição?

- Quase sempre.

- É realmente assustador!

E Victor Deliot pensou naqueles monstros estranhos, inventados há alguns anos e apresentados nos cinemas, indo de Frankenstein a King-Kong e passando por um Dr. Jekill e um Mr. Hyde.

- Você acha que ele sabe que estamos aqui? - perguntou ainda ao guarda.

- Ele? Ele adivinha tudo! É impressionante ver a que ponto ele compreende sem ver, nem ouvir, nem falar...

- Isso não me espanta - respondeu o advogado. - Pelo que li em seu processo, este rapaz é instruído e muito inteligente. Já lhe disseram que este bruto chegou a escrever um livro?

- Um de seus predecessores, o Dr. De Silves, falou-me sobre isso, mas confesso que não acreditei...

- Pois fez mal. Eu lhe trarei o livro: tempo é o que não lhe falta aqui para ler.

- E como ele o conseguiu?

- Compensando com os três sentidos que lhe restam, o tato, o paladar e o olfato, os que lhe faltam desde o nascimento: a visão, a audição e a palavra... Mas seria muito longo para lhe explicar.

- No que se refere ao olfato, meus companheiros e eu já observamos que ele nos reconhece assim que entramos na cela.

Tenho certeza de que ele sabe perfeitamente que sou eu que estou de guarda hoje.

- Ele tem bom apetite?

- Não. Mas é preciso reconhecer que a comida não é das melhores...

- Ele sabe usar corretamente o garfo e a colher?

- Melhor que o senhor e eu quando a comida está boa! Só que na maioria das vezes nem toca no prato ... Olhe, eu acho que o que lhe falta são visitas ... Sua vida nesta prisão deve ser pior que a de um animal do zoológico! Isso parece brincadeira, mas é a pura verdade. Ele se aborrece: não pode fazer nada! Não pode ler, nem escrever, nem mesmo falar conosco quando viemos vê-lo ...

- Você deve ter razão, mas seria preciso que ele manifestasse desejo de receber visitas e que estas conhecessem os diferentes meios de comunicação que se empregam com ele ...

Acha que ele é mentalmente perfeito?

- Todos os médicos que vieram examiná-lo, e Deus sabe quantos foram!, afirmam que sim...

- Com os diabos, como podem saber?

- Eles sempre vêm acompanhados de intérpretes que tentam falar com ele ... Tocam seus dedos como se quisessem desenhar as palavras ...

- E isso surte efeito?

- Todos afirmaram que ele fazia questão de não responder ... Esse bugre não quer ser defendido!

O cliente de Victor Deliot se havia levantado bruscamente e mantinha-se encostado à parede numa posição de defesa, como se temesse que se aproximassem dele, já pronto para o ataque ...

Era pelo menos dois palmos mais alto que seus visitantes.

- Mas é um gigante! - murmurou o advogado. - Tem o corpo de um atleta ... Não admira que tenha destruído sua vítima ... Por que ele se balança assim sobre as pernas?

- Não sei: hábito talvez ... Nessa posição parece um urso enjaulado... Cuidado, mestre! Ele sabe que estamos aqui..

Veja como resfolega... Não se aproxime demais! Nunca se sabe o que poderá fazer!

O advogado não prestou a menor atenção ao aviso. Ao contrário, aproximou-se mais ... Quando se encontrou a pouca distância de seu cliente, colocou suas mãos sobre as dele que as retirou vivamente como se sentisse uma repulsa violenta nesse contato. Victor Deliot não se deu por vencido e tocou levemente seu rosto: o prisioneiro se enroscou sobre si mesmo lançando um grito rouco que poderia ter sido o de uma fera.

- Eu lhe preveni que tomasse cuidado, mestre! - gritou o guarda.

Mas era tarde demais ...

Os braços do colosso caíram sobre os ombros do advogado, sacudindo-o violentamente. As mãos enormes agora se aproximavam do pescoço... O guarda precipitou-se e desferiu violento golpe na nuca do gigante que largou sua presa. Com um grito de dor, recuou até a parede.

- Ufa! - disse simplesmente o velho advogado, abaixando-se para apanhar seus lorgnons.

- Eu o avisei, mestre! E um verdadeiro bruto!

- Tem certeza? - respondeu Victor Deliot, ajustando seus lorgnons no nariz. Uma vez isso feito, aproximou-se novamente de seu cliente e permaneceu um longo momento contemplando-o, antes de dizer:

- Parece que tudo o que meus colegas me disseram ao telefone é verdade ... Agora, compreendo por que preferiram desistir do caso! Evidentemente, é um perigo defender esse rapaz... Mas seu caso é muito interessante... Gostaria de saber por que ele ataca aqueles que procuram salvá-lo. Eu nada lhe fiz, no entanto ele me odeia tanto quanto a Charmaux ou a De Silves ... Estranho! Se eu pudesse fazê-lo compreender que só quero seu bem ... Sim, mas como?

- Eles experimentaram tudo antes do senhor, mestre.

Ele não quer entender.

- Talvez eles não tenham sabido conquistá-lo, mas eu hei de encontrar um meio ... Sabe que, se ele não tivesse essa tripla deficiência, seria quase bonito? Há feiúras que são sublimes ... Olhe: os traços do rosto são duros, mas enérgicos, seu físico é impressionante, mas bem proporcionado... Acima de tudo, admiro que ele possa agradar a uma mulher... Não a todas, mas a uma que ame os brutos ... Não conheço sua companheira, mas imagino-a frágil, pequena, quase etérea...

A eterna lei dos contrastes exige quase que esse tipo de mulher ame esse tipo de homem. Quem sabe não nos encontramos diante de uma nova reencarnação de a Bela e a Fera?

- O senhor está falando sério? - perguntou o guarda atônito...

- Mais que isso. Estou convencido do Que disse! Vamos, por hoje chega. Amanhã, voltarei com alguém capaz de falar com ele ... Espere! Antes de partir, preciso aproximar-me dele mais uma vez para que ele possa sentir bem meu cheiro. Dessa forma, me reconhecerá amanhã ... Se ao menos ele tivesse a idéia de me tocar!

O rosto do defensor estava a poucos centímetros do de seu estranho cliente. Mas desta vez este não se mexeu e conservou suas mãos obstinadamente atrás das costas, apoiadas na parede...

- Decididamente, ele não quer saber de mais nada por hoje! Quem sabe se amanhã acordará de melhor humor? Vamos.

A porta rangeu pela primeira vez e eles se encontraram no corredor. Victor Deliot caminhava, silencioso; ao lado do guarda que lhe perguntou no momento da despedida:

- Então? Está mesmo decidido a defendê-lo?

- Acho que sim ...

- O senhor tem coragem! Um bruto como ele ...

- Não estou persuadido de que esse rapaz seja apenas um bruto. É claro, até agora todas as aparências são contra ele mas afinal de contas são apenas aparências! Como podemos conhecê-lo realmente, se ele não nos vê, não nos ouve e não nos pode responder? Para ele, você e eu pertencemos a um outro mundo, que ele não consegue apreender... É preciso Que eu penetre no mundo dele a qualquer custo! Talvez eu venha a descobrir que estou apenas na presença de um infeliz que sofre e que ninguém tenta compreender. E não é a golpes de cassetete que o conseguiremos! Você nunca pensou que, se ele matou, foi porque talvez tivesse uma boa razão? Aprenda também que os únicos criminosos interessantes são aqueles Que não querem ser defendidos ... Antes de me retirar, gostaria de fazer uma pequena visita de cortesia a seu diretor... Veja se ele me pode receber.

O senhor Mesnard recebeu-o amavelmente:

- Então, meu caro mestre, acaba de travar conhecimento com seu cliente? Pode-se perguntar quais são suas primeiras impressões?

- Bastante boas - respondeu Victor Deliot para grande espanto de seu interlocutor. - O que não significa Que nosso primeiro contato tenha sido particularmente cordial! Mas alimento a vaga esperança de que nossas relações melhorarão com o tempo ... Não vim vê-lo, porém, para aborrecê-lo com meus problemas, Sr. Diretor. Vim fazer-lhe um pedido: seria possível, mediante uma quantia razoável, melhorar a comida de meu cliente, servindo-lhe outra coisa em vez da sopa regulamentar e do pedaço de pão?

- Sabe muito bem, meu caro mestre, que o regulamento somente autoriza como suplemento alimentar as encomendas vindas de fora ...

- E meu cliente as recebe?

- Nunca.

- E visitas?

- Que eu saiba, não.

- Bem estranho! Este homem tem família que mora, na sua maioria, em Paris.

- Sei disso, mas jamais apareceram.

- Ele tem mãe viva. Ela jamais manifestou desejo de ver o filho?

- Acho que não.

- E a irmã? E seu cunhado? ... Em suma, eles se desinteressaram todos dele porque ele os incomodou desde o nascimento e agora os envergonha... Parece que só desejam uma coisa: vê-lo condenado à pena capital para que não se fale mais nele! E sua mulher?

- Deve saber tão bem quanto eu, meu caro mestre, que ela desapareceu pouco tempo depois do crime.

- Desaparecimento perfeitamente inexplicável, já que foi provado que ela não teve a mínima participação no assassinato do americano....  Admira-me que ela não esteja interessada na sorte do marido, acusado de assassinato e prisioneiro, depois de se ter dedicado a ele durante tantos anos antes do drama.

- Nunca se sabe ...

- Bem, Sr. Diretor, já que não pode infringir o regulamento, vou ao botequim aí na frente, onde conhecem todos os parentes ou amigos de seus pensionistas, comprar algumas provisões que lhe serão entregues em seguida. Conto com sua gentileza para que meu cliente as receba ainda hoje. Providenciarei para que mandem apenas alguns alimentos simples: um pouco de presunto, pãezinhos, alguns ovos cozidos, tabletes de chocolate. Tenho a impressão de que, se comer menos mal esta noite, dormirá melhor ... E dormindo bem talvez tenha mais disposição para conversar comigo amanhã pela manhã...

- Quer dizer que conhece uma das linguagens empregadas com os surdos-mudos-cegos de nascença?

- Não, mas felizmente existem na terra outras pessoas que conhecem ... Pelo menos aqueles que educaram meu cliente desde menino! Até a vista, Sr. Diretor, e meu obrigado antecipado por tudo o que fizer por ele. Ah, um ponto importantíssimo sobre o qual nunca será demais insistir: procure fazer com que seus guardas percam o hábito de considerar o n. 622 apenas como um bruto. Até que se prove o contrário e, principalmente, até que seja julgado, insisto que o tenham como inocente. Quem nos garante que esse Jacques Vauthier não é um grande tímido ou uma criatura amedrontada? Ainda há pouco tentei uma experiência que me pareceu das mais concludentes: após me ter aproximado, toquei em sua mão e acariciei seu rosto. Sua reação foi imediata. Tentou estrangular-me e, Santo Deus, se o tivesse conseguido, seria um crime a mais em suas costas ... Mas, o que mais me impressionou, durante sua tentativa frustrada, foi o grito desumano que ele soltou.

Assemelhava-se ao urro de uma fera acuada, de um animal desesperado que atirasse todo seu rancor contra seu eterno inimigo: o homem. Foi comovente... Isso o teria tocado profundamente, Sr. Diretor, porque estou certo de que o senhor é um homem de coração. Aquele grito era a expressão de uma horrível dor moral ... Esse homem sofre ... Ele sofre por sentir-se rebaixado ... Sofre talvez de um mal que ignoramos e que foi a causa profunda de seu ato homicida... Sofre terrivelmente e é aí que está todo o problema:.. Até a vista, senhor...

Duas horas mais tarde, Victor Deliot entrava numa livraria próxima ao Odeon.

- Meu caro mestre - exclamou o livreiro -, que bons ventos o trazem?

- Não tenha a menor dúvida, meu caro Beauchet, de que tem diante de si um homem extenuado pela visita a 14 livrarias sucessivas sem conseguir encontrar o que deseja... Eu não deveria ter pensado logo no meu grande amigo Beauchet Que consegue sempre desencavar nos fundos da sua livraria o livro que seus colegas não possuem? Por acaso, você conhece um romance chamado 'O Isolado'?

- Sim ... Uma obra bastante estranha, cujo autor, parece, é surdo-mudo-cego de nascença. A propósito ... deve ter ouvido falar dele, há alguns meses. Os jornais lhe dedicaram colunas inteiras por causa de um crime que ele teria cometido a bordo de um navio ...

- É mesmo? Oh, você sabe ... com exceção da Gazette du Palais, raramente leio os jornais ... Mas diga-me: um caso assim não aumenta a venda do livro?

- Não quando o livro está esgotado. Teria sido preciso que o editor lançasse uma nova edição enquanto o crime ainda estivesse fresco na memória dos leitores.

- Quando apareceu esse romance?

- Já lhe vou dizer ...

O livreiro abriu um grande anuário alfabético. Seu dedo se imobilizou:

- Apareceu há cinco anos.

Victor Deliot calculou mentalmente que seu autor não tinha na ocasião mais que 22 anos e exclamou:

- Caramba! Ele era um bocado jovem! Autor prodígio?

O livro fez sucesso?

- De curiosidade, no momento, e um pouco de crítica...

Mas não foi um sucesso de público... O grande público já não se interessa muito por esse gênero de romance psicológico muito rebuscado, demais até, onde o autor disseca os menores sentimentos. O que ele quer é ação, movimento, mistério, vida principalmente! Entretanto, se essa obra lhe interessa, creio que ainda tenho um exemplar em minha reserva. Meu empregado vai procurá-lo ... Lembro-me perfeitamente de que esse O Isolado obteve maior repercussão no estrangeiro que na França e que após o seu aparecimento, o autor partiu para a América do Norte onde faria uma série de conferências sobre o problema dos surdos-mudos-cegos. Aqui, não se ouviu mais falar dele, nem que tenha escrito outro livro.

- Uma conferência feita por um surdo-mudo-cego não deve ser inteligível para o grande público, mesmo que este tenha maior boa vontade, como acontece em geral com o público americano.

- Suponho que o conferencista foi secundado por um intérprete que traduzia oralmente o que ele dizia em alfabeto datilológico... Olhe, aqui está o livro: um pouco empoeirado e com a faixa amarrotada.

- Não rasgue a faixa! - gritou o advogado. - Vamos ver antes o que ela diz: 'O Isolado ou O Homem que Soube Criar um Mundo Seu'. Não está mal! E 'O Isolado' é um bom título! De que trata a história?

- Lembro-me de que o herói é um surdo-mudo-cego de nascença, como o autor, que se apaixona por uma mulher.

Mas esta o abandona, em determinado momento, deixando o infeliz completamente desamparado durante um certo tempo.

Depois, pouco a pouco, ele se fechou sobre si mesmo, recusando-se, em sua solidão, a ter o menor contato com as pessoas que o cercavam .

- Decididamente, meu caro Beauchet, você é o melhor livreiro que conheço! Fico com o livro.

- Ele não é aborrecido, vai ver ...

- Ao contrário, tenho a impressão de que é apaixonante!

Dez minutos mais tarde, um ônibus deixava o defensor de Jacques Vauthier diante da Biblioteca Nacional.

Ali portou-se como velho habitué que era desses lugares veneráveis, familiar aos arquivos e que sabe exatamente onde encontrar os documentos de que necessita. Estes se resumiam a alguns jornais diversos, datados de 6 de maio e dos dias seguintes, nos quais estavam relatados, com detalhes macabros em alguns, e com grande sobriedade em outros, os acontecimentos trágicos que haviam ocasionado a prisão de seu cliente.

Um artigo chamava particularmente a atenção. O título, composto em três colunas, dizia: "Crime Estranho e Monstruoso a Bordo de De Grasse" A matéria que se seguia fornecia alguns detalhes essenciais:

"Pelo rádio, 6 de maio. Ontem a noite, enquanto o navio De Grasse efetuava a travessia de Nova York para o Havre, iniciada três dias antes, um crime de uma violência quase inconcebível foi cometido numa cabina de luxo, ocupada por um rico americano, Mr. John Bell. Esse rapaz de 25 anos, fílho único de um membro influente do Congresso de Washington, vinha à Europa pela primeira vez. A bordo do De Grasse encontravam-se também o Sr. e Sra. Jacques Vauthier que ocupavam uma cabina de primeira classe. Jacques Vauthier é aquele surdo mudo-cego de nascença que publicou há alguns anos um romance muito curioso, O Isolado, que lhe valeu na época uma certa notoriedade. A obra foi traduzida para várias línguas e obteve grande sucesso nos Estados Unidos. Convidado pelo Governo americano para uma série de conferências sobre os progressos conseguidos na França na educação especializada dos surdos-mudos-cegos de nascença, Jaques Vauthier passou cinco anos nos Estados Unidos e no Canadá, acompanhado de sua mulher que foi para ele a mais preciosa das colaboradoras.

"Esta, que tinha o hábito de passear pelo convés após o almoço, enquanto seu marido fazia a sesta na cabina, admirou-se ao constatar, na volta de seu passeio, que seu marido não estava deitado e devia ter saído da cabina. Como a ausência de Jacques Vauthier se prolongasse, a mulher foi à sua procura pelo navio. Não o encontrando, expressou sua inquietação ao comissário de bordo Bertin, temendo de que se podia esperar o pior, já que Vauthier era surdo-mudo-cego. O alerta foi dado imediatamente: teria o rapaz caído no mar?

"Uma busca metódica começou no De Grasse. Passando diante da cabina ocupada por Mr. John Bell, um camareiro, especialmente encarregado do atendimento das cabinas de luxo, constatou que a porta que dava para o corredor estava entreaberta. Após tê-la empurrado com certa dificuldade, o camareiro Henri Teral encontrou-se diante de uma cena terrificante: o jovem americano, ajoelhado, tinha os dedos crispados sobre a maçaneta da porta. Estava morto, assassinado. Um filete de sangue escorria de seu pescoço, manchando seu pijama. Havia também sangue espalhado pelo tapete ... Sentado no beliche da cabina, o deficiente Jacques Vauthier mantinha-se imóvel, prostrado, o rosto impassível. Se bem que fosse cego, seus olhos inexpressivos pareciam fixar suas próprias mãos cobertas de sangue ... O camareiro avisou imediatamente o comissário Bertin; que compareceu imediatamente à cabina do assassinado.

Jacques Vauthier não opôs a menor resistência em deixar-se prender e ser conduzido à prisão do navio. Sua mulher consentiu, a pedido do comandante do De Grasse a servir de intérprete provisória para um primeiro interrogatório. Aliás, era a única pessoa a bordo que conhecia os meios de comunicação com seu marido surdo-mudo-cego.

"Este deu a entender a sua mulher que não daria qualquer explicação sobre o crime do qual se reconhecia formalmente culpado e que achava justificado. Manteve essa atitude durante todo o resto da travessia, apesar dos pedidos insistentes de sua companheira.

"O motivo do crime parece ainda mais estranho pelo fato de a Sra. Vauthier ter afirmado que nem ela nem o marido jamais haviam tido o menor contato com a vítima que não conheciam. Um primeiro exame do criminoso, feito pelo médico do De Grasse; deixa claro que Jacques Vauthier gozava de todas as faculdades mentais.

"Assim que o De Grasse entrar no porto do Havre, o assassino será entregue nas mãos da polícia criminal." Um exemplar do mesmo diário, com data de 12 de maio, relatava num outro artigo os detalhes desta última operação:

"O inspetor principal Mervel, auxiliado por um intérprete especializado na linguagem dos surdos-mudos-cegos e por um médico legista designado pela polícia, esforçou-se por proceder a um novo interrogatório de Jacques Vauthier por ocasião da chegada do De Grasse ao Havre. O assassino de John Bell reiterou, por intermédio do intérprete, a mesma resposta que já dera alguns instantes após o crime a sua própria mulher. Antes de ser levado à prisão, o estranho criminoso será submetido a um exame médico minucioso que determinará se nos encontramos diante de um homem normal ou, ao contrário, de um infeliz, tomado de um acesso de fúria súbita, devido a sua tripla deficiência!"

Segundo seu hábito, Victor Deliot não fez qualquer anotação e deixou rapidamente a sala de leitura da Biblioteca Nacional para tomar um ônibus, que o conduziu ao Quartier Latin.

Durante o trajeto, o advogado esteve pensativo: não havia dúvidas sobre o estado de saúde de seu cliente. Numerosos atestados médicos inseridos no processo, que o esperava em sua mesa de trabalho, demonstravam que Jacques Vauthier, excetuando-se sua tripla deficiência, era perfeitamente normal. Por acaso, durante os inúmeros interrogatórios a que havia sido submetido durante os últimos seis meses, ele não declarara que "havia agido no De Grasse com perfeito conhecimento de causa, que não se arrependia de seu gesto e que, se tivesse de voltar atrás, mataria de novo John Bell?" Por outro lado, sempre se recusara a revelar a verdadeira razão de sua atitude.

Tudo aquilo era estranho e provava a Victor Deliot que sua primeira impressão devia ter sido certa: sob aquele aspecto impressionante de bruto, Vauthier escondia uma alma que devia ser completamente diferente ... Talvez fosse demais falar em alma; mas tratava-se certamente de uma vontade de ferro posta a serviço de uma inteligência rara, especial, quase insondável para as pessoas normais ... Uma inteligência capaz de desafiar todo mundo, isto é, aqueles que se julgam perspicazes porque enxergam, falam, ouvem ... O advogado chegava mesmo a duvidar de que alguém já tivesse conseguido descobrir e conhecer o verdadeiro Jacques Vauthier. Só o saberia quando entrasse em contato com os parentes do rapaz e, especialmente , com sua mãe. Uma mãe, geralmente conhece bem seu filho. E havia também os que o haviam educado, fazendo-o sair de sua noite aparente ...  E finalmente havia sua mulher, essa Solange Vauthier que parecia esconder-se. Ela é que deveria ser a mais preciosa auxiliar do defensor. Era preciso encontrá-la de qualquer maneira.

Quando Victor Deliot desceu do ônibus na esquina da Rua Gay-Lussac com a Rua Saint-Jacques, estava convencido de que seu cliente era realmente um caso muito difícil.

Parou perto de um portal, situado na Rua Saint-Jacques 254, onde estava escrito em grandes letras: Instituto Nacional de Surdos-Mudos.

Victor Deliot, que mandara entregar seu cartão ao diretor dessa instituição, não esperou muito para ser recebido. Após haver exposto rapidamente as razões de sua visita ao alto funcionário, o defensor de Jacques Vauthier perguntou:

- O senhor tem por acaso entre seus internos algum que seja surdo-mudo-cego de nascença?

- Não, mestre. Aqui tratamos apenas da educação de surdos-mudos. A Fundação Valentin Hauy é que é especializada em cegos. Isso é perfeitamente normal pois os métodos empregados são diametralmente opostos: para os nossos surdos-mudos, nosso auxiliar mais precioso é a visão ... Para os cegos, ao contrário, são a palavra e a audição ...

- Então o que acontece com aqueles que nascem com essas três deficiências?

- Existe apenas um método de educação: a utilização combinada dos três sentidos que lhes restam: o tato, o paladar e o olfato.

- E conseguem-se resultados apreciáveis?

- Se se conseguem? Pois saiba que certos surdos-mudos-cegos de nascença atingem um grau de cultura e de educação que causaria inveja a muita gente normal.

- E onde é que se operam tais milagres?

- Não existem mais que cinco ou seis estabelecimentos especializados em todo o mundo. A França possui o Instituto de Sanac, na Haute-Vienne, onde os frades de São Gabriel conseguem resultados verdadeiramente surpreendentes à força de paciência e tenacidade. Eu lhe aconselharia, mestre, a ir até lá.

Aliás, se não me falha a memória, Jacques Vauthier, que o senhor irá defender, freqüentou o Instituto de Sanac, tendo sido um de seus mais brilhantes alunos... Vejo que tem seu romance O Isolado... Já o leu?

- Ainda não.

- Esse livro é a prova mais evidente do que os educadores dedicados e inteligentes conseguem obter num caso semelhante.

- O senhor me poderia traçar em linhas rápidas o sistema dessa educação?

- Com todo o prazer... Em várias ocasiões, tive a oportunidade de ir a Sanac onde se encontra um homem admirável: o Sr. Rodelec. Pode-se mesmo dizer que foi ele que criou o método e, se não pertencesse a uma ordem religiosa, a dos Irmãos de São Gabriel, há muito que o Governo lhe teria concedido a insígnia da Legião de Honra ...  Yvon Rodelec, pelo qual nutro uma profunda admiração, acha que é preciso, antes de tudo, dar à criança surda-muda-cega de nascença a noção do sinal para que ela possa captar a relação existente entre o sinal e o objeto, ou, se preferir, entre o objeto apalpado e o sinal mímico que ele representa. Para atingir esse primeiro resultado, utilizam-se processos engenhosos que vai ter oportunidade de ver em Sanac.

- Se o compreendi bem - disse o advogado - o senhor quer dizer que a criança é esclarecida com uma mímica que procede sempre do conhecido para o desconhecido?

- Exatamente. É somente depois disso que se pode ensinar-lhe o alfabeto datilológico. Mas ele não pode ter noção de letra sem aprender antes as 26 posições dos dedos unicamente por obediência, por confiança em seu professor e talvez por uma vaga aspiração instintiva aos novos conhecimentos. Ele conseguirá, pouco a pouco, designar um objeto de duas maneiras: por um sinal de mímica e por meio de letras datilológicas.

- Em suma - declarou Victor Deliot mostrando O Isoládo - se eu fosse educador e quisesse dar a meu estranho aluno a noção de livro, eu teria de lhe colocar o volume nas mâos fazendo-o compreender que ele pode designar um livro por um sinal mímico ou reproduzindo com os dedos as cinco letras l-i-v-r-o?

- O senhor compreendeu perfeitamente, meu caro mestre.

A reunião das cinco letras forma rapidamente uma figura na idéia do aluno, que toma consciência da equivalência das duas designações: uma sumária ou sintética, a outra decomposta ou analítica. A repetição dessa lição, com outros objetos diferentes dos quais ele se serve quotidianamente, imprime em seu cérebro os dois modos de expressão: a língua mímica, rapidamente compreendida; e a língua alfabética cujo sentido se revela progressivamente.

- Até aí muito bem, mas como ensinar, em seguida, o aluno a falar?

- O educador pronuncia cada letra datilológica sobre a mão de seu aluno. A seguir, faz com que ele tateie simultaneamente, para cada uma das letras, a posição respectiva da língua, dos dentes e das comissuras dos lábios, o grau de vibração do peito, da parte anterior do pescoço e da ressonância da asa do nariz, até que ele consiga reproduzir por si mesmo esse som que ele não ouve nem vê como é produzido. O peito do professor torna-se uma espécie de diapasão que o surdo-mudo-cego consulta para dar o mesmo som às suas próprias vibrações ...

Meu caro mestre, quer ter a gentileza de pronunciar uma labial, qualquer uma?

- B - disse Victor Deliot.

- Já pensou no trabalho que lhe é necessário para pronunciar apenas esta letrinha? Trabalho que realizamos mecanicamente e sem esforço, graças à longa prática adquirida desde a infância. Para emitir este simples b, nossa língua precisa estar livre e flacidamente estendida sobre a base da nossa cavidade bucal, nossos lábios um pouco apertados, as comissuras levemente afastadas, nossa respiração presa. Nessa posição, entreabrindo os lábios, expulsamos uma pequena parte do ar afono contido na nossa boca: a explosão que se produz constitui o elemento b ...

- Santo Deus - exclamou sorrindo o advogado. - Confesso que jamais pensei nisso ... felizmente! Se eu tivesse de pensar no mecanismo da palavra, cada vez que falasse, acho que ficaria mudo ...

- O aluno - continuou o professor - terá de descobrir a fundo esse mecanismo físico para cada letra do alfabeto. Quando o conhecer bem, poderá então exprimir-se em linguagem oral... Linguagem imperfeita, claro, mas que pode perfeitamente ser compreendida pelos iniciados. Imediatamente, o educador o fará compreender a equivalência entre a letra-sinal da datilologia, a letra falada e a letra escrita, reproduzida em relevo: aprenderá assim a ler, tateando a escrita comum. Finalmente, para que ele possa dispor de todos os meios de expressão a seu alcance, o educador lhe ensinará uma última equivalência entre a letra datilológica e as letras ponteadas do alfabeto em Braille: isso lhe dará a possibilidade de escrever, fazendo-se compreender por todos, especialmente pelo senhor, que aceitou a tarefa ingrata de defendê-lo ...

- Fico-lhe imensamente grato, meu caro diretor...

Agora, começo a ver claro e minha conclusão confirma as primeiras impressões que tive após o estudo do processo e da visita que fiz esta manhã a meu cliente: se chegou a escrever um romance, foi porque a sua educação atingiu o máximo em Sanac e ele é capaz de utilizar todos os meios de expressão a seu alcance.

- Não tenha a menor dúvida!

- Pode mesmo se expressar oralmente ... mais ou menos, evidentemente, mas pode! E, se ele se cala, é por que assim quer, não é verdade?

- O senhor sabe tão bem quanto eu que o pior surdo é aquele que não quer ouvir e o melhor mudo o que não quer falar! ... Quero no entanto chamar sua atenção para o fato de que seu cliente, não enxergando, não pode ver em seus lábios como o fazem nossos surdos-mudos. O senhor terá de falar-lhe com a mão, utilizando o alfabeto datilológico. E se por acaso, finalmente, ele se resolver a lhe responder oralmente, terá uma dificuldade imensa em compreendê-lo. Será preferível que suas respostas cheguem ao senhor por intermédio da escrita Braille.

- Como ignoro todos esses métodos - falou Victor Deliot - não será preferível que eu leve um intérprete? Isso me decide, meu caro diretor, a lhe pedir um segundo grande favor: seria possível acompanhar-me amanhã cedo à prisão da Santé, onde eu queria tentar que meu cliente falasse?

- Eu o faria com todo o prazer, meu caro mestre, mas não acha que seria preferível utilizar para essa conversa um dos Irmãos de São Gabriel que educaram Jacques Vauthier?

- Já havia pensado nisso e escrevi a Sanac. Acredito firmemente que eles não se recusarão a esse ato de caridade cristã. Mas o tempo voa e é indispensável que amanhã eu já tenha esse primeiro contato com meu cliente ... Só o senhor poderá ajudar-me no momento! Se suas múltiplas obrigações o impossibilitarem de acompanhar-me amanhã cedo à prisão, poderia designar um dos professores de seu Instituto para fazê-lo? Prometo incomodá-lo somente esta vez ...

Após refletir um instante, o diretor respondeu:

- Eu mesmo irei! Isso para lhe provar que admiro sua coragem. Nenhum de seus colegas, dos quais me falou no início de nossa conversa, deu-se ao trabalho de vir pedir-me as informações mais elementares!

- Fizeram mal - disse o advogado. - Acabo de assistir a um curso preciosíssimo! Agora preciso ir, meu caro diretor.

Encontro-o amanhã às nove horas na entrada da Santé. Parto com a sensação de não passar de um velho ignorante que ainda tem muito o que aprender ...

Quando Victor Deliot finalmente voltou para casa, foi recebido pela jovem Danielle, que lhe disse, logo na entrada:

- Que pena não ter chegado uma hora mais cedo! Recebeu uma visita ...

- Uma de minhas testemunhas? Já? Quem foi?

- A Sra. Simone Vauthier...

- Ora vejam só! Sua mãe... Isso me deixa radiante, minha filha... O que ela disse?

- Que havia recebido sua carta esta manhã e vindo imediatamente ...

- Bem preciso aproveitar tão boas disposições! Vou tornar a sair ...

- Aonde vai, mestre?

- À casa dessa senhora, em Asnieres... Acho que já deve ter chegado. Caso contrário, eu a esperarei ... Tenho com que me distrair...

Acabava de mostrar o livro que tinha na mão. Após ter dado uma olhadela na capa, a estudante perguntou, admirada:

- Agora deu para ler romances, mestre?

- E por que não? Sempre é tempo de começar. Nada há que lhe chame a atenção nesta capa?

- Não. O título? 'O Isolado', parece um pouco triste ...

Os olhos de Danielle se arregalaram bruscamente:

- Ah! Já sei, o nome do autor... É ele?

- Completamente! Como vê, minha filha, desconfio seriamente de que nestas 300 páginas se encontra a chave do mistério...

Bem, já vou indo. Quanto a você, não saia daqui... Pode ser que outra das minhas testemunhas hipotéticas resolva aparecer.

Mal acabou de falar, fechou a porta da frente, deixando a jovem perplexa, perguntando-se se aquela súbita perspectiva de uma defesa na Corte Criminal não teria perturbado a mente de seu velho amigo.

Ele só voltou à meia-noite, declarando:

- Estou esfalfado, mas satisfeito ... Ainda temos café?

- Deixei algum preparado, mestre.

- Você é meu anjo da guarda, Danielle ... E, agora, volte logo para sua pensão. Precisa dormir.

- Mas os anjos não dormem, mestre!

- Não tenho tanta certeza! O meu deve estar sempre caindo de sono!

- Conseguiu falar com a senhora?

- Consegui... - respondeu Victor Deliot laconicamente. - Boa noite, minha filha. Venha montar guarda novamente amanhã às 8:30 horas...

Assim que ficou só, vestiu o velho roupão, calçou os chinelos e se instalou na poltrona para saborear o terceiro charuto do Presidente da Ordem. Mergulhou então na leitura de 'O Isolado' ... Chegou mesmo a reler algumas páginas onde o autor descrevia o estado em que se encontrava seu herói surdo-mudo-cego, como ele próprio, às vésperas de finalmente entrar em contato direto com o mundo que o cercava:

"Ele era"; diziam aquelas páginas, "aquele que jamais havia visto, ouvido ou falado, que nada conhecia, que vivia sem mesmo saber o que era a vida, num mundo de trevas e silêncio; que não tinha comunicação com o mundo exterior - do qual não podia, nem mesmo procurava, do fundo do seu abismo, fazer uma idéia - a não ser pelo cheiro, pelo gosto e pelo tato. Não era mais que o refugo e o último grau da miséria humana. Sentado diante de uma janela aberta, que deixava entrar, por lufadas, uma das raras sensações que ele podia perceber, a do calor e do frio, ali estava ele, possuidor de uma força inútil que se voltava contra ele próprio para lhe assinalar, a todo instante, o sentimento, inicialmente estranho, mas a seguir cada vez mais detalhado da sua impotência.

"... Ali estava ele, privado de vontade ou inundado de mil desejos inexprimíveis que se chocavam com obstáculos infinitos.

Ali estava ele, prisioneiro eternamente acorrentado cujos pés e mãos se mantinham livres, ao contrário dos condenados à morte, porque tinha de viver. Ali estava ele, imóvel, enroscado sobre si mesmo, desajeitado, passivo, pronto para tudo e nada esperando, emparedado na espessa escuridão que o envolvera escuridão que ele toca e respira, a escuridão que ele bebe, a escuridão que ele come, a escuridão que é para ele a cor, o ar, o céu, o mar, a atmosfera de seus pensamentos, de seu torpor, de sua existência petrificada, de seu adormecer e de seu despertar... finalmente, a escuridão pela qual ele sente um horror instintivo e a qual tem de suportar.

"... Ele se divide, assim, entre o embotamento e os transes, não sabendo, quando o guiam, para onde o levam, e julgando, a cada vez que se separam dele, que vão esquecê-lo e que jamais voltarão para buscá-lo. Pouco importa que seja filho de ricos burgueses! Será sempre pobre e carregará como única bagagem aquele corpo que é empurrado, parado, vestido ou despido, levantado, sentado e até deitado ... E quem faz isso? Outros semelhantes a ele, só que menos lentos e mais resolutos? Ou então criaturas de uma espécie superior?

"O pensamento embrionário, já extenuado nos compartimentos do cérebro por esse esforço gigantesco, não consegue progredir mais nesse pobre surdo-mudo-cego que se entrega e deixa cair a pique nos abismos de sua noite, semelhante aos peixes do fundo do mar, condenados a vagar lentamente nas regiões mais obscuras, entre paredes de lama, no emaranhado das florestas de algas, e que havendo tentado inutilmente, com um esforço supremo, nadar para as alturas, renunciam ao impulso impossível e, resignados, tristes e pesados, aceitam tornar a cair como pedras na desolação monótona de seu labirinto.

"E eis que um dia, num determinado momento, que será o mais maravilhoso de suas recordações, ele, a coisa semimorta e semiviva, percebe, ao toque de um desses seres misteriosos que por instantes o movimentam, que esse contato toma um significado particular e ordenado, parece revelar uma vontade exterior, manifestar um pensamento; uma intenção, um desejo de expressar qualquer coisa ... esforçar-se por libertar um sinal, deixa finalmente de ser um toque casual para se tornar o de uma inteligência paciente e firmemente atuante!

"Logo, ei-lo um cativo à espreita, perdido, assustado, trêmulo, sofrendo e passando por uma angústia inexprimível. Ele apura instintivamente todas suas faculdades atrofiadas para nada perder do novo sinal que lhe faz esse alguém que bate à porta de sua prisão. Ele não sabe ainda o que querem dele, mas adivinhou, do fundo de sua solidão, que querem alguma coisa. Há alguém que, pelo tato, acaba de entrar, de empurrar uma porta, de intervir em sua vida quase irreal. Daquele momento em diante, a comunicação foi estabelecida entre aquelas duas criaturas: "o prisioneiro do limbo, cujo único desejo ê fugir dali, e seu libertador, que já está abalando os muros da prisão ...  " Essas páginas deixaram o advogado perplexo: somente uma criatura excepcional podia atingir essa acuidade de pensamento. E como Vauthier descrevera com tal sensibilidade o primeiro contato de um surdo-mudo-cego com a pessoa que o arrancara de suas trevas, era claro que havia vivido pessoalmente aquele instante patético. Quem era o outro? Um homem ou uma mulher? Victor Deliot achava que devia ter sido aquele educador genial do qual lhe falara naquela mesma tarde o diretor do Instituto da Rua Saint-Jacques. Só poderia ter sido esse Irmão de São Gabriel, que havia tomado a seu cargo Jacques Vauthier durante muitos anos numa instituição de Sanac. O velho advogado fizera bem em escrever, na véspera, ao Irmão Yvon Rodelec. Era com impaciência que esperava a resposta.

Quando a empregada chegou no dia seguinte, encontrou Deliot mais uma vez adormecido na poltrona. Espantada, perguntava-se que mudança radical houvera em sua vida há 48 horas. Enquanto procurava uma resposta, o advogado a interrompeu com voz ainda de sono:

- Que horas são, Louise?

- Oito horas, senhor ...

- Renuncio de uma vez por todas a lhe pedir que me chame de mestre, minha cara senhora. Você jamais o conseguirá... O melhor será contentar-me com seus serviços domésticos. Prepare-me o pequeno-almoço.

- A porteira mandou que eu lhe entregasse esta carta.

O advogado sorriu, ao tomar conhecimento do conteúdo da mesma: "Esse Dr. Dervaux parece ser um homem amável e, de qualquer forma, educado... Respondeu imediatamente...

A única chatice é que terei de ir a Limoges para conversar com ele! Enfim, são os ossos do ofício ... " As nove horas, Deliot penetrou no que chamava de "domicílio provisório" de seu cliente em companhia do diretor do Instituto da Rua Saint-Jacques. O mesmo guarda os conduziu à cela 622, mas desta vez absteve-se de qualquer comentário.

Quando ia abrir a porta da cela, o advogado lhe disse:

- Li o romance de seu estranho hóspede. É interessante e bem escrito e vale a pena ser lido ... Ouça, ele recebeu uma encomenda ontem à tarde?

- Recebeu, mestre.

- Vê como aqui se consegue tudo? E ele gostou?

- Devorou os ovos cozidos e o chocolate.

Deliot voltou-se para o diretor do Instituto, dizendo:

- Estamos progredindo ... Quem sabe se não encontrei o meio de agradá-lo? Foi bem fácil! Por que meus predecessores não o utilizaram. Agora, deve falar um nada para criar entre ele e eu, seu defensor, a corrente de simpatia indispensável. E por isso que eu tinha necessidade de um intérprete sutil. Convença-se de que só sairemos desta cela quando eu o tiver conquistado. Venha, Vauthier! Ao combate!

Assim que a pesada porta se abriu, o prisioneiro, que estava sentado na cama, recuou até a parede.

- Decididamente - exclamou Deliot - ele me parece ainda maior que ontem! E continua a se balançar sobre as pernas como um urso ... Mas por que ele se retesou assim? Não pode ter ouvido quando chegamos ...

- Torno a lhe repetir, mestre - disse o guarda - que ele adivinha a menor presença: ele a fareja...

- Meu amigo - declarou o advogado - você acaba de pronunciar a frase mais inteligente desde que nos conhecemos.

A constatação é exata: ele nos fareja! Ele fareja todo mundo ...

Então, meu caro intérprete, o que pensa de meu cliente?

O diretor do Instituto tinha permanecido imóvel no umbral, como que pregado de espanto e levou algum tempo para responder:

- E um personagem inquietante...

- Outra constatação exata - disse Victor Deliot. - Tomo a liberdade, meu caro amigo, de completar seu pensamento: o senhor se pergunta se é possível que um cérebro normal se possa esconder por trás de semelhante figura? No entanto, o senhor leu seu livro. Estranho autor na verdade!

O advogado se havia aproximado do colosso e disse ao guarda sem se voltar:

- Como vê, fiz bem ontem, antes de deixar a cela, de fazer com que ele sentisse de perto, meu cheiro ... Agora, ele nem se mexe: já me conhece. É curioso e mesmo perturbador pensar que bastou farejar-me uma única vez para me reconhecer! O que não significa que já sejamos amigos! Por enquanto, podemos dizer que nos observamos mutuamente ... Há, entretanto, alguém que o perturba aqui... Vejam... E o senhor, meu caro intérprete! Ele fareja um novo e terceiro odor. O meu e o de seu guarda já lhe são familiares ... Será preciso que ele se habitue ao senhor, mas por enquanto, como desconfio um pouco das reações que ele poderá ter a seu respeito e não gostaria, por nada no mundo, de que ele repetisse a mesma acolhida que me fez ontem, vou tentar quebrar o gelo com uma pequena gentileza ...

Enquanto falava, Victor Deliot colocou na mão direita de Vauthier um maço de cigarro. Sem a menor hesitação, o prisioneiro tirou um cigarro do maço com a mão esquerda e o levou aos lábios. Gentilmente, o advogado aproximou um isqueiro, acendendo-o. Uma poderosa baforada de fumaça, saída das narinas de Vauthier, provou que ele apreciara a atenção.

- Ele fuma - disse tranquilamente o advogado. - Uma prova de que nos encontramos diante de uma criatura civilizada... e parece gostar, o bugre! Ninguém lhe havia oferecido cigarros até agora?

- Nem tivemos a idéia! - respondeu o guarda. - Mas o que quer? Não se pode saber do que ele gosta! Ele só faz rosnar!

- Pois verifique, meu amigo, que neste momento ele fuma sem rosnar! E aproveitemos rapidamente seu estado de euforia para interrogá-lo. Ora, vejam só! Ele está barbeado!

- Ele se barbeou esta manhã - disse o guarda.

- Sozinho?

- Sim. Ele é muito hábil com as mãos.

- Senti isso ontem! - falou o advogado fazendo uma careta. - Meu caro intérprete, acho que agora já se pode aproximar dele sem receio: ele teve bastante tempo para o respirar.

- O intérprete não parecia muito convencido. - Não tenha medo! No fundo, esse rapaz é muito gentil... Está tornando-se quase sociável: barbeado, fumando seu cigarrinho ... Logo, faremos dele um carneirinho! Passo-lhe a palavra, se é que podemos usar esta metáfora! Gostaria que o fizesse compreender logo de início que eu sou seu novo defensor e que o senhor é apenas um intérprete. Explique-lhe também que sou seu melhor amigo e que continuarei a providenciar para que ele tenha boa comida e cigarros.

Os dedos do intérprete começaram a tocar prudentemente as falanges do prisioneiro. Ele não retirou a mão, mas seu rosto permaneceu impenetrável.

- O que respondeu? - perguntou o advogado ansiosamente.

- Não respondeu coisa alguma.

- Tanto pior! O importante é que ele tenha compreendido: quem eu sou ... Diga-lhe agora que gostei muito de seu romance 'O Isolado' ...

Os dedos correram novamente sobre as falanges. O rosto de Jacques Vauthier pareceu iluminar-se.

- Eh! Eh! - gritou Deliot. - Acabamos de tocar numa corda sensível: seu orgulho de autor ... Diga-lhe imediatamente que obterei autorização para que lhe dêem o material especializado de que precisa a fim de aproveitar sua solidão forçada para lançar as bases de um novo romance ... Faça-o compreender que suas impressões de prisioneiro interessarão a muita gente ...

O intérprete retomou sua tarefa. Quando seus dedos ágeis voltaram a imobilizar-se, foram os do prisioneiro que, por sua vez, tocaram as falanges de seu interlocutor silencioso.

- Ele responde finalmente! - exclamou o advogado. - O que diz?

- Que ele lhe agradece, mas que é inútil, porque jamais tornará a escrever...

- Detesto afirmaçôes gratuitas! Diga-lhe que na minha opinião ele fez muito bem em matar o americano ...

- Acha que devo dizer isso? - perguntou o intérprete espantado.

- E claro que deve! Naturalmente o que afirmo não é uma verdade canônica, mas é indispensável que meu cliente esteja absolutamente convencido de que seu defensor o aprova, para que a confiança comece a reinar!

O intérprete transmitiu a mensagem do defensor e Deliot julgou discernir sobre o rosto impassível um reflexo de surpresa.

- Acrescente - disse precipitadamente o advogado que, no momento que agiu certo, não é culpado e faça-lhe cinco perguntas ... Primeiramente, por que se declara culpado?

- Ele não responde - disse o intérprete.

- Segunda pergunta: por que não quis ser defendido até o dia de hoje?

- Ele não responde...

- Terceira pergunta: gostaria de abraçar sua mãe?

- Não.

- Ei-lo categórico... Quarta pergunta: gostaria de rever sua mulher?

- Não.

- Muito interessante - murmurou o advogado antes de acrescentar: - Quinta e última pergunta. Gostaria que eu lhe marcasse uma entrevista aqui com Yvon Rodelec?

- Não responde.

- Não responde, mas também não diz não! ...  Meu caro diretor, acho que por hoje é o suficiente. Peço-lhe novamente desculpas de ter abusado de seu tempo precioso. Antes de partir, gostaria que explicasse a meu cliente que faço questão absoluta de lhe apertar a mão: será a única maneira de ele compreender minha simpatia e afeição sinceras.

Deliot estendeu a mão enquanto o intérprete traduzia a mensagem para seu cliente. Mas as mãos de Vauthier permaneceram imóveis.

Quando os dois visitantes se encontraram fora da Santé, o advogado perguntou:

- Diga-me francamente, o que pensa de meu cliente?

- O mesmo que o senhor, meu caro mestre. É um rapaz inteligente e astucioso, que só dirá o que quiser e que sabe aproveitar-se de seu aspecto para enganar os que o vêem.

- Essa é também a minha opinião. Ah, meu caro amigo, acabo de me convencer de que as pessoas inteligentes são, às vezes, mais difíceis de se defender que as imbecis!

Victor Deliot voltou imediatamente para casa, onde Danielle o esperava com impaciência para lhe entregar uma carta que chegara com o carimbo de Sanac. Ao terminar de lê-la, o advogado declarou:

- Tenho de sair novamente ... Preciso pegar o trem de meio-dia que me deixará em Limoges às sete horas ... Tenho uma visita importante a fazer naquela agradável cidade. Em seguida, penso ter um encontro lá pelas cinco horas, ao nascer do sol... se ele nascer! E mesmo que ele não nascesse mais, eu iria até o fim desse caso tenebroso ... Bem, peço-lhe que fique morando aqui até minha volta, para continuar a montar guarda.

- Quando pretende regressar, mestre?

- Ignoro....  Recapitulemos : das cinco pessoas às quais escrevemos, já consegui falar com uma, a mãe. Esta noite, encontra-me-ei com a segunda em Limoges: o doutor. Amanhã verei duas outras. Falta a quinta: a esposa. Esta será a mais difícil de encontrar! Terá recebido minha carta? E, se recebeu, responderá? Mistério! ... Apesar de tudo, tenho esperanças.

Com um pouco de bom senso, as situações mais complicadas se resolvem. É uma pena que sua tese de doutorado já esteja tão adiantada, porque senão eu lhe arranjaria um bom tema:

Pode o advogado de defesa, em consciência, aprovar um assassinato? De qualquer forma, reflita no assunto. E, se achar que vale a pena, recomece tudo de novo! Você não estará só: eu mesmo, neste momento, com 68 anos, tenho a impressão de estar recomeçando minha carreira... Até breve, minha filha...

A ausência durou quatro dias. Danielle já estava inquieta quando ouviu o toque de campainha característico do advogado. Eram duas horas da tarde.

- Até que enfim, mestre!

- Boa tarde, minha filha... Sobrou alguma coisa para eu comer? Estou com uma fome de lobo ... meu velho estômago não se acostuma mais aos esplendores duvidosos de um vagão-restaurante.

- Temos de tudo, mestre. O senhor deve estar exausto.

- Menos do que eu esperava. Autorizo-a a conversar comigo durante a refeição, mas, depois é preciso que volte para casa..

Ele fez honra ao almoço. A jovem não ousou interrogá-lo.

Foi ele quem se resolveu a falar, descascando uma pera:

- Vejo que morre de curiosidade de saber o que fiz, verdade? E, como nada me perguntou, vou dizer-lhe tudo ... Tive a oportunidade de assistir a algumas experiências ...

- Experiências?

- Em seres humanos que nasceram sem ver, ouvir e, conseqüentemente, não puderam falar.

- E eles vivem?

- Menos mal do que você imagina ...

Continuou a descascar a pera, observando sua jovem assistente que lhe pareceu inquieta.

- O que é que você tem? - perguntou. - Há alguma coisa que a preocupa?

- Eu não lhe queria falar, mestre, porque sei que anda tão sobrecarregado... Mas é o seguinte: todas as noites, desde que partiu, lá pelas 11 horas, eu recebia um telefonema estranho.

Era uma voz de mulher, sempre a mesma, que perguntava pelo senhor. Como eu respondesse que não estava, ela desligava imediatamente.

- E tudo?

- Sim, mestre.

- É pouco! Se ao menos eu tivesse uma amante ciumenta poderia esperar que fosse ela, mas não tenho! Agora, minha filha, volte para sua casa... Amanhã lhe dou folga. De qualquer forma, não deixe de passar aqui depois de amanhã. Boa tarde.

Ficando só, Deliot enfiou seu roupão e, pela primeira vez, deixou de lado a velha poltrona: instalou-se à escrivaninha e pôs-se a ler uma série de brochuras que trouxera de sua viagem e em cujas capas havia a menção: "Instituição Regional dos Surdos-Mudos-Cegos, Sanac." Foi arrancado da leitura pela campainha do telefone:

- Alô? ...  Ele mesmo, senhora ... Com quem tenho o prazer de falar? Ah, perfeitamente! ... Acabou recebendo minha carta? O que prova, minha senhora, que não é tão difícil de ser encontrada, como pretendiam meus predecessores! ... Gostaria muito de encontrá-la, Sra. Vauthier... Somente a senhora poderá esclarecer-me sobre esse caso doloroso ... Suplico-lhe, minha senhora! Trata-se de seu marido ... E da senhora também ...

Estão mal explicadas e interpretadas as razões de seu desaparecimento e de seu silêncio... Eu sei que a senhora nada teve a ver com o caso ... e é justamente por isso que preciso de sua ajuda: seu testemunho será precioso ... Estou às suas ordens. No dia e hora que fixar ... Prefere não vir aqui? Compreendo muito bem ... Quer que eu vá à sua casa? Também não? Prefere conservar-se incógnita? Admito igualmente..

Então, onde nos encontraremos? Em Bagatelle? É um local lindo, mais próprio para um encontro amoroso ... Sua idéia não é má: nesta época do ano há muito pouca gente... Prometo que irei sozinho: segredo profissional... Amanhã cedo?

Dez horas está bem? Na alameda dos roseirais? Usará um costume azul-marinho e uma écharpe cinza? Reconhecer-me-á facilmente: não passo de um velhote muito míope, sempre vestido de preto! ... Meus respeitos, senhora...

Victor Deliot tornou a mergulhar em sua leitura: seu rosto não refletia qualquer sentimento de satisfação.

Ele foi pontual ao encontro. A senhora de costume azul-marinho e écharpe cinza estava à sua espera, caminhando pela alameda do roseiral. Aquela hora matinal, os jardins de Bagatelle estavam desertos. O advogado dirigiu-se para a desconhecida, ajustando seus lorgnons para ter uma primeira impressão de conjunto: e esta foi exatamente como ele previra.

Solange Vauthier oferecia um contraste gritante com seu marido: loura, enquanto ele era moreno, fina, com uma aparência frágil, más idealmente bonita. A pele parecia transparente, as carnes diáfanas: uma criatura de sonho surgida de qualquer lenda das margens do Reno. Era pequena, mas tão bem proporcionada no tipo mignon quanto seu marido na espécie gigante.

