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Guy des Cars

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1. O ACUSADO
Há quase meio século, ele atravessava invariavelmente,
três vezes por semana, a Galeria Marchande, após ter passado pela Sala dos Passos Perdidos. Achava que aquele passeio, para
ele indispensável, lhe permitia "respirar o bom ar do Palácio".
Tudo, desde seu passo arrastado até aquela maneira que lhe era
peculiar - quando cruzava com algum colega - de puxar
levemente sua roupa com a ponta dos dedos para esboçar uma
vaga reverência, fazia parte de sua rotina. Às segundas, quartas
e sextas, exatamente à uma hora da tarde, era certo encontrá-lo
a subir os degraus da grande escadaria externa que dava para
a alameda do Palácio e se dirigir, sem prestar atenção a quem
quer que fosse, para o vestiário dos advogados.
Lá, deixava quase com pena seu chapéu-coco durante o
inverno e seu chapéu de palha amarelecido na época do verão
para cobrir a cabeça com um barrete gasto que ele usava bem
para trás para esconder sua calva. Enfiava então uma toga surrada na
qual não se viam condecoração alguma ou medalha de
Honra ao Mérito, sem se dar ao trabalho de tirar seu casaco
esverdeado. Essa duplicata de roupas lhe emprestava uma corpulência que
ele estava longe de possuir na realidade, embora
já tivesse ultrapassado a casa dos 60 anos. No momento de
deixar o vestiário para começar sua ronda habitual, ele completava
sua figura, enfiando debaixo do braço esquerdo uma
velha pasta de couro cujo único conteúdo certo era a Gazette du
Palais.
Era somente assim, investido de seus atributos profissionais,
que começava a cumprimentar os seus colegas, acreditando que
havia trocado o incógnito da vida civil pelos esplendores da vida
judiciária. De vista, conhecia todo mundo no Palácio, desde os
mais ilustres presidentes das Cortes até os mais humildes escreventes,
passando pela lista inumerável dos procuradores, juízes,
advogados importantes e insignificantes que ele tantas vezes encontrava
nas diferentes Varas superlotadas, nos corredores
poeirentos e nas escadarias intermináveis. Conhecia todo mundo, mas
ninguém sabia exatamente quem ele era. Alguns colegas mais
jovens chegavam a se perguntar o que fazia aquele fantoche mal
vestido, de bigodes caídos e lorgnon fora de moda, a perambular
pelo imenso edifício onde raramente defendia uma causa.
Aliás, ele se importava muito pouco com a opinião que
na Justiça tivessem dele. Ia de cartório em cartório e de Vara
em Vara para consultar os quadros onde se anunciavam os
"casos pendentes". Quatro ou cinco vezes por ano, podia-se
encontrá-lo diante de qualquer Vara Correcional onde ele se
esforçava para obter a indulgência do Tribunal para um malandro
inveterado. Sua atividade profissional, seus talentos oratórios
e sua ambição pareciam limitar-se a isso. Assim era Victor
Deliot, inscrito na Ordem dos Advogados de Paris há 40 anos.
Estava sempre só. Alguns raros veteranos lhe atiravam de
passagem um cumprimento amigável, mas sem , parar, preferindo evitar
um colega tão insignificante e completamente incapaz de lhes levar
um caso interessante. Por isso, Victor Deliot
ficou surpreso e inquieto quando ouviu um contínuo a chamá-lo
no saguão:
- Mestre Deliot ... Há 20 minutos que o procuro por toda parte ... O Dr. Musnier
pede que compareça com urgência no seu gabinete...
- O Presidente da Ordem? - gaguejou o velho advogado. - O que ele
quer comigo?
- Não sei - respondeu o contínuo - mas é coisa de
urgência! Ele está a sua espera.
- Obrigado. Já vou.
Conhecendo Musnier de longa data, não se apressou
demais. Haviam feito juntos o curso de Direito e inscreveram-se
na Ordem dos Advogados de Paris no mesmo ano, depois de
Deliot ter ajudado seu colega a preparar sua tese. Musnier não
se mostrara particularmente brilhante durante seus estudos, ao
passo que Deliot havia deslumbrado o Júri.
Desde esses tempos longínquos, as coisas haviam mudado
muito. Musnier tivera a chance notável de ser designado oficialmente,
logo no início da sua carreira, para defensor num caso de
costumes, escandaloso, tendo conseguido absolver uma cliente
já condenada previamente pela opinião pública. Depois disso,
o jovem advogado só teve de se deixar levar por sua reputação
de grande causídico, glória exagerada na opinião de Deliot, que
considerava seu amigo um defensor execrável. Mas, após 45
anos de mediocridade, o vencido da batalha resignava-se a vegetar,
apanhando os casos desprezados por seus colegas. Victor
Deliot vivia das migalhas do Palácio.
No fundo, ele detestava cordialmente Musnier que, como
todos os arrivistas, não gostava de encontrar, em seu caminho
glorioso, velhos companheiros que o haviam conhecido muito
menos brilhante. Já havia acontecido a Deliot ter cruzado com
Musnier nos salões do Palácio da Justiça, depois que este fora
eleito para o invejável cargo: consciente da sua importância,
ele mal se dignara a responder ao cumprimento do antigo colega.
Deliot não se surpreendera demais, reconhecendo perfeitamente
que ele era a vergonha da classe aos olhos de um homem como
Musnier, que não admitia a má sorte persistente. Foi nesse
estado de espírito que o velho e fracassado advogado bateu timidamente
à porta do gabinete de S. Exa. o Presidente da Ordem
dos Advogados de Paris.
- Bom dia, Deliot - disse-lhe este com uma amabilidade
desusada. - Faz um bocado de tempo que não nos vemos. Por
que não aparece de vez em quando para conversarmos?
Deliot estava pasmado: seu antigo camarada lhe aparecia
quase sorridente.
- Bem, você sabe! - balbuciou ele. - Eu não o quero
atrapalhar. Você anda sempre tão ocupado!
- Nada disso, meu velho! Nunca estou ocupado quando
se trata de receber um amigo ... Um charuto?
Deliot hesitou antes de enfiar a mão na luxuosa caixa que
lhe foi apresentada e acabou por dizer, servindo-se:
- Obrigado. Deixo para saboreá-lo esta noite...
- Vamos! Tire mais alguns!
O presidente lhe estendeu um punhado de charutos que
Deliot se apressou em guardar, pela abertura da sua toga, nos
bolsos do colete.
- Sente-se, meu caro!
Deliot obedeceu. Musnier conservou-se em pé e, caminhando de um
lado para outro no seu amplo gabinete, continuou:
- Diga-me: já ouviu falar do caso Vauthier?
- Não.
- Tratando-se de você, isso não me surpreende! Será que
nunca vai mudar? Afinal o que é que você faz no Palácio o dia
inteiro?
- Ando por aí ...
- É exatamente isto o que me desgosta ... De qualquer forma, lembrei-me de
você...
Deliot arregalou os olhos atrás de seu lorgnon.
- Este caso Vauthier, que você ignora, fez um bocado de
barulho há seis meses ... Vauthier matou um americano a bordo do De Grasse,
durante uma travessia de Nova York ao Havre ...
Um crime inexplicável, cujo verdadeiro motivo ainda não foi
descoberto. Vauthier matou um homem que nunca vira, que
não o conhecia e do qual nada roubou! Naturalmente, o comandante
do De Grasse o prendeu imediatamente a bordo, entregando-o à polícia
que veio buscá-lo no porto do Havre. Atualmente, ele está internado
na prisão da Santé, onde aguarda o julgamento que será dentro de
três semanas. É tudo.
- E foi para me contar isso que me mandou procurar com tanta urgência?
- Sim ... porque tenho a intenção de lhe confiar o caso ...
- A mim?
- Exatamente.
- Mas eu não sou criminalista!
- Uma boa razão para que você se torne um! Já não está farto da Vara
Correcional? Ouça, meu caro: magoa-me profundamente ver um homem com seu valor e
sua idade a desperdiçar tempo e talento com histórias de cães atropelados,
ladrões de galinha ou leões-de-chácara! Mexa-se um pouco, Deliot! A Correcional
é para rir, enquanto que o Tribunal Criminal é coisa séria ... Desde que um indivíduo arrisque a
cabeça, você sabe muito bem que a opinião pública se apaixona.
E é com ela que contamos em nossa carreira. Saiba, com certeza
absoluta, que, se você se der bem com o caso Vauthier, atrás
dele virão outros, importantes e lucrativos!
- Evidentemente - reconheceu Deliot. - Talvez você tenha razão e eu lhe agradeço
por ter pensado em mim ...
- Devo adverti-lo, logo de início, de que não deve esperar
grandes lucros: financeiramente, o caso Vauthier não é
interessante. Não há dinheiro metido nisso ... Mas, publicitariamente,
para você será um bom negócio ... Ah, um detalhe
importante de que me ia esquecendo: já há dois colegas nossos
nesse caso ... Charmaux e De Silves. Conhece-os?
- De nome ...
- Isso também não me admira! Mas será que você nunca
vai conhecer gente importante, meu amigo? É por isso que nada
arranja! Entre colegas, um escora o outro, passam-se causas, a
solidariedade profissional funciona. Enfim, vamos ao que interessa.
Charmaux devolveu os autos após ter estudado o caso
durante algum tempo, sem apresentar suas razões ... Falei
com De Silves, que é um rapaz muito brilhante e que me deixara
perceber que o caso Vauthier lhe interessava. Alguns dias mais
tarde, Charmaux lhe entregava tudo. Pessoalmente, tive a impressão de
que ele estava aliviado por se ter livrado dele...
Tudo corria normalmente quando, na semana passada, inesperadamente,
De Silves veio me procurar para me dizer que,
decididamente, não podia continuar com esse caso ... e isso a
três semanas da abertura do julgamento! Tive de me pôr imediatamente
à procura de um novo defensor e, acredite se quiser,
não o encontrei! Todos se recusaram ... Sou portanto obrigado, de acordo com o
Presidente Legris, que conduzirá os debates, a convocar alguém oficialmente. Foi
quando pensei em você...
Ao pronunciar estas últimas palavras, o olhar do eminente
advogado evitou o de Deliot que finalmente descobriu a verdadeira
razão da amabilidade excessiva com que estava sendo
tratado.
- Aqui está o processo - continuou Musnier vivamente,
designando uma pasta volumosa, entulhada de papéis, que
ocupava o centro da sua escrivaninha.
Depois de se ter levantado, o velho advogado examinou o
dossiê antes de responder:
- Compreendo muito bem ... Em todo o caso, nunca
vou poder dizer que meus ilustres predecessores não acumularam um
número impressionante de provas ... Esperemos que
sejam todas convincentes!
Sem mais uma palavra, enfiou o processo na pasta, onde
o caso Vauthier foi fazer companhia à Gazette du Palais, e
dirigiu-se para a porta.
- Deliot - disse-lhe o Presidente da Ordem, bastante
constrangido. - Você deve me detestar!
- Mas claro que não! Você fez seu papel, eis tudo! E eu vou procurar fazer bem o
meu ...
- Você não deve levar as coisas por esse caminho! Ontem,
antes de me decidir a chamá-lo, folheei o processo a fim de saber
por que motivos os outros colegas o rejeitaram. E acho que
cheguei a uma conclusão. O caso em si parece muito banal:
o crime é evidente ... Aliás o assassino não tentou negá-lo de modo algum. A
personalidade da vítima me pareceu inofensiva, ao passo que a do criminoso, esse
Jacques Vauthier, é das mais curiosas. Talvez tenha sido exatamente ela a causa
da rejeição de sucessivos defensores ...
- Ah, você vai sem dúvida me anunciar que se trata de
um monstro?
- Não o quero influenciar... Leia o processo: você
mesmo vai descobrir ... Talvez vá necessitar de uma prorrogação
de prazo. Se acha que tem pouco tempo, não hesite: venha
falar comigo e adiaremos o julgamento.
- Farei o impossível para evitar isto - respondeu Deliot.
- Quando o vinho é servido, tem de ser bebido: assim
também, quando um crime é cometido, deve-se julgá-lo o mais
breve possível. Ou o acusado é culpado e deve ser condenado
sem mais demora, ou é inocente e considero injusto prolongar
sua prisão preventiva.
- No caso em questão, meu caro, parece que a culpabilidade de seu novo cliente
não pode ser posta em dúvida. Além do mais, por sua atitude imediata ao crime,
tudo faz supor que se declarará culpado ...
- Permita-me observar-lhe, meu caro presidente, que esse ponto preciso só diz
respeito a ele e a mim...
- Sem dúvida. Mas afinal ele matou, declaradamente! E,
nesse caso, seis ou oito meses de prisão preventiva não farão
grande diferença no total da pena que ele pegará, mesmo que
você consiga salvar-lhe a pele!
- Voltarei dentro de oito dias para lhe dar minha opinião
- disse Deliot, simplesmente, à guisa de despedida.
Achou que seria supérfluo apertar a mão daquele inimigo
cordial que o incumbia de uma causa perdida.
Pela primeira vez, atravessou rapidamente a Galeria Marchande.
Na entrada da Sala dos Passos Perdidos, esbarrou em
Berthet, um daqueles inumeráveis colegas que normalmente
fingem não vê-lo.
- Você, Deliot! - exclamou Berthet. - Como vai o meu
caro amigo?
Deliot quase deixou cair a pasta, de espanto: qual, aquele
era mesmo um dia de surpresas.
- E parece que as coisas vão bem! - continuou seu interlocutor,
apontando para a pasta inchada pelo processo Vauthier.
- Trabalho é o que não lhe falta. É pelo menos interessante?
- Realmente - respondeu o velho advogado, assumindo um ar confidencial. - Estou
com um caso importante ...
- É mesmo? Correcional?
- Criminal! - declarou negligentemente Deliot e se afastou,
deixando Berthet completamente estupefato.
Enquanto se encaminhava para o vestiário, para trocar
seu barrete deformado por seu chapéu-coco amarrotado, o novo
defensor de Vauthier pensou que pela primeira vez em sua vida
acabara de marcar um ponto. Somente o fato de ter podido
pronunciar essa palavra, ao mesmo tempo terrível e mágica,
Criminal, havia levantado seu moral extraordinaríamente. Agora,
precisava, de qualquer forma, ganhar a causa... Mas o que
poderia haver naquele processo para que ninguém o aceitasse?
Ele o soube algumas horas mais tarde, após ter lido e relido
as peças acumuladas por seus dois predecessores. Algumas estavam
cheias de anotações pessoais. Deliot começou por apagar
todas as apreciações de seus colegas. Ele jamais anotava coisa
alguma, preferia ater-se unicamente às provas, cuja conexão
lhe bastava, confiando mais em sua memória.
Fora, a noite invernal já havia caído, se bem que ainda não
fossem mais que cinco horas. O gabinete de trabalho, que era
também biblioteca e sala de visitas do modesto apartamento
onde Victor Deliot morava há anos, no quinto andar de um
velho edifício da Rua Saints-Peres, só estava iluminado, naquela
noite, pela lâmpada de um abajur verde, colocado sobre a escrivaninha.
O advogado se dirigiu, com seus passos arrastados,
até um cabide dissimulado ao fundo do vestíbulo: apanhou um
roupão desbotado que vestiu, como sua toga, sobre o paletó.
Entrou então na pequena cozinha para esquentar o café, que a
empregada deixara pronto. Levou o bule e uma xícara lascada
para sua mesa de trabalho: o primeiro foi colocado em
seu lugar habitual, sobre o fogareiro, única fonte de calor do
apartamento; a segunda, ele a deixou sobre o tapete gasto, aos
pés de uma velha poltrona, onde se instalou, após ter acendido
um dos charutos oferecidos pelo Presidente da Ordem. Ao cabo
de algum tempo, a beatitude desse conforto aconchegante pareceu
completa ao velho e solitário advogado.
Victor Deliot refletia, os olhos semicerrados. Apenas por
duas vezes, saiu de seu torpor aparente para estirar o braço até
a escrivaninha, onde se encontrava o telefone:
- Alô? Mestre Charmaux? Aqui fala Deliot ... Ainda não nos conhecemos
pessoalmente, pois infelizmente não tivemos ocasião de nos encontrar por motivos
profissionais ...
Creia, meu caro colega, que o prazer teria sido todo meu ...
Tomei a liberdade de lhe telefonar a respeito do caso Vauthier
que acabo de herdar, se é que se pode dizer assim! ... Não,
não está mais com o Dr. De Silves ... Sim, aceitei! É exatamente
por esta razão que venho lhe perguntar, a título puramente
profissional e estritamente confidencial, por que desistiu
do caso?
A resposta foi longa e embaraçada. Victor Deliot escutava,
sacudindo a cabeça e pontuando de vez em quando as frases de
seu colega com "veja só!, veja só!", ou então "que coisa estranha!".
Quando finalmente Charmaux terminou suas explicações,
o velho advogado lhe disse com uma delicadeza absolutamente
profissional:
- Peço-lhe desculpas novamente, meu caro colega, por tê-lo incomodado.
Compreendo perfeitamente os motivos imperiosos que o obrigaram, contra sua
vontade, a renunciar a este caso.. Agradeço desde já sua gentileza e espero ter
o prazer de conhecê-lo pessoalmente qualquer dia...
Desligou repetindo: "Curioso! Curioso mesmo!"
Alguns minutos mais tarde, discou um outro número:
- Alô? Gostaria de falar com o Dr. De Silves, da parte
de seu colega Deliot ... De de Denis e Liot, um pouco parecido com Lion ...
Constatou imediatamente que seu nome não devia ser pronunciado
com freqüência na casa de seu ilustre colega, o que
para ele era completamente indiferente.
- Alô? Mestre De Silves? Aqui fala Deliot...
Apresentou as mesmas desculpas pelo incômodo, fez a
mesma pergunta, escutou, sacudiu de novo a cabeça, agradeceu
e desligou murmurando: "Estranho! Estranho mesmo!"
O silêncio voltou a reinar na pequena sala aromatizada
pelo cheiro do charuto interminável. Lá fora, estava cada vez
mais escuro, mas a lâmpada do abajur verde ficou acesa até de
madrugada...
Quando a empregada, no dia seguinte bem cedo, entrou no
apartamento, surpreendeu-se de encontrar o dono da casa adormecido
na poltrona. Quando inspecionava o quarto de dormir
para verificar se o advogado usara a cama, ouviu a voz pastosa
de Deliot que lhe perguntava:
- É você, Louise? Que horas são?
- Oito horas, senhor.
- Já! - resmungou o advogado antes de acrescentar: - E
quantas vezes preciso repetir-lhe que a maioria dos mortais nos
costuma chamar de mestre? Por quê? Não me pergunte, só sei
que é assim! Faça-me logo um bom café.
- Bebeu todo o que deixei?
- Sim.
- Parece que quase não dormiu.
- É, realmente dormi muito pouco ...
Durante aquela noite de insônia, Victor Deliot havia recebido
uma visita, pouco depois da conversa telefônica com o Dr.
De Silves:
- Boa noite, mestre. Estava preocupada: procurei-o por toda parte no Palácio ...
- Vim mais cedo que de costume.
- Espero que não esteja doente...
- Não, minha filha ...
Danielle não era sua filha, nem mesmo sua parenta, mas
ele se habituara a chamar assim a jovem estudante que terminava
o curso na faculdade de Direito. Como tantas outras
colegas, Danielle Gény sonhava com o Foro. Por outro acaso,
havia encontrado, alguns meses antes, Victor Deliot no terraço
de um café na Alameda Saint-Michel. Rapidamente, o homem
experimentado do Palácio e a advogada em formação se tornaram
bons amigos. Com seu espírito de contradição habitual,
Victor Deliot tentou dissuadir sua jovem colega de exercer a
profissão, mostrando-lhe com muitos exemplos que o Direito
conduzia ao sucesso, uma vez que se desviasse da sua trilha.
Danielle, que chegara à capital cinco anos atrás transbordante
de ambições juvenis e de esperanças, ficara um pouco chocada.
Seu novo amigo não lhe descrevia, com uma franqueza comovente,
a miséria que a esperaria, se não conseguisse afirmar-se
logo nas primeiras defesas? Fê-la compreender que ele, melhor
que ninguém, estava em posição de lhe dar conselhos.
- Aquela modéstia tão sincera acabou por criar uma corrente
de simpatia. A jovem descobriu logo que não devia tomar todas
as palavras do advogado por verdades evangélicas e se obstinou
em sua carreira. Pouco a pouco, Victor Deliot acabou por se
interessar por seus estudos. Danielle e Louise, a empregada,
eram as únicas mulheres que podiam entrar a qualquer hora na
intimidade um tanto boêmia do apartamento do velho solteirão.
Por um momento, Danielle se perguntara se seu novo amigo
não estaria apaixonado por ela, mas compreendeu rapidamente
que Victor Deliot jamais amaria alguém. Não por egoísmo,
mas por princípio, ele detestava as mulheres. Seria por elas
jamais lhe terem dado atenção? E, entre todas, execrava absolutamente
suas colegas de profissão sobre as quais pronunciava
seu juízo lapidar:
- Ou elas fazem o Júri dormir, ou o irritam. De qualquer
forma, o resultado é sempre desastroso!
A jovem Danielle tencionava ser criminalista, no futuro,
e essa fora mesmo a razão principal de sua aproximação com
aquele rude solitário que lhe ensinara um monte de coisas e
segredos incríveis do ofício. Ela sempre se admirara de que
Victor Deliot não tivesse feito uma carreira brilhante.
Era ela que datilografava, na velha máquina de escrever
de seu gabinete de trabalho, as raras cartas que ele não podia
deixar de enviar por necessidade de trabalho, apesar de seu
horror instintivo por qualquer tipo de correspondência.
- Scripta manen!, costumava ele dizer... "enquanto
que ninguém vem remexer em minha memória!"
- Minha filha - repetiu o sonhador de charuto, quando
a jovem já havia entrado em seu gabinete - Se fez a gentileza
de me visitar esta noite é porque a preparação de sua tese pode
esperar... Você me vai prestar um grande favor, sentando-se
agora mesmo à máquina de escrever para bater uma carta com
cinco cópias. Uma vez isso feito, só terá de acrescentar à mão
Senhora ou Senhor de acordo com os endereços que lhe darei em
seguida.
- É para um novo caso da Vara Correcional? - perguntou
a moça, sentando-se.
- Desta vez, não ... Acabo de tomar uma grave decisão ...
Renuncio à Correcional para me consagrar à Criminal.. Está vendo esse
processo impressionante sobre minha
escrivaninha? É do primeiro homem do qual vou tentar salvar
a vida... O caso não é nada fácil... Não se trata de um
cliente comum. Posso mesmo afirmar, sem medo de errar, que
jamais houve um caso como este. Para começar, ele não quer
ser defendido, o que dificulta as coisas: isso implica em sua
culpabilidade e, como pretendo defendê-lo apesar de sua recusa,
acredito que teremos alguns choques! Está pronta? ... Ponha
a data de hoje... Deixe um espaço branco para Senhor ou
Senhora e escreva:
"Tendo sido designado para assumir a defesa de Jacques
Vauthier, cujo julgamento se iniciará a 20 de novembro próximo,
diante do Tribunal Criminal do Sena, pelo assassinato de John
Bell, cometido em 5 de maio passado a bordo do navio De
Grasse, peço a V. S. o obséquio de marcar uma entrevista ou
passar no meu escritório o mais breve possível, visto que o
prazo para a primeira audiência é bastante exíguo. Esperando
sua pronta resposta, agradeço antecipadamente, etc ... "
- Pronto! Anote agora os cinco endereços para sobrescritar
os envelopes que você levará com toda a urgência à agência
central da Rua do Louvre, assim que eu assinar as cartas. Elas
deverão seguir ainda esta noite: os destinatários as receberão
amanhã e nós ganharemos um dia... Escreva: Mme. Jacques
Vauthier, Hoter Regina, 16 bis, Rua das Acácias, Paris. É seu
último endereço conhecido, segundo as informações do processo.
Não se esqueça de acrescentar Urgente. Segundo endereço:
Mme. Simone Vauthier, 15, Avenida do Général-Leclerc,
Asnieres. Terceiro: Dr. Dervaux, 3, Rua de Paris, Limoges. As
duas últimas cartas vão para o mesmo endereço: Instituto São
José, Sanac, Haute-Vienne, com os nomes respectivos de M.
Yvon Rodelec e de M. Dominique Tirmont. É tudo... Você
tem aula amanhã na faculdade?
- Somente uma que posso matar.
- Então faça isso. Gostaria que viesse para cá às oito
horas da manhã e ficasse o dia todo. Estarei fora o dia inteiro
e não voltarei antes das nove da noite. Espere até eu chegar
e atenda ao telefone. Se uma das pessoas para as quais acabo
de escrever der sinal de vida, marque uma entrevista para
depois de amanhã, a qualquer hora: darei um jeito. Peço-lhe
que não saia, nem mesmo na hora de refeição. Falarei com a
empregada que lhe prepare o almoço.
- Mas, mestre, se eu tiver de me comunicar urgentemente
com o senhor, onde poderei encontrá-lo?
- Não sei! Espere a minha volta ... Pronto, as cartas
estão assinadas. Leve-as depressa para a Rua do Louvre!
- Mestre, seria indiscrição perguntar-lhe quem são essas
pessoas para as quais escreveu?
- Muita, minha filha, mas vou dizer-lhe assim mesmo já que vai ser a minha
assistente neste caso. Esses cinco desconhecidos para nós me parecem capazes de
dar excelentes testemunhos de defesa. O que não significa que todos devam
comparecer ao Tribunal! Dependerá de mim encontrar os argumentos que poderão
decidi-los ...
A jovem partiu sem pedir mais explicações, sabendo de
antemão que o advogado não as teria dado.
O resto da noite foi ocupado pelo
longo sonho de Victor Deliot, que pensava, degustando os charutos do presidente
da Ordem, que agora lhe era absolutamente indispensável travar conhecimento com
seu cliente ...
Não mentira ao ter dito a Louise, quando esta chegara, de
manhã, que quase não havia dormido.
Após ter engolido seu pequeno-almoço frugal, preparado
pela dedicada Louise, e ter tirado o roupão amarrotado, fez
uma toalete matinal sumária, sem mesmo dar-se ao trabalho de
se barbear. Saiu então, dizendo:
- Louise ... A senhorita Geny Chegará dentro em pouco
e ficará aqui o dia inteiro até minha volta. Prepare-lhe um
bom almoço, não se esquecendo de que na idade dela as pessoas
têm um apetite voraz ... Até amanhã ...
Uma hora mais tarde, munido das autorizações necessárias,
atravessava um dos corredores da prisão da Santé. O guarda
que lhe servia de guia perguntou:
- O senhor vai ver o n. 622?
- Vou.
- Desejo-lhe boa sorte. Se conseguir arrancar qualquer
coisa daquele bugre, será um verdadeiro milagre! Ele é trancado
como uma porta de prisão!
- Sua piada não foi de bom gosto, meu amigo.
- Oh! Eu disse isso, mestre, apenas para preveni-lo ...
Todos os advogados que vieram vê-lo recusaram-se a defendê-lo...
É um pobre infeliz que deveria ser mandado para o
hospício... Dizem mesmo que não se conseguirá um advogado
para ele.
- Enganou-se duplamente: meu cliente não é um pobre
infeliz e ele tem um defensor: Eu!
- Já chegamos - murmurou o guarda, pensando: "Este
advogado deve ser um louco ou um sádico!"
As chaves rangeram e a pesada porta de grades se abriu.
O guarda entrou na sela e fechou cuidadosamente a porta dupla atrás deles.
Ajustou então seu lorgnon para contemplar seu novo cliente ...
Lá estava ele,
agachado no chão, no canto mais escuro de exígua cela. E, apesar daquela
estranha posição, parecia colossal...
O rosto retangular, terminado por um queixo enorme
e coberto de pêlos duros, nada tinha de uma face humana. O
advogado teve um movimento de recuo, perguntando-se, por
um instante, se se encontrava na presença de um monstro fugido
de uma longíngua floresta virgem. Não era possível que existisse
uma criatura mais impressionante. O busto era enorme,
com os braços caídos ao longo do corpo e terminando por mãos
peludas de matador... mãos que esperavam sua presa...
O que mais chocava naquele rosto era a ausência de vida -
os olhos estavam abertos mas apagados, os lábios bestiais, os
malares salientes, as sobrancelhas proeminentes e espessas, a
cor baça na penumbra: cadavérica. A única expressão de vida
vinha de sua respiração ofegante. Jamais, em toda sua vida,
já bastante longa, Victor Deliot se encontrara na presença de
um indivíduo semelhante. Teve de fazer um grande esforço
para perguntar ao guarda:
- Ele fica sempre nessa posição?
- Quase sempre.
- É realmente assustador!
E Victor Deliot pensou naqueles monstros estranhos, inventados
há alguns anos e apresentados nos cinemas, indo de
Frankenstein a King-Kong e passando por um Dr. Jekill e um
Mr. Hyde.
- Você acha que ele sabe que estamos aqui? - perguntou
ainda ao guarda.
- Ele? Ele adivinha tudo! É impressionante ver a que ponto ele compreende sem
ver, nem ouvir, nem falar...
- Isso não me espanta - respondeu o advogado. - Pelo
que li em seu processo, este rapaz é instruído e muito inteligente.
Já lhe disseram que este bruto chegou a escrever um livro?
- Um de seus predecessores, o Dr. De Silves, falou-me
sobre isso, mas confesso que não acreditei...
- Pois fez mal. Eu lhe trarei o livro: tempo é o que não
lhe falta aqui para ler.
- E como ele o conseguiu?
- Compensando com os três sentidos que lhe restam, o
tato, o paladar e o olfato, os que lhe faltam desde o nascimento: a visão, a audição e a palavra... Mas seria muito longo para lhe
explicar.
- No que se refere ao olfato, meus companheiros e eu já
observamos que ele nos reconhece assim que entramos na cela.
Tenho certeza de que ele sabe perfeitamente que sou eu que
estou de guarda hoje.
- Ele tem bom apetite?
- Não. Mas é preciso reconhecer que a comida não é
das melhores...
- Ele sabe usar corretamente o garfo e a colher?
- Melhor que o senhor e eu quando a comida está boa! Só que na maioria das vezes
nem toca no prato ... Olhe, eu acho que o que lhe falta são visitas ... Sua vida
nesta prisão deve ser pior que a de um animal do zoológico! Isso parece
brincadeira, mas é a pura verdade. Ele se aborrece: não pode fazer nada! Não
pode ler, nem escrever, nem mesmo falar conosco quando viemos vê-lo ...
- Você deve ter razão, mas seria preciso que ele manifestasse desejo de receber
visitas e que estas conhecessem os diferentes meios de comunicação que se
empregam com ele ...
Acha que ele é mentalmente perfeito?
- Todos os médicos que vieram examiná-lo, e Deus sabe
quantos foram!, afirmam que sim...
- Com os diabos, como podem saber?
- Eles sempre vêm acompanhados de intérpretes que tentam
falar com ele ... Tocam seus dedos como se quisessem desenhar as palavras ...
- E isso surte efeito?
- Todos afirmaram que ele fazia questão de não responder ...
Esse bugre não quer ser defendido!
O cliente de Victor Deliot se havia levantado bruscamente e mantinha-se
encostado à parede numa posição de defesa, como se temesse que se aproximassem
dele, já pronto para o ataque ...
Era pelo menos dois palmos mais alto que seus visitantes.
- Mas é um gigante! - murmurou o advogado. - Tem
o corpo de um atleta ... Não admira que tenha destruído sua
vítima ... Por que ele se balança assim sobre as pernas?
- Não sei: hábito talvez ... Nessa posição parece um urso
enjaulado... Cuidado, mestre! Ele sabe que estamos aqui..
Veja como resfolega... Não se aproxime demais! Nunca se
sabe o que poderá fazer!
O advogado não prestou a menor atenção ao aviso. Ao
contrário, aproximou-se mais ... Quando se encontrou a pouca
distância de seu cliente, colocou suas mãos sobre as dele que
as retirou vivamente como se sentisse uma repulsa violenta
nesse contato. Victor Deliot não se deu por vencido e tocou
levemente seu rosto: o prisioneiro se enroscou sobre si mesmo
lançando um grito rouco que poderia ter sido o de uma fera.
- Eu lhe preveni que tomasse cuidado, mestre! - gritou
o guarda.
Mas era tarde demais ...
Os braços do colosso caíram sobre os ombros do advogado,
sacudindo-o violentamente. As mãos enormes agora se aproximavam
do pescoço... O guarda precipitou-se e desferiu violento
golpe na nuca do gigante que largou sua presa. Com um
grito de dor, recuou até a parede.
- Ufa! - disse simplesmente o velho advogado, abaixando-se
para apanhar seus lorgnons.
- Eu o avisei, mestre! E um verdadeiro bruto!
- Tem certeza? - respondeu Victor Deliot, ajustando
seus lorgnons no nariz. Uma vez isso feito, aproximou-se novamente
de seu cliente e permaneceu um longo momento contemplando-o,
antes de dizer:
- Parece que tudo o que meus colegas me disseram ao
telefone é verdade ... Agora, compreendo por que preferiram
desistir do caso! Evidentemente, é um perigo defender esse
rapaz... Mas seu caso é muito interessante... Gostaria de
saber por que ele ataca aqueles que procuram salvá-lo. Eu nada
lhe fiz, no entanto ele me odeia tanto quanto a Charmaux ou
a De Silves ... Estranho! Se eu pudesse fazê-lo compreender
que só quero seu bem ... Sim, mas como?
- Eles experimentaram tudo antes do senhor, mestre.
Ele não quer entender.
- Talvez eles não tenham sabido conquistá-lo, mas eu
hei de encontrar um meio ... Sabe que, se ele não tivesse essa
tripla deficiência, seria quase bonito? Há feiúras que são sublimes ...
Olhe: os traços do rosto são duros, mas enérgicos,
seu físico é impressionante, mas bem proporcionado... Acima
de tudo, admiro que ele possa agradar a uma mulher... Não
a todas, mas a uma que ame os brutos ... Não conheço sua
companheira, mas imagino-a frágil, pequena, quase etérea...
A eterna lei dos contrastes exige quase que esse tipo de mulher
ame esse tipo de homem. Quem sabe não nos encontramos
diante de uma nova reencarnação de a Bela e a Fera?
- O senhor está falando sério? - perguntou o guarda atônito...
- Mais que isso. Estou convencido do Que disse! Vamos,
por hoje chega. Amanhã, voltarei com alguém capaz de falar
com ele ... Espere! Antes de partir, preciso aproximar-me dele
mais uma vez para que ele possa sentir bem meu cheiro. Dessa
forma, me reconhecerá amanhã ... Se ao menos ele tivesse a
idéia de me tocar!
O rosto do defensor estava a poucos centímetros do de seu estranho cliente. Mas
desta vez este não se mexeu e conservou suas mãos obstinadamente atrás das
costas, apoiadas na parede...
- Decididamente, ele não quer saber de mais nada por
hoje! Quem sabe se amanhã acordará de melhor humor? Vamos.
A porta rangeu pela primeira vez e eles se encontraram no
corredor. Victor Deliot caminhava, silencioso; ao lado do guarda
que lhe perguntou no momento da despedida:
- Então? Está mesmo decidido a defendê-lo?
- Acho que sim ...
- O senhor tem coragem! Um bruto como ele ...
- Não estou persuadido de que esse rapaz seja apenas um
bruto. É claro, até agora todas as aparências são contra ele
mas afinal de contas são apenas aparências! Como podemos
conhecê-lo realmente, se ele não nos vê, não nos ouve e não
nos pode responder? Para ele, você e eu pertencemos a um
outro mundo, que ele não consegue apreender... É preciso Que
eu penetre no mundo dele a qualquer custo! Talvez eu venha
a descobrir que estou apenas na presença de um infeliz que
sofre e que ninguém tenta compreender. E não é a golpes de
cassetete que o conseguiremos! Você nunca pensou que, se ele
matou, foi porque talvez tivesse uma boa razão? Aprenda
também que os únicos criminosos interessantes são aqueles Que
não querem ser defendidos ... Antes de me retirar, gostaria de
fazer uma pequena visita de cortesia a seu diretor... Veja se
ele me pode receber.
O senhor Mesnard recebeu-o amavelmente:
- Então, meu caro mestre, acaba de travar conhecimento
com seu cliente? Pode-se perguntar quais são suas primeiras
impressões?
- Bastante boas - respondeu Victor Deliot para grande
espanto de seu interlocutor. - O que não significa Que nosso
primeiro contato tenha sido particularmente cordial! Mas alimento
a vaga esperança de que nossas relações melhorarão com
o tempo ... Não vim vê-lo, porém, para aborrecê-lo com meus
problemas, Sr. Diretor. Vim fazer-lhe um pedido: seria possível,
mediante uma quantia razoável, melhorar a comida de meu
cliente, servindo-lhe outra coisa em vez da sopa regulamentar
e do pedaço de pão?
- Sabe muito bem, meu caro mestre, que o regulamento somente autoriza como
suplemento alimentar as encomendas vindas de fora ...
- E meu cliente as recebe?
- Nunca.
- E visitas?
- Que eu saiba, não.
- Bem estranho! Este homem tem família que mora, na sua
maioria, em Paris.
- Sei disso, mas jamais apareceram.
- Ele tem mãe viva. Ela jamais manifestou desejo de ver
o filho?
- Acho que não.
- E a irmã? E seu cunhado? ... Em suma, eles se desinteressaram
todos dele porque ele os incomodou desde o nascimento
e agora os envergonha... Parece que só desejam
uma coisa: vê-lo condenado à pena capital para que não se fale
mais nele! E sua mulher?
- Deve saber tão bem quanto eu, meu caro mestre, que
ela desapareceu pouco tempo depois do crime.
- Desaparecimento perfeitamente inexplicável, já que foi
provado que ela não teve a mínima participação no assassinato
do americano.... Admira-me que ela não esteja interessada na
sorte do marido, acusado de assassinato e prisioneiro, depois de
se ter dedicado a ele durante tantos anos antes do drama.
- Nunca se sabe ...
- Bem, Sr. Diretor, já que não pode infringir o regulamento,
vou ao botequim aí na frente, onde conhecem todos os
parentes ou amigos de seus pensionistas, comprar algumas provisões
que lhe serão entregues em seguida. Conto com sua gentileza
para que meu cliente as receba ainda hoje. Providenciarei
para que mandem apenas alguns alimentos simples: um
pouco de presunto, pãezinhos, alguns ovos cozidos, tabletes de
chocolate. Tenho a impressão de que, se comer menos mal esta
noite, dormirá melhor ... E dormindo bem talvez tenha mais disposição para
conversar comigo amanhã pela manhã...
- Quer dizer que conhece uma das linguagens empregadas
com os surdos-mudos-cegos de nascença?
- Não, mas felizmente existem na terra outras pessoas
que conhecem ... Pelo menos aqueles que educaram meu
cliente desde menino! Até a vista, Sr. Diretor, e meu obrigado
antecipado por tudo o que fizer por ele. Ah, um ponto importantíssimo
sobre o qual nunca será demais insistir: procure
fazer com que seus guardas percam o hábito de considerar o
n. 622 apenas como um bruto. Até que se prove o contrário
e, principalmente, até que seja julgado, insisto que o tenham
como inocente. Quem nos garante que esse Jacques Vauthier
não é um grande tímido ou uma criatura amedrontada? Ainda
há pouco tentei uma experiência que me pareceu das mais concludentes: após me ter aproximado, toquei em sua mão e acariciei
seu rosto. Sua reação foi imediata. Tentou estrangular-me
e, Santo Deus, se o tivesse conseguido, seria um crime a mais
em suas costas ... Mas, o que mais me impressionou, durante
sua tentativa frustrada, foi o grito desumano que ele soltou.
Assemelhava-se ao urro de uma fera acuada, de um animal desesperado
que atirasse todo seu rancor contra seu eterno inimigo: o homem. Foi comovente... Isso o teria tocado profundamente, Sr. Diretor,
porque estou certo de que o senhor é
um homem de coração. Aquele grito era a expressão de uma
horrível dor moral ... Esse homem sofre ... Ele sofre por sentir-se
rebaixado ... Sofre talvez de um mal que ignoramos e
que foi a causa profunda de seu ato homicida... Sofre terrivelmente
e é aí que está todo o problema:.. Até a vista,
senhor...
Duas horas mais tarde, Victor Deliot entrava numa livraria
próxima ao Odeon.
- Meu caro mestre - exclamou o livreiro -, que bons
ventos o trazem?
- Não tenha a menor dúvida, meu caro Beauchet, de que
tem diante de si um homem extenuado pela visita a 14 livrarias
sucessivas sem conseguir encontrar o que deseja... Eu não
deveria ter pensado logo no meu grande amigo Beauchet Que
consegue sempre desencavar nos fundos da sua livraria o livro
que seus colegas não possuem? Por acaso, você conhece um
romance chamado 'O Isolado'?
- Sim ... Uma obra bastante estranha, cujo autor, parece,
é surdo-mudo-cego de nascença. A propósito ... deve ter ouvido falar dele, há
alguns meses. Os jornais lhe dedicaram colunas inteiras por causa de um crime
que ele teria cometido a bordo de um navio ...
- É mesmo? Oh, você sabe ... com exceção da Gazette
du Palais, raramente leio os jornais ... Mas diga-me: um caso
assim não aumenta a venda do livro?
- Não quando o livro está esgotado. Teria sido preciso
que o editor lançasse uma nova edição enquanto o crime ainda
estivesse fresco na memória dos leitores.
- Quando apareceu esse romance?
- Já lhe vou dizer ...
O livreiro abriu um grande anuário alfabético. Seu dedo
se imobilizou:
- Apareceu há cinco anos.
Victor Deliot calculou mentalmente que seu autor não
tinha na ocasião mais que 22 anos e exclamou:
- Caramba! Ele era um bocado jovem! Autor prodígio?
O livro fez sucesso?
- De curiosidade, no momento, e um pouco de crítica...
Mas não foi um sucesso de público... O grande público já
não se interessa muito por esse gênero de romance psicológico
muito rebuscado, demais até, onde o autor disseca os menores
sentimentos. O que ele quer é ação, movimento, mistério, vida
principalmente! Entretanto, se essa obra lhe interessa, creio
que ainda tenho um exemplar em minha reserva. Meu empregado
vai procurá-lo ... Lembro-me perfeitamente de que
esse O Isolado obteve maior repercussão no estrangeiro que na
França e que após o seu aparecimento, o autor partiu para a
América do Norte onde faria uma série de conferências sobre
o problema dos surdos-mudos-cegos. Aqui, não se ouviu mais
falar dele, nem que tenha escrito outro livro.
- Uma conferência feita por um surdo-mudo-cego não
deve ser inteligível para o grande público, mesmo que este tenha
maior boa vontade, como acontece em geral com o público americano.
- Suponho que o conferencista foi secundado por um
intérprete que traduzia oralmente o que ele dizia em alfabeto
datilológico... Olhe, aqui está o livro: um pouco empoeirado
e com a faixa amarrotada.
- Não rasgue a faixa! - gritou o advogado. - Vamos
ver antes o que ela diz: 'O Isolado ou O Homem que Soube
Criar um Mundo Seu'. Não está mal! E 'O Isolado' é um bom
título! De que trata a história?
- Lembro-me de que o herói é um surdo-mudo-cego de
nascença, como o autor, que se apaixona por uma mulher.
Mas esta o abandona, em determinado momento, deixando o
infeliz completamente desamparado durante um certo tempo.
Depois, pouco a pouco, ele se fechou sobre si mesmo, recusando-se,
em sua solidão, a ter o menor contato com as pessoas
que o cercavam .
- Decididamente, meu caro Beauchet, você é o melhor
livreiro que conheço! Fico com o livro.
- Ele não é aborrecido, vai ver ...
- Ao contrário, tenho a impressão de que é apaixonante!
Dez minutos mais tarde, um ônibus deixava o defensor de
Jacques Vauthier diante da Biblioteca Nacional.
Ali portou-se como velho habitué que era desses lugares
veneráveis, familiar aos arquivos e que sabe exatamente onde
encontrar os documentos de que necessita. Estes se resumiam
a alguns jornais diversos, datados de 6 de maio e dos dias seguintes,
nos quais estavam relatados, com detalhes macabros
em alguns, e com grande sobriedade em outros, os acontecimentos
trágicos que haviam ocasionado a prisão de seu cliente.
Um artigo chamava particularmente a atenção. O título, composto
em três colunas, dizia: "Crime Estranho e Monstruoso a
Bordo de De Grasse"
A matéria que se seguia fornecia alguns detalhes essenciais:
"Pelo rádio, 6 de maio. Ontem a noite, enquanto o navio
De Grasse efetuava a travessia de Nova York para o Havre,
iniciada três dias antes, um crime de uma violência quase inconcebível
foi cometido numa cabina de luxo, ocupada por um
rico americano, Mr. John Bell. Esse rapaz de 25 anos, fílho
único de um membro influente do Congresso de Washington,
vinha à Europa pela primeira vez. A bordo do De Grasse encontravam-se
também o Sr. e Sra. Jacques Vauthier que ocupavam
uma cabina de primeira classe. Jacques Vauthier é aquele surdo
mudo-cego de nascença que publicou há alguns anos um romance
muito curioso, O Isolado, que lhe valeu na época uma
certa notoriedade. A obra foi traduzida para várias línguas e
obteve grande sucesso nos Estados Unidos. Convidado pelo
Governo americano para uma série de conferências sobre os
progressos conseguidos na França na educação especializada
dos surdos-mudos-cegos de nascença, Jaques Vauthier passou
cinco anos nos Estados Unidos e no Canadá, acompanhado de
sua mulher que foi para ele a mais preciosa das colaboradoras.
"Esta, que tinha o hábito de passear pelo convés após o
almoço, enquanto seu marido fazia a sesta na cabina, admirou-se
ao constatar, na volta de seu passeio, que seu marido não
estava deitado e devia ter saído da cabina. Como a ausência
de Jacques Vauthier se prolongasse, a mulher foi à sua procura
pelo navio. Não o encontrando, expressou sua inquietação
ao comissário de bordo Bertin, temendo de que se podia
esperar o pior, já que Vauthier era surdo-mudo-cego. O alerta
foi dado imediatamente: teria o rapaz caído no mar?
"Uma busca metódica começou no De Grasse. Passando
diante da cabina ocupada por Mr. John Bell, um camareiro,
especialmente encarregado do atendimento das cabinas de luxo,
constatou que a porta que dava para o corredor estava entreaberta.
Após tê-la empurrado com certa dificuldade, o camareiro
Henri Teral encontrou-se diante de uma cena terrificante: o
jovem americano, ajoelhado, tinha os dedos crispados sobre a
maçaneta da porta. Estava morto, assassinado. Um filete de
sangue escorria de seu pescoço, manchando seu pijama. Havia
também sangue espalhado pelo tapete ... Sentado no beliche
da cabina, o deficiente Jacques Vauthier mantinha-se imóvel,
prostrado, o rosto impassível. Se bem que fosse cego, seus olhos
inexpressivos pareciam fixar suas próprias mãos cobertas de
sangue ... O camareiro avisou imediatamente o comissário Bertin;
que compareceu imediatamente à cabina do assassinado.
Jacques Vauthier não opôs a menor resistência em deixar-se
prender e ser conduzido à prisão do navio. Sua mulher consentiu,
a pedido do comandante do De Grasse a servir de intérprete
provisória para um primeiro interrogatório. Aliás, era a
única pessoa a bordo que conhecia os meios de comunicação
com seu marido surdo-mudo-cego.
"Este deu a entender a sua mulher que não daria qualquer
explicação sobre o crime do qual se reconhecia formalmente
culpado e que achava justificado. Manteve essa atitude
durante todo o resto da travessia, apesar dos pedidos insistentes
de sua companheira.
"O motivo do crime parece ainda mais estranho pelo fato
de a Sra. Vauthier ter afirmado que nem ela nem o marido
jamais haviam tido o menor contato com a vítima que não
conheciam. Um primeiro exame do criminoso, feito pelo médico
do De Grasse; deixa claro que Jacques Vauthier gozava de todas
as faculdades mentais.
"Assim que o De Grasse entrar no porto do Havre, o
assassino será entregue nas mãos da polícia criminal."
Um exemplar do mesmo diário, com data de 12 de maio,
relatava num outro artigo os detalhes desta última operação:
"O inspetor principal Mervel, auxiliado por um intérprete
especializado na linguagem dos surdos-mudos-cegos e por um
médico legista designado pela polícia, esforçou-se por proceder
a um novo interrogatório de Jacques Vauthier por ocasião da
chegada do De Grasse ao Havre. O assassino de John Bell reiterou,
por intermédio do intérprete, a mesma resposta que
já dera alguns instantes após o crime a sua própria mulher. Antes
de ser levado à prisão, o estranho criminoso será submetido a um
exame médico minucioso que determinará se nos encontramos
diante de um homem normal ou, ao contrário, de um infeliz,
tomado de um acesso de fúria súbita, devido a sua tripla deficiência!"
Segundo seu hábito, Victor Deliot não fez qualquer anotação
e deixou rapidamente a sala de leitura da Biblioteca Nacional
para tomar um ônibus, que o conduziu ao Quartier Latin.
Durante o trajeto, o advogado esteve pensativo: não havia dúvidas
sobre o estado de saúde de seu cliente. Numerosos atestados
médicos inseridos no processo, que o esperava em sua
mesa de trabalho, demonstravam que Jacques Vauthier, excetuando-se
sua tripla deficiência, era perfeitamente normal. Por
acaso, durante os inúmeros interrogatórios a que havia sido submetido
durante os últimos seis meses, ele não declarara que
"havia agido no De Grasse com perfeito conhecimento de causa,
que não se arrependia de seu gesto e que, se tivesse de voltar
atrás, mataria de novo John Bell?" Por outro lado, sempre se
recusara a revelar a verdadeira razão de sua atitude.
Tudo aquilo era estranho e provava a Victor Deliot que
sua primeira impressão devia ter sido certa: sob aquele aspecto
impressionante de bruto, Vauthier escondia uma alma que devia
ser completamente diferente ... Talvez fosse demais falar em
alma; mas tratava-se certamente de uma vontade de ferro posta
a serviço de uma inteligência rara, especial, quase insondável
para as pessoas normais ... Uma inteligência capaz de desafiar
todo mundo, isto é, aqueles que se julgam perspicazes porque
enxergam, falam, ouvem ... O advogado chegava mesmo a
duvidar de que alguém já tivesse conseguido descobrir e conhecer
o verdadeiro Jacques Vauthier. Só o saberia quando
entrasse em contato com os parentes do rapaz e, especialmente ,
com sua mãe. Uma mãe, geralmente conhece bem seu filho. E
havia também os que o haviam educado, fazendo-o sair de
sua noite aparente ... E finalmente havia sua mulher, essa
Solange Vauthier que parecia esconder-se. Ela é que deveria ser
a mais preciosa auxiliar do defensor. Era preciso encontrá-la de
qualquer maneira.
Quando Victor Deliot desceu do ônibus na esquina da Rua
Gay-Lussac com a Rua Saint-Jacques, estava convencido de que
seu cliente era realmente um caso muito difícil.
Parou perto de um portal, situado na Rua Saint-Jacques
254, onde estava escrito em grandes letras: Instituto Nacional
de Surdos-Mudos.
Victor Deliot, que mandara entregar seu cartão ao diretor
dessa instituição, não esperou muito para ser recebido. Após haver
exposto rapidamente as razões de sua visita ao alto funcionário,
o defensor de Jacques Vauthier perguntou:
- O senhor tem por acaso entre seus internos algum que
seja surdo-mudo-cego de nascença?
- Não, mestre. Aqui tratamos apenas da educação de surdos-mudos. A Fundação
Valentin Hauy é que é especializada em cegos. Isso é perfeitamente normal pois
os métodos empregados são diametralmente opostos: para os nossos surdos-mudos,
nosso auxiliar mais precioso é a visão ... Para os cegos, ao contrário, são a
palavra e a audição ...
- Então o que acontece com aqueles que nascem com
essas três deficiências?
- Existe apenas um método de educação: a utilização
combinada dos três sentidos que lhes restam: o tato, o paladar
e o olfato.
- E conseguem-se resultados apreciáveis?
- Se se conseguem? Pois saiba que certos surdos-mudos-cegos
de nascença atingem um grau de cultura e de educação que
causaria inveja a muita gente normal.
- E onde é que se operam tais milagres?
- Não existem mais que cinco ou seis estabelecimentos
especializados em todo o mundo. A França possui o Instituto de
Sanac, na Haute-Vienne, onde os frades de São Gabriel conseguem
resultados verdadeiramente surpreendentes à força de
paciência e tenacidade. Eu lhe aconselharia, mestre, a ir até lá.
Aliás, se não me falha a memória, Jacques Vauthier, que o
senhor irá defender, freqüentou o Instituto de Sanac, tendo sido
um de seus mais brilhantes alunos... Vejo que tem seu romance
O Isolado... Já o leu?
- Ainda não.
- Esse livro é a prova mais evidente do que os educadores
dedicados e inteligentes conseguem obter num caso semelhante.
- O senhor me poderia traçar em linhas rápidas o sistema
dessa educação?
- Com todo o prazer... Em várias ocasiões, tive a oportunidade
de ir a Sanac onde se encontra um homem admirável:
o Sr. Rodelec. Pode-se mesmo dizer que foi ele que criou
o método e, se não pertencesse a uma ordem religiosa, a dos
Irmãos de São Gabriel, há muito que o Governo lhe teria concedido
a insígnia da Legião de Honra ... Yvon Rodelec, pelo
qual nutro uma profunda admiração, acha que é preciso, antes
de tudo, dar à criança surda-muda-cega de nascença a noção
do sinal para que ela possa captar a relação existente entre
o sinal e o objeto, ou, se preferir, entre o objeto apalpado e o
sinal mímico que ele representa. Para atingir esse primeiro resultado,
utilizam-se processos engenhosos que vai ter oportunidade
de ver em Sanac.
- Se o compreendi bem - disse o advogado - o senhor
quer dizer que a criança é esclarecida com uma mímica que
procede sempre do conhecido para o desconhecido?
- Exatamente. É somente depois disso que se pode ensinar-lhe
o alfabeto datilológico. Mas ele não pode ter noção
de letra sem aprender antes as 26 posições dos dedos unicamente
por obediência, por confiança em seu professor e talvez por
uma vaga aspiração instintiva aos novos conhecimentos. Ele
conseguirá, pouco a pouco, designar um objeto de duas maneiras:
por um sinal de mímica e por meio de letras datilológicas.
- Em suma - declarou Victor Deliot mostrando O Isoládo
- se eu fosse educador e quisesse dar a meu estranho
aluno a noção de livro, eu teria de lhe colocar o volume nas mâos
fazendo-o compreender que ele pode designar um livro por um
sinal mímico ou reproduzindo com os dedos as cinco letras
l-i-v-r-o?
- O senhor compreendeu perfeitamente, meu caro mestre.
A reunião das cinco letras forma rapidamente uma figura na
idéia do aluno, que toma consciência da equivalência das duas
designações: uma sumária ou sintética, a outra decomposta
ou analítica. A repetição dessa lição, com outros objetos diferentes
dos quais ele se serve quotidianamente, imprime em seu
cérebro os dois modos de expressão: a língua mímica, rapidamente
compreendida; e a língua alfabética cujo sentido se revela
progressivamente.
- Até aí muito bem, mas como ensinar, em seguida, o
aluno a falar?
- O educador pronuncia cada letra datilológica sobre a mão de seu aluno. A
seguir, faz com que ele tateie simultaneamente, para cada uma das letras, a
posição respectiva da língua, dos dentes e das comissuras dos lábios, o grau de
vibração do peito, da parte anterior do pescoço e da ressonância da asa do
nariz, até que ele consiga reproduzir por si mesmo esse som que ele não ouve nem
vê como é produzido. O peito do professor torna-se uma espécie de diapasão que o
surdo-mudo-cego consulta para dar o mesmo som às suas próprias vibrações ...
Meu caro mestre, quer ter a gentileza de pronunciar uma labial,
qualquer uma?
- B - disse Victor Deliot.
- Já pensou no trabalho que lhe é necessário para pronunciar apenas esta
letrinha? Trabalho que realizamos mecanicamente e sem esforço, graças à longa
prática adquirida desde a infância. Para emitir este simples b, nossa língua
precisa estar livre e flacidamente estendida sobre a base da nossa cavidade
bucal, nossos lábios um pouco apertados, as comissuras levemente afastadas,
nossa respiração presa. Nessa posição, entreabrindo os lábios, expulsamos uma
pequena parte do ar afono contido na nossa boca: a explosão que se produz
constitui o elemento b ...
- Santo Deus - exclamou sorrindo o advogado. - Confesso
que jamais pensei nisso ... felizmente! Se eu tivesse de pensar no mecanismo da
palavra, cada vez que falasse, acho que ficaria mudo ...
- O aluno - continuou o professor - terá de descobrir a fundo esse mecanismo
físico para cada letra do alfabeto. Quando o conhecer bem, poderá então
exprimir-se em linguagem oral... Linguagem imperfeita, claro, mas que pode
perfeitamente ser compreendida pelos iniciados. Imediatamente, o educador o fará
compreender a equivalência entre a letra-sinal da datilologia, a letra falada e
a letra escrita, reproduzida em relevo: aprenderá assim a ler, tateando a
escrita comum. Finalmente, para que ele possa dispor de todos os meios de
expressão a seu alcance, o educador lhe ensinará uma última equivalência entre a
letra datilológica e as letras ponteadas do alfabeto em Braille: isso lhe dará a
possibilidade de escrever, fazendo-se compreender por todos, especialmente pelo
senhor, que aceitou a tarefa ingrata de defendê-lo ...
- Fico-lhe imensamente grato, meu caro diretor...
Agora, começo a ver claro e minha conclusão confirma as primeiras
impressões que tive após o estudo do processo e da visita
que fiz esta manhã a meu cliente: se chegou a escrever um
romance, foi porque a sua educação atingiu o máximo em Sanac
e ele é capaz de utilizar todos os meios de expressão a seu
alcance.
- Não tenha a menor dúvida!
- Pode mesmo se expressar oralmente ... mais ou menos,
evidentemente, mas pode! E, se ele se cala, é por que assim
quer, não é verdade?
