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 Sobre a Deficiência Visual


O Rosário

Florence Barclay

-excerto-

Illustração de Blendon Campbell para o romance The Rosary [1909] de Florence Barclay. Fonte: Wires and Waves
Ilustração de Blendon Campbell para
"The Rosary" de Florence Barclay, 1909

 

[...] Nesse momento saía para o terraço um grupo de ingleses vindos da sala de jantar. Haviam chegado nessa noite e jantado mais tarde do que os outros hóspedes. Jane mal reparara neles: uma mulher bonita e a filha, dois rapazes, e um homem mais idoso com aspecto marcial. Não interessavam a Jane, mas interromperam-lhe os devaneios, pois sentaram-se numa mesa próxima e, à maneira britânica, continuaram a conversar em voz alta como se estivessem sozinhos. Dois ou três estrangeiros que, muito pacíficos, ali haviam ficado a fumar depois de tomarem o café, levantaram-se e foram para debaixo das palmeiras, em busca de mais sossego. Jane faria o mesmo se não sentisse receio de perder a doce sensação da proximidade de Garth.

O homem mais velho tinha na mão uma carta e um exemplar do Morning Post acabado de receber de Inglaterra. Todos comentavam as novidades da carta e uma notícia que ele estivera a ler em voz alta.

— Pobre rapaz! Que tristeza! — disse o pau de cabeleira do grupo.

— Estou certa de que ele antes queria ter morrido! — exclamou a rapariga. — Eu preferia.

— Oh, não! — disse um dos rapazes inclinando-se para ela. — Viver é bom, em quaisquer circunstâncias.

— Mas cego — volveu aquela voz juvenil — cego para o resto da vida! Que horror!

— Foi com a própria espingarda dele? — perguntou a senhora mais velha. — E como é que estavam a caçar no mês de Março?

Jane teve um sorriso um tanto impiedoso. O amor pelos animais, o respeito pela vida de todos os seres, até do mais pequeno insecto, eram para ela um culto como o da beleza para Garth. Nunca mostrava ter pena de quem sofria um acidente de caça. Quando aqueles que se entretinham a infligir dor cruel se feriam, ou quando alguém, na ânsia de se apoderar de uma vida palpitante, perdia a sua, Jane considerava isso um castigo justo. Não sentia pena, nem a simulava. Por isso sorriu e pensou: «É menos um par de olhos para visarem pela mira da espingarda uma coelha que vai em doida correria para a toca, onde a esperam os filhos; menos umas mãos que transformariam o voo soberbo da ave num lastimoso fardo de penas esgarçadas. É mais uma probabilidade para os veados, quando correm majestosos a fim de se juntarem às corças, no fundo do vale».

Entretanto, o sujeito de aspecto marcial tornara a pôr os óculos e aproximara-se da luz para reler a carta.

— Não — disse daí a instantes — as grandes caçadas acabaram. Andavam apenas aos coelhos.

— E ele é que disparou? — perguntou a rapariga.

— Não — respondeu o possuidor da carta — e por isso ainda é de lastimar mais. Há um ano ou dois que deixara de caçar. Nunca, aliás, foi grande apreciador de caçadas, pois odiava a morte sob todos os aspectos. Estava no parque do seu castelo a pintar um quadro quando avistou uns caçadores e viu o que ele considerou crueldade para um coelho ferido. Pulou por cima da cancela com o fim de protestar e salvar o bicho de maior sofrimento. Foi então que um dos homens, sobressaltado com aquela aparição, disparou sem querer. A carga bateu numa árvore próxima e veio de ricochete apanhá-lo, mas não em cheio. A cara ficou apenas levemente crivada, e o cérebro está ileso. O chumbo, porém, atingiu-lhe a retina dos dois olhos e ele perdeu a vista para sempre.

— Que pouca sorte! — disse o rapaz.

— Não compreendo um tipo que não gosta de caçar — observou o mais novo, que ainda não falara.

— Ah, isso é porque não o conheces! —volveu o sujeito de ar militar. — Era uma criatura tão cheia de vida! Ninguém o podia imaginar moribundo ou a espalhar a morte. E o seu amor do belo era quase uma forma de adoração religiosa. Tinha uma maneira de nos fazer descobrir beleza em coisas para que mal tínhamos olhado... E agora, coitado, não verá nada...

— Tem mãe? — perguntou a senhora.

— Já morreu. Está absolutamente só no mundo. Amigos tem-nos às dúzias; era um dos rapazes mais populares de Londres, e todos o recebiam de braços abertos. Mas parentes não tem nenhum, creio eu, e nunca se quis casar. Coitado! Agora há-de lastimar haver sido tão exigente. Podia ter escolhido a mais linda de todas as raparigas bonitas, se quisesse. Mas não! Não passava duma alegre camaradagem, e só pensava na Arte. E agora, como diz Lady Ingleby, jaz na escuridão, só e desesperado...

— Mudemos de assunto! — pediu a rapariga, recuando a cadeira e pondo-se de pé. — Quero esquecer esse caso tão triste. Imaginem o que será uma pessoa acordar e não saber se é dia ou noite, e ter de estar no escuro... Vamos dar um passeio e conversar de coisas alegres.

Todos se ergueram e o rapaz enfiou o braço no da jovem, contente pelo que lhe proporcionava o pretexto da agitação dela.

— Esquece tudo isto — disse ele ternamente — e vamos ver a velha Esfinge ao luar.

Saíram do terraço, seguidos pelo resto do grupo; mas o homem a quem pertencia o Morning Post pô-lo sobre a mesa e demorou-se a acender um cigarro.

Jane levantou-se e dirigiu-se a ele.

— Dá-me licença que eu deite uma vista de olhos pelo seu jornal? — perguntou sem mais preliminares.

— Pois não — respondeu ele, com a maior cortesia. Depois, olhou para Jane com mais atenção. — Ah, é Miss Champion! Como tem passado? Não sabia que estava por estes sítios.

— O General Loraine! A sua cara parecia-me ser familiar, mas não o tinha reconhecido. Peço-lhe que me empreste este jornal. Não se prenda por minha causa. Vá ter com os seus amigos, que depois nos encontraremos.

Jane esperou até que todos desaparecessem e o som das suas vozes e risos se apagassem na distância. Voltou então para a cadeira, para o lugar onde Garth lhe parecera tão próximo, e olhou uma vez mais na direcção da Esfinge e da Pirâmide monumental. Depois, pegou no jornal e abriu-o.

Com a vossa eterna luz
Desfazei nossa cegueira...

Sim, era Garth Dalmain, o seu Garth de olhos cintilantes de amor, que jazia cego, desamparado, sozinho na sua casa distante...

As rochas alvacentas de Dover foram-se tomando cada vez mais nítidas até que por fim se ergueram do mar como uma muralha branca, símbolo da inegável pureza da Inglaterra, da integridade e da honra sem mácula do seu trono, da sua igreja, do seu parlamento e da sua conduta. «Força e pureza», pensou Jane, junto da amurada do convés. Após dois anos de ausência regressava cheia de saudades à terra natal. Contemplava o Castelo de Dover, tão belo na luz opalina dessa tarde de Primavera, quando, com um baque de coração, lhe acudiu ao espírito súbita lembrança e ela fechou os olhos.

Desde que, na esplanada do Hotel Mena, lera aquela notícia, todos os espectáculos de beleza lhe avivavam a dolorosa recordação.

Uma hora depois de saber da catástrofe ia ela já de carro pela longa estrada que vai ter ao Cairo. No dia seguinte tomara o vapor em Alexandria; desembarcara em Brindes, e, depois duma viagem ininterrupta, alcançava finalmente as costas da Inglaterra. Dentro de poucos minutos desembarcaria, e então, com mais duas jornadas, chegaria ao seu destino. Desde o instante da partida que sabia qual o rumo a tomar: o do quarto onde a dor, as trevas e o desespero tentavam derrubar a coragem moral, o juízo e o instinto de conservação do homem que ela amava.

Sabia que ia ter com Garth, mas sentia-se incapaz de resolver a maneira como o faria. O seu bom-senso a advertia de que era problema complicado, embora o coração impaciente e dorido lhe gritasse: «Oh, meu Deus, pois não é coisa tão simples?! Cego e sozinho! O meu Garth!»

Compreendia, porém, que só um espírito imparcial e mais forte que o dela poderia solucionar o problema e que a melhor maneira de chegar até Garth era passar primeiro pelo consultório de Deryck. Por isso, ao chegar a Paris, telegrafara ao médico, e por enquanto nada via além de Wimpole Street.

Em Dover comprou um jornal e pôs-se a percorrê-lo com o olhar enquanto seguia, ao longo da estação, atrás do carregador que lhe tomara conta das malas. Na secção mundana descobriu o que procurava:

«Lastimamos anunciar que o senhor Garth Dalmain, que se encontra na sua casa em Deeside, Aberdeenshire, continua em precário estado de saúde devido ao acidente de caça de que foi vítima há quinze dias. Não há esperança de que recupere a vista, mas os órgãos lesados vão melhorando progressivamente e já não há receio de complicações cerebrais. Apesar disso, nos últimos dias surgiram reacções graves e foi necessário convocar Sir Deryck Brand, conhecido psiquiatra, para uma conferência com o oftalmologista e com o médico assistente. Nos meios artísticos e mundanos, onde o senhor Garth Dalmain é muito estimado, reina grande consternação».

Muitíssimo obrigado, minha senhora — disse o carregador quando, relanceando a vista pela palma da mão, verificou que Jane lhe dera meia coroa. Tinha a mulher doente em casa, o médico prescrevera regime de superalimentação e, na altura em que começara a afluência de passageiros, pedira a Deus «que bem sabe das nossas necessidades», lhe deparasse um viajante generoso. Sentira-se «guiado» para aquela senhora de ombros largos e faces tisnadas pelo sol, a qual o chamara com um leve sinal de cabeça quando ele estava prestes a responder aos apelos duma dama espalhafatosa com muitas malas e uma gaiola de papagaio, e que atirava agora, pela janela do comboio, moedas de cobre francesas.

O outro carregador resmungava:

— Sete pence e meio deste dinheiro não pagam o trabalho que eu tive.

E o que transportara a bagagem de Jane experimentou a dupla alegria de ver a sua fé confirmada e os seus serviços generosamente retribuídos.

Um empregado dos correios vinha nesse momento em direcção ao comboio, repetindo:

— Honourable Jane Champion!

Ao ouvir o seu nome, Jane estendeu o braço e disse:

— Aqui, rapaz. Sou eu.

Rasgou o sobrescrito. Era um telegrama do médico e rezava assim:

Boas-vindas. Acabo chegar da Escócia. Espero-te estação Charing Cross e estarei às tuas ordens. Toma café em Dover.

A viajante soltou um suspiro de alívio e de agradecimento. Estivera tão isolada! Debruçou-se na portinhola e chamou outra vez o carregador:

— Uma chávena de café! Depressa!

Café era o que menos lhe apetecia naquela altura, mas seria incapaz de desobedecer ao médico, mesmo a distância.

O rapaz, que ficara de sentinela junto da carruagem de Jane, precipitou-se para o restaurante e, no momento em que o comboio se punha em marcha, entregava-lhe uma xícara de café fumegante e um prato com uma fatia de pão barrada de manteiga.

— Obrigada — agradeceu Jane, descansando o prato no banco e lançando uma moeda que tirara à pressa da algibeira. — Fique com o troco. Numa ocasião destas um café merece ser bem pago. Adeus.

O comboio partiu e o carregador seguiu-o com a vista até desaparecer, de olhos marejados. Ao receber a primeira meia coroa, dissera consigo mesmo: «Vai ser para leite e ovos frescos». Depois, ao meter no bolso a segunda moeda, acrescentara mais duas coisas mencionadas pelo médico: «Sopa e compota». E o coração pulava-lhe de alegria. «Deus bem sabe das nossas necessidades...»

Jane, bem instalada a um canto da carruagem, reprimiu as lágrimas de alívio prestes a correrem, e bebeu o café. Sentiu-se logo mais reanimada. Também ela, como o carregador, precisava de tanta coisa! Não de meias coroas, pois dinheiro não lhe faltava. Mas o que ela mais necessitava era de um amigo esclarecido e serviçal, e Deryck não recusaria a sua ajuda.

Releu o telegrama e sorriu. Que boa ideia fora a do café e, principalmente, a de vir esperá-la à estação! Deryck tinha sempre boas ideias...

Jane tirou o chapéu e recostou-se nos coxins. Viajara noite e dia, num turbilhão de pressa febril, mas chegara ao alcance da mão forte de Deryck. Acalmara-se a agitação do seu espírito; sobre ela desceu uma grande serenidade e Jane adormeceu tranquilamente. «Deus bem sabe das nossas necessidades...»

Quando o comboio entrou na estação de Charing Cross, Jane estava à janela da sua carruagem; lavara-se, escovara-se, e sentia-se agora muito mais reanimada.

O médico encontrava-se justamente no lugar em que parou a carruagem dela; foi um simples acaso, mas Jane achou natural que ele se tivesse postado no ponto devido. Uma vez, uma cliente entusiasta dissera a respeito de Deryck Brand: «Aparece sempre onde é preciso». Essa característica do médico fora de grande utilidade para muita gente em momentos de aflição.

Num instante, atravessou ele a fila de carregadores e aproximou-se da carruagem de Jane. Esta, debruçada à janela, relanceou a vista por aquele rosto magro e enérgico, iluminado agora pelo sorriso de boas-vindas, e leu nos olhos do seu companheiro de infância a maior amizade e compreensão. Atrás dele, estavam um lacaio da tia e a sua antiga criada de quarto, a qual ficara em casa da Duquesa. Passado um minuto, Jane saía da carruagem e apertava as mãos de Deryck.

— Estás óptima — disse ele. — Pelo que vejo, decorreu tudo bem... Dá cá as chaves das malas. Não tens nada de contrabando, pois não? Telefonei à Duquesa a dizer-lhe que mandasse um dos seus criados para tratar da tua bagagem e a preveni-la de que não esperasse por ti antes da hora de jantar, porque irias tomar chá connosco. Não achas que fiz bem?... A saída é por aqui... Que populaça! Todos se esforçam por infringir leis e regulamentos, e cada qual quer passar à frente. Realmente, a paciência dos empregados de caminho de ferro é uma lição para o resto da humanidade.

Falando deste modo, Deryck conduziu Jane através da multidão; abriu a portinhola dum carro reluzente, ajudou-a a subir, sentou-se junto dela e, deslizando rapidamente, foram pela Strand e tomaram a direcção de Trafalgar Square.

— Então? — disse o médico. — O Niágara é ou não é uma grande coisa? Quando alguém me vem declarar que o Niágara o deixou desiludido, a minha vontade é que a terra o engula. Quem se vem queixar de que teve uma decepção com o Niágara não devia andar mais neste mundo. E a respeito da «mãe» dos presos? Não valeu a pena conhecê-la? Espero que ela me tenha mandado cumprimentos. E o porto de Nova Iorque? Conheces algum que se lhe compare, visto do mar à hora do pôr-do-Sol?

Jane teve um soluço súbito; depois, voltou-se para o doutor, de olhos enxutos:

— Não há nenhuma esperança, Deryck? O médico poisou a mão sobre as dela.

— A sua cegueira não tem cura. Mas a vida possui outras coisas além da vista. Nunca devemos dizer: nenhuma esperança.

— Viverá?

— Não há razão para que não viva. Mas o valor da sua vida depende bastante do que se pode fazer por ele nestes primeiros tempos. Está mais abalado moralmente do que fisicamente.

Jane tirou as luvas, pensativa, e, de repente, agarrou no joelho do companheiro.

— Deryck... eu amo Garth.

O médico ficou calado uns instantes, como se ponderasse naquele facto espantoso. Em seguida, pegou naquela mão bem modelada que se lhe crispava sobre o joelho e beijou-a: homenagem do homem à sinceridade corajosa da mulher.

— Nesse caso — disse — o futuro reserva tanto de bom para Garth Dalmain que ele pode dispensar a vista... Deves ter muito que me contar e, é claro, estás no direito de querer saber com todos os pormenores o estado dele. Cá estamos em Wimpole Street. Subamos ao meu consultório. Stoddart recebeu ordem para que ninguém nos venha importunar.
 

O GABINETE do doutor era um retiro sossegado. Jane, recostada numa poltrona de coiro verde, tinha as mãos poisadas nos braços da cadeira e descansava os pés sobre um tamborete. O médico sentara-se na cadeira rotativa que sempre ocupava e que lhe dava a vantagem de poder girar de súbito e observar o rosto dum cliente ou de se virar para outro lado e debruçar-se na mesa.

Nesse momento não olhava para Jane. Contara-lhe com todos os pormenores a sua visita ao Castelo de Glenneesh, donde voltara na véspera. Estivera cinco horas com Garth. Achava que o melhor era não esconder nada a Jane, mas olhava em frente enquanto falava, pois sabia que as lágrimas corriam pelas faces dela e queria fingir que não as via.

— Quanto aos ferimentos, vai bem—dizia ele. — É bastante estranho que, embora a retina houvesse sido perfurada, os órgãos circunvizinhos pouco sofreram e o cérebro ficasse ileso. O perigo actual provém do choque nervoso e da angústia mental causada pela compreensão do que perdeu. O sofrimento físico durante os primeiros dias deve ter sido horrível. Coitado, está abatidíssimo. Como é de constituição excelente e teve sempre uma vida normal e sadia, haveria todas as probabilidades de que se restabelecesse depressa se não fosse a ideia de que está cego torturar-lhe de tal maneira o espírito. A vista para ele tinha grande significação: beleza de forma, beleza de cor. Nele o artista dominava tudo. Disseram-me que quase nem fala. É um rapaz corajoso e forte, mas começou a mostrar sintomas alarmantes de perturbação mental, de que não é preciso dar-te pormenores técnicos, e por isso pareceu mais indicado um psiquiatra do que um oftalmologista. Agora está sob a minha vigilância.

O médico fez uma pausa. Arrumou alguns livros que estavam sobre a mesa, puxou para si uma jarra de violetas, observou-as com toda a atenção durante uns momentos, tomou a pô-la no sítio onde a mulher a colocara, e só então prosseguiu:

— Duma maneira geral, estou satisfeito. O que ele precisava era duma voz amiga que rompesse aquelas trevas. Necessitava duma mão que apertasse a sua num gesto de compreensão. Não quer piedade, e aqueles que lhe falam da sua desgraça sem lhe avaliarem a imensidade só o fazem perder a cabeça. Precisava dum amigo que lhe dissesse: «É um combate, uma luta desesperada e tremenda. Mas com a graça de Deus hás-de vencer. Seria mais fácil morrer; mas a morte era neste caso a derrota. Tens de viver para alcançar a vitória. É uma luta sobre-humana, eu sei.

Porém, a graça de Deus te dará forças para venceres». Tudo isto eu lhe disse, Jeanette, e muito mais ainda, e nessa altura aconteceu uma coisa extraordinária. Digo-te a ti, e Flower também pode saber, mas a ninguém mais repetirei. A dificuldade era obter dele qualquer resposta. Nem parecia dar atenção ao que se lhe dizia. Mas aquelas palavras «com a graça de Deus» pareceram encontrar eco imediato no fundo da sua consciência. Ouvi-o repeti-las por uma ou duas vezes e depois modificar a frase para «com a vossa graça abundante». Voltou então lentamente a cabeça sobre a almofada e vi-lhe o rosto como que transfigurado. «Agora me lembro», disse ele, «lembro-me da letra e da música». Moveu as mãos sobre o lençol como se estivesse a tocar piano e depois, em voz muito baixa, mas nítida, cantou a quarta estrofe do Veni, Creator Spiritus. Conheço-a bem, porque costumava cantar este hino na igreja de meu pai, quando era garoto. Lembras-te?

Com a vossa eterna luz
Desfazei nossa cegueira,
Sustentai nossa fraqueza
Co’a vossa graça abundante...

Nunca ouvi nada mais comovente.

Deryck calou-se porque Jane tapara a cara com as mãos e soluçava convulsivamente. Quando os soluços se apaziguaram um pouco, a voz calma do médico continuou:

— Como deves compreender, aquilo foi para mim uma indicação. Quando acontece a um homem semelhante desgraça, nada mais lhe resta senão agarrar-se à sua religião. Conforme está desenvolvida a parte espiritual é que a parte física suporta a dor. Dalmain é muito mais místico do que julgaríamos à primeira vista. Depois disso, conversámos abertamente e convenci-o a que aceitasse uma ou duas sugestões. Como sabes, ele não tem família, praticamente falando; apenas uns primos, com quem nunca conviveu. Encontra-se sozinho, pois embora tenha dúzias de amigos só os muito íntimos seriam recebidos agora. Apesar de o seu aspecto não apresentar nada de enigmático, começo a duvidar que qualquer de nós conhecesse o verdadeiro Garth, que descortinasse a alma daquele homem. Jane ergueu a cabeça e disse com simplicidade:

— Eu descortinei.

— Ah! — exclamou o médico. — Compreendo. Mas, como eu estava a dizer, os amigos vulgares não podem ser recebidos pelo doente. Lady Ingleby, num daqueles seus adoráveis impulsos, meteu-se numa carruagem de aluguer e, sem a criada e apenas com a mala, apareceu à porta do castelo. Robert Mackenzie, o médico assistente, que é um misógino inveterado, supôs a princípio que ela fosse uma esposa ignorada. Pelos modos, ele julga que as senhoras que chegam sem se fazer anunciar, e de mais a mais numa tipóia, têm de ser forçosamente esposas indesejáveis. Parece que houve entre ambos uma cena bastante cómica. Mas Lady Ingleby lá conseguiu persuadir o velho Robbie, e pouco faltou para o seduzir. Porém, é claro, não se atreveram a deixá-la entrar no quarto de Dal; assim, a sua missão de consoladora, resumiu-se em deixar que a velha governanta chorasse sobre o seu belo ombro.

Há qualquer coisa de comédia nisto, quando acontece conhecermos todos eles melhor do que se conhecem uns aos outros. Mas voltemos a pormenores de ordem prática. Garth tem, para o tratarem, um enfermeiro e o criado de quarto, pois recusou terminantemente uma enfermeira do hospital de Londres, que poderia alegrar um pouco aquele ambiente triste. Alegou que não queria ser tocado por mãos de mulher. O enfermeiro que o trata é bastante competente, mas agora podemos dispensá-lo, e eu insisti em mandar-lhe uma enfermeira escolhida por mim; não para executar os serviços vulgares, pois disso o criado pode incumbir-se, mas para lhe fazer companhia, distraí-lo com leituras, ocupar-se da correspondência, enfim ajudá-lo na sua cegueira a reentrar na vida. Será preciso tacto, certa prática. Precisamente hoje escolhi a pessoa que nos convém. É de boas famílias, e como já trabalhou comigo possui os suficientes conhecimentos de psiquiatria que este caso requer. Além disso, tem uma figurinha airosa e um palminho de cara bonito: o género de rapariga que o pobre Dal gostaria de ter a seu lado, no tempo em que podia ver. Era tão exigente em matéria de beldades, tão difícil de contentar! Fiz a descrição minuciosa dela numa carta que escrevi ao Dr. Mackenzie, que preparará o doente para a receber. Deve partir depois de amanhã. Foi uma sorte tê-la conseguido, pois é o que há de melhor como enfermeira; tinha acabado justamente de se ocupar de um doente tuberculoso, o qual melhorou e vai para fora por ordem médica. Como vês, Jeanette, tudo decorre bem. E, agora, tens a tua história para me contar. Mas, primeiro, vou mandar servir o chá, e tomá-lo-emos aqui sossegadamente. Se me dás licença, espera uns instantes enquanto vou lá acima falar a minha mulher.

Pareceu naturalíssimo a Jane estar a servir chá ao médico e vê-lo pôr uma boa pitada de sal na manteiga com que barrava a fatia de pão, e depois dobrar esta a meio com aquele cuidado e exactidão que o caracterizavam. Era bem o mesmo que nos tempos da sua meninice ia, durante as férias, merendar com a rapariguinha que vivia isolada na quinta; e quando a governanta achava dispensável a sua vigilância e eles ficavam entregues a si próprios, que horas deliciosas passavam ambos, sentados no chão a assar castanhas e a conversar de assuntos de recíproco interesse! Jane ainda se lembrava do prazer doloroso de voltar as castanhas em cima das brasas, e de como ela se apressava a fazer isso com medo de que Deryck queimasse os dedos. Sempre admirara em segredo as mãos dele, trigueiras, bem modeladas, de dedos estreitos, mãos que manejavam tudo com delicadeza e no entanto eram cheias de energia. Gostava de as contemplar quando ele se punha a afiar os lápis ou a desenhar lindos diagramas nos cadernos de exercícios; e então pensava que mais tarde, quando chegasse a fazer operações importantes, muita vida humana dependeria da perícia e destreza daqueles dedos. Nesses tempos, ele parecia muito mais velho do que Jane. Mas depois, ela crescera rapidamente, ficara da altura de Deryck e já pareciam da mesma idade. com o decorrer dos anos, Jane começou a sentir-se mais velha do que ele, e então tratava-o por Dicky, para acentuar o facto. Nessa altura aparecera Flower, e com ela surgiram complicações. Jane vira-o emagrecer e embranquecer-lhe o cabelo nas fontes; embora sentisse desejos de o consolar, não se atrevia a oferecer-lhe compaixão. Por fim, tudo correu bem para Deryck: venceu na sua vida profissional, e os seus amores tiveram um desfecho feliz. Jane congratulou-se com isso, mas sentiu-se ainda mais isolada sem o seu companheiro de infância. Contudo, a amizade deles manteve-se, e o coração fiel de Jane continuou leal a esse casal amigo, embora a visão da sua felicidade perfeita a fizesse sentir-se ainda mais só.

Agora, que precisava de alguém, só Deryck lhe podia valer. O médico sabia disso, e estava pronto a fazer tudo por Jane, porque esta era a oportunidade que tinha de recompensar a constante dedicação daquela velha amiga. A conversa dessa tarde seria a prova final da amizade que os ligava. Assim, como psiquiatra que bem sabe qual o efeito que produzem no espírito os pormenores externos mais triviais, Deryck mandara buscar bolos, pôr uma chaleira ao lume, e pedira a Jane que fizesse o chá.

Na altura em que a água começou a ferver, estavam eles a recordar os tempos em que assavam castanhas, e a rirem-se dos esforços que a pobre Fräulein fazia para os meter na ordem e das manhas que empregavam para iludir a sua vigilância. Os anos recuavam e Jane sentia-se como se estivesse em casa na companhia do seu amigo de infância.

No entanto, houve uns segundos de constrangimento quando o médico afastou a mesa de chá e ficaram sentados em frente um do outro ao lado do fogão. Cada um deles reparou quanto era característica a atitude do outro.

Jane, inclinada para diante, tinha os pés bem assentes no tapete, os braços sobre os joelhos e as mãos juntas. O doutor estava recostado, de perna traçada, com os cotovelos apoiados nos braços da poltrona e as pontas dos dedos unidas, numa absoluta imobilidade de corpo e intensa concentração de espírito.

O silêncio entre eles era como um lago fundo e calmo.

Jane foi a primeira a mergulhar.

— Deryck, vou dizer-te tudo. Vou falar-te da minha alma e dos meus sentimentos exactamente como se fossem ossos e músculos. Quero que sejas médico e confessor ao mesmo tempo.

O doutor, que estivera até então a contemplar a ponta dos dedos, ergueu os olhos para a sua interlocutora e fez um gesto de concordância; depois, voltou a cabeça e ficou a olhar para o lume do fogão.

— Deryck, a minha existência foi sempre solitária. Jamais fui necessária à vida de alguém, e nunca ninguém atingiu as profundezas do meu ser.

O médico abriu os lábios como se fosse falar, mas logo os cerrou, limitando-se a fazer um aceno de cabeça.

— Nunca fui amada com esse amor que faz com que sejamos a primeira para alguém, e eu própria nunca amara assim. Tive... grandes afeições, mas afeições não é amor. Oh, Dicky, só agora o sei!

O rosto do médico parecia um tanto pálido no fundo verde-escuro da poltrona, mas foi sorrindo que respondeu:

— Tens razão. Há uma diferença.

— Amigos não me faltam, e entre eles muitos rapazes simpáticos, quase sempre mais novos do que eu, que pela frente me tratam por Miss Champion e, nas minhas costas, me chamam a «boa velha Jane».

Deryck sorriu. Ouvira muitas vezes aquela designação, mas bem se recordava do tom afectuoso e pleno de admiração com que a proferiam.

Jane continuou:

— Duma maneira geral, os homens dão-se melhor comigo do que as mulheres. Como sou alta e espadaúda, as mulheres consideram-me espírito forte e por isso me receiam. Os rapazes, esses, sabem que podem confiar em mim; fazem-me confidências, achando-me uma espécie de irmã mais velha sempre pronta a escutá-los. Entre os meus amigos contava Garth Dalmain.

Jane fez uma pausa e Deryck esperou que ela continuasse:

— Sempre me interessou, em parte por ser tão original e animado nas suas conversas, e em parte por...

Hesitou um momento, intensamente corada, e prosseguiu:

— ...Embora nessa altura eu não desse por isso, achava fascinante a sua extraordinária beleza. E havia a coincidência de sermos ambos órfãos, abastados, de não termos que dar satisfações a ninguém dos nossos actos. Porque os nossos amigos eram comuns, encontrávamo-nos constantemente em casa deles. A pouco e pouco nos fomos tomando íntimos e, de todos os meus companheiros, era ele o que mais me fazia sentir «irmã». Falava-me das mulheres que mais admirava, do efeito que a beleza delas lhe produzia, e eu punha-me a ver qual prenderia por fim a sua imaginação vagabunda. Mas, um dia, tudo isto mudou dum instante para o outro. Estávamos ambos em Overdene. Encontrava-se lá imensa gente, e a tia Georgina resolveu dar um concerto, para o qual convidou quase toda a vizinhança. À última hora faltou a cantora Velma. A tia Gina, no seu desespero, repetiu as frases que a sua arara costumava dizer. Era preciso fazer qualquer coisa. Ofereci-me para substituir a Velma e cantei.

— Ah! — exclamou Deryck.

— Cantei O Rosário, aquela romança que a Flower pediu que eu cantasse da última vez que estive cá. Lembras-te?

— Lembro-me — respondeu o médico.

— Depois disso, tudo se modificou entre mim e Garth. A princípio, não compreendi. Notei apenas que a música o comovera profundamente, que a beleza do som o impressionava tanto como a beleza da cor, mas supus que fosse coisa passageira. Contudo, passaram-se dias e essa estranha mudança continuou. Os outros não reparavam nisso, mas eu, pela primeira vez na vida, tive de súbito a consciência de que era essencial a alguém. Sempre que entrava numa sala sabia que ele dava logo pela minha presença; sempre que eu saía tinha a certeza de que ele sentia imediatamente a minha falta. Por mais incrível que pareça, não compreendi que tudo aquilo significava amor. Julgava que fosse somente profunda simpatia, motivada em especial pelas nossas afinidades musicais. Passávamos horas no salão de música. Quando ele olhava para mim, os seus olhos pareciam tocar-me, num contacto terno e delicioso... E, contudo, nunca pensei em amor! Acho-me tão feia, sou uma trintona, e ele tão belo, tão jovem! Era como um sol, que me aquecia e reanimava com a sua presença... Eis o que foram para mim os dias que se seguiram ao concerto. Quanto a ele, só depois é que eu soube. Declarou que ouvir-me cantar O Rosário fora uma súbita revelação, não só da música como de mim própria. Disse-me que até então me considerara apenas boa camarada; mas depois fora como se um véu se rasgasse e lhe descobrisse a mulher. E mais uma coisa ele me disse, o que decerto te deixará tão espantado como me deixou a mim, Dicky: que a mulher que ele descobrira, quando este véu se rasgara, era a personificação do seu ideal, e que desde essa hora me queria como nunca quisera a ninguém.

Jane calou-se e ficou a olhar para as brasas do fogão.

O doutor virou a cara lentamente e pôs-se a observá-la. Ele próprio experimentara já a atracção intensa daquela natureza feminil, a mais poderosa de todas porque não aparecia à superfície. Pressentira toda a ternura que jazia latente dentro dela; sabia que os seus braços seriam um refúgio, o seu peito uma almofada macia, o seu amor uma consolação sem limites. Nos tempos em que se sentira abandonado e desiludido, tivera de fugir a essa sedução, dádiva preciosa de que ela nem possuía consciência e a que ele não tinha direito. Por isso, Deryck compreendia muito bem o ascendente que Jane teria sobre um homem que a visse tal como ela era no fundo e que estivesse livre para a conquistar.

— Não me admiro, Jeanette — replicou simplesmente.

Jane esquecera o médico. Ao ouvir-lhe a voz, saiu do seu alheamento e ergueu o olhar.

— Obrigada — disse ela. — Eu admirei-me, e muito. Mas continuemos. Saímos ambos de Overdene no mesmo dia. Eu vim para a tua casa e ele foi para Shenstone. Foi numa terça-feira. Na sexta, cheguei a Shenstone e lá nos encontrámos outra vez. A curta separação fez com que achássemos mais doce a companhia um do outro. Entre as pessoas que estavam em Shenstone havia aquela linda americana, Pauline Lister. Garth andava tão entusiasmado com a beleza dela que até combinou pintar-lhe o retrato. Todos se convenciam de que ele a pediria em casamento. E eu, Deryck, também assim pensava, tanto mais que o animava a casar-se com ela. Sentia-me contente com a ideia desse casamento, apesar da impressão que me causava o olhar de Garth poisado em mim, e de saber que o dia só começava para ele quando nos encontrávamos e que acabava no momento em que dávamos boa-noite um ao outro. Esta nova sensação de ser a primeira, a principal para ele, tomava-me a vida numa delícia, mas eu continuava a pensar que era tudo apenas profunda amizade.

Na noite da minha chegada a Shenstone, Garth pediu-me que o acompanhasse ao terraço depois do jantar, pois queria conversar comigo. Imaginei que, como de costume, ia servir de confidente e que ele me exporia as suas intenções a respeito de Miss Lister. Pensando assim, saí muito calma com o Dal e sentei-me no peitoril do terraço. Estava uma noite de luar. Eu esperava que ele falasse. E então, Deryck, então... ele falou.

Jane pôs os cotovelos sobre os joelhos e escondeu o rosto nas mãos crispadas.

— Não posso contar-te... pormenores. O amor dele... derramou-se sobre mim como oiro em fusão, derretendo o gelo das minhas convicções, amolecendo a minha reserva; inundou-me toda e caiu-me aos pés como uma torrente de maravilhoso ardor. Eu nem sabia onde me encontrava, mas compreendi que todo esse amor era para mim. E então... oh, Deryck! Não posso explicar bem... nem sei como aquilo aconteceu, mas toda essa tempestade de paixão se apaziguou sobre o meu peito. Dal ajoelhara, enlaçara-me com os braços, e assim ficámos agarrados um ao outro numa grande calma. Nesse momento toda eu lhe pertencia, e ele sabia-o. Não sei quanto tempo esteve sem se mover nem falar. Por fim, levantou a cabeça, olhou-me e disse-me duas palavras apenas. Não as posso repetir, Dicky; mas essas palavras fizeram com que caísse em mim, e compreendi então o que tudo aquilo significava: Garth Dalmain queria que eu casasse com ele.

Jane calou-se, esperando ouvir o médico soltar qualquer expressão de surpresa. Deryck, porém, não demonstrou o menor espanto.

— Que outra coisa podia ele querer? — replicou, tranquilamente. Mas os lábios tremiam-lhe um pouco, e o médico, sabendo isso, passou a mão na boca para esconder esse tremor. A confissão de Jane impressionava-o mais do que imaginara. — E depois, que fizeste?

— Levantei-me, pois enquanto ele estivesse ali de joelhos era dono do meu espírito e do meu corpo, e o instinto me advertia de que, para essa proposta de casamento, era preciso que a minha razão dissesse «sim» antes que se me impusesse o resto do meu ser. «Alma e corpo» é o que está escrito nas Escrituras, e não «corpo e alma», como muitas vezes se diz erradamente. O espírito não pode estar depois da matéria.

O médico teve um gesto de interesse.

— Disseste agora uma grande verdade, Jeanette, e expressaste-a justamente como muitas vezes eu quis sem conseguir encontrar as palavras exactas. Tu encontraste-as.

Jane olhou-o com um sorriso melancólico.

— Achas que sim? Pois bastante cara me custou essa descoberta... Afastei Garth de mim, dizendo-lhe que precisava de doze horas para reflectir. Estava tão seguro, seguro de si e de mim própria, que acedeu sem um protesto. A meu pedido, retirou-se logo. A maneira como se foi não a posso contar a ninguém, nem sequer a ti, Dicky. Prometi que, no dia seguinte, iria ter com ele à igreja da aldeia, e lá daria a minha resposta.

Às onze horas, ia experimentar o órgão novo. Sabíamos que estaríamos sós. Eu fui. Nos degraus do coro chamou por mim para que ficássemos junto do altar. Nos olhos brilhava-lhe a certeza absoluta da vitória, embora se contivesse. Nunca me tocou enquanto esperava pela resposta. E então... recusei-o terminantemente, alegando um motivo que ele não podia discutir. Afastou-se de mim, saiu da igreja, e, desde esse dia, nunca mais lhe falei.

No consultório do médico desceu silêncio profundo. Um coração varonil partilhava dos sofrimentos de outro homem, tentando não se indignar antes de saber toda a verdade.

O espírito de Jane afinava-se agora pelo mesmo diapasão daquela hora fatal, e mais uma vez ela achou que procedera bem.

Por fim, o médico falou, de olhos fitos nos dela, em voz um tanto severa:

— E porque o recusaste, Jane?

Jane estendeu as mãos, suplicantes:

— Ah, Deryck, vê se me compreendes! Como podia eu proceder doutro modo, embora isso fosse a renúncia ao que de mais precioso me podia conceder a vida? Conheces bastante Garth para saberes o valor que ele dá à beleza; precisa de viver sempre rodeado dela. Antes de sentirmos essa inexplicável necessidade um do outro, Garth conversou comigo sobre o assunto e disse, a respeito duma pessoa feia cujas qualidades morais haviam feito com que ele acabasse por simpatizar com aquele rosto: «Em todo o caso, não era uma cara que eu gostasse de ver de manhã à noite, ou de ter sempre à minha frente às horas das refeições; seria para mim um martírio». Oh, Deryck! Podia eu acorrentar Garth à minha cara feia? Teria eu coragem de servir de martírio àquele carácter amante da beleza? Bem sei que dizem: o amor é cego. Mas é antes de o amor entrar no seu reino. O amor ansioso só vê no ente amado o objecto do seu desejo. Ora o amor saciado recupera a vista e, à medida que o tempo passa, o poder da sua visão aumenta e, por meio de uso diário e constante, toma-se microscópio e telescópio. O amor conjugal não é cego. Quem, como eu, tem convivido com gente casada, sabe como se observam os esposos, quando já se dissipou para sempre a cegueira do amor. Sei que durante aqueles dias maravilhosos, Garth era cego à minha fealdade por que me desejava ardentemente. Mas depois, quando ele já estivesse saciado de tudo o que tenho para dar de beleza de alma, quando a rotina da vida começasse e ele fosse forçado a ver a minha cara de manhã à noite, quando se sentasse para almoçar e o visse relancear-me e desviar logo a vista do meu semblante desgracioso, poderia eu suportar isso? A triste sensação de lhe desagradar por uma culpa que não cometi não me tornaria cada vez mais feia? E a amargura e a desilusão, e talvez o ciúme, não acabariam por me tomar horrenda? Deryck, eu não teria forças para suportar...

O médico observava Jane com expressão de interesse profissional.

— Como acertei no meu diagnóstico quando te mandei viajar! — declarou ele com ar meditativo. — Em pouco me podia basear, e no entanto...

— Oh, Dicky! — exclamou Jane com um gesto de impaciência. — Não me fales como se te dirigisses a uma doente. Trata-me como um ser humano e dize-me... como de homem para homem: podia eu atar Garth Dalmain à minha fealdade? Porque bem sabes que sou feia.

O médico riu-se, achando graça ao facto de a ter irritado um pouco.

— Minha boa amiga — replicou ele — se esta conversa fosse de homem para homem, eu teria a dizer-te algumas coisas bastante fortes. Mas visto que estou falando a uma mulher, mulher que há muito tempo respeito e admiro, responderei francamente à tua pergunta. Não és bonita, na vulgar acepção da palavra, e ninguém que te estime realmente poderá responder-te de outra maneira, pois quem te conhece e te quer bem será incapaz de te mentir. Admitamos mesmo, se isso te apraz, que és feia, embora eu saiba que, se estivessem aqui meia dúzia de rapazes meus conhecidos, eu seria corrido a pontapés por ter dito semelhante coisa. Para todos eles, és a Jane, e isso é o que lhes interessa. Tal como és, agradas bastante aos teus amigos. E já que estamos a discutir a tua estimada cara, deixa-me dizer-te que houve tempos em que eu de boa vontade palmilharia vinte léguas só para a ver; quando te ausentavas, tinha saudades do teu rosto, e quando estavas presente nunca desejei deixar de o ver.

— Mas nunca foste obrigado a tê-lo defronte de ti à hora de todas as refeições — insistiu Jane, muito séria.

— Infelizmente, não; porém, a comida me pareceu sempre mais saborosa nas ocasiões em que esse rosto estava na minha frente.

— Nem nunca... tiveste de o beijar...

O médico recostou-se na poltrona e soltou uma gargalhada tão estrondosa que a mulher, ao subir nesse momento a escada, perguntou a si mesma o que teria provocado tal acesso de hilaridade.

Jane é que continuava séria, e não via motivos para rir.

— Oh, filha — volveu Deryck quando pôde falar — seja dito em abono da verdade que nunca, realmente, te beijei!

— Dicky, não estejas a brincar! Trata-se do que há de mais importante para mim. Se não me dás um conselho, de nada serviu esta confissão que tanto me custou a fazer.

O médico assumiu logo um ar de seriedade e, inclinando-se para diante, pegou na mão de Jane.

— Desculpa-me ter rido nesta altura — disse ele. — O meu maior desejo é ser-te prestável. Deixa-me fazer-te agora algumas perguntas. Como chegaste a convencer Dalmain de que tal coisa era um obstáculo intransponível para o vosso casamento?

— Não lhe apresentei essa razão.

— Que pretexto arranjaste para a tua recusa?

— Perguntei-lhe a idade...

— Oh, Jane! Junto ao altar, quando ele esperava pela tua resposta?

— Sim. Mais tarde achei que fora horrível. Mas deu resultado.

Não duvido. E depois?

— Respondeu-me que contava vinte e sete anos. Então retorqui-lhe que tinha trinta, que aparentava trinta e cinco e que me sentia com quarenta. E disse-lhe também que ele podia ter vinte e sete, mas parecia ter dezanove e estava convencida de que muitas vezes se sentia com sete ou oito.

— E depois?

— Concluí dizendo que não ia casar com uma criança. E ele?

— Pareceu atordoado a princípio. Depois respondeu que de facto eu não podia casar com ele se o considerava assim, e que se submetia à minha decisão. Saiu então da igreja e desde esse dia nunca mais nos encontrámos.

— Jane — observou Deryck — admiro-me muito que não percebesses teres-lhe mentido. Tu não sabes mentir, e não acredito que, dentro duma igreja e falando ao homem que amavas, mentisses com grande convicção.

Uma onda de rubor subiu às faces queimadas de Jane.

— Oh, Deryck, não era inteiramente mentira! Foi uma dessas petas que contêm alguma verdade, as quais Tennyson diz serem «mais difíceis de matar».

O médico citou de cor:

Uma peta, que é peta de alto a baixo,
Pode-se logo derrotar.
Mas a que tem metade de verdade
É mais difícil de matar.

— Exactamente — disse Jane. — Garth não pôde insurgir-se porque isso era em parte verdade. É mais novo do que eu três anos, e ainda o é mais pelo seu feitio. A minha maturidade e a minha sisudez não condiriam com aquela juventude deliciosa. Mas... menti, de facto, quando chamei criança ao homem de quem, na véspera, eu tanto sentira o seu ascendente sobre mim. Também a isso não soube que responder. Durante todo aquele tempo, enquanto eu estivera cheia de ideias mórbidas a meu respeito, nunca ele se preocupara consigo. Não pensara senão em mim. Eu pensara nele, e em mim também.

— Jane — observou o médico — mereceste todos os sofrimentos por que tens passado desde aquela hora.

Jane baixou a cabeça.

— Bem sei — disse ela.

— Foste falsa para ti mesma, e mentiste ao homem que te amava. Enganaste a ambos. Não compreendes o teu erro? Encarando o caso sob o ponto de vista mais comezinho, Dalmain, sendo um apaixonado da beleza, estava já farto de caras bonitas. Era como o tal garoto empregado na pastelaria que, tendo a liberdade de comer todos os bolos que quisesse, comeu tantos na primeira semana que depois só apetecia pão com manteiga. Tu eras pão com manteiga para Dal. Desculpa-me se te desagrada a comparação.

Jane sorriu.

— Pelo contrário, agrada-me — disse ela.

— Mas eras ainda muito mais do que isso — continuou Deryck. — Eras o seu ideal de mulher. Acreditava na tua força, na tua ternura, na tua sinceridade. Derrubaste esse ideal; destruíste a fé que ele depositava em ti. A sua natureza ecléctica, fantasista e artística, com todas as possibilidades invulgares de apaixonada dedicação, encontrara o porto de abrigo no teu amor; e tu, ao cabo de doze horas, deixaste-o de novo à mercê das ondas. Cometeste um crime, Jane! A força moral desse rapaz ficou bem demonstrada pela maneira como aceitou a tua recusa. Não esmoreceu no trabalho; pelo contrário, as suas melhores obras são as que ele executou daí para cá. Não fez nenhum casamento disparatado, troçando da própria dor, nem nenhum casamento com unia herdeira rica e bonita, para te arreliar. Podia ter feito ambos... isto é, qualquer deles. Quando penso que aquele pobre rapaz, que ainda ontem vi a lutar nas trevas da sua cegueira, sofreu tanto por tua causa!... Jane, se fosses homem, eu dava-te uma sova de cavalo-marinho!

Jane endireitou-se na poltrona e ergueu a cabeça; na sua atitude havia agora menos desânimo.