Essa encantadora criatura era realmente a Bela da Fera ...

- Desculpe-me tê-la feito esperar - disse o advogado tirando o chapéu.

- Isso não tem a menor importância - respondeu a moça esboçando um sorriso cuja estranha tristeza chocou seu interlocutor. - Estou escutando, pode falar ...

- Tentarei ser breve. Em duas palavras, preciso da senhora!

E quando eu digo preciso, entenda precisamos: seu marido e eu ...

- Tem certeza do que diz, mestre? - respondeu ela com ceticismo. - Jacques tem feito tudo ao contrário para evitar ver-me desde o momento do crime. Insisti para que ele me recebesse na prisão: ele sempre se recusou. Parece que procura fugir de mim ... Por quê?

- Eu ainda nada lhe posso explicar, senhora. Eu mesmo procuro... hesito ...  A única coisa que sei, porque sinto, é que pode, que deve me ajudar!

- Mas é o que eu mais desejo, meu caro mestre!

- Então, senhora, por que se recusou a prestar esse mesmo auxílio aos meus predecessores?

- Não confiava neles. Ambos viam em meu marido apenas um caso a explorar em benefício da própria publicidade.

Se eu lhe dissesse que esses pretensos defensores estavam persuadidos da culpabilidade do meu marido, enquanto que eu sei que Jacques não matou!

- O que a faz afirmar isso, senhora?

- Um sentimento íntimo e estritamente pessoal. Jacques é incapaz de matar! E eu posso dizer isso seguramente porque ninguém o conhece melhor do que eu.

- Não duvido, senhora. É por isso que me vai ser de grande auxilio.

- Não, mestre! Eu lhe seria de alguma utilidade se Jacques quisesse ser defendido. Mas ele não quer. Faz tudo para ser condenado: eu sinto! Eu sei! Nem o senhor, nem pessoa alguma no mundo conseguirá arrancar-lhe seu segredo, se eu mesma não o consegui no navio, durante os interrogatórios, quando servi de única intérprete após o crime.

- Contraditório como isso lhe possa parecer, após minhas primeiras conclusões, devo confessar-lhe, senhora, que estou convencido, assim como meus predecessores, de que seu marido é o assassino do jovem americano! Todas as provas são contra ele: suas impressões digitais, suas próprias declarações...

- Mas por que acha que ele iria matar um homem que não conhecia, e do qual ignorava mesmo a própria existência?

- Somente a senhora poderá ajudar-me a encontrar esse porquê... Tenho todo o direito de pensar que os motivos desse crime foram tão válidos, e isso eu já comuniquei a seu marido por intermédio de meu intérprete, que não me será difícil absolvê-lo.

A jovem mulher olhou longamente o advogado antes de responder quase num sussurro, como se temesse que a brisa espalhasse suas palavras pelos jardins desertos:

- Jacques não tinha razão alguma para cometer esse crime ...

- Felizmente, minha cara senhora, essas suas últimas palavras foram pronunciadas apenas diante de mim, o defensor de seu marido e, portanto, seu amigo! Se obstinar-se a repeti-las diante da Corte, onde tenho a firme intenção de citá-la como testemunha de defesa, poderíamos temer que elas contribuíssem para a condenação de Vauthier! Creio que deveríamos nos encontrar novamente amanhã, para tratarmos do assunto com mais calma e mais longamente. Digamos que este encontro ao ar livre foi apenas uma tomada de contato. Determine a hora que quiser. O tempo voa!

- Deixe-me refletir. Eu lhe telefonarei esta noite pelas 11 horas.

- Como achar melhor... Ah, antes de deixá-la, gostaria de lhe fazer mais uma pergunta.

- Estou às ordens.

- Ainda há pouco, a senhora me disse que seu marido se havia recusado obstinadamente a revê-la desde o momento do crime: isso confirma, ponto por ponto, as informações que tenho ... Afirmou, igualmente, que havia tentado o impossível para revê-lo, apesar de suas negativas. Quero dizer-lhe que as informações que obtive a esse respeito dizem exatamente o contrário. Algumas chegam mesmo ao ponto de insinuar que a senhora se esconde. Reconheça que sua atitude até hoje, no que toca aos defensores de seu marido, confirma essa opinião ...

É isso que me permite perguntar-lhe: Sra. Vauthier, quer me ajudar a defender seu marido, acusado de um assassinato? Sim ou não?

O olhar azul e vago da jovem errou novamente pelo rosto de seu interlocutor. Seus lábios tremeram, mas não emitiram som algum. Então, bruscamente, ela virou o rosto e fugiu, os olhos banhados de lágrimas, pela alameda cheia de rosas ...

O velho advogado, petrificado, olhava a frágil silhueta a se afastar rapidamente, sem tentar alcançá-la. Não se corre atrás da verdade que foge. Tirou os lorgnons e pôs-se a limpá-los com seu lenço xadrez, enquanto se dirigia também para a saída do jardim. "Aí está", dizia para si mesmo, "o casal mais extraordinário que se possa encontrar ... A Bela e a Fera ... A Bela deve ser má, A Fera, sem dúvida é boa ...  Mas que segredo pode existir entre esses dois seres para que nem um nem outro se queiram rever?" No momento em que atravessava o portão de Bagatelle, o defensor de Vauthier resmungou em voz alta: "Vamos, Deliot, coragem! Por obra e graça desse presidente dos diabos, você está metido num dos crimes mais estranhos de nosso tempo!"

Uma semana se havia passado desde que o Presidente da Ordem confiara a Victor Deliot a defesa de Jacques Vauthier, quando o velho advogado reapareceu no Palácio.

- Então? - disse-lhe Musnier recebendo-o em seu escritório: Em que ponto anda com seu caso?

- Estou quase pronto - respondeu Deliot num tom desenvolto que espantou seu colega de mocidade.

- Õtimo! Mas provavelmente você me vem pedir um adiamento?

- Não. Estarei preparado para a primeira audiência, no dia 20 de novembro.

- Tão cedo? Pelo que vejo conseguiu sair-se bem... E o que acha de seu cliente?

- Permita-me não responder...

- Como quiser! Enfim, está contente? Não me odeia mais por eu o ter encarregado oficialmente da defesa?

- Eu lhe agradecerei mais tarde ... No momento, gostaria de conhecer meu adversário.

- Voirin? Já o conhece?

- De nome ...

- Será um páreo duro! E o advogado da Embaixada. Encarrega-se quase sempre da defesa dos cidadãos americanos, principalmente quando são assassinados em nossa terra! Deve estar no Palácio neste momento: vou mandar chamá-lo...

Enquanto o presidente dava ordens ao contínuo, Deliot lhe disse:

- No fundo, você me presta um grande serviço. Pergunto-me se um colega tão ilustre se rebaixaria a travar conhecimento com um pobre advogado como eu, antes do processo?

- Voirin é um rapaz amável sob uma aparência um pouco distante... Ainda que jamais o tenha visto, tenho certeza de que sente admiração pelo colega que assumiu a pesada tarefa de defender Vauthier. Suas relações profissionais só podem ser excelentes ...  Mas ei-lo que chega ... Entre, por favor, meu caro amigo. Quero lhe apresentar seu novo adversário no caso Vauthier, meu bom e velho camarada Deliot... .

O aperto de mão trocado entre os dois advogados foi frouxo. Voirin e Deliot em nada se pareciam. Fisicamente, Voirin era um tipão: uns 20 anos mais moço que seu adversário, exprimia-se com uma certa preciosidade de palavras e parecia muito satisfeito de ouvir-se falar. Moralmente, a diferença era ainda mais sensível: Victor Deliot não pensava senão em seus clientes, ao passo que André Voirin só pensava em si mesmo.

Desde esse primeiro contato, o assistente da acusação quis estabelecer as distâncias:

- Creio que é a primeira vez, meu caro colega, que entra como advogado de defesa no Tribunal Criminal?

- E verdade e me sinto um pouco apreensivo!

- Compreendo perfeitamente! E difícil adaptar-se ... Eu mesmo prefiro deixar para meus assistentes os casos da Vara Correcional ...

O velho advogado não pestanejou, perguntando amável:

- Já que tive a boa sorte de encontrá-lo no gabinete do presidente, posso perguntar-lhe, meu caro colega, quantas testemunhas pretente arrolar?

- Uma boa dúzia ... E o senhor?

- A metade apenas...

- Isso não me admira! Seus predecessores não fizeram segredos dos obstáculos que encontraram nesse sentido.

- É que não procuraram vencê-los! - disse Deliot, sorrindo. - Meu caro colega, tornaremos a nos encontrar na primeira audiência ...

Assim que Victor Deliot saiu, o elegante Voirin confiou ao Presidente da Ordem dos Advogados de Paris:

- Que homem estranho! De onde saíu ele? Veio da província?

- Engano completo, meu caro ... Deliot é o decano dos membros da Ordem ...

- E quase inacreditável! Pode-se saber, meu caro presidente, por que lhe confiou este caso?

- Por três razões pertinentes: a primeira, é que ninguém queria aceitar a defesa... a segunda, é que achei justo dar a um homem como Deliot um caso que o tornaria conhecido, pelo menos da maioria dos colegas que o ignora deliberadamente ... a terceira, porque acredito na capacidade de seu adversário ...

- É mesmo? - perguntou Voirin cético.

- Não é uma pessoa com uma aparência muito brilhante, mas, a meus olhos, possui uma qualidade que se torna cada vez mais rara na nossa profissão: ele gosta do seu trabalho...

A futura advogada Danielle Gény nunca tivera a oportunidade, até aquele dia, de assistir a um processo no Tribunal Criminal, pois os lugares reservados aos membros do banco dos advogados são sempre distribuídos a colegas bem relacionados na Corte, mas nesse dia 20 de novembro, data da abertura do julgamento de Vauthier, a jovem não se podia queixar. Instalada no banco da defesa por Victor Deliot, que a havia apresentado como sua melhor colaboradora, ela observava com curiosidade a sala e as pessoas que a lotavam. O duplo fato de ter vestido uma toga e colocado orgulhosamente sobre os cabelos ruivos um barrete dava a Danielle a impressão de ali estar no seu elemento.

A primeira pessoa que caiu sob o olhar tremendamente curioso da jovem foi, é claro, seu vizinho mais próximo: o bom, o excelente Victor Deliot. Parecia que aquelas grandes circunstâncias em nada haviam modificado seu aspecto desleixado: a toga desbotada era sempre a mesma e os lorgnons continuavam a equilibrar-se sobre o grande nariz que imperava sobre o bigode espesso. O velho advogado não se preocupava absolutamente com os 500 pares de olhos fixos nele, numa estranha mistura de espanto e comiseração. Cada um se perguntava de onde teria vindo aquela criatura de uma outra época e que chances teria de sair com honras de batalha de um caso tão delicado. Na ocasião, Victor Deliot concentrava toda sua atenção no que lhe dizia seu vizinho da esquerda, o diretor do Instituto da Rua Saint-Jacques. Este acabara por se apaixonar também pelo caso.

Havia solicitado e obtido autorização para servir de primeiro intérprete entre a Corte e o acusado, ao longo dos debates. Por várias vezes, durante as três semanas que haviam precedido a abertura do julgamento, esse homem de coração havia acompanhado Victor Deliot à Santé e conseguido, à força de habilidade, arrancar ao prisioneiro algumas respostas essenciais. O próprio Jacques Vauthier havia acabado por se acostumar à quele intérprete, cuja escolha se anunciava judiciosa em todos os pontos, para o bom andamento do processo.

Após ter vagado rapidamente pela assistência, constituída principalmente de mulheres elegantes e ociosas, o olhar de Danielle fixou-se no adversário, o advogado Voirin. Este - era mister reconhecer - era um homem vistoso, possuindo um porte que contrastava visivelmente com o do modesto e obsfcuro Deliot. Estava assistido por um verdadeiro estado-maior de importantes colaboradores aos quais ele próprio havia conferido respeitável reputação. Ao contrário de Victor Deliot, mestre Voirin olhava complacentemente a assistência, consciente dos olhares langorosos que a sua figura auto-suficiente atraía, principaumente de suas admiradoras habituais. Sentia-se que uma vez mais o grande advogado se preparava para o triunfo.

Essa segurança perturbava Danielle que pressentia a profundidade do abismo onde iria precipitar-se seu velho amigo. Decididamente, esse Voirin podia ser tudo, menos simpático.

Finalmente, quando o introduziram na sala, os olhos perscrutadores da moça se imobilizaram sobre o acusado que ela ainda não havia visto e sobre o qual Deliot fizera apenas uma vaga descrição. Aquilo foi para Danielle, delicada e sensível, um verdadeiro choque: sua respiração parou por alguns segundos. Ela jamais poderia imaginar que existisse sobre a face da terra uma criatura semelhante e que essa criatura pertencesse à espécie humana ... Os cabelos eriçados, aquela feição bestial, o maxilar de buldogue, a cabeça monstruosa desajeitadamente pousada sobre um corpo de atleta, aquela aparição assustadora emergia do boxe dos acusados entre dois guardas que pareciam franzinos ao lado de tal gigante. A jovem teve um movimento de recuo: o cliente de Victor Deliot não podia ser a criatura ínfeliz da qual o advogado falava com tanta afeição. Bastava contemplá-lo para sentir nele o bruto, o bruto integral, que raramente se encontra. Danielle estava horrorizada. E sofreu só em pensar que seu bom amigo se havia encarregado de defender um ser como aquele.

Seu olhar voltou-se então para o corpo de jurados que esperava, silencioso, observando o estranho acusado, cujo rosto petrificado não deixava transparecer qualquer sentimento. Jacques Vauthier, fechado em si mesmo por sua tripla deficiência, estaria percebendo a tragédia que se ia desenrolar à sua volta e da qual seria a vítima? A presença desse surdo-mudo-cego imóvel fazia pairar sobre a sala um mal-estar indescritível.

Com a entrada da Corte, a jovem foi arrancada, durante alguns instantes, de suas tristes constatações. Toda a sala se havia levantado à espera de que o Presidente Legris e seus assessores tomassem seus lugares. As funções do Ministério Público estavam a cargo de Berthier: um homem que Deliot temia infinitamente mais do que a seu colega Voirin. Promovido recentemente a esta alta dignidade, o promotor parecia encarar como questão de honra obter a cabeça de todos os acusados que passavam pelas suas garras. Para Deliot, Berthier não passava de um monstro, sedento do que ele chamava pomposamente de "Justiça". A defesa se ia defrontar com um adversário sutil e astucioso cuja eloqüência espetacular impressionava sempre os jurados.

A leitura da Denúncia foi feita em voz monocórdia pelo escrivão. Nada acrescentava de novo e se limitava a resumir em termos jurídicos o que todo mundo já sabia sobre as circunstâncias do crime, pelas notícias detalhadas dos jornais.

Quando a leitura terminou, o interrogatório de identidade do réu começou com o auxílio do intérprete que transmitia as perguntas do Presidente Legris em alfabeto datilológico sobre as falanges de Jacques Vauthier. Para que não houvesse o menor erro de transmissão, o Tribunal autorizara o acusado a utilizar a punção e a reglete da escrita Braille. Assim que ele traçava os caracteres no papel perfurado, um segundo intérprete traduzia em linguagem oral a resposta para a Corte e os jurados. Se bem que fosse longo, esse método duplo tinha sido escolhido como sendo o mais seguro e o único que evitaria o desvirtuamento de perguntas e respostas.

Esse interrogatório teria sido por demais cansativo para a assistência, se esta não estivesse apaixonada pelo trabalho dos intérpretes.

- Seu nome?

- Jacques Vauthier.

- Data e local de nascimento?

- 5 de março de 1923, Rua Cardinet, Paris.

- O nome de seu pai?

- Paul Vauthier, falecido em 23 de setembro de 1941.

- O de sua mãe?

- Simone Vauthier, nascida em Arnould.

- Tem irmãos ou irmãs?

- Uma irmã, Régine.

Desta forma, os jurados tomaram conhecimento de que Jacques Vauthier, nascido no apartamento de seus pais na Rua Cardinet, 16, em Paris, com sua tripla deficiência, havia passado os primeiros 10 anos de sua existência cercado pelos seus e cuidado particularmente por uma menina, apenas três anos mais velha que ele, a pequena Solange Duval, cuja mãe estava também a serviço dos Vauthier. A jovem Solange cuidava exclusivamente do doente, cujo estado exigia uma presença permanente. Desesperançados de poder educá-lo, os pais de Jacques, comerciantes de posses, haviam procurado várias instituições especializadas para conseguirem a internação do infeliz menino.

Finalmente, o Instituto Regional de Sanac, na Haute-Vienne, dirigido pelos Irmãos de São Gabriel, e por onde vários casos semelhantes já haviam passado com resultados excelentes, consentiu em receber o caçula da família Vauthier. Foi o próprio superior da Instituição, Frei Yvon Rodelec, que veio buscar o menino em Paris. Jacques Vauthier viveu os 12 anos seguintes em Sanac, onde, por sua inteligência viva, progrediu rapidamente. Após ter conseguido brilhantemente seus dois bacharelados, com 18 e 19 anos, começara, a conselho de Yvon Rodelec que o notava dotado para as letras, a escrever um romance intitulado O Isolado, que só foi publicado três anos mais tarde e que causou sensação. O jovem e novo escritor fora ajudado em sua tarefa pela antiga empregadinha Solange Duval, à qual Yvon Rodelec havia proporcionado igualmente uma sólida instrução. Solange Duval aprendera os seis sistemas diferentes de sinais indispensáveis para se poder comunicar com o doente: a linguagem mímica, a datilologia, a escrita Braille, a escrita tipográfica Ballu, a escrita inglesa e até a linguagem vocal própria aos surdos-mudos-cegos, cujo emprego era bastante limitado.

Seis meses após o aparecimento de O Isolado, Solange Duval desposara Jacques Vauthier em Sanac. O acusado tinha então 23 anos e sua mulher, 26. Algumas semanas mais tarde, o jovem casal embarcava para os Estados Unidos. Convidado por um grupo americano, Jacques Vauthier, durante cinco anos, percorreu os Estados Unidos, proferindo conferências destinadas a esclarecer o grande público sobre os progressos extraordinários realizados na França, no setor dos surdos-mudos-cegos de nascença. Solange Vauthier, durante todo esse período, foi a colaboradora e intérprete de seu marido. E foi no retorno dessa longa viagem que se desenrolou o drama a bordo do De Grasse.

O presidente pronunciou a frase ritual:

- Introduzam a primeira testemunha arrolada pela Acusação...

Era um rapaz alto e louro, talhe esbelto, sobriamente vestido, cuja fisionomia franca irradiava simpatia: repousava a assistência da contemplação horrível do acusado. Danielle não queria admitir, mas o recém-vindo, do qual ela nada sabia, lhe agradava ... E, do momento que agradava a ela - que escondia sob a toga um verdadeiro coração de balconista, pronto a se derreter ao primeiro raio de sol - era de se esperar que agradasse também às outras mulheres presentes.

- Seu nome?

- Henri Téral - respondeu com uma voz um tanto intimidada.

- Sua idade e local de nascimento?

- 10 de julho de 1915, em Paris.

- Sua nacionalidade?

- Francesa.

- Sua profissão?

- Camareiro a bordo do navio De Grasse da Companhia Geral Transatlântica.

- Jura dizer a verdade, nada mais que a verdade, toda a verdade ... Levante a mão direita e diga: "Juro".

- Juro.

- Sr. Téral, entre as cabinas de luxo que ficavam a seu cuidado, a bordo do De Grasse, encontrava-se precisamente a ocupada pelo Sr. John Bell. Poderia dizer à Corte em que circunstâncias o senhor foi o primeiro a descobrir o crime na tarde de 5 de maio?

- Sr. Presidente, quando iniciei uma inspeção às cabinas das quais eu estava encarregado, no dia 5 de maio depois do almoço, hora em que habitualmente não se perturbam os passageiros, quase todos repousando, foi por ordem formal do comissário Bertin. Ele ordenara a todo o pessoal de bordo que procurasse um passageiro desaparecido: o Sr. Vauthier. Todos nós conhecíamos, pelo menos de vista, o Sr. Vauthier, surdo-mudo-cego, que costumava passear no convés pelo braço de sua mulher e não podia de forma alguma passar despercebido no navio por causa da sua tripla deficiência. As buscas deveriam, portanto, ser fáceis. Depois de ter entrado, graças às chaves que sempre trago comigo por motivo de serviço, em várias cabinas e me desculpado pelo incômodo causado, surpreendi-me ao verificar que a porta da cabina de luxo ocupada por um passageiro americano, o Sr. John Bell, estava entreaberta... Empurrei-a com certa dificuldade: alguém parecia estar apoiado contra ela. Quando finalmente consegui entrar, compreendi a razão dessa resistência: as mãos do Sr. John Bell, cujo corpo se achava ajoelhado, estavam crispadas sobre a maçaneta da porta...

Não precisei de muito tempo para constatar que me encontrava diante de um cadáver ainda quente ...


Guy des Cars - O Bruto (capa)


2. AS TESTEMUNHAS DE ACUSAÇÃO

- ... o Sr. John Bell - continuou o camareiro - acabava de ser assassinado. Era impossível ter a menor dúvida a respeito: um rastro de sangue coagulado saído de seu pescoço espalhava-se pelo tapete após haver manchado todo o pijama.

- Sr. Presidente - disse Victor Deliot de seu banco - gostaria de fazer uma pergunta à testemunha... Diga-nos exatamente, Sr. Téral, onde se encontrava Jacques Vauthier quando o senhor entrou na cabina?

- O Sr. Vauthier estava sentado no beliche ... Parecia bestificado e indiferente. O que mais me chocou foram suas mãos estendidas à sua frente, os dedos separados, e que ele contemplava com aversão, se bem que não pudesse vê-las ... E estavam sujas de sangue.

- E o senhor deduziu então - continuou o advogado Deliot - que ele era o assassino?

- Eu não deduzi nada! - respondeu calmamente o camareiro. - Encontrava-me diante de dois homens, um dos quais estava morto e o outro vivo ... Ambos cobertos de sangue.

Aliás, havia sangue por toda parte: no tapete, no edredão e até mesmo no travesseiro ... A desordem indescritível da cabina indicava que devia ter havido uma luta selvagem. Certamente a vítima havia reagido, mas seu adversário era muito mais forte.

Todos os presentes podem constatar: o Sr. Vauthier tem um físico de atleta.

- O que fez então? - perguntou o presidente.

- Saí precipitadamente da cabina, pedindo socorro a um colega. Pedi-lhe que montasse guarda diante da cabina para impedir que eventualmente o Sr. Vauthier saísse e corri à procura do Comissário Bertin. Mal chegamos diante da porta entreaberta, entramos todos os três na cabina. Vauthier não se havia mexido: continuava sentado sobre o leito, prostrado...

Meu colega e eu só fizemos executar as ordens do Sr. Bertin.

- Que ordens?

- Após nos termos aproximado cautelosamente de Vauthier, constatamos que ele não portava arma alguma. Esta não se encontrava também perto do cadáver. Foi o Comissário Bertin quem fez essa observação. Lembro-me perfeitamente do que ele disse então: "Interessante! Pelo ferimento só pode tratar-se de um punhal... Onde estará ele? Não adianta perguntar a Vauthier, que deve ser o único a saber, pois ele não intende nem é capaz de falar! Enfim, cuidaremos disso mais tarde... O mais urgente, no momento, é segurarmos esse sujeito que tem todo o tipo de ser o criminoso. Por medida de precaução, convém trancafiá-lo imediatamente na prisão de bordo ...

Será que ele se vai deixar levar?" Ao contrário do que temíamos, Vauthier não opôs a menor resistência. Dir-se-ia que ele se havia resignado à própria sorte, depois de ter cometido o crime e que havia permanecido intencionalmente sentado na cama de sua vítima para que não restasse a menor dúvida sobre sua culpabilidade! Deixou-se conduzir à prisão como uma criança pelo Comissário Bertin e por mim, enquanto meu colega continuava a montar guarda diante da cabina. Eu mesmo fiquei de sentinela diante da porta blindada da prisão até que um homem da tripulação, designado pelo comandante, me veio substituir meia hora mais tarde.

- Voltou logo a seguir ao local do crime?

- Sim, mas quando cheguei diante da porta vi que o nosso comandante, o Sr. Chardot, estava interditando o local, colocando na porta o selo judicial. Ao mesmo tempo o Comissário Bertin ordenou-me que não usasse minha chave especial para entrar nessa cabina onde nada poderia ser tocado até a chegada ao Havre. O Comandante Chardot recomendou, finalmente, ao pequeno grupo de camareiros e homens da tripulação que o cercavam que não convinha espalhar o acontecido entre os passageiros, que no entanto logo souberam de tudo!

- A Corte lhe agradece, Sr. Téral. Pode retirar-se ...

Introduzam a testemunha seguinte ...

Esta se apresentou uniformizada:

- André Bertin, primeiro comissário de bordo do navio De Grasse.

O depoimento do Comissário Bertin concordava, ponto por ponto, com o do camareiro.

- Sr. Comissário - perguntou o presidente - a testemunha precedente, Sr. Henri Téral, declarou que tanto ele como o senhor ficaram surpreendidos de não encontrarem na cabina a arma do crime. Verdade?

- Sim, Sr. Presidente... e o mais estranho de todo esse caso é que, apesar das buscas feitas em seguida, a arma jamais foi encontrada...

- Isso nada tem de extraordinário - interrompeu Berthier. - O prosseguimento dos debates mostrará à Corte e aos Srs. Jurados a natureza dessa arma, assim como a maneira muito simples pela qual o criminoso, segundo suas próprias explicações, a fez desaparecer!

- Sr. Comissário - perguntou ainda o Presidente Legris - diga-nos exatamente o que fez após ter encarcerado Jacques Vauthier na prisão de bordo?

- Permito-me observar à Corte - disse Victor Deliot, - que a defesa se admira com razão da iniciativa tomada imediatamente pelo Comissário Bertin de mandar prender meu constituinte quando nada provava ainda ter sido ele o assassino de John Bell!

- Como nada provava? - respondeu o comissário indignado. - Essa é demais! Qualquer homem sensato teria feito o mesmo em meu lugar! E não ia deixar passeando livremente pelo De Grasse um homem que eu acabara de encontrar sentado, as mãos ensanguentadas, ao lado de um cadáver ainda quente!

- Protesto! - exclamou Voirin. - Protesto contra essa interrupção da defesa. O comportamento do Comissário Bertin foi o de um homem que cumpria estritamente seu dever...

Asiás, sua atitude foi plenamente justificada uma hora mais tarde pelas próprias declarações de Vauthier que, na presença de numerosas testemunhas, reconheceu formalmente ser o autor do crime.

- O incidente está encerrado - disse com calma o presidente - e voltemos a minha pergunta à qual a testemunha ainda não respondeu.

- Sr. Presidente, assim que mandei encarcerar o Sr. Vauthier, apresentei-me a nosso comandante ao qual comuniquei a macabra descoberta. O Comandante Chardot desceu imediatamente à cabina do crime onde nada fora tocado sem contar com Vauthier que tínhamos sido obrigados a retirar. O corpo da vítima se encontrava ainda na mesma posição, as duas mãos agarradas na maçaneta da porta. O Comandante Chardot se fizera acompanhar do médico de bordo, o Dr. Langlois, que fez as primeiras constatações médicas. Durante esse tempo, a conselho do comandante que me acompanhou ao escritório do comissariado, senti-me na obrigação de avisar a Sra. Vauthier sobre o acontecido. Quando lhe contei, ela desmaiou ... Quando finalmente voltou a si, a Sra. Vauthier consentiu em nos acompanhar, ao Comandante Chardot e a mim, à prisão para nos servir de intérprete num primeiro interrogatório sumário de seu marido. Devo precisar, para o bom nome da Companhia Geral Transatlântica, que tudo isso foi feito o mais discretamente possível. Infelizmente fomos obrigados a radiografar a notícia do assassinato à polícia francesa pedindo que viesse a bordo quando o navio aportasse no Havre. A transmissão desse cabograma, embora cifrado, foi alvo de indiscrições. No dia seguinte, todos os passageiros sabiam que um crime fora cometido a bordo ...

- Como se comportou Jacques Vauthier durante seu primeiro interrogatório a bordo, na presença de sua mulher? - perguntou o presidente.

- Aparentava calma. A única resposta que conseguimos arrancar dele, por intermédio da Sra. Vauthier foi: "Fui eu quem matou esse homem. Reconheço o crime e não me arrependo de nada." Resposta que o próprio Jacques Vauthier escreveu com uma punção e uma reglete em escrita Braille, e que foi entregue pelo Comandante Chardot ao inspetor encarregado da investigação, assim que chegamos ao Havre.

- A peça em questão - assinalou o Promotor Berthier - está à disposição da Corte...

- Chamo desde já a atenção dos Srs. Jurados - disse Voirin - sobre a importância capital desta declaração do próprio punho, escrita pelo acusado e na qual ele reconhece ter matado John Bell...

- A testemunha pode dizer-nos - perguntou Victor Deliot - qual foi a atitude da Sra. Vauthier quando soube pelo próprio marido que ele havia matado?

- A Sra. Vauthier - respondeu o comissário - foi muito corajosa. Lembrou-me de que ela nos disse, ao Comandante Chardot e a mim, após ter traduzido a resposta de seu marido escrita em Braille: "Jacques afirma ter matado esse homem e eu digo que isso é impossível! Jacques não é nem pode ser um criminoso! Por que iria matar um homem que nunca viu, que não conhecíamos e com o qual não tivemos o menor contato desde nossa partida de Nova York?".

- Tem certeza das palavras que está repetindo? - perguntou o presidente à testemunha.

- São as próprias palavras da Sra. Vauthier...

- Agora sou eu que quero chamar a atenção dos Srs.

Jurados - declarou Victor Deliot - sobre o fato importantíssimo de que a Sra. Solange Vauthier se recusa a admitir a culpabilidade de seu marido...

- O contrário teria sido espantoso! - retorquiu Berthier.

- Já foram vistas e ouvidas neste recinto, coisas mais espantosas, Sr. Promotor! - respondeu Victor Deliot.

- A Defesa tem outras perguntas a fazer à testemunha?

- perguntou o presidente.

- Nenhuma...

- A Corte lhe agradece, Sr. Comissário. Pode retirar-se.

Introduzam a terceira testemunha: o Comandante Chardot.

- Sr. Presidente - disse o comandante do De Grasse -, fui informado do crime pelo primeiro Comissário Bertin que, por medida de prudência, acabara de encerrar na prisão de bordo o suposto criminoso. Pediu-me instruções. Embora nenhum passageiro ou membro da tripulação pudesse ser encarcerado sem minha ordem formal, aprovei a decisão do Comissário Bertin que tomara essa atitude para evitar que esse fato lamentável se espalhasse entre os passageiros. Em companhia do Comissário Bertin e do médico de bordo, Dr. Langlois, dirigi-me à cabina ocupada pelo Sr. John Bell, diante da qual um camareiro montava guarda. Substituí-o por um marinheiro.

Após ter constatado que nada havia sido tocado na cabina, coloquei na porta um selo judicial. Mas havia um problema sério: aportaríamos no Havre somente sete dias depois ... Era portanto impossível deixar o corpo na cabina sem correr o risco de encontrá-lo em decomposição. Após um minucioso exame do Dr. Langlois, deliberei transportá-lo durante a noite, quando os passageiros estivessem recolhidos, para uma câmara frigorífica do navio, o que permitiria aos investigadores e médicos legistas o encontrarem em perfeito estado de conservação. A seguir, reuni-me a Bertin, no comissariado, onde a Sra. Vauthier esperava ansiosamente por notícias de seu marido desaparecido.

Explicamos-lhe, da melhor maneira possível, a tragédia na qual o Sr. Vauthier estava gravemente comprometido.

- Qual foi então a atitude da Sra. Vauthier? - perguntou Victor Deliot.

- A Sra. Vauthier desmaiou. Somente uma hora mais tarde conseguimos persuadi-la a acompanhar-nos à prisão onde estava seu marido.

- Qual foi a atitude dos dois esposos no instante preciso em que se encontraram? - perguntou ainda o advogado de Jacques Vauthier.

- A cena foi comovente. A Sra. Vauthier correu para o marido, que a tomou nos braços. A Sra. Vauthier, em crise de desespero, repetia em voz alta: "Você não fez isso, Jacques!

Não é possível, meu amor! Por quê?" - Faço questão de observar aos Srs. Jurados - disse Victor Deliot - que Jacques Vauthier não podia ouvir nem compreender êssas palavras dolorosas pronunciadas por sua mulher... Permito-me fazer mais uma pergunta à testemunha:

- nessa ocasião, a Sra. Vauthier segurava as mãos do marido?

- As mãos? - perguntou espantado o comandante do De Grasse. - Não me lembro mais ... Parece que sim ...

- Procure lembrar-se, comandante. É muito importante!

- insistiu Victor Deliot.

- Permita a Corte que eu me espante - disse acremente Voirin - com a obstinação da Defesa em tentar lançar a dúvida sobre o depoimento de uma testemunha cuja boa-fé não pode ser posta em dúvida...

- Não se trata de boa ou má-fé, meu caro colega - exclamou Victor Deliot - mas da vida de um homem! Tudo tem sua importância! Os menores detalhes! Se insisto neste ponto particular é simplesmente porque os dois esposos, de mãos dadas, tiveram a possibilidade de conversar entre si sem que o Comissário Bertin ou o Comandante Chardot o tivessem percebido.

- E daí? - retorquiu o Promotor Berthier. - Mesmo supondo que o casal Vauthier se tenha comunicado entre si com o desconhecimento de terceiros, o que isto poderia modificar em profundidade o processo?

- Tudo, Sr. Promotor! Simplesmente tudo! Encarregarme-ei de demonstrá-lo no curso dos debates ... mas quis chamar a atenção dos Srs. Jurados sobre esse ponto preciso.

Victor Deliot tornara a sentar-se.

- O que aconteceu na prisão - perguntou o presidente - quando as primeiras efusões entre os esposos se acalmaram?

- Procedi imediatamente a um interrogatório de Jacques Vauthier que o Comissário Bertin anotou por escrito. A Sra. Vauthier serviu-nos de intérprete para fazer as perguntas. Jacques Vauthier respondeu utilizando a punção, a reglete e o papel-cartão que sua mulher trazia sempre na bolsa. As respostas escritas pelo próprio Jacques Vauthier foram cuidadosamente guardadas pelo Comissário Bertin.

- Todas essas peças estão à disposição da Corte - declarou Berthier.

-Quais foram as perguntas que fez a Jacques Vauthier, comandante? - perguntou o presidente.

- Minha primeira pergunta foi: "Reconhece ter matado John Bell?"Resposta: "Fui eu quem matou este homem. Reconheço o crime e não me arrependo de nada" ... Minha segunda pergunta: "Com que o matou?" Resposta: "Com uma espátula de cortar papel." Minha terceira pergunta: "Que espécie de espátula?" Resposta: "A que estava sobre a mesinha de cabeceira e que a Compánhia Geral Transatlântica põe à disposição dos pàssageiros em cada cabina. Tenho uma igual em minha própria cabina.." Minha quarta pergunta: "O que fez com esse corta-papéis que não foi encontrado em lugar algum?" Resposta: "Livrei-me dele, atirando-o ao mar pela vigia." Minha quinta pergunta: "Por que o atirou ao mar, se logo a seguir não hesitou em reconhecer seu crime? Seu gesto foi inútil!" Resposta: "Eu tinha horror a essa espátula..." Minha sexta pergunta:

"Conhecia sua vítima antes de matá-la?" Resposta: "Não..." Minha sétima pergunta: "Então por que a matou?" Jacques Vauthier não respondeu. "Foi para roubar?"Resposta: "Não." Minha oitava pergunta: "Foi por que John Bell lhe fez algum mal ou o ofendeu gravemente?" Mais uma vez Vauthier nada respondeu e, a partir desse momento, não mais respondeu a qualquer pergunta minha. O Comissário Bertin e eu nos retiramos, pedindo à Sra. Vauthier que nos acompanhasse. Ela concordou resignada e nos acompanhou após ter beijado seu marido.

- O senhor autorizou a Sra. Vauthier a rever o marido durante o restante da travessia? - perguntou o presidente.

- Ela o reviu diariamente na minha presença e na do Comissário Bertin. Precisávamos dela como intérprete, pois era a única pessoa a bordo que conhecia o alfabeto dos surdos-mudos e a escrita Braille dos cegos ... Além disso acho mais prudente, a conselho do Dr. Langlois, não deixar a Sra. Vauthier sozinha com o marido. Ainda que o doutor declârasse que Jacques Vauthier não apresentava o menor sinal de perturbação mental, temíamos que tivesse cometido o crime num acesso de loucura momentâneo e que isso se pudesse repetir.

- O que acontecia durante essas entrevistas?

- A Sra. Vauthier estava cada vez mais desesperada. Eu tentava obter outras respostas de seu marido, sem resultado.

De nada adiantaram as súplicas que ela repetia ao marido, tentando fazê-lo compreender que era de seu interesse responder, que não éramos juízes mas quase amigos... Nada o demoveu.

A última entrevista realizou-se três horas antes de chegarmos ao Havre. Ouço ainda as palavras da Sra. Vauthier ao marido:

"Mas Jacques, eles o condenarão! Você não matou. tenho certeza!" Nesse dia, observei muito bem que as mãos da Sra. Vauthier corriam, febris, sobre as falanges dos dedos de seu marido.

Este permaneceu no seu mutismo, soltou suas mãos das de sua mulher e enfiou-as nos bolsos dando a entender claramente que já dissera tudo o que tinha que ser dito e que as conseqüências de seu ato pouco lhe importavam. Três horas mais tarde, entreguei pessoalmente o prisioneiro nas mãos do Inspetor Mervel e dos policiais que haviam subido a bordo junto com o prático ...

- A Corte lhe agradece, comandante. Pode retirar-se.

Façam entrar a quarta testemunha ...

Apresentou-se o Dr. Langlois, médico de bordo do De Grasse:

- A Defesa o citou - disse o Presidente Legris - para saber o resultado de suas constatações médicas após o exame do cadáver de John Bell ainda na cabina.

- Quando o Comandante Chardot e o Comissário Bertin me levaram até a cabina do assassinado, vi imediatamente que a arma do crime havia seccionado a artéria carótida. A morte havia ocorrido alguns segundos mais tarde. Quanto ao ferimento, não deixava dúvidas sobre a natureza da arma empregada: um cortador de papel afiadíssimo em forma de estilete.

Quando o Comissário Bertin me apresentou um dos cortadores de papel postos à disposição dos passageiros, em cada cabina, pela Companhia Geral Transatlântica, afirmei-lhe, sem o menos risco de erro que o criminoso utilizara um desses cortadores.

- Não acha, doutor, que a morte poderia ter tido outra causa?

- Não. Ela sobreveio quase que instantaneamente pela parada de circulação sanguínea após o seccionamento da carótida que leva o sangue do coração ao cérebro. Além disso, a vítima era um rapaz bastante jovem que gozava de perfeita saúde.

- O Comandante Chardot pediu-lhe que examinasse Jacques Vauthier na prisão do navio depois de tê-lo submetido a um primeiro interrogatório? - perguntou o advogado Berthier.

- Exato. Esse primeiro exame foi bastante sumário - confessou a testemunha - mas voltei a visitar o prisioneiro nos dias subseqüentes sem encontrar qualquer sintoma de estado febril durante todo o restante da travessia. Comuniquei minhas observações ao Dr. Boulet, o médico legista que subiu a bordo com o Inspetor Mervel, quando chegamos ao Havre. Após ter acompanhado o Dr. Boulet à câmara frigorífica onde o corpo estava conservado em perfeito estado, reunimo-nos ao Inspetor Mervel na prisão de Jacques Vauthier. Lá, um exame minucioso, para o qual utilizamos os serviços do intérprete que o Inspetor Mervel trouxera com ele para fazer ao acusado várias perguntas de ordem estritamente médica, confirmou minhas observações anteriores: Jacques Vauthier é um homem perfeitamente são de corpo e mente, infelizmente afligido por uma triplice deficiência desde seu nascimento. Mas todos os seus orgãos funcionam normalmente.

- Quero chamar a atenção dos Srs. Jurados - disse o promotor - para o depoimento essencial da testemunha que aliás, foi consignado, palavra por palavra, num laudo médico redigido conjuntamente pela testemunha e pelo eminente médico legista, o Dr. Boulet. Portanto, Jacques Vauthier não apenas reconheceu formalmente seu crime, como essa confissão não foi fruto da imaginação doentia de um desequilibrado mental usando-se, por não sei que espécíe de masoquismo, de um crime que não teria cometido ...  É a expressão da pura verdade, dita por um homem em perfeita posse de suas faculdades mentais. A Corte gostaria ...

Victor Deliot não se havia mexido e parecia estar prestando muito pouca atenção ao depoimento do Dr. Langlois.

- A Corte lhe agradece, doutor - disse o Presidente Legris ...  - Pode retirar-se ... Antes de ouvirmos a testemunha seguinte, peço ao escrevente que leia o laudo médico redigido e assinado pelos Drs. Boulet e Langlois.

O escrevente iniciou a leitura com sua voz monocórdia: o laudo confirmava em todos os pontos o depoimento do Dr. Langlois. Terminada a leitura, o presidente disse:

- Introduzam o Inspetor Mervel.

- Sr. Inspetor, queira contar-nos tudo o que se passou a bordo do De Grasse após sua chegada.

- Após ter presenciado o exame do cadáver na câmara frigorífica do De Grasse, dirigi-me à cabina onde ocorrera o crime. Mandei recolher as impressões digitais em vários objetos, especialmente no edredão, no lençol e no travesseiro sujos de sangue. Uma ponta do lençol havia mesmo sido utilizada pelo criminoso para limpar as mãos após o crime: essas impressões nos foram preciosas. Terminado esse primeiro trabalho, decidi fazer uma primeira reconstituição do crime, segundo as declarações que me haviam sido dadas sucessivamente pelo camareiro Henri Téral, o Comissário Bertin, o Comandante Chardot e, finalmente, pelo Dr. Langlois.

"Para essa reconstituição, mandei que trouxessem o prisioneiro Jacques Vauthier. Quando ele se encontrou diante da cabina, soltou um rugido estranho e tentou fugir. Os guardas o seguraram à força, obrigando-o a entrar na cabina onde eu havia instalado sobre a cama um de meus subordinados, vestido com um pijama idêntico ao da vítima. Empurrei Vauthier em direção à cama e à mesinha de cabeceira sobre a qual eu colocara um cortador de papel da Companhia Geral Transatlântica.

Quando as mãos de Vauthier tocaram o corpo do meu colaborador estirado na cama, ele deu um novo grito enrouquecido e recuou. Segurei então sua mão direita até tocar com ela no cortador de papel, sobre a mesinha de cabeceira. Vauthier estremeceu e foi sacudido, por alguns instantes, de um tremor nervoso. A seguir, pareceu ter reencontrado a calma: com a mão direita apanhou tranqüilamente o cortador, erguendo-se, enquanto se inclinava sobre o corpo do guarda que simulava ser John Bell a dormir, apoiando a mão esquerda sobre o peito do homem, para impedi-lo de mexer-se. Tive o tempo certo para segurar o braço que se abatia de maneira fulminante sobre o pescoço de meu colaborador. Se não o fizesse, Vauthier teria cometido um novo crime!

"O mais estranho nessa reconstituição foi a precisão dos gestos do cego que, não enxergando sua vítima, agiu como um autômato. Dir-se-ia que havia adquirido uma grande prática nesse tipo de assassinato ... Uma coisa, porém, me intrigava: como é que um homem, tendo a carótida seccionada enquanto dormia, teve forças para se arrastar até a porta da cabina onde finalmente morreu;. as mãos crispadas na maçaneta da porta?

O médico legista, consultado, disse-me que esse último ímpeto de um moribundo era possível. por outro lado, os móveis virados e o rastro de sangue indo do leito à porta pareciam provar ter havido uma luta entre os dois homens. A melhor explicação parece ser a de que o assassino tentou impedir sua vítima de alcançar a porta. Apesar de tudo, ésse ponto permaneceu obscuro, visto Vauthier se ter recusado energicamente a dar as mínimas explicações.

"Tentei uma segunda experiência: mandei que meu colaborador se ajoelhasse na posição exata em que se encontrava o cadáver, apoiado contra a porta, as duas mãos crispadas sobre a maçaneta. Uma vez mais obrigamos Vauthier a se aproximar da porta, as mãos estendidas para a frente. Assim que seus dedos tocaram o pescoço do pseudo-cadáver, ele novamente deu um urro terrível e recuou para o fundo da cabina, arrastando consigo os guardas. Estes tentaram trazê-lo de volta à porta mas ele rolou pelo chão, arrastando-os novamente na sua queda.

Devo dizer que sua força é considerável. Levando em consideração que havíamos desencadeado um choque psicológico suficiente, aproveitei-me para assediar o prisioneiro com novas perguntas por intermédio do intérprete. Os guardas tiveram de segurar à força as mãos de Vauthier para que o intérprete pudesse traçar sobre as falanges dos dedos os sinais do alfabeto datilológico. Tempo perdido. Jacques Vauthier não respondeu a qualquer das perguntas. Mandei tirar suas impressões digitais que são as mesmas das encontradas nos diferentes móveis da cabina, no edredão e nas manchas de sangue do lençol. Quando Vauthier pareceu mais calmo, retornei a meu interrogatório.

Ele respondeu apenas a uma pergunta: "Reconhece ter matado este homem aqui?" Sua resposta foi: "Reconheço formalmente ser o autor deste assassinato. Não me arrependo de nada. Se fosse preciso eu o faria de novo." Mas quando eu lhe perguntei "matou-o com um cortador de papel idêntico ao que eu lhe coloquei nas mãos?", ele se limitou a dar de ombros, indicando por esse gesto que a seu ver a única coisa que lhe importava era ter matado o americano e que a maneira pela qual o fizera era de interesse secundário. Finalmente, minha terceira pergunta "se o gesto que ele acabava de fazer diante de nós, sobre a pessoa de meu colaborador estirado na cama no lugar da vítima, fora a repetição exata do que havia feito com John Bell?", ficou sem resposta. Depois disso, não consegui arrancar-lhe mais uma única palavra, nem em Braille, nem de qualquer outra forma...

- Verificações minuciosas, anteriores - continuou - nos provaram que o roubo não foi a causa do crime: com efeito nada que pertencera à vítima havia desaparecido. Era igualmente certo que Vauthier não conhecia sua vítima com a qual nenhum contato tivera antes do assassinato. Da mesma forma, foi impossível para a polícia criminal estabelecer com segurança o verdadeiro móvel do crime. Pessoalmente, estou convencido de que se deve atribuir esse ato homicida ao gesto impensado e súbito de um demente ou de um sádico ... Nada mais conseguindo dele, mandei que o desembarcassem. Foi levado de carro até Paris e encarcerado na Santé. A partir desse momento, não cne ocupei mais do caso, já que meu trabalho estava terminado.

- Professor Delmot - disse o presidente, interrompendo o interrogatório de identificação feito à sexta testemunha - pode dizer-nos o resultado das observações efetuadas sobre o estado mental e físico de Jacques Vauthier pela comissão médica que o senhor presidiu?

- Examinamos longamente e por seis vezes o assunto.

Ao fim de todos esses exames minuciosos, praticados por meus eminentes colegas, os professores Sereski e Hermite, e por mim mesmo, enviamos um relatório detalhado e completo para S.

Exa. o Juiz de Instrução Belin... A conclusão é que Jacques Vauthier, ainda que afetado por sua tripla deficiência de nascimento, da vista, do ouvido e da palavra, é uma criatura perfeitamente normal. Sua inteligência chega a ser superior à da média dos indivíduos. Conhece a fundo todos os meios de expressão que permitem que um surdo-mudo-cego se comunique com o mundo exterior. Se ele não responde a certas perguntas que lhe são feitas, é portanto de livre e espontânea vontade.

Quanto ao resto, a Corte pode confiar plenamente no relatório médico detalhado que acabei de mencionar. Nada mais tenho a acrescentar.

- A Corte agradece, Sr. Professor... .

Danielle, que escutara atentamente os diferentes depoimentos, aproveitou-se da saída da testemunha para lançar um olhar de soslaio a seu velho amigo Deliot ... Este, os olhos semicerrados, parecia mergulhado em profunda meditação. A jovem não resistiu à tentação de lhe perguntar em voz baixa:

- Mestre, o que pensa de tudo isso?

- Não penso nada, minha filha. Espero ... - resmungou Victor Deliot entredentes. Sem dúvida não lhe queria confiar:

"Só uma coisa me intriga realmente em todo esse caso, e isso, desde a primeira leitura do processo. As impressões ... essas malditas impressões digitais que meu cliente parece ter feito questão de espalhar a torto e a direito no local do crime ...

Com semelhantes provas é fácil mandar um homem para o cadafalso!" Danielle observou a assistência. Sua aparência era grave.

As primeiras testemunhas haviam bastado para que todos compreendessem que esse Jacques Vauthier, obstinado num silêncio voluntário que longe estava de ser a melhor tática, jogava uma partida perigosíssima em que arriscava a cabeça. Poderia ao menos beneficiar-se das circunstâncias atenuantes? Nem a assistência, nem a jovem acredítavam mais nisso. A única esperança era que a tripla deficiência de nascença atuasse em favor do acusado. De qualquer forma, a tarefa da Defesa anunciava-se difícil... Instintivamente, todos os olhares se fixavam naquele velho advogado obscuro que ninguém jamais havia visto nem ouvido até aquele dia e que parecia esperar, abatido e solitário, no seu lugar, o fim do pesadelo.

Ao contrário, o advogado da vítima parecia muito animado: o elegante Voirin, cercado por seus colaboradores, parecia estar em plena forma. Sabia que aquele primeiro dia de audiência não terminaria sem que ele marcasse pontos decisivos. Sentia-se também extremamente ajudado em seu trabalho, que agora parecia mais fácil, pelo temível Promotor Berthier, cuja calma aparente, até aquele minuto, era bastante inquietante.

Tudo aquilo, Danielle compreendia como qualquer outra pessoa da assistência. Quase a contragosto, seu olhar voltou-se para a figura bestial do acusado. Quanto mais examinava Vauthier mais achava que ele encarnava um tipo de assassino que não desonraria um galeria de criminosos célebres num museu do crime. Como era possível que uma mulher, fosse ela quem fosse, tivesse aceitado ser a companheira de um tal indivíduo? Aquilo ultrapassava os limites do seu entendimento.

A jovem foi arrancada de seus pensamentos pela voz monótona do presidente que chamava a sétima testemunha. Esta acabava de se dirigir à barra:

- Thomas Bell - respondeu o recém-chegado, cuja nacionalidade revelava-se por um pronunciado sotaque, óculos de aros de ouro e um paletó amplo. - Nascido em 9 de abril de 1897 em Cleveland, Estados Unidos. Nacionalidade americana.

- Sua profissão?

- Senador de Ohio, membro do Congresso de Washington.

- Sr. Senador, em minha qualidade de Presidente desta Corte, quero render uma homenagem pública a um dos melhores amigos que a França possui atualmente nos Estados Unidos ...

Minha missão é extremamente dolorosa. Sabemos, Sr. Senador, que o senhor fez questão de vir especialmente à França para testemunhar neste Tribunal. Seria demais pedir-lhe que nos fale de seu filho?

- John era meu único filho - começou o senador numa atmosfera de intensa emoção. - Havia recebido toda minha ternura desde seu nascimento, em Cleveland, em 16 de fevereiro de 1925, já que sua mãe morreu ao dá-lo à luz. Após uma infância feliz, John fez seus estudos no Colégio de Harvard. Fiz questão de que ele aprendesse o francês, que falava corretamente e, para que praticasse vossa bela língua, dei-lhe para ler vossos melhores autores. Esforcei-me também para inculcar-lhe meu amor pela França e prometi enviá-lo a Paris, para complementar seus estudos, assim que obtivesse seu diploma na Universidade. Infelizmente, estourou a Segunda Guerra Mundial, John tinha apenas 18 anos quando fomos surpreendidos pelo desastre de Pearl-Harbour. Apesar de sua pouca idade, alistou-se no dia seguinte, com minha aprovação, para servir na Marinha dos Estados Unidos. Incorporado a uma unidade de fuzileiros navais embarcou um ano depois para o Pacífico onde fez toda a guerra, recebendo quatro citações por atos de bravura. Desmobilizado após a capitulação do Japão, voltou a Cleveland. A guerra o havia amadurecido e ele decidiu ocupar-se da recuperação da Europa. Seu trabalho obrigava-o a freqüentes deslocamentos entre Washington, Chicago, San Francisco e Nova York. Por meu lado, eu andava tão absorvido por minhas funções no Congresso que só podia ver John a intervalos bastante irregulares, durante esses últimos anos. Cada encontro era uma verdadeira festa: saíamos juntos como dois camaradas. Eu me orgulhava de meu filho e creio que ele também se orgulhava de seu pai.