- O senhor sabe tão bem quanto eu que o pior surdo é
aquele que não quer ouvir e o melhor mudo o que não quer
falar! ... Quero no entanto chamar sua atenção para o fato
de que seu cliente, não enxergando, não pode ver em seus lábios
como o fazem nossos surdos-mudos. O senhor terá de falar-lhe
com a mão, utilizando o alfabeto datilológico. E se por acaso,
finalmente, ele se resolver a lhe responder oralmente, terá uma
dificuldade imensa em compreendê-lo. Será preferível que suas
respostas cheguem ao senhor por intermédio da escrita Braille.
- Como ignoro todos esses métodos - falou Victor Deliot
- não será preferível que eu leve um intérprete? Isso
me decide, meu caro diretor, a lhe pedir um segundo grande
favor: seria possível acompanhar-me amanhã cedo à prisão da
Santé, onde eu queria tentar que meu cliente falasse?
- Eu o faria com todo o prazer, meu caro mestre, mas
não acha que seria preferível utilizar para essa conversa um
dos Irmãos de São Gabriel que educaram Jacques Vauthier?
- Já havia pensado nisso e escrevi a Sanac. Acredito firmemente
que eles não se recusarão a esse ato de caridade cristã.
Mas o tempo voa e é indispensável que amanhã eu já tenha
esse primeiro contato com meu cliente ... Só o senhor poderá ajudar-me no
momento! Se suas múltiplas obrigações o impossibilitarem de acompanhar-me amanhã
cedo à prisão, poderia designar um dos professores de seu Instituto para
fazê-lo? Prometo incomodá-lo somente esta vez ...
Após refletir um instante, o diretor respondeu:
- Eu mesmo irei! Isso para lhe provar que admiro sua
coragem. Nenhum de seus colegas, dos quais me falou no início
de nossa conversa, deu-se ao trabalho de vir pedir-me as informações
mais elementares!
- Fizeram mal - disse o advogado. - Acabo de assistir
a um curso preciosíssimo! Agora preciso ir, meu caro diretor.
Encontro-o amanhã às nove horas na entrada da Santé. Parto com a sensação de não
passar de um velho ignorante que ainda tem muito o que aprender ...
Quando Victor Deliot finalmente voltou para casa, foi
recebido pela jovem Danielle, que lhe disse, logo na entrada:
- Que pena não ter chegado uma hora mais cedo! Recebeu uma visita ...
- Uma de minhas testemunhas? Já? Quem foi?
- A Sra. Simone Vauthier...
- Ora vejam só! Sua mãe... Isso me deixa radiante,
minha filha... O que ela disse?
- Que havia recebido sua carta esta manhã e vindo imediatamente ...
- Bem preciso aproveitar tão boas disposições! Vou tornar a sair ...
- Aonde vai, mestre?
- À casa dessa senhora, em Asnieres... Acho que já deve ter chegado. Caso
contrário, eu a esperarei ... Tenho com que me distrair...
Acabava de mostrar o livro que tinha na mão. Após ter
dado uma olhadela na capa, a estudante perguntou, admirada:
- Agora deu para ler romances, mestre?
- E por que não? Sempre é tempo de começar. Nada há
que lhe chame a atenção nesta capa?
- Não. O título? 'O Isolado', parece um pouco triste ...
Os olhos de Danielle se arregalaram bruscamente:
- Ah! Já sei, o nome do autor... É ele?
- Completamente! Como vê, minha filha, desconfio seriamente
de que nestas 300 páginas se encontra a chave do mistério...
Bem, já vou indo. Quanto a você, não saia daqui...
Pode ser que outra das minhas testemunhas hipotéticas resolva
aparecer.
Mal acabou de falar, fechou a porta da frente, deixando
a jovem perplexa, perguntando-se se aquela súbita perspectiva
de uma defesa na Corte Criminal não teria perturbado a mente
de seu velho amigo.
Ele só voltou à meia-noite, declarando:
- Estou esfalfado, mas satisfeito ... Ainda temos café?
- Deixei algum preparado, mestre.
- Você é meu anjo da guarda, Danielle ... E, agora,
volte logo para sua pensão. Precisa dormir.
- Mas os anjos não dormem, mestre!
- Não tenho tanta certeza! O meu deve estar sempre
caindo de sono!
- Conseguiu falar com a senhora?
- Consegui... - respondeu Victor Deliot laconicamente. - Boa noite, minha filha.
Venha montar guarda novamente amanhã às 8:30 horas...
Assim que ficou só, vestiu o velho roupão, calçou os
chinelos e se instalou na poltrona para saborear o terceiro charuto
do Presidente da Ordem. Mergulhou então na leitura de
'O Isolado' ... Chegou mesmo a reler algumas páginas onde o
autor descrevia o estado em que se encontrava seu herói surdo-mudo-cego,
como ele próprio, às vésperas de finalmente entrar
em contato direto com o mundo que o cercava:
"Ele era"; diziam aquelas páginas, "aquele que jamais
havia visto, ouvido ou falado, que nada conhecia, que vivia
sem mesmo saber o que era a vida, num mundo de trevas e
silêncio; que não tinha comunicação com o mundo exterior -
do qual não podia, nem mesmo procurava, do fundo do seu
abismo, fazer uma idéia - a não ser pelo cheiro, pelo gosto
e pelo tato. Não era mais que o refugo e o último grau da
miséria humana. Sentado diante de uma janela aberta, que deixava
entrar, por lufadas, uma das raras sensações que ele podia
perceber, a do calor e do frio, ali estava ele, possuidor de uma
força inútil que se voltava contra ele próprio para lhe assinalar,
a todo instante, o sentimento, inicialmente estranho, mas a seguir
cada vez mais detalhado da sua impotência.
"... Ali estava ele, privado de vontade ou inundado de
mil desejos inexprimíveis que se chocavam com obstáculos infinitos.
Ali estava ele, prisioneiro eternamente acorrentado cujos
pés e mãos se mantinham livres, ao contrário dos condenados à
morte, porque tinha de viver. Ali estava ele, imóvel, enroscado
sobre si mesmo, desajeitado, passivo, pronto para tudo e nada
esperando, emparedado na espessa escuridão que o envolvera
escuridão que ele toca e respira, a escuridão que ele bebe,
a escuridão que ele come, a escuridão que é para ele a cor,
o ar, o céu, o mar, a atmosfera de seus pensamentos, de seu torpor,
de sua existência petrificada, de seu adormecer e de seu
despertar... finalmente, a escuridão pela qual ele sente um
horror instintivo e a qual tem de suportar.
"... Ele se divide, assim, entre o embotamento e os transes,
não sabendo, quando o guiam, para onde o levam, e julgando,
a cada vez que se separam dele, que vão esquecê-lo e
que jamais voltarão para buscá-lo. Pouco importa que seja
filho de ricos burgueses! Será sempre pobre e carregará como
única bagagem aquele corpo que é empurrado, parado, vestido
ou despido, levantado, sentado e até deitado ... E quem
faz isso? Outros semelhantes a ele, só que menos lentos e mais
resolutos? Ou então criaturas de uma espécie superior?
"O pensamento embrionário, já extenuado nos compartimentos
do cérebro por esse esforço gigantesco, não consegue
progredir mais nesse pobre surdo-mudo-cego que se entrega
e deixa cair a pique nos abismos de sua noite, semelhante aos
peixes do fundo do mar, condenados a vagar lentamente nas
regiões mais obscuras, entre paredes de lama, no emaranhado
das florestas de algas, e que havendo tentado inutilmente, com
um esforço supremo, nadar para as alturas, renunciam ao impulso
impossível e, resignados, tristes e pesados, aceitam tornar
a cair como pedras na desolação monótona de seu labirinto.
"E eis que um dia, num determinado momento, que será
o mais maravilhoso de suas recordações, ele, a coisa semimorta
e semiviva, percebe, ao toque de um desses seres misteriosos
que por instantes o movimentam, que esse contato toma
um significado particular e ordenado, parece revelar uma vontade
exterior, manifestar um pensamento; uma intenção, um
desejo de expressar qualquer coisa ... esforçar-se por libertar
um sinal, deixa finalmente de ser um toque casual para se tornar
o de uma inteligência paciente e firmemente atuante!
"Logo, ei-lo um cativo à espreita, perdido, assustado, trêmulo,
sofrendo e passando por uma angústia inexprimível. Ele
apura instintivamente todas suas faculdades atrofiadas para
nada perder do novo sinal que lhe faz esse alguém que bate
à porta de sua prisão. Ele não sabe ainda o que querem dele,
mas adivinhou, do fundo de sua solidão, que querem alguma
coisa. Há alguém que, pelo tato, acaba de entrar, de empurrar
uma porta, de intervir em sua vida quase irreal. Daquele momento
em diante, a comunicação foi estabelecida entre aquelas
duas criaturas: "o prisioneiro do limbo, cujo único desejo ê
fugir dali, e seu libertador, que já está abalando os muros da
prisão ... "
Essas páginas deixaram o advogado perplexo: somente
uma criatura excepcional podia atingir essa acuidade de pensamento.
E como Vauthier descrevera com tal sensibilidade o
primeiro contato de um surdo-mudo-cego com a pessoa que o
arrancara de suas trevas, era claro que havia vivido pessoalmente
aquele instante patético. Quem era o outro? Um homem
ou uma mulher? Victor Deliot achava que devia ter sido aquele
educador genial do qual lhe falara naquela mesma tarde o diretor
do Instituto da Rua Saint-Jacques. Só poderia ter sido esse
Irmão de São Gabriel, que havia tomado a seu cargo Jacques
Vauthier durante muitos anos numa instituição de Sanac. O
velho advogado fizera bem em escrever, na véspera, ao Irmão
Yvon Rodelec. Era com impaciência que esperava a resposta.
Quando a empregada chegou no dia seguinte, encontrou
Deliot mais uma vez adormecido na poltrona. Espantada, perguntava-se
que mudança radical houvera em sua vida há 48
horas. Enquanto procurava uma resposta, o advogado a interrompeu
com voz ainda de sono:
- Que horas são, Louise?
- Oito horas, senhor ...
- Renuncio de uma vez por todas a lhe pedir que me
chame de mestre, minha cara senhora. Você jamais o conseguirá...
O melhor será contentar-me com seus serviços domésticos.
Prepare-me o pequeno-almoço.
- A porteira mandou que eu lhe entregasse esta carta.
O advogado sorriu, ao tomar conhecimento do conteúdo
da mesma: "Esse Dr. Dervaux parece ser um homem amável e,
de qualquer forma, educado... Respondeu imediatamente...
A única chatice é que terei de ir a Limoges para conversar com
ele! Enfim, são os ossos do ofício ... "
As nove horas, Deliot penetrou no que chamava de "domicílio
provisório" de seu cliente em companhia do diretor do
Instituto da Rua Saint-Jacques. O mesmo guarda os conduziu
à cela 622, mas desta vez absteve-se de qualquer comentário.
Quando ia abrir a porta da cela, o advogado lhe disse:
- Li o romance de seu estranho hóspede. É interessante e
bem escrito e vale a pena ser lido ... Ouça, ele recebeu uma
encomenda ontem à tarde?
- Recebeu, mestre.
- Vê como aqui se consegue tudo? E ele gostou?
- Devorou os ovos cozidos e o chocolate.
Deliot voltou-se para o diretor do Instituto, dizendo:
- Estamos progredindo ... Quem sabe se não encontrei
o meio de agradá-lo? Foi bem fácil! Por que meus predecessores
não o utilizaram. Agora, deve falar um nada para criar entre
ele e eu, seu defensor, a corrente de simpatia indispensável. E
por isso que eu tinha necessidade de um intérprete sutil. Convença-se
de que só sairemos desta cela quando eu o tiver conquistado.
Venha, Vauthier! Ao combate!
Assim que a pesada porta se abriu, o prisioneiro, que estava
sentado na cama, recuou até a parede.
- Decididamente - exclamou Deliot - ele me parece
ainda maior que ontem! E continua a se balançar sobre as pernas
como um urso ... Mas por que ele se retesou assim? Não pode ter ouvido quando
chegamos ...
- Torno a lhe repetir, mestre - disse o guarda - que ele adivinha a menor
presença: ele a fareja...
- Meu amigo - declarou o advogado - você acaba de
pronunciar a frase mais inteligente desde que nos conhecemos.
A constatação é exata: ele nos fareja! Ele fareja todo mundo ...
Então, meu caro intérprete, o que pensa de meu cliente?
O diretor do Instituto tinha permanecido imóvel no umbral,
como que pregado de espanto e levou algum tempo para
responder:
- E um personagem inquietante...
- Outra constatação exata - disse Victor Deliot. -
Tomo a liberdade, meu caro amigo, de completar seu pensamento:
o senhor se pergunta se é possível que um cérebro normal
se possa esconder por trás de semelhante figura? No entanto,
o senhor leu seu livro. Estranho autor na verdade!
O advogado se havia aproximado do colosso e disse ao
guarda sem se voltar:
- Como vê, fiz bem ontem, antes de deixar a cela, de fazer com que ele sentisse
de perto, meu cheiro ... Agora, ele nem se mexe: já me conhece. É curioso e
mesmo perturbador pensar que bastou farejar-me uma única vez para me reconhecer!
O que não significa que já sejamos amigos! Por enquanto, podemos dizer que nos
observamos mutuamente ... Há, entretanto, alguém que o perturba aqui... Vejam...
E o senhor, meu caro intérprete! Ele fareja um novo e terceiro odor. O meu e o
de seu guarda já lhe são familiares ... Será preciso que ele se habitue ao
senhor, mas por enquanto, como desconfio um pouco das reações que ele poderá ter
a seu respeito e não gostaria, por nada no mundo, de que ele repetisse a mesma
acolhida que me fez ontem, vou tentar quebrar o gelo com uma pequena gentileza
...
Enquanto falava, Victor Deliot colocou na mão direita de
Vauthier um maço de cigarro. Sem a menor hesitação, o prisioneiro
tirou um cigarro do maço com a mão esquerda e o
levou aos lábios. Gentilmente, o advogado aproximou um isqueiro,
acendendo-o. Uma poderosa baforada de fumaça, saída
das narinas de Vauthier, provou que ele apreciara a atenção.
- Ele fuma - disse tranquilamente o advogado. - Uma
prova de que nos encontramos diante de uma criatura civilizada...
e parece gostar, o bugre! Ninguém lhe havia oferecido
cigarros até agora?
- Nem tivemos a idéia! - respondeu o guarda. - Mas
o que quer? Não se pode saber do que ele gosta! Ele só faz
rosnar!
- Pois verifique, meu amigo, que neste momento ele fuma
sem rosnar! E aproveitemos rapidamente seu estado de euforia
para interrogá-lo. Ora, vejam só! Ele está barbeado!
- Ele se barbeou esta manhã - disse o guarda.
- Sozinho?
- Sim. Ele é muito hábil com as mãos.
- Senti isso ontem! - falou o advogado fazendo uma
careta. - Meu caro intérprete, acho que agora já se pode aproximar
dele sem receio: ele teve bastante tempo para o respirar.
- O intérprete não parecia muito convencido. - Não tenha
medo! No fundo, esse rapaz é muito gentil... Está tornando-se
quase sociável: barbeado, fumando seu cigarrinho ... Logo,
faremos dele um carneirinho! Passo-lhe a palavra, se é que podemos
usar esta metáfora! Gostaria que o fizesse compreender
logo de início que eu sou seu novo defensor e que o senhor é
apenas um intérprete. Explique-lhe também que sou seu melhor
amigo e que continuarei a providenciar para que ele tenha boa
comida e cigarros.
Os dedos do intérprete começaram a tocar prudentemente
as falanges do prisioneiro. Ele não retirou a mão, mas seu rosto
permaneceu impenetrável.
- O que respondeu? - perguntou o advogado ansiosamente.
- Não respondeu coisa alguma.
- Tanto pior! O importante é que ele tenha compreendido: quem eu sou ...
Diga-lhe agora que gostei muito de seu romance 'O Isolado' ...
Os dedos correram novamente sobre as falanges. O rosto
de Jacques Vauthier pareceu iluminar-se.
- Eh! Eh! - gritou Deliot. - Acabamos de tocar numa corda sensível: seu orgulho
de autor ... Diga-lhe imediatamente que obterei autorização para que lhe dêem o
material especializado de que precisa a fim de aproveitar sua solidão forçada
para lançar as bases de um novo romance ... Faça-o compreender que suas
impressões de prisioneiro interessarão a muita gente ...
O intérprete retomou sua tarefa. Quando seus dedos ágeis
voltaram a imobilizar-se, foram os do prisioneiro que, por sua
vez, tocaram as falanges de seu interlocutor silencioso.
- Ele responde finalmente! - exclamou o advogado. -
O que diz?
- Que ele lhe agradece, mas que é inútil, porque jamais
tornará a escrever...
- Detesto afirmaçôes gratuitas! Diga-lhe que na minha opinião ele fez muito bem
em matar o americano ...
- Acha que devo dizer isso? - perguntou o intérprete
espantado.
- E claro que deve! Naturalmente o que afirmo não é
uma verdade canônica, mas é indispensável que meu cliente
esteja absolutamente convencido de que seu defensor o aprova,
para que a confiança comece a reinar!
O intérprete transmitiu a mensagem do defensor e Deliot
julgou discernir sobre o rosto impassível um reflexo de surpresa.
- Acrescente - disse precipitadamente o advogado
que, no momento que agiu certo, não é culpado e faça-lhe cinco
perguntas ... Primeiramente, por que se declara culpado?
- Ele não responde - disse o intérprete.
- Segunda pergunta: por que não quis ser defendido até
o dia de hoje?
- Ele não responde...
- Terceira pergunta: gostaria de abraçar sua mãe?
- Não.
- Ei-lo categórico... Quarta pergunta: gostaria de rever
sua mulher?
- Não.
- Muito interessante - murmurou o advogado antes de
acrescentar: - Quinta e última pergunta. Gostaria que eu lhe
marcasse uma entrevista aqui com Yvon Rodelec?
- Não responde.
- Não responde, mas também não diz não! ... Meu caro
diretor, acho que por hoje é o suficiente. Peço-lhe novamente
desculpas de ter abusado de seu tempo precioso. Antes de partir,
gostaria que explicasse a meu cliente que faço questão absoluta
de lhe apertar a mão: será a única maneira de ele compreender
minha simpatia e afeição sinceras.
Deliot estendeu a mão enquanto o intérprete traduzia a
mensagem para seu cliente. Mas as mãos de Vauthier permaneceram
imóveis.
Quando os dois visitantes se encontraram fora da Santé,
o advogado perguntou:
- Diga-me francamente, o que pensa de meu cliente?
- O mesmo que o senhor, meu caro mestre. É um rapaz
inteligente e astucioso, que só dirá o que quiser e que sabe aproveitar-se
de seu aspecto para enganar os que o vêem.
- Essa é também a minha opinião. Ah, meu caro amigo,
acabo de me convencer de que as pessoas inteligentes são, às
vezes, mais difíceis de se defender que as imbecis!
Victor Deliot voltou imediatamente para casa, onde Danielle
o esperava com impaciência para lhe entregar uma carta que
chegara com o carimbo de Sanac. Ao terminar de lê-la, o advogado
declarou:
- Tenho de sair novamente ... Preciso pegar o trem de
meio-dia que me deixará em Limoges às sete horas ... Tenho
uma visita importante a fazer naquela agradável cidade. Em
seguida, penso ter um encontro lá pelas cinco horas, ao nascer
do sol... se ele nascer! E mesmo que ele não nascesse mais,
eu iria até o fim desse caso tenebroso ... Bem, peço-lhe que
fique morando aqui até minha volta, para continuar a montar
guarda.
- Quando pretende regressar, mestre?
- Ignoro.... Recapitulemos : das cinco pessoas às quais
escrevemos, já consegui falar com uma, a mãe. Esta noite, encontra-me-ei
com a segunda em Limoges: o doutor. Amanhã
verei duas outras. Falta a quinta: a esposa. Esta será a mais
difícil de encontrar! Terá recebido minha carta? E, se recebeu,
responderá? Mistério! ... Apesar de tudo, tenho esperanças.
Com um pouco de bom senso, as situações mais complicadas
se resolvem. É uma pena que sua tese de doutorado já esteja
tão adiantada, porque senão eu lhe arranjaria um bom tema:
Pode o advogado de defesa, em consciência, aprovar um assassinato?
De qualquer forma, reflita no assunto. E, se achar que
vale a pena, recomece tudo de novo! Você não estará só: eu
mesmo, neste momento, com 68 anos, tenho a impressão de
estar recomeçando minha carreira... Até breve, minha filha...
A ausência durou quatro dias. Danielle já estava inquieta
quando ouviu o toque de campainha característico do advogado.
Eram duas horas da tarde.
- Até que enfim, mestre!
- Boa tarde, minha filha... Sobrou alguma coisa para eu
comer? Estou com uma fome de lobo ... meu velho estômago
não se acostuma mais aos esplendores duvidosos de um vagão-restaurante.
- Temos de tudo, mestre. O senhor deve estar exausto.
- Menos do que eu esperava. Autorizo-a a conversar
comigo durante a refeição, mas, depois é preciso que volte
para casa..
Ele fez honra ao almoço. A jovem não ousou interrogá-lo.
Foi ele quem se resolveu a falar, descascando uma pera:
- Vejo que morre de curiosidade de saber o que fiz, verdade?
E, como nada me perguntou, vou dizer-lhe tudo ... Tive a oportunidade de
assistir a algumas experiências ...
- Experiências?
- Em seres humanos que nasceram sem ver, ouvir e, conseqüentemente,
não puderam falar.
- E eles vivem?
- Menos mal do que você imagina ...
Continuou a descascar a pera, observando sua jovem assistente
que lhe pareceu inquieta.
- O que é que você tem? - perguntou. - Há alguma
coisa que a preocupa?
- Eu não lhe queria falar, mestre, porque sei que anda
tão sobrecarregado... Mas é o seguinte: todas as noites, desde
que partiu, lá pelas 11 horas, eu recebia um telefonema estranho.
Era uma voz de mulher, sempre a mesma, que perguntava pelo
senhor. Como eu respondesse que não estava, ela desligava
imediatamente.
- E tudo?
- Sim, mestre.
- É pouco! Se ao menos eu tivesse uma amante ciumenta
poderia esperar que fosse ela, mas não tenho! Agora, minha
filha, volte para sua casa... Amanhã lhe dou folga. De qualquer
forma, não deixe de passar aqui depois de amanhã. Boa tarde.
Ficando só, Deliot enfiou seu roupão e, pela primeira vez,
deixou de lado a velha poltrona: instalou-se à escrivaninha e
pôs-se a ler uma série de brochuras que trouxera de sua viagem
e em cujas capas havia a menção: "Instituição Regional
dos Surdos-Mudos-Cegos, Sanac." Foi arrancado da leitura pela
campainha do telefone:
- Alô? ... Ele mesmo, senhora ... Com quem tenho o
prazer de falar? Ah, perfeitamente! ... Acabou recebendo minha
carta? O que prova, minha senhora, que não é tão difícil de
ser encontrada, como pretendiam meus predecessores! ... Gostaria
muito de encontrá-la, Sra. Vauthier... Somente a senhora
poderá esclarecer-me sobre esse caso doloroso ... Suplico-lhe,
minha senhora! Trata-se de seu marido ... E da senhora também ...
Estão mal explicadas e interpretadas as razões de seu
desaparecimento e de seu silêncio... Eu sei que a senhora nada
teve a ver com o caso ... e é justamente por isso que preciso
de sua ajuda: seu testemunho será precioso ... Estou às suas
ordens. No dia e hora que fixar ... Prefere não vir aqui? Compreendo
muito bem ... Quer que eu vá à sua casa? Também
não? Prefere conservar-se incógnita? Admito igualmente..
Então, onde nos encontraremos? Em Bagatelle? É um local
lindo, mais próprio para um encontro amoroso ... Sua idéia
não é má: nesta época do ano há muito pouca gente... Prometo
que irei sozinho: segredo profissional... Amanhã cedo?
Dez horas está bem? Na alameda dos roseirais? Usará um costume azul-marinho e
uma écharpe cinza? Reconhecer-me-á facilmente: não passo de um velhote muito
míope, sempre vestido de preto! ... Meus respeitos, senhora...
Victor Deliot tornou a mergulhar em sua leitura: seu
rosto não refletia qualquer sentimento de satisfação.
Ele foi pontual ao encontro. A senhora de costume azul-marinho
e écharpe cinza estava à sua espera, caminhando pela
alameda do roseiral. Aquela hora matinal, os jardins de Bagatelle
estavam desertos. O advogado dirigiu-se para a desconhecida,
ajustando seus lorgnons para ter uma primeira impressão
de conjunto: e esta foi exatamente como ele previra.
Solange Vauthier oferecia um contraste gritante com seu marido: loura, enquanto ele era moreno, fina, com uma aparência frágil,
más idealmente bonita. A pele parecia transparente, as carnes
diáfanas: uma criatura de sonho surgida de qualquer lenda
das margens do Reno. Era pequena, mas tão bem proporcionada
no tipo mignon quanto seu marido na espécie gigante.
Essa encantadora criatura era realmente a Bela da Fera ...
- Desculpe-me tê-la feito esperar - disse o advogado
tirando o chapéu.
- Isso não tem a menor importância - respondeu a moça esboçando um sorriso cuja
estranha tristeza chocou seu interlocutor. - Estou escutando, pode falar ...
- Tentarei ser breve. Em duas palavras, preciso da senhora!
E quando eu digo preciso, entenda precisamos: seu marido e eu ...
- Tem certeza do que diz, mestre? - respondeu ela
com ceticismo. - Jacques tem feito tudo ao contrário para
evitar ver-me desde o momento do crime. Insisti para que ele
me recebesse na prisão: ele sempre se recusou. Parece que procura
fugir de mim ... Por quê?
- Eu ainda nada lhe posso explicar, senhora. Eu mesmo
procuro... hesito ... A única coisa que sei, porque sinto, é
que pode, que deve me ajudar!
- Mas é o que eu mais desejo, meu caro mestre!
- Então, senhora, por que se recusou a prestar esse
mesmo auxílio aos meus predecessores?
- Não confiava neles. Ambos viam em meu marido apenas
um caso a explorar em benefício da própria publicidade.
Se eu lhe dissesse que esses pretensos defensores estavam persuadidos
da culpabilidade do meu marido, enquanto que eu sei
que Jacques não matou!
- O que a faz afirmar isso, senhora?
- Um sentimento íntimo e estritamente pessoal. Jacques
é incapaz de matar! E eu posso dizer isso seguramente porque
ninguém o conhece melhor do que eu.
- Não duvido, senhora. É por isso que me vai ser de
grande auxilio.
- Não, mestre! Eu lhe seria de alguma utilidade se Jacques
quisesse ser defendido. Mas ele não quer. Faz tudo para
ser condenado: eu sinto! Eu sei! Nem o senhor, nem pessoa
alguma no mundo conseguirá arrancar-lhe seu segredo, se eu
mesma não o consegui no navio, durante os interrogatórios,
quando servi de única intérprete após o crime.
- Contraditório como isso lhe possa parecer, após minhas
primeiras conclusões, devo confessar-lhe, senhora, que estou
convencido, assim como meus predecessores, de que seu marido
é o assassino do jovem americano! Todas as provas são contra
ele: suas impressões digitais, suas próprias declarações...
- Mas por que acha que ele iria matar um homem que
não conhecia, e do qual ignorava mesmo a própria existência?
- Somente a senhora poderá ajudar-me a encontrar esse
porquê... Tenho todo o direito de pensar que os motivos desse
crime foram tão válidos, e isso eu já comuniquei a seu marido
por intermédio de meu intérprete, que não me será difícil absolvê-lo.
A jovem mulher olhou longamente o advogado antes de
responder quase num sussurro, como se temesse que a brisa
espalhasse suas palavras pelos jardins desertos:
- Jacques não tinha razão alguma para cometer esse crime ...
- Felizmente, minha cara senhora, essas suas últimas
palavras foram pronunciadas apenas diante de mim, o defensor
de seu marido e, portanto, seu amigo! Se obstinar-se a repeti-las
diante da Corte, onde tenho a firme intenção de citá-la como
testemunha de defesa, poderíamos temer que elas contribuíssem
para a condenação de Vauthier! Creio que deveríamos nos encontrar
novamente amanhã, para tratarmos do assunto com mais
calma e mais longamente. Digamos que este encontro ao ar livre
foi apenas uma tomada de contato. Determine a hora que quiser. O tempo voa!
- Deixe-me refletir. Eu lhe telefonarei esta noite pelas
11 horas.
- Como achar melhor... Ah, antes de deixá-la, gostaria
de lhe fazer mais uma pergunta.
- Estou às ordens.
- Ainda há pouco, a senhora me disse que seu marido
se havia recusado obstinadamente a revê-la desde o momento
do crime: isso confirma, ponto por ponto, as informações que
tenho ... Afirmou, igualmente, que havia tentado o impossível para revê-lo,
apesar de suas negativas. Quero dizer-lhe que as informações que obtive a esse
respeito dizem exatamente o contrário. Algumas chegam mesmo ao ponto de insinuar
que a senhora se esconde. Reconheça que sua atitude até hoje, no que toca aos
defensores de seu marido, confirma essa opinião ...
É isso que me permite perguntar-lhe: Sra. Vauthier, quer me
ajudar a defender seu marido, acusado de um assassinato? Sim
ou não?
O olhar azul e vago da jovem errou novamente pelo rosto de seu interlocutor.
Seus lábios tremeram, mas não emitiram som algum. Então, bruscamente, ela virou
o rosto e fugiu, os olhos banhados de lágrimas, pela alameda cheia de rosas ...
O velho advogado, petrificado, olhava a frágil silhueta a
se afastar rapidamente, sem tentar alcançá-la. Não se corre atrás
da verdade que foge. Tirou os lorgnons e pôs-se a limpá-los com
seu lenço xadrez, enquanto se dirigia também para a saída do
jardim. "Aí está", dizia para si mesmo, "o casal mais extraordinário
que se possa encontrar ... A Bela e a Fera ... A Bela
deve ser má, A Fera, sem dúvida é boa ... Mas que segredo
pode existir entre esses dois seres para que nem um nem outro
se queiram rever?"
No momento em que atravessava o portão de Bagatelle, o
defensor de Vauthier resmungou em voz alta: "Vamos, Deliot,
coragem! Por obra e graça desse presidente dos diabos, você
está metido num dos crimes mais estranhos de nosso tempo!"
Uma semana se havia passado desde que o Presidente da
Ordem confiara a Victor Deliot a defesa de Jacques Vauthier,
quando o velho advogado reapareceu no Palácio.
- Então? - disse-lhe Musnier recebendo-o em seu escritório:
Em que ponto anda com seu caso?
- Estou quase pronto - respondeu Deliot num tom
desenvolto que espantou seu colega de mocidade.
- Õtimo! Mas provavelmente você me vem pedir um adiamento?
- Não. Estarei preparado para a primeira audiência, no
dia 20 de novembro.
- Tão cedo? Pelo que vejo conseguiu sair-se bem... E
o que acha de seu cliente?
- Permita-me não responder...
- Como quiser! Enfim, está contente? Não me odeia
mais por eu o ter encarregado oficialmente da defesa?
- Eu lhe agradecerei mais tarde ... No momento, gostaria
de conhecer meu adversário.
- Voirin? Já o conhece?
- De nome ...
- Será um páreo duro! E o advogado da Embaixada. Encarrega-se
quase sempre da defesa dos cidadãos americanos,
principalmente quando são assassinados em nossa terra! Deve
estar no Palácio neste momento: vou mandar chamá-lo...
Enquanto o presidente dava ordens ao contínuo, Deliot lhe
disse:
- No fundo, você me presta um grande serviço. Pergunto-me se um colega
tão ilustre se rebaixaria a travar conhecimento
com um pobre advogado como eu, antes do processo?
- Voirin é um rapaz amável sob uma aparência um pouco
distante... Ainda que jamais o tenha visto, tenho certeza de
que sente admiração pelo colega que assumiu a pesada tarefa
de defender Vauthier. Suas relações profissionais só podem ser
excelentes ... Mas ei-lo que chega ... Entre, por favor, meu
caro amigo. Quero lhe apresentar seu novo adversário no caso
Vauthier, meu bom e velho camarada Deliot... .
O aperto de mão trocado entre os dois advogados foi frouxo.
Voirin e Deliot em nada se pareciam. Fisicamente, Voirin
era um tipão: uns 20 anos mais moço que seu adversário, exprimia-se
com uma certa preciosidade de palavras e parecia
muito satisfeito de ouvir-se falar. Moralmente, a diferença era
ainda mais sensível: Victor Deliot não pensava senão em seus
clientes, ao passo que André Voirin só pensava em si mesmo.
Desde esse primeiro contato, o assistente da acusação quis estabelecer
as distâncias:
- Creio que é a primeira vez, meu caro colega, que entra
como advogado de defesa no Tribunal Criminal?
- E verdade e me sinto um pouco apreensivo!
- Compreendo perfeitamente! E difícil adaptar-se ... Eu mesmo prefiro deixar
para meus assistentes os casos da Vara Correcional ...
O velho advogado não pestanejou, perguntando amável:
- Já que tive a boa sorte de encontrá-lo no gabinete do
presidente, posso perguntar-lhe, meu caro colega, quantas testemunhas
pretente arrolar?
- Uma boa dúzia ... E o senhor?
- A metade apenas...
- Isso não me admira! Seus predecessores não fizeram
segredos dos obstáculos que encontraram nesse sentido.
- É que não procuraram vencê-los! - disse Deliot, sorrindo. - Meu caro colega,
tornaremos a nos encontrar na primeira audiência ...
Assim que Victor Deliot saiu, o elegante Voirin confiou
ao Presidente da Ordem dos Advogados de Paris:
- Que homem estranho! De onde saíu ele? Veio da província?
- Engano completo, meu caro ... Deliot é o decano dos membros da Ordem ...
- E quase inacreditável! Pode-se saber, meu caro presidente,
por que lhe confiou este caso?
- Por três razões pertinentes: a primeira, é que ninguém
queria aceitar a defesa... a segunda, é que achei justo dar a um homem como
Deliot um caso que o tornaria conhecido, pelo menos da maioria dos colegas que o
ignora deliberadamente ...
a terceira, porque acredito na capacidade de seu adversário ...
- É mesmo? - perguntou Voirin cético.
- Não é uma pessoa com uma aparência muito brilhante, mas, a meus olhos, possui
uma qualidade que se torna cada vez mais rara na nossa profissão: ele gosta do
seu trabalho...
A futura advogada Danielle Gény nunca tivera a oportunidade,
até aquele dia, de assistir a um processo no Tribunal Criminal,
pois os lugares reservados aos membros do banco dos
advogados são sempre distribuídos a colegas bem relacionados
na Corte, mas nesse dia 20 de novembro, data da abertura do
julgamento de Vauthier, a jovem não se podia queixar. Instalada
no banco da defesa por Victor Deliot, que a havia apresentado
como sua melhor colaboradora, ela observava com curiosidade
a sala e as pessoas que a lotavam. O duplo fato de ter vestido
uma toga e colocado orgulhosamente sobre os cabelos ruivos
um barrete dava a Danielle a impressão de ali estar no seu elemento.
A primeira pessoa que caiu sob o olhar tremendamente
curioso da jovem foi, é claro, seu vizinho mais próximo: o bom,
o excelente Victor Deliot. Parecia que aquelas grandes circunstâncias
em nada haviam modificado seu aspecto desleixado: a
toga desbotada era sempre a mesma e os lorgnons continuavam
a equilibrar-se sobre o grande nariz que imperava sobre o bigode
espesso. O velho advogado não se preocupava absolutamente
com os 500 pares de olhos fixos nele, numa estranha mistura
de espanto e comiseração. Cada um se perguntava de onde teria
vindo aquela criatura de uma outra época e que chances teria
de sair com honras de batalha de um caso tão delicado. Na
ocasião, Victor Deliot concentrava toda sua atenção no que lhe
dizia seu vizinho da esquerda, o diretor do Instituto da Rua
Saint-Jacques. Este acabara por se apaixonar também pelo caso.
Havia solicitado e obtido autorização para servir de primeiro
intérprete entre a Corte e o acusado, ao longo dos debates. Por
várias vezes, durante as três semanas que haviam precedido a
abertura do julgamento, esse homem de coração havia acompanhado
Victor Deliot à Santé e conseguido, à força de habilidade,
arrancar ao prisioneiro algumas respostas essenciais. O
próprio Jacques Vauthier havia acabado por se acostumar à quele
intérprete, cuja escolha se anunciava judiciosa em todos os pontos,
para o bom andamento do processo.
Após ter vagado rapidamente pela assistência, constituída
principalmente de mulheres elegantes e ociosas, o olhar de
Danielle fixou-se no adversário, o advogado Voirin. Este -
era mister reconhecer - era um homem vistoso, possuindo um
porte que contrastava visivelmente com o do modesto e obsfcuro
Deliot. Estava assistido por um verdadeiro estado-maior de
importantes colaboradores aos quais ele próprio havia conferido
respeitável reputação. Ao contrário de Victor Deliot, mestre
Voirin olhava complacentemente a assistência, consciente
dos olhares langorosos que a sua figura auto-suficiente atraía,
principaumente de suas admiradoras habituais. Sentia-se que
uma vez mais o grande advogado se preparava para o triunfo.
Essa segurança perturbava Danielle que pressentia a profundidade
do abismo onde iria precipitar-se seu velho amigo. Decididamente,
esse Voirin podia ser tudo, menos simpático.
Finalmente, quando o introduziram na sala, os olhos perscrutadores
da moça se imobilizaram sobre o acusado que ela
ainda não havia visto e sobre o qual Deliot fizera apenas uma
vaga descrição. Aquilo foi para Danielle, delicada e sensível,
um verdadeiro choque: sua respiração parou por alguns segundos.
Ela jamais poderia imaginar que existisse sobre a face da
terra uma criatura semelhante e que essa criatura pertencesse
à espécie humana ... Os cabelos eriçados, aquela feição bestial,
o maxilar de buldogue, a cabeça monstruosa desajeitadamente
pousada sobre um corpo de atleta, aquela aparição assustadora
emergia do boxe dos acusados entre dois guardas que pareciam
franzinos ao lado de tal gigante. A jovem teve um movimento
de recuo: o cliente de Victor Deliot não podia ser a criatura
ínfeliz da qual o advogado falava com tanta afeição. Bastava
contemplá-lo para sentir nele o bruto, o bruto integral, que
raramente se encontra. Danielle estava horrorizada. E sofreu
só em pensar que seu bom amigo se havia encarregado de defender
um ser como aquele.
Seu olhar voltou-se então para o corpo de jurados que esperava,
silencioso, observando o estranho acusado, cujo rosto petrificado
não deixava transparecer qualquer sentimento. Jacques
Vauthier, fechado em si mesmo por sua tripla deficiência, estaria
percebendo a tragédia que se ia desenrolar à sua volta e da
qual seria a vítima? A presença desse surdo-mudo-cego imóvel
fazia pairar sobre a sala um mal-estar indescritível.
Com a entrada da Corte, a jovem foi arrancada, durante
alguns instantes, de suas tristes constatações. Toda a sala se
havia levantado à espera de que o Presidente Legris e seus assessores
tomassem seus lugares. As funções do Ministério Público
estavam a cargo de Berthier: um homem que Deliot temia infinitamente
mais do que a seu colega Voirin. Promovido recentemente
a esta alta dignidade, o promotor parecia encarar como
questão de honra obter a cabeça de todos os acusados que passavam
pelas suas garras. Para Deliot, Berthier não passava de
um monstro, sedento do que ele chamava pomposamente de
"Justiça". A defesa se ia defrontar com um adversário sutil e
astucioso cuja eloqüência espetacular impressionava sempre os
jurados.
A leitura da Denúncia foi feita em voz monocórdia pelo
escrivão. Nada acrescentava de novo e se limitava a resumir
em termos jurídicos o que todo mundo já sabia sobre as circunstâncias
do crime, pelas notícias detalhadas dos jornais.
Quando a leitura terminou, o interrogatório de identidade do
réu começou com o auxílio do intérprete que transmitia as perguntas
do Presidente Legris em alfabeto datilológico sobre as
falanges de Jacques Vauthier. Para que não houvesse o menor
erro de transmissão, o Tribunal autorizara o acusado a utilizar
a punção e a reglete da escrita Braille. Assim que ele traçava
os caracteres no papel perfurado, um segundo intérprete traduzia
em linguagem oral a resposta para a Corte e os jurados. Se
bem que fosse longo, esse método duplo tinha sido escolhido
como sendo o mais seguro e o único que evitaria o desvirtuamento
de perguntas e respostas.
Esse interrogatório teria sido por demais cansativo para a
assistência, se esta não estivesse apaixonada pelo trabalho dos
intérpretes.
- Seu nome?
- Jacques Vauthier.
- Data e local de nascimento?
- 5 de março de 1923, Rua Cardinet, Paris.
- O nome de seu pai?
- Paul Vauthier, falecido em 23 de setembro de 1941.
- O de sua mãe?
- Simone Vauthier, nascida em Arnould.
- Tem irmãos ou irmãs?
- Uma irmã, Régine.
Desta forma, os jurados tomaram conhecimento de que
Jacques Vauthier, nascido no apartamento de seus pais na Rua
Cardinet, 16, em Paris, com sua tripla deficiência, havia passado
os primeiros 10 anos de sua existência cercado pelos seus
e cuidado particularmente por uma menina, apenas três anos
mais velha que ele, a pequena Solange Duval, cuja mãe estava
também a serviço dos Vauthier. A jovem Solange cuidava exclusivamente
do doente, cujo estado exigia uma presença permanente.
Desesperançados de poder educá-lo, os pais de Jacques,
comerciantes de posses, haviam procurado várias instituições
especializadas para conseguirem a internação do infeliz menino.
Finalmente, o Instituto Regional de Sanac, na Haute-Vienne,
dirigido pelos Irmãos de São Gabriel, e por onde vários casos
semelhantes já haviam passado com resultados excelentes, consentiu
em receber o caçula da família Vauthier. Foi o próprio
superior da Instituição, Frei Yvon Rodelec, que veio buscar o
menino em Paris. Jacques Vauthier viveu os 12 anos seguintes
em Sanac, onde, por sua inteligência viva, progrediu rapidamente.
Após ter conseguido brilhantemente seus dois bacharelados,
com 18 e 19 anos, começara, a conselho de Yvon Rodelec
que o notava dotado para as letras, a escrever um romance
intitulado O Isolado, que só foi publicado três anos mais
tarde e que causou sensação. O jovem e novo escritor fora
ajudado em sua tarefa pela antiga empregadinha Solange Duval,
à qual Yvon Rodelec havia proporcionado igualmente uma
sólida instrução. Solange Duval aprendera os seis sistemas diferentes
de sinais indispensáveis para se poder comunicar com
o doente: a linguagem mímica, a datilologia, a escrita Braille,
a escrita tipográfica Ballu, a escrita inglesa e até a linguagem
vocal própria aos surdos-mudos-cegos, cujo emprego era bastante
limitado.
Seis meses após o aparecimento de O Isolado, Solange
Duval desposara Jacques Vauthier em Sanac. O acusado tinha
então 23 anos e sua mulher, 26. Algumas semanas mais tarde,
o jovem casal embarcava para os Estados Unidos. Convidado
por um grupo americano, Jacques Vauthier, durante cinco anos,
percorreu os Estados Unidos, proferindo conferências destinadas
a esclarecer o grande público sobre os progressos extraordinários
realizados na França, no setor dos surdos-mudos-cegos de
nascença. Solange Vauthier, durante todo esse período, foi a
colaboradora e intérprete de seu marido. E foi no retorno dessa
longa viagem que se desenrolou o drama a bordo do De Grasse.
O presidente pronunciou a frase ritual:
- Introduzam a primeira testemunha arrolada pela
Acusação...
Era um rapaz alto e louro, talhe esbelto, sobriamente vestido,
cuja fisionomia franca irradiava simpatia: repousava a
assistência da contemplação horrível do acusado. Danielle não
queria admitir, mas o recém-vindo, do qual ela nada sabia, lhe
agradava ... E, do momento que agradava a ela - que escondia
sob a toga um verdadeiro coração de balconista, pronto a
se derreter ao primeiro raio de sol - era de se esperar que
agradasse também às outras mulheres presentes.
- Seu nome?
- Henri Téral - respondeu com uma voz um tanto
intimidada.
- Sua idade e local de nascimento?
- 10 de julho de 1915, em Paris.
- Sua nacionalidade?
- Francesa.
- Sua profissão?
- Camareiro a bordo do navio De Grasse da Companhia
Geral Transatlântica.
- Jura dizer a verdade, nada mais que a verdade, toda
a verdade ... Levante a mão direita e diga: "Juro".
- Juro.
- Sr. Téral, entre as cabinas de luxo que ficavam a seu
cuidado, a bordo do De Grasse, encontrava-se precisamente a
ocupada pelo Sr. John Bell. Poderia dizer à Corte em que circunstâncias
o senhor foi o primeiro a descobrir o crime na tarde
de 5 de maio?
- Sr. Presidente, quando iniciei uma inspeção às cabinas
das quais eu estava encarregado, no dia 5 de maio depois do
almoço, hora em que habitualmente não se perturbam os passageiros,
quase todos repousando, foi por ordem formal do comissário
Bertin. Ele ordenara a todo o pessoal de bordo que procurasse
um passageiro desaparecido: o Sr. Vauthier. Todos
nós conhecíamos, pelo menos de vista, o Sr. Vauthier, surdo-mudo-cego,
que costumava passear no convés pelo braço de
sua mulher e não podia de forma alguma passar despercebido
no navio por causa da sua tripla deficiência. As buscas deveriam,
portanto, ser fáceis. Depois de ter entrado, graças às chaves que
sempre trago comigo por motivo de serviço, em várias cabinas
e me desculpado pelo incômodo causado, surpreendi-me ao verificar
que a porta da cabina de luxo ocupada por um passageiro
americano, o Sr. John Bell, estava entreaberta... Empurrei-a
com certa dificuldade: alguém parecia estar apoiado contra
ela. Quando finalmente consegui entrar, compreendi a razão
dessa resistência: as mãos do Sr. John Bell, cujo corpo se achava
ajoelhado, estavam crispadas sobre a maçaneta da porta...
Não precisei de muito tempo para constatar que me encontrava diante de um
cadáver ainda quente ...

2. AS TESTEMUNHAS DE ACUSAÇÃO
- ... o Sr. John Bell - continuou o camareiro -
acabava de ser assassinado. Era impossível ter a menor dúvida
a respeito: um rastro de sangue coagulado saído de seu pescoço
espalhava-se pelo tapete após haver manchado todo o pijama.
- Sr. Presidente - disse Victor Deliot de seu banco -
gostaria de fazer uma pergunta à testemunha... Diga-nos
exatamente, Sr. Téral, onde se encontrava Jacques Vauthier
quando o senhor entrou na cabina?
- O Sr. Vauthier estava sentado no beliche ... Parecia
bestificado e indiferente. O que mais me chocou foram suas
mãos estendidas à sua frente, os dedos separados, e que ele
contemplava com aversão, se bem que não pudesse vê-las ... E
estavam sujas de sangue.
- E o senhor deduziu então - continuou o advogado
Deliot - que ele era o assassino?
- Eu não deduzi nada! - respondeu calmamente o camareiro.
- Encontrava-me diante de dois homens, um dos quais
estava morto e o outro vivo ... Ambos cobertos de sangue.
Aliás, havia sangue por toda parte: no tapete, no edredão e até
mesmo no travesseiro ... A desordem indescritível da cabina
indicava que devia ter havido uma luta selvagem. Certamente
a vítima havia reagido, mas seu adversário era muito mais forte.
Todos os presentes podem constatar: o Sr. Vauthier tem um
físico de atleta.
- O que fez então? - perguntou o presidente.
- Saí precipitadamente da cabina, pedindo socorro a um
colega. Pedi-lhe que montasse guarda diante da cabina para
impedir que eventualmente o Sr. Vauthier saísse e corri à procura
do Comissário Bertin. Mal chegamos diante da porta entreaberta,
entramos todos os três na cabina. Vauthier não se
havia mexido: continuava sentado sobre o leito, prostrado...
Meu colega e eu só fizemos executar as ordens do Sr. Bertin.
- Que ordens?
- Após nos termos aproximado cautelosamente de Vauthier,
constatamos que ele não portava arma alguma. Esta não
se encontrava também perto do cadáver. Foi o Comissário Bertin
quem fez essa observação. Lembro-me perfeitamente do
que ele disse então: "Interessante! Pelo ferimento só pode tratar-se
de um punhal... Onde estará ele? Não adianta perguntar a Vauthier, que deve ser
o único a saber, pois ele não intende nem é capaz de falar! Enfim, cuidaremos
disso mais tarde... O mais urgente, no momento, é segurarmos esse sujeito que
tem todo o tipo de ser o criminoso. Por medida de precaução, convém trancafiá-lo
imediatamente na prisão de bordo ...
Será que ele se vai deixar levar?" Ao contrário do que
temíamos, Vauthier não opôs a menor resistência. Dir-se-ia que
ele se havia resignado à própria sorte, depois de ter cometido o
crime e que havia permanecido intencionalmente sentado na
cama de sua vítima para que não restasse a menor dúvida sobre
sua culpabilidade! Deixou-se conduzir à prisão como uma criança
pelo Comissário Bertin e por mim, enquanto meu colega
continuava a montar guarda diante da cabina. Eu mesmo fiquei
de sentinela diante da porta blindada da prisão até que um
homem da tripulação, designado pelo comandante, me veio
substituir meia hora mais tarde.
- Voltou logo a seguir ao local do crime?
- Sim, mas quando cheguei diante da porta vi que o
nosso comandante, o Sr. Chardot, estava interditando o local,
colocando na porta o selo judicial. Ao mesmo tempo o Comissário
Bertin ordenou-me que não usasse minha chave especial
para entrar nessa cabina onde nada poderia ser tocado até a
chegada ao Havre. O Comandante Chardot recomendou, finalmente,
ao pequeno grupo de camareiros e homens da tripulação
que o cercavam que não convinha espalhar o acontecido
entre os passageiros, que no entanto logo souberam de tudo!
- A Corte lhe agradece, Sr. Téral. Pode retirar-se ...
Introduzam a testemunha seguinte ...
Esta se apresentou uniformizada:
- André Bertin, primeiro comissário de bordo do navio
De Grasse.
O depoimento do Comissário Bertin concordava, ponto por
ponto, com o do camareiro.
- Sr. Comissário - perguntou o presidente - a testemunha
precedente, Sr. Henri Téral, declarou que tanto ele
como o senhor ficaram surpreendidos de não encontrarem na
cabina a arma do crime. Verdade?
- Sim, Sr. Presidente... e o mais estranho de todo esse
caso é que, apesar das buscas feitas em seguida, a arma jamais
foi encontrada...
- Isso nada tem de extraordinário - interrompeu Berthier.
- O prosseguimento dos debates mostrará à Corte e aos
Srs. Jurados a natureza dessa arma, assim como a maneira
muito simples pela qual o criminoso, segundo suas próprias
explicações, a fez desaparecer!
- Sr. Comissário - perguntou ainda o Presidente Legris
- diga-nos exatamente o que fez após ter encarcerado Jacques
Vauthier na prisão de bordo?
- Permito-me observar à Corte - disse Victor Deliot,
- que a defesa se admira com razão da iniciativa tomada imediatamente
pelo Comissário Bertin de mandar prender meu
constituinte quando nada provava ainda ter sido ele o assassino
de John Bell!
- Como nada provava? - respondeu o comissário indignado.
- Essa é demais! Qualquer homem sensato teria feito
o mesmo em meu lugar! E não ia deixar passeando livremente
pelo De Grasse um homem que eu acabara de encontrar sentado,
as mãos ensanguentadas, ao lado de um cadáver ainda
quente!
- Protesto! - exclamou Voirin. - Protesto contra essa interrupção da defesa. O
comportamento do Comissário Bertin foi o de um homem que cumpria estritamente
seu dever...
Asiás, sua atitude foi plenamente justificada uma hora mais tarde
pelas próprias declarações de Vauthier que, na presença de
numerosas testemunhas, reconheceu formalmente ser o autor do
crime.
- O incidente está encerrado - disse com calma o presidente
- e voltemos a minha pergunta à qual a testemunha
ainda não respondeu.
- Sr. Presidente, assim que mandei encarcerar o Sr. Vauthier, apresentei-me a
nosso comandante ao qual comuniquei a macabra descoberta. O Comandante Chardot
desceu imediatamente à cabina do crime onde nada fora tocado sem contar com
Vauthier que tínhamos sido obrigados a retirar. O corpo da vítima se encontrava
ainda na mesma posição, as duas mãos agarradas na maçaneta da porta. O
Comandante Chardot se fizera acompanhar do médico de bordo, o Dr. Langlois, que
fez as primeiras constatações médicas. Durante esse tempo, a conselho do
comandante que me acompanhou ao escritório do comissariado, senti-me na
obrigação de avisar a Sra. Vauthier sobre o acontecido. Quando lhe contei, ela
desmaiou ... Quando finalmente voltou a si, a Sra. Vauthier consentiu em nos
acompanhar, ao Comandante Chardot e a mim, à prisão para nos servir de
intérprete num primeiro interrogatório sumário de seu marido. Devo precisar,
para o bom nome da Companhia Geral Transatlântica, que tudo isso foi feito o
mais discretamente possível. Infelizmente fomos obrigados a radiografar a
notícia do assassinato à polícia francesa pedindo que viesse a bordo quando o
navio aportasse no Havre. A transmissão desse cabograma, embora cifrado, foi
alvo de indiscrições. No dia seguinte, todos os passageiros sabiam que um crime
fora cometido a bordo ...
- Como se comportou Jacques Vauthier durante seu primeiro
interrogatório a bordo, na presença de sua mulher? -
perguntou o presidente.
- Aparentava calma. A única resposta que conseguimos
arrancar dele, por intermédio da Sra. Vauthier foi: "Fui eu
quem matou esse homem. Reconheço o crime e não me arrependo
de nada." Resposta que o próprio Jacques Vauthier escreveu
com uma punção e uma reglete em escrita Braille, e que
foi entregue pelo Comandante Chardot ao inspetor encarregado
da investigação, assim que chegamos ao Havre.
- A peça em questão - assinalou o Promotor Berthier - está à disposição da
Corte...
- Chamo desde já a atenção dos Srs. Jurados - disse Voirin - sobre a importância
capital desta declaração do próprio punho, escrita pelo acusado e na qual ele
reconhece ter matado John Bell...
- A testemunha pode dizer-nos - perguntou Victor Deliot
- qual foi a atitude da Sra. Vauthier quando soube pelo
próprio marido que ele havia matado?
- A Sra. Vauthier - respondeu o comissário - foi
muito corajosa. Lembrou-me de que ela nos disse, ao Comandante
Chardot e a mim, após ter traduzido a resposta de seu
marido escrita em Braille: "Jacques afirma ter matado esse
homem e eu digo que isso é impossível! Jacques não é nem
pode ser um criminoso! Por que iria matar um homem que nunca
viu, que não conhecíamos e com o qual não tivemos o menor
contato desde nossa partida de Nova York?".
- Tem certeza das palavras que está repetindo? - perguntou
o presidente à testemunha.
- São as próprias palavras da Sra. Vauthier...
- Agora sou eu que quero chamar a atenção dos Srs.
Jurados - declarou Victor Deliot - sobre o fato importantíssimo
de que a Sra. Solange Vauthier se recusa a admitir a
culpabilidade de seu marido...
- O contrário teria sido espantoso! - retorquiu Berthier.
- Já foram vistas e ouvidas neste recinto, coisas mais
espantosas, Sr. Promotor! - respondeu Victor Deliot.
- A Defesa tem outras perguntas a fazer à testemunha?
- perguntou o presidente.
- Nenhuma...
- A Corte lhe agradece, Sr. Comissário. Pode retirar-se.
Introduzam a terceira testemunha: o Comandante Chardot.
- Sr. Presidente - disse o comandante do De Grasse -,
fui informado do crime pelo primeiro Comissário Bertin que,
por medida de prudência, acabara de encerrar na prisão de
bordo o suposto criminoso. Pediu-me instruções. Embora
nenhum passageiro ou membro da tripulação pudesse ser encarcerado
sem minha ordem formal, aprovei a decisão do Comissário
Bertin que tomara essa atitude para evitar que esse
fato lamentável se espalhasse entre os passageiros. Em companhia
do Comissário Bertin e do médico de bordo, Dr. Langlois,
dirigi-me à cabina ocupada pelo Sr. John Bell, diante da qual
um camareiro montava guarda. Substituí-o por um marinheiro.
Após ter constatado que nada havia sido tocado na cabina, coloquei
na porta um selo judicial. Mas havia um problema sério: aportaríamos no Havre somente sete dias depois
... Era portanto
impossível deixar o corpo na cabina sem correr o risco
de encontrá-lo em decomposição. Após um minucioso exame
do Dr. Langlois, deliberei transportá-lo durante a noite, quando
os passageiros estivessem recolhidos, para uma câmara frigorífica
do navio, o que permitiria aos investigadores e médicos legistas
o encontrarem em perfeito estado de conservação. A seguir,
reuni-me a Bertin, no comissariado, onde a Sra. Vauthier
esperava ansiosamente por notícias de seu marido desaparecido.
Explicamos-lhe, da melhor maneira possível, a tragédia na qual
o Sr. Vauthier estava gravemente comprometido.
- Qual foi então a atitude da Sra. Vauthier? - perguntou
Victor Deliot.
- A Sra. Vauthier desmaiou. Somente uma hora mais
tarde conseguimos persuadi-la a acompanhar-nos à prisão onde
estava seu marido.
- Qual foi a atitude dos dois esposos no instante preciso
em que se encontraram? - perguntou ainda o advogado de Jacques
Vauthier.
- A cena foi comovente. A Sra. Vauthier correu para o
marido, que a tomou nos braços. A Sra. Vauthier, em crise de
desespero, repetia em voz alta: "Você não fez isso, Jacques!
Não é possível, meu amor! Por quê?"
- Faço questão de observar aos Srs. Jurados - disse
Victor Deliot - que Jacques Vauthier não podia ouvir nem
compreender êssas palavras dolorosas pronunciadas por sua
mulher... Permito-me fazer mais uma pergunta à testemunha:
- nessa ocasião, a Sra. Vauthier segurava as mãos do marido?