— Já me zurziste bastante com as tuas palavras de indignação, Dicky — retorquiu — mas a dor que elas me causaram fez-me bem. E agora acho que devo dizer-te o que senti no alto da Pirâmide Grande. Lembras-te do panorama que de lá se avista, com a sua linha de demarcação? Duma banda, o rio e a terra fértil, plena de vegetação, um verdadeiro «jardim fechado»; da outra, uma extensão doirada a perder de vista, uma liberdade infinita, mas nem árvore, nem erva: somente aridez e solidão. Achei que esta era a imagem da minha existência. O amor de Garth, deslizando através da minha vida, como o rio, faria dela um autêntico «jardim do Senhor». Significaria menos liberdade, mas acabaria com a solidão. E, afinal, a liberdade de a gente viver só para si acaba por se tomar num triste cativeiro. Compreendi então que também condenara Garth a essa dura vida do deserto. Desci da Pirâmide, fui pedir conselho à velha Esfinge, e os seus olhos calmos, que penetram no futuro, pareceram dizer-me: «Só vive quem ama». Nessa mesma tarde, resolvi desistir da viagem ao Nilo, regressar a Inglaterra, confessar tudo a Garth e pedir-lhe que recomeçássemos justamente no ponto em que ficáramos há três anos, naquela noite de luar, em Shenstone. Dez minutos depois de tomar esta resolução, soube o que lhe acontecera.

O médico encobriu a face com a mão.

— As rodas do tempo — disse ele em voz baixa — giram sempre para diante, nunca para trás.

— Oh, Deryck! — exclamou Jane. — Tu e Flower bem sabeis que o tempo às vezes pode recuar!

O doutor teve um sorriso terno e melancólico:

— É uma excepção que prova a regra. Em todo o caso, foi bom que tivesses reconhecido o teu erro antes de saberes da cegueira de Dalmain.

— Não sei bem se estava convencida do meu erro — volveu Jane — mas tinha a certeza de não poder viver mais sem ele, e sentia-me pronta a ir procurá-lo e a arriscar a minha sorte. É claro que todas as dúvidas estão agora postas de parte, por causa do acidente que aconteceu ao meu pobre Dal. A cegueira dele simplificou o assunto que me atormentava.

— Simplificou? — repetiu o médico com ar de espanto.

Depois, como Jane, aparentemente satisfeita com a sua expressão, não a rectificasse, Deryck levantou-se, ateou o lume e ficou uns momentos pensativo a olhar para as chamas. Após isso, retomou o seu lugar, e falou então em voz calma, mas com um ar inquisidor, que a fez sobressaltar. Jane teve a intuição de que a conversa atingira o ponto mais importante.

— E agora, Jeanette, que pensas fazer?

— Que penso fazer? — respondeu ela. — Ir ter com Garth, mas queria que me aconselhasses a melhor maneira de o prevenir da minha chegada, e que me dissesses se não lhe será prejudicial a comoção dessa notícia. Além disso, não quero aventurar-me a ser afastada pelos médicos ou pelos enfermeiros. O meu lugar é a seu lado. O que mais desejo na vida é estar junto dele. Os enfermeiros, porém, são quase sempre cabeçudos... e uma bulha naqueles casos seria intolerável. Um telegrama teu resolveria tudo.

— Talvez — concordou o médico. — De facto, um telegrama da minha parte abrir-te-á caminho até Garth Dalmain. Mas depois de lá chegares?

Os lábios de Jane entreabriram-se num sorriso de inefável ternura. Deryck notou-o, mas desviou logo o olhar; nem ele nem outro homem tinham o direito de ver aquela expressão. Os olhos que deviam contemplar tal sorriso estavam cegos para sempre.

— Depois de eu lá chegar, Deryck? O amor me ensinará o que devo fazer. Todos os obstáculos desaparecerão, e eu e Garth estaremos juntos.

O médico uniu as pontas dos dedos com toda a exactidão antes de responder, e, quando falou, o seu tom era calmo e cheio de bondade:

— Ah, Jeanette, esse o ponto de vista feminino, certamente o mais simples e talvez o melhor! Mas à cabeceira de Garth terás de considerar no ponto de vista masculino, e faltaria à confiança que depositaste em mim se não te dissesse que é este o que interessa neste momento. Segundo o ponto de vista masculino, o que fizeste há três anos coloca-te agora numa posição bastante má. Se fores oferecer o teu amor, tesouro que ele solicitou e não obteve há três anos Garth concluirá naturalmente que o amor concedido agora é apenas compaixão. Ora, Garth Dalmain não é homem para se contentar com a piedade de um coração que ele julgou conquistar e não conseguiu. Nem consentiria que uma mulher, principalmente aquela que tão alto colocara, se unisse à sua cegueira; a não ser que tivesse a certeza de que tal união representava para ela a maior das felicidades. Mas como poderia ter essa certeza se, quando ele era a personificação de tudo quanto uma mulher pode desejar, o recusaste de modo insofismável? Por outro lado, se lhe explicares o verdadeiro motivo da tua recusa, o que não duvido que intentes fazer, só terá a dizer-te o seguinte: «Não confiaste na minha fidelidade quando eu via. Agora vens para mim porque ceguei e já não está em meu poder provar-te a minha fidelidade. Não há virtude no que é forçoso. Nunca poderei sentir que possuo a tua confiança, pois só vieste para mim depois de me veres impossibilitado de proceder como tu receavas ou de te demonstrar que eram infundados os teus temores». Minha pobre Jeanette, eis o ponto de vista dum homem. Tenho a certeza de que será assim que Garth Dalmain encarará a questão. Devemos reconhecer que ele é uma criatura de vontade enérgica pouco vulgar. Se fosse eu que estivesse nesse tal dia na igreja, amando-te como ele te amava, lançar-me-ia a teus pés e prometer-te-ia crescer e tomar-me ajuizado. Garth Dalmain teve a força suficiente para se ir embora sem um protesto, quando a mulher, que ele sentira sua na véspera, o recusou por o achar criança. Estou, portanto, convencido que Dalmain há-de ver a questão como já te expus.

A palidez e o ar assustado de Jane sensibilizaram o médico.

— Mas, Deryck... ele... ama-me.

— Pois justamente porque te ama, minha pobre Jeanette, é que não se contentará com a compaixão.

— Oh, Dicky! Ajuda-me! Descobre um meio! Dize-me o que hei-de fazer! — suplicou Jane, com os olhos cheios de desespero.

O doutor reflectiu demoradamente, em silêncio.

— Só vejo uma saída — disse por fim. — Se Dal, de qualquer maneira, viesse a calcular o teu estado de espírito naquele tempo, sem conhecer qual fora a causa da tua recusa, e se falasse disso a alguém, a mim, por exemplo; então, dessa conversa comigo, poderias ficar mais bem colocada perante ele. Mas seria difícil chegar a esse resultado... Se fosse possível estares constantemente junto dele sem ser vista (ah! pobre rapaz, isso é fácil agora) quero dizer, sem que ele suspeitasse que eras tu; se, por exemplo, estiveres na pele daquela dama de companhia que lhe arranjei, e o preparasses para o caso, de modo que se sentisse já justificado quando lhe fizesses a tua confissão...

Jane deu um pulo na cadeira.

— Deryck, que bela ideia! Manda-me para lá como sua enfermeira e dama de companhia. Nunca poderá imaginar que sou eu. Há três anos que não ouve a minha voz, e julga-me no Egipto. Ainda há poucas semanas veio, na secção mundana de todos os jornais, a notícia de que eu passaria o Inverno no Egipto e na Síria e só regressaria em Maio. Ninguém sabe que voltei. Quanto à minha capacidade de enfermeira, sabes bem o tempo que estive a praticar, e durante a guerra o treino foi grande... Oh, Dicky, podes recomendar-me! Ainda tenho guardado o meu uniforme. Em vinte e quatro horas arranjo tudo, e sigo para lá como enfermeira Fulana de Tal, e comerei na cozinha se for necessário.

— Mas, minha filha — replicou o médico calmamente — não podes apresentar-te como a enfermeira Fulana de Tal, infelizmente. Teria de ser a enfermeira Rosemary Gray, que contratei hoje mesmo e de quem fiz a descrição completa ao Dr. Mackenzie. Nunca tiro um doente a uma enfermeira para o entregar a outra, a não ser por incompetência dela, o que não é o caso. Rosemary Gray não comerá na cozinha, porque é uma senhora e como tal será tratada.

Mas eu gostaria, de facto, que tomasses o lugar dela, embora duvide que tenhas forças para representar esse papel. E agora vou dizer-te uma coisa: pouco antes de o deixar, Dalmain perguntou por ti; teve o cuidado de te encaixar entre a Duquesa e a Flower, porém não conseguiu impedir que o sangue lhe subisse às faces emagrecidas, e, no esforço de conservar a voz firme, as suas mãos arrepanharam o lençol. Perguntou onde estavas. No Egipto, disse-lhe eu. Quando voltarias? Respondi que pensavas ir a Jerusalém na Páscoa e que te esperávamos aqui no fim de Abril ou princípios de Maio. Inquiriu da tua saúde, e eu repliquei que eras bastante mandriona para escrever, mas pelos raros postais recebidos, deduzia que ias bem. Acrescentei então que fora eu quem te aconselhara a viagem, por andares muito abatida. Dalmain, ao ouvir-me dizer isto, fez um gesto como se quisesse bater-me, e volveu num tom que exprimia o maior desdém pelas minhas opiniões: «Abatida? Ela!» E pôs-se logo a fazer mil e uma perguntas a respeito de Flower. Já se havia informado da Duquesa, e nos mesmos termos que depois empregou para saber de ti. Quando lhe respondi que minha mulher estava de saúde e lhe enviava lembranças afectuosas, pediu-me que lhe visse as cartas, uma pilha delas, e lhe dissesse, pela caligrafia, de quem eram. Parecia que o mundo inteiro lhe tinha escrito! Disse-lhe uma dúzia de nomes, entre outros o de certa pessoa de sangue real, de quem reconheci a letra. Perguntou-me se não viera nenhuma carta do estrangeiro. Havia duas ou três e eu disse-lhe o nome dos remetentes. Ele, porém, não quis que eu lesse nenhuma, e até a missiva régia ficou por abrir, embora a pedisse e tacteasse com a ponta dos dedos o relevo do sinete. Por fim, perguntou: «Há aí alguma da Duquesa?» Havia, e ele quis que eu a lesse. Era bastante característica, cheia de bondosa comiseração, expressada com o maior tacto. A meio, rezava assim: «Jane vai ficar desgostosíssima quando souber do desastre. Logo que ela me mande o seu endereço escrever-Ihe-ei a contar o seu acidente. Por enquanto não faço a mínima ideia de qual a parte do globo em que ela se acha.

Da última vez que tive notícias da minha estimada sobrinha, pareceu-me quase disposta a casar-se com um japonês e a instalar-se no Japão. Que diz a isto, meu caro Dal? Se o Japão é como o que a gente vê pintado nos biombos, onde é que naquele país liliputiano se pode descobrir casa ou marido que condigam com o tamanho da nossa boa Jane?» Tive a diplomacia de não ler em voz alta este trecho sobre o hipotético casamento com o japonês. Acabada a leitura da carta da tua tia, Dalmain indagou abertamente se não havia alguma remetida por ti. Disse-lhe que não, mas que era provável que escrevesses mal soubesses o que acontecera. E assim espero que faças, Jeanette. A enfermeira Rosemary Gray receberá instruções de lhe ler todas as cartas.

— Oh, Deryck! — balbuciou Jane. — Não posso suportar isso! Devo ir ter com ele!

Nesse instante, o telefone retiniu, e o médico aproximou-se da mesa e levantou o auscultador.

— Está lá... Sim, aqui é o Dr. Brand... Quem fala?... Ah, é a enfermeira-chefe?!

Jane teve pena de que aquela não pudesse ver através do telefone o sorriso afável do médico.

— ...O quê? Que nome mencionou?... Sem dúvida alguma. Foi esta manhã, e vinquei bem o que pretendia. É um caso deveras importante. Ela deve vir falar comigo esta noite... O quê?... Engano de registo? Ah, percebo!... Para onde foi?... Para onde?... Fale mais explicado, por favor... Austrália! Oh, absolutamente fora de alcance!... Sim, ouvi dizer que o tinham mandado para... Não se aflija, a culpa não foi sua... Obrigada, creio que não. Tenho outra em vista... Sim... Não duvido que essa seja competente, mas por enquanto não é preciso... Se necessitar dela, depois lhe direi... Até à vista, e muito obrigado.

Depôs o auscultador no seu lugar e em seguida voltou-se para Jane, com um leve sorriso:

— Jeanette, não acredito em acasos, mas creio num poder superior que faz e desfaz os nossos planos. Irás como enfermeira.
 

E AGORA, tratemos de combinar bem o nosso plano — disse o médico quando viu Jane mais calma. — Deves partir depois de amanhã no comboio da noite, que sai de Euston. Podes preparar-te neste espaço de tempo?

— Já estou preparada.

— Apresentar-te-ás como sendo a enfermeira Rosemary Gray.

— Isso é que não me agrada muito — objectou Jane. — Preferia um nome imaginário. Supõe tu que a enfermeira Gray aparece lá, ou que alguém a conhece!

— Ela já vai a meio caminho da Austrália, e não verás lá ninguém além do médico e do pessoal da casa. Se alguém aparecer, o mais certo é que te conheça. Temos de correr esse risco. Mas, para o caso de surgirem complicações, dar-te-ei um bilhete, que poderás apresentar nessa altura, em que resolverei a situação deste modo: sendo tu a pessoa que ia substituir a enfermeira Gray, consentiste, a meu pedido, em tomar o nome dela a fim de evitar a necessidade de dar explicações ao doente, o que lhe seria bastante prejudicial nestas circunstâncias. Isto posso eu declarar sem receio, pois é mais verdade do que julgariam à primeira vista. Portanto, Jane, tens de representar o teu papel o melhor que puderes, e tanto quanto to permitir o teu metro e setenta e tal de altura; não te esqueças de que te descrevi ao Dr. Mackenzie como sendo «uma criaturinha delicada, bonita, elegante, e muito mais competente do que parece».

— Oh, Dicky! Ele logo vê que eu não sou a pessoa que descreveste na carta!

— Estás enganada, Jeanette. Lembra-te de que se trata de um escocês, e um escocês não compreende logo as coisas. O espírito gaélico trabalha lentamente, embora com grande segurança. Ora aquele chegará à conclusão, depois de te haver contemplado, que sou mau avaliador de mulheres e que a enfermeira Gray é muito melhor do que eu descrevi. O pior é que ele já deve ter, de acordo com a minha carta, formado no espírito do doente um retrato fiel da sua enfermeira. Confiemos na Providência que o Dr. Mackenzie não se lembre de rectificar a pintura em face do original. Evita conversas nesse sentido. Se o nosso bom doutor desconfiar dalguma coisa, chama-o de parte, mostra-lhe a minha carta e dize-lhe a verdade. Mas não me parece que chegue a haver necessidade disso. Quando estiveres com o doente, lembra-te da excessiva sensibilidade auditiva dos cegos. Anda com passos leves, e nunca lhe dês oportunidade de suspeitar que és alta. Não te esqueças de que precisas dum tamborete ou duma escada para tirares um livro que esteja nas prateleiras superiores. Quando Dal principiar a levantar-se e a andar, convém deixá-lo na ilusão de que a enfermeira é mais baixa do que ele, o que não será difícil: uma das suas ideias fixas é que, uma vez cego, nenhuma mulher lhe tocará. O criado é que o levará aonde ele quiser. Como julgo que ninguém, que já tivesse pegado nas tuas mãos, se possa esquecer delas, aconselho-te a evitar também os apertos de mão, e isto logo desde o começo. No entanto, nenhuma destas precauções atenuará a maior de todas as dificuldades: a tua voz. Achas que, de facto, não irá reconhecê-la?

— Afrontarei esse perigo—respondeu Jane.—E agora, Deryck, auxilia-me; imagina que sou a própria enfermeira Rosemary Gray e que tenho a voz parecida com a de Jane Champion. Que se devia fazer num caso desses?

O médico sorriu.

— Minha prezada enfermeira Rosemary — retorquiu — não se surpreenda se o seu doente achar semelhança entre a sua voz e a duma amiga comum, minha e dele. Eu próprio já tinha reparado nisso.

— Realmente, senhor doutor? E posso saber quem é essa pessoa?

— É a Honourable Jane Champion — disse o médico, com o mais amável dos sorrisos que podia consagrar às suas enfermeiras. — Não a conhece?

— Pouco. Mas espero vir a conhecê-la melhor.

Os dois, então, desataram às gargalhadas.

― Obrigada, Dicky. Sei agora o que tenho a dizer ao doente. Mas que tristeza! Será possível que se engane assim Garth Dalmain, cujo olhar era tão brilhante, tão perscrutador? Terei coragem para tanto?

― Se dás valor à tua felicidade futura e à dele, deves proceder desta forma, Jane. É a altura de mandar preparar o carro que te há-de levar a toda a velocidade a Portland Place, senão chegarias atrasada para o jantar, coisa que a Duquesa não admite, como muito bem sabes, ainda que se trate dum viajante que acaba de dar a volta ao Mundo. Se estiveres de acordo comigo, contarás à tua tia, que é pessoa tão bondosa e sensata, tudo isto sobre que estivemos a conversar, omitindo, é claro, os episódios sentimentais. Consulta-a quanto a este plano. O conselho dela será de inestimável valor e a ajuda que mais tarde te possa prestar há-de servir-te de muito.

Levantaram-se e, de pé diante da lareira, trocaram um olhar demorado.

— Dicky — disse ela comovida — foste tão bondoso para mim, mostraste-te tão amigo! Aconteça o que acontecer, ficar-te-ei grata eternamente.

— Caluda! — redarguiu o médico. — Não há lugar a gratidão quando se recebeu o pagamento duma dívida amiga. Amanhã não terei um momento livre, e desconfio que depois de amanhã será o mesmo. Mas podemos jantar às sete em Euston, e eu irei acompanhar-te à estação. O teu comboio parte às oito, deixa-te em Abardeen depois das sete da manhã seguinte e chegas a Gleneesh a tempo do almoço. Hás-de apreciar a chegada àquela hora da manhã. O ar das alturas fortifica. Obrigado, Stoddart. Miss Champion está pronta. Olha para cima, Jane. Flower e os pequenos estão a enviar-te uma chuva de beijos, do alto do corrimão. Recosta-te na almofada, Jane, e desce o véu. Ah, é verdade, nunca usas disso! Fazes bem. Mas se todas as mulheres seguissem o teu exemplo, que seria dos oculistas? Perguntas porquê? Porque elas deixariam de forçar a vista. Não te debruces, para que não te vejam, pois supõem-te no Cairo, esperando ocasião de subir o Nilo. E ouve ainda este conselho — acrescentou Sir Deryck, espetando a cabeça pela portinhola do carro — nada de bagagem complicada. Só o que as enfermeiras costumam designar pela «minha mala», e com as iniciais da outra, R. G.

— Obrigada, Dicky. Não te esqueces de nada.

— Penso em ti — volveu o médico.

E Jane, nos dias difíceis que se seguiram, muitas vezes achou reconforto ao lembrar-se destas últimas e concisas palavras.
 

A «ENFERMEIRA Rosemary Gray» chegara a Gleneesh.

Quando se viu com a «sua mala» no apeadeiro teve a impressão de que caíra das nuvens, deixando o seu mundo e a sua própria identidade em qualquer planeta distante.

Ao pé da estação esperava-a um automóvel, e a princípio receou que o motorista a reconhecesse. Este, porém, pareceu tão insensível como qualquer peça do carro, e não lhe concedeu mais atenção do «que à bagagem. O que ali estava era uma enfermeira e uma mala, dois substantivos comuns, simples volumes que, segundo as ordens recebidas, deviam ser transportados a Gleneesh. Sendo esta a sua maneira de pensar, o homem nem se mexeu e ficou a olhar para a frente, deixando ver apenas um perfil esfíngico sob a pala do boné, enquanto um carregador acomodava Jane e a mala dentro do automóvel. A recém-chegada gratificou-o, procurando conscienciosamente dar-lhe só o que uma enfermeira lhe daria pelo transporte de tal bagagem, e o motorista, movendo pés e mãos com a precisão silenciosa duma máquina, virou para o descampado e tomou a estrada das colinas.

Foram subindo por entre urzes cheirosas e penhas alvacentas, e atravessaram terrenos extensíssimos onde só havia céu e solidão. Mais do que nunca, Jane se sentia noutro planeta, e esse facto tão insignificante, como era a falta do habitual e respeitoso cumprimento dum criado, dava-lhe a deliciosa impressão de êxito e segurança no seu novo papel.

Ouvira muitas vezes falar do velho castelo de Garth, herança da família da mãe, mas nunca imaginara encontrar beleza tão pitoresca e tal magnificência de arcarias e pórticos.

Quando galgaram a encosta, e surgiram à vista os torreões cinzentos num fundo de pinheirais, Jane julgou ouvir a voz juvenil de Garth, dizendo-lhe em Overdene: «Gostaria que fosse ao castelo de Gleneesh. Havia de apreciar o panorama que se avista do terraço, e os pinhais...» Em seguida, jovialmente, declarara a sua intenção de promover ali uma «reunião selecta» e Jane prometera fazer parte dela. Agora, o dono desta maravilha estava cego e ela transpunha os portais de Gleneesh sob um nome que não era o seu, fazendo-se passar por enfermeira profissional. Jane dissera em Overdene: «Sim, convide-nos, e veremos o que sai daí». Agora perguntava a si própria: «Que sairá daqui? Como acabará tudo isto?»

Simpson, criado de Garth, recebeu-a à porta, e Jane tomou a escapar a um possível perigo. O homem entrara para o serviço de Garth havia menos de três anos e, evidentemente, não a conhecia.

Ao penetrar no vestíbulo antigo, ela parou e olhou em volta como sempre fazia quando chegava pela primeira vez à casa de campo de qualquer dos seus amigos. Observava o fogão largo, estranho, e as armações de veados que o encimavam, quando, de súbito, reparou que Simpson, já a meio da escada, esperava que a enfermeira se apressasse a segui-lo. Ela assim fez. Em cima, foi recebida pela velha Margery. Nem era preciso o avental de cetim preto, a coifa de cambraia e as fitas lilazes para Jane reconhecer a ama, governanta e amiga de Garth; um golpe de vista a esse rosto sério e bondoso, enrugado e cor-de-rosa, bela mistura de perfeita saúde e idade avançada, foi o bastante para a identificar. Nem devia haver outros olhos assim, olhos que pareciam penetrar até ao fundo da alma.

Conduziu Jane ao quarto que lhe estava reservado, falando todo o tempo no intuito de a pôr à vontade e de expressar o seu bom acolhimento, sem esquecer a nuvem de tristeza que pairava sobre a casa e que tomava a presença dela necessária ali. Ao fim de cada frase dizia «enfermeira Gray» numa inflexão mais alta e com um engraçado vibrar de r r. Jane sentiu desejos de manifestar o seu prazer em vir morar com ela, mas conteve-se a tempo: o que teria parecido amável condescendência da parte da Honourable Jane Champion, seria impertinente familiaridade da enfermeira Rosemary Gray. De modo que se limitou a segui-la humildemente até ao lindo quarto que lhe haviam preparado, admirou as cortinas e os estofos de chita, respondeu às perguntas sobre a viagem e confessou que gostaria de almoçar, porém ainda mais de tomar um banho, se fosse possível.

Depois do banho e do almoço, Jane postou-se à janela, olhando o soberbo panorama, enquanto esperava a chegada do médico assistente que a devia apresentar a Garth.

Envergava o mais prático dos seus uniformes: vestido de linho azul com punhos e gola branca, e um avental também branco de alças largas e bolsos avantajados. Além disso, pusera a touca que costumava usar no hospital onde praticara enfermagem. Não tencionava andar sempre com ela, mas nessa manhã, não queria omitir nada do que lhe pudesse dar, na presença do Dr. Mackenzie, o verdadeiro aspecto de enfermeira profissional. O pior é que a simplicidade severa do uniforme parecia tomá-la ainda mais alta, apesar dos sapatos rasos de solas de borracha. A única esperança estava em se cumprirem os vaticínios de Deryck a respeito do Dr. Mackenzie e da impressão que este teria ao vê-la.

Nesse momento avistou a distância, na fita branca da estrada, vindo do vale, um cabriolé que avançava rápido. Vinham nele dois homens: o de trás era um criado. A hora de Jane chegara. Junto da janela, ajoelhou, pedindo forças, coragem, prudência. Sentia-se desnorteada: reflectira tanto e tão intensamente que tudo se lhe confundia no cérebro. Até o rosto querido de Garth se desvanecera do seu espírito, apesar dos esforços que ela fazia para se recordar. Só um facto permanecia claro: dentro de poucos minutos seria conduzida ao quarto onde jazia o doente. Veria esse rosto que não tornara a contemplar desde que estiveram juntos no degrau do altar, rosto do qual desaparecera lentamente a confiança risonha para dar lugar ao horror da fria desilusão.

Jane voltaria a admirar essa face querida; ele, cego, é que não veria a dela. Seria fácil mantê-lo na ilusão de que em sua presença estava uma pessoa muito diferente de Miss Champion.

O cabriolé virara a última curva da estrada e desaparecera. Devia vir já defronte da entrada.

Jane levantou-se e esperou. De repente, lembrou-se de duas frases da sua conversa com Deryck. «Terei coragem para tanto?» dissera ela. E o médico respondera logo: «Se dás valor à tua felicidade futura e à dele, deves proceder desta forma».

Bateram à porta. Jane atravessou o quarto e foi abrir.

Simpson estava no limiar.

— O Dr. Mackenzie deseja falar-lhe. Encontra-o na biblioteca.

— Indique-me o caminho, senhor Simpson — respondeu a «enfermeira Rosemary Gray».
 

DE pé, sobre uma pele de urso, de costas voltadas para o fogão, estava o Dr. Robert Mackenzie, conhecido entre os amigos pelo Dr. Rob ou «velho Robbie», consoante o grau de intimidade.

A primeira impressão de Jane foi a de um homem baixo e forte, metido num velho colete de foca e num amplo gabão de cor clara, em atitude napoleónica: pernas afastadas, braços cruzados no peito, ombros erguidos. Quem o observasse de baixo para cima, esperaria encontrar uma face marfilínea, nariz romano, queixo voluntarioso e lábios finos que denunciassem espírito dominador; em vez disso, porém, deparava-se-lhe uma cara sardenta, de nariz arrebitado, queixo roliço e bigode ruivo de pontas descaídas. A única coisa notável naquele rosto eram os olhos, uns olhos azuis e inquisidores que, ao fixarem-se em alguém, quase desapareciam sob as sobrancelhas hirsutas e se tomavam como dois pontinhos de luz cor de turquesa.

Jane, dois minutos depois de entrar, percebeu que esse homem, nos momentos em que o seu espírito trabalhava, ficava inconsciente do corpo, e então fazia as coisas mais singulares sem dar por isso. A esse respeito, os amigos costumavam dizer: «Robbie é capaz de roer o cabo de uma dúzia de canetas enquanto o Dr. Mackenzie medita nas receitas que há-de passar».

Quando Jane entrou, os olhos do médico estavam poisados numa carta, que ela adivinhou ser a de Deryck, e não os levantou logo. Ao erguê-los, teve um gesto de surpresa e abriu a boca para falar. Jane, ao vê-lo assim, lembrou-se de um peixe que a Duquesa tinha em Overdene, e que costumava vir à superfície de água quando lhe deitavam migalhas de pão. O médico, porém, tomou a fechar a boca sem proferir palavra e voltou a ler a carta. Jane sentiu-se a migalha de pão que ele achava difícil de engolir.

Enquanto esperava em respeitoso silêncio, as palavras de Deryck atravessaram-lhe o cérebro, acalmando um pouco a sua agitação: «O espírito gaélico trabalha lentamente, embora com segurança. Chegará à conclusão de que sou mau avaliador de mulheres».

Por fim, o médico ergueu de novo os olhos para Jane e, santo Deus, quão alto os teve de erguer!

— Enfermeira... quê? — indagou, e Jane achou que os olhos dele pareciam dois pedacinhos de porcelana azul meio escondidos numa pilha de feno.

— Rosemary Gray — respondeu em tom cheio de deferência. Teve a impressão de que estava em Overdene num ensaio de amadores teatrais que, daí a instantes, a Duquesa bateria com a bengala no soalho para que eles falassem mais claro e não fossem tão lentos.

— Ah! — exclamou o Dr. Robert Mackenzie.

Olhou fixamente para um canto da alcatifa, aproximou-se daí, apanhou uma hastezinha de esparto deixada pela vassoura, examinou-a com atenção e em seguida meteu entre os dentes uma das extremidades e pôs-se a trincá-la.

Jane perguntava a si mesma o que seria correcto fazer nesse género de entrevistas, quando um médico não se senta nem manda sentar a enfermeira. Desejaria ter perguntado a Deryck; mas talvez ele não a pudesse elucidar, pois as primeiras palavras que dirigia a uma enfermeira eram as seguintes: «Faça favor de se sentar. As pessoas que se vêem obrigadas a estar quase sempre de pé devem cultivar o hábito de se sentarem em todas as ocasiões possíveis».

Porém, o homenzinho atarracado que ali se encontrava não era Deryck. De modo que Jane se limitou a concentrar a sua atenção no bocadinho de esparto que baloiçava na boca do médico e que diminuía a pouco e pouco. Quando por fim desapareceu, o Dr. Mackenzie tomou a falar:

— Com que então já chegou, enfermeira Gray. «Realmente, um escocês é de compreensão muito lenta», pensou Jane, mas aliviada por ele não mostrar dúvidas quanto à sua identidade. Deryck tivera razão. Ainda bem que não se via na necessidade de confiar a este homem excêntrico o seu segredo.

— Sim, senhor doutor, já cheguei — respondeu ela. Outro período de silêncio. Antes de o Dr. Mackenzie falar de novo, apareceu e desapareceu outra vez o fragmento de esparto.

— Estimo muito que já cá esteja, enfermeira Gray — disse ele.

— E eu estou contente por já cá estar — respondeu Jane, gravemente, esperando quase ouvir as exclamações da Duquesa nos bastidores. A comédia prosseguia.

De súbito, ela notou que, nos últimos instantes, a atenção do Dr. Mackenzie se concentrava noutra coisa qualquer. Não era Jane que o interessava neste momento. Daí a pouco duas luzinhas azuis surgiram por baixo das sobrancelhas hirsutas e percorreram a face dela com a ligeireza e o brilho dos holofotes. O Dr. Mackenzie começou então a falar rapidamente, com um espantoso vibrar de r r.

— Segundo creio, Miss Gray, veio para tratar mais do espírito do doente do que do corpo. Não se incomode em dar-me explicações. Já as recebi de Sir Deryck Brand, que foi quem prescreveu uma enfermeira para fazer companhia ao doente e a escolheu para esse fim. Concordo em absoluto com a sua prescrição, e, deixe-me dizer-lhe, admiro os ingredientes da receita.

Jane inclinou-se, pensando quanto a Duquesa se riria se assistisse a tal cena. Que homenzinho insuportável! Jane teve tempo de fazer todos estes comentários íntimos enquanto ele se aproximou da mesa e se pôs a examinar uma mancha de tinta que lá havia na toalha; ao descobrir um pingo de cera, levantou-o com a unha do polegar, atirou-o para as brasas do fogão e ficou a ver com grande interesse a cera derreter-se e flamejar. Feito isso, voltou-se para Jane com tal presteza que lhe viu o olhar indignado.

— Acho que pouco tenho a dizer a respeito do tratamento — continuou ele calmamente. — Já deve ter recebido instruções de Sir Deryck. O mais importante agora é fazer com que o doente se interesse pelo mundo exterior. A tentação daqueles que perdem de repente a vista é a de adquirirem o hábito de se abismarem num mundo interior, mundo de evocações, de saudades, de imaginação, o único que podem ver.

Jane fez um movimento rápido de curiosidade. No fim de contas, talvez aprendesse algo de útil com aquele escocês extravagante. Oh, se fosse possível desviar-lhe a atenção dos pingos de cera na toalha e do lixo no tapete!

— Queira dar-me mais alguns esclarecimentos — pediu ela.

— É esta a presente dificuldade com o senhor Dalmain — prosseguiu o Dr. Mackenzie. — Parece não haver possibilidade de lhe despertar o interesse pelo mundo exterior. Recusa receber visitas; não quer que lhe leiam as cartas; passa horas seguidas sem abrir a boca. com facilidade julgará que tem a seu cargo um doente cego e mudo, a não ser que o oiça responder às minhas perguntas ou dar qualquer ordem ao criado. Se ele mostrar desejo de falar comigo a sós, quando lá estivermos, não saia do quarto. Vá até junto do fogão e fique aí. É necessário que veja como ele pode, quando quer, sair daquela apatia. O mais importante da sua missão, Miss Gray, é ajudá-lo dia a dia a recomeçar a vida, vida dum homem cego, é verdade, mas não inactiva. Agora que desapareceu todo o perigo de infecção das feridas, ele pode levantar-se, mexer-se, aprender a guiar-se pelo som e pelo tacto. Era um artista verdadeiro. Não voltará a pintar, mas há outros dons em que se pode expandir uma natureza artística.

O médico calou-se de súbito; pelo que parecia, descobrira outro pingo de cera, pois encaminhou-se para a mesa. Porém, no mesmo instante, virou-se de chofre e perguntou:

— Ele toca?

Mas Jane estava em guarda, mesmo contra qualquer surpresa eventual.

— Sir Deryck não me disse se o senhor Dalmain era músico ou não.

— Pois então — volveu o médico, retomando a atitude napoleónica — é preciso que o descubra. A propósito, toca piano, Miss Gray?

— Um pouco.

— Ah! — exclamou o Dr. Rob. — E se calhar também canta um pouco?

Jane respondeu que sim.

— Nesse caso, minha cara enfermeira, proíbo-lhe terminantemente que cante ou toque diante do senhor Dalmain. Nós, os que possuímos vista, ainda podemos suportar que as pessoas «toquem um pouco» para nos demonstrar quão pouco sabem tocar, porque temos a possibilidade de olharmos em redor e nos distrairmos com outras coisas. Mas a um cego, com aquela sensibilidade de artista, tal experiência redundaria em loucura. Não nos arrisquemos a isso. Lastimo ser tão pouco amável, mas a saúde dum doente está acima de tudo.

Jane sorriu. Começava a gostar do Dr. Rob.

— Terei o máximo cuidado em não tocar nem cantar diante do senhor Dalmain — disse ela.

— Muito bem — volveu o Dr. Mackenzie. — Agora vou aconselhá-la no que deve fazer. Conduza-o ao piano. Sente-o numa cadeira em que ele se sinta em segurança; nada desses bancos giratórios, tão periclitantes. Faça um encaIhezito precisamente a meio do teclado para que ele se possa orientar com facilidade. Deixe então o seu espírito comprimido expandir-se na pintura de quadros de som. Verá que isso o há-de distrair. Se tocava, como depreendo daquele piano que ali está sem nenhuma bugiganga em cima, pode começar já, antes que o atormentemos com o método Braille ou qualquer outro sistema de ensinar cegos. Mas arranje uma marca (uma pequenina incisão na madeira, logo abaixo da tecla) para ele encontrar sem hesitação o dó central. As outras notas não interessa marcar. É tudo quanto precisará de ver quando estiver ao piano. Ah, ah! Não está mal para um escocês, hem, Miss Gray?

Jane, porém, não se riu, embora no fundo do espírito lhe parecesse ouvir as gargalhadas e os aplausos da Duquesa. Esta comédia não era para Jane: o seu Garth cego ao piano, com a bela cabeça inclinada para a frente e os dedos à procura daquela incisão a fim de poder orientar-se no teclado! Quase sentiu ódio por esse indivíduo que fazia trocadilhos a respeito da cegueira de Garth, e, na sua imaginação, Tommy juntou-se à Duquesa, adejando no poleiro e gritando: «Ponham-no fora! Calem esse bico!»

— E agora — disse o Dr. Mackenzie à queima-roupa — a primeira coisa a fazer é apresentá-la ao doente.

Jane sentiu o sangue fugir-lhe das faces e afluir-lhe ao coração com uma pancada violenta. No entanto, manteve aparência calma e esperou em silêncio.

O Dr. Mackenzie tocou a campainha e Simpson apareceu.

— Traga uma garrafa de Xerez, um copo e alguns biscoitos.

O criado eclipsou-se.

«Que bruto», pensou Jane. «Às onze da manhã!»

O Dr. Rob ficou de pé, à espera, puxando com fúria o bigode e olhando atentamente para a janela.

Simpson reapareceu, colocou uma bandeja sobre a mesa e saiu sem rumor, fechando depois a porta.

O Dr. Rob encheu de vinho um copo, arrastou uma cadeira para junto da mesa, e disse:

— Agora, Miss Gray, sente-se, beba isto e coma um biscoito.

— Mas, senhor doutor, eu nunca... — protestou Jane.

— Acredito que «nunca» — volveu o médico — especialmente às onze da manhã. Mas hoje beberá. Não perca tempo a discutir. Passou a noite no comboio e vai assistir a um espectáculo triste, que lhe contenderá com os nervos e com a sensibilidade. Acaba de ter uma entrevista exaustiva comigo, e está aí a dar graças a Deus por ela haver terminado. Mas ainda dará graças com maior fervor depois de beber Xerez. Além disso, esteve de pé mais de vinte minutos. Quando falo nunca me sento, e prefiro que os que me ouvem estejam também de pé. Subirá a escada com mais firmeza, enfermeira Rosemary Gray, se se sentar cinco minutos a esta mesa.

Jane obedeceu, humilhada e enternecida. Afinal, debaixo daquele velho colete de pele de foca, estava um coração bondoso e compreensivo. Enquanto ela bebia o vinho e comia os biscoitos, o médico encontrou ocupação no lado da sala: poliu a vidraça da janela com o seu lenço de seda, fazendo todo o tempo um sussurro estranho, como se fosse uma abelha a zumbir. Parecia ter esquecido a presença de Jane; mas, quando esta colocou o copo vazio sobre a mesa, ele voltou-se, atravessou a sala e pousou-Ihe a mão no ombro.

— Agora — disse — acompanhe-me lá acima e, de princípio, fale o menos possível. Lembre-se de que uma voz diferente, penetrando nas calmas profundezas daquelas trevas, causa sobressalto e agonia ao doente. Fale pouco e baixo, e oxalá Deus Todo Poderoso lhe dê tacto e sabedoria.

Naquela figurinha singular que precedia Jane na escada havia a consciência da sua dignidade profissional. Enquanto o seguia, Jane compreendeu de súbito que era nele que se apoiava moralmente, e que a sua presença a animava e a fortalecia. A inesperada conclusão da sua frase, em estilo fora da moda, mas quase uma oração, dera-lhe coragem. «Oxalá Deus Todo Poderoso lhe dê tacto e sabedoria», dissera ele, sem suspeitar de quanto ela necessitava disso. Outra voz lhe ecoava na memória, de mistura com sons de órgão: «Dai-nos a paz, sê-nos guia, a fim de evitar-se o mal».

E, em passo firme e silencioso, Jane entrou, atrás do Dr. Mackenzie, no quarto onde Garth jazia cego, desfigurado e cheio de desespero.
 

SEM que soubesse porquê, imaginara um quarto escuro, esquecendo que a claridade e as trevas eram iguais para Garth, e que não havia motivo para o privar da luz do Sol, tão purificadora e benéfica.

A seu pedido, tinham-lhe mudado a cama para um canto, o mais distanciado da porta, do fogão e das janelas, com o lado esquerdo rente à parede para que ele a pudesse sentir ao voltar-se e assim tivesse a certeza de que estava resguardado de olhares indiscretos. Era nessa posição que se encontrava, e não se mexeu ao ouvi-los entrar.

Tudo o que Jane viu, a princípio, foi a querida cabeça de cabelos negros pousada no travesseiro. Depois, distinguiu-lhe o braço estirado ao longo do corpo, envolto na manga dum pijama de seda azul, e a mão, branca e emagrecida, inerte sobre a colcha.

Jane escondeu as suas atrás das costas. Era tão forte o impulso de cair de joelhos junto da cama dele, agarrar naquela pobre mão e cobri-la de beijos! Ah, com certeza aquela cabeça se voltaria então e, em vez de procurar refúgio na parede fria e dura, ocultaria o rosto na ternura infinita dos braços de Jane! Porém, a voz de Deryck soou-lhe aos ouvidos, grave e persistente: «Se dás valor à tua felicidade futura e à dele...», e ela pôs as mãos atrás das costas.

O Dr. Mackenzie avançou até junto da cama e poisou a mão no ombro de Garth. Depois, falou em voz tão baixa e tão doce que Jane lhe custou a crer que este fosse o homem que estivera a interrogá-la, a dar-lhe ordens e a emitir opiniões em tom áspero e autoritário.

— Bom-dia, senhor Dalmain. Simpson informou-me que passou uma noite excelente, a melhor que teve até agora. Ainda bem. Sem dúvida que se sentiu aliviado por se ver livre de Johnson, embora ele fosse muito competente, e se entregar de novo às mãos do seu criado. Estes enfermeiros muito solícitos nunca estão satisfeitos com o que fazem; pretendem sempre fazer mais e melhor, e o seu zelo excessivo fatiga o doente. Mas hoje trago-lhe alguém que está pronto a fazer tudo o que lhe for preciso e, no entanto, nunca o há-de maçar. Disso tenho eu a certeza. Temos aqui presente a enfermeira Rosemary Gray, que veio por mandado de Sir Deryck Brand e está disposta a servir-lhe de dama de companhia, de secretária, de leitora, de tudo o que quiser. É, de facto, um novo par de olhos para o senhor Dalmain, com um cérebro inteligente atrás deles e um coração de mulher bondoso e compreensivo para dirigir esse cérebro. A enfermeira Gray chegou esta manhã.

Nenhuma resposta se fez ouvir, mas a mão de Garth tacteou a parede, recaindo depois sobre a colcha.

Jane não tinha a noção de que era ela a «enfermeira Gray». Só o que desejava é que não importunassem o pobre rapaz por causa dessa mulher. Nesse momento parecia-lhe ser estranha a tudo aquilo.

O Dr. Mackenzie tomou a falar:

— A enfermeira Rosemary Gray está aqui no quarto, senhor Dalmain.

Então, a instintiva delicadeza de Garth impôs-se-lhe nas trevas da sua cegueira; se bem que não voltasse a cabeça, ergueu a mão direita em leve gesto de saudação e disse numa voz baixa, que parecia vir de longe:

— Como passou a viagem? Foi grande bondade sua ter vindo para um sítio tão distante.

Os lábios de Jane moveram-se, mas nenhum som passou entre eles.

O Dr. Rob encarregou-se de responder, sem olhar para ela:

— Miss Gray fez boa viagem, e está com tão bom aspecto como se tivesse passado a noite na cama.

— Espero que a minha governanta lhe proporcione toda a comodidade possível. Por favor, dê-lhe ordens nesse sentido — retorquiu a voz fatigada.

E Garth chegou-se ainda mais para a parede, como para terminar a conversa.

O Dr. Rob atacou o bigode e ficou uns momentos a olhar para aquele ombro envolto em seda azul. Por fim, voltou-se e dirigiu-se a Jane:

— Aproxime-se da janela, Miss Gray. Vou mostrar-lhe uma cadeira especial que adquirimos para o senhor Dalmain, na qual ele achará todo o conforto possível quando estiver disposto a levantar-se da cama. Ora vê? Temos aqui um suporte para a cabeça, que se pode regular para a altura e posições necessárias; e estas variadas prateleiras e mesas também podem mudar de posição. Considero esta cadeira excelente e Sir Deryck aprovou-a. Já viu alguma deste género, Miss Gray?

— Tínhamos uma no hospital, mas não tão completa como esta.

No sossego do quarto cheio de sol, irrompeu da cama uma voz que os fez sobressaltar, o grito de alguém perdido nas trevas, reclamando, frenético, luz para o seu espírito.

— Quem está aí?! — exclamou Garth Dalmain. Tinha o rosto ainda voltado para a parede; mas o corpo soerguera-se com o auxílio do braço esquerdo, numa atitude que significava a mais acurada atenção. Foi o Dr. Mackenzie quem respondeu:

— Não está aqui mais ninguém além de mim e da enfermeira Gray.

— Há mais alguém no quarto! — insistiu o doente. — Como se atreve a mentir-me? Quem é que falou há pouco?

Jane aproximou-se então rapidamente da beira do leito. As mãos tremiam-lhe; ela, porém, conseguiu dominar a voz:

— Fui eu que falei, senhor Dalmain: a enfermeira Rosemary Gray. Parece-me que sei o motivo por que a minha voz o impressionou. O Dr. Brand preveniu-me de que isto podia acontecer. Disse-me que eu não devia admirar-me se o senhor achasse semelhança entre a minha voz e a de uma pessoa sua conhecida e dele. Acrescentou que reparara nisso por mais duma vez.

Garth, nas trevas da sua cegueira, ficou imóvel, ouvindo e meditando. Por fim, pronunciou lentamente:

— Ele não disse de quem era essa voz?

— Disse, porque eu perguntei. É de Miss Champion. A cabeça de Garth descaiu no travesseiro. Depois, sem se voltar, murmurou num tom que Jane sabia ser acompanhado dum sorriso naquela querida face oculta:

— Queira perdoar, Miss Gray, ter-me sobressaltado de modo tão estúpido e haver-me agitado desta forma indesculpável. Mas, como sabe, ainda não me habituei a ser cego, e, sempre que uma voz nova transpõe o reposteiro negro da minha noite perpétua, isso representa para mim muito mais do que os outros julgam. A semelhança da sua voz com a dessa senhora de quem Sir Deryck falou é tão notável que, embora sabendo-a neste momento no Egipto, mal posso acreditar que ela não se encontre aqui. No entanto, a presença dessa pessoa neste quarto seria a coisa mais incrível deste mundo. Por isso lhe peço, e ao Dr. Mackenzie, me perdoem tanto a minha agitação como a minha incredulidade. — Dizendo isto, estendeu a mão direita, com a palma para cima, na direcção de Jane.

Esta, porém, crispou as suas atrás das costas.

— Chegue aqui, Miss Gray — atalhou a voz rude do Dr. Mackenzie, que se encontrava junto da janela. — Tenho ainda mais algumas explicações a dar-lhe.

Estiveram a falar um com o outro sem interrupção, até que o Dr. Rob declarou:

— Agora creio que posso retirar-me.

— Gostaria de conversar consigo em particular, Dr. Mackenzie — pediu Garth.