Contava-me tudo o que fazia. O maior prazer que lhe proporcionava a missão que se havia traçado era o contato permanente com todos os meios franceses de Nova York. Fi-lo compreender que não poderia conhecer realmente a mentalidade e a cultura francesas a não ser que visitasse vosso admirável país, região por região e cidade por cidade. Foi nesse dia que decidiu sua viagem.

- Apesar de seu grande desejo de vir à França - continuou - John hesitava um pouco. Devo confessar aqui uma de suas fraquezas: apaixonara-se por uma dançarina da Broadway, o que absolutamente não me agradava. A melhor maneira de terminar com aquele idílio era apressar a partida de Johnny para a França. Um mês mais tarde eu mesmo o acompanhei a bordo do De Grasse: nessa ocasião, pareceu-me feliz.

Alguns instantes antes que as escadas fossem retiradas, perguntei-lhe se não sentiria muita falta da sua girl friend da Broadway. Ele me respondeu rindo: "Oh não, meu pai. Compreendi perfeitamente sua pressa em me ver partir! Você tem razão, essa moça não é para mim..." Disse-lhe então, abraçando-o uma última vez: "Quem sabe você não traz uma francesa? Nunca se sabe... É o que lhe desejo de todo o coração!" Nunca mais revi Johnny. Descrevi-o tal como era ...

Essas últimas palavras haviam sido pronunciadas com uma simplicidade que comoveu a assistência.

- A Corte lhe agradece, Sr. Senador, por ter vindo esclarecer sobre a personalidade marcante de seu filho único.

- O que o Senador Bell não vos disse, Srs. Jurados - sublinhou Voirin - é o estado de espírito no qual veio testemunhar neste Tribunal. Não julgueis ver nele um pai que clama vingança, mas antes um amigo da França que vem pedir a uma Corte Criminal francesa que a justiça seja feita para que uma tragédia semelhante não torne a acontecer no futuro. A presença do Senador Bell neste recinto significa que é o povo americano que pergunta ao povo francês pela voz de um de seus mais qualificados representantes, se seus valorosos filhos já podem vir a nosso país sem se arriscar a serem degolados. O problema é grave, Srs. Jurados ... Refleti ... E não vos esqueçais, na hora do veredicto, de que toda a América vos observa!

O assistente da Acusação acabava de sentar-se com um gesto teatral. Victor Deliot levantou-se suavemente para dizer:

- Sem desfazer da dor paternal do eminente Senador Bell, a Defesa acha que as últimas palavras pronunciadas pelo advogado Voirin generalizam talvez demais estes debates. Se o povo americano nos pedisse contas pela morte de John Bell, não haveria alguma razão para que o povo francês também reclamasse por seus filhos franceses assassinados em solo americano! Peço-lhes que não se deixem influenciar, Srs. Jurados, por tais argumentos, pois devem saber tanto quanto eu que, infelizmente, o crime não é privilégio exclusivo de um povo ...

- É espantoso - disse o promotor com voz acerba - ver como a Defesa insiste, desde a abertura do julgamento, em conduzir os debates a um nível terra-a-terra.

- A Defesa se permite responder ao Sr. Promotor que estamos julgando fatos e não arrebatamentos oratórios!

- Por favor, Senhores! - disse o presidente. - O incidente está encerrado... Sr. Senador, pode externar-nos seus sentimentos a respeito do acusado?

- Nada tenho contra ele - respondeu a testemunha.

- Como poderia ter? Compadeço-me dele sinceramente por ter vindo ao mundo com tão grandes deficiências, mas será isso razão suficiente para lhe dar o direito de matar uma criatura maravilhosa como Johnny, que nunca lhe fez mal algum e que ele nem mesmo conhecia? Tenho certeza; Sr. Presidente, de que, se meu filho tivesse conhecido o Sr. Vauthier se teria interessado pelo seu caso: Johnny tinha uma alma generosa e não suportava ver infelizes à sua volta ... Nada mais tenho a dizer.

- Os Srs. Jurados apreciarão suas palavras - afirmou Voirin.

Todos os olhares acompanharam respeitosamente, até a porta, o pai de John Bell. Olhares que, em seguida, se voltáram, reprovadores, na direção de Jacques Vauthier. Mas como cada um compreendesse que ele não podia ver esses sentimentos, nem mesmo adivinhá-los, foi Victor Deliot que teve de suportar aquela crescente corrente de hostilidade.

Danielle não ousava olhar seu velho amigo. Compreendia de repente toda a grandeza e a miséria da profissão tantas vezes descrita por Victor Deliot e achava injusto que naquele momento ele estivesse sozinho para suportar aquela reprovação geral que não merecia. Mas por que aceitara defender semelhante causa?

Ela agora imaginava o pobre Johnny: um desses belos e magníficos GI americanos que haviam causado admiração ao mundo pela sua coragem e sua simpática displicência. Sentia pena de seu pai, tão digno na sua dor. E toda essa tristeza fora causada por um semilouco! Bem que o Inspetor Mervel dissera em seu depoimento: aquele assassinato inexplicável só poderia ser obra de um demente repentinamente sedento de sangue ou de um sádico invejoso da verdadeira beleza masculina. O que mais exasperava a assistência e a própria Danielle era o fato de Vauthier permanecer imóvel em seu lugar, indiferente ao que se passava ou se dizia à sua volta. E, entretanto, estava a par de tudo, pois um intérprete traduzia nas suas falanges as menores palavras pronunciadas ... Ele sabia, por exemplo, que se encontrava pela primeira vez na presença do próprio pai de sua vítima, e isso não o havia abalado!

A oitava testemunha acabava de ser introduzida.

- Seu nome?

- Régine Daubray - respondeu a elegante mulher que se apoiara à barra.

- Qual é o seu parentesco com o acusado?

- Sou sua irmã.

- Poderá dizer-nos o que sabe sobre seu irmão?

Victor Deliot reabrira os olhos e observava curiosamente a testemunha.

A jovem mulher respondeu sem hesitar:

- Ignoro se Jacques é culpado ou não, mas assim que soube, pelos jornais, do crime do De Grasse, não me surpreendi demais. Isso porque vivi com meu irmão durante seus primeiros 10 anos, quando ele ainda morava com nossos pais, no apartamento da Rua Cardinet. E posso dizer que durante esse período Jacques constituiu uma fonte de aborrecimentos diários.

Havíamos feito o impossível tentando educá-lo e tornar a sua existência suportável. Nosso amor por ele duplicava pela piedade que nos inspirava aquela criança que não nos podia ver, ouvir, nos falar. Meu pobre pai contratou a filha de nossa empregada, Mélanie, para que Jacques tivesse constantemente, à sua volta, alguém que o cercasse de cuidados. Meu pai tomou essa decisão quando percebeu que Jacques nos detestava a todos sem exceção. Aos sete anos, meu irmão já era um pequeno bruto que nos recebia, todas as vezes que o íamos ver em seu quarto, com vociferações e crises de fúria. Posso afirmar que a presença de Jacques em nossa família foi não apenas uma provação como também a causa da minha própria infelicidade.

- Explique-se melhor, senhora.

- Casei-me quando Jacques tinha apenas sete anos. Meu noivo, Georges Daubray, era meigo e compreensivo com Jacques para quem sempre trazia balas e guloseimas todas as vezes que vinha à casa de meus pais. Jacques nunca demonstrou o menor reconhecimento e atirava ao chão todos os presentes que ele lhe oferecia. Temendo que meus futuros sogros se opusessem a nosso casamento, havíamos decidido não lhes revelar a existência desse irmão doente. Meus sogros poderiam pensar que existisse uma tara na família. Foi logo depois, que um Irmão de São Gabriel, Yvon Rodelec, veio buscar Jacques para levá-lo para o Instituto de Sanac. Nunca mais revi meu irmão, mas meu marido, que amarei até o fim de meus dias, se foi afastando insensivelmente de mim. Não que tivesse deixado de me amar, mas temia, no caso de eu lhe dar um filho, que este se assemelhasse ao tio!

Torturado pela idéia de ter um filho doente, acabou por revelar aos pais a existência de Jacques. Foi terrível. Meus sogros jamais nos perdoaram, a mim e a meus pais, por lhes termos escondido a verdade. A partir desse dia, pressionaram Georges para que ele pedisse o divórcio antes que eu engravidasse. Meu marido terminou por ceder: quanto a mim, meus princípios religiosos proibiam o divórcio. Separamo-nos simplesmente e assim vivemos há 14 anos. Posso dizer tranqüilamente, sem rancor, que minha vida foi indiretamente arruinada por esse irmão doente.

- A senhora nos disse ainda há pouco que nunca tornou a ver seu irmão desde sua partida para Sanac? Como seu irmão tem agora 27 anos, jamais procurou revê-lo durante os últimos 17 anos, exato?

- Sim, Sr. Presidente. Um ano após sua partida para Sanac, minha mãe foi visitá-lo no Instituto da Haute-Vienne.

Voltou entusiasmada com os progressos extraordinários conseguidos por Jacques, mas desesperada pela maneira como ele a recebera. Lembrar-me-ei sempre desta frase de minha mãe:

"Jacques não nos pertence mais. Não tem o menor desejo de nos rever!" Em seguida foi a morte de meu pai e a minha separação... Mamãe ia ver Jacques todos os anos, mas confesso que jamais tive coragem de acompanhá-la. Um dia, 10 anos mais tarde, fiquei admirada de saber por um telefonema de meu marido que Jacques acabava de escrever e publicar um romance intitulado O Isolado Fui imediatamente até uma livraria e comprei o livro sobre o qual alguns críticos teciam os maiores elogios. Li-o em uma noite e fiquei horrorizada pela maneira como meu irmão descrevia a família de seu herói, surdo-mudo-cego de nascença como ele próprio. Eu podia ser reconhecida na personagem odiosa da irmã...

- Se a testemunha podia ser reconhecida - disse Deliot com voz suave - era porque a pintura era exata!

Régine Daubray voltou-se para quem a interrompia:

- Ela tinha alguns traços meus, mas era uma deformação monstruosa! Esse livro, onde ao longo de 300 páginas um doente que devia tudo à solicitude dos seus, esparramava seu ódio , devia ser proibido! Aliás, o maior responsável pela publicação do romance é esse Yvon Rodelec...

- Eu julgava - continuou Victor Deliot - ter entendido, ainda há pouco, que a vinda do Sr. Rodelec à Rua Cardinet havia sido um marco de libertação para toda a família...

- No início todos nós, acreditamos naquele velho que vinha para arrancar Jacques das trevas em que vivia. Mas, com o tempo, acabamos por compreender as maquinações do diretor do Instituto de Sanac! Para o Sr. Rodelec, meu irmão não era mais do que um "caso" a mais entre todos os outros que ele já havia educado. O Sr. Rodelec havia conhecido, na sua vinda ao apartamento parisiense de meus pais, a filha de Mélanie, Solange, três anos mais velha que Jacques e que cuidava dele.

Com 13 anos, Solange não era mais uma menina: teimosa, ambiciosa, apesar da sua pouca idade, sabia muito bem o que queria. Fiquei realmente espantada quando soube que ela e Mélanie, tendo deixado a casa de meus pais, haviam partido para Sanac onde o Sr. Rodelec lhes oferecera emprego na Instituição! Naquela época, com 20 anos, Solange se tornara uma moça atrevida que tivera a sorte de não ser muito feia. Sua ambição crescente levara-a a aprender, com o auxílio do Sr. Rodelec, os diferentes sistemas de expressão utilizados por Jacques no Instituto para se fazer compreender. Logo, ela exerceu tal influência sobre meu irmão que ele acabou por desposá-la.

Assim, a filha de nossa empregada acabou tornando-se minha cunhada! Mas o cúmulo foi que nos puseram, a minha mãe e a mim, diante do fato consumado: nem ao menos fomos convidadas para a cerimônia e nenhum membro da família de Jacques assitiu ao seu casamento que se realizou na capela do Instituto de Sanac.

- A Defesa tem algo mais a inquirir à testemunha? - perguntou o presidente.

- Nada mais - respondeu Victor Deliot.

- É de admirar - vociferou o promotor.

- ...  nenhuma pergunta - acrescentou Victor Deliot, levantando-se, - mas tenho uma observação a fazer aos Srs.

Jurados ... Julgam eles, em sã consciência, que o lugar da Sra.

Régine Daubray neste Tribunal seja do lado da acusação?

Acham eles normal que uma irmã mais velha, que só conheceu o irmão quando este era apenas um pobre menino, isolado do mundo, venha destruí-lo com 17 anos de atraso? E mesmo admitindo, absurdamente, que Jacques Vauthier fosse aos 10 anos, segundo a própria expressão da irmã, "um pequeno bruto", isso não prova que ele seja o mesmo, hoje! Qual de nós, Srs. da Corte e Srs. Jurados, não mudou em 17 anos? Para ser breve, a atitude da Sra. Daubray, cuja inconsciência faz tremer, só se pode explicar por um motivo: o interesse. Encarregar-nos-emos de demonstrá-lo em seu devido tempo.

- Que interesse? - perguntou o Promotor Berthier.

- Se o Sr. Promotor ainda não descobriu, vai ter uma surpresa no momento exato! - disse Victor Deliot. - Finalmente, a Sra Daubray deu a entender claramente que Solange Duval se casou apenas por ambição! Francamente, Srs. Jurados, não é concebível que uma jovem que, segundo a própria testemunha, "teve a sorte de não ser muito feia" e (onge de ser tola, limitasse sua ambição a uma união com um surdo-mudo-cego de nascença!

- Esse casamento lhe permitiu - respondeu imediatamente Régine Daubray - sair de seu meio e elevar-se na escala social, penetrando no nosso!

- Isso, se admitirmos ser uma honra sair do povo para se introduzir na burguesia! - replicou o advogado meneando a cabeça.

- e o Sr. Advogado na Defesa parece esquecer - a irmã de Vauthier tornou-se mais veemente - que Solange só se casou depois do aparecimento de O Isolado, quando Jacques se tornou célebre e rico! Se a vendagem da obra foi bastante limitada na França, o mesmo não aconteceu nos Estados Unidos.

- A testemunha teria sem dúvida preferido beneficiar-se com a liberalidade financeira de seu irmão doente? - insinuou ; Victor Deliot. - Quando afirmei que apenas o interesse orienta os sentimentos da Sra. Daubray em relação a seu irmão, não me enganei!

- Não admito ... - começou o advogado Voirin, mas foi interrompido pela voz cortante do presidente que dizia:

- O incidente está encerrado. A Corte lhe agradece, Sra.

Daubray. Pode retirar-se...

A saída da elegante Sra. Daubray foi envolvida por um burburinho de movimentos diversos. Seu lugar, na barra, foi substituído pelo corretor de câmbio Georges Daubray.

- Sr. Daubray, a Corte gostaria de saber sua opinião sobre o caráter de seu cunhado Jacques e sobre o relacionamento que ele tinha com sua própria família.

- Vi Jacques muito pouco, Sr. Presidente. Quando me casei com sua irmã mais velha, Régine, ele era apenas um menino de sete anos. Ocupava um quarto de fundos no apartamento de meus sogros, de onde o tiravam muito raramente ...

Devo dizer que protestei muitas vezes contra a maneira de manter essa pobre criança afastada do resto do mundo. Reconheço, entretanto, em defesa da família de minha mulher, que Jacques representava, com sua difícil doença, uma preocupação constante para seus parentes próximos. Até sua partida para Sanac, meu jovem cunhado sempre me pareceu difícil de se lidar, se bem que nos fosse quase impossível perceber o que ele pensava ou queria, pois era ainda, naquela época, um verdadeiro pequeno bruto... Não havia dia que não fosse tomado de verdadeiros acessos de cólera de uma violência incrível para um menino de sua idade! Punha-se a gritar e pegava tudo o que estivesse a seu alcance para atirar sobre os que vinham vê-lo em seu quarto. E como, apesar de tudo, guardasse o sentimento confuso da sua impotência, acabava por jogar-se ao chão, rolando de um lado para outro; uma baba abundante saía então de sua boca. Dir-se-ia que estava raivoso. Aconteceu-nos muitas vezes, a meu sogro e a mim, sermos obrigados a dominá-lo à força: isso dá bem uma idéia do que já era sua força!

- Mas eu lhe pergunto - indagou o presidente - a que atribui essas crises de fúria?

- A nada. A nossa simples presença. O que mais me espantava era a repulsa doentia que lhe inspiravam todos os membros da família. Quando ele compreendeu, após meu casamento, que eu também me havia integrado à família, passou a implicar comigo como com os outros.. E jamais consegui entender por meio de que fenômeno seu cérebro, trancado na época a qualquer comunicação com o mundo exterior, me podia identificar.

- Quais eram os sentimentos de seus sogros com respeito a ele?

- Acho que meu sogro, hoje falecido, tinha por seu filho, se não amor; pelo menos uma certa ternura...

- E sua sogra?

- Prefiro não responder a essa pergunta..

- E sua mulher?

- Uma pergunta também difícil para mim. Régine e eu estamos separados há muitos anos.

- A Sra. Daubray, em seu depoimento, atribuiu a sua separação ao fato de o senhor temer que ela lhe desse um filho doente como o tio. E verdade?

- O simples pudor me obriga a responder, Sr. Presidente, que as razões da separação de um casal não interessam a ninguém senão a ele próprio.

- A testemunha poderia dizer-nos - perguntou Victor Deliot - se, em sua opinião, existia alguém que na convivência diária com o doente fosse capaz de acalmar seus acessos de cólera sem recorrer à força bruta?

- Sim. Uma única pessoa conseguia abrandá-lo pela doçura: a pequena empregadinha Solange, pouco mais velha que ele e que se tornou mais tarde sua mulher.

- Como explica esse fato? - perguntou o presidente.

- Não explico. Apenas constato a evidência.

- E como agia a pequena Solange?

- De uma maneira muito simples: aproximava-se de Jacques e lhe acariciava as mãos ou o rosto. Era o bastante para que ele reencontrasse a tranqüilidade.

- Isso é muito estranho - murmurou o Presidente Legris antes de perguntar ainda: - Sr. Daubray, o senhor tornou a ver seu cunhado Jacques depois de sua partida para Sanac?

- Não, mas li seu livro ...

- Acha que nele o acusado descreveu a própria família?

- Sem a menor dúvida.

- A Corte lhe agradece. Pode retirar-se ... Introduzam a testemunha seguinte.

- Seu nome?

- Mélanie Duval - respondeu a recém-chegada com voz tímida. Era uma mulher de 50 anos, vestida modestamente.

- Sra. Duval - disse o presidente - a senhora trabalhou durante oito anos para a família Vauthier, no apartamento da rua Cardinet, como empregada doméstica - Sim, Seu Juiz...

- Queira chamar-me Sr. Presidente ...

- Sim, senhor, meu Presidente ...

- Diga-nos o que pensa de Jacques Vauthier.

- Não penso nada. É um doente e a gente não sabe o que dizer de uma pessoa que não é como todo mundo ...

- Ele fez sua filha feliz?

- Minha pequena Solange? Ela deve ter sido muito infeliz. Em certo sentido é até bom que ele esteja na prisão: só assim me sinto mais tranqüila!

- Então o casamento de sua filha não foi de seu agrado?

- Não queria ver ela casada com um doente! A infelicidade foi minha Solange ter muito bom coração ... Depois de ter cuidado de Jacques menino, ela se deixou enrolar por esse tal de Yvon Rodelec que conseguiu levar a gente para trabalhar no Instituto de Sanac. Lá, eu cuidava da lavanderia, e Solange, a quem o Seu Rodelec ensinara a linguagem dos surdos-mudos-cegos, ajudava Jacques a preparar-se para os exames. Depois, o senhor já sabe o que aconteceu: eles se casaram. Disse e repeti cem vezes a Solange que ela cometia uma loucura, mas ela nunca quis me ouvir ... Imagine o senhor! Inteligente e bonita como era, podia muito bem ter casado com um rapaz normal e rico.

Tenho certeza, ela se casou por piedade! Ninguém se casa por amor com um doente! A seguir partiram para a viagem de lua-de-mel... Lembro-me perfeitamente de sua volta um mês depois. Se tivesse visto minha pequena Solange! Coitadinha!

Quando lhe perguntei se era feliz, ela nada respondeu por orgulho, mas desatou em soluços ... Contei ísso ao Seu Rodelec que procurou me acalmar, dizendo que eles iam fazer uma bela viagem às Américas, que tudo se aranjaria e patati patata. Conversa fiada, como só ele sabia ter... O resultado, quando fui esperá-los no Havre, cinco anos mais tarde, foi ver meu genro descer no navio algemado ... E minha pobre filhinha, como chorava! O senhor precisava ver! Bem que tentei consolá-la durante nossa viagem de trem para Paris ... mas ela se recusou a morar na casa onde eu trabalho até hoje, com meus patrões tão bons que lhe haviam mandado preparar um quarto ... Ela me beijou no saguão da estação de Saint-Lazare e nunca mais tornei a vê-la ... Deve estar escondida em algum lugar. Raramente me envia um postal para me dizer que tudo vai bem: deve sentir-se envergonhada. E com razão! Não é fácil ser a mulher de um assassino!

- A Defesa quer advertir a testemunha - disse Victor Deliot - de que ela não tem o direito de qualificar o acusado com este epíteto infamante, porquanto o julgamento ainda não teve fim ...

- Sra. Duval, a senhora acabou de dizer à Corte - observou o Presidente Legris - que era impossível ter uma opinião sobre seu genro. Essa declaração parece estar em contradição com a maneira como o trata agora ...

- Quando menino, Seu Presidente, Jacques não devia ser mau ... as crianças nunca são más ... se bem que sempre tivesse sido um tanto brusco: a única pessoa que conseguia acalmá-lo era minha pequena Solange. Puxa! Ela sabia lidar com ele! Também, pudera! Fazia tudo o que ele queria ...

- Isso deixaria supor - observou Victor Deliot - que, ao casar-se com ele, sua filha o fez com pleno conhecimento de causa?

- Se Solange se casou com esse doente, garanto que foi por influência desse tal Seu Rodelec que achava que ninguém tinha o direito de impedir que um doente se casasse! Pois eu, Mélanie Duval, afirmo o contrário! Homens como aquele jamais se deviam reproduzir!

- Eles não tiveram filhos! - exclamou o advogado de Jacques.

- Felizmente! O que não teria saído! - respondeu Mélanie.

- Sua filha alguma vez lhe falou de seu relacionamento com o marido? - perguntou Berthier.

- Não. Jamais consegui arrancar-lhe uma palavra sobre o assunto. Quando penso que minha Solange... prefiro nem falar: isso me dói no coração.

- Sra. Duval, acha que os pais de seu genro se mostraram bons pais para com o filho doente durante os anos passados à Rua Cardinet? - perguntou o presidente.

- Bons pais ... É difícil dizer! É preciso reconhecer que nada faltava ao menino ... mas, quanto à afeição, não eram muito pródigos! Se Jacques não tivesse tido minha Solange! Que menina! Um coração de ouro! Tão devotada!

- A família de Vauthier, tanto quanto a senhora, não desejava esse casamento?

- Lá isso é verdade: eles não queriam! Bem, mas é preciso meter-se na pele deles. Não era lisonjeiro para eles que a filha da empregada entrasse para a família e usasse seu nome!

Pelo tempo que trabalho com burgueses aprendi a conhecê-los: não há raça mais egoísta! Só o dinheiro conta para eles ...

- Então - insistiu o presidente - quem queria o casamento?

- Eu já lhe disse, Seu Presidente, era o Seu Rodelec!

- A senhora não vai querer convencer a Corte, Sra.

Duval, de que um verdadeiro Irrnão de São Gabriel, superior de um estabelecimento onde se educam surdos-mudos-cegos de nascença, tenha transformado sua instituição em agência matrimonial!

- Não estou dizendo isso, Seu Presidente, mas o que o senhor não sabe é que nenhum dos surdos-mudos-cegos educados pelo Seu Rodelec, antes de Jacques, se casou. Então ele quis tentar a experiência com seu novo aluno. Ele percebeu muito bem, quando esteve na Rua Cardinet, que Solange tinha muita ternura por Jacques ... e, como era esperto, explorou esse sentimento da menina... Quando nos chamou a Sanac com o pretexto de nos dar trabalho, foi unicamente para alcançar seus fins ... Solange e eu confiávamos nesse velho senhor de batina e não desconfiamos de suas intenções! O senhor me entende: tenho certeza de que ele enfeitiçou minha filha!

- Modere suas expressões, senhora... Os Irmãos de São Gabriel dão provas de um devotamento e de uma ciência dignos dos maiores elogios.

- Está bem - continuou a mulher - fazem suas experiências sob pretexto de devotamento! O resultado aí está ...

seus alunos acabam na barra do Tribunal!

- Em resumo, a senhora acha que o casamento se realizou contra a sua vontade e a dos Vauthier?

- Perfeitamente, Seu Presidente.

- E não admite, nem por um segundo, que sua filha Solange se tenha apaixonado por aquele que viria a desposar?

- Digo e repito que ela lhe era muito devotada!

- A Corte lhe agradece, Sra. Duval... Pode retirar-se.

Introduzam o Sr. Decano da Faculdade de Letras de Toulouse.

- Sr. Decano, a Corte gostaria de saber a opinião da Faculdade sobre a capacidade intelectual do acusado.

- Jacques Vauthier tirou. em nossa Faculdade de Letras a primeira parte de seu bacharelado em 28 de junho de 1941, com 18 anos de idade, recebendo a menção Tres bien, raramente consignada. Sua dissertação francesa ficou como um modelo do gênero. No ano seguinte, o candidato passou na segunda prova com a mesma facilidade. Nos dois exames, submeteu-se às mesmas provas escritas que os candidatos normais, apenas sob a vigilância de um professor que nos havia sido enviado especialmente pela Fundação Valentin Huy e que servia de intérprete. Quando redigiu suas composições em escrita Braille, estas foram traduzidas em escrita comum pelo referido professor in extenso e enviadas aos diferentes examinadores.

Quanto aos exames orais, aos quais fiz questão de assistir pessoalmente, dado o interesse da experiência, foi um outro intérprete, enviado pela Instituição Nacional da Rua de Saint-Jacques, que serviu de ligação entre o candidato e seus examinadores. Posso dizer, com plena consciência, que Jacques Vauthier, o aluno do Instituto de Sanac, foi um dos mais brilhantes bacharelandos que já passaram pela Faculdade de Toulouse.

Nenhuma concessão foi feita ao candidato, a pedido expresso de seus educadores, os Irmãos de São Gabriel.

- Pela Faculdade de Toulouse já passaram outros candidatos surdos-mudos-cegos apresentados pelo Instituto de Sanac?

- Sim, Sr. Presidente. Antes de Jacques Vauthier já concedemos o diploma do primeiro bacharelado a seis alunos de Sanac e o do segundo, Filosofia ou Matemáticas Elementares, a três alunos. O que, com Jacques Vauthier, perfaz um total de 10 candidatos surdos-mudos-cegos em 20 anos, de 1921 a 1941.

- E depois de Jacques Vauthier, o Instituto de Sanac já apresentou outros candidatos?

- Não.

- O senhor conhece o diretor do Instituto, Sr. Yvon Rodelec?

- Após ter assistido aos exames brilhantes de Jacques Vauthier, fiz questão de escrever ao Sr. Yvon Rodelec uma carta de congratulações pelos excelentes e, podemos dizer sem exagero, extraordinários resultados obtidos. O Sr. Rodelec respondeu-me, convidando-me a visitar seu Instituto. Fui lá com dois colegas, o reitor da Faculdade de Ciências e o da Faculdade de Direito. Passamos um dia inteiro em companhia do Sr. Rodelec e de seus principais colaboradores. Ficamos maravilhados com os métodos empregados. Meus colegas e eu deixamos Sanac com a sensação exata de termos finalmente encontrado um educador genial. Nunca se falará demais da paciência sem limites do Sr. Rodelec para conceber e organizar seu método que só pode ser experimental, mas também para conseguir que certos indivíduos saiam de suas trevas absolutas.

- O Sr. Rodelec lhe deu sua opinião sobre Jacques Vauthier?

- Considerava Jacques Vauthier, que era o 19º surdo-mudo-cego educado com sucesso por ele durante 50 anos, a pessoa mais inteligente que já havia conhecido. Elogiou-o francamente e chegou mesmo a me perguntar naquele dia: "O que pensaria a Faculdade, Sr. Decano, se esse rapaz de 19 anos se tornasse rapidamente um escritor célebre?" Lembro-me de lhe ter respondido: "Seria prodigioso, mas acha que ele é capaz disso?" O Sr. Rodelec respondeu sem hesitar: "É." O aparecimento de O Isolado, três anos mais tarde, provou que o diretor do Instituto de Sanac não se havia enganado.

- Sr. Decano, poderemos conhecer sua opinião sobre esse livro?

- Do ponto de vista da psicologia dos surdos-mudos-cegos de nascença, acho que é uma obra marcante, sob todos os pontos de vista. O estilo é puro. A única censura que se poderia fazer ao autor é o modo com que ele pintou, em traços monstruosos, as pessoas normais que cercavam seu herói. Aquilo não se enquadra com os princípios e, principalmente, com os inumeráveis testemunhos de bondade que ele recebeu durante seus 12 anos passados em Sanac.

- A testemunha acha que esse romance é a obra de um homem inteligente e perfeitamente lúcido? - perguntou Berthier.

- Mais que isso! - afirmou o Decano da Faculdade. - O Isolado é a obra de um homem superior.

- Depois de agradecer ao Sr. Decano Marnay - declarou o promotor - que se prontificou a dar um testemunho cuja autoridade não pode ser posta em dúvida, gostaria de chamar a atenção dos Srs. Jurados para o fato provado agora de maneira irrefutável: o acusado é não apenas consciente de seus menores atos como estes são guiados por uma inteligência excepcional que sabe refletir. E insistimos particularmente no fato de que não nos devemos fiar na aparência exterior de Vauthier. Que ele seja um bruto, nós nunca duvidamos, e a maneira como executou seu crime bem o prova, apenas diremos que é um bruto inteligente e sonso. Temos portanto o direito de deduzir que o crime do De Grasse foi sem dúvida longamente premeditado, desejado e executado conscientemente.

- As presentes conclusões do Sr. Promotor me parecem prematuras - disse Victor Deliot. - A extraordinária inteligência de Jacques Vauthier é incontestável, mas daí a concluir que esse dom maravilhoso foi utilizado a serviço do crime há um grande caminho a percorrer!

- A Corte lhe agradece, Sr. Decano - disse o presidente. - Que seja introduzida a testemunha seguinte.

Esta, guiada por um contínuo, avançou até a barra. Era um cego.

- Seu nome?

- Jean Dony.

- Data e local de nascimento?

- 23 de novembro de 1920, em Poitiers.

- Sua profissão?

- Organista na catedral de Albi.

- Sr. Dony - começou o presidente - durante 11 anos o senhor foi colega de estudos e de juventude de Jacques Vauthier no Instituto de Sanac. Foi o senhor mesmo que pediu à Promotoria para ser citado neste Tribunal, assim que soube, pelos jornais, do crime de que seu antigo camarada foi acusado.

O senhor não teve medo de afirmar ao Juiz de Instrução encarregado do inquérito que tinha graves revelações a fazer sobre o acusado. A Corte está pronta para ouvi-lo ...

- Sr. Presidente, fui, durante os primeiros anos de permanência de Jacques Vauthier em Sanac, seu melhor amigo... .

Quando ele chegou ao Instituto com sua tríplice deficiência, pareceu-me infinitamente mais miserável que eu que era apenas cego. Pelo menos eu tinha a chance de poder me exprimir, de possuir uma audição apuradíssima. O recém-chegado era três anos mais novo que eu. Após tê-lo educado sozinho durante o primeiro ano, nosso diretor, o Sr. Rodelec, chamou-me um dia para me dizer: "Observei que você se interessa pelos progressos de seu novo colega e que é bom para ele. Assim sendo, agora que ele já conhece o alfabeto datilológico e a escrita Braille, você vai lhe servir de companheiro para as saídas, os jogos e até para os estudos propriamente ditos, que pretendo começar logo, pois ele já aprendeu os diferentes meios de compreensão e expressão" ... A partir desse dia, tornei-me como que o colaborador direto do Sr. Rodelec. Isso durou seis anos, até que Jacques atingiu os 17 anos. Nessa ocasião fui substituído junto a ele por aquela que deveria tornar-se sua mulher seis anos mais tarde. Devo esclarecer que a chegada de Solange Duval e de sua mãe não surtiu bom efeito no Instituto onde nunca aparecera uma mulher até aquele dia. Todavia, estou persuadido de que o Sr. Rodelec mandou buscar Solange Duval e a instalou em Sanac com as melhores intenções do mundo.

- Que impressão lhe causou então Solange Duval?

- Pessoalmente, nenhuma, Sr. Presidente... Eu não a podia ver. Mas soube por camaradas surdos-mudos, eles sim podiam vê-la, que era uma moça muito bonita ... A única coisa que nós, cegos, pudemos observar, era a doçura da sua voz. Mas sentíamos, em certas entonações, nossos ouvidos não mentem jamais!, que sob aquela doçura aparente, capaz de enganar os que a viam, seduzidos pelo seu aspecto físico, se escondia uma vontade de ferro, decidida a ir até o fim ...

- O fim de quê? - perguntou Victor Deliot.

- Até o casamento com Jacques Vauthier - respondeu a testemunha.

- Isso deixa supor - observou o presidente - que o sentimento de Solange Duval por seu colega era sincero quando se casou com ele, pois já durava alguns anos.

- Não tenho tanta certeza assim, Sr. Presidente ...

- O que a testemunha pretende dizer com isso? - perguntou novamente o advogado da Defesa.

- Nada ... ou mais exatamente, prefiro guardar só para mim minha opinião sobre este ponto delicado.

- Sr. Dony - declarou o presidente - se o senhor insistiu para vir testemunhar neste Tribunal, a Corte sente-se no direito de espérar do senhor fatos precisos e não uma linguagem enigmática. Fale tudo o que sabe.

- Sinceramente, Sr. Presidente, não posso. Jacques foi sempre meu amigo e, eu diria mesmo, meu pequeno protegido durante anos..

- O senhor jurou dizer a verdade, toda a verdade! - advertiu severamente o presidente.

- Pois bem, que seja! - respondeu o cego, após um momento de hesitação. - Solange Duval com 20 anos era já uma moça feita, ao passo que Jacques era ainda um adolescente imberbe de 17 anos. Tenho certeza de que ela não o amava.

- Pode dar uma prova à Corte?

- Sim, Sr. Presidente: ela mesma me confessou várias vezes.

- Sr. Dony, chamo sua atenção para a gravidade de tal afirmação.

- Já medi seu alcance, Sr. Presidente, assim como o do que vou dizer agora... Solange e eu tínhamos exatamente a mesma idade. Ela sabia que eu era talvez o melhor amigo de Jacques no Instituto. Por isso talvez ela me confiasse coisas que não ousaria mesmo dizer ao Sr. Rodelec ou a sua mãe ...

Claro que ela sentia por Jacques uma ternura profunda, mas posso garantir que não era amor.

- E ele? Tinha a impressão de que ele amava aquela moça?

- No caso de Jacques é difícil afirmar, Sr. Presidente ...

Ele sempre foi muito fechado: nunca se sabia o que pensava e sua tríplice deficiência facilitava a dissimulação. Não chego ao ponto de dizer que Jacques sempre me pareceu um sujeito muito vivo. Nós, que não enxergamos, felizmente possuímos antenas que nos permitem adivinhar os seres que nos cercam, e atingir também, sem que eles suspeitem, os segredos mais íntimos de seus corações. Não somos nem influenciados nem enganados pelo seu aspecto físico. Descobrimos melhor as chagas morais que os que vêem, porque nossos cérebros se concentram mais em sua noite sem fim.

- No entanto - disse Victor Deliot - o senhor jamais ouviu a voz de Jacques Vauthier que era igualmente surdo-mudo!

- O senhor esquece o sentimento, Sr. Advogado! Não pode compreender o poder da evocação ... Após seis anos de convivência diária, conheço Jacques Vauthier de cor e salteado.

Nós nos falávamos pela mão: sua alma era para mim um livro aberto ...

- O senhor não acabou de nos dizer que nunca soube exatamente o que ele pensava? - observou o presidente. - Está caindo em contradição consigo mesmo!

- Absolutamente, Sr. Presidente! Sei o que digo. Justamente porque fui, talvez, o único capaz de ler nesse ser misterioso, posso afirmar que Jacques sempre me escondeu voluntariamente certas coisas... Um rapaz tão jovem, capaz de dissimular com tanta perfeição, é também capaz de muitas outras coisas mais tarde... Aliás, deu provas disso em Sanac, alguns meses antes que eu deixasse de me ocupar dele... E são os fatos seguintes, que vou procurar contar com toda a objetividade, que me dicidiram a vir depor neste Tribunal. Quando a Corte tomar conhecimento deles, compreenderá por que não me admirei, seis meses atrás, de saber, pelo rádio e pelos jornais, que meu antigo protegido era acusado de um assassinato. Hesitei longamente antes de tomar uma decisão tão grave que poderia ter sérias repercussões sobre a opinião dos jurados. Foi somente quando me certifiquei de que Jacques Vauthier persistiria em trancar-se em seu mutismo que vim de Albi a Paris pedir voluntariamente para ser ouvido pelo Juiz de Instrução. Para mim, era um caso de consciência: devia deixar o mundo acreditar que Jacques Vauthier era incapaz de cometer um crime ou, ao contrário, tinha a obrígação de mostrar que o acusado não era marinheiro de primeira viagem? Meu dever, por mais penoso que fosse com respeito a um amigo de juventude, pelo qual eu tive e ainda tenho afeição, me obrigava a esclarecer a justiça. É unicamente por isso que estou aqui...

- A Corte está pronta a ouvi-lo.

- O que vou contar passou-se exatamente em 24 de maio de 1940, mais ou menos às duas horas da tarde. Lembro-me de que era uma tarde maravilhosa de primavera. A noite se anunciava bela e fresca ... Tendo obtido um segundo lugar de órgão no Conservatório, eu ia deixar definitivamente o Instituto de Sanac, dois meses mais tarde, para começar a ganhar minha vida como organista suplente na catedral de Albí. Foi o Sr.

Rodelec, que, com sua bondade habitual, me aranjara aquele emprego. Eu passeava sozinho pelo fundo do parque, que eu conhecia de cor nos seus menores recantos, tentando compor mentalmente uma peça para órgão. A cabeça fervilhando de harmonias, dirigi-me para um barracão de madeira onde eu me costumava refugiar com minha punção e reglete portáteis para lançar no papel cartonado as primeiras notações musicais da obra projetada. Esse barracão sem janelas e com uma única porta era onde Valentin, o jardineiro do Instituto, guardava seus instrumentos de trabalho. A porta estava sempre fechada a chave, que Valentin costumava deixá-la pendurada num prego, à direita da porta. Todas as vezes que eu ia lá, apanhava a chave no lugar certo e a metia na fechadura para entrar no barracão.

Ao sair fazia a operação inversa, tornando a colocar a chave em seu lugar. O mobiliário interior reduzia-se, além das ferramentas e de estantes onde se alinhavam algumas plantas, de uma mesa rústica de madeira e de um banco que eu utilizava para escrever. Como não havia janelas, Valentin, para enxergar, era obrigado a acender um velho lampião de querosene, que ficava sempre sobre a mesa ao lado de uma caixa de fósforos.

Pessoalmente, eu não tinha razão alguma para utilizar o lampião..

- Na tarde de 24 de maio, - continuou - quando minha mão tateou à procura do prego, constatei surpreso que a chave não estava pendurada mas já se encontrava na fechadura.

Pensei que Valentin se tivesse esquecido de colocá-la no lugar e virei a maçaneta. Mal entreabri a porta, ouvi um grito abafado vindo do interior. Como se alguém estivesse tentando pedir socorro e outra pessoa lhe tivesse tapado a boca com a mão.

Dei alguns passos e recebi na nuca um golpe violento que me fez cambalear e perder os sentidos. Quando voltei a mim, senti um cheiro acre, sufocante, e ouvi o crepitar de chamas: o barracão estava em chamas. Solange Duval, agarrada a mim, sacudia-me com força e gritava: "Depressa, Jean! Vamos morrer queimados! Jacques ateou fogo, derrubando o lampião e fugiu, trancando-nos aqui dentro!" Num segundo, eu estava de pé. O instinto do perigo iminente devolveu-me as forças e eu me atirei contra a porta, tentando fazer saltar a fechadura. Solange chorava, aterrorizada. Eu sentia o calor cada vez mais insuportável: as chamas que eu não via quase nos tocavam... Finalmente, a porta cedeu e corremos para fora exatamente no momento em que o Irmão Dominique, o porteiro e o Irmão Garnck, o inspetor geral de alunos, que haviam visto o fógo no fundo do parque, acudiam. Não tardou que o barracão se transformasse num monte de cinzas. Jacques havia desaparecido. "O que aconteceu?", perguntou-nos o Irmão Garrick. "Foi minha culpa", apressou-se a dizer Solange. "Por curiosidade entrei nesse barracão e, como estava muito escuro, acendi o lampião de querosene que estava sobre a mesa. Infelizmente, ao voltar-me, derrubei-o sem querer e tudo se incendiou rapidamente. Fiquei apavorada e pedi socorro. Felizmente Jean Dony, que devia estar passeando pelas redondezas acorreu e corajosamente me ajudou a sair a tempo." - No momento - prosseguiu - fiquei tão aturdido com aquela explicação que não procurei uma palavra, mas, quando voltávamos para o edifício central do Instituto, perguntei em voz baixa a Solange: "Por que inventou essa história em vez de contar a verdade?" Ela me respondeu: "Suplico-lhe, Jean, diga a mesma coisa que eu! Por que arranjar complicações inúteis a esse pobre Jacques que não estava em seu estado normal?" Não tive resposta para lhe dar e pensei que, afinal de contas, talvez Solange tivesse razão. A perda do barracão do jardineiro não representava uma catástrofe e não houvera vítimas ... Fui diretamente para o quarto de Jacques e constatei com grande espanto que ele já estava deitado e fingia dormir.

Foi somente quando me deitei que pude refletir sobre o acontecimento do qual eu me tornara o herói involuntário, mas que se poderia ter transformado em verdadeira tragédia. Minhas conclusões foram simples e claras: a despeito de sua pouca idade, Jacques havia atraído a moça para o barracão no fundo do parque para tentar abusar dela. Minha chegada inesperada transtornara seus planos. Tomado de um acesso súbito de raiva, após ter tentado matar-me, fora ele e não Solange que atirara deliberadamente o lampião ao chão para atear fogo ao barracão.

A seguir, saiu precipitadamente, trancando-nos, a Solange e a mim, para que fôssemos queimados vivos. Portanto, exatamente 10 anos antes de cometer seu assassinato no De Grasse, Jacques Vauthier já havia tentado matar duas pessoas...

Um grito rouco e desumano acabava de ressoar, gelando de pavor a assistência. O acusado se levantara em seu lugar.

Durante alguns segundos, agitou os braços no ar, brandindo os punhos enormes, depois, deixou-se cair como uma massa, abatido e resignado, em seu banco, entre os guardas.

- O acusado tem alguma coisa a dizer? - perguntou o presidente ao intérprete.

Os dedos deste correram, leves, sobre os de Jacques Vauthier e ele respondeu ao cabo de alguns segundos:

- Não, Sr. Presidente. Ele nada diz.

- O incidente está encerrado - declarou o presidente, antes de perguntar à testemunha: - Tem mais alguma declaração a fazer?

Mas a testemunha permaneceu silenciosa, as mãos crispadas sobre a barra: parecia petrificada pelo grito que acabara de ouvir. Um silêncio angustiante tomava conta da sala. Foi rompido por uma pergunta de Victor Deliot:

- A testemunha, que nos afirmou jamais ter tido necessidade de acender o lampião, e isso por motivos óbvios, pode dizer exatamente à Corte quem acendeu esse malfadado lampião?

- Foi Solange Duval. Ela me confiou isso dois dias depois, quando me disse também que subitamente sentira medo de ficar na escuridão com Jacques Vauthier.

- Como pode a testemunha afirmar com certeza - continuou Victor Deliot - que foi Jacques Vauthier que atirou voluntariamente o lampião ao chão para atear fogo ao barracão?

- Porque Solange Duval me disse igualmente no dia seguinte. Aliás, ela atribuía esse gesto impensado de Jacques a um momento de cólera, excepcional nele.

- E nunca ocorreu - continuou o velho advogado - que a ânsia de Solange em inocentar Jacques era, talvez, porque o amasse?

- Achei que ela tinha simplesmente pena dele e de sua miséria moral. Mas eu já disse tudo o que tinha a dizer. Não responderei mais a qualquer pergunta.

- Antes que a testemunha se retire - declarou o Promotor Berthier - quero chamar a atenção dos Srs. Jurados para a importância capital do depoimento que acaba de ser feito.

Com grande ponderação, à qual o Ministério Público só pode elogiar e que tende a dar mais peso a seu testemunho, o Sr. Jean Dony acaba de nos demonstrar que o acusado, há 10 anos, já era capaz de cometer um duplo assassinato sob o efeito da cólera. Fica mais bem explicada, após o depoimento do Sr.

Dony, a fúria com que Jacques Vauthier se encarniçou sobre a pessoa de John Bell na cabina do De Grasse! No momento em que chega ao fim o depoimento da última testemunha arrolada pela Acusação, concito uma vez mais os Srs. Jurados a não se deixarem influenciar pela calma aparente de Vauthier desde o início destes debates. Tudo em sua atitude é estudado, calculado: quanto menos ele parecer compreender o que está acontecendo, dando a impressão de não passar de um bruto amorfo, mais chances ele terá de obter em seu favor a indulgência do Júri!

- A Corte lhe agradece - disse o presidente à testemunha. - Pode retirar-se.

Em seguida, acrescentou, após a saída da testemunha:

- A sessão está suspensa. Voltaremos dentro de um quarto de hora para ouvir o depoimento da primeira testemunha arrolada pela Defesa.

Quando a Corte se retirou, o burburinho voltou a tomar conta da assistência. O advogado Voirin parecia satisfeito. Victor Deliot conversava com o intérprete. Muita gente teria pagado para ouvir as palavras que o velho advogado pronunciava em voz baixa:

- A parte o incidente de ainda agora - perguntou ao diretor do Instituto da Rua Saint-Jacques - quando meu cliente se levantou para dar aquele grito, o senhor teve a impressão, enquanto lhe traduzia em alfabeto datilológico os vários depoimentos das testemunhas de acusação, de que ele dava sinais de impaciência ou de descontentamento?

- Não. Estava perfeitamente calmo: suas mãos nem mesmo estavam febris.

- Ele lhe fez perguntas?

- Não. Limitou-se a registrar o que eu lhe dizia sem fazer o menor comentário.

- O senhor teve a impressão de que os depoimentos dos membros da sua família lhe causaram mágoa ou sofrimento?

- Não. Justamente em relação a eles ele mal se interessou.

- Ele sabe onde pisa com respeito a sua familha. Lembro-me de que meu professor de Direito Civil, um grande psicólogo, dizia: "Os únicos ódios que não se acabam são os que nasceram em nossa infância." - Seria indiscrição, meu caro mestre, perguntar-lhe o que pensa das testemunhas que acabamos de ouvir?

- Muita indiscrição, Sr. Diretor ... E se eu lhe fizesse a mesma pergunta?

- Confesso que ficaria embaraçado: certos testemunhos são esmagadores ... Os fatos são evidentes ... As provas também, como se não bastassem todas aquelas impressões digitais espalhadas por todos os cantos da cabina de John Bell... Mas, apesar de tudo isso e das confissões de Jacques Vauthier, continuo a acreditar que seu cliente não é culpado ...

- O que entende por "não ser culpado"?

- Quero dizer que ele teve uma razão válida para matar - Essa é também minha opinião, meu caro diretor e intérprete. Infelizmente, na justiça pura, o assassinato jamais é legítimo!

Pela primeira vez, desde o início do julgamento, Victor Deliot, que acabava de rabiscar apressadamente algumas linhas num pedaço de papel, pareceu interessar-se pela presença de sua jovem vizinha:

- Minha pequena Danielle, quero que aproveite essa curta pausa para ir rapidamente ao Correio expedir este telegrama para Nova York.. Consegue decifrar minha letra e o endereço? Vá depressa! Se andar ligeiro, chegará a tempo para a reabertura da sessão.

No momento em que saía da sala, a jovem ainda pôde ver seu velho amigo encolher-se a um canto do local destinado à Defesa, deixar tombar levemente a cabeça, os olhos semicerrados atrás do lorgnon: era sua posição preferida para refletir ...

Repentinamente, Victor Deliot abriu os olhos e perguntou a seu vizinho que o observava em silêncio:

- Meu caro diretor, o que diria se eu lhe afirmasse que o meu "não culpado" quer dizer inocente?

- Não estou entendendo.

- Em termos claros, Jacques Vauthier não matou John Bell.

- Meu caro mestre, temo que teria alguma dificuldade em fazer com que o Júri engolisse essa ... Isso só seria possível se o senhor lhe apresentasse o verdadeiro assassino!

- Empenhar-me-ei nisso - respondeu o advogado com serenidade. - Tudo vai depender da resposta que será dada ao telegrama que acabo de expedir para Nova York ...

Enquanto isso, Danielle corria para a agência telegráfica..

O texto do telegrama, incompreensível para ela, pois estava escrito em inglês, pouco lhe importava. O que ainda martelava seu espírito era a última frase pronunciada pelo Promotor ...

Frase que voltava, lancinante, aos seus ouvidos:"Tudo em sua atitude é estudado, calculado: quanto menos ele parecer compreender o que está acontecendo, dando a impressão de não passar de um bruto amorfo, mais chances ele terá de obterem seu favor a indulgência do Júri." Mas então, o Promotor partilhava exatamente da opinião de Victor Deliot? Este já não havia dito e redito a ela, Danielle, que seu estranho cliente era de uma inteligência notável sob uma aparência enganadora?

A única diferença de ponto de vista entre o acusador e o defensor era que este último achava, com ou sem razão, que esta atitude não era o melhor meio de defesa, ao contrário do que pensava o advogado Berthier. Para a jovem não havia mais dúvida: Victor Deliot tentaria o impossível para arrancar Vauthier de seu mutismo voluntário e obrigá-lo a mostrar seu verdadeiro rosto. Conseguiria? Aquele doente era sem dúvida muito inteligente. Mas, nesse caso, não era mais o bruto que todo mundo observava com horror. Para Danielle, o bruto começava a tornar-se interessante ...

E aquele grito desumano que o acusado deixara escapar quando um de seus melhores amigos de Sanac viera acusá-lo de ter tentado matá-lo, alguns anos antes? Fora um grito de fúria impotente, que gelara a assistência. Ela própria ficara arrepiada: havia desespero naquele grito rouco que exprimia uma intensa dor moral. Do momento em que o bruto sofria, tornava-se digno de piedade ...

O telegrama foi rapidamente expedido e a moça retomou seu lugar ao lado de seu bom amigo exatamente no momento em que a primeira testemunha arrolada pela Defesa chegava à barra. Era uma mulher de uns 50 anos, a silhueta ainda esbelta, vestindo um costume preto e sóbrio.

- Minha senhora - disse o presidente -, por mais penosa que seja sua presença neste tribunal, a Corte lhe pede que reúna todas suas forças para dizer o que sabe sobre seu filho Jacques... A senhora não deve ignorar que o testemunho de uma mãe é capital, principalmente no caso presente, quando sua filha e genro se dispuseram a dizer o que pensavam sobre seu irmão e cunhado ...

- Eu sei, Sr. Presidente - respondeu Simone Vauthier a voz embargada pela emoção.

- Fale então...


Guy des Cars - O Bruto (capa)

 

3. AS TESTEMUNHAS DE DEFESA

- Sr. Presidente, creia que foi um grande esforço para mim vir testemunhar nesse processo de meu filho, que para mim será sempre o meu pequeno Jacques ... Antes de mais nada, devo reconhecer que esse menino, nervoso e impressionável ao extremo, não parecia absolutamente feliz durante os 10 primeiros anos de sua existência passados em nossa casa, na Rua Cardinet. Se bem que naquela época ele pudesse ser comprendido apenas de maneira muito precária e imperfeita, meu coração de mãe já havia adivinhado sua imensa miséria moral.

Meu pobre marido, que foi um modelo de esposo e de pai, partilhava de minha amargura. Fizemos o humanamente possível para melhorar as condições existenciais de nosso infeliz menino! E foi somente depois de ter tentado tudo para educar Jacques que resolvemos confiá-lo ao Instituto de Sanac. Ver meu pequeno Jacques partir foi para mim um verdadeiro desespero. Ao mesmo tempo, minha dor foi aliviada à idéia de que o Sr. Rodelec talvez conseguisse arrancar meu pobre filho de sua horrível noite.

- Em suma, o Sr. Vauthier e a senhora confiavam plenamente no Sr. Rodelec?