- As mãos? - perguntou espantado o comandante do
De Grasse. - Não me lembro mais ... Parece que sim ...
- Procure lembrar-se, comandante. É muito importante!
- insistiu Victor Deliot.
- Permita a Corte que eu me espante - disse acremente Voirin - com a obstinação
da Defesa em tentar lançar a dúvida sobre o depoimento de uma testemunha cuja
boa-fé não pode ser posta em dúvida...
- Não se trata de boa ou má-fé, meu caro colega - exclamou
Victor Deliot - mas da vida de um homem! Tudo
tem sua importância! Os menores detalhes! Se insisto neste
ponto particular é simplesmente porque os dois esposos, de
mãos dadas, tiveram a possibilidade de conversar entre si sem
que o Comissário Bertin ou o Comandante Chardot o tivessem
percebido.
- E daí? - retorquiu o Promotor Berthier. - Mesmo supondo
que o casal Vauthier se tenha comunicado entre si com
o desconhecimento de terceiros, o que isto poderia modificar
em profundidade o processo?
- Tudo, Sr. Promotor! Simplesmente tudo! Encarregarme-ei
de demonstrá-lo no curso dos debates ... mas quis chamar
a atenção dos Srs. Jurados sobre esse ponto preciso.
Victor Deliot tornara a sentar-se.
- O que aconteceu na prisão - perguntou o presidente
- quando as primeiras efusões entre os esposos se acalmaram?
- Procedi imediatamente a um interrogatório de Jacques
Vauthier que o Comissário Bertin anotou por escrito. A Sra.
Vauthier serviu-nos de intérprete para fazer as perguntas. Jacques
Vauthier respondeu utilizando a punção, a reglete e o
papel-cartão que sua mulher trazia sempre na bolsa. As respostas
escritas pelo próprio Jacques Vauthier foram cuidadosamente
guardadas pelo Comissário Bertin.
- Todas essas peças estão à disposição da Corte - declarou
Berthier.
-Quais foram as perguntas que fez a Jacques Vauthier,
comandante? - perguntou o presidente.
- Minha primeira pergunta foi: "Reconhece ter matado
John Bell?"Resposta: "Fui eu quem matou este homem. Reconheço
o crime e não me arrependo de nada" ... Minha segunda
pergunta: "Com que o matou?" Resposta: "Com uma espátula
de cortar papel." Minha terceira pergunta: "Que espécie de
espátula?" Resposta: "A que estava sobre a mesinha de cabeceira
e que a Compánhia Geral Transatlântica põe à disposição
dos pàssageiros em cada cabina. Tenho uma igual em minha
própria cabina.." Minha quarta pergunta: "O que fez com
esse corta-papéis que não foi encontrado em lugar algum?" Resposta:
"Livrei-me dele, atirando-o ao mar pela vigia." Minha
quinta pergunta: "Por que o atirou ao mar, se logo a seguir não
hesitou em reconhecer seu crime? Seu gesto foi inútil!" Resposta:
"Eu tinha horror a essa espátula..." Minha sexta pergunta:
"Conhecia sua vítima antes de matá-la?" Resposta: "Não..."
Minha sétima pergunta: "Então por que a matou?" Jacques
Vauthier não respondeu. "Foi para roubar?"Resposta: "Não."
Minha oitava pergunta: "Foi por que John Bell lhe fez algum
mal ou o ofendeu gravemente?" Mais uma vez Vauthier nada
respondeu e, a partir desse momento, não mais respondeu a
qualquer pergunta minha. O Comissário Bertin e eu nos retiramos,
pedindo à Sra. Vauthier que nos acompanhasse. Ela concordou
resignada e nos acompanhou após ter beijado seu marido.
- O senhor autorizou a Sra. Vauthier a rever o marido
durante o restante da travessia? - perguntou o presidente.
- Ela o reviu diariamente na minha presença e na do
Comissário Bertin. Precisávamos dela como intérprete, pois era
a única pessoa a bordo que conhecia o alfabeto dos surdos-mudos
e a escrita Braille dos cegos ... Além disso acho mais prudente,
a conselho do Dr. Langlois, não deixar a Sra. Vauthier
sozinha com o marido. Ainda que o doutor declârasse que
Jacques Vauthier não apresentava o menor sinal de perturbação
mental, temíamos que tivesse cometido o crime num
acesso de loucura momentâneo e que isso se pudesse repetir.
- O que acontecia durante essas entrevistas?
- A Sra. Vauthier estava cada vez mais desesperada. Eu
tentava obter outras respostas de seu marido, sem resultado.
De nada adiantaram as súplicas que ela repetia ao marido, tentando
fazê-lo compreender que era de seu interesse responder,
que não éramos juízes mas quase amigos... Nada o demoveu.
A última entrevista realizou-se três horas antes de chegarmos
ao Havre. Ouço ainda as palavras da Sra. Vauthier ao marido:
"Mas Jacques, eles o condenarão! Você não matou. tenho certeza!"
Nesse dia, observei muito bem que as mãos da Sra. Vauthier
corriam, febris, sobre as falanges dos dedos de seu marido.
Este permaneceu no seu mutismo, soltou suas mãos das de sua mulher e enfiou-as
nos bolsos dando a entender claramente que já dissera tudo o que tinha que ser
dito e que as conseqüências de seu ato pouco lhe importavam. Três horas mais
tarde, entreguei pessoalmente o prisioneiro nas mãos do Inspetor Mervel e dos
policiais que haviam subido a bordo junto com o prático ...
- A Corte lhe agradece, comandante. Pode retirar-se.
Façam entrar a quarta testemunha ...
Apresentou-se o Dr. Langlois, médico de bordo do De
Grasse:
- A Defesa o citou - disse o Presidente Legris - para
saber o resultado de suas constatações médicas após o exame
do cadáver de John Bell ainda na cabina.
- Quando o Comandante Chardot e o Comissário Bertin
me levaram até a cabina do assassinado, vi imediatamente
que a arma do crime havia seccionado a artéria carótida. A
morte havia ocorrido alguns segundos mais tarde. Quanto ao
ferimento, não deixava dúvidas sobre a natureza da arma empregada:
um cortador de papel afiadíssimo em forma de estilete.
Quando o Comissário Bertin me apresentou um dos cortadores
de papel postos à disposição dos passageiros, em cada cabina,
pela Companhia Geral Transatlântica, afirmei-lhe, sem o menos
risco de erro que o criminoso utilizara um desses cortadores.
- Não acha, doutor, que a morte poderia ter tido outra
causa?
- Não. Ela sobreveio quase que instantaneamente pela
parada de circulação sanguínea após o seccionamento da carótida
que leva o sangue do coração ao cérebro. Além disso, a
vítima era um rapaz bastante jovem que gozava de perfeita
saúde.
- O Comandante Chardot pediu-lhe que examinasse Jacques
Vauthier na prisão do navio depois de tê-lo submetido a
um primeiro interrogatório? - perguntou o advogado Berthier.
- Exato. Esse primeiro exame foi bastante sumário -
confessou a testemunha - mas voltei a visitar o prisioneiro
nos dias subseqüentes sem encontrar qualquer sintoma de estado
febril durante todo o restante da travessia. Comuniquei minhas
observações ao Dr. Boulet, o médico legista que subiu a bordo
com o Inspetor Mervel, quando chegamos ao Havre. Após ter
acompanhado o Dr. Boulet à câmara frigorífica onde o corpo
estava conservado em perfeito estado, reunimo-nos ao Inspetor
Mervel na prisão de Jacques Vauthier. Lá, um exame minucioso,
para o qual utilizamos os serviços do intérprete que o
Inspetor Mervel trouxera com ele para fazer ao acusado várias
perguntas de ordem estritamente médica, confirmou minhas
observações anteriores: Jacques Vauthier é um homem perfeitamente
são de corpo e mente, infelizmente afligido por uma
triplice deficiência desde seu nascimento. Mas todos os seus
orgãos funcionam normalmente.
- Quero chamar a atenção dos Srs. Jurados - disse o promotor - para o depoimento
essencial da testemunha que aliás, foi consignado, palavra por palavra, num
laudo médico redigido conjuntamente pela testemunha e pelo eminente médico
legista, o Dr. Boulet. Portanto, Jacques Vauthier não apenas reconheceu
formalmente seu crime, como essa confissão não foi fruto da imaginação doentia
de um desequilibrado mental usando-se, por não sei que espécíe de masoquismo, de
um crime que não teria cometido ... É a expressão da pura verdade, dita por um
homem em perfeita posse de suas faculdades mentais. A Corte gostaria ...
Victor Deliot não se havia mexido e parecia estar prestando
muito pouca atenção ao depoimento do Dr. Langlois.
- A Corte lhe agradece, doutor - disse o Presidente Legris ...
- Pode retirar-se ... Antes de ouvirmos a testemunha
seguinte, peço ao escrevente que leia o laudo médico redigido e
assinado pelos Drs. Boulet e Langlois.
O escrevente iniciou a leitura com sua voz monocórdia: o
laudo confirmava em todos os pontos o depoimento do Dr. Langlois.
Terminada a leitura, o presidente disse:
- Introduzam o Inspetor Mervel.
- Sr. Inspetor, queira contar-nos tudo o que se passou a
bordo do De Grasse após sua chegada.
- Após ter presenciado o exame do cadáver na câmara
frigorífica do De Grasse, dirigi-me à cabina onde ocorrera o
crime. Mandei recolher as impressões digitais em vários objetos,
especialmente no edredão, no lençol e no travesseiro sujos de
sangue. Uma ponta do lençol havia mesmo sido utilizada pelo
criminoso para limpar as mãos após o crime: essas impressões
nos foram preciosas. Terminado esse primeiro trabalho, decidi
fazer uma primeira reconstituição do crime, segundo as declarações
que me haviam sido dadas sucessivamente pelo camareiro
Henri Téral, o Comissário Bertin, o Comandante Chardot e,
finalmente, pelo Dr. Langlois.
"Para essa reconstituição, mandei que trouxessem o prisioneiro
Jacques Vauthier. Quando ele se encontrou diante da
cabina, soltou um rugido estranho e tentou fugir. Os guardas
o seguraram à força, obrigando-o a entrar na cabina onde eu
havia instalado sobre a cama um de meus subordinados, vestido
com um pijama idêntico ao da vítima. Empurrei Vauthier em
direção à cama e à mesinha de cabeceira sobre a qual eu colocara
um cortador de papel da Companhia Geral Transatlântica.
Quando as mãos de Vauthier tocaram o corpo do meu colaborador
estirado na cama, ele deu um novo grito enrouquecido e
recuou. Segurei então sua mão direita até tocar com ela no
cortador de papel, sobre a mesinha de cabeceira. Vauthier estremeceu
e foi sacudido, por alguns instantes, de um tremor nervoso.
A seguir, pareceu ter reencontrado a calma: com a mão
direita apanhou tranqüilamente o cortador, erguendo-se, enquanto
se inclinava sobre o corpo do guarda que simulava ser
John Bell a dormir, apoiando a mão esquerda sobre o peito do
homem, para impedi-lo de mexer-se. Tive o tempo certo para
segurar o braço que se abatia de maneira fulminante sobre o
pescoço de meu colaborador. Se não o fizesse, Vauthier teria
cometido um novo crime!
"O mais estranho nessa reconstituição foi a precisão dos
gestos do cego que, não enxergando sua vítima, agiu como um
autômato. Dir-se-ia que havia adquirido uma grande prática
nesse tipo de assassinato ... Uma coisa, porém, me intrigava: como é que um homem, tendo a carótida seccionada enquanto
dormia, teve forças para se arrastar até a porta da cabina onde
finalmente morreu;. as mãos crispadas na maçaneta da porta?
O médico legista, consultado, disse-me que esse último ímpeto
de um moribundo era possível. por outro lado, os móveis virados
e o rastro de sangue indo do leito à porta pareciam provar
ter havido uma luta entre os dois homens. A melhor explicação
parece ser a de que o assassino tentou impedir sua vítima de
alcançar a porta. Apesar de tudo, ésse ponto permaneceu obscuro,
visto Vauthier se ter recusado energicamente a dar as mínimas
explicações.
"Tentei uma segunda experiência: mandei que meu colaborador
se ajoelhasse na posição exata em que se encontrava
o cadáver, apoiado contra a porta, as duas mãos crispadas sobre
a maçaneta. Uma vez mais obrigamos Vauthier a se aproximar
da porta, as mãos estendidas para a frente. Assim que seus
dedos tocaram o pescoço do pseudo-cadáver, ele novamente deu
um urro terrível e recuou para o fundo da cabina, arrastando
consigo os guardas. Estes tentaram trazê-lo de volta à porta
mas ele rolou pelo chão, arrastando-os novamente na sua queda.
Devo dizer que sua força é considerável. Levando em consideração
que havíamos desencadeado um choque psicológico suficiente,
aproveitei-me para assediar o prisioneiro com novas
perguntas por intermédio do intérprete. Os guardas tiveram
de segurar à força as mãos de Vauthier para que o intérprete
pudesse traçar sobre as falanges dos dedos os sinais do alfabeto
datilológico. Tempo perdido. Jacques Vauthier não respondeu
a qualquer das perguntas. Mandei tirar suas impressões digitais
que são as mesmas das encontradas nos diferentes móveis da
cabina, no edredão e nas manchas de sangue do lençol. Quando
Vauthier pareceu mais calmo, retornei a meu interrogatório.
Ele respondeu apenas a uma pergunta: "Reconhece ter matado este homem aqui?" Sua
resposta foi: "Reconheço formalmente ser o autor deste assassinato. Não me
arrependo de nada. Se fosse preciso eu o faria de novo." Mas quando eu lhe
perguntei "matou-o com um cortador de papel idêntico ao que eu lhe coloquei nas
mãos?", ele se limitou a dar de ombros, indicando por esse gesto que a seu ver a
única coisa que lhe importava era ter matado o americano e que a maneira pela
qual o fizera era de interesse secundário. Finalmente, minha terceira pergunta
"se o gesto que ele acabava de fazer diante de nós, sobre a pessoa de meu
colaborador estirado na cama no lugar da vítima, fora a repetição exata do que
havia feito com John Bell?", ficou sem resposta. Depois disso, não consegui
arrancar-lhe mais uma única palavra, nem em Braille, nem de qualquer outra
forma...
- Verificações minuciosas, anteriores - continuou - nos
provaram que o roubo não foi a causa do crime: com efeito
nada que pertencera à vítima havia desaparecido. Era igualmente
certo que Vauthier não conhecia sua vítima com a qual
nenhum contato tivera antes do assassinato. Da mesma forma,
foi impossível para a polícia criminal estabelecer com segurança
o verdadeiro móvel do crime. Pessoalmente, estou convencido
de que se deve atribuir esse ato homicida ao gesto impensado
e súbito de um demente ou de um sádico ... Nada mais conseguindo
dele, mandei que o desembarcassem. Foi levado de carro
até Paris e encarcerado na Santé. A partir desse momento, não
cne ocupei mais do caso, já que meu trabalho estava terminado.
- Professor Delmot - disse o presidente, interrompendo
o interrogatório de identificação feito à sexta testemunha -
pode dizer-nos o resultado das observações efetuadas sobre o
estado mental e físico de Jacques Vauthier pela comissão médica
que o senhor presidiu?
- Examinamos longamente e por seis vezes o assunto.
Ao fim de todos esses exames minuciosos, praticados por meus
eminentes colegas, os professores Sereski e Hermite, e por mim
mesmo, enviamos um relatório detalhado e completo para S.
Exa. o Juiz de Instrução Belin... A conclusão é que Jacques
Vauthier, ainda que afetado por sua tripla deficiência de nascimento,
da vista, do ouvido e da palavra, é uma criatura perfeitamente
normal. Sua inteligência chega a ser superior à da
média dos indivíduos. Conhece a fundo todos os meios de expressão
que permitem que um surdo-mudo-cego se comunique
com o mundo exterior. Se ele não responde a certas perguntas
que lhe são feitas, é portanto de livre e espontânea vontade.
Quanto ao resto, a Corte pode confiar plenamente no relatório
médico detalhado que acabei de mencionar. Nada mais
tenho a acrescentar.
- A Corte agradece, Sr. Professor... .
Danielle, que escutara atentamente os diferentes depoimentos,
aproveitou-se da saída da testemunha para lançar um olhar
de soslaio a seu velho amigo Deliot ... Este, os olhos semicerrados,
parecia mergulhado em profunda meditação. A jovem não
resistiu à tentação de lhe perguntar em voz baixa:
- Mestre, o que pensa de tudo isso?
- Não penso nada, minha filha. Espero ... - resmungou
Victor Deliot entredentes. Sem dúvida não lhe queria confiar:
"Só uma coisa me intriga realmente em todo esse caso, e isso, desde a primeira
leitura do processo. As impressões ...
essas malditas impressões digitais que meu cliente parece ter feito questão de
espalhar a torto e a direito no local do crime ...
Com semelhantes provas é fácil mandar um homem para o
cadafalso!"
Danielle observou a assistência. Sua aparência era grave.
As primeiras testemunhas haviam bastado para que todos compreendessem
que esse Jacques Vauthier, obstinado num silêncio
voluntário que longe estava de ser a melhor tática, jogava uma
partida perigosíssima em que arriscava a cabeça. Poderia ao
menos beneficiar-se das circunstâncias atenuantes? Nem a assistência,
nem a jovem acredítavam mais nisso. A única esperança
era que a tripla deficiência de nascença atuasse em favor do
acusado. De qualquer forma, a tarefa da Defesa anunciava-se
difícil... Instintivamente, todos os olhares se fixavam naquele
velho advogado obscuro que ninguém jamais havia visto nem
ouvido até aquele dia e que parecia esperar, abatido e solitário,
no seu lugar, o fim do pesadelo.
Ao contrário, o advogado da vítima parecia muito animado: o elegante Voirin, cercado por seus colaboradores, parecia estar
em plena forma. Sabia que aquele primeiro dia de audiência
não terminaria sem que ele marcasse pontos decisivos. Sentia-se
também extremamente ajudado em seu trabalho, que agora parecia
mais fácil, pelo temível Promotor Berthier, cuja calma aparente,
até aquele minuto, era bastante inquietante.
Tudo aquilo, Danielle compreendia como qualquer outra
pessoa da assistência. Quase a contragosto, seu olhar voltou-se
para a figura bestial do acusado. Quanto mais examinava Vauthier
mais achava que ele encarnava um tipo de assassino que
não desonraria um galeria de criminosos célebres num museu do
crime. Como era possível que uma mulher, fosse ela quem fosse,
tivesse aceitado ser a companheira de um tal indivíduo? Aquilo
ultrapassava os limites do seu entendimento.
A jovem foi arrancada de seus pensamentos pela voz monótona
do presidente que chamava a sétima testemunha. Esta
acabava de se dirigir à barra:
- Thomas Bell - respondeu o recém-chegado, cuja nacionalidade
revelava-se por um pronunciado sotaque, óculos de
aros de ouro e um paletó amplo. - Nascido em 9 de abril de
1897 em Cleveland, Estados Unidos. Nacionalidade americana.
- Sua profissão?
- Senador de Ohio, membro do Congresso de Washington.
- Sr. Senador, em minha qualidade de Presidente desta Corte, quero render uma
homenagem pública a um dos melhores amigos que a França possui atualmente nos
Estados Unidos ...
Minha missão é extremamente dolorosa. Sabemos, Sr. Senador,
que o senhor fez questão de vir especialmente à França para
testemunhar neste Tribunal. Seria demais pedir-lhe que nos fale
de seu filho?
- John era meu único filho - começou o senador numa
atmosfera de intensa emoção. - Havia recebido toda minha
ternura desde seu nascimento, em Cleveland, em 16 de fevereiro
de 1925, já que sua mãe morreu ao dá-lo à luz. Após uma
infância feliz, John fez seus estudos no Colégio de Harvard. Fiz
questão de que ele aprendesse o francês, que falava corretamente
e, para que praticasse vossa bela língua, dei-lhe para ler vossos
melhores autores. Esforcei-me também para inculcar-lhe meu
amor pela França e prometi enviá-lo a Paris, para complementar
seus estudos, assim que obtivesse seu diploma na Universidade.
Infelizmente, estourou a Segunda Guerra Mundial, John
tinha apenas 18 anos quando fomos surpreendidos pelo desastre
de Pearl-Harbour. Apesar de sua pouca idade, alistou-se no dia
seguinte, com minha aprovação, para servir na Marinha dos
Estados Unidos. Incorporado a uma unidade de fuzileiros navais
embarcou um ano depois para o Pacífico onde fez toda a guerra,
recebendo quatro citações por atos de bravura. Desmobilizado
após a capitulação do Japão, voltou a Cleveland. A guerra o
havia amadurecido e ele decidiu ocupar-se da recuperação da
Europa. Seu trabalho obrigava-o a freqüentes deslocamentos
entre Washington, Chicago, San Francisco e Nova York. Por
meu lado, eu andava tão absorvido por minhas funções no Congresso
que só podia ver John a intervalos bastante irregulares,
durante esses últimos anos. Cada encontro era uma verdadeira
festa: saíamos juntos como dois camaradas. Eu me orgulhava de
meu filho e creio que ele também se orgulhava de seu pai.
Contava-me tudo o que fazia. O maior prazer que lhe proporcionava
a missão que se havia traçado era o contato permanente
com todos os meios franceses de Nova York. Fi-lo compreender
que não poderia conhecer realmente a mentalidade e a cultura
francesas a não ser que visitasse vosso admirável país, região
por região e cidade por cidade. Foi nesse dia que decidiu
sua viagem.
- Apesar de seu grande desejo de vir à França - continuou
- John hesitava um pouco. Devo confessar aqui uma
de suas fraquezas: apaixonara-se por uma dançarina da Broadway, o que
absolutamente não me agradava. A melhor maneira
de terminar com aquele idílio era apressar a partida de
Johnny para a França. Um mês mais tarde eu mesmo o acompanhei
a bordo do De Grasse: nessa ocasião, pareceu-me feliz.
Alguns instantes antes que as escadas fossem retiradas, perguntei-lhe
se não sentiria muita falta da sua girl friend da Broadway.
Ele me respondeu rindo: "Oh não, meu pai. Compreendi
perfeitamente sua pressa em me ver partir! Você tem razão, essa
moça não é para mim..." Disse-lhe então, abraçando-o uma
última vez: "Quem sabe você não traz uma francesa? Nunca
se sabe... É o que lhe desejo de todo o coração!" Nunca mais revi Johnny.
Descrevi-o tal como era ...
Essas últimas palavras haviam sido pronunciadas com uma
simplicidade que comoveu a assistência.
- A Corte lhe agradece, Sr. Senador, por ter vindo esclarecer
sobre a personalidade marcante de seu filho único.
- O que o Senador Bell não vos disse, Srs. Jurados -
sublinhou Voirin - é o estado de espírito no qual veio testemunhar
neste Tribunal. Não julgueis ver nele um pai que clama
vingança, mas antes um amigo da França que vem pedir a uma
Corte Criminal francesa que a justiça seja feita para que uma
tragédia semelhante não torne a acontecer no futuro. A presença
do Senador Bell neste recinto significa que é o povo
americano que pergunta ao povo francês pela voz de um de seus
mais qualificados representantes, se seus valorosos filhos já
podem vir a nosso país sem se arriscar a serem degolados. O
problema é grave, Srs. Jurados ... Refleti ... E não vos esqueçais,
na hora do veredicto, de que toda a América vos observa!
O assistente da Acusação acabava de sentar-se com um
gesto teatral. Victor Deliot levantou-se suavemente para dizer:
- Sem desfazer da dor paternal do eminente Senador Bell, a Defesa acha que as
últimas palavras pronunciadas pelo advogado Voirin generalizam talvez demais
estes debates. Se o povo americano nos pedisse contas pela morte de John Bell,
não haveria alguma razão para que o povo francês também reclamasse por seus
filhos franceses assassinados em solo americano! Peço-lhes que não se deixem
influenciar, Srs. Jurados, por tais argumentos, pois devem saber tanto quanto eu
que, infelizmente, o crime não é privilégio exclusivo de um povo ...
- É espantoso - disse o promotor com voz acerba -
ver como a Defesa insiste, desde a abertura do julgamento, em
conduzir os debates a um nível terra-a-terra.
- A Defesa se permite responder ao Sr. Promotor que
estamos julgando fatos e não arrebatamentos oratórios!
- Por favor, Senhores! - disse o presidente. - O incidente
está encerrado... Sr. Senador, pode externar-nos seus
sentimentos a respeito do acusado?
- Nada tenho contra ele - respondeu a testemunha.
- Como poderia ter? Compadeço-me dele sinceramente por
ter vindo ao mundo com tão grandes deficiências, mas será
isso razão suficiente para lhe dar o direito de matar uma criatura
maravilhosa como Johnny, que nunca lhe fez mal algum e
que ele nem mesmo conhecia? Tenho certeza; Sr. Presidente,
de que, se meu filho tivesse conhecido o Sr. Vauthier se teria
interessado pelo seu caso: Johnny tinha uma alma generosa e
não suportava ver infelizes à sua volta ... Nada mais tenho
a dizer.
- Os Srs. Jurados apreciarão suas palavras - afirmou
Voirin.
Todos os olhares acompanharam respeitosamente, até a
porta, o pai de John Bell. Olhares que, em seguida, se voltáram,
reprovadores, na direção de Jacques Vauthier. Mas como cada
um compreendesse que ele não podia ver esses sentimentos,
nem mesmo adivinhá-los, foi Victor Deliot que teve de suportar
aquela crescente corrente de hostilidade.
Danielle não ousava olhar seu velho amigo. Compreendia
de repente toda a grandeza e a miséria da profissão tantas vezes
descrita por Victor Deliot e achava injusto que naquele momento
ele estivesse sozinho para suportar aquela reprovação
geral que não merecia. Mas por que aceitara defender semelhante
causa?
Ela agora imaginava o pobre Johnny: um desses belos e
magníficos GI americanos que haviam causado admiração ao
mundo pela sua coragem e sua simpática displicência. Sentia
pena de seu pai, tão digno na sua dor. E toda essa tristeza fora
causada por um semilouco! Bem que o Inspetor Mervel dissera
em seu depoimento: aquele assassinato inexplicável só poderia
ser obra de um demente repentinamente sedento de sangue ou
de um sádico invejoso da verdadeira beleza masculina. O que
mais exasperava a assistência e a própria Danielle era o fato
de Vauthier permanecer imóvel em seu lugar, indiferente ao que
se passava ou se dizia à sua volta. E, entretanto, estava a par
de tudo, pois um intérprete traduzia nas suas falanges as menores
palavras pronunciadas ... Ele sabia, por exemplo, que
se encontrava pela primeira vez na presença do próprio pai de
sua vítima, e isso não o havia abalado!
A oitava testemunha acabava de ser introduzida.
- Seu nome?
- Régine Daubray - respondeu a elegante mulher que se
apoiara à barra.
- Qual é o seu parentesco com o acusado?
- Sou sua irmã.
- Poderá dizer-nos o que sabe sobre seu irmão?
Victor Deliot reabrira os olhos e observava curiosamente
a testemunha.
A jovem mulher respondeu sem hesitar:
- Ignoro se Jacques é culpado ou não, mas assim que
soube, pelos jornais, do crime do De Grasse, não me surpreendi
demais. Isso porque vivi com meu irmão durante seus primeiros
10 anos, quando ele ainda morava com nossos pais, no apartamento
da Rua Cardinet. E posso dizer que durante esse período
Jacques constituiu uma fonte de aborrecimentos diários.
Havíamos feito o impossível tentando educá-lo e tornar a sua
existência suportável. Nosso amor por ele duplicava pela piedade
que nos inspirava aquela criança que não nos podia ver,
ouvir, nos falar. Meu pobre pai contratou a filha de nossa empregada,
Mélanie, para que Jacques tivesse constantemente, à
sua volta, alguém que o cercasse de cuidados. Meu pai tomou
essa decisão quando percebeu que Jacques nos detestava a
todos sem exceção. Aos sete anos, meu irmão já era um pequeno
bruto que nos recebia, todas as vezes que o íamos ver
em seu quarto, com vociferações e crises de fúria. Posso afirmar
que a presença de Jacques em nossa família foi não apenas
uma provação como também a causa da minha própria infelicidade.
- Explique-se melhor, senhora.
- Casei-me quando Jacques tinha apenas sete anos. Meu
noivo, Georges Daubray, era meigo e compreensivo com Jacques
para quem sempre trazia balas e guloseimas todas as vezes que
vinha à casa de meus pais. Jacques nunca demonstrou o menor
reconhecimento e atirava ao chão todos os presentes que ele lhe
oferecia. Temendo que meus futuros sogros se opusessem a nosso
casamento, havíamos decidido não lhes revelar a existência desse
irmão doente. Meus sogros poderiam pensar que existisse uma
tara na família. Foi logo depois, que um Irmão de São Gabriel,
Yvon Rodelec, veio buscar Jacques para levá-lo para o Instituto
de Sanac. Nunca mais revi meu irmão, mas meu marido, que
amarei até o fim de meus dias, se foi afastando insensivelmente
de mim. Não que tivesse deixado de me amar, mas temia, no
caso de eu lhe dar um filho, que este se assemelhasse ao tio!
Torturado pela idéia de ter um filho doente, acabou por revelar
aos pais a existência de Jacques. Foi terrível. Meus sogros jamais
nos perdoaram, a mim e a meus pais, por lhes termos escondido
a verdade. A partir desse dia, pressionaram Georges para que
ele pedisse o divórcio antes que eu engravidasse. Meu marido
terminou por ceder: quanto a mim, meus princípios religiosos
proibiam o divórcio. Separamo-nos simplesmente e assim vivemos
há 14 anos. Posso dizer tranqüilamente, sem rancor, que
minha vida foi indiretamente arruinada por esse irmão doente.
- A senhora nos disse ainda há pouco que nunca tornou
a ver seu irmão desde sua partida para Sanac? Como seu irmão
tem agora 27 anos, jamais procurou revê-lo durante os últimos
17 anos, exato?
- Sim, Sr. Presidente. Um ano após sua partida para
Sanac, minha mãe foi visitá-lo no Instituto da Haute-Vienne.
Voltou entusiasmada com os progressos extraordinários conseguidos
por Jacques, mas desesperada pela maneira como ele a
recebera. Lembrar-me-ei sempre desta frase de minha mãe:
"Jacques não nos pertence mais. Não tem o menor desejo de nos rever!" Em seguida
foi a morte de meu pai e a minha separação... Mamãe ia ver Jacques todos os
anos, mas confesso que jamais tive coragem de acompanhá-la. Um dia, 10 anos mais
tarde, fiquei admirada de saber por um telefonema de meu marido que Jacques
acabava de escrever e publicar um romance intitulado O Isolado Fui imediatamente
até uma livraria e comprei o livro sobre o qual alguns críticos teciam os
maiores elogios. Li-o em uma noite e fiquei horrorizada pela maneira como meu
irmão descrevia a família de seu herói, surdo-mudo-cego de nascença como ele
próprio. Eu podia ser reconhecida na personagem odiosa da irmã...
- Se a testemunha podia ser reconhecida - disse Deliot
com voz suave - era porque a pintura era exata!
Régine Daubray voltou-se para quem a interrompia:
- Ela tinha alguns traços meus, mas era uma deformação monstruosa! Esse livro,
onde ao longo de 300 páginas um doente que devia tudo à solicitude dos seus,
esparramava seu ódio , devia ser proibido! Aliás, o maior responsável pela
publicação do romance é esse Yvon Rodelec...
- Eu julgava - continuou Victor Deliot - ter entendido, ainda há pouco, que a
vinda do Sr. Rodelec à Rua Cardinet havia sido um marco de libertação para toda
a família...
- No início todos nós, acreditamos naquele velho que
vinha para arrancar Jacques das trevas em que vivia. Mas, com
o tempo, acabamos por compreender as maquinações do diretor
do Instituto de Sanac! Para o Sr. Rodelec, meu irmão não era
mais do que um "caso" a mais entre todos os outros que ele
já havia educado. O Sr. Rodelec havia conhecido, na sua vinda
ao apartamento parisiense de meus pais, a filha de Mélanie,
Solange, três anos mais velha que Jacques e que cuidava dele.
Com 13 anos, Solange não era mais uma menina: teimosa,
ambiciosa, apesar da sua pouca idade, sabia muito bem o que
queria. Fiquei realmente espantada quando soube que ela e
Mélanie, tendo deixado a casa de meus pais, haviam partido
para Sanac onde o Sr. Rodelec lhes oferecera emprego na Instituição!
Naquela época, com 20 anos, Solange se tornara uma
moça atrevida que tivera a sorte de não ser muito feia. Sua ambição
crescente levara-a a aprender, com o auxílio do Sr. Rodelec,
os diferentes sistemas de expressão utilizados por Jacques
no Instituto para se fazer compreender. Logo, ela exerceu tal
influência sobre meu irmão que ele acabou por desposá-la.
Assim, a filha de nossa empregada acabou tornando-se minha
cunhada! Mas o cúmulo foi que nos puseram, a minha mãe
e a mim, diante do fato consumado: nem ao menos fomos convidadas
para a cerimônia e nenhum membro da família de Jacques
assitiu ao seu casamento que se realizou na capela do Instituto
de Sanac.
- A Defesa tem algo mais a inquirir à testemunha? -
perguntou o presidente.
- Nada mais - respondeu Victor Deliot.
- É de admirar - vociferou o promotor.
- ... nenhuma pergunta - acrescentou Victor Deliot,
levantando-se, - mas tenho uma observação a fazer aos Srs.
Jurados ... Julgam eles, em sã consciência, que o lugar da Sra.
Régine Daubray neste Tribunal seja do lado da acusação?
Acham eles normal que uma irmã mais velha, que só conheceu o
irmão quando este era apenas um pobre menino, isolado do
mundo, venha destruí-lo com 17 anos de atraso? E mesmo
admitindo, absurdamente, que Jacques Vauthier fosse aos 10
anos, segundo a própria expressão da irmã, "um pequeno bruto",
isso não prova que ele seja o mesmo, hoje! Qual de nós,
Srs. da Corte e Srs. Jurados, não mudou em 17 anos? Para
ser breve, a atitude da Sra. Daubray, cuja inconsciência faz tremer,
só se pode explicar por um motivo: o interesse. Encarregar-nos-emos
de demonstrá-lo em seu devido tempo.
- Que interesse? - perguntou o Promotor Berthier.
- Se o Sr. Promotor ainda não descobriu, vai ter uma
surpresa no momento exato! - disse Victor Deliot. - Finalmente,
a Sra Daubray deu a entender claramente que Solange
Duval se casou apenas por ambição! Francamente, Srs. Jurados,
não é concebível que uma jovem que, segundo a própria
testemunha, "teve a sorte de não ser muito feia" e (onge de ser
tola, limitasse sua ambição a uma união com um surdo-mudo-cego
de nascença!
- Esse casamento lhe permitiu - respondeu imediatamente
Régine Daubray - sair de seu meio e elevar-se na escala
social, penetrando no nosso!
- Isso, se admitirmos ser uma honra sair do povo para
se introduzir na burguesia! - replicou o advogado meneando a
cabeça.
- e o Sr. Advogado na Defesa parece esquecer - a
irmã de Vauthier tornou-se mais veemente - que Solange só
se casou depois do aparecimento de O Isolado, quando Jacques
se tornou célebre e rico! Se a vendagem da obra foi bastante
limitada na França, o mesmo não aconteceu nos Estados Unidos.
- A testemunha teria sem dúvida preferido beneficiar-se
com a liberalidade financeira de seu irmão doente? - insinuou ;
Victor Deliot. - Quando afirmei que apenas o interesse orienta
os sentimentos da Sra. Daubray em relação a seu irmão, não
me enganei!
- Não admito ... - começou o advogado Voirin, mas foi
interrompido pela voz cortante do presidente que dizia:
- O incidente está encerrado. A Corte lhe agradece, Sra.
Daubray. Pode retirar-se...
A saída da elegante Sra. Daubray foi envolvida por um
burburinho de movimentos diversos. Seu lugar, na barra, foi
substituído pelo corretor de câmbio Georges Daubray.
- Sr. Daubray, a Corte gostaria de saber sua opinião
sobre o caráter de seu cunhado Jacques e sobre o relacionamento
que ele tinha com sua própria família.
- Vi Jacques muito pouco, Sr. Presidente. Quando me casei com sua irmã mais
velha, Régine, ele era apenas um menino de sete anos. Ocupava um quarto de
fundos no apartamento de meus sogros, de onde o tiravam muito raramente ...
Devo dizer que protestei muitas vezes contra a maneira de
manter essa pobre criança afastada do resto do mundo. Reconheço,
entretanto, em defesa da família de minha mulher, que
Jacques representava, com sua difícil doença, uma preocupação
constante para seus parentes próximos. Até sua partida para
Sanac, meu jovem cunhado sempre me pareceu difícil de se lidar,
se bem que nos fosse quase impossível perceber o que ele pensava
ou queria, pois era ainda, naquela época, um verdadeiro
pequeno bruto... Não havia dia que não fosse tomado de
verdadeiros acessos de cólera de uma violência incrível para
um menino de sua idade! Punha-se a gritar e pegava tudo o que
estivesse a seu alcance para atirar sobre os que vinham vê-lo em
seu quarto. E como, apesar de tudo, guardasse o sentimento
confuso da sua impotência, acabava por jogar-se ao chão, rolando
de um lado para outro; uma baba abundante saía então
de sua boca. Dir-se-ia que estava raivoso. Aconteceu-nos muitas
vezes, a meu sogro e a mim, sermos obrigados a dominá-lo à
força: isso dá bem uma idéia do que já era sua força!
- Mas eu lhe pergunto - indagou o presidente - a
que atribui essas crises de fúria?
- A nada. A nossa simples presença. O que mais me espantava
era a repulsa doentia que lhe inspiravam todos os
membros da família. Quando ele compreendeu, após meu casamento,
que eu também me havia integrado à família, passou
a implicar comigo como com os outros.. E jamais consegui
entender por meio de que fenômeno seu cérebro, trancado na
época a qualquer comunicação com o mundo exterior, me
podia identificar.
- Quais eram os sentimentos de seus sogros com respeito
a ele?
- Acho que meu sogro, hoje falecido, tinha por seu filho, se não amor; pelo
menos uma certa ternura...
- E sua sogra?
- Prefiro não responder a essa pergunta..
- E sua mulher?
- Uma pergunta também difícil para mim. Régine e eu
estamos separados há muitos anos.
- A Sra. Daubray, em seu depoimento, atribuiu a sua
separação ao fato de o senhor temer que ela lhe desse um filho
doente como o tio. E verdade?
- O simples pudor me obriga a responder, Sr. Presidente,
que as razões da separação de um casal não interessam a ninguém senão a ele
próprio.
- A testemunha poderia dizer-nos - perguntou Victor
Deliot - se, em sua opinião, existia alguém que na convivência
diária com o doente fosse capaz de acalmar seus acessos de
cólera sem recorrer à força bruta?
- Sim. Uma única pessoa conseguia abrandá-lo pela
doçura: a pequena empregadinha Solange, pouco mais velha
que ele e que se tornou mais tarde sua mulher.
- Como explica esse fato? - perguntou o presidente.
- Não explico. Apenas constato a evidência.
- E como agia a pequena Solange?
- De uma maneira muito simples: aproximava-se de
Jacques e lhe acariciava as mãos ou o rosto. Era o bastante
para que ele reencontrasse a tranqüilidade.
- Isso é muito estranho - murmurou o Presidente Legris
antes de perguntar ainda: - Sr. Daubray, o senhor tornou a ver
seu cunhado Jacques depois de sua partida para Sanac?
- Não, mas li seu livro ...
- Acha que nele o acusado descreveu a própria família?
- Sem a menor dúvida.
- A Corte lhe agradece. Pode retirar-se ... Introduzam a
testemunha seguinte.
- Seu nome?
- Mélanie Duval - respondeu a recém-chegada com
voz tímida. Era uma mulher de 50 anos, vestida modestamente.
- Sra. Duval - disse o presidente - a senhora trabalhou durante oito anos para a
família Vauthier, no apartamento da rua Cardinet, como empregada doméstica -
Sim, Seu Juiz...
- Queira chamar-me Sr. Presidente ...
- Sim, senhor, meu Presidente ...
- Diga-nos o que pensa de Jacques Vauthier.
- Não penso nada. É um doente e a gente não sabe o que dizer de uma pessoa que
não é como todo mundo ...
- Ele fez sua filha feliz?
- Minha pequena Solange? Ela deve ter sido muito infeliz.
Em certo sentido é até bom que ele esteja na prisão: só
assim me sinto mais tranqüila!
- Então o casamento de sua filha não foi de seu agrado?
- Não queria ver ela casada com um doente! A infelicidade
foi minha Solange ter muito bom coração ... Depois
de ter cuidado de Jacques menino, ela se deixou enrolar por esse
tal de Yvon Rodelec que conseguiu levar a gente para trabalhar
no Instituto de Sanac. Lá, eu cuidava da lavanderia, e Solange,
a quem o Seu Rodelec ensinara a linguagem dos surdos-mudos-cegos,
ajudava Jacques a preparar-se para os exames. Depois,
o senhor já sabe o que aconteceu: eles se casaram. Disse e repeti
cem vezes a Solange que ela cometia uma loucura, mas ela nunca
quis me ouvir ... Imagine o senhor! Inteligente e bonita como
era, podia muito bem ter casado com um rapaz normal e rico.
Tenho certeza, ela se casou por piedade! Ninguém se casa por
amor com um doente! A seguir partiram para a viagem de lua-de-mel...
Lembro-me perfeitamente de sua volta um mês
depois. Se tivesse visto minha pequena Solange! Coitadinha!
Quando lhe perguntei se era feliz, ela nada respondeu por orgulho,
mas desatou em soluços ... Contei ísso ao Seu Rodelec
que procurou me acalmar, dizendo que eles iam fazer uma bela
viagem às Américas, que tudo se aranjaria e patati patata. Conversa
fiada, como só ele sabia ter... O resultado, quando fui
esperá-los no Havre, cinco anos mais tarde, foi ver meu genro
descer no navio algemado ... E minha pobre filhinha, como
chorava! O senhor precisava ver! Bem que tentei consolá-la
durante nossa viagem de trem para Paris ... mas ela se recusou
a morar na casa onde eu trabalho até hoje, com meus patrões
tão bons que lhe haviam mandado preparar um quarto ... Ela
me beijou no saguão da estação de Saint-Lazare e nunca mais
tornei a vê-la ... Deve estar escondida em algum lugar. Raramente
me envia um postal para me dizer que tudo vai bem: deve
sentir-se envergonhada. E com razão! Não é fácil ser a mulher
de um assassino!
- A Defesa quer advertir a testemunha - disse Victor Deliot - de que ela não tem
o direito de qualificar o acusado com este epíteto infamante, porquanto o
julgamento ainda não teve fim ...
- Sra. Duval, a senhora acabou de dizer à Corte - observou o Presidente Legris -
que era impossível ter uma opinião sobre seu genro. Essa declaração parece estar
em contradição com a maneira como o trata agora ...
- Quando menino, Seu Presidente, Jacques não devia
ser mau ... as crianças nunca são más ... se bem que sempre tivesse sido um
tanto brusco: a única pessoa que conseguia acalmá-lo era minha pequena Solange.
Puxa! Ela sabia lidar com ele! Também, pudera! Fazia tudo o que ele queria ...
- Isso deixaria supor - observou Victor Deliot - que,
ao casar-se com ele, sua filha o fez com pleno conhecimento
de causa?
- Se Solange se casou com esse doente, garanto que foi
por influência desse tal Seu Rodelec que achava que ninguém
tinha o direito de impedir que um doente se casasse! Pois
eu, Mélanie Duval, afirmo o contrário! Homens como aquele
jamais se deviam reproduzir!
- Eles não tiveram filhos! - exclamou o advogado de
Jacques.
- Felizmente! O que não teria saído! - respondeu Mélanie.
- Sua filha alguma vez lhe falou de seu relacionamento
com o marido? - perguntou Berthier.
- Não. Jamais consegui arrancar-lhe uma palavra sobre
o assunto. Quando penso que minha Solange... prefiro nem
falar: isso me dói no coração.
- Sra. Duval, acha que os pais de seu genro se mostraram
bons pais para com o filho doente durante os anos
passados à Rua Cardinet? - perguntou o presidente.
- Bons pais ... É difícil dizer! É preciso reconhecer que
nada faltava ao menino ... mas, quanto à afeição, não eram
muito pródigos! Se Jacques não tivesse tido minha Solange! Que
menina! Um coração de ouro! Tão devotada!
- A família de Vauthier, tanto quanto a senhora, não
desejava esse casamento?
- Lá isso é verdade: eles não queriam! Bem, mas é preciso
meter-se na pele deles. Não era lisonjeiro para eles que
a filha da empregada entrasse para a família e usasse seu nome!
Pelo tempo que trabalho com burgueses aprendi a conhecê-los: não há raça mais
egoísta! Só o dinheiro conta para eles ...
- Então - insistiu o presidente - quem queria o casamento?
- Eu já lhe disse, Seu Presidente, era o Seu Rodelec!
- A senhora não vai querer convencer a Corte, Sra.
Duval, de que um verdadeiro Irrnão de São Gabriel, superior
de um estabelecimento onde se educam surdos-mudos-cegos de
nascença, tenha transformado sua instituição em agência matrimonial!
- Não estou dizendo isso, Seu Presidente, mas o que o
senhor não sabe é que nenhum dos surdos-mudos-cegos educados
pelo Seu Rodelec, antes de Jacques, se casou. Então ele
quis tentar a experiência com seu novo aluno. Ele percebeu
muito bem, quando esteve na Rua Cardinet, que Solange tinha
muita ternura por Jacques ... e, como era esperto, explorou
esse sentimento da menina... Quando nos chamou a Sanac com
o pretexto de nos dar trabalho, foi unicamente para alcançar
seus fins ... Solange e eu confiávamos nesse velho senhor de
batina e não desconfiamos de suas intenções! O senhor me
entende: tenho certeza de que ele enfeitiçou minha filha!
- Modere suas expressões, senhora... Os Irmãos de São
Gabriel dão provas de um devotamento e de uma ciência dignos
dos maiores elogios.
- Está bem - continuou a mulher - fazem suas experiências sob pretexto de
devotamento! O resultado aí está ...
seus alunos acabam na barra do Tribunal!
- Em resumo, a senhora acha que o casamento se realizou
contra a sua vontade e a dos Vauthier?
- Perfeitamente, Seu Presidente.
- E não admite, nem por um segundo, que sua filha
Solange se tenha apaixonado por aquele que viria a desposar?
- Digo e repito que ela lhe era muito devotada!
- A Corte lhe agradece, Sra. Duval... Pode retirar-se.
Introduzam o Sr. Decano da Faculdade de Letras de Toulouse.
- Sr. Decano, a Corte gostaria de saber a opinião da
Faculdade sobre a capacidade intelectual do acusado.
- Jacques Vauthier tirou. em nossa Faculdade de Letras
a primeira parte de seu bacharelado em 28 de junho de 1941,
com 18 anos de idade, recebendo a menção Tres bien, raramente
consignada. Sua dissertação francesa ficou como um
modelo do gênero. No ano seguinte, o candidato passou na
segunda prova com a mesma facilidade. Nos dois exames, submeteu-se
às mesmas provas escritas que os candidatos normais,
apenas sob a vigilância de um professor que nos havia sido
enviado especialmente pela Fundação Valentin Huy e que servia
de intérprete. Quando redigiu suas composições em escrita
Braille, estas foram traduzidas em escrita comum pelo referido
professor in extenso e enviadas aos diferentes examinadores.
Quanto aos exames orais, aos quais fiz questão de assistir
pessoalmente, dado o interesse da experiência, foi um outro
intérprete, enviado pela Instituição Nacional da Rua de Saint-Jacques,
que serviu de ligação entre o candidato e seus examinadores.
Posso dizer, com plena consciência, que Jacques Vauthier,
o aluno do Instituto de Sanac, foi um dos mais brilhantes
bacharelandos que já passaram pela Faculdade de Toulouse.
Nenhuma concessão foi feita ao candidato, a pedido expresso
de seus educadores, os Irmãos de São Gabriel.
- Pela Faculdade de Toulouse já passaram outros candidatos
surdos-mudos-cegos apresentados pelo Instituto de
Sanac?
- Sim, Sr. Presidente. Antes de Jacques Vauthier já concedemos
o diploma do primeiro bacharelado a seis alunos de
Sanac e o do segundo, Filosofia ou Matemáticas Elementares,
a três alunos. O que, com Jacques Vauthier, perfaz um total
de 10 candidatos surdos-mudos-cegos em 20 anos, de 1921 a
1941.
- E depois de Jacques Vauthier, o Instituto de Sanac já
apresentou outros candidatos?
- Não.
- O senhor conhece o diretor do Instituto, Sr. Yvon
Rodelec?
- Após ter assistido aos exames brilhantes de Jacques
Vauthier, fiz questão de escrever ao Sr. Yvon Rodelec uma
carta de congratulações pelos excelentes e, podemos dizer sem
exagero, extraordinários resultados obtidos. O Sr. Rodelec respondeu-me,
convidando-me a visitar seu Instituto. Fui lá com
dois colegas, o reitor da Faculdade de Ciências e o da Faculdade
de Direito. Passamos um dia inteiro em companhia do
Sr. Rodelec e de seus principais colaboradores. Ficamos maravilhados
com os métodos empregados. Meus colegas e eu deixamos
Sanac com a sensação exata de termos finalmente encontrado
um educador genial. Nunca se falará demais da paciência
sem limites do Sr. Rodelec para conceber e organizar seu método
que só pode ser experimental, mas também para conseguir que
certos indivíduos saiam de suas trevas absolutas.
- O Sr. Rodelec lhe deu sua opinião sobre Jacques Vauthier?
- Considerava Jacques Vauthier, que era o 19º surdo-mudo-cego
educado com sucesso por ele durante 50 anos, a
pessoa mais inteligente que já havia conhecido. Elogiou-o francamente
e chegou mesmo a me perguntar naquele dia: "O que
pensaria a Faculdade, Sr. Decano, se esse rapaz de 19 anos se
tornasse rapidamente um escritor célebre?" Lembro-me de lhe
ter respondido: "Seria prodigioso, mas acha que ele é capaz
disso?" O Sr. Rodelec respondeu sem hesitar: "É." O aparecimento
de O Isolado, três anos mais tarde, provou que o diretor
do Instituto de Sanac não se havia enganado.
- Sr. Decano, poderemos conhecer sua opinião sobre
esse livro?
- Do ponto de vista da psicologia dos surdos-mudos-cegos
de nascença, acho que é uma obra marcante, sob todos
os pontos de vista. O estilo é puro. A única censura que se
poderia fazer ao autor é o modo com que ele pintou, em traços
monstruosos, as pessoas normais que cercavam seu herói. Aquilo
não se enquadra com os princípios e, principalmente, com os
inumeráveis testemunhos de bondade que ele recebeu durante
seus 12 anos passados em Sanac.
- A testemunha acha que esse romance é a obra de um
homem inteligente e perfeitamente lúcido? - perguntou Berthier.
- Mais que isso! - afirmou o Decano da Faculdade. -
O Isolado é a obra de um homem superior.
- Depois de agradecer ao Sr. Decano Marnay - declarou
o promotor - que se prontificou a dar um testemunho
cuja autoridade não pode ser posta em dúvida, gostaria de
chamar a atenção dos Srs. Jurados para o fato provado agora
de maneira irrefutável: o acusado é não apenas consciente de
seus menores atos como estes são guiados por uma inteligência
excepcional que sabe refletir. E insistimos particularmente no
fato de que não nos devemos fiar na aparência exterior de
Vauthier. Que ele seja um bruto, nós nunca duvidamos, e a
maneira como executou seu crime bem o prova, apenas diremos
que é um bruto inteligente e sonso. Temos portanto o direito
de deduzir que o crime do De Grasse foi sem dúvida longamente
premeditado, desejado e executado conscientemente.
- As presentes conclusões do Sr. Promotor me parecem
prematuras - disse Victor Deliot. - A extraordinária inteligência
de Jacques Vauthier é incontestável, mas daí a concluir
que esse dom maravilhoso foi utilizado a serviço do crime há
um grande caminho a percorrer!
- A Corte lhe agradece, Sr. Decano - disse o presidente.
- Que seja introduzida a testemunha seguinte.
Esta, guiada por um contínuo, avançou até a barra. Era um
cego.
- Seu nome?
- Jean Dony.
- Data e local de nascimento?
- 23 de novembro de 1920, em Poitiers.
- Sua profissão?
- Organista na catedral de Albi.
- Sr. Dony - começou o presidente - durante 11 anos
o senhor foi colega de estudos e de juventude de Jacques Vauthier
no Instituto de Sanac. Foi o senhor mesmo que pediu à
Promotoria para ser citado neste Tribunal, assim que soube,
pelos jornais, do crime de que seu antigo camarada foi acusado.
O senhor não teve medo de afirmar ao Juiz de Instrução encarregado do inquérito
que tinha graves revelações a fazer sobre o acusado. A Corte está pronta para
ouvi-lo ...
- Sr. Presidente, fui, durante os primeiros anos de permanência
de Jacques Vauthier em Sanac, seu melhor amigo... .
Quando ele chegou ao Instituto com sua tríplice deficiência,
pareceu-me infinitamente mais miserável que eu que era apenas
cego. Pelo menos eu tinha a chance de poder me exprimir,
de possuir uma audição apuradíssima. O recém-chegado era três
anos mais novo que eu. Após tê-lo educado sozinho durante
o primeiro ano, nosso diretor, o Sr. Rodelec, chamou-me um dia
para me dizer: "Observei que você se interessa pelos progressos
de seu novo colega e que é bom para ele. Assim sendo, agora
que ele já conhece o alfabeto datilológico e a escrita Braille,
você vai lhe servir de companheiro para as saídas, os jogos e até
para os estudos propriamente ditos, que pretendo começar logo,
pois ele já aprendeu os diferentes meios de compreensão e expressão" ...
A partir desse dia, tornei-me como que o colaborador
direto do Sr. Rodelec. Isso durou seis anos, até que
Jacques atingiu os 17 anos. Nessa ocasião fui substituído junto
a ele por aquela que deveria tornar-se sua mulher seis anos
mais tarde. Devo esclarecer que a chegada de Solange Duval e
de sua mãe não surtiu bom efeito no Instituto onde nunca aparecera
uma mulher até aquele dia. Todavia, estou persuadido
de que o Sr. Rodelec mandou buscar Solange Duval e a instalou
em Sanac com as melhores intenções do mundo.
- Que impressão lhe causou então Solange Duval?
- Pessoalmente, nenhuma, Sr. Presidente... Eu não a podia ver. Mas soube por
camaradas surdos-mudos, eles sim podiam vê-la, que era uma moça muito bonita ...
A única coisa que nós, cegos, pudemos observar, era a doçura da sua voz. Mas
sentíamos, em certas entonações, nossos ouvidos não mentem jamais!, que sob
aquela doçura aparente, capaz de enganar os que a viam, seduzidos pelo seu
aspecto físico, se escondia uma vontade de ferro, decidida a ir até o fim ...
- O fim de quê? - perguntou Victor Deliot.
- Até o casamento com Jacques Vauthier - respondeu a
testemunha.
- Isso deixa supor - observou o presidente - que o
sentimento de Solange Duval por seu colega era sincero quando
se casou com ele, pois já durava alguns anos.
- Não tenho tanta certeza assim, Sr. Presidente ...
- O que a testemunha pretende dizer com isso? - perguntou
novamente o advogado da Defesa.
- Nada ... ou mais exatamente, prefiro guardar só para
mim minha opinião sobre este ponto delicado.
- Sr. Dony - declarou o presidente - se o senhor
insistiu para vir testemunhar neste Tribunal, a Corte sente-se
no direito de espérar do senhor fatos precisos e não uma linguagem
enigmática. Fale tudo o que sabe.
- Sinceramente, Sr. Presidente, não posso. Jacques foi
sempre meu amigo e, eu diria mesmo, meu pequeno protegido
durante anos..
- O senhor jurou dizer a verdade, toda a verdade! -
advertiu severamente o presidente.
- Pois bem, que seja! - respondeu o cego, após um
momento de hesitação. - Solange Duval com 20 anos era já
uma moça feita, ao passo que Jacques era ainda um adolescente
imberbe de 17 anos. Tenho certeza de que ela não o amava.
- Pode dar uma prova à Corte?
- Sim, Sr. Presidente: ela mesma me confessou várias
vezes.
- Sr. Dony, chamo sua atenção para a gravidade de tal
afirmação.
- Já medi seu alcance, Sr. Presidente, assim como o do que vou dizer agora...
Solange e eu tínhamos exatamente a mesma idade. Ela sabia que eu era talvez o
melhor amigo de Jacques no Instituto. Por isso talvez ela me confiasse coisas
que não ousaria mesmo dizer ao Sr. Rodelec ou a sua mãe ...
Claro que ela sentia por Jacques uma ternura profunda, mas
posso garantir que não era amor.
- E ele? Tinha a impressão de que ele amava aquela
moça?
- No caso de Jacques é difícil afirmar, Sr. Presidente ...
Ele sempre foi muito fechado: nunca se sabia o que pensava
e sua tríplice deficiência facilitava a dissimulação. Não chego
ao ponto de dizer que Jacques sempre me pareceu um sujeito
muito vivo. Nós, que não enxergamos, felizmente possuímos
antenas que nos permitem adivinhar os seres que nos cercam,
e atingir também, sem que eles suspeitem, os segredos mais
íntimos de seus corações. Não somos nem influenciados nem enganados
pelo seu aspecto físico. Descobrimos melhor as chagas
morais que os que vêem, porque nossos cérebros se concentram
mais em sua noite sem fim.
- No entanto - disse Victor Deliot - o senhor jamais
ouviu a voz de Jacques Vauthier que era igualmente surdo-mudo!
- O senhor esquece o sentimento, Sr. Advogado! Não
pode compreender o poder da evocação ... Após seis anos de
convivência diária, conheço Jacques Vauthier de cor e salteado.