— Eu espero por si lá em baixo, senhor doutor — disse Jane.

Ia a dirigir-se para a porta quando um gesto imperioso do médico a deteve e fez com que ela voltasse sem rumor para junto do fogão. Não via necessidade deste subterfúgio, mas o Napoleãozinho local não era homem a quem se desobedecesse. O doutor foi até à porta, abriu-a e tomou a fechá-la; após isso, aproximou-se do leito, puxou uma cadeira e sentou-se.

— Estou às suas ordens, senhor Dalmain. Garth sentou-se na cama e voltou-se para ele. Então, pela primeira vez, Jane viu-lhe o rosto.

— Doutor — disse ele — fale-me dessa enfermeira. Descreva-ma.

O seu tom e atitude eram impressionantes. Juntara as mãos, como se implorasse vista através dos olhos de outrem; a face pálida e emagrecida, devastada pelo sofrimento, exprimia ansiedade e perturbação.

— Descreva-ma, doutor — repetiu ele. — Descreva essa enfermeira Rosemary Gray, como o senhor lhe chama.

— Mas não é um nome inventado por mim, meu caro amigo — respondeu o médico deliberadamente. — É o nome da rapariga; e bem bonito, por sinal. «Rosemary para que não esqueça» (*). Não é assim que diz Shakespeare?

 [N. da T.: Rosemary significa rosmaninho.
O passo citado pela autora é do «Hamlet», IV acto, cena V.]

— Descreva-a — pediu Garth pela terceira vez.

O Dr. Mackenzie relanceou a vista por Jane. Ela, porém, voltara-se de costas para esconder as lágrimas. Oh, Garth! Oh, belo Garth, de olhos cintilantes!

O médico resolveu então tirar do bolso a carta de Deryck e pôs-se a examiná-la.

— Já o informo — disse ele por fim em voz pausada. É uma criaturinha delicada, bonita, elegante, exactamente o género de rapariga que o senhor gostaria de ter a seu lado se pudesse ver.

— Loira ou morena?

O doutor lançou um olhar rápido ao que ele podia ver da cara de Jane, e às mãos trigueiras que se apoiavam na prateleira do fogão.

— Loira — respondeu sem hesitar um momento. Jane estremeceu e olhou em volta. Por que razão esse homem estava a mentir de moto próprio?

— E os cabelos como são? — inquiriu a voz fatigada.

— Quanto a isso, é difícil dizer ao certo, pois estão em parte escondidos pela touca. Mas suponho que são frisados, leves e sedosos, como convém a uma senhora bonita.

Garth deixou-se cair de costas, ofegante, apertando com a mão os olhos cegos.

— Doutor — disse ele — sei que lhe tenho dado muito trabalho, e hoje deve pensar que estou doido. Mas, se não quer que eu enlouqueça realmente, mande embora essa mulher. Não a deixe entrar mais no meu quarto.

— Senhor Dalmain — volveu o Dr. Mackenzie com toda a paciência — é preciso considerarmos bem as coisas. Nada temos contra a rapariga, a não ser essa casual semelhança de voz com a duma senhora sua conhecida, que anda agora por terras estrangeiras. Então essa senhora não é pessoa simpática?

Garth riu-se, riso amargo que era quase um soluço.

— Oh, se é! — respondeu.

— «Rosemary para que não esqueça» — citou o médico. — Sendo assim, por que razão a enfermeira Rosemary Gray não lhe recordaria alguém simpático? Além disso, a voz dela parece-me tão suave, tão meiga, que acho não a devemos desprezar. Hoje em dia, a maior parte das mulheres fala duma maneira boa para espantar pardais: parecem pedras a rolar numa caixa de folha.

— Mas não compreende, doutor — objectou Garth num tom ainda de maior cansaço — que é justamente a recordação e não a semelhança que, na minha cegueira, não posso suportar? Nada tenho contra a voz dela, Deus bem sabe! Mas quando a ouvi julguei que era... a outra... que vinha ter comigo... aqui... e...

A voz de Garth calou-se de súbito.

— A senhora simpática? — volveu o Dr. Rob. — compreendo. Sir Deryck diz que a melhor coisa para si seria receber visitas. O senhor tem muitos amigos dispostos a virem de qualquer distância para o distrair e consolar. Por que não manda chamar a tal senhora? Estou certo de que ela viria. Se se sentasse a seu lado e conversasse consigo, a voz da enfermeira já não o impressionaria.

Garth tomou a sentar-se, de semblante alterado. Jane voltou-se sem rumor sobre o tapete e ficou a observá-lo.

— Não, doutor — protestou ele — por amor de Deus! Do mundo inteiro, ela é a última pessoa que eu desejaria entrasse aqui!

O Dr. Mackenzie inclinou-se para examinar minuciosamente uma cerzidura microscópica no lençol.

— E porquê? — indagou em voz muito baixa.

— Porque — replicou Garth — essa senhora simpática, como muito bem o doutor lhe chama, possui um coração generoso e compassivo que transbordaria de piedade pela minha cegueira, e dela eu nunca poderia aceitar comiseração. Seria a última palha no meu fardo já pesado. Sinto-me com forças de o suportar, e espero com o tempo carregá-lo virilmente até Deus ordenar a minha libertação. Mas essa última palha — a piedade dela — far-me-ia sucumbir. Eu tombaria na escuridão e não me levantaria mais.

— Compreendo—murmurou o Dr. Rob. — Pobre rapaz! Descanse, que a senhora simpática não virá.

Ficou uns momentos calado, depois, recuou a cadeira e pôs-se de pé.

— Entretanto — tornou ele — peço-lhe, senhor Dalmain, que se mostre agradável para a enfermeira Rosemary Gray e não lhe torne a sua missão muito difícil. Não me atrevo a mandá-la embora. Foi escolhida pelo Dr. Brand. E pense quanto a prejudicaria na sua profissão! Pense nisso, homem! Mandá-la embora sem mais nem menos depois de estar cinco minutos no quarto dum doente, porque a voz dela o punha fora de si! Pobre pequena! Que declaração para pôr no seu relatório! Com que cara apareceria ela à enfermeira-chefe! Não pode ser generoso e sem egoísmo bastante para enfrentar o sofrimento que essa coincidência da voz lhe possa causar?

Garth hesitou.

— Dr. Mackenzie — disse finalmente — jura-me que a descrição que fez dessa rapariga foi exacta?

— Não jurarás — citou o Dr. Rob de modo untuoso. — Tive uma mãe devota, meu amigo. Mas posso fazer melhor do que isso. Vou confiar-lhe um segredo. Estive a ler-lhe um trecho da carta de Sir Deryck. Pouco percebo de mulheres, pois sempre considerei os cães e os cavalos melhores companheiros e menos complicados. Por isso, não me fiei nos meus olhos e preferi guiar-me pela descrição de Sir Deryck. Esse é que é entendido em mulheres. Conhece pessoalmente Lady Brand?

— Se a conheço? — volveu Garth, animado, com um leve rubor nas faces magras. — Até lhe pintei o retrato! Ela está junto duma mesa, com a claridade a incidir-lhe no cabelo, arranjando um ramo de narcisos amarelos numa jarra de Veneza. Não viu o quadro na Galeria Moderna, há dois anos?

— Não — respondeu o médico. — Poucas vezes vou a galerias, quer sejam antigas ou modernas. Mas... (lançou um olhar inquiridor a Jane, a qual fez um sinal afirmativo) a enfermeira Gray disse-me que o tinha visto.

— Ah, sim?! — retorquiu Garth. — Julgava que as enfermeiras não frequentavam exposições de pintura.

— Não sei por que não. Têm de ir a qualquer parte nos seus dias de folga. Não vão passar todo o tempo a contemplar as montras das lojas. Por que motivo não hão-de ir a exposições? Além disso, Miss Rosemary é pessoa cultivada. Sir Deryck assevera que se trata duma senhora bem nascida, dada a leituras, inteligente. Então que resolve, meu amigo?

Garth meditou em silêncio.

Entretanto, Jane voltara-se e, com as mãos agarradas ao pano do fogão, esteve ali imóvel durante aquele minuto. O doente falou por fim, devagar, hesitante:

— Se eu ao menos pudesse separar a voz desta enfermeira... da voz da outra pessoa! Se eu tivesse a certeza de que, apesar da extraordinária semelhança, se não trata da mesma...

Fez uma pausa e o coração de Jane dir-se-ia ter parado também. Iria Garth descrevê-la?

— ...da mesma cara e do mesmo corpo que tenho tão nítidos na minha lembrança como associados àquela voz...

— Pois bem — retorquiu o Dr. Rob — seremos capazes de afastar esse óbice. As enfermeiras sabem que os doentes são muitas vezes pessoas caprichosas. Chamaremos a rapariga: ela ajoelhará junto da sua cama. Que diabo! Como estou presente, servirei de pau de cabeleira. O senhor passa-lhe as mãos no rosto, no cabelo e em volta da cintura e, pelo tacto, certificar-se-á de como ela é elegante, essa delicada rapariga de vestido azul e avental branco...

Garth desatou a rir, com uma entoação que até aí não transparecera.

— Essa proposta é a mais estranha de todas! — exclamou ele. — Meu Deus, parece-me que estou a ficar pateta. Devo ter exagerado a semelhança de vozes. Dentro de um ou dois dias deixarei de reparar nisso. E, se ela está realmente interessada por esse retrato... Mas para onde é que o doutor vai?

— Cá estou — volveu o médico. — Estive apenas a empurrar uma cadeira para junto do fogão e tomei a liberdade de me servir dum copo de água. O senhor, realmente, está a adquirir uma acuidade auditiva anormal. Agora sou todo ouvidos. Que dizia a respeito do retrato?

— Ia somente dizer que, se ela... a enfermeira... se interessa de facto pelo retrato de Lady Brand, há lá em cima no meu quarto de trabalho estudos de que me servi para essa pintura. Ela pode vê-los, se quiser. Que os traga para aqui... Mas oiça, doutor: acha que é bonito eu estar na cama e ter uma senhora a entrar e a sair... Por que não hei-de levantar-me e experimentar a tal cadeira? Mande-me Simpson, e diga-lhe também que me procure o casaco de quarto, o casaco castanho, e a gravata cor de laranja. Ainda bem que conservo a memória das cores! Infelizes dos que são cegos de nascença. Peço-lhe ainda que diga a Miss Gray que vá dar um passeio até ao pinhal, ou até à coutada. Pode ir de automóvel. Ou então que descanse; como for do seu agrado. Enfim, que se considere em sua casa, mas que não entre aqui no quarto antes de Simpson a prevenir de que estou pronto.

— Confie na discrição de Miss Gray — disse o Dr. Rob, cuja voz se alterara de súbito. — Mas não se levante muito à pressa. Verá que as suas forças não lhe permitem grandes exercícios. No entanto, devo dizer que nada o obriga a conservar-se na cama.

— Adeus, doutor — retorquiu Garth, estendendo-lhe a mão. — Tenho pena de não poder oferecer-me para pintar o retrato da senhora Mackenzie.

— Teria de a pintar de pêlo hirsuto, quatro patas e os mais meigos olhos amarelos deste mundo — observou o Dr. Rob, enternecido. — Aqueles olhos revelam o mais fiel e amante de todos os corações caninos. Desde que tenho essa cadela em casa, nunca deixou de vir ao meu encontro, saudar-me, nunca me desobedeceu, nunca me deu o mais pequeno desgosto. Há alguma mulher que valha isto? E agora adeus, meu amigo, que o Céu o proteja. Não se admire que, depois de visitar os meus doentes, eu volte cá para saber que tal se dá com a cadeira.

O Dr. Mackenzie abriu a porta, e Jane saiu diante e sem fazer ruído. Ele seguiu-a e fez-lhe sinal para descer a escada.

Na biblioteca, Jane voltou-se e encarou-o. O médico fê-la sentar-se numa poltrona e ficou em pé, defronte dela. Abaixo das sobrancelhas emaranhadas viam-se-lhe luzir, húmidos, os olhos azuis.

— Minha filha — começou — não passo dum velho pateta, que merece lhe perdoem. Não pensei que a sujeitaria a esta provação. Enquanto ele hesitava, a senhora devia sentir que a sua carreira estava em jogo. Vejo que chorou; mas não tome tão a peito o facto de o nosso doente achar semelhança entre a sua voz e a de Miss Champion. Com mais um ou dois dias ele deixará de pensar nisso e achará que a senhora lhe é mais necessária do que uma dúzia de Misses Champions. Repare como já lhe fez tanto bem! Até quer levantar-se e explicar-lhe os retratos que pintou. Não se assuste. Depressa conseguirá dele grandes melhoras e eu estarei habilitado a revelar a Sir Deryck o seu êxito junto do doente. Tenho de falar agora com o criado, para lhe dar instruções completas. Aconselho-a a um passeio, que lhe fará apetite para o almoço. Mas abafe-se bem. Não precisará de fazer nada no quarto do doente que a obrigue a andar de uniforme; pode vestir um fato qualquer. Trouxe roupa mais quente? Olhe que nesta terra a gente tem de se proteger do frio.

— É regra da nossa corporação usar uniforme. Mas tenho um de lã cinzento.

— Então use-o. Voltarei daqui a duas horas para ver como ele se arranja com a sua cadeira. Não quero retê-la mais tempo.

— Dr. Mackenzie — acudiu Jane, sem se perturbar — dá licença que lhe pergunte a razão por que me descreveu como loira e transformou os meus cabelos lisos, pesados, de rolo, em sedosa cabeleira encaracolada?

O Dr. Rob havia estendido a mão para a campainha, mas, ao ouvir a pergunta da enfermeira, voltou-se e poisou naqueles olhos leais o seu olhar cintilante e cheio de perspicácia.

— Não precisa de licença para fazer tal inquirição, enfermeira Rosemary Gray, mas admira-me que a ache necessária. Compreendi logo que, por motivos que ele muito bem conhece, Sir Deryck quis dar ao doente um retrato imaginário da senhora, o qual fosse agradável ao senhor Dalmain. Como a descrição era muito diferente da realidade, concluí que, para o retrato ser completo, devia afastar-me o mais possível do modelo, e acabei de dar os últimos retoques. Agora, se me permite...

E o Dr. Rob puxou violentamente a campainha.

— No entanto, correu o risco de que ele aceitasse a verificação que propôs... — insistiu Jane.

— Ora, eu tinha a certeza de estar em presença de um perfeito cavalheiro — volveu em voz alta o médico, já impaciente. — Entra, Simpson, e fecha a porta! Louvado Deus por nos ter feito homens, a ti e a mim, e não mulheres!

Um quarto de hora depois, Jane viu afastar-se o cabriolé, e ficou pensando:

«Deryck tinha razão. Mas que estranha mistura de perspicácia e de obtusidade! O caso é que veio ajudar maravilhosamente os nossos planos!»

Mas a sua surpresa não seria pequena se ela, enquanto via o carrinho a distanciar-se, pudesse ouvir as observações que o Dr. Rob fazia a si mesmo, ao puxar as rédeas e ao iniciar o passo do seu garrano. Era hábito dele comentar de si para si tudo quanto lhe acontecia, e sempre a meia-voz. Travava assim diálogos entre as duas complicadas naturezas do seu ser.

A última conversa decorreu deste modo: «Que diabo teria trazido aqui a Honourable Jane?» dizia o Dr. Rob.

«Raios me partam se o percebo!» respondia o Dr. Mackenzie.

«Deixa-te de pragas, meu velho», volveu o Dr. Rob. «Olha que tiveste mãe devota...»
 

CARTA da Honourable Jane Champion a Sir Deryck Brand:

Castelo de Gleneesh.
Meu caro Deryck:
Os telegramas e postais que te enviei pouco mais te informaram além do facto da minha chegada. Estando eu aqui há quinze dias, acho que é altura de te fazer um relato do que se tem passado. Devo, no entanto, recordar-te o meu pouco jeito para redigir cartas. Desde pequena que sempre me foi difícil escrever qualquer coisa depois da banalíssima introdução: «Espero que esteja de saúde». Põe agora na tua ideia o esforço colossal que representa para mim uma carta descritiva! Contudo, vejo que é necessário arvorar-me em escritora, pois reconheço que tenho passado por coisas pouco vulgares na vida duma mulher. A enfermeira Rosemary Gray está a sair-se muito bem da sua missão. Tomou-se indispensável ao doente e conseguiu inspirar-lhe uma confiança que a enche de orgulho profissional.
A pobre Jane é que teve que se contentar em ouvir que é a última pessoa de quem ele deseja a presença. Quando alguém a mencionou como possível visita, Garth exclamou: «Oh, não, por amor de Deus», e o seu rosto expressou o mais profundo horror. Jane está, pois, a levar a tal sova de cavalo-marinho com que a sentenciou certo juiz que bem conhecemos; o castigo é infligido com intervalos, até perfazer o número de chicotadas que manda a sentença: não mais do que ela pode suportar de cada vez, mas o suficiente para a pobre Jane estar sempre de coração aflito e espírito cheio de medo. Tu, meu caro doutor, tão sagaz, acertaste bem no teu diagnóstico, quanto à maneira de Garth encarar a situação. Ele considera a piedade de Jane a última palha no seu fardo já pesado; e a expressão está certa, porque a piedade que ela tem por ele é como uma palha. De quem tem pena é de si mesma, desanimada com as complicações que arranjou por causa do seu erro. Mas como fazer compreender isto a Garth?
Lembras-te de como os israelitas ficaram encerrados entre Migdol e o mar? Eu sabia que Migdol significava torre, mas não entendi aquele passo bíblico senão quando pisei essa estreita faixa do deserto, com o Mar Vermelho em frente e à esquerda, e a extensão rochosa de Gebel Attaka à direita elevando-se para o céu como as sombras fantásticas duma fortaleza inexpugnável. A única saída ou passagem interior é o caminho que eles atravessaram vindo do Egipto, e ao longo do qual as quadrigas e cavaleiros do faraó partiram em furiosa perseguição. Ora aqui tens a nobre Jane calcorreando o seu bocado de deserto, que se estreita à medida que os dias passam e que aumenta o seu desespero. Migdol é a certeza que ele tem de que o amor dela não é senão piedade. O Mar Vermelho é a confissão em que ela inevitavelmente se precipitará para evitar a escalada de Migdol, e em cujas frias águas, quando ela o arrastar consigo, o amor dele há-de submergir, porque as ondas da dúvida e da desconfiança lhe cobrirão a cabeça — dúvidas que ele já não pode remover, desconfiança que ele jamais conseguirá provar ter sido infundada. Atrás virão galopando as hostes do faraó e a Fortuna apressando-se nas rodas do acaso. A cada instante, pode haver um incidente que obrigue a uma revelação: ele escalará então a rochosa Migdol, com as mãos feridas e os pés a sangrar, e ela, a pobre Jane, debater-se-á no fundo do Mar Vermelho. Oh, quem dera um Moisés com poderes divinos para brandir a varinha do amor e abrir-nos caminho para a Terra de Promissão! Meu caro Dicky, não te atreves a assumir o papel de Moisés?
Mas estou a assemelhar-me a uma página de Baedeker, e o que é preciso é referir os factos actuais.
Como deves calcular, Jane emagrece e empalidece apesar das papas de aveia da Margery, as quais são postas ao lume na véspera para o almoço do dia seguinte, e mexidas por todos quantos passam na cozinha. Sabes que esta é que é a verdadeira forma de fazer papas de aveia? Eu julgava que em cinco minutos elas ficavam prontas. Se ouvisses o sotaque engraçado com que Margery me diz: «Mexa as papas, Miss Gray!» Estou encantada com a facilidade com que percebo os naturais do país, e com o prazer que me causa a sua conversa, porque, depois da luta que tive para compreender os romances modernos que tratam das Highlands, esperava encontrar-me a braços com uma língua desconhecida. Em vez disso, verifiquei que a velha Margery, a governanta Maggie, o jardineiro MacDonald, o couteiro MacAlister, todos falam um inglês tão puro como o meu, ou ainda mais, porque pronunciam melhor e com os r r bem marcados.
Basta de digressão gramatical! Oh, Dicky, a ferida do meu coração é tão profunda e dói tanto que tenho medo dos curativos, ainda que feitos pelos teus dedos delicados! Mas onde tinha eu ficado? Ah, as papas de aveia é que me desviaram do assunto! Ora como ia dizendo, Jane está a ficar magra e pálida apesar das referidas papas; mas a enfermeira Rosemary está florescente, e continua a ser uma criaturinha bonita e elegante, com o encanto adicional dos cabelos frisados e vaporosos, segundo a contribuição que lhe deu o Dr. Rob com a sua descrição fascinante. A propósito: não esperava que ele tivesse tão boas qualidades. Aprendo muito com o Dr. Mackenzie e aprecio bastante o Dr. Rob, excepto nas ocasiões em que sinto vontade de o agarrar pela gola do gabão amarelo e atirá-lo pela janela fora. No que respeita ao físico da enfermeira Gray, achei melhor dar uma explicação ao pessoal da casa. Nem podes imaginar quantos momentos críticos surgiram! Numa ocasião, por exemplo, quando Garth entrou comigo na biblioteca pela primeira vez e mandou Simpson trazer o escadote para Miss Gray; Simpson ia já a abrir a boca para objectar que Miss Gray podia muito bem chegar à estante mais alta pondo-se em bicos de pés, conforme ele já o vira fazer, mas, felizmente, a sua correcção de criado de casa inglesa salvou a situação, e ele limitou-se a dizer «sim, senhor», mas olhou para mim estupefacto por eu não protestar contra aquele trabalho desnecessário. Se a velha Margery ali estivesse (ela que, se começa a falar, não se cala senão depois de exprimir tudo quanto tem no pensamento) ver-me-ia obrigada a agarrá-la com os meus braços delicados e a levá-la para longe.
Por isso, nessa mesma noite, convoquei Simpson e Margery à casa de jantar, depois de o patrão já estar deitado, e disse-lhes que, por certas razões que eu não podia explicar claramente, haviam feito ao senhor Dalmain uma descrição inexacta do meu físico. Julgava-me baixa, magra, loira e muito bonita; para lhe evitar confusões no espírito, convinha não desenganá-lo por enquanto. A atitude respeitosa e atenta de Simpson não se modificou, e o seu único comentário foi este: «Com certeza, Miss». Mas na cara da Margery passaram as mais variadas expressões que, por sorte, se cristalizaram num sorriso de concordância. E então emitiu também o seu comentário: «Acho muito bem, porque o menino Garthie sempre gostou de se ver rodeado de tudo quanto é bonito. Quando esperava visitas para jantar, só se preocupava com a limpeza das pratas antigas e com a apresentação, na mesa, dos melhores copos de cristal e loiça de porcelana mais rara, sem querer saber da ementa. Até numa ocasião eu lhe disse, lembrando-me do que vem na Bíblia: Só se importa com o exterior do copo e do prato, e não se interessa nada pelo que está dentro deles. Por isso acho muito bem conservá-lo na ilusão, Miss Gray». E então, como Simpson tossisse e lhe desse uma cotovelada, ela acrescentou: «Já se sabe que uma cara vulgar pode ser embelezada por uma expressão de bondade, mas a gente é que não tem maneira de explicar essa expressão a quem é cego». Como vês, Deryck, aquela velhinha sagaz, que conhece Garth deste pequeno, estaria inteiramente de acordo com a minha decisão de há três anos.
Mas continuemos o meu relatório. A questão da voz causou-nos alguns embaraços, como tu previste, e durante uns momentos vi o caso mal parado; embora aceitasse com facilidade a explicação que tínhamos combinado, mandou-me retirar e disse ao Dr. Mackenzie que a minha voz lhe transtornava o espírito. O Dr. Rob, porém, soube convencê-lo, e, desde aí, Garth não tornou a falar na minha voz. Às vezes, contudo, percebo que está a ouvir-me e a lembrar-se. Mas enquanto a pobre Jane está posta de parte, a enfermeira Rosemary Gray passa horas deliciosas. O doente volta-se para ela, nada faz sem a consultar, fala-lhe, tenta adivinhar-lhe os pensamentos e confia-lhe os seus. Esse doente é uma pessoa tão sedutora para quem convive com ele! Jane, ao ouvi-los conversar, fica cheia de pena por não ter avaliado bem a dádiva que recusou nem haver compreendido o carácter do homem a quem chamou «criança».
A enfermeira Gray, essa, como passa horas seguidas junto dele em deliciosa camaradagem, começa a compreendê-lo; e Jane, calcorreando abaixo e acima a estreita faixa do deserto, sente-se envolvida no siroco do desespero.
Chego agora ao ponto mais importante da minha carta e, embora seja mulher, não o reservo para o pós-escrito.
Deryck, não poderás vir em breve fazer uma visita a Garth e falar comigo? Não me sinto com forças para continuar nesta situação sem a tua ajuda. E ele ficaria tão contente em conversar contigo e mostrar-te os progressos que tem feito... Talvez pudesses interceder pela Jane, ou então encaminhar-lhe o espírito para ela. Oh, Dicky, se pudesses dispor de quarenta e oito horas! E far-te-ia bem respirares o ar destes sítios, que é tão saudável. Além disso, tenho em mente um projecto que depende da tua vinda. Oh, Dicky, vem!
A que precisa de ti
Jeanette


Resposta de Sir Derick Brand dirigida à enfermeira Rosemary Gray, Castelo de Gleneesh:


Wimpole Street.
Querida Jeanette:
Sem dúvida que irei. Saio de Euston na sexta à noite, e posso passar o sábado e o domingo em Gleneesh, mas tenho de voltar sem falta na segunda-feira.
Farei tudo quanto estiver ao meu alcance, mas infelizmente não sou Moisés nem possuo a sua vara milagrosa. Demais a mais, as últimas investigações provaram que os israelitas não atravessaram o lugar que mencionas, mas sim um pouco mais ao norte, nos Lagos Amargos. Isto é apenas um pormenor, que não afecta em nada a extrema propriedade da tua comparação; pelo contrário, toma-a mais completa, pois receio bastante que haja águas amargas à tua frente, minha pobre Jeanette.
Contudo, sinto-me esperançado, e até confiante. Ultimamente, ao lembrar-me do teu caso, tenho pensado naquele dito popular de que tudo acaba bem. Qualquer pessoa pode fazer com que acabe bem o que já está bem, mas só Deus tem poder de transformar em bom o que é mau, e, juntando todos os nossos erros, malogros e loucuras, obrigá-los a trabalhar para nossa maior felicidade. Quanto mais intrincado é este problema da existência humana, maior é a necessidade de termos como regra de vida o seguinte: «Confia em Deus com todo o teu coração e não te apoies na tua inteligência. Invoca-O em todos os teus caminhos, e Ele te dirigirá os passos». Velhas instruções bem simples, mas verdadeiras e por isso eternas.
Sinto-me satisfeito em saber que a enfermeira Rosemary tem mostrado ser eficiente, mas espero que ela não acarrete novas complicações ao nosso problema. Supõe que o nosso doente se apaixona pela frágil e graciosa enfermeira Rosemary. Que seria então de Jane? Bem me parece que, neste caso, o deserto teria de abrir a boca para a engolir. Temos de evitar tal catástrofe. Não poderás induzir a Rosemary a confessar-se interessada por Simpson?
Oh, minha pobre Jane, eu não estaria a gracejar se em breve não acudisse em teu auxílio!
Que insensatez tudo isto! E tu, que és inestimável, posta assim de parte! Mas quase todos os homens são loucos ou cegos, e há um que é ambas as coisas. Hei-de provar isso a Garth, para satisfação minha e dele, se tiver oportunidade.
Teu amigo devotado
Deryck Brand


De Sir Deryck Brand ao Dr. Robert Mackenzie:


Meu caro Mackenzie:
Acha oportuno que eu faça uma visita ao nosso doente de Gleneesh e dê a minha opinião sobre o seu estado? Poderei ir lá no fim desta semana.
Espero que esteja satisfeito com a enfermeira que lhe mandei.
Seu colega at.° e ob.°
Deryck Brand


Do Dr. Robert Mackenzie a Sir Deryck Brand:


Meu caro Sir Deryck:
Todas as possíveis necessidades do doente estão a ser satisfeitas pela competentíssima senhora que o prezado colega mandou para sua enfermeira. Nenhum de nós é preciso agora ao doente. Mas acho conveniente que venha ver a enfermeira, a qual está a emagrecer mais do que é permitido a uma pessoa das suas proporções.
Talvez a consuma algum desgosto secreto, além da natural preocupação pela responsabilidade deste caso. É possível que se confie ao meu colega. Até agora não se decidiu a depositar confiança no
Seu humilde criado
Robert Mackenzie


A ENFERMEIRA Rosemary estava com o doente na biblioteca banhada de sol; separavam-nos uma mesinha, sobre a qual havia uma pilha de cartas recebidas nessa manhã, prontas para ela as abrir, lê-las, e entregar-lhe as que ele quisesse tactear ou guardar no bolso.

Encontravam-se sentados diante da porta envidraçada que dava para o terraço, por onde entrava o sol a jorros e o ar vinha embalsamado pelo aroma das flores.

Garth, de calças de flanela branca, gravata verde e raminho de primaveras na botoeira, recostava-se na poltrona gozando, com a sua apurada sensibilidade, o perfume das flores e o calor dos raios solares.

A enfermeira Rosemary acabou de ler para si uma carta que lhe vinha dirigida e, dobrando-a, guardou-a no bolso com uma sensação de alívio. Deryck ia chegar. Ele nunca negava o seu auxílio.

— A sua carta é de um homem, não é, Miss Gray? — indagou Garth de repente.

— É, realmente. Como sabe?

— Porque é só uma folha. Uma mulher quando escreve sobre um assunto importante preenche duas ou três folhas. E essa trata de assunto importante.

— Acertou outra vez — respondeu a enfermeira, sorrindo. — E outra vez lhe pergunto: como o sabe?

— Porque a senhora soltou um suspiro de alívio logo às primeiras linhas, e outro quando dobrou a carta e a meteu no sobrescrito.

A enfermeira riu-se.

— O senhor Dalmain está a fazer tais progressos que daqui a pouco não poderemos ter segredos para si. A minha carta é de...

— Oh, não diga! De maneira nenhuma pretendi ser indiscreto quanto à sua correspondência particular, mas sinto tanto prazer em demonstrar-lhe os meus progressos, conseguindo adivinhar aquilo que não me dizem!

— Mas eu quero dizer — volveu a enfermeira Rosemary. — A carta é de Sir Deryck, e, entre outras coisas, participa-me que estará aqui no sábado, para o ver.

— Óptimo! — exclamou Garth. — E que mudança ele vai achar em mim! Terei então oportunidade de elogiar a enfermeira, secretária, leitora, dama de companhia e guia tão paciente que ele me forneceu. Mas — acrescentou num tom de súbita inquietação — não vem para a levar consigo?

— Não, ainda não. Sabe uma coisa, senhor Dalmain? Eu queria perguntar-lhe se me poderia dispensar durante quarenta e oito horas; a visita do Dr. Brand seria boa ocasião para me ausentar, pois estaria mais descansada sabendo que fica na companhia dele. Se eu fosse na sexta à noite, voltaria na segunda-feira de manhã, a tempo de lhe ler as cartas. O Dr. Brand poderia encarregar-se da leitura no sábado e no domingo... Ah, esquecia-me que ao domingo não distribuem correspondência! Mas ele leria a do sábado, e substituir-me-ia no que fosse preciso.

— Está bem — concordou Garth, esforçando-se por esconder a sua decepção. — Gostaria que conversássemos os três, mas acho justo que deseje uns dias de folga. Vai para muito longe?

— Não, tenho amigo próximos daqui. E agora, quer que lhe leia as cartas?

— Quero — disse Garth, estendendo a mão. — Espere um momento. Há um jornal entre elas. Noto o cheiro da tinta de impressão. Não o quero; dê-me o resto, se faz favor.

A enfermeira pôs de parte o jornal e empurrou o monte de cartas de modo a ficar ao alcance da mão de Garth. Este pegou nelas.

— Que porção! Se Miss Gray aproveitar como deve a leitura de tantas epístolas escritas nos mais variados estilos, fica habilitada a publicar um «Manual de Perfeito Secretário». Lembra-se das condolências da senhora Parker Bangs? Parece-me que foi essa a primeira vez que rimos ambos com vontade. Pobre velhota! Escusava de ter mencionado o caso do cego Bartimeus, que mergulhou sete vezes no poço de Siloé. É sempre preferível evitar alusões clássicas, em especial as sagradas, quando não se sabe empregá-las...

Calou-se de repente. Estivera a tactear as cartas, uma por uma, e nesse momento tinha na mão um sobrescrito lacrado. Interrompeu o que estava a dizer e, em silêncio, passou os dedos sobre o sinete.

A enfermeira espiava-o ansiosa. Garth não fez nenhuma observação, e daí a pouco largou aquela carta e pegou noutra; mas, quando passou todas à sua secretária, teve o cuidado de pôr a tal no fundo do maço a fim de que fosse a última a ser lida.

Começaram então os trâmites usuais. Garth acendeu um cigarro (uma das primeiras coisas que ele aprendera a fazer sozinho) e pôs-se a fumar deliciado. Colocara o cinzeiro, com todo o cuidado, ao alcance da mão e nunca se enganou quando teve de quebrar a cinza.

A enfermeira Rosemary tomou a primeira carta do maço, leu o carimbo e descreveu a caligrafia do sobrescrito. Garth gostava de adivinhar quem era o seu correspondente e ficava satisfeito se, uma vez aberta a epístola, se lhe confirmava o propósito. Nessa manhã havia nove, de interesse variado, algumas de amigos, duas ou três de senhoras simpáticas que se ofereciam para o visitarem quando ele estivesse disposto a recebê-las, uma de um asilo de cegos pedindo um óbolo, um bilhete do médico anunciando a sua visita e uma conta de gravatas duma loja de Bond Street.

Os dedos de Rosemary tremeram quando repôs a oitava missiva no seu sobrescrito. Faltava, pois, a última. Ao sentir que a enfermeira a tomava, Garth fez um movimento rápido e atirou o cigarro pela janela, recostando-se depois na cadeira e ocultando o rosto com a mão.

— Caiu fora? — perguntou ele.

Rosemary inclinou-se para ver e notou que do areão do jardim subia uma colunazinha de fumo azulado.

— Sim, senhor — respondeu. — Esta carta — continuou ela — tem um selo do Egipto e o carimbo é do Cairo. No lacre vermelho está um sinete de elmo emplumado, com viseira abaixada.

— E a caligrafia? — inquiriu Garth maquinalmente, já mais calmo.

— É nítida, desenvolta, sem floreados. Deve ter sido escrita com aparo cortado.

— Faça o favor de a abrir e diga-me qual é a assinatura, antes de ler o conteúdo.

A enfermeira lutava contra a comoção que lhe embargava a voz. Abriu a carta devagar e procurou a assinatura.

— Está assinada por Jane Champion, senhor Dalmain.

— Queira ler — pediu Garth. Rosemary leu o seguinte:


Querido Dal:
Que lhe hei-de dizer? Se estivesse a seu lado, teria muita coisa a contar; mas escrever é difícil, senão impossível.
Sei que a provação é mais forte para si do que para qualquer outra pessoa; mas há-de suportá-la com mais coragem do que os outros e vencê-la-á, continuando a achar a vida bela e a fazer com que os mais a achem tambem. Eu própria não sabia compreendê-la antes daquele Verão em Overdene e Shenstone, quando você me ensinou a percepção da beleza. Desde então, ao ver um poente ou uma alvorada no verde-azulado do Atlântico, na púrpura das montanhas, nas cataratas do Niágara, sobre as cerejeiras do Japão ou dos areais doirados do Egipto, pensei sempre em si e, por sua causa, compreendi melhor. Oh, Dal! Gostaria de ir contar-lhe tudo isto e fazer com que os visse através dos meus olhos; e então você desenvolveria a minha compreensão, mostrando-me essas coisas belas sob um aspecto mais belo ainda.
Consta-me que não recebe visitas. Não poderá fazer uma excepção para mim?
Estava no hotel da Pirâmide Grande quando fui informada. Sentara-me na esplanada, depois do jantar. O luar avivava as minhas saudades. Acabava de renunciar a subir o Nilo e resolvera vir direita a Inglaterra, donde lhe escreveria a pedir que me fosse visitar. E foi nesse momento que o General Loraine apareceu com um jornal inglês e uma carta de Myra... e eu fiquei ao facto do que acontecera.
Você viria ao meu encontro, Garth?
Agora, meu amigo, como não pode vir, deixe que eu vá por minha vez. Telegrafe Venha e eu partirei, seja de que parte do mundo em que o telegrama me encontre. Não faça caso da proveniência desta carta. Quando a receber, já eu não estarei aqui. Escreva para a casa de minha tia em Londres. A minha correspondência vai toda para lá e ninguém a abre.
Permita que eu vá. E creia que compreendo quanto sofre. Mas Deus, com a sua «eterna luz»...
Creia ainda que eu sou mais do que posso declarar por escrito.
Jane Champion
 

Garth retirou da cara a mão com que até aí a estivera ocultando.

— Se não está cansada, Miss Gray, depois de ler as cartas gostaria que escrevesse a resposta, que prefiro ditar enquanto a tenho presente no espírito. Há aí papel? Está bem. Então comece. «Querida Miss Champion... fiquei profundamente comovido com a sua bondosa carta, tão compassiva... Foi tão generoso da sua parte escrever-me de tão longe, no meio de tanta coisa feita para desviar o sentido dos amigos que ficaram na pátria».

Seguiu-se uma pausa longa. A enfermeira, empunhando a caneta, esperava, e pedia a Deus que, através da mesinha que os separava, se não ouvissem as pancadas do seu coração.

«Oxalá não tenha renunciado de todo a viajar pelo Nilo...»

Abandonando a jarra de jacintos, voou uma abelha, que zumbiu de encontro à vidraça. Não havia mais nenhum rumor na sala.

«É claro que, se me tivesse chamado, eu teria ido...»

A abelha continuava a debater-se contra os vidros, acima e abaixo, abaixo e acima. Por fim encontrou saída e mergulhou, satisfeita, na claridade do jardim.

O silêncio foi absoluto na sala. Até que a voz de Garth o quebrou, continuando a ditar:

«É mais que bondade insistir em querer visitar-me; contudo...»

A enfermeira poisou a caneta.

— Oh, senhor Dalmain, deixe-a vir!...

O doente voltou para ela o rosto, onde se estampava a surpresa.

— Não quero — declarou. E fê-lo num tom que não admitia réplica.

— Ora considere quanto é triste para uma pessoa que deseja tanto estar junto de um amigo que sofre... ser mantida a distância!

— Miss Gray — volveu o rapaz — esta oferta que ela me faz é uma prova da sua grande generosidade. Trata-se duma velha amiga. Mas seria consterná-la consentir que me visse neste estado.

— Não parece ser a opinião dessa senhora — teimou Rosemary. — Pois não percebeu nas entrelinhas? Ou será preciso um coração de mulher para compreender uma carta de mulher? Quem sabe se a li mal? Quer que repita? No semblante de Garth esboçou-se uma expressão de contrariedade. De cenho carregado, respondeu com entoação severa:

— Leu muito bem, e não deve discutir. Gosto de ditar as minhas cartas sem necessidade de as explicar.

— Desculpe, senhor Dalmain — redarguiu ela em tom humilde. — Excedi-me...

Garth estendeu a mão através da mesa e deixou-a ficar assim um momento. Mas não houve outra mão que viesse em retribuição desse gesto.

— Deixemos isso — disse ele, sorrindo. — Pode aconselhar-me noutras coisas, minha simpática mentora e guia. Mas sobre este assunto, não. Vamos acabar, sim? Onde íamos? Ah, «insistir em querer visitar-me»! Como pôs? «É muita bondade» ou «É mais que bondade»?

— É mais que bondade — explicou Rosemary, impressionada.

— Está bem, pois é realmente mais que bondade. Só ela e eu é que sabemos quanto isto é verdadeiro. Mas adiante: «Contudo, não recebo visitas e não desejo recebê-las senão quando houver dominado bem a minha nova situação, de modo que as dificuldades que ela acarreta não sejam dolorosas aos outros, nem sequer percebidas por eles. Durante o Verão, completamente isolado em Gleneesh, aprenderei passo a passo a habituar-me a esta existência diferente. Tenho a certeza de que os meus amigos me compreenderão. Está comigo alguém que é a suma paciência, e que me ajudará...» Ah, espere! — exclamou Garth de repente. — Não escreva isso. Ela podia pensar... podia interpretar mal. Tinha começado a frase? Não? Qual foi a última palavra? «Compreenderão»? Óptimo. Ponha aí um ponto final. Agora deixe-me pensar...

Garth pendeu a cabeça entre as mãos e ficou muito tempo absorto nas suas reflexões. A enfermeira esperava, com a caneta em riste. A mão esquerda apoiara-se ao coração. E os olhos poisavam-se naquela cabeça escura e curvada, ansiosos, cheios de ternura.

Por fim, Garth endireitou-se. «Seu muito sincero, Garth Dalmain», ditou ele. Silenciosa, a enfermeira Rosemary acrescentou estas palavras.
 

O SILÊNCIO um tanto opressivo que se estabeleceu depois de escrito o endereço e de fechada a carta foi quebrado pela voz jovial do Dr. Rob.

— Qual é o doente hoje? A dama ou o cavalheiro? Ah, nem um nem outro, pelo que me parece! Ambos apresentam um ar de saúde perfeita que chega a intimidar o médico — disse este. — Temos Primavera lá fora e Verão cá dentro — continuou o Dr. Rob a gracejar, mas perguntando a si próprio por que estariam tão pálidos e perturbados aqueles dois semblantes. — Calças brancas sugerem passeios de barco e piqueniques. Pelo que vejo, Miss Gray, descartou-se do fato de merino e voltou ao de linho azul. É mais bonito, sem dúvida, mas tome cuidado não se constipe; e trate de comer bem. Neste clima temos de nos alimentar bastante, e a senhora está a emagrecer a olhos vistos. Por esse andar, acaba por ficar reduzida a nada.

— Por que está sempre a meter-se com Miss Gray por causa do seu tamanho diminuto? — perguntou Garth em tom de censura. — Tenho a certeza de que o facto de ser baixa não a prejudica em coisa alguma.

— Se quiser, passarei a meter-me com a sua grande altura — volveu o Dr. Rob, piscando um olho à enfermeira, a qual, de pé em frente da porta, o fitou com ar reprovador.

— Antes queria que não fizesse comentários de nenhuma espécie ao seu físico — objectou Garth secamente; e acrescentou com mais brandura: — Ela é para mim somente uma voz, uma voz bondosa que me guia. A princípio, tentava imaginar o seu retrato, mas agora prefiro aplicar o espírito ao que já sei e não me esforçar a idealizar o que não sei. com excepção desse tal Johnson, pertencente a um tempo de pesadelo que eu já quase esqueci, é a primeira pessoa que tenho a meu lado e a quem não conheço o rosto e a figura; só lhe oiço a voz. De futuro há-de haver muitas pessoas nestas circunstâncias, mas por enquanto ela é a única.

Durante esta explicação, os olhos perscrutadores do Dr. Rob procuravam qualquer coisa digna de interesse quando, de súbito, descobriram a carta que estava junto dele.

— Olá! — exclamou. — Pirâmides? Selo do Egipto? É curioso! Tem amigos por lá, senhor Dalmain?

— Essa carta vem do Cairo — respondeu Garth. — Mas creio que Miss Champion deve estar agora a caminho da Síria.

O Dr. Rob, afagando o bigode, ficou a olhar para a carta.

— Champion? — repetiu ele. — Champion? É um nome pouco vulgar. A sua correspondente será, por acaso, a Honourable Jane?

— É a própria — confirmou Garth, surpreendido. — Conhece-a? — perguntou, ansioso.

— Muito bem até — respondeu o Dr. Rob pachorrentamente. — Conheço-lhe a cara, conheço-lhe a voz, conheço-lhe a figura e conheço-lhe bastante o carácter. Conheci-a aqui e no estrangeiro. Vi-a sob a metralha, o que a maior parte dos seus amigos não pode dizer. Só uma coisa eu não lhe conhecia ainda: a caligrafia. Dá-me licença que observe o sobrescrito?

Dizendo isto, voltou-se para a porta; sim, aquele escocês pequenino e audacioso dirigira a pergunta à enfermeira Rosemary. Porém, só lhe viu as costas; Miss Gray parecia absorta na contemplação da paisagem. O médico tomou então a voltar-se para Garth, que já fizera um gesto de assentimento e em cuja face transparecia o desejo de ouvir falar mais de Jane.

O Dr. Mackenzie pegou no sobrescrito e examinou-o.

— Sim — disse finalmente — a letra é como ela, nítida, sem floreados. Vê-se que pertence a uma pessoa que sabe o que quer e vai direita ao fim. Oh, que mulher de coração tão nobre! Quem tem por amiga a Honourable Jane não precisa de muito mais na vida.

As faces magras de Garth tingiram-se dum tom rosado. Tanto desejara que alguém lhe falasse dela, qualquer palavra vinda da luz exterior em que Jane se movia! Ah, se soubesse que o velho Robbie a conhecia! Interrogara Brand com as maiores precauções, receando trair o seu segredo e o dela, mas com o Dr. Rob e com a enfermeira Gray não precisava de tais cautelas. Podia conservar o seu segredo e no entanto escutá-los e falar-lhes de Jane.

— Onde e quando a encontrou? — inquiriu ele.

— Já lho digo, se se sente disposto a ouvir uma história de guerra nesta pacífica manhã primaveril.

Garth ardia de curiosidade.

— Tem aí uma cadeira para se instalar. E Miss Gray não se senta? — perguntou.