- No início, sim... Quando fui visitar meu Jacques em Sanac, um ano após sua partida, fiquei assombrada diante dos extraordinários progressos feitos, mas, por outro lado, profundamente magoada pela maneira como fui recebida por meu filho.

Foi horrível... A entrevista se realizou no parlatório da instituição onde eu me encontrava com o Sr. Rodelec, que acabava de me fazer os maiores elogios à inteligência excepcional de meu filho: eu estava feliz quando a porta se abriu... Jacques apareceu ... Era outro: havia crescido bastante, os ombros estavam largos. Mantinha-se ereto, a cabeça erguida com altivez. Espantei-me de vê-lo dirigir-se para mim sem hesitação e sem usar bengala, como se me visse ou tivesse ouvido minha voz. Seu andar calmo e seguro era quase o de um menino normal. Seria possível que aquele rapazinho fosse o mesmo pobre menino que, um ano atrás, era incapaz de se mover sem esbarrar em todos os móveis?

- Eu estava emocionadíssima - prosseguiu: - Mal tive forças para lhe estender os braços quando ele chegou perto de mim. Apertei-o nos braços, chorando... Mas ele se retesou imediatamente e se debateu como se quisesse escapar a meu abraço maternal, virando o rosto para o outro lado. Fiquei desnorteada. O Sr. Rodelec veio em meu auxílio, tomando rapidamente as mãos de Jacques sobre as quais traçava sinais, enquanto os traduziu para mim em voz alta: "Vamos, Jacques!

Não faça isso! Você está finalmente nos braços de sua mãe que esperava há tanto tempo e da qual eu sempre lhe falei ... " O rosto de meu filho permaneceu hermético. O Sr. Rodelec tomou então sua mão direita, forçando-o gentilmente a tocar meu rosto ... Jamais esquecerei aquela sensação ... A mão trêmula acariciando minha testa a contragosto, acompanhando lentamente minhas sobrancelhas, descendo pelo meu nariz, desenhando o contorno de meus lábios, acabando por se imobilizar sobre minha face onde escorria uma lágrima... Jacques pareceu espantado e, instintivamente, levou o dedo úmido à boca para experimentar o sabor das lágrimas maternas ... Seu rosto se crispou e ele deu um grito atroz ... O mesmo rugido com o qual ele me recebia todas as noites, quando eu ia beijá-lo em seu quarto, na Rua Cardinet. Afrouxei meu abraço: ele se aproveitou para fugir correndo do parlatório. Fiquei paralisada, incapaz de articular uma única palavra. O Sr. Rodelec aproximou-se de mim, dizendo: "Não se ofenda com seu pequeno Jacques, senhora! Ele ainda não sabe muito bem o que faz..." Lembro-me de lhe ter perguntado então: "Esse grito, Sr. Rodelec, terei de ouvi-lo sempre? É tudo o que ele tem a dizer à sua mãe após um ano de aprendizagem?" O Sr. Rodelec respondeu-me com a maior calma, como se sua resposta fosse perfeitamente normal: "Mas ele a ignorava completamente, quando morava com a senhora!" Naquele instante compreendi não apenas que meu filho jamais gostaria de mim, como também que haviam feito tudo naquela instituição para desligá-lo de sua família. O Sr. Rodelec havia roubado meu filho definitivamente ... Sim, agora tenho certeza de que a influência poderosa desse educador foi nefasta com o correr dos anos. Se em Sanac se tivesse dado ao trabalho de desenvolver o amor desse pobre menino para com sua mãe, hoje talvez ele não se encontrasse nessa situação infamante!

- Após essa primeira visita a Sanac, algo a impedia, senhora - perguntou o presidente - de retirar seu filho do Instituto, uma vez que considerava perigosa a sua educação?

- Tudo me impedia de o fazer! Primeiro, o progresso intelectual de Jacques que era evidente: sempre reconheci e continuarei reconhecendo a excelência do método de trabalho empregado pelos Irmãos de São Gabriel com seus alunos. O que estou criticando é unicamente a influência moral e pessoal do Sr. Rodelec, que tomou a peito a difícil tarefa de se ocupar pessoalmente da educação de Jacques. Eu precisava deixar que meu filho terminasse seus estudos delicados e complicados ...

Depois, aí sim, eu poderia retirá-lo de lá! Foi assim que, naquele dia, sacrifiquei meu amor maternal em benefício de meu filho.

Uma vez mais confiei no Sr. Rodelec que me disse, no momento de minha partida para Paris: "Deixe-o comigo, senhora... Da próxima vez que tivermos o prazer de sua visita, a senhora verá que seu filho agirá de outra forma. E um espírito muito sensível que acaba de ser transtornado por esse primeiro contato com a mãe da qual tanto lhe falei e que ele esperava com uma emoção misturada a um pouco de temor ... Na Rua Cardinet, ele a conhecia apenas como uma das pessoas que o cercavam, ignorava mesmo a noção de mamãe... Agora ele sabe. Deve estar chorando em algum canto. Após sua partida, tentarei consolá-lo. Prometo-lhe que ele não dormirá esta noite sem ter rezado pela senhora" ...

- Acreditei em suas palavras - continuou - e parti reconfortada. Os anos passaram ... Todos os anos, regularmente, eu ia visitar Jacques para ver de perto seus progressos.

Se já não dava aquele grito pavoroso quando se encontrava em minha presença, a verdade é que me recebia cada vez mais friamente. Minhas visitas não lhe davam alegria alguma, contrariamente às promessas que o Sr. Rodelec me havia feito. Aquelas entrevistas no parlatório tornaram-se para mim um verdadeiro suplício, minha viagem a Sanac, um calvário. Eu estava desesperada... Jacques já havia aprendido os diferentes meios de conversar com uma pessoa normal: poderia utilizar-se de um deles para me confiar seus pensamentos, as perguntas que deveriam surgir naturalmente em seu espírito quando se encontrasse diante de sua mãe ...  Se ele usasse, por exemplo, a escrita inglesa comum, eu poderia compreendê-lo sem necessidade de um intérprete... E eu lhe poderia responder diretamente, reunindo sobre uma mesa as grandes letras em relevo que se viam por todos os lados no Instituto: ele as teria agalpado para saber minhas respostas ... Pelo menos, o essencial poderia ser dito entre nós! Porém, infelizmente, Jacques jamais quis empregar esse método comigo! Preferia utilizar a escrita Braille, como está fazendo aqui e que necessita da presença constante de uma terceira pessoa entre ele e seu interlocutor.

Nunca fiquei sozinha com meu filho, durante minhas visitas a Sanac: o Sr. Rodelec, o eterno Sr. Rodelec, estava sempre presente!

- Quanto mais Jacques crescia e progredia - prosseguiu - mais ele permanecia voluntariamente mudo diante de mim! O que é que eu podia fazer? Nada... Sentia-me impotente diante da vontade dissimulada de educador que fingia esconder-se, humilde, sob os reflexos de um doente. Todas as vezes que meu filho não era gentil comigo, o Sr. Rodelec intervinha, repreendendo-o hipocritamente com sua voz açucarada: "Vamos, Jacques! Isso não se faz!" Voltava-se então para mim, dizendo: "Como todas as pessoas muito inteligentes, Jacques possui uma personalidade muito forte, quase impossível de ser dominada, e com a qual devo contemporizar ... O que nem sempre é fácil!" E era sempre o meu pobre menino, e nunca o Sr.

Ronelec, o responsável por aquela atitude! Não suportando mais aquela situação, mandei perguntar a Jacques, assim que ele obteve seu segundo bacharelado, ele tinha então 19 anos, se gostaria de voltar a viver comigo. Ele recusou definitivamente.

O Sr. Rodelec procurou convencer-me de que era preferível que Jacques ficasse ainda algum tempo em Sanac, onde ele encontraria o sossego necessário para a preparação do livro que ele sonhava escrever e cuja publicação lhe poderia abrir uma carreira brilhante. Teria eu o direito de cortar pela raiz essa carreira? Cedi mais uma vez, esperando com ansiedade a publicação desse livro, o que finalmente aconteceu três anos mais tarde.

- Qual é a sua opinião sobre essa obra, Sra. Vauthier? - perguntou o presidente.

- O Isolado é um romance lindo que me comoveu. Senti orgulho de meu filho quando vi seu nome nas vitrinas das livrarias. - O fato de a família do herói, afligido pela mesma doença de seu filho, ter sido pintada sob um ângulo pouco favorável, deixou-a chocada, Sra. Vauthier? - perguntou o promotor.

- Absolutamente. Sempre considerei a obra de Jacques simplesmente como um romance.

- Já que o Sr. Promotor falou do livro O Isolado - disse Victor Deliot - chamo a atenção dos Srs. Jurados sobre o fato de o autor não mencionar a mãe de seu herói uma única vez.

A Sra. Vauthier pareceu desconcertada. Victor Deliot tornou a sentar-se, enquanto o presidente perguntava:

- Gostaria que nos dissesse, senhora, se tornou a ver seu filho após a publicação do livro?

- Não logo em seguida. Fiquei um pouco magoada, apesar de meu orgulho maternal, de ele não me ter enviado um exemplar... Mesmo assim, escrevi-lhe para felicitá-lo. Ele não me respondeu. Surpresa, resolvi ir uma vez mais a Sanac. Viajei em companhia de um jornalista amigo, que queria entrevistar Jacques para publicar um artigo sobre ele num jornal parisiense ... Sofri então a maior humilhação que uma mãe pode sofrer: Jacques recusou-se a me ver, ao passo que concordou em receber o jornalista em seu quarto! Fiquei indignada! Naturalmente foi o Sr. Rodelec que veio ao parlatório comunicar-me a decisão de meu filho em termos que já não podiam deixar a menor dúvida em meu espírito. E fez questão de deixar bem claro, com palavras mal disfarçadas, que decididamente, era preferível que Jacques e eu não tivéssemos mais contatos diretos para evitar cenas penosas e inúteis. Acrescentou que meu filho já era de maior idade, que seu nome se estava tornando célebre e que já podia voar com suas próprias asas. Ele mesmo, Yvon Rodelec, conseguira arranjar para Jacques uma companheira maravilhosa na pessoa de Solange Duval que seria para meu filho um apoio muito mais seguro que sua própria família.

Acabou dizendo que seu papel de educador estava terminado e que ele pretendia desaparecer completamente da vida de Jacques, assim que este se casasse: foi essa a primeira vez que ouvi falar no projeto de união de meu filho com a filha da minha antiga empregada!

- Mas a senhora sabia que Solange Duval e sua mãe haviam sido acolhidas em Sanac pelo Srn. Rodelec quando, por uma reviravolta da fortuna, a senhora não as pôde mais manter a seu serviço? - perguntou o presidente.

- Sabia e, aliás essa decisão do diretor do In stituto não me agradou.

- Qual foi sua resposta ao Sr. Rodelec com respeito ao casamento de seu filho?

- Disse-lhe que esse casamento se realizaria sem meu consentimento. Infelizmente, minha opinião já não pesava mais na balança: Jacques era maior. Voltei a Paris e seis meses mais tarde recebi uma carta do Sr. Rodelec informando-me que a data da cerimônia estava marcada para a semana seguinte!

Meu filho não se dera ao trabalho de me escrever para me comunicar sua decisão ... Estou quase certa de que talvez ele o desejasse, mas que foi impedido.

- Por quem?

- Pelo Sr. Rodelec e por sua futura mulher.

- A testemunha poderia dizer-nos o que pensa de Solange Duval? - perguntou o promotor.

- A opinião de uma sogra - respondeu Simone com vivacidade - é quase sempre suspeita, num caso como este!

Deste modo, prefiro abster-me de dá-la... Mas gostaria que não pensassem que eu me obstino a ser contra aquela que apesar da minha desaprovação, se tornou minha nora, por causa da sua origem modesta ... Solange não é desprovida de qualidades! E uma mulher bonita, fina, inteligente, alegre, paciente... Paciência que a fez esperar por Jacques desde a idade de 13 anos até 25, pois meu filho é três anos mais novo que ela...

- Não seria isso, Sra. Vauthier - disse suavemente Victor Deliot - uma prova de amor?

- Um amor que sabe o que quer: chegar ao casamento!

Solange Duval, ajudada pelo Sr. Rodelec, fez tudo em Sanac, para que meu pobre filho esquecesse que tinha também uma mãe capaz de amá-lo. E provou, com esse casamento, que estava disposta a renegar sua própria mãe para atingir seus fins ... Mélanie é uma mulher honesta e simples que compreendeu perfeitamente, com seu bom senso popular, que aquela união com o filho de seus antigos patrões seria um erro. Poi procurar-me em Paris para me dizer isso. Mas, apesar disso, Solange triunfou e o casamento foi celebrado na capela do Instituto sem a presença das mães. Sem dúvida, será supérfluo acrescentar que nunca mais recebi a menor notícia de meu filho, de minha nora ou do Sr. Rodelec, durante os cinco anos que se seguiram ao casamento! Foi casualmente que soube da partida dos recém-casados para os Estados Unidos. Meu coração de mãe sofreu cruelmente com essa viagem sem despedidas, mas procurei convencer-me de que, no final de contas, o Sr. Rodelec tivera razão e que meu filho encontrara finalmente a felicidade.

Já começava a habituar-me à idéia quando, brutalmente, recebi a terrível notícia pela leitura de um jornal: meu filho era acusado de um crime! Pensei que fosse desmaiar, mas ainda encontrei forças para me informar sobre a data da chegada do De Grasse e partir para o Havre onde não me foi permitido falar com meu filho ... Ele passou a alguns passos de mim, no meio da multidão de passageiros muda de horror, sem desconfiar de que sua mãe estava ali no cais pronta a socorrê-lo em tudo o que fosse preciso... Ele estava só! Sua mulher devia estar escondida... Vi quando meu filho, algemado, entrou num carro da polícia acompanhado por dois guardas! Era a primeira vez que eu o revia desde minha penúltima visita a Sanac, 10 anos antes ...

A voz de Simone Vauthier emudeceu. Diante da Corte, estava uma mãe em lágrimas, que se agarrava à barra para não desfalecer. Victor Deliot aproximousse para amparar a infeliz senhora.

- Se achar conveniente, mestre - disse o presidente - poderemos suspender a audiência por alguns instantes e recolher mais tarde o depoimento da testemunha.

Mas Simone Vauthier se havia endireitado para gritar por entre lágrimas:

- Não! Não sairei daqui antes de dizer tudo! Vim a este tribunal para defender meu filho contra todos aqueles que o acusam... todos os que lhe fizeram mal e que são os verdadeiros responsáveis ... Ele não matou! Isso não é possível! Ele é inocente! Uma mãe não se pode enganar... O fato de ter sido nervoso e até brusco em sua infância não significa que se tenha transformado num assassino! Sei que todo mundo está contra ele, fiado nas aparências. Sei que seu aspecto físico pode lhes parecer inquietante, mas isso nada prova! Imploro-lhes, Srs. Jurados, deixem-no! Libertem-no! Devolvam meu filho para mim! Eu o levarei! Juro que o vigiarei! Finalmente, o terei só para mim!

Ninguém jamais ouvirá falar dele... .

- Acredite, senhora, que a Corte compreende e respeita seus sentimentos - disse o Presidente Legris - mas é preciso que tenha forças para responder ainda a uma última pergunta: a senhora conseguiu rever seu filho desde que ele foi preso?

E ele lhe fez quaisquer confidências?

- Não, não o revi... Jacques não quis... Pobrezinho!

Não compreendeu que eu queria somente ajudá-lo ...

Essas últimas palavras terminaram num sussurro. Simone Vauthier voltou-se para o banco dos réus onde o intérprete continuava a traduzir, sobre as falanges inertes do acusado, as minimas palavras pronunciadas por sua mãe.

- Suplico-lhe, senhor - insistiu ela dirigindo-se ao intérprete - diga-lhe que sua mãe está aqui, perto dele, para ajudá-lo ...  Sua mãe que lhe pede que se defenda, por ele mesmo, pela honra do nosso nome, pela memória de seu pai...

Sua mãe que lhe perdoa toda sua indiferença desde que era menino ... Suplico-lhe, meu filho, faça um gesto, não importa qual! Estenda-me simplesmente os braços ...

- O acusado responde? - perguntou o presidente ao intérprete.

- Não, Sr. Presidente.

- A Corte lhe agradece, senhora...

Simone Vauthier estava arrasada. Dois guardas a carregaram como a um fardo sob os olhares da assistência petrificada.

Danielle ficara transtornada: aquela mãe devia conhecer seu filho melhor que ninguém ... Se afirmava com tal convicção que ele era meigo, talvez o fosse. No entanto, nem um sinal para aquela mãe que viera defendê-lo com todas suas forças.

Nem um músculo do seu rosto bestial se movera enquanto o intérprete lhe traduzia a súplica patética de sua mãe. Se o desespero e as lágrimas de sua própria mãe não conseguiram comovê-lo, quem o conseguiria?

A jovem contemplou com novo interesse o acusado, como que fascinada por aquele monstro de olhar ausente. Chegava a perguntar-se se num momento qualquer da sua estranha existência - por mínimo que fosse - esse Vauthier poderia ter tido uma aparência humana e até certo ponto bela. Na realidade, Danielle não sabia mais que partido tomar. Seus sentimentos a respeito do acusado eram confusos e contraditórios. Teve de fazer um grande esforço para se desligar daquela contemplação fascinante e voltar o olhar para seu velho amigo que tornara a sentar-se em seu lugar. Victor Deliot, sempre impassível, limpava o lorgnon com seu lenço xadrez. O presidente chamou a testemunha seguinte.

Era uma figura estranha. Sua estatura alta, ligeiramente curvada, vestia-se com uma batina preta cuja parte inferior se abria, deixando aparecer as calças que caíam sobre sapatos grossos e de bico quadrado. O único ornamento da sua roupa preta era uma manta azul, retangular. Seu rosto de ar travesso e avermelhado era emoldurado por cabelos brancos e nele se destacavam dois olhos cinzentos e brilhantes. A primeira impressão que se tinha dele era de bondade e de uma certa timidez: não era necessário esmiuçar por muito tempo aquele estranho personagem para saber que pertencia à categoria das criaturas que durante toda sua vida só enxergaram a beleza dos seres ou das coisas e que se recusam a admitir a fealdade. Mantinha-se desajeitadamente em pé, revirando nas mãos grossas de camponês um chapéu de três bicos em feltro preto:

- Yvon Rodelec, nascido em 3 de outubro de 1875, em Quimper, diretor do Instituto São José, em Sanac.

- Sr. Rodelec, queira declarar à Corte tudo o que sabe e pensa sobre Jacques Vauthier.

- Quando vim buscá-lo, em Paris, já faz 17 anos, para levá-lo a Sanac, encontrei Jacques nos fundos do apartamento, onde residia a família Vauthier, em um quarto que dava para um pátio interno. Quando penetrei na peça, ele estava sentado diante de uma mesa: a única manifestação de vida nele se traduzia pelos movimentos febris de suas mãos, que viravam e reviravam incessantemente sobre a mesa uma boneca de pano. Seus dedos seguiam os contornos do brinquedo com uma avidez que parecia jamais poder ser saciada... Sentada diante dele estava uma menina um pouco mais velha, a pequena Solange, cujo olhar expressivo permanecia fixado sobre o rosto fechado de Jacques, como se quisesse arrancar-lhe seus segredos. Tive a impressão, desde esse primeiro contato, que todas as perguntas, todas as pequenas palavras de ternura vinham aos lábios de Solange. Ao contrário, a boca do menino permanecia aberta, os lábios sem vida. O que lhe dava um aspecto bestial. A minha entrada a menina se levantou, mas ele não se mexeu: não percebia nenhum barulho, nenhum som... O quarto não era grande, mas limpo: compreendi logo que a pequena Solange o limpava com capricho. O próprio doente estava bem cuidado: seu avental de escolar não tinha a menor mancha. O rosto lavado e as mãos limpas. Esta foi, Sr. Presidente, a primeira visão que tive do menino surdo-mudo-cego de nascença que eu ia educar para tentar fazer dele uma criatura quase normal...

Após um breve silêncio, o ancião continuou com uma doçura infinita:

- Sentei-me à mesa entre as duas crianças, para poder observar melhor o pequeno doente ... Tentei inicialmente entreabrir suas pálpebras cerradas, mas ele estremeceu ao contato de minhas mãos e afastou vivamente a cabeça, lançando um grunhido. Como eu insistisse, sua contrariedade transformou-se numa cólera furiosa; suas mãos se agarravam à mesa, seus pés sapateavam, todo seu corpo foi sacudido por um tremor nervoso ... A menina veio em meu auxílio colocando suas mãozinhas gorduchas sobre as pálpebras e o rosto de Jacques, que ela acariciou levemente. Esse contato pareceu fazer um bem imenso a seu jovem companheiro que, instantaneamente, voltou à calma ... Conversei então com a menina à qual perguntei o nome, a idade e há quanto tempo cuidava de Jacques ... "Há três anos", respondeu ela. "Oh, então você deve conhecê-lo muito bem!" "Claro que sim", respondeu ela com um entusiasmo espontâneo. "Tem certeza de que ele não vê absolutamente nada, não pode falar nem ouvir?" "Se ele pudesse, senhor, eu já teria percebido há muito tempo! Faz três anos que eu estou sempre a seu lado..." Acreditei nela: parecia gostar muito dele. Perguntei-lhe: "E ele gosta de você?" ...  "Não sei", respondeu ela tristemente. "Ele não sabe me dizer ... " Expliquei então à jovem Solange que num futuro próximo seu amigo saberia expressar seus sentimentos e acrescentei: "Gostará de ouvir Jacques dizer que você é sua melhor amiga?" "Por que procura o impossível?", foi a resposta. "O certo é que ele me prefere a todas as pessoas que vivem nesta casa. Só admite que eu lhe acaricie o rosto ... " "Nem mesmo sua mãe?" "Nem mesmo ela", respondeu Solange, baixando a cabeça. Então, ergueu-a bruscamente para me perguntar com um desafio infantil:

"Quem é o senhor?" "Eu? Um simples pai de família numerosa. Tenho 300 filhos! O que acha disso?" "E gosta de todos?" "Mas claro que sim!" - Solange - prosseguiu - parecia não compreender, mas, já à vontade, começou a me explicar que havia conseguido ensinar a Jacques um punhado de coisas e que os dois já se podiam entender muito bem.

"Todos aqui pensam que Jacques não raciocina. Não é verdade! Eu sei que ele é muito inteligente." "E como chegou a saber?" "Por causa de Flanelle." "E quem é Flanelle?", perguntei curioso.

"Minha boneca, essa que ele está segurando nas mãos.

Ele não tinha brinquedos e nada com que se ocupar..." "E você não brinca mais de boneca?" "Prefiro brincar com Jacques: é mais importante. Ninguém nunca quis brincar com ele ... Eu lhe dou a boneca e de tempos em tempos eu a tomo... Ele gosta muito de Flanelle: quando a quer, ele me pede. Para isso, inventei um pequeno sinal: ele apóia seu indicador na palma da minha mão direita. Isso, para ele, significa dê-me a boneca, e eu lha dou. Quando quero que ele me devolva a boneca, faço o mesmo sinal, em sentido inverso." "De onde tirou a idéia de comunicar-se com ele por meio de sinais?", perguntei intrigado.

"A primeira vez que lhe dei Flanelle, retirei-a na hora do jantar: ele se irritou e atirou-se no chão, rolando e latindo como um cão. Tive de devolver-lhe a boneca. Depois de a ter deixado alguns minutos nos braços, tornei a tirá-la, fazendo ao mesmo tempo o sinal. Sua cólera recomeçou, e isso várias vezes, até que ele mesmo teve a idéia de repetir na minha mão o sinal que lhe devolvia Flanelle. Desse dia em diante, ele nunca mais adormeceu sem ter Flanelle nos braços." "E você não sentiu perder Flanelle?" "Oh, não! é como se ela fosse nosso bebê, meu e de Jacques...  " " Que mais você lhe ensinou?" "A pedir o que gosta de comer. Mamãe lhe prepara às escondidas, pratinhos especiais..." "Quem é sua mamãe?" "A empregada da Sra. Vauthier." - Eu estava cada vez mais espantado e perguntei:

"Jacques consegue pedir por sinais tudo o que quer comer?" "Tudo não, apenas seus pratos preferidos ... Desde os primeiros dias em que fui contratada para ficar com ele, percebi logo que ele era louco por pão e ovos. Um dia, após ter apalpado avidamente um ovo quente preparado por mamãe, tomei-o de volta e desenhei na palma de sua mão um sinal redondo para representar o ovo. Ele ficou vermelho de raiva e, como não quisesse repetir o novo sinal, náo lhe devolvi o ovo e em seu lugar servi-lhe um pedaço de carne. Jacques não ficou satisfeito e tateava todos os pratos que estavam à mesa para ver se descobria o ovo. No dia seguinte, tornei a pôr o ovo em seu prato: ele o apalpou e eu tornei a retirá-lo, repetindo o pequeno sinal na palma de sua mão esquerda. Desta vez ele repetiu o sinal: restituí-lhe então o ovo. A partir desse dia, inventei novos sinais para o pão e outros alimentos." "Você sabe, minha pequena Solange, que seria uma preciosa auxiliar para mim em Sanac?" "Então o senhor não mora em Paris?" "Não. E vim buscar Jacques, para levá-lo comigo a Sanac." "Vai tirá-lo de mim?", perguntou ela alarmada.

"Você o tornará a ver daqui a algum tempo ... Procure compreender. Jacques não pode continuar nesse estado toda a vida! Evidentemente você já lhe ensinou um bocado de coisas úteis, e eu lhe dou os parabéns! Mas isso não é suficiente: ele precisa instruir-se e desenvolver seus conhecimentos, a partir dos mais rudimentares, para ser alguém." "Eu não estou preocupada por Jacques: sei que é muito inteligente. É que há momentos em que tenho a impressão de que ele compreende tudo, unicamente tocando na minha mão.

Ah! se eu pudesse inventar sempre novos sinais! Já esgotei todos! Ontem, passei a noite inteira pensando num modo de fazê-lo entender que tem uma mamãe como eu..." "E conseguiu?" "Não." "Já que você mesma reconhece sua incapacidade, há de reconhecer também que Jacques precisa de uma ajuda mais eficiente para que se complete o trabalho que você começou tão bem." "Se eu fosse mais instruída, tenho certeza de que o conseguiria sozinha! Ele não precisaria de mais ninguém!" "E claro que os sinais que inventou são formidáveis, mas obrigariam Jacques a depender exclusivamente de você. É preciso que ele seja capaz de pedir Flanelle ou um ovo à primeira pessoa que encontrar. E ele só conseguirá isso quando souber o alfabeto e puder utilizá-lo como você ou eu." - Os olhos de Solange se encheram de lágrimas: ela não compreendia que Jacques pudesse passar sem ela.

"Se levar Jacques, será por muito tempo?" "Depende dos progressos obtidos ... Mas nada a impedirá de visitá-lo em Sanac. Conte comigo para que ele se lembre sempre de você." - Eu jamais teria pensado, naquele momento, que acabava de travar conhecimento com aquela que seria, mais tarde, a esposa de meu aluno!

Yvon Rodelec calou-se.

- O senhor nos deixou entender - disse o Presidente Legris - que os Vauthier não se ocupavam absolutamente de seu filho?

- Longe de mim esse pensamento, Sr. Presidente! Meu papel, nesta terra, não é o de julgar o comportamento dos outros, mas de ajudar meu próximo ...

- E como foi essa primeira viagem com seu novo aluno? - perguntou o presidente.

- Menos mal do que eu esperava. Solange, a quem sua mãe havia autorização a nos acompanhar até a estação de Austerlitz, teve a boa idéia de levar Flanelle, que Jacques acariciou durante toda a viagem de trem. Naquela mesma noite chegamos a Sanac onde mandei preparar um quarto, comunicando-se com o meu. No estado em que ele se encontrava, eu nem poderia pensar em colocá-lo imediatamente num dormitório de surdos-mudos ou de cegos.

- Quando Jacques Vauthier chegou à sua instituição, o senhor já tinha outros surdos-mudos-cegos entre seus 300 pensionistas? - perguntou o presidente.

- Não. Seu predecessor direto, o décimo oitavo aluno desse tipo, cuja educação eu já havia terminado, nos havia deixado seis meses antes para ir trabalhar como marceneiro numa empresa onde consegui colocá-lo. Aliás, era preferível que inicialmente o pequeno surdo-mudo-cego estivesse só para progredir rapidamente. Como já fizera com os 18 casos anteriores, que me haviam proporcionado grande prática, preferi ocupar-me pessoalmente de Jacques. Resolvi começar na manhã seguinte quando ele estivesse bem descansado.

- Considero indispensável - declarou Berthier - que a testemunha explique à Corte os diferentes estágios dessa educação que em 10 anos transformou o pequeno bruto amorfo que era Jacques Vauthier, em um homem dotado de todas as faculdades intelectuais. Os Srs. Jurados não mais poderão equivocar-se sobre sua verdadeira personalidade, escondida sob uma aparência física completamente enganadora.

- A Corte partilha da mesma opinião, Sr. Promotor.

Queira continuar, Sr. Rodelec.

- Durante aquela primeira noite que Jacques passou sob o teto do nosso Instituto - começou o ancião - consagrei meu tempo à prece e à meditação que seriam meus dois sustentáculos no rude combate que eu iniciaria na manhã seguinte.

Implorei a proteção de N.Sra. do Bom Socorro. Por acaso não é ela que vem sempre em auxílio de nós, bretões, nos casos desesperados? Foi ela quem me iluminou ... Eu hesitava ainda sobre a escolha do método a ser utilizado na educação daquele pequeno bruto. Jacques seria realmente inteligente como o havia afirmado a bondosa Solange ou não passaria de um menino de compreensão mediana? A inteligência, ainda embotada, se mostraria ativa, ansiosa por escapar da sua noite ou, ao contrário, passiva, apta apenas a registrar tudo por rotina? O único meio de descobrir era utilizar alguns elementos que a ternura da mocinha já empregara como traço de união entre ela e Jacques: a boneca, um ovo, uma colher, um prato, um copo. E eu tinha de agir progressivamente, às apalpadelas, do conhecido para o desconhecido ... Eu sabia que toda criança, muito antes de aprender o alfabeto e os primeiros rudimentos de gramática, penetra o sentido geral de uma frase que ainda é incapaz de articular ou analisar em detalhe, mas que apreende graças ao hábito do ouvido ou da observação fisionômica ... Talvez graças também à misteriosa intuição que trazemos conosco desde o primeiro vagido. Com o pequeno Jacques seria a mão, que, uma vez exercitada, se tornaria ao mesmo tempo o ouvido e a vista que armazenam a linguagem total, a garganta e a boca que a reproduzem ... Eu iria ficar alerta e abrir minha alma durante semanas, meses e talvez anos, esquadrinhando o íntimo daquela criatura à procura da inteligência oculta, vagando a esmo em meio a uma esmagadora conspiração de sombra e silêncio, longe de toda a luz, todos os risos, todos os choros, todos os cantos, longe da vida.

- O despertar, na manhã seguinte, foi normal - prosseguiu. - As primeiras dificuldades começaram com a toalete matinal que tive de impor à força a Jacques: ele sentiu imediatamente que não eram as mesmas mãos que o ensaboavam, lhe lavavam o rosto, o penteavam. Com raiva, entornou várias vezes a água da bacia e atirou-se ao chão. Após cada uma dessas crises, eu o ajudava a levantar-se e enchia de novo a bacia, esforçando-me para não demonstrar impaciência: iniciava-se a luta surda entre nossas duas vontades, uma querendo suprir as deficiências da outra. E esta luta só poderia cessar com a minha vitória final. Quanto mais difícil fosse essa primeira toalete, mais fácil seria a do dia seguinte e, praticamente banal, a do terceiro dia. Tudo, na educação do pequeno Jacques, se resumiria a uma repetição metódica dos mesmos atos da vida quotidiana.

E cada um desses combates me permitiria descobrir novos traços do caráter do meu estranho aluno. Naturalmente, no princípio, seriam indicações muito vagas, um grito rouco, uma transformação fisionômica, mais freqüentemente um gesto desajeitado e brutal, mas a experiência de meus alunos anteriores me ensinara a captar e utilizar os menores indícios. Foi ela que me deu a idéia de manter durante alguns segundos a mão direita de Jacques sob o jato de água fria que escorria da torneira, exercendo pressão bem definida sobre a palma de sua mãozinha gelada. Repeti por 10 vezes seguidas essa experiência, mantendo sob a água o braço que se procurava retrair. As lágrimas começaram a escorrer das pálpebras sempre cerradas; foram as primeiras que vi jorrar de olhos apagados ... Amei essas lágrimas... Não eram elas por acaso a mais pura expressão da vida que ansiava por se exteriorizar? Jacques se acalmou: resignou-se a suportar a temperatura desagradável do líquido frio. Afastei então sua mão e apertei-a contra a minha propria face: o menino descobriu, pelo contraste, a sensação agradável do calor. A sensação do frio e do quente se firmou nele.

- Sua mão - continuou - sempre guiada pela minha, tateava agora o contorno da bacia, enquanto eu imprimia em sua palma inerte e pronta para receber um outro sinal caracteristico, muito diferente do primeiro ... De repente meu aluno empalideceu, depois enrubesceu, antes de se imobilizar num êxtase supremo. O nevoeiro insondável se havia desfeito: ele havia encontrado! Do fundo do nada, sua consciência adormecida acabava de ser ofuscada por uma claridade súbita, fazendo-o compreender que cada um dos dois sinais novos, que haviam sido imprimidos na palma de sua mão direita, correspondia a cada um dos objetos que havia apalpado: o líquido frio e o metal da bacia. Adquiria de uma só vez a noção essencial do conteúdo e do continente. Ainda que confusamente, ele sentia que poderia, no futuro, pedir, obter, escutar, compreender por uma troca de sinais sistemáticos com o Desconhecido que eu ainda era para ele e que o tocava sem cessar. Finalmente se evadia do pequeno mundo inventado pela solicitude de Solange e que se reduzia a alguns alimentos preferidos ou a uma boneca de pano. Tomado de uma alegria brutal, Jacques se pôs a tocar em tudo no quarto: na mesa sobre a qual estava a bacia, nos pratos, alguns secos, outros úmidos, no sabão que lhe escorregava por entre os dedos, na esponja que ele espremia com força para fazer espirrar o líquido frio ... Instintivamente, levava cada objeto ao rosto para senti-lo, aspirá-lo, respirá-lo, impregnar-se de seu odor particular... Mordeu alternadamente a esponja e depois o sabão, fazendo uma careta: aquilo não era coisa boa de se comer! Deixei-o inteiramente à vontade durante longos minutos que compensavam seus 10 anos passados nas trevas.

Eu estava sendo a testemunha do extraordinário milagre: os três sentidos que serviriam para a educação completa de Jacques começavam a combinar-se para ajudar o cérebro a compreender. Sucessivamente o olfato e o gosto tinham vindo em auxílio do tato. E tudo aquilo se fazia da maneira mais simples do mundo: bastava-me observar os gestos alternadamente desordenados e mecânicos do menino para ver que cada objeto já era apalpado pelos dedos febris, aspirado pelas narinas frementes e degustado pelos lábios gulosos de saber.

- Sua própria máscara fisionômica - prosseguiu - até aquele minuto hermeticamente fechada parecia reclamar o nome dos objetos. Jacques tinha finalmente em mãos a chave que lhe ia abrir as portas da compreensão. E eu tinha, agora, a prova de que sua inteligência era viva: o bom coração da pequena Solange não se enganava. Uma, duas, três horas se passaram, ricas de vida nova, durante as quais eu o auxiliava a apalpar, respirar, sentir os objetos já familiares de uma forma metódica, dando a cada um, sobre a palma das suas mãos ávidas, uma denominação tátil ...  Mãos que estavam úmidas ... Respiração que estava ofegante. Compreendi que era preciso não insistir nessa primeira lição, pois seu cérébro ainda frágil não suportaria o choque. No dia seguinte, eu recomeçaria com os mesmos objetos de toalete, familiares, aos quais eu procuraria acrescentar outros. Para acalmar sua excitação, achei conveniente fazê-lo respirar ar puro e obrigá-lo a movimentar-se. O prodigioso trabalho cerebral que ele acabava de realizar em algumas horas, necessitava de um relaxamento físico reparador.

Levei-o para o parque do Instituto e lá fiz com que seguisse itinerários traçados com antecedência. Para isso, eu havia ligado algumas árvores por meio de cordas. Jacques só tinha que seguir essas cordas de árvore em árvore as quais lhe serviam de ponto de referência. Três dias depois, graças a esse procedimento, ele já podia passear sozinho. Foi assim que ele aprendeu a noção de espaço. Compreendeu rapidamente o sentido da palavra movimento e descobriu que suas pernas só agiam sob o controle da sua vontade.

Após uma pequena pausa, prosseguiu:

- Naturalmente, eu ficava perto dele nesses passeios para protegê-lo de um acidente, mas evitava orientá-lo: deixava-o à vontade. Assim que ele decorou o primeiro percurso no parque, marquei um outro, mudando as cordas de lugar. Não era bom que ele se habituasse demais a um itinerário determinado. Assim que ensinei Jacques a caracterizar cada objeto de uso corrente por um sinal mímico, passei a tratá-lo unicamente como a um surdo-mudo, ensinando-lhe o alfabeto datilológico aplicado sobre sua epiderme, o mesmo usado neste momento pelo intérprete para lhe transmitir todas as minhas palavras ... A seguir, passei a tratá-lo unicamente como cego pondo a seu alcance o alfabeto Braille que lhe permitiu ler. Mas ele sabia apenas reconhecer e designar objetos concretos ou ações materiais; para poder atingir diretamente seu coração e sua alma, era indispensável inculcar-lhe algumas noções essenciais. Comecei pela noção de grandeza, fazendo-o tatear cuidadosamente dois de seus companheiros: um alto e um baixo. Eu não tinha mais que prosseguir meus esforços nesse sentido. Uma noite em que um andarilho apareceu em nossa instituição para pedir pousada e comida, conduzi o recém-chegado perto de Jacques para que este apalpasse as roupas rasgadas e os sapatos furados e acalcanhados do infeliz. A experiência foi cruel, mas necessária. Jacques demonstrou claramente a sua repulsa, em seu primeiro contato com a miséria. Alguns instantes mais tarde, fi-lo apalpar as roupas bem cuidadas, o tecido fino, o relógio-pulseira e os sapatos novos do Dr. Dervaux, o médico do Instituto.

Jacques declarou imediatamente em linguagem mímica: "Não quero ser pobre! Não gosto dos mendigos!" ... "Você não tem o direito de falar isso", respondi-lhe, falando-lhe na mão. "Você gosta de mim?" Uma expressão de ternura infinita iluminou seu rosto. "Você gosta de mim", continuei, "e entretanto eu também sou pobre!" - Jacques compreendeu então - continuou Rodelec - que não havia desonra em amar os pobres, tendo adquirido, ao mesmo tempo, a noção de riqueza e de pobreza. Aproveitei dessas excelentes disposições para tomar suas mãos e aplicá-las contra meu próprio rosto. Após apalpar longamente minhas rugas, comparou-as a seu rosto jovem, de pele lisa e fresca. Expliquei-lhe que dia viria em que ele também teria rugas. A noção de velhice acabava de incorporar-se a seu cérebro. A revolta foi espontânea: declarou que jamais seria assim, que pretendia ser sempre jovem e que sua pele nunca teria rugas! Custei a fazê-lo compreender que todo homem tem de envelhecer e que ele mesmo perceberia que a velhice não era triste, se ela soubesse cercar-se de juventude. A única e verdadeira juventude não é aquela que trazemos no coração? Alguns dias mais tarde, Jacques passeava pelo parque, acompanhando as cordas sob minha vigilância, quando tive a idéia de lhe dar uma outra noção indispensável: a do futuro. Apesar de todos meus esforços, as explicações teriam sido penosas e difíceis se, pela primeira vez, meu aluno não tivesse tomado a iniciativa, fazendo um gesto simples que provava ter compreendido perfeitamente: os braços estendidos para a frente, abandonando voluntariamente o itinerário delimitado pelas árvores, caminhou rapidamente diante de mim após ter encontrado nele mesmo a eterna comparação da vida com uma estrada, ilustrada por Bossuet. Foi depois dessa caminhada exaltante, que lhe abriu perspectivas infinitas, que Jacques teve seu primeiro contato com a morte. Julgava-o suficientemente preparado para compreender essa idéia angustiante, agora que ele já sabia o que era o futuro.

Rodelec fez uma pausa, antes de prosseguir:

- Irmão Anselme, o ecônomo do Instituto, acabava de morrer na paz de Nosso Senhor, após ter passado 50 anos de sua existência a serviço da nossa instituição. Jacques se apegara muito a Irmão Anselme que punha em seus bolsos tabletes de chocolate, todas as vezes que o vinha ver. Comecei por falar suavemente do morto a meu aluno, explicando-lhe que ele se havia deitado para sempre, que não se levantaria mais, que não mais andaria e que, conseqüentemente, não poderia mais lhe dar tabletes de chocolate. "Então, quem é que me vai dar?" perguntou-me Jacques, preocupado. Propus-lhe irmos até onde se encontrava o morto. Ao tocá-lo, estendido, foi tomado de surpresa pela frialdade do cadáver. Sabendo por mim que ele também morreria um dia e que seu corpo ficaria tão frio como o do Irmão Anselme, mais uma vez ele se revoltou: foi sacudido por soluços diante daquela descoberta monstruosa. Expliquei-lhe que eu também morreria um dia e que não temia a morte. Mas ele não conseguia meter na cabeça uma idéia tão material e incompleta da morte: por isso tive de fazer com que compreendesse a existência da alma ... Foi a presença invisível, mas sempre viva no coração de Jacques, de Solange que serviu para destravar o mecanismo que conduziria aquela jovem inteligência para as esferas mais abstratas. Perguntei-lhe: "Você ama Solange? Mas com que a ama? Com as mãos? Com os pés?

Com a cabeça?" Jacques respondia meneando negativamente a cabeça a cada uma das perguntas. "Você tem razão, meu pequeno Jacques. Há alguma coisa em você que ama Solange ...

E essa coisa que ama está aprisionada em seu corpo, mas seu corpo, sem essa "qualquer coisa", estaria inerte; é isso que chamamos alma e, no momento da morte, o corpo e a alma se separam. Quando Irmão Anselme morreu, você tocou seu corpo que estava gelado porque sua alma o havia deixado ...

Partira para outro lugar. Era a alma dele que amava você e não seu corpo. Pois bem, ela vive para sempre e continua a amá-lo... "Foi dessa forma que começou a brotar no espírito de Jacques a difícil noção dos seres imateriais e da zmortalidade da alma. Agora só me restava elevá-lo até o ponto culminante, ao máximo de toda a educação progressiva: Deus.

Para chegar a Ele; servi-me do auxiliar mais poderoso e generoso que os homens conhecem: o Sol. Astro dispensador de luz e calor, cujos raios benfazejos penetram nos cantos mais obscuros, alegrando os aposentos sombrios e acariciando mesmo o rosto do pequeno Jacques, quando este parecia ainda fechado para a luz ... Sol, que meu aluno amava pelo seu calor com a mesma intensidade com que se empenhava em detestar a morte que com ela só trazia o frio... Todas as vezes em que eu levava Jacques a passear, podia constatar o prazer com que ele recebia os quentes raios solares. Estendia as mãos para o lugar de onde lhe parecia vir o calor e tentava às vezes, no parque, subir nas árvores unicamente para se aproximar desse Sol que lhe fazia bem.

- Um dia - continuou Rodelec - em que ele havia corrido por um campo e voltava para mim suado, feliz, o rosio afogueado, transbordante de admiração infantil e de reconhecimento pelo astro que acabava de lhe oferecer esse banho de juventude, perguntei-lhe: "Jacques, quem fez o Sol? Teria sido o marceneiro?" "Não, foi o padeiro", respondeu-me. No seu cerebro, onde se misturavam tantas noções novas, ele ingenuamente ligava o calor solar ao do forno onde se assava o pão.

Observei que o padeiro não podia fazer o Sol... estava acima das suas possibilidades ... O padeiro era apenas um homem como ele ou eu, que conhecia simplesmente a arte de transformar a farinha em pão ... "Aquele que fez o Sol, Jacques, é maior, mais forte que o padeiro, que nós, mais sábio que todo mundo ... " Jacques me ouvia, espantado. Falei-lhe da criação, descrevi-lhe o céu admirável com as estrelas e a Lua. Gradativamente, continuei minha lição. Logo ele sabia de cor as principais passagens da História Sagrada que o entusiasmou como a todas as crianças. A descrição da Paixão o comoveu e, como a noção de tempo era para ele ainda muito imprecisa, perguntou-me com certa inquietude: "Papai estava entre os homens maus que mataram Jesus?" "Não, meu filho. Seu pai, como você e como todos nós, faz parte de todos aqueles por quem Jesus morreu na cruz..." Aproveitei aquela alusão a seu pai para desenvolver nele a noção ainda confusa da sua familia.

Fi-lo compreender que tinha também uma mamãe que ele deveria amar de todo o coração e respeitar. Muitas vezes, ele demonstrou seu espanto de não ver com mais freqüência os seus, especialmente sua mãe. Eu lhe respondia sempre: "Logo ela virá..." Realmente, ela veio ao fim de um ano. Infelizmente, essa entrevista sobre a qual eu havia alimentado muitas esperanças, foi pungente e desastrosa..." - A própria Sra. Vauthier nô-la descreveu neste Tribunal - disse o Presidente Legris.

Yvon Rodelec pareceu surpreso com a notícia e sacudiu a cabeça antes de dizer lentamente:

- O que a Sra. Vauthier certamente jamais soube foi que seu filho tentou suicidar-se após sua fuga do parlatório onde ela havia tentado em vão mantê-lo em seus braços ...

- Explique-se melhor, Sr. Rodelec - pediu o presidente.

- Os detalhes têm pouca importância: Jacques, que se havia refugiado no celeiro do edifício central, atirou-se de lá quando percebeu que eu o havia encontrado em seu esconderijo. Por felicidade, caiu sobre um monte de feno que amorteceu sua queda. Somente muitos dias depois consegui arrancar-lhe o motivo de seu ato: "Pensei que o senhor viesse me buscar para me colocar novamente nos braços daquela mulher ... Prefiro morrer do que tornar a vê-la! Foi bom me dizer que ela é minha mãe, pois fiquei sabendo que minha mãe jamais gostou de mim.

Jamais me amou! Reconheci-a pelo seu cheiro. Ela nunca se ocupou de mim quando eu morava com ela. Ninguém gostava de mim naquela casa, a não ser Solange." Meditei longamente naquele drama familiar... Minha conclusão foi que as coisas se atenuariam à medida que Jacques crescesse e que o tempo, no caso, seria o melhor conselheiro. Realmente, Jacques e eu conversamos bastante sobre o assunto e ele fez um grande esforço para receber melhor sua mãe quando esta veio visitá-lo um ano mais tarde. Compreendi, entretanto, durante aquela segunda entrevista, que meu aluno jamais amaria sua mãe ou qualquer outro membro da sua família. Durante muito tempo fiquei perplexo, perguntando-me qual seria a causa profunda desse ressentimento ...

- E descobriu? - perguntou com ceticismo o promotor.

- Acho que sim ... Quando vim buscar Jacques, em Paris, notei imediatamente que sua partida para Sanac representava um verdadeiro alívio para toda a família, inclusive para sua mãe ... Senti uma pena muito grande do menino e compreendi que dependeria de mim criar para ele uma nova família em Sanac, onde se sentisse amado e cercado de amigos na nossa comunidade. Após a segunda visita da Sra. Vauthier a Sanac, achei que seria mais razoável espaçar as entrevistas entre a mãe e o filho. Fiz mal? Acho que não. Se eu tivesse insistido demais, talvez acontecesse o pior. Talvez Jacques perdesse a confiança em mim e era absolutamente necessário que ele confiasse em mim para continuar a progredir.

- Jacques Vauthier era bom camarada para os outros alunos da instituição?

- Excelente. No início da sua estada em Sanac foi logo bem aceito e querido pela sua gentileza. Ao fim de alguns meses, acabaram por admirá-lo pelo empenho extraordinário que ele demonstrava em se instruir.

- Não houve, entre seus camaradas, um tal Jean Dony que se dedicou particularmente a ele? - perguntou o promotor.

- Sim. Escolhi intencionalmente Jean Dony, que era apenas cego, para cuidar de Jacques. Minha escolha foi judiciosa: os dois jovens tornaram-se inseparáveis durante muitos anos..

- Até a chegada de Solange Duval a Sanac! - insinuou Berthier.

- Quando Jacques chegou à idade de prestar seus exames, pensei que Solange Duval seria para ele uma colaboradora eficaz. Embora possuindo grandes qualidades, Jean Dony era muito exclusivista em suas amizades: enciumou-se com a intervenção daquela jovem na vida de Jacques. Não tinha razão. Procurei fazê-lo compreender que não poderia continuar indefinidamente a cuidar do seu protegido: na verdade, Jean deveria deixar-nos alguns meses mais tarde para tomar posse de seu cargo como organista na catedral de Allu, onde está até hoje. Soiange Duval seria sua substituta. Jean Dony compreendeu perfeitamente meus argumentos e provou não ter guardado qualquer ressentimento, no dia do casamento de Jacques com Solange, quando veio expressamente de Albi para tocar durante a cerimônia.

- A testemunha pode dizer-nos - perguntou o Promotor Berthier - o que pretendia, mandando buscar Solange Duval e sua mãe para que ficassem em Sanac?

- A verdade é que o fiz apenas por necessidade - respondeu Yvon Rodelec, com simplicidade. - A educação de Jacques teria sido incompleta, se ele não tivesse sentido à sua volta uma forma de ternura que é o amor levado até a abnegação total. Era preciso dar àquele rapaz excepcionalmente sensível a noção completa do Amor: amor do próximo e amor de si mesmo que lhe permitiria adquirir a verdadeira dignidade humana. Somente Solange poderia cristalizar em seu espírito todas as formas de ternura. Quanto mais eu refletia sobre o caso estranho dessas duas crianças, mais me convencia de que o meu décimo nono surdo-mudo-cego não estava destinado a arrastar pelo resto da existência a mesma solidão dos seus 18 predecessores. Consultado, o Dr: Dervaux, médico do nosso Instituto, foi da mesma opinião. Não seria melhor deixar que a natureza agisse plenamente sobre Jacques com suas aspirações, apetites, e mesmo desejos carnais? O homem não foi criado para viver só, a menos que o Céu o tenha escolhido, desde toda a eternidade, para ser pastor de almas. Não teria sido a Providência que, em sua sabedoria infinita, pusera Solange no caminho de Jacques?

- Solange - prosseguiu Rodelec - escrevia semanalmente a Jacques: essas cartas, que eu lia atentamente e que respondia por meu aluno, ainda incapaz de o fazer, foram se acumulando numa gaveta de minha escrivaninha. Finalmente, um dia, transcritas em Braille, pude entregá-las a Jacques, que as leu avidamente. Mas meu aluno não fora o único a progredir.

Solange, já então uma moça, escrevia agora de uma maneira encantadora. Com o consentimento de sua mãe, providenciei que tivesse aulas em Paris com uma Irmã da Sabedoria e os ensinamentos que recebia produziam frutos. Quando atingisse a maioridade, Solange Duval possuiria uma instrução sólida, indispensável para poder ajudar eficazmente a Jacques. Porque eu já me convencera de que meu aluno nunca poderia viver só e que necessitaria constantemente de uma companheira dedicada. E eu me havia preocupado, então, de lhe preparar essa companheira por intermédio da Irmã Marie de la Miséricorde, que se correspondia regularmente comigo para manter-me a par dos progressos realizados em Paris por sua jovem aluna.

Eu recomendara taxativamente à Irmã Marie para que Solange, delicada e sensível, não desconfiasse que acariávamos para ela um projeto para o futuro, nem que havíamos descoberto, através suas cartas, o sentimento puro que parecia crescer em seu coração em relação a Jacques. Tanto Irmã Marie como eu confiávamos em que a Providência cuidaria de precipitar as coisas quando fosse chegado o momento oportuno.

Solange e Jacques eram ainda muito jovens: era preciso esperar que atingissem a maioridade. A de Solange viria primeiro e, quando Jacques completasse 21 anos, ela já teria 24. Aquela diferença de idades não me desagradava. Ao contrário: era bom que a companheira fosse mais velha. Não seria ela que conduziria a barca do casamento? Lendo e relendo as cartas que eu transcrevia em Braille, Jacques foi descobrindo o coração da jovem que alguns anos antes lhe havia ensinado a pedir seus pratos prediletos e lhe dera Flanelle. "Quando ela virá?", perguntava-me incansavelmente. Assim, quando soube pela própria Sra. Vauthier que ela não estava mais em condições de manter a seu serviço Mélanie e sua filha Solange, escrevi à Sra. Duval, oferecendo-lhe emprego no Instituto: ela se ocuparia da lavanderia e, sua filha, já com 20 anos e suficientemente instruída, tomaria o lugar de Jean Dony ao lado de Jacques.