Nós nos falávamos pela mão: sua alma era para mim um livro aberto ...
- O senhor não acabou de nos dizer que nunca soube
exatamente o que ele pensava? - observou o presidente. -
Está caindo em contradição consigo mesmo!
- Absolutamente, Sr. Presidente! Sei o que digo. Justamente
porque fui, talvez, o único capaz de ler nesse ser misterioso,
posso afirmar que Jacques sempre me escondeu voluntariamente
certas coisas... Um rapaz tão jovem, capaz de
dissimular com tanta perfeição, é também capaz de muitas outras
coisas mais tarde... Aliás, deu provas disso em Sanac, alguns
meses antes que eu deixasse de me ocupar dele... E são os
fatos seguintes, que vou procurar contar com toda a objetividade,
que me dicidiram a vir depor neste Tribunal. Quando
a Corte tomar conhecimento deles, compreenderá por que não
me admirei, seis meses atrás, de saber, pelo rádio e pelos jornais,
que meu antigo protegido era acusado de um assassinato. Hesitei
longamente antes de tomar uma decisão tão grave que poderia
ter sérias repercussões sobre a opinião dos jurados. Foi somente
quando me certifiquei de que Jacques Vauthier persistiria em
trancar-se em seu mutismo que vim de Albi a Paris pedir voluntariamente
para ser ouvido pelo Juiz de Instrução. Para
mim, era um caso de consciência: devia deixar o mundo acreditar
que Jacques Vauthier era incapaz de cometer um crime ou,
ao contrário, tinha a obrígação de mostrar que o acusado não
era marinheiro de primeira viagem? Meu dever, por mais penoso
que fosse com respeito a um amigo de juventude, pelo
qual eu tive e ainda tenho afeição, me obrigava a esclarecer a
justiça. É unicamente por isso que estou aqui...
- A Corte está pronta a ouvi-lo.
- O que vou contar passou-se exatamente em 24 de maio
de 1940, mais ou menos às duas horas da tarde. Lembro-me de
que era uma tarde maravilhosa de primavera. A noite se anunciava
bela e fresca ... Tendo obtido um segundo lugar de órgão
no Conservatório, eu ia deixar definitivamente o Instituto de
Sanac, dois meses mais tarde, para começar a ganhar minha
vida como organista suplente na catedral de Albí. Foi o Sr.
Rodelec, que, com sua bondade habitual, me aranjara aquele
emprego. Eu passeava sozinho pelo fundo do parque, que eu
conhecia de cor nos seus menores recantos, tentando compor
mentalmente uma peça para órgão. A cabeça fervilhando de
harmonias, dirigi-me para um barracão de madeira onde eu me
costumava refugiar com minha punção e reglete portáteis para
lançar no papel cartonado as primeiras notações musicais da
obra projetada. Esse barracão sem janelas e com uma única
porta era onde Valentin, o jardineiro do Instituto, guardava seus
instrumentos de trabalho. A porta estava sempre fechada a
chave, que Valentin costumava deixá-la pendurada num prego,
à direita da porta. Todas as vezes que eu ia lá, apanhava a chave
no lugar certo e a metia na fechadura para entrar no barracão.
Ao sair fazia a operação inversa, tornando a colocar a chave
em seu lugar. O mobiliário interior reduzia-se, além das ferramentas
e de estantes onde se alinhavam algumas plantas, de
uma mesa rústica de madeira e de um banco que eu utilizava
para escrever. Como não havia janelas, Valentin, para enxergar,
era obrigado a acender um velho lampião de querosene, que
ficava sempre sobre a mesa ao lado de uma caixa de fósforos.
Pessoalmente, eu não tinha razão alguma para utilizar o lampião..
- Na tarde de 24 de maio, - continuou - quando minha
mão tateou à procura do prego, constatei surpreso que a
chave não estava pendurada mas já se encontrava na fechadura.
Pensei que Valentin se tivesse esquecido de colocá-la no lugar e
virei a maçaneta. Mal entreabri a porta, ouvi um grito abafado
vindo do interior. Como se alguém estivesse tentando pedir
socorro e outra pessoa lhe tivesse tapado a boca com a mão.
Dei alguns passos e recebi na nuca um golpe violento que me
fez cambalear e perder os sentidos. Quando voltei a mim, senti
um cheiro acre, sufocante, e ouvi o crepitar de chamas: o barracão
estava em chamas. Solange Duval, agarrada a mim, sacudia-me
com força e gritava: "Depressa, Jean! Vamos morrer
queimados! Jacques ateou fogo, derrubando o lampião e fugiu,
trancando-nos aqui dentro!" Num segundo, eu estava de pé. O
instinto do perigo iminente devolveu-me as forças e eu me
atirei contra a porta, tentando fazer saltar a fechadura. Solange
chorava, aterrorizada. Eu sentia o calor cada vez mais insuportável:
as chamas que eu não via quase nos tocavam... Finalmente,
a porta cedeu e corremos para fora exatamente no
momento em que o Irmão Dominique, o porteiro e o Irmão
Garnck, o inspetor geral de alunos, que haviam visto o fógo
no fundo do parque, acudiam. Não tardou que o barracão se
transformasse num monte de cinzas. Jacques havia desaparecido.
"O que aconteceu?", perguntou-nos o Irmão Garrick. "Foi
minha culpa", apressou-se a dizer Solange. "Por curiosidade
entrei nesse barracão e, como estava muito escuro, acendi o
lampião de querosene que estava sobre a mesa. Infelizmente, ao
voltar-me, derrubei-o sem querer e tudo se incendiou rapidamente.
Fiquei apavorada e pedi socorro. Felizmente Jean Dony,
que devia estar passeando pelas redondezas acorreu e corajosamente
me ajudou a sair a tempo."
- No momento - prosseguiu - fiquei tão aturdido com
aquela explicação que não procurei uma palavra, mas, quando
voltávamos para o edifício central do Instituto, perguntei em
voz baixa a Solange: "Por que inventou essa história em vez
de contar a verdade?" Ela me respondeu: "Suplico-lhe, Jean,
diga a mesma coisa que eu! Por que arranjar complicações
inúteis a esse pobre Jacques que não estava em seu estado normal?"
Não tive resposta para lhe dar e pensei que, afinal de
contas, talvez Solange tivesse razão. A perda do barracão do
jardineiro não representava uma catástrofe e não houvera vítimas ...
Fui diretamente para o quarto de Jacques e constatei
com grande espanto que ele já estava deitado e fingia dormir.
Foi somente quando me deitei que pude refletir sobre o acontecimento
do qual eu me tornara o herói involuntário, mas que se
poderia ter transformado em verdadeira tragédia. Minhas conclusões
foram simples e claras: a despeito de sua pouca idade,
Jacques havia atraído a moça para o barracão no fundo do
parque para tentar abusar dela. Minha chegada inesperada transtornara
seus planos. Tomado de um acesso súbito de raiva,
após ter tentado matar-me, fora ele e não Solange que atirara
deliberadamente o lampião ao chão para atear fogo ao barracão.
A seguir, saiu precipitadamente, trancando-nos, a Solange e a mim, para que
fôssemos queimados vivos. Portanto, exatamente 10 anos antes de cometer seu
assassinato no De Grasse, Jacques Vauthier já havia tentado matar duas
pessoas...
Um grito rouco e desumano acabava de ressoar, gelando
de pavor a assistência. O acusado se levantara em seu lugar.
Durante alguns segundos, agitou os braços no ar, brandindo os
punhos enormes, depois, deixou-se cair como uma massa, abatido
e resignado, em seu banco, entre os guardas.
- O acusado tem alguma coisa a dizer? - perguntou o
presidente ao intérprete.
Os dedos deste correram, leves, sobre os de Jacques Vauthier
e ele respondeu ao cabo de alguns segundos:
- Não, Sr. Presidente. Ele nada diz.
- O incidente está encerrado - declarou o presidente,
antes de perguntar à testemunha: - Tem mais alguma declaração
a fazer?
Mas a testemunha permaneceu silenciosa, as mãos crispadas
sobre a barra: parecia petrificada pelo grito que acabara
de ouvir. Um silêncio angustiante tomava conta da sala. Foi
rompido por uma pergunta de Victor Deliot:
- A testemunha, que nos afirmou jamais ter tido necessidade
de acender o lampião, e isso por motivos óbvios, pode
dizer exatamente à Corte quem acendeu esse malfadado lampião?
- Foi Solange Duval. Ela me confiou isso dois dias
depois, quando me disse também que subitamente sentira medo
de ficar na escuridão com Jacques Vauthier.
- Como pode a testemunha afirmar com certeza - continuou
Victor Deliot - que foi Jacques Vauthier que atirou
voluntariamente o lampião ao chão para atear fogo ao barracão?
- Porque Solange Duval me disse igualmente no dia
seguinte. Aliás, ela atribuía esse gesto impensado de Jacques a
um momento de cólera, excepcional nele.
- E nunca ocorreu - continuou o velho advogado -
que a ânsia de Solange em inocentar Jacques era, talvez, porque
o amasse?
- Achei que ela tinha simplesmente pena dele e de sua
miséria moral. Mas eu já disse tudo o que tinha a dizer. Não responderei
mais a qualquer pergunta.
- Antes que a testemunha se retire - declarou o Promotor
Berthier - quero chamar a atenção dos Srs. Jurados para
a importância capital do depoimento que acaba de ser feito.
Com grande ponderação, à qual o Ministério Público só pode
elogiar e que tende a dar mais peso a seu testemunho, o Sr. Jean
Dony acaba de nos demonstrar que o acusado, há 10 anos, já
era capaz de cometer um duplo assassinato sob o efeito da
cólera. Fica mais bem explicada, após o depoimento do Sr.
Dony, a fúria com que Jacques Vauthier se encarniçou sobre a
pessoa de John Bell na cabina do De Grasse! No momento em
que chega ao fim o depoimento da última testemunha arrolada
pela Acusação, concito uma vez mais os Srs. Jurados a não se
deixarem influenciar pela calma aparente de Vauthier desde o
início destes debates. Tudo em sua atitude é estudado, calculado: quanto menos ele parecer compreender o que está acontecendo,
dando a impressão de não passar de um bruto amorfo, mais
chances ele terá de obter em seu favor a indulgência do Júri!
- A Corte lhe agradece - disse o presidente à testemunha.
- Pode retirar-se.
Em seguida, acrescentou, após a saída da testemunha:
- A sessão está suspensa. Voltaremos dentro de um
quarto de hora para ouvir o depoimento da primeira testemunha
arrolada pela Defesa.
Quando a Corte se retirou, o burburinho voltou a tomar
conta da assistência. O advogado Voirin parecia satisfeito. Victor
Deliot conversava com o intérprete. Muita gente teria pagado
para ouvir as palavras que o velho advogado pronunciava em
voz baixa:
- A parte o incidente de ainda agora - perguntou ao
diretor do Instituto da Rua Saint-Jacques - quando meu cliente
se levantou para dar aquele grito, o senhor teve a impressão,
enquanto lhe traduzia em alfabeto datilológico os vários depoimentos
das testemunhas de acusação, de que ele dava sinais de
impaciência ou de descontentamento?
- Não. Estava perfeitamente calmo: suas mãos nem
mesmo estavam febris.
- Ele lhe fez perguntas?
- Não. Limitou-se a registrar o que eu lhe dizia sem
fazer o menor comentário.
- O senhor teve a impressão de que os depoimentos dos
membros da sua família lhe causaram mágoa ou sofrimento?
- Não. Justamente em relação a eles ele mal se interessou.
- Ele sabe onde pisa com respeito a sua familha. Lembro-me
de que meu professor de Direito Civil, um grande psicólogo,
dizia: "Os únicos ódios que não se acabam são os que
nasceram em nossa infância."
- Seria indiscrição, meu caro mestre, perguntar-lhe o que
pensa das testemunhas que acabamos de ouvir?
- Muita indiscrição, Sr. Diretor ... E se eu lhe fizesse a
mesma pergunta?
- Confesso que ficaria embaraçado: certos testemunhos
são esmagadores ... Os fatos são evidentes ... As provas também,
como se não bastassem todas aquelas impressões digitais
espalhadas por todos os cantos da cabina de John Bell... Mas, apesar de tudo
isso e das confissões de Jacques Vauthier, continuo a acreditar que seu cliente
não é culpado ...
- O que entende por "não ser culpado"?
- Quero dizer que ele teve uma razão válida para
matar
- Essa é também minha opinião, meu caro diretor e intérprete.
Infelizmente, na justiça pura, o assassinato jamais é
legítimo!
Pela primeira vez, desde o início do julgamento, Victor
Deliot, que acabava de rabiscar apressadamente algumas linhas
num pedaço de papel, pareceu interessar-se pela presença de
sua jovem vizinha:
- Minha pequena Danielle, quero que aproveite essa curta
pausa para ir rapidamente ao Correio expedir este telegrama
para Nova York.. Consegue decifrar minha letra e o endereço?
Vá depressa! Se andar ligeiro, chegará a tempo para a
reabertura da sessão.
No momento em que saía da sala, a jovem ainda pôde ver seu velho amigo
encolher-se a um canto do local destinado à Defesa, deixar tombar levemente a
cabeça, os olhos semicerrados atrás do lorgnon: era sua posição preferida para
refletir ...
Repentinamente, Victor Deliot abriu os olhos e perguntou
a seu vizinho que o observava em silêncio:
- Meu caro diretor, o que diria se eu lhe afirmasse que
o meu "não culpado" quer dizer inocente?
- Não estou entendendo.
- Em termos claros, Jacques Vauthier não matou John
Bell.
- Meu caro mestre, temo que teria alguma dificuldade em
fazer com que o Júri engolisse essa ... Isso só seria possível
se o senhor lhe apresentasse o verdadeiro assassino!
- Empenhar-me-ei nisso - respondeu o advogado com serenidade. - Tudo vai
depender da resposta que será dada ao telegrama que acabo de expedir para Nova
York ...
Enquanto isso, Danielle corria para a agência telegráfica..
O texto do telegrama, incompreensível para ela, pois estava escrito em inglês,
pouco lhe importava. O que ainda martelava seu espírito era a última frase
pronunciada pelo Promotor ...
Frase que voltava, lancinante, aos seus ouvidos:"Tudo em
sua atitude é estudado, calculado: quanto menos ele parecer
compreender o que está acontecendo, dando a impressão de
não passar de um bruto amorfo, mais chances ele terá de obterem
seu favor a indulgência do Júri." Mas então, o Promotor partilhava
exatamente da opinião de Victor Deliot? Este já não
havia dito e redito a ela, Danielle, que seu estranho cliente
era de uma inteligência notável sob uma aparência enganadora?
A única diferença de ponto de vista entre o acusador e o defensor era que este
último achava, com ou sem razão, que esta atitude não era o melhor meio de
defesa, ao contrário do que pensava o advogado Berthier. Para a jovem não havia
mais dúvida: Victor Deliot tentaria o impossível para arrancar Vauthier de seu
mutismo voluntário e obrigá-lo a mostrar seu verdadeiro rosto. Conseguiria?
Aquele doente era sem dúvida muito inteligente. Mas, nesse caso, não era mais o
bruto que todo mundo observava com horror. Para Danielle, o bruto começava a
tornar-se interessante ...
E aquele grito desumano que o acusado deixara escapar quando um de seus melhores
amigos de Sanac viera acusá-lo de ter tentado matá-lo, alguns anos antes? Fora
um grito de fúria impotente, que gelara a assistência. Ela própria ficara
arrepiada: havia desespero naquele grito rouco que exprimia uma intensa dor
moral. Do momento em que o bruto sofria, tornava-se digno de piedade ...
O telegrama foi rapidamente expedido e a moça retomou
seu lugar ao lado de seu bom amigo exatamente no momento
em que a primeira testemunha arrolada pela Defesa chegava
à barra. Era uma mulher de uns 50 anos, a silhueta ainda esbelta,
vestindo um costume preto e sóbrio.
- Minha senhora - disse o presidente -,
por mais penosa que seja sua presença neste tribunal, a Corte lhe pede que reúna
todas suas forças para dizer o que sabe sobre seu filho Jacques... A senhora não
deve ignorar que o testemunho de uma mãe é capital, principalmente no caso
presente, quando sua filha e genro se dispuseram a dizer o que pensavam sobre
seu irmão e cunhado ...
- Eu sei, Sr. Presidente - respondeu Simone Vauthier
a voz embargada pela emoção.
- Fale então...
3. AS TESTEMUNHAS DE DEFESA
- Sr. Presidente, creia que foi um grande esforço para
mim vir testemunhar nesse processo de meu filho, que para
mim será sempre o meu pequeno Jacques ... Antes de mais
nada, devo reconhecer que esse menino, nervoso e impressionável
ao extremo, não parecia absolutamente feliz durante os
10 primeiros anos de sua existência passados em nossa casa, na
Rua Cardinet. Se bem que naquela época ele pudesse ser comprendido
apenas de maneira muito precária e imperfeita, meu
coração de mãe já havia adivinhado sua imensa miséria moral.
Meu pobre marido, que foi um modelo de esposo e de pai,
partilhava de minha amargura. Fizemos o humanamente possível
para melhorar as condições existenciais de nosso infeliz
menino! E foi somente depois de ter tentado tudo para educar
Jacques que resolvemos confiá-lo ao Instituto de Sanac. Ver
meu pequeno Jacques partir foi para mim um verdadeiro desespero.
Ao mesmo tempo, minha dor foi aliviada à idéia de que
o Sr. Rodelec talvez conseguisse arrancar meu pobre filho de
sua horrível noite.
- Em suma, o Sr. Vauthier e a senhora confiavam plenamente
no Sr. Rodelec?
- No início, sim... Quando fui visitar meu Jacques em
Sanac, um ano após sua partida, fiquei assombrada diante dos
extraordinários progressos feitos, mas, por outro lado, profundamente
magoada pela maneira como fui recebida por meu filho.
Foi horrível... A entrevista se realizou no parlatório da instituição
onde eu me encontrava com o Sr. Rodelec, que acabava
de me fazer os maiores elogios à inteligência excepcional de
meu filho: eu estava feliz quando a porta se abriu... Jacques
apareceu ... Era outro: havia crescido bastante, os ombros
estavam largos. Mantinha-se ereto, a cabeça erguida com altivez.
Espantei-me de vê-lo dirigir-se para mim sem hesitação
e sem usar bengala, como se me visse ou tivesse ouvido minha
voz. Seu andar calmo e seguro era quase o de um menino normal.
Seria possível que aquele rapazinho fosse o mesmo pobre
menino que, um ano atrás, era incapaz de se mover sem esbarrar
em todos os móveis?
- Eu estava emocionadíssima - prosseguiu: - Mal tive
forças para lhe estender os braços quando ele chegou perto de
mim. Apertei-o nos braços, chorando... Mas ele se retesou
imediatamente e se debateu como se quisesse escapar a meu
abraço maternal, virando o rosto para o outro lado. Fiquei
desnorteada. O Sr. Rodelec veio em meu auxílio, tomando rapidamente
as mãos de Jacques sobre as quais traçava sinais, enquanto
os traduziu para mim em voz alta: "Vamos, Jacques!
Não faça isso! Você está finalmente nos braços de sua mãe que
esperava há tanto tempo e da qual eu sempre lhe falei ... " O
rosto de meu filho permaneceu hermético. O Sr. Rodelec tomou
então sua mão direita, forçando-o gentilmente a tocar meu
rosto ... Jamais esquecerei aquela sensação ... A mão trêmula
acariciando minha testa a contragosto, acompanhando lentamente
minhas sobrancelhas, descendo pelo meu nariz, desenhando
o contorno de meus lábios, acabando por se imobilizar
sobre minha face onde escorria uma lágrima... Jacques pareceu
espantado e, instintivamente, levou o dedo úmido à boca para
experimentar o sabor das lágrimas maternas ... Seu rosto se
crispou e ele deu um grito atroz ... O mesmo rugido com o
qual ele me recebia todas as noites, quando eu ia beijá-lo em
seu quarto, na Rua Cardinet. Afrouxei meu abraço: ele se
aproveitou para fugir correndo do parlatório. Fiquei paralisada,
incapaz de articular uma única palavra. O Sr. Rodelec aproximou-se
de mim, dizendo: "Não se ofenda com seu pequeno
Jacques, senhora! Ele ainda não sabe muito bem o que faz..."
Lembro-me de lhe ter perguntado então: "Esse grito, Sr. Rodelec,
terei de ouvi-lo sempre? É tudo o que ele tem a dizer à
sua mãe após um ano de aprendizagem?" O Sr. Rodelec respondeu-me
com a maior calma, como se sua resposta fosse perfeitamente
normal: "Mas ele a ignorava completamente, quando
morava com a senhora!" Naquele instante compreendi não apenas
que meu filho jamais gostaria de mim, como também que
haviam feito tudo naquela instituição para desligá-lo de sua
família. O Sr. Rodelec havia roubado meu filho definitivamente ...
Sim, agora tenho certeza de que a influência poderosa
desse educador foi nefasta com o correr dos anos. Se em Sanac
se tivesse dado ao trabalho de desenvolver o amor desse pobre
menino para com sua mãe, hoje talvez ele não se encontrasse
nessa situação infamante!
- Após essa primeira visita a Sanac, algo a impedia,
senhora - perguntou o presidente - de retirar seu filho do
Instituto, uma vez que considerava perigosa a sua educação?
- Tudo me impedia de o fazer! Primeiro, o progresso intelectual de Jacques que
era evidente: sempre reconheci e continuarei reconhecendo a excelência do método
de trabalho empregado pelos Irmãos de São Gabriel com seus alunos. O que estou
criticando é unicamente a influência moral e pessoal do Sr. Rodelec, que tomou a
peito a difícil tarefa de se ocupar pessoalmente da educação de Jacques. Eu
precisava deixar que meu filho terminasse seus estudos delicados e complicados
...
Depois, aí sim, eu poderia retirá-lo de lá! Foi assim que, naquele
dia, sacrifiquei meu amor maternal em benefício de meu filho.
Uma vez mais confiei no Sr. Rodelec que me disse, no momento
de minha partida para Paris: "Deixe-o comigo, senhora... Da
próxima vez que tivermos o prazer de sua visita, a senhora verá
que seu filho agirá de outra forma. E um espírito muito sensível
que acaba de ser transtornado por esse primeiro contato com
a mãe da qual tanto lhe falei e que ele esperava com uma
emoção misturada a um pouco de temor ... Na Rua Cardinet,
ele a conhecia apenas como uma das pessoas que o cercavam,
ignorava mesmo a noção de mamãe... Agora ele sabe. Deve estar chorando em algum
canto. Após sua partida, tentarei consolá-lo. Prometo-lhe que ele não dormirá
esta noite sem ter rezado pela senhora" ...
- Acreditei em suas palavras - continuou - e parti
reconfortada. Os anos passaram ... Todos os anos, regularmente,
eu ia visitar Jacques para ver de perto seus progressos.
Se já não dava aquele grito pavoroso quando se encontrava em
minha presença, a verdade é que me recebia cada vez mais friamente.
Minhas visitas não lhe davam alegria alguma, contrariamente
às promessas que o Sr. Rodelec me havia feito. Aquelas
entrevistas no parlatório tornaram-se para mim um verdadeiro
suplício, minha viagem a Sanac, um calvário. Eu estava desesperada...
Jacques já havia aprendido os diferentes meios de
conversar com uma pessoa normal: poderia utilizar-se de um
deles para me confiar seus pensamentos, as perguntas que deveriam
surgir naturalmente em seu espírito quando se encontrasse
diante de sua mãe ... Se ele usasse, por exemplo, a
escrita inglesa comum, eu poderia compreendê-lo sem necessidade
de um intérprete... E eu lhe poderia responder diretamente,
reunindo sobre uma mesa as grandes letras em relevo
que se viam por todos os lados no Instituto: ele as teria agalpado
para saber minhas respostas ... Pelo menos, o essencial
poderia ser dito entre nós! Porém, infelizmente, Jacques jamais
quis empregar esse método comigo! Preferia utilizar a escrita
Braille, como está fazendo aqui e que necessita da presença
constante de uma terceira pessoa entre ele e seu interlocutor.
Nunca fiquei sozinha com meu filho, durante minhas visitas a
Sanac: o Sr. Rodelec, o eterno Sr. Rodelec, estava sempre
presente!
- Quanto mais Jacques crescia e progredia - prosseguiu
- mais ele permanecia voluntariamente mudo diante de
mim! O que é que eu podia fazer? Nada... Sentia-me impotente
diante da vontade dissimulada de educador que fingia esconder-se,
humilde, sob os reflexos de um doente. Todas as vezes
que meu filho não era gentil comigo, o Sr. Rodelec intervinha,
repreendendo-o hipocritamente com sua voz açucarada: "Vamos,
Jacques! Isso não se faz!" Voltava-se então para mim, dizendo:
"Como todas as pessoas muito inteligentes, Jacques possui
uma personalidade muito forte, quase impossível de ser dominada,
e com a qual devo contemporizar ... O que nem sempre
é fácil!" E era sempre o meu pobre menino, e nunca o Sr.
Ronelec, o responsável por aquela atitude! Não suportando mais
aquela situação, mandei perguntar a Jacques, assim que ele
obteve seu segundo bacharelado, ele tinha então 19 anos, se
gostaria de voltar a viver comigo. Ele recusou definitivamente.
O Sr. Rodelec procurou convencer-me de que era preferível
que Jacques ficasse ainda algum tempo em Sanac, onde ele
encontraria o sossego necessário para a preparação do livro
que ele sonhava escrever e cuja publicação lhe poderia abrir
uma carreira brilhante. Teria eu o direito de cortar pela raiz
essa carreira? Cedi mais uma vez, esperando com ansiedade a
publicação desse livro, o que finalmente aconteceu três anos
mais tarde.
- Qual é a sua opinião sobre essa obra, Sra. Vauthier?
- perguntou o presidente.
- O Isolado é um romance lindo que me comoveu. Senti
orgulho de meu filho quando vi seu nome nas vitrinas das livrarias.
- O fato de a família do herói, afligido pela mesma
doença de seu filho, ter sido pintada sob um ângulo pouco favorável,
deixou-a chocada, Sra. Vauthier? - perguntou o promotor.
- Absolutamente. Sempre considerei a obra de Jacques
simplesmente como um romance.
- Já que o Sr. Promotor falou do livro O Isolado - disse
Victor Deliot - chamo a atenção dos Srs. Jurados sobre o fato
de o autor não mencionar a mãe de seu herói uma única vez.
A Sra. Vauthier pareceu desconcertada. Victor Deliot tornou
a sentar-se, enquanto o presidente perguntava:
- Gostaria que nos dissesse, senhora, se tornou a ver seu
filho após a publicação do livro?
- Não logo em seguida. Fiquei um pouco magoada, apesar
de meu orgulho maternal, de ele não me ter enviado um
exemplar... Mesmo assim, escrevi-lhe para felicitá-lo. Ele não
me respondeu. Surpresa, resolvi ir uma vez mais a Sanac. Viajei
em companhia de um jornalista amigo, que queria entrevistar
Jacques para publicar um artigo sobre ele num jornal parisiense ...
Sofri então a maior humilhação que uma mãe pode
sofrer: Jacques recusou-se a me ver, ao passo que concordou em
receber o jornalista em seu quarto! Fiquei indignada! Naturalmente
foi o Sr. Rodelec que veio ao parlatório comunicar-me a
decisão de meu filho em termos que já não podiam deixar a
menor dúvida em meu espírito. E fez questão de deixar bem
claro, com palavras mal disfarçadas, que decididamente, era
preferível que Jacques e eu não tivéssemos mais contatos diretos
para evitar cenas penosas e inúteis. Acrescentou que meu filho já
era de maior idade, que seu nome se estava tornando célebre e
que já podia voar com suas próprias asas. Ele mesmo, Yvon
Rodelec, conseguira arranjar para Jacques uma companheira
maravilhosa na pessoa de Solange Duval que seria para meu
filho um apoio muito mais seguro que sua própria família.
Acabou dizendo que seu papel de educador estava terminado
e que ele pretendia desaparecer completamente da vida de
Jacques, assim que este se casasse: foi essa a primeira vez que
ouvi falar no projeto de união de meu filho com a filha da
minha antiga empregada!
- Mas a senhora sabia que Solange Duval e sua mãe
haviam sido acolhidas em Sanac pelo Srn. Rodelec quando, por
uma reviravolta da fortuna, a senhora não as pôde mais manter
a seu serviço? - perguntou o presidente.
- Sabia e, aliás essa decisão do diretor do In stituto
não me agradou.
- Qual foi sua resposta ao Sr. Rodelec com respeito ao
casamento de seu filho?
- Disse-lhe que esse casamento se realizaria sem meu
consentimento. Infelizmente, minha opinião já não pesava mais
na balança: Jacques era maior. Voltei a Paris e seis meses
mais tarde recebi uma carta do Sr. Rodelec informando-me
que a data da cerimônia estava marcada para a semana seguinte!
Meu filho não se dera ao trabalho de me escrever para me
comunicar sua decisão ... Estou quase certa de que talvez ele
o desejasse, mas que foi impedido.
- Por quem?
- Pelo Sr. Rodelec e por sua futura mulher.
- A testemunha poderia dizer-nos o que pensa de Solange
Duval? - perguntou o promotor.
- A opinião de uma sogra - respondeu Simone com
vivacidade - é quase sempre suspeita, num caso como este!
Deste modo, prefiro abster-me de dá-la... Mas gostaria que
não pensassem que eu me obstino a ser contra aquela que
apesar da minha desaprovação, se tornou minha nora, por causa
da sua origem modesta ... Solange não é desprovida de qualidades!
E uma mulher bonita, fina, inteligente, alegre, paciente... Paciência que a fez
esperar por Jacques desde a idade de 13 anos até 25, pois meu filho é três anos
mais novo que ela...
- Não seria isso, Sra. Vauthier - disse suavemente Victor
Deliot - uma prova de amor?
- Um amor que sabe o que quer: chegar ao casamento!
Solange Duval, ajudada pelo Sr. Rodelec, fez tudo em Sanac,
para que meu pobre filho esquecesse que tinha também uma
mãe capaz de amá-lo. E provou, com esse casamento, que
estava disposta a renegar sua própria mãe para atingir seus
fins ... Mélanie é uma mulher honesta e simples que compreendeu
perfeitamente, com seu bom senso popular, que aquela
união com o filho de seus antigos patrões seria um erro. Poi
procurar-me em Paris para me dizer isso. Mas, apesar disso,
Solange triunfou e o casamento foi celebrado na capela do Instituto
sem a presença das mães. Sem dúvida, será supérfluo
acrescentar que nunca mais recebi a menor notícia de meu filho,
de minha nora ou do Sr. Rodelec, durante os cinco anos que se
seguiram ao casamento! Foi casualmente que soube da partida
dos recém-casados para os Estados Unidos. Meu coração de
mãe sofreu cruelmente com essa viagem sem despedidas, mas
procurei convencer-me de que, no final de contas, o Sr. Rodelec
tivera razão e que meu filho encontrara finalmente a felicidade.
Já começava a habituar-me à idéia quando, brutalmente, recebi a terrível notícia
pela leitura de um jornal: meu filho era acusado de um crime! Pensei que fosse
desmaiar, mas ainda encontrei forças para me informar sobre a data da chegada do
De Grasse e partir para o Havre onde não me foi permitido falar com meu filho
... Ele passou a alguns passos de mim, no meio da multidão de passageiros muda
de horror, sem desconfiar de que sua mãe estava ali no cais pronta a socorrê-lo
em tudo o que fosse preciso... Ele estava só! Sua mulher devia estar
escondida... Vi quando meu filho, algemado, entrou num carro da polícia
acompanhado por dois guardas! Era a primeira vez que eu o revia desde minha
penúltima visita a Sanac, 10 anos antes ...
A voz de Simone Vauthier emudeceu. Diante da Corte,
estava uma mãe em lágrimas, que se agarrava à barra para
não desfalecer. Victor Deliot aproximousse para amparar a
infeliz senhora.
- Se achar conveniente, mestre - disse o presidente -
poderemos suspender a audiência por alguns instantes e recolher
mais tarde o depoimento da testemunha.
Mas Simone Vauthier se havia endireitado para gritar por
entre lágrimas:
- Não! Não sairei daqui antes de dizer tudo! Vim a
este tribunal para defender meu filho contra todos aqueles que
o acusam... todos os que lhe fizeram mal e que são os verdadeiros
responsáveis ... Ele não matou! Isso não é possível! Ele
é inocente! Uma mãe não se pode enganar... O fato de ter sido
nervoso e até brusco em sua infância não significa que se tenha
transformado num assassino! Sei que todo mundo está contra ele,
fiado nas aparências. Sei que seu aspecto físico pode lhes parecer
inquietante, mas isso nada prova! Imploro-lhes, Srs. Jurados,
deixem-no! Libertem-no! Devolvam meu filho para mim! Eu
o levarei! Juro que o vigiarei! Finalmente, o terei só para mim!
Ninguém jamais ouvirá falar dele... .
- Acredite, senhora, que a Corte compreende e respeita
seus sentimentos - disse o Presidente Legris - mas é preciso
que tenha forças para responder ainda a uma última pergunta:
a senhora conseguiu rever seu filho desde que ele foi preso?
E ele lhe fez quaisquer confidências?
- Não, não o revi... Jacques não quis... Pobrezinho!
Não compreendeu que eu queria somente ajudá-lo ...
Essas últimas palavras terminaram num sussurro. Simone
Vauthier voltou-se para o banco dos réus onde o intérprete
continuava a traduzir, sobre as falanges inertes do acusado, as
minimas palavras pronunciadas por sua mãe.
- Suplico-lhe, senhor - insistiu ela dirigindo-se ao intérprete - diga-lhe que
sua mãe está aqui, perto dele, para ajudá-lo ... Sua mãe que lhe pede que se
defenda, por ele mesmo, pela honra do nosso nome, pela memória de seu pai...
Sua mãe que lhe perdoa toda sua indiferença desde que era
menino ... Suplico-lhe, meu filho, faça um gesto, não importa qual! Estenda-me
simplesmente os braços ...
- O acusado responde? - perguntou o presidente ao
intérprete.
- Não, Sr. Presidente.
- A Corte lhe agradece, senhora...
Simone Vauthier estava arrasada. Dois guardas a carregaram
como a um fardo sob os olhares da assistência petrificada.
Danielle ficara transtornada: aquela mãe devia conhecer
seu filho melhor que ninguém ... Se afirmava com tal convicção
que ele era meigo, talvez o fosse. No entanto, nem um sinal
para aquela mãe que viera defendê-lo com todas suas forças.
Nem um músculo do seu rosto bestial se movera enquanto o
intérprete lhe traduzia a súplica patética de sua mãe. Se o desespero
e as lágrimas de sua própria mãe não conseguiram comovê-lo,
quem o conseguiria?
A jovem contemplou com novo interesse o acusado, como
que fascinada por aquele monstro de olhar ausente. Chegava
a perguntar-se se num momento qualquer da sua estranha existência
- por mínimo que fosse - esse Vauthier poderia ter
tido uma aparência humana e até certo ponto bela. Na realidade,
Danielle não sabia mais que partido tomar. Seus sentimentos a
respeito do acusado eram confusos e contraditórios. Teve de
fazer um grande esforço para se desligar daquela contemplação
fascinante e voltar o olhar para seu velho amigo que tornara
a sentar-se em seu lugar. Victor Deliot, sempre impassível, limpava
o lorgnon com seu lenço xadrez. O presidente chamou a
testemunha seguinte.
Era uma figura estranha. Sua estatura alta, ligeiramente
curvada, vestia-se com uma batina preta cuja parte inferior se
abria, deixando aparecer as calças que caíam sobre sapatos
grossos e de bico quadrado. O único ornamento da sua roupa
preta era uma manta azul, retangular. Seu rosto de ar travesso e
avermelhado era emoldurado por cabelos brancos e nele se
destacavam dois olhos cinzentos e brilhantes. A primeira impressão
que se tinha dele era de bondade e de uma certa timidez:
não era necessário esmiuçar por muito tempo aquele estranho
personagem para saber que pertencia à categoria das criaturas
que durante toda sua vida só enxergaram a beleza dos seres
ou das coisas e que se recusam a admitir a fealdade. Mantinha-se
desajeitadamente em pé, revirando nas mãos grossas de camponês
um chapéu de três bicos em feltro preto:
- Yvon Rodelec, nascido em 3 de outubro de 1875, em
Quimper, diretor do Instituto São José, em Sanac.
- Sr. Rodelec, queira declarar à Corte tudo o que sabe e
pensa sobre Jacques Vauthier.
- Quando vim buscá-lo, em Paris, já faz 17 anos, para
levá-lo a Sanac, encontrei Jacques nos fundos do apartamento,
onde residia a família Vauthier, em um quarto que dava para um
pátio interno. Quando penetrei na peça, ele estava sentado diante
de uma mesa: a única manifestação de vida nele se traduzia
pelos movimentos febris de suas mãos, que viravam e reviravam
incessantemente sobre a mesa uma boneca de pano. Seus dedos
seguiam os contornos do brinquedo com uma avidez que parecia
jamais poder ser saciada... Sentada diante dele estava uma
menina um pouco mais velha, a pequena Solange, cujo olhar
expressivo permanecia fixado sobre o rosto fechado de Jacques,
como se quisesse arrancar-lhe seus segredos. Tive a impressão,
desde esse primeiro contato, que todas as perguntas, todas as
pequenas palavras de ternura vinham aos lábios de Solange. Ao
contrário, a boca do menino permanecia aberta, os lábios sem
vida. O que lhe dava um aspecto bestial. A minha entrada a
menina se levantou, mas ele não se mexeu: não percebia nenhum
barulho, nenhum som... O quarto não era grande, mas limpo: compreendi logo que a
pequena Solange o limpava com capricho. O próprio doente estava bem cuidado: seu
avental de escolar não tinha a menor mancha. O rosto lavado e as mãos limpas.
Esta foi, Sr. Presidente, a primeira visão que tive do menino surdo-mudo-cego de
nascença que eu ia educar para tentar fazer dele uma criatura quase normal...
Após um breve silêncio, o ancião continuou com uma
doçura infinita:
- Sentei-me à mesa entre as duas crianças, para poder
observar melhor o pequeno doente ... Tentei inicialmente entreabrir
suas pálpebras cerradas, mas ele estremeceu ao contato
de minhas mãos e afastou vivamente a cabeça, lançando um
grunhido. Como eu insistisse, sua contrariedade transformou-se
numa cólera furiosa; suas mãos se agarravam à mesa, seus
pés sapateavam, todo seu corpo foi sacudido por um tremor nervoso ...
A menina veio em meu auxílio colocando suas mãozinhas
gorduchas sobre as pálpebras e o rosto de Jacques, que
ela acariciou levemente. Esse contato pareceu fazer um bem
imenso a seu jovem companheiro que, instantaneamente, voltou
à calma ... Conversei então com a menina à qual perguntei o
nome, a idade e há quanto tempo cuidava de Jacques ... "Há
três anos", respondeu ela. "Oh, então você deve conhecê-lo
muito bem!" "Claro que sim", respondeu ela com um entusiasmo
espontâneo. "Tem certeza de que ele não vê absolutamente
nada, não pode falar nem ouvir?" "Se ele pudesse, senhor, eu
já teria percebido há muito tempo! Faz três anos que eu estou
sempre a seu lado..." Acreditei nela: parecia gostar muito
dele. Perguntei-lhe: "E ele gosta de você?" ... "Não sei", respondeu
ela tristemente. "Ele não sabe me dizer ... " Expliquei
então à jovem Solange que num futuro próximo seu amigo
saberia expressar seus sentimentos e acrescentei: "Gostará de
ouvir Jacques dizer que você é sua melhor amiga?" "Por que
procura o impossível?", foi a resposta. "O certo é que ele me
prefere a todas as pessoas que vivem nesta casa. Só admite
que eu lhe acaricie o rosto ... " "Nem mesmo sua mãe?" "Nem
mesmo ela", respondeu Solange, baixando a cabeça. Então,
ergueu-a bruscamente para me perguntar com um desafio infantil:
"Quem é o senhor?"
"Eu? Um simples pai de família numerosa. Tenho 300
filhos! O que acha disso?"
"E gosta de todos?"
"Mas claro que sim!"
- Solange - prosseguiu - parecia não compreender, mas,
já à vontade, começou a me explicar que havia conseguido ensinar
a Jacques um punhado de coisas e que os dois já se podiam
entender muito bem.
"Todos aqui pensam que Jacques não raciocina. Não é
verdade! Eu sei que ele é muito inteligente."
"E como chegou a saber?"
"Por causa de Flanelle."
"E quem é Flanelle?", perguntei curioso.
"Minha boneca, essa que ele está segurando nas mãos.
Ele não tinha brinquedos e nada com que se ocupar..."
"E você não brinca mais de boneca?"
"Prefiro brincar com Jacques: é mais importante. Ninguém
nunca quis brincar com ele ... Eu lhe dou a boneca e de tempos
em tempos eu a tomo... Ele gosta muito de Flanelle: quando
a quer, ele me pede. Para isso, inventei um pequeno sinal: ele
apóia seu indicador na palma da minha mão direita. Isso, para
ele, significa dê-me a boneca, e eu lha dou. Quando quero que
ele me devolva a boneca, faço o mesmo sinal, em sentido inverso."
"De onde tirou a idéia de comunicar-se com ele por meio
de sinais?", perguntei intrigado.
"A primeira vez que lhe dei Flanelle, retirei-a na hora do
jantar: ele se irritou e atirou-se no chão, rolando e latindo como
um cão. Tive de devolver-lhe a boneca. Depois de a ter deixado
alguns minutos nos braços, tornei a tirá-la, fazendo ao mesmo
tempo o sinal. Sua cólera recomeçou, e isso várias vezes, até
que ele mesmo teve a idéia de repetir na minha mão o sinal que
lhe devolvia Flanelle. Desse dia em diante, ele nunca mais adormeceu
sem ter Flanelle nos braços."
"E você não sentiu perder Flanelle?"
"Oh, não! é como se ela fosse nosso bebê, meu e de Jacques... "
" Que mais você lhe ensinou?"
"A pedir o que gosta de comer. Mamãe lhe prepara às
escondidas, pratinhos especiais..."
"Quem é sua mamãe?"
"A empregada da Sra. Vauthier."
- Eu estava cada vez mais espantado e perguntei:
"Jacques consegue pedir por sinais tudo o que quer comer?"
"Tudo não, apenas seus pratos preferidos ... Desde os
primeiros dias em que fui contratada para ficar com ele, percebi
logo que ele era louco por pão e ovos. Um dia, após ter
apalpado avidamente um ovo quente preparado por mamãe,
tomei-o de volta e desenhei na palma de sua mão um sinal
redondo para representar o ovo. Ele ficou vermelho de raiva
e, como não quisesse repetir o novo sinal, náo lhe devolvi o ovo
e em seu lugar servi-lhe um pedaço de carne. Jacques não ficou
satisfeito e tateava todos os pratos que estavam à mesa para
ver se descobria o ovo. No dia seguinte, tornei a pôr o ovo em
seu prato: ele o apalpou e eu tornei a retirá-lo, repetindo o pequeno
sinal na palma de sua mão esquerda. Desta vez ele repetiu
o sinal: restituí-lhe então o ovo. A partir desse dia, inventei
novos sinais para o pão e outros alimentos."
"Você sabe, minha pequena Solange, que seria uma
preciosa auxiliar para mim em Sanac?"
"Então o senhor não mora em Paris?"
"Não. E vim buscar Jacques, para levá-lo comigo a Sanac."
"Vai tirá-lo de mim?", perguntou ela alarmada.
"Você o tornará a ver daqui a algum tempo ... Procure
compreender. Jacques não pode continuar nesse estado toda a
vida! Evidentemente você já lhe ensinou um bocado de coisas
úteis, e eu lhe dou os parabéns! Mas isso não é suficiente: ele
precisa instruir-se e desenvolver seus conhecimentos, a partir
dos mais rudimentares, para ser alguém."
"Eu não estou preocupada por Jacques: sei que é muito
inteligente. É que há momentos em que tenho a impressão de
que ele compreende tudo, unicamente tocando na minha mão.
Ah! se eu pudesse inventar sempre novos sinais! Já esgotei
todos! Ontem, passei a noite inteira pensando num modo de
fazê-lo entender que tem uma mamãe como eu..."
"E conseguiu?"
"Não."
"Já que você mesma reconhece sua incapacidade, há de
reconhecer também que Jacques precisa de uma ajuda mais
eficiente para que se complete o trabalho que você começou tão
bem."
"Se eu fosse mais instruída, tenho certeza de que o conseguiria
sozinha! Ele não precisaria de mais ninguém!"
"E claro que os sinais que inventou são formidáveis, mas
obrigariam Jacques a depender exclusivamente de você. É preciso
que ele seja capaz de pedir Flanelle ou um ovo à primeira
pessoa que encontrar. E ele só conseguirá isso quando souber
o alfabeto e puder utilizá-lo como você ou eu."
- Os olhos de Solange se encheram de lágrimas: ela não
compreendia que Jacques pudesse passar sem ela.
"Se levar Jacques, será por muito tempo?"
"Depende dos progressos obtidos ... Mas nada a impedirá
de visitá-lo em Sanac. Conte comigo para que ele se lembre
sempre de você."
- Eu jamais teria pensado, naquele momento, que acabava
de travar conhecimento com aquela que seria, mais tarde,
a esposa de meu aluno!
Yvon Rodelec calou-se.
- O senhor nos deixou entender - disse o Presidente
Legris - que os Vauthier não se ocupavam absolutamente de
seu filho?
- Longe de mim esse pensamento, Sr. Presidente! Meu papel, nesta terra, não é o
de julgar o comportamento dos outros, mas de ajudar meu próximo ...
- E como foi essa primeira viagem com seu novo aluno?
- perguntou o presidente.
- Menos mal do que eu esperava. Solange, a quem sua
mãe havia autorização a nos acompanhar até a estação de Austerlitz,
teve a boa idéia de levar Flanelle, que Jacques acariciou
durante toda a viagem de trem. Naquela mesma noite chegamos
a Sanac onde mandei preparar um quarto, comunicando-se com
o meu. No estado em que ele se encontrava, eu nem poderia
pensar em colocá-lo imediatamente num dormitório de surdos-mudos
ou de cegos.
- Quando Jacques Vauthier chegou à sua instituição, o
senhor já tinha outros surdos-mudos-cegos entre seus 300 pensionistas?
- perguntou o presidente.
- Não. Seu predecessor direto, o décimo oitavo aluno
desse tipo, cuja educação eu já havia terminado, nos havia deixado
seis meses antes para ir trabalhar como marceneiro numa
empresa onde consegui colocá-lo. Aliás, era preferível que inicialmente
o pequeno surdo-mudo-cego estivesse só para progredir
rapidamente. Como já fizera com os 18 casos anteriores,
que me haviam proporcionado grande prática, preferi ocupar-me
pessoalmente de Jacques. Resolvi começar na manhã seguinte
quando ele estivesse bem descansado.
- Considero indispensável - declarou Berthier - que a
testemunha explique à Corte os diferentes estágios dessa educação
que em 10 anos transformou o pequeno bruto amorfo que
era Jacques Vauthier, em um homem dotado de todas as faculdades
intelectuais. Os Srs. Jurados não mais poderão equivocar-se
sobre sua verdadeira personalidade, escondida sob uma aparência
física completamente enganadora.
- A Corte partilha da mesma opinião, Sr. Promotor.
Queira continuar, Sr. Rodelec.
- Durante aquela primeira noite que Jacques passou sob
o teto do nosso Instituto - começou o ancião - consagrei
meu tempo à prece e à meditação que seriam meus dois sustentáculos
no rude combate que eu iniciaria na manhã seguinte.
Implorei a proteção de N.Sra. do Bom Socorro. Por acaso não é
ela que vem sempre em auxílio de nós, bretões, nos casos desesperados?
Foi ela quem me iluminou ... Eu hesitava ainda sobre
a escolha do método a ser utilizado na educação daquele pequeno
bruto. Jacques seria realmente inteligente como o havia
afirmado a bondosa Solange ou não passaria de um menino
de compreensão mediana? A inteligência, ainda embotada, se
mostraria ativa, ansiosa por escapar da sua noite ou, ao contrário,
passiva, apta apenas a registrar tudo por rotina? O único
meio de descobrir era utilizar alguns elementos que a ternura
da mocinha já empregara como traço de união entre ela e Jacques:
a boneca, um ovo, uma colher, um prato, um copo. E eu
tinha de agir progressivamente, às apalpadelas, do conhecido
para o desconhecido ... Eu sabia que toda criança, muito antes
de aprender o alfabeto e os primeiros rudimentos de gramática,
penetra o sentido geral de uma frase que ainda é incapaz de articular
ou analisar em detalhe, mas que apreende graças ao
hábito do ouvido ou da observação fisionômica ... Talvez graças
também à misteriosa intuição que trazemos conosco desde
o primeiro vagido. Com o pequeno Jacques seria a mão, que,
uma vez exercitada, se tornaria ao mesmo tempo o ouvido e a
vista que armazenam a linguagem total, a garganta e a boca
que a reproduzem ... Eu iria ficar alerta e abrir minha alma
durante semanas, meses e talvez anos, esquadrinhando o íntimo
daquela criatura à procura da inteligência oculta, vagando a
esmo em meio a uma esmagadora conspiração de sombra e
silêncio, longe de toda a luz, todos os risos, todos os choros,
todos os cantos, longe da vida.
- O despertar, na manhã seguinte, foi normal - prosseguiu.
- As primeiras dificuldades começaram com a toalete
matinal que tive de impor à força a Jacques: ele sentiu imediatamente
que não eram as mesmas mãos que o ensaboavam, lhe
lavavam o rosto, o penteavam. Com raiva, entornou várias vezes
a água da bacia e atirou-se ao chão. Após cada uma dessas crises,
eu o ajudava a levantar-se e enchia de novo a bacia, esforçando-me
para não demonstrar impaciência: iniciava-se a luta
surda entre nossas duas vontades, uma querendo suprir as
deficiências da outra. E esta luta só poderia cessar com a minha
vitória final. Quanto mais difícil fosse essa primeira toalete,
mais fácil seria a do dia seguinte e, praticamente banal, a do terceiro
dia. Tudo, na educação do pequeno Jacques, se resumiria
a uma repetição metódica dos mesmos atos da vida quotidiana.
E cada um desses combates me permitiria descobrir novos traços
do caráter do meu estranho aluno. Naturalmente, no princípio,
seriam indicações muito vagas, um grito rouco, uma transformação
fisionômica, mais freqüentemente um gesto desajeitado
e brutal, mas a experiência de meus alunos anteriores me ensinara
a captar e utilizar os menores indícios. Foi ela que me deu
a idéia de manter durante alguns segundos a mão direita de
Jacques sob o jato de água fria que escorria da torneira, exercendo
pressão bem definida sobre a palma de sua mãozinha
gelada. Repeti por 10 vezes seguidas essa experiência, mantendo
sob a água o braço que se procurava retrair. As lágrimas começaram
a escorrer das pálpebras sempre cerradas; foram as
primeiras que vi jorrar de olhos apagados ... Amei essas lágrimas...
Não eram elas por acaso a mais pura expressão
da vida que ansiava por se exteriorizar? Jacques se acalmou:
resignou-se a suportar a temperatura desagradável do líquido
frio. Afastei então sua mão e apertei-a contra a minha propria
face: o menino descobriu, pelo contraste, a sensação agradável
do calor. A sensação do frio e do quente se firmou nele.
- Sua mão - continuou - sempre guiada pela minha,
tateava agora o contorno da bacia, enquanto eu imprimia em
sua palma inerte e pronta para receber um outro sinal caracteristico,
muito diferente do primeiro ... De repente meu aluno
empalideceu, depois enrubesceu, antes de se imobilizar num
êxtase supremo. O nevoeiro insondável se havia desfeito: ele
havia encontrado! Do fundo do nada, sua consciência adormecida
acabava de ser ofuscada por uma claridade súbita, fazendo-o
compreender que cada um dos dois sinais novos, que
haviam sido imprimidos na palma de sua mão direita, correspondia
a cada um dos objetos que havia apalpado: o líquido
frio e o metal da bacia. Adquiria de uma só vez a noção essencial
do conteúdo e do continente. Ainda que confusamente, ele
sentia que poderia, no futuro, pedir, obter, escutar, compreender
por uma troca de sinais sistemáticos com o Desconhecido que eu
ainda era para ele e que o tocava sem cessar. Finalmente se
evadia do pequeno mundo inventado pela solicitude de Solange
e que se reduzia a alguns alimentos preferidos ou a uma boneca
de pano. Tomado de uma alegria brutal, Jacques se pôs a tocar
em tudo no quarto: na mesa sobre a qual estava a bacia, nos
pratos, alguns secos, outros úmidos, no sabão que lhe escorregava
por entre os dedos, na esponja que ele espremia com força para
fazer espirrar o líquido frio ... Instintivamente, levava cada
objeto ao rosto para senti-lo, aspirá-lo, respirá-lo, impregnar-se
de seu odor particular... Mordeu alternadamente a esponja
e depois o sabão, fazendo uma careta: aquilo não era coisa
boa de se comer! Deixei-o inteiramente à vontade durante longos
minutos que compensavam seus 10 anos passados nas trevas.
Eu estava sendo a testemunha do extraordinário milagre: os
três sentidos que serviriam para a educação completa de Jacques
começavam a combinar-se para ajudar o cérebro a compreender.
Sucessivamente o olfato e o gosto tinham vindo em
auxílio do tato. E tudo aquilo se fazia da maneira mais simples
do mundo: bastava-me observar os gestos alternadamente desordenados
e mecânicos do menino para ver que cada objeto já
era apalpado pelos dedos febris, aspirado pelas narinas frementes
e degustado pelos lábios gulosos de saber.
- Sua própria máscara fisionômica - prosseguiu - até
aquele minuto hermeticamente fechada parecia reclamar o nome
dos objetos. Jacques tinha finalmente em mãos a chave que lhe
ia abrir as portas da compreensão. E eu tinha, agora, a prova
de que sua inteligência era viva: o bom coração da pequena
Solange não se enganava. Uma, duas, três horas se passaram,
ricas de vida nova, durante as quais eu o auxiliava a apalpar,
respirar, sentir os objetos já familiares de uma forma metódica,
dando a cada um, sobre a palma das suas mãos ávidas, uma
denominação tátil ... Mãos que estavam úmidas ... Respiração
que estava ofegante. Compreendi que era preciso não insistir
nessa primeira lição, pois seu cérébro ainda frágil não
suportaria o choque. No dia seguinte, eu recomeçaria com os
mesmos objetos de toalete, familiares, aos quais eu procuraria
acrescentar outros. Para acalmar sua excitação, achei conveniente
fazê-lo respirar ar puro e obrigá-lo a movimentar-se. O
prodigioso trabalho cerebral que ele acabava de realizar em
algumas horas, necessitava de um relaxamento físico reparador.
Levei-o para o parque do Instituto e lá fiz com que seguisse
itinerários traçados com antecedência. Para isso, eu havia ligado
algumas árvores por meio de cordas. Jacques só tinha que seguir
essas cordas de árvore em árvore as quais lhe serviam de ponto
de referência. Três dias depois, graças a esse procedimento, ele
já podia passear sozinho. Foi assim que ele aprendeu a noção
de espaço. Compreendeu rapidamente o sentido da palavra movimento
e descobriu que suas pernas só agiam sob o controle
da sua vontade.
Após uma pequena pausa, prosseguiu:
- Naturalmente, eu ficava perto dele nesses passeios para
protegê-lo de um acidente, mas evitava orientá-lo: deixava-o à
vontade. Assim que ele decorou o primeiro percurso no parque,
marquei um outro, mudando as cordas de lugar. Não era bom
que ele se habituasse demais a um itinerário determinado. Assim
que ensinei Jacques a caracterizar cada objeto de uso corrente
por um sinal mímico, passei a tratá-lo unicamente como a um
surdo-mudo, ensinando-lhe o alfabeto datilológico aplicado sobre
sua epiderme, o mesmo usado neste momento pelo intérprete
para lhe transmitir todas as minhas palavras ... A seguir, passei
a tratá-lo unicamente como cego pondo a seu alcance o alfabeto
Braille que lhe permitiu ler. Mas ele sabia apenas reconhecer
e designar objetos concretos ou ações materiais;
para poder atingir diretamente seu coração e sua alma,
era indispensável inculcar-lhe algumas noções essenciais. Comecei
pela noção de grandeza, fazendo-o tatear cuidadosamente
dois de seus companheiros: um alto e um baixo. Eu não tinha
mais que prosseguir meus esforços nesse sentido. Uma noite
em que um andarilho apareceu em nossa instituição para pedir
pousada e comida, conduzi o recém-chegado perto de Jacques
para que este apalpasse as roupas rasgadas e os sapatos furados
e acalcanhados do infeliz. A experiência foi cruel, mas necessária.
Jacques demonstrou claramente a sua repulsa, em seu
primeiro contato com a miséria. Alguns instantes mais tarde, fi-lo
apalpar as roupas bem cuidadas, o tecido fino, o relógio-pulseira
e os sapatos novos do Dr. Dervaux, o médico do Instituto.
Jacques declarou imediatamente em linguagem mímica: "Não
quero ser pobre! Não gosto dos mendigos!" ... "Você não tem
o direito de falar isso", respondi-lhe, falando-lhe na mão. "Você
gosta de mim?" Uma expressão de ternura infinita iluminou
seu rosto. "Você gosta de mim", continuei, "e entretanto eu
também sou pobre!"