— Não preciso de cadeira — retorquiu o médico — porque é meu costume estar de pé quando quero apreciar a minha própria eloquência. Miss Gray também não precisa, pois está embevecida na paisagem e não nos liga importância nenhuma. As mulheres, aliás, pouco se interessam por histórias a respeito de outras. Mas o meu amigo acenda o seu cigarro e recoste-se na cadeira. Quanto é mais agradável vê-lo assim do que a dar punhadas na parede! A quem devemos isso senão àquela senhora que nos desdenha e prefere olhar para o lindo panorama? De facto, o meu aspecto é pouco agradável à vista, e ela tem o dia todo para contemplar o senhor... Que bom cheiro o do seu cigarro! Que marca é? Zenith? Ah, Marcovítch! Ora recoste-se aí confortavelmente a gozar o aroma do cigarro e o das flores, enquanto eu me embrenho no cheiro da pólvora, pois vou dizer-lhe onde encontrei a Honourable Jane. Foi na África do Sul, durante a guerra dos boers. Eu estava lá como cirurgião do exército, e ela como enfermeira; mas enfermeira a valer, e não do género dessas meninas enfrascadas em água-de-colónia, cheias de laços e fitas, que fingem tratar dos doentes, dão trela aos que estão quase curados e fogem a sete pés dum moribundo. Miss Champion não era nada disso, nem consentia tal coisa no hospital, pois mandava ali e fazia andar todos num rodopio. Trabalhava por dez, e exigia que os demais fizessem como ela. Os médicos e enfermeiros adoravam-na. Tratavam-na sempre por Honourable Jane, e ao pronunciarem este título destacavam bem as sílabas. Houve lá muitos homens, longe dos amigos e da família, que morreram com um sorriso nos lábios porque se sentiam envoltos na ternura maternal de Jane. E a maneira como ela lhes falava? Nunca poderei esquecer! Dava descomposturas às enfermeiras, ordens aos enfermeiros, e depois voltava-se para um soldado ferido e falava-lhe como só uma mãe pode falar. Aquele coração generoso muitas vezes devia estar atormentado, mas nunca perdia o ânimo. Só uma vez desanimou, e isso por causa dum rapaz muito novo, quase um garoto. Ela segurava-o durante a operação, que era a última tentativa para o salvar, e quando o viu morto desatou a chorar e disse: «Oh, doutor... uma criança... e sofrer tanto e morrer assim» Depois agarrou-se a ele e pranteou-o como se fosse mãe do rapaz. O médico é que me contou, acrescentando que até os corações mais empedernidos se haviam comovido com aquela cena. Mas essa foi a única vez que a Honourable Jane sucumbiu às lágrimas.

Garth cobrira o rosto com a mão esquerda; a direita enclavinhava-se-lhe sobre o joelho. O cigarro meio consumido fumegava no chão, e o Dr. Rob, ao vê-lo, apanhou-o e esfregou cuidadosamente a sola do sapato no ponto chamuscado do tapete. Nesse momento, relanceou a vista pela enfermeira; esta voltara-se e, apoiada no umbral da porta, olhava com ar ansioso para Garth.

— Encontrei-a por várias vezes em diversos centros — prosseguiu o Dr. Rob — mas não trabalhávamos nas mesmas condições, e só uma vez ela me falou. Eu viera da tenda de campanha que tínhamos perto do campo de batalha e onde eram feitas as operações de urgência, para levar do hospital novo fornecimento de clorofórmio; e, enquanto o fui buscar, dei uma volta pela enfermaria e vi Miss Champion ajoelhada aos pés da cama dum moribundo. Falava-lhe de mansinho, fazendo ao mesmo tempo todo o possível para lhe suavizar a agonia. De repente, ouvi um estrondo ensurdecedor e vi a Honourable Jane e o seu doente cobertos de pó e de estilhaços. Quase por cima deles rebentara uma granada dos boers. O homem sentou-se na cama, soltando gritos de terror. Coitado, estava quase a morrer, e debaixo da acção da morfina! A Honourable Jane, porém, manteve todo o sangue-frio. «Deite-se», disse, «e fique sossegado». «Aqui não», gemeu o doente, a soluçar. «Está bem», respondeu ela, «já vamos tirá-lo daqui». Olhou então em volta e avistou-me. Eu estava vestido com o uniforme mais incrível que se pode imaginar: envergava o casaco que apanhara mais à mão ao sair da tenda, e o resto da minha indumentária encontrava-se em mísero estado. Além disso, tudo era poeira, devido ao longo trajecto feito a cavalo. «Venha cá, sargento», pediu ela. «Ajude-me a carregar este rapaz. Não posso vê-lo assustado neste momento». Foi o único comentário de Miss Champion a respeito do obus que por um triz não a matava. Que admira que os doentes a adorassem? Meteu as mãos por baixo dos ombros do ferido, fez-me sinal para que o agarrasse pelos joelhos e assim o levámos para fora da enfermaria e atravessámos um corredor até chegarmos a certo quartinho sossegado, onde havia uma cama confortável e livros e fotos sobre uma mesa. «Deite-o aqui, sargento», disse ela, e pusemo-lo na cama. «De quem é este quarto?» perguntei. Miss Champion pareceu surpreendida, mas vendo que era um estranho, respondeu cortesmente: «É meu». E, notando que o ferido caíra numa espécie de modorra depois que o transportáramos, acrescentou: «O pobre rapaz já não necessitará de camas na altura em que eu precisar desta». Repare no ânimo daquela criatura!... Eis a única conversa que tive com a Honourable. Pouco depois deixei a África do Sul e regressei à minha terra.

Garth ergueu a cabeça.

— Encontrou-a daí para cá?

— Encontrei-a — respondeu o médico — mas nem por sombras me reconheceu. Já nem se lembra de mim. E como poderia reconhecer-me? Como não tinha tempo de me barbear, deixara crescer a barba. E o meu casaco fazia-me passar por sargento em vez de cirurgião. Além disso, ela não esperava encontrar um soldado vindo da frente da batalha a divertir-se em... Picadilly — concluiu o Dr. Rob depois de breve hesitação. — E agora, que já prolonguei demasiado a conversa, vou à casa do seu couteiro para ver a mulher que, como ele diz, lhe vai aumentar a família. A família aumentará, mas o que diminui é o espaço da casa, já de si tão acanhada. Antes, porém, vou falar com a senhora Margery. Está ansiosa por saber a razão por que «não pode comer toucinho». Diz ela que o sente nas espáduas. Tão estranho desvio do curso normal da parte do toucinho requer investigação. Por isso vou já mandar chamar a pobre senhora.

— Ainda não, senhor doutor — disse a enfermeira em voz calma. — Preciso de conversar consigo, e peço-lhe que espere por mim na casa de jantar. Não me demoro. Depois, enquanto examinar a Margery, virei buscar a minha touca para o acompanhar através do pinhal, se o senhor Dalmain não se importa de ficar só durante uma hora.

Quando Jane chegou à sala de jantar, o Dr. Robert Mackenzie estava de pé sobre a pele de urso, em atitude napoleónica, tal como na manhã da primeira entrevista. À entrada de Jane, olhou-a com ar desconfiado.

— Então? — disse. — vou pagar o patau? Jane foi direita a ele, de mãos estendidas.

— Ah, sargento! — exclamou. — Caro e fiel sargento! Vê o que acontece a quem o alheio veste? Todo o meu dilema é motivado por eu usar o nome doutra mulher. Então reconheceu-me logo que entrei aqui?

— Assim que entrou.

— E por que não o disse?

— Concluí que tinha razões para ser a «enfermeira Rosemary Gray», e não me competia estar a discutir a sua identidade.

— Oh, meu bom e discreto amigo! E esteve aí muito calado, sabendo perfeitamente quem eu era! Quando me lembra da maneira como me disse «com que então chegou, enfermeira Gray? e não «como tem passado, Miss Champion, que a traz por cá com esse nome de empréstimo?»

— Podia ter perguntado isso — concordou o Dr. Rob, pensativo. — Ainda bem que me calei.

— E por que o disse agora? — inquiriu Jane. O Dr. Rob poisou a mão no braço dela.

— Minha filha, já sou velho, e toda a minha vida tratei de adivinhar o que os outros não me dizem. A senhora atravessou um longo período de tensão nervosa, e não só se sentiu na necessidade de enganar o doente como a nós também. Ora eu sabia que, se esta situação prevalecesse, teria forçosamente de compartilhar com alguém o seu segredo, alguém para quem a senhora pudesse de vez em quando mostrar-se como é. Hoje, quando descobri que escrevera a Dalmain desta mesma casa e que mandara a carta para ser posta no correio do Cairo, quando percebi que estivera dia após dia à espera de que ela chegasse cá, quando soube que a tivera de ler ao doente e de escrever a resposta que ele lhe ditou (e que eu deduzi, pela expressão das fisionomias, ser uma recusa ao seu pedido de o vir visitar, achei que era a altura de lhe fazer compreender o seguinte: a senhora pode confiar num velho amigo, que, como todos os homens que a viram na África do Sul, de boa vontade se lançaria ao fogo pela Honourable Jane.

Jane fitou-o com um olhar cheio de gratidão; de comovida nem podia falar.

— Diga-me uma coisa, minha filha — pediu o Dr. Rob. — Por que é que o rapaz repele com tanta firmeza o que para ele seria um bem?

— Ah, doutor — respondeu Jane — é porque houve desconfiança e erro da minha parte! Uma história muito triste... Agora, enquanto o senhor observa a Margery, vou preparar-me para sair. Pelo caminho tentarei contar-lhe o que separou as nossas vidas. Os seus conselhos ajudar-me-ão, e o seu conhecimento dos homens e do coração humano talvez nos descubra uma saída, porque na verdade estamos fechados entre Migdol e o mar.

Quando Jane atravessou o vestíbulo e se dispunha a subir a escada, olhou na direcção da porta da biblioteca, a qual se encontrava fechada. Um receio súbito a deteve: aquela história do Dr. Rob não teria causado emoção demasiada a Garth? Ela bem sabia o poder de certas evocações: Demais a mais, havia aquela coincidência das palavras: «Uma criança, e sofrer assim!» Não sairia de casa sem se certificar de que ele se encontrava bem. No entanto, receava ser importuna, pois que Garth se julgava sozinho durante uma hora.

Então, Jane, na sua inquietação, fez uma coisa que nunca até aí fizera. Abriu a porta da entrada sem rumor, foi de volta da casa até ao terraço e aproximou-se da janela da biblioteca, tendo o cuidado de ir sobre a relva para chegar despercebida.

Nunca procedera desse modo, sabendo quanto ele detestava e temia uma intrusão invisível na sua vida particular.

Mas agora... só desta vez...

Jane olhou pela janela.

Garth, sentado de través na cadeira, tinha os braços cruzados sobre a mesa e a cara escondida neles. Soluçava, como ela tantas vezes ouvira soldados soluçarem depois de operações torturantes suportadas em silêncio. E o soluço da agonia de Garth era este: «Oh, minha mulher... minha mulher... minha mulher»

Jane fugiu para longe. Como o fez, nunca o soube; mas um instinto lhe disse que, se se lhe revelasse nesse momento, quando ele se encontrava tão fora de si por causa da história do Dr. Rob, tudo ficaria perdido. «Se dás valor à tua felicidade futura e à dele», repetia-lhe a voz de Deryck, soando como uma advertência... Além disso, a Jane parecia-lhe que, na bonança que se seguiria a esta tempestade, a necessidade de a ter a seu lado venceria por fim a relutância. A carta, que ainda não fora deitada no correio, seria escrita de novo. Ele diria «vem» e um momento depois ela estaria nos seus braços. Pensando assim, Jane afastou-se sem ruído.

Uma hora depois, ao regressar do seu passeio com o Dr Rob, de coração cheio de esperança, encontrou Garth de pé junto da porta envidraçada, escutando os variados rumores que já aprendera a distinguir. Parecia tão direito e tão à vontade, com ambas as mãos metidas nos bolsos do casaco, que, ao voltar a cabeça à chegada de Jane, esta teve a impressão de que os olhos brilhantes deviam ali estar.

— Que tal o passeio no pinhal? — perguntou ele. — Simpson há-de me levar lá depois do almoço. Entretanto, se ainda temos tempo e não está cansada, Miss Gray, acabemos a nossa tarefa da manhã.

Foram ditadas cinco cartas e preenchido um cheque. Jane reparou nessa altura que a carta dela desaparecera; mas a resposta permanecia sobre a mesa, ainda sem selo.

— E a respeito da carta para Miss Champion? — perguntou ela depois duns momentos de hesitação. — Deseja que vá assim?

— Certamente. Não a concluiu?

— Julguei — disse Jane nervosamente, desviando os olhos da face dele — julguei que... depois da história do Dr. Rob... talvez quisesse...

— A história do Dr. Rob não tem nada a ver com o facto de eu concordar ou não com a vinda dela — replicou Garth em tom brusco; e acrescentou com mais brandura: — Somente me fez recordar...

— O quê? — perguntou Jane, com as mãos sobre o coração.

— A mulher extraordinária que ela é — rematou Garth Dalmain. E lançou no ar estival uma baforada de fumo do seu cigarro.
 

QUANDO Deryck Brand se apeou na estaçãozinha, olhou para um lado e outro, quase certo de que veria Jane. Era ainda cedo, mas ela costumava dizer «tanto melhor» sempre que qualquer projecto a obrigava a ser madrugadora. Nada viu, contudo, além da sua maleta colocada no chão, a certa distância, e um carregador vagaroso que parecia oprimido pelo facto de ser o único a receber o comboio.

Nenhum passageiro descera ali, nem houvera outra bagagem a descarregar nesse apeadeiro.

O velho carregador, protegendo os olhos dos raios oblíquos do sol da manhã, observou o comboio até ele desaparecer de vista, olhou na direcção oposta como para se certificar de que não vinha outro, viu a mala de Deryck e encaminhou-se para lá em passo trémulo. Ficou então uns momentos a examiná-la com ar pensativo, em seguida andou em redor, como se estivesse a ler os nomes dos variadíssimos hotéis onde a mala estivera recentemente com o seu possuidor.

O Dr. Brand nunca dava pressa a ninguém. Costumava dizer: «Numa viagem longa, convém dar tempo ao tempo. Um minutos ou dois de ganho com a precipitação prejudica os resultados finais». Isto, porém, aplicava-se em especial aos doentes que iam ao consultório; aos estudantes impacientes no hospital; ou às enfermeiras, demasiado excitadas a princípio (pelo facto de ele lhes dar dois dedos de conversa para que lhe concedessem a devida atenção ao que dizia. O seu hábito de deixar às pessoas todo o tempo que eles queriam fizera com que uma vez perdesse o sobretudo, mas também fizera com que alcançasse o que mais desejava na vida. Isto, porém, é outra história.

No entanto, o ar fresco da manhã despertara-lhe o apetite e ele sentia vontade de comer. Além disso, queria ver Jane. Por essa razão, e como não havia maneira de o carregador se mexer, o médico avançou para ele, exclamando:

— Então, homem?

— Que deseja? — perguntou o carregador, que era escocês.

— Quero a minha mala.

— Esta mala é sua? — inquiriu o velho duvidoso.

— É, sim. E tanto ela como eu iremos para o castelo Gleneesh se você a transportar até ao automóvel que deve estar à espera lá fora.

— Vou buscar um carrinho de mão—disse o carregador.

Porém, quando voltou, empurrando com toda a pachorra o carro diante de si, já não viu o médico, nem a mala, nem o automóvel.

O homem pôs a mão em pala sobre os olhos e observou a estrada deserta.

«E eu que acreditei que a mala era dele!» disse consigo, retomando o caminho de casa.

Nessa altura já o médico ia a subir a colina, desejoso de ver Jane e de saber o que se passara nos últimos dias. Sentia-se um tanto apreensivo por ela não o ter ido esperar. Seria natural que o fizesse, pois assim teria oportunidade de lhe falar antes de chegar a casa. Durante o trajecto do comboio, imaginara a figura de Jane a esperá-lo na estação: animada, vigorosa, com esse aspecto de saúde e de frescura que indica uma noite de descanso, um agradável despertar ao romper do Sol e um banho de chuveiro frio tomado há pouco. Por que não aparecera? Teriam os seus nervos cedido à demasiada tensão?

Quando o automóvel deu uma volta na estrada sinuosa, os torreões cinzentos de Gleneesh surgiram no cimo do outro lado da encosta, rodeados de vegetação. Em breve o médico avistou, na luminosidade da manhã, o campo arrelvado e o terraço de Gleneesh, com os seus canteiros de flores, alamedas ensaibradas e amplo guardapeito de pedra, do qual partia uma descida quase a prumo até à encosta sobranceira.

Simpson recebeu-o à porta do vestíbulo; Deryck ia perguntar-lhe por Miss Champion, mas conteve-se a tempo. Este perigoso lapso, em que esteve prestes a cair, recordou-lhe a necessidade de ser cuidadoso nas palavras e acções enquanto se encontrasse nessa casa onde Jane conseguia manter a sua intrincada conduta. Nunca perdoaria a si mesmo se a denunciasse sem querer.

— O senhor Dalmain está na biblioteca — informou Simpson.

E foi um médico de espírito atento e esclarecido que acompanhou o criado através do vestíbulo.

Garth levantou-se da cadeira e veio ao encontro dele, com a mão direita estendida e um sorriso afável nos lábios, tão normal e firme no andar que Deryck lhe mirou o rosto para se certificar se esse homem que avançava tão desembaraçado era de facto o cego que ele vinha visitar. Reparou então num cordão de seda castanho esticado da cadeira à porta, no qual deslizava a mão esquerda de Garth durante o percurso.

O médico apertou calorosamente a mão que se estendia.

— Meu caro amigo! Que grande transformação!

— Acha? — volveu Garth, encantado. — Pois tudo isto devo a ela, à admirável enfermeira que me mandou. Não podia ter encontrado melhor.

Garth voltara para a sua cadeira e, sem aparente dificuldade, achou a outra em que Jane costumava sentar-se e empurrou-a para o médico.

— Isto foi ideia dela — explicou, desprendendo o cordão, que estava ligado à cadeira por uma corrente fina, e deixando-o cair no soalho, de modo a poder levantá-lo quando fosse necessário. — Há um deste lado, que conduz ao piano, e outro à janela. Como é que os distinguiu?

— Um é castanho, outro cor de laranja, e o terceiro purpúreo.

— Sim — tomou Garth. — Conheceu-os pela cor, mas eu diferenço-os pela espessura e pelo entrançado; você não dá por isso, mas eu sinto. E alegro-me ao pensar nas cores. Às vezes até ponho camisas e gravatas a condizer com esses tons. Uma enfermeira vulgar teria escolhido verde, encarnado e azul, e eu detestaria pensar nestes cordões, sabendo quanto destoavam do tapete persa. Ela, porém, sabe o que as cores representam para mim, embora eu não as possa ver.

— Devo deduzir que esse pronome ela se refere à enfermeira Rosemary — disse o médico. — Sinto-me contente por haver acertado na escolha.

— Se acertou! — exclamou Garth. — A ela devo o ter recomeçado a vida. Envergonho-me quando me lembro do estado de espírito em que me encontrava quando você veio cá pela primeira vez. Limitava-me então a dar punhadas na parede, como diz o velho Robbie. Deve ter-me considerado imbecil e cobarde.

― Nem uma coisa nem outra, meu caro amigo. Você debatia-se numa terrível luta, da qual, graças a Deus, saiu vitorioso.

— Devo-lhe muito, Brand, mas ainda mais a Miss Gray. Tenho pena que ela cá não esteja para o ver. Foi passar fora o fim de semana.

— O quê? J... (o médico ia dizer Jane mas emendou a tempo). Justamente nesta altura?

— Sim, partiu ontem à noite. Foi passar o fim de semana com uns amigos que moram próximo daqui. Disse-me que voltaria na segunda-feira de manhã. Suponho que sentia necessidade de mudar de ambiente, e achou que esta era uma boa ocasião, visto que o terei entretanto na minha companhia. Pois, meu caro Brand, sinto-me penhoradíssimo pela maçada que teve em vir até cá. Nem sei como lhe agradecer.

— Não tem nada que agradecer. Embora eu viesse de propósito para o ver, há uma pessoa minha conhecida nos arredores a quem desejo visitar. Digo-lhe isto para ser absolutamente franco e o aliviar da impressão de que me desloquei só por sua causa.

— Muito obrigado — volveu Garth. — Isso diminui-me os remorsos, mas não a minha gratidão. E agora não se prenda comigo. Deve querer ir ao seu quarto para se lavar e escovar da poeira da viagem; e com certeza que almoçar. Desculpe-me, Brand, mas... (Garth corou como uma criança e hesitou). Lastimo bastante que você tenha de comer sozinho, visto que Miss Gray está ausente. Aborrece-me essa ideia, mas... costumo tomar as minhas refeições à parte. Simpson é que m'as serve.

Garth não pôde ver o olhar do médico, mas o tom compreensivo como ele respondeu: «Sim, sim, pois com certeza», animou-o a acrescentar:

— Nem sequer Miss Gray está comigo à mesa. Comemos sempre separadamente. Você nem calcula o que é a aflição de andar à procura de qualquer coisa no prato, sem nunca saber se estamos a espalhar comida por cima da toalha ou se respingamos de molho a gravata.

— Não, não posso calcular — concordou o médico. — Só quem passou por isso é que saberá avaliar tal tormento. Mas não seria melhor ter a seu lado a enfermeira Rosemary do que o Simpson? Bem sabe que ela tem mais prática dessas coisas.

Garth corou outra vez.

— É... é que o Simpson é quem me barbeia, quem me veste e me conduz nos passeios. Custa-me bastante tudo isto, mas já me vou habituando. Podemos resumir o caso assim: Simpson representa os olhos do meu corpo, Miss Gray é a visão do meu espírito. O contacto de Simpson é o único que eu sinto na minha cegueira; Miss Gray jamais me tocou, nem sequer me deu um aperto de mão. E ainda bem; é para mim apenas uma voz, porém uma voz de maravilhosa bondade, sem a qual eu já não poderia viver.

Garth tocou a campainha e Simpson apareceu.

— Conduz Sir Deryck ao seu quarto, ele que te diga a que horas quer almoçar, e depois volta cá, que eu quero dar um passeio. Mais logo conversaremos, Brand. Até lá descanse ou vá até à coutada para se distrair um pouco.

O médico tomou um banho, vestiu umas calças e um velho casaco de desporto e, após isso, foi almoçar. Ponderava ainda no problema de Jane, enquanto, noutro recanto do espírito, perguntava a si mesmo em que espécie de máquina a velha Margery faria aquele café excelente que ele tomara, quando a governanta apareceu, com certo ar de mistério. Deryck indagou logo onde é que ela fazia o café.

— Num púcaro de barro — respondeu. — O senhor quer ter a bondade de vir comigo, e sem barulho, se já acabou de almoçar? Não faça barulho — repetiu Margery, quando atravessaram o vestíbulo.

Depois de subirem alguns degraus, ela voltou-se para segredar ao médico, que ia atrás dela:

— O que interessa saber não é onde devemos fazer o café, mas sim como o devemos fazer.

Galgou mais alguns degraus e parou de novo para informar:

— Depende muito da palavra recente.

E continuou a subir.

— Torrado recentemente, moído recentemente, água... fervida... recentemente — acrescentou, chegando um tanto ofegante ao cimo da escada.

Seguiram então por um corredor sombrio, coberto de uma passadeira espessa, e em cujas paredes se ostentavam quadros e velhas armaduras.

— Para onde vamos, senhora Margery? — perguntou o médico, acertando o passo pelo andar miudinho da governanta.

— Verá, quando lá chegarmos — respondeu ela. E prosseguiu na conversa sobre o café: — Nunca lhe toque com um objecto de metal. Deite-o num púcaro de barro, vaze-Ihe por cima água a ferver, mexa-o com uma colher de pau, e deixe ficar dez minutos na borda da chapa do fogão, para se conservar quente enquanto assenta; o pó deposita-se todo no fundo, embora custe a crer; e terá uma bebida aromática, forte e transparente. Mas o segredo está na palavra recente, e em não se ser mesquinho na quantidade do café.

Chegados ao fim do corredor, a velha Margery bateu de leve a uma porta; então levantou o olhar para o médico, com expressão um tanto inquieta:

— E não se esquecerá da colher de pau, Sir Deryck? O Dr. Brand olhou a face bondosa, enrugada, erguida para ele na penumbra do corredor.

— Não me esquecerei da colher de pau, senhora Margery — disse gravemente.

E a velha Margery, descansada com aquela afirmação, entreabriu a porta e cochichou para dentro:

— É Sir Deryck, Miss Gray.

Dizendo isto, introduziu o médico numa salinha confortável, em cujo fogão brilhava um lume bem ateado.

Numa poltrona de espaldar alto, estava Jane, com os pés sobre o guarda-fogo. Deryck só lhe via o alto da cabeça e uma nesga das pernas, mas percebeu logo que era ela.

— Oh, Dicky! — exclamou Jane, com a alegria na voz. — És tu? Entra e fecha a porta. Estamos sós? Anda cá apertar-me a mão, para eu não ter de ir ao teu encontro às apalpadelas.

O médico estava já diante dela e, ajoelhando-se no tapete, agarrou nas mãos que se lhe estendiam incertas.

— Jeanette! — disse Deryck. — Jeanette!

Mas depois a surpresa e a comoção fizeram-no calar.

Os olhos de Jane estavam vendados com um lenço de seda preta, dobrado em quatro, solidamente atado por cima do rolo de cabelo. Era um espectáculo patético ver aquela mulher forte e activa, sozinha nesse aposento claro, sem nada fazer, de olhos vendados, com ar desamparado.

— Jeanette! — exclamou o médico pela terceira vez. — E chamas a isto férias de fim de semana?

— Meu amigo — respondeu Jane. — Vim passar o fim de semana na Terra dos Cegos. Oh, Deryck, eu tinha de fazer isto! A única maneira de ajudar Garth era saber com exactidão o que é a cegueira, e em todos os pormenores. Nunca possuí muita imaginação, e a pouca que tinha esgotei-a. Ele nunca se queixa, nem explica o que mais lhe custa. Só havia um meio de o descobrir: estar cega durante quarenta e oito horas. A velha Margery e o Simpson concordaram comigo, e têm-me auxiliado no que podem. Simpson encarrega-se de ter o caminho desimpedido quando vou descer ou subir, pois seria uma complicação se os dois cegos se encontrassem. A Margery ajuda-me nas coisas que não posso fazer, e oh, Dicky, nem calculas quantas, quantas coisas são! E depois esta escuridão pavorosa, esta cortina preta sempre diante de nós, às vezes rígida e firme como uma muralha negra junto dos olhos, noutras ocasiões sumindo-se num vácuo de negrume, léguas e léguas, de escuridão silenciosa e horrível. E dessas trevas saem vozes. Se falam muito alto, parecem marteladas; se são indistintas, deixam-nos desnorteados porque não podemos ver a causa disso. Não podemos ver que estão a segurar um ou dois alfinetes na boca, e que por isso murmuram de modo que mal se percebe; ou que estão quase debaixo da cama à procura de qualquer objecto que rolou para ali, e que por isso a voz parece sair do chão. E como a gente não pode ver estas coisas, a variedade de sons atormenta-nos deveras. Ah, e o despertar de manhã na mesma escuridão que nos envolveu toda a noite! Só experimentei uma vez, pois comecei ontem depois do jantar, a ser cega, mas asseguro-te, Deryck, que já estou com medo de chegar amanhã de manhã. Imagine-se o que deve ser despertar sempre, sempre assim, sem nenhuma esperança de tomar a ver a luz do dia! E as refeições...

— O quê? Nem tiras a venda para comer? — A voz do médico traiu um pouco a sua comoção.

— Pois claro que não tiro. E não podes avaliar a humilhação que sentimos quando, depois de andarmos a vasculhar o prato à procura dum pedaço de carne ou de peixe, o vamos encontrar na toalha ou no colo. Já não me admiro que o meu pobre Garth me não deixe assistir às suas refeições. Mas depois desta experiência há-de consentir que eu esteja a seu lado, pois saberei ajudá-lo e dispor tudo para que não haja dificuldade para ele. Oh, Dicky! Eu tinha de fazer isto. Não havia outro meio.

— Sim — concordou o médico — tinhas de fazer isso. E Jane, na sua cegueira, não pôde ver a expressão comovida daquele semblante quando ele acrescentou em voz baixa:

— Sendo o que tu és, não havia outro meio.

— Ah, estou tão contente por compreenderes a necessidade de eu proceder assim! Receava tanto que considerasses isto uma tolice ou uma inutilidade! E tinha de ser agora ou nunca, pois, se ele me perdoar, será este o único fim de semana que passarei longe dele. Oh, Dicky, achas que me perdoará?!

Foi bom que Jane não pudesse vê-lo. O médico engoliu uma palavra e depois exclamou:

— Não me fales nisso! Se eu fosse o papagaio da Duquesa, bem sabia o que te havia de responder! Olha que se eu perco a paciência com Dalmain, digo-lhe as últimas! Mas explica-me cá: nunca tiras dos olhos esse lenço?

— Só para lavar a cara — retorquiu Jane, sorrindo — e mal abro os olhos. Esta noite, porém, a venda fez-me tanto calor na cabeça que a tirei e fiquei sem ela durante uma hora ou duas; mas tornei a pô-la antes de amanhecer.

— E vais conservá-la até amanhã de manhã?

Jane sorriu. Percebia aonde ele queria chegar com aquela pergunta.

— Até amanhã à noite — respondeu com doçura.

— Mas, Jeanette — protestou o médico, indignado — com certeza hás-de querer ver-me antes de eu me ir embora! Isso não será levar demasiado longe a experiência, e sem necessidade nenhuma?

— Ah, não! — replicou Jane, curvando-se para ele. — Não compreendes que eu assim passarei também pelo tormento que o pobre Garth um dia sentirá quando os seus amigos mais queridos o vierem visitar e ele só lhes possa ouvir a voz e tocar-lhes? Deryck, justamente por me ser tão penoso ouvir-te e não te ver é que posso avaliar quanto isto custa! Garth não poderá dizer: «Mas tu viste-o antes de ele se ir embora!» Quero estar apta a declarar-lhe: «Ele veio e foi, o meu maior amigo, e eu não o vi».

O médico dirigiu-se à janela e pôs-se a assobiar baixinho. Jane, percebendo que ele estava a querer dominar a contrariedade, esperou com paciência. Por fim, o assobio parou, e ela ouviu Deryck rir.

— Sempre foste assim! — exclamou ele. — Não és para meias medidas. Que hei-de fazer se não concordar contigo!

Jane estendeu-lhe a mão.

— Ah, Dicky! Sei que estás pronto a ajudar-me, mas nunca te senti tão próximo de ser egoísta!

— O «outro homem» é um problema — explicou o médico. — Nós, machos brutos por natureza, queremos sempre ser o único para as mulheres, não só para aquela sobre quem, de facto, temos alguns direitos, mas também para as outras que estimamos. Isto acontece entre pai e filha, entre irmão e irmã, entre amigo e amiga. Não nos conformamos com a ideia de que uma mulher por quem nos interessamos prefira «o outro» a nós. Acho natural, mas é um sentimento ruim que deve ser dominado. E agora deixa-me ver se encontro o teu chapéu e o teu casaco para irmos até à coutada. Não queres que procure? Porquê? Olha que muitas vezes sou eu que vou buscar os abafos da Flower, e tenho um faro especial para os achar. Mas está bem. Já digo à Margery que venha ter contigo. Não te demores. Não há perigo de que Dalmain nos oiça, porque o vi ainda há pouco a andar cá e lá no terraço, tocando de vez em quando com a bengala no muro para se poder guiar. O que tu já conseguiste! Conversaremos mais à vontade lá fora; e durante o percurso talvez descubramos uma manobra útil para quando servires de guia ao «outro homem» nos seus passeios. Mas tem cuidado ao descer a escada com a Margery. Não caias por cima dela, Jane! A velhota faz um café tão bom!
 

NA biblioteca do castelo de Gleneesh reinava profunda tranquilidade. Garth e Deryck fumavam, em perfeita camaradagem, gozando a sensação de bem-estar que se segue a um bom jantar e a um dia passado ao ar livre.

Jane, no andar de cima, isolava-se na sua cegueira voluntária, limitava-se a escutar o sussurro de vozes na sala em baixo, que lhe chegava intermitente aos ouvidos. Pena era que ela não pudesse vê-los assim juntos, cada qual parecendo o melhor possível: Garth no dinner jacket que lhe assentava admiravelmente no corpo esbelto; o médico na casaca de corte impecável, que ele se dera ao trabalho de trazer consigo por saber que Jane gostava de ver os amigos trajados a rigor à hora do jantar, nunca supondo que ela não teria olhos com que o admirasse.

Ele próprio era bastante exigente em matéria de vestuário; andava sempre muito bem posto, com fatos bem talhados e à moda, excepto quando envergava o seu casaco favorito de desporto. Reservava-o para as ocasiões em que, conforme ele dizia, tencionava ser «feliz e orgulhoso», embora Lady Brand tentasse de vez em quando dispor do referido casaco.

— Oh, Deryck — costumava ela dizer — se o desgraçado do alfaiate se erguesse do túmulo e te visse a usar ainda essa veste que já fez há tanto tempo, tomaria a sumir-se debaixo da terra, envergonhado por ter o seu nome numa peça de vestuário já tão velha.

— Não sei porque mencionas como morto o meu excelente alfaiate — objectava o médico. — Tanto ele como eu e este confortabilíssimo casaco temos ainda muitos anos de vida diante de nós.

Noutra ocasião, Flower soltou um profundo suspiro quando estavam a almoçar, após ter corrido à janela para ver desfilar um cortejo de desempregados.

— Que tens, minha filha? — perguntou o marido, pois nem um suspiro da mulher lhe escapava.

— Estava a pensar, Deryck, que, se aqueles pobres desempregados tivessem aspecto menos apresentável, daria a um deles o teu velho casaco de desporto. Mas, assim, não me atrevo oferecê-lo.

— Espero que não — replicou o médico, esforçando-se por falar em tom severo, mas olhando com ternura para o lindo rosto que tinha à sua frente.

— Mas se me aparecer um mendigo andrajoso, sou capaz de lho dar.

— Como quiseres — volveu o médico, pegando nas cartas que tinha sobre a mesa e consultando o relógio. — Mas fica sabendo que vou logo atrás do mendigo e que readquiro o meu casaco pelo preço que o homem me pedir. E ainda por cima terás de pagar a conta da lavadeira, pois ver-me-ei obrigado a mandá-lo limpar. Por isso, acho melhor dares um xelim ao pedinte e não te intrometeres com o meu casaco.

— Coitado do homem, que seria preso com certeza! — continuou Flower. — Imagina, atravessar Wimpole Street vestido com aquilo...

— Decerto — concordou o marido. — Por mais estúpido que um Polícia fosse, sempre havia de concluir que tal coisa fora roubada. O verdadeiro ladrão é que me escaparia; aliás, se o apanhassem (se a apanhassem, quero dizer) eu via-me obrigado a pagar-lhe a fiança.

Deteve-se, por trás da cadeira da mulher, e tomou-lhe o rosto entre as mãos magras e morenas.

— E esse casaco velho não seria a primeira coisa que me roubavas — acrescentou cheio de ternura. A resposta de Flower foi de molde a que ele partisse deveras contente para o seu trabalho dessa manhã.

Em Gleneesh, na companhia de Jane, o discutidíssimo casaco fizera o trajecto da coutada, mais uma vez envergado pelo seu orgulhoso possuidor. Quando Deryck segurara a mão dela e a colocara no seu braço, Jane reconhecera, pelo tacto, que ali estava a célebre peça de vestuário, e ambos se puseram a rir, lembrando-se das peripécias anteriores. Mas agora Simpson dobrava o casaco do Dr. Brand e guardava-o, enquanto este, trajado de rigor, estava sentado diante do fogão da biblioteca, com as pernas cruzadas e os largos ombros sumidos nas profundezas da poltrona.

Garth escolhera um lugar onde pudesse sentir o lume, tão agradável naquela noite fria que sucedera ao dia esplendoroso de Primavera. A cadeira dele ficara de lado, o que era mais fácil para levar a mão à cara e escondê-la da curiosidade do visitante^ sempre que isso lhe parecesse conveniente.

— Pois — dizia pensativamente o Dr. Brand — não há dúvida que todas as coisas que você aprende através da sua cegueira alcançam proporções e valores exagerados. Mas espero que, com o decorrer do tempo e no convívio com maior número de pessoas, se consiga fazer uma readaptação e você se torne menos doentiamente sensível ao som e ao tacto. Por enquanto, todo o seu sistema nervoso está afinado ao máximo e reage com exagerada vibração às impressões recebidas. Aliás, isso é costume. Como a vista foi posta de lado, os outros meios de comunicação com o exterior, o ouvido e o tacto, adquiriram maior força nervosa e daí uma percepção quase aflitiva. A pouco e pouco esses sentidos se restabelecerão, ficando apenas com a necessária acuidade e sensibilidade. Que é que me dizia a respeito da enfermeira Rosemary não lhe apertar a mão?

— Ah, é verdade! — retorquiu Garth. — Mas primeiro deixe-me perguntar-lhe se, na corporação ou irmandade a que ela pertence, existirá a regra de não apertar a mão aos doentes?

— Que eu saiba, não.

— Nesse caso foi a própria e perfeita intuição de Miss Gray que a levou a adivinhar-me os desejos. Desde a primeira hora que tem como norma não me tocar. Até quando me passa as cartas e outras coisas, o que faz muitas vezes por dia, jamais os seus dedos roçam nos meus.

— E agrada-lhe isso? — inquiriu o médico, soprando anéis de fumo para o ar e observando o rosto do cego.

— Quanto lhe agradeço! — exclamou este vivamente. — Sabe, Brand, que eu senti logo que me seria intolerável suportar os dedos de uma mulher quando você sugeriu a ideia de me enviar uma enfermeira-secretária?

— E não deixou de o dizer — comentou em tom plácido o médico.

— O quê? Eu disse? Havia de me ter julgado muito selvagem...

— De modo nenhum. Apenas um doente um pouco fora do vulgar. Em geral, os homens...

— Bem sei — acudiu Garth, um tanto impaciente. — Noutra altura teria apreciado bastante o contacto duma suave mão feminina. Havia de a apertar com efusão nas minhas... Quem sabe? Talvez a beijasse. Era assim que eu fazia outrora, com grande leviandade. Contudo, meu caro Brand, quando se sentiu o contacto da Mulher e esse contacto se tornou unicamente uma recordação; e quando se mergulhou nas trevas e essa recordação é uma das poucas coisas que permanecem na memória e dão inexplicável consolo... é natural que se receie não venha outro contacto prejudicar a saudade, afugentando-a e profanando-a...

— Compreendo — volveu devagar o médico. — Não o sei por experiência, mas compreendo. Contudo, meu amigo, Se a «mulher única» existe, e a minha dúvida é desculpável visto ter havido tantas na minha vida, o lugar dela é desejável, desde que o seu contacto é uma das coisas que permanecem no seu espírito.

Gosto de o ouvir falar assim — respondeu Garth, acendendo outro cigarro. — Fala muito bem, mas é como se me dissesse que, se a vista do terraço existe, tenho obrigação de a ver. De facto, o panorama lá está, mas a minha deficiência impede-me que o veja.

— Por outras palavras — retorquiu o médico, abaixando-se a fim de apanhar o fósforo que Garth pretendera atirar para o lume — por outras palavras, embora ela seja a «mulher única», você não é o «homem único» para ela?

— Exactamente — confirmou Garth, em tom amargurado; e, em voz baixa: — Ela considera-me uma criança.

— Ou então você julgou que não era — continuou o médico, parecendo não ter ouvido a última frase. — Na realidade, um homem é sempre «único» para a mulher «única», a não ser que outro tenha já tomado o campo. O que é preciso é tempo e paciência para provar isso a ela.

Garth endireitou-se na cadeira e virou a face para o médico, com uma expressão de surpresa.

— Mas que afirmação tão extraordinária! — exclamou. — Acredita no que está a dizer?

— Absolutamente — replicou Sir Deryck em tom convicto. — Se eliminarmos todas as considerações, tais como dinheiro, propriedades, títulos, atracção física, isto é, admiração pela mera beleza física, a qual é, no fim de contas, uma questão de anatomia comparada; se sem nenhum destes preconceitos sociais, colocarmos o homem e a mulher num imaginário Jardim do Éden em face um do outro, libertos de todos os convencionalismos e de falsas vergonhas, cada qual vendo somente a alma do outro; se, nestas circunstâncias, ela é tão verdadeiramente a companheira dele que o mais nobre dos homens proclame: «Esta é a mulher única!» então não poderá deixar de ser também o «homem único» para ela; o que é preciso é que tenha a confiança necessária para lhe provar que assim é. Nele, o amor irrompe como uma revelação; nela, desponta lentamente, como o raiar do dia.

— Oh, meu Deus! — murmurou Garth. — Foi isso mesmo! O Jardim do Éden, alma em frente de alma, sem nenhumas reservas, nada a recear, nada a esconder... Ela foi para mim logo a «minha mulher», e assim lho disse. Na manhã seguinte, chamou-me «criança», e, por me considerar criança, não podia casar comigo. Em que ficam as suas teorias loucas, Brand?

— Confirmadas — respondeu o médico, calmamente. — Eva, receosa da sua felicidade imensa, desconfiada de si mesma, temendo que ele depressa se visse desiludido no seu ideal, fugiu de Adão e escondeu-se atrás das árvores do jardim. Não me venha falar de teorias loucas! Louco foi Adão em não correr atrás da Eva.

Garth, dobrado para a frente, enclavinhava as mãos nos braços da poltrona. Aquela voz firme e tranquila acordara-lhe dúvidas sobre a maneira como encarava a situação, as primeiras que lhe surgiam no espírito desde o momento em que saíra da igreja de Shenstone, três anos antes. A face, onde incidia a claridade trémula do fogão, tornara-se-lhe lívida; na testa assomavam-lhe gotas de suor.

— Oh, Brand! — suplicou. — Lembre-se de que sou cego. Seja misericordioso! Nesta escuridão tudo assume proporções terríveis.

O médico reflectiu. Se as enfermeiras e os alunos lhe vissem nesse instante a expressão, diriam que ele estava a fazer uma operação melindrosa, na qual o mais leve desvio do bisturi seria a morte do doente; e teriam razão, pois o futuro de duas pessoas sofria difícil transe, dependendo nesta crise, da segurança e delicadeza da mão do médico. Esse rosto pálido e banhado em suores e o grito de alma «sou cego» não havia entrado nos cálculos do doutor. Era uma visão do «outro homem» que ele não podia encarar sem que se sentisse perturbado. A lembrança, porém, daquela mulher paciente e de olhos vendados, que no andar de cima lhe estendia as mãos suplicantes, estimulou os nervos de Deryck Brand.

— Você é cego, Dalmain — disse ele em voz mansa — mas não quero que seja louco.

— Sou... fui louco? — perguntou Garth.

— Como posso saber? Explique-me com pormenores o seu ponto de vista, e eu lhe darei a minha opinião.

O seu tom era tão tranquilo e tão positivo que teve sobre Garth efeito calmante, dando-lhe ao mesmo tempo uma sensação de segurança. O médico dissera aquilo como se falasse duma angina ou duma ciática.

Garth recostou-se na cadeira, meteu a mão no bolso interior do casaco e apalpou uma carta que ali guardara. Devia falar ou não? Poderia, enfim, desabafar o seu desgosto com um homem digno de confiança e, no entanto, evitar o perigo de trair a identidade dela a alguém que a conhecia tão intimamente?

Ponderava Garth no assunto como um jogador de xadrez reflecte em quais as peças que pode avançar? Poderia ele explicar o seu caso sem dar nenhuma indicação que revelasse Jane como sendo a «mulher única»? Se o médico proferisse uma palavra de incitamento ou de sugestão, Garth teria decidido calar-se. O médico, porém, não dizia nada. Inclinara-se para a frente, pegara no atiçador, e pusera-se a arranjar o lume com o maior cuidado e método. Colocou uma acha de pinho sobre a chama ateada, enquanto assobiava baixinho as últimas notas do Veni, Creator Spiritus.

Garth, absorto nos seus pensamentos e, pela primeira vez, insensível aos sons que vinham de fora, não compreendeu a razão por que, nesse momento crítico, lhe surgiam no espírito estas palavras, com suave insistência:

Dai-nos a paz,
Sê-nos guia,
A fim de evitar-se o mal.

Recebeu-as, pois, como um prognóstico, que o fez decidir.

— Brand — disse ele — se, como você tão bondosamente sugeriu, eu desabafar consigo, promete não tentar adivinhar a identidade da «mulher única»?

O doutor sorriu, e esse sorriso, transparecendo no tom da voz, aumentou a confiança de Garth.

— Meu caro amigo — disse aquele — nunca procuro adivinhar os segredos alheios. É uma distracção mental que jamais me seduziu, e que nunca achei divertida nem remuneradora. Se já os sei, não preciso de adivinhá-los. Se os não sei, e os seus possuidores desejam que eu me mantenha na ignorância, preferia surripiar-lhes a bolsa a roubar-lhes o segredo.

— Obrigado. No que me diz respeito, não me importo que você saiba. Mas devo ter para com ela a delicadeza de ocultar o seu nome.

— Tem muita razão — concordou o médico. — A identidade da «mulher única» conservar-se-á secreta, a não ser que ela própria a queira um dia revelar. Comece a sua história, meu amigo, que eu não o interromperei.

— Contá-la-ei tão resumidamente quanto possível — principiou Garth. — Deve compreender que há pormenores de que um homem não pode falar... Conhecia-a há já alguns anos, e encontrava-a em casa de amigos comuns, no Lorde, no Henley e em todos os lugares onde se reúnem pessoas do mesmo meio. Sempre simpatizei com ela; sentia-me bem na sua companhia e dava grande apreço às suas opiniões. Era uma verdadeira camarada para mim e para muitos outros rapazes, mas nenhum de nós se lembraria de a cortejar. Ter-se-ia rido de todas essas tolices que é costume dirigir a uma mulher vulgar. Se alguém lhe mandasse flores, em vez de se adornar com elas metê-las-ia numa jarra e sentir-se-ia admirada de receber tal oferta. Dançava bem e montava lindamente; mas o seu par devia ser bom dançarino, senão ver-se-ia guiado por ela no rodopio da valsa; e o homem que quisesse acompanhá-la nas cavalgadas devia estar preparado para saltar muros e valados. O que nunca a vi foi numa caçada, pois o seu amor pelos seres vivos impedia-a disso. Digo-lhe isto à laia de ilustração da minha narrativa. Todos gostavam da sua companhia, embora não soubessem explicar qual a razão. É impossível descrevê-la. Ela era... era... como devia ser a...

O médico viu tremer nos lábios de Garth a palavra Jane, e bem sabia que não havia adjectivos nenhuns que pudessem exprimir esse nome. Não querendo que se estancassem as confidências de Garth, ajudou-o a acabar a frase:

— Compreendo. Era boa companheira. E depois?