A Sra. Duval aceitou entusiasmada. Um mês mais tarde, meu aluno teve finalmente a seu lado aquela que esperava há muito tempo e que, no seu entendimento, não deveria deixá-lo nunca mais. Ter-me-ei enganado agindo como agi? Creio que não.

- Acha então - perguntou o Presidente Legris - que Solange Duval era a companheira ideal para um rapaz como Jacques, atingido por uma deficiência tão grande?

- Era a única companheira possivel . Mas por que falar no passado? Solange Vauthier ainda é a companheira ideal para seu marido ...

- Ele é o único que nos poderia dizer! - declarou Berthier. - Infelizmente a atitude do acusado com relação a sua mulher desde o momento do crime parece indicar que a Sra.

Solange Vauthier não goza mais da confiança de seu marido...

- A Defesa não reconhece ao Ministério Público - interrompeu Victor Deliot - o direito a essa observação que não se baseia em fatos precisos. Até prova em contrário, afirmamos que a harmonia e o bom entendimento jamais deixaram de reinar no lar dos Vauthier.

- Então, como a Defesa explica - perguntou o promotor cada vez mais acerbo - que o acusado se tenha recusado obstinadamente a receber a visita de sua mulher desde seu encarceramento?

- O acusado não quis receber ninguém: nem sua mãe, nem sua mulher. Eu encararia essa recusa mais como uma prova de dignidade corajosa - respondeu Victor Deliot.

v - Senhores - observou o presidente - receio que nos estamos perdendo ... - Pode dizer-nos, Sr. Rodelec, em que data e em quais circunstâncias foi decidido o casamento?

- Quando meu aluno tinha 22 anos, e Solange Duval, 25.

Jacques não conseguia mais passar sem Solange que o ajudara a completar seus estudos de Letras e reunira o material que lhe havia possibilitado escrever seu romance O Isolado. Após a publicação dessa obra, Jacques Vauthier tornou-se célebre da noite para o dia: a imprensa interessou-se pelo seu caso e, por extensão, pela nossa obra. A própria América do Norte, com sua generosidade habitual, quis conhecer o estranho autor desse livro. Mas era-me completamente impossível acompanhar meu aluno aos Estados Unidos durante a série de conferências que ele deveria realizar por lá. Tarefas mais urgentes exigiam minha presença em Sanac. Eu sabia, entretanto, que essas conferências realizadas por meu aluno abririam os olhos do grande público para nossa obra, atrairiam subsídios que nos seriam de grande valia e, principalmente, difundiriam o método francês de educação de surdos-mudos-cegos de nascença, tão pouco conhecido até então. Devo acrescentar que fomos procurados por um representante do Ministério da Educação Nacional que veio especialmente de Paris a Sanac para me dizer que via com bons olhos essas conferências nos Estados Unidos e que ele facilitaria a viagem. Tinha eu o direito de recusar? Além disso , Jacques desejava partir. Um único ponto o afligia: separar-se de Solange. A menos que ... Foi ele mesmo que me comunicou seu desejo ardente de casar-se com ela. Aconselhei-o a refletir.

Respondeu-me que durante os cinco anos em que Solange estivera a seu lado, tivera tempo suficiente de o fazer. Nada mais me restava senão inclinar-me. a seu desejo e, aceitei, a pedido seu, de ser seu mensageiro junto àquela que ele havia escolhido e desejava por companheira.

- Qual foi a primeira reação de Solange Duval? - perguntou o presidente.

- De alegria, mas também de uma certa inquietação.

Tranqüilizei-a, fazendo-a ver que no fundo ela e Jacques se haviam amado desde a infância. Três meses mais tarde, realizou-se na nossa capela o primeiro casamento de um surdo-mudo-cego de nascença: aquela foi, para nossa comunidade, a mais linda cerimônia do mundo. Vimos Jacques, "nosso pequeno Jacques", que havíamos acolhido 12 anos atrás num estado quase bestial, sair da capela sorrindo, radiante, levando pelo braço aquela que lhe daria para o resto da vida a segurança de seus olhos luminosos, de seus ouvidos sensíveis, de sua voz harmoniosa e também, por que não dizê-lo., de seus braços de mulher que saberiam protegê-lo contra as dificuldades da vida e ao mesmo tempo prodigalizar-lhe as carícias das quais ele fora sempre privado.

- O jovem casal deixou imediatamente o Instituto de Sanac? - perguntou o presidente.

- Naquela mesma noite partiram em viagem de núpcias para Lourdes, onde Jacques ia pagar uma promessa à Virgem milagrosa por Solange ter concordado em ser sua esposa. E aquele casamento não fora, por acaso, um pequeno milagre?

- Quantas vezes o senhor reviu Jacques e sua mulher depois do casamento?

- Somente uma vez, logo após sua volta da viagem de núpcias. Passaram por Sanac antes de irem para o Havre, onde embareariam para os Estados Unidos.

- Pareceram-lhe, na ocasião, perfeitamente felizes?

Yvon Rodelec teve uma ligeira hesitação que não escapou a Victor Deliot.

- Sim ... Evidentemente, Solange confiou-me certas dificuldades de caráter íntimo que precisariam ser superadas ...

Aconselhei-a a ser paciente, mostrando-lhe que uma união durável muitas vezes exigia tempo para consolidar-se ... Um mês mais tarde, tive o prazer de receber uma longa carta de Nova York, onde Solange me escrevia que eu tivera razão e que ela estava feliz.

- A testemunha conservou essa carta? - perguntou o Promotor Berthier.

- Penso tê-la em Sanac - respondeu Yvon Rodelec.

- Em suma - perguntou-lhe o presidente - é a primeira vez que torna a ver seu antigo aluno depois de cinco anos de ausência?

- Sim, Sr. Presidente.

- Poderia agora voltar-se para o acusado - continuou o presidente - e observá-lo com a maior atenção? Acha que ele mudou depois da última vez que o viu?

O ancião fez um esforço evidente para obedecer à Corte.

Após ter encarado longamente o réu, sentado em seu lugar entre dois guardas, respondeu em voz baixa:

- Realmente ele mudou muito ...

Houve um momento de estupor.

- O que quer dizer com isso?

Yvon Rodelec não respondeu de imediato e, abandonando a barra das testemunhas, aproximou-se da bancada da Defesa onde o intérprete, de pé, continuava a transmitir sobre as mãos do acusado as mínimas palavras pronunciadas na sala. Chegando diante de Jacques, seu educador voltou-se e dirigiu-se ao presidente:

-Peço autorização à Corte para fazer pessoalmente uma única pergunta a meu antigo aluno.

- A Corte o autoriza, Sr. Rodelec, desde que formule essa pergunta em voz alta, antes de fazê-la ao acusado em alfabeto datilológico.

- A minha pergunta é a seguinte: Jacques, meu filho, diga-me por que não quer defender-se?

- Pode fazer a pergunta - declarou o presidente.

Os dedos do ancião tocaram as falanges do acusado que estremeceu àquele contato.

- Ele respondeu? - perguntou o presidente?

- Não. Ele chora... - respondeu simplesmente Yvon Rodelec, voltando para seu lugar.

Pela primeira vez, os jurados viam correr lágrimas por aquele rosto cuja imobilidade impassível se havia dissipado bruscamente, cedendo lugar a uma expressão de dor atroz.

- A Corte o autoriza a fazer outras perguntas ao acusado, Sr. Rodelec ... - disse o presidente, compreendendo, como toda a assistência, que aquele ancião de batina tinha sido o primeiro, cuja presença e testemunho haviam tocado o coração de Vauthier.

- Todos meus esforços serão inúteis - respondeu com tristeza o diretor do Instituto de Sanac. - Jacques não falará...

Conheço-o muito bem! Não creiam que seja por orgulho. Receio, isso sim, que ele esconda qualquer coisa que jamais saberemos!

- A testemunha quer dizer com isso que também considera o acusado culpado? - perguntou o promotor.

Yvon Rodelec não respondeu. Um mal-estar invadiu a assistência. Victor Deliot já se havia levantado:

- Se o Sr. Rodelec não responde, Sr. Promotor, é unicamente porque procura a causa profunda que determinou a atitude incompreensível de Jacques Vauthier desde o drama do De Grasse.

- A Defesa permitir-me-á observar - retorquiu o Promotor - que, ao contrário, o Ministério Público acha que o acusado sempre foi o mesmo desde a hora do crime! Um crime cuja autoria ele reconheceu por várias vezes sem tentar desculpar-se! O que pensa disso seu antigo mestre?

A voz de Yvon Rodelec se fez ouvir então com uma veemência até então desconhecida dos que o ouviam durante seu depoimento:

- O que eu penso é que Jacques Vauthier padece nesse momento o calvário de um homem que se acusou de um crime que não cometeu para salvar o verdadeiro criminoso que é o único a conhecer... E já que a Corte me pediu, vou fazer a Jacques uma segunda pergunta, aliás, sem grande esperança de sucesso.

Novamente diante do acusado tomou-lhe as duas mãos e, enquanto seus longos dedos descarnados corriam pelas falanges inertes, sua voz traduzia em voz alta para a Corte:

- Jacques! Responda-me: quem é o assassino? Sinto que o conhece! Tenho certeza! Não foi você, meu filho. Você é incapaz de cometer uma ação semelhante. Não pode esconder-me a verdade, a mim, seu mestre ... a mim que lhe dei os meios de compreender e de se expressar. Por que não revela o nome do culpado? Por que é uma pessoa querida? Por que gosta dele? Mesmo sendo assim, deveria dizer seu nome, você que sempre teve sede de verdade!É seu dever: não tem o direito de deixar que o condenem sendo inocente! Por que esse silêncio? Terá medo? Medo de quê? De quem? Ah, Jacques, se soubesse como está me fazendo sofrer neste momento!

Desanimado, o ancião voltou lentamente para a barra, repetindo:

- Ele não matou, Sr. Presidente! É preciso que se faça o impossível para encontrar o verdadeiro criminoso!

- As afirmações da testemunhas são certamente dignas de comiseração - disse secamente o Promotor Berthier. - Infelizmente o Sr. Rodelec esquece que o acusado não apenas reconheceu seu crime como o assinou com suas impressões digitais!

- Mesmo que me mostrassem as provas mais evidentes - respondeu o ancião - eu não acreditaria na culpabilidade de Jacques!

- A Corte sabe que o senhor é o homem que mais bem conhece o acusado - interrompeu o presidente. - Ela lhe pede, portanto, que responda às seguintes perguntas. Acredita sinceramente que Jacques Vauthier é inocente?

- Não só acredito sinceramente - respondeu Yvon Rodelec - como tenho certeza!

- Nesse caso, poderia esclarecer a Corte sobre a personalidade do verdadeiro criminoso?

- Como o poderia fazer? Como todo mundo, só soube da morte do jovem americano pela leitura dos jornais ...

- Julga que, apesar de seu silêncio obstinado e de sua recusa em responder, o acusado goza de todas as suas faculdades mentais?

- Certamente! Somente um segredo impenetrável para nós o obriga a calar-se.

- Sua inteligência, que o senhor formou durante longos anos, é realmente excepcional?

- Jacques é um dos cérebros mais bem organizados que já encontrei no decurso de minha longa existência.

- A conclusão é então simples: tudo o que Jacques faz é consciente... Quinta pergunta: o que acha do seu romance, O Isolado?

- O mesmo que todos os que o leram sem parcialidade - respondeu com doçura o ancião.

- Escreveu-o só ou em colaboração?

- Jacques escreveu seu livro em Braille, completamente sozinho. Meu papel limitou-se a uma escrupulosa transcrição em escrita comum.

- Acha que essa obra reflete os sentimentos reais de seu autor?

- Acho... e essa é uma das razões pelas quais não consigo admitir que um homem que escreveu páginas tão sublimes sobre a Caridade tenha podido, mesmo por um instante, ter desejado fazer mal a seu próximo....

- Entre essas páginas que a testemunha qualifica de "sublimes" - observou o promotor - não se encontram algumas, dedicadas à própria familia do autor, cuja elevação de espírito podem parecer duvidosas ao leitor comum?

- Sempre as deplorei - confessou Yvon Rodelec. - Mas as tentativas feitas junto a Jacques para que suprimisse certas passagens de seu livro resultaram sempre infrutíferas. O jovem autor respondia-me invariavelmente: "Escrevi e escreverei somente o que penso, do contrário não estaria sendo sincero comigo mesmo ... " - A Corte lhe agradece, Sr. Rodelec e, antes que deixe esta sala de audiência, faz questão de reconhecer a eficácia da obra maravilhosa que o senhor e seus colaboradores realizam em silêncio no Instituto de Sanac.

- Eu teria preferido, Sr. Presidente - respondeu o ancião com voz surda - nunca ter recebido esses elogios neste recinto e nas atuais circunstâncias!

Yvon Rodelec dirigiu-se para a saída, a cabeça baixa, as costas encurvadas. O que aquele homem extraordinário parecia ignorar era o efeito que seu depoimento calmo e comedido, comovente em sua sinceridade, acabava de produzir na Corte, nos jurados e em toda a assistência.

Os novos sentimentos que animavam Danielle Gény eram os mesmos da maioria das pessoas presentes. Sem querer, por seu bom senso e sua nobreza, o diretor do Instituto de Sanac havia projetado uma nova luz sobre a personalidade até então obscura do acusado. O ponto culminante de seu longo depoimento fora o instante em que pousando seus dedos nas falanges do seu antigo aluno, Yvon Rodelec fizera jorrar lágrimas de seus olhos sem luz. Não seria a revelação súbita de que aquele ser, considerado por todos como um bruto, era capaz de se emocionar? O véu se havia rasgado de um só golpe e Danielle, como muitos outros, achava que um homem forte que chora é capaz de possuir um grande coração. Aquela observação modificava sensivelmente aos olhos da jovem o aspecto daquela cara brutal que adquirira por alguns instantes uma feição humana.

Vauthier tornara-se quase belo em suas lágrimas. Talvez fosse ilusão sua? Não, ela tinha certeza de que uma luminosidade brilhara naqueles traços rudes até então impassíveis. Tivera então a nítida sensação de que o enfermo via e ouvia melhor que um ser normal, de tal forma seu rosto se abrira repentinamente para o mundo exterior ...

Mas fora apenas uma faísca rapidamente apagada pela vontade de Vauthier que voltara à sua máscara de bestialidade amorfa. Tornando a olhar para ele, Danielle se perguntava se, como todos na sala, não teria sido vítima de uma alucinação coletiva. Não, claro que não, o bruto havia chorado ...

- Dr. Dervaux - disse o Presidente Legris à nova testemunha após o habitual interrogatório de identidade - sabemos que além de uma importante clientela em Limoges, o senhor exerce também as funções de médico titular do Instituto de Sanac, aonde vai três vezes por semana dar atendimento médico aos alunos. Jacques Vauthier ficou portanto sob seus cuidados durante os anos que passou em Sanac?

- Sim. Entretanto devo dizer à Corte que Jacques Vauthier, de constituição física excepcional, nunca esteve doente. No dia seguinte a sua chegada a Sanac, examinei-o minuciosamente na presença do Sr. Rodelec. O estado de saúde do menino era normal. A seguir, seu desenvolvimento foi extraordinário. Dessa forma o Sr. Rodelec podia acelerar sua educação sem a menor preocupação: o que ele conseguiu com o maior sucesso.

- A testemunha julga que a educação dada pelo Sr. Rodelec a Jacques Vauthier foi realmente um sucesso? - perguntou com ironia o Promotor Berthier.

- Só uma pessoa de muita má-fé não o reconheceria! E sou completamente imparcial na minha declaração visto que, ao contrário dos Irmãos de São Gabriel, não acredito em milagres, mas exclusivamente na ciência. O Sr. Rodelec conseguiu arrancar Jacques progressivamente de seu estado de inferioridade física, suprindo as deficiências de certos sentidos pelo desenvolvimento dos que lhe restavam e que funcionavam normalmente. Ao contrário do Sr. Rodelec, sempre acreditei que a bondade podia muito bem existir independente de qualquer etiqueta religiosa... Por isso, alguns dias após a chegada de Jacques Vauthier, durante uma conversa em que o Sr. Rodelec me dizia achar seu novo aluno extremamente inteligente, aproveitei para lhe dar minha sincera opinião: "Por que não tenta educar esse menino sem lhe encher a cabeça com tanto Evangelho? Deixe-o mais à vontade, um pouco à maneira do Emilio de Jean-Jacques Rousseau." O Sr. Rodelec respondeu-me que eu deveria cuidar do corpo de Jacques e que ele se encarregaria de sua alma. "Unidos", concluiu ele, "faremos um excelente trabalho." Pois bem, continuo a acreditar que a despeito das aparências atuais que se unem contra nós, que o Sr. Rodelec e eu realizamos um excelente trabalho com Jacques Vauthier.

- Em suma, se a Corte entendeu bem - constatou Berthier - a testemunha faz questão de dividir com o Sr.

Rodelec a responsabilidade da educação de Jacques Vauthier, educação que o conduziu diretamente ao crime.

- Orgulho-me - respondeu com veemência o Dr. Dervaux - de ter colaborado durante anos com um homem da têmpera de Yvon Rodelec para melhorar a vida de crianças infelizes e protesto energicamente contra a afirmação tendenciosa que pretende insinuar que o crime do qual se acusa, com ou sem razão, uma dessas crianças, é o resultado da educação recebida em Sanac! É insensato! Acreditem, senhores, que, se esses pequenos brutos não fossem recolhidos por Yvon Rodelec, tornar-se-iam na certa um perigo e até mesmo um flagelo para a sociedade à medida que seus desejos e apetites se desenvolvessem no caos de uma vida animal. O mundo inteiro deveria agradecer a Yvon Rodelec! E afirmo mais que, se existe uma escola oposta à do crime, é certamente o Instituto de Sanac onde a primeira regra é ensinar às crianças o Amor ao próximo!

- A Corte - declarou o presidente - ainda há pouco rendeu uma homenagem pública ao Sr. Rodelec para lhe provar que em nenhum instante punha em dúvida a qualidade de seus ensinamentos ... Como médico do Instituto, pode dizer-nos, doutor, a que atribui certos atos irrefletidos de Jacques Vauthier tal como sua tentativa de suicídio após a primeira visita de sua mãe?

- Esse incidente me deixou perplexo por muito tempo.

Após muita troca de idéias e observações, o Sr. Rodelec e eu concordamos em um ponto: aquela fuga desvairada do menino diante da mãe provava que sua repulsa datava dos seus primeiros anos de vida. A paciência admirável de Yvon Rodelec conseguira, após alguns meses em Sanac, modificar seus sentimentos.

Infelizmente, no seu desejo de acertar, talvez o educador tenha errado, idealizando demais no cérebro febril de Jacques a idéia de mãe. O fato é que, quando o menino entrou no parlatório onde ia finalmente tomar contato com aquela mamãe maravilhosa de sua imaginação corria na direção de um ser ideal. Então, bruscamente, quando se aproximou da Sra.

Vauthier e pôde sentir seu cheiro, mudou de expressão. Em uma fração de segundo sua memória vinha lembrar-lhe que aquela presença era a mesma que ele detestava; sua inteligência fê-lo compreender ao mesmo tempo que aquela mulher abominável identificava-se com o conceito ideal de mãe que seu educador conseguira, à custa de muito esforço, gravar em seu coração. Sua confusão foi enorme. Naquela mesma noite, Yvon Rodelec confiou-me: "É terrível, doutor! Esse menino está convencido de que o enganei, insuflando-lhe a noção ideal de alguém que não o é absolutamente para ele. Se persistir em seu jovem cérebro essa dúvida que ele tem agora a meu respeito, nada mais conseguirei dele: ficará bloqueado. O senhor sabe melhor que eu que não se deve nunca trair a confiança de uma criança normal: com mais fortes razões a de nma doente!

Como vê, doutor, o problema é grave e peço-lhe que me ajude a resolvê-lo!" Convencido de que Jacques jamais amaria sua mãe, respondi-lhe que o melhor seria encontrar para ele um derivativo poderoso: seria preciso criar um novo centro de ternura e afeição que substituiria no coração do menino o carinho materno. O Sr. Rodelec já me havia falado várias vezes da pequena Solange e das cartas que ela enviava semanalmente a Jacques. Na opinião de Yvon Rodelec, Solange Duval resumia tudo: a mãe e talvez, mais tarde, a companheira. Lembrou-me de que o havia aconselhado, no dia seguinte à chegada de Jacques a Sanac, a não encher demais sua cabecinha com ensinamentos evangélicos e me disse, com grande modéstia, que após muito refletir decidira seguir um pouco meus conselhos e fazer de Jacques um homem completo no verdadeiro sentido da palavra. Contava comigo para isso. Fiquei tão feliz de ver aquele santo homem tomar uma decisão em harmonia com as leis naturais, que prometi ajudá-lo sem restrições. Dediquei-me, desde então, com intensa curiosidade a esse rapazinho que se tornava, para o Sr. Rodelec e para mim, motivo de experiência física e moral. Enquanto seu educador lhe inculcava carinhosamente todas as noções morais essenciais, eu acompanhava rigorosamente seu desenvolvimento físico.

- Muito depressa - continuou o médico - constatei que o instinto sexual desempenharia um papel predominante em sua vida. Jacques não poderia passar sem mulher... Transmiti minhas observações ao Sr. Rodelec. Sabíamos que Solange não pensava senão em Jacques... por que não se daria o mesmo com ele? Só que, nele, tudo não passava ainda de um desejo inexprimido ... Jacques sabia, por ensinamentos rudimentares que somos obrigados a dar a todos os nossos surdos-mudos ou aos nossos cegos por volta dos 14 anos, o que era a mulher e o ato de procriação. Devido, entretanto, à sua tripla deficiência, o problema se tornava infinitamente mais delicado. A serenidade ingênua do Sr. Rodelec levava esse excelente educador a pensar que tudo acabava por dar certo na união de duas criaturas que se amavam, quando essa união era desejada por um Poder divino. Infelizmente, eu entendia dessas coisas muito melhor que ele e sabia perfeitamente que a falta de habilidade de um homem em seu primeiro contato físico com uma moça virgem pode destruir irremediavelmente um casamento! E eu tinha boas razões para prever que, acometido por sua tripla deficiência, Jacques cometeria todas as inabilidades possíveis! Durante muito tempo preocupei-me por Solange, a única companheira possível para Jacques e que iria representar o papel odioso de cobaia nessa experiência. Não estaríamos arriscando sua juventude, seu pudor, a um sofrimento atroz?

O primeiro contato físico desastroso com o doente não seria a semente de uma repulsa que aos poucos se transformaria em ódio? Sem sentimento de ternura seria suficientemente forte para contrabalançar o outro? Que fazer? A única solução, embora pareça chocante, era a de fazer com que Jacques conhecesse outras mulheres antes de Solange ... Ainda assim, surgia um novo problema. Sem levar em consideração a moral cristã, não estaríamos arriscando num jogo perigoso? Proporcionar prazer sexual a Jacques com outras mulheres, sem que estas fossem representadas por uma única: Solange, a companheira indispensável? Não seria preferível imprimir fortemente no coração do doente a idéia de que somente Solange poderia satisfazer seus desejos carnais? Isso oferecia a vantagem de ligá-lo indissoluvelmente à única mulher que se mostrara desejosa de cuidar dele com ternura e devotamento. A presença constante de Solange seria para Jacques uma garantia de felicidade: e era isso o que importava acima de tudo. Além do mais, Yvon Rodelec não podia afastar-se da moral cristã.

- Lembrar-me-ei sempre da chegada de Solange a Sanac - prosseguiu. - O encontro realizou-se em nossa presença, no parlatório. Assim que ela entrou, parou como que petrificada à vista daquele Jacques que ela conhecera criança e que aparecia diante dela como homem feito. Loura e pálida, parecia indecisa e frágil. Foi Jacques que deu os primeiros passos: caminhou em sua direção como atraído por uma força misteriosa.

Quando chegou bem perto, parou para respirar profundamente: contou-me, mais tarde, que naquele momento inesquecível de sua vida havia reencontrado "o cheiro de Solange", o cheiro que ele tanto amara em tempos passados quando vegetava no pequeno quarto do apartamento parisiense, o cheiro que para ele sempre havia contrastado com o detestável de sua mãe ...

E que diferença na sua acolhida! Em vez de fugir, estendeu as mãos e pôs-se a desenhar com uma doçura infinita os contornos do rosto já então amado... Solange, imóvel como uma estátua, mal ousava respirar durante aquele exame...  Bruscamente, as mãos do rapaz procuraram as da moça: seus dedos rudes correram sofregamente pelas falanges delicadas. Falavam-lhe com uma volubilidade digital prodigiosa para enfim lhe dizer, diretamente, tudo o que durante anos e anos havia guardado em seu coração. O que foram essas primeiras palavras de amor, Yvon Rodelec e eu próprio jamais o soubemos. Entretanto, a ligação estava feita para toda a vida. A presença constante dessa moça junto a Jacques, durante cinco anos, obrigou-me a esclarecê-lo sobre os problemas fisiológicos que o atormentavam. Ainda que a expressão possa parecer um tanto crua, e peço desculpas antecipadamente, ela resume o estado físico em que o rapaz se encontrava naquela ocasião: ele "sentia" a mulher a seu lado. Era preciso que a descobrisse completamente para evitar que sua curiosidade insatisfeita bem depressa se tornasse doentia.

- Yvon Rodelec deixou-me à vontade - continuou o médico - limitando seu papel de educador unicamente às esferas intelectuais e morais. Evidentemente, ninguém mais bem indicado para o caso que um médico, mas minha tarefa teria sido muito mais difícil, se não tivesse encontrado na própria Solange a mais preciosa e compreensiva das colaboradoras. Aceitou, sem falsos pudores, que Jacques descobrisse a anatomia e os mistérios de um corpo feminino em seu próprio corpo ... Solange completamente despida, aproximei-me com Jacques. Tomei-lhe as mãos para fazê-lo apalpar um pescoço de mulher, seios de mulher, quadris de mulher. Ao mesmo tempo lhe ia explicando detalhes e funções. Seu rosto se iluminou ao compreender o ato sublime da amamentação materna ... Quando lhe descrevi o ato do amor que marca a união completa de dois seres, ele pareceu achá-lo normal. Era o que eu desejava. Aquela estranha lição de História Natural teve qualquer coisa de bíblico. Era como se eu iniciasse um novo Adão, puro e casto, no conhecimento de uma Eva eterna... Jacques havia vibrado. Seus desejos carnais, dali em diante, se cristalizariam naturalmente em Solange, como o desejava Yvon Rodelec. Insensivelmente, os instintos animais de Jacques se transformaram em um desejo imperioso de criar uma vida com aquela companheira ideal que havia sido colocada em seu caminho. Com o correr dos dias, eu o sentia mais obsecado, torturado... Tinha necessidade imperiosa de realizar o ato sexual completo. Quando, finalmente, ele me procurou espontaneamente para me confessar que desejava Solange ardentemente, conversei com Yvon Rodelec, Jacques tinha então 22 anos e Solange 25: não havia, portanto, qualquer obstáculo ... Três meses depois, Solange Duval tornava-se a Sra. Vauthier.

- O senhor acha sinceramente, doutor - perguntou o Presidente Legris - que esse casamento deu certo?

- Teria sido mais completo se tivesse havido um filho...

- E há algum impedimento para isso? - perguntou o Promotor Berthier.

- Nenhum. Os dois esposos são fisicamente bem constituídos e teria sido normal que tivessem tido um filho depois de cinco anos de casados. A cegueira, o mutismo e a surdez não são hereditários. E o que de melhor posso recomendar a Jacques e a Solange é que, terminada essa triste história, tenham finalmente o filho que selará definitivamente sua união.

- Essa recomendação, doutor - disse o presidente - supõe sua convicção na inocência do acusado?

- Perfeitamente, Sr. Presidente. Ao ler nos jornais os detalhes do crime cometido a bordo do De Grasse, procurei obstinadamente o móvel que teria levado Jacques a cometê-lo.

E não o encontrei...  Ou melhor, encontrei-o sim! Mas para mim, que estudei Jacques a fundo durante anos, pareceu-me de tal forma inverossímil que não quis me deter nele ...

- Diga-o, por favor, à Corte - pediu Victor Deliot.

- Pois bem ... Jacques amava demais sua mulher para permitir que alguém lhe faltasse o respeito ... Não quero aqui macular a memória de uma vítima, ainda mais que ignoro tudo a respeito desse jovem americano. Mas, enfim, a força indiscutível dos apetites carnais de Jacques Vauthier concentrados numa única criatura, sua mulher, poderia ter-lhe despertado o impulso súbito de suprimir, não um rival, eu nem pensaria nestes termos com uma companheira de uma moral a toda prova como Solange, mas um simples desconhecido que tivesse tentado cortejá-la, embora sem maiores conseqüências, simplesmente porque era homem e ela uma mulher bonita... A força de Jacques Vauthier é hercúlea: poderia ter matado, mesmo sem o querer. Essa seria a única explicação plausível de suas confissões repetidas e de seu gesto materializado por impressões digitais irretorquíveis.

- A dedução do Dr. Dervaux que é, aliás, uma testemunha citada pela Defesa - declarou vivamente Berthier - merece a atenção dos Srs. Jurados: está repleta de bom senso. Quem sabe nos encontramos realmente diante do verdadeiro móvel do crime que o acusado se obstina a não revelar?

- Absolutamente não, Sr. Promotor! - interrompeu Victor Deliot. - Com o intuito de arranjar uma desculpa válida para o gesto homicida do qual é acusado Jacques Vauthier, a testemunha acaba de cometer um erro. O móvel do crime, admitindo-se como impossível que o acusado o tenha cometido, teria sido muito mais imperioso: a Defesa tem todo o direito de pensar que Jacques Vauthier tinha realmente uma razão muito forte para matar John Bell e se encarregará de prová-lo no devido tempo. Apenas Jacques Vauthier não executou seu projeto!

- O que quer dizer com isso, mestre Deliot? - perguntou o presidente.

- Simplesmente, Sr. Presidente, que Jacques Vauthier não cometeu o crime do qual é acusado!

Houve na sala um momento de estupor, seguido de protestos.

- Realmente? - exclamou o advogado Voirin. - Que explicações me dá, caro colega, das impressões digitais e das confissões do acusado?

- Meu Deus, essas impressões são incontestaveelmente as de Jacques Vauthier, mas... é nesse ponto que peço toda a atenção da Corte ... parece-me que as investigações criminais não foram conduzidas com toda a sutileza exigida por um assassinato tão estranho e é o que procuraremos igualmente demonstrar no devido tempo. Quanto às suas repetidas confissões e, digamos mesmo, à sua insistência em atribuir a si o crime, deixam-nos pensativos. E, apesar de tudo, não perdemos a esperança de levar nosso cliente a fazer neste recinto uma retratação estarrecedora antes do fim dos debates. E isso somente acontecerá, estamos convencidos há muito tempo, se pusermos Jacques Vauthier diante de provas tão evidentes da sua não culpabilidade que ele não poderá mais persistir no que chamariamos de uma mentira admirável...

- O senhor quer dizer - perguntou o presidente - que o acusado não disse a verdade durante os diversos interrogatórios a que foi submetido durante seis meses?

- Ele mentiu, Sr. Presidente ... Meu cliente mentiu aos oficiais do De Grasse, aos inspetores da polícia, aos médicos, ao Juiz de Instrução, à sua própria mulher, a mim mesmo que fui incumbido de salvá-lo apesar de tudo. Jacques Vauthier mentiu a todo mundo!

- Mas com que intenção? - perguntou o promotor.

- Ah, Sr. Promotor, é aí que se encontra a chave do mistério! - respondeu Victor Deliot. - Quando soubermos a razão exata por que meu cliente tomou a si a responsabilidade de um crime que não cometeu, para salvar a vida do verdadeiro criminoso que ele é o único a conhecer, como deixou subentendido o Sr. Rodelec em seu admirável depoimento, não estaremos longe de descobrir o verdadeiro culpado!

- O Ministério Público - ironizou o Promotor Berthier - tem boas razões para recear que esse "verdadeiro" criminoso jamais se revele à Justiça pela única razão de que não existe! Há apenas um criminoso, Srs. Jurados: real, vivo e não pertencente ao mundo das quimeras ... o homem que está diante de todos: Jacques Vauthier!

- A Defesa não permite que o Ministério Público use para com seu constituinte qualificativos infamantes antes que o processo esteja julgado! - falou com firmeza Victor Deliot.

- Nem o Ministério Público, nem os Srs. Jurados - respondeu Berthier no mesmo tom - deixar-se-ão influenciar pela fanfarronada da Defesa. E convém recordarmos mais uma vez que o julgamento é feito sobre fatos. Se a Defesa persiste em continuar pelo caminho em que enveredou, pedimos-lhe que nos apresente esse criminoso desconhecido e seremos os primeiros a pedir a absolvição pura e simples de Jacques Vauthier... Desejamos a justiça tanto quanto a Defesa e nosso objetivo é que triunfe o Direito... Infelizmente, sabemos muito bem que só há um criminoso possível nesse caso doloroso.

- Incidente encerrado! - cortou o presidente antes de se dirigir ao Dr. Dervaux que ainda se encontrava de pé diante da barra: - Tem outras declarações a fazer?

- Tenho, Sr. Presidente ... Temo que a Corte se tenha equivocado a respeito das palavras que deixei escapar há pouco e que motivaram esta discussão. Expressei apenas uma hipótese que explicaria o móvel do crime, mas acrescento que essa explicação jamais me satisfez, tendo convivido com Jacques Vauthier em Sanac durante 12 anos e conhecendo profundamente sua mentalidade. Apesar de todas as aparências em contrário, Jacques Vauthier não pode ter matado porque a bagagem moral que lhe foi dada por Yvon Rodelec é de tal qualidade que só poderia levá-lo a praticar o Bem ... Jacques Vauthier partiu para a América apenas com o desejo ardente de difundir os progressos obtidos na educação dos deserdados da naturezá.

É inconcebível que, partindo com um objetivo tão nobre, tenha voltado com as mãos manchadas de sangue!

- A Corte lhe agradece, doutor. Pode retirar-se...

O depoimento que acabava de ser feito havia levantado um ponto delicado no qual Danielle nem teria sonhado no início do processo: o problema das relações físicas entre o acusado e aquela que aceitara ser sua companheira de vida. De início, a moça chegara a estremecer à idéia de que uma mulher jovem e bela como deveria ser Solange, segundo descrições de várias testemunhas, pudesse ter-se abandonado às carícias daquele bruto ... Mas certas palavras pronunciadas por Yvon Rodelec e pelo Dr. Dervaux - os dois homens que melhor conheciam Jacques - deixavam-na pensativa. Não havia mais dúvida sobre o imenso amor que o acusado dedicava a Solange. No fundo, Solange Duval tivera sua oportunidade de ser amada!

Quantas mulheres poderiam se vangloriar de ter conseguido dominar com essa intensidade um homem tão forte? Danielle acabou por achar que, apesar de tudo, Solange não deveria ter sido tão infeliz ao lado do "seu" bruto ... Quanto mais a jovem observava Vauthier, mais se sentia levada a acreditar que deveria ser fabulosa a sensação de ser abraçada por aquele colosso... Além do mais, Vauthier não era um bruto: possuía uma inteligência viva. Seu coração era capaz de emoções ...

e a prova fora dada ali, em plena audiência. Mas, mesmo supondo que não passasse de um bruto, talvez não fosse desagradável no amor ... No íntimo, como muitas mulheres e moças que seguiam com paixão os debates, Danielle acabara por sentir-se enternecida e atraída pelo bruto silencioso. Estava ansiosa por ver finalmente Solange Duval, sobre a qual algumas testemunhas haviam tecido os maiores elogios enquanto outras haviam criticado acremente. De qualquer forma, uma mulher que desencadeia opiniões tão opostas não pode ser uma criatura qualquer.

A nova testemunha que se encaminhava para a- barra usava, como Yvon Rodelec, o hábito dos Irmãos de São Gabriel. Mas Dominique Tirmont, irmão porteiro do Instituto de Sanac, era baixinho e gordo enquanto que Yvon Rodelec impunha-se pela sua estatura. O rosto jovial do recém-chegado exprimia uma alegria perene.

- Sr. Tirmont, queira dizer à Corte o que sabe e o que pensa de Jacques Vauthier.

- Um menino maravilhoso! - exclamou Irmão Dominique ... - Só penso bem dele, como aliás, de todo os nossos alunos. São tão bons!

- O senhor se ocupou de Jacques Vauthier durante o tempo que ele passou em Sanac?

- Essa tarefa ficou a cargo do nosso diretor... mas eu costumava conversar com ele por meio do alfabeto datilológico e sempre fiquei impressionado, assim como todo o corpo docente do Instituto, com sua extraordinária inteligência ... Creio que ele passou a gostar mais de mim desde o dia em que fiz um vestido novo para sua boneca Flanelle que ele levara a minha cela, para mostrar-me. Deve ter sido um ano após sua chegada.

Lembro-me perfeitamente da nossa conversa naquele dia. Eu lhe havia dito, para arreliá-lo: "o vestido e o cabelo de Flanelle estão fora de moda: estão compridos demais!" "De que cor deveria ser seu vestido novo?", perguntou-me Jacques imediatamente. Fiquei tão surpreso com aquela pergunta sobre cor vinda de um menino cego, que hesitei antes de responder:

"Vermelho!" "A propósito, como acha que deve ser o vermelho?" " Deve ser uma cor quente", respondeu ele. "Você tem razão, meu pequeno Jacques. O Sr. Rodelec já lhe ensinou as cores do espectro solar?" "Já. Explicou-me também como era feito um arco-íris." O mais extraordinário era que não havia o menor sinal de gabolice em sua resposta. Procedendo por analogia, ele havia imaginado uma escala de cores, pensando nas variedades de perfumes ou sabores. Por exemplo, a diferença entre o cheiro de uma laranja e de uma pera, de um damasco e de um pêssego, lhe sugeria a que havia entre o preto e o branco ou o vermelho e o verde ... Por dedução, ele conseguia imaginar as várias tonalidades assim como as nuanças das mesmas. Jamais pensava num objeto sem revesti-lo instintivamente com as cores do arco-íris.

- A testemunha pode nos dizer se a idéia fundamental das cores era exata no cérebro de Jacques Vauthier? - perguntou Victor Deliot.

- Não. Percebi imediatamente essa lacuna que, infelizmente, jamais poderia ser preenchida, quando ele me perguntou de que cor eram os olhos de Flanelle. Respondi-lhe que eram azuis e que seus cabelos eram pretos. O menino ficou profundamente desapontado: "Não gosto!" disse. "Flanelle seria muito mais bonita se seus olhos fossem amarelos e seus cabelos azuis!" No momento nada respondi, pensando que já havia visto pior em certos quadros de arte moderna! Jacques não teria criado em seu cérebro uma paleta de pintar sui generis, onde o verde seria sinônimo de frescor, o vermelho de força e de violência, o branco de candura e de pureza? E mesmo que as cores da sua imaginação não correspondessem exatamente à verdade, aquilo tinha uma importância muito relativa já que não existe verdade absoluta nas regiões do prisma! Quantas pessoas que enxergam, muitas das quais afetadas pelos daltonismo, concordam sobre a natureza exata de uma cor? E de quantos luminaristas já ouvimos dizer "que suas cores eram mais bonitas que as da natureza"? Enfim, como diz um velho provérbio: "Gostos e cores não se discutem!" - Todas essas considerações da testemunha sobre o sentido das cores no acusado são muito interessantes - interrompeu Berthier - mas nos parecem impertinentes.

- Absolutamente, Sr. Promotor! - respondeu Victor Deliot. - Se deixamos o Sr. Tirmont expor a maneira pela qual o acusado imagina as cores fundamentais, é unicamente porque uma dessas cores, ainda que pareça inverossímil à Corte, desempenhou um papel decisivo no assassinato imputado injustamente, até o momento, a Jacques Vauthier.

- Decididamente, meu colega Victor Deliot é o homem das surpresas! - exclamou Berthier. - E se eu não temesse ofender a dignidade deste Tribunal, diria que estamos mergulhando, graças às frases enigmáticas pronunciadas pela Defesa, num verdadeiro romance policial!

- E quem diz o contrário? - respondeu o velho advogado. - Em todo romance policial, há sempre um crime cujo autor só é descoberto nas páginas finais... Torno a repetir: a verdade criminal do De Grasse só será desmascarada nos últimos minutos destes debates ...

- Por que a Defesa não nos revela logo seu nome, visto que parece conhecê-lo tão bem? - perguntou o promotor.

- A Defesa jamais disse conhecer o assassino! - respondeu com serenidade Victor Deliot. - Ela simplesmente afirmou que seu constituinte não era o verdadeiro culpado e que somente ele conhecia o assassino. A dificuldade, e a Corte há de reconhecer com a Defesa que ela é grande, reside na escolha do meio ou do choque psicológico que levará Jacques a nos dizer tudo o que sabe. A única afirmação que atualmente a Defesa pode fazer é a de que pelo menos três pessoas poderiam ter tido uma razão válida para matar John Bell... Entre elas se encontra indubitavelmente o acusado, mas não foi ele que matou: e isso nós o demonstraremos. Há uma segunda pessoa, cuja atitude não está muito clara, mas que se está beneficiando de certos álibis. Resta a terceira, o autor do crime ... Infelizmente, a Defesa ainda não conhece este terceiro personagem, caso contrário o processo já estaria encerrado! E, respondendo à observação do Sr. Promotor, que parecia contestar a oportunidade das declarações do Sr. Dominique Tirmont sobre o senso de cores do acusado, pedimos aos Srs. Jurados que não deixem de considerar que, para um indivíduo, as únicas cores que importam são aquelas de que ele gosta, mesmo que ele só possa imaginá-las, como é o caso de Jacques Vauthier. Quem nos prova que as conjeturas de um cego neste assunto não superem a beleza e a riqueza do arco-íris?

- Sr. Tirmont - perguntou o presidente para acabar de uma vez com a discussão entre a Defesa e o Ministério Público - em sua opinião, acha que Jacques Vauthier é eapaz de cometer o crime do qual é acusado?

- Jacques? - exclamou Irmão Dominique. - Mas se ele foi o aluno mais meigo que já passou pela nossa instituição!

Tinha um horror instintivo pelo mal e pela crueldade. Nosso velho jardineiro Valentin me dizia dele: "Jacques Vauthier, um assassino? Mas se ele amava tanta as flores!" - Também Landru - observou o promotor - adorava suas roseiras que ele tratava com amor entre um crime e outro!

- Esse Valentin de quem fala - prosseguiu o presidente - não guardava seus apetrechos de jardinagem num barracão de madeira nos fundos do parque?

Irmão Dominique espantou-se ao ouvir a pergunta.

- Realmente... O Sr. Presidente já nos teria visitado em Sanac?

- Não - respondeu Legris. - Mas ainda hei de ir...

Esse barracão ainda existe?

- Sim, o que foi reconstruído após o incêndio.

- Que incêndio?

- Oh, um pequeno acidente, felizmente sem maiores conseqüências ... Ah, que coincidência! Acabo de me lembrar que Solange Duval, que cinco anos mais tarde se tornou a Sra. Jacques Vauthier, esteve envolvida nele ...

- Seria capaz de nos relatar o incidente? - perguntou Legris.

- Se não me falha a memória, numa tarde de primavera, o Sr. Garrick e eu passeávamos pelo parque quando percebemos que o barracão estava em chamas. Corremos para lá e, para nosso espanto, vimos diante do barracão que se consumia pelo fogo, Solange Duval e um aluno, Jean Dony, com os rostos e roupas pretos de fumaça. Quanto a Valentin, não estava lá.

- Enquanto corriam para o barracão, lembra-se de ter visto Jacques Vauthier correndo na direção do edificio central da instituição?

- Não, Sr. Presidente... mas sua pergunta me faz lembrar uma curiosa confidência que Jean Dony veio fazer-me no dia seguinte na minha cela. Ao entrar, encontrou-me separando a correspondência do dia: "Ouviu a resposta que Solange deu ao Irmão Garrick quando este lhe perguntou o que havia acontecido?", perguntou. "Ouvi, e daí?" ...  "Daí que Solange mentiu ao declarar que o incêndio fora causado por ela acidentalmente.

Não foi ela quem derrubou o lampião: foi Jacques que o atirou de propósito ao chão para atear fogo no barracão, tendo fugido após trancar-nos, a Solange e a mim, para que morrêssemos queimados..." "O que é que está dizendo?", respondi a Jean Dony... "Sua acusação é muito séria e você sabe muito bem que não tem o direito de caluniar um colega! Além disso, Jacques não estava lá." "Estava sim, Irmão Dominique, mas teve tempo de fugir enquanto eu fazia esforços desesperados para abrir a porta do lado de dentro. Se ela não tivesse cedido no último instante, o senhor teria encontrado dois cadáveres, o de Solange e o meu, completamente carbonizados. Jacques tentou liquidar-nos!" "Ora, Jean, está ficando doido? Por que acha que ele iria cometer esse ato insensato?" ...  "Porque tem ciúme de mim", respondeu Jean Dony. "Ele acha que Solange gosta de mim e não dele!" - Durante vários dias - prosseguiu Irmão Dominique - não conseguia pensar em outra coisa: devia acreditar nas palavras de Jean Dony, que sempre fora um aluno exemplar e que nos deixaria algumas semanas mais tarde? Ou seria melhor comunicar ao diretor nossa estranha conversa? Receava que o Sr. Rodelec, que conhecia minha natureza tagarela, me respondesse: "Você está metendo sua língua comprida .de irmão porteiro em assuntos que não lhe dizem respeito!" E o Sr. Rodelec não deixaria de ter a sua razão! Uma terceira solução era a de iniciar discretamente uma investigação pessoal para saber de que lado estava a verdade ... Aproveitei uma visita de Jacques a minha cela para lhe dizer: "Você deve ter ficado chocado ao saber que Solange. e seu grande amigo Jean por pouco não morreram queimados no barracão de Valentin!" Jacques respondeu simplesmente: ."Não compreendo como isso aconteceu ... de qualquer forma o que sei é que Jean não é mais meu grande amigo..." E nada mais consegui arrancar dele.

Tentei conversar novamente com Jean Dony, mas ele, talvez envergonhado das palavras impensadas que me havia dito a respeito de Jacques, fazia tudo para me evitar. Resolvi esquecer completamente o incidente, no que fiz muito bem, pois tive a alegria de ver Jean Dony vir exclusivamente de Albi para tocar no casamento de Solange e Jacques! Concluí então que não havia mais entre eles qualquer sombra de rancor.

- O que pensa de Solange Duval? - perguntou o presidente.

- Tudo de bom que dela deve pensar também o nosso diretor.

- Por ocasião de seu çasamento, o senhor teve a impressão de que o jovem casal estava feliz?

- Se estavam felizes, Sr. Presidente? Garanto-lhe que a felicidade iluminava seus semblantes quando saíram da capela unidos para sempre! ... Todo mundo estava feliz naquele dia!

Que cerimônia linda! Já assisti e ainda espero assistir á muitas festas em Sanac, mas creio que nenhuma se igualará em alegria à do casamento de Solange e Jacques, o primeiro a ser celebrado em nossa capela do Instituto São José! Todos nos sentíamos um pouco como os artesãos dessa felicidade...

- Depois disso, tornou a rever o casal?

- Somente uma vez, na volta da viagem de núpcias e antes de sua partida para os Estados Unidos.

- Nesse dia, pareceram-lhe tão felizes como no dia do casamento?

- Sim e agradeci ao Todo-Poderoso que havia permitido aquela felicidade... É o que me faz acreditar que Deus não pode ter abandonado Jacques depois de tê-lo ajudado a se tornar um homem realizado! Confio não na sua clemência pois recuso-me a ver nesse menino um culpado, mas no modo em que o fará superar vitoriosamente essa prova...

- A Corte lhe agradece. Pode retirar-se ... Que entre a testemunha seguinte.

O aparecimento de uma mulher jovem e loura, de olhos azul-turquesa, cuja figura esbelta e frágil contrastava de maneira gritante com o tipo atlético de Vauthier, causou sensação. Os olhos da assistência passavam alternadamente da delicada criatura de rosto lindo e levemente ruborizado, que parecia intimidado naquele recinto, ao colosso cuja fisionomia rude permanecia impassível. Solange se havia dirigido para a barra sem voltar a cabeça para o lugar onde se encontrava o acusado e se empertigou, diante do presidente, como se temesse olhar aquele em favor do qual iria depor.

"Até que enfim aí está ela!" pensou Danielle Gény. Tal como eu a imaginava!" As testemunhas mais favoráveis não haviam exagerado em nada sua beleza: Solange era linda. A futura advogada sentiu-se levemente enciumada. Era idiota, mas não podia evitar. Não chegou mesmo a imaginar que Jacques - ela agora já chamava pelo nome o bruto de algumas horas atrás - estava a examinar as duas, Solange e ela, a fim de compará-las? Sua tripla deficiência contava agotra muito pouco a seus olhos. No rosto cândido de Solange, ela procurava as marcas do egoísmo: "Ah, ela nunca mais se preocupou com o marido doente durante o tempo todo em que ele esteve na prisão." Isso, Danielle soubera da própria boca de Victor Deliot e marcara ponto negativo a respeito de Solange.

- Sra. Vauthier - disse com voz atenciosa o Presidente Legris - a Corte já sabe que a senhora e Jacques Vauthier se conheceram muito tempo antes de seu casamento, quando ambos eram ainda apenas crianças.

Com firmeza, sem precipitação, Solange Vauthier descreveu suas impressões dos primeiros tempos, a pena que sentia do menino, sua indignação contra os pais. Evocou seu sofrimento com a partida de Jacques para Sanac, sua esperança de reencontrá-lo, sua educação junto às Irmãs da Sabedoria.

- Durante os sete anos de separação que precederam sua chegada ao Instituto São José, a senhora manteve correspondência com Jacques Vauthier?

- Eu lhe escrevia todas as semanas: durante os dois primeiros anos, era o Sr. Rodelec quem respondia às minhas cartas. A seguir, o próprio Jacques me escrevia em Braille que eu já compreendia perfeitamente. Para lhe responder eu utilizava o mesmo processo.

- Lembra-se de um amigo de Jacques Vauthier, um pouco mais velho que ele, também aluno em Sanac e que se chamava Jean Dony?

- Sim - respondeu simplesmente Solange.

- É necessário, senhora, que esclareça à Corte um ponto importante. Jean Dony afirmou de viva voz, neste Tribunal, que a senhora lhe teria feito certas confidências.

- Que confidências? - perguntou Solange com vivacidade.

- Sr. Escrevente - pediu o presidente - queira ler para a Sra. Vauthier as declarações da testemunha Jean Dony.

O escrevente leu o depoimento que a jovem mulher ouviu em silêncio. Ao terminar, o presidente perguntou:

- Sra. Vauthier, está de acordo com os termos desse depoimento?

- Jean Dony - respondeu ela sem hesitar - permitiu-se tirar desse lamentável incidente, felizmente sem piores conseqüências, conclusões mentirosas, atribuindo-se o papel de herói que esteve bem longe de representar! Imagine! ... Jacques ter me atraído ao barracão do jardineiro para tentar abusar de mim! É ridículo! Jacques me respeitava demais para fazer uma coisa dessas! O mesmo, no entanto, eu não poderia dizer de Jean Dony, que tinha a mesma idade que eu e cujas maneiras sempre me desagradaram. Foi ele, naquele dia, o vilão da história e o verdadeiro responsável por tudo o que aconteceu ...

- O que quer dizer com isso, Sra. Vauthier?

- Creio, Sr. Presidente, que a Corte compreenden perfeitamente o que eu quis dizer e que não há necessidade de voltar-mos a um acontecimento passado sem grande interesse para o caso... E faço questão de declarar que jamais fiz confidências de espécie alguma a Jean Dony!

- A Corte anotou sua declaração e gostaria de saber - perguntou o presidente - se a senhora colaborou com Jacques de maneira efetiva na redação de seu romance.

- Absolutamente não. Jacques escreveu O Isolado sozinho. O que fiz foi apenas reunir os dados e documentos de que ele necessitava. Quanto ao Sr. Rodelec, encarregou-se simplesmente de traduzir a obra para a escrita comum.

- A senhora não teria sido a inspiradora da obra, Sra.

Vauthier, notadamente nos trechos onde é posta em questão a família do herói? - insinuou o Promotor Berthier.

- O que o senhor acaba de dizer é completamente deselegante, além de ser uma inverdade! Se compreendi bem suas palavras, o senhor procura responsabilizar-me pelo julgamento terrivelmente amargo que Jacques faz dos seus! Pois bem , saiba de uma vez por todas que jamais o influenciei nesse sentido, nem antes, nem depois de nosso casamento.

- Ao que parece - disse o presidente, dirigindo-se a Solange Vauthier - Jacques deu provas de grande timidez quando se tratou de pedi-la em casamento?

- Quantos homens, Sr. Presidente, já não sentiram o mesmo antes de tomarem uma decisão que seria para toda a vida?

