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 Sobre a Deficiência Visual


O Aedo Cego

-tradução de Paulo Quintela-

Hölderlin

Elegy: Blind Musician - Mikhail Nesterov, 1928
Elegia: Músico Cego - Mikhail Nesterov, 1928


“Ελνσεν αινóν αχοζ απ óμματωυ Αρηζ”
— Sophocles —


Onde estás, Luz jovem! que sempre me acordavas
À hora da manhã, onde estás tu, Ó Luz?
O coração 'stá desperto, mas a noite
Me conserva cativo com sagrado encanto.

Dantes gostava de escutar a vinda da aurora,
Gostava de esperar por ti na colina, nunca em vão!
Nunca, ó Bela, me enganavam os ares
Teus mensageiros, pois tu vinhas sempre,

Vinhas, espaIhando ventura por toda a parte, pelo carreiro
Costumado com toda a tua beleza. Onde estás, ó Luz?
O coração está de novo alerta, mas a noite infinita
Continua a deter-me e impedir-me.

As folhagens dantes verdejavam, e as flores
Brilhavam pra mim como os meus próprios olhos;
A face dos meus não estava longe,
Iluminava-me o caminho, e lá no aIto

E em volta dos bosques eu via passar
As asas do céu, quando eu era jovem;
Agora estou sozinho, calado, de uma
Hora pra a outra, e o meu pensamento

Cria a seu bel'prazer figuras de dor
E de amor tiradas de dias mais claros,
E ponho-rne a escutar ao longe, se não virá
Um Salvador amigo que me acuda.

Depois ouço às vezes a voz do Tonante
Ao mei'dia, quando ele se aproxima com passo de bronze,
A casa treme de seus passos, e o chão ressoa
Por baixo dele e o monte repercute.

Depois ouço à noite o Salvador, ouço-o
Matando, o Libertador, ouço-o vivificando.
O Tonante que corre do Poente
Pra o Oriente, e vós, ó minhas cordas!,

Segui-lo com vossa música, e a minha canção
Vive com ele, e, como a fonte segue a corrente
Para onde ela quer, eu me sinto arrastado e
Sigo o seu passo seguro na carreira errante.

Pra onde? Pra onde? Ouço-te aqui e acolá,
Ó Resplandecente! e a terra toda em volta ressoa.
Onde páras tu ? e que é aquilo, e que é aquilo
Por sobre as nuvens? e o que é que eu sinto?

Luz! Luz! por sobre as nuvens que se precipitam! Sê
Benvinda! os meus olhos florescem para ti !
Ó Luz da juventude! ó ventura! de novo
Como dantes! Mas mais imaterial tu corres,

Ó fonte de oiro, do cálice sagrado! E tu,
Ó solo verdejante ! berço pacífico! E tu,
Casa de meus pais! E vós, meus queridos,
Que outrora me acolhíeis, vinde,

Oh ! aproximai-vos, que eu reparta convosco a alegria,
Ó vós todos, que vos abençoe o que de novo vê!
Oh ! tirai-me a vida, que eu a suporte,
Tirai-me do peito este dom divino!

 

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Der blinde Sänger
Wo bist du, Jugendliches! das immer mich | Zur Stunde weckt des Morgens, wo bist du, Licht! | Das Herz ist wach, doch bannt und hält in | Heiligem Zauber die Nacht mich immer. / Sonst lauscht' ich um die Dämmerung gern, sonst harrt' | Ich gerne dein am Hügel, und nie umsonst! | Nie täuschten mich, du Holdes, deine | Boten, die Lüfte, denn immer kamst du, /  Kamst allbeseligend den gewohnten Pfad | Herein in deiner Schöne, wo bist du, Licht! | Das Herz ist wieder wach, doch bannt und | Hemmt die unendliche Nacht mich immer. / Mir grüßten sonst die Lauben; es leuchteten | Die Blumen, wie die eigenen Augen, mir; | Nicht ferne war das Angesicht der | Meinen und leuchtete mir, und droben / Und um die Wälder sah ich die Fittiche | Des Himmels wandern, da ich ein Jüngling war; | Nun sitz ich still allein, von einer | Stunde zur anderen und Gestalten / Aus Lieb und Leid der helleren Tage schafft | Zur eignen Freude nun mein Gedanke sich, | Und ferne lausch ich hin, ob nicht ein | Freundlicher Retter vielleicht mir komme. / Dann hör ich oft die Stimme des Donnerers | Am Mittag, wenn der eherne nahe kommt, | Wenn ihm das Haus bebt und der Boden | Unter ihm dröhnt und der Berg es nachhallt. / Den Retter hör ich dann in der Nacht, ich hör | Ihn tötend, den Befreier, belebend ihn, | Den Donnerer vom Untergang zum | Orient eilen, und ihm nach tönt ihr, / Ihm nach, ihr meine Saiten! es lebt mit ihm | Mein Lied, und wie die Quelle dem Strome folgt, | Wohin er denkt, so muß ich fort und | Folge dem Sicheren auf der Irrbahn. / Wohin? wohin? ich höre dich da und dort | Du Herrlicher! und rings um die Erde tönts. | Wo endest du? und was, was ist es | Über den Wolken und o wie wird mir? / Tag! Tag! Du über stürzenden Wolken! sei | Willkommen mir! es blühet mein Auge dir. | O Jugendlicht! o Glück! das alte | Wieder! doch geistiger rinnst du nieder, / Du goldner Quell aus heiligem Kelch! und du, | Du grüner Boden, friedliche Wieg! und du, | Haus meiner Väter! und ihr Lieben, | Die mir begegneten einst, o nahet, / O kommt, daß euer, euer die Freude sei, | Ihr alle, daß euch segne der Sehende! |O nehmt, daß ichs ertrage, mir das | Leben, das Göttliche mir vom Herzen.


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Hölderlin (1792)
Hölderlin
 

O Aedo Cego
Friedrich Hölderlin
-tradução de Paulo Quintela-
Der blinde Sänger (1801)
in Hölderlin | Poemas
de Paulo Quintela
Atlântida, Coimbra - 2.ª edição (1959)
 


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14.Abr.2016
Publicado por MJA