— Tive muitas paixonetas, dezenas delas — continuou a voz juvenil e ardente. — Só me preocupava o físico das mulheres. Qualquer beldade, fosse loira ou morena, causava-me entusiasmo. Nunca desejei casar com nenhuma, e limitei-me a fazer-lhes o retrato. Mães e tias julgavam que eu pensava em casamento, mas as interessadas bem sabiam que não era assim. Nem uma só rapariga me pode acusar de eu a ter namorado. Admirava-lhes a beleza, e elas entendiam perfeitamente o que significava a minha admiração. Isso, porém, agradava-lhes, e até, a várias, lhes proporcionou bons casamentos. Pauline Lister, que durante muito tempo foi apontada como minha noiva, veio a casar com o dono da casa em cuja linda escadaria a pintei. Por que não me prendi a qualquer delas? Porque eram muitas, suponho eu. Além disso, a atracção era meramente superficial. Já agora, quero ser-lhe franco até ao fim: a única cuja beleza me fez, de facto, perder a cabeça, foi Lady Brand. Mas depois de reproduzir a sua perfeição física num quadro, senti-me satisfeito. A única coisa que eu pretendia das mulheres bonitas era pintá-las. Não podia explicar isto aos maridos, às mães e mais parentes, mas as raparigas compreendiam-me bem. Nem um só pecadinho me pesa na consciência.

— Excelente rapaz! — observou Deryck Brand, rindo-se. — Julgaram-no mal. Mas eu, por minha parte, acredito-o.

Garth continuou:

— A minha admiração era simplesmente de natureza estética, e nunca passou disso. As únicas mulheres que conheci bem a fundo foram minha mãe, que morreu quando eu tinha dezanove anos, e Margery Graem, a quem sempre abracei e beijei quando partia ou chegava, e a quem sempre hei-de abraçar até à hora da morte. Estes laços da infância e da adolescência são dos mais sagrados que há na vida. Estavam as coisas neste pé quando em certa noite de Julho, há já alguns anos, tudo se modificou. Eu e ela, a «mulher única», encontrávamo-nos em casa duma pessoa amiga, numa linda moradia de campo. Uma tarde, conversámos com mais intimidade, mas em absoluta camaradagem. Eu pensava tanto em casar com ela como com a velha Margery. Mas nessa mesma noite aconteceu qualquer coisa (não lhe digo o que foi porque seria uma indicação demasiado clara para a identidade dela) que me revelou, em poucos instantes, a perfeição da sua alma, a ternura de esposa e de mãe que jazia latente dentro dela. Nasceu então em mim um anseio por essa mulher, um anseio que nada podia acalmar nem jamais poderá ser mitigado senão quando eu estiver junto dela no Reino da Glória, onde não haverá fome nem sede; nem trevas, nem sofrimento...

A face do cego resplandecia, iluminada pela chama do fogão. A lembrança do passado trouxera consigo visões do futuro...

O médico ficou calado e imóvel, até ver desvanecer-se aquela expressão de êxtase. Só então o incitou a continuar:

— E depois?

— Depois — prosseguiu Garth, mas num tom de quem, tendo caído à Terra, se encontrou num lugar cheio de tristeza — nem por um momento duvidei do sentimento que me dominava, amava-a, queria-a com ardor; sabia que a sua presença era para mim como a claridade do Sol, que a sua ausência significava frio e escuridão.

Garth fez uma pausa para suspirar e gozar um momento de evocação silenciosa. com uma pergunta nítida e incisiva, a voz do Dr. Brand quebrou esse silêncio:

— Ela era bonita?

— Bonita? — repetiu Garth, surpreendido. — Ah, não sei... palavra que não sei!

— Quero dizer se você teve vontade de lhe fazer o retrato?

— Fiz o retrato dela — respondeu num tom de voz que denunciava comoção. — E esses dois quadros, pois foram dois, embora pintados de cor e no meio da minha tristeza, são as melhores obras que realizei. Ninguém além de mim jamais os viu, nem os verá, a não ser a pessoa a quem confiarei o encargo de m'os trazer a fim de os destruir.

— E que será...?

— A enfermeira Rosemary Gray.

O médico bateu com o pé numa acha de pinho, e o fogo crepitou alegremente.

— Fez boa escolha — disse ele, esforçando-se por não deixar transparecer na voz o contentamento que mostrava no rosto. — A enfermeira Rosemary é discreta. Mas insistindo no assunto: a «mulher única» era bonita?

Garth ficou perplexo e respondeu, devagar:

— Não sei. Não a vi como vêem as outras pessoas. A visão que dela tive, nesse instante de revelação, foi tão espiritual como física. A sua alma era pura e perfeita, tão bela, nobre e feminina que o corpo que a revestia partilhava dessa perfeição e se tornava imensamente valioso.

— Compreendo — anuiu o doutor, afectuoso. — compreendo, meu caro amigo. (Jane, Jane, nesse tempo não tinhas os olhos vendados, e, no entanto, andavas cega!)

— Seguiram-se dias maravilhosos — comentou Garth. — Percebo agora que vivi na radiante certeza de que ela era a «mulher única». O tempo parecia-me tão puro e agradável que jamais pensei não o fosse igualmente para ela. Divertíamo-nos a executar música; falávamos dos outros sem grande seriedade; entretinhamo-nos a trocar opiniões; mas, de nós próprios, nunca dizíamos nada, porque estávamos de acordo... ao menos assim pensava e cria que ela pensava também. Sempre que a via, achava-a mais admirável e mais perfeita. Nós, rapazes, apesar de termos grande consideração por ela, gracejávamos a respeito dos seus colarinhos e gravatas, das suas botas de montar e saias curtas; do seu modo de bater nas pernas com o chicote e de atiçar o lume com a biqueira da bota. Mas, nessa noite, eu vi que tudo isto era uma espécie de biombo atrás do qual ela escondia a sua delicada feminilidade, que nenhum homem jamais sondara nem compreendera. E então, quando surgiu de vestido de cauda cingido, opulento, com o peito coberto de rendas antigas e arfante no palpitar do seu coração terno... ah, a minha alma rejubilou, e os olhos encheram-se-me de encanto! Vi-a, como calculara que devia ser: perfeita na sua feminilidade, meiga e digna.

«Não estará ele a perceber quanto é clara a sua descrição de Jane?» pensou o médico.

— Estivemos três dias separados — prosseguiu Garth — e, no fim da semana, encontrámo-nos de novo noutra casa. Estava ali uma das beldades dessa época, a quem associavam o meu nome, infundadamente. Incitado por qualquer coisa que ela disse a esse respeito e dos três intermináveis dias da nossa separação, eu tomei a resolução de me declarar sem demora. Pedi-lhe que fosse naquela noite ao terraço, onde estaríamos sós. Era noite de luar.

Seguiu-se um silêncio prolongado, que o Dr. Brand não rompeu. Sabia que o seu amigo revolvia no espírito todas aquelas coisas que um homem nunca diz a outro homem.

Por fim, Garth disse simplesmente:

— Então, falei-lhe.

O médico não fez comentários. Recordava-se muito bem da frase de Jane, quando chegara àquele ponto da narrativa: «Então... ele falou». Depois duns momentos de silêncio, durante o qual Garth meditou nas suas reminiscências e o Dr. Brand reflectiu na versão de Jane, a voz triste do rapaz fez-se ouvir outra vez:

— Vi que ela me compreendia em absoluto (mais tarde perceberia que não era assim). A sua atitude levou-me a crer que eu era aceite, que me envolvia no seu grande amor tal como eu a envolvia no meu. Não por culpa dela, ah, não: em nada a posso censurar, mas a verdade é que não compreendo o que significava para mim o contacto das suas mãos. Na sua vida pura jamais houvera outro homem. Isso me disse logo o meu instinto infalível e o seu próprio consentimento. Às vezes penso que ela devia ter tido um ideal nos seus tempos de adolescente, pelo qual daí por diante comparava os homens, e, achando que não correspondiam a ele, mantinha-os sempre a distância. Porém, se esta minha suspeita é verdadeira, esse ideal devia ter sido um homem insensato, inconsciente do amor inapreciável que teria obtido se porfiasse em a conquistar. Pois estou convencido de que, até essa noite, nenhuma paixão masculina se ateara jamais por ela; nunca se vira solicitada por alguém que a quisesse de uma forma tão apaixonada e sem limites. Conquanto eu julgasse nesses instantes que ela me compreendia e me correspondia (Deus sabe que eu assim pensei!) o certo é que não me compreendeu, e somente se esforçou por ser compassiva e bondosa.

O médico estendeu as pernas, cruzou uma sobre a outra e pôs-se a perscrutar o rosto do cego. Achava que essas confidências do «outro homem» lhe eram mais penosas do que esperara.

— Tem a certeza? — inquiriu um tanto secamente.

— Absoluta. Oiça... chamei-lhe... o que ela era para mim então, o que eu queria que fosse sempre e que nunca deixará de ser para mim até à morte. Essa palavra... isto é, essas duas palavras é que a fizeram compreender. Levantou-se num sobressalto, afastou-me de si, e pediu-me que lhe concedesse doze horas para reflectir; na manhã seguinte dar-me-ia a sua resposta, na igreja da aldeia. Brand, você há-de considerar-me tão asno como eu me considero agora, mas a verdade é que estava absolutamente certo de que era minha; tão certo que, quando a vi na igreja, em vez de ir ao seu encontro, cheio de ansiedade, deixei-me ficar onde estava e chamei-a, como se eu fosse seu marido e tivesse o direito de lhe dar ordens. Ela veio e, como eu, somente por formalidade, lhe pedisse a resposta, declarou-me o seguinte: «Não é possível casar-me com uma criança».

A voz de Garth sufocou-se na garganta à última palavra. De corpo dobrado para a frente, ficou imóvel, com a cabeça metida entre as mãos. Chegara ao ponto em que todas as coisas tinham deixado de ser para ele o que eram antes.

A sala mergulhara num silêncio estranho. Aquela voz ardente espalhara ali dentro tal onda de amor, de esperança e saudade; revelara de tal forma uma alma, na qual o verdadeiro culto da beleza criara juventude perpétua; deixara tão a nu um coração que se entretivera com amizades vulgares, mas que despertara com a força dum vulcão quando por fim o verdadeiro amor entrara nele!

O médico sentiu um arrepio, como se tivesse penetrado numa igreja fria e deserta. Sabia que Garth lhe ocultara a parte mais cruel da sua história, aquela pergunta humilhante! «Quantos anos tem»? Jane confessara isso. Sabia também que desaparecera do rosto de Garth a expressão de amor vitorioso quando aquela pergunta lhe fora formulada. Sabia tudo isso, e avaliava quanto Garth devia sofrer. Via ali esse homem que amava Jane, oprimido na sua cegueira, a reviver aquela cena e aquelas palavras que nenhuma cortina de olvido poderia jamais ocultar.

O Dr. Brand tinha os seus defeitos; mas não estava no caso de quem não fala por não saber o que há-de dizer.

Inclinou-se para a frente e, pousando a mão no ombro de Garth, murmurou:

— Pobre rapaz! Ah, pobre rapaz!

E, durante muito tempo, assim ficaram em silêncio.
 

— ENTÃO não disseste nada? Não explicaste? Deixaste-o continuar em tal crença? Oh, Dicky! Podias ter dito tanta coisa!

Nessa sossegada manhã de domingo, Jane e o médico haviam subido a vereda sinuosa que partia do extremo do terraço e ia ter ao pinhal. Duas árvores derrubadas a curta distância uma da outra proporcionavam bons assentos ao sol, com a vantagem de se desfrutar dali o panorama do vale e dos montes longínquos. O médico conduzira Jane para o tronco mais exposto ao sol, e sentara-se junto dela. Com toda a calma, relatara a conversa da noite anterior.

— Não expliquei nada e deixei-o manter-se na sua crença, porque é a única maneira de te conservares no pináculo onde ele te colocou. Não havia razão que justificasse a tua atitude além duma ignorância quase infantil dos homens, e então cairias do pedestal, minha pobre Jane. Não seria eu que te faria dar essa queda. Dizes que eu podia ter dito muita coisa; podia, de facto, mas também podia arrepender-me das minhas palavras.

— Lançar-me-ia nos braços dele — replicou Jane afoitamente. — Antes quero estar lá do que no cimo dum pedestal.

— Desculpa, minha filha, mas é mais provável que te lançasses dentro do primeiro «rápido» que fosse para o Sul. E talvez nem esperasses pelo comboio rápido. Estou já a ver a Honourable Jane sentada num vagão de mercadorias... Não, não te vás embora — exclamou o médico, retendo Jane, que ia pôr-se de pé. — Serias capaz de tropeçar numa pinha e de caíres de cabeça para baixo no vale. Não há vantagem nenhuma em dares uma queda além da outra... da inevitável.

— Oh, Dicky! — suspirou Jane, enfiando o braço no do médico e apoiando o rosto de olhos vendados naquele ombro coberto de fazenda grossa. — Não sei o que tens hoje, que estás tão pouco benévolo comigo. Dilaceraste-me o coração repetindo tudo o que Garth te disse ontem à noite; e, graças à tua boa memória, reproduziste os tons da sua voz com todas as inflexões. E agora, em vez de me consolares, censuras-me e deixas-me em dificuldades.

— Censuro-te, sim — volveu Deryck — mas não te deixo em dificuldades. Eu não te disse que hoje não faria nada. Disse somente que ontem não pude fazer coisa alguma. É impossível pegar numa chaga, voltá-la de todos os lados e analisá-la. Quando demos boa-noite um ao outro, disse-lhe que pensaria no seu caso e lhe daria hoje a minha opinião. Se quiseres, digo-te já a impressão que tudo aquilo me causou. Penetrei nos recessos mais íntimos dum carácter belo e invulgar e vi a devastação que uma mulher pode causar na vida dum homem que a ama. Asseguro-te que a noite passada não foi nada divertida. Esta manhã, quando acordei, senti-me como se tivesse, metaforicamente, levado uma sova.

— E o que imaginas que eu sinto? — perguntou Jane.

— Sentes ainda que estás na razão... em parte — replicou Deryck. — E enquanto pensares que tens uma partícula de justificação e te agarrares a ela, o teu caso será irremediável. Devias dizer: «Confesso o meu erro. Poderei ser perdoada?»

— Mas eu agi na melhor das intenções — objectou Jane. — Pensei nele antes de pensar em mim. Seria mais fácil aceitar a felicidade do momento presente e não me preocupar com o futuro.

— Não estás a ser franca, Jeanette. Pensaste primeiro em ti. Não tiveste coragem de enfrentar a possibilidade da dor se o amor dele esfriasse e a sua admiração por ti se desvanecesse. Todo o amor, excepto o de mãe, é essencialmente egoísta. Talvez que a cegueira de Dalmain desperte em ti o amor maternal. Deixarias de pensar na tua pessoa.

— Coitada de mim! — suspirou Jane. — Sinto-me desorientada nesta escuridão. Não percebo nada, tudo me parece confuso. Se eu pudesse ver o teu olhar bondoso, Dicky, a tua voz severa não me atormentaria tanto.

— Pois tira o lenço e vê — retorquiu o médico.

— Não tiro! — exclamou Jane, furiosamente. — Então atravessei tudo isto para soçobrar quase no fim?

— Minha querida Jeanette, essa cegueira voluntária está a arrasar-te os nervos. Toma cuidado em que isso não seja mais prejudicial do que benéfico. Os remédios violentos ..

— Cala-te! — murmurou Jane. — Oiço passos.

— Quem se puser à escuta ouve sempre passos num bosque — retorquiu o médico; mas falou baixo e ficou imóvel, de ouvido atento.

— São os passos de Garth — cochichou Jane. — Oh, Dicky, vai até à beira do pinhal e olha para baixo! Daí podes ver o caminho.

O médico avançou sem rumor e daí a um instante voltou para o lado de Jane.

— A sorte favorece-nos. Dalmain vem a subir a vereda com Simpson. Dentro de dois minutos está aqui.

— A sorte favorece-nos? Oh, Dicky! Uma fatalidade destas!

Jane ia arrancar a venda dos olhos, mas o medico agarrou-lhe a tempo no braço.

— Não faças isso — disse ele. — Não soçobres quase no fim. Devo ser capaz de manter dois cegos a distância. Confia em mim e conserva-te na sombra... quero dizer, fica aí sossegada. Não percebes a razão por que falei em sorte? Dalmain vem saber a minha opinião sobre o caso. Assistirás à conversa. Será uma economia de tempo para mim, e ficarás já a conhecer como ele aceitará as minhas sugestões. Conserva-te aí muito quieta. Prometo que ele não se sentará no teu colo. Se te mexeres, ver-me-ei obrigado a dizer-lhe que és um coelho ou um esquilo e a atirar pinhas na tua direcção.

O médico levantou-se de novo e foi em passos vagarosos até à última volta do caminho.

Jane ficou só na sua escuridão.

— Olá, Dalmain! — ouviu ela Deryck dizer. — Lembrou-se de vir aqui? É um ponto ideal. Podemos dispensar Simpson, não é verdade? Tome o meu braço.

— Pois sim — aquiesceu Garth. — Disseram-me que você estava aqui, Brand, e cá vim ter.

De braço dado, saíram da vereda e entraram na clareira.

— Está sozinho? — inquiriu Garth, parando. — Pareceu-me ouvir vozes.

— De facto, estava a falar com uma rapariga — confirmou o médico.

— Que espécie de rapariga?

— Uma moça robusta, de temperamento irascível.

— Sabe o nome dela?

— É Jane — respondeu o doutor afoitamente.

— Não é Jane, é Jean — volveu Garth muito depressa. — Conheço-a, é a filha mais velha do meu jardineiro. Coitadinha, as preocupações pela família deixam-na um tanto acabrunhada!

— Com efeito reparei que estava acabrunhada — retorquiu o médico — mas não sabia o motivo. Vamo-nos sentar neste tronco de pinheiro. Ainda se lembra do panorama que se avista daqui?

— Lembro-me. Mas aterra-me verificar como se me desvanecem a pouco e pouco as imagens que me povoavam o espírito; todas menos uma.

— E essa, qual é? — perguntou o médico.

— O rosto da «mulher única».

— Ah, meu amigo, não esqueci a promessa que fiz de lhe dar hoje a minha opinião sobre a sua história! Ponderei sobre o caso e cheguei a várias conclusões. Mas sentemo-nos primeiro. Não fuma? Conversa-se melhor sob a influência do tabaco aromático.

Garth puxou da cigarreira, tirou um cigarro, acendeu-o com o máximo cuidado e atirou o fósforo ainda a arder justamente para cima das mãos de Jane, que se mantinham unidas.

Antes que o médico tivesse tempo de fazer um gesto, Jane sacudira das mãos o fósforo, com um leve sorriso nos lábios.

«Que sangue-frio!» pensou Deryck, cheio de admiração. «Noventa por cento das mulheres teriam soltado um grito. Na verdade, ela merece vencer».

Inesperadamente, Garth levantou-se, dizendo:

— Acho melhor sentarmo-nos no outro tronco. Deve estar mais ao sol.

E avançou em direcção a Jane.

Num pulo, o médico antecipou-se-lhe, agarrou em Jane com mão forte e puxou-a para trás. Feito isto, conduziu Garth para o lugar onde ela estivera sentada.

— Como você tem a noção das distâncias! — observou Deryck, enquanto levava Jane para o lado oposto.

Veio então sentar-se junto de Garth, ao sol.

— Podemos começar agora a nossa conversa — disse ele, um tanto ofegante.

— Tem a certeza de que estamos sós? — perguntou. — Parece-me sentir outra presença.

— Meu caro amigo — objectou o médico — num bosque nunca se está só. Rodeiam-nos inúmeros seres vivos. Entre os ramos das árvores reluzem olhos a espreitar-nos; dentro e fora dos buracos agitam-se caudas peludas; nas folhas secas, espalhadas pelo chão, movem-se bichinhos invisíveis. Quem pretende a solidão não a encontra nos bosques.

— Bem sei, e gosto de ouvir esses rumores — tomou Garth. — Mas eu referia-me a uma presença humana. Já não é a primeira vez que tenho a impressão da presença d'alguém invisível. Eu seria capaz de jurar que, num dia destes, ela... a «mulher única»... veio devagarinho até junto de mim, me contemplou cheia de compaixão e se foi embora em silêncio.

— Quando foi isso?

— Há poucos dias. O Dr. Rob contara-me como a conhecera em... Ah, não posso dizer onde! Ele e Miss Gray deixaram-me sozinho e, no silêncio e nas trevas, senti o olhar dela poisado em mim.

— Meu caro amigo — replicou o médico — tem de afugentar esse medo de presenças invisíveis. Aqueles que nos amam profundamente podem muitas vezes fazer-nos sentir a proximidade do seu pensamento, mesmo de longe, e em especial quando sabem que sofremos e necessitamos do seu amor. Não se deve admirar de sentir frequentemente a proximidade da «mulher única», pois estou convencidíssimo de que o amor, o coração e a vida dela lhe pertencem, meu caro Dalmain.

— Oh, meu Deus! — exclamou Garth; e, levantando-se, deu uns passos ao acaso.

— Sente-se e escute-me — disse o médico. — Não lucra nada em andar assim aos tropeções. Vou provar-lhe o que lhe disse, mas sossegue e preste-me atenção. Ora oiça. Estamos em face dum problema psicológico. Suponhamos agora que o «homem único» e a «mulher única» estão no Jardim de Éden, ou ao luar, ou onde você achar melhor. Vejamos se me faço compreender. O amor no homem cria o esquecimento de si mesmo. Na mulher, o efeito que lhe produz o ser amada, desejada, e o de corresponder a esse amor e desejo, é o de uma intensa auto-análise. Ele, pretendendo conquistar e receber, só nela pensa. Ela, solicitada a render-se e a dar-se, concentra o espírito só na sua própria pessoa. Invadem-na suspeitas: poderá satisfazer o seu ideal de mulher? Será capaz de o contentar em absoluto, não só nos primeiros tempos, mas também nos anos futuros? Quanto mais ela for até então despreocupada de si mesma, mais a obcecará a preocupação da sua pessoa.

O médico olhou para Jane, sentada a seis metros de distância, e viu-a abanar a cabeça num gesto de aprovação, com a face radiante de alívio e reconhecimento.

Deryck percebeu que ia por bom caminho. Porém, o rosto do cego, anuviara-se, e, à medida que o médico falou, tomou-se cada vez mais sombrio.

— Pelo que me disse, deduzi que não era o tipo de beleza feminina que você costumava admirar. Não teria ela receio de que, ao fim de certo tempo, o seu físico deixasse de lhe agradar?

— Não — respondeu Garth com ar resoluto. — Essa sua sugestão cai pela base. Se ela tivesse esse receio, falar-me-ia abertamente e a minha resposta tê-la-ia tranquilizado.

— O amor é cego — citou calmamente o doutor.

— Quem diz isso mente! — exclamou Garth, indignado. — O amor tem vista tão apurada que nota as belezas que os outros não vêem.

— Não concorda então com a minha teoria?

— Como explicação do meu sofrimento, não concordo, pois sei que a grandeza de alma dessa mulher a impediria de tais considerações. Mas estou de acordo com o que disse a respeito dum homem apaixonado: esquece-se por completo de si mesmo. Se assim não fosse, como nos atreveríamos a pedir a uma mulher que casasse connosco? Ah, Brand, quando penso que solicitei o direito de lhe tocar nem que fosse só num dedo!... Nunca tal poderia acontecer se a imagem dela me não enchesse o pensamento, varrendo-me dali tudo o que se referia à minha pessoa. E quando ela me perguntou na igreja que idade eu tinha... ah não lhe contei isto ontem à noite!... a reviravolta de sentimentos que se operou nesse momento em mim foi tão grande que todo o contentamento se evaporou de súbito, afugentado pelo horror da minha inferioridade.

Tudo em volta estava silencioso. Deryck Brand compenetrou-se de que perdera a partida e mal se atrevia a olhar para o vulto imóvel que tinha à sua frente. Mas por fim respondeu:

— Dalmain, há duas soluções para o seu problema. Parece-lhe que se trata da hipótese de Eva recuar cheia de timidez virginal, esperando que Adão a persiga?

— Não, não — acudiu peremptoriamente Garth. — Fomos mais longe do que isso. Nem você poderia sugerir essa ideia, se a conhecesse: é pessoa honestíssima, muito recta e muito sincera para que pudesse iludir-me. Além disso, se fosse verdadeira a hipótese, ela, depois de se ver sozinha durante tanto tempo, e sem novas minhas nem recados, mandar-me-ia explicar quais tinham sido os seus propósitos.

— E iria você ao seu encontro?

— Iria — declarou Garth solenemente. — Teria ido e perdoado, pois que ela me pertence. Mas isso era impossível, seria indigno de qualquer de nós.

— Nesse caso — começou o doutor — mantém-se a outra solução. Você confessou que a «mulher única» foge ao tipo da beleza convencional. Não lhe parece que, durante as longas horas daquela noite (lembre-se quanto foi novidade para ela ser desejada e adorada), lhe faltasse a coragem de aceitar? Podia ter receado não possuir o que você sem dúvida exige no rosto e no corpo da mulher com quem teria de partilhar as refeições; e, apesar do seu grande amor, seu e dela, talvez achasse mais prudente fugir a desilusões futuras, sacrificando a alegria do presente. O imenso amor que ela lhe consagra decidi-la-ia a esta resolução.

A figura silenciosa que assistia à entrevista fez um sinal afirmativo com a cabeça e esperou, de mãos enclavinhadas. Deryck defendia-lhe a causa melhor de que ela o podia ter feito.

Continuava a calma em redor no bosque. Toda a natureza parecia calar-se e escutar.

— Não! — bradou a voz categórica de Garth. — Num caso desses ela ter-me-ia declarado esse receio e eu tê-la-ia sossegado imediatamente. A sua ideia é indigna daquela que eu amo tanto.

O vento soprou nas árvores. Diante do Sol passou uma nuvem. Os dois seres humanos que viviam nas trevas sentiram um arrepio e ficaram silenciosos.

O médico falou então:

— Meu querido amigo, estou persuadido de que continua a ser, para a «mulher única», o seu único homem. Na cegueira em que você mergulhou, o lugar dela é a seu lado. Quem sabe se, neste momento, estará ansiosa por isso? Diga-me o nome, consinta que eu a procure e que oiça dos lábios dela a versão desta história. Se for como eu julgo, trá-la-ei comigo para lhe demonstrar que, no meio do sofrimento que você sente, o amor e a ternura dela não diminuíram.

— Nunca! — exclamou Garth. — Nunca, enquanto eu for vivo. Não vê que, no tempo em que tinha vista, renome, e tudo quanto o coração pode desejar, não fui capaz de obter o seu amor; agora, nesta cegueira desesperante, o que poderia sentir senão piedade por mim? Ora há uma coisa que jamais aceitarei: a comiseração dessa mulher. Se eu era apenas uma «criança» há três anos, agora sou apenas um cego, e serviria de objecto de dó ao seu coração bondoso. Se você de facto tem razão e ela desconfiou do meu amor e da minha fidelidade, não está nas minhas mãos provar-lhe quanto se enganou e quanto lhe seria fiel. Contudo, não permito que a visão da bem-amada se ofusque no meio destas hipóteses. Ela merece muito mais do que eu lhe poderia dar. Recusou-me porque não me considerou digno. Prefiro que seja assim. E assentemos nisto.

Assim, confina-se à solidão — observou com tristeza Deryck Brand.

— Antes a solidão — retorquiu Garth — do que a desilusão. Escute, Brand. Oiço o primeiro sinal do tan-tan. Margery vai zangar-se de deixarmos arrefecer os seus pratos domingueiros.

Levantou-se e enfrentou a paisagem com os seus olhos sem vida.

— Ah, conheço isto tudo tão bem! — disse ele. — Quando venho aqui com Miss Gray, descreve-me tudo quanto vê e eu acrescento o que ela não distingue, mas sei que existe. É dada às artes, e percebe de quase tudo o que me interessa. Vou pedir-lhe que me dê o braço, Brand, apesar de o caminho ser bom e amplo. Não quero arriscar-me a um trambolhão. Já dei uns dois ou três, e prometi a Miss Gray que... Mas esta vereda é larga. Podemos ir par a par. Até cabia uma terceira pessoa, se fosse necessário. Foi boa ideia terem aberto esta passagem. Antes, tinha-se de trepar bastante...

— Três lado a lado, se fosse preciso... — replicou o doutor.

Deu um passo atrás e, obrigando Jane a levantar-se, pôs-lhe a mão gelada debaixo do braço esquerdo.

— Agora, meu amigo — prosseguiu ele — o que lhe convém é agarrar-se ao meu braço direito; dessa forma conservará a bengala na mão direita.

Assim começaram a descer o bosque naquele delicioso domingo estival. O médico ia muito direito entre esses dois corações desunidos que ele porfiava por unir.

Em certa altura, Garth parou e dir-se-ia escutar.

— Pareceu-me ouvir outros passos... além dos seus e dos meus.

— O bosque está cheio de passos — replicou o médico — assim como o coração está cheio de ecos. Se nos pusermos à escuta, ouviremos num e noutro o que quisermos.

— Não nos demoremos, pois — rematou Garth. — Noutro tempo, quando eu chegava atrasado para a merenda, Margery não tinha dúvida em dar-me açoites.
 

— SER-ME-Á impossível, Miss Gray, exprimir-lhe o meu reconhecimento por tudo o que acaba de fazer por mim. Garth estava na biblioteca, de pé, diante da janela escancarada. O sol da manhã enchia a sala. O ar ressoava com os cantos dos pássaros e embalsamava-se com o perfume das flores. Ali, à claridade, aquela figura desempenada aparentava um aspecto novo de força, de boa disposição. As mãos impacientes estendia-as ele em direcção da enfermeira Rosemary, mas fazia-o mais para expressar o seu apreço e gratidão do que na esperança de que ela correspondesse ao seu gesto.

— E aqui estava eu a imaginar que a senhora se encontrava num alegre fim de semana, embora não soubesse aonde, nem quem seriam esses seus amigos da vizinhança. Afinal, passava o tempo no quarto mesmo aqui por cima, de olhos tapados! Não há palavras que definam tanta generosidade. Mas não se considerou um nadinha intrujona para comigo, Miss Gray?

Pobre Jane! Era essa sensação precisamente a que ela experimentava. Por isso respondeu logo:

— Decerto. Contudo, havia-lhe dito que não me afastaria muito. Os meus amigos dos arredores eram Simpson e Margery, que me auxiliaram e incitaram. Todavia, ao dizer que me ia embora, não faltava por completo à verdade. Pois não era entrar no domínio das trevas, tão diferente daquele em que reina a luz?

— Fala como um livro aberto — volveu Garth. — É tão difícil que os outros compreendam a solidão em que se está! Dir-se-ia que chegam de súbito, desembarcados de outro mundo, caídos dum planeta distante. Dirigem-se-nos com voz compassiva, tocam-nos com dedos carinhosos, mas voltam depois para a outra esfera donde vieram, deixando-nos no imenso isolamento da Terra dos Cegos.

— É verdade — concordou a enfermeira. — Até receamos essa chegada, pois a partida toma-nos a escuridão mais intensa e a solidão mais completa.

— Ah, sentiu isso?! — exclamou Garth. — Agora, que a senhora passou aí o fim de semana, já não considerarei a Terra dos Cegos como um lugar tão isolado. A cada volta, direi comigo: «Esteve aqui uma amiga fiel e querida».

Soltou uma gargalhada tão juvenil que o amor maternal de Jane se alvoroçou, exigindo-lhe um supremo esforço. Olhou para aquele vulto esbelto de calças claras, encostado à ombreira da janela, tão viril e tão belo e contudo tão infeliz e necessitado dos tesouros de ternura que ela tinha para dispensar; e, encarando-o assim, abriu-Ihe os braços, como se a grande expectativa daquele lugar de repouso, tão próximo dele, devesse, como um imã, atraí-lo para o seu amplexo.

Era bonita? Era digna de ser retratada? Haveria algum homem capaz de se fatigar de um olhar assim terno, de uns braços assim estendidos? Tarde demais, infelizmente! Naquela situação nenhum apaixonado estaria apto a sentenciar. Aquele olhar dirigia-se a certa e determinada criatura, que jamais tomaria a ver as pupilas donde ele irradiava. Não podia pronunciar-se sobre a beleza. Estava sem vista.

Por fim, ela falou:

— Senhor Dalmain, há muitos pormenores a referir, mas antes disso gostava de lhe contar o que aprendi durante a minha cegueira voluntária.

Então, desconfiada de que a comoção que sentia lhe desse à voz inflexões profundas susceptíveis de recordar a Garth os acordes impressionantes de O Rosário, fez uma pausa e retomou o discurso no tom mais alto com que costumava desempenhar o papel de enfermeira Rosemary:

— Creio ter aprendido isto: O que é solidão intolerável para um pode ser um paraíso para dois. Compreendi que, em certas circunstâncias, as trevas se tomariam num lugar maravilhoso para o encontro de duas almas. Se eu amasse um homem que houvesse perdido a vista, gostaria de ter a minha para que ele se utilizasse dos meus olhos quando fosse preciso; era como se eu fosse rica e ele pobre, e só desse valor ao meu dinheiro porque se tornava útil ao homem que eu amava. Mas estou certa que muitas vezes me custaria a suportar a luz, porque ele não a podia compartilhar comigo; e quando a noite viesse eu dir-lhe-ia: «Apaguemos as luzes, corramos os reposteiros para que o luar não entre, e fiquemos ambos na doce escuridão, que nos une mais do que a luz».

Enquanto Jane falava, Garth empalideceu e as feições tomaram-se duras. Depois, como debaixo duma reacção de sentimentos, corou até à raiz dos cabelos. Era evidente que tentava fugir ao sortilégio da voz que lhe dizia tais coisas. com a mão direita, procurava o cordão cor de laranja que o guiaria até à sua cadeira.

— Miss Gray — disse ele (e ao tom da sua voz os braços abertos de Jane tombaram ao longo do corpo) — é muita bondade da sua parte confiar-me os belos pensamentos que lhe ocorreram na escuridão. Mas espero que o homem que possui o seu amor, ou que terá a sorte de o conquistar, não tenha a infelicidade de ser cego. Será melhor para ele viver consigo na luz do que pôr à prova a sua generosa ideia de se adaptar às trevas em que ele vive. E agora, tratemos de abrir as nossas cartas, não acha? — concluiu Garth, deslizando a mão ao longo do cordel e indo até à poltrona.

Com uma sensação de terror, Jane viu então o que fizera. Esquecera por completo a enfermeira Rosemary, utilizando-a apenas como meio de despertar em Garth a compreensão do que seria para ele o amor de Jane. Não se lembrara que, para Garth, era a enfermeira que estava em jogo, essa enfermeira que lhe dera provas de tanto interesse e dedicação. E (oh, pobre Garth, oh, atrevida e ardente Rosemary Gray!) ele concluíra, naturalmente, que ela lhe estava a fazer uma declaração de amor. Jane, sentindo-se entre Cila e Caribdes, resolveu-se a dar um mergulho para se salvar da situação.

Sentou-se no seu lugar, do outro lado da mesa, dizendo:

— Foi a lembrança dele que me fez compreender isto... Mas, agora, eu e o meu rapaz estamos zangados. Nem sabe que me encontro aqui.

Garth tomou a corar, desta vez envergonhado pelo que imaginara.

— Ah, Miss Gray! — volveu animadamente. — Espero que não me ache impertinente ou intrometido; mas saiba que muitas vezes perguntei a mim mesmo se esse feliz mortal não existiria algures.

A enfermeira riu-se.

Agora não o podemos chamar feliz mortal, pelo menos no que diz respeito aos seus pensamentos, sobre a minha pessoa. O meu coração pertence-lhe, mas o pior é que ele não acredita nisso. Por minha culpa, surgiu um desentendimento entre nós, e ele não consente que eu desfaça o equívoco.

— Que tolo! — exclamou Garth. — Estão noivos? Miss Gray hesitou.

— Oficialmente, não, embora nos considerássemos como tal. Nenhum de nós falava disso a quem quer que fosse.

Garth sabia existir uma classe de gente cujo passo preliminar para o matrimónio consistia em namorar «em família», grau superior ao dos «passeios» das criadas, expressões que definiam exactamente as circunstâncias de cada caso; ao passo que as criadas e os seus galanteadores iam de tarde para os jardins públicos, os outros reuniam-se nas salas e caramanchões dos respectivos amigos e parentes. De qualquer modo, Garth nunca pensara que a enfermeira pertencesse a uma classe diferente daquela a que ele pertencia. Talvez o pateta do namorado, com quem Garth já antipatizava, fosse de mais baixa extracção; ou talvez o regulamento da corporação das enfermeiras, proibindo compromissos definitivos, consentisse todavia num «entendimento». O caso é que essa rapariguinha bondosa, inteligente e simpática, que tanto fizera por ele, tinha um pretendente da sua escolha. Admitir isto era tirar um peso da consciência de Garth. Assustara-se tanto ultimamente por não haver sido mais escrupuloso com ela e consigo próprio! Rosemary Gray tornara-se-lhe tão necessária, tão essencial, com a sua perícia e dedicação, que obtivera lugar bem vincado na gratidão do cego. As suas relações eram íntimas, a sua camaradagem estreita e permanente. E fora neste estado ideal das coisas que os pés pesados do Dr. Rob haviam aberto caminho para fazer uma sugestão. Garth, a sós com ele, explicara-lhe como Miss Gray, que se lhe tornara indispensável, contribuía para a sua felicidade e conforto, e como ele receava que a enfermeira-chefe ordenasse o seu regresso.

— Tenho medo de que não as deixem ficar muito tempo junto dos seus doentes; mas talvez Sir Deryck possa conseguir uma excepção...

— Mande a enfermeira-chefe pentear macacos, e mais Sir Deryck! — exclamou o Dr. Rob. — Se o senhor quer tê-la aqui com permanência, segure-a duma forma mais eficaz. Case com ela! Garanto-lhe que não o recusará.

Fora desta maneira que as grossas botas ferradas do Dr. Rob haviam pisado os pés nus daquela delicada situação. Garth tentara afastar de si essa ideia, e não o conseguira. Começara a notar planos e pensamentos da enfermeira em favor do seu doente, os quais excediam em muito os deveres profissionais: dir-se-iam inspirados por um interesse mais terno. Não queria pensar nisso, chamava velho tonto ao Dr. Rob e toleirão a si próprio, mas aquilo voltava a impor-se-lhe no espírito, sobretudo quando a presença da enfermeira Rosemary lhe dava a sensação de estar envolto numa atmosfera de amor e solicitude. Certa noite, meditando nesse assunto, lutou contra violenta tentação.

No fim de contas, por que não seguiria o conselho do Dr. Rob? Por que não desposaria essa encantadora e devotada enfermeira para a ter sempre a seu lado? Ela não o considerava «uma criança». Que tinha ele para lhe oferecer? Uma boa casa, quiçá luxuosa, dinheiro em abundância, e um companheiro com quem ela não parecia antipatizar... Porém, o tentador avançou demais, pois lhe murmurou: «E a voz seria sempre a de Jane. Nunca viste a cara da enfermeira, nem jamais a verás. Podes continuar a supor que a voz é daquela que adoras. Casas com a enfermeira e não deixas de amar Jane».

Então Garth bradou, horrorizado:

— Vade retro, Satanás!

E ganhou a batalha.

Mas atormentava-o a ideia de haver talvez perturbado a paz de espírito da enfermeira. Por isso lhe foi de algum alívio saber que ela se interessava por outro, embora isso o enchesse de secreto e injustificado ciúme. Demais a mais, a rapariga parecia infeliz por causa do namorado, tanto quanto ele se sentia infeliz por causa de Jane.

Veio-lhe então um súbito impulso de acabar com aquele mal-entendido que ultimamente surgira entre ambos e estabelecer a sua intimidade em base mais sólida e firme. Atacaria o assunto sem mais palavras.

— Miss Gray — principiou, inclinando-se para ela com esse adorável sorriso que tantas mulheres haviam achado irresistível. — Foi bom ter-me contado esse pormenor da sua vida e, se bem que sinta um ciúme disparatado pelo feliz possuidor do seu coração, regozijo-me com o facto de ele existir. Perdemos sempre qualquer coisa... a menos que tenhamos no nosso íntimo a imagem da mulher única ou do homem único. Quero dizer-lhe, minha boa amiga, algo que nos toca de perto a ambos. Antes, porém, de o fazer, peço-lhe que ponha a sua mão na minha para experimentar maior familiaridade do que até aqui. À senhora, que esteve na Terra dos Cegos, sabe muito bem o que significa para mim um aperto de mão.

Garth estendeu o braço por cima da mesa e ficou numa atitude de ansiosa expectativa.

— Não posso, senhor Dalmain — respondeu a enfermeira, com voz um tanto trémula. — Queimei as mãos... Ah, não é nada de cuidado, não se aflija! Um simples fósforo, quando andava de olhos vendados. Diga-me então qual é a tal coisa que nos toca a ambos.

Garth retirou a mão e, unindo-a à outra, apoiou as duas no joelho. Depois recostou-se na cadeira, com o rosto erguido. Tinha uma expressão tão pura, tamanha exaltação espiritual no seu voo acima das tentações da matéria, que os olhos de Jane, ao contemplá-lo, se arrasaram de lágrimas.

— Mande-lhe uma confissão completa por escrito. Não omita nada. Conte-lhe como tudo aconteceu. Um homem quando ama verdadeiramente acaba sempre por acreditar. Aceitará as suas explicações e ficar-lhe-á muito grato. O que espero é que ele não apareça aqui a todo o vapor para a arrancar da minha casa. Jane sorriu através das lágrimas.

— Se ele viesse buscar-me, senhor Dalmain, a minha obrigação era acompanhá-lo.

— Receio deveras o dia — continuou Garth — em que me dirá: «Tenho de ir». Já agora quero ser-lhe franco: por várias vezes me passou pela cabeça recorrer a um meio extremo para a reter sempre a meu lado, visto que representa tanto para mim e me tem dado tantas provas de dedicação. A senhora é imensamente digna de tudo o que se pode oferecer, de toda a amizade que um homem pode dar. E porque, a uma criatura assim, eu só devia oferecer o que há de melhor, quero que saiba que o meu coração abriga uma imagem adorada. Todas as outras se vão desvanecendo a pouco e pouco. Agora, na minha cegueira, mal me recordo dos lindos rostos que admirei e reproduzi na tela, e confundo-os todos. Porém, aquela face querida cada vez se toma mais nítida à medida que se adensa a escuridão. A imagem da mulher que eu amo está sempre comigo, e estará sempre até à hora da morte. A senhora disse que o seu namorado a amara, por não ter a certeza dos seus sentimentos actuais. Eu não posso dizer que a mulher que adoro me ama ou me amou, porque ela nunca me teve amor. Mas o meu coração é dela, e por isso nunca o poderei oferecer a outra mulher. Se eu, por quaisquer razões mesquinhas e desejos egoístas, pedisse a outra que casasse comigo, procederia vilmente, pois o seu rosto nada valeria para mim, e a face única continuaria a brilhar nas minhas trevas. Gostaria de ouvir a sua voz, porque ela me lembraria a voz da mulher que amo. Minha boa amiga, se rezar por mim, peça a Deus que eu jamais cometa a baixeza de oferecer a qualquer mulher tal casamento, que não seria mais do que um folhelho...

— Mas... — objectou Rosemary — ela... ela que faz com que isso seja apenas um folhelho para as outras; ela que poderia ter o maior dos grãos, a espiga mais bela?...

— Ela — respondeu Garth — recusou tudo. A espiga não era suficientemente bela, nem suficientemente grande. Não valia nada. Oh, meu Deus, o que isto significa: parecer-se insignificante à mulher que amamos!

Garth escondeu o rosto entre as mãos, soltando um gemido. Profundo silêncio reinou na biblioteca.

De súbito, Garth falou em voz baixa e rápida, sem erguer a cabeça:

— Estou sentindo neste momento o que contei a Brand, e nunca senti com tal intensidade, excepto numa ocasião em que estava só. Ah, Miss Gray, não se mexa, mas olhe em volta e diga-me se vê alguém! Olhe para a janela... e para a porta. Veja atrás do biombo. Custa-me a crer que estejamos sós. Não acredito. Andam a enganar-me, aproveitando-se da minha cegueira, mas eu não me engano. Sinto a presença da mulher que amo. Os seus olhos estão fixados em mim, cheios de comiseração. O seu dó é tanto que me envolve quase como eu sonhei que o amor dela me envolveria... Oh, meu Deus! Está tão próxima de mim... e eu não quero que ela esteja perto. Preferia que mil léguas nos separassem... e tenho a certeza que nem uns metros nos distanciam um do outro! Será impressão minha? Ou é real? Ou estarei a enlouquecer?... Miss Gray, a senhora não me mentiria. Nenhum suborno, nenhuma persuasão, nenhuma intrujice maldita a induziria a mentir-me neste ponto. Olhe em volta de si, por amor de Deus, e diga-me! Estamos sós? E se não estamos, quem se encontra aqui além de nós dois?

Jane ficara sentada, com os braços cruzados sobre a mesa, com o olhar compadecido poisado na cabeça inclinada de Garth. Quando ele desejara houvesse mil léguas a separá-los, ela escondera a face entre os braços. Estava tão próxima de Garth que, se este estendesse a mão, lhe teria tocado nos fartos rolos do cabelo sedoso. Garth, porém, não se moveu, e Jane continuou com a face oculta.

Depois do apelo de Garth, houve um silêncio um tanto demorado. Jane ergueu então a cabeça. Não está ninguém nesta sala, senhor Dalmam — respondeu a enfermeira — senão o senhor e eu.
 

— ENTÃO, gosta de andar de carro, Miss Gray?

Haviam saído ambos de automóvel pela primeira vez, e agora, também pela primeira vez, estavam a tomar chá na companhia um do outro. A enfermeira Rosemary é que serviu o chá ao seu doente. Era ainda segunda-feira, mas já a experiência adquirida no «fim de semana» valera a Miss Gray diversos privilégios.

— Gosto, sim, senhor Dalmain, em especial neste sítio maravilhoso.

— Esteve já nalguma casa onde houvesse automóvel? A enfermeira hesitou.

— Sim, estive em casas onde havia automóvel, e o Dr. Brand levou-me no seu carro numa ocasião em que me encontrou em Charing Cross.

— Conheço o carro dele. É muito bom. A senhora ia tratar de um doente, ou voltava de um tratamento?

A enfermeira sorriu e mordeu o lábio.

— Ia tratar de um doente — respondeu ela muito a sério. — Quando o Dr. Brand me encontrou, dirigia-me justamente a casa dele para lhe falar sobre isso e receber instruções.