- Exato, senhora, mas a Corte gostaria de ouvir de seus próprios lábios a maneira precisa como o diretor do Instituto de Sanac substituiu um Jacques Vauthier tímido demais para pedir que se casasse com ele.

- Julga a Corte que uma pergunta dessa natureza, cuja resposta pode ser constrangedora para a testemunha, é absolutamente indispensável ao desenrolar do processo? - perguntou Victor Deliot.

- A Corte - respondeu o presidente - precisa ser esclarecida sobre a natureza do relacionamento existente entre o acusado e sua mulher desde que se pensou em casamento entre os dois.

- Nesse caso, responda, Sra. Vauthier! - disse Victor Deliot dirigindo-se à bela mulher cujo rosto se ruborizou levemente ao começar:

- Quando vim reunir-me a Jacques, em Sanac, encontrei-me diante de um rapaz brusco e sensível, cujos sentimentos a meu respeito não tardaram a se manifestar. Senti-me ao mesmo tempo feliz e preocupada. Eu gostava dele, mas não era amor: havia ainda muito de piedade em minha ternura. E a gente não ama aqueles por quem sente piedade. Tem-se pena ... Cinco anos felizes se passaram, ocupados por um trabalho intensivo e, depois, pela preparação de O Isolado. Finalmente, o romance foi publicado e Jacques se tornou célebre. Foi logo depois disso que, uma noite, o Sr. Rodelec bateu à porta do quarto que eu ocupava na instituição. Aquele homem de uma bondade ilimitada me disse: "Não repare, minha pequena Solange, eu aparecer a estas horas, mas tenho um assunto mnito sério a tratar com você... Já deve ter percebido há muito tempo que Jacques a ama. Apenas é um tímido e não tem coragem de lhe confessar seus sentimentos. É portanto um pai adotivo que vem, em nome de seu filho, pedir a mão de uma jovem encantadora ... Mas não pense absolutamente que quero influenciá-la! Reflita bem! Jacques e você têm muito tempo pela frente ... " - Como eu custasse a responder - prosseguiu Solange - o Sr. Rodelec encarou-me longamente. "Não posso acreditar", disse ele, "que não dedique a Jacques um amor verdadeiro. Durante anos, tudo em sua atitude prova o contrário: seu carinho de menina, as cartas que lhe escrevia semanalmente, a alegria que sentiu ao tornar a encontrá-lo aqui ... a sua persistência em ajudar-me a fazer dele. um homem... tudo isso fala em favor de uma união durável. Jacques está iniciando, sem dúvida, uma carreira de pensador e escritor. Já é solicitado nos Estados Unidos... Quem poderia acompanhá-lo melhor que sua mulher? E quem, melhor que você., para cercá-lo dos cuidados constantes, da solicitude e do amor que ele necessita? Pense em tudo isso, Solange. Você, mesma, se sente capaz de viver sem ele? Esta é a única pergunta que deve fazer ao seu coração...

Boa noite, minha filha." Durante horas, pensei e repensei em tudo o que o Sr. Rodelec me dissera. Meu coração respondia facilmente a cada uma das perguntas, mas estremecia diante da última: "Você, mesma, se sente capaz de viver sem ele?" Compreendi então que amava Jacques acima de tudo, com o amor que superava minha ternura e cuja força fizera desaparecer o sentimento de piedade que durante muito tempo me havia inspirado aquele que eu considerava como "meu protegido". Três dias depois, dei minha resposta ao Sr. Rodelec: eu seria a mulher de Jacques ... " - Sem dúvida, uma bela história de amor, senhora - reconheceu o presidente. - E não teve nenhum sentimento de receio ao sentir-se ligada a Jacques Vauthier por toda a vida?

- Sentia-me feliz, Sr. Presidente - respondeu ela após breve hesitação.

- E continuou assim por muito tempo? - perguntou bruscamente o Promotor Berthier.

Ela rompeu em soluços.

- Acalme-se, senhora - disse o presidente com voz suave enquanto Victor Deliot levantava-se gritando:

- Protesto! O Sr. Promotor acaba de fazer à testemunha uma pergunta impertinente!

- O Ministério Público - retorquiu Berthier - acha que a pergunta tem sua importância.

Solange ergueu o rosto banhado de lágrimas.

- Eu sei que Jacques é inocente, mas, mesmo que tivesse cometido o crime do qual é acusado, ainda assim eu seria feliz se tivesse a certeza de que continua a me amar... Não sei mais o que pensar depois desse drama horrível. Nada me quis dizer a bordo do De Grasse além da sua declaração mentirosa em que se acusa de um crime que não pode ter cometido. Nem ao menos me quis ver durante esses meses de prisão, apesar de minhas tentativas junto a seus sucessivos defensores. Chegou mesmo a dizer a um deles, o advogado De Silves, que eu nada mais representava para ele ... Ele me odeia, e eu não sei por quê! Pior ainda, não confia mais em mim e, quando se perde a fé numa pessoa, é porque o amor não existe mais ... Após esse crime, perdi o amor cego e maravilhoso que Jacques me dedicou desde a infância... Eis a razão porque já não posso mais ser feliz!

- Compreendo seu desespero, senhora - disse o presidente. - Contudo, preciso pedir-lhe que nos dê ainda alguns detalhes necessários sobre o que foi sua vida conjugal.

Durante o seu depoimento, o Sr. Rodelec deixou perceber que, na volta da sua viagem de núpcias, a senhora lhe teria confiado certas dificuldades de ordem íntima que impediam sua completa felicidade ...

- Realmente, foi verdade, mas o tempo se encarregou de aparar as arestas, como bem havia previsto o Sr. Rodelec, e Jacques tornou-se para mim o companheiro ideal...

- E essa felicidade durou durante toda sua estada na América?

- Sim. Percorremos vários Estados e sempre fomos recebidos por auditórios estusiastas.

- Sra. Vauthier - perguntou o Presidente Legris - durante os seus cinco anos de peregrinação pelos Estados Unidos, a senhora não se lembra de ter encontrado alguma vez a vítima, o Sr. John Bell?

- Não, Sr. Presidente.

- E durante os três primeiros dias da travessia, seu marido ou a senhora conversaram com John Bell?

- Não. Pessoalmente, ignorava sua existência e posso afirmar o mesmo a respeito de Jacques que só saía da cabina acompanhado por mim para um passeio de uma hora pelo tombadilho. O resto do tempo permanecíamos na cabina, onde fazíamos todas as refeições.

- Como explica então que seu marido se tenha atirado com tanta fúria sobre um ilustre desconhecido?

- Não tenho nada a explicar, Sr. Presidente, pela única razão de que não acredito que tenha sido Jacques o autor da morte do americano.

- Se tem tanta certeza, senhora, é porque suspeita de alguém, verdade?

- Sim, suspeito de todo mundo ... todo mundo menos Jacques, porque eu, sua companheira de tantos anos, o sei incapaz de fazer mal a quem quer que seja.

- E agora, Sra. Vauthier - perguntou o promotor -, como explica que seu marido, que segundo suas próprias palavras só saía da cabina uma vez por dia em sua companhia, tenha escapado à sua atenta vigilância a ponto de a senhora mesma ter ido dar parte de seu desaparecimento ao comissário de bordo, e isso precisamente no momento do crime?

- Jacques adormecera, como era seu hábito, após o almoço, e eu aproveitara para ir tomar um pouco de ar. Ao voltar, 20 minutos mais tarde, fiquei espantada de não encontrá-lo estendido em seu leito. Pensei que deveria ter acordado e saído à minha procura pelo navio. Aquilo me preocupou seriamente, pois sabia que ele não conhecia suficientemente os inumeráveis corredores e escadas do transatlântico. Fui imediatamente à sua procura.. Após cerca de meia hora de buscas, retornei à nossa cabina na esperança de encontrar Jacques de volta.

Mas ele não estava lá. Apavorada com a idéia de que ele fosse vítima de um acidente, corri ao escritório do comissário ao qual confiei meus temores. O resto o senhor já sabe...

- A testemunha - perguntou Victor Deliot - poderia fornecer à Corte um detalhe preciso que não lhe foi dado pela investigação judicial? Sra. Vauthier, a senhora acaba de nos dizer que, deixando seu marido adormecido na cabina, sua ausência durou 20 minutos? Está absolutamente certa dessa duração? - Talvez eu tenha ficado no tombadilho 25 minutos, mas tenho certeza de que a minha ausência não excedeu meia hora.

- Perfeito - disse Victor Deliot. - Digamos meia hora... A seguir a senhora voltou e tornou a sair à procura de seu marido durante mais meia hora... O que soma uma boa hora... Voltou novamente para a cabina e, vendo que seu marido ainda não se encontrava lá, dirigiu-se ao escritório do comissário Bertin a quem explicou as razões de seu pânico: admitamos que tudo isso lhe tenha tomado 10 minutos. Foi só então que se iniciaram as buscas oficiais do comissário e da tripulação do De Gras,se, ou seja, uma hora e 10 minutos após a senhora ter visto seu marido pela última vez, adormecido em seu beliche. Quanto tempo duraram as novas buscas até o momento em que seu marido foi encontrado sentado sobre o leito da cabina do crime?

- Talvez três quartos de hora - respondeu a jovem mulher.

- Onde estava a senhora, Sra. Vauthier - prosseguiu Victor Deliot - durante os 45 minutos em que se realizaram as novas buscas?

- Esperei no escritório do comissário Bertin: foi ele mesmo que me aconselhou que o fizesse, pois qualquer novidade seria comunicada imediatamente para lá... Foi horrível aquela espera que parecia não mais ter fim... Fiz todas as suposições, menos uma: a que fazia do meu querido Jacques não a vítima de um acidente mas um criminoso! ... Finalmente surgiu a figura do comissário Bertin acompanhado do comandante do navio: contaram-me as circunstâncias estranhas em que meu marido acabava de ser encontrado, e, quando o Comandante Chardot declarou que segundo tudo indicava Jacques devia ser o assassino do americano, perdi os sentidos ... Quando voltei a mim, aqueles senhores pediram-me que os acompanhasse à prisão de bordo, para onde haviam levado Jacques. Queriam que eu lhes servisse de intérprete no primeiro interrogatório a que iriam submetê-lo. Corri para Jacques e, tomando-lhe imediatamente as mãos, perguntei-lhe, evidentemente utilizando o alfabeto datilológico: Isso não é verdade, não é, Jacques Você não pode ter feito isso!" Ele me respondeu: "Não se preocupe! Assumo a responsabilidade de tudo... Eu amo você"... "Mas você está louco, meu amor? Justamente porque me ama não tem o direito de se acusar de um crime que não cometeu!" Supliquei-lhe, ajoelhei-me a seus pés, mas ele nada mais disse. E quando o comandante me pediu que lhe fizesse a pergunta crucial, ele respondeu, para meu espanto: "Fui eu quem matou esse homem. Reconheço o crime e não me arrependo de nada!" Foram as últimas palavras que consegui arrancar dele. No dia seguinte e nos dias que se çeguiram até a chegada ao Havre, ele repetiu a mesma declaração que assinou na presença de várias testemunhas, após tê-la escrito em Braille.

- A Corte há de me perdoar - declarou Victor Deliot - por voltar à questão da duração, mas parece-me muito importante observar aos Srs. Jurados que, totalizando o tempo escoado entre o momento em que a Sra. Vauthier viu pela última vez seu marido adormecido no próprio beliche e aquele em quc o camareiro Henri Téral o encontrou na cabina de luxo de John Bell, obteremos um mínimo de duas horas, tempo mais do que suficiente para cometer não apenas um crime, mas vários crimes!

- O que pretende com isso, mestre Deliot? - perguntou o presidente.

- Recordo simplesmente à Corte uma declaração precedente na qual afirmei que a Defesa suspeitava de que pelo menos três pessoas poderiam estar interessadas no desaparecimento de John Bell. Entre os três criminosos hipotéticos, Jacques Vauthier era aquele a quem o crime mais repugnava. Se o tivesse cometido, teria sido, por mais incrível que possa parecer, obrigado pelas circunstâncias; mas Jacques Vauthier, e devemos isso aos admiráveis princípios de moral e bondade que lhe foram inculcados por Yvon Rodelec, tinha e terá sempre uma consciência que lhe mostra o caminho certo. E é essa consciência que atualmente o leva a acusar-se de um crime que não cometeu. Mas existe outra razão de ordem mais terra-a-terra, que prova a inocência do acusado: mesmo em se admitindo que a consciência de Jacques Vauthier não o tenha metido no caminho do bem, faltou-lhe tempo para realizar seu gesto homicida porque foi antecedido durante as duas horas fatídicas pelo verdadeiro criminoso.

- É mesmo? - perguntou o promotor zombeteiro - E quem é então o criminoso?

- Nós o conheceremos no devido tempo.

- Enquanto esperamos - cortou o Presidente Legris - a Corte gostaria de ouvir da própria Sra. Vauthier a narrativa do que fez desde que seu marido foi entregue à polícia logo após a chegada do navio ao Havre.

- Dirigi-me de trem para Paris em companhia de minha mãe. Apesar da sua insistência para que eu ficasse com ela, recusei-me e nos despedimos na própria estação de Saint-Lazare.

- Tivemos a impressão, Sra. Vauthier, de que a senhora se escondeu durante o tempo de instrução do processo. O que tem a dizer?

- Absolutamente, Sr. Presidente... Compareci às três convocações do Sr. Juiz de Instrução Belin que estava encarregado do interrogatório. Foi somente quando ele me liberou que preferi furtar-me à curiosidade mórbida da imprensa.

- Como seu marido não quis revê-la desde sua prisão, esta é então a primeira vez que se reencontram?

- Sim ... - respondeu com voz fraca a mulher, baixando a cabeça.

- Senhor intérprete - perguntou o presidente - qual foi a reação do acusado ao saber que sua própria mulher estava na barra do tribunal?

- Não esboçou a menor reação, Sr. Presidente.

- Fez-lhe perguntas ou observações à medida que se ia desenrolando o depoimento da Sra. Vauthier?

- Não, Sr. Presidente. Ele nada disse.

- Sem dúvida é uma atitude desconcertante! - declarou o presidente.

- Não para mim, Sr. Presidente - disse Victor Deliot, levantando-se. - Julgo ter encontrado a razão, mas, para certificar-me, peço autorização à Corte para utilizar a testemunha numa experiência junto ao acusado.

Após consultar seus assessores, o presidente perguntou:

- O que entende por "experiência", mestre?

- Bem, um simples contato.

- Autorização dada.

- Sra. Vauthier - pediu então Victor Deliot à jovem mulher - quer fazer-me o extremo favor de se aproximar de seu marido?

Solange pareceu sentir uma certa repugnância em fazer o que o advogado lhe pedia. Quando a moça estava apenas a poucos centímetros das mãos do acusado, Victor Deliot disse:

- Sr. Intérprete, quer ter a gentileza de tomar a mão direita de Jacques Vauthier e encostá-la levemente na écharpe de seda que a Sra. Vauthier traz ao pescoço?

O intérprete fez o gesto pedido. No momento em que as mãos do rapaz tocaram a écharpe de sua mulher, Jacques deixou escapar um grito rouco e foi sacudido por um tremor nervoso, enquanto suas mãos corriam febris pelas do intérprete.

- Ele finalmente fala! - gritou Victor Deliot, triunfante.

- O que diz? - perguntou o presidente.

- Repete sem cessar a mesma pergunta: "De que cor é a écharpe usada por minha mulher?" - declarou o intérprete.

- Devo responder-lhe?

- Espere! - gritou Victor Deliot. - Diga-lhe que a écharpe é verde!

- Mas é cinzenta! - exclamou o Promotor Berthier.

- Sei muito bem! - urrou Victor Deliot. - Uma das testemunhas, Irmão Dominique, já não nos explicou aqui que as cores na imaginação de Jacques Vauthier não correspondiam absolutamente à realidade e eu mesmo não afirmei que uma das cores do prisma desempenhou um papel decisivo no assassinato imputado injustamente a meu cliente? A mentira que peço é absolutamente necessária! Diga-lhe, Sr. Intérprete, que a écharpe de seda usada neste momento pela Sra. Vauthier é verde!

O intérprete transmitiu a resposta. O acusado se havia levantado, agitando os braços enormes diante de si. Suas mãos conseguiram alcançar o pescoço de sua mulher para lhe arrancar a écharpe... Apesar dos esforços dos guardas, as mãos de assassino puxavam o tecido com força... O rosto da jovem mulher se foi tornando violáceo e ela conseguiu murmurar, quase sem ar:

- Jacques, você está me machucando!

Victor Deliot e o intérprete precipitaram-se em auxílio dos dois guardas e foi precisa a força conjugada dos quatro homens reunidos para subjugar o acusado. Este caiu sobre o banco de réu como uma massa inerte, o rosto bestial a inexpressivo.

Victor Deliot sustentou Solange Vauthier, que aos poucos recobrou a consciência:

- Não foi nada, senhora... Desculpe-me, mas esta experiência era necessária ...

Quando o doente se atirou sobre a mulher, toda a assistência se levantou numa confusão imensa de gritos. A seguir, a calma voltou a reinar bruscamente. Aquela pequena multidão procurava compreender. Danielle mordera os lábios para não gritar. Agora que a crise passara, a moça se perguntava novamente com angústia se aquele Vauthier não seria em certos momentos um verdadeiro bruto? Victor Deliot não lhe havia contado que o prisioneiro tentara estrangulá-lo em sua cela, durante a primeira visita que lhe fizera na prisão da Santé? E aquela tentativa no barracão em chamas quando ainda se encontrava em Sanac? E todas as declarações dos membros de sua família, afirmando que ele se atirava ao chão, espumando de raiva, quando não passava ainda de uma criança? Tudo aquilo era perturbador. Apesar de tudo, Danielle queria acreditar que se enganava e que, naquele momento, todo mundo na sala se enganava sobre o verdadeiro caráter de Jacques.

Acabou por encontrar uma desculpa para seu gesto violento: se a idéia de estrangular sua mulher com uma echarpe de seda brotara no cérebro do infeliz rapaz, algum motivo imperioso devia existir... Essa echarpe que ele erroneamente julgava de outra cor devia ter representado um papel grave em sua vida.

Era algo que lhe fizera muito mal... Quanto a Victor Deliot, teria já penetrado seu segredo? Se não, por que teria tentado aquela experiência?

O silêncio foi rompido pela voz sarcástica do Promotor Berthier, que perguntava num tom irônico:

- A Defesa está satisfeita com sua "experiência"?

- Muito! - respondeu Victor Deliot que voltara a ocupar seu lugar.

- A Corte, mestre Deliot - disse o presidente - espera que o senhor justifique as razões desta experiência e, principalmente, desta mentira pública dita ao acusado.

- A Corte há certamente de me desculpar - respondeu Victor Deliot, sorrindo. - Mas peço-lhe que tenha paciência até amanhã... Comprometo-me publicamente a lhe dar todos os esclarecimentos durante minha exposição de defesa. E creio que muito lucraremos também com o admirável discurso que a Promotoria certamente fará..

- A Corte lhe agradece, Sra. Vauthier - disse o presidente. - Pode retirar-se ... Os debates prosseguirão amanhã à uma hora... A sessão está suspensa!

O acusado já havia sido retirado da sala pelos guardas.

Enquanto a multidão saía, Danielle Gény aproximou-se de Victor Deliot, que tranqüilamente limpava seu lorgnon com um lenço xadrez:

- Mestre! Foi maravilhoso!

- O que é que foi maravilhoso, minha filha?

- Ora ... o modo como conseguiu semear a dúvida no espírito dos jurados sobre a culpabilidade do acusado!

- É verdade... Deu certo, não deu? - perguntou o velho advogado, esboçando um vago sorriso. - E, principalmente, isso era absolutamente necessário: a opinião pública estava decididamente contra nós após o desfile das testemunhas de acusação! Deu para notar as reações da assistência?

- Claro. Mas, mestre, acha que conseguirá provar tudo o que disse?

- Ora vejam só! Será que me toma por um velho maluco?

- Oh, não, mestre! Estou certa, como o senhor, de que Jacques não matou ...  Não pode ter matado! Ê inteligente demais para cometer um crime tão estúpido... Além do mais, acabei por sentir que ele é essencialmente bom sob toda aquela aparência de bruto...

Enquanto seu velho amigo olhava para ela com uma curiosidade divertida, Danielle não ousou dizer em voz alta o que pensava em voz baixa: "Jacques é um bruto sensacional ... É o bruto que muitas mulheres gostariam de encontrar! Eu, por acaso?... Não sei... Mas um homem assim, basta saber acalmá-lo de tempos a tempos ... não deve ser difícil! Com certeza essa tal Solange não soube lidar com ele ... A não ser quando era mocinha e ele um menino ... Mas, depois, quando ela se tornou mulher e ele um verdadeiro homem? Casou-se com ele apenas por devotamento, talvez pressionada por Yvon Rodelec e não por amor. O que faltava a esse pobre Jacques era um desses grandes amores ... " Subitamente, uma idéia estranha, uma idéia louca instalou-se no cérebro excitado da jovem: o que provava, depois de tudo, que aquela companheira medíocre não tinha sido a criminosa? Ela bem poderia ter matado o desconhecido, arranjando as coisas para que a culpa recaísse sobre Jacques: era o meio mais certo de livrar-se daquele doente cuja presença provavelmente já não suportava mais... "Não! Seria horrível demais! O que estou imaginando é abominável, indigno de mim e dessa mulher ... " Envergonhada, Danielle enfiara a cabeça entre as mãos, como se quisesse esconder-se. Seria horrível se Victor Deliot, que continuava a observá-la com insistência, pudesse advinhar seus pensamentos. Fez um esforço sobre-humano para dominar-se.

- Então, minha filha - interveio Victor Deliot - o que é que tem? Parece estar saindo de um pesadelo!

- Até que acertou, mestre! Foi mesmo um pesadelo...

- Na sua idade - disse o advogado com carinho - isso não é bom. Ah, é verdade, esta manhã recebi a resposta do telegrama que você enviou ontem ... Chamaram-me diretamente de Nova York, pelo telefone. É mesmo uma invenção maravilhosa esse tal de telefone ... e prático como o quê!


Guy des Cars - O Bruto (capa)

 

4. A ACUSAÇÃO

- Membros da Corte, Srs. Jurados, - começou o adversário de Victor Deliot. - Minha tarefa limitar-se-á exclusivamente a defender a memória da vítima, John Bell, selvagemente assassinado em 5 de maio último a bordo do transatlântico De Grasse. Parece-me supérfluo recapitular as circunstâncias que conduziram a esse horrível crime e que já foram claramente expostas à Corte. Prefiro fixar-me à personalidade da vítima...

Podemos afirmar que esse jovem americano de 25 anos estava predestinado a um futuro brilhante, se nos reportamos à plenitude de seus anos de adolescência. Após estudos brilhantes realizados na Universidade de Harvard, durante os quais se empenhou em aprender nossa língua, que falava corretamente, John Bell alistou-se, aos 18 anos, numa unidade de elite que dispensa maiores elogios: o Corpo de Fuzileiros da Marinha americana. Regressou de Bataan, após a capitulação do Japão, com quatro citações por atos de bravura. Como tantos outros jovens marcados pelos sofrimentos da guerra. John Bell poderia ter-se abandonado aos prazeres fáceis, mas escolheu outro caminho. A guerra o amadurecera e, sabendo que suas conseqüências desastrosas haviam levado a miséria a outras partes do mundo menos favorecidas que os Estados Unidos, resolveu dedicar-se à tarefa ingrata da recuperação de uma Europa em ruínas.

"Seu pai, o Senador Bell, cuja finura e distinção pudemos apreciar num depoimento isento de paixão e sentimentos de vingança a respeito do assassinato de seu filho único, não nos confiou que a maior alegria de seu filho seria manter, na nova missão que escolhera, um contato estreito e permanente com os meios franceses em Nova York? John Bell não teve mesmo de romper com uma linda jovem da Broadway para poder finalmente visitar esta França que ele tanto amava, mesmo sem jamais tê-la visto? E seu pai não lhe disse, abraçando-o pela última vez antes da partida do De Grasse: "Quem sabe você não traz uma francesa? Nunca se sabe ... É o que lhe desejo de todo o coração!" Realmente, Srs. Jurados, parece-me difícil levar mais longe o amor pela França! E no entanto, apenas três dias mais tarde, quando esse jovem americano se encontrava a bordo do navio francês De Grasse, portanto já em território francês, ele foi selvagemente assassinado por um de nossos compatriotas!

"Mas, se o móvel permaneceu um enigma - e temos de fazer justiça à Defesa que conseguiu lançar a dúvida nos espíritos sobre esse ponto - o crime é irretorquível, duplamente assinado pelas impressões digitais espalhadas pelo local da tragédia e as confissões reiteradas do assassino. Poderíamos também ser levados a nos enternecer diante da lamentável deficiência que marcou profundamente a existência do criminoso desde seu nascimento. Não seríamos normais, não seríamos humanos, se não reconhecêssemos que a situação de um surdo-mudo-cego de nascença é difícil e penosa, mas, por outro lado, devemos aceitar que ela justifique um assassinato? E mesmo admitindo-se que Jacques Vauthier fosse torturado desde a infância por um rancor doentio contra o mundo que ouve, fala e vê, tinha ele o direito de levar esse ódio cruel até seu limite extremo: o homicídio? Tinha o direito de vingar-se contra um desconhecido, um estrangeiro que nunca lhe fizera mal algum e que nem sabia ao menos da sua existência? Esse americano, de quem o pai não hesitou em dizer: "Tenho certeza de que se meu filho tivesse conhecido o Sr. Vauthier, se teria interessado por seu caso: Johny tinha uma alma generosa" ...

"A única desculpa aceitável - se é que se pode desculpar um crime - do ato homicida de Jacques Vauthier teria sido o fato de ele não estar em pleno gozo de suas faculdades mentais. Muitos dentre vós, Srs. Jurados, deveis ter acreditado, no início deste julgamento, encontrar-se na presença de um louco perigoso, o que sem dúvida modificaria vosso justo veredito: diminuída a responsabilidade do acusado, seus defensores poderiam esperar vê-lo terminar seus dias num hospital de doentes mentais onde cessaria de ser um perigo permanente para a sociedade. Mas o próprio desenrolar dos debates e os depoimentos sucessivos de testemunhas cuja competência, autoridade e independência de espírito não podem ser postas em dúvida, provaram que Jacques Vauthier sempre foi uma pessoa mentalmente perfeita.

"É um bruto apenas na aparência: sabe perfeitamente a impressão dolorosa que seu físico causa aos outros e tira partido disso para enganar todo mundo... Não hesita em simular crises brutais de histeria, diante do público, para reforçar a falsa opinião que se formou sobre ele ... Seus gritos guturais e animalescos, a baba que lhe escorre da boca, os gestos de assassino são suas melhores armas defensivas: e delas ele usa e abusa.

Sabe muito bem que, se somos inclinados a desculpar as atitudes e atos de uma criatura rude, incapaz de controlar-se, o mesmo não acontece com um homem de cultura ao qual nada se perdoa.

Pois bem, nós nos encontramos diante de um intelectual, de um homem cujas menores ações são calculadas e que só age em plena consciência... O silêncio obstinado no qual Jacques Vauthier se encerrou desde o instante em que admitiu seu crime é mais uma prova disso: com esse procedimento ele espera convencer o Júri de que, apesar das suas confissões e impressões digitais, não é responsável. Não chegamos mesmo a ouvir, aqui neste Tribunal, que Jacques Vauthier confessara seu crime para esconder a identidade de um suposto assassino que ele seria o único a conhecer?

"Infelizmente, essas afirmações, segundo as quais uma ou mesmo duas outras pessoas poderiam ter assassinado John Bell, não se baseiam em nada, enquanto que as impressões digitais constituem a prova irrefutável contra a qual a Defesa nada poderá! Graças à imaginação fecunda do advogado Deliot, chegamos a transformar o caso, em certos, momentos, num verdadeiro romance policial... só que as melhores histórias desse gênero terminam sempre pela descoberta do crimínoso.

E quando este é conhecido - o que acontece no instante em que o camareiro Henri Téral entrou pela primeira vez na cabina da vítima- deve sofrer a punição inexorável sem a qual não haveria mais justiça no mundo.

"Parece-me indispensável relembrar aqui algumas declarações de certas testemunhas citadas pela acusação ... Inicialmente, o depoimento preciso do comissário de bordo: "A única resposta que conseguimos arrancar dele, por intermédio da Sra. Vauthier, foi: Fui eu quem matou esse homem. Reconheço o crime e não me arrependo de nada. Resposta que o próprio Jacques Vauthier escreveu com uma punção e um reglete em escrita Braille, e que foi entregue pelo Comandante Chardot ao inspetor encarregado da investigação, assim que chegamos ao Havre." Depoimento confirmado pelo do Comandante Chardot.

"O depoimento do Dr. Langlois, primeiro médico de bordo, acrescentado ao do professor Delmot que presidiu a junta médica encarregada de examinar minuciosamente o estado físico e mental de Jacques Vauthier, confirma o seu perfeito equilíbrio mental. O professor Delmot atestou mesmo, sob juramento, que "a inteligência de Jacques Vauthier chega a ser superior à da média dos indivíduos e ele conhece a fundo todos os meios de expressão que permitem a um surdo-mudo-cego de nascença comunicar-se com o mundo exterior." "Não deixaremos de relembrar também essas palavras pronunciadas pela própria irmã do acusado: "Ignoro se Jacques é culpado ou não, mas assim que soube, pelos jornais, do crime do De Grasse, não me surpreendi demais ... " Depoimento corroborado pelos de outros membros de sua família: o de um cunhado e o da própria sogra de Jacques Vauthier, a Sra. Duval.

"O Sr. Marnay não declarou também, em resposta a uma pergunta precisa formulada pelo Presidente Legris, que o romance de Jacques Vauthier era "a materialização escrita dos sentimentos mais íntimos de um coração humano aliados às reflexões maduras de um cérebro superior?" "E que mais poderíamos acrescentar a esses testemunhos se não as próprias declarações das principais testemunhas citadas pela Defesa, como Yvon Rodelec e o Dr. Dervaux? O primeiro não declarou formalmente ao final do seu depoimento que "apesar do silêncio obstinado do acusado, tenho certeza de que ele goza de todas as suas faculdades mentais?" E que "Jacques é um dos cérebros mais bem organizados que já encontrei no decurso de minha longa existência"? Quanto ao segundo, não nos deu uma explicação plausível sobre o crime, no ciúme violento de Jacques Vauthier a respeito de qualquer homem normal que se aproximasse de sua mulher?

"Concluindo, Srs. Jurados, as provas, as confissões e os testemunhos falam por si mesmos, não se contradizem e ros apuntam o assassino de John Bell. Não pretendo ir além de minhas atribuições de defensor da vítima pedindo à Corte que se faça justiça. Não vos esqueçais, porém, Srs. Jurados, de que toda a América está voltada para vós e que, contrariamente a certas alegações da Defesa, este julgamento transpõe os muros deste Palácio para repercutir consideravelmente além de nossas fronteiras. Espero que vos mostreis à altura da missão que vos confiaram: honrar a memória de uma vítima punindo o culpado com o mais extremo rigor. Somente nessas condições a Nação aliada, cujos filhos valorosos tombaram sobre nosso solo pátrio durante duas guerras para libertá-lo, poderá continuar acreditando na justiça francesa."

Voirin sentou-se, não antes de perpassar um olhar por todo o recinto, para avaliar o efeito de suas palavras sobre a assistência. Esta permaneceu impassível. Um segundo olhar dirigido à Defesa permitiu-lhe ver um Victor Deliot que parecia cochilar, os olhos semicerrados atrás dos lorgnons ...

Danielle não despregava os olhos de seu velho amigo. Tinha certeza de que, contra tudo e contra todos, ele conseguiria salvar seu cliente. Tinha de consegui-lo!

Após ter começado sua alocução, recapitulando nos menores detalhes a descoberta do crime a bordo do De Grasse e demonstrado que a culpabilidade . do acusado não podia cer posta em dúvida, já que suas próprias confissões aliadas às próprias impressões digitais o apontavam como o único criminoso possível, o Promotor Berthier continuou:

"Convém ressaltar aos Srs. Jurados que existe ainda um ponto que permanece obscuro nesse caso lamentável: o móvel do crime. Se este crime fosse obra de um sádico ou de um desequilibrado mental, encontraríamos sua razão no prazer mórbido experimentado pelo criminoso no ato de matar... Mas devemos descartar esta hipótese: o comportamento do acusado antes e depois do crime, depoimentos tais como os do Dr. Langlois, do professor Delmot, do Sr. Marnay e do próprio Sr.

Rodelec provaram que Jacques Vauthier além de gozar de perfeita sanidade mental jamais agia leviamente. Por outro lado, ouvimos também os depoimentos do Sr. Jean Dony - mostrando a violência de que o acusado já era capaz há alguns anos, quando incendiou o barracão do jardineiro em Sanac - do Sr. e Sra. Daubray - confessando neste tribunal que seu pequeno cunhado e irmão, ainda menino, já era um pequeno bruto - que Jacques Vauthier tinha nítidas predisposições para a violência. Não tivemos por acaso uma triste amostra da mesma, em plena audiência, quando o advogado Vitor Deliot resolveu fazer o que chamou de sua "experiência"?

"Violência instintiva que os princípios sadios imprimidos por um notável educador conseguiram dominar por algum tempo. Nada nos prova, porém, que não tenha havido a bordo do De Grasse um brusco despertar do bruto que dormia em Jacques Vauthier, e que nesse momento os maus instintos recalcados por uma moral religiosa rígida se tenham libertado para se saciarem num crime monstruoso. O que não conseguíamos, durante os debates, era localizar a centelha que desencadeara no cérebro do doente a idéia de assassinato até que o Dr. Dervaux, uma das testemunhas arroladas pela Defesa, veio em nosso auxílio.

Como todos os que acompanham durante os últimos meses o caso estranho de Jacques Vauthier, o médico que se dedica há 20 anos aos alunos do Instituto de Sanac e que durante 12 anos consecutivos estudou e acompanhou a fisiologia do acusado, declarou neste mesmo tribunal ter procurado obstinadamente um motivo que levasse Jacques Vauthier a cometer esse crime. E, finalmente, encontrou uma única explicação plausível...

Permito-me repetir os próprios termos da declaração da testemunha: "Jacques amava demais sua mulher para permitir que alguém lhe faltasse o respeito ... Não quero aqui macular a memória de uma vítima, ainda mais que ignoro tudo a respeito desse jovem americano. Mas, enfim, a força indiscutível dos apetites carnais de Jacques Vauthier concentrados numa única criatura, sua mulher, poderia ter-lhe despertado o impulso súbito de suprimir, não um rival, eu nem pensaria nestes termos com uma companheira de uma moral a toda prova como Solange, mas um simples desconhecido que tivesse tentado cortejá-la, embora sem maiores conseqüências, simplesmente porque era homem e ela uma mulher bonita... A força de Jacques Vauthier é hercúlea: poderia ter matado, mesmo sem o querer. Essa seria a única explicação plausível de suas confissões repetidas e de seu gesto materializado por impressões digitais irretorquíveis." "Naturalmente, o advogado Deliot apressou-se em explicar à Corte que a testemunha se enganara! É sempre desagradável ver o depoimento de uma testemunha, com a qual contamos, voltar-se contra nós. Porque todos aqui hão de reconhecer que a hipótese levantada pelo Dr. Dervaux adquire peso dobrado, vinda de uma pessoa extremamente fiel à causa do acusado. Quanto ao que nos concerne, achamos - e nunca será demais repetir - que a dedução feita pelo Dr. Dervaux está cheia de bom senso: Jacques Vauthier matou sob o impulso imperioso de um ciúme mórbido deste desconhecido que seu espírito desconfiado lhe apresentava como um possível ladrão da afeição de sua mulher... Sabemos perfeitamente que nos oporão a seguinte objeção: "Como explica então que Jacques Vauthier tenha escolhido John Bell entre todos os passageiros do De Grasse, uma vez que não o conhecia?" Responderemos que a única testemunha capaz de esclarecer a Corte sobre um encontro anterior de Jacques Vauthier com sua vítima seria a própria esposa do acusado. Mas seria digno de crédito o testemunho de uma esposa que compareceu a este Tribunal com o fito desesperado de inocentar o marido? Deixo a resposta aos Srs. Jurados ...

"Nossa convicção é a de que Jaques Vauthier conhecia muito bem a vítima antes do crime e que se dirigiu diretamente, sem a menor hesitação, para a cabina ocupada pelo jovem americano para perpetrar seu crime. Jacques Vauthier fingiu adormecer, depois do almoço, como o fazia habitualmente desde o início da viagem. Sabia que sua esposa aproveitava esses minutos para ir tomar um pouco de ar no tombadilho. Assim que ela saiu, ele se levantou, percorreu o corredor da primeira classe, subiu a escadinha que conduzia às cabinas de luxo. Chegando diante da porta de John Bell, ele bateu ... o jovem americano que devia estar descansando, acolheu seu visitante, de pijama; não tinha motivo algum para desconfiar de um doente aparentemente inofensivo e que ele já conhecia... Voltou tranqüilamente a deitar-se após ter fechado a porta que dava para o corredor: este ponto é importante pois me coloca em contradição formal com o Inspetor Mervel que acha que o assassino aproveitou-se do sono da vítima para matá-la. Hipótese, aliás, dificilmente sustentável. No caso, como teria o criminoso entrado na cabina?

"Continuando, que fez o doente quando John Bell se deitou novamente? Terá tentado, na ocasião, emitir alguns sons guturais que dão a impressão de que é capaz de expressar-se oralmente? Talvez se tenha mesmo sentado na borda da cama e, enquanto o jovem americano concentrava sua atenção tentando compreendê-lo, suas mãos tatearam na mesinha de cabeceira na esperança secreta de ali encontrar o instrumento que lhe permitiria liquidar o possível rival. Seus dedos hábeis encontraram o cortador de papel... Sem hesitar, com um gesto brusco tomou a arma improvisada e abateu-a sobre a vítima... Gesto que repetiu, friamente, com uma precisão mecânica, repugnante, por ocasião da reconstituição do crime, após a chegada do navio ao Havre.

"O resultado foi imediato: o cortador de papel, afiadíssimo cujo modelo foi posto à disposição da Corte pelo Sr. Juiz de Instrução, o advogado Belin, seccionou a carótida do infeliz rapaz que, num último reflexo, ainda encontrou forças para se arrastar até a porta no intuito de pedir socorro. O rastro de sangue, do travesseiro ensangüentado até a porta, é uma prova.

Os dedos crispados de John Bell conseguiram mesmo agarrar-se à maçaneta da porta, no momento em que perdia definitivamente as forças e a vida... E foi, com certeza, o peso de seu corpo suspenso à maçaneta que fez com que esta se abrisse ...

Enquanto isso, o criminoso, bestificado, deixou-se cair sobre o leito tentando enxugar no lençol as mãos sujas de sangue. Ali ficou, prostrado, nem se lembrando de fechar a porta entreaberta à qual estava agarrado o cadáver que ele não via... Aliás , por que tentaria disfarçar um crime que em nenhuma ocasião procurou negar? Também não se lembrou de abandonar a cabina e voltar para sua mulher para lhe confessar que acabava de matar movido por um ciúme incontrolável. Seu único gesto, antes de sentar-se na cama, foi aproximar-se da vigia aberta e atirar ao mar o cortador de papel que lhe causava horror, segundo suas próprias declarações ao Comandante Chardot. Esperou então que alguém entrasse na cabina para descobrir o crime do qual ele não sentia remorsos. Quanto tempo durou aquela espera alucinante, aquele tête-a-tête macabro do assassino e do assassinado ajoelhado contra a porta? Cerca de meia hora, uma hora no máximo, até que o camareiro Henri Téral fez a horrível descoberta ...

"Crime bestial e inconcebível cujo móvel foi um ciúme estúpido e injustificado. Sim, porque nem de leve podemos acreditar que a vítima tenha tentado conquistar a Sra. Vauthier - seria insultar a memória de um morto - nem que Solange Vauthier, cuja conduta com relação ao marido foi sempre exemplar, pudesse lhe ser infiel... Não! Foi o ciúme doentio que determinou o ato violento e fatal. Drama passional dirão alguns ...

Loucura, dirão outros ... Crime premeditado, afirma o Ministério Público. E se nos perguntardes: "Como esse sentimento de ciúme contra John Bell, pôde nascer e tomar forma no cérebro de um surdo-mudo-cego de nascença?", responderemos simplesmente: "Graças ao olfato." "É mister não esquecermos as palavras pronunciadas ontem neste Tribunal por um cego, o Sr. Jean Dony: "Nós, que não enxergamos, felizmente possuímos antenas que nos permitem adivinhar os seres que nos cercam e atingir também, sem que eles o suspeitem, os segredos mais íntimos de seus corações..." Para Jacques Vauthier, que além de não enxergar, não falava nem ouvia, um dos sentidos se desenvolveu fabulosamente a ponto de substituir os outros: o olfato. Um olfato apurado e perigoso que julgou descobrir a presença de um rival na vida de sua mulher ...

"Bastou a Jacques Vauthier, após ter conhecido John Bell num encontro fortuito, reconhecer seu cheiro - cada indivícuo não possui um cheiro diferente e característico para um surdo-mudo-cego, como foi explicado claramente por Yvon Rodelec?

- nas proximidades ou talvez na roupa de sua mulher, para que o ciúme brotasse instantaneamente. E isso, sem que John Bell ou Solange Vauthier tivessem a menor culpa. Nós mesmos, que enxergamos, não desconfiamos de duas pessoas que conversam afastadas de nós e que não podemos ouvir? Na maioria das vezes sem razão, julgamos que falam de nós e isso nos aborrece.

"Jamais poderemos avaliar a prodigiosa e, ao mesmo tempo, nefasta elocubração mental que se processou na imaginação exaltada de Jacques Vauthier após semelhante comparação de odores. O que é certo é que deu tempo ao tempo para amadurecer sua vingança. Aliás, não foi essa a primeira vez que ele recorreu a extremos para dar vazão a seus ciúmes. Os Srs. Jurados devem recordar-se do incêndio no barracão do jardineiro em Sanac! O melhor amigo do acusado - segundo afirmação do próprio Yvon Rodelec - o cego Jean Dony, não reconheceu neste tribunal que "10 anos antes de cometer seu assassinato no De Grasse, Jacques Vauthier já havia tentado matar duas pessoas"? E entre elas não se encontrava a que se tornaria sua companheira de vida? E o motivo daquele gesto violento, felizmente sem graves conseqüências, já fora o ciúme ... Um ciúme feroz e injustificado, diga-se de passagem, de seu melhor amigo. O irmão porteiro do Instituto de Sanac, Dominique Tirmont, não nos relatou a conversa que teve com Jean Dony no dia seguinte ao incêndio? A sua pergunta, "Por que acha que Jacques iria cometer esse ato insensato?" o jovem cego respondeu sem hesitação: "Porque tem ciúme de mim. Acha que Solange gosta de mim e não dele!" "Esse ciúme profundo transpira também nas entrelinhas de seu livro O Isolado, nas páginas dedicadas à família do herói descrito sem contemplação. Também ali Jacques Vauthier expressou seu ódio pelos que o cercavam e aos quais ele devia tudo, não se dando nem mesmo ao trabalho de disfarçar seus parentes sob a camuflagem de personagens fictícios! Ao contrário do que se pode acreditar, a tripla deficiência de Jacques Vauthier não o afetou moralmente! Sua inteligência desenvolveu-se de uma forma prodigiosa!

"Portanto, Srs. Jurados, não nos encontramos diante de uma criatura fraca, que suporta penosamente o peso de suas misérias físicas, mas diante de um homem forte que lutou encarnecidamente para atingir e até mesmo ultrapassar o nível intelectual de seus semelhantes. Um homem dissimulado, taciturno, que sabe usar sua força fora do comum a serviço de um cérebro maquiavélico para dar aos outros a impressão de não passar de um bruto e de agir como tal quando seus instintos mórbidos assim o exigem.

"Descobrindo a piedade que sua tripla deficiência provoca nas pessoas normais, sabe que pode fazer tudo - inclusive o mal - sem ser muito castigado. Afinal, quem não desculparia os atos de um homem afligido por tais misérias desde seu nascimento? Só mesmo quem tivesse um coração de pedra! Eis o que até agora ninguém ousou dizer em voz alta neste tribunal , mas que certamente todos pensaram...

"É claro que lamentamos sinceramente a anormalidade de Vauthier, mas sentimos, por outro lado, que ele detesta ser lamentado, porque não precisa disso: sente-se forte para enfrentar o mundo ... Até mesmo seu defensor que se obstina - inutilmente, segundo nosso ponto de vista - em salvá-lo, livrando-o do justo castigo. Afinal não foi a própria defesa que deixou subentendida a existência de pelo menos duas outras pessoas interessadas no desaparecimento do jovem americano?

Afirmação puramente gratuita, como acaba de dizer com muita propriedade o assistente da Promotoria, uma vez que as confissões do acusado estão assinadas e suas impressões digitais devidamente guardadas para sempre nos arquivos da polícia criminal: são provas irrefutáveis!

"A Defesa, após algumas declarações sensacionalistas, teve de reconhecer que o acusado era, incontestavelmente, um dos três personagens misteriosos que poderiam ter assassinado John Bell. Jacques Vauthier apenas seria excluído por duas razões: sua consciência não lhe teria permitido e, principalmente, porque não teria tido tempo, sendo precedido de alguns minutos pelo verdadeiro criminoso! Afirmação gravíssima que reconhece em Jacques Vauthier a intenção de matar! E como se evidenciou, desde os primeiros minutos de investigação a bordo do De Grasse, que não houve outro culpado a não ser Jacques Vauthier, ficamos sabendo, pela própria boca de seu defensor que esse crime foi premeditado.

"Minhas conclusões são simples: baseando-me no Artigo 302 do Código Penal que prevê a pena de morte para todo crime qualificado e premeditado, peço ao Júri que pronuncie a sentença que a sociedade tem o direito de esperar dele. Confio na justiça de seu veredicto, acentuando mais uma vez que Jacques Vauthier nem pode mesmo beneficiar-se de circunstâncias atenuantes por causa de sua grave deficiência que não o afetou mentalmente, como foi fartamente demonstrado pelos mais eminentes especialistas. E como a denominação de "bruto" foi freqüentemente empregada no decurso deste julgamento para se designar o acusado, não fugiremos à regra geral, mas usaremos a palavra exata: Vauthier não passa de um bruto hipócrita, cuja inteligência organizadíssima premeditou, no que muitos chamariam de "sua noite eterna", um crime que não hesita em glorificar e do qual não se arrepende!"

A acusação precisa, feita propositalmente num tom seco pelo Promotor Berthier, teve o efeito de uma ducha gelada sobre a assistência.

Danielle, inquieta, observou que a palidez de Vauthier se acentuara quando o intérprete lhe traduzira a palavra morte.

Os olhos perscrutadores da moça só abandonaram o rosto lívido do acusado para procurar o olhar calmo de Victor Deliot.

Este se levantou modesto, após ter ajustado pela centésima vez seus lorgnons oscilantes sobre o nariz grande e avermelhado.


Guy des Cars - O Bruto (capa)
 

5. A DEFESA

- Membros da Corte, Srs. Jurados. Quero, inicialmente, solicitar a vossa indulgência para minha oração que, ao contrário da proferida por meu nobre colega Voirin e do admirável discurso de acusação do digno representante do Ministério Público, advogado Berthier, talvez seja um pouco longa.

A minha intenção não é cansá-los com enormes períodos oratórios onde a retórica permite muitas vezes a hábeis defensores a escamoteação da verdade com palavras sonoras e bem colocadas, mas sem essência...

"Longe de mim todo esse palavrório que inunda quase sempre pretorias ou tribunais. Longe de mim quaisquer artifícios de oratória supérfluos quando tenho diante de mim a realidade brutal de uma tarefa gigantesca: salvar Jacques Vauthier do castigo que os honoráveis componentes do Júri serão obrigados a lhe dar em consciência, se eu não conseguir demonstrar que nos encontramos diante de um lamentável erro judiciário.

"Realmente, desde o início deste julgamento, tudo parece ter contribuído para ressaltar e mesmo agravar a culpabilidade de Vauthier... Acusado estranho cuja personalidade silenciosa jamais deixou de pesar nesses debates e que numerosas testemunhas nos descreveram com maior ou menor felicidade.

Digo intencionalmente "com maior ou menor" ...  Sim, porque, se agora conhecemos melhor o Jacques Vauthier menino ou adolescente, pouco sabemos, no entanto, do homem. E isso não é uma grave lacuna? Antes de julgar um homem por um ato tão grave como o que é imputado a Vauthier, parece-me indispensável que os responsáveis pela sentença não tenham a menor dúvida sobre a pessoa que vão condenar ou absolver.

"Eis, diante de vós, Jacques Vauthier, surdo-mudo-cego de nascença, 27 anos de idade, acusado de haver assassinado em 5 de maio último, John Bell a bordo do navio De Grasse.

"Quem é este homem? Ninguém melhor do que ele mesmo descreveu seu estado mental na análise penetrante que fez de seu herói logo no início de seu romance O Isolado. Herói que se assemelha a ele como um irmão gêmeo... Os que lêem O Isolado descobrem Jacques Vauthier. Mas, eu pergunto, quantos neste recinto - e especialmente quantos dentre os Srs. Jurados - percorreram ao menos algumas páginas desse livro extraordinário? E, se algum de vós teve essa curiosidade, não acha que a chave do mistério no qual se encerra o acusado se encontra no romance?

"Convém jamais nos esquecermos desta terrível realidade: aos 10 anos de idade, Jacques Vauthier já cumprira 10 anos de prisão. Era prisioneiro da noite que o envolvia desde seu nascimento. Não passava realmente de um bruto, mas um bruto vegetativo à espera instintiva de um acontecimento que transformaria sua vida animal. Pode-se dizer que confusamente, evidentemente sem capacidade para analisar esse sentimento, o pequeno Vauthier esperava... E talvez ainda vegetasse incompreendido até hoje se uma menina humilde, apenas três anos mais velha que ele, não tivesse vindo bater teimosamente à porta de sua prisão. Solange foi a primeira a iluminar suas trevas, a abrir para o doente uma janela para a vida.

"Duas crianças sentadas diante de uma janela aberta! Esta foi, Srs. Jurados, a visão que teve Yvon Rodelec quando penetrou pela primeira vez naquela triste morada. Pronto! Aí estão os três personagens essenciais do drama que vamos viver. Irei mesmo mais longe dizendo que são os únicos personagens que têm real importância para nós: Jacques, Solange, Yvon Rodelec...

Os outros são apenas figurantes. E nos descartaremos de todos, um a um, na mesma ordem em que se apresentaram neste Tribunal, mostrando-os sem disfarces, à luz da verdade.

Uma vez desimpedido o caminho, voltaremos então aos personagens principais.

"Começaremos com as testemunhas da Acusação. Intencionalmente, não insistirei nos depoimentos do camareiro Henri Téral, do Comissário Bertin, do Comandante Chardot, do Dr. Langlois, do Inspetor Mervel e do Professor Delmot. Essas seis testemunhas nada mais fizeram que relatar com objetividade as circunstâncias em que foi descoberto o crime a bordo do De Grasse e o seu procedimento durante a prisão e primeiros interrogatórios do suposto criminoso. Reservo-me o direito de voltar mais tarde a certos pontos dessas declarações que considero obscuros, quando tivermos de analisar o processo do crime em si. No momento, parece-me oportuno referir-me ao depoimento da sétima testemunha: o Senador Thomas Bell.

"Este nos traçou um perfil dos mais perfeitos e - temos de reconhecer - comoventes de seu filho John, a vítima. Um pai, a menos que seja desnaturado, defenderá sempre a memória de um filho único, bruscamente arrancado à vida em circunstâncias trágicas. Esse pai acredita sinceramente cumprir seu dever e os erros ou omissões que podem ocorrer em seu depoimento são afinal de contas, bastante desculpáveis ... O Senador Bell não fugiu à regra dos pais infelizes e tenho mesmo a declarar que concordo inteiramente com meu nobre colega Voirin, assistente da Promotoria, quando nos afirma que "o Senador Bell não veio a este Tribunal como um pai que clama or vingança". Sinceramente eu também estou convencido de que a testemunha não nutre qualquer sentimento de animosidade contra o acusado. Por outro lado, o Senador Bell parece ter atravessado o Atlântico apenas para glorificar em terra estrangeira os méritos de seu querido filho desaparecido ... Eu disse propositalmente "em terra estrangeira" porque, infelizmente, a verdade é que o jovem John não era tão apreciado em sua terra natal como seu ilustre pai nos fez crer ... A verdade é que John Bell esteve bem longe de seguir as pegadas paternas! Alistou-se muito jovem na Marinha americana, sim, mas obrigado pelo Senador Bell após um escândalo feminino. O mesmo que podemos dizer desse garotão, filinho de papai rico, é que era freqüentador assíduo dos bares de Manhattan e dos night-clubs da Broadway... John realmente cumpriu seu dever na guerra contra o Japão recebendo quatro citações por atos de bravura, mas, contrariamente às afirmações afetuosas de seu pai, a dura campanha do Pacífico não o amadureceu. Parece que aconteceu exatamente o inverso e que sua polifagia juvenil pelas mulheres despertou com força redobrada.