- Jacques compreendeu então - continuou Rodelec -
que não havia desonra em amar os pobres, tendo adquirido, ao
mesmo tempo, a noção de riqueza e de pobreza. Aproveitei
dessas excelentes disposições para tomar suas mãos e aplicá-las
contra meu próprio rosto. Após apalpar longamente minhas
rugas, comparou-as a seu rosto jovem, de pele lisa e fresca. Expliquei-lhe
que dia viria em que ele também teria rugas. A noção
de velhice acabava de incorporar-se a seu cérebro. A revolta foi
espontânea: declarou que jamais seria assim, que pretendia ser
sempre jovem e que sua pele nunca teria rugas! Custei a fazê-lo
compreender que todo homem tem de envelhecer e que ele
mesmo perceberia que a velhice não era triste, se ela soubesse
cercar-se de juventude. A única e verdadeira juventude não é
aquela que trazemos no coração? Alguns dias mais tarde, Jacques
passeava pelo parque, acompanhando as cordas sob minha
vigilância, quando tive a idéia de lhe dar uma outra noção indispensável:
a do futuro. Apesar de todos meus esforços, as explicações
teriam sido penosas e difíceis se, pela primeira vez, meu
aluno não tivesse tomado a iniciativa, fazendo um gesto simples
que provava ter compreendido perfeitamente: os braços estendidos
para a frente, abandonando voluntariamente o itinerário
delimitado pelas árvores, caminhou rapidamente diante de
mim após ter encontrado nele mesmo a eterna comparação da
vida com uma estrada, ilustrada por Bossuet. Foi depois dessa
caminhada exaltante, que lhe abriu perspectivas infinitas, que
Jacques teve seu primeiro contato com a morte. Julgava-o suficientemente
preparado para compreender essa idéia angustiante,
agora que ele já sabia o que era o futuro.
Rodelec fez uma pausa, antes de prosseguir:
- Irmão Anselme, o ecônomo do Instituto, acabava de
morrer na paz de Nosso Senhor, após ter passado 50 anos de sua
existência a serviço da nossa instituição. Jacques se apegara
muito a Irmão Anselme que punha em seus bolsos tabletes de
chocolate, todas as vezes que o vinha ver. Comecei por falar
suavemente do morto a meu aluno, explicando-lhe que ele se
havia deitado para sempre, que não se levantaria mais, que não
mais andaria e que, conseqüentemente, não poderia mais lhe
dar tabletes de chocolate. "Então, quem é que me vai dar?"
perguntou-me Jacques, preocupado. Propus-lhe irmos até onde
se encontrava o morto. Ao tocá-lo, estendido, foi tomado de surpresa
pela frialdade do cadáver. Sabendo por mim que ele também
morreria um dia e que seu corpo ficaria tão frio como o
do Irmão Anselme, mais uma vez ele se revoltou: foi sacudido
por soluços diante daquela descoberta monstruosa. Expliquei-lhe
que eu também morreria um dia e que não temia a morte. Mas
ele não conseguia meter na cabeça uma idéia tão material
e incompleta da morte: por isso tive de fazer com que compreendesse
a existência da alma ... Foi a presença invisível,
mas sempre viva no coração de Jacques, de Solange que serviu
para destravar o mecanismo que conduziria aquela jovem inteligência
para as esferas mais abstratas. Perguntei-lhe: "Você
ama Solange? Mas com que a ama? Com as mãos? Com os pés?
Com a cabeça?" Jacques respondia meneando negativamente a cabeça a cada uma das
perguntas. "Você tem razão, meu pequeno Jacques. Há alguma coisa em você que ama
Solange ...
E essa coisa que ama está aprisionada em seu corpo, mas seu corpo, sem essa
"qualquer coisa", estaria inerte; é isso que chamamos alma e, no momento da
morte, o corpo e a alma se separam. Quando Irmão Anselme morreu, você tocou seu
corpo que estava gelado porque sua alma o havia deixado ...
Partira para outro lugar. Era a alma dele que amava você
e não seu corpo. Pois bem, ela vive para sempre e continua
a amá-lo... "Foi dessa forma que começou a brotar no espírito
de Jacques a difícil noção dos seres imateriais e da zmortalidade
da alma. Agora só me restava elevá-lo até o ponto
culminante, ao máximo de toda a educação progressiva: Deus.
Para chegar a Ele; servi-me do auxiliar mais poderoso e generoso
que os homens conhecem: o Sol. Astro dispensador de luz
e calor, cujos raios benfazejos penetram nos cantos mais obscuros,
alegrando os aposentos sombrios e acariciando mesmo o
rosto do pequeno Jacques, quando este parecia ainda fechado
para a luz ... Sol, que meu aluno amava pelo seu calor com
a mesma intensidade com que se empenhava em detestar a morte
que com ela só trazia o frio... Todas as vezes em que eu levava
Jacques a passear, podia constatar o prazer com que ele recebia
os quentes raios solares. Estendia as mãos para o lugar de onde
lhe parecia vir o calor e tentava às vezes, no parque, subir nas
árvores unicamente para se aproximar desse Sol que lhe fazia
bem.
- Um dia - continuou Rodelec - em que ele havia corrido
por um campo e voltava para mim suado, feliz, o rosio afogueado,
transbordante de admiração infantil e de reconhecimento
pelo astro que acabava de lhe oferecer esse banho de
juventude, perguntei-lhe: "Jacques, quem fez o Sol? Teria sido
o marceneiro?" "Não, foi o padeiro", respondeu-me. No seu
cerebro, onde se misturavam tantas noções novas, ele ingenuamente
ligava o calor solar ao do forno onde se assava o pão.
Observei que o padeiro não podia fazer o Sol... estava acima
das suas possibilidades ... O padeiro era apenas um homem
como ele ou eu, que conhecia simplesmente a arte de transformar
a farinha em pão ... "Aquele que fez o Sol, Jacques, é
maior, mais forte que o padeiro, que nós, mais sábio que todo
mundo ... " Jacques me ouvia, espantado. Falei-lhe da criação,
descrevi-lhe o céu admirável com as estrelas e a Lua. Gradativamente,
continuei minha lição. Logo ele sabia de cor as
principais passagens da História Sagrada que o entusiasmou
como a todas as crianças. A descrição da Paixão o comoveu e,
como a noção de tempo era para ele ainda muito imprecisa,
perguntou-me com certa inquietude: "Papai estava entre os homens
maus que mataram Jesus?" "Não, meu filho. Seu pai, como
você e como todos nós, faz parte de todos aqueles por quem
Jesus morreu na cruz..." Aproveitei aquela alusão a seu pai
para desenvolver nele a noção ainda confusa da sua familia.
Fi-lo compreender que tinha também uma mamãe que ele
deveria amar de todo o coração e respeitar. Muitas vezes, ele
demonstrou seu espanto de não ver com mais freqüência os seus,
especialmente sua mãe. Eu lhe respondia sempre: "Logo ela
virá..." Realmente, ela veio ao fim de um ano. Infelizmente,
essa entrevista sobre a qual eu havia alimentado muitas esperanças,
foi pungente e desastrosa..."
- A própria Sra. Vauthier nô-la descreveu neste Tribunal
- disse o Presidente Legris.
Yvon Rodelec pareceu surpreso com a notícia e sacudiu a
cabeça antes de dizer lentamente:
- O que a Sra. Vauthier certamente jamais soube foi que seu filho tentou
suicidar-se após sua fuga do parlatório onde ela havia tentado em vão mantê-lo
em seus braços ...
- Explique-se melhor, Sr. Rodelec - pediu o presidente.
- Os detalhes têm pouca importância: Jacques, que se
havia refugiado no celeiro do edifício central, atirou-se de lá
quando percebeu que eu o havia encontrado em seu esconderijo.
Por felicidade, caiu sobre um monte de feno que amorteceu
sua queda. Somente muitos dias depois consegui arrancar-lhe o
motivo de seu ato: "Pensei que o senhor viesse me buscar para
me colocar novamente nos braços daquela mulher ... Prefiro
morrer do que tornar a vê-la! Foi bom me dizer que ela é minha
mãe, pois fiquei sabendo que minha mãe jamais gostou de mim.
Jamais me amou! Reconheci-a pelo seu cheiro. Ela nunca se ocupou de mim quando
eu morava com ela. Ninguém gostava de mim naquela casa, a não ser Solange."
Meditei longamente naquele drama familiar... Minha conclusão foi que as coisas
se atenuariam à medida que Jacques crescesse e que o tempo, no caso, seria o
melhor conselheiro. Realmente, Jacques e eu conversamos bastante sobre o assunto
e ele fez um grande esforço para receber melhor sua mãe quando esta veio
visitá-lo um ano mais tarde. Compreendi, entretanto, durante aquela segunda
entrevista, que meu aluno jamais amaria sua mãe ou qualquer outro membro da sua
família. Durante muito tempo fiquei perplexo, perguntando-me qual seria a causa
profunda desse ressentimento ...
- E descobriu? - perguntou com ceticismo o promotor.
- Acho que sim ... Quando vim buscar Jacques, em
Paris, notei imediatamente que sua partida para Sanac representava
um verdadeiro alívio para toda a família, inclusive para
sua mãe ... Senti uma pena muito grande do menino e compreendi
que dependeria de mim criar para ele uma nova família
em Sanac, onde se sentisse amado e cercado de amigos na nossa
comunidade. Após a segunda visita da Sra. Vauthier a Sanac,
achei que seria mais razoável espaçar as entrevistas entre a mãe
e o filho. Fiz mal? Acho que não. Se eu tivesse insistido demais,
talvez acontecesse o pior. Talvez Jacques perdesse a confiança
em mim e era absolutamente necessário que ele confiasse em
mim para continuar a progredir.
- Jacques Vauthier era bom camarada para os outros
alunos da instituição?
- Excelente. No início da sua estada em Sanac foi logo
bem aceito e querido pela sua gentileza. Ao fim de alguns
meses, acabaram por admirá-lo pelo empenho extraordinário que
ele demonstrava em se instruir.
- Não houve, entre seus camaradas, um tal Jean Dony
que se dedicou particularmente a ele? - perguntou o promotor.
- Sim. Escolhi intencionalmente Jean Dony, que era
apenas cego, para cuidar de Jacques. Minha escolha foi judiciosa:
os dois jovens tornaram-se inseparáveis durante muitos
anos..
- Até a chegada de Solange Duval a Sanac! - insinuou
Berthier.
- Quando Jacques chegou à idade de prestar seus exames,
pensei que Solange Duval seria para ele uma colaboradora eficaz.
Embora possuindo grandes qualidades, Jean Dony era muito
exclusivista em suas amizades: enciumou-se com a intervenção
daquela jovem na vida de Jacques. Não tinha razão. Procurei
fazê-lo compreender que não poderia continuar indefinidamente
a cuidar do seu protegido: na verdade, Jean deveria deixar-nos
alguns meses mais tarde para tomar posse de seu cargo como
organista na catedral de Allu, onde está até hoje. Soiange
Duval seria sua substituta. Jean Dony compreendeu perfeitamente
meus argumentos e provou não ter guardado qualquer
ressentimento, no dia do casamento de Jacques com Solange,
quando veio expressamente de Albi para tocar durante a cerimônia.
- A testemunha pode dizer-nos - perguntou o Promotor
Berthier - o que pretendia, mandando buscar Solange Duval
e sua mãe para que ficassem em Sanac?
- A verdade é que o fiz apenas por necessidade - respondeu
Yvon Rodelec, com simplicidade. - A educação de
Jacques teria sido incompleta, se ele não tivesse sentido à sua
volta uma forma de ternura que é o amor levado até a abnegação
total. Era preciso dar àquele rapaz excepcionalmente sensível
a noção completa do Amor: amor do próximo e amor de si
mesmo que lhe permitiria adquirir a verdadeira dignidade humana.
Somente Solange poderia cristalizar em seu espírito todas
as formas de ternura. Quanto mais eu refletia sobre o caso
estranho dessas duas crianças, mais me convencia de que o meu
décimo nono surdo-mudo-cego não estava destinado a arrastar
pelo resto da existência a mesma solidão dos seus 18 predecessores.
Consultado, o Dr: Dervaux, médico do nosso Instituto,
foi da mesma opinião. Não seria melhor deixar que a natureza
agisse plenamente sobre Jacques com suas aspirações, apetites,
e mesmo desejos carnais? O homem não foi criado para viver
só, a menos que o Céu o tenha escolhido, desde toda a eternidade,
para ser pastor de almas. Não teria sido a Providência
que, em sua sabedoria infinita, pusera Solange no caminho de
Jacques?
- Solange - prosseguiu Rodelec - escrevia semanalmente
a Jacques: essas cartas, que eu lia atentamente e que
respondia por meu aluno, ainda incapaz de o fazer, foram se
acumulando numa gaveta de minha escrivaninha. Finalmente,
um dia, transcritas em Braille, pude entregá-las a Jacques, que
as leu avidamente. Mas meu aluno não fora o único a progredir.
Solange, já então uma moça, escrevia agora de uma maneira
encantadora. Com o consentimento de sua mãe, providenciei
que tivesse aulas em Paris com uma Irmã da Sabedoria e os
ensinamentos que recebia produziam frutos. Quando atingisse a
maioridade, Solange Duval possuiria uma instrução sólida, indispensável
para poder ajudar eficazmente a Jacques. Porque eu
já me convencera de que meu aluno nunca poderia viver só
e que necessitaria constantemente de uma companheira dedicada.
E eu me havia preocupado, então, de lhe preparar essa
companheira por intermédio da Irmã Marie de la Miséricorde,
que se correspondia regularmente comigo para manter-me a
par dos progressos realizados em Paris por sua jovem aluna.
Eu recomendara taxativamente à Irmã Marie para que Solange,
delicada e sensível, não desconfiasse que acariávamos
para ela um projeto para o futuro, nem que havíamos descoberto,
através suas cartas, o sentimento puro que parecia crescer
em seu coração em relação a Jacques. Tanto Irmã Marie
como eu confiávamos em que a Providência cuidaria de precipitar
as coisas quando fosse chegado o momento oportuno.
Solange e Jacques eram ainda muito jovens: era preciso esperar
que atingissem a maioridade. A de Solange viria primeiro
e, quando Jacques completasse 21 anos, ela já teria 24. Aquela
diferença de idades não me desagradava. Ao contrário: era
bom que a companheira fosse mais velha. Não seria ela que
conduziria a barca do casamento? Lendo e relendo as cartas
que eu transcrevia em Braille, Jacques foi descobrindo o coração
da jovem que alguns anos antes lhe havia ensinado a pedir
seus pratos prediletos e lhe dera Flanelle. "Quando ela virá?",
perguntava-me incansavelmente. Assim, quando soube pela
própria Sra. Vauthier que ela não estava mais em condições
de manter a seu serviço Mélanie e sua filha Solange, escrevi à
Sra. Duval, oferecendo-lhe emprego no Instituto: ela se ocuparia
da lavanderia e, sua filha, já com 20 anos e suficientemente
instruída, tomaria o lugar de Jean Dony ao lado de Jacques.
A Sra. Duval aceitou entusiasmada. Um mês mais tarde, meu
aluno teve finalmente a seu lado aquela que esperava há muito
tempo e que, no seu entendimento, não deveria deixá-lo nunca
mais. Ter-me-ei enganado agindo como agi? Creio que não.
- Acha então - perguntou o Presidente Legris - que
Solange Duval era a companheira ideal para um rapaz como
Jacques, atingido por uma deficiência tão grande?
- Era a única companheira possivel . Mas por que falar no passado? Solange
Vauthier ainda é a companheira ideal para seu marido ...
- Ele é o único que nos poderia dizer! - declarou Berthier.
- Infelizmente a atitude do acusado com relação a sua
mulher desde o momento do crime parece indicar que a Sra.
Solange Vauthier não goza mais da confiança de seu marido...
- A Defesa não reconhece ao Ministério Público - interrompeu
Victor Deliot - o direito a essa observação que não se
baseia em fatos precisos. Até prova em contrário, afirmamos que
a harmonia e o bom entendimento jamais deixaram de reinar
no lar dos Vauthier.
- Então, como a Defesa explica - perguntou o promotor
cada vez mais acerbo - que o acusado se tenha recusado obstinadamente
a receber a visita de sua mulher desde seu encarceramento?
- O acusado não quis receber ninguém: nem sua mãe,
nem sua mulher. Eu encararia essa recusa mais como uma prova
de dignidade corajosa - respondeu Victor Deliot.
v - Senhores - observou o presidente - receio que nos
estamos perdendo ... - Pode dizer-nos, Sr. Rodelec, em que
data e em quais circunstâncias foi decidido o casamento?
- Quando meu aluno tinha 22 anos, e Solange Duval, 25.
Jacques não conseguia mais passar sem Solange que o ajudara
a completar seus estudos de Letras e reunira o material que
lhe havia possibilitado escrever seu romance O Isolado. Após
a publicação dessa obra, Jacques Vauthier tornou-se célebre da
noite para o dia: a imprensa interessou-se pelo seu caso e,
por extensão, pela nossa obra. A própria América do Norte,
com sua generosidade habitual, quis conhecer o estranho autor
desse livro. Mas era-me completamente impossível acompanhar
meu aluno aos Estados Unidos durante a série de conferências
que ele deveria realizar por lá. Tarefas mais urgentes exigiam
minha presença em Sanac. Eu sabia, entretanto, que essas conferências
realizadas por meu aluno abririam os olhos do grande
público para nossa obra, atrairiam subsídios que nos seriam de
grande valia e, principalmente, difundiriam o método francês de
educação de surdos-mudos-cegos de nascença, tão pouco conhecido
até então. Devo acrescentar que fomos procurados por
um representante do Ministério da Educação Nacional que veio
especialmente de Paris a Sanac para me dizer que via com
bons olhos essas conferências nos Estados Unidos e que ele
facilitaria a viagem. Tinha eu o direito de recusar? Além disso ,
Jacques desejava partir. Um único ponto o afligia: separar-se
de Solange. A menos que ... Foi ele mesmo que me comunicou
seu desejo ardente de casar-se com ela. Aconselhei-o a refletir.
Respondeu-me que durante os cinco anos em que Solange estivera
a seu lado, tivera tempo suficiente de o fazer. Nada mais me
restava senão inclinar-me. a seu desejo e, aceitei, a pedido seu,
de ser seu mensageiro junto àquela que ele havia escolhido
e desejava por companheira.
- Qual foi a primeira reação de Solange Duval? - perguntou
o presidente.
- De alegria, mas também de uma certa inquietação.
Tranqüilizei-a, fazendo-a ver que no fundo ela e Jacques se
haviam amado desde a infância. Três meses mais tarde, realizou-se
na nossa capela o primeiro casamento de um surdo-mudo-cego
de nascença: aquela foi, para nossa comunidade, a
mais linda cerimônia do mundo. Vimos Jacques, "nosso pequeno
Jacques", que havíamos acolhido 12 anos atrás num estado
quase bestial, sair da capela sorrindo, radiante, levando pelo
braço aquela que lhe daria para o resto da vida a segurança de
seus olhos luminosos, de seus ouvidos sensíveis, de sua voz
harmoniosa e também, por que não dizê-lo., de seus braços
de mulher que saberiam protegê-lo contra as dificuldades da
vida e ao mesmo tempo prodigalizar-lhe as carícias das quais
ele fora sempre privado.
- O jovem casal deixou imediatamente o Instituto de
Sanac? - perguntou o presidente.
- Naquela mesma noite partiram em viagem de núpcias
para Lourdes, onde Jacques ia pagar uma promessa à Virgem
milagrosa por Solange ter concordado em ser sua esposa. E
aquele casamento não fora, por acaso, um pequeno milagre?
- Quantas vezes o senhor reviu Jacques e sua mulher
depois do casamento?
- Somente uma vez, logo após sua volta da viagem de
núpcias. Passaram por Sanac antes de irem para o Havre, onde
embareariam para os Estados Unidos.
- Pareceram-lhe, na ocasião, perfeitamente felizes?
Yvon Rodelec teve uma ligeira hesitação que não escapou
a Victor Deliot.
- Sim ... Evidentemente, Solange confiou-me certas dificuldades de caráter
íntimo que precisariam ser superadas ...
Aconselhei-a a ser paciente, mostrando-lhe que uma união durável
muitas vezes exigia tempo para consolidar-se ... Um mês
mais tarde, tive o prazer de receber uma longa carta de Nova
York, onde Solange me escrevia que eu tivera razão e que ela
estava feliz.
- A testemunha conservou essa carta? - perguntou o
Promotor Berthier.
- Penso tê-la em Sanac - respondeu Yvon Rodelec.
- Em suma - perguntou-lhe o presidente - é a primeira
vez que torna a ver seu antigo aluno depois de cinco
anos de ausência?
- Sim, Sr. Presidente.
- Poderia agora voltar-se para o acusado - continuou o
presidente - e observá-lo com a maior atenção? Acha que ele
mudou depois da última vez que o viu?
O ancião fez um esforço evidente para obedecer à Corte.
Após ter encarado longamente o réu, sentado em seu lugar entre
dois guardas, respondeu em voz baixa:
- Realmente ele mudou muito ...
Houve um momento de estupor.
- O que quer dizer com isso?
Yvon Rodelec não respondeu de imediato e, abandonando
a barra das testemunhas, aproximou-se da bancada da Defesa
onde o intérprete, de pé, continuava a transmitir sobre as mãos
do acusado as mínimas palavras pronunciadas na sala. Chegando
diante de Jacques, seu educador voltou-se e dirigiu-se ao
presidente:
-Peço autorização à Corte para fazer pessoalmente uma
única pergunta a meu antigo aluno.
- A Corte o autoriza, Sr. Rodelec, desde que formule
essa pergunta em voz alta, antes de fazê-la ao acusado em alfabeto
datilológico.
- A minha pergunta é a seguinte: Jacques, meu filho,
diga-me por que não quer defender-se?
- Pode fazer a pergunta - declarou o presidente.
Os dedos do ancião tocaram as falanges do acusado que
estremeceu àquele contato.
- Ele respondeu? - perguntou o presidente?
- Não. Ele chora... - respondeu simplesmente Yvon
Rodelec, voltando para seu lugar.
Pela primeira vez, os jurados viam correr lágrimas por
aquele rosto cuja imobilidade impassível se havia dissipado bruscamente,
cedendo lugar a uma expressão de dor atroz.
- A Corte o autoriza a fazer outras perguntas ao acusado,
Sr. Rodelec ... - disse o presidente, compreendendo, como
toda a assistência, que aquele ancião de batina tinha sido o
primeiro, cuja presença e testemunho haviam tocado o coração
de Vauthier.
- Todos meus esforços serão inúteis - respondeu com tristeza o diretor do
Instituto de Sanac. - Jacques não falará...
Conheço-o muito bem! Não creiam que seja por orgulho. Receio,
isso sim, que ele esconda qualquer coisa que jamais saberemos!
- A testemunha quer dizer com isso que também considera
o acusado culpado? - perguntou o promotor.
Yvon Rodelec não respondeu. Um mal-estar invadiu a
assistência. Victor Deliot já se havia levantado:
- Se o Sr. Rodelec não responde, Sr. Promotor, é unicamente
porque procura a causa profunda que determinou a
atitude incompreensível de Jacques Vauthier desde o drama
do De Grasse.
- A Defesa permitir-me-á observar - retorquiu o Promotor
- que, ao contrário, o Ministério Público acha que o
acusado sempre foi o mesmo desde a hora do crime! Um
crime cuja autoria ele reconheceu por várias vezes sem tentar
desculpar-se! O que pensa disso seu antigo mestre?
A voz de Yvon Rodelec se fez ouvir então com uma veemência
até então desconhecida dos que o ouviam durante seu
depoimento:
- O que eu penso é que Jacques Vauthier padece nesse
momento o calvário de um homem que se acusou de um crime
que não cometeu para salvar o verdadeiro criminoso que é o
único a conhecer... E já que a Corte me pediu, vou fazer a
Jacques uma segunda pergunta, aliás, sem grande esperança
de sucesso.
Novamente diante do acusado tomou-lhe as duas mãos e,
enquanto seus longos dedos descarnados corriam pelas falanges
inertes, sua voz traduzia em voz alta para a Corte:
- Jacques! Responda-me: quem é o assassino? Sinto que
o conhece! Tenho certeza! Não foi você, meu filho. Você é
incapaz de cometer uma ação semelhante. Não pode esconder-me
a verdade, a mim, seu mestre ... a mim que lhe dei os
meios de compreender e de se expressar. Por que não revela o
nome do culpado? Por que é uma pessoa querida? Por que gosta
dele? Mesmo sendo assim, deveria dizer seu nome, você que
sempre teve sede de verdade!É seu dever: não tem o direito
de deixar que o condenem sendo inocente! Por que esse silêncio?
Terá medo? Medo de quê? De quem? Ah, Jacques, se soubesse
como está me fazendo sofrer neste momento!
Desanimado, o ancião voltou lentamente para a barra,
repetindo:
- Ele não matou, Sr. Presidente! É preciso que se faça
o impossível para encontrar o verdadeiro criminoso!
- As afirmações da testemunhas são certamente dignas
de comiseração - disse secamente o Promotor Berthier. -
Infelizmente o Sr. Rodelec esquece que o acusado não apenas
reconheceu seu crime como o assinou com suas impressões
digitais!
- Mesmo que me mostrassem as provas mais evidentes -
respondeu o ancião - eu não acreditaria na culpabilidade de
Jacques!
- A Corte sabe que o senhor é o homem que mais bem
conhece o acusado - interrompeu o presidente. - Ela lhe
pede, portanto, que responda às seguintes perguntas. Acredita
sinceramente que Jacques Vauthier é inocente?
- Não só acredito sinceramente - respondeu Yvon Rodelec
- como tenho certeza!
- Nesse caso, poderia esclarecer a Corte sobre a personalidade
do verdadeiro criminoso?
- Como o poderia fazer? Como todo mundo, só soube da morte do jovem americano
pela leitura dos jornais ...
- Julga que, apesar de seu silêncio obstinado e de sua
recusa em responder, o acusado goza de todas as suas faculdades
mentais?
- Certamente! Somente um segredo impenetrável para
nós o obriga a calar-se.
- Sua inteligência, que o senhor formou durante longos
anos, é realmente excepcional?
- Jacques é um dos cérebros mais bem organizados que
já encontrei no decurso de minha longa existência.
- A conclusão é então simples: tudo o que Jacques faz
é consciente... Quinta pergunta: o que acha do seu romance,
O Isolado?
- O mesmo que todos os que o leram sem parcialidade
- respondeu com doçura o ancião.
- Escreveu-o só ou em colaboração?
- Jacques escreveu seu livro em Braille, completamente
sozinho. Meu papel limitou-se a uma escrupulosa transcrição
em escrita comum.
- Acha que essa obra reflete os sentimentos reais de seu
autor?
- Acho... e essa é uma das razões pelas quais não consigo admitir que um homem
que escreveu páginas tão sublimes sobre a Caridade tenha podido, mesmo por um
instante, ter desejado fazer mal a seu próximo....
- Entre essas páginas que a testemunha qualifica de "sublimes"
- observou o promotor - não se encontram algumas,
dedicadas à própria familia do autor, cuja elevação de espírito
podem parecer duvidosas ao leitor comum?
- Sempre as deplorei - confessou Yvon Rodelec. -
Mas as tentativas feitas junto a Jacques para que suprimisse certas
passagens de seu livro resultaram sempre infrutíferas. O
jovem autor respondia-me invariavelmente: "Escrevi e escreverei
somente o que penso, do contrário não estaria sendo sincero
comigo mesmo ... "
- A Corte lhe agradece, Sr. Rodelec e, antes que deixe
esta sala de audiência, faz questão de reconhecer a eficácia da
obra maravilhosa que o senhor e seus colaboradores realizam
em silêncio no Instituto de Sanac.
- Eu teria preferido, Sr. Presidente - respondeu o ancião
com voz surda - nunca ter recebido esses elogios neste recinto
e nas atuais circunstâncias!
Yvon Rodelec dirigiu-se para a saída, a cabeça baixa, as
costas encurvadas. O que aquele homem extraordinário parecia
ignorar era o efeito que seu depoimento calmo e comedido,
comovente em sua sinceridade, acabava de produzir na Corte,
nos jurados e em toda a assistência.
Os novos sentimentos que animavam Danielle Gény eram
os mesmos da maioria das pessoas presentes. Sem querer, por
seu bom senso e sua nobreza, o diretor do Instituto de Sanac
havia projetado uma nova luz sobre a personalidade até então
obscura do acusado. O ponto culminante de seu longo depoimento
fora o instante em que pousando seus dedos nas falanges
do seu antigo aluno, Yvon Rodelec fizera jorrar lágrimas de
seus olhos sem luz. Não seria a revelação súbita de que aquele
ser, considerado por todos como um bruto, era capaz de se
emocionar? O véu se havia rasgado de um só golpe e Danielle,
como muitos outros, achava que um homem forte que chora é
capaz de possuir um grande coração. Aquela observação modificava
sensivelmente aos olhos da jovem o aspecto daquela cara
brutal que adquirira por alguns instantes uma feição humana.
Vauthier tornara-se quase belo em suas lágrimas. Talvez fosse ilusão sua? Não,
ela tinha certeza de que uma luminosidade brilhara naqueles traços rudes até
então impassíveis. Tivera então a nítida sensação de que o enfermo via e ouvia
melhor que um ser normal, de tal forma seu rosto se abrira repentinamente para o
mundo exterior ...
Mas fora apenas uma faísca rapidamente apagada pela vontade de Vauthier que
voltara à sua máscara de bestialidade amorfa. Tornando a olhar para ele,
Danielle se perguntava se, como todos na sala, não teria sido vítima de uma
alucinação coletiva. Não, claro que não, o bruto havia chorado ...
- Dr. Dervaux - disse o Presidente Legris à nova testemunha
após o habitual interrogatório de identidade - sabemos
que além de uma importante clientela em Limoges, o senhor
exerce também as funções de médico titular do Instituto
de Sanac, aonde vai três vezes por semana dar atendimento
médico aos alunos. Jacques Vauthier ficou portanto sob seus
cuidados durante os anos que passou em Sanac?
- Sim. Entretanto devo dizer à Corte que Jacques Vauthier,
de constituição física excepcional, nunca esteve doente. No
dia seguinte a sua chegada a Sanac, examinei-o minuciosamente
na presença do Sr. Rodelec. O estado de saúde do menino era
normal. A seguir, seu desenvolvimento foi extraordinário. Dessa
forma o Sr. Rodelec podia acelerar sua educação sem a menor
preocupação: o que ele conseguiu com o maior sucesso.
- A testemunha julga que a educação dada pelo Sr. Rodelec
a Jacques Vauthier foi realmente um sucesso? - perguntou
com ironia o Promotor Berthier.
- Só uma pessoa de muita má-fé não o reconheceria! E
sou completamente imparcial na minha declaração visto que,
ao contrário dos Irmãos de São Gabriel, não acredito em milagres,
mas exclusivamente na ciência. O Sr. Rodelec conseguiu
arrancar Jacques progressivamente de seu estado de inferioridade
física, suprindo as deficiências de certos sentidos pelo
desenvolvimento dos que lhe restavam e que funcionavam normalmente.
Ao contrário do Sr. Rodelec, sempre acreditei que
a bondade podia muito bem existir independente de qualquer
etiqueta religiosa... Por isso, alguns dias após a chegada de
Jacques Vauthier, durante uma conversa em que o Sr. Rodelec
me dizia achar seu novo aluno extremamente inteligente, aproveitei
para lhe dar minha sincera opinião: "Por que não tenta
educar esse menino sem lhe encher a cabeça com tanto Evangelho?
Deixe-o mais à vontade, um pouco à maneira do Emilio
de Jean-Jacques Rousseau." O Sr. Rodelec respondeu-me que
eu deveria cuidar do corpo de Jacques e que ele se encarregaria
de sua alma. "Unidos", concluiu ele, "faremos um excelente
trabalho." Pois bem, continuo a acreditar que a despeito das
aparências atuais que se unem contra nós, que o Sr. Rodelec e
eu realizamos um excelente trabalho com Jacques Vauthier.
- Em suma, se a Corte entendeu bem - constatou
Berthier - a testemunha faz questão de dividir com o Sr.
Rodelec a responsabilidade da educação de Jacques Vauthier,
educação que o conduziu diretamente ao crime.
- Orgulho-me - respondeu com veemência o Dr. Dervaux
- de ter colaborado durante anos com um homem da
têmpera de Yvon Rodelec para melhorar a vida de crianças
infelizes e protesto energicamente contra a afirmação tendenciosa
que pretende insinuar que o crime do qual se acusa, com
ou sem razão, uma dessas crianças, é o resultado da educação
recebida em Sanac! É insensato! Acreditem, senhores, que, se
esses pequenos brutos não fossem recolhidos por Yvon Rodelec,
tornar-se-iam na certa um perigo e até mesmo um flagelo para
a sociedade à medida que seus desejos e apetites se desenvolvessem
no caos de uma vida animal. O mundo inteiro deveria
agradecer a Yvon Rodelec! E afirmo mais que, se existe uma
escola oposta à do crime, é certamente o Instituto de Sanac
onde a primeira regra é ensinar às crianças o Amor ao próximo!
- A Corte - declarou o presidente - ainda há pouco
rendeu uma homenagem pública ao Sr. Rodelec para lhe provar
que em nenhum instante punha em dúvida a qualidade de
seus ensinamentos ... Como médico do Instituto, pode dizer-nos,
doutor, a que atribui certos atos irrefletidos de Jacques
Vauthier tal como sua tentativa de suicídio após a primeira
visita de sua mãe?
- Esse incidente me deixou perplexo por muito tempo.
Após muita troca de idéias e observações, o Sr. Rodelec e eu
concordamos em um ponto: aquela fuga desvairada do menino
diante da mãe provava que sua repulsa datava dos seus primeiros
anos de vida. A paciência admirável de Yvon Rodelec
conseguira, após alguns meses em Sanac, modificar seus sentimentos.
Infelizmente, no seu desejo de acertar, talvez o educador
tenha errado, idealizando demais no cérebro febril de
Jacques a idéia de mãe. O fato é que, quando o menino entrou
no parlatório onde ia finalmente tomar contato com aquela
mamãe maravilhosa de sua imaginação corria na direção de
um ser ideal. Então, bruscamente, quando se aproximou da Sra.
Vauthier e pôde sentir seu cheiro, mudou de expressão. Em
uma fração de segundo sua memória vinha lembrar-lhe que
aquela presença era a mesma que ele detestava; sua inteligência
fê-lo compreender ao mesmo tempo que aquela mulher abominável
identificava-se com o conceito ideal de mãe que seu
educador conseguira, à custa de muito esforço, gravar em seu
coração. Sua confusão foi enorme. Naquela mesma noite, Yvon
Rodelec confiou-me: "É terrível, doutor! Esse menino está convencido
de que o enganei, insuflando-lhe a noção ideal de alguém
que não o é absolutamente para ele. Se persistir em seu
jovem cérebro essa dúvida que ele tem agora a meu respeito,
nada mais conseguirei dele: ficará bloqueado. O senhor sabe
melhor que eu que não se deve nunca trair a confiança de
uma criança normal: com mais fortes razões a de nma doente!
Como vê, doutor, o problema é grave e peço-lhe que me ajude
a resolvê-lo!" Convencido de que Jacques jamais amaria sua
mãe, respondi-lhe que o melhor seria encontrar para ele um
derivativo poderoso: seria preciso criar um novo centro de
ternura e afeição que substituiria no coração do menino o
carinho materno. O Sr. Rodelec já me havia falado várias vezes
da pequena Solange e das cartas que ela enviava semanalmente
a Jacques. Na opinião de Yvon Rodelec, Solange Duval resumia
tudo: a mãe e talvez, mais tarde, a companheira. Lembrou-me
de que o havia aconselhado, no dia seguinte à chegada de Jacques
a Sanac, a não encher demais sua cabecinha com ensinamentos
evangélicos e me disse, com grande modéstia, que após
muito refletir decidira seguir um pouco meus conselhos e fazer
de Jacques um homem completo no verdadeiro sentido da palavra.
Contava comigo para isso. Fiquei tão feliz de ver aquele
santo homem tomar uma decisão em harmonia com as leis
naturais, que prometi ajudá-lo sem restrições. Dediquei-me,
desde então, com intensa curiosidade a esse rapazinho que se
tornava, para o Sr. Rodelec e para mim, motivo de experiência
física e moral. Enquanto seu educador lhe inculcava carinhosamente
todas as noções morais essenciais, eu acompanhava
rigorosamente seu desenvolvimento físico.
- Muito depressa - continuou o médico - constatei
que o instinto sexual desempenharia um papel predominante
em sua vida. Jacques não poderia passar sem mulher... Transmiti
minhas observações ao Sr. Rodelec. Sabíamos que Solange
não pensava senão em Jacques... por que não se daria o mesmo
com ele? Só que, nele, tudo não passava ainda de um desejo
inexprimido ... Jacques sabia, por ensinamentos rudimentares
que somos obrigados a dar a todos os nossos surdos-mudos ou
aos nossos cegos por volta dos 14 anos, o que era a mulher
e o ato de procriação. Devido, entretanto, à sua tripla deficiência,
o problema se tornava infinitamente mais delicado. A
serenidade ingênua do Sr. Rodelec levava esse excelente educador
a pensar que tudo acabava por dar certo na união de
duas criaturas que se amavam, quando essa união era desejada
por um Poder divino. Infelizmente, eu entendia dessas coisas
muito melhor que ele e sabia perfeitamente que a falta de habilidade
de um homem em seu primeiro contato físico com
uma moça virgem pode destruir irremediavelmente um casamento!
E eu tinha boas razões para prever que, acometido por
sua tripla deficiência, Jacques cometeria todas as inabilidades
possíveis! Durante muito tempo preocupei-me por Solange, a
única companheira possível para Jacques e que iria representar
o papel odioso de cobaia nessa experiência. Não estaríamos
arriscando sua juventude, seu pudor, a um sofrimento atroz?
O primeiro contato físico desastroso com o doente não seria
a semente de uma repulsa que aos poucos se transformaria
em ódio? Sem sentimento de ternura seria suficientemente
forte para contrabalançar o outro? Que fazer? A única solução,
embora pareça chocante, era a de fazer com que Jacques conhecesse
outras mulheres antes de Solange ... Ainda assim,
surgia um novo problema. Sem levar em consideração a moral
cristã, não estaríamos arriscando num jogo perigoso? Proporcionar
prazer sexual a Jacques com outras mulheres, sem que estas
fossem representadas por uma única: Solange, a companheira
indispensável? Não seria preferível imprimir fortemente no coração
do doente a idéia de que somente Solange poderia satisfazer
seus desejos carnais? Isso oferecia a vantagem de ligá-lo
indissoluvelmente à única mulher que se mostrara desejosa de
cuidar dele com ternura e devotamento. A presença constante
de Solange seria para Jacques uma garantia de felicidade: e era
isso o que importava acima de tudo. Além do mais, Yvon
Rodelec não podia afastar-se da moral cristã.
- Lembrar-me-ei sempre da chegada de Solange a Sanac
- prosseguiu. - O encontro realizou-se em nossa presença,
no parlatório. Assim que ela entrou, parou como que petrificada
à vista daquele Jacques que ela conhecera criança e que
aparecia diante dela como homem feito. Loura e pálida, parecia
indecisa e frágil. Foi Jacques que deu os primeiros passos: caminhou
em sua direção como atraído por uma força misteriosa.
Quando chegou bem perto, parou para respirar profundamente: contou-me, mais
tarde, que naquele momento inesquecível de sua vida havia reencontrado "o cheiro
de Solange", o cheiro que ele tanto amara em tempos passados quando vegetava no
pequeno quarto do apartamento parisiense, o cheiro que para ele sempre havia
contrastado com o detestável de sua mãe ...
E que diferença na sua acolhida! Em vez de fugir, estendeu as
mãos e pôs-se a desenhar com uma doçura infinita os contornos
do rosto já então amado... Solange, imóvel como uma
estátua, mal ousava respirar durante aquele exame... Bruscamente,
as mãos do rapaz procuraram as da moça: seus dedos
rudes correram sofregamente pelas falanges delicadas. Falavam-lhe
com uma volubilidade digital prodigiosa para enfim lhe
dizer, diretamente, tudo o que durante anos e anos havia guardado
em seu coração. O que foram essas primeiras palavras de
amor, Yvon Rodelec e eu próprio jamais o soubemos. Entretanto,
a ligação estava feita para toda a vida. A presença constante
dessa moça junto a Jacques, durante cinco anos, obrigou-me
a esclarecê-lo sobre os problemas fisiológicos que o
atormentavam. Ainda que a expressão possa parecer um tanto
crua, e peço desculpas antecipadamente, ela resume o estado
físico em que o rapaz se encontrava naquela ocasião: ele "sentia"
a mulher a seu lado. Era preciso que a descobrisse completamente
para evitar que sua curiosidade insatisfeita bem
depressa se tornasse doentia.
- Yvon Rodelec deixou-me à vontade - continuou o
médico - limitando seu papel de educador unicamente às
esferas intelectuais e morais. Evidentemente, ninguém mais bem
indicado para o caso que um médico, mas minha tarefa teria sido
muito mais difícil, se não tivesse encontrado na própria Solange
a mais preciosa e compreensiva das colaboradoras. Aceitou, sem
falsos pudores, que Jacques descobrisse a anatomia e os mistérios
de um corpo feminino em seu próprio corpo ... Solange
completamente despida, aproximei-me com Jacques. Tomei-lhe
as mãos para fazê-lo apalpar um pescoço de mulher, seios de
mulher, quadris de mulher. Ao mesmo tempo lhe ia explicando
detalhes e funções. Seu rosto se iluminou ao compreender o ato
sublime da amamentação materna ... Quando lhe descrevi o ato
do amor que marca a união completa de dois seres, ele pareceu
achá-lo normal. Era o que eu desejava. Aquela estranha lição
de História Natural teve qualquer coisa de bíblico. Era como
se eu iniciasse um novo Adão, puro e casto, no conhecimento
de uma Eva eterna... Jacques havia vibrado. Seus desejos
carnais, dali em diante, se cristalizariam naturalmente em Solange,
como o desejava Yvon Rodelec. Insensivelmente, os instintos
animais de Jacques se transformaram em um desejo imperioso
de criar uma vida com aquela companheira ideal que
havia sido colocada em seu caminho. Com o correr dos dias,
eu o sentia mais obsecado, torturado... Tinha necessidade imperiosa
de realizar o ato sexual completo. Quando, finalmente,
ele me procurou espontaneamente para me confessar que desejava
Solange ardentemente, conversei com Yvon Rodelec, Jacques
tinha então 22 anos e Solange 25: não havia, portanto,
qualquer obstáculo ... Três meses depois, Solange Duval tornava-se
a Sra. Vauthier.
- O senhor acha sinceramente, doutor - perguntou o
Presidente Legris - que esse casamento deu certo?
- Teria sido mais completo se tivesse havido um filho...
- E há algum impedimento para isso? - perguntou o
Promotor Berthier.
- Nenhum. Os dois esposos são fisicamente bem constituídos
e teria sido normal que tivessem tido um filho depois
de cinco anos de casados. A cegueira, o mutismo e a surdez
não são hereditários. E o que de melhor posso recomendar a
Jacques e a Solange é que, terminada essa triste história, tenham
finalmente o filho que selará definitivamente sua união.
- Essa recomendação, doutor - disse o presidente -
supõe sua convicção na inocência do acusado?
- Perfeitamente, Sr. Presidente. Ao ler nos jornais os
detalhes do crime cometido a bordo do De Grasse, procurei
obstinadamente o móvel que teria levado Jacques a cometê-lo.
E não o encontrei... Ou melhor, encontrei-o sim! Mas para mim, que estudei
Jacques a fundo durante anos, pareceu-me de tal forma inverossímil que não quis
me deter nele ...
- Diga-o, por favor, à Corte - pediu Victor Deliot.
- Pois bem ... Jacques amava demais sua mulher para
permitir que alguém lhe faltasse o respeito ... Não quero aqui
macular a memória de uma vítima, ainda mais que ignoro
tudo a respeito desse jovem americano. Mas, enfim, a força
indiscutível dos apetites carnais de Jacques Vauthier concentrados
numa única criatura, sua mulher, poderia ter-lhe despertado
o impulso súbito de suprimir, não um rival, eu nem pensaria
nestes termos com uma companheira de uma moral a toda prova
como Solange, mas um simples desconhecido que tivesse tentado
cortejá-la, embora sem maiores conseqüências, simplesmente
porque era homem e ela uma mulher bonita... A força
de Jacques Vauthier é hercúlea: poderia ter matado, mesmo
sem o querer. Essa seria a única explicação plausível de suas
confissões repetidas e de seu gesto materializado por impressões
digitais irretorquíveis.
- A dedução do Dr. Dervaux que é, aliás, uma testemunha
citada pela Defesa - declarou vivamente Berthier - merece
a atenção dos Srs. Jurados: está repleta de bom senso. Quem
sabe nos encontramos realmente diante do verdadeiro móvel
do crime que o acusado se obstina a não revelar?
- Absolutamente não, Sr. Promotor! - interrompeu
Victor Deliot. - Com o intuito de arranjar uma desculpa válida
para o gesto homicida do qual é acusado Jacques Vauthier, a
testemunha acaba de cometer um erro. O móvel do crime, admitindo-se
como impossível que o acusado o tenha cometido, teria
sido muito mais imperioso: a Defesa tem todo o direito de
pensar que Jacques Vauthier tinha realmente uma razão muito
forte para matar John Bell e se encarregará de prová-lo no
devido tempo. Apenas Jacques Vauthier não executou seu projeto!
- O que quer dizer com isso, mestre Deliot? - perguntou
o presidente.
- Simplesmente, Sr. Presidente, que Jacques Vauthier
não cometeu o crime do qual é acusado!
Houve na sala um momento de estupor, seguido de protestos.
- Realmente? - exclamou o advogado Voirin. - Que
explicações me dá, caro colega, das impressões digitais e das
confissões do acusado?
- Meu Deus, essas impressões são incontestaveelmente
as de Jacques Vauthier, mas... é nesse ponto que peço toda
a atenção da Corte ... parece-me que as investigações criminais não foram
conduzidas com toda a sutileza exigida por um assassinato tão estranho e é o que
procuraremos igualmente demonstrar no devido tempo. Quanto às suas repetidas
confissões e, digamos mesmo, à sua insistência em atribuir a si o crime,
deixam-nos pensativos. E, apesar de tudo, não perdemos a esperança de levar
nosso cliente a fazer neste recinto uma retratação estarrecedora antes do fim
dos debates. E isso somente acontecerá, estamos convencidos há muito tempo, se
pusermos Jacques Vauthier diante de provas tão evidentes da sua não
culpabilidade que ele não poderá mais persistir no que chamariamos de uma
mentira admirável...
- O senhor quer dizer - perguntou o presidente - que
o acusado não disse a verdade durante os diversos interrogatórios
a que foi submetido durante seis meses?
- Ele mentiu, Sr. Presidente ... Meu cliente mentiu aos
oficiais do De Grasse, aos inspetores da polícia, aos médicos,
ao Juiz de Instrução, à sua própria mulher, a mim mesmo que
fui incumbido de salvá-lo apesar de tudo. Jacques Vauthier
mentiu a todo mundo!
- Mas com que intenção? - perguntou o promotor.
- Ah, Sr. Promotor, é aí que se encontra a chave do
mistério! - respondeu Victor Deliot. - Quando soubermos
a razão exata por que meu cliente tomou a si a responsabilidade
de um crime que não cometeu, para salvar a vida do verdadeiro
criminoso que ele é o único a conhecer, como deixou subentendido
o Sr. Rodelec em seu admirável depoimento, não estaremos
longe de descobrir o verdadeiro culpado!
- O Ministério Público - ironizou o Promotor Berthier
- tem boas razões para recear que esse "verdadeiro" criminoso
jamais se revele à Justiça pela única razão de que não
existe! Há apenas um criminoso, Srs. Jurados: real, vivo e não
pertencente ao mundo das quimeras ... o homem que está
diante de todos: Jacques Vauthier!
- A Defesa não permite que o Ministério Público use
para com seu constituinte qualificativos infamantes antes que
o processo esteja julgado! - falou com firmeza Victor Deliot.
- Nem o Ministério Público, nem os Srs. Jurados -
respondeu Berthier no mesmo tom - deixar-se-ão influenciar
pela fanfarronada da Defesa. E convém recordarmos mais uma
vez que o julgamento é feito sobre fatos. Se a Defesa persiste
em continuar pelo caminho em que enveredou, pedimos-lhe
que nos apresente esse criminoso desconhecido e seremos os
primeiros a pedir a absolvição pura e simples de Jacques Vauthier...
Desejamos a justiça tanto quanto a Defesa e nosso
objetivo é que triunfe o Direito... Infelizmente, sabemos
muito bem que só há um criminoso possível nesse caso doloroso.
- Incidente encerrado! - cortou o presidente antes de
se dirigir ao Dr. Dervaux que ainda se encontrava de pé diante
da barra: - Tem outras declarações a fazer?
- Tenho, Sr. Presidente ... Temo que a Corte se tenha
equivocado a respeito das palavras que deixei escapar há pouco
e que motivaram esta discussão. Expressei apenas uma hipótese
que explicaria o móvel do crime, mas acrescento que essa explicação
jamais me satisfez, tendo convivido com Jacques Vauthier
em Sanac durante 12 anos e conhecendo profundamente
sua mentalidade. Apesar de todas as aparências em contrário,
Jacques Vauthier não pode ter matado porque a bagagem
moral que lhe foi dada por Yvon Rodelec é de tal qualidade
que só poderia levá-lo a praticar o Bem ... Jacques Vauthier
partiu para a América apenas com o desejo ardente de difundir
os progressos obtidos na educação dos deserdados da naturezá.
É inconcebível que, partindo com um objetivo tão nobre, tenha
voltado com as mãos manchadas de sangue!
- A Corte lhe agradece, doutor. Pode retirar-se...
O depoimento que acabava de ser feito havia levantado
um ponto delicado no qual Danielle nem teria sonhado no início
do processo: o problema das relações físicas entre o acusado
e aquela que aceitara ser sua companheira de vida. De início,
a moça chegara a estremecer à idéia de que uma mulher jovem
e bela como deveria ser Solange, segundo descrições de várias
testemunhas, pudesse ter-se abandonado às carícias daquele
bruto ... Mas certas palavras pronunciadas por Yvon Rodelec
e pelo Dr. Dervaux - os dois homens que melhor conheciam
Jacques - deixavam-na pensativa. Não havia mais dúvida
sobre o imenso amor que o acusado dedicava a Solange. No
fundo, Solange Duval tivera sua oportunidade de ser amada!
Quantas mulheres poderiam se vangloriar de ter conseguido
dominar com essa intensidade um homem tão forte? Danielle
acabou por achar que, apesar de tudo, Solange não deveria
ter sido tão infeliz ao lado do "seu" bruto ... Quanto mais
a jovem observava Vauthier, mais se sentia levada a acreditar
que deveria ser fabulosa a sensação de ser abraçada por aquele
colosso... Além do mais, Vauthier não era um bruto: possuía uma inteligência
viva. Seu coração era capaz de emoções ...
e a prova fora dada ali, em plena audiência. Mas, mesmo supondo
que não passasse de um bruto, talvez não fosse desagradável
no amor ... No íntimo, como muitas mulheres e moças
que seguiam com paixão os debates, Danielle acabara por sentir-se
enternecida e atraída pelo bruto silencioso. Estava ansiosa
por ver finalmente Solange Duval, sobre a qual algumas testemunhas
haviam tecido os maiores elogios enquanto outras haviam
criticado acremente. De qualquer forma, uma mulher que
desencadeia opiniões tão opostas não pode ser uma criatura
qualquer.
A nova testemunha que se encaminhava para a- barra
usava, como Yvon Rodelec, o hábito dos Irmãos de São Gabriel.
Mas Dominique Tirmont, irmão porteiro do Instituto
de Sanac, era baixinho e gordo enquanto que Yvon Rodelec impunha-se
pela sua estatura. O rosto jovial do recém-chegado
exprimia uma alegria perene.
- Sr. Tirmont, queira dizer à Corte o que sabe e o que
pensa de Jacques Vauthier.
- Um menino maravilhoso! - exclamou Irmão Dominique ...
- Só penso bem dele, como aliás, de todo os nossos
alunos. São tão bons!
- O senhor se ocupou de Jacques Vauthier durante o
tempo que ele passou em Sanac?
- Essa tarefa ficou a cargo do nosso diretor... mas eu
costumava conversar com ele por meio do alfabeto datilológico
e sempre fiquei impressionado, assim como todo o corpo docente
do Instituto, com sua extraordinária inteligência ... Creio que
ele passou a gostar mais de mim desde o dia em que fiz um
vestido novo para sua boneca Flanelle que ele levara a minha
cela, para mostrar-me. Deve ter sido um ano após sua chegada.
Lembro-me perfeitamente da nossa conversa naquele dia. Eu
lhe havia dito, para arreliá-lo: "o vestido e o cabelo de Flanelle
estão fora de moda: estão compridos demais!" "De que cor
deveria ser seu vestido novo?", perguntou-me Jacques imediatamente.
Fiquei tão surpreso com aquela pergunta sobre
cor vinda de um menino cego, que hesitei antes de responder:
"Vermelho!" "A propósito, como acha que deve ser o vermelho?" "
Deve ser uma cor quente", respondeu ele. "Você tem
razão, meu pequeno Jacques. O Sr. Rodelec já lhe ensinou as
cores do espectro solar?" "Já. Explicou-me também como era
feito um arco-íris." O mais extraordinário era que não havia
o menor sinal de gabolice em sua resposta. Procedendo por
analogia, ele havia imaginado uma escala de cores, pensando
nas variedades de perfumes ou sabores. Por exemplo, a diferença
entre o cheiro de uma laranja e de uma pera, de um damasco
e de um pêssego, lhe sugeria a que havia entre o preto
e o branco ou o vermelho e o verde ... Por dedução, ele conseguia
imaginar as várias tonalidades assim como as nuanças
das mesmas. Jamais pensava num objeto sem revesti-lo instintivamente
com as cores do arco-íris.
- A testemunha pode nos dizer se a idéia fundamental
das cores era exata no cérebro de Jacques Vauthier? - perguntou
Victor Deliot.
- Não. Percebi imediatamente essa lacuna que, infelizmente,
jamais poderia ser preenchida, quando ele me perguntou
de que cor eram os olhos de Flanelle. Respondi-lhe que eram
azuis e que seus cabelos eram pretos. O menino ficou profundamente
desapontado: "Não gosto!" disse. "Flanelle seria muito
mais bonita se seus olhos fossem amarelos e seus cabelos azuis!"
No momento nada respondi, pensando que já havia visto pior
em certos quadros de arte moderna! Jacques não teria criado
em seu cérebro uma paleta de pintar sui generis, onde o verde
seria sinônimo de frescor, o vermelho de força e de violência,
o branco de candura e de pureza? E mesmo que as cores da sua
imaginação não correspondessem exatamente à verdade, aquilo
tinha uma importância muito relativa já que não existe verdade
absoluta nas regiões do prisma! Quantas pessoas que enxergam,
muitas das quais afetadas pelos daltonismo, concordam sobre
a natureza exata de uma cor? E de quantos luminaristas já
ouvimos dizer "que suas cores eram mais bonitas que as da
natureza"? Enfim, como diz um velho provérbio: "Gostos e
cores não se discutem!"
- Todas essas considerações da testemunha sobre o sentido
das cores no acusado são muito interessantes - interrompeu
Berthier - mas nos parecem impertinentes.
- Absolutamente, Sr. Promotor! - respondeu Victor
Deliot. - Se deixamos o Sr. Tirmont expor a maneira pela
qual o acusado imagina as cores fundamentais, é unicamente
porque uma dessas cores, ainda que pareça inverossímil à Corte,
desempenhou um papel decisivo no assassinato imputado injustamente,
até o momento, a Jacques Vauthier.
- Decididamente, meu colega Victor Deliot é o homem
das surpresas! - exclamou Berthier. - E se eu não temesse
ofender a dignidade deste Tribunal, diria que estamos mergulhando,
graças às frases enigmáticas pronunciadas pela Defesa,
num verdadeiro romance policial!
- E quem diz o contrário? - respondeu o velho advogado. - Em todo romance
policial, há sempre um crime cujo autor só é descoberto nas páginas finais...
Torno a repetir: a verdade criminal do De Grasse só será desmascarada nos
últimos minutos destes debates ...
- Por que a Defesa não nos revela logo seu nome, visto
que parece conhecê-lo tão bem? - perguntou o promotor.
- A Defesa jamais disse conhecer o assassino! - respondeu
com serenidade Victor Deliot. - Ela simplesmente
afirmou que seu constituinte não era o verdadeiro culpado e que
somente ele conhecia o assassino. A dificuldade, e a Corte há
de reconhecer com a Defesa que ela é grande, reside na escolha
do meio ou do choque psicológico que levará Jacques a nos
dizer tudo o que sabe. A única afirmação que atualmente a
Defesa pode fazer é a de que pelo menos três pessoas poderiam
ter tido uma razão válida para matar John Bell... Entre elas
se encontra indubitavelmente o acusado, mas não foi ele que
matou: e isso nós o demonstraremos. Há uma segunda pessoa,
cuja atitude não está muito clara, mas que se está beneficiando
de certos álibis. Resta a terceira, o autor do crime ... Infelizmente,
a Defesa ainda não conhece este terceiro personagem,
caso contrário o processo já estaria encerrado! E, respondendo
à observação do Sr. Promotor, que parecia contestar a oportunidade
das declarações do Sr. Dominique Tirmont sobre o
senso de cores do acusado, pedimos aos Srs. Jurados que não
deixem de considerar que, para um indivíduo, as únicas cores
que importam são aquelas de que ele gosta, mesmo que ele só
possa imaginá-las, como é o caso de Jacques Vauthier. Quem nos
prova que as conjeturas de um cego neste assunto não superem
a beleza e a riqueza do arco-íris?
- Sr. Tirmont - perguntou o presidente para acabar de
uma vez com a discussão entre a Defesa e o Ministério Público
- em sua opinião, acha que Jacques Vauthier é eapaz de cometer
o crime do qual é acusado?
- Jacques? - exclamou Irmão Dominique. - Mas se
ele foi o aluno mais meigo que já passou pela nossa instituição!
Tinha um horror instintivo pelo mal e pela crueldade. Nosso
velho jardineiro Valentin me dizia dele: "Jacques Vauthier, um
assassino? Mas se ele amava tanta as flores!"
- Também Landru - observou o promotor - adorava
suas roseiras que ele tratava com amor entre um crime e outro!
- Esse Valentin de quem fala - prosseguiu o presidente
- não guardava seus apetrechos de jardinagem num barracão
de madeira nos fundos do parque?
Irmão Dominique espantou-se ao ouvir a pergunta.
- Realmente... O Sr. Presidente já nos teria visitado em
Sanac?