— Deve ser esplêndido trabalhar sob a direcção de uma pessoa como Brand. No entanto, estou convencido de que, na sua maioria, as melhores coisas que a senhora tem feito são da sua própria iniciativa. Por acaso foi ele que lhe sugeriu a ideia do seu «fim de semana»? Creio que não. Ah, a diferença que isso me causou! Ora oiça. Quando íamos de automóvel, nunca se abrandou de velocidade nem se tocou a buzina sem que a senhora me houvesse já dito por onde se iria passar ou o que estava na estrada a certa distância. Disse-me assim, por exemplo. «Lá adiante, naquela curva, vai uma carroça de feno; deve haver espaço para passarmos, mas temos de diminuir a velocidade». E também: «A meio da estrada está uma vaca; se buzinarmos, ela há-de fugir do caminho». Assim, quando o carro abrandava a marcha ou a buzina tocava, já eu sabia a razão disso. Uma das coisas aflitivas para um cego é ir de automóvel e sentir a certa altura que o carro se desvia para um lado ou que muda de andamento sem que ele saiba porquê, e a senhora evitou-me essa sensação desagradável durante todo o trajecto, dizendo-me sempre o que iria acontecer. Foi para mim um verdadeiro prazer este passeio. Jane premiu a mão sobre o peito. Ah, como seria capaz de tomar a vida de Garth num verdadeiro prazer! Quantos sofrimentos inúteis ela não lhe pouparia se conseguisse o direito de estar sempre a seu lado!

— Fui ontem de automóvel à estação com Sir Deryck, e senti isso mesmo que o senhor Dalmain me acabou de descrever — disse a enfermeira. — Foi a primeira vez que me causou nervosismo andar de carro, mas compreendi que isso era devido ao facto de ir sempre com o espírito alerta, calculando distâncias, atenta às mudanças de velocidade e sabendo o que significava cada desvio... Por isso, quando nós saímos, fui dizendo ao senhor Dalmain tudo quanto se passava.

— Que bondade a sua! — exclamou Garth, cheio de gratidão. — E diga-me: viu partir Sir Deryck?

— Não. Não vi Sir Deryck. Mas ele disse-me adeus e apertou-me a mão ao sair do carro. Fiquei sentada, e ouvi o resfolegar do comboio até esmorecer na distância.

— Não lhe custou deixá-lo ir sem lhe ver a cara? Jane sorriu.

— Sim, custou-me — respondeu a enfermeira — mas quis saber quanto isso custa.

— É sensação tristíssima, não é?

— É. A gente quase chega a desejar que essa pessoa amiga não tivesse vindo.

— Ah...

O suspiro de Garth exprimiu o alívio de quem se vê por fim compreendido; e a nobre criatura, que recusara tirar a venda até ao fim, sentiu-se mais do que reconfortada.

— E as refeições! — volveu a enfermeira Rosemary, rindo. — Não são comicamente difíceis?

— Ora se são! Como compreende tudo isto tão bem agora! Até aqui nunca lhe pude explicar por que não queria companheiros à minha mesa. Também andou «à caça» de bocados no prato?

— Andei, e em geral ia encontrá-los sobre a toalha. Mas, senhor Dalmain, descobri várias maneiras de lhe evitar todas as dificuldades neste assunto. Se consentir em ter as suas refeições comigo numa mesinha, verá como tudo lhe será fácil. E mais tarde, se eu ainda cá estiver, quando começar a ter visitas, ficarei à sua esquerda e ajudá-lo-ei de modo tão disfarçado que ninguém dará por isso.

— Quanto lhe agradeço! — exclamou Garth. — Muitas vezes me tenho lembrado duma brincadeira disparatada que costumávamos fazer em Overdene, à sobremesa, quando estávamos em grupo animado. Conhece a Duquesa de Meldrum? Pelo menos deve ter ouvido falar dela. Ah, sim, Sir Deryck conhece-a pessoalmente! A Duquesa até uma vez o chamou por causa duma arara que ela tem. Telefonou-lhe, sem mencionar a ave, e Sir Deryck, supondo que era a Duquesa que estava doente, abandonou tudo e foi imediatamente. Por acaso ela encontrava-se nessa altura na sua casa da cidade, mas se estivesse em Overdene chamá-lo-ia da mesma maneira. Quando Brand chegou (ainda não tinha o renome que tem hoje, mas já era bastante procurado e andava sempre ocupadíssimo) achou a Duquesa tão saudável como de costume, mas frenética de inquietação; e Tommy (que é o nome da arara) muito encolhida no poleiro, só com um olho aberto e a proferir os habituais palavrões com voz muito fraca. Este último sintoma comoveu a Duquesa quase a pontos de chorar. Brand mostrou-se à altura da situação. Observou a ave com as suas melhores maneiras profissionais, tirou-lhe a temperatura debaixo da asa (por sinal que Tommy acabou por quebrar o termómetro, furiosa), proibiu que dessem à doente macarrão ensopado em vinho do Porto (que era o que o bicho reclamava desde manhã), passou uma receita, deu instruções pormenorizadas, e, depois de verificar que não havia motivo para a aflição da Duquesa, convenceu-a de que o bocadinho de mercúrio que Tommy engolira só lhe podia ser benéfico; muitas vezes, explicou ele, até o administravam aos papagaios atacados de tal doença; contudo, convinha saber se Tommy não teria ingerido qualquer lasca de vidro, e por isso aconselhava a reunirem os bocados do termómetro partido, a fim de terem a certeza de que não faltava nenhum. Dito isto, Brand pegou no chapéu, mas a Duquesa insistiu tanto em que procurassem os pedacinhos de vidro antes de ele se ir embora, para não ter de o chamar de novo, que Brand se viu obrigado a esperar, enquanto o mordomo andava de gatas pelo chão, e a Duquesa se dobrava atrás dele, indicando com a bengala de ébano todos os fragmentos que descobria. Esta cena reanimou e divertiu a ave doente, a qual abriu ambos os olhos e fez uma série de observações contundentes a respeito do passado, do presente e do futuro do mordomo. A Duquesa quase chorou de alegria ao verificar que não faltava nenhum pedacinho de vidro, e elogiou a esperteza que a sua avezinha patenteara tragando por instinto o mercúrio. Despediu-se então de Sir Deryck, prometendo telefonar à tarde para o informar do estado da arara. Brand inclinou-se, beijou-lhe a mão, e saiu.

Quando, pouco depois, chegou Miss Champion e ouviu falar do caso (Miss Champion é sobrinha da Duquesa, não sei se sabe, e vive muitas vezes com ela) ficou verdadeiramente indignada. Velha amiga de Sir Deryck, acha que poucas pessoas são dignas de serem tratadas por ele; se o tivessem chamado da Corte, para assunto idêntico, ficaria da mesma forma furiosa. Tirou, pois, as luvas de montar e com elas fustigou Tommy violentamente. A Duquesa tinha saído de carruagem, a fim de ir em pessoa à farmácia aviar a receita do doutor; de maneira que a arara pôde ser sovada à vontade, sob as vistas discretas e deliciadas do mordomo e do lacaio. Aquela ensinadela obrigou o animal a tanto exercício, subindo e descendo no poleiro e soltando injúrias a Miss Champion, que ficou quase restabelecido dos efeitos do macarrão molhado em vinho do Porto. Miss Champion contou-me que fora depois a casa do Dr. Brand apresentar desculpas. Muito amável, o médico apenas disse que enviaria à Duquesa uma conta de vinte guinéus, por assistência clínica à arara, e que em seguida ofereceria o cheque, recebido em pagamento, à direcção do Jardim Zoológico. Miss Champion estava ainda no consultório dele, dando largas à sua cólera, quando o telefone tocou. Era a Duquesa, ofegante, que vinha dar boas notícias, recheadas de pormenores. Miss Champion quis pegar no auscultador e dizer meia dúzia de coisas fortes, mas o doutor afastou-a com uma das mãos enquanto com a outra segurava o auscultador e dava respostas delicadas. Em seguida desligou. Não tardou muito que a Duquesa pedisse a conta, e Sir Deryck escreveu que a honra que tivera em tratar uma ave tão inteligente e tão notável o compensara do trabalho e da perda do tempo. E assinou: Médico de Serviço de S. Ex.ª a Arara Tommy. A Duquesa ficou encantada, mostrou a carta aos amigos... e não compreendeu o motivo por que eles riam a bandeiras despregadas. Foi assim que ela convidou os Brands a irem a Overdene a uma das suas reuniões mais selectas.

A enfermeira Rosemary riu-se, divertidíssima, e Garth continuou:

— Já que achou graça, vou contar-lhe outra história da mesma arara. Tommy tem por costume dizer alto e bom som os maiores destemperos mesmo na cara da Duquesa, com o que esta rejubila imenso. Estava o animal um dia no vestíbulo do rés-do-chão, em Overdene, junto da porta que deita para o terraço. A Duquesa descia, de chapéu de jardinar, com um açafate no braço. Ia a caminho do roseiral. Alguns de nós andávamos por ali, e um amigo meu, Ronnie Ingram, levantou-se da cadeira onde estava sentado, deitou fora o cigarro e foi abrir a porta à dona da casa. Ela, entretanto, ocupava-se a procurar as luvas e a tesoura, de modo que Ronnie ficou no patamar, segurando a porta. A arara saracoteava-se impaciente abaixo e acima no poleiro, e a Duquesa demorava-se, curvada sobre a gaveta da mesa. Por fim, Tommy pôs a cabeça à banda e exclamou em tom de indescritível grosseria: «Avia-te, velhota!» Ronnie, cujas maneiras eram da máxima distinção, olhou com ar de censura e observou: «Tommy, devias dizer minha senhora». No mesmo instante a arara levou o pé ao bico e murmurou untuosamente: «Pelo ordenado que me pagam...» Não calcula o êxito que foi! O animal devia ter aprendido a frase com os criados, mas naquele momento pareceu engenhosamente original. Depois disso, sempre que a Duquesa aparecera de chapéu de jardinar, todos lhe pedíamos que se detivesse no vestíbulo até que Tommy proferisse a sua bela pilhéria. Várias vozes a incitavam, gritando-lhe «dize minha senhora» e a frase esperada nunca falhava. Sou capaz de jurar que vi Tommy piscar o olho através do pé erguido.

Um dia houve certo convidado que insistiu em que Tommy fazia aquilo maquinalmente e que daria a mesma réplica fossem quais fossem as palavras ouvidas antes. Era desses indivíduos que estragam o encanto das histórias explicando-as racionalmente ou pondo em dúvida a sua veracidade, e discutindo tudo ponto por ponto. Fizeram-se apostas, que ele aceitou, disposto a provar a sua asserção. A Duquesa, altamente excitada, foi pôr o chapéu de palha, e nós reunimo-nos todos no vestíbulo. Lá estava Tommy no seu poleiro, muito serena no esplendor das penas escarlates. Por fim, a Duquesa, ofegante, começou a descer a escadaria. O céptico avançou, abriu a porta e ficou à espera. A dona da casa, sempre no meio da maior excitação, dirigiu-se para um canto e fingiu que procurava a tesoura. Durante momentos não aconteceu nada de especial. A arara subia e descia de lado, com risinhos sufocados. De repente parou e fitou a dona, que estava curvada sobre a mesa, de costas para ela. «Avia-te, velhota!» gritou então com a costumada familiaridade. «Tommy», interveio o céptico, «dize minha querida Duquesa». No silêncio que se estabeleceu, a arara ergueu o pé; mas, antes que alcançasse o bico, desceu-o outra vez e, inclinando-se para o céptico, gritou: «Vai pentear macacos!» e desatou às gargalhadas. E nós rimos também! A Duquesa ia tendo uma apoplexia. O incrédulo sentou-se num banco, com cara de parvo...

Mas que histórias fui buscar a propósito das nossas refeições! O caso é que eu gosto de recordar esses belos tempos. Parecem já tão distantes! Estão separados do presente por um abismo.

Gostava que conhecesse Overdene. A Duquesa promove deliciosas reuniões, nas quais se encontram todas as pessoas conhecidas. Ambiente agradabilíssimo, mesa e instalação magníficas. Cada qual faz o que lhe apetece, enquanto a Duquesa, tão simpática, se entretém por um lado e outro com os seus animais exóticos. Da última vez que estive lá havia meia dúzia de gerbos egípcios, que apareciam no salão, depois do jantar. São uma espécie de cangurus em miniatura e metem-se-nos pelas pernas, assustando as senhoras e fazendo tropeçar os criados que andam a servir o café. A derradeira aquisição foi um tucano: tem bico semelhante a uma banana e berra como um carneiro. Mas a arara Tommy continua a ser o animal predilecto; devo dizer que é muito inteligente e que sabe mais do que se julga.

Pois em Overdene costumávamos fazer, à sobremesa, um jogo com uvas. Púnhamos cinco bagos de moscatel em volta do prato, fechávamos os olhos e empunhávamos o garfo. Quem primeiro espetasse os bagos e os comesse ficava vencedor. A Duquesa nunca jogava; preferia fazer de árbitro e denunciava os concorrentes que entreabriam os olhos. Miss Champion e eu (ela é sobrinha da Duquesa, não sei se já lhe disse...) não fazíamos batota e empatávamos quase sempre.

— Conheço esse jogo — disse a enfermeira Rosemary e lembrei-me dele quando comi de olhos tapados.

—- Ah — exclamou Garth — se eu soubesse não consentiria que fizesse tal coisa!

— Por isso mesmo nada lhe quis dizer antes.

Garth entregou-lhe a xícara para que a enfermeira a enchesse de novo, e inclinou-se com ar confidencial:

— Vou-lhe contar uma das minhas preocupações: tenho sempre medo de que haja uma mosca na sopa. Desde pequeno que sinto pavor de comer moscas sem dar por isso. Quando eu tinha seis anos, ouvi uma senhora, que viera visitar-nos, dizer a minha mãe: «Todos temos de engolir uma mosca uma vez por ano! Eu engoli agora a minha, quando vinha para cá». Esta ideia terrível duma mosca anual tomou posse do meu espírito infantil, e a minha preocupação era que isso acontecesse depressa, para eu ficar descansado. Recordo-me de ter acabado rapidamente com uma fatia de pão com manteiga onde eu vira sinais de pernas e de asas, achando que não me seria difícil ingerir a minha mosca, e que ficaria assim livre durante doze meses; tive, porém, de correr abaixo e acima no terraço, com os punhos cerrados, enquanto a engolia. E depois de descobrir o logro da mosca anual, manteve-se em mim o receio das moscas. Creio que nunca comi uma sanduíche sem olhar primeiro para dentro, tal como fazia a velha que mirava sempre para debaixo da cama a ver se estaria lá algum ladrão. Ah, o que esses insectos me têm torturado depois do acidente que sofri! Eu não posso dizer: «Simpson, tens a certeza de que não há nenhuma mosca na sopa?» Simpson só me responderia com um «não, senhor» e tossiria discretamente... e eu não teria cara de voltar a fazer-lhe a mesma pergunta.

A enfermeira curvou-se para a frente e colocou a xícara ao alcance de Garth, tocando-lhe na mão direita com a borda do pires.

— Tome as suas refeições comigo — disse ela num tom tão compreensivo que mais pareceu uma carícia. — E prometo-lhe que não haverá uma única mosca na sua comida. Não se fia nos meus olhos?

Garth volveu com um sorriso de felicidade e gratidão:

— Fio-me nos seus olhos para tudo. Ah, a propósito: gostava de a encarregar de uma tarefa que a mais ninguém confiaria. Já está a anoitecer ou temos ainda uma hora?

A enfermeira olhou para a janela e consultou o relógio:

— Tomámos cedo o chá — disse ela — porque viemos esfomeados do passeio. Ainda não são cinco horas, e a tarde está linda.

— O sol não se porá antes das sete e nesse caso, ainda há luz. Já acabou o seu chá? A luz deve estar agora a bater na janela virada ao poente da minha oficina de pintura. Conhece-a? É no último andar da casa. Já uma vez foi lá buscar-me os desenhos para o retrato de Lady Brand. Naturalmente nem reparou na porção de telas empilhadas aos cantos. Algumas estão em branco, outras contêm apenas esboços, e há umas que são pinturas já acabadas. Entre estas últimas, estão duas que desejo identificar e destruir. Um dia destes mandei Simpson guiar-me até lá e deixar-me sozinho. Tentei descobri-las pelo tacto, mas não consegui reconhecê-las e a páginas tantas fiquei desorientado no meio daquela confusão de pinturas. Não quis pedir a ajuda de Simpson porque os assuntos desses quadros são... um tanto originais, e se ele soubesse que os tinha destruído ficaria admirado e havia de comentar o caso; ora eu detesto despertar a curiosidade dos criados. Não podia recorrer a Sir Deryck porque ele reconheceria os retratos, visto ser íntimo amigo da pessoa que me serviu de modelo. Quando pintei os quadros, nunca julguei que outros olhos os veriam além dos meus. Por isso só posso confiar em si, minha cara secretária. Prestar-me-á esse favor? E já?

Miss Gray arrastou para trás a cadeira.

— Com certeza, senhor Dalmain. Não estou aqui para outra coisa senão para fazer tudo o que deseja, e nas ocasiões em que lhe convém.

Garth tirou uma chave do bolso do colete e colocou-a sobre a mesa.

— Aqui tem a chave desse quarto. Parece-me que as telas estão no canto mais afastado da porta, atrás de um biombo japonês. São grandes, 85 X 78 centímetros. Se as achar muito pesadas, una-as frente com frente e diga a Simpson que as traga. Mas não o deixe sozinho com elas!

Miss Gray pegou na chave, levantou-se e dirigiu-se ao piano, que abriu. Depois, esticou o cordão cor de púrpura que guiava Garth da sua poltrona ao instrumento.

— Sente-se e toque — disse ela — enquanto eu vou lá acima desempenhar-me da missão. Mas diga-me só uma coisa, senhor Dalmain. Sabe quanto me interesso pelos seus trabalhos. Quando eu achar esses quadros, é seu desejo que os olhe de relance, o bastante para os identificar, ou posso observá-los à vontade na boa claridade da sua casa de trabalho? Pode ter a certeza de que farei só o que desejar.

O artista não pôde resistir ao desejo de ter a sua obra vista e apreciada.

— Pode apreciá-los à vontade, se isso lhe apraz — respondeu Garth. — São a melhor coisa que eu fiz, embora tenha pintado inteiramente de cor. É... ou antes, era uma das minhas habilidades: e não julgue que saía obra de imaginação. Pintei exactamente como tinha visto... pelo menos no que respeita ao rosto e ao corpo da mulher. Isso é o principal, e o resto simples acessório.

Levantou-se e dirigiu-se ao piano, começando a dedilhar ao de leve os acordes do Veni. A enfermeira Rosemary caminhou para a porta e inquiriu, detendo-se no limiar:

— Como é que as hei-de reconhecer?

O Veni chegava-lhe aos ouvidos num murmúrio, mas a voz de Garth vibrou clara e distinta, embora misturada com a música, tal se fosse um recitativo.

— É uma mulher... e um homem, sós, num jardim. Cenário mal indicado. Ela está de vestido de baile, preto, com rendas no corpete. Tem por título A Esposa.

— E o outro?

— A mesma mulher, o mesmo cenário, mas sem o homem, desta vez. Não houve necessidade de o pintar. Visível ou invisível para ela... está sempre ali. A mulher segura nos braços...

O murmúrio do piano cessou. Reinou na sala profundo silêncio.

— ...uma criancinha. O título é A Mãe.

A música recomeçou, agora livremente, como que a manifestar uma súplica: Dai-nos a paz, sê-nos guia...

A porta fechou-se sobre a enfermeira Rosemary.
 

JANE subiu até ao quarto de trabalho, abriu a porta, entrou, e tomou a fechá-la.

A luz da tarde penetrava por uma janela ao poente, opulentando os biombos de seda e as colgaduras, o desenho vermelho dum bordado japonês e o dragão da China, dourado, que a meio dum tecido de púrpura enrolava a cauda interminável e exibia as suas garras compridas...

Por várias vezes já tinha Jane ido à oficina de pintura de Garth, mas sempre em busca de qualquer coisa por que ele ficara ansiosamente esperando em baixo, e ela nunca tivera oportunidade de ver tudo à vontade. Margery possuía outra chave, pois ia ali todos os dias abrir as janelas e espanar com amor aqueles tesouros: conservava o quarto exactamente como o dono o deixara, quando aqueles olhos brilhantes ainda podiam contemplar tudo aquilo. Essa chave, porém, estava sempre no chaveiro de Margery, e Jane não a queria pedir emprestada, com medo de sofrer uma recusa.

Mas agora tinha tempo disponível. Sentou-se numa cadeira de verga, baixa e funda, confortavelmente estofada. Comparadas com esta, todas as cadeiras lhe haviam de parecer de aí por diante incómodas, tal a perfeição com que ali se lhe ajustavam os braços, pernas e costas. Ah, havia ela, Jane, de ser assim para o seu bem-amado: ir aoencontro das suas necessidades de tal forma que ele achasse na sua presença uma fonte de energia, de paz e de consolo!

Mirou em redor. Era tudo como Garth, cada pormenor perfeito, cada mancha de cor a realçar as demais. Perfeitos também os processos de regular a claridade, quer do tecto quer das janelas. Havia cavaletes de todas as espécies e tamanhos. Onde se desejava espaço, ele existia, e o asseio predominava aí. Aos lados do fogão e nos recantos do aposento imperava luxo e aconchego. O papel da parede, castanho, liso, era dum tom belíssimo, de nogueira. Ao lado da janela mais distante estava um quadro por acabar, com a paleta e pincéis à mão, precisamente como Garth os deixara nessa manhã de triste memória, três meses antes quando, ao saltar uma cancela para ir em socorro de um animalzito, fora ao encontro da sua desgraça, da sua angústia indizível.

Jane levantou-se e foi observar de perto os objectos que estavam no pano do fogão. Atraía-a especialmente um pequenino urso de cobre, sólido e gracioso ao mesmo tempo, com as patas dianteiras abraçadas a uma estaca de latão, de cabeça virada para uma banda e os olhinhos de contas a reluzir. A cadeia, que lhe vinha do pescoço à haste, denotava cativeiro e possível ferocidade. Jane não duvidava de que a cabeça do urso era de deslocar e que o corpo devia ser um receptáculo de fósforos, mas também tinha a certeza de que se espreitasse lá para dentro não veria fósforos nenhuns. Aquilo inculcava uma recordação dos tempos da infância.

O nené Garth estendera as mãozinhas rechonchudas para o latão resplandecente. O pequenino Garth, de três anos, com os cabelos escuros e olhos brilhantes, contemplara afectuosamente aqueles olhitos de contas imóveis e observara cheio de respeito a correntinha amarela. O estudante Garth, alto e esguio, ao vir passar as férias em casa, vira o urso em cima da prateleira do fogão e exclamara: «Olá, Bruno! Já tinha saudades tuas! Ó minha mãe, quando eu nasci já ele estava cá, e no colégio eu pensava no que significaria vê-lo outra vez. A mãe e ele! É uma associação estranha, mas ambos significam a minha casa». E o jovem Garth, de dezanove anos, alto e esbelto, retraído na sua dor, ao regressar ao lar desolado depois de acompanhar o querido e frágil corpo até à sua derradeira morada, ficara de olhos secos junto do fogão no aposento silencioso, até que, ao avistar a figurinha de cobre, acorrentada e passiva, dissera: «Oh, Bruno!... Oh, Mãe!» e deixara-se cair na cadeira vazia, misericordiosa consolação que tantas vezes é negada aos homens nos maiores desgostos. Tudo isto contou o ursozinho a Jane enquanto esta o teve na mão.

Levantou-lhe a cabeça e olhou para o interior do corpo; não tinha um único fósforo. Depois de o repor com delicadeza na prateleira, compreendeu que estava de propósito a adiar uma provação que tinha de enfrentar forçosamente. Deryck falara-lhe dos retratos da «mulher única». O próprio Garth a havia informado melhor. Chegara o momento em que ela tinha de ver com os seus próprios olhos, e de nada servia protelar esse momento.

Foi até junto da janela virada ao poente, e escancarou-a. O Sol ia descendo sobre as colinas purpúreas; o azul profundo do céu começava a empalidecer, cobrindo-se de laivos rosados. Jane, enfiando as mãos nos bolsos, ergueu os olhos ao alto e disse:

— Perante Deus eu afirmo: Julguei proceder bem. Considerei a felicidade futura de Garth e a minha, e por amor de nós ambos tomei aquela resolução, à custa da alegria presente. Mas, perante Deus, acreditei que tinha razão e... acredito ainda. Digo isto agora para o caso de jamais poder tornar a dizer ou a pensar assim.

Jane, porém, não o tornou a dizer.

Atrás do biombo amarelo, Jane encontrou grande quantidade de telas em desordem; via-se que mãos de cego as haviam remexido, numa busca inútil, e em vão se tinham esforçado por as arrumar de novo. Com jeito e ternura, Jane levantou-as uma por uma do montão em que estavam observando cada pintura e em seguida encostando-as à parede, com a frente voltada para dentro. Havia obras de valor, algumas acabadas, outras simples esboços, duas ou três caras que ela conhecia; mas as telas procuradas não se achavam ali.

Jane endireitou-se e olhou em volta. Num canto afastado estava outra pilha de quadros meio-escondida por um biombo do Cairo. Dirigiu-se então para lá. Quase no mesmo instante descobriu as telas desejadas; eram maiores do que as outras, e fáceis de reconhecer num relance pelo vestido preto da figura central. Sem se demorar ali a observá-las, levou-as para junto da janela e colocou-as em boa luz. Depois, arrastou para esse lado a cadeira onde estivera sentada, pegou com a mão esquerda no urso de latão, como talismã para a ajudar nesses momentos que se seguiriam, colocou a segunda pintura com a face virada para o cavalete e sentou-se a contemplar em sossego o primeiro quadro. O que logo saltava à vista era uma nobre figura de mulher, nobremente pintada, e essa impressão transmitia-se imediatamente ao espírito. De facto, a nobreza, a dignidade eram o que se notava antes do mais: atitude majestosa, cabeça erguida, ar distinto. Depois, ao atentar no vulto maciço, muito bem proporcionado para ter o nome de feio, de bela constituição e pleno desenvolvimento; ao ver o comprimento dos membros, a firmeza com que assentavam os pés, as mãos largas e rijas, experimentava-se outra impressão, a da força, força de agir, de persistir, de continuar. Só então é que se observava a cara, e nessa altura tinha-se uma surpresa. O terceiro pensamento representado na pintura era o Amor, o mais elevado, o mais puro, o mais ideal; contudo, ressaltava também o lado humano. Tudo isto se exprimia nesse rosto.

Era um rosto cheio, adequado à figura, sem nenhumas pretensões a bonito. Não havia ali uma feição feia e, no entanto, a todas faltava beleza; o efeito geral era o de uma cara interessante e agradável, sem retoques nem adornos.

Quanto mais era contemplada mais atraente se tornava aquela face, menos se notavam as suas imperfeições, mais lhe admiravam a pureza e nobre simplicidade. Reparava-se em todos estes pormenores, desviava-se por instantes a vista para neles meditar, voltava-se a observá-los; e então acontecia o milagre. Nesse rosto transparecia a «luz que nunca há no mar ou na terra», a qual lhe irradiava dos calmos olhos cinzentos (que, por cima da cabeça do homem, olhavam para fora da pintura) com uma expressão de abandono sublime, de rendição total. Brilhava neles a alegria; o ar maravilhoso perante um mistério ainda não compreendido; uma compaixão quase divina pela violência de sentimentos que levara o homem a cair de joelhos e a abrigar-se no peito dela; o desejo de mitigar, de satisfazer: tudo isto se misturava numa expressão de tal doçura que provocou lágrimas naquela que mirava a sua imagem. A mulher estava sentada num guardapeito largo, de mármore, e olhava em frente. Tinha os joelhos bem desenhados e a longa curva da fímbria da saia alastrava pelo chão. Do outro lado ajoelhava-se um homem, vulto alto e magro, de trajo de rigor; os braços dele abrangiam a cintura da mulher, e a cara escondia-se na renda flexível do corpete. Visível, só o brilho dos cabelos escuros, e contudo a figura inteira revelava a mais intensa paixão. Ela, por sua vez, atraía-o a si com gesto delicado, combinando o abandono da mulher com o terno palpitar da solicitude materna; as mãos cingiam-lhe a cabeça, escondendo-a no seu seio. Não deviam ter proferido palavra. Era evidente que o homem do rosto oculto guardava perfeito silêncio. E os lábios dela, firmes, mantinham-se cerrados numa linha de domínio calmo, se bem que em volta pairasse o alvorecer dum sorriso de felicidade inefável.

Em qualquer anteparo fracamente indicado, à esquerda, elevava-se uma roseira, que depois tombava em cachos de flores e dava ao quadro o único tom vibrante que ali havia. Mas, abstraindo destes simples pormenores, e regressando à contemplação daquele semblante calmo e suave, e às mãos fortes e amplas (que aprendiam pela primeira vez a cingir com uma protectora ternura), o observador era levado a dar ao quadro o título de A Esposa.

Jane admirou-o longo tempo em silêncio. Se o ursozinho de Garth fosse menos sólido, o seu corpo de latão haver-se-ia quebrado sob a pressão forte das mãos que ela tinha enclavinhadas.

Nem por um instante duvidou que estava a ver-se a si própria; mas, justos céus, quão diversa se julgou reflectida nesse espelho! Olhou uma e duas vezes e o espírito recusou-se-lhe a trabalhar. Confusamente percebia os pormenores da sua imagem. Mas por fim a expressão dos olhos cinzentos fez-lhe recordar de modo vivo cada sentimento que ela experimentara ao amparar ao peito a cabeça do seu amado. «É isso», murmurou. «Não posso negá-lo. Foi isso que eu senti. Devia ter dado essa impressão...»

E de repente caiu de joelhos diante da tela, exclamando:

— Oh, meu Deus, foi assim que eu estive?! Lembro-me que ele ergueu os olhos brilhantes e me contemplou ao luar. Foi assim que me viu! E pintou-me tal qual eu lhe surgi... aquela que tinha essa expressão, que lhe aconchegou a cabeça no seio e que, no dia seguinte, recusou casar com ele, alegando a extrema mocidade do homem... e talvez a superioridade da mulher! Oh, Garth, Garth! Meu Deus, ajudai-o a compreender-me! Ajudai-o a perdoar-me!

No quarto de costura, em baixo, Maggie, a criada, cantava enquanto ia trabalhando. O som fluía pela janela aberta e cada uma das sílabas, ditas com pronúncia local, chegava aos ouvidos da mulher ajoelhada. O seu espírito, aturdido pela confusão do sofrimento, começou a clarear-se com os versos que a criada entoava:

Amor, não me hás-de deixar
Que em ti minh’alma se apura.
Minha vida te hei-de dar
E nas águas do teu mar
Navegará mais segura.
Luz, que de longe pressinto,
Vem mostrar-me o teu fulgor,
Acende o meu facho extinto;
Nos teus raios de oiro tinto
Será mais belo e melhor.

Jane pegou na outra tela e colocou-a diante da primeira. Representava a mesma mulher, sentada no mesmo lugar; o homem, porém, não figurava lá. Nos braços segurava uma criança, cuja cabeça escura lhe poisava na plenitude do seio; não olhava, todavia, de alto para o rosto infantil, mas baixava a cabeça a fim de melhor o contemplar.

A roseira trepara mais e alastrava agora, formando uma arcaria sobre a mãe e o filho. Na figura imponente da mulher imperava a ternura maternal. Observando-lhe as feições ver-se-ia que não eram mais bonitas, mas o amor que nelas transparecia transfigurava-as em beleza. Percebia-se que A Esposa cumprira bem a sua abundante promessa numa inteira realização, acrescentando ao casamento o encanto da maternidade. Desvendavam-se todos os mistérios, surpreendiam-se todas as alegrias. O sorriso naqueles lábios tranquilos indicava a mais inefável satisfação.

Do alto irrompiam rosas trepadeiras, e as suas pétalas vermelhas tombavam sobre mãe e filho. A mãozinha da criança agarrava-se às redes do corpete daquela que a tinha ao colo; uma pétala caíra sobre o braço pequenino, e a mãe mostrava o gesto de quem ia tirá-la dali mas se detivera um instante a sorrir para os olhos negros e brilhantes do nené.

Jane, enquanto contemplava o quadro, sentiu um desejo desesperado de chorar. Garth, que ela chamara «criança», compreendera melhor do que a própria as suas possibilidades de ternura materna. Vira-a como Esposa, e isso bastara para a ver como Mãe. E de novo Jane teve de dizer: «Sim, é isso mesmo. Não posso negá-lo».

Recordou-se então das palavras que a tinham levado à cruel deliberação: «Não era o género de cara que eu gostaria de ver sempre diante de mim à hora das refeições».

Este rosto, tal como Garth o pintara, depois de um suposto ano de casados, faria aborrecer qualquer homem, obrigá-lo-ia a desviar os olhos?

Jane abandonou-se na contemplação de si mesma e acabou por deixar cair o ursozinho e tapar a face com as mãos, enquanto uma onda de sangue lhe subia até à raiz dos cabelos.

Em baixo, a voz fresca e juvenil recomeçava a cantar:

Alegria, riso são,
Desfaz a dor, tua irmã,
Poisa no meu coração.
Entre a chuva e a cerração,
Há-de romper a manhã!

No silêncio que se seguiu, Jane murmurou: «Oh, meu amor, perdoa-me! Eu não tive razão. Confessarei o meu erro e oxalá Deus me ajude a explicá-lo. Oh, meu amor, perdoar-me-ás?!»

Mais uma vez ergueu a cabeça e olhou para a pintura. No chão do quadro havia algumas pétalas soltas, e isso fez-lhe lembrar as rosas que ela tivera ao peito e que se haviam desfolhado no terraço de Shenstone, símbolo das esperanças e alegrias do amor que a sua dúvida lançara na poeira da desilusão. Porém, coroando essa pintura, a roseira floria em cachos opulentos.

Através da janela aberta, chegaram até ali os últimos versos da canção de Maggie:

Não me atrevo a soltar voo,
Fugir de ti, cruz erguida;
Eu vivo na terra só.
Mas nasce do chão, do pó,
A flor vermelha da vida.

Jane aproximou-se da janela e, de braços erguidos, ficou a olhar para o poente maravilhoso. O céu ardia em carmesim na linha do horizonte; gradualmente, à medida que o olhar se elevava, aqueles tons esbraseantes iam-se diluindo em amarelo-róseo, até que no alto se perdiam num azul profundo, insondável e infinito.

Jane contemplou as seteiras doiradas acima dos montes purpúreos, e disse a meia voz: «A cidade era de oiro puro, e não havia necessidade de Sol, nem de Lua, porque o fulgor de Deus tudo iluminava. E ali não haverá penas, nem lágrimas, nem sofrimento, porque todas as coisas passadas se terão desvanecido».

Ah, quantas se haviam desvanecido em menos duma hora! A vida inteira parecia modificada, diferente a perspectiva do futuro... Jane ergueu os olhos ao céu e um sorriso de esperança inefável lhe entreabriu os lábios. «Vida, que serás eterna!» murmurou ela.

Voltou então para dentro, apanhou o urso de latão, repô-lo no seu lugar, fechou a janela e, agarrando nos dois quadros, saiu do gabinete de pintura e desceu as escadas com toda a cautela.
 

— JÁ estava inquieto com a sua demora, Miss Gray. Até já me tinha lembrado de mandar Simpson lá acima para saber o que acontecera.

— Ainda bem que o não mandou, senhor Dalmain, pois Simpson encontrar-me-ia sentada no chão, a chorar, e isso seria muito mais humilhante do que perguntar se há moscas na sopa.

Garth voltou-se rapidamente na cadeira. O artista percebera no tom de voz da enfermeira a perfeita compreensão da sua obra.

— A chorar! — exclamou. — Porquê?

— Porque me sentia comovida. Estes quadros são lindos, atingem-nos o coração, mas comovem profundamente, porque o senhor transformou em bela uma mulher feia.

Garth pôs-se de pé num salto e virou para a enfermeira um rosto que exprimia a maior indignação se os olhos tivessem vida.

— Uma quê?

— Uma mulher feia — repetiu Miss Gray tranquilamente. — com certeza o senhor sabia que o seu modelo o era, e nisso é que está o prodígio da obra do pintor. Embelezou-a tanto com aquela ternura de esposa e de mãe que quanto mais olhamos para a cara mais esquecemos a sua fealdade. Vemos ali uma criatura que ama e é amada, e a quem o amor empresta beleza. É um triunfo da arte.

Garth sentou-se, com as mãos enclavinhadas uma na outra e replicou:

— É um triunfo da verdade. Pintei o que vi.

— Pintou-lhe a alma — volveu Miss Gray — e a alma iluminou-lhe o rosto feio.

— Vi a alma dela — respondeu Garth, quase num murmúrio — e essa visão foi tão radiosa que ainda ilumina as trevas da minha existência.

Na biblioteca pairou um silêncio de comoção.

O crepúsculo adensava-se.

Então a enfermeira Rosemary falou em voz baixa:

— Senhor Dalmain, tenho um pedido a fazer-lhe. Não destrua estes quadros!

Garth ergueu a cabeça.

— Tenho de os destruir. Não quero correr o risco de eles serem vistos por alguém que reconheça a minha... a senhora retratada.

— Em todo o caso há uma pessoa que os deve ver antes de serem destruídos.

— Quem?

— A senhora retratada — respondeu a enfermeira.

— Como sabe que ela os não viu?

— Viu-os?

— Não, nem jamais os verá — retorquiu Garth.

— É necessário que os veja.

Garth ficou impressionado com tamanha insistência.

— Porquê? — indagou ele.

— Porque seria pura revelação para uma mulher que sabe quanto é feia ver-se assim embelezada.

Durante uns momentos o cego ficou imóvel e calado. Por fim redarguiu, com certo espanto:

— Uma mulher que sabe que é... feia?

— Sim, senhor — prosseguiu a enfermeira, que se julgou animada a defender o seu ponto de vista. — Supõe sequer que o espelho dessa dama a tenha reflectido com o aspecto, mesmo apaixonado, que essas pinturas revelam? Quando estamos defronte dele, senhor Dalmain, a fazer carrancas por causa dos chapéus e laços que não acertam, ou a experimentar a risca do cabelo, em geral parecemos muito pior do que somos. E aquela senhora, em semelhantes circunstâncias, devia sentir-se desanimada. Garth ficou silencioso.

— Pode estar certo disso — continuou Rosemary. — Ela nunca se viu no papel de Esposa ou de Mãe. É casada?

Ele hesitou, mas isso foi menos dum segundo. E respondeu muito calmo.

— É.

Ela levou as mãos ao peito. Queria evitar que se ouvissem as palpitações do coração. Quando tornou a falar, a voz denotava apenas um ligeiro tremor:

— E é mãe?

— Não — retorquiu Garth. — Pintei uma possibilidade...

— De?

— De ter sido — esclareceu o cego.

A enfermeira julgou-se repreendida e volveu humildemente:

— Senhor Dalmain, compreendo que devo parecer intrometida ao fazer todas estas perguntas e ao dar-lhes estes conselhos. Mas censure antes as suas pinturas admiráveis, pois foram elas que me obrigaram a isso, pelo efeito que produziram em mim. São tão belas, tão belas!

O artista sentiu-se mais uma vez lisonjeado.

— Ah, Miss Gray, já as tinha um tanto esquecidas!... Trouxe-as consigo? Óptimo. Ponha-as à sua frente e descreva-mas. Vejamos como foi que a impressionaram.

Jane levantou-se e foi à janela, que abriu de par em par. Ao respirar o ar puro pedia mentalmente que os nervos, a voz, não a traíssem naquela hora crítica. A obra de Garth convencera-a, a ela; Jane devia agora, por sua vez, convencê-lo. Tudo dependia da descrição que fizesse. Ele tinha de acreditar no amor que pusera nas telas.

Então a enfermeira Rosemary sentou-se e, numa voz doce, diferente da sua, verteu nos ouvidos do artista cego a comoção que Jane sentira no gabinete de trabalho.

Fê-lo com a maior perfeição, e fê-lo inexoravelmente. Acordou em Garth o desespero, o ardor, o desejo que ele tinha por Jane. O rapaz teve a desvairada sensação de que ela havia sido sua; que, ao insistir por uma resposta nessa mesma noite, a obtivera positiva; que os frios cálculos dos últimos tempos desapareciam perante aqueles momentos de êxtase. Todavia, perdera-a. E porquê? Haveria outra razão além da que ela lhe tinha dado?

A voz calma da enfermeira prosseguia, sem atender a que ele se torcia de angústia. Chegava agora ao fim:

— Aqui está, senhor Dalmain, uma linda roseira de trepar. Apreciei muito a ideia de pôr, no primeiro quadro, as flores ainda em botão, e já desabrochadas no segundo.

Garth tratou de disfarçar os seus sentimentos e sorriu. Não convinha ceder perante esta rapariga.

— Agrada-me bastante que tivesse reparado nesse pormenor — disse ele. — Pensando bem; não há pressa em destruir as telas, visto que já as achámos. Parece-me que estou a dar-lhe muito trabalho, mas vou pedir-lhe que embrulhe os dois quadros em folhas de papel pardo e escreva em cima: «Não abrir»; depois, diga à Margery que os torne a levar para o meu quarto de trabalho. Assim, em qualquer altura que eu os queira, não terei dificuldade em identificá-los.

— Ainda bem que tomou essa resolução — disse a enfermeira. — Talvez a senhora feia...

— Não tolero que lhe chamem feia — atalhou Garth, com violência. — Não sei o que ela pensa do meu físico suponho até que nunca pensou nisso, nem sei qual a impressão que causaria a si, Miss Gray, mas o que sei dizer é que, a mim, o seu rosto é o único viável na minha escuridão. Todas as formosuras que eu pintei e admirei se desfazem da minha visão mental como farrapos de nevoeiro, tombam da minha memória como folhas no Outono. Só a face dela se mantém, calma, pura e bela. Tenho-a sempre diante de mim, e dói-me que alguém, que só a viu como a minha mão a pintou, a considere feia.

— Perdoe-me — volveu a enfermeira, humildemente. — Não quis magoá-lo, senhor Dalmain. Para lhe provar a impressão que me causaram os seus quadros, poderei contar-lhe a resolução que tomei lá em cima? Não quero perder o que eles representam, as mais doces alegrias da vida, por não ter coragem de confessar o meu erro com toda a lealdade. Vou escrever ao meu rapaz uma confissão completa, desfazendo assim o mal-entendido que nos separou. Acha que ele compreenderá? Acha que me vai perdoar?

Garth sorriu. Tentou imaginar uma carinha bonita e inquieta, emoldurada por cabelos loiros e vaporosos; esta imagem não condizia com a voz, mas era indubitavelmente a da enfermeira Rosemary Gray, tal como os outros a viam.

— Seria um bruto se não perdoasse — respondeu ele.
 

O JANTAR dessa noite, o primeiro servido na mesinha redonda, foi um êxito autêntico. A enfermeira Rosemary pôs em execução as suas ideias, que provaram ser esplêndidas, e Garth sentiu-se radiante com aqueles arranjos que lhe facilitavam a vida. O nervosismo que os dominara de tarde provocara uma reacção de alegria, e algumas perguntas formuladas com diplomacia acarretaram histórias da Duquesa e dos seus bichos favoritos; o nome de Miss Champion veio à baila com uma frequência que ambos apreciaram deveras.

Era uma impressão estranha para Jane ouvir-se descrita tão vivamente por Garth. Até à fatal noite em Shenstone, jamais se preocupava consigo mesma, e nem fazia ideia de que tinha uma maneira especial de fitar as pessoas quando estas lhe falavam. E Garth comentou:

— Era esse modo de olhar que intimidava as mulheres tolas e as tomava nervosas. Compreende-se. Ela penetrava até ao fundo daquelas alminhas pueris e hipócritas que se tinham em grande conta e desdenhavam das outras. Não admira que fugissem dela como o diabo da cruz, e que lhe chamassem a «terrível Miss Champion». Eu, por minha parte, nunca a achei terrível, mas sempre que conversava com ela dava graças a Deus por não ter nada na consciência que me envergonhasse. Aqueles olhos límpidos pareciam descortinar tudo o que havia no nosso espírito.

Jane também ignorava que era particularidade sua estar a falar e a manejar ao mesmo tempo o atiçador, se por acaso o tinha na mão: enquanto reflectia nos argumentos a expor, ia pondo a lenha num montinho, e batia nas achas furiosamente enquanto arrasava os seus contraditores. Tinha outros costumes: o de avivar o lume com a ponta do pé, se bem que as suas botas estivessem sempre impecáveis; o de ponderar num problema difícil, com o queixo apoiado na mão direita até encontrar a solução. Todas estas pequenas características, Garth descreveu-as com tal realidade, que Jane percebeu tê-la o rapaz amado desde que a conhecera.

Esse amor fora-lhe revelado subitamente e considerado logo como coisa a ser aceite ou repelida; assim, quando Jane decidira recusar, parecera-lhe que tal sentimento não tinha grande significação para a vida dela. Ponderara nos prós e nos contras e chegara à conclusão de que devia afastá-lo de si.

Agora, porém, compreendia quão diferente isso fora para Garth. Uma semana antes de se declarar já ele sabia o que representava a sua crescente intimidade; e quanto mais se firmava essa certeza maior lugar ocupava ela na existência dele. A sua imaginação vívida fazia-a aparecer amada desde o princípio; amada e desejada quando eram simples conhecidos, espíritos afins e camaradas.

Ver-se assim guardada no coração e memória de Garth era infinitamente comovedor para Jane, e fazia-lhe crer que não lhe seria difícil conservar-se ali para sempre, depois de afastadas as barreiras que os separavam.

Em seguida ao jantar, Garth demorou-se ao piano, enchendo a sala de sons harmoniosos. Por duas ou três vezes fez ouvir o tema de O Rosário, e Jane esperou com ansiedade que ele continuasse; mas logo substituía aquela música por outra.

Quando Garth se levantou do piano e, guiando-se pelo cordão, alcançou a sua cadeira, a enfermeira Rosemary perguntou-lhe com doçura:

— Senhor Dalmain, poderia dispensar-me uns dias desta semana?

— Oh! Para quê? Para ir aonde? E por quanto tempo? Bem sei que, depois do que tem feito por mim, lhe deveria dizer: «Certamente! com muito gosto!» Mas não posso, realmente. Não calcula o que foi a vida sem a senhora quando passou fora o outro fim de semana. Esses dois dias pareceram-me meses, embora estivesse cá o Brand. A culpa é sua, ter-se tornado assim tão indispensável!

Miss Gray sorriu.

— Suponho que não me demorarei — disse ela. — Isto é, se quiser, posso voltar. Tenciono escrever esta noite a carta de que já lhe falei e pô-la amanhã no correio. É preciso que vá logo atrás dela, para lá estar quando ele a receber. Creio... espero que ele me queira... Hoje é segunda-feira. Posso partir na quinta?

O pobre Garth parecia consternado.

— É norma as enfermeiras abandonarem os doentes para irem verificar se os namorados gostaram das suas cartas? — inquiriu, num protesto irónico.

—-Não, senhor, não é norma nenhuma — respondeu ela, séria. — Mas este é um caso excepcional.

— Vou telegrafar a Brand.

— Ele lhe mandará uma enfermeira mais competente, mais digna de confiança do que eu.

— Oh, criatura maldosa! — exclamou Garth. — Se Miss Champion estivesse aqui havia de a sacudir! Sabe perfeitamente que ninguém pode substituí-la!

— É bondade sua ter de mim essa opinião, senhor Dalmain — retorquiu a enfermeira, brandamente. — Miss Champion tem o costume de sacudir as pessoas?

— Sim, quando as pessoas são enfadonhas, diz que a sua vontade é abaná-las, e a gente faz logo ideia de como os dentes dela haviam de chocalhar. Tínhamos posto o nome de «Senhora Sim e Não» a certa dama do nosso conhecimento. Ela não pertencia ao nosso meio, mas aparecia de vez em quando; às vezes, para a desfrutarem, convidavam-na a tomar chá. Quando lhe perguntavam se gostava de determinada coisa, respondia: «Sim e não» Se queriam saber se ia a tal festa, ouviam-na dizer «Talvez vá, talvez não vá». Se lhe enviavam um bilhete, pedindo resposta concreta a qualquer pergunta, essa era invariavelmente: «Sim e não». Miss Champion dizia que o seu desejo era agarrá-la pela gola do fato e abaná-la, indagando de vez em quando: «Paro ou não?» para obrigar a dita senhora a pronunciar um «sim» definitivo.

— Miss Champion poderia levar a efeito a sua ameaça? É muito corpulenta?

— Podia, se quisesse, mas não o desejaria, pois é a pessoa mais bondosa deste mundo, até para com as fraquezas dos outros. Não, não é corpulenta. Essa palavra não define a sua figura. É alta, muito bem desenvolvida. Conhece a Vénus de Milo? Ah, já a viu no Louvre? Não sabia que tinha estado em Paris . Imagine então a Vénus de Milo de fato saia-e-casaco, e terá Miss Champion.

Miss Gray riu de forma quase histérica. Ou a Vénus de Milo, ou Miss Champion, ou a aproximação das duas provocara-lhe hilaridade irresistível.

— O pequeno Dicky, filho do Brand, resumiu bem a «Senhora Sim e Não» — continuou Garth. — Ela tinha ido visitar Lady Brand no dia em que esta costuma receber. O miúdo veio conversar comigo e, a certa altura, aponta para a «Senhora Sim e Não», que se encontrava no outro extremo da sala, e diz-me o seguinte: «Aquela senhora nunca tem a certeza de nada; pensa sempre. Perguntei-lhe se a menina dela podia vir à minha festa de anos, e respondeu-me: Penso que sim. Eu cá, se me perguntasse se ia à festa da filha, dizia assim: Muito obrigado; vou, sim, senhora. É uma maçada as pessoas só pensarem em coisas importantes, como festas de anos, porque a gente não se importa com o que elas pensam. Ainda se fossem outras coisas... como o tempo! Isso lá já não faz tanto mal, porque tudo acontece à mesma. A mamã perguntou àquela senhora se estava a chover, quando ela entrou; e a senhora disse: Penso que não. Eu cá não sei por que é que a mamã quer sempre saber o que as suas amigas pensam do tempo. Esta tarde ouvi-a perguntar a sete senhoras se estava a chover. Eu e o papá, se quiséssemos saber se chovia, íamos ver à janela, e depois vínhamos para dentro conversar doutra coisa mais engraçada. Mas a mamã pergunta a todas as visitas se está a chover, ou se acham que vai haver chuva... Eu cá só gosto de saber coisas sérias. Perguntei à tal senhora se conhecia os pais da mulher de Caim, e ela disse: Conheço e não conheço. Eu então disse-lhe: Se conhece, diga-me o nome; se não conhece, talvez queira ir comigo ao pé do senhor Bispo e a gente pergunta. Ele está ali a falar com a mamã... Mas a senhora pensou que tinha de se ir embora, muito à pressa, e eu então fui sozinho perguntar ao senhor Bispo. Os bispos são muito bons para nos explicarem coisas, porque têm a certeza de tudo e nunca dizem «sim e não...» A enfermeira Rosemary riu-se.

— Como o senhor imita tão bem o pequeno Dicky! A voz, os gestos... Quase me parecia vê-lo!

— Conhece o garoto? — indagou Garth.

— Conheço — volveu Miss Gray. — Conheço os dois pequenos. Acho imensa graça às conversas do Dicky. E a Blossom é uma traquinas adorável... Aí vem o Simpson. Como as horas passaram depressa! Então, posso ir na quinta-feira?

— Que remédio tenho eu senão dizer que sim — retorquiu Garth. — E se não voltar?

— Nesse caso, telegrafe ao Dr. Brand.

— O que me parece é que está com desejos de me deixar — tomou Garth com ar ressentido.

— Estou e não estou — respondeu a enfermeira, rindo.

E fugiu das mãos que se estendiam para ela.

Quando, nessa tarde, Jane fechara o saco de correspondência e o entregara a Simpson, havia já metido nele duas cartas da sua autoria. Uma era dirigida a:

Georgina, Duquesa de Meldrum — Portland Place.

A outra a:

Sir Deryck Brand — Wimpole Street.

Ambos os sobrescritos tinham a seguinte nota: «Urgente. Em caso de ausência, fazer seguir sem demora ao destinatário».
 

A TERÇA-FEIRA decorreu sem nenhum acontecimento digno de reparo. Não havia nada que indicasse a Garth ter a secretária passado quase toda a noite a escrever, descansando somente, de vez em quando, para contemplar os quadros que haviam encontrado abrigo seguro e temporário no armário do quarto dela... em lugar de seguirem para a oficina de pintura.

Se a enfermeira notou na cara de Garth o ar fatigado de quem não dormiu por efeito de qualquer pesar, a verdade é que não fez comentários nenhuns a esse respeito

De manhã, vieram dois telegramas para Miss Gray O primeiro chegou na ocasião em que ela estava a ler em voz alta o artigo de fundo do Times, para Garth ouvir. Foi Simpson quem o trouxe, anunciando:

— Um telegrama para si, minha senhora.

Mais tarde, seria sempre motivo de regozijo para Simpson saber que, quase desde o princípio (e levado pela sua intuição, como ele dizia), nunca tratara Jane por «senhora enfermeira». Houve até um dia em que se gabou de ter percebido logo de começo que ela era Honourable. Ao ouvi-lo, porém, vangloriar-se de tal coisa, Margery Graem desmentiu-o formalmente, com os seguintes argumentos: ela própria também tivera certas desconfianças a respeito da identidade da enfermeira, mas calara-se; o senhor Simpson, porém, proclamara alto e bom som todas as suas suspeitas, e nem uma só vez falara em Honourable; portanto, nunca tal ideia lhe passara pela cabeça, e ele estava a mentir descaradamente. Nessa altura, a criada Maggie defendeu o colega: sempre se convencera de que o senhor Simpson sabia mais do que dizia. «Dizia mais do que sabia é o que você quer dizer», retorquiu a velha Margery. «Não, senhora», volveu a criada, «eu sei o que digo e digo o que penso». «Você pode dizer o que pensa, mas não o que sabe», insistiu Margery; «e se alguém diz mais outra palavra sobre o assunto, eu levanto-me da mesa e damos por findo o jantar», continuou ela, exercendo a sua autoridade; tanto Simpson como Maggie, que eram doidos por queijo, perceberam bem o que significava aquela ameaça.

Isto, porém, foi muito tempo depois daquela terça-feira em que Simpson apareceu com uma bandeja de prata e, encontrando Jane envolta no Times, declarou:

— Um telegrama para si, minha senhora.

A enfermeira pegou nele; pediu desculpa da interrupção e abriu-o. Era da Duquesa, e rezava assim:

Muito inconveniente, como deves compreender, mas parto de Euston esta noite. Aguardo novas instruções em Aberdeen.

Miss Gray sorriu e guardou o telegrama no bolso. — Está entregue, obrigada, Simpson.

― Espero que não sejam más notícias — disse Garth.

— Não são, mas fazem com que seja absolutamente necessária a minha ida na quinta-feira. Este telegrama é duma velha tia minha que se dirige para a casa do «meu namorado». Tenho de lá estar antes dela, senão haverá grandes complicações.

— Não acredito que ele a deixe voltar, depois de a apanhar a seu lado — observou Garth, tristemente.

— Acha que não? — retorquiu Miss Gray com um sorriso terno, segurando no jornal para recomeçar a leitura.

O segundo telegrama chegou depois do almoço. Garth estava ao piano a tocar a Marcha fúnebre pela morte dum herói, de Beethoven. Os acordes vigorosos reboavam por toda a sala quando a cara de Simpson e as suas suíças assomaram à porta. Miss Gray pôs os dedos nos lábios, a impor-lhe silêncio, avançou sem rumor no seu passo firme e pegou no telegrama. Retomou o seu lugar, esperou que se acabassem as exéquias do herói, e só então abriu o sobrescrito amarelo. E, quando o abria, uma coisa estranha aconteceu: Garth começou a tocar O Rosário, e o fio de contas foi tombando dos seus dedos com um som líquido, enquanto a enfermeira Rosemary lia o telegrama. Era de Sir Deryck, e dizia o seguinte:

Licença especial facilmente obtida. Flower e eu iremos quando quiseres. Telegrafa novamente.

O Rosário chegou ao seu final impregnado de melancolia.

— Que hei-de tocar agora? — perguntou Garth.

— O Veni, Creator Spiritus — sugeriu Miss Gray; e curvou a cabeça numa oração.
 

CHEGOU a quarta-feira: um primeiro de Maio ideal.

Garth andava no jardim logo de manhã e, quando passava debaixo da janela de Jane, esta ouviu-o cantar:

Não preciso dizer a graça que ela tem,
Nem a pura bondade que ao seu rosto vem

Jane debruçou-se para o ver.

Garth, de calças claras, caminhava num passo tão elástico, tão leve, que se não fosse a bengala de Malaca (com que de vez em quando tocava na borda arrelvada dos canteiros) ninguém diria que ele era cego. Jane só lhe via o alto da cabeça escura, tal como três anos antes quando o rapaz estava no terraço de Shenstone. Que desejo sentia de lhe gritar da janela: «Querido! Querido! Deus te abençoe neste dia!»

Ah, que lhe ia trazer esse dia, o dia em que a sua confissão completa, e mais explicações, deviam chegar aos ouvidos de Garth?! Ele era de espírito tão juvenil, tão sensível, artístico, poético e alegre, apesar da sua desgraça! Mas quando estava em jogo a sua dignidade de homem, o seu amor, o direito de escolha e decisão, sem se deixar influir pela opinião dos outros, era rígido e inflexível.

Quando Jane estava à janela, nessa manhã, não fazia a mínima ideia se de tarde iria a caminho de Aberdeen, para tomar o comboio, ou se ficaria para sempre junto de Garth.

Este passava de novo em baixo, cantando ainda:

... Mas segui-la de longe, sempre no seu rasto,
Cumprir as suas ordens, com prazer ou dor,
Queimar no seu altar o incenso deste amor
E adorá-la à distância, reverente e casto.

— Ah, meu bem-amado! — murmurou Jane. — Não estás «à distância», não. Se a desejas, chama por ela; haverá a maior «proximidade» que o amor seria capaz de idear. Nenhum obstáculo entre ti e mim.

Então, daquele estranho modo com que as palavras às vezes ocorrem ao espírito, com um sentido muito diferente do que tinha a princípio, estas chegaram ao de Jane: «Porque Ele é a nossa paz e fez dois num só e derruiu o muro que nos separava... Porque Ele pode reconciliar... pela cruz».

— Ah! Cristo! — murmurou ela. — O que a vossa cruz fez para os judeus e gentios não fará a pesada cruz do meu amado, tão heroicamente suportada, para ele e para mim? Assim acabaremos, na verdade, por beijar a cruz.

Em toda a casa ecoou o som do tan-tan, dando sinal para o almoço. Simpson gostava de tan-tans. Considerava-os «aristocráticos», e fazia-os ressoar de modo imponente.

Miss Gray desceu para o almoço.

Garth entrou pela porta do terraço, cantarolando. Parecia o mais bem disposto possível; na lapela do casaco trazia um botão de rosa e na mão uma rosa amarela.

— Bom dia, Miss Gray — disse ele, jovialmente. — Que linda manhã de Maio! Simpson e eu levantámo-nos cedíssimo, não é verdade, Simpson? Pobre Simpson, devia ter acordado em sobressalto, quando a minha campainha eléctrica lhe retiniu no quarto às cinco da manhã! Mas eu não podia estar na cama. Despertei com a sensação de que vai acontecer qualquer coisa. Quando era pequeno e acordava com esta impressão, a Margery costumava dizer: «Então o menino que se levante depressa, que é para essa coisa acontecer mais cedo».

Simpson conduzira-o até ao seu lugar à mesa, e depois retirou-se. Logo que ele fechou a porta, Garth inclinou-se para a frente e, sem hesitar nem errar, colocou a rosa desabrochada no prato da enfermeira.

— Rosa para a Rosemary — disse ele. — Ponha-a ao peito, se acha que o seu namorado não se importa. Estive a pensar nele e na tia. Por que não lhes pede que venham cá, em vez de ir na quinta-feira? Seria uma festa! Eu encarregava-me de entreter a tia, enquanto Miss Gray estivesse junto do seu namorado. Afirmo-lhe que não deixaria a tia aproximar-se de recantos abrigados, pois os meus ouvidos devem ser mais apurados do que a vista dela e bastava que a minha cara enfermeira tossisse ao de leve para eu fazer que a boa velhota me guiasse para o lado oposto. E eu levá-la-ia a passear de automóvel para vocês ficarem discutindo à vontade o assunto que lhes interessa. Depois de tudo resolvido a contento de todos, pô-los-iamos daqui para fora e ficaríamos outra vez os dois sozinhos. Ah, Miss Gray, mande-os vir cá, em lugar de me abandonar na quinta-feira!

Senhor Dalmain — retorquiu a enfermeira em tom de censura, empurrando até à mão dele a xícara e o pires, parece-me que esta manhã de Maio lhe subiu à cabeça. Eu vou chamar a Margery, pois ela deve conhecer bem esses sintomas.

— Não é nada disso — respondeu Garth, inclinando-se sobre a mesa e falando como se dissesse um segredo. — É que vai acontecer hoje qualquer coisa, percebeu, Miss Gray? Este meu pressentimento dá sempre certo. A primeira vez que o tive, há vinte e cinco anos, encontrei um cavalo de baloiço no vestíbulo, mal saí do quarto! Jamais esquecerei a minha primeira cavalgada desse dia; quando o cavalo se inclinava para trás era uma alegria tremenda, quando se abaixava para diante era como um mergulho terrível; e o orgulho que me dominava quando conseguia mantê-lo sem se baloiçar! Pouco faltou para dar cabo dum primo que lhe arrancou a cauda. Açoitei-o de cima a baixo com o próprio objecto do delito, o que foi mal pensado, pois se castiguei o primo também inutilizei a cauda do meu cavalo. A segunda vez... Ah, estou a maçá-la com as minhas histórias!...

— Absolutamente nada — respondeu a enfermeira cortesmente. — Contudo, gostaria que comesse... Daqui a pouco chega o correio.

Garth parecia tão satisfeito, tão encantado da vida, com a sua gravata castanha e rosa amarela na botoeira! Jane sentiu que empalidecera e que a voz lhe tremera um pouco ao anunciar a próxima chegada do correio.

— Quem pensa em cartas no primeiro de Maio? — exclamou Garth. — O que devemos é ir apanhar braçados de flores e fazer lindas grinaldas...

— Senhor Dalmain — replicou a enfermeira, rindo, apesar de toda a sua preocupação — se não toma juízo, tenho de ir consultar a Margery. Nunca o vi assim!

— É porque nunca me viu num dia em que vai acontecer qualquer coisa — retorquiu Garth.

E Miss Gray não tentou mais reprimi-lo.

Depois do primeiro almoço, Garth sentou-se ao piano, tocou two-steps e outras músicas de dança com tanto entusiasmo que Simpson se bamboleou todo enquanto levantou a mesa; e a própria enfermeira, embora aflita e pálida, com um monte de cartas à sua frente, teve certa dificuldade em manter os pés sossegados.

Simpson encaminhou-se para a porta em passo de dança, com a toalha na mão, e saiu da sala. Miss Gray fizera já duas ou três observações a respeito das cartas, mas não obtivera resposta. Garth continuava a tocar alegremente quando a velha Margery apareceu, com o seu avental de cetim preto e de touca azul. Foi direita ao piano e poisou a mão no braço de Garth.

— Menino Garthie — disse ela — não quer levar a velha Margery até aos pinhais, nesta linda manhã de Maio?

As mãos de Garth deixaram o teclado.

— Pois claro que quero. Sabes, Margie? Vai acontecer qualquer coisa. Sinto que vai.

— Já sei, meu filho — retorquiu a velha, ternamente; e a expressão com que ela contemplava a face do cego provocou lágrimas nos olhos de Jane. — Também acordei com essa sensação. E agora vamos ao bosque escutar a voz da terra, das árvores e das flores, e elas nos dirão se essa coisa será boa ou má. Vamos, meu filho.

Garth ergueu-se, como um sonho. Mesmo cego parecia tão belo e tão moço que Jane sentiu o coração parar-Ihe no peito enquanto o observava.

Ao chegar à porta, Garth deteve-se.

— Onde está a minha secretária? — disse ele. — Por diversas vezes me mandou calar...

— Bem sei — respondeu a velha Margery, lançando um olhar de desculpa a Jane. — É por que ela não tem a sensação de «que vai acontecer hoje alguma coisa».

«Ah! Não tenho?» pensou Jane, quando eles saíram, tal coisa que vai acontecer não acontece já porque o Garth parece não estar bom da cabeça e foi passear com a ama. Se não...»

Depois de ir ao terraço e de se certificar que uma figura alta vestida de claro e outra baixinha de escuro já iam quase no alto da colina, Jane sentou-se ao piano e cantou em voz baixa O Rosário.

Em seguida, foi dar uma volta pela coutada a fim de acalmar os nervos e encher os pulmões com aquele ar maravilhoso. Por uma ou duas vezes tirou do bolso o telegrama e releu-o. «Licença facilmente obtida», dizia Brand. Ah, assim fosse tão fácil obter o perdão de Garth. Isso é que devia ser obtido primeiro que tudo. Se tivesse de tratar apenas com esse rapaz adorável, de calças claras e rosa amarela, embriagado pelo esplendor do dia de Maio, conseguiria tudo o que desejava. Mas esta era uma fase passageira de Garth. Com quem ela teria de haver-se era com aquele homem pálido que dissera muito tranquilo: «Aceito a cruz» e que partira da igreja da aldeia, deixando-a só durante todos aqueles anos. Amara-a como ela o amara e, todavia, deixara-a esse tempo todo sem uma palavra, sem um sinal. Era para este a sua confissão, e ele decidiria. Entretanto, não a surpreendeu, ao chegar à mesa do almoço, um pouco atrasada, vê-lo já ali sentado.

— Miss Gray — disse ele com voz grave ao ouvi-la chegar — desculpe o meu procedimento desta manhã. Eu estava, como costumam dizer, com veneta. Margery é que entende bem esta minha disposição. Escutámos a nossa boa mãe terra e ela contou-nos os seus segredos. Depois, deitei-me debaixo dos pinheiros, adormeci, e acordei calmo e disposto a tudo o que possa suceder hoje. Porque estou certo de que este dia não acabará sem acontecer algo de importante. Margery também tem esta impressão.

— Quem sabe? — murmurou Rosemary, à guisa de experiência. — Pode ser que as cartas tragam alguma novidade...

— Ah! — exclamou Garth. — Já me tinha esquecido.

Nem sequer as abrimos esta manhã. Faremos isso logo a seguir ao almoço. São muitas?

— Um monte de cartas!

— Está bem. Havemos de dar conta delas.

Meia hora depois estava Garth sentado na sua poltrona, calmo e expectante, de rosto voltado para a sua enfermeira e secretária. Manuseara as cartas e sentira uma lacrada; o sinete era um elmo emplumado, de viseira descida. Rosemary viu-o empalidecer quando os dedos dele tocaram no sobrescrito. Garth não fez qualquer observação; mas, como da outra vez, meteu aquela debaixo das demais a fim de ser lida por último.

Quando concluiu a leitura de todas as outras, a enfermeira pegou nessa derradeira carta. A sala estava silenciosa. Não havia mais ninguém ali, além deles dois. No jardim zumbiam abelhas. O perfume das flores infiltrava-se pela janela. Mas nada perturbava aquela solidão.

Rosemary rasgou o sobrescrito.

— Senhor Dalmain, cá está uma carta lacrada de encarnado. O sinete é um elmo com a viseira...

— Bem sei — acudiu Garth. — Não é necessário descrevê-la. Faça favor de a abrir.

A enfermeira obedeceu.

— É muito extensa, senhor Dalmain.

— É? Queira ler, Miss Gray.

Seguiu-se um momento de silêncio. A enfermeira começou a abrir a carta, mas a voz recusou-se a fazer o que a sua vontade determinava. Garth esperava sem abrir a boca.

— A verdade é que esta carta me parece confidencial — disse ela, por fim. — Acho difícil fazer a leitura...

Garth notou a angústia da voz e observou-lhe:

— Não se importe, minha filha. Não lhe diz respeito, mas a mim. No entanto, só posso conhecê-la através dos seus olhos e dos seus lábios. Além disso, a senhora cujo sinete é um elmo emplumado não tem nenhum segredo a dizer-me...

— Isso é que tem — volveu ela com voz trémula. Garth reflectiu em silêncio no que acabava de ouvir.

― Volte a página — recomendou por fim — e leia a assinatura.

— Há muitas páginas.

―  Volte-as todas — ordenou, já impaciente. — Está a fazer-me esperar. Qual é então a assinatura?

— É assim: Tua mulher — balbuciou a secretária.

No silêncio que se estabeleceu dir-se-ia que Dalmain ficara petrificado. Essas duas palavras, murmuradas nas trevas, teriam bastado para o tomar de pedra.

Finalmente estendeu a mão.

— Dê-me a carta, Miss Gray. Obrigado. Gostaria de ficar uns quinze minutos só. Peço-lhe o favor de ir para a casa de jantar e não deixar ninguém entrar aqui. Não quero ser perturbado. Ao fim desse tempo já pode voltar.

Falava com tanta calma que o coração de Jane se oprimiu. Qualquer sinal de agitação a teria tranquilizado. Este era o homem que, depois de contemplar o Crucificado no vitral, curvara a cabeça e dissera: «Aceito a cruz». Este era o homem que a deixara na igreja e atravessara a nave com passos firmes. Este era o homem que, desde então, tivera a energia de considerar terminado aquele episódio entre eles, de quem não viera uma única palavra de súplica nem uma censura, e que se mantivera sempre afastado. Este era o homem para quem ela assinara: Tua mulher. Em toda a sua vida, Jane nunca soubera o que era medo. Soube-o nesse instante. Quando se ergueu em silêncio para sair, olhou de relance Garth. Estava perfeitamente calmo, com a carta na mão. Ao recebê-la, nem sequer voltara a cabeça para Jane. O seu belo perfil dir-se-ia esculpido em marfim. Nem um laivo de cor lhe tingia as faces; somente aquela palidez marfilínea, que mais destacava o ébano das sobrancelhas direitas e do cabelo lustroso. Jane saiu sem rumor, fechando a porta atrás de si. Seguiram-se então os quinze minutos mais longos que ela jamais conhecera. Sabia que se travava um tremendo conflito naquele aposento silencioso. Garth estava a tomar a sua decisão sem conhecer os argumentos dela. Pela estranha fatalidade da sua existência, ouvira apenas duas palavras da carta, e essas eram as palavras cruciais, as duas palavras para as quais toda a carta fora laboriosamente produzida; deviam ter-lhe logo revelado o carácter da missiva, e o estado de espírito daquela que as escrevia.

Jane andava cá e lá na sala de jantar, cheia de desespero, lembrando-se das horas que passara a reflectir nas frases que devia escolher a fim de o preparar para a revelação da assinatura.

De súbito, no meio da sua perturbação, recordou-se de uma conversa entre a enfermeira Rosemary e Garth a respeito dos quadros. Aquela perguntara: «Ela é casada?» E Garth respondera: «É». Jane compreendera logo o que essa resposta significava. Garth sentira-a tão sua durante aqueles instantes maravilhosos no terraço em Shenstone, que erguera a cabeça para a fitar e dissera «minha mulher» como se fosse um facto estabelecido e não uma interrogação; e assim continuara a considerá-la, tal se um padre os houvesse casado. Para ele, a união das almas estava acima de tudo; o resto, quanto se seguisse, era uma confirmação desse enlace. Por causa do receio e desconfianças dela, as suas vidas tinham sido separadas; cada qual tomara rumo diferente. Durante todos esses anos, Garth convencera-se de que a comparticipação de Jane nesse casamento espiritual só existira na imaginação dele; de modo nenhum ela se sentira ligada a Garth; este, porém, considerara Jane sua mulher, e assim a consideraria nesta e na outra vida. Fora a intuitiva compreensão de tudo isto que a animara a assinar a carta daquela forma. Mas como poderia Garth conciliar tal assinatura com a atitude de Jane três anos antes, sem fazer a mínima ideia do estado de espírito dela?

Lembrou-se, no entanto, como consolação, do apelo irresistível feito pela Verdade na alma do artista: verdade de desenho, verdade de cor, verdade de valores, verdade de interpretação. Quando a enfermeira Rosemary lhe dissera a propósito do quadro A Esposa: «É um triunfo da arte», Garth replicara: «É um triunfo da verdade». E a própria Jane, vendo a sua imagem pintada, comentara: «É isso mesmo...» Não compreenderia ele que aquela assinatura também exprimia a verdade? Não se sentiria mais confiante na sua solidão se a «esposa» viesse para seu lado? A não ser que as confissões o obrigassem a afastá-la definitivamente, por a considerar indigna...

De repente, Jane percebeu a vantagem enorme que lhe daria o facto de Garth ouvir o contexto da carta, conhecedor como estava já da conclusão. Viu o dedo de Deus neste arranjo e disse consigo, notando como os minutos decorriam lentamente: «Ele destruiu o muro que nos separava...» Sobre ela desceu uma sensação de calma, que lhe envolveu a alma em pura paz.

O quarto de hora tinha passado.

Jane atravessou o vestíbulo com passos firmes, mas silenciosos. No limiar da biblioteca deteve-se um instante, procurando dominar a sua própria personalidade. Depois abriu a porta, e quem entrou ali foi a enfermeira Rosemary Gray.

Garth estava diante da porta aberta para o terraço e não se voltou logo à chegada da enfermeira.

Jane procurou a carta com os olhos e viu-a sobre a mesa, no lado onde ela costumava sentar-se. Notou que fora amachucada; dir-se-ia que o rapaz fizera a carta numa bola, a atirara para o cesto dos papéis e a retirara depois, alisando-a com todo o cuidado.

Quando Garth, por fim, veio sentar-se na cadeira, trazia no semblante sinais de violenta luta interior. Dava a impressão de quem, não podendo enxergar nada, tivesse feito esforços desesperados para ver. Desaparecera-lhe a palidez marfilínea; estava com as faces afogueadas, e o cabelo negro e ondulado que ele penteava sempre cuidadosamente para trás, caía-lhe agora em desordem sobre a testa. Mas o seu tom de voz foi perfeitamente calmo quando se dirigiu à secretária:

— Minha boa Miss Gray, temos à nossa frente uma tarefa espinhosa. Recebi uma carta cujo conteúdo preciso saber. Vejo-me obrigado a pedir-lhe que a leia, pois não tenho outra pessoa a quem possa fazer tal pedido. Compreendo que lhe custe servir de intermediária a dois corações feridos e separados. Mas talvez eu lhe torne mais fácil a tarefa assegurando-lhe que não há ninguém de cujos lábios possa ouvir com menos constrangimento o texto dessa missiva; exceptuando os meus próprios olhos, seriam os seus que eu escolheria para a ler. Confio na sua benevolência, tanto para mim como para a autora da carta, e tenho a certeza de que esquecerá tudo o que não devia chegar ao conhecimento duma terceira pessoa.

— Obrigada, senhor Dalmain — respondeu Miss Gray. Garth recostou-se na cadeira, escondendo a face com a mão.

— Queira começar — disse ele.

Nítida e pausadamente, Rosemary principiou a ler:

Querido Garth:
Como não consente que eu vá ter consigo e por isso não lhe posso narrar de viva voz o que tenho a dizer-lhe, vejo-me forçada a escrever-lhe. A culpa é sua, Dal, e ambos sofremos com isso. Como me sentirei à vontade para lhe escrever livremente, sabendo que uma terceira pessoa terá de ler cada palavra da minha carta, ficando assim ao facto do que só nós dois devíamos conhecer? E, no entanto, é necessário que eu escreva livremente para que me compreenda bem, visto o futuro de nós ambos depender da sua resposta a esta carta. É preciso que eu escreva como se fosse para você a ler. Por isso, se não confia em absoluto na sua secretária, no que respeita, ao caso particular dos nossos sentimentos, peça-lhe que lhe restitua a carta sem virar a primeira página e deixe-me ir em pessoa dizer-lhe o resto.

— Isto é o fim da página — declarou a enfermeira Rosemary; e esperou.

Garth nem moveu a mão.

— Tenho a máxima confiança em si — disse ele — e não quero que ela venha.

A enfermeira voltou a página e continuou:

Devo fazer-lhe notar, Garth, que tudo o que aqui vai é a pura verdade. Se ainda se recorda bem de mim, concordará que sou sincera por natureza e que detesto subterfúgios. Apesar disso, Garth, preguei-lhe uma mentira, a única que veio alterar a perfeita lealdade que existia entre nós e que peço a Deus exista daqui em diante. A confissão que se segue provém dessa mentira, e não preciso de lhe perguntar se compreende quanto é humilhante para o meu orgulho confessar-me a um homem que recusou receber-me como simples amiga. Deve lembrar-se que não sou de feitio humilde; pelo contrário, sou imensamente orgulhosa, e, pela extensão do esforço que tenho de fazer, avaliará a extensão do meu amor. Deus te ajude a compreender-me, meu querido, meu bem-amado solitário!

A enfermeira calou-se subitamente, pois, àquelas inesperadas palavras de amor escritas por Jane, Garth levantara-se e dera dois passos em direcção à porta, como se procurasse fugir a qualquer coisa superior às suas forças. Conseguiu, porém, dominar-se e, retomando o seu lugar, ocultou o rosto com a mão. Miss Gray continuou:

Ah, que mal eu fiz, tanto a ti como a mim! Lembras-te daquela noite no terraço em Shenstone, quando me pediste... quando me chamaste o que eu era: tua mulher? Garth, deixo esta última frase tal como está, com as suas duas tentativas de exprimir bem a verdade. Não riscarei nenhuma delas, para que saibas, Garth, que, por fim, compreendi. Eu era tua mulher. Nessa altura, porém, fiquei somente surpreendida, e atordoada pela sensação estranha que dominava todo o meu ser. Era tão inexperiente em matéria de amor! Apesar disso, senti nesse instante que o meu coração te pertencia. E quando me enlaçaste e a tua cabeça descansou no meu peito, só então conheci o significado do verdadeiro êxtase; nada de mais precioso eu pediria ao Céu do que prolongar em horas esses breves momentos.

A voz da enfermeira pareceu embargar-se.

Garth, dobrado para a frente, com o rosto oculto nas mãos, sufocou um soluço na ocasião em que Miss Gray se calou. Foi ele o primeiro a dominar-se. Sem erguer a cabeça, estendeu a mão por cima da mesa, num gesto de solicitude e piedade.

— Pobre rapariga! — disse ele. — Desculpe. Calculo bem quanto isso lhe custa. Se ao menos a carta tivesse vindo quando Brand estava cá! Lamento ter de pedir que continue. Mas procure ler sem dar conta do sentido: isso será comigo.

Rosemary prosseguiu:

Quando levantaste a cabeça, ao luar, e me olhaste tão demorada e ardentemente, o teu olhar fez-me de súbito cair em mim. Tive imediata consciência da minha fealdade e do pouco que em mim havia que justificasse a contemplação extática em que os teus queridos olhos me envolveram. Dominada pelo receio de te desiludir, apertei a tua cabeça contra o meu peito, de forma a que não pudesses continuar a ver-me; só agora percebi que havias dado outra interpretação ao meu gesto. Juro-te, Garth, que só quando ergueste a cabeça outra vez e disseste minha mulher é que eu compreendi que essa coisa extraordinária significava casamento. Bem sei que isto parece incrível e é mais próprio duma pequena de dezoito anos do que duma mulher de trinta. Lembra-te, porém, que todo o meu convívio com os homens, até àquela data, se limitara a apertos de mão e a uma camaradagem cordial, com duas ou três pancadas nas costas, dadas e recebidas. Não te esqueças também, senhor do meu coração, que uma semana antes tu fazias parte do grupo de rapazes que me chamavam «a velha Jane» e me dirigias a palavra tratando-me por «minha boa amiga». Sempre te considerei muito mais novo do que eu, e embora desde o concerto de Overdene se atasse entrs nós um laço de curiosa intimidade, a verdade é que nunca admiti a hipótese de isso ser amor. Hás-de lembrar-te igualmente que te pedi doze horas para reflectir na resposta, ao que acedeste sem demora. Foste sempre correcto, Garth! Deixaste-me quando te disse que desejava estar só, e fizeste-o duma forma que eu jamais esquecerei. Foi a revelação do modo como o amor dum homem do teu feitio exalta a mulher sobre quem espalha o fogo da sua paixão. A orla do meu vestido tem sido, desde então, coisa sagrada para mim; e esse tenho sempre comigo, se bem que não o use. Espero fazer-te um dia completo relato das horas que se seguiram; fá-lo-ei de viva voz e não por escrito. Agora deixa-me confiar ao papel, em toda a sua crueza, o triste facto que nos separou. Foi este, Garth. Não acreditei que o teu amor pudesse suportar a prova da minha fealdade. Sabia-te admirador da beleza, e sabia que a desejavas ter à tua volta, fosse de que forma fosse. No meu diário anotei literalmente a nossa conversa acerca do pregador feio cujo rosto se iluminava de beleza pela força da inspiração. Disseste nessa altura que nunca o tornaste a achar feio, embora ele o fosse, mas que, para todos os dias e principalmente às refeições, não gostarias de ter a teu lado uma cara assim: não foras talhado para suportar esse género de martírio.
Fiquei tão interessada pelo assunto, achei tanta graça à maneira inconsciente como explicaste tudo isto à mulher mais feia das tuas relações, que não deixei de o escrever no meu diário. Ai de mim! Naquela noite memorável li e reli as palavras até que cedi morbidamente à sua influência. Então (tal é a consciência despertada na mulher pelo facto de ser amada e procurada) acendi todas as luzes em volta do espelho e examinei com olhos críticos e atentos a cara que tu terias de ver todos os dias por trás da cafeteira, ao almoço, durante anos e anos... Isto no caso de eu responder «sim» no dia seguinte. Meu amor, não me vi através dos teus olhos, mas, graças a Deus, com os que me tinha contemplado até então; e não confiei na força do teu amor para resistir à experiência. Pareceu-me que pouparia a ambos futuras desilusões e aborrecimentos sacrificando a alegria presente. Meu amado, hás-de julgar-me fria e calculista, pois que assim pareço, e indigna do grande amor que me prodigalizaste. Mas lembra-te de que, durante anos, o teu encanto pessoal constituiu para mim fonte de prazer; que te imaginei casado com Pauline Lister, por exemplo, essa rapariga de esplendorosa brancura e radiante mocidade. E a minha consciência mórbida dizia-me: «O quê? Esse Apolo amarrado à minha pesada fealdade? Ele de dia para dia mais belo e eu cada vez mais velha e feia!» Ah, meu amor, tudo isto me soa disparatado, agora que sei o que somos um para o outro. Naquela noite, porém, achei que era mais justo e mais sensato resolver assim; e então, de coração dilacerado e torturado pela ideia de perder toda a felicidade entrevista, decidi responder-te «não». Acredita-me, não calculava ainda a dor que ias sentir. Pensei que te interessarias imediatamente por outra mulher e transferirias o teu amor para aquela que fosse mais apta a satisfazer o teu ideal. Julguei que, de nós dois, só eu ficaria desgostosa. E surgiu então o problema: como recusar-te? Sabia que, se alegasse o verdadeiro motivo, me provarias com argumentos convincentes que me enganava. E então, porque não queria prejudicar-te o futuro nem arriscar o meu, resolvi mentir-te. A ti, que todo o meu ser proclamava rei do meu coração, senhor da minha vontade, a ti eu disse: «Não posso casar com uma criança». Ah, meu amor, não me defendo nem me desculpo, confesso-me apenas; mas não é verdade que, generoso como és, nenhuma outra resposta te afastaria de mim? Ah, como a tua pobre Jane ficou desolada! Se a visses na igreja, a chamar por ti, desdizendo-se e fazendo promessas, ansiosa por ouvir o rumor dos teus passos! Mas o meu Garth não era homem para ficar no limiar da porta, à espera que uma mulher se decidisse a chamá-lo. O ano que se seguiu arrasou-me de tal forma os nervos que Deryck Brand, vendo-me tão abatida, me mandou viajar. Fui, como sabes; a mudança de ambiente fez-me encarar a vida de outra maneira, mais optimista, e, no Egipto, em Março passado, cheguei à conclusão de que não podia viver mais tempo sem ti. Nessa altura não reconhecia o meu erro, mas desejava de tal modo ter o teu amor e envolver-te no meu que achei que valia a pena arriscar-me a perder mais tarde essa felicidade. Decidi embarcar no primeiro vapor e chamar por ti logo que chegasse. Então, oh, meu amor, soube do que te acontecera! Escrevi-te, e não me deixaste ir.
Sei o que deves dizer: «Ela não confiava em mim quando eu tinha a minha vista; agora, que estou cego, já não sente receio». Garth, podes falar assim, mas não é verdade. Tive ultimamente provas de que me enganava e que podia depositar em ti a maior confiança. Mais tarde te contarei que provas são. Tudo o que posso dizer agora é que, se os teus belos olhos resplandecentes pudessem ver, veriam ainda uma mulher que te pertence inteiramente. Se ela mantém algumas dúvidas quanto ao seu rosto e figura, diz apenas: «Agradaram-lhe, e são dele. Já não tenho o direito de os criticar, visto que lhe pertencem e não a mim». Querido, não quero dizer-te ainda como obtive esta certeza, mas estou mais do que convencida da tua fidelidade e amor. A questão resume-se agora a isto: poderás perdoar-me? Se podes, irei imediatamente ter contigo. Se me consideras indigna de perdão, nada terei a fazer senão submeter-me à tua vontade. Mas, meu amor, o peito em que encostaste a cabeça está cheio de saudades tuas e espero por ti ansiosamente. Não o repilas, se acaso necessitas dele.
Escreve uma palavra com a tua própria mão: «Perdoada». É tudo o que te peço. Mal eu a receba irei ter contigo. Não dites uma carta à tua secretária, porque eu não o poderia suportar. Escreve somente, se é que a podes escrever com sinceridade, esta palavra: «Perdoada», e manda-a à...
tua mulher.

A sala ficou mergulhada em silêncio quando a enfermeira acabou a leitura e colocou a carta sobre a mesa. Rosemary sentia a garganta seca; por um instante perguntou a si mesma se poderia ir beber um copo de água sem o perturbar, mas logo decidiu passar sem isso.

Por fim, Garth ergueu a cabeça.

— Ela pede-me uma coisa impossível — declarou; e um leve sorriso iluminou-lhe a face contraída.

Jane apertou as mãos sobre o peito.

— Não pode escrever «perdoada»? — inquiriu ela com voz ansiosa.

— Não, não posso. Dê-me papel e lápis, Miss Gray. A enfermeira colocou-lhe ao alcance da mão o papel que ele pedia.

Garth pegou no lápis, tacteou o papel com a mão esquerda e, calculando o centro da folha, escreveu uma palavra em letras firmes e grandes.

— Está legível? — perguntou.

— Muito legível — respondeu ela, antes que as lágrimas gotejassem no papel.

Em vez de «perdoada», Garth escrevera «amada».

— Poderá mandar isso já para o correio? — indagou Garth em voz baixa e inquieta. — E ela virá... oh, meu Deus, ela virá! Se ainda apanharmos a mala desta noite, talvez esteja cá depois de amanhã!

A enfermeira pegou na carta e, com esforço quase sobre-humano, conseguiu falar em voz firme:

— Senhor Dalmain, há um pós-escrito na carta. Diz assim: Escreve para o Palace Hotel, Aberdeen.

Garth deu um pulo, com o rosto transfigurado de excitação.

— Em Aberdeen? — exclamou. — Jane está em Aberdeen?! Oh, meu Deus! Se receber amanhã de manhã este papel, poderá estar aqui a qualquer hora do dia! Jane! Jane! Está a ouvir, minha querida secretária? Jane estará aqui amanhã. Lembra-se de lhe ter contado que ela fustigou a arara com as suas luvas de montar? Acha que irá fustigar também o Simpson? Os criados adoram-na, mas Jane fá-los andar numa roda viva. Não lhe dizia que ia acontecer qualquer coisa? Tanto a senhora como Simpson são demasiadamente britânicos para compreenderem; a Margery é que sabe como saem certos os meus pressentimentos, e os bosques disseram-nos que era a Alegria que vinha através da Dor... Poderá já mandar isto para o correio, Miss Gray?

Voltara-lhe a alegria da manhã. Todo o seu rosto resplandecia; todo o seu corpo vibrava de expectativa. A enfermeira Rosemary ficou sentada a observá-lo com o queixo apoiado nas mãos. Se Garth a pudesse ver ficaria admirado da expressão de amor e embevecimento que se espelhava na cara da sua secretária.

— Irei eu própria ao correio, senhor Dalmain — disse ela. — Será para mim um passeio agradável, e estarei de volta antes da hora do chá.

Ao chegar ao correio, não meteu na caixa o papel escrito por Garth; tinha-o escondido no seio. Mas enviou dois telegramas. O primeiro era dirigido à Duquesa de Meldrum nos seguintes termos:

Venha comboio 5.50 sem falta esta tarde.

O segundo foi destinado a Sir Deryck Brand e só dizia o seguinte:

Tudo bem.
 

— SENHOR DALMAIN — disse Miss Gray com paciente insistência — gostava que se acalmasse e tomasse o chá sossegadamente. Como pode lembrar-se do lugar exacto onde cada objecto está colocado, se ora se põe de pé ora arrasta a cadeira para uma posição diferente? Ainda há pouco, quando bateu na mesa para me chamar a atenção (que aliás já estava desperta), por um triz derrubava a sua chávena e fazia com que o meu chá se entornasse no pires. Se não toma juízo, tenho de ir pedir um bibe à Margery e de o sentar numa cadeirinha alta de nené.

Garth esticou as pernas, levantou os braços e, derreado na cadeira, riu e retrucou:

— Eu teria de perguntar: «Dá-me licença que desça da cadeira?» Mas que atrevida se está a tornar a minha secretária! Antigamente era tão cheia de delicadeza! Tenho a certeza que responderia assim àquela pergunta: «Se o menino Garth disser minha senhora, dou-lhe licença que desça». A propósito, conhece a história da arara: «Tommy diz minha senhora?»

— Já ma contou duas vezes nestas últimas quarenta e oito horas — replicou Miss Gray, com toda a paciência.

— Oh, que pena! E eu que me apetecia tanto contá-la agora! Se a senhora fosse de facto o género de pessoa compreensiva que Sir Deryck descreveu, responderia deste modo: «Não conheço, e gostaria imenso que ma contasse!»

— Não conheço e gostaria imenso que ma contasse — replicou a enfermeira Rosemary.

— Agora já é tarde! Essas coisas, para terem valor, devem ser espontâneas. Não é necessário que sejam sinceras, basta que sejam espontâneas. Mas voltando à cadeirinha alta. quando me diz frases trocistas com a voz de Jane, e tal qual como Jane as diria, apetece-me soltar uma exclamação muito particular da Duquesa: «Ai, minha cabeleira!» Ela tem exclamações originais.

— Passe-me agora uma torrada — atalhou a enfermeira Rosemary — e não me conte mais histórias da Duquesa. Não, não, esse é o prato das fatias de pão com manteiga. As torradas estão à sua direita. Agora faça de conta que sou Miss Champion e passe-me o prato com a mesma elegância com que lho passará amanhã por esta hora.

— Com essa voz é fácil supor que é a Jane — retorquiu Garth. — Contudo... Nunca a associei realmente a ela. Uma frase do velho Rob fez com que as imaginasse bastante diferentes. Disse-me ele que a senhora tinha cabelos frisados e vaporosos. Ora a Jane não possui esse género de cabelos. Veja lá como uma frase salvou a situação! Por outro lado, a sua voz quase me ia enlouquecendo nos primeiros dias. Muitas vezes perguntei a mim mesmo se poderia suportar isso. Compreende agora a razão, não é verdade? No entanto, a sua voz não é absolutamente igual à de Jane. A dela é mais profunda e há ocasiões em que fala com uma espécie de delicioso balbuciar, ao passo que Miss Gray tem o que se chama «primorosa dicção». Que engraçado seria ouvi-las conversar uma com a outra. E, contudo... não sei. Estaria sobre brasas todo o tempo.

— Porquê?

— Teria medo que não gostassem uma da outra. Miss Gray é de certa maneira para mim o que mais ninguém pode ser no mundo, e ela é o meu mundo — respondeu Garth. — Teria medo que Jane não a apreciasse, e que Miss Gray não a compreendesse. Ela tem uma maneira muito sua de medir as pessoas com o olhar, e as mulheres detestam isso, especialmente as mulheres bonitas e de cabelos encrespados... Sentem que lhes nota todas as coisas que estão fora do seu lugar.

— Nada do que é meu sai fora do seu lugar — murmurou a enfermeira — senão o meu doente, que não é capaz de estar sentado na sua cadeira.

— Uma vez — continuou Garth no alegre tom de voz que sempre pressagiava uma história em que Jane tomava parte — uma vez estava em Overdene uma rapariga muito tola, quando também lá se encontravam muitos do nosso grupo. Nunca percebemos a razão de ter sido incluída nas «reuniões selectas» a não ser pelo facto de a boa Duquesa gostar de imitá-la a contar histórias a respeito dela; se não conhecêssemos o original, não apreciaríamos as imitações. Era bonitinha, encaracolada, género boneca de cera e demasiado absorvente; falava pelos cotovelos, e obrigava os outros a prestarem-lhe atenção contínua. Já andávamos enjoados daquilo, e pedimos a Jane que a fizesse calar. Jane, porém, respondeu: «Deixai lá, rapazes. Isso não nos prejudica e a ela enche de satisfação». Jane era ultra-amável para as pessoas de quem suspeitava que iriam servir de chacota à Duquesa. Detestava que ela troçasse dos seus convidados. Não podia dirigir à tia muitas censuras, mas nós tínhamos o máximo cuidado em não instigar a Duquesa a fazer imitações, quando Jane estava presente. Uma bela tarde, depois do chá, ficámos no átrio em volta do fogão, â espera duma oportunidade para falarmos à Jane. Foi no Natal. A lenha crepitava no fogão. Os reposteiros de veludo encarnado haviam sido corridos, tapando a porta do terraço e as janelas de cada lado. Tommy, no seu poleiro, estava ao meio do grupo, de olho atento às pontas de cigarros. Lá fora, a terra cobrira-se de neve, e reinava esse silêncio maravilhoso que faz com que os risos e conversas dentro de casa pareçam ainda mais alegres pelo contraste. Conhece esse silêncio penetrante, não é verdade? Quando as árvores e os campos e os caminhos estão cobertos duma espessa camada de brancura fofa. Todos os Invernos, quando cai a primeira neve, vou sempre contemplar. Ah, esquecia-me que estou cego agora, e que nunca mais tornarei a ver... Não importa. Já é alguma coisa recordar-me de ter visto; e sentirei o maravilhoso silêncio com maior percepção ainda. Talvez que antes dos outros abrirem as janelas eu seja capaz de lhes anunciar: «Nevou esta noite». Mas de que estava eu a falar? Ah, já sei! Da senhora absorvente. Pois como ia dizendo, ela estava no átrio. Todas as senhoras se tinham ido vestir para o jantar, excepto Jane, que nunca precisava mais de meia hora para se aprontar. A absorvente falava, falava, julgando-se o centro de atracção que nos conservava reunidos ali. Na realidade, esperávamos ocasião de dizer a Jane um caso particular que soubéramos a respeito dum rapaz nosso conhecido que estava na tropa e ia ser castigado por qualquer leviandade. Como o coronel do regimento dele era velho amigo de Jane, pensámos que ela podia interceder a favor de Billy. De modo que a senhora absorvente era ali demais, sem o saber. Jane estava sentada de costas para nós, com os pés no guarda-fogo e a orla da saia virada até aos joelhos. Por baixo tinha outra, já se sabe, uma saia de seda muito linda, cheia de folhinhos, que a gente suporia ser para vestir por fora. Mas as coisas mais belas da Jane não são para mostrar: estão sempre escondidas. Já não me refiro a roupas, mas sim à sua extraordinária personalidade. Ora como dizia, a senhora absorvente tagarelava sem interrupção, falando de si e das suas conquistas, longe de perceber que desejávamos vê-la a mil léguas de distância. Jane continuava absorta na leitura do jornal da noite, mas sentia que a atmosfera estava a ser de constrangimento. Por fim, a dama absorvente contou-nos a história dum homem que se apaixonara por ela em Henly, no Verão anterior. Pelos modos, tratava-se de alguém que conseguia façanhas prodigiosas a remar, capaz de ultrapassar, com o seu, todos os outros barcos do rio, contanto que levasse a absorvente ao leme e ele pudesse regalar-se a vê-la enquanto «expandia» os ombros atléticos e se «inclinava para o remo», como ela dizia. Por aquela descrição deduzimos que só havia um remo... Cheios de impaciência, íamos fumando cigarros sobre cigarros, lastimando que Jane não interviesse. A própria arara, no seu poleiro, dava mostras de aborrecimento e, com o pé no bico, olhava gravemente para a senhora tagarela. Por fim, esta contou-nos que o seu apaixonado a desembarcara nesse «dia idílico» num «ponto solitário» do campo relvado da casa onde ela estava a morar. Como se houvesse, no Verão, lugares solitários à beira-rio! E acrescentou que, ao despedir-se, ele lhe fizera um pedido. Aqui, a absorvente fez uma pausa para nos dar tempo de adivinhar que espécie de pedido fora aquele. Ninguém abriu a boca, e o silêncio de fúria e impaciência foi apenas quebrado pelo rumor do jornal que Jane virou nesse momento. Tommy é que principiou a andar abaixo e acima do poleiro, de olhos fitos na dama absorvente. Esta, enfim, disse-nos do que se tratava: ele pedira-Ihe uma coisa, uma coisa que estivera a contemplar todo o dia: o caracolinho que lhe tombava sobre a orelha esquerda. A absorvente calou-se para observar bem a impressão causada no auditório. Todos ficaram impassíveis; mas, no silêncio geral com que acolheram aquela revelação, Tommy exclamou, imitando a voz da Duquesa: «Alguém que lho dê» As gargalhadas irromperam de todos os lados e a própria Jane se dobrou por cima do jornal, perdida de riso. E todas as nossas cigarreiras se estenderam para a arara, porque ela conseguira, com a sua intervenção, que a senhora absorvente nos deixasse em paz. Mas ainda houve tempo para o nosso conciliábulo; Jane mandou nessa noite a carta que impediu o castigo de Billy, e apresentou-se pontualmente ao jantar, mais bem vestida do que todas as outras. Vê como Tommy é uma arara espertíssima? Jane, porém, obrigou-nos a prometer que não contaríamos o caso à Duquesa, embora nos custasse bastante, pois cada qual esperava ser o primeiro a relatá-lo. Mas nenhum de nós faltou à promessa, pois fazíamos sempre o que Jane dizia.

— Porquê?

— Não sei. Não posso explicar. Se a conhecesse, não perguntaria a razão. Serve-se de bolo, Miss Gray?

— Obrigada. Desta vez acertou.

— Tem graça! Falou exactamente como Jane: «Desta vez acertou». Não é esquisito que depois de ter achado durante semanas a sua voz parecida com a dela, amanhã vá achar a voz dela parecida com a sua?

— Oh, não, não achará! — respondeu a enfermeira. — Quando Miss Champion estiver consigo, o senhor Dalmain não pensará em mais ninguém.

— Pois sim, mas vou lembrar-me da sua voz. Minha cara Rosemary, tenho a impressão de que vou sentir deveras a sua falta, pois ninguém, nem mesmo ela, a poderá substituir. Sabe uma coisa, Miss Gray? — continuou Garth, com ar preocupado. — Sinto-me um tanto inquieto. Ela não me viu depois do acidente, e receio que o meu aspecto a impressione. Acha que Jane me achará muito mudado?

Jane olhou para aquela face ansiosa e recordou-se da primeira vez que entrara no quarto de Garth. Este, julgando-se só com o Dr. Rob, sentara-se na cama, e só então ela lhe vira a cara; Jane tivera de voltar-se para que o Dr. Rob não reparasse nas lágrimas que lhe irromperam dos olhos... Contudo, só agora ele tinha consciência da sua desfiguração, e afligia-se somente por causa dela. Jane sentiu o coração encher-se-lhe de uma ternura irresistível.

Olhou o relógio. Não devia esperar muito mais tempo.

— O meu aspecto é muito mau? — insistiu ele com a voz transtornada.

— Não sei responder por outra mulher. Mas creio que a sua cara, tal como está, dará a ela grande alegria.

Garth corou, satisfeito e aliviado, mas um tanto surpreendido. Havia na voz dela uma entoação que não pôde inteiramente explicar.

— No entanto, Jane vai estranhar os meus modos de cego. Receio parecer desajeitado. Ela não esteve, como Miss Gray, na Terra dos Cegos. Desconhece a nossa estratégia de cordéis, chanfraduras e tudo mais. Ah, Rosemary, prometa que não me deixa amanhã! Desejo a vinda dela, Deus sabe com que impaciência, mas começo a ter certo medo. Será um encanto senti-la a meu lado, mas, para as pequeninas coisas diárias, tão exigidas pela minha cegueira, terei necessidade de si, minha guia bondosa e invisível. A princípio, julguei acertado que resolvesse partir, precisamente quando ela vinha. Mas agora, pelo mesmo facto de que ela vem, não a posso deixar partir. Ter Jane comigo é uma felicidade indizível; não será porém o mesmo do que a ter a si.

A enfermeira Rosemary recebia a sua recompensa e, contudo, achava que isso era um pouco acabrunhador. Logo que lhe foi possível falar, disse suavemente:

— Não se aflija, senhor Dalmain. Depois de estar cinco minutos com Miss Champion, não sentirá a minha falta. Como é que sabe que ela não esteve na Terra dos Cegos? Qualquer enfermeira faria isso, por brio da sua profissão e para conseguir êxito no caso que lhe era entregue. A mulher que o ama fará tudo pelo seu amor.

— É pessoa para isso — volveu ele, recostando-se na cadeira, com a expressão de alegria no rosto. — Oh, Jane! Oh, Jane! Estarás aqui em breve!

A enfermeira consultou o relógio.

— Sim, estará em breve — confirmou ela; embora as mãos lhe tremessem, a voz era firme. — E como — continuou — esta é a última tarde que estaremos juntos nas mesmas condições de todas as semanas passadas, proponho o seguinte: Vou lá acima, faço a mala e uns pequenos preparativos. Entretanto, o senhor Dalmain veste-se mais cedo que de costume, e eu farei o mesmo. Se estiver de volta à biblioteca pelas seis e meia, podemo-nos dedicar um pouco à música antes do jantar.

— Pois sim, com muito gosto — concordou Garth. — Faço questão da hora a que me visto; e, quanto à música, estou sempre pronto para ela. Mas escute: não faça a mala, Miss Gray.

— Não se trata bem de fazer a mala — replicou a enfermeira. — É só arrumar umas coisas.

— Dá no mesmo. Tudo isso significa partida. Ora a verdade é que me prometeu não ir antes de ela chegar.

— Prometi e cumprirei.

— E dir-lhe-á tudo o que é necessário saber?

— Ela saberá tudo o que eu sei e que é conveniente para o conforto do senhor Dalmain.

— E não me abandonará até que eu realmente... me sinta à vontade?

— Não o abandonarei enquanto precisar de mim. Garth notou outra vez qualquer coisa de especial na voz dela. Levantou-se, foi na direcção onde calculara estar Miss Gray e disse comovido:

— É excepcionalmente bondosa... — Estendeu-lhe as mãos e acrescentou: — Ponha as suas mãos nas minhas, ao menos uma vez. Queria agradecer-lhe.

Houve um momento de hesitação. Duas mãos fortes (e apesar de fortes tremiam) foram ao encontro das dele: mas recuaram a tempo. Não tinha ainda chegado a hora de Jane. Estava-se apenas no momento do triunfo da enfermeira Rosemary.

— Esta noite — murmurou ela — depois da música, apertar-lhe-ei as mãos. E agora tenha cuidado. Espere um pouco. À sua esquerda está o cordão amarelo. Vá tomar fresco ao terraço e cante mais uma vez aquela canção que eu ouvi esta manhã quando estava à janela. Agora que já sabe «o que vai acontecer», apreciará melhor esta bela tarde de Primavera de Maio. Até daqui a uma hora.

«O que teria acontecido à Rosemary?» pensou Garth, ao procurar a bengala no canto do costume, junto à janela. «Acho-a diferente desde que voltou do correio...»

Saiu ao ar livre. Ia cabisbaixo, mas de súbito ergueu a cabeça e soltou uma gargalhada. «Que estúpido e presumido que eu sou! Em quem ela está a pensar é no namorado. Vai vê-lo amanhã, e o seu espírito está cheio dele, assim como o meu está cheio de Jane. Querida, bondosa e inteligente Rosemary! Oxalá ele seja digno de t! Não, isso é impossível. Espero que ele compreenda não a merecer. Pelo menos assim é que seria natural... Oxalá a receba como ela quer. No entanto... aflige-me a ideia de a deixar com ele... «Diabos o carreguem», como diria Tommy».

Pouco antes das seis e meia, Simpson atravessou o vestíbulo depois de conduzir o patrão até à biblioteca. Ouvindo um leve rumor vindo de cima, ergueu os olhos e viu uma figura alta a descer a larga escadaria de carvalho.

Simpson parou, espantado. O vestido preto de noite, com a cauda rastejante e rendas antigas no corpete, não o impressionou tanto como a expressão de certeza e de poder na face calma que o encimava.

— Simpson — disse Jane — minha tia, a Duquesa de Meldrum, com a criada, um lacaio e grande quantidade de bagagem, há-de chegar de Aberdeen por volta das sete e meia. A senhora Graem já está a preparar os quartos e dei ordem a James que fosse à estação com a carruagem. Minha tia detesta automóveis. Quando a senhora Duquesa chegar, introduza-a na biblioteca. Jantaremos na sala de jantar às oito e um quarto. Entretanto, eu e o senhor Dalmain estaremos muito ocupados num assunto particular, e não devemos ser importunados até à chegada de minha tia. Compreendeu?

— Sim... milady — gaguejou Simpson. Estivera em muito novo a servir numa casa ducal, e considerava as sobrinhas de duquesas superiores a toda a gente.

Jane sorriu.

— Não precisa de tratar-me por milady, Simpson — disse ela; e dirigiu-se para a biblioteca.

Garth ouviu-a entrar, fechar a porta, e o seu ouvido apurado percebeu o rumorejar de sedas rastejantes.

— Olá, Miss Gray! Já guardou o seu uniforme?

— É verdade. Eu disse-lhe que ia arrumar as minhas coisas... — replicou Jane.

Atravessou lentamente a sala e ficou de pé junto do fogão, a olhar para Garth, que estava vestido exactamente como naquela memorável noite em Shenstone; e, quando se reclinou na poltrona e traçou a perna, ela viu-lhe a linha vermelha das suas meias de seda favoritas.

Chegara a hora de Jane. Porém, mesmo nesse momento e por amor de Garth, tinha de ser cautelosa e paciente.

— Afinal, não o ouvi cantar — disse ela.

— A princípio, esqueci-me disso — replicou ele. — E quando me lembrei... Ah, Miss Gray, hoje não posso cantar! A ansiedade emudeceu a minha alma.

— Compreendo — disse Jane meigamente. — Cantarei eu para o senhor ouvir.

Na face de Garth transpareceu uma leve expressão de surpresa.

— Pois canta? Então por que nunca cantou até hoje?

— Quando eu cheguei — retorquiu Jane — o Dr. Rob perguntou se eu tocava, e respondi-lhe: «Um pouco». Daí, concluiu que também cantava um pouco, e proibiu-me terminantemente cantar ou tocar nesta casa, alegando não querer que o doente se tornasse doido varrido por causa da minha música.

Garth desatou a rir.

— Isso é mesmo do velho Robbie — disse ele. — Mas, apesar da proibição, vai aventurar-se a cantar «um pouco» para eu ouvir? Não receia os resultados?

— Não, não receio... a esse respeito. Vou cantar-lhe uma música só. À sua direita está o cordão. Não há nada entre si e o piano, e encontra-se agora virado para ele. Se quiser mandar-me parar... é só ir até lá.

Jane dirigiu-se ao piano e sentou-se. Garth recostara-se na cadeira, com um leve sorriso a bailar-lhe nos lábios. Estava, evidentemente, a lembrar-se da proibição do Dr. Rob.

O Rosário tem apenas um acorde de abertura. Jane tocou-o e, no mesmo instante, viu Garth endireitar-se na cadeira, com uma expressão de surpresa e expectativa.

Começou a cantar e a voz profunda atravessou-o.

As horas que passei contigo
São comas enfiadas uma a uma
Cada hora é uma conta...

Jane não foi mais longe… Garth ergueu-se e sem pronunciar palavra, num ímpeto irresistível, atirou-se ao piano. Ela voltou-se no tamborete, abrindo-lhe os braços para recebê-lo. A mão de Garth estendida para a frente, abateu-se sobre as teclas… mas encontrou-a, afinal. Caiu de joelhos apertando-lhe os braços. E os dela apaixonadamente o envolveram com toda a ternura recalcada daquelas tormentosas semanas. Ele ergueu para ela o belo rosto sem vista.

— Tu? — Tu? Balbuciou… Tu… Esse tempo todo? … e apertou a cabeça de encontro ao peito de Jane.

— ... Sim, meu querido, respondeu Jane com infinito carinho; eu o tempo todo junto do meu bem amado, no teu sofrimento e na tua solidão. Como poderia ter ficado longe?... ah! Garth, esta felicidade de sentir-te enfim aqui, perto de mim… Sim, sou eu… ah! Querido, não estás ainda convencido? Querido, Vamo-nos sentar no canapé.

Garth ergueu-se, mas sempre abraçado a ela, que de mansinho o conduziu para o canapé.

Ali, ele de novo se lançou aos seus pés, refugiando-se-lhe nos braços amorosos.

— Ah! meu amor, meu querido amor! — Murmurou Jane, acariciando com as mãos a cabeça apoiada ao seu coração. Foi para mim uma consolação tão grande servir-te, e ajudar-te na tua cegueira, e evitar-te sofrimentos desnecessários, e estar sempre aqui a teu lado! Mas eu não podia ser... eu própria... senão, quando soubesses, e compreendesses, e perdoasses... Não, não, perdoasses, não... Compreendesses e continuasses a amá-la... Oh, Garth, sossega, meu amor!... Assustas-me... Não, nunca te deixarei, nunca, nunca!... Então não percebes, meu querido?... Nesse caso, tenho de falar-te mais claramente. Sossega e escuta-me. Mais alguns dias e estaremos... como temos estado. A única diferença é que saberás que sou eu quem está junto de ti. A tia Gina deve chegar dentro de meia hora. Tão depressa quanto for possível, arranjaremos uma licença especial e casaremos... E então, Garth... (Jane fez uma pausa, e o homem que estava ajoelhado em frente dela susteve a respiração para escutar) ...E então — continuou em voz baixa — será para mim a maior felicidade estar sempre com o meu marido, noite e dia.

Seguiu-se um silêncio doce e demorado. A tempestade da comoção acalmara-se por fim nos braços dela... A voz divina do perfeito amor segredara: «Cala-te, aquieta-te»; e fez-se grande bonança.

Por fim, Garth ergueu a cabeça.

— Sempre, sempre juntos? — murmurou. — Ah, será a «luz eterna»!

Quando Simpson, pálido de importância, abriu a porta da biblioteca e anunciou: «A senhora Duquesa de Meldrum», Jane estava sentada ao piano, tocando suaves acordes; e um rapaz esbelto, de trajo de noite, avançou com solicitude para receber a visitante.

A Duquesa não viu, ou fingiu não ver o cordão condutor, e apertou efusivamente a mão que Garth lhe estendia.

— Oh, santo Deus! Que surpresa, meu caro Dal! Esperava encontrar um cego e vejo-o a andar tão desembaraçado como de costume!

— Querida Duquesa — volveu Garth, inclinando-se para beijar as mãos bondosas que ainda seguravam as dele. — Lastimo dizer-lhe que a não posso ver, mas hoje não me sinto propriamente cego. A minha escuridão foi iluminada por uma alegria sem limites.

— Oh! Oh! O caso está bem orientado! E com quem casa você? Com a enfermeira, que me consta ser uma pequena muito ajuizada e altamente recomendável, ou com esta atrevida Jane que, sem o menor dó, ordena à pobre tia que venha dum extremo do reino a outro, só por causa das suas conveniências?

Jane afastou-se do piano e enfiou o braço no de Garth.

— Querida tia Gina — disse ela — não negue que está contentíssima por ter vindo; não só delira com os mistérios, como gosta de ser um velho deus-ex-machina, surgindo no momento preciso. Garth casa-se com a enfermeira e com Jane, porque ambas o amam muito para o quererem deixar, e ele, por seu turno, acha que não pode prescindir de nenhuma.

A Duquesa fitou aquelas duas caras radiantes, uma sem vista, outra com olhos felizes e orgulhosos que valiam por quatro, e enterneceu-se a ponto de chorar.

— Oh! Oh! Estamos na terra dos mórmones? Pois sempre pensei que uma mulher só não bastava para Dal; ele queria perfeições combinadas de várias, e parece que as encontrou. Deus os abençoe a ambos, casal absurdamente feliz! Eu também os abençoarei, mas não antes de jantar. Agora chamem aquele homenzinho nervoso, de suíças, e digam-lhe que quero a minha criada, o meu quarto, e que desejo saber onde puseram o meu tucano. Tive de o trazer, Jane. É tão afectuoso aquele animal! Eu sabia que o acharias importuno, mas não pude partir sem ele.
 

QUANDO Garth e Jane, alguns dias depois, se casaram na igrejinha de rito episcopal, entre as colinas, os jornais, nas suas secções mundanas, poderiam dizer que fora uma «cerimónia da maior intimidade». Mas, para os que a presenciaram, ela foi, à parte a intimidade, uma coisa fora do vulgar. Para os noivos, o principal consistia em estarem casados, e serem um do outro o mais depressa possível. Ninguém os pôde convencer a ocuparem-se das minúcias da praxe. Jane deixou tudo isso a cargo de Deryck, dizendo-lhe:

— Faze o que for preciso para que o casamento seja válido, e manda-me as contas.

A Duquesa, sendo pessoa conservadora, começou logo de entrada a falar em véus, flor de laranjeira e cetim branco. Jane, porém, insurgiu-se contra tal ideia:

— Oh, tia! Eu, de véu e flor de laranjeira? Havia de parecer que estava a representar uma pantomima de Natal. Nunca na minha vida usei véus, e o branco vai-me horrivelmente. Tive sempre o bom-senso de não me vestir de branco.

— Então, como é que tencionas vestir-te para o casamento?— inquiriu a Duquesa.

— O que acontecer eu envergar nesse dia — replicou Jane, rematando o cordão de seda vermelha que estivera a entrelaçar; e olhou para o terraço, onde Garth se encontrava sentado, saboreando um cigarro.

— Tens um horário dos comboios? — perguntou a Duquesa, com ameaçadora calma. — E podes mandar-me levar esta tarde à estação?

— A carruagem está sempre ao seu dispor — respondeu Jane, começando um cordão doirado e observando o efeito. — Mas para onde vai a tia Gina? Sabe que Deryck e Flower chegam esta noite?

— Lavo de ti as minhas mãos e vou para Londres — declarou a Duquesa, furiosa.

— Não faça isso, tia — replicou Jane, placidamente. — Tem lavado tantas vezes de mim as suas mãos e, como o sangue do Rei Duncan da Escócia, estou sempre nelas. «Todos os perfumes da Arábia serão incapazes de dulcificar esta mão»(*) 

(N da T.: Shakespeare. «Madbeth», Acto V, cena I.)

Levantou então a voz para que Dal a ouvisse:

— Garth, se quiseres dar um passeio, é só dizer. Estou aqui a discutir o meu enxoval com a tia Gina.

— Que é isso de enxoval? — inquiriu a voz alegre de Garth.

— Uma coisa que a gente tem de ter para se poder casar.

— Nesse caso, arranja-o depressa! — exclamou Garth, entusiasmado.

— Querida tia — disse Jane — vamos a ver se chegamos a acordo. Tenho alguns vestidos bonitos no meu guarda-fato, além dos uniformes. Diga à sua criada que os vá buscar. A tia escolhe o que lhe apetecer e eu prometo envergá-lo no dia do casamento.

O resultado foi Jane comparecer na igreja com um vestido saia-casaco azul bordado a oiro, e uma linda blusa de brocado amarelo-escuro, com rendas antigas na gola e nos punhos. Esse fato, muitíssimo bem feito, assentava-Ihe maravilhosamente no corpo alto e forte.

Garth parecia tão preocupado com a própria indumentária de casamento quanto Jane se mostrara indiferente à sua. Como ele, porém, fora muitas vezes convidado para padrinho de casamentos de amigos, Simpson não teve dificuldade nenhuma em torná-lo noivo elegantíssimo. E que belo era o seu aspecto, quando estava em frente do altar, esperando pela noiva! Não a viu, é claro, mas percebeu que era ela que vinha a entrar, pois, quando Jane penetrou na igreja pelo braço de Deryck, Garth virou um pouco a cabeça e sorriu.

A Duquesa, resplandecente de cetins purpúreos e arminhos, com plumas brancas no chapéu, e cheia de jóias e braceletes que tilintavam no silêncio da igreja, de cada vez que se movia, achava-se no primeiro banco à esquerda do altar, pronta a fazer as vezes da mãe da noiva.

No lado oposto, tão perto quanto possível do noivo, estava Margery Graem, de vestido de seda preto, com uma touca de cetim acolchoado, e um lenço de cambraia cruzado sobre o coração fiel que tanto batera de ternura por Garth desde a infância deste. De cada vez que a Duquesa fazia tilintar as pulseiras, a velha ama voltava, inquieta, a cabeça; fora disso, conservava os olhos fitos no ofício do matrimónio, seguindo-o pelo livro de grandes letras que tinha no regaço. Margery não estava, porém, habituada às diferenças daquele rito, e sentia-se um tanto ou quanto desconfiada. E as suas dúvidas aumentaram quando a cerimónia começou por fim, e tomaram forma audível: repetiu todas as respostas dos noivos, num murmúrio, por trás deles.

O Dr. Rob, por ser o único celibatário disponível, serviu de padrinho. Jane deliberara não lhe confiar o anel; devido às suas observações anteriores, concluíra que ele seria muito capaz de o meter, distraído, no próprio dedo, e em seguida pôr-se a procurá-lo em todos os bolsos e até nos de Garth, se é que o não buscaria no chão, antes de se lembrar de olhar para as mãos. Não é que Jane se importasse muito com isso, mas aborrecer-se-ia com a demora. De modo que o anel foi para a igreja na algibeira do colete de Garth, onde já estava desde que ela o trouxera de Aberdeen; e sem que tivesse necessidade de apalpar o bolso, ou mostrasse hesitação, o noivo pô-lo calmamente sobre o livro aberto.

O Dr. Rob fora encarregado de pagar ao padre e distribuir gratificações ao bedel, sineiros e mais empregados da igreja. Garth mostrou-se generoso na sua felicidade, e ansioso de fazer todas as coisas de forma digna de comemorar aquele grande dia. Assim, o Dr. Rob recebera o dinheiro necessário e enchera com ele os bolsos. Quando a exortação começou, ele fez tinir as moedas, de mãos metidas nas algibeiras; quanto mais se interessava pela cerimónia, mais se alheava das próprias acções, como era seu costume. Isto, ligado ao sacudir das pulseiras da Duquesa, deu em resultado um dueto, onde cada qual ouvia o outro e não se ouvia a si mesmo.

A Duquesa olhava indignada para o Dr. Rob, e o Dr. Rob fitava-a de cenho carregado. E a velha Margery relanceava-os inquieta.

Deryck Brand era o homem mais alto que estava na igreja. A sua bela figura tirava vantagem da sobrecasaca de bandas de seda, que Lady Brand achara indispensável para esta ocasião. Logo após ter conduzido Jane para o lado de Garth, veio sentar-se junto da mulher, precisamente atrás de Margery. Quando Jane tirou a mão do braço dele, voltou-se e sorriu-lhe, e ambos trocaram um longo olhar, no qual parecia haverem-se concentrado todas as recordações, toda a confiança, compreensão e amizade de tantos anos. Nesse momento os olhos de Lady Brand poisaram-se no seu elegante livro de orações encadernado a branco e oiro. Jamais fora ciumenta: o marido nunca lhe dera motivo para que ela adquirisse tão cruel conhecimento. A sua Flower desabrochara para ele, e aquela fragrância bastava para o manter em contínua satisfação. Todas as outras mulheres bonitas eram meros espécimes botânicos, bons somente para serem examinados e classificados. Mas Flower não chegara a compreender a profundeza da amizade existente entre o marido e Jane, amizade que se fundamentava em ligações e aspirações da infância e da juventude, e em certas afinidades de espírito que, se não tinham levado ao casamento, haviam originado, contudo, uma camaradagem que era fonte de energia para ambos; ultimamente, Flower quisera com ardor compartilhar dessa camaradagem, embora não a compreendesse muito bem.

Era ela quem verdadeiramente parecia a noiva, naquele dia, com o seu vestido claro e um ramo de narcisos na cintura, e com o cabelo doirado pelos raios do Sol. Ao afastar-se da noiva e ao procurar o seu banco, Deryck fitou o rosto meigo que se inclinava com ar grave sobre o livro de orações e pensou que nunca vira a sua mulher parecer tão encantadora. Inconscientemente, levou a mão ao botão de rosa branco que ela lhe pusera na lapela quando, nessa manhã, passeavam na estufa. Flower, erguendo a vista, surpreendeu-lhe o olhar. Sabia que não era próprio sorrir na igreja; então, corando de leve, chegou a cabeça ao ombro do marido, tanto quanto o permitiam as abas do chapéu. Um olhar daqueles tinha ela a certeza de que jamais Deryck concedera a Jane.

A cerimónia começara. O padre, míope, e um tanto nervoso por factos tão desusados, tais como uma licença especial, um noivo cego e a presença duma duquesa, desatou a ler muito depressa e em voz baixa, de tal modo que a velha Margery se viu obrigada a correr o dedo enluvado nas linhas do texto. Ao dar pela sua precipitação, afrouxou a velocidade e tomou-se mais incisivo, fazendo longas e enervantes pausas, que eram preenchidas pelo tilintar dos braceletes da Duquesa e pelo chocalhar das moedas nos bolsos do Dr. Rob.

Assim chegaram à altura em que se pergunta se há algum impedimento, e a pausa aqui foi tão demorada e tão opressiva que Margery murmurou «não», soltando a seguir um soluço nervoso.

O noivo virou-se e sorriu na direcção daquela voz, e Deryck Brand, curvando-se, pôs a mão no ombro trémulo da velha, recomendando-lhe baixinho:

— Sossegue. Vai tudo bem.

Jane achou-se com a mão direita apertada à de Garth; e não houve nenhuma desproporção na voz do sacerdote que pudesse destruir a delicada beleza das palavras sacramentais quando ele perguntou a Garth se a queria por esposa. A isto, Garth e a velha Margery disseram «sim» ao mesmo tempo, qual deles mais comovido.

Depois, a mesma pergunta foi feita a Jane. A igreja parecia lembrar-lhe docemente que o devia receber com a sua cegueira e tudo mais que isso implicava.

— Sim — disse Jane, com a voz terna e profunda com que cantara O Rosário.

Uma vez pronunciadas estas palavras, Garth ergueu a mão que segurava na sua e depôs-lhe um beijo reverente. Isto não estava no programa, e pareceu desconcertante ao padre, que levantou logo a cabeça e inquiriu:

— Quem concede em casamento esta mulher a este homem?

Não se ouviu resposta. Então repetiu a pergunta em voz mais alta, olhando para todos os cantos da igreja.

A Duquesa, que até aí se sentira aborrecida, viu que era chegada a sua ocasião, e regozijou-se. Levantou-se do banco e chegou até aos degraus do altar, dizendo:

— Meu reverendo, sou eu que concedo a minha sobrinha; para isso é que vim cá, apesar de todos os inconvenientes da viagem. Pode continuar. Que se segue?

O Dr. Rob não pôde reprimir o riso, e a Duquesa, empunhando a luneta de cabo, mirou-o de alto a baixo.

Margery procurou em vão no livro a resposta da Duquesa. Mas não estava lá.

Flower fez um apelo mudo ao marido. Mas este observava, muito entretido, o desenho do tecto da igreja, e não prestou atenção ao sinal que a mulher lhe fizera.

As únicas pessoas completamente inconscientes da anormalidade do que se passava parece que eram o noivo e a noiva. Estavam sendo recebidos à face da Igreja, e absorviam-se um no outro à vista de Deus.

— As pessoas mostram-se sempre grotescas nos casamentos — disse Jane, tempo antes, a Garth. — Nós não faremos excepção à regra, mas podemos fechar os olhos e considerarmo-nos na Terra dos Cegos. Deryck encarregar-se-á de velar por que tudo seja válido.

— Não na Terra dos Cegos — volvera Garth — mas naquela onde não se necessita de candeia nem de sol.

Assim estavam eles, e à sua volta tudo era silêncio... O ofício continuava; e o sacerdote, que não sabia como evitar que os noivos apertassem a mão quando não era preciso, achou fácil induzi-los a fazê-lo na altura própria.

E assim se ligaram aqueles dois entes, que já estavam tão profundamente unidos, solene, reverente e ternamente à face de Deus, sob o testamento da Igreja. E a aliança, símbolo do amor eterno, passou da algibeira de Garth, sobre o Livro Santo, para o dedo de Jane.

Quando tudo acabou, ela enfiou o braço no dele, e guiou-o até à sacristia.

Mais tarde, no carro, nesses momentos preciosos em que marido e mulher se encontram a sós pela primeira vez, Garth voltou-se para Jane, com uma impaciência natural que lhe atingiu mais o coração do que qualquer discurso; não disse «minha mulher», como três anos antes, mas perguntou-lhe simplesmente — Quando se irão todos embora? Quando ficaremos sozinhos? Por que não vão direitos da igreja à estação?

Jane olhou para o relógio.

— Porque temos de lhes dar almoço — respondeu ela. — Foram todos tão bons e delicados! Não vamos iniciar a nossa vida de casados com tal descortesia. É uma hora, e o almoço será servido à hora e meia. Às 4 e 30 parte o comboio que os deve levar. Daqui a três horas estaremos sós.

— Serei capaz de me portar bem durante estas três horas? — volveu Garth, com ar agarotado.

— Se não te portares bem, ver-me-ei obrigada a chamar a enfermeira Rosemary.

— Oh, cala-te! Hoje é um dia precioso demais para gracejos. Jane... — acrescentou, agarrando-lhe as mãos — Jane! Compreendes que és agora realmente minha mulher?

Jane levantou a mão dele e apoiou-a sobre o coração, justamente no ponto onde tantas vezes ela poisara as suas com receio de que Dal ouvisse as pancadas violentas.

— Meu amor — murmurou — não compreendo; mas sei, graças a Deus, que é verdade.
 

A VINDA da Duquesa de Meldrum constituíra facto extraordinário em Gleneesh. Para Simpson, todos os trabalhos a mais, todos os sobressaltos e nervosismo que ela lhe causava, foram bem compensados pela glória de ter uma duquesa a entrar e a sair dos quartos e dos portões de Gleneesh.

Mas para Margery, a chegada da Duquesa não lhe causou o mínimo deslumbramento; era indiferente às honrarias sociais que tanto impressionavam Simpson. Recebeu a Duquesa com a mesma simplicidade com que acolhia a mulher do reverendo, mostrando-se atenciosa sem servilismo e afável sem familiaridade. No entanto, perguntou a si mesma que viria fazer uma duquesa a Gleneesh, pergunta que nunca lhe acudia ao espírito quando a mulher do reverendo chegava ali. A hospitalidade de Margery incluía sempre uma chávena de chá e pãezinhos quentes; e o chá e os pãezinhos de Margery eram coisas sempre recordadas com saudade: atraentes, tentadoras, irresistíveis.

Não tardou que Margery soubesse o motivo da vinda da Duquesa; e o conhecimento de que aquela nobre (embora incómoda) presença era necessária para a correcta efectuação da cerimónia, fez Margery conformar-se com o facto de a titular, o lacaio, a criada e o tucano ficarem em Gleneesh até ao casamento.

Chegou à conclusão de que o lacaio era boa pessoa; o que ele precisava era de alguém que lhe refreasse a língua. Margery assim fez. O criado, que a princípio contava as histórias mais chistosas a respeito da Duquesa, passadas em Overdene e noutros lugares, depressa perdeu o gosto das anedotas. A velha Margery despertou-lhe o sentido adormecido da honra e lealdade, e daí por diante as suas conversas na copa e na cozinha demonstraram a influência benéfica dessa mulher de cabelos brancos e olhos bondosos. Quanto à criada, Margery concluiu também que não era tão pretensiosa como parecia à primeira vista, e não foi difícil tomarem-se amigas.

Agora o tucano... tinha bastado olhar para ele. A velha classificou-o logo como ave de rapina e de mau agoiro, e não permitiu que se lhe fizesse referência nos compartimentos reservados à criadagem. Quando a Duquesa dava ordens peremptórias para que levassem à ave um prato de arroz cozido e passas, isto a horas despropositadas, Margery cozia o arroz só por atenção a Garth; e quando lhe acrescentava as passas, fazia-o desejando ao mesmo tempo que as suas maldições não prejudicassem a próxima cerimónia do casamento. Depois entregava o prato de arroz a Simpson, explicando-lhe que era «para a gaiola com que a Senhora Duquesa gostava de viajar». Falando em particular com Maggie, disse-lhe que um bico como o do tucano exigia que se fizessem exorcismes para afugentar o mal.

— Ele, coitado, não tem culpa de ter um bico assim — respondeu Maggie, a quem as coisas sobrenaturais fascinavam. No íntimo, admirava a coragem da Duquesa e da sua comitiva por se aventurarem a viajar em tal companhia.

— Eu não digo que a culpa seja dele — replicou a velha. — Revolto-me é contra aqueles que não deixaram ficar o animal sossegado na floresta onde nasceu.

Mas os piores bocados que Margery passou foram nas ocasiões em que teve de entender-se com a Duquesa a respeito das mudanças e melhoramentos que esta considerou necessários, uma vez que a sobrinha se tornava dona de Gleneesh. Foi precisa toda a diplomacia de Jane para que estas entrevistas tivessem resultado satisfatório e não chegasse aos ouvidos de Garth o barulho da discussão.

Jane achara o caminho que conduzia ao coração de Margery muito antes de haver revelado a sua identidade. Falando a Garth, depois de terminado o papel da enfermeira Rosemary, a velha observou: «Não me deixei intrujar por muito tempo. Ela tinha um aspecto muito profissional, mas os olhos é que não se podem disfarçar com um uniforme; os olhos são as janelas dum coração de mulher. E quando ela os tapou, por amor de si, menino Garthie, vi que grande coração era aquele. Compreendi que o menino estava a ser tratado pela mulher que o amava, e não quis saber mais nada enquanto não se resolvesse tudo».

Assim, Jane obtivera a amizade de Margery. O único espinho desses alegres dias de espera foi a Duquesa.

Jane ia tomar posse do quarto de sacada, lindo aposento que sempre pertencera à senhora de Gleneesh. Não fora ocupado desde a morte da mãe de Garth, mas a velha Margery mantinha-o limpo e cheio de flores, e agora sentia-se radiante em prepará-lo para Jane.

Porém, a Duquesa insistiu em fazer uma visita de inspecção; e declarou, na presença de Margery, que o quarto devia ser caiado, forrado de papel e todo renovado. Jane recusou formalmente esta ideia. O tecto e as paredes tinham lindas pinturas onde se destacavam flamingos de tons róseos, e Garth certamente ficaria desgostoso se soubesse que já não existiam ali aquelas imagens em que se haviam embevecido os seus olhos de menino.

Depois, foi a alcatifa que veio à baila. Era um velho tapete com desenhos geométricos de cores desmaiadas, que devia estar ali há um século. Atendendo ao mau estado, Jane concordou em escolher um novo, dirigindo um sorriso conciliatório a Margery, que aquiesceu em silêncio.

Satisfeita nesse ponto, a Duquesa concentrou seguidamente a sua atenção na mobília, a qual era constituída por peças valiosas e bem conservadas. A cama, porém, sendo desses leitos antigos, género armário, foi motivo de disputa entre a Duquesa e Margery.

A Duquesa pediu um horário dos comboios e ameaçou que partia imediatamente para Londres se Jane se decidisse a dormir em tal «mostrengo». E citou uma história aflitiva a respeito duma cama igual que havia em certa hospedaria francesa e que costumava fechar-se, asfixiando assim os hóspedes adormecidos, sem que nunca se soubesse porquê. O mesmo seria capaz de acontecer a Jane... Margery, que não estava habituada a semelhantes voos de imaginação de que a Duquesa se servia para conseguir os seus fins ou para demonstrar a sua razão, tomou aquilo à letra e ficou triste e ofendida; pediu então à ilustre titular que se lembrasse de que nesse leito (de que ela falava com tanto desprezo) haviam dormido durante séculos as senhoras de Gleneesh sem que nenhuma delas ficasse asfixiada. Por que havia de acontecer isso agora?

A Duquesa, cada vez mais furiosa, mudou de táctica e denunciou o traste como coisa bolorenta e anti-higiénica. Devia estar cheio de micróbios.

Margery, já chorosa, declarou que não havia «insectos» na casa, nem nunca os houvera no seu tempo. A outra começou a achar graça ao caso, e disse que jamais permitiria que o seu tucano dormisse em tão mofenta cama. Quanto mais a sobrinha!

Treplicando, a ama alegou que, enquanto fosse viva, nenhum tucano se aproximaria daquele móvel abençoado!

Foi então que a Duquesa intimou Jane a escolher entre ela e essa velha tão obstinada. E Margery retrucou que iria imediatamente falar ao patrão.

A isto pediu a Duquesa que, de volta, lhe trouxesse o horário dos comboios, pois com certeza partiria para Londres: não haveria casamento, e os outros que ficassem onde quisessem!

Neste ponto Jane interveio; chamou Margery de parte, convencendo-a a concordar com a mudança do leito venerável para um quarto vazio que ficava ao lado, onde ela poderia conservá-lo pronto para o caso de ter de dormir só alguma noite. E então, quando chegou de Aberdeen uma bela cama de latão, moderna, com gracioso dossel e cortinados de seda verde-claro, Margery ficou inteiramente reconciliada e foi com satisfação que tirou dos armários a melhor roupa de linho.

Contudo, ao regressar da igreja, no dia do casamento, a velha ama soltou um suspiro de alívio por ver que estava livre da Duquesa e dos seus caprichos e fantasias.

Ao almoço, o tucano chamou a atenção geral. A dona insistiu em tê-lo fora da gaiola, empoleirado no espaldar duma cadeira, junto dela, à esquerda; assim, a ave ocupou o lugar destinado ao Dr. Rob, que teve de ficar do outro lado da mesa.

A situação pareceu prometedora de gozo espectacular ao Dr. Rob, logo que este viu o mordomo trazer o primeiro prato à Duquesa: para a servir, Simpson tinha de estender o braço entre a dama e o tucano. A titular brandiu a luneta de cabo, examinou o prato, duma banda, e o tucano fez o mesmo, do outro lado, inclinando a cabeça, de forma a olhar por baixo do monstruoso bico. A Duquesa, voltando-se então para Simpson, perguntou:

— Que é isto?

O tucano olhou também para Simpson, mas não disse nada. O silêncio terrível da ave era mais assustador do que a interrogação inesperada da Duquesa. O mordomo, pálido e mudo, não conseguiu recordar-se do nome da iguaria nem soube inventar uma resposta qualquer, e ficou ainda mais nervoso ao ver a possibilidade em que estava de entornar o conteúdo da travessa no colo da Duquesa. Sir Deryck, que se encontrava à direita, passou-lhe a ementa e explicou-lhe de que se tratava, e ela, tranquilizada, pôs-se a cortar pedacinhos de comida, de que o tucano habilmente se apoderou, impelindo-os para a sua avantajada goela.

O Dr. Rob, que adorava excentricidades, estava divertido ao mais alto grau. Lady Brand, sentada perto dele, pasmava impressionada para aquele espectáculo jamais presenciado. Mas depois desviou a vista, esforçando-se por não tomar a olhar.

A Duquesa percebeu logo o interesse do Dr. Rob.

— Vejo que o admira — disse ela. — É uma ave muito inteligente. Sabe sempre o que quer. Se põe o sentido em qualquer coisa, recusa tudo que não seja isso, por melhores bocados que lhe apresentem... até que obtenha o que é do seu gosto. Olhe para ele agora. Está a ver rodelas de tomate naquela saladeira. Nada o contentará neste momento senão um pouco de tomate. Observe.

Todos observaram. Jane estendeu a mão por baixo da toalha, tocou no joelho de Garth e disse-lhe em voz baixa o que se passava.

A Duquesa pegou numa banana, descascou-a e ofereceu ao tucano a ponta mais madura. O animal agarrou-a com o bico, mostrando um ar enjoado, e deixou-a cair na cadeira.

— Cá está! — exclamou a dona triunfante. — Que tinha eu dito? E a verdade é que ele gosta de bananas...

Em seguida lançou mão dum cacho de uvas e arrancou um bago, que apresentou ao tucano. A ave pareceu agradada e disposta a aceitar, mas a Duquesa retirou o bago à pressa e deu-lhe em troca um bocado de pão. O tucano atirou o pão ao Dr. Rob, que o apanhou encantado, e começou a fazer bolinhas com o miolo.

— Reparem agora! — gritou a Duquesa. — Alguém que me traga aquela saladeira.

Como ninguém se apressasse a satisfazer a ordem, Simpson foi buscar a saladeira e trouxe-a com mãos trémulas. A Duquesa cortou em bocadinhos as rodelas de tomate, que a ave foi devorando, um por um, com evidente satisfação.

— Cá está! — exclamou ela mais uma vez, dirigindo-se em especial ao Dr. Rob. — Não é um animal inteligente? Sabe sempre o que quer.

Os circunstantes inutilizaram este argumento, alegando que quase toda a gente sabe o que quer sem ter grandes pretensões a inteligência.

Não assim o Dr. Rob. Os seus olhos azuis cintilaram debaixo das sobrancelhas hirsutas. Inclinando-se para a frente, principiou, muito interessado:

— É mais do que inteligente. Não só dá a entender o que quer (e poucos de nós o fazem), mas sabe como o há-de obter. Esse animal sábio deu-me uma lição. Se eu fosse como o tucano, não teria bebido champanhe, de que me arrependo já. Quando me sentei aqui, o que desejava era whisky e soda. Tinha visto uma garrafa