"Foi nessa época que conheceu Phylis Brooks, uma criatura sedutora, cuja profissão oficial de taxi-girl em um dancing elegante da 5 Avenida camuflava uma profissão oficiosa para a qual a polícia geralmente fecha os olhos, mas que a moral reprova. Entre os inumeráveis amigos que a bela Phylis recebia em seu apartamento, encontrava-se John Bell, que se deixou envolver de tal maneira pelos encantos da jovem a ponto de querer casar-se com ela. Querendo evitar a todo o custo essa união desastrosa para a honorabilidade da família, seu pai forçou John a embarcar para a França no primeiro navio: era o De Grasse ...

"Se fiz questão destes esclarecimentos é porque eles terão grande importância na continuação de minha defesa e também para extirpar do espírito do Júri a idéia, inteligentemente lançada pela Promotoria, de que John Bell embarcara para o nosso país unicamente movido pelo desejo de finalmente satisfazer seu "amor pela França"! Na realidade, a razão desta viagem, decidida à última hora, não passou de um vulgar caso de mulher.

Aliás, uma frase pronunciada pela vítima pouco antes da sua partida no De Grasse e repetida neste Tribunal pelo próprio Senador Bell resume admiravelmente a situação: "Compreendi perfeitamente sua pressa em me ver partir. Você tem razão.

Essa moça não é para mim." "Como vêem, estamos muito longe de um crime pelo qual o senso patriótico de uma grande Nação aliada reclama vingança. Os Estados Unidos demonstraram muito bom senso, não transformando em problema de Estado um simples caso particular! Naturalmente o Senador Bell teve fortes razões sentimentais para vir representar diante de um Tribunal Criminal francês o papel de um pai justiceiro, mas reservo-me o direito de julgar, como os fatos se encarregarão de provar em seguida, que teria sido preferível para ele manter uma reserva prudente.

Tendo sido devidamente retificado o depoimento de tão importante testemunha, passaremos à que lhe sucedeu neste tribunal: a irmã do acusado, Régine Daubray.

"A Sra. Daubray veio testemunhar contra seu irmão com uma violência que chocou o auditório. Santo Deus, seu depoimento nada nos acrescentou de extraordinário e só fez confirmar o seguinte: se Jacques Vauthier não gosta de sua irmã, podemos afirmar que ela lhe retribui em dobro esse sentimento!

Detesta-o! Chega ao ponto de odiá-lo! Procurei a causa profunda desse ódio que torna venal todo seu depoimento. A Sra. Daubray fez questão de evidenciar seus "princípios religiosos" que a impediram de divorciar-se de Georges Daubray do qual vive separada há 14 anos. Pois a realidade é bem outra, infinitamente mais prosaica: se Régine Daubray não se divorciou é simplesmente porque continua a receber a generosa pensão concedida por seu marido e que lhe permite manter a elegância que toda a honorável assistência teve ocasião de admirar! Se a Sra. Daubray possuísse realmente sólidas convicções religiosas, começaria por praticar o amor ao próximo na pessoa de seu irmão.

Ora, torno a repetir que ela o odeia. Odio que, aliás, é o ponto culminante de dois outros sentimentos profundamente arraigados na alma da testemunha: o interesse e o orgulho. Interesse que se viu ameaçado quando Daubray, a conselho de seus próprios pais, que temiam o perigo de uma possível hereditariedade, preferiu separar-se da esposa. Orgulho que transpirou ao longo de todo o libelo detestável que ela não hesitou em fazer contra o romance de seu irmão, onde julgou reconhecer-se na figura de um dos personagens e, principalmente contra a cunhada, a meiga Solange, a quem ela jamais perdoará ter sido filha de uma empregada doméstica. Aliás, estou mais que persuadido que esse testemunho, Srs. Jurados, pesará muito pouco na vossa deliberação, o que faz que eu não me detenha mais sobre o assunto.

"O testemunho de seu marido, o Sr. Georges Daubray, pareceu-nos impregnado de dignidade. Só temos a lhe agradecer por se ter revoltado várias vezes, na Rua Cardinet, contra a maneira pela qual mantinham aquele menino infeliz afastado de todo convívio humano, nos fundos do apartamento. Por outro lado, não aceitamos sua atitude de separar-se de sua mulher unicamente por medo de que ela lhe desse um filho semelhante ao cunhado! Georges Daubray, de família bastante conhecida em Paris, temia que um dia lhe atirassem an rosto a tripla deficiência de Jacques. O que mais nos espanta, porém, é que esse homem temeroso tenha concordado em vir a este Tribunal para, de certa forma, fazer carga contra seu cunhado, insistindo sobre "a aversão marcante que todos os membros da família inspiravam a Jacques".

"E assim chegamos à sogra do acusado, Mélanie Duval.

Essa mulher decidida declarou aqui mesmo, neste Tribunal, que "Jacques não era mau quando pequeno", donde se conclui que naquela época a empregada da família Vauthier tinha pena do menino doente. Seus sentimentos mudaram bruscamente no dia em que se falou em casamento entre Jacques e Solange.

Apesar de sua origem modesta, e talvez mesmo por causa dela, Mélanie achava que a filha poderia casar-se com qualquer rapaz normal e rico, em vez de acorrentar sua existência à de um doente sem níquel! Isso não encaixava com o bom senso popular da humilde Mélanie, que havia se esfalfado durante anos para fazer de sua filha uma senhora. E, além do mais, não seria uma vergonha, um desgosto imenso, e cito aqui as próprias palavras da testemunha, "pensar que uma jovem tão bonita tivesse de partilhar sua vida com um homem que nunca a tinha visto e que jamais a veria? " "Desse dia em diante, Jacques Vauthier não teve inimigo mais encarniçado que Mélanie. Essa mesma Mélanie que se apresentou neste Tribunal com um rancor acumulado durante anos para gritar: "Não é fácil ser a mulher de um assassino!

Sim, porque para Mélanie, que ignora tudo sobre o crime, não há sombra de dúvida: seu genro é, indiscutivelmente, o assassino. E seu maior desejo é que Jacques seja condenado o mais rápido possível à pena máxima para que sua filha Solange, finalmente livre, possa refazer a vida. Lembrai-vos, Srs. Jurados, de que o ódio de um cérebro limitado é implacável! Este ódio Mélanie transferiu inteiramente para Yvon Rodelec, o admirável educador de Sanac que ela não hesita em acusar de todos os pecados do mundo por considerá-lo o instigador do casamento. E a velha empregada ousa fazer julgamentos temerários sobre os Irmãos de São Gabriel ou, pior ainda, declarar diante da Corte que o Sr. Rodelec enfeitiçou sua filha!

"Os motivos que levaram Mélanie Duval a testemunhar contra seu genro são desprezíveis e despidos de qualquer valor jurídico: a Corte já lhes deve ter dado seu justo valor.

"Numa primeira conclusão, a Defesa espera que os Srs. Jurados acabarão de compreender a razão profunda que levou Jacques a mostrar-se tão severo na descrição dos personagens que cercavam o herói de seu romance, um surdo-mudo-cego como ele próprio. Francamente; Srs. Jurados, é o caso de se dizer: que família!"

A última testemunha da Acusação foi o Sr. Jean Dony.

Quanto a este rapaz, encontramo-nos diante de um outro problema, infelizmente, tão lamentável como os precedentes! O depoimento desse jovem cego, que se diz amigo de Jacques Vauthier, foi o mais inteligente e o mais odioso. Reparem bem os Srs. Jurados que o Sr. Dony conseguiu lançar uma séria dúvida em vossos espíritos, contando à sua moda um certo incêndio ao qual talvez se esteja dando importância maior que a devida.

Na realidade, o que poderia se ter transformado num drama naquele dia nada mais foi que o resultado do ciúme que Jean Dony sentia de Jacques Vauthier.

"De que este último tenha amado Solange, desde sua adolescência, não temos a menor dúvida e os fatos se encarregarão de demonstrar, no decorrer deste julgamento, que esse amor de Jacques por aquela que se tornaria sua mulher só fez aumentar com o tempo. De que Solange tenha sentido uma grande ternura por Jacques, na época de sua chegada a Sanac, também não se pode duvidar apesar das hesitações mais que compreensíveis que ela teve alguns anos mais tarde, quando o Sr. Rodelec a aconselhou a desposar Jacques. Mas que Jean Dony se tenha apaixonado perdidamente por aquela moça linda e encantadora, que não lhe prestava muita atenção, é um fato consumado. Aliás, o contrário é que seria de espantar. Uma pequena enquête pessoal feita recentemente por mim em Sanac provou que Solange Duval deixou uma lembrança imperecível.

Pode-se mesmo afirmar que o Instituto São José inteiro estava apaixonado por aquela moça luminosa e sorridente que havia levado bruscamente à vida austera da instituição um pouco daquela feminilidade que o Sr. Rodelec e o Dr. Dervaux tinham mil razões para cultivar... Jean Dony não escapou a esse sentimento unânime a respeito da recém-chegada. E foi ele mesmo que declarou nesta Corte: "Soube por camaradas surdos-mudos que eles sim podiam vê-la, que era uma moça muito bonita... a única coisa que nós, cegos, pudemos observar foi a doçura de Sua VOZ.

"Ah, senhores! Que sonhos! Que sentimentos novos e impetuosos devem ter brotado nos corações daqueles jovens com a simples presença de uma mulher! Estados d'alma capazes também de provocar o ciúme ... Na pessoa de Jean Dony, o ciúme foi duplo: ciúme do homem que sente que a criatura sonhada jamais será sua e ciúme também daquela jovem que tomou seu lugar de protetor de Jacques, que ele ocupava há seis anos em Sanac. Quanta amargura se esconde nas palavras da testemunha:...  "Sentíamos, em certas entonações de Solange que, sob aquela doçura aparente, capaz de enganar os que a viam, seduzidos pelo seu aspecto físico, se escondia uma vontade de ferro, decidida a ir até o fim ...  " Foi o ciúme que fez Jean Dony cair em contradição várias vezes durante seu depoimento! Ele ama Solange e ao mesmo tempo a detesta ...

Veio por sua livre e espontânea vontade testemunhar contra seu antigo colega e, indiretamente, arrasar com aquela que o repudiou. Seu testemunho é o de um amargurado. A fama de Jacques Vauthier, por ocasião do sucesso de seu livro O Isolado, só fez reavivar seu sentimento de inveja e frustração.

Seu rival não somente conservava o amor exclusivo de Solange como, por sua inteligência e capacidade criativa, crescia ainda mais no conceito de sua bem-amada! São coisas que dificilmente se perdoam quando se tem a alma de um Jean Dony...

"Se apareceu para tocar no dia do casamento de Jacques e Solange foi somente após muita insistência do Sr. Rodelec que queria desfazer mágoas e mal-entendidos. Mas Jean, rival vencido, encontrou finalmente a oportunidade de vingar-se no dia em que soube do crime do De Grasse. Chegou mesmo a justificar sua presença neste Tribunal alegando problemas de consciência.

Permito-me repetir, Srs. Jurados, suas próprias palavras: "Devia deixar o mundo acreditar que Jacques Vauthier era incapaz de cometer um crime ou, ao contrário, tinha a obrigação de mostrar que o acusado não era marinheiro de primeira viagem? Meu dever, por mais penoso que fosse, obrigava-me a esclarecer a justiça." Srs. Jurados, o que achais destas palavras pronunciadas por quem se diz o melhor amigo de juventude de Jacques Vauthier?

"Depois, foi a história do incêndio, a mais hábil mentira que pode brotar de um cérebro humano! Narrativa cuja veracidade está longe de concordar com a realidade que Solange Vauthier deixou bem clara com uma discrição digna dos maiores elogios. Não nos demoraremos no assunto mais que ela ou Irmão Dominique o fizeram, observando, porém, que o Sr. Promotor não deixou de utilizar em sua acusação o depoimento tendencioso de Jean Dony para afirmar que o assassinato do De Grasse não era a estréia criminosa de Vauthier. Em nossa humilde opinião, as conclusões do Sr. Promotor, que não hesitou em fazer uma ligação direta entre uma simples disputa de jovens e um crime cometido 10 anos depois, parecem-nos pelo menos inesperadas!" Victor Deliot fez uma pausa para limpar minuciosamente seus lorgnons antes de continuar:

- Passaremos agora em revista os depoimentos das testemunhas da Defesa, cujas declarações, por estranho que possa parecer à Corte, estão longe de nos ter agradado, apesar dos sinceros sentimentos de afeição e estima exprimidos a favor do acusado. Achamos mesmo que o transbordamento de amor de uma mãe como Simone Vauthier, a tagarelice inconseqüente de um homem ingênuo como Irmão Dominique e a clarividência afetuosa de um profissional da classe do Dr. Dervaux deixaram algumas dúvidas no espírito do Júri e mais prejudicaram que ajudaram o acusado.

"A Sra. Vauthier portou-se diante da Corte com a paixão de uma mãe roída pelos remorsos. Pesei muito bem minhas palavras: como todos os outros membros da família, Simone Vauthier negligenciou o filho doente durante seus primeiros 10 anos de vida. Começou a interessar-se por ele a partir do dia em que não o teve mais em casa. Agindo assim, nada mais fez do que ceder ao estranho sentimento que faz descobrir grandes qualidades nas pessoas quando estas se encontram ausentes. O erro inicial de Simone Vauthier foi grave: uma mãe que não sente a menor afeição por um filho doente assemelha-se a um monstro. O menino compreendeu isso instintivamente e desligou-se dessa mulher cuja presença, inicialmente indiferente, passou a lhe ser odiosa. Nada mais havia a fazer para reaproximar mãe e filho: os testemunhos de Yvon Rodelec e do Dr. Dervaux são formais nesse ponto. Todas as tentativas de reaproximação falharam lamentavelmente. Se alguns membros do Júri ainda tinham algumas dúvidas sobra a natureza exata do relacionamento existente entre Jacques Vauthier e sua mãe, estas devem ter sido definitivamente aclaradas neste próprio recinto, diante da impassibilidade com que o acusado recebeu as lágrimas tardias de Simone Vauthier, suplicando-lhe que se defendesse e gritando ao mundo que seu Jacques era inocente.

"Que esta mãe esteja convencida da inocência. do filho é ponto pacífico, mas a dor de Simone Vauthier nada mais é, no fundo, que uma dose dupla de orgulho ferido: raiva, fúria mesmo, pelo fato de outra pessoa, Yvon Rodelec, ter ocupado seu lugar no coração de Jacques, e desespero bem compreensível de ver seu nome envolvido no escândalo de um crime.

Preferi mil vezes ouvir os gritos de reprovação de uma Simone Vauthier dirigidos aos que ela acusa injustamente de lhe terem roubado o amor de seu filho, do que as palavras carregadas de ódio de uma irmã mais velha. Com sua sinceridade de mãe envergonhada de seu comportamento passado, Simone Vauthier provou que, se todos os membros da família se comportaram no passado como monstros em relação ao pequeno doente, pelo menos um desses monstros se tornou humano e foi capaz de se redimir no último instante. Srs. Jurados, peço-vos que esqueçais, como eu já. o fiz, os deploráveis sentimentos expressos por essa pobre mãe contra todos os que tiveram sobre seu filho uma influência superior à sua, para guardar apenas a imagem desta infeliz abatendo-se, sem sentidos, neste Tribunal após sua súplica desesperada: "Suplico-lhe, Sr. Intérprete, diga a Jacques que sua mãe está aqui, perto dele, para ajudá-lo ... Sua mãe que sabe melhor que ninguém que ele é incapaz de matar..." "Penso sinceramente que uma mãe adivinha realmente se o fruto de suas entranhas é ou não capaz de matar. Para Simone Vauthier seu filho Jacques é inocente. É um testemunho que tem seu valor.

"O Sr. Dominique Tirmont, o simpático irmão-porteiro do Instituto São José de Sanac é um homem ingênuo e tagarela como via de regra costumam ser, na maioria das comunidades religiosas, os irmãos-porteiros. Entusiasmou-se ao contar à sua maneira a história do incêndio do barracão do jardineiro que para ele foi um acontecimento fora da rotina: não voltaremos a ele. Por outro lado, essa facilidade de elocução nos foi de grande valia em um ponto essencial: explicou-nos, com detalhes preciosos, o senso das cores que o acusado possui.

"Desta forma, soubemos que a idéia fundamental das cores era falsa no cérebro de Jacques Vauthier. Aliás, o contrário é que teria sido espantoso! Procedendo por analogia, Jacques Vauthier concebeu uma idéia das cores baseadas nas variedades de odores ou sabores. Assim, o acusado jamais pensa num objeto sem revesti-lo instintivamente de uma cor. Essa confusão teve uma importância capital no momento do crime do De Grasse, como logo o demonstraremos. A curiosa experiência à qual submeti Jacques Vauthier, ainda há pouco, na presença de sua mulher, já vos provou duas coisas, Srs. Jurados: Jacques Vauthier dá uma grande importância à écharpe de seda usada por sua mulher e não pôde ouvir sobre os dedos as palavras "cor verde" sem excitar-se terrivelmente ... Lembrai-vos, portanto, Srs. Jurados: o acusado tem horror ao verde! Por que essa repulsa? A simples lógica nos oferece a explicação: porque o verde lhe traz más recordações! Quanto à écharpe de seda que sua mulher usava, e que era cinzenta e não verde, devo fazer uma pequena confissão: fui eu que pedi a Solange Vauthier que viesse depor usando essa écharpe. Era indispensável para o bom êxito de meu plano. E não me arrependo, apesar do aspecto penoso da experiência... Agradeçamos portanto ao Irmão Dominique a contribuição de seu testemunho e passemos a examinar o depoimento da última testemunha da Defesa, o Dr. Dervaux.

"Também o Dr. Dervaux compareceu a este Tribunal com o desejo sincero de inocentar o acusado. O testemunho ponderado desse eminente médico que depois de Yvon Rodelec é, sem dúvida, o homem que mais bem conhece Jacques Vauthier.

teve um peso considerável. Desta vez, nos encontramos realmente na presença de um homem de ciência, cujo espírito prático não se deixa envolver pelos ardores de uma fé generosa.

Não foi o doutor que nos confessou que "sem ser um ateu, sempre foi um cético?" Ceticismo que somente se inclina diante dos resultados científicos de um método experimental. O gosto inato pela Experiência é portanto bastante desenvolvido nesse profissional. Foi o que o levou a aconselhar Yvon Rodelec não somente a tentar educar o jovem Jacques, sem lhe encher a cabeça com textos evangélicos, como despertar no coração do doente uma nova ternura que substituiria a de uma mãe egoísta demais. Pode-se afirmar que, em seu desejo imenso de acertar, o homem de Ciência, personificado pelo Dr. Dervaux, foi tão responsável quanto o homem da Igreja, encarnado por Yvon Rodelec, na união de Jacques e Solange. Responsabilidade que considero admirável, uma vez que continuo a considerar esse casamento como um êxito perfeito.

"Infelizmente, o espírito científico do Dr. Dervaux aliado à deformação profissional incitaram-no a levar um pouco longe demais suas investigações pessoais, quando soube do crime do De Grasse... Incapaz de resolver o problema das impressões digitais e das confissões repetidas do acusado, o cérebro racional do Dr. Dervaux acabou por encontrar, quase contra sua vontade, uma espécie de desculpa para o crime de Jacques Vauthier. Não nos iludamos: apesar da sua declaração final pela qual o bondoso doutor, tendo percebido o mal que seu depoimento fizera a quem ele tentava defender com as melhores intenções do mundo, esforçou-se sem grande sucesso para explicar à Corte que suas palavras haviam sido mal interpretadas, a verdade é que essa testemunha da Defesa apresentou-se neste Tribunal intimamente persuadido da culpabilidade de Vauthier!

"Aliás, o Promotor Berthier aproveitousse com muita inteligência de tal testemunho para tirar conclusões francamente desfavoráveis ao acusado. Foi somente quando afirmei que pro- varia, no decurso de minha defesa, que Jacques Vauthier não era o verdadeiro culpado, que o Dr. Dervaux tentou, um pouco tarde demais, reparar os estragos, dos quais seu espírito altamente científico foi o único responsável, conduzindo o debate para um plano estritamente moral. E encontrou, na verdade, um argumento reparador não despido de certo valor quando declarou que: "Jacques Vauthier idolatrava demais sua mulher para destruí-la com uma vergonha como a que ela está sendo submetida há seis meses." Ali, não era mais o sábio que falava mas o homem de bom senso aliado ao homem de coração. Sem sequer suspeitar, naquele instante, o Dr. Dervaux atingiu a verdade: esse crime, no qual a única culpa do acusado é ter feito tudo para parecer o autor, não é senão o resultado do amor imenso, levado ao sacrifício supremo, de um homem por sua companheira. E isso nos leva naturalmente a Solange Vauthier, que seguiremos passo a passo, estudando o processo do crime...

"Em seus respectivos depoimentos, tanto o Comissário Bertin como o Comandante Chardot declararam que Solange Vauthier se havia comunicado com o marido na prisão de bordo, assim que fora posta em sua presença, logo após o crime. Esse diálogo silencioso e incompreensível para as duas testemunhas foi realizado a mão: os dedos ágeis da esposa falavam às falanges de seu marido. Ela mesma afirmou ter-lhe feito uma única pergunta: "Diga que não é verdade, Jacques. Você não fez isso!" E ele lhe teria respondido: "Não se preocupe! Assumc a responsabilidade de tudo ... Eu amo você" ... Resposta possível mas não certa. Jacques Vauthier bem poderia ter dito a sua mulher: "Sei que foi você a culpada, mas cale-se! Fez muito bem em matá-lo ... Nada diga! Assumirei a culpa" ...  Resposta que, evidentemente, mudaria completamente o aspecto do problema. E temos todo o direito de acreditar que esta fosse a verdadeira. Solange ficou petrificada. Culpada? Claro que era ...

Mas não no sentido compreendido por seu marido. Jacques Vauthier estava convencido de ter descoberto a prova irrefntável de que sua mulher adorada era amante de John Bell. E ainda se encontra neste estado de espírito. Olhem para ele! Vejam seu rosto tenso, ansioso: seu intérprete lhe transmite minhas mínimas palavras. Vauthier só deseja ser libertado da dúvida terrível que o assalta. Teme que sua mulher, a doce e gentil Solange, que representa tudo para ele e sem a qual não pode viver, seja inculpada. Olhem o suor que escorre de sua testa. Um suor de agonia... Queira Deus que não seja a agonia de um amor! Ele espera ...  E começa a se perguntar se esse velho advogado imbecil, que há semanas luta desesperadamente para salvá-lo, não vai acabar por descobrir a verdade?

"Jacques Vauthier, vou provar-lhe que sua mulher não matou e só então você cessará de encerrar-se em sua mentira heróica. Desde a primeira visita que lhe fiz na prisão da Santé, soube logo que você mentia a todo mundo, Jacques Vauthier... mesmo a mim, em quem não confiava mais do que nos outros!

Naquele dia, você se atirou sobre mim para que eu compreendesse claramente que não queria ver um advogado metido em seus negócios e, principalmente, para que eu acreditasse que você não passava mesmo de um bruto vulgar! Já não conseguiu que quase todos acreditassem nisso, desde o comandante do De Grasse atê o Juiz de Instrução encarregado do caso, passando pelo Inspetor Mervel e os inumeráveis médicos alienistas, sem esquecer seus defensores que me precederam e se viram obrigados a abandonar seu caso incômodo com medo de nada conseguir arrancar de você, arriscando-se a serem estrangulados por seus dedos temíveis? Reconheço que é genial, adotando essa falsa atitude de bruto, Jacques Vauthier! Sua representação foi tão perfeita que chegou a enganar seu guarda na prisão. Aquele bom homem estava tão persuadido de que você não passava de um animal pernicioso que me aconselhou, por diversas vezes, a tomar as maiores precauções a seu respeito! Para sua infelicidade, ou melhor seria dizer felicidade?, você caiu comigo, um velho cavalo de tiro! E sou capaz de jurar que, inteligente como é sob uma aparência embrutecida e hermética, compreendeu imediatamente que com um velho astuto como eu o páreo ia ser duro! Então, aos poucos, foi se acalmando. Fingi entrar em seu jogo, decidido, no entanto, a arrancá-lo dessa calma aparente quando chegasse a hora. "E já o consegui duas vezes no decorrer deste julgamento.

A primeira, quando você chorou ao contato com as mãos enrugadas de seu velho educador: nunca mais poderá negar essas lágrimas ardentes, Vauthier! Foram lindas porque vieram diretamente de seu coração. A segunda, quando tocou na êcharpe de sua mulher: o ódio impotente que o invadiu naquele instante foi sincero... Por duas vezes, portanto, tive a prova insofismável de que toda sua atitude, desde o momento em que foi encontrado sentado sobre a cama de John Bell, não passava de uma comédia fantástica. Que você possa ser um bruto, admito!

Chegou mesmo a sê-lo uma vez, uma única vez na vida, a um grau raramente atingido por um ser humano ... Encarregar-me-ei de lembrar-lhe as circunstâncias precisas quando chegar o momento de pôr as cartas na mesa; mas que seja, como o julga a maioria presente, porque lhe deu essa impressão, um bruto em estado permanente, é falso!

"Há poucos minutos eu lhe disse que sua mulher não havia matado: com isso não quero dizer que ela não seja culpada. Sua culpabilidade é de outra ordem, eis tudo! Mas você é o único culpado. Seu silêncio e a sua mentira persistentes obrigaram-me à lamentável alternativa de deixar que o condenassem inocente ou lhe revelar publicamente o que você preferiria jamais saber.

"Você não foi o único a mentir: sua mulher também nos enganou, modificando a primeira resposta que você lhe deu na prisão de bordo. Mas poderia ela ter agido de outra forma?

"Solange Vauthier, Srs. Jurados, sabia que seu marido a julgava realmente a assassina de John Bell, quando ela nada teve a ver com o crime. Mas ela compreendia também que essa convicção íntima de Jacques era para ele uma espécie de bálsamo que o assegurava completamente sobre a conduta da esposa e quase lhe dava prazer. O amor desse rapaz por sua companheira é tal que ele prefere considerá-la como a assassina de um homem, do qual se livrou para fugir definitivamente a seus avanços, do que cúmplice de uma ligação culpável. Solange assassina de John Bell é para Jacques uma heroína que matou para não enganar a ele, Jacques ... Desde o segundo em que se julgou o dono da verdade, Vauthier só teve uma idéia: salvar sua admirável companheira que levara a sua fidelidade ao extremo de matar um rival! Foi por isso que ele esperou pacientemente na cabina do crime até que vieram prendê-lo, por isso disfarçou o crime com uma habilidade suprema para que acreditassem ter sido ele o autor e não sua mulher, por isso, finalmente, que deu à companheira essa estranha resposta: "Eu sei que foi você a culpada, mas cale-se! Fez bem em matá-lo! Nada diga! Assumirei a culpa..." Atitude perfeitamente explicável quando se compreende o imenso amor que Jacques devota a Solange, mas que não terá mais qualquer razão de ser se provarmos que - acontrário do que acredita Vauthier - sua mulher não matou John Bell, que foi assassinado por uma terceira pessoa. Isso vem confirmar o que não me cansei de repetir: três pessoas estavam interessadas no desaparecimento do jovem americano. Vauthier, para livrar-se de um rival; Solange, para apagar um passado incômodo que pesava terrivelmente em sua consciência ... E, finalmente, o verdadeiro criminoso, por outras razões que explicaremos no devido tempo ...

"Bem imagino, senhores da Corte, como minha peroração vos deve parecer extravagante, mas peço-vos ainda um pouco de atenção para transportar-vos, em imaginação, aos seis últimos dias que precederam a volta do casal Vauthier à Europa, a bordo do De Grasse.

"Para começar, uma nova e dupla mentira de Vauthier e sua mulher fizeram-vos acreditar que o jovem casal jamais havia visto a vítima antes do crime. Por uma vez, a Defesa está de pleno acordo com o Ministério Público, quando afirma que Solange e Jacques Vauthier conheciam John Bell muito bem.

Um telefonema recebido ontem pela manhã de Nova York confirmou que o jovem americano, muito conceituado nos meios franceses dos Estados Unidos, se havia tomado de grande amizade pelos Vauthier. Amizade cuja reciprocidade não era a mesma por parte de Jacques e Solange... Com a única finalidade de conhecer a exata natureza das relações existentes entre esses três personagens, parece-me indispensável a volta de Solange Vauthier a este Tribunal para um depoimento complementar. Solicito portanto ao Sr. Presidente que mande buscar a testemunha em questão para uma segunda audiência." - A Corte defere o requerimento verbal da Defesa - declarou o Presidente Legris após um rápido entendimento com seus assessores e um sinal de aquiescência do promotor.

A jovem mulher voltou à barra não sem antes deixar transparecer alguns sinais de inquietação.

- Sra. Vauthier - continuou o velho advogado, aproximando-se da barra diante da qual ela se mantinha ereta - espero que desculpe esse velho defensor de seu marido por tê-la feito voltar mais uma vez, mas garanto-lhe que era absolutamente necessário para atingirmos finalmente o objetivo que perseguimos, tanto a senhora como eu: inocentar Jacques ...

Permitir-me-ei, logo de saída, repetir-lhe uma pergunta precisa que já lhe foi feita pelo Presidente Legris durante seu primeiro depoimento: "Sra. Vauthier, lembra-se de ter encontrado, durante os cinco anos que passou nos Estados Unidos, a vítima, Sr. John Bell?" Sua resposta foi negativa.

"Pois bem, por mais penoso que possa ser para mim, devo responder-lhe por minha vez que mentiu, Solange Vauthier! Há mais de um ano conhecia John Bell. Ele se apresentou espontaneamente à senhora e a seu marido durante uma conferência realizada em Cleveland. John lhe pareceu simpático imediatamente: por acaso não se deu ao trabalho de facilitar suas viagens e estadas nas diferentes cidades visitadas? Não levou sua amabilidade ao ponto de conduzi-los pessoalmente em seu próprio carro? Suas atenções não foram sempre encantadoras? E aconteceu o que fatalmente teria de acontecer: o jovem americano era bonito. Não oferecia, sobre seu marido, a vantagem de poder contemplá-la? Seus olhos devoravam seu rosto, detalhavam sua figura elegante, exprimiam o desejo ardente de um ianque normal e sadio por uma linda francesa... Ainda que possuindo uma ternura imensa por seu marido, a senhora não se havia habituado completamente à idéia de que aquele a quem pertencia era o único homem gue jamais poderia vê-la, enquanto todos os outros podiam saciar os olhos em sua beleza. Durante seu primeiro depoimento, a senhora pronunciou uma frase terrível: "A gente não ama aqueles por quem sente piedade. Tem-se pena.. " "Não imagina o quanto sinto, Jacques Vauthier, ter de revelar-lhe tudo isto hoje, sem o menor preparo, mas não tenho escolha. Seu rosto me parece cada vez mais crispado, infeliz, patético... Suplico-lhe, Vauthier, que conserve esse auto-domínio que demonstrou possuir acusando-se de um crime que não cometeu, para ouvir a continuação desta minha oração, a mais ingrata da carreira de um defensor ... É preciso que saiba que Solange se decidiu finalmente ao casamento após ter sido sutilmente pressionada por Yvon Rodelec numa conversa que este teve com ela após a publicação do seu livro ... Solange casou-se com você por piedade, enquanto você a amava apaixonadamente.

"O casamento foi, como bem o descreveu o Irmão Dominique, um acontecimento sem precedentes nos anais do Instituto São José.. Lembra-se da estranha cerimônia na capela onde os coroinhas eram surdos-mudos e o coral composto de cegos? ... Do abade Ricard, o capelão da instituição, que fez um belíssimo sermão que a senhora, Solange Vauthier, ia traduzindo sobre as falanges de Jacques?...  E o mesmo procedimento ia sendo empregado e repetido em todos os bancos da capela onde cada cego servia de intérprete para um vizínho surdo-mudo? A senhora não sabia se devia rir ou chorar naquele momento, Solange Duval! Rir, não de alegria mas de nervosismo diante do aspecto insólito daquela cerimônia da qual era a heroína; chorar à idéia de que ia amarrar-se para toda a vida a uma criatura anormal... Eis o que se passava por sua cabeça quando, uma vez a cerimônia terminada, passou pelo braço de Jacques entre as alas de curiosos, de personagens austeras de batina preta ou de alunos também deficientes ... Lá em cima, no órgão, Jean Dony tocava uma marcha nupcial que mais lhe parecia uma zombaria ... E se seu olhar sob o véu de tule se ergueu durante alguns segundos, foi talvez para cruzar-se com o de um rapaz de olhos brilhantes e luminosos que contemplavam avidamente seu rosto ... olhos cheios de desejo que jamais encontraria nos olhos mortos _de seu marido...

"Naquele dia seu sofrimento foi atroz. E só fez aumentar nos dias que se seguiram durante aquela horrível viagem de núpcias da qual voltou desesperada. Cada hora daquela viagem de pesadelo era acrescentada ao holocausto... A senhora teve de fazer um esforço sobre-humano para superar sua repugnância física e não fugir quando os braços fortes de seu marido quiseram abraçá-la.

"Porque houve uma primeira noite cuja lembrança jamais se apagará de sua memória e durante a qual a senhora tomou consciência da imensidão de seu sacrifício.

Principalmente, que antes do casamento tudo parece simples e fácil porque a imaginação ultrapassa qualquer obstáculo. Somente no momento em que se passa do sonho ideal à realidade brutal, as inferioridades do cônjuge são reveladas. Confesse que é angustiante, Solange Vauthier, ser beijada por lábios incapazes de murmurar uma palavra de amor, de ficar face a face com o nada de um rosto sem olhar... Em tais condições o ato do amor só pode causar repulsa. Mais rápido do que pensou - e havia por acaso imaginado o sacrifício que lhe custaria o sim a Yvon Rodelec? - o contato com o doente a desencorajou, tornando impotentes suas resoluções mais firmes. Impossível não compreendê-la, Solange Vauthier! Para suportar essa dura prova teria sido necessária uma força que, infelizmente, nós humanos, raramente possuímos!

"E ele? Nunca lhe ocorreu, Solange Vauthier, que vivendo continuamente a seu lado acabou por tomar consciência, cada vez mais, de sua inferioridade? Seu sofrimento secreto só fez aumentar: sentimentos de tristeza, de desespero, de ciúme, de desconfiança formaram uma nuvem escura sobre o casamento.

E, no entanto, ele se apegava à senhora. Tinha e tem uma necessidade insaciável da senhora: necessidade física e moral. Foi daí que nasceu esse desentendimento angustiante cuja causa profunda nenhum dos dois quis procurar, não sei por que espécie de pudor mútuo!

"O que podemos afirmar, Srs. Jurados, é que esses cinco anos de casados foram uma luta titânica entre a ternura racional da jovem esposa e os desejos carnais do doente. É fácil de imaginar, portanto, o que deve ter sido aquela viagem de núpcias na costa basca! Durante o dia, quando a comunicação entre os dois era feita pela inteligência, tudo era maravilhoso: era a harmonia perfeita de dois seres que se completavam ... mas à noite! Ah, como eram terríveis as noites! Confesse, Solange Vauthier, que muitas vezes preferiria morrer a se entregar a carícias que a aterrorizavam! Infeliz, quase não suportando a presença física de um Jacques que a senhora tinha idealizado e que agora se mostrava real e humano, confidenciou seus temores a Yvon Rodelec numa visita de despedida que lhe fizeram antes da grande partida para os Estados Unidos. Ainda uma vez, as palavras sábias e os conselhos judiciosos do educador conseguiram atenuar seu desencanto. A viagem por um país completamente novo para a senhora e Jacques talvez ajeitasse as coisas. Acabaria por se habituar a uma existência ao mesmo tempo ativa e resignada junto ao doente.

"Sem que o desejasse, quase a contragosto, tornou-se para Jacques aquela mulher rara que basta à felicidade de um homem, simplesmente porque esse homem não conheceu e jamais conhecerá outra mulher e outras sensações! Abandonando-se a suas carícias, a senhora lhe dava a ilusão de ser um homem como os outros ...

"Na tentativa de esquecer os momentos penosos que lhe eram impostos por aquela paixão não correspondida, a senhora lançou-se de corpo e alma à vida trepidante do Novo Mundo, indo de cidade em cidade, de conferência em conferência, de recepção em recepção, intérprete de Jacques em entrevistas para jornais ou emissões radiofônicas onde brilhava cada vez mais.

Sua beleza triunfava aonde quer que fosse. Parecia mesmo que a presença desse colosso com sua tripla deficiência sempre a seu lado, seguindo-a como uma sombra ou como um escravo, contribuía ainda mais para realçar sua beleza luminosa e sorridente. Durante os primeiros tempos da sua estada na América, a senhora chegou a pensar que era feliz, Solange Vauthier.

Chegou mesmo a escrever sobre isso a seu único confidente, Yvon Rodelec. Mas, ai da senhora! Foi então que John Bell cruzou seu caminho, em Cleveland ...

"O interesse do jovem americano pelo caso excepcional de Jacques Vauthier, romancista francês surdo-mudo-cego de nascença, não passava de uma fachada, uma desculpa para se aproximar daquela que o atraíra desde o primeiro instante: a linda mulher do doente ... Desdobrava-se em atenções. Levava-a sozinha a passeios para conhecer a cidade, sem que seu marido visse nisso qualquer inconveniente. Jacques jamais poderia supor uma infidelidade de sua parte... E, no entanto, foi o que aconteceu: alguns meses após o primeiro encontro com John Bell em Cleveland, os olhos azuis daquele belo rapaz se inundaram nos seus. Seus lábios murmuraram as palavras de amor que esperava desde sempre. Sua felicidade pode ter sido passageira, mas foi completa: tornou-se sua amante!" A jovem mulher estremeceu e se agarrou à barra no momento em que seu marido deu um grito selvagem e rouco, tentando atirar-se sobre Victor Deliot. Mas os dois guardas forçaram-no a sentar-se novamente.

- Sei muito bem que estou causando um sofrimento atroz a esse infeliz - continuou o advogado. - Se pudesse, neste momento, ele me mataria. Olhai para ele, Srs. Jurados: este é o Jacques Vauthier que eu queria que conhecêsseis! O Vauthier adulto que só se torna realmente um bruto quando se trata de defender seu único bem: sua mulher... Olhai para ela também, prestes a desfalecer, incapaz de refutar a grave acusação que lhe vem de ser feita. Que poderia dizer ela a não ser que acabou por ceder aos encantos do americano porque não agüentava mais pertencer a um homem que jamais poderia vê-la?

Esse, todo o drama dessa jovem mulher. Não pensai, Srs. Jurados, que Solange Vauthier se tenha apaixonado por John Bell! Muito depressa, suas relações com o jovem americano que a seguia de cidade em cidade, passaram a fazê-la infeliz.

Sufocada pelo remorso de enganar um homem para o qual era tudo, a senhora, Solange Vauthier tentou o impossível para terminar de vez com aquela ligação ocasional. Mas ele não lhe deu ouvidos: estava apaixonado e não queria perdê-la! Seu desejo de encerrar definitivamente o caso aumentava com o receio de que seu marido viesse a desconfiar de algo. A verdade é que, instintivamente, Jacques passou a suspeitar de John Bell. E em seu espírito confuso, o único culpado era o americano que a desejava e contra o qual a senhora lutava desesperadamente!

"Para livrar-se de um amante incômodo e perigoso, a senhora tomou a brusca decisão de voltar para a França no primeiro navio. O que não previu foi que John Bell tomaria o mesmo navio para continuar a persegui-la! A senhora e seu marido o encontraram a bordo, algumas horas após a partida de Nova York. Para salvar as aparências diante de Jacques, John Bell explicou que ia à França em missão, participando do plano de ajuda à Europa! Curiosa ajuda!

"Não querendo correr o risco de encontrá-lo mais vezes, a senhora conseguiu convencer seu marido a tomar as refeições na própria cabina, de onde saíam raramente. No dia seguinte, entretanto, John Bell conseguiu abordá-la sozinha num dos corredores. Exaltou-se, suplicou-lhe. A senhora fugiu, assustada.

Por um instante pensou em matar-se. Mas pensou que Jacques não sobreviveria a seu desaparecimento. Jacques, que não era capaz de viver sem a senhora! Não seria melhor sacrificar John de quem ninguém necessitava? A idéia desse crime deve tê-la perseguido como uma espécie de reparação pelo que havia feito a Jacques. Bem podeis imaginar, Srs. Jurados, os sentimentos conflitantes e muitas vezes monstruosos que podem tomar conta do coração de uma mulher honesta que se arrepende de uma falta grave!

"John Bell continuava a assediá-la. Encontrava-o, mal entreabria a porta da sua cabina. Também seu marido farejava-o, rondando pelas vizinhanças: seu extraordinário senso olfativo devia revelar sua presença na sua própria sombra e a senhora temia uma explosão. Torturada, resolveu ter com seu amante um encontro decisivo." Deliot voltou-se para Solange Vauthier para advertir:

- Srs. Jurados, senhores da Corte, chegamos ao momento do crime ...

Voltou-se para Solange, aniquilada numa cadeira:

- Seu marido, Sra. Vauthier, repousa no leito, como costuma fazer todos os dias após o almoço. A senhora sai um instante para respirar ar puro. Talvez tenha colocado na bolsa aquele revólver que, segundo me confíou em nossa segunda entrevista, trazia sempre à mão durante as suas viagens. Dirige-se para a cabina de John Bell. Seu plano é simples: vai bater à porta, ele abrirá, encantado, persuadido de que finalmente voltou para seus braços. Sozinha com ele, procurará convencê-lo do perigo que a sua insistência representa para seu casamento.

Pede-lhe que a deixe em paz. Caso contrário ... o pequeno revólver ali está na bolsa, basta abri-la... A libertação ao alcance da mão... Em seguida é atirá-lo ao mar pela vigia e voltar tranqüilamente ao tombadilho para lavar ao vento de alto-mar o cheiro do homem, o cheiro do amante. O passo seguinte é a volta à cabina onde seu marido ainda estará adormecido, sem notar sua ausência.

"Infelizmente, chegada diante da cabina de John Bell, as coisas se passaram de maneira bem diferente. A porta da cabina estava entreaberta. Intrigada, empurrou-a com precaução ficando petrificada diante de um espetáculo apavorante: seu amante jazia morto, estendido no leito, o pescoço ensangüentado. Na sua afobação nem mesmo reparou numa écharpe de seda verde parecidíssima com uma das suas: uma que a senhora usava freqüentemente e que seu marido gostava de alisar, e que estava atirada sobre a mesinha de cabeceira ... Horrorizada, a senhora fugiu.

" O ar fresco recompôs suas idéias. Enquanto caminhava pelo convés compreendeu que alguém se havia antecipado de alguns minutos, talvez alguns segundos, para matar seu amante.

Era indiscutível que acabara de ser assassinado, se bem que não tivesse ousado tocar no cadáver ainda quente. Mas quem o teria matado? Um rival? Uma idéia louca atravessou-se em seu espírito: teria sido Jacques? Impossível: deixara seu marido adormecido na cabina e, como chegara à de Bell pelo caminho mais curto, ele não teria tido tempo de precedê-la para cometer o crime. Quando muito, poderia tê-la seguido: mas não foi o caso. A senhora estava completamente só no momento da macabra descoberta.

"Quem então poderia ter apunhalado o jovem americano?

Uma outra mulher? E por que não? A verdade é que alguém acabava de lhe prestar um serviço apreciável, livrando-a finalmente desse amante que a senhora não mais queria ver e que insistia em persegui-la com a sua presença indiscreta e suas ameaças ... John tinha sido assassinado e não por Jacques nem pela senhora. Enquanto todos esses pensamentos turbilhonavam pela sua cabeça, caminhando pelo tombadilho, ocorreu-lhe a idéia, por um momento, de livrar-se do revólver atirando-o ao mar, mas conteve-se em tempo: por que, se a arma não fora utilizada? E, assim, conservou o pequeno revólver que traz sempre consigo ... e que nesse momento está em sua bolsa porque há muito tempo tem a intenção de usá-lo contra si mesma, no instante em que tudo viesse à tona" ...

Com um gesto brusco e inesperado a mulher tentou abrir a bolsa, mas Victor Deliot, que estava a seu lado na barra, segurou-lhe as mãos, gritando:

- Nada disso, senhora! Precisa viver porque não matou, porque seu marido ainda precisa da senhora, agora mais que nunca, porque deve expiar pelo resto de seus dias os erros que cometeu para com ele!

Enquanto falava, o advogado retirou da bolsa o revólver, que entregou ao presidente antes de continuar:

- Uma vez senhora de si, voltou à sua cabina. Mas outra surpresa a esperava: seu marido não se encontrava lá! A senhora deve ter sido assaltada pela terrível dúvida: teria sido ele o criminoso? Uma vez mais, a simples lógica lhe provava a inviabilidade de tal fato: ele não teria tido tempo de precedê-la na cabina de John Bell nem, principalmente, de cometer o crime pois o americano deveria se ter defendido. Onde estaria Jacques?

E por que teria saído da cabina sozinho, sem que a senhora o acompanhasse, como fazia todos os dias, desde a partida de Nova York? Sua ansiedade crescente deve tê-la feito pensar em voltar à cabina de seu amante para ver se ali encontraria seu marido e levar mais longe suas investigações ...  mas a idéia terrível de tornar a ver o cadáver ensangüentado de John impediu-a.

E a prudência aconselhava-a a não perambular pelas vizinhanças do crime. Quem sabe a porta entreaberta já teria atraído a atenção de alguém e o crime já fora descoberto? O mais certo era esperar a volta de Jacques na própria cabina. A espera prolongava-se ...

"Ao cabo de uns 20 minutos, sua ansiedade se transformara em angústia. Que estaria fazendo Jacques? Onde estava? Quem sabe, sem conseguir dormir, tinha ido procurá-la no convés? Seria terrível se ele não se encontrasse lá! Este último pensamento obrigou-a a sair da cabina ... Após uma meia hora de buscas infrutíferas, conforme a senhora mesma declarou em seu primeiro depoimento, tornou a dirigir-se à cabina na esperança de que Jacques estivesse de volta. Mas ele não estava. Desesperada, temendo pelo pior: teria havido um acidente? Jacques, cego-surdo-mudo, teria caído ao mar? Assustada, a senhora dirigiu-se imediatamente ao escritório do comissário de bordo. O resto já sabemos.

"Durante todo o interrogatório foi condenada a calar-se: contar sua macabra descoberta seria confessar sua presença na cabina do americano! As suspeitas recairiam sobre a senhora: talvez isso lhe fosse indiferente, mas seu grande medo era que a verdade acabaria revelando a Jacques sua ligação com John Bell e essa mágoa a senhora não lhe queria causar por nada deste mundo! Ficou atordoada com o rumo que o caso foi tomando durante os primeiros interrogatórios e mais ainda com a estranha declaração de Jacques. Não compreendia por que ele se acusava desse crime que não cometera nem o sentido da frase: "Não se preocupe! Assumo toda a responsabilidade...

Fez bem em matá-lo ... Eu amo você." Ou Jacques enlouquecera subitamente, convencendo-se de que a senhora era a criminosa, ou era reaimente o culpado a despeito de sua lógica pessoal que dizia o contrário. A partir desse minuto até agora, Solange Vauthier, a senhora viveu atormentada por uma dúvida abominável. E, mesmo quando compareceu a este Tribunal para defender seu marido, intimamente não tinha certeza de sua inocência.

"Agora que consegui provar a seu marido que a senhora nada teve a ver com a morte de John Bell, acredito poder demonstrar-lhe que Jacques não é também o assassino de seu ex-amante e, principalmente, explicar por que se acusou falsamente do crime. Se me permitirdes, Srs. Jurados, voltaremos ao momento preciso em que Solange Vauthier saiu de sua cabina, deixando Jacques Vauthier adormecido.

"O que a Sra. Vauthier jamais soube é que seu marido não estava dormindo naquele dia. Mal Solange saiu da cabina, ele se levantou, abriu a porta com precaução e seguiu sua mulher à distância para não despertar-lhe a atenção. Suspeitava de que ela se ia encontrar com o americano ... Como pôde segui-la, cego, através do labirinto de escadas e corredores do enorme transatlântico? Graças a seu olfato apuradíssimo...

Solange usava sempre o mesmo perfume, um perfume que ele adora, pois como todos os cegos ele adora perfumes. Foi uma espécie de jogo, para ele, segui-la pelo faro por escadas e corredores. Deve ter sido alucinante o espetáculo daquela criatura estranha tateando pelos corredores, subindo e descendo escadas, as narinas dilatadas pelo perfume condutor. Estremecemos só em imaginar os pensamentos de desespero e vingança qne devem ter perpassado pelo espírito de Vauthier durante aquela espantosa caminhada! A idéia de morte germinou certamente em sua mente naquele momento! Ignorava o perigo que corria, não tentava ao menos imaginar a cena diante da qual se encontraria dentro de alguns instantes - cena que sua extrema sensibilidade o faria compreender em segundos ... Esperava ainda que sua companheira lhe fosse fiel, mas sua dúvida era cruciante: o ciúme o aguilhoava ... Uma transformação terrível se operava em Vauthier durante a sua perseguição silenciosa de fera a farejar a presa. Os baixos instintos, reprimidos durante tantos anos pela sábia influência de Yvon Rodelec, vinham à tona com um cheiro de lama repugnante... . Vauthier estava disposto a tudo, até a matar! Quem? Ainda não sabia... Ele ou ela? O primeiro que caísse em suas mãos vingadoras... Talvez os dois! Caminhava para o seu destino percorrendo os corredores das cabinas no rastro do perfume que conduzia para a vida ou para a morte ...

"Diante da cabina de John Bell, teve um momento de hesitação: curioso, o perfume continuava também pelo corredor, depois da porta. Vauthier estava perplexo. Qual seria a pista certa? Devia entrar na cabina ou seguir pelo corredor? Finalmente, decidiu-se e empurrou lentamente a porta entreaberta ...

"Vamos segui-lo agora pela cabina onde suas narinas lhe revelam o cheiro do homem que ele detesta, o americano. Dois odores que se misturam tão intimamente constituem sem dúvida a prova irrefutável da culpabilidade dos dois... Eilos ali... Não poderão escapar-lhe. Vauthier não necessita de armas: suas mãos lhe bastam! Por que perder tempo à procura de um cortador de papel? Contando com sua força hercúlea, Vauthier nem por um minuto pensou em qualquer instrumento para o crime. O único reflexo que lhe surge naturalmente, a ele que não enxerga, é o que lhe inspira o segundo sentido que ele utiliza com perícia: o tato... E esse sentido exige um contato direto: ele estrangulará!

" Se insisto sobre esse ponto, Srs. Jurados, é unicamente para retificar o erro psicológico monumental cometido durante a reconstituição do crime. Se Vauthier tivesse matado não teria utilizado um cortador de papel mas as mãos, sempre prontas e ágeis! A própria reconstituição deve ter causado espanto ao Inspetor Mervel e seus colaboradores. O gesto repetido pelo doente com uma precisão de um criminoso profissional, era perfeito demais para ser verdadeiro. Não passava de um gesto estudado, repetido várias vezes durante a longa meia hora que ele ficou sozinho com o morto. Vauthier sabia muito bem que sua condenação dependeria, em grande parte, do modo como aquele gesto fosse executado ... e ele queria assumir a responsabilidade do crime para salvar sua mulher! Era preciso que os investigadores o julgassem absolutamente capaz de utilizar um cortador de papel com um golpe certeiro, apesar da sua cegueira!

"Foi nesse detalhe que a investigação começou a falhar.

Mas voltemos ao momento em que o enfermo avança lentamente pela cabina, os braços em cruz, ameaçadores.. Esbarra na cama e tropeça... Suas mãos, estendidas instintivamente para a frente, tocam num corpo estendido... um corpo no qual ele reconhece o cheiro execrável ao qual se mistura, além do perfume de Solange, um outro mais acre, de sangue.

"Vauthier recuou, a seguir suas mãos tornaram a avançar até o corpo do americano ... Seus dedos tocam o peito e sobem lentamente até o rosto para se imobilizarem à altura do pescoço onde se molham num líquido morno e viscoso: sangue! Os dedos tateiam agora os contornos do talhe feito no pescoço.

O doente não tem a menor dúvida: o crime foi cometido com um punhal... Os dedos descem novamente pelo peito e param durante algum tempo na região do coração. O tato é infalível: o coração não bate mais. O americano está morto, assassinado! ... Os dedos febris começam a percorrer o leito em volta do cadáver à procura da arma do crime ... De repente uma das mãos a encontra: Vauthier reconhece imediatamente o cortador de papel idêntico ao que ele usa freqüentemente em sua própria cabina para abrir as páginas dos livros que Solange lê para ele ...