- Não - respondeu Legris. - Mas ainda hei de ir...
Esse barracão ainda existe?
- Sim, o que foi reconstruído após o incêndio.
- Que incêndio?
- Oh, um pequeno acidente, felizmente sem maiores conseqüências ... Ah, que
coincidência! Acabo de me lembrar que Solange Duval, que cinco anos mais tarde
se tornou a Sra. Jacques Vauthier, esteve envolvida nele ...
- Seria capaz de nos relatar o incidente? - perguntou
Legris.
- Se não me falha a memória, numa tarde de primavera,
o Sr. Garrick e eu passeávamos pelo parque quando percebemos
que o barracão estava em chamas. Corremos para lá e,
para nosso espanto, vimos diante do barracão que se consumia
pelo fogo, Solange Duval e um aluno, Jean Dony, com os rostos
e roupas pretos de fumaça. Quanto a Valentin, não estava lá.
- Enquanto corriam para o barracão, lembra-se de ter
visto Jacques Vauthier correndo na direção do edificio central
da instituição?
- Não, Sr. Presidente... mas sua pergunta me faz lembrar
uma curiosa confidência que Jean Dony veio fazer-me no
dia seguinte na minha cela. Ao entrar, encontrou-me separando
a correspondência do dia: "Ouviu a resposta que Solange deu
ao Irmão Garrick quando este lhe perguntou o que havia acontecido?",
perguntou. "Ouvi, e daí?" ... "Daí que Solange mentiu
ao declarar que o incêndio fora causado por ela acidentalmente.
Não foi ela quem derrubou o lampião: foi Jacques que o atirou de
propósito ao chão para atear fogo no barracão, tendo fugido
após trancar-nos, a Solange e a mim, para que morrêssemos
queimados..." "O que é que está dizendo?", respondi a Jean
Dony... "Sua acusação é muito séria e você sabe muito bem
que não tem o direito de caluniar um colega! Além disso, Jacques
não estava lá." "Estava sim, Irmão Dominique, mas teve
tempo de fugir enquanto eu fazia esforços desesperados para
abrir a porta do lado de dentro. Se ela não tivesse cedido no
último instante, o senhor teria encontrado dois cadáveres, o
de Solange e o meu, completamente carbonizados. Jacques tentou
liquidar-nos!" "Ora, Jean, está ficando doido? Por que acha
que ele iria cometer esse ato insensato?" ... "Porque tem ciúme
de mim", respondeu Jean Dony. "Ele acha que Solange gosta
de mim e não dele!"
- Durante vários dias - prosseguiu Irmão Dominique
- não conseguia pensar em outra coisa: devia acreditar nas
palavras de Jean Dony, que sempre fora um aluno exemplar
e que nos deixaria algumas semanas mais tarde? Ou seria melhor
comunicar ao diretor nossa estranha conversa? Receava que
o Sr. Rodelec, que conhecia minha natureza tagarela, me respondesse:
"Você está metendo sua língua comprida .de irmão
porteiro em assuntos que não lhe dizem respeito!" E o Sr. Rodelec
não deixaria de ter a sua razão! Uma terceira solução
era a de iniciar discretamente uma investigação pessoal para
saber de que lado estava a verdade ... Aproveitei uma visita
de Jacques a minha cela para lhe dizer: "Você deve ter ficado
chocado ao saber que Solange. e seu grande amigo Jean por
pouco não morreram queimados no barracão de Valentin!"
Jacques respondeu simplesmente: ."Não compreendo como isso
aconteceu ... de qualquer forma o que sei é que Jean não é
mais meu grande amigo..." E nada mais consegui arrancar dele.
Tentei conversar novamente com Jean Dony, mas ele, talvez
envergonhado das palavras impensadas que me havia dito a
respeito de Jacques, fazia tudo para me evitar. Resolvi esquecer
completamente o incidente, no que fiz muito bem, pois tive a
alegria de ver Jean Dony vir exclusivamente de Albi para tocar
no casamento de Solange e Jacques! Concluí então que não
havia mais entre eles qualquer sombra de rancor.
- O que pensa de Solange Duval? - perguntou o presidente.
- Tudo de bom que dela deve pensar também o nosso
diretor.
- Por ocasião de seu çasamento, o senhor teve a impressão
de que o jovem casal estava feliz?
- Se estavam felizes, Sr. Presidente? Garanto-lhe que a
felicidade iluminava seus semblantes quando saíram da capela
unidos para sempre! ... Todo mundo estava feliz naquele dia!
Que cerimônia linda! Já assisti e ainda espero assistir á muitas festas em
Sanac, mas creio que nenhuma se igualará em alegria à do casamento de Solange e
Jacques, o primeiro a ser celebrado em nossa capela do Instituto São José! Todos
nos sentíamos um pouco como os artesãos dessa felicidade...
- Depois disso, tornou a rever o casal?
- Somente uma vez, na volta da viagem de núpcias e
antes de sua partida para os Estados Unidos.
- Nesse dia, pareceram-lhe tão felizes como no dia do
casamento?
- Sim e agradeci ao Todo-Poderoso que havia permitido aquela felicidade... É o
que me faz acreditar que Deus não pode ter abandonado Jacques depois de tê-lo
ajudado a se tornar um homem realizado! Confio não na sua clemência pois
recuso-me a ver nesse menino um culpado, mas no modo em que o fará superar
vitoriosamente essa prova...
- A Corte lhe agradece. Pode retirar-se ... Que entre
a testemunha seguinte.
O aparecimento de uma mulher jovem e loura, de olhos
azul-turquesa, cuja figura esbelta e frágil contrastava de maneira
gritante com o tipo atlético de Vauthier, causou sensação. Os
olhos da assistência passavam alternadamente da delicada criatura
de rosto lindo e levemente ruborizado, que parecia intimidado
naquele recinto, ao colosso cuja fisionomia rude permanecia
impassível. Solange se havia dirigido para a barra sem voltar a
cabeça para o lugar onde se encontrava o acusado e se empertigou,
diante do presidente, como se temesse olhar aquele
em favor do qual iria depor.
"Até que enfim aí está ela!" pensou Danielle Gény. Tal
como eu a imaginava!" As testemunhas mais favoráveis não
haviam exagerado em nada sua beleza: Solange era linda. A
futura advogada sentiu-se levemente enciumada. Era idiota,
mas não podia evitar. Não chegou mesmo a imaginar que Jacques
- ela agora já chamava pelo nome o bruto de algumas
horas atrás - estava a examinar as duas, Solange e ela, a fim
de compará-las? Sua tripla deficiência contava agotra muito
pouco a seus olhos. No rosto cândido de Solange, ela procurava
as marcas do egoísmo: "Ah, ela nunca mais se preocupou com o
marido doente durante o tempo todo em que ele esteve na
prisão." Isso, Danielle soubera da própria boca de Victor Deliot
e marcara ponto negativo a respeito de Solange.
- Sra. Vauthier - disse com voz atenciosa o Presidente
Legris - a Corte já sabe que a senhora e Jacques Vauthier
se conheceram muito tempo antes de seu casamento, quando
ambos eram ainda apenas crianças.
Com firmeza, sem precipitação, Solange Vauthier descreveu
suas impressões dos primeiros tempos, a pena que sentia
do menino, sua indignação contra os pais. Evocou seu sofrimento
com a partida de Jacques para Sanac, sua esperança
de reencontrá-lo, sua educação junto às Irmãs da Sabedoria.
- Durante os sete anos de separação que precederam
sua chegada ao Instituto São José, a senhora manteve correspondência
com Jacques Vauthier?
- Eu lhe escrevia todas as semanas: durante os dois
primeiros anos, era o Sr. Rodelec quem respondia às minhas
cartas. A seguir, o próprio Jacques me escrevia em Braille que
eu já compreendia perfeitamente. Para lhe responder eu utilizava
o mesmo processo.
- Lembra-se de um amigo de Jacques Vauthier, um
pouco mais velho que ele, também aluno em Sanac e que se
chamava Jean Dony?
- Sim - respondeu simplesmente Solange.
- É necessário, senhora, que esclareça à Corte um ponto
importante. Jean Dony afirmou de viva voz, neste Tribunal,
que a senhora lhe teria feito certas confidências.
- Que confidências? - perguntou Solange com vivacidade.
- Sr. Escrevente - pediu o presidente - queira ler
para a Sra. Vauthier as declarações da testemunha Jean Dony.
O escrevente leu o depoimento que a jovem mulher ouviu
em silêncio. Ao terminar, o presidente perguntou:
- Sra. Vauthier, está de acordo com os termos desse depoimento?
- Jean Dony - respondeu ela sem hesitar - permitiu-se
tirar desse lamentável incidente, felizmente sem piores conseqüências,
conclusões mentirosas, atribuindo-se o papel de herói
que esteve bem longe de representar! Imagine! ... Jacques ter me atraído ao
barracão do jardineiro para tentar abusar de mim! É ridículo! Jacques me
respeitava demais para fazer uma coisa dessas! O mesmo, no entanto, eu não
poderia dizer de Jean Dony, que tinha a mesma idade que eu e cujas maneiras
sempre me desagradaram. Foi ele, naquele dia, o vilão da história e o verdadeiro
responsável por tudo o que aconteceu ...
- O que quer dizer com isso, Sra. Vauthier?
- Creio, Sr. Presidente, que a Corte compreenden perfeitamente
o que eu quis dizer e que não há necessidade de voltar-mos
a um acontecimento passado sem grande interesse para o
caso... E faço questão de declarar que jamais fiz confidências
de espécie alguma a Jean Dony!
- A Corte anotou sua declaração e gostaria de saber -
perguntou o presidente - se a senhora colaborou com Jacques
de maneira efetiva na redação de seu romance.
- Absolutamente não. Jacques escreveu O Isolado sozinho.
O que fiz foi apenas reunir os dados e documentos de que
ele necessitava. Quanto ao Sr. Rodelec, encarregou-se simplesmente
de traduzir a obra para a escrita comum.
- A senhora não teria sido a inspiradora da obra, Sra.
Vauthier, notadamente nos trechos onde é posta em questão a
família do herói? - insinuou o Promotor Berthier.
- O que o senhor acaba de dizer é completamente deselegante,
além de ser uma inverdade! Se compreendi bem suas
palavras, o senhor procura responsabilizar-me pelo julgamento
terrivelmente amargo que Jacques faz dos seus! Pois bem ,
saiba de uma vez por todas que jamais o influenciei nesse sentido,
nem antes, nem depois de nosso casamento.
- Ao que parece - disse o presidente, dirigindo-se a
Solange Vauthier - Jacques deu provas de grande timidez
quando se tratou de pedi-la em casamento?
- Quantos homens, Sr. Presidente, já não sentiram o
mesmo antes de tomarem uma decisão que seria para toda a
vida?
- Exato, senhora, mas a Corte gostaria de ouvir de seus
próprios lábios a maneira precisa como o diretor do Instituto
de Sanac substituiu um Jacques Vauthier tímido demais para
pedir que se casasse com ele.
- Julga a Corte que uma pergunta dessa natureza, cuja
resposta pode ser constrangedora para a testemunha, é absolutamente
indispensável ao desenrolar do processo? - perguntou
Victor Deliot.
- A Corte - respondeu o presidente - precisa ser esclarecida
sobre a natureza do relacionamento existente entre
o acusado e sua mulher desde que se pensou em casamento
entre os dois.
- Nesse caso, responda, Sra. Vauthier! - disse Victor
Deliot dirigindo-se à bela mulher cujo rosto se ruborizou levemente
ao começar:
- Quando vim reunir-me a Jacques, em Sanac, encontrei-me
diante de um rapaz brusco e sensível, cujos sentimentos a
meu respeito não tardaram a se manifestar. Senti-me ao mesmo
tempo feliz e preocupada. Eu gostava dele, mas não era amor:
havia ainda muito de piedade em minha ternura. E a gente não
ama aqueles por quem sente piedade. Tem-se pena ... Cinco
anos felizes se passaram, ocupados por um trabalho intensivo
e, depois, pela preparação de O Isolado. Finalmente, o romance
foi publicado e Jacques se tornou célebre. Foi logo depois disso
que, uma noite, o Sr. Rodelec bateu à porta do quarto que
eu ocupava na instituição. Aquele homem de uma bondade
ilimitada me disse: "Não repare, minha pequena Solange, eu
aparecer a estas horas, mas tenho um assunto mnito sério a
tratar com você... Já deve ter percebido há muito tempo
que Jacques a ama. Apenas é um tímido e não tem coragem
de lhe confessar seus sentimentos. É portanto um pai adotivo
que vem, em nome de seu filho, pedir a mão de uma jovem
encantadora ... Mas não pense absolutamente que quero influenciá-la!
Reflita bem! Jacques e você têm muito tempo pela
frente ... "
- Como eu custasse a responder - prosseguiu Solange -
o Sr. Rodelec encarou-me longamente. "Não posso acreditar",
disse ele, "que não dedique a Jacques um amor verdadeiro. Durante
anos, tudo em sua atitude prova o contrário: seu carinho
de menina, as cartas que lhe escrevia semanalmente, a alegria
que sentiu ao tornar a encontrá-lo aqui ... a sua persistência
em ajudar-me a fazer dele. um homem... tudo isso fala em
favor de uma união durável. Jacques está iniciando, sem dúvida,
uma carreira de pensador e escritor. Já é solicitado nos Estados
Unidos... Quem poderia acompanhá-lo melhor que sua mulher?
E quem, melhor que você., para cercá-lo dos cuidados
constantes, da solicitude e do amor que ele necessita? Pense
em tudo isso, Solange. Você, mesma, se sente capaz de viver
sem ele? Esta é a única pergunta que deve fazer ao seu coração...
Boa noite, minha filha." Durante horas, pensei e repensei
em tudo o que o Sr. Rodelec me dissera. Meu coração respondia
facilmente a cada uma das perguntas, mas estremecia
diante da última: "Você, mesma, se sente capaz de viver sem
ele?" Compreendi então que amava Jacques acima de tudo,
com o amor que superava minha ternura e cuja força fizera desaparecer
o sentimento de piedade que durante muito tempo me
havia inspirado aquele que eu considerava como "meu protegido".
Três dias depois, dei minha resposta ao Sr. Rodelec:
eu seria a mulher de Jacques ... "
- Sem dúvida, uma bela história de amor, senhora -
reconheceu o presidente. - E não teve nenhum sentimento de
receio ao sentir-se ligada a Jacques Vauthier por toda a vida?
- Sentia-me feliz, Sr. Presidente - respondeu ela após
breve hesitação.
- E continuou assim por muito tempo? - perguntou
bruscamente o Promotor Berthier.
Ela rompeu em soluços.
- Acalme-se, senhora - disse o presidente com voz
suave enquanto Victor Deliot levantava-se gritando:
- Protesto! O Sr. Promotor acaba de fazer à testemunha
uma pergunta impertinente!
- O Ministério Público - retorquiu Berthier - acha
que a pergunta tem sua importância.
Solange ergueu o rosto banhado de lágrimas.
- Eu sei que Jacques é inocente, mas, mesmo que tivesse
cometido o crime do qual é acusado, ainda assim eu seria feliz
se tivesse a certeza de que continua a me amar... Não sei
mais o que pensar depois desse drama horrível. Nada me quis
dizer a bordo do De Grasse além da sua declaração mentirosa
em que se acusa de um crime que não pode ter cometido. Nem
ao menos me quis ver durante esses meses de prisão, apesar de
minhas tentativas junto a seus sucessivos defensores. Chegou
mesmo a dizer a um deles, o advogado De Silves, que eu nada
mais representava para ele ... Ele me odeia, e eu não sei por
quê! Pior ainda, não confia mais em mim e, quando se perde a
fé numa pessoa, é porque o amor não existe mais ... Após
esse crime, perdi o amor cego e maravilhoso que Jacques me
dedicou desde a infância... Eis a razão porque já não posso
mais ser feliz!
- Compreendo seu desespero, senhora - disse o presidente.
- Contudo, preciso pedir-lhe que nos dê ainda alguns
detalhes necessários sobre o que foi sua vida conjugal.
Durante o seu depoimento, o Sr. Rodelec deixou perceber que, na volta da sua
viagem de núpcias, a senhora lhe teria confiado certas dificuldades de ordem
íntima que impediam sua completa felicidade ...
- Realmente, foi verdade, mas o tempo se encarregou de aparar as arestas, como
bem havia previsto o Sr. Rodelec, e Jacques tornou-se para mim o companheiro
ideal...
- E essa felicidade durou durante toda sua estada na
América?
- Sim. Percorremos vários Estados e sempre fomos recebidos
por auditórios estusiastas.
- Sra. Vauthier - perguntou o Presidente Legris -
durante os seus cinco anos de peregrinação pelos Estados Unidos,
a senhora não se lembra de ter encontrado alguma vez a
vítima, o Sr. John Bell?
- Não, Sr. Presidente.
- E durante os três primeiros dias da travessia, seu marido
ou a senhora conversaram com John Bell?
- Não. Pessoalmente, ignorava sua existência e posso
afirmar o mesmo a respeito de Jacques que só saía da cabina
acompanhado por mim para um passeio de uma hora pelo
tombadilho. O resto do tempo permanecíamos na cabina, onde
fazíamos todas as refeições.
- Como explica então que seu marido se tenha atirado
com tanta fúria sobre um ilustre desconhecido?
- Não tenho nada a explicar, Sr. Presidente, pela única
razão de que não acredito que tenha sido Jacques o autor da
morte do americano.
- Se tem tanta certeza, senhora, é porque suspeita de
alguém, verdade?
- Sim, suspeito de todo mundo ... todo mundo menos
Jacques, porque eu, sua companheira de tantos anos, o sei incapaz
de fazer mal a quem quer que seja.
- E agora, Sra. Vauthier - perguntou o promotor -,
como explica que seu marido, que segundo suas próprias palavras
só saía da cabina uma vez por dia em sua companhia, tenha
escapado à sua atenta vigilância a ponto de a senhora mesma
ter ido dar parte de seu desaparecimento ao comissário de bordo,
e isso precisamente no momento do crime?
- Jacques adormecera, como era seu hábito, após o almoço,
e eu aproveitara para ir tomar um pouco de ar. Ao voltar, 20
minutos mais tarde, fiquei espantada de não encontrá-lo estendido
em seu leito. Pensei que deveria ter acordado e saído à
minha procura pelo navio. Aquilo me preocupou seriamente,
pois sabia que ele não conhecia suficientemente os inumeráveis
corredores e escadas do transatlântico. Fui imediatamente
à sua procura.. Após cerca de meia hora de buscas, retornei
à nossa cabina na esperança de encontrar Jacques de volta.
Mas ele não estava lá. Apavorada com a idéia de que ele fosse vítima de um
acidente, corri ao escritório do comissário ao qual confiei meus temores. O
resto o senhor já sabe...
- A testemunha - perguntou Victor Deliot - poderia
fornecer à Corte um detalhe preciso que não lhe foi dado pela
investigação judicial? Sra. Vauthier, a senhora acaba de nos
dizer que, deixando seu marido adormecido na cabina, sua ausência
durou 20 minutos? Está absolutamente certa dessa duração? - Talvez eu tenha
ficado no tombadilho 25 minutos, mas
tenho certeza de que a minha ausência não excedeu meia hora.
- Perfeito - disse Victor Deliot. - Digamos meia
hora... A seguir a senhora voltou e tornou a sair à procura
de seu marido durante mais meia hora... O que soma uma
boa hora... Voltou novamente para a cabina e, vendo que seu
marido ainda não se encontrava lá, dirigiu-se ao escritório do
comissário Bertin a quem explicou as razões de seu pânico:
admitamos que tudo isso lhe tenha tomado 10 minutos. Foi
só então que se iniciaram as buscas oficiais do comissário e da
tripulação do De Gras,se, ou seja, uma hora e 10 minutos após
a senhora ter visto seu marido pela última vez, adormecido em
seu beliche. Quanto tempo duraram as novas buscas até o
momento em que seu marido foi encontrado sentado sobre o
leito da cabina do crime?
- Talvez três quartos de hora - respondeu a jovem
mulher.
- Onde estava a senhora, Sra. Vauthier - prosseguiu
Victor Deliot - durante os 45 minutos em que se realizaram
as novas buscas?
- Esperei no escritório do comissário Bertin: foi ele
mesmo que me aconselhou que o fizesse, pois qualquer novidade
seria comunicada imediatamente para lá... Foi horrível aquela
espera que parecia não mais ter fim... Fiz todas as suposições,
menos uma: a que fazia do meu querido Jacques não a vítima
de um acidente mas um criminoso! ... Finalmente surgiu a
figura do comissário Bertin acompanhado do comandante do
navio: contaram-me as circunstâncias estranhas em que meu
marido acabava de ser encontrado, e, quando o Comandante
Chardot declarou que segundo tudo indicava Jacques devia ser
o assassino do americano, perdi os sentidos ... Quando voltei
a mim, aqueles senhores pediram-me que os acompanhasse à
prisão de bordo, para onde haviam levado Jacques. Queriam
que eu lhes servisse de intérprete no primeiro interrogatório
a que iriam submetê-lo. Corri para Jacques e, tomando-lhe
imediatamente as mãos, perguntei-lhe, evidentemente utilizando
o alfabeto datilológico: Isso não é verdade, não é, Jacques
Você não pode ter feito isso!" Ele me respondeu: "Não se
preocupe! Assumo a responsabilidade de tudo... Eu amo
você"... "Mas você está louco, meu amor? Justamente porque
me ama não tem o direito de se acusar de um crime que não
cometeu!" Supliquei-lhe, ajoelhei-me a seus pés, mas ele nada
mais disse. E quando o comandante me pediu que lhe fizesse
a pergunta crucial, ele respondeu, para meu espanto: "Fui
eu quem matou esse homem. Reconheço o crime e não me
arrependo de nada!" Foram as últimas palavras que consegui
arrancar dele. No dia seguinte e nos dias que se çeguiram até
a chegada ao Havre, ele repetiu a mesma declaração que assinou
na presença de várias testemunhas, após tê-la escrito em Braille.
- A Corte há de me perdoar - declarou Victor Deliot -
por voltar à questão da duração, mas parece-me muito importante
observar aos Srs. Jurados que, totalizando o tempo escoado
entre o momento em que a Sra. Vauthier viu pela última vez seu
marido adormecido no próprio beliche e aquele em quc o camareiro
Henri Téral o encontrou na cabina de luxo de John
Bell, obteremos um mínimo de duas horas, tempo mais do que
suficiente para cometer não apenas um crime, mas vários crimes!
- O que pretende com isso, mestre Deliot? - perguntou
o presidente.
- Recordo simplesmente à Corte uma declaração precedente
na qual afirmei que a Defesa suspeitava de que pelo
menos três pessoas poderiam estar interessadas no desaparecimento
de John Bell. Entre os três criminosos hipotéticos, Jacques
Vauthier era aquele a quem o crime mais repugnava. Se
o tivesse cometido, teria sido, por mais incrível que possa parecer,
obrigado pelas circunstâncias; mas Jacques Vauthier, e
devemos isso aos admiráveis princípios de moral e bondade que
lhe foram inculcados por Yvon Rodelec, tinha e terá sempre
uma consciência que lhe mostra o caminho certo. E é essa
consciência que atualmente o leva a acusar-se de um crime que
não cometeu. Mas existe outra razão de ordem mais terra-a-terra,
que prova a inocência do acusado: mesmo em se admitindo
que a consciência de Jacques Vauthier não o tenha metido
no caminho do bem, faltou-lhe tempo para realizar seu
gesto homicida porque foi antecedido durante as duas horas
fatídicas pelo verdadeiro criminoso.
- É mesmo? - perguntou o promotor zombeteiro - E
quem é então o criminoso?
- Nós o conheceremos no devido tempo.
- Enquanto esperamos - cortou o Presidente Legris -
a Corte gostaria de ouvir da própria Sra. Vauthier a narrativa
do que fez desde que seu marido foi entregue à polícia logo
após a chegada do navio ao Havre.
- Dirigi-me de trem para Paris em companhia de minha
mãe. Apesar da sua insistência para que eu ficasse com ela,
recusei-me e nos despedimos na própria estação de Saint-Lazare.
- Tivemos a impressão, Sra. Vauthier, de que a senhora
se escondeu durante o tempo de instrução do processo. O que
tem a dizer?
- Absolutamente, Sr. Presidente... Compareci às três
convocações do Sr. Juiz de Instrução Belin que estava encarregado
do interrogatório. Foi somente quando ele me liberou
que preferi furtar-me à curiosidade mórbida da imprensa.
- Como seu marido não quis revê-la desde sua prisão,
esta é então a primeira vez que se reencontram?
- Sim ... - respondeu com voz fraca a mulher, baixando
a cabeça.
- Senhor intérprete - perguntou o presidente - qual foi
a reação do acusado ao saber que sua própria mulher estava
na barra do tribunal?
- Não esboçou a menor reação, Sr. Presidente.
- Fez-lhe perguntas ou observações à medida que se ia
desenrolando o depoimento da Sra. Vauthier?
- Não, Sr. Presidente. Ele nada disse.
- Sem dúvida é uma atitude desconcertante! - declarou
o presidente.
- Não para mim, Sr. Presidente - disse Victor Deliot,
levantando-se. - Julgo ter encontrado a razão, mas, para certificar-me,
peço autorização à Corte para utilizar a testemunha
numa experiência junto ao acusado.
Após consultar seus assessores, o presidente perguntou:
- O que entende por "experiência", mestre?
- Bem, um simples contato.
- Autorização dada.
- Sra. Vauthier - pediu então Victor Deliot à jovem
mulher - quer fazer-me o extremo favor de se aproximar de
seu marido?
Solange pareceu sentir uma certa repugnância em fazer
o que o advogado lhe pedia. Quando a moça estava apenas
a poucos centímetros das mãos do acusado, Victor Deliot disse:
- Sr. Intérprete, quer ter a gentileza de tomar a mão
direita de Jacques Vauthier e encostá-la levemente na écharpe
de seda que a Sra. Vauthier traz ao pescoço?
O intérprete fez o gesto pedido. No momento em que as
mãos do rapaz tocaram a écharpe de sua mulher, Jacques deixou
escapar um grito rouco e foi sacudido por um tremor nervoso,
enquanto suas mãos corriam febris pelas do intérprete.
- Ele finalmente fala! - gritou Victor Deliot, triunfante.
- O que diz? - perguntou o presidente.
- Repete sem cessar a mesma pergunta: "De que cor é
a écharpe usada por minha mulher?" - declarou o intérprete.
- Devo responder-lhe?
- Espere! - gritou Victor Deliot. - Diga-lhe que a
écharpe é verde!
- Mas é cinzenta! - exclamou o Promotor Berthier.
- Sei muito bem! - urrou Victor Deliot. - Uma das
testemunhas, Irmão Dominique, já não nos explicou aqui que
as cores na imaginação de Jacques Vauthier não correspondiam
absolutamente à realidade e eu mesmo não afirmei que uma
das cores do prisma desempenhou um papel decisivo no assassinato
imputado injustamente a meu cliente? A mentira que
peço é absolutamente necessária! Diga-lhe, Sr. Intérprete, que
a écharpe de seda usada neste momento pela Sra. Vauthier é
verde!
O intérprete transmitiu a resposta. O acusado se havia
levantado, agitando os braços enormes diante de si. Suas mãos
conseguiram alcançar o pescoço de sua mulher para lhe arrancar
a écharpe... Apesar dos esforços dos guardas, as mãos
de assassino puxavam o tecido com força... O rosto da jovem
mulher se foi tornando violáceo e ela conseguiu murmurar,
quase sem ar:
- Jacques, você está me machucando!
Victor Deliot e o intérprete precipitaram-se em auxílio dos
dois guardas e foi precisa a força conjugada dos quatro homens
reunidos para subjugar o acusado. Este caiu sobre o banco
de réu como uma massa inerte, o rosto bestial a inexpressivo.
Victor Deliot sustentou Solange Vauthier, que aos poucos recobrou
a consciência:
- Não foi nada, senhora... Desculpe-me, mas esta experiência era necessária ...
Quando o doente se atirou sobre a mulher, toda a assistência
se levantou numa confusão imensa de gritos. A seguir, a
calma voltou a reinar bruscamente. Aquela pequena multidão
procurava compreender. Danielle mordera os lábios para não
gritar. Agora que a crise passara, a moça se perguntava novamente
com angústia se aquele Vauthier não seria em certos momentos
um verdadeiro bruto? Victor Deliot não lhe havia contado
que o prisioneiro tentara estrangulá-lo em sua cela, durante
a primeira visita que lhe fizera na prisão da Santé? E
aquela tentativa no barracão em chamas quando ainda se encontrava
em Sanac? E todas as declarações dos membros de
sua família, afirmando que ele se atirava ao chão, espumando
de raiva, quando não passava ainda de uma criança? Tudo
aquilo era perturbador. Apesar de tudo, Danielle queria acreditar
que se enganava e que, naquele momento, todo mundo
na sala se enganava sobre o verdadeiro caráter de Jacques.
Acabou por encontrar uma desculpa para seu gesto violento:
se a idéia de estrangular sua mulher com uma echarpe de seda
brotara no cérebro do infeliz rapaz, algum motivo imperioso
devia existir... Essa echarpe que ele erroneamente julgava de
outra cor devia ter representado um papel grave em sua vida.
Era algo que lhe fizera muito mal... Quanto a Victor Deliot,
teria já penetrado seu segredo? Se não, por que teria tentado
aquela experiência?
O silêncio foi rompido pela voz sarcástica do Promotor
Berthier, que perguntava num tom irônico:
- A Defesa está satisfeita com sua "experiência"?
- Muito! - respondeu Victor Deliot que voltara a
ocupar seu lugar.
- A Corte, mestre Deliot - disse o presidente - espera
que o senhor justifique as razões desta experiência e, principalmente,
desta mentira pública dita ao acusado.
- A Corte há certamente de me desculpar - respondeu
Victor Deliot, sorrindo. - Mas peço-lhe que tenha paciência
até amanhã... Comprometo-me publicamente a lhe dar todos
os esclarecimentos durante minha exposição de defesa. E creio
que muito lucraremos também com o admirável discurso que
a Promotoria certamente fará..
- A Corte lhe agradece, Sra. Vauthier - disse o presidente.
- Pode retirar-se ... Os debates prosseguirão amanhã
à uma hora... A sessão está suspensa!
O acusado já havia sido retirado da sala pelos guardas.
Enquanto a multidão saía, Danielle Gény aproximou-se de
Victor Deliot, que tranqüilamente limpava seu lorgnon com um
lenço xadrez:
- Mestre! Foi maravilhoso!
- O que é que foi maravilhoso, minha filha?
- Ora ... o modo como conseguiu semear a dúvida no
espírito dos jurados sobre a culpabilidade do acusado!
- É verdade... Deu certo, não deu? - perguntou o
velho advogado, esboçando um vago sorriso. - E, principalmente,
isso era absolutamente necessário: a opinião pública
estava decididamente contra nós após o desfile das testemunhas
de acusação! Deu para notar as reações da assistência?
- Claro. Mas, mestre, acha que conseguirá provar tudo
o que disse?
- Ora vejam só! Será que me toma por um velho maluco?
- Oh, não, mestre! Estou certa, como o senhor, de que
Jacques não matou ... Não pode ter matado! Ê inteligente
demais para cometer um crime tão estúpido... Além do mais,
acabei por sentir que ele é essencialmente bom sob toda aquela
aparência de bruto...
Enquanto seu velho amigo olhava para ela com uma curiosidade
divertida, Danielle não ousou dizer em voz alta o que
pensava em voz baixa: "Jacques é um bruto sensacional ... É
o bruto que muitas mulheres gostariam de encontrar! Eu, por
acaso?... Não sei... Mas um homem assim, basta saber acalmá-lo
de tempos a tempos ... não deve ser difícil! Com certeza
essa tal Solange não soube lidar com ele ... A não ser
quando era mocinha e ele um menino ... Mas, depois, quando
ela se tornou mulher e ele um verdadeiro homem? Casou-se
com ele apenas por devotamento, talvez pressionada por Yvon
Rodelec e não por amor. O que faltava a esse pobre Jacques
era um desses grandes amores ... "
Subitamente, uma idéia estranha, uma idéia louca instalou-se
no cérebro excitado da jovem: o que provava, depois
de tudo, que aquela companheira medíocre não tinha sido a
criminosa? Ela bem poderia ter matado o desconhecido, arranjando
as coisas para que a culpa recaísse sobre Jacques: era
o meio mais certo de livrar-se daquele doente cuja presença
provavelmente já não suportava mais... "Não! Seria horrível
demais! O que estou imaginando é abominável, indigno de
mim e dessa mulher ... "
Envergonhada, Danielle enfiara a cabeça entre as mãos,
como se quisesse esconder-se. Seria horrível se Victor Deliot,
que continuava a observá-la com insistência, pudesse advinhar
seus pensamentos. Fez um esforço sobre-humano para dominar-se.
- Então, minha filha - interveio Victor Deliot - o que
é que tem? Parece estar saindo de um pesadelo!
- Até que acertou, mestre! Foi mesmo um pesadelo...
- Na sua idade - disse o advogado com carinho - isso
não é bom. Ah, é verdade, esta manhã recebi a resposta do telegrama
que você enviou ontem ... Chamaram-me diretamente
de Nova York, pelo telefone. É mesmo uma invenção maravilhosa
esse tal de telefone ... e prático como o quê!

4. A ACUSAÇÃO
- Membros da
Corte, Srs. Jurados, - começou o adversário de Victor Deliot. - Minha tarefa
limitar-se-á exclusivamente a defender a memória da vítima, John Bell,
selvagemente assassinado em 5 de maio último a bordo do transatlântico De
Grasse. Parece-me supérfluo recapitular as circunstâncias que conduziram a esse
horrível crime e que já foram claramente expostas à Corte. Prefiro fixar-me à
personalidade da vítima...
Podemos afirmar que esse jovem americano de 25 anos estava
predestinado a um futuro brilhante, se nos reportamos à plenitude
de seus anos de adolescência. Após estudos brilhantes
realizados na Universidade de Harvard, durante os quais se
empenhou em aprender nossa língua, que falava corretamente,
John Bell alistou-se, aos 18 anos, numa unidade de elite que
dispensa maiores elogios: o Corpo de Fuzileiros da Marinha
americana. Regressou de Bataan, após a capitulação do Japão,
com quatro citações por atos de bravura. Como tantos outros
jovens marcados pelos sofrimentos da guerra. John Bell poderia
ter-se abandonado aos prazeres fáceis, mas escolheu outro
caminho. A guerra o amadurecera e, sabendo que suas conseqüências
desastrosas haviam levado a miséria a outras partes
do mundo menos favorecidas que os Estados Unidos, resolveu
dedicar-se à tarefa ingrata da recuperação de uma Europa em
ruínas.
"Seu pai, o Senador Bell, cuja finura e distinção pudemos
apreciar num depoimento isento de paixão e sentimentos de
vingança a respeito do assassinato de seu filho único, não nos
confiou que a maior alegria de seu filho seria manter, na nova
missão que escolhera, um contato estreito e permanente com os
meios franceses em Nova York? John Bell não teve mesmo de
romper com uma linda jovem da Broadway para poder finalmente
visitar esta França que ele tanto amava, mesmo sem
jamais tê-la visto? E seu pai não lhe disse, abraçando-o pela
última vez antes da partida do De Grasse: "Quem sabe você
não traz uma francesa? Nunca se sabe ... É o que lhe desejo
de todo o coração!" Realmente, Srs. Jurados, parece-me difícil
levar mais longe o amor pela França! E no entanto, apenas três
dias mais tarde, quando esse jovem americano se encontrava
a bordo do navio francês De Grasse, portanto já em território
francês, ele foi selvagemente assassinado por um de nossos compatriotas!
"Mas, se o móvel permaneceu um enigma - e temos de fazer justiça à Defesa que
conseguiu lançar a dúvida nos espíritos sobre esse ponto - o crime é
irretorquível, duplamente assinado pelas impressões digitais espalhadas pelo
local da tragédia e as confissões reiteradas do assassino. Poderíamos também ser
levados a nos enternecer diante da lamentável deficiência que marcou
profundamente a existência do criminoso desde seu nascimento. Não seríamos
normais, não seríamos humanos, se não reconhecêssemos que a situação de um
surdo-mudo-cego de nascença é difícil e penosa, mas, por outro lado, devemos
aceitar que ela justifique um assassinato? E mesmo admitindo-se que Jacques
Vauthier fosse torturado desde a infância por um rancor doentio contra o mundo
que ouve, fala e vê, tinha ele o direito de levar esse ódio cruel até seu limite
extremo: o homicídio? Tinha o direito de vingar-se contra um desconhecido, um
estrangeiro que nunca lhe fizera mal algum e que nem sabia ao menos da sua
existência? Esse americano, de quem o pai não hesitou em dizer: "Tenho certeza
de que se meu filho tivesse conhecido o Sr. Vauthier, se teria interessado por
seu caso: Johny tinha uma alma generosa" ...
"A única desculpa aceitável - se é que se pode desculpar
um crime - do ato homicida de Jacques Vauthier teria sido
o fato de ele não estar em pleno gozo de suas faculdades
mentais. Muitos dentre vós, Srs. Jurados, deveis ter acreditado,
no início deste julgamento, encontrar-se na presença de um
louco perigoso, o que sem dúvida modificaria vosso justo veredito:
diminuída a responsabilidade do acusado, seus defensores
poderiam esperar vê-lo terminar seus dias num hospital de
doentes mentais onde cessaria de ser um perigo permanente
para a sociedade. Mas o próprio desenrolar dos debates e os
depoimentos sucessivos de testemunhas cuja competência, autoridade
e independência de espírito não podem ser postas em
dúvida, provaram que Jacques Vauthier sempre foi uma pessoa
mentalmente perfeita.
"É um bruto apenas na aparência: sabe perfeitamente a
impressão dolorosa que seu físico causa aos outros e tira partido
disso para enganar todo mundo... Não hesita em simular crises
brutais de histeria, diante do público, para reforçar a falsa opinião
que se formou sobre ele ... Seus gritos guturais e animalescos,
a baba que lhe escorre da boca, os gestos de assassino
são suas melhores armas defensivas: e delas ele usa e abusa.
Sabe muito bem que, se somos inclinados a desculpar as atitudes
e atos de uma criatura rude, incapaz de controlar-se, o mesmo
não acontece com um homem de cultura ao qual nada se perdoa.
Pois bem, nós nos encontramos diante de um intelectual, de um
homem cujas menores ações são calculadas e que só age em
plena consciência... O silêncio obstinado no qual Jacques Vauthier
se encerrou desde o instante em que admitiu seu crime
é mais uma prova disso: com esse procedimento ele espera
convencer o Júri de que, apesar das suas confissões e impressões
digitais, não é responsável. Não chegamos mesmo a ouvir, aqui
neste Tribunal, que Jacques Vauthier confessara seu crime para
esconder a identidade de um suposto assassino que ele seria o
único a conhecer?
"Infelizmente, essas afirmações, segundo as quais uma ou
mesmo duas outras pessoas poderiam ter assassinado John Bell,
não se baseiam em nada, enquanto que as impressões digitais
constituem a prova irrefutável contra a qual a Defesa nada
poderá! Graças à imaginação fecunda do advogado Deliot,
chegamos a transformar o caso, em certos, momentos, num
verdadeiro romance policial... só que as melhores histórias
desse gênero terminam sempre pela descoberta do crimínoso.
E quando este é conhecido - o que acontece no instante em que
o camareiro Henri Téral entrou pela primeira vez na cabina
da vítima- deve sofrer a punição inexorável sem a qual não
haveria mais justiça no mundo.
"Parece-me indispensável relembrar aqui algumas declarações
de certas testemunhas citadas pela acusação ... Inicialmente,
o depoimento preciso do comissário de bordo: "A única
resposta que conseguimos arrancar dele, por intermédio da Sra.
Vauthier, foi: Fui eu quem matou esse homem. Reconheço o
crime e não me arrependo de nada. Resposta que o próprio
Jacques Vauthier escreveu com uma punção e um reglete em
escrita Braille, e que foi entregue pelo Comandante Chardot ao
inspetor encarregado da investigação, assim que chegamos ao
Havre." Depoimento confirmado pelo do Comandante Chardot.
"O depoimento do Dr. Langlois, primeiro médico de bordo,
acrescentado ao do professor Delmot que presidiu a junta médica
encarregada de examinar minuciosamente o estado físico
e mental de Jacques Vauthier, confirma o seu perfeito equilíbrio
mental. O professor Delmot atestou mesmo, sob juramento, que
"a inteligência de Jacques Vauthier chega a ser superior à da
média dos indivíduos e ele conhece a fundo todos os meios
de expressão que permitem a um surdo-mudo-cego de nascença
comunicar-se com o mundo exterior."
"Não deixaremos de relembrar também essas palavras pronunciadas
pela própria irmã do acusado: "Ignoro se Jacques é
culpado ou não, mas assim que soube, pelos jornais, do crime do
De Grasse, não me surpreendi demais ... " Depoimento corroborado
pelos de outros membros de sua família: o de um
cunhado e o da própria sogra de Jacques Vauthier, a Sra. Duval.
"O Sr. Marnay não declarou também, em resposta a uma
pergunta precisa formulada pelo Presidente Legris, que o romance
de Jacques Vauthier era "a materialização escrita dos sentimentos
mais íntimos de um coração humano aliados às reflexões
maduras de um cérebro superior?"
"E que mais poderíamos acrescentar a esses testemunhos
se não as próprias declarações das principais testemunhas citadas
pela Defesa, como Yvon Rodelec e o Dr. Dervaux? O primeiro
não declarou formalmente ao final do seu depoimento
que "apesar do silêncio obstinado do acusado, tenho certeza
de que ele goza de todas as suas faculdades mentais?" E que
"Jacques é um dos cérebros mais bem organizados que já encontrei
no decurso de minha longa existência"? Quanto ao
segundo, não nos deu uma explicação plausível sobre o crime,
no ciúme violento de Jacques Vauthier a respeito de qualquer
homem normal que se aproximasse de sua mulher?
"Concluindo, Srs. Jurados, as provas, as confissões e os
testemunhos falam por si mesmos, não se contradizem e ros
apuntam o assassino de John Bell. Não pretendo ir além de
minhas atribuições de defensor da vítima pedindo à Corte que
se faça justiça. Não vos esqueçais, porém, Srs. Jurados, de que
toda a América está voltada para vós e que, contrariamente
a certas alegações da Defesa, este julgamento transpõe os muros
deste Palácio para repercutir consideravelmente além de nossas
fronteiras. Espero que vos mostreis à altura da missão que
vos confiaram: honrar a memória de uma vítima punindo o
culpado com o mais extremo rigor. Somente nessas condições
a Nação aliada, cujos filhos valorosos tombaram sobre nosso
solo pátrio durante duas guerras para libertá-lo, poderá continuar
acreditando na justiça francesa."
Voirin sentou-se, não antes de
perpassar um olhar por todo o recinto, para avaliar o efeito de suas palavras
sobre a assistência. Esta permaneceu impassível. Um segundo olhar dirigido à
Defesa permitiu-lhe ver um Victor Deliot que parecia cochilar, os olhos
semicerrados atrás dos lorgnons ...
Danielle não despregava os olhos de seu velho amigo. Tinha
certeza de que, contra tudo e contra todos, ele conseguiria salvar
seu cliente. Tinha de consegui-lo!
Após ter começado sua alocução, recapitulando nos menores
detalhes a descoberta do crime a bordo do De Grasse e
demonstrado que a culpabilidade . do acusado não podia cer
posta em dúvida, já que suas próprias confissões aliadas às
próprias impressões digitais o apontavam como o único criminoso
possível, o Promotor Berthier continuou:
"Convém ressaltar aos Srs. Jurados que existe ainda um
ponto que permanece obscuro nesse caso lamentável: o móvel
do crime. Se este crime fosse obra de um sádico ou de um
desequilibrado mental, encontraríamos sua razão no prazer mórbido
experimentado pelo criminoso no ato de matar... Mas
devemos descartar esta hipótese: o comportamento do acusado
antes e depois do crime, depoimentos tais como os do Dr. Langlois,
do professor Delmot, do Sr. Marnay e do próprio Sr.
Rodelec provaram que Jacques Vauthier além de gozar de perfeita
sanidade mental jamais agia leviamente. Por outro lado,
ouvimos também os depoimentos do Sr. Jean Dony - mostrando
a violência de que o acusado já era capaz há alguns
anos, quando incendiou o barracão do jardineiro em Sanac
- do Sr. e Sra. Daubray - confessando neste tribunal que seu
pequeno cunhado e irmão, ainda menino, já era um pequeno
bruto - que Jacques Vauthier tinha nítidas predisposições para
a violência. Não tivemos por acaso uma triste amostra da mesma,
em plena audiência, quando o advogado Vitor Deliot resolveu
fazer o que chamou de sua "experiência"?
"Violência instintiva que os princípios sadios imprimidos
por um notável educador conseguiram dominar por algum tempo.
Nada nos prova, porém, que não tenha havido a bordo do
De Grasse um brusco despertar do bruto que dormia em Jacques
Vauthier, e que nesse momento os maus instintos recalcados por
uma moral religiosa rígida se tenham libertado para se saciarem
num crime monstruoso. O que não conseguíamos, durante os
debates, era localizar a centelha que desencadeara no cérebro
do doente a idéia de assassinato até que o Dr. Dervaux, uma
das testemunhas arroladas pela Defesa, veio em nosso auxílio.
Como todos os que acompanham durante os últimos meses o
caso estranho de Jacques Vauthier, o médico que se dedica há
20 anos aos alunos do Instituto de Sanac e que durante 12
anos consecutivos estudou e acompanhou a fisiologia do acusado,
declarou neste mesmo tribunal ter procurado obstinadamente
um motivo que levasse Jacques Vauthier a cometer esse
crime. E, finalmente, encontrou uma única explicação plausível...
Permito-me repetir os próprios termos da declaração da testemunha: "Jacques
amava demais sua mulher para permitir que alguém lhe faltasse o respeito ... Não
quero aqui macular a memória de uma vítima, ainda mais que ignoro tudo a
respeito desse jovem americano. Mas, enfim, a força indiscutível dos apetites
carnais de Jacques Vauthier concentrados numa única criatura, sua mulher,
poderia ter-lhe despertado o impulso súbito de suprimir, não um rival, eu nem
pensaria nestes termos com uma companheira de uma moral a toda prova como
Solange, mas um simples desconhecido que tivesse tentado cortejá-la, embora sem
maiores conseqüências, simplesmente porque era homem e ela uma mulher bonita...
A força de Jacques Vauthier é hercúlea: poderia ter matado, mesmo sem o querer.
Essa seria a única explicação plausível de suas confissões repetidas e de seu
gesto materializado por impressões digitais irretorquíveis." "Naturalmente, o
advogado Deliot apressou-se em explicar à Corte que a testemunha se enganara! É
sempre desagradável ver o depoimento de uma testemunha, com a qual contamos,
voltar-se contra nós. Porque todos aqui hão de reconhecer que a hipótese
levantada pelo Dr. Dervaux adquire peso dobrado, vinda de uma pessoa
extremamente fiel à causa do acusado. Quanto ao que nos concerne, achamos - e
nunca será demais repetir - que a dedução feita pelo Dr. Dervaux está cheia de
bom senso: Jacques Vauthier matou sob o impulso imperioso de um ciúme mórbido
deste desconhecido que seu espírito desconfiado lhe apresentava como um possível
ladrão da afeição de sua mulher... Sabemos perfeitamente que nos oporão a
seguinte objeção: "Como explica então que Jacques Vauthier tenha escolhido John
Bell entre todos os passageiros do De Grasse, uma vez que não o conhecia?"
Responderemos que a única testemunha capaz de esclarecer a Corte sobre um
encontro anterior de Jacques Vauthier com sua vítima seria a própria esposa do
acusado. Mas seria digno de crédito o testemunho de uma esposa que compareceu a
este Tribunal com o fito desesperado de inocentar o marido? Deixo a resposta aos
Srs. Jurados ...
"Nossa convicção é a de que Jaques Vauthier conhecia
muito bem a vítima antes do crime e que se dirigiu diretamente,
sem a menor hesitação, para a cabina ocupada pelo jovem
americano para perpetrar seu crime. Jacques Vauthier fingiu
adormecer, depois do almoço, como o fazia habitualmente desde
o início da viagem. Sabia que sua esposa aproveitava esses minutos
para ir tomar um pouco de ar no tombadilho. Assim que
ela saiu, ele se levantou, percorreu o corredor da primeira classe,
subiu a escadinha que conduzia às cabinas de luxo. Chegando
diante da porta de John Bell, ele bateu ... o jovem americano
que devia estar descansando, acolheu seu visitante, de pijama;
não tinha motivo algum para desconfiar de um doente aparentemente
inofensivo e que ele já conhecia... Voltou tranqüilamente
a deitar-se após ter fechado a porta que dava para o corredor:
este ponto é importante pois me coloca em contradição
formal com o Inspetor Mervel que acha que o assassino aproveitou-se
do sono da vítima para matá-la. Hipótese, aliás, dificilmente
sustentável. No caso, como teria o criminoso entrado
na cabina?
"Continuando, que fez o doente quando John Bell se deitou
novamente? Terá tentado, na ocasião, emitir alguns sons guturais
que dão a impressão de que é capaz de expressar-se oralmente?
Talvez se tenha mesmo sentado na borda da cama e,
enquanto o jovem americano concentrava sua atenção tentando
compreendê-lo, suas mãos tatearam na mesinha de cabeceira
na esperança secreta de ali encontrar o instrumento que lhe permitiria
liquidar o possível rival. Seus dedos hábeis encontraram
o cortador de papel... Sem hesitar, com um gesto brusco
tomou a arma improvisada e abateu-a sobre a vítima... Gesto
que repetiu, friamente, com uma precisão mecânica, repugnante,
por ocasião da reconstituição do crime, após a chegada do
navio ao Havre.
"O resultado foi imediato: o cortador de papel, afiadíssimo
cujo modelo foi posto à disposição da Corte pelo Sr. Juiz de
Instrução, o advogado Belin, seccionou a carótida do infeliz
rapaz que, num último reflexo, ainda encontrou forças para
se arrastar até a porta no intuito de pedir socorro. O rastro de
sangue, do travesseiro ensangüentado até a porta, é uma prova.
Os dedos crispados de John Bell conseguiram mesmo agarrar-se à maçaneta da
porta, no momento em que perdia definitivamente as forças e a vida... E foi, com
certeza, o peso de seu corpo suspenso à maçaneta que fez com que esta se abrisse
...
Enquanto isso, o criminoso, bestificado, deixou-se cair sobre o
leito tentando enxugar no lençol as mãos sujas de sangue. Ali
ficou, prostrado, nem se lembrando de fechar a porta entreaberta
à qual estava agarrado o cadáver que ele não via... Aliás , por que tentaria
disfarçar um crime que em nenhuma ocasião procurou negar? Também não se lembrou
de abandonar a cabina e voltar para sua mulher para lhe confessar que acabava de
matar movido por um ciúme incontrolável. Seu único gesto, antes de sentar-se na
cama, foi aproximar-se da vigia aberta e atirar ao mar o cortador de papel que
lhe causava horror, segundo suas próprias declarações ao Comandante Chardot.
Esperou então que alguém entrasse na cabina para descobrir o crime do qual ele
não sentia remorsos. Quanto tempo durou aquela espera alucinante, aquele
tête-a-tête macabro do assassino e do assassinado ajoelhado contra a porta?
Cerca de meia hora, uma hora no máximo, até que o camareiro Henri Téral fez a
horrível descoberta ...
"Crime bestial e inconcebível cujo móvel foi um ciúme
estúpido e injustificado. Sim, porque nem de leve podemos acreditar
que a vítima tenha tentado conquistar a Sra. Vauthier -
seria insultar a memória de um morto - nem que Solange
Vauthier, cuja conduta com relação ao marido foi sempre exemplar,
pudesse lhe ser infiel... Não! Foi o ciúme doentio que determinou o ato violento
e fatal. Drama passional dirão alguns ...
Loucura, dirão outros ... Crime premeditado, afirma o Ministério
Público. E se nos perguntardes: "Como esse sentimento
de ciúme contra John Bell, pôde nascer e tomar forma no cérebro
de um surdo-mudo-cego de nascença?", responderemos
simplesmente: "Graças ao olfato."
"É mister não esquecermos as palavras pronunciadas
ontem neste Tribunal por um cego, o Sr. Jean Dony: "Nós, que
não enxergamos, felizmente possuímos antenas que nos permitem
adivinhar os seres que nos cercam e atingir também, sem
que eles o suspeitem, os segredos mais íntimos de seus corações..." Para Jacques
Vauthier, que além de não enxergar, não falava nem ouvia, um dos sentidos se
desenvolveu fabulosamente a ponto de substituir os outros: o olfato. Um olfato
apurado e perigoso que julgou descobrir a presença de um rival na vida de sua
mulher ...
"Bastou a Jacques Vauthier, após ter conhecido John Bell
num encontro fortuito, reconhecer seu cheiro - cada indivícuo
não possui um cheiro diferente e característico para um surdo-mudo-cego,
como foi explicado claramente por Yvon Rodelec?
- nas proximidades ou talvez na roupa de sua mulher, para
que o ciúme brotasse instantaneamente. E isso, sem que John
Bell ou Solange Vauthier tivessem a menor culpa. Nós mesmos,
que enxergamos, não desconfiamos de duas pessoas que conversam
afastadas de nós e que não podemos ouvir? Na maioria
das vezes sem razão, julgamos que falam de nós e isso nos
aborrece.
"Jamais poderemos avaliar a prodigiosa e, ao mesmo
tempo, nefasta elocubração mental que se processou na imaginação
exaltada de Jacques Vauthier após semelhante comparação
de odores. O que é certo é que deu tempo ao tempo para
amadurecer sua vingança. Aliás, não foi essa a primeira vez
que ele recorreu a extremos para dar vazão a seus ciúmes. Os
Srs. Jurados devem recordar-se do incêndio no barracão do
jardineiro em Sanac! O melhor amigo do acusado - segundo
afirmação do próprio Yvon Rodelec - o cego Jean Dony,
não reconheceu neste tribunal que "10 anos antes de cometer
seu assassinato no De Grasse, Jacques Vauthier já havia tentado
matar duas pessoas"? E entre elas não se encontrava a
que se tornaria sua companheira de vida? E o motivo daquele
gesto violento, felizmente sem graves conseqüências, já fora
o ciúme ... Um ciúme feroz e injustificado, diga-se de passagem,
de seu melhor amigo. O irmão porteiro do Instituto de
Sanac, Dominique Tirmont, não nos relatou a conversa que
teve com Jean Dony no dia seguinte ao incêndio? A sua pergunta,
"Por que acha que Jacques iria cometer esse ato insensato?"
o jovem cego respondeu sem hesitação: "Porque tem
ciúme de mim. Acha que Solange gosta de mim e não dele!"
"Esse ciúme profundo transpira também nas entrelinhas
de seu livro O Isolado, nas páginas dedicadas à família do herói
descrito sem contemplação. Também ali Jacques Vauthier expressou
seu ódio pelos que o cercavam e aos quais ele devia
tudo, não se dando nem mesmo ao trabalho de disfarçar seus
parentes sob a camuflagem de personagens fictícios! Ao contrário
do que se pode acreditar, a tripla deficiência de Jacques
Vauthier não o afetou moralmente! Sua inteligência desenvolveu-se
de uma forma prodigiosa!
"Portanto, Srs. Jurados, não nos encontramos diante de
uma criatura fraca, que suporta penosamente o peso de suas
misérias físicas, mas diante de um homem forte que lutou encarnecidamente
para atingir e até mesmo ultrapassar o nível intelectual
de seus semelhantes. Um homem dissimulado, taciturno,
que sabe usar sua força fora do comum a serviço de um cérebro
maquiavélico para dar aos outros a impressão de não passar
de um bruto e de agir como tal quando seus instintos mórbidos
assim o exigem.
"Descobrindo a piedade que sua tripla deficiência provoca nas pessoas normais,
sabe que pode fazer tudo - inclusive o mal - sem ser muito castigado. Afinal,
quem não desculparia os atos de um homem afligido por tais misérias desde seu
nascimento? Só mesmo quem tivesse um coração de pedra! Eis o que até agora
ninguém ousou dizer em voz alta neste tribunal , mas que certamente todos
pensaram...
"É claro que lamentamos sinceramente a anormalidade de
Vauthier, mas sentimos, por outro lado, que ele detesta ser
lamentado, porque não precisa disso: sente-se forte para enfrentar
o mundo ... Até mesmo seu defensor que se obstina -
inutilmente, segundo nosso ponto de vista - em salvá-lo, livrando-o
do justo castigo. Afinal não foi a própria defesa que
deixou subentendida a existência de pelo menos duas outras
pessoas interessadas no desaparecimento do jovem americano?
Afirmação puramente gratuita, como acaba de dizer com muita
propriedade o assistente da Promotoria, uma vez que as confissões
do acusado estão assinadas e suas impressões digitais devidamente
guardadas para sempre nos arquivos da polícia criminal:
são provas irrefutáveis!
"A Defesa, após algumas declarações sensacionalistas, teve
de reconhecer que o acusado era, incontestavelmente, um dos
três personagens misteriosos que poderiam ter assassinado John
Bell. Jacques Vauthier apenas seria excluído por duas razões:
sua consciência não lhe teria permitido e, principalmente, porque
não teria tido tempo, sendo precedido de alguns minutos
pelo verdadeiro criminoso! Afirmação gravíssima que reconhece
em Jacques Vauthier a intenção de matar! E como se
evidenciou, desde os primeiros minutos de investigação a bordo
do De Grasse, que não houve outro culpado a não ser Jacques
Vauthier, ficamos sabendo, pela própria boca de seu defensor
que esse crime foi premeditado.
"Minhas conclusões são simples: baseando-me no Artigo
302 do Código Penal que prevê a pena de morte para todo crime
qualificado e premeditado, peço ao Júri que pronuncie a sentença
que a sociedade tem o direito de esperar dele. Confio na
justiça de seu veredicto, acentuando mais uma vez que Jacques
Vauthier nem pode mesmo beneficiar-se de circunstâncias atenuantes
por causa de sua grave deficiência que não o afetou
mentalmente, como foi fartamente demonstrado pelos mais
eminentes especialistas. E como a denominação de "bruto" foi
freqüentemente empregada no decurso deste julgamento para
se designar o acusado, não fugiremos à regra geral, mas usaremos
a palavra exata: Vauthier não passa de um bruto hipócrita,
cuja inteligência organizadíssima premeditou, no que muitos chamariam
de "sua noite eterna", um crime que não hesita em glorificar
e do qual não se arrepende!"
A acusação precisa, feita propositalmente num tom seco
pelo Promotor Berthier, teve o efeito de uma ducha gelada sobre
a assistência.
Danielle, inquieta, observou que a palidez de Vauthier se
acentuara quando o intérprete lhe traduzira a palavra morte.
Os olhos perscrutadores da moça só abandonaram o rosto
lívido do acusado para procurar o olhar calmo de Victor Deliot.
Este se levantou modesto, após ter ajustado pela centésima
vez seus lorgnons oscilantes sobre o nariz grande e avermelhado.

5. A DEFESA
- Membros da Corte, Srs. Jurados. Quero, inicialmente,
solicitar a vossa indulgência para minha oração que, ao contrário
da proferida por meu nobre colega Voirin e do admirável
discurso de acusação do digno representante do Ministério
Público, advogado Berthier, talvez seja um pouco longa.
A minha intenção não é cansá-los com enormes períodos oratórios onde a retórica
permite muitas vezes a hábeis defensores a escamoteação da verdade com palavras
sonoras e bem colocadas, mas sem essência...
"Longe de mim todo esse palavrório que inunda quase
sempre pretorias ou tribunais. Longe de mim quaisquer artifícios
de oratória supérfluos quando tenho diante de mim a realidade
brutal de uma tarefa gigantesca: salvar Jacques Vauthier
do castigo que os honoráveis componentes do Júri serão obrigados
a lhe dar em consciência, se eu não conseguir demonstrar
que nos encontramos diante de um lamentável erro judiciário.
"Realmente, desde o início deste julgamento, tudo parece
ter contribuído para ressaltar e mesmo agravar a culpabilidade
de Vauthier... Acusado estranho cuja personalidade silenciosa
jamais deixou de pesar nesses debates e que numerosas
testemunhas nos descreveram com maior ou menor felicidade.
Digo intencionalmente "com maior ou menor" ... Sim, porque,
se agora conhecemos melhor o Jacques Vauthier menino ou
adolescente, pouco sabemos, no entanto, do homem. E isso não
é uma grave lacuna? Antes de julgar um homem por um ato
tão grave como o que é imputado a Vauthier, parece-me indispensável
que os responsáveis pela sentença não tenham a
menor dúvida sobre a pessoa que vão condenar ou absolver.
"Eis, diante de vós, Jacques Vauthier, surdo-mudo-cego
de nascença, 27 anos de idade, acusado de haver assassinado
em 5 de maio último, John Bell a bordo do navio De Grasse.
"Quem é este homem? Ninguém melhor do que ele mesmo
descreveu seu estado mental na análise penetrante que fez de
seu herói logo no início de seu romance O Isolado. Herói que
se assemelha a ele como um irmão gêmeo... Os que lêem
O Isolado descobrem Jacques Vauthier. Mas, eu pergunto,
quantos neste recinto - e especialmente quantos dentre os
Srs. Jurados - percorreram ao menos algumas páginas desse
livro extraordinário? E, se algum de vós teve essa curiosidade,
não acha que a chave do mistério no qual se encerra o acusado
se encontra no romance?
"Convém jamais nos esquecermos desta terrível realidade:
aos 10 anos de idade, Jacques Vauthier já cumprira 10 anos de
prisão. Era prisioneiro da noite que o envolvia desde seu nascimento.
Não passava realmente de um bruto, mas um bruto
vegetativo à espera instintiva de um acontecimento que transformaria
sua vida animal. Pode-se dizer que confusamente, evidentemente
sem capacidade para analisar esse sentimento, o
pequeno Vauthier esperava... E talvez ainda vegetasse incompreendido
até hoje se uma menina humilde, apenas três anos
mais velha que ele, não tivesse vindo bater teimosamente à porta
de sua prisão. Solange foi a primeira a iluminar suas trevas, a
abrir para o doente uma janela para a vida.
"Duas crianças sentadas diante de uma janela aberta! Esta foi, Srs. Jurados, a
visão que teve Yvon Rodelec quando penetrou pela primeira vez naquela triste
morada. Pronto! Aí estão os três personagens essenciais do drama que vamos
viver. Irei mesmo mais longe dizendo que são os únicos personagens que têm real
importância para nós: Jacques, Solange, Yvon Rodelec...
Os outros são apenas figurantes. E nos descartaremos de
todos, um a um, na mesma ordem em que se apresentaram
neste Tribunal, mostrando-os sem disfarces, à luz da verdade.
Uma vez desimpedido o caminho, voltaremos então aos personagens
principais.
"Começaremos com as testemunhas da Acusação. Intencionalmente,
não insistirei nos depoimentos do camareiro Henri
Téral, do Comissário Bertin, do Comandante Chardot, do Dr. Langlois, do Inspetor Mervel e do Professor Delmot. Essas seis
testemunhas nada mais fizeram que relatar com objetividade as
circunstâncias em que foi descoberto o crime a bordo do De Grasse e o seu procedimento durante a prisão e primeiros interrogatórios
do suposto criminoso. Reservo-me o direito de voltar
mais tarde a certos pontos dessas declarações que considero
obscuros, quando tivermos de analisar o processo do crime em
si. No momento, parece-me oportuno referir-me ao depoimento
da sétima testemunha: o Senador Thomas Bell.
"Este nos traçou um perfil dos mais perfeitos e - temos
de reconhecer - comoventes de seu filho John, a vítima. Um
pai, a menos que seja desnaturado, defenderá sempre a memória
de um filho único, bruscamente arrancado à vida em circunstâncias
trágicas. Esse pai acredita sinceramente cumprir seu
dever e os erros ou omissões que podem ocorrer em seu depoimento
são afinal de contas, bastante desculpáveis ... O Senador
Bell não fugiu à regra dos pais infelizes e tenho mesmo a declarar
que concordo inteiramente com meu nobre colega Voirin,
assistente da Promotoria, quando nos afirma que "o Senador
Bell não veio a este Tribunal como um pai que clama or vingança".
Sinceramente eu também estou convencido de que a testemunha
não nutre qualquer sentimento de animosidade contra
o acusado. Por outro lado, o Senador Bell parece ter atravessado
o Atlântico apenas para glorificar em terra estrangeira os méritos
de seu querido filho desaparecido ... Eu disse propositalmente
"em terra estrangeira" porque, infelizmente, a verdade
é que o jovem John não era tão apreciado em sua terra
natal como seu ilustre pai nos fez crer ... A verdade é que John
Bell esteve bem longe de seguir as pegadas paternas! Alistou-se
muito jovem na Marinha americana, sim, mas obrigado pelo
Senador Bell após um escândalo feminino. O mesmo que podemos
dizer desse garotão, filinho de papai rico, é que era freqüentador
assíduo dos bares de Manhattan e dos night-clubs da
Broadway... John realmente cumpriu seu dever na guerra
contra o Japão recebendo quatro citações por atos de bravura,
mas, contrariamente às afirmações afetuosas de seu pai, a dura
campanha do Pacífico não o amadureceu. Parece que aconteceu
exatamente o inverso e que sua polifagia juvenil pelas mulheres
despertou com força redobrada.
"Foi nessa época que conheceu Phylis Brooks, uma criatura sedutora, cuja
profissão oficial de taxi-girl em um dancing elegante da 5 Avenida camuflava
uma profissão oficiosa para a qual a polícia geralmente fecha os olhos, mas que
a moral reprova. Entre os inumeráveis amigos que a bela Phylis recebia em seu
apartamento, encontrava-se John Bell, que se deixou envolver de tal maneira
pelos encantos da jovem a ponto de querer casar-se com ela. Querendo evitar a
todo o custo essa união desastrosa para a honorabilidade da família, seu pai
forçou John a embarcar para a França no primeiro navio: era o De Grasse ...
"Se fiz questão destes esclarecimentos é porque eles terão
grande importância na continuação de minha defesa e também
para extirpar do espírito do Júri a idéia, inteligentemente lançada
pela Promotoria, de que John Bell embarcara para o nosso
país unicamente movido pelo desejo de finalmente satisfazer seu
"amor pela França"! Na realidade, a razão desta viagem, decidida
à última hora, não passou de um vulgar caso de mulher.
Aliás, uma frase pronunciada pela vítima pouco antes da sua
partida no De Grasse e repetida neste Tribunal pelo próprio
Senador Bell resume admiravelmente a situação: "Compreendi
perfeitamente sua pressa em me ver partir. Você tem razão.
Essa moça não é para mim."
"Como vêem, estamos muito longe de um crime pelo qual
o senso patriótico de uma grande Nação aliada reclama vingança.
Os Estados Unidos demonstraram muito bom senso, não
transformando em problema de Estado um simples caso particular!
Naturalmente o Senador Bell teve fortes razões sentimentais
para vir representar diante de um Tribunal Criminal
francês o papel de um pai justiceiro, mas reservo-me o direito
de julgar, como os fatos se encarregarão de provar em seguida,
que teria sido preferível para ele manter uma reserva prudente.
Tendo sido devidamente retificado o depoimento de tão importante
testemunha, passaremos à que lhe sucedeu neste tribunal:
a irmã do acusado, Régine Daubray.
"A Sra. Daubray veio testemunhar contra seu irmão
com uma violência que chocou o auditório. Santo Deus, seu
depoimento nada nos acrescentou de extraordinário e só fez
confirmar o seguinte: se Jacques Vauthier não gosta de sua irmã,
podemos afirmar que ela lhe retribui em dobro esse sentimento!
Detesta-o! Chega ao ponto de odiá-lo! Procurei a causa profunda
desse ódio que torna venal todo seu depoimento. A Sra. Daubray
fez questão de evidenciar seus "princípios religiosos" que a
impediram de divorciar-se de Georges Daubray do qual vive
separada há 14 anos. Pois a realidade é bem outra, infinitamente
mais prosaica: se Régine Daubray não se divorciou é simplesmente
porque continua a receber a generosa pensão concedida
por seu marido e que lhe permite manter a elegância que toda
a honorável assistência teve ocasião de admirar! Se a Sra. Daubray
possuísse realmente sólidas convicções religiosas, começaria
por praticar o amor ao próximo na pessoa de seu irmão.
Ora, torno a repetir que ela o odeia. Odio que, aliás, é o ponto
culminante de dois outros sentimentos profundamente arraigados
na alma da testemunha: o interesse e o orgulho. Interesse
que se viu ameaçado quando Daubray, a conselho de seus próprios
pais, que temiam o perigo de uma possível hereditariedade,
preferiu separar-se da esposa. Orgulho que transpirou ao longo
de todo o libelo detestável que ela não hesitou em fazer contra
o romance de seu irmão, onde julgou reconhecer-se na figura
de um dos personagens e, principalmente contra a cunhada, a
meiga Solange, a quem ela jamais perdoará ter sido filha de
uma empregada doméstica. Aliás, estou mais que persuadido
que esse testemunho, Srs. Jurados, pesará muito pouco na vossa
deliberação, o que faz que eu não me detenha mais sobre o
assunto.
"O testemunho de seu marido, o Sr. Georges Daubray, pareceu-nos
impregnado de dignidade. Só temos a lhe agradecer
por se ter revoltado várias vezes, na Rua Cardinet, contra a
maneira pela qual mantinham aquele menino infeliz afastado
de todo convívio humano, nos fundos do apartamento. Por
outro lado, não aceitamos sua atitude de separar-se de sua mulher
unicamente por medo de que ela lhe desse um filho semelhante
ao cunhado! Georges Daubray, de família bastante conhecida
em Paris, temia que um dia lhe atirassem an rosto a
tripla deficiência de Jacques. O que mais nos espanta, porém,
é que esse homem temeroso tenha concordado em vir a este
Tribunal para, de certa forma, fazer carga contra seu cunhado,
insistindo sobre "a aversão marcante que todos os membros da
família inspiravam a Jacques".
"E assim chegamos à sogra do acusado, Mélanie Duval.
Essa mulher decidida declarou aqui mesmo, neste Tribunal,
que "Jacques não era mau quando pequeno", donde se conclui
que naquela época a empregada da família Vauthier tinha pena
do menino doente. Seus sentimentos mudaram bruscamente no
dia em que se falou em casamento entre Jacques e Solange.
Apesar de sua origem modesta, e talvez mesmo por causa dela,
Mélanie achava que a filha poderia casar-se com qualquer rapaz
normal e rico, em vez de acorrentar sua existência à de um
doente sem níquel! Isso não encaixava com o bom senso popular
da humilde Mélanie, que havia se esfalfado durante anos
para fazer de sua filha uma senhora. E, além do mais, não seria
uma vergonha, um desgosto imenso, e cito aqui as próprias palavras
da testemunha, "pensar que uma jovem tão bonita tivesse de
partilhar sua vida com um homem que nunca a tinha visto e que
jamais a veria? "
"Desse dia em diante, Jacques Vauthier não teve inimigo
mais encarniçado que Mélanie. Essa mesma Mélanie que se
apresentou neste Tribunal com um rancor acumulado durante
anos para gritar: "Não é fácil ser a mulher de um assassino!
Sim, porque para Mélanie, que ignora tudo sobre o crime, não
há sombra de dúvida: seu genro é, indiscutivelmente, o assassino.
E seu maior desejo é que Jacques seja condenado o mais
rápido possível à pena máxima para que sua filha Solange, finalmente
livre, possa refazer a vida. Lembrai-vos, Srs. Jurados,
de que o ódio de um cérebro limitado é implacável! Este ódio
Mélanie transferiu inteiramente para Yvon Rodelec, o admirável
educador de Sanac que ela não hesita em acusar de todos
os pecados do mundo por considerá-lo o instigador do casamento.
E a velha empregada ousa fazer julgamentos temerários
sobre os Irmãos de São Gabriel ou, pior ainda, declarar diante
da Corte que o Sr. Rodelec enfeitiçou sua filha!
"Os motivos que levaram Mélanie Duval a testemunhar
contra seu genro são desprezíveis e despidos de qualquer valor
jurídico: a Corte já lhes deve ter dado seu justo valor.
"Numa primeira conclusão, a Defesa espera que os Srs.
Jurados acabarão de compreender a razão profunda que levou
Jacques a mostrar-se tão severo na descrição dos personagens
que cercavam o herói de seu romance, um surdo-mudo-cego
como ele próprio. Francamente; Srs. Jurados, é o caso de se
dizer: que família!"
A última testemunha da Acusação foi o Sr. Jean Dony.
Quanto a este rapaz, encontramo-nos diante de um outro problema,
infelizmente, tão lamentável como os precedentes! O
depoimento desse jovem cego, que se diz amigo de Jacques Vauthier,
foi o mais inteligente e o mais odioso. Reparem bem os
Srs. Jurados que o Sr. Dony conseguiu lançar uma séria dúvida
em vossos espíritos, contando à sua moda um certo incêndio ao
qual talvez se esteja dando importância maior que a devida.
Na realidade, o que poderia se ter transformado num drama
naquele dia nada mais foi que o resultado do ciúme que Jean
Dony sentia de Jacques Vauthier.
"De que este último tenha amado Solange, desde sua adolescência,
não temos a menor dúvida e os fatos se encarregarão
de demonstrar, no decorrer deste julgamento, que esse amor
de Jacques por aquela que se tornaria sua mulher só fez aumentar
com o tempo. De que Solange tenha sentido uma grande
ternura por Jacques, na época de sua chegada a Sanac, também
não se pode duvidar apesar das hesitações mais que compreensíveis
que ela teve alguns anos mais tarde, quando o Sr. Rodelec
a aconselhou a desposar Jacques. Mas que Jean Dony se
tenha apaixonado perdidamente por aquela moça linda e encantadora,
que não lhe prestava muita atenção, é um fato consumado.
Aliás, o contrário é que seria de espantar. Uma pequena
enquête pessoal feita recentemente por mim em Sanac
provou que Solange Duval deixou uma lembrança imperecível.
Pode-se mesmo afirmar que o Instituto São José inteiro estava
apaixonado por aquela moça luminosa e sorridente que havia
levado bruscamente à vida austera da instituição um pouco
daquela feminilidade que o Sr. Rodelec e o Dr. Dervaux tinham
mil razões para cultivar... Jean Dony não escapou a esse sentimento unânime a
respeito da recém-chegada. E foi ele mesmo que declarou nesta Corte: "Soube por
camaradas surdos-mudos que eles sim podiam vê-la, que era uma moça muito
bonita...
a única coisa que nós, cegos, pudemos observar foi a doçura de
Sua VOZ.
"Ah, senhores! Que sonhos! Que sentimentos novos e impetuosos
devem ter brotado nos corações daqueles jovens com
a simples presença de uma mulher! Estados d'alma capazes
também de provocar o ciúme ... Na pessoa de Jean Dony, o
ciúme foi duplo: ciúme do homem que sente que a criatura
sonhada jamais será sua e ciúme também daquela jovem que
tomou seu lugar de protetor de Jacques, que ele ocupava
há seis anos em Sanac. Quanta amargura se esconde nas palavras
da testemunha:... "Sentíamos, em certas entonações de
Solange que, sob aquela doçura aparente, capaz de enganar
os que a viam, seduzidos pelo seu aspecto físico, se escondia
uma vontade de ferro, decidida a ir até o fim ... " Foi o ciúme
que fez Jean Dony cair em contradição várias vezes durante
seu depoimento! Ele ama Solange e ao mesmo tempo a detesta ...
Veio por sua livre e espontânea vontade testemunhar
contra seu antigo colega e, indiretamente, arrasar com aquela
que o repudiou. Seu testemunho é o de um amargurado. A fama
de Jacques Vauthier, por ocasião do sucesso de seu livro O
Isolado, só fez reavivar seu sentimento de inveja e frustração.
Seu rival não somente conservava o amor exclusivo de Solange como, por sua
inteligência e capacidade criativa, crescia ainda mais no conceito de sua
bem-amada! São coisas que dificilmente se perdoam quando se tem a alma de um
Jean Dony...
"Se apareceu para tocar no dia do casamento de Jacques
e Solange foi somente após muita insistência do Sr. Rodelec que
queria desfazer mágoas e mal-entendidos. Mas Jean, rival vencido,
encontrou finalmente a oportunidade de vingar-se no dia
em que soube do crime do De Grasse. Chegou mesmo a justificar
sua presença neste Tribunal alegando problemas de consciência.
Permito-me repetir, Srs. Jurados, suas próprias palavras: "Devia
deixar o mundo acreditar que Jacques Vauthier era incapaz de
cometer um crime ou, ao contrário, tinha a obrigação de mostrar
que o acusado não era marinheiro de primeira viagem? Meu
dever, por mais penoso que fosse, obrigava-me a esclarecer a
justiça." Srs. Jurados, o que achais destas palavras pronunciadas
por quem se diz o melhor amigo de juventude de Jacques
Vauthier?
"Depois, foi a história do incêndio, a mais hábil mentira
que pode brotar de um cérebro humano! Narrativa cuja veracidade
está longe de concordar com a realidade que Solange
Vauthier deixou bem clara com uma discrição digna dos maiores
elogios. Não nos demoraremos no assunto mais que ela
ou Irmão Dominique o fizeram, observando, porém, que o
Sr. Promotor não deixou de utilizar em sua acusação o depoimento
tendencioso de Jean Dony para afirmar que o assassinato
do De Grasse não era a estréia criminosa de Vauthier. Em
nossa humilde opinião, as conclusões do Sr. Promotor, que não
hesitou em fazer uma ligação direta entre uma simples disputa
de jovens e um crime cometido 10 anos depois, parecem-nos
pelo menos inesperadas!"
Victor Deliot fez uma pausa para limpar minuciosamente
seus lorgnons antes de continuar:
- Passaremos agora em revista os depoimentos das testemunhas
da Defesa, cujas declarações, por estranho que possa
parecer à Corte, estão longe de nos ter agradado, apesar dos sinceros
sentimentos de afeição e estima exprimidos a favor do
acusado. Achamos mesmo que o transbordamento de amor de
uma mãe como Simone Vauthier, a tagarelice inconseqüente de
um homem ingênuo como Irmão Dominique e a clarividência
afetuosa de um profissional da classe do Dr. Dervaux deixaram
algumas dúvidas no espírito do Júri e mais prejudicaram que
ajudaram o acusado.
"A Sra. Vauthier portou-se diante da Corte com a paixão
de uma mãe roída pelos remorsos. Pesei muito bem minhas
palavras: como todos os outros membros da família, Simone
Vauthier negligenciou o filho doente durante seus primeiros
10 anos de vida. Começou a interessar-se por ele a partir do
dia em que não o teve mais em casa. Agindo assim, nada mais
fez do que ceder ao estranho sentimento que faz descobrir
grandes qualidades nas pessoas quando estas se encontram
ausentes. O erro inicial de Simone Vauthier foi grave: uma
mãe que não sente a menor afeição por um filho doente assemelha-se
a um monstro. O menino compreendeu isso instintivamente
e desligou-se dessa mulher cuja presença, inicialmente
indiferente, passou a lhe ser odiosa. Nada mais havia a fazer
para reaproximar mãe e filho: os testemunhos de Yvon Rodelec
e do Dr. Dervaux são formais nesse ponto. Todas as tentativas
de reaproximação falharam lamentavelmente. Se alguns
membros do Júri ainda tinham algumas dúvidas sobra a natureza
exata do relacionamento existente entre Jacques Vauthier e sua
mãe, estas devem ter sido definitivamente aclaradas neste próprio
recinto, diante da impassibilidade com que o acusado recebeu
as lágrimas tardias de Simone Vauthier, suplicando-lhe
que se defendesse e gritando ao mundo que seu Jacques era inocente.
"Que esta mãe esteja convencida da inocência. do filho é
ponto pacífico, mas a dor de Simone Vauthier nada mais é,
no fundo, que uma dose dupla de orgulho ferido: raiva, fúria
mesmo, pelo fato de outra pessoa, Yvon Rodelec, ter ocupado
seu lugar no coração de Jacques, e desespero bem compreensível
de ver seu nome envolvido no escândalo de um crime.
Preferi mil vezes ouvir os gritos de reprovação de uma
Simone Vauthier dirigidos aos que ela acusa injustamente de
lhe terem roubado o amor de seu filho, do que as palavras
carregadas de ódio de uma irmã mais velha. Com sua sinceridade
de mãe envergonhada de seu comportamento passado,
Simone Vauthier provou que, se todos os membros da família
se comportaram no passado como monstros em relação ao pequeno
doente, pelo menos um desses monstros se tornou humano
e foi capaz de se redimir no último instante. Srs. Jurados, peço-vos
que esqueçais, como eu já. o fiz, os deploráveis sentimentos
expressos por essa pobre mãe contra todos os que tiveram
sobre seu filho uma influência superior à sua, para guardar
apenas a imagem desta infeliz abatendo-se, sem sentidos, neste
Tribunal após sua súplica desesperada: "Suplico-lhe, Sr. Intérprete,
diga a Jacques que sua mãe está aqui, perto dele, para
ajudá-lo ... Sua mãe que sabe melhor que ninguém que ele é
incapaz de matar..."
"Penso sinceramente que uma mãe adivinha realmente se
o fruto de suas entranhas é ou não capaz de matar. Para Simone
Vauthier seu filho Jacques é inocente. É um testemunho que tem
seu valor.
"O Sr. Dominique Tirmont, o simpático irmão-porteiro
do Instituto São José de Sanac é um homem ingênuo e tagarela
como via de regra costumam ser, na maioria das comunidades
religiosas, os irmãos-porteiros. Entusiasmou-se ao contar à
sua maneira a história do incêndio do barracão do jardineiro que
para ele foi um acontecimento fora da rotina: não voltaremos
a ele. Por outro lado, essa facilidade de elocução nos foi de
grande valia em um ponto essencial: explicou-nos, com detalhes
preciosos, o senso das cores que o acusado possui.
"Desta forma, soubemos que a idéia fundamental das cores
era falsa no cérebro de Jacques Vauthier. Aliás, o contrário é
que teria sido espantoso! Procedendo por analogia, Jacques Vauthier
concebeu uma idéia das cores baseadas nas variedades de
odores ou sabores. Assim, o acusado jamais pensa num objeto
sem revesti-lo instintivamente de uma cor. Essa confusão teve
uma importância capital no momento do crime do De Grasse,
como logo o demonstraremos. A curiosa experiência à qual
submeti Jacques Vauthier, ainda há pouco, na presença de sua
mulher, já vos provou duas coisas, Srs. Jurados: Jacques Vauthier
dá uma grande importância à écharpe de seda usada por
sua mulher e não pôde ouvir sobre os dedos as palavras "cor
verde" sem excitar-se terrivelmente ... Lembrai-vos, portanto,
Srs. Jurados: o acusado tem horror ao verde! Por que essa
repulsa? A simples lógica nos oferece a explicação: porque o
verde lhe traz más recordações! Quanto à écharpe de seda que
sua mulher usava, e que era cinzenta e não verde, devo fazer
uma pequena confissão: fui eu que pedi a Solange Vauthier
que viesse depor usando essa écharpe. Era indispensável para
o bom êxito de meu plano. E não me arrependo, apesar do
aspecto penoso da experiência... Agradeçamos portanto ao
Irmão Dominique a contribuição de seu testemunho e passemos
a examinar o depoimento da última testemunha da Defesa, o
Dr. Dervaux.
"Também o Dr. Dervaux compareceu a este Tribunal com
o desejo sincero de inocentar o acusado. O testemunho ponderado
desse eminente médico que depois de Yvon Rodelec é,
sem dúvida, o homem que mais bem conhece Jacques Vauthier.
teve um peso considerável. Desta vez, nos encontramos realmente
na presença de um homem de ciência, cujo espírito prático
não se deixa envolver pelos ardores de uma fé generosa.
Não foi o doutor que nos confessou que "sem ser um ateu, sempre
foi um cético?" Ceticismo que somente se inclina diante
dos resultados científicos de um método experimental. O gosto
inato pela Experiência é portanto bastante desenvolvido nesse
profissional. Foi o que o levou a aconselhar Yvon Rodelec não
somente a tentar educar o jovem Jacques, sem lhe encher a
cabeça com textos evangélicos, como despertar no coração do
doente uma nova ternura que substituiria a de uma mãe egoísta
demais. Pode-se afirmar que, em seu desejo imenso de acertar,
o homem de Ciência, personificado pelo Dr. Dervaux, foi tão
responsável quanto o homem da Igreja, encarnado por Yvon
Rodelec, na união de Jacques e Solange. Responsabilidade que
considero admirável, uma vez que continuo a considerar esse
casamento como um êxito perfeito.
"Infelizmente, o espírito científico do Dr. Dervaux aliado
à deformação profissional incitaram-no a levar um pouco longe
demais suas investigações pessoais, quando soube do crime do
De Grasse... Incapaz de resolver o problema das impressões
digitais e das confissões repetidas do acusado, o cérebro racional
do Dr. Dervaux acabou por encontrar, quase contra sua
vontade, uma espécie de desculpa para o crime de Jacques Vauthier.
Não nos iludamos: apesar da sua declaração final pela
qual o bondoso doutor, tendo percebido o mal que seu depoimento
fizera a quem ele tentava defender com as melhores intenções
do mundo, esforçou-se sem grande sucesso para explicar
à Corte que suas palavras haviam sido mal interpretadas,
a verdade é que essa testemunha da Defesa apresentou-se neste
Tribunal intimamente persuadido da culpabilidade de Vauthier!
"Aliás, o Promotor Berthier aproveitousse com muita inteligência de tal
testemunho para tirar conclusões francamente desfavoráveis ao acusado. Foi
somente quando afirmei que pro- varia, no decurso de minha defesa, que Jacques
Vauthier não era o verdadeiro culpado, que o Dr. Dervaux tentou, um pouco tarde
demais, reparar os estragos, dos quais seu espírito altamente científico foi o
único responsável, conduzindo o debate para um plano estritamente moral. E
encontrou, na verdade, um argumento reparador não despido de certo valor quando
declarou que: "Jacques Vauthier idolatrava demais sua mulher para destruí-la com
uma vergonha como a que ela está sendo submetida há seis meses." Ali, não era
mais o sábio que falava mas o homem de bom senso aliado ao homem de coração. Sem
sequer suspeitar, naquele instante, o Dr. Dervaux atingiu a verdade: esse crime,
no qual a única culpa do acusado é ter feito tudo para parecer o autor, não é
senão o resultado do amor imenso, levado ao sacrifício supremo, de um homem por
sua companheira. E isso nos leva naturalmente a Solange Vauthier, que seguiremos
passo a passo, estudando o processo do crime...
"Em seus respectivos depoimentos, tanto o Comissário Bertin
como o Comandante Chardot declararam que Solange Vauthier
se havia comunicado com o marido na prisão de bordo,
assim que fora posta em sua presença, logo após o crime. Esse
diálogo silencioso e incompreensível para as duas testemunhas
foi realizado a mão: os dedos ágeis da esposa falavam às falanges
de seu marido. Ela mesma afirmou ter-lhe feito uma única
pergunta: "Diga que não é verdade, Jacques. Você não fez isso!"
E ele lhe teria respondido: "Não se preocupe! Assumc a responsabilidade
de tudo ... Eu amo você" ... Resposta possível
mas não certa. Jacques Vauthier bem poderia ter dito a sua
mulher: "Sei que foi você a culpada, mas cale-se! Fez muito bem
em matá-lo ... Nada diga! Assumirei a culpa" ... Resposta que, evidentemente,
mudaria completamente o aspecto do problema. E temos todo o direito de acreditar
que esta fosse a verdadeira. Solange ficou petrificada. Culpada? Claro que era
...
Mas não no sentido compreendido por seu marido. Jacques Vauthier
estava convencido de ter descoberto a prova irrefntável de
que sua mulher adorada era amante de John Bell. E ainda se encontra
neste estado de espírito. Olhem para ele! Vejam seu rosto
tenso, ansioso: seu intérprete lhe transmite minhas mínimas palavras.
Vauthier só deseja ser libertado da dúvida terrível que
o assalta. Teme que sua mulher, a doce e gentil Solange, que
representa tudo para ele e sem a qual não pode viver, seja inculpada.
Olhem o suor que escorre de sua testa. Um suor de agonia...
Queira Deus que não seja a agonia de um amor! Ele
espera ... E começa a se perguntar se esse velho advogado
imbecil, que há semanas luta desesperadamente para salvá-lo,
não vai acabar por descobrir a verdade?
"Jacques Vauthier, vou provar-lhe que sua mulher não matou e só então você
cessará de encerrar-se em sua mentira heróica. Desde a primeira visita que lhe
fiz na prisão da Santé, soube logo que você mentia a todo mundo, Jacques
Vauthier...
mesmo a mim, em quem não confiava mais do que nos outros!
Naquele dia, você se atirou sobre mim para que eu compreendesse
claramente que não queria ver um advogado metido em
seus negócios e, principalmente, para que eu acreditasse que
você não passava mesmo de um bruto vulgar! Já não conseguiu
que quase todos acreditassem nisso, desde o comandante do De
Grasse atê o Juiz de Instrução encarregado do caso, passando
pelo Inspetor Mervel e os inumeráveis médicos alienistas, sem
esquecer seus defensores que me precederam e se viram obrigados
a abandonar seu caso incômodo com medo de nada conseguir
arrancar de você, arriscando-se a serem estrangulados
por seus dedos temíveis? Reconheço que é genial, adotando essa
falsa atitude de bruto, Jacques Vauthier! Sua representação foi
tão perfeita que chegou a enganar seu guarda na prisão. Aquele
bom homem estava tão persuadido de que você não passava de
um animal pernicioso que me aconselhou, por diversas vezes, a
tomar as maiores precauções a seu respeito! Para sua infelicidade,
ou melhor seria dizer felicidade?, você caiu comigo, um
velho cavalo de tiro! E sou capaz de jurar que, inteligente como
é sob uma aparência embrutecida e hermética, compreendeu
imediatamente que com um velho astuto como eu o páreo ia
ser duro! Então, aos poucos, foi se acalmando. Fingi entrar em
seu jogo, decidido, no entanto, a arrancá-lo dessa calma aparente
quando chegasse a hora.
"E já o consegui duas vezes no decorrer deste julgamento.
A primeira, quando você chorou ao contato com as mãos enrugadas
de seu velho educador: nunca mais poderá negar essas
lágrimas ardentes, Vauthier! Foram lindas porque vieram diretamente
de seu coração. A segunda, quando tocou na êcharpe de
sua mulher: o ódio impotente que o invadiu naquele instante
foi sincero... Por duas vezes, portanto, tive a prova insofismável
de que toda sua atitude, desde o momento em que foi
encontrado sentado sobre a cama de John Bell, não passava de
uma comédia fantástica. Que você possa ser um bruto, admito!
Chegou mesmo a sê-lo uma vez, uma única vez na vida, a um
grau raramente atingido por um ser humano ... Encarregar-me-ei
de lembrar-lhe as circunstâncias precisas quando chegar
o momento de pôr as cartas na mesa; mas que seja, como o
julga a maioria presente, porque lhe deu essa impressão, um
bruto em estado permanente, é falso!
"Há poucos minutos eu lhe disse que sua mulher não
havia matado: com isso não quero dizer que ela não seja culpada.
Sua culpabilidade é de outra ordem, eis tudo! Mas você é
o único culpado. Seu silêncio e a sua mentira persistentes obrigaram-me
à lamentável alternativa de deixar que o condenassem
inocente ou lhe revelar publicamente o que você preferiria jamais
saber.
"Você não foi o único a mentir: sua mulher também nos
enganou, modificando a primeira resposta que você lhe deu
na prisão de bordo. Mas poderia ela ter agido de outra forma?
"Solange Vauthier, Srs. Jurados, sabia que seu marido a julgava realmente a
assassina de John Bell, quando ela nada teve a ver com o crime. Mas ela
compreendia também que essa convicção íntima de Jacques era para ele uma espécie
de bálsamo que o assegurava completamente sobre a conduta da esposa e quase lhe
dava prazer. O amor desse rapaz por sua companheira é tal que ele prefere
considerá-la como a assassina de um homem, do qual se livrou para fugir
definitivamente a seus avanços, do que cúmplice de uma ligação culpável. Solange
assassina de John Bell é para Jacques uma heroína que matou para não enganar a
ele, Jacques ... Desde o segundo em que se julgou o dono da verdade, Vauthier só
teve uma idéia: salvar sua admirável companheira que levara a sua fidelidade ao
extremo de matar um rival! Foi por isso que ele esperou pacientemente na cabina
do crime até que vieram prendê-lo, por isso disfarçou o crime com uma habilidade
suprema para que acreditassem ter sido ele o autor e não sua mulher, por isso,
finalmente, que deu à companheira essa estranha resposta: "Eu sei que foi você a
culpada, mas cale-se! Fez bem em matá-lo! Nada diga! Assumirei a culpa..."
Atitude perfeitamente explicável quando se compreende o imenso amor que Jacques
devota a Solange, mas que não terá mais qualquer razão de ser se provarmos que -
acontrário do que acredita Vauthier - sua mulher não matou John Bell, que foi
assassinado por uma terceira pessoa. Isso vem confirmar o que não me cansei de
repetir: três pessoas estavam interessadas no desaparecimento do jovem
americano. Vauthier, para livrar-se de um rival; Solange, para apagar um passado
incômodo que pesava terrivelmente em sua consciência ... E, finalmente, o
verdadeiro criminoso, por outras razões que explicaremos no devido tempo ...
"Bem imagino, senhores da Corte, como minha peroração
vos deve parecer extravagante, mas peço-vos ainda um pouco
de atenção para transportar-vos, em imaginação, aos seis últimos dias
que precederam a volta do casal Vauthier à Europa, a
bordo do De Grasse.
"Para começar, uma nova e dupla mentira de Vauthier e
sua mulher fizeram-vos acreditar que o jovem casal jamais
havia visto a vítima antes do crime. Por uma vez, a Defesa está
de pleno acordo com o Ministério Público, quando afirma que
Solange e Jacques Vauthier conheciam John Bell muito bem.
Um telefonema recebido ontem pela manhã de Nova York confirmou
que o jovem americano, muito conceituado nos meios
franceses dos Estados Unidos, se havia tomado de grande amizade
pelos Vauthier. Amizade cuja reciprocidade não era a
mesma por parte de Jacques e Solange... Com a única finalidade
de conhecer a exata natureza das relações existentes entre
esses três personagens, parece-me indispensável a volta de Solange
Vauthier a este Tribunal para um depoimento complementar.
Solicito portanto ao Sr. Presidente que mande buscar a
testemunha em questão para uma segunda audiência."
- A Corte defere o requerimento verbal da Defesa - declarou
o Presidente Legris após um rápido entendimento com
seus assessores e um sinal de aquiescência do promotor.
A jovem mulher voltou à barra não sem antes deixar transparecer
alguns sinais de inquietação.
- Sra. Vauthier - continuou o velho advogado, aproximando-se da barra diante da
qual ela se mantinha ereta - espero que desculpe esse velho defensor de seu
marido por tê-la feito voltar mais uma vez, mas garanto-lhe que era
absolutamente necessário para atingirmos finalmente o objetivo que perseguimos,
tanto a senhora como eu: inocentar Jacques ...
Permitir-me-ei, logo de saída, repetir-lhe uma pergunta precisa
que já lhe foi feita pelo Presidente Legris durante seu
primeiro depoimento: "Sra. Vauthier, lembra-se de ter encontrado,
durante os cinco anos que passou nos Estados Unidos, a
vítima, Sr. John Bell?" Sua resposta foi negativa.
"Pois bem, por mais penoso que possa ser para mim, devo
responder-lhe por minha vez que mentiu, Solange Vauthier! Há
mais de um ano conhecia John Bell. Ele se apresentou espontaneamente
à senhora e a seu marido durante uma conferência
realizada em Cleveland. John lhe pareceu simpático imediatamente:
por acaso não se deu ao trabalho de facilitar suas viagens
e estadas nas diferentes cidades visitadas? Não levou sua amabilidade
ao ponto de conduzi-los pessoalmente em seu próprio
carro? Suas atenções não foram sempre encantadoras? E aconteceu
o que fatalmente teria de acontecer: o jovem americano
era bonito. Não oferecia, sobre seu marido, a vantagem de poder
contemplá-la? Seus olhos devoravam seu rosto, detalhavam
sua figura elegante, exprimiam o desejo ardente de um ianque
normal e sadio por uma linda francesa... Ainda que possuindo
uma ternura imensa por seu marido, a senhora não se havia
habituado completamente à idéia de que aquele a quem pertencia
era o único homem gue jamais poderia vê-la, enquanto
todos os outros podiam saciar os olhos em sua beleza. Durante
seu primeiro depoimento, a senhora pronunciou uma frase terrível:
"A gente não ama aqueles por quem sente piedade. Tem-se
pena.. "
"Não imagina o quanto sinto, Jacques Vauthier, ter de
revelar-lhe tudo isto hoje, sem o menor preparo, mas não tenho
escolha. Seu rosto me parece cada vez mais crispado, infeliz,
patético... Suplico-lhe, Vauthier, que conserve esse auto-domínio
que demonstrou possuir acusando-se de um crime que
não cometeu, para ouvir a continuação desta minha oração, a
mais ingrata da carreira de um defensor ... É preciso que saiba
que Solange se decidiu finalmente ao casamento após ter sido
sutilmente pressionada por Yvon Rodelec numa conversa que
este teve com ela após a publicação do seu livro ... Solange
casou-se com você por piedade, enquanto você a amava apaixonadamente.
"O casamento foi, como bem o descreveu o Irmão Dominique,
um acontecimento sem precedentes nos anais do Instituto
São José.. Lembra-se da estranha cerimônia na capela
onde os coroinhas eram surdos-mudos e o coral composto de
cegos? ... Do abade Ricard, o capelão da instituição, que fez um
belíssimo sermão que a senhora, Solange Vauthier, ia traduzindo
sobre as falanges de Jacques?... E o mesmo procedimento
ia sendo empregado e repetido em todos os bancos da
capela onde cada cego servia de intérprete para um vizínho
surdo-mudo? A senhora não sabia se devia rir ou chorar naquele
momento, Solange Duval! Rir, não de alegria mas de nervosismo
diante do aspecto insólito daquela cerimônia da qual
era a heroína; chorar à idéia de que ia amarrar-se para toda a
vida a uma criatura anormal... Eis o que se passava por sua
cabeça quando, uma vez a cerimônia terminada, passou pelo
braço de Jacques entre as alas de curiosos, de personagens austeras
de batina preta ou de alunos também deficientes ... Lá
em cima, no órgão, Jean Dony tocava uma marcha nupcial
que mais lhe parecia uma zombaria ... E se seu olhar sob o véu
de tule se ergueu durante alguns segundos, foi talvez para cruzar-se
com o de um rapaz de olhos brilhantes e luminosos que
contemplavam avidamente seu rosto ... olhos cheios de desejo que jamais
encontraria nos olhos mortos _de seu marido...
"Naquele dia seu sofrimento foi atroz. E só fez aumentar
nos dias que se seguiram durante aquela horrível viagem de
núpcias da qual voltou desesperada. Cada hora daquela viagem
de pesadelo era acrescentada ao holocausto... A senhora teve
de fazer um esforço sobre-humano para superar sua repugnância
física e não fugir quando os braços fortes de seu marido quiseram
abraçá-la.
"Porque houve uma primeira noite cuja lembrança jamais
se apagará de sua memória e durante a qual a senhora tomou
consciência da imensidão de seu sacrifício.
Principalmente, que antes do casamento tudo parece simples e fácil
porque a imaginação ultrapassa qualquer obstáculo. Somente
no momento em que se passa do sonho ideal à realidade brutal,
as inferioridades do cônjuge são reveladas. Confesse que é angustiante,
Solange Vauthier, ser beijada por lábios incapazes
de murmurar uma palavra de amor, de ficar face a face com o
nada de um rosto sem olhar... Em tais condições o ato do
amor só pode causar repulsa. Mais rápido do que pensou - e
havia por acaso imaginado o sacrifício que lhe custaria o sim
a Yvon Rodelec? - o contato com o doente a desencorajou,
tornando impotentes suas resoluções mais firmes. Impossível
não compreendê-la, Solange Vauthier! Para suportar essa dura
prova teria sido necessária uma força que, infelizmente, nós
humanos, raramente possuímos!
"E ele? Nunca lhe ocorreu, Solange Vauthier, que vivendo
continuamente a seu lado acabou por tomar consciência, cada
vez mais, de sua inferioridade? Seu sofrimento secreto só fez
aumentar: sentimentos de tristeza, de desespero, de ciúme, de
desconfiança formaram uma nuvem escura sobre o casamento.
E, no entanto, ele se apegava à senhora. Tinha e tem uma necessidade
insaciável da senhora: necessidade física e moral. Foi daí
que nasceu esse desentendimento angustiante cuja causa profunda
nenhum dos dois quis procurar, não sei por que espécie
de pudor mútuo!
"O que podemos afirmar, Srs. Jurados, é que esses cinco
anos de casados foram uma luta titânica entre a ternura racional
da jovem esposa e os desejos carnais do doente. É fácil de imaginar,
portanto, o que deve ter sido aquela viagem de núpcias
na costa basca! Durante o dia, quando a comunicação entre os
dois era feita pela inteligência, tudo era maravilhoso: era a
harmonia perfeita de dois seres que se completavam ... mas
à noite! Ah, como eram terríveis as noites! Confesse, Solange
Vauthier, que muitas vezes preferiria morrer a se entregar a
carícias que a aterrorizavam! Infeliz, quase não suportando a
presença física de um Jacques que a senhora tinha idealizado
e que agora se mostrava real e humano, confidenciou seus temores
a Yvon Rodelec numa visita de despedida que lhe fizeram
antes da grande partida para os Estados Unidos. Ainda uma
vez, as palavras sábias e os conselhos judiciosos do educador
conseguiram atenuar seu desencanto. A viagem por um país
completamente novo para a senhora e Jacques talvez ajeitasse
as coisas. Acabaria por se habituar a uma existência ao mesmo
tempo ativa e resignada junto ao doente.
"Sem que o desejasse, quase a contragosto, tornou-se para Jacques aquela mulher
rara que basta à felicidade de um homem, simplesmente porque esse homem não
conheceu e jamais conhecerá outra mulher e outras sensações! Abandonando-se a
suas carícias, a senhora lhe dava a ilusão de ser um homem como os outros ...
"Na tentativa de esquecer os momentos penosos que lhe
eram impostos por aquela paixão não correspondida, a senhora
lançou-se de corpo e alma à vida trepidante do Novo Mundo,
indo de cidade em cidade, de conferência em conferência, de
recepção em recepção, intérprete de Jacques em entrevistas para
jornais ou emissões radiofônicas onde brilhava cada vez mais.
Sua beleza triunfava aonde quer que fosse. Parecia mesmo que
a presença desse colosso com sua tripla deficiência sempre a
seu lado, seguindo-a como uma sombra ou como um escravo,
contribuía ainda mais para realçar sua beleza luminosa e sorridente.
Durante os primeiros tempos da sua estada na América,
a senhora chegou a pensar que era feliz, Solange Vauthier.
Chegou mesmo a escrever sobre isso a seu único confidente, Yvon Rodelec. Mas, ai
da senhora! Foi então que John Bell cruzou seu caminho, em Cleveland ...
"O interesse do jovem americano pelo caso excepcional de
Jacques Vauthier, romancista francês surdo-mudo-cego de nascença,
não passava de uma fachada, uma desculpa para se aproximar
daquela que o atraíra desde o primeiro instante: a linda
mulher do doente ... Desdobrava-se em atenções. Levava-a
sozinha a passeios para conhecer a cidade, sem que seu marido
visse nisso qualquer inconveniente. Jacques jamais poderia supor
uma infidelidade de sua parte... E, no entanto, foi o que
aconteceu: alguns meses após o primeiro encontro com John
Bell em Cleveland, os olhos azuis daquele belo rapaz se inundaram
nos seus. Seus lábios murmuraram as palavras de amor
que esperava desde sempre. Sua felicidade pode ter sido passageira,
mas foi completa: tornou-se sua amante!"
A jovem mulher estremeceu e se agarrou à barra no momento
em que seu marido deu um grito selvagem e rouco, tentando
atirar-se sobre Victor Deliot. Mas os dois guardas forçaram-no
a sentar-se novamente.
- Sei muito bem que estou causando um sofrimento atroz
a esse infeliz - continuou o advogado. - Se pudesse, neste momento,
ele me mataria. Olhai para ele, Srs. Jurados: este é o
Jacques Vauthier que eu queria que conhecêsseis! O Vauthier
adulto que só se torna realmente um bruto quando se trata de
defender seu único bem: sua mulher... Olhai para ela também,
prestes a desfalecer, incapaz de refutar a grave acusação
que lhe vem de ser feita. Que poderia dizer ela a não ser que
acabou por ceder aos encantos do americano porque não
agüentava mais pertencer a um homem que jamais poderia vê-la?
Esse, todo o drama dessa jovem mulher. Não pensai, Srs. Jurados,
que Solange Vauthier se tenha apaixonado por John
Bell! Muito depressa, suas relações com o jovem americano
que a seguia de cidade em cidade, passaram a fazê-la infeliz.
Sufocada pelo remorso de enganar um homem para o qual
era tudo, a senhora, Solange Vauthier tentou o impossível
para terminar de vez com aquela ligação ocasional. Mas ele não
lhe deu ouvidos: estava apaixonado e não queria perdê-la! Seu
desejo de encerrar definitivamente o caso aumentava com o
receio de que seu marido viesse a desconfiar de algo. A verdade
é que, instintivamente, Jacques passou a suspeitar de John
Bell. E em seu espírito confuso, o único culpado era o americano
que a desejava e contra o qual a senhora lutava desesperadamente!
"Para livrar-se de um amante incômodo e perigoso, a senhora
tomou a brusca decisão de voltar para a França no primeiro
navio. O que não previu foi que John Bell tomaria o
mesmo navio para continuar a persegui-la! A senhora e seu
marido o encontraram a bordo, algumas horas após a partida
de Nova York. Para salvar as aparências diante de Jacques,
John Bell explicou que ia à França em missão, participando
do plano de ajuda à Europa! Curiosa ajuda!
"Não querendo correr o risco de encontrá-lo mais vezes, a
senhora conseguiu convencer seu marido a tomar as refeições
na própria cabina, de onde saíam raramente. No dia seguinte,
entretanto, John Bell conseguiu abordá-la sozinha num dos corredores.
Exaltou-se, suplicou-lhe. A senhora fugiu, assustada.
Por um instante pensou em matar-se. Mas pensou que Jacques
não sobreviveria a seu desaparecimento. Jacques, que não era
capaz de viver sem a senhora! Não seria melhor sacrificar John
de quem ninguém necessitava? A idéia desse crime deve tê-la perseguido
como uma espécie de reparação pelo que havia feito a
Jacques. Bem podeis imaginar, Srs. Jurados, os sentimentos
conflitantes e muitas vezes monstruosos que podem tomar conta
do coração de uma mulher honesta que se arrepende de uma
falta grave!
"John Bell continuava a assediá-la. Encontrava-o, mal entreabria
a porta da sua cabina. Também seu marido farejava-o,
rondando pelas vizinhanças: seu extraordinário senso olfativo
devia revelar sua presença na sua própria sombra e a senhora
temia uma explosão. Torturada, resolveu ter com seu amante
um encontro decisivo."
Deliot voltou-se para Solange Vauthier para advertir:
- Srs. Jurados, senhores da Corte, chegamos ao momento do crime ...
Voltou-se para Solange, aniquilada numa cadeira:
- Seu marido, Sra. Vauthier, repousa no leito, como costuma
fazer todos os dias após o almoço. A senhora sai um instante
para respirar ar puro. Talvez tenha colocado na bolsa
aquele revólver que, segundo me confíou em nossa segunda
entrevista, trazia sempre à mão durante as suas viagens. Dirige-se
para a cabina de John Bell. Seu plano é simples: vai bater
à porta, ele abrirá, encantado, persuadido de que finalmente
voltou para seus braços. Sozinha com ele, procurará convencê-lo
do perigo que a sua insistência representa para seu casamento.
Pede-lhe que a deixe em paz. Caso contrário ... o pequeno revólver
ali está na bolsa, basta abri-la... A libertação ao alcance
da mão... Em seguida é atirá-lo ao mar pela vigia e voltar
tranqüilamente ao tombadilho para lavar ao vento de alto-mar
o cheiro do homem, o cheiro do amante. O passo seguinte é
a volta à cabina onde seu marido ainda estará adormecido, sem
notar sua ausência.
"Infelizmente, chegada diante da cabina de John Bell, as
coisas se passaram de maneira bem diferente. A porta da cabina
estava entreaberta. Intrigada, empurrou-a com precaução ficando
petrificada diante de um espetáculo apavorante: seu amante
jazia morto, estendido no leito, o pescoço ensangüentado. Na
sua afobação nem mesmo reparou numa écharpe de seda verde
parecidíssima com uma das suas: uma que a senhora usava freqüentemente
e que seu marido gostava de alisar, e que estava
atirada sobre a mesinha de cabeceira ... Horrorizada, a senhora
fugiu.
" O ar fresco recompôs suas idéias. Enquanto caminhava
pelo convés compreendeu que alguém se havia antecipado de
alguns minutos, talvez alguns segundos, para matar seu amante.
Era indiscutível que acabara de ser assassinado, se bem que
não tivesse ousado tocar no cadáver ainda quente. Mas quem
o teria matado? Um rival? Uma idéia louca atravessou-se em
seu espírito: teria sido Jacques? Impossível: deixara seu marido
adormecido na cabina e, como chegara à de Bell pelo caminho
mais curto, ele não teria tido tempo de precedê-la para cometer
o crime. Quando muito, poderia tê-la seguido: mas não foi o
caso. A senhora estava completamente só no momento da macabra
descoberta.
"Quem então poderia ter apunhalado o jovem americano?
Uma outra mulher? E por que não? A verdade é que alguém acabava de lhe prestar
um serviço apreciável, livrando-a finalmente desse amante que a senhora não mais
queria ver e que insistia em persegui-la com a sua presença indiscreta e suas
ameaças ... John tinha sido assassinado e não por Jacques nem pela senhora.
Enquanto todos esses pensamentos turbilhonavam pela sua cabeça, caminhando pelo
tombadilho, ocorreu-lhe a idéia, por um momento, de livrar-se do revólver
atirando-o ao mar, mas conteve-se em tempo: por que, se a arma não fora
utilizada? E, assim, conservou o pequeno revólver que traz sempre consigo ... e
que nesse momento está em sua bolsa porque há muito tempo tem a intenção de
usá-lo contra si mesma, no instante em que tudo viesse à tona" ...
Com um gesto brusco e inesperado a mulher tentou abrir
a bolsa, mas Victor Deliot, que estava a seu lado na barra, segurou-lhe
as mãos, gritando:
- Nada disso, senhora! Precisa viver porque não matou,
porque seu marido ainda precisa da senhora, agora mais que
nunca, porque deve expiar pelo resto de seus dias os erros que
cometeu para com ele!
Enquanto falava, o advogado retirou da bolsa o revólver,
que entregou ao presidente antes de continuar:
- Uma vez senhora de si, voltou à sua cabina. Mas outra
surpresa a esperava: seu marido não se encontrava lá! A senhora
deve ter sido assaltada pela terrível dúvida: teria sido
ele o criminoso? Uma vez mais, a simples lógica lhe provava a
inviabilidade de tal fato: ele não teria tido tempo de precedê-la
na cabina de John Bell nem, principalmente, de cometer o crime
pois o americano deveria se ter defendido. Onde estaria Jacques?
E por que teria saído da cabina sozinho, sem que a senhora o
acompanhasse, como fazia todos os dias, desde a partida de
Nova York? Sua ansiedade crescente deve tê-la feito pensar em
voltar à cabina de seu amante para ver se ali encontraria seu
marido e levar mais longe suas investigações ... mas a idéia
terrível de tornar a ver o cadáver ensangüentado de John impediu-a.
E a prudência aconselhava-a a não perambular pelas vizinhanças do crime. Quem
sabe a porta entreaberta já teria atraído a atenção de alguém e o crime já fora
descoberto? O mais certo era esperar a volta de Jacques na própria cabina. A
espera prolongava-se ...
"Ao cabo de uns 20 minutos, sua ansiedade se transformara
em angústia. Que estaria fazendo Jacques? Onde estava? Quem
sabe, sem conseguir dormir, tinha ido procurá-la no convés? Seria
terrível se ele não se encontrasse lá! Este último pensamento
obrigou-a a sair da cabina ... Após uma meia hora de buscas
infrutíferas, conforme a senhora mesma declarou em seu primeiro
depoimento, tornou a dirigir-se à cabina na esperança de
que Jacques estivesse de volta. Mas ele não estava. Desesperada,
temendo pelo pior: teria havido um acidente? Jacques, cego-surdo-mudo,
teria caído ao mar? Assustada, a senhora dirigiu-se
imediatamente ao escritório do comissário de bordo. O resto
já sabemos.
"Durante todo o interrogatório foi condenada a calar-se:
contar sua macabra descoberta seria confessar sua presença na
cabina do americano! As suspeitas recairiam sobre a senhora:
talvez isso lhe fosse indiferente, mas seu grande medo era que
a verdade acabaria revelando a Jacques sua ligação com John
Bell e essa mágoa a senhora não lhe queria causar por nada
deste mundo! Ficou atordoada com o rumo que o caso foi tomando
durante os primeiros interrogatórios e mais ainda com
a estranha declaração de Jacques. Não compreendia por que
ele se acusava desse crime que não cometera nem o sentido da
frase: "Não se preocupe! Assumo toda a responsabilidade...
Fez bem em matá-lo ... Eu amo você." Ou Jacques enlouquecera
subitamente, convencendo-se de que a senhora era a criminosa,
ou era reaimente o culpado a despeito de sua lógica
pessoal que dizia o contrário. A partir desse minuto até agora,
Solange Vauthier, a senhora viveu atormentada por uma dúvida
abominável. E, mesmo quando compareceu a este Tribunal para
defender seu marido, intimamente não tinha certeza de sua
inocência.
"Agora que consegui provar a seu marido que a senhora
nada teve a ver com a morte de John Bell, acredito poder demonstrar-lhe
que Jacques não é também o assassino de seu
ex-amante e, principalmente, explicar por que se acusou falsamente
do crime. Se me permitirdes, Srs. Jurados, voltaremos ao
momento preciso em que Solange Vauthier saiu de sua cabina,
deixando Jacques Vauthier adormecido.
"O que a Sra. Vauthier jamais soube é que seu marido
não estava dormindo naquele dia. Mal Solange saiu da cabina,
ele se levantou, abriu a porta com precaução e seguiu sua mulher
à distância para não despertar-lhe a atenção. Suspeitava
de que ela se ia encontrar com o americano ... Como pôde
segui-la, cego, através do labirinto de escadas e corredores do
enorme transatlântico? Graças a seu olfato apuradíssimo...
Solange usava sempre o mesmo perfume, um perfume que ele
adora, pois como todos os cegos ele adora perfumes. Foi uma
espécie de jogo, para ele, segui-la pelo faro por escadas e corredores.
Deve ter sido alucinante o espetáculo daquela criatura
estranha tateando pelos corredores, subindo e descendo escadas,
as narinas dilatadas pelo perfume condutor. Estremecemos só
em imaginar os pensamentos de desespero e vingança qne devem
ter perpassado pelo espírito de Vauthier durante aquela espantosa
caminhada! A idéia de morte germinou certamente em
sua mente naquele momento! Ignorava o perigo que corria, não
tentava ao menos imaginar a cena diante da qual se encontraria
dentro de alguns instantes - cena que sua extrema sensibilidade
o faria compreender em segundos ... Esperava ainda que
sua companheira lhe fosse fiel, mas sua dúvida era cruciante:
o ciúme o aguilhoava ... Uma transformação terrível se operava
em Vauthier durante a sua perseguição silenciosa de fera a farejar
a presa. Os baixos instintos, reprimidos durante tantos anos
pela sábia influência de Yvon Rodelec, vinham à tona com um
cheiro de lama repugnante... . Vauthier estava disposto a tudo,
até a matar! Quem? Ainda não sabia... Ele ou ela? O primeiro que caísse em suas
mãos vingadoras... Talvez os dois! Caminhava para o seu destino percorrendo os
corredores das cabinas no rastro do perfume que conduzia para a vida ou para a
morte ...
"Diante da cabina de John Bell, teve um momento de hesitação: curioso, o perfume
continuava também pelo corredor, depois da porta. Vauthier estava perplexo. Qual
seria a pista certa? Devia entrar na cabina ou seguir pelo corredor? Finalmente,
decidiu-se e empurrou lentamente a porta entreaberta ...
"Vamos segui-lo agora pela cabina onde suas narinas lhe
revelam o cheiro do homem que ele detesta, o americano. Dois
odores que se misturam tão intimamente constituem sem dúvida
a prova irrefutável da culpabilidade dos dois... Eilos
ali... Não poderão escapar-lhe. Vauthier não necessita de armas:
suas mãos lhe bastam! Por que perder tempo à procura
de um cortador de papel? Contando com sua força hercúlea,
Vauthier nem por um minuto pensou em qualquer instrumento
para o crime. O único reflexo que lhe surge naturalmente, a ele
que não enxerga, é o que lhe inspira o segundo sentido que
ele utiliza com perícia: o tato... E esse sentido exige um contato
direto: ele estrangulará!
" Se insisto sobre esse ponto, Srs. Jurados, é unicamente
para retificar o erro psicológico monumental cometido durante
a reconstituição do crime. Se Vauthier tivesse matado não teria
utilizado um cortador de papel mas as mãos, sempre prontas
e ágeis! A própria reconstituição deve ter causado espanto ao
Inspetor Mervel e seus colaboradores. O gesto repetido pelo
doente com uma precisão de um criminoso profissional, era
perfeito demais para ser verdadeiro. Não passava de um gesto
estudado, repetido várias vezes durante a longa meia hora que
ele ficou sozinho com o morto. Vauthier sabia muito bem que
sua condenação dependeria, em grande parte, do modo como
aquele gesto fosse executado ... e ele queria assumir a responsabilidade
do crime para salvar sua mulher! Era preciso que os
investigadores o julgassem absolutamente capaz de utilizar um
cortador de papel com um golpe certeiro, apesar da sua cegueira!
"Foi nesse detalhe que a investigação começou a falhar.
Mas voltemos ao momento em que o enfermo avança lentamente
pela cabina, os braços em cruz, ameaçadores.. Esbarra na
cama e tropeça... Suas mãos, estendidas instintivamente para
a frente, tocam num corpo estendido... um corpo no qual ele
reconhece o cheiro execrável ao qual se mistura, além do perfume
de Solange, um outro mais acre, de sangue.
"Vauthier recuou, a seguir suas mãos tornaram a avançar
até o corpo do americano ... Seus dedos tocam o peito e sobem
lentamente até o rosto para se imobilizarem à altura do pescoço
onde se molham num líquido morno e viscoso: sangue! Os
dedos tateiam agora os contornos do talhe feito no pescoço.
O doente não tem a menor dúvida: o crime foi cometido com um punhal... Os dedos
descem novamente pelo peito e param durante algum tempo na região do coração. O
tato é infalível: o coração não bate mais. O americano está morto, assassinado!
... Os dedos febris começam a percorrer o leito em volta do cadáver à procura da
arma do crime ... De repente uma das mãos a encontra: Vauthier reconhece
imediatamente o cortador de papel idêntico ao que ele usa freqüentemente em sua
própria cabina para abrir as páginas dos livros que Solange lê para ele ...
"Os dedos ainda insatisfeitos continuam a tatear tudo na
esperança de algum indício ... Chegando à mesinha de cabeceira
imobilizam-se de novo, como petrificados, sobre um objeto
que acabam de tocar: uma simples écharpe de seda que estavam
acnstumados a acariciar e que está impregnada do perfume de
Solange... É o quadrado de seda que Vauthier batizou de
écharpe verde. Não há sombra de dúvida, ele a conhece muito
bem, é a écharpe de sua mulher! É também a prova irrefutável
de que Solange não está longe... mas onde se terá escondido?
"Vauthier abandona o leito para dar uma busca pela cabina.
Examina o toalete, abre armários e revira o compartimento destinado às malas... .
Nada! Ninguém! Subitamente ele compreende... Tudo se explica! As coisas se
tornam tão simples e claras! Sob um pretexto qualquer o americano deve ter
atraído Solange para sua cabina, mas ela reagiu... Não quis ceder a seus avanços
e - num gesto que ele, o marido acha heróico - atingiu o miserável com a
primeira arma que encontrou ao alcance da mão: o cortador de papel que deveria
estar sobre a mesinha de cabeceira...
"Infelizmente, em seu desespero, Solange perdeu a écharpe
verde que ficou na cabina após sua fuga. Agora sim ele compreendia
porque o perfume continuava pelo corredor das cabinas:
após ter matado o americano Solange fugira pelo corredor
em direção ao convés, sem ter mesmo tomado a precaução de
fechar a porta que ele encontrara entreaberta... Já que ela
fizera justiça com as próprias mãos, era preciso evitar a qualquer custo que
Solange fosse acusada do crime! Não havia um
minuto a perder.. Alguém poderia chegar de um momento
para outro e descobrir o crime antes que Jacques tivesse tempo
de disfarçá-lo. Uma esposa tão admirável merecia qualquer
sacrifício. O melhor meio, e o mais seguro para desviar suspeitas,
era substituir Solange no papel do criminoso. Ele, Jacques,
assumiria o crime. Pegaria, quando muito, alguns anos de prisão ...
Quem ousaria condenar à pena capital um surdo-mudo-cego
de nascença? Sua condição de pessoa anormal o beneficiaria
com circunstâncias atenuantes ... Além disso, seu principal
meio de defesa seria simples: um silêncio obstinado que impressionaria
os jurados e deixaria pairar sempre uma dúvida
sobre seus verdadeiros motivos. Sua pena seria leve... A seguir,
quando saísse da prisão, encontraria novamente ,sua maraviIhosa
companheira e, a seu lado, continuaria a viver uma existência
feliz, longe de qualquer rival...
"Todos esses pensamentos tumultuosos devem ter desfilado
por sua mente febril em poucos segundos. Trancou a porta. Era
preciso, antes de mais nada, fazer desaparecer as duas peças
comprometedoras: o estilete, no qual deviam estar gravadas as
impressões digitais de Solange, e a écharpe de seda verde. Atirou-a
ao mar pela vigia. Mas, quando ia fazer o mesmo com o
cortador de papel, Vauthier hesitou. Quando o prendessem, certamente
iriam perguntar-lhe como agira para matar o americano
com aquela arma. Era preciso repetir o gesto assassino que
Solange cometera para defender-se, até ser capaz de executá-lo
com perfeição, sem a menor hesitação. Seus dedos crisparam-se
sobre o cabo do cortador de papel. Por várias vezes seu braço
se ergueu e baixou mecanicamente. Uma vez certo de poder
repetir o gesto assassino na reconstituição do crime, lançou ao
mar o estilete que comprometeria sua mulher...
"Precisava agora deixar suas próprias marcas. Aplicou aqui
e ali, por toda a cabina, seus dedos sujos de sangue. Seu crime
estava assinado! Para dar a impressão de que o americano havia
reagido, arrastou o cadáver até a porta, derrubando propositalmente
alguns móveis. Agora só lhe restava entreabrir cuidadosamente
a porta para que a primeira pessoa a passar no corredor
descobrisse o crime e o criminoso. A espera foi longa e nela ele
encontrou um sabor especial. Seu terceiro sentido o fazia gozar
a plenitude do crime, o que ele já considerava como seu crime!
Eu já vos disse, Srs. Jurados, aqui mesmo nesta Corte, que
uma única vez em sua estranha existência, Jacques Vauthier
mostrou-se um bruto autêntico: foi durante essa espera ... Reviveu
com uma intensidade prodigiosa, as fases de um crime
que não cometera. Revia, em sua imaginação, seu braço justiceiro
encarniçando-se sobre o americano ... Já acreditava ser o verdadeiro assassino e
comprazia-se com seu crime imaginário... Jacques Vauthier não se arrependia de
nada: moralmente, ele também havia assassinado John Bell...
"Esse o seu crime, Srs. Jurados!"
As palavras de Victor Deliot agitaram a assistência. Danielle
estava comovida. Pensar que um homem de uma inteligência
excepcional pudesse transformar-se em um bruto capaz de
matar por amor, perturbara-a estranhamente. E o sentimento
de muda admiração que aos poucos ela dedicara ao acusado
só fizera aumentar: não era um homem maravilhoso esse Jacques
Vauthier, para quem nada tinha valor a não ser a mulher
amada?
Victor Deliot não prestou a menor atenção ao burburinho
que acabava de se formar. Deixou que os murmúrios se aquietassem
e continuou com a mesma calma que não o deixou um
só instante desde o início do julgamento:
- Peço-vos agora, Srs. Jurados, que olhai para Jacques
Vauthier, arrasado no banco dos réus. Vede como seu rosto,
até aqui impassível, mudou! Desta vez ele não representa mais
um papel: sua confusão é sincera, total... Seu sonho de amor
acaba de desmoronar-se... Acaba de saber também que não foi
Solange quem matou o amante, que não foi ela quem cometeu o
crime considerado por ele como reparador, na cegueira de um
coração destroçado. Ele não tem, portanto, razão alguma para
endossar a responsabilidade do crime ... No caso de o Sr. Presidente
não objetar, peço ao intérprete que faça ao acusado a
seguinte pergunta: "Jacques Vauthier, é exata a descrição que
fiz da maneira como descobriu e disfarçou o crime na cabina
de John Bell?"
O intérprete transmitiu a pergunta sobre as falanges do
acusado. Este se empertigou em seu lugar, aumentando ainda
mais sua estatura e, pela primeira vez, desde o início do julgamento
fez sinais rápidos com os dedos em alfabeto mímico que
toda a assistência podia acompanhar. O intérprete traduziu em
voz alta:
- A descrição é exata.
- Nesse caso - continuou o advogado - faça-lhe mais
uma pergunta e o deixaremos tranqüilo: "Jacques Vauthier, persiste
em declarar que assassinou John Bell no dia 5 de maio
último a bordo do navio De Grasse?"
Jacques, sempre de pé, respondeu pelo mesmo processo:
- Reconheço ter mentido para salvar minha mulher. Não
fui eu quem matou John Bell!
Deixou-se então cair sobre o banco, vencido por sua dor
moral.
- Srs. Jurados, ontem eu vos disse da minha certeza nesta
sensacional retratação de meu cliente antes do final dos debates.
Faltava-me, porém, colocar Jacques Vauthier diante de
provas de tal forma evidentes que ele não pudesse mais persistir
em encerrar-se no que continuo a chamar de uma admirável
mentira de amor... Só me resta agora formular três perguntas
à Sra. Vauthier, desculpando-me por importuná-la no estado
de prostração em que se encontra. Acredito que a Sra. Vauthier
não tem mais qualquer razão para, de agora em diante, esconder
a verdade... Solange Vauthier, responda sim ou não. John
Bell foi seu amante?
A jovem mulher levantou-se para responder em voz fraca:
- Sim, ele foi meu amante ...
- Sim ou não - continuou o advogado. - A senhora
foi à sua cabina em 5 de maio último, mais ou menos às duas
horas da tarde?
- Sim... Queria obter de John a promessa de que jamais
tornaria a procurar-me. Caso recusasse, creio que o teria matado
sem hesitação para salvar a felicidade de Jacques... Mas quando
entrei na cabina.. John já estava morto...
- Terceira e última pergunta, para a qual eu lhe peço um
sério esforço de memória, agora que minhas modestas deduções
pessoais permitiram-lhe reavivar certas lembranças: recorda-se
de ter visto a écharpe de seda verde na mesinha de cabeceira, ao
lado do cadáver?
- Não. Estava transtornada demais para observar pequenos
detalhes. Foi horrivel! John morto! Havia sangue por todos
os lados! ... Sangue! Sangue! Um mar de sangue!
Solange Vauthier cobriu o rosto com as duas mãos como
se quisesse escapar à visão apavorante: soluçava.
Danielle olhou para aquela linda mulher com certo desprezo.
Pensava com amargura que Solange chorava a morte
do amante enquanto não demonstrara grandes emoções em
relação ao marido ... Uma prova de que nunca amara Jacques e
que jamais o amaria com verdadeiro amor.
Victor Deliot continuou a perguntar, quase à meia-voz:
- A senhora não deu por falta dessa écharpe verde antes
do crime?
- Sim! Eu a usava quando embarcamos em Nova York...
Mas naquela mesma noite não a encontrei mais... Fiquei tristíssima ...
Nada disse a Jacques porque sabia que ele adorava
aquela écharpe.... Mas acabei por desligar e não pensar mais
nela.
- Para encurtar a história, Sra. Vauthier, sua écharpe
verde foi roubada pelo verdadeiro criminoso, três dias antes do
crime... Alguém que a conhecia muito bem, que sabia que
usava freqüentemente essa écharpe, impregnada de seu perfume...
Alguém que também se encontrava a bordo do De Grasse
com a intenção bem definida de matar John Bell deixando ao
lado do cadáver um objeto pessoal seu para incriminá-la inexoravelmente...
Alguém que nada tinha contra seu marido, apenas
contra a senhora e John Bell.
"Muitas noites passei acordado, procurando, como o Dr.
Dervaux e o Promotor Berthier, o móvel desse crime tão bem
arquitetado, cuja intenção evidente era incriminá-la. A senhora,
melhor que eu, sabe que se seu marido não tivesse feito desaparecer
a prova principal do crime - sua écharpe verde - e
espalhado pela cabina do morto suas próprias impressões digitais,
a senhora estaria seguramente no banco dos réus. E tenho boas
razões para acreditar que o melhor defensor deste mundo não
conseguiria livrá-la da condenação.
"Havia então alguém que queria o seu mal e o do jovem
americano. Mas quem? Alguém a quem vocês tivessem causado
um grande mal? Que espécie de mal? Material? Descartei logo
essa idéia como improvável. Moral? Aproximava-me da verdade...
E por que não sentimental? Encontramo-nos, portanto,
diante de um motivo passional... Como não pensei nisso antes,
nem ninguém antes de mim, nem mesmo a polícia e os advogados
que me precederam na Defesa? O criminoso ou o instigador
do crime - insisto particularmente nessa segunda hipótese
- poderia ser um homem ou uma mulher. No caso de ser um
homem pensei num amante repudiado pela senhora, Sra. Vauthier;
no caso de ser uma mulher, talvez uma amante de John
Bell, despeitada por ver-se substituída no coração do americano.
"Estudei detalhadamente a primeira hipótese, mas convenci-me de que a sua
aventura com o americano deveria ser encarada como uma fraqueza passageira.
Apesar disso, confesso que por um momento suspeitei de Jean Dony com o qual a
senhora tivera uma aventura bastante desagradável no Instituto de São José. Mas
comprovei que Jean Dony continuava como organista em Albi no momento do crime do
De Grasse. Restava a segunda hipótese: a da existência de uma rival. As coisas,
então, simplificaram-se de maneira impressionante ...
"Suponhamos, Srs. Jurados, que durante meses ou quem
sabe anos, John Bell tenha sido amante de uma mulher linda
mas sem escrúpulos, a dançarina de um night-club nova-iorquino
já citada anteriormente: Phylis Brooks. Sabemos agora ,
dito pela própria Solange Vauthier, que esta havia conhecido
John Bell alguns meses antes de voltar para a França e que
se haviam tornado amantes. Ora, o entusiasmo do americano
pela atraente Phylis deve ter diminuído sensivelmente desde o
momento em que este passou a interessar-se pela bela francesa.
Phylis Brooks, por nada deste mundo queria perder seu filão - não era ele por
acaso o filho único de um membro rico e influente do Congresso? - e muito menos
perdê-lo para outra mulher. Seu despeito transformou-se em ódio quando percebeu
que Solange Vauthier era agora a dona absoluta do coração de John Bell. É claro,
Sra. Vauthier, que este jamais lhe falou de Phylis Brooks e das cenas e ameaças
que ela fazia diariamente para que ele acabasse com o novo romance. Mas a
verdade é que, quanto mais a senhora procurava desligar-se de John, mais ele se
agarrava à senhora. Ao tomar conhecimento de sua volta repentina à França com
seu marido fingiu concordar com os desejos de seu pai, o Senador Bell,
propondo-lhe uma viagem à Europa que lhe permitiria livrar-se definitivamente da
perigosa Phylis. John embarcou, portanto, sem nada lhe dizer ...
daí sua surpresa ao encontrá-lo no navio, algumas horas após
a partida de Nova York!
"Phylis, entretanto, não estava completamente ausente.
Alguém a representava a bordo ... Seu marido! Sim, o marido
de Phylis que na véspera do embarque a havia surpreendido
na companhia do amante, o galante John... A cena fora apavorante
e tivera lugar no próprio apartamento de Phylis em
Nova York.
"Naquela tarde o marido saíra. Sabendo que ele só voltaria
tarde da noite, Phylis telefonou a John Bell. Queria revê-lo,
tentar uma última jogada para que ele não a abandonasse. John,
que no fundo sempre foi um fraco com mulheres, ficou um tanto
receoso com o tom imperioso daquela que ele pretendia abandonar
para sempre. Aquela criatura sem escrúpulos era bem
capaz de armar um daqueles terríveis escândalos mundanos que
tanto excitam os americanos e que terminaria por afetar a posição
e o bom nome de seu pai, o Senador Bell, honorável membro
do Congresso às vesperas de importante pleito eleitoral
John julgou mais sensato comparecer ao encontro com Phylis.
Tentaria amansá-la com um trato financeiro. Aliás, ele jamais
se iludira sobre a verdàdeira natureza dos sentimentos que a
dançarina nutria a seu respeito: o interesse de Phylis por John
baseava-se em seu nome importante e principalmente em seu
dinheiro. Phylis era uma típica garota da Broadway, bela e interesseira,
sem cultura, mas terrivelmente ambiciosa que só
media os homens pelo dinheiro que lhe davam, ainda mais que
seu marido não lhe dava nenhum.
"Quinze minutos após o chamado telefônico John já se encontrava no apartamento
de Phylis cujo marido não conhecia nem de vista. Phylis não lhe escondera sua
situação de casada, mas ele que não se preocupasse... Era desses maridos cômodos
que oferecem a vantagem de estar sempre viajando...
John ignorava mesmo o nome desse marido modelo. Phylis
usava seu nome de solteira, já conhecido nos meios artísticos.
"Não é difícil imaginar a conversa entre a que tentava prender
e o que tentava fugir. Deve ter começado por uma cena de
charme, mas o rapaz não estava disposto a cair novamente na
armadilha. Só via diante de si a imagem da doce francezinha
cujo comportamento era exatamente o oposto da sua agressiva
compatriota. John foi diretamente aos fatos:
"Quanto quer para me deixar em paz?
Cinqüenta mil dólares - respondeu Phylis sem hesitar.
"Finalmente após uma pechincha sórdida fechou-se o negócio
por 25 mil dólares. O cheque foi assinado, ao portador,
para que a moça pudesse recebê-lo de imediato. Infelizmente,
ao apresentá-lo no banco, no dia seguinte, Phylis Brooks teve
de apresentar documento de identidade. Neste constava seu
nome verdadeiro - o que passara a assinar depois de casada.
Phylis recebeu o dinheiro mas o número da sua carteira de identidade foi anotado
pelo banco: um número que foi preciso para meu correspondente de Nova York...
"Justamente quando John ia despedir-se da moça para
sempre, uma chave girou na fechadura: era o marido que chegava
antes da hora prevista. Os dois homens não se encontraram
- faço questão de frisar bem este ponto - porque o
amante conseguiu escapulir pela escada exterior de incêndio,
comum a quase todos os edifícios nova-iorquinos. O marido
teve apenas tempo de vislumbrar uma silhueta masculina. Voltou-se
para a mulher com uma brutalidade descontrolada. Em
um segundo, Phylis estava encurralada a um canto do quarto
com as mãos fortes do marido apertando-lhe implacavelmente
a garganta. Não havia escolha. A bela Phylis confessou num
gemido:
"Seu nome é John ... John Bell... Mas não o verei mais:
ele embarca amanhã com a mulher que ama no mesmo navio que
você...
"Sim" porque John Bell jamais soube que o marido de Phylis Brooks era francês e
que sua profissão o obrigava a uma viagem mensal à França a bordo do navio De
Grasse ...
"Reconciliados, uma hora depois, Phylis e o marido foram
jantar numa boate, para uma noitada divertida antes do embarque.
Ela aceitou, encantada com aquele desfecho inesperado,
pensando em embolsar os 25 mil dólares sem que o marido
soubesse. No final ela acabara levando vantagem com
aquela aventura.
"No dia seguinte, o marido embarcou. Como já deixamos
entendido, o De Grasse não tinha segredos para o marido francês
de Phylis que há três anos nele fazia a travessia entre Nova
York e Havre. O homem conhecia na ponta dos dedos a disposição
das cabinas de luxo e da primeira classe, o labirinto de
escadas e corredores, os menores hábitos dos passageiros, os regulamentos
de bordo, enfim, toda a vida intensa que animava
essa verdadeira cidade flutuante! Foi-lhe fácil localizar as respectivas
cabinas de Vauthier e John Bell. Logo nas primeiras
horas da travessia, tratou de apropriar-se de um objeto pessoal
pertencente àquela que pretendia responsabilizar pelo crime:
Solange Vauthier, a nova amante de John Bell.
"Essa vingança de um marido enganado foi maquinada com
uma lógica impiedosa: começaria por matar John Bell. Seria
a certeza de que Phylis jamais tornaria a ver seu amante. Reservar-se-ia
o prazer de anunciar ele mesmo, por telegrama lacônico,
a morte de John Bell a sua mulher. Seria uma surpresa
macabra acrescida de um temor salutar. Para o futuro, a bela
e volúvel criatura pensaria duas vezes antes de arranjar um novo
amante. Para assegurar sua impunidade, arranjaria as coisas de
modo que as suspeitas recaíssem sobre a amante do americano,
Afinal de contas, seria normal que John fosse assassinado por
uma mulher casada procurando salvaguardar sua honra...
Sabia que a morte do filho do senador provocaria impacto nos dois países. Sua
presumível assassina, contra a qual haveria provas irrefutáveis, seria julgada
por um tribunal francês e certamente condenada. Enquanto isso, ele, o assassino,
continuaria a viver uma existência não digo tranqüila, mas apaixonante ao lado
da bela Phylis ...
"No momento em que identificou Solange Vauthier, o homem
observou que ela usava uma vistosa écharpe de seda verde
ao pescoço. Após haver esbarrado em Solange duas ou três
vezes na confusão do embarque, foi atraído igualmente por seu
perfume característico - um perfume que devia impregnar a
écharpe de seda... Ele só teria de roubar a écharpe e largá-la
no local do crime, quando tudo estivesse consumado. Dessa forma
a polícia não teria a menor dúvida sobre a identidade da
assassina.
"É mister reconhecer que o plano estava bem arquitetado.
Infelizmente, sua execução ficou pelo meio: se a primeira parte
ou o crime propriamente dito seguiu o plano preestabelecido,
a segunda desmantelou-se pela intrusão - que poderíamos qualificar
de miraculosa - de Vauthier que foi o primeiro e o
único a cair na cilada armada por um cérebro maquiavélico,
quando descobriu na cabina do crime a écharpe perfumada de
sua própria mulher! O resto, nós já sabemos de sobra.
"A grande surpreza foi reservada à bela Phylis quando no
dia 6 de maio, ao abrir um jornal nova-iorquino viu estampada
em manchete a notícia do crime do De Grasse contra um importante
cidadão americano. O criminoso já estava preso a bordo,
mas não era seu marido e sim o de sua rival! A notícia não
encaixava com o cabograma lacônico recebido na véspera às
cinco horas da tarde e assinado "Henri", o primeiro nome de
seu marido: "Participo de sua dor".
"Outro fosse o temperamento de Phylis e ela teria sofrido um choque nervoso. Mas
seu espírito prático e frio, incapaz de se comover, logo se recompôs. O
importante é que embolsara 25 mil dólares. Contanto que o imbecil do marido não
pusesse tudo a perder! Sim, porque a polícia poderia fazer levantamentos e nas
suas investigações descobrir, por exemplo, que um dos últimos cheques assinados
em Nova York por John Bell havia sido pago a uma certa mulher com o mesmo
sobrenome do assassino! Philis ficara apreensiva. Foi por isso que a leitura dos
jornais, no dia seguinte, a espantou e, ao mesmo tempo a tranqüilizou. Saberia a
verdade quando seu marido viesse a Nova York, na próxima viagem ...
"Agora que conhecemos um pouco de Phylis Brooks só nos resta descobrir a
identidade de seu marido e conseqüentemente do assassino de John Bell. Será
trabalho relativamente fácil, graças aos elementos que já temos em mãos. Mas
antes peço à Corte que libere a presença da Sra. Vauthier, já tão sacrificada na
barra deste Tribunal" ...
- Pode retirar-se, senhora - disse imediatamente o Presidente
Legris.
Assim que a jovem mulher saiu, Victor Deliot recomeçou:
- Para estabelecer rapidamente esta identidade, parece-me
necessário chamar novamente a esta barra as primeiras testemunhas
que depuseram no início do julgamento. Refiro-me às
testemunhas puramente objetivas, isto é, as que não tinham
nenhuma ligação de parentesco ou amizade com o acusado e
que se limitaram a descrever fatos ou apresentar relatórios. Se
não me falha a memória, foram os seguintes: o camareiro Téral,
o Comissário Bertin, o Comandante Cardot, o Dr. Langlois, o
inspetor Mervel e o Professor Delmot. Com o consentimento da
Corte, proponho que cada uma destas testemunhas previamente
citadas volte à barra para responder a algumas perguntas que
tenho intenção de lhes fazer.
- A Corte não vê qualquer inconveniente e concorda -
respondeu o Presidente Legris.
- Agradeço à Corte ... Gostaria que as testemunhas se apresentassem na
mesma ordem estabelecida pelo Sr. Promotor durante seus depoimentos anteriores.
Creio que o primeiro foi o Sr. Téral...
- Sr. Téral - começou o velho advogado, quando o
camareiro do De Grasse se apresentou diante da barra - o
senhor declarou ter sido o primeiro a descobrir o crime ocorrido
na cabina de luxo ocupada por John Bell?
- Realmente ...
- O senhor iniciou a busca metódica nas cabinas de luxo
das quais estava encarregado, somente após uma ordem expressa
do Comissário Bertin, desejoso de atender ao pedido aflito da
Sra. Vauthier?
- Exato.
- Foi realmente uma surpresa para o senhor encontrar
entreaberta a porta da cabina de John Bell?
- Não estou entendendo ...
- Sr. Téral, não é verdade que o que mais o surpreendeu
foi encontrar o corpo caído atrás da porta e Jacques Vauthier,
arrasado, sentado na cama?
- É verdade..
- Ainda mais que - continuou o advogado - aquela
estranha visão não concordava absolutamente com a última
que o senhor tivera da cabina duas horas antes..
- Continuo sem compreender ...
- Pois agora tudo vai se esclarecer! - afirmou Victor Deliot. - Duas horas antes
da sua... digamos, descoberta oficial do crime, o senhor já havia entrado nessa
mesma cabina com o passe-partout que todo o camareiro de bordo possui para
facilitar seu trabalho a bordo... Procurou não fazer o menor ruído para não
perturbar seu ocupante, deitado de pijama, a fazer a sesta ... A observação dos
três primeiros dias de viagem lhe havia ensinado os hábitos de John Bell... Este
dormia o sono dos justos, mas estava ainda muito vivo em perfeita saúde ...
A seu lado, na mesinha de cabeceira, o, cortador de papel que
a Companhia Geral Transatlântica gentilmente põe à disposição
dos passageiros para facilitar-lhes a leitura. Esse objeto constituía
evidentemente uma arma ideal: o senhor sabia que o encontraria
lá, ao alcance da mão ... Aquele rapagão adormecido não ofereceria resistência e
passaria sem sentir deste mundo para o outro, deslizando do sono terrestre para
o eterno ...
- Não lhe permito! - berrou o camareiro.
O auditório levantou-se num imenso clamor.
- Silêncio! - impôs o Presidente Legris.
- Ah! Com que então não me permite, Sr. Téral - prosseguiu
Victor Deliot implacável. - Pois bem, acuso-o formalmente
de ter matado John Bell em sua cabina às 13:45 horas
no dia 5 de maio último, seccionando-lhe a carótida com o cortador
de papel que, certamente, não trazia suas impressões digitais,
pois deve ter tido a precaução de fazer o serviço com luvas.
Assim sendo, não teve o menor receio de deixar a arma do
crime sobre a mesinha da cabeceira ao lado da écharpe de seda
verde que roubara três dias antes da Sra. Vauthier. Por esta
razão permito-me perguntar-lhe, Sr. Téral, se a presença inesperada
de Vauthier perto do corpo da vítima não lhe teria causado
um choque nervoso? Confesse que havía motivos de sobra
para isso!
- Não compreendo nada do que estão dizendo - respondeu
Henri Téral.
- O senhor parece ter muitas dificuldades em compreender
as coisas, Sr. Téral, mas empalidece a olhos vistos! Já que
sua memória é tão fraca, vou reavivá-la contando-lhe como
descobri que é o senhor o criminoso! Como a investigação da polícia
e dos magistrados não me satisfez, tratei de realizar uma
por minha conta. Fiz um levantamento de toda a família Vauthier
assim como do Instituto de Sanac... Examinei tambêm
certos arquivos da Companhia Geral Transatlântica. Procurei
o nome de todos os passageiros que viajavam no De Grasse
naquela travessia fatal para John Bell. Examinei todos os cabos
expedidos do navio. E entre um monte deles, chamou-me a
atenção um assinado "Henri" e que dizia: "Participo de sua
dor" - em inglês: I share your sorrow. Essa mensagem, um
tanto empolgada não chamou a atenção dos radiotelegrafistas
do De Grasse que nem pensaram em ligar essa dor partilhada à
distância e o assassinato cometido a bordo, mas não passou despercebida
a um velho teimoso como eu! Anotei que esse cabo
assinado por "Henri" havia sido expedido do De Grasse apenas
meia hora após o crime e destinado a uma certa Phylis Brooks,
residente em Nova York. Encarreguei imediatamente um velho
amigo que mora naquela cidade há bem um quarto de século de
fazer uma investigação rápida e discreta sobre essa misteriosa
desconhecida. Fui logo informado sobre a personalidade especial
dessa linda jovem e suas mais recentes relações: entre elas
figurava um certo John Bell, tragicamente assassinado a bordo
do De Grasse em 5 de maio último. Soube também que essa tal
Phylis Brooks se havia casado há três anos com um cidadão
francês, um certo Henri Téral. Phylis continuava a usar seu
nome de solteira por necessidade de sua profissão. Quanto ao
telegrama, expedido de bordo do De Grasse, estava assinado
Henri. Esse Henri misterioso só podia ser o marido de Phylis
e se encontrava a bordo no momento do crime! Confesse que
a coincidência foi curiosa! Não encontrando nenhum Henri na
lista de passageiros pedi autorização à Companhia para percorrer
a lista da tripulação. Foi então que encontrei o nome Henri
acompanhado do sobrenome Téral, camareiro a serviço das
cabinas de luxo entre as quais se encontrava a ocupada por John
Bell.
"Tudo se esclarecia. A luz estava feita!"
Um murmúrio de admiração percorreu a audiência. Danielle,
espantada, contemplava seu velho amigo que, emocionado,
tentava em vão ajustar seu lorgnon no nariz grande.
Pigarreou e terminou:
- Minhas conclusões, membros da Corte e Srs. Jurados, serão simples: o
verdadeiro assassino de John Bell está diante de vós ... Será julgado no devido
tempo e temo que a tarefa de seu defensor será pesada... de qualquer forma,
pesada demais para as costas deste velho advogado. Pessoalmente, cumpri a missão
que me foi confiada pelo Presidente da Ordem, o advogado Musnier, no dia em que
me chamou a seu escritório para entregar-me a defesa de Jacques Vauthier que
ides absolver. Não espero agradecimentos de ninguém, principalmente de meu
estranho cliente a quem, infelizmente, causei um mal terrível, revelando-lhe a
má conduta de sua mulher, nem desta última, que deve detestar-me por ter tornado
públicos cértos fatos de sua vida íntima, nem, finalmente, da própria família
deste infeliz rapaz que jamais me perdoará por ter evitado que ele fosse
incriminado pura e simplesmente no Artigo 302 do Código Penal, pena máxima
exigida pelo Promotor Berthier com uma veemência que, graças a Deus, provou ser
inútil! A única pessoa que, do fundo do coração, deve estar agradecendo a Deus
que me inspirou nesta Defesa é sem dúvida o Sr. Rodelec, o admirável e modesto
Yvon Rodelec. Sua figura marcante elevou de maneira sensível o nível
terra-a-terra destes debates ...
E se por seu lado devo agradecimentos, é a vós, membros da Corte e Srs. Jurados,
que ouvistes esta longa oração de defesa com uma paciência que faz honra à
Justiça francesa ...

6. O VEREDICTO
Victor Deliot finalmente se encontrava na Rua Saints-Peres,
metido em seu roupão desbotado e nos seus chinelos velhos Afundado
em sua cômoda poltrona, os olhos semicerrados,
parecia prestar pouca atenção à conversa de sua jovem assistente
Danielle. O gabinete de trabalho estava ilumznado, como
sempre, apenas pela lâmpada do abajur sobre a escrivaninha.
- Deve estar cansado, mestre. Foi um dia extenuante.
Prefere que eu me retire?
- Não, minha filha - respondeu o advogado sem levantar
as pálpebras. - Fique um pouco mais: sua presença é
suavizante após toda aquela excitação do Tribunal... Além
do mais, se não estivesse a seu lado agora, eu me sentiria um
pouco só!
- Se soubesse como foi admirável, mestre! O senhor não apenas salvou Jacques.
Humanizou-o. Do bruto que era transformou-o em uma criatura sensível, capaz de
emoções ...
- Tanto melhor! Pelo menos você não se decepcionou com minha defesa. Senti que
todos os outros me detestaram ...
a começar por meu cliente que teria preferido ser condenado
por um crime que não cometera a saber da infidelidade de sua
companheira!
- Se tivesse visto, mestre, com que paixão a audiência o
acompanhou esta tarde durante quase três horas! Todo mundo
estava pendente de seus lábios: o senhor não era mais oadvogado
de Defesa mas encarnava toda a Justiça desempenhando
alternadamente os papéis de policial, juiz de instrução, procurador,
defensor e acusador!
- Enfim, fui uma espécie de Fregoli do Palácio ...
- O que vai acontecer agora, mestre?
- Coisas bem simples, minha filha. O verdadeiro assassino,
preso em plena audiência após minha Defesa, será julgado
e certamente guilhotinado: o que dará enorme prazer a Berthier...
Para ele, o que conta é uma cabeça, tanto faz que
seja de Jacques ou de Henri!
- E a mulher do assassino?
- A bela Phylis? Não se preocupe muito com ela! A estas
horas deverá estar num night-club da Boadway sem saber se
toma um pileque pela perda de um amante rico ou se festeja
a alegria de se livrar de um marido que ela desprezava.
- Por que não libertaram logo o pobre Jacques? Sofreu
tanto! Vai passar ainda esta noite na prisão?
- Minha filha, a Justiça é uma velha susceptível; está tremendamente
envergonhada de se ter tornado um tanto ridícula,
enganando-se redondamente ao tentar condenar um inocente!
Mas tranqüilize-se: antes de três dias Jacques Vauthier terá
voltado para sua mu her.
- Voltado para ela? Espero que ele não faça isso!
- É preciso, minha filha ... Que será dele sem ela? E como é um rapaz
inteligente já deve ter compreendido que a falta passageira de Solange é mínima
em comparação à dedicação que ela lhe devotou desde a infância. Não consigo
imaginar Jacques sem Solange nem Solange sem Jacques ...
- Seria monstruoso - respondeu Danielle indignada. -
Uma mulher fria, egoísta, indigna do amor que lhe votou essa
criatura admirável... Francamente, seria monstruoso!
Deliot examinou-a surpreso:
- O que é que há, minha filha?
Ela enrubesceu, confusa, forçando um sorriso.
- Ora... nada... Ou pelo menos nada mais além da
emoção de ter acompanhado de perto sua defesa... E o senhor,
mestre? O que pretende fazer agora?
- Eu? Tentar dormir tanto quanto você, minha filha,
esperando que meus sonhos não sejam povoados de surdos-mudos,
de senadores americanos, de cegos, de irmãos de São
Gabriel, de médicos-legistas e de dançarinas da Broadway!
- Boa noite, mestre ...
A jovem, já no portal, voltou-se para dizer, após uma breve
hesitação:
- Desculpe, mestre, mas antes de ir embora gostaria de
esclarecer um detalhe que me intriga.
- Fale.
- É o seguinte: compreendi perfeitamente o motivo e o
processo do crime ... Sua exposição diante da Corte foi suficientemente
clara.. Não consegui explicar, entretanto, como
descobriu o mistério dessa écharpe verde atirada ao mar por Vauthier
que foi o único a saber que ela se encontrava na cabina.
Foi um elemento essencial. Com efeito, se Vauthier não tivesse
encontrado perto do cadáver essa écharpe impregnada do perfume
de Solange e que ele conhecia muito bem, não teria tido
a prova material da culpabilidade de sua mulher... Teria
mesmo pensado que outra pessoa, desconhecida, teria matado
John Bell. E, nesse caso, não haveria razão alguma para acusar-se
do crime! Não teria havido portanto o caso Vauthier, mas
simplesmente o assassinato de um americano por X... e o
senhor não teria sido chamado pelo Presidente da Ordem!
- Você tem toda razão, minha filha, só que houve a famosa
écharpe! Como pensei nela? De uma maneira muito simples ...
Diria quase infantil ... Lembra-se da minha primeira
entrevista com Solange Vauthier, após um chamado telefonico
dela? Foi numa manhã, às 11 horas, na alameda central
do Roseiral de Bagatelle, lembra-se?
- Claro, mestre.
- Deve bem imaginar que, apesar de toda a minha miopia,
analisei a jovem mulher dos pés à cabeça durante nossa
primeira entrevista. Dois detalhes me empressionaram fortemente:
seu perfume característico e a écharpe de seda cinza
que ela usava ao pescoço ... Percebi imediatamente que era principalmente essa
écharpe que ficava impregnada de perfume e, automaticamente, voltei em
pensamento para uma passagem do romance O Isolado que acabara de ler na véspera,
na qual o autor, isto é, Vauthier, dizia mais ou menos isto ao descrever a
mulher de seu herói, surdo-mudo-cego como ele próprio ...
"Ela trazia sempre ao pescoço uma écharpe de seda verde que
tinha o cuidado de perfumar ... Era um sinal de carinho para
seu marido que amava, sem no entanto ter jamais visto a cor
verde. Toda vez que aspirava o perfume que emanava da
écharpe de seda, pensava no verde e o via à sua maneira." Fiz
imediatamente uma ligação entre o casal Vauthier e os dois personagens
principais do romance ... Deduzi então que o autor
do livro devia amar também a écharpe perfumada que sua mulher
costumava usar. Depois, não pensei mais no assunto. Tinha
tantas perguntas importantes a fazer a Solange! Três dias se
passaram antes que eu tivesse uma segunda entrevista com Solange
Vauthier, desta vez aqui neste mesmo escritório. Mal ela
entrou senti imediatamente seu perfume, sempre o mesmo, e
fui atraído pela écharpe de seda cinza que ela usava ainda com
o costume bem talhado. Concluí então que Solange Vauthier
gostava particularmente dessa écharpe, a menos que a usasse
freqüentemente para agradar ao marido, como a heroína do romance.
Mas então, por que cinza em vez de verde? Levado mais
pela curiosidade do que pelo dever profissional, disse-lhe que
gostava muito de seu perfume. Ela me respondeu com tristeza
que seu marido também o apreciava muito. Como eu sabia o
papel importante que o olfato desempenhava na vida do enfermo,
concluí, por mim mesmo, torno a repetir, que Vauthier
não podia passar sem esse perfume que tornava sensível a presença
de sua mulher. Seu marido sabia que esta écharpe era
cinza? Ela respondeu simplesmente: "Não, meu marido, felizmente,
sempre pensou que ela fosse verde! Não sei exatamente
a razão, mas ele adora a cor verde... Em sua imaginação
essa cor é sinônimo de frescor." Como eu parecesse intrigado,
ela acrescentou, mostrando o tecido cinza: "Esta écharpe
tem uma pequena história... Imagine que eu tinha uma écharpe
idêntica, mas verde, que Jacques comprara para mim nos Estados
Unidos. Ficava feliz quando eu a usava, freqüentemente a
tocava, acariciando-a com voluptuosidade... Infelizmente algumas
horas após a partida do De Grasse de Nova York, dei por
falta dela. Procurei-a por todo canto pois lembrava-me muito
bem de que a estava usando no dia do embarque. Fiquei pesarosa
por Jacques, que dava tanta importância àquele pedaço de
seda e temendo que ele visse nessa perda, que nada tinha de
trágico, um mau presságio, fui a uma das lojinhas de bordo e
por sorte encontrei esta, cujo tecido era idêntico à outra. Idêntico
ao tato, porque como bem pode ver, esta é de cor cinza.
Pensei que afinal de contas, Jacques jamais a veria e o que
importava era a sensação do tato. Comprei a écharpe e vaporizei-a
com meu perfume. Foi uma mentira piedosa: ele nada percebeu .
- Respondi a Solange - continuou - que em seu lugar
teria feito o mesmo e mudamos de assunto. Eu estava longe de
imaginar, naquele momento, que a chave desse misterioso caso
estava nessa écharpe que me parecia apenas um incidente sem
muita importância. Refleti ainda durante alguns dias. Viajei
para Sanac. Acompanhado do intérprete fiz visitas e mais visitas
a meu cliente na prisão.... E tornei a ver sua mulher pela
terceira vez: usava ainda dessa vez a famosa écharpe perfumada
que acabava por me fascinar! Aquilo se tornou para mim uma
verdadeira obsessão e pouco a pouco meu cérebro foi desenrolando
a meada do crime ... Ele realmente estava assinado
Vauthier, com suas impressões digitais espalhadas pelo local:
só que eram impressões demais! Mas então, se Vauthier não
era o verdadeiro criminoso e insistia em acusar-se, deveria ter
bons motivos para querer salvar o verdadeiro autor que ele
conhecia... Quem Vauthier teria interesse em salvar? Por
quem um homem faria tão grande sacrifício? A única pessoa que
respondia à minha pergunta era sua mulher, a linda e doce Solange.
Fora portanto Solange que matara John Bell e Vauthier
tinha prova disso ... Que prova? A écharpe verde, Deus do
céu! A écharpe-talismã que Solange devia ter deixado na cabina
do americano e que os dedos de Vauthier haviam apalpado...
a écharpe impregnada de seu perfume ...
- Mas então - prosseguiu o velho advogado - surgia uma nova pergunta, desta vez
angustiante: por que Solange teria matado John Bell? Por que querer livrar-se
dele?. Devia existir uma ligação secreta entre Solange e o americano... Ela o
teria matado sozinha ou com o auxílio de um cúmplice? John Bell era forte...
Poderia o assassino ser uma criatura tão frágil? Duvidoso ... A menos que, e foi
aí, minha pequena Danielle, que a luz se fez, o assassino fosse um desconhecido
de Solange que quisesse, por algum motivo, o mal do americano e da bela
francesa. Nesse caso, o melhor meio era matar o americano, fazendo tudo para
incriminar Solange: bastava para isso deixar uma prova da presença da jovem
mulher no local do crime... Tanto quanto eu, o assassino havia observado a
écharpe perfumada no pescoço de Solange ... Só tinha de roubar essa écharpe: o
resto você já sabe. Apenas eu me movimentava no terreno da hipótese: era preciso
provar que Vauthier descobrira ao lado do cadáver a famosa écharpe verde de sua
mulher. Foi por isso que, na véspera da abertura do julgamento, aconselhei
Solange a apresentar-se usando sua écharpe de seda cinza. Meu plano era preciso:
faria com que Solange, a um determinado momento, se aproximasse do acusado: o
suficiente para que este sentisse seu perfume ... Você mesma assistiu à sua
reação ... Fez tudo para arrancar do pescoço de Solange a écharpe que julgava
verde... aquela terrível prova da culpabilidade de Solange que encheu de espanto
toda a audiência: ele não podia compreender como podia estar lá a écharpe que
ele tivera o cuidado de fazer desaparecer no momento em que assumiu a
responsabilidade do crime! Aí está, Danielle, todo o mistério da écharpe
desvendado ...
- Desculpe, mestre, mas não me disse como adivinhou que ,
Vauthier se havia livrado dessa écharpe comprometedora
- Nesse caso, meti-me na pele do personagem: o que eu
teria feito no lugar de Vauthier, se descobrisse ao lado do cadáver
um objeto familiar pertencente à mulher que eu queria
salvar a qualquer preço? Eu o teria simplesmente atirado ao mar
pela vigia junto com a arma do crime. Boa noite, minha filha.
Não pense mais nisso: teria pesadelos inúteis!
Danielle ouvia absorta, como se não conseguisse libertar-se
da cena da cabina, onde um homem, por amor, acusava-se
falsamente de um crime. Dirigiu-se para a porta como um
autômato. No momento em que ia sair, Victor Deliot, que não
se havia movido da poltrona, chamou-a:
- Minha filha....
Pronunciou aquelas palavras com uma tal ternura que ela
se voltou, admirada.
- Venha aqui - continuou o velho advogado. - Aproxime-se para que eu possa vê-la
de perto ...
Ela obedeceu. Victor Deliot ajustou no nariz seu eterno
lorgnon. Examinou em silêncio sua jovem pupila:
- Minha filha, não estou gostando desse rosto desfeito ...
nem de seus olhos! O que há?
- Mas ... nada, mestre! - respondeu ela com vivacidade.
- Verdade? Então por que seus olhos estão cheios de
lágrimas?
- Garanto-lhe, mestre ...
Não teve forças para terminar. Desatou em soluços escondendo
o rosto contra o braço da poltrona.
- Vamos, o que é isso! - disse Victor Deliot com um gesto de que ela sempre o
julgara incapaz: acariciava-lhe os cabelos... Seu tom áspero suavizou-se quando
acrescentou: - Pensa então que não compreendi? Que um velho urso como eu é
incapaz de perceber os sentimentos íntimos, às vezes estranhos e puros que podem
animar o coração de uma filha? Olhe para mim... - obrigou-a a erguer a cabeça -
e ouça-me: Jacques Vauthier, minha menina, não pertence ao mesmo mundo seu e
meu. Ele e você seriam sempre completamente estranhos um para o outro ao
contrário do que julgou sentir à medida que o observava no decorrer do
julgamento. No início, ele lhe causava um horror injustificado. Depois, aos
poucos, foi se deixando enternecer. Tudo isso, minha filha, é coisa passageira:
são sentimentalismos de uma menina com um coração de ouro. E gosto que seja
assim, Danielle. Mas para consagrar a vida a um surdo-mudo-cego de nascença é
preciso ter um coração de aço ...
Solange possui esse coração... Teve uma fraqueza passageira,
perfeitamente desculpável: sei que não recairá. A crise passou.
Quanto a você, guarde bem, se quer ter sucesso na nossa profissão
não se deixe jamais enternecer por um cliente! Ou melhor,
não faça como eu! Veja o que sou: um velho advogado
fracassado! Vamos, minha filha, levante-se e volte para casa
sorrindo. É o que sempre se deve ter a coragem de fazer depois
de uma desilusão de amor.
O dia estava radioso: abril havia recoberto de brotos verdejantes
as árvores desnudas da capital, os pardais recomeçavam
a piar nos parques e nos parapeitos das janelas. Victor
Deliot passeava com seu chapéu de palha amarelecido ... Seguindo
rito imutável, o velho advogado - após ter subido a
grande escada do Palácio da Justiça e atravessado a Sala dos
Passos Perdidos - dirigiu-se para o vestiário dos advogados.
Trocou o chapéu velho pelo velho barrete. Enfiou então a toga
sobre o terno surrado. A pasta de couro deformada, onde se
encontrava a eterna Gazette du Palais, completava a figura.
Victor Deliot voltara aos velhos hábitos.
Na entrada da Galeria Marchand deparou com Musnier,
o Presidente da Ordem, que exclamon:
- Deliot! Nem acredito! Então meu velho, o que tem feito? Há mais de cinco meses
não é visto no Palácio! Mas , claro, depois do seu triunfo no caso Vauthier...
- Não exageremos ... - respondeu o advogado com
tranqüilidade.
- Como, meu velho? Se todo o Palácio e a imprensa não
fizeram outra coisa se não falar de você! Ficou célebre da noite
para o dia e então, pssst! Nada de Victor Deliot, desapareceu
o Grande Homem! O que lhe aconteceu?
- A mim? Nada ... Esperei pacientemente em minha
casa que me viessem propor grandes causas.
- E foram?
- Ninguém. Eu já desconfiava... O que quer? Pertenço à
velha guarda... Atrapalho os arrivistas... Além do mais não sou muito
sociável...
- Vamos, deixe de pessimismo! Ouça: tenho justamente
um caso sensacional para lhe propor... Trata-se de um aleijado
que matou a mulher...
- Decididamente, você quer fazer de mim o advogado dos milagres! Não, obrigado!
Prefiro retornar à minha tranqüila Vara Correcional...
- Está louco?
- Talvez... a menos que eu seja sábio!
- Bem, você é livre para agir como lhe parecer melhor, o que não lhe impede de
vir visitar-me de vez em quando. Tenho sempre bons charutos ...
- Ah, tenta atingir meu ponto fraco? ...
Victor Deliot esboçou um sorriso, enquanto Musnier se
afastava. E continuou tranqüilamente sua caminhada pelo Palácio,
passando de cartório em cartório e de Vara em Vara para
consultar os quadros de avisos com seus casos pendentes. Três
horas mais tarde, perdido na multidão, saía do vestiário dos
advogados sem a toga e novamente com seu velho chapéu de
palha. O ar estava perfumado: incitava ao sonho. Victor Deliot
retomou o caminho de sua casa, vagabundeando pelo Cais
dos Grandes-Augustins, remexendo velhos sebos. Parava diante
de cada tabuleiro, folheava um livro amarelecido, ajustava seus
lorgnons para melhor contemplar uma velha estampa...
Mas na realidade nada via... continuava perdido em seus
sonhos que o levavam para longe, bem longe, até o Instituto
São José, em Sanac; do qual sentia grande saudade. Pelo
menos lá se encontrava a verdadeira paz e se conseguia esquecer
rapidamente de todas as maldades e paixões dos homens.
Chegando ao patamar de seu apartamento da Rua Saints Peres, ficou deveras
surpreendido de ali encontrar alguém que o esperava: Yvon Rodelec. Um Yvon
Rodelec de batina preta, revirando nas mãos rudes seu chapéu de três pontas como
se estivesse intimidado. Um homem de olhar luminoso, mesmo sob seus óculos de
lentes grossas, um velho que, apesar da sua alta estatura, parecia se ter
encurvado um pouco mais ...
- Que surpresa agradável! - exclamou o advogado, entrando
no apartamento com seu visitante. - Que coincidência!
Voltando do Palácio, vinha pensando justamente no senhor, em seus colaboradores
de Sanac, em seus alunos também ...
- Antes de mais nada quero desculpar-me, caro mestre,
- disse com suavidade o Irmão de São Gabriel, - por não lhe
ter vindo agradecer há mais tempo tudo o que fez pelo meu
pequeno Jacques ... Mas não ousei revê-lo até que tudo tivesse
terminado e bem terminado!
- Claro! O verdadeiro culpado teve seu castigo e o inocente
foi inocentado ... Como vai meu ex-cliente?
- O senhor deve ter estranhado que nem ele nem sua mulher tenham vindo
expressar-lhe sua gratidão ...
- Isso faz parte da vida, Sr. Rodelec... O senhor mesmo
deve ter aprendido há muito tempo que a verdadeira recompensa
não é o reconhecimento humano. Mas deixemos isso de
lado e voltemos à minha pergunta: como vai Jacques?
- Bem. Muito bem mesmo ... Posso até lhe dizer que uma nova felicidade vai
começar para ele ...
- Que boa notícia!
- Sim, a finalidade principal da minha viagem a Paris
é de reconciliá-lo com sua mulher, que ele perdoou de todo coração.
- Sempre achei que, apesar de certas aparências, essas
duas criaturas foram feitas uma para a outra. A ternura não é
o elemento durável de um grande amor?
- Estou feliz em poder dizer-lhe que convenci Jacques
e Solange a voltar a Sanac durante alguns meses. Terão oportunidade
de se reencontrarem mutuamente naquela atmosfera
que lhes foi tão salutar. Amanhã cedo, tomaremos o trem para
Limoges.
- Estou encantado com o que me disse. E o senhor, Sr.
Rodelec? E se falássemos um pouco do senhor? Como tem
passado?
- Vou envelhecendo como todo mundo ... Apesar dos óculos, não enxergo muito bem
e... estou cada vez mais surdo. Admita que seria curioso, após ter procurado
durante toda a vida dar a crianças infelizes o meio de enxergar sem olhos e
ouvir sem ouvidos, tornar-me cego e surdo! Se isso me acontecesse, agradeceria a
Deus que o teria consentido para que eu compreendesse de uma vez por todas o
verdadeiro sentimento que experimentam meus queridos alunos ...
- O senhor jamais mudará, Sr. Rodelec ...
- Nem o senhor, meu caro mestre!
- Não é privilégio dos velhos assemelharem-se um pouco?
- Apesar do extremo prazer em conversar com o senhor ,
sou obrigado a deixá-lo - disse Yvon Rodelec levantando-se.
- Tenho ainda uma visita a fazer...
- Aposto que se trata de um novo doente que tenciona
carregar para Sanac!
- Decididamente, caro mestre, o senhor não faria feio
como psicólogo ... Sim, trata-se de um pobre menino atingido por essa tripla
deficiência desde seu nascimento. Não sei ainda se poderei levar esse menino
para Sanac apesar do meu imenso desejo de não deixar este mundo antes de ter
educado um vigésimo aluno ...
Sozinho, Victor Deliot afundou-se na poltrona após ter
calçado os chinelos e se ter enrolado no roupão desbotado. Suas
pálpebras estavam fechadas, mas ele não dormia. Sua mente
rememorava todo o caso Vauthier com suas testemunhas, algumas
odiosas, outras desastrosas por excesso de boa vontade, seu
promotor astucioso e sutil, o presidente calmo e compreensivo,
o acusado, enfim, murado em seu silêncio ... Imaginava a estranha
viagem que se realizaria no dia seguinte no compartimento
do expresso de Limoges no qual estariam quatro pessoas:
Jacques, Solange, Yvon Rodelec e seu novo pensionista ... O
advogado conhecia por demais o coração do velho educador
para saber que não resistiria à necessidade de educar uma nova
inteligência com o desejo secreto de atingir uma alma... Quatro
pessoas que desembarcariam na pequena estação de Sanac
algumas horas mais tarde para ali encontrar um Irmão Dominique
sorridente e tagarela que lhes contaria as últimas novas
da portaria e os conduziria até a velha carroça recoberta por
um toldo escuro que servia para as idas à cidade e o abastecimento
da instituição. Uma carroça que fazia de ônibus e de
veículo de carga ao mesmo tempo, cujo cavalo cinza-malhado
rivalizava em velhice com o fiel Valentin que acumulava as
funções de jardineiro e de cocheiro. Victor Deliot sabia que no
Instituto São José cada um exercia várias funções, não tendo
portanto oportunidade para se entediar.
Sempre sonhando, via a carroça sacolejante, onde no
banco ao lado de Valentin ia o Irmão Dominique distribuindo
bons dias de um lado e de outro. Quem poderia suspeitar de
que no interior daquela velha carroça se encontrava o vigésimo
morto-vivo que ia reunir-se a seus irmãos de miséria sem
ter consciência do que lhe iriam fazer?... O vigésimo aluno
de Yvon Rodelec sentado ao lado do décimo nono, Jacques
Vauthier, não mais um bruto, mas um homem como os outros,
capaz de enfrentar uma nova felicidade.
O trajeto entre a estação e o Instituto era longo: o advogado notara isso no dia
da sua primeira visita a Sanac, visita que jamais esqueceria. Um trajeto que
parecia interminável para um homem normal, mas nem Vauthier com sua fisionomia
enganadora, nem Solange, tão frágil, nem Yvon Rodelec, tão bom, nem o novo
pensionista, amorfo, nem o humilde Valentin, nem o tagarela irmão porteiro eram
pessoas normais. Constituíam personagens à parte num século de velocidade, de
progresso, de covardia, de egoísmo ...
Victor Deliot via distintamente a carroça parar diante de
um enorme portal sob o qual estava escrito em letras brancas:
"Instituto Regional dos Surdos, Mudos e Cegos". Os muros
que flanqueavam o portão pareciam imensos, semelhantes aos
de uma prisão, em tijolo lavado pelas intempéries. O portão se
abriu e a carroça atravessou o limiar num último esforço. Enquanto
os pesados batentes tornavam a fechar-se, Victor Deliot
julgava ouvir o martelar dos cascos e o rangido das rodas
sobre o cascalho do pátio interno. Depois, o silêncio. Nenhum
ruído atravessava os altos muros.
O novo pequeno bruto devia estar prostrado, esperando
que o bom gênio desconhecido viesse lhe dar a Luz... As
jovens mãos da doce Solange viriam em auxílio das mãos enrugadas
e envelhecidas de Yvon Rodelec para a realização de
um novo milagre. Quem sabe o instinto maternal da jovem,
que ainda se poderia extravasar num filho de sua própria carne,
inventaria uma nova boneca de trapo semelhante a Flanelle
e seria capaz de estabelecer com o pequeno enfermo o primeiro
contato com a vida?
FIM

'O BRUTO'
GUY DES CARS (1911-1993)
-texto integral-
Título original: La Brute
1.ª Edição: 1951
Tradução: Elia Ferreira Edel
Editora Record
17.Out.2017
Publicado por
MJA
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