"Os dedos ainda insatisfeitos continuam a tatear tudo na esperança de algum indício ... Chegando à mesinha de cabeceira imobilizam-se de novo, como petrificados, sobre um objeto que acabam de tocar: uma simples écharpe de seda que estavam acnstumados a acariciar e que está impregnada do perfume de Solange... É o quadrado de seda que Vauthier batizou de écharpe verde. Não há sombra de dúvida, ele a conhece muito bem, é a écharpe de sua mulher! É também a prova irrefutável de que Solange não está longe... mas onde se terá escondido?

"Vauthier abandona o leito para dar uma busca pela cabina. Examina o toalete, abre armários e revira o compartimento destinado às malas... . Nada! Ninguém! Subitamente ele compreende... Tudo se explica! As coisas se tornam tão simples e claras! Sob um pretexto qualquer o americano deve ter atraído Solange para sua cabina, mas ela reagiu... Não quis ceder a seus avanços e - num gesto que ele, o marido acha heróico - atingiu o miserável com a primeira arma que encontrou ao alcance da mão: o cortador de papel que deveria estar sobre a mesinha de cabeceira...

"Infelizmente, em seu desespero, Solange perdeu a écharpe verde que ficou na cabina após sua fuga. Agora sim ele compreendia porque o perfume continuava pelo corredor das cabinas: após ter matado o americano Solange fugira pelo corredor em direção ao convés, sem ter mesmo tomado a precaução de fechar a porta que ele encontrara entreaberta... Já que ela fizera justiça com as próprias mãos, era preciso evitar a qualquer custo que Solange fosse acusada do crime! Não havia um minuto a perder.. Alguém poderia chegar de um momento para outro e descobrir o crime antes que Jacques tivesse tempo de disfarçá-lo. Uma esposa tão admirável merecia qualquer sacrifício. O melhor meio, e o mais seguro para desviar suspeitas, era substituir Solange no papel do criminoso. Ele, Jacques, assumiria o crime. Pegaria, quando muito, alguns anos de prisão ... Quem ousaria condenar à pena capital um surdo-mudo-cego de nascença? Sua condição de pessoa anormal o beneficiaria com circunstâncias atenuantes ... Além disso, seu principal meio de defesa seria simples: um silêncio obstinado que impressionaria os jurados e deixaria pairar sempre uma dúvida sobre seus verdadeiros motivos. Sua pena seria leve... A seguir, quando saísse da prisão, encontraria novamente ,sua maraviIhosa companheira e, a seu lado, continuaria a viver uma existência feliz, longe de qualquer rival...

"Todos esses pensamentos tumultuosos devem ter desfilado por sua mente febril em poucos segundos. Trancou a porta. Era preciso, antes de mais nada, fazer desaparecer as duas peças comprometedoras: o estilete, no qual deviam estar gravadas as impressões digitais de Solange, e a écharpe de seda verde. Atirou-a ao mar pela vigia. Mas, quando ia fazer o mesmo com o cortador de papel, Vauthier hesitou. Quando o prendessem, certamente iriam perguntar-lhe como agira para matar o americano com aquela arma. Era preciso repetir o gesto assassino que Solange cometera para defender-se, até ser capaz de executá-lo com perfeição, sem a menor hesitação. Seus dedos crisparam-se sobre o cabo do cortador de papel. Por várias vezes seu braço se ergueu e baixou mecanicamente. Uma vez certo de poder repetir o gesto assassino na reconstituição do crime, lançou ao mar o estilete que comprometeria sua mulher...

"Precisava agora deixar suas próprias marcas. Aplicou aqui e ali, por toda a cabina, seus dedos sujos de sangue. Seu crime estava assinado! Para dar a impressão de que o americano havia reagido, arrastou o cadáver até a porta, derrubando propositalmente alguns móveis. Agora só lhe restava entreabrir cuidadosamente a porta para que a primeira pessoa a passar no corredor descobrisse o crime e o criminoso. A espera foi longa e nela ele encontrou um sabor especial. Seu terceiro sentido o fazia gozar a plenitude do crime, o que ele já considerava como seu crime!

Eu já vos disse, Srs. Jurados, aqui mesmo nesta Corte, que uma única vez em sua estranha existência, Jacques Vauthier mostrou-se um bruto autêntico: foi durante essa espera ... Reviveu com uma intensidade prodigiosa, as fases de um crime que não cometera. Revia, em sua imaginação, seu braço justiceiro encarniçando-se sobre o americano ... Já acreditava ser o verdadeiro assassino e comprazia-se com seu crime imaginário... Jacques Vauthier não se arrependia de nada: moralmente, ele também havia assassinado John Bell...

"Esse o seu crime, Srs. Jurados!" As palavras de Victor Deliot agitaram a assistência. Danielle estava comovida. Pensar que um homem de uma inteligência excepcional pudesse transformar-se em um bruto capaz de matar por amor, perturbara-a estranhamente. E o sentimento de muda admiração que aos poucos ela dedicara ao acusado só fizera aumentar: não era um homem maravilhoso esse Jacques Vauthier, para quem nada tinha valor a não ser a mulher amada?

Victor Deliot não prestou a menor atenção ao burburinho que acabava de se formar. Deixou que os murmúrios se aquietassem e continuou com a mesma calma que não o deixou um só instante desde o início do julgamento:

- Peço-vos agora, Srs. Jurados, que olhai para Jacques Vauthier, arrasado no banco dos réus. Vede como seu rosto, até aqui impassível, mudou! Desta vez ele não representa mais um papel: sua confusão é sincera, total... Seu sonho de amor acaba de desmoronar-se... Acaba de saber também que não foi Solange quem matou o amante, que não foi ela quem cometeu o crime considerado por ele como reparador, na cegueira de um coração destroçado. Ele não tem, portanto, razão alguma para endossar a responsabilidade do crime ... No caso de o Sr. Presidente não objetar, peço ao intérprete que faça ao acusado a seguinte pergunta: "Jacques Vauthier, é exata a descrição que fiz da maneira como descobriu e disfarçou o crime na cabina de John Bell?" O intérprete transmitiu a pergunta sobre as falanges do acusado. Este se empertigou em seu lugar, aumentando ainda mais sua estatura e, pela primeira vez, desde o início do julgamento fez sinais rápidos com os dedos em alfabeto mímico que toda a assistência podia acompanhar. O intérprete traduziu em voz alta:

- A descrição é exata.

- Nesse caso - continuou o advogado - faça-lhe mais uma pergunta e o deixaremos tranqüilo: "Jacques Vauthier, persiste em declarar que assassinou John Bell no dia 5 de maio último a bordo do navio De Grasse?" Jacques, sempre de pé, respondeu pelo mesmo processo:

- Reconheço ter mentido para salvar minha mulher. Não fui eu quem matou John Bell!

Deixou-se então cair sobre o banco, vencido por sua dor moral.

- Srs. Jurados, ontem eu vos disse da minha certeza nesta sensacional retratação de meu cliente antes do final dos debates. Faltava-me, porém, colocar Jacques Vauthier diante de provas de tal forma evidentes que ele não pudesse mais persistir em encerrar-se no que continuo a chamar de uma admirável mentira de amor... Só me resta agora formular três perguntas à Sra. Vauthier, desculpando-me por importuná-la no estado de prostração em que se encontra. Acredito que a Sra. Vauthier não tem mais qualquer razão para, de agora em diante, esconder a verdade... Solange Vauthier, responda sim ou não. John Bell foi seu amante?

A jovem mulher levantou-se para responder em voz fraca:

- Sim, ele foi meu amante ...

- Sim ou não - continuou o advogado. - A senhora foi à sua cabina em 5 de maio último, mais ou menos às duas horas da tarde?

- Sim... Queria obter de John a promessa de que jamais tornaria a procurar-me. Caso recusasse, creio que o teria matado sem hesitação para salvar a felicidade de Jacques... Mas quando entrei na cabina.. John já estava morto...

- Terceira e última pergunta, para a qual eu lhe peço um sério esforço de memória, agora que minhas modestas deduções pessoais permitiram-lhe reavivar certas lembranças: recorda-se de ter visto a écharpe de seda verde na mesinha de cabeceira, ao lado do cadáver?

- Não. Estava transtornada demais para observar pequenos detalhes. Foi horrivel! John morto! Havia sangue por todos os lados! ... Sangue! Sangue! Um mar de sangue!

Solange Vauthier cobriu o rosto com as duas mãos como se quisesse escapar à visão apavorante: soluçava.

Danielle olhou para aquela linda mulher com certo desprezo. Pensava com amargura que Solange chorava a morte do amante enquanto não demonstrara grandes emoções em relação ao marido ... Uma prova de que nunca amara Jacques e que jamais o amaria com verdadeiro amor.

Victor Deliot continuou a perguntar, quase à meia-voz:

- A senhora não deu por falta dessa écharpe verde antes do crime?

- Sim! Eu a usava quando embarcamos em Nova York...

Mas naquela mesma noite não a encontrei mais... Fiquei tristíssima ... Nada disse a Jacques porque sabia que ele adorava aquela écharpe....  Mas acabei por desligar e não pensar mais nela.

- Para encurtar a história, Sra. Vauthier, sua écharpe verde foi roubada pelo verdadeiro criminoso, três dias antes do crime... Alguém que a conhecia muito bem, que sabia que usava freqüentemente essa écharpe, impregnada de seu perfume... Alguém que também se encontrava a bordo do De Grasse com a intenção bem definida de matar John Bell deixando ao lado do cadáver um objeto pessoal seu para incriminá-la inexoravelmente... Alguém que nada tinha contra seu marido, apenas contra a senhora e John Bell.

"Muitas noites passei acordado, procurando, como o Dr. Dervaux e o Promotor Berthier, o móvel desse crime tão bem arquitetado, cuja intenção evidente era incriminá-la. A senhora, melhor que eu, sabe que se seu marido não tivesse feito desaparecer a prova principal do crime - sua écharpe verde - e espalhado pela cabina do morto suas próprias impressões digitais, a senhora estaria seguramente no banco dos réus. E tenho boas razões para acreditar que o melhor defensor deste mundo não conseguiria livrá-la da condenação.

"Havia então alguém que queria o seu mal e o do jovem americano. Mas quem? Alguém a quem vocês tivessem causado um grande mal? Que espécie de mal? Material? Descartei logo essa idéia como improvável. Moral? Aproximava-me da verdade... E por que não sentimental? Encontramo-nos, portanto, diante de um motivo passional... Como não pensei nisso antes, nem ninguém antes de mim, nem mesmo a polícia e os advogados que me precederam na Defesa? O criminoso ou o instigador do crime - insisto particularmente nessa segunda hipótese - poderia ser um homem ou uma mulher. No caso de ser um homem pensei num amante repudiado pela senhora, Sra. Vauthier; no caso de ser uma mulher, talvez uma amante de John Bell, despeitada por ver-se substituída no coração do americano.

"Estudei detalhadamente a primeira hipótese, mas convenci-me de que a sua aventura com o americano deveria ser encarada como uma fraqueza passageira. Apesar disso, confesso que por um momento suspeitei de Jean Dony com o qual a senhora tivera uma aventura bastante desagradável no Instituto de São José. Mas comprovei que Jean Dony continuava como organista em Albi no momento do crime do De Grasse. Restava a segunda hipótese: a da existência de uma rival. As coisas, então, simplificaram-se de maneira impressionante ...

"Suponhamos, Srs. Jurados, que durante meses ou quem sabe anos, John Bell tenha sido amante de uma mulher linda mas sem escrúpulos, a dançarina de um night-club nova-iorquino já citada anteriormente: Phylis Brooks. Sabemos agora , dito pela própria Solange Vauthier, que esta havia conhecido John Bell alguns meses antes de voltar para a França e que se haviam tornado amantes. Ora, o entusiasmo do americano pela atraente Phylis deve ter diminuído sensivelmente desde o momento em que este passou a interessar-se pela bela francesa.

Phylis Brooks, por nada deste mundo queria perder seu filão - não era ele por acaso o filho único de um membro rico e influente do Congresso? - e muito menos perdê-lo para outra mulher. Seu despeito transformou-se em ódio quando percebeu que Solange Vauthier era agora a dona absoluta do coração de John Bell. É claro, Sra. Vauthier, que este jamais lhe falou de Phylis Brooks e das cenas e ameaças que ela fazia diariamente para que ele acabasse com o novo romance. Mas a verdade é que, quanto mais a senhora procurava desligar-se de John, mais ele se agarrava à senhora. Ao tomar conhecimento de sua volta repentina à França com seu marido fingiu concordar com os desejos de seu pai, o Senador Bell, propondo-lhe uma viagem à Europa que lhe permitiria livrar-se definitivamente da perigosa Phylis. John embarcou, portanto, sem nada lhe dizer ...  daí sua surpresa ao encontrá-lo no navio, algumas horas após a partida de Nova York!

"Phylis, entretanto, não estava completamente ausente.

Alguém a representava a bordo ... Seu marido! Sim, o marido de Phylis que na véspera do embarque a havia surpreendido na companhia do amante, o galante John... A cena fora apavorante e tivera lugar no próprio apartamento de Phylis em Nova York.

"Naquela tarde o marido saíra. Sabendo que ele só voltaria tarde da noite, Phylis telefonou a John Bell. Queria revê-lo, tentar uma última jogada para que ele não a abandonasse. John, que no fundo sempre foi um fraco com mulheres, ficou um tanto receoso com o tom imperioso daquela que ele pretendia abandonar para sempre. Aquela criatura sem escrúpulos era bem capaz de armar um daqueles terríveis escândalos mundanos que tanto excitam os americanos e que terminaria por afetar a posição e o bom nome de seu pai, o Senador Bell, honorável membro do Congresso às vesperas de importante pleito eleitoral John julgou mais sensato comparecer ao encontro com Phylis.

Tentaria amansá-la com um trato financeiro. Aliás, ele jamais se iludira sobre a verdàdeira natureza dos sentimentos que a dançarina nutria a seu respeito: o interesse de Phylis por John baseava-se em seu nome importante e principalmente em seu dinheiro. Phylis era uma típica garota da Broadway, bela e interesseira, sem cultura, mas terrivelmente ambiciosa que só media os homens pelo dinheiro que lhe davam, ainda mais que seu marido não lhe dava nenhum.

"Quinze minutos após o chamado telefônico John já se encontrava no apartamento de Phylis cujo marido não conhecia nem de vista. Phylis não lhe escondera sua situação de casada, mas ele que não se preocupasse... Era desses maridos cômodos que oferecem a vantagem de estar sempre viajando...

John ignorava mesmo o nome desse marido modelo. Phylis usava seu nome de solteira, já conhecido nos meios artísticos.

"Não é difícil imaginar a conversa entre a que tentava prender e o que tentava fugir. Deve ter começado por uma cena de charme, mas o rapaz não estava disposto a cair novamente na armadilha. Só via diante de si a imagem da doce francezinha cujo comportamento era exatamente o oposto da sua agressiva compatriota. John foi diretamente aos fatos:

"Quanto quer para me deixar em paz?

Cinqüenta mil dólares - respondeu Phylis sem hesitar.

"Finalmente após uma pechincha sórdida fechou-se o negócio por 25 mil dólares. O cheque foi assinado, ao portador, para que a moça pudesse recebê-lo de imediato. Infelizmente, ao apresentá-lo no banco, no dia seguinte, Phylis Brooks teve de apresentar documento de identidade. Neste constava seu nome verdadeiro - o que passara a assinar depois de casada.

Phylis recebeu o dinheiro mas o número da sua carteira de identidade foi anotado pelo banco: um número que foi preciso para meu correspondente de Nova York...

"Justamente quando John ia despedir-se da moça para sempre, uma chave girou na fechadura: era o marido que chegava antes da hora prevista. Os dois homens não se encontraram - faço questão de frisar bem este ponto - porque o amante conseguiu escapulir pela escada exterior de incêndio, comum a quase todos os edifícios nova-iorquinos. O marido teve apenas tempo de vislumbrar uma silhueta masculina. Voltou-se para a mulher com uma brutalidade descontrolada. Em um segundo, Phylis estava encurralada a um canto do quarto com as mãos fortes do marido apertando-lhe implacavelmente a garganta. Não havia escolha. A bela Phylis confessou num gemido:

"Seu nome é John ... John Bell... Mas não o verei mais: ele embarca amanhã com a mulher que ama no mesmo navio que você...

"Sim" porque John Bell jamais soube que o marido de Phylis Brooks era francês e que sua profissão o obrigava a uma viagem mensal à França a bordo do navio De Grasse ...

"Reconciliados, uma hora depois, Phylis e o marido foram jantar numa boate, para uma noitada divertida antes do embarque. Ela aceitou, encantada com aquele desfecho inesperado, pensando em embolsar os 25 mil dólares sem que o marido soubesse. No final ela acabara levando vantagem com aquela aventura.

"No dia seguinte, o marido embarcou. Como já deixamos entendido, o De Grasse não tinha segredos para o marido francês de Phylis que há três anos nele fazia a travessia entre Nova York e Havre. O homem conhecia na ponta dos dedos a disposição das cabinas de luxo e da primeira classe, o labirinto de escadas e corredores, os menores hábitos dos passageiros, os regulamentos de bordo, enfim, toda a vida intensa que animava essa verdadeira cidade flutuante! Foi-lhe fácil localizar as respectivas cabinas de Vauthier e John Bell. Logo nas primeiras horas da travessia, tratou de apropriar-se de um objeto pessoal pertencente àquela que pretendia responsabilizar pelo crime: Solange Vauthier, a nova amante de John Bell.

"Essa vingança de um marido enganado foi maquinada com uma lógica impiedosa: começaria por matar John Bell. Seria a certeza de que Phylis jamais tornaria a ver seu amante. Reservar-se-ia o prazer de anunciar ele mesmo, por telegrama lacônico, a morte de John Bell a sua mulher. Seria uma surpresa macabra acrescida de um temor salutar. Para o futuro, a bela e volúvel criatura pensaria duas vezes antes de arranjar um novo amante. Para assegurar sua impunidade, arranjaria as coisas de modo que as suspeitas recaíssem sobre a amante do americano, Afinal de contas, seria normal que John fosse assassinado por uma mulher casada procurando salvaguardar sua honra...

Sabia que a morte do filho do senador provocaria impacto nos dois países. Sua presumível assassina, contra a qual haveria provas irrefutáveis, seria julgada por um tribunal francês e certamente condenada. Enquanto isso, ele, o assassino, continuaria a viver uma existência não digo tranqüila, mas apaixonante ao lado da bela Phylis ...

"No momento em que identificou Solange Vauthier, o homem observou que ela usava uma vistosa écharpe de seda verde ao pescoço. Após haver esbarrado em Solange duas ou três vezes na confusão do embarque, foi atraído igualmente por seu perfume característico - um perfume que devia impregnar a écharpe de seda... Ele só teria de roubar a écharpe e largá-la no local do crime, quando tudo estivesse consumado. Dessa forma a polícia não teria a menor dúvida sobre a identidade da assassina.

"É mister reconhecer que o plano estava bem arquitetado.

Infelizmente, sua execução ficou pelo meio: se a primeira parte ou o crime propriamente dito seguiu o plano preestabelecido, a segunda desmantelou-se pela intrusão - que poderíamos qualificar de miraculosa - de Vauthier que foi o primeiro e o único a cair na cilada armada por um cérebro maquiavélico, quando descobriu na cabina do crime a écharpe perfumada de sua própria mulher! O resto, nós já sabemos de sobra.

"A grande surpreza foi reservada à bela Phylis quando no dia 6 de maio, ao abrir um jornal nova-iorquino viu estampada em manchete a notícia do crime do De Grasse contra um importante cidadão americano. O criminoso já estava preso a bordo, mas não era seu marido e sim o de sua rival! A notícia não encaixava com o cabograma lacônico recebido na véspera às cinco horas da tarde e assinado "Henri", o primeiro nome de seu marido: "Participo de sua dor".

"Outro fosse o temperamento de Phylis e ela teria sofrido um choque nervoso. Mas seu espírito prático e frio, incapaz de se comover, logo se recompôs. O importante é que embolsara 25 mil dólares. Contanto que o imbecil do marido não pusesse tudo a perder! Sim, porque a polícia poderia fazer levantamentos e nas suas investigações descobrir, por exemplo, que um dos últimos cheques assinados em Nova York por John Bell havia sido pago a uma certa mulher com o mesmo sobrenome do assassino! Philis ficara apreensiva. Foi por isso que a leitura dos jornais, no dia seguinte, a espantou e, ao mesmo tempo a tranqüilizou. Saberia a verdade quando seu marido viesse a Nova York, na próxima viagem ...

"Agora que conhecemos um pouco de Phylis Brooks só nos resta descobrir a identidade de seu marido e conseqüentemente do assassino de John Bell. Será trabalho relativamente fácil, graças aos elementos que já temos em mãos. Mas antes peço à Corte que libere a presença da Sra. Vauthier, já tão sacrificada na barra deste Tribunal" ...

- Pode retirar-se, senhora - disse imediatamente o Presidente Legris.

Assim que a jovem mulher saiu, Victor Deliot recomeçou:

- Para estabelecer rapidamente esta identidade, parece-me necessário chamar novamente a esta barra as primeiras testemunhas que depuseram no início do julgamento. Refiro-me às testemunhas puramente objetivas, isto é, as que não tinham nenhuma ligação de parentesco ou amizade com o acusado e que se limitaram a descrever fatos ou apresentar relatórios. Se não me falha a memória, foram os seguintes: o camareiro Téral, o Comissário Bertin, o Comandante Cardot, o Dr. Langlois, o inspetor Mervel e o Professor Delmot. Com o consentimento da Corte, proponho que cada uma destas testemunhas previamente citadas volte à barra para responder a algumas perguntas que tenho intenção de lhes fazer.

- A Corte não vê qualquer inconveniente e concorda - respondeu o Presidente Legris.

- Agradeço à Corte ...  Gostaria que as testemunhas se apresentassem na mesma ordem estabelecida pelo Sr. Promotor durante seus depoimentos anteriores. Creio que o primeiro foi o Sr. Téral...

- Sr. Téral - começou o velho advogado, quando o camareiro do De Grasse se apresentou diante da barra - o senhor declarou ter sido o primeiro a descobrir o crime ocorrido na cabina de luxo ocupada por John Bell?

- Realmente ...

- O senhor iniciou a busca metódica nas cabinas de luxo das quais estava encarregado, somente após uma ordem expressa do Comissário Bertin, desejoso de atender ao pedido aflito da Sra. Vauthier?

- Exato.

- Foi realmente uma surpresa para o senhor encontrar entreaberta a porta da cabina de John Bell?

- Não estou entendendo ...

- Sr. Téral, não é verdade que o que mais o surpreendeu foi encontrar o corpo caído atrás da porta e Jacques Vauthier, arrasado, sentado na cama?

- É verdade..

- Ainda mais que - continuou o advogado - aquela estranha visão não concordava absolutamente com a última que o senhor tivera da cabina duas horas antes..

- Continuo sem compreender ...

- Pois agora tudo vai se esclarecer! - afirmou Victor Deliot. - Duas horas antes da sua... digamos, descoberta oficial do crime, o senhor já havia entrado nessa mesma cabina com o passe-partout que todo o camareiro de bordo possui para facilitar seu trabalho a bordo... Procurou não fazer o menor ruído para não perturbar seu ocupante, deitado de pijama, a fazer a sesta ... A observação dos três primeiros dias de viagem lhe havia ensinado os hábitos de John Bell... Este dormia o sono dos justos, mas estava ainda muito vivo em perfeita saúde ...

A seu lado, na mesinha de cabeceira, o, cortador de papel que a Companhia Geral Transatlântica gentilmente põe à disposição dos passageiros para facilitar-lhes a leitura. Esse objeto constituía evidentemente uma arma ideal: o senhor sabia que o encontraria lá, ao alcance da mão ... Aquele rapagão adormecido não ofereceria resistência e passaria sem sentir deste mundo para o outro, deslizando do sono terrestre para o eterno ...

- Não lhe permito! - berrou o camareiro.

O auditório levantou-se num imenso clamor.

- Silêncio! - impôs o Presidente Legris.

- Ah! Com que então não me permite, Sr. Téral - prosseguiu Victor Deliot implacável. - Pois bem, acuso-o formalmente de ter matado John Bell em sua cabina às 13:45 horas no dia 5 de maio último, seccionando-lhe a carótida com o cortador de papel que, certamente, não trazia suas impressões digitais, pois deve ter tido a precaução de fazer o serviço com luvas.

Assim sendo, não teve o menor receio de deixar a arma do crime sobre a mesinha da cabeceira ao lado da écharpe de seda verde que roubara três dias antes da Sra. Vauthier. Por esta razão permito-me perguntar-lhe, Sr. Téral, se a presença inesperada de Vauthier perto do corpo da vítima não lhe teria causado um choque nervoso? Confesse que havía motivos de sobra para isso!

- Não compreendo nada do que estão dizendo - respondeu Henri Téral.

- O senhor parece ter muitas dificuldades em compreender as coisas, Sr. Téral, mas empalidece a olhos vistos! Já que sua memória é tão fraca, vou reavivá-la contando-lhe como descobri que é o senhor o criminoso! Como a investigação da polícia e dos magistrados não me satisfez, tratei de realizar uma por minha conta. Fiz um levantamento de toda a família Vauthier assim como do Instituto de Sanac... Examinei tambêm certos arquivos da Companhia Geral Transatlântica. Procurei o nome de todos os passageiros que viajavam no De Grasse naquela travessia fatal para John Bell. Examinei todos os cabos expedidos do navio. E entre um monte deles, chamou-me a atenção um assinado "Henri" e que dizia: "Participo de sua dor" - em inglês: I share your sorrow. Essa mensagem, um tanto empolgada não chamou a atenção dos radiotelegrafistas do De Grasse que nem pensaram em ligar essa dor partilhada à distância e o assassinato cometido a bordo, mas não passou despercebida a um velho teimoso como eu! Anotei que esse cabo assinado por "Henri" havia sido expedido do De Grasse apenas meia hora após o crime e destinado a uma certa Phylis Brooks, residente em Nova York. Encarreguei imediatamente um velho amigo que mora naquela cidade há bem um quarto de século de fazer uma investigação rápida e discreta sobre essa misteriosa desconhecida. Fui logo informado sobre a personalidade especial dessa linda jovem e suas mais recentes relações: entre elas figurava um certo John Bell, tragicamente assassinado a bordo do De Grasse em 5 de maio último. Soube também que essa tal Phylis Brooks se havia casado há três anos com um cidadão francês, um certo Henri Téral. Phylis continuava a usar seu nome de solteira por necessidade de sua profissão. Quanto ao telegrama, expedido de bordo do De Grasse, estava assinado Henri. Esse Henri misterioso só podia ser o marido de Phylis e se encontrava a bordo no momento do crime! Confesse que a coincidência foi curiosa! Não encontrando nenhum Henri na lista de passageiros pedi autorização à Companhia para percorrer a lista da tripulação. Foi então que encontrei o nome Henri acompanhado do sobrenome Téral, camareiro a serviço das cabinas de luxo entre as quais se encontrava a ocupada por John Bell.

"Tudo se esclarecia. A luz estava feita!" Um murmúrio de admiração percorreu a audiência. Danielle, espantada, contemplava seu velho amigo que, emocionado, tentava em vão ajustar seu lorgnon no nariz grande.

Pigarreou e terminou:

- Minhas conclusões, membros da Corte e Srs. Jurados, serão simples: o verdadeiro assassino de John Bell está diante de vós ... Será julgado no devido tempo e temo que a tarefa de seu defensor será pesada... de qualquer forma, pesada demais para as costas deste velho advogado. Pessoalmente, cumpri a missão que me foi confiada pelo Presidente da Ordem, o advogado Musnier, no dia em que me chamou a seu escritório para entregar-me a defesa de Jacques Vauthier que ides absolver. Não espero agradecimentos de ninguém, principalmente de meu estranho cliente a quem, infelizmente, causei um mal terrível, revelando-lhe a má conduta de sua mulher, nem desta última, que deve detestar-me por ter tornado públicos cértos fatos de sua vida íntima, nem, finalmente, da própria família deste infeliz rapaz que jamais me perdoará por ter evitado que ele fosse incriminado pura e simplesmente no Artigo 302 do Código Penal, pena máxima exigida pelo Promotor Berthier com uma veemência que, graças a Deus, provou ser inútil! A única pessoa que, do fundo do coração, deve estar agradecendo a Deus que me inspirou nesta Defesa é sem dúvida o Sr. Rodelec, o admirável e modesto Yvon Rodelec. Sua figura marcante elevou de maneira sensível o nível terra-a-terra destes debates ...

E se por seu lado devo agradecimentos, é a vós, membros da Corte e Srs. Jurados, que ouvistes esta longa oração de defesa com uma paciência que faz honra à Justiça francesa ...


Guy des Cars - O Bruto (capa)


6. O VEREDICTO

Victor Deliot finalmente se encontrava na Rua Saints-Peres, metido em seu roupão desbotado e nos seus chinelos velhos Afundado em sua cômoda poltrona, os olhos semicerrados, parecia prestar pouca atenção à conversa de sua jovem assistente Danielle. O gabinete de trabalho estava ilumznado, como sempre, apenas pela lâmpada do abajur sobre a escrivaninha.

- Deve estar cansado, mestre. Foi um dia extenuante.

Prefere que eu me retire?

- Não, minha filha - respondeu o advogado sem levantar as pálpebras. - Fique um pouco mais: sua presença é suavizante após toda aquela excitação do Tribunal... Além do mais, se não estivesse a seu lado agora, eu me sentiria um pouco só!

- Se soubesse como foi admirável, mestre! O senhor não apenas salvou Jacques. Humanizou-o. Do bruto que era transformou-o em uma criatura sensível, capaz de emoções ...

- Tanto melhor! Pelo menos você não se decepcionou com minha defesa. Senti que todos os outros me detestaram ...

a começar por meu cliente que teria preferido ser condenado por um crime que não cometera a saber da infidelidade de sua companheira!

- Se tivesse visto, mestre, com que paixão a audiência o acompanhou esta tarde durante quase três horas! Todo mundo estava pendente de seus lábios: o senhor não era mais oadvogado de Defesa mas encarnava toda a Justiça desempenhando alternadamente os papéis de policial, juiz de instrução, procurador, defensor e acusador!

- Enfim, fui uma espécie de Fregoli do Palácio ...

- O que vai acontecer agora, mestre?

- Coisas bem simples, minha filha. O verdadeiro assassino, preso em plena audiência após minha Defesa, será julgado e certamente guilhotinado: o que dará enorme prazer a Berthier... Para ele, o que conta é uma cabeça, tanto faz que seja de Jacques ou de Henri!

- E a mulher do assassino?

- A bela Phylis? Não se preocupe muito com ela! A estas horas deverá estar num night-club da Boadway sem saber se toma um pileque pela perda de um amante rico ou se festeja a alegria de se livrar de um marido que ela desprezava.

- Por que não libertaram logo o pobre Jacques? Sofreu tanto! Vai passar ainda esta noite na prisão?

- Minha filha, a Justiça é uma velha susceptível; está tremendamente envergonhada de se ter tornado um tanto ridícula, enganando-se redondamente ao tentar condenar um inocente!

Mas tranqüilize-se: antes de três dias Jacques Vauthier terá voltado para sua mu her.

- Voltado para ela? Espero que ele não faça isso!

- É preciso, minha filha ... Que será dele sem ela? E como é um rapaz inteligente já deve ter compreendido que a falta passageira de Solange é mínima em comparação à dedicação que ela lhe devotou desde a infância. Não consigo imaginar Jacques sem Solange nem Solange sem Jacques ...

- Seria monstruoso - respondeu Danielle indignada. - Uma mulher fria, egoísta, indigna do amor que lhe votou essa criatura admirável... Francamente, seria monstruoso!

Deliot examinou-a surpreso:

- O que é que há, minha filha?

Ela enrubesceu, confusa, forçando um sorriso.

- Ora... nada... Ou pelo menos nada mais além da emoção de ter acompanhado de perto sua defesa... E o senhor, mestre? O que pretende fazer agora?

- Eu? Tentar dormir tanto quanto você, minha filha, esperando que meus sonhos não sejam povoados de surdos-mudos, de senadores americanos, de cegos, de irmãos de São Gabriel, de médicos-legistas e de dançarinas da Broadway!

- Boa noite, mestre ...

A jovem, já no portal, voltou-se para dizer, após uma breve hesitação:

- Desculpe, mestre, mas antes de ir embora gostaria de esclarecer um detalhe que me intriga.

- Fale.

- É o seguinte: compreendi perfeitamente o motivo e o processo do crime ... Sua exposição diante da Corte foi suficientemente clara.. Não consegui explicar, entretanto, como descobriu o mistério dessa écharpe verde atirada ao mar por Vauthier que foi o único a saber que ela se encontrava na cabina.

Foi um elemento essencial. Com efeito, se Vauthier não tivesse encontrado perto do cadáver essa écharpe impregnada do perfume de Solange e que ele conhecia muito bem, não teria tido a prova material da culpabilidade de sua mulher... Teria mesmo pensado que outra pessoa, desconhecida, teria matado John Bell. E, nesse caso, não haveria razão alguma para acusar-se do crime! Não teria havido portanto o caso Vauthier, mas simplesmente o assassinato de um americano por X... e o senhor não teria sido chamado pelo Presidente da Ordem!

- Você tem toda razão, minha filha, só que houve a famosa écharpe! Como pensei nela? De uma maneira muito simples ... Diria quase infantil ... Lembra-se da minha primeira entrevista com Solange Vauthier, após um chamado telefonico dela? Foi numa manhã, às 11 horas, na alameda central do Roseiral de Bagatelle, lembra-se?

- Claro, mestre.

- Deve bem imaginar que, apesar de toda a minha miopia, analisei a jovem mulher dos pés à cabeça durante nossa primeira entrevista. Dois detalhes me empressionaram fortemente: seu perfume característico e a écharpe de seda cinza que ela usava ao pescoço ... Percebi imediatamente que era principalmente essa écharpe que ficava impregnada de perfume e, automaticamente, voltei em pensamento para uma passagem do romance O Isolado que acabara de ler na véspera, na qual o autor, isto é, Vauthier, dizia mais ou menos isto ao descrever a mulher de seu herói, surdo-mudo-cego como ele próprio ...

"Ela trazia sempre ao pescoço uma écharpe de seda verde que tinha o cuidado de perfumar ... Era um sinal de carinho para seu marido que amava, sem no entanto ter jamais visto a cor verde. Toda vez que aspirava o perfume que emanava da écharpe de seda, pensava no verde e o via à sua maneira." Fiz imediatamente uma ligação entre o casal Vauthier e os dois personagens principais do romance ... Deduzi então que o autor do livro devia amar também a écharpe perfumada que sua mulher costumava usar. Depois, não pensei mais no assunto. Tinha tantas perguntas importantes a fazer a Solange! Três dias se passaram antes que eu tivesse uma segunda entrevista com Solange Vauthier, desta vez aqui neste mesmo escritório. Mal ela entrou senti imediatamente seu perfume, sempre o mesmo, e fui atraído pela écharpe de seda cinza que ela usava ainda com o costume bem talhado. Concluí então que Solange Vauthier gostava particularmente dessa écharpe, a menos que a usasse freqüentemente para agradar ao marido, como a heroína do romance. Mas então, por que cinza em vez de verde? Levado mais pela curiosidade do que pelo dever profissional, disse-lhe que gostava muito de seu perfume. Ela me respondeu com tristeza que seu marido também o apreciava muito. Como eu sabia o papel importante que o olfato desempenhava na vida do enfermo, concluí, por mim mesmo, torno a repetir, que Vauthier não podia passar sem esse perfume que tornava sensível a presença de sua mulher. Seu marido sabia que esta écharpe era cinza? Ela respondeu simplesmente: "Não, meu marido, felizmente, sempre pensou que ela fosse verde! Não sei exatamente a razão, mas ele adora a cor verde... Em sua imaginação essa cor é sinônimo de frescor." Como eu parecesse intrigado, ela acrescentou, mostrando o tecido cinza: "Esta écharpe tem uma pequena história... Imagine que eu tinha uma écharpe idêntica, mas verde, que Jacques comprara para mim nos Estados Unidos. Ficava feliz quando eu a usava, freqüentemente a tocava, acariciando-a com voluptuosidade... Infelizmente algumas horas após a partida do De Grasse de Nova York, dei por falta dela. Procurei-a por todo canto pois lembrava-me muito bem de que a estava usando no dia do embarque. Fiquei pesarosa por Jacques, que dava tanta importância àquele pedaço de seda e temendo que ele visse nessa perda, que nada tinha de trágico, um mau presságio, fui a uma das lojinhas de bordo e por sorte encontrei esta, cujo tecido era idêntico à outra. Idêntico ao tato, porque como bem pode ver, esta é de cor cinza.

Pensei que afinal de contas, Jacques jamais a veria e o que importava era a sensação do tato. Comprei a écharpe e vaporizei-a com meu perfume. Foi uma mentira piedosa: ele nada percebeu .

- Respondi a Solange - continuou - que em seu lugar teria feito o mesmo e mudamos de assunto. Eu estava longe de imaginar, naquele momento, que a chave desse misterioso caso estava nessa écharpe que me parecia apenas um incidente sem muita importância. Refleti ainda durante alguns dias. Viajei para Sanac. Acompanhado do intérprete fiz visitas e mais visitas a meu cliente na prisão....  E tornei a ver sua mulher pela terceira vez: usava ainda dessa vez a famosa écharpe perfumada que acabava por me fascinar! Aquilo se tornou para mim uma verdadeira obsessão e pouco a pouco meu cérebro foi desenrolando a meada do crime ... Ele realmente estava assinado Vauthier, com suas impressões digitais espalhadas pelo local: só que eram impressões demais! Mas então, se Vauthier não era o verdadeiro criminoso e insistia em acusar-se, deveria ter bons motivos para querer salvar o verdadeiro autor que ele conhecia... Quem Vauthier teria interesse em salvar? Por quem um homem faria tão grande sacrifício? A única pessoa que respondia à minha pergunta era sua mulher, a linda e doce Solange. Fora portanto Solange que matara John Bell e Vauthier tinha prova disso ... Que prova? A écharpe verde, Deus do céu! A écharpe-talismã que Solange devia ter deixado na cabina do americano e que os dedos de Vauthier haviam apalpado... a écharpe impregnada de seu perfume ...

- Mas então - prosseguiu o velho advogado - surgia uma nova pergunta, desta vez angustiante: por que Solange teria matado John Bell? Por que querer livrar-se dele?. Devia existir uma ligação secreta entre Solange e o americano... Ela o teria matado sozinha ou com o auxílio de um cúmplice? John Bell era forte... Poderia o assassino ser uma criatura tão frágil? Duvidoso ... A menos que, e foi aí, minha pequena Danielle, que a luz se fez, o assassino fosse um desconhecido de Solange que quisesse, por algum motivo, o mal do americano e da bela francesa. Nesse caso, o melhor meio era matar o americano, fazendo tudo para incriminar Solange: bastava para isso deixar uma prova da presença da jovem mulher no local do crime... Tanto quanto eu, o assassino havia observado a écharpe perfumada no pescoço de Solange ... Só tinha de roubar essa écharpe: o resto você já sabe. Apenas eu me movimentava no terreno da hipótese: era preciso provar que Vauthier descobrira ao lado do cadáver a famosa écharpe verde de sua mulher. Foi por isso que, na véspera da abertura do julgamento, aconselhei Solange a apresentar-se usando sua écharpe de seda cinza. Meu plano era preciso: faria com que Solange, a um determinado momento, se aproximasse do acusado: o suficiente para que este sentisse seu perfume ... Você mesma assistiu à sua reação ... Fez tudo para arrancar do pescoço de Solange a écharpe que julgava verde... aquela terrível prova da culpabilidade de Solange que encheu de espanto toda a audiência: ele não podia compreender como podia estar lá a écharpe que ele tivera o cuidado de fazer desaparecer no momento em que assumiu a responsabilidade do crime! Aí está, Danielle, todo o mistério da écharpe desvendado ...

- Desculpe, mestre, mas não me disse como adivinhou que , Vauthier se havia livrado dessa écharpe comprometedora - Nesse caso, meti-me na pele do personagem: o que eu teria feito no lugar de Vauthier, se descobrisse ao lado do cadáver um objeto familiar pertencente à mulher que eu queria salvar a qualquer preço? Eu o teria simplesmente atirado ao mar pela vigia junto com a arma do crime. Boa noite, minha filha.

Não pense mais nisso: teria pesadelos inúteis!

Danielle ouvia absorta, como se não conseguisse libertar-se da cena da cabina, onde um homem, por amor, acusava-se falsamente de um crime. Dirigiu-se para a porta como um autômato. No momento em que ia sair, Victor Deliot, que não se havia movido da poltrona, chamou-a:

- Minha filha....

Pronunciou aquelas palavras com uma tal ternura que ela se voltou, admirada.

- Venha aqui - continuou o velho advogado. - Aproxime-se para que eu possa vê-la de perto ...

Ela obedeceu. Victor Deliot ajustou no nariz seu eterno lorgnon. Examinou em silêncio sua jovem pupila:

- Minha filha, não estou gostando desse rosto desfeito ...

nem de seus olhos! O que há?

- Mas ... nada, mestre! - respondeu ela com vivacidade.

- Verdade? Então por que seus olhos estão cheios de lágrimas?

- Garanto-lhe, mestre ...

Não teve forças para terminar. Desatou em soluços escondendo o rosto contra o braço da poltrona.

- Vamos, o que é isso! - disse Victor Deliot com um gesto de que ela sempre o julgara incapaz: acariciava-lhe os cabelos... Seu tom áspero suavizou-se quando acrescentou: - Pensa então que não compreendi? Que um velho urso como eu é incapaz de perceber os sentimentos íntimos, às vezes estranhos e puros que podem animar o coração de uma filha? Olhe para mim... - obrigou-a a erguer a cabeça - e ouça-me: Jacques Vauthier, minha menina, não pertence ao mesmo mundo seu e meu. Ele e você seriam sempre completamente estranhos um para o outro ao contrário do que julgou sentir à medida que o observava no decorrer do julgamento. No início, ele lhe causava um horror injustificado. Depois, aos poucos, foi se deixando enternecer. Tudo isso, minha filha, é coisa passageira: são sentimentalismos de uma menina com um coração de ouro. E gosto que seja assim, Danielle. Mas para consagrar a vida a um surdo-mudo-cego de nascença é preciso ter um coração de aço ...

Solange possui esse coração... Teve uma fraqueza passageira, perfeitamente desculpável: sei que não recairá. A crise passou.

Quanto a você, guarde bem, se quer ter sucesso na nossa profissão não se deixe jamais enternecer por um cliente! Ou melhor, não faça como eu! Veja o que sou: um velho advogado fracassado! Vamos, minha filha, levante-se e volte para casa sorrindo. É o que sempre se deve ter a coragem de fazer depois de uma desilusão de amor.

O dia estava radioso: abril havia recoberto de brotos verdejantes as árvores desnudas da capital, os pardais recomeçavam a piar nos parques e nos parapeitos das janelas. Victor Deliot passeava com seu chapéu de palha amarelecido ... Seguindo rito imutável, o velho advogado - após ter subido a grande escada do Palácio da Justiça e atravessado a Sala dos Passos Perdidos - dirigiu-se para o vestiário dos advogados.

Trocou o chapéu velho pelo velho barrete. Enfiou então a toga sobre o terno surrado. A pasta de couro deformada, onde se encontrava a eterna Gazette du Palais, completava a figura.

Victor Deliot voltara aos velhos hábitos.

Na entrada da Galeria Marchand deparou com Musnier, o Presidente da Ordem, que exclamon:

- Deliot! Nem acredito! Então meu velho, o que tem feito? Há mais de cinco meses não é visto no Palácio! Mas , claro, depois do seu triunfo no caso Vauthier...

- Não exageremos ... - respondeu o advogado com tranqüilidade.

- Como, meu velho? Se todo o Palácio e a imprensa não fizeram outra coisa se não falar de você! Ficou célebre da noite para o dia e então, pssst! Nada de Victor Deliot, desapareceu o Grande Homem! O que lhe aconteceu?

- A mim? Nada ... Esperei pacientemente em minha casa que me viessem propor grandes causas.

- E foram?

- Ninguém. Eu já desconfiava... O que quer? Pertenço à velha guarda... Atrapalho os arrivistas... Além do mais não sou muito sociável...

- Vamos, deixe de pessimismo! Ouça: tenho justamente um caso sensacional para lhe propor... Trata-se de um aleijado que matou a mulher...

- Decididamente, você quer fazer de mim o advogado dos milagres! Não, obrigado! Prefiro retornar à minha tranqüila Vara Correcional...

- Está louco?

- Talvez... a menos que eu seja sábio!

- Bem, você é livre para agir como lhe parecer melhor, o que não lhe impede de vir visitar-me de vez em quando. Tenho sempre bons charutos ...

- Ah, tenta atingir meu ponto fraco? ...

Victor Deliot esboçou um sorriso, enquanto Musnier se afastava. E continuou tranqüilamente sua caminhada pelo Palácio, passando de cartório em cartório e de Vara em Vara para consultar os quadros de avisos com seus casos pendentes. Três horas mais tarde, perdido na multidão, saía do vestiário dos advogados sem a toga e novamente com seu velho chapéu de palha. O ar estava perfumado: incitava ao sonho. Victor Deliot retomou o caminho de sua casa, vagabundeando pelo Cais dos Grandes-Augustins, remexendo velhos sebos. Parava diante de cada tabuleiro, folheava um livro amarelecido, ajustava seus lorgnons para melhor contemplar uma velha estampa...

Mas na realidade nada via... continuava perdido em seus sonhos que o levavam para longe, bem longe, até o Instituto São José, em Sanac; do qual sentia grande saudade. Pelo menos lá se encontrava a verdadeira paz e se conseguia esquecer rapidamente de todas as maldades e paixões dos homens.

Chegando ao patamar de seu apartamento da Rua Saints Peres, ficou deveras surpreendido de ali encontrar alguém que o esperava: Yvon Rodelec. Um Yvon Rodelec de batina preta, revirando nas mãos rudes seu chapéu de três pontas como se estivesse intimidado. Um homem de olhar luminoso, mesmo sob seus óculos de lentes grossas, um velho que, apesar da sua alta estatura, parecia se ter encurvado um pouco mais ...

- Que surpresa agradável! - exclamou o advogado, entrando no apartamento com seu visitante. - Que coincidência!

Voltando do Palácio, vinha pensando justamente no senhor, em seus colaboradores de Sanac, em seus alunos também ...

- Antes de mais nada quero desculpar-me, caro mestre, - disse com suavidade o Irmão de São Gabriel, - por não lhe ter vindo agradecer há mais tempo tudo o que fez pelo meu pequeno Jacques ... Mas não ousei revê-lo até que tudo tivesse terminado e bem terminado!

- Claro! O verdadeiro culpado teve seu castigo e o inocente foi inocentado ... Como vai meu ex-cliente?

- O senhor deve ter estranhado que nem ele nem sua mulher tenham vindo expressar-lhe sua gratidão ...

- Isso faz parte da vida, Sr. Rodelec... O senhor mesmo deve ter aprendido há muito tempo que a verdadeira recompensa não é o reconhecimento humano. Mas deixemos isso de lado e voltemos à minha pergunta: como vai Jacques?

- Bem. Muito bem mesmo ... Posso até lhe dizer que uma nova felicidade vai começar para ele ...

- Que boa notícia!

- Sim, a finalidade principal da minha viagem a Paris é de reconciliá-lo com sua mulher, que ele perdoou de todo coração.

- Sempre achei que, apesar de certas aparências, essas duas criaturas foram feitas uma para a outra. A ternura não é o elemento durável de um grande amor?

- Estou feliz em poder dizer-lhe que convenci Jacques e Solange a voltar a Sanac durante alguns meses. Terão oportunidade de se reencontrarem mutuamente naquela atmosfera que lhes foi tão salutar. Amanhã cedo, tomaremos o trem para Limoges.

- Estou encantado com o que me disse. E o senhor, Sr.

Rodelec? E se falássemos um pouco do senhor? Como tem passado?

- Vou envelhecendo como todo mundo ... Apesar dos óculos, não enxergo muito bem e... estou cada vez mais surdo. Admita que seria curioso, após ter procurado durante toda a vida dar a crianças infelizes o meio de enxergar sem olhos e ouvir sem ouvidos, tornar-me cego e surdo! Se isso me acontecesse, agradeceria a Deus que o teria consentido para que eu compreendesse de uma vez por todas o verdadeiro sentimento que experimentam meus queridos alunos ...

- O senhor jamais mudará, Sr. Rodelec ...

- Nem o senhor, meu caro mestre!

- Não é privilégio dos velhos assemelharem-se um pouco?

- Apesar do extremo prazer em conversar com o senhor , sou obrigado a deixá-lo - disse Yvon Rodelec levantando-se.

- Tenho ainda uma visita a fazer...

- Aposto que se trata de um novo doente que tenciona carregar para Sanac!

- Decididamente, caro mestre, o senhor não faria feio como psicólogo ... Sim, trata-se de um pobre menino atingido por essa tripla deficiência desde seu nascimento. Não sei ainda se poderei levar esse menino para Sanac apesar do meu imenso desejo de não deixar este mundo antes de ter educado um vigésimo aluno ...

Sozinho, Victor Deliot afundou-se na poltrona após ter calçado os chinelos e se ter enrolado no roupão desbotado. Suas pálpebras estavam fechadas, mas ele não dormia. Sua mente rememorava todo o caso Vauthier com suas testemunhas, algumas odiosas, outras desastrosas por excesso de boa vontade, seu promotor astucioso e sutil, o presidente calmo e compreensivo, o acusado, enfim, murado em seu silêncio ... Imaginava a estranha viagem que se realizaria no dia seguinte no compartimento do expresso de Limoges no qual estariam quatro pessoas: Jacques, Solange, Yvon Rodelec e seu novo pensionista ...  O advogado conhecia por demais o coração do velho educador para saber que não resistiria à necessidade de educar uma nova inteligência com o desejo secreto de atingir uma alma... Quatro pessoas que desembarcariam na pequena estação de Sanac algumas horas mais tarde para ali encontrar um Irmão Dominique sorridente e tagarela que lhes contaria as últimas novas da portaria e os conduziria até a velha carroça recoberta por um toldo escuro que servia para as idas à cidade e o abastecimento da instituição. Uma carroça que fazia de ônibus e de veículo de carga ao mesmo tempo, cujo cavalo cinza-malhado rivalizava em velhice com o fiel Valentin que acumulava as funções de jardineiro e de cocheiro. Victor Deliot sabia que no Instituto São José cada um exercia várias funções, não tendo portanto oportunidade para se entediar.

Sempre sonhando, via a carroça sacolejante, onde no banco ao lado de Valentin ia o Irmão Dominique distribuindo bons dias de um lado e de outro. Quem poderia suspeitar de que no interior daquela velha carroça se encontrava o vigésimo morto-vivo que ia reunir-se a seus irmãos de miséria sem ter consciência do que lhe iriam fazer?... O vigésimo aluno de Yvon Rodelec sentado ao lado do décimo nono, Jacques Vauthier, não mais um bruto, mas um homem como os outros, capaz de enfrentar uma nova felicidade.

O trajeto entre a estação e o Instituto era longo: o advogado notara isso no dia da sua primeira visita a Sanac, visita que jamais esqueceria. Um trajeto que parecia interminável para um homem normal, mas nem Vauthier com sua fisionomia enganadora, nem Solange, tão frágil, nem Yvon Rodelec, tão bom, nem o novo pensionista, amorfo, nem o humilde Valentin, nem o tagarela irmão porteiro eram pessoas normais. Constituíam personagens à parte num século de velocidade, de progresso, de covardia, de egoísmo ...

Victor Deliot via distintamente a carroça parar diante de um enorme portal sob o qual estava escrito em letras brancas:

"Instituto Regional dos Surdos, Mudos e Cegos". Os muros que flanqueavam o portão pareciam imensos, semelhantes aos de uma prisão, em tijolo lavado pelas intempéries. O portão se abriu e a carroça atravessou o limiar num último esforço. Enquanto os pesados batentes tornavam a fechar-se, Victor Deliot julgava ouvir o martelar dos cascos e o rangido das rodas sobre o cascalho do pátio interno. Depois, o silêncio. Nenhum ruído atravessava os altos muros.

O novo pequeno bruto devia estar prostrado, esperando que o bom gênio desconhecido viesse lhe dar a Luz... As jovens mãos da doce Solange viriam em auxílio das mãos enrugadas e envelhecidas de Yvon Rodelec para a realização de um novo milagre. Quem sabe o instinto maternal da jovem, que ainda se poderia extravasar num filho de sua própria carne, inventaria uma nova boneca de trapo semelhante a Flanelle e seria capaz de estabelecer com o pequeno enfermo o primeiro contato com a vida?

FIM

 

Guy des Cars - O Bruto (capa)


'O BRUTO'
GUY DES CARS (1911-1993)
-texto integral-
Título original: La Brute
1.ª Edição: 1951
Tradução: Elia Ferreira Edel
Editora Record



 

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17.Out.2017
Publicado por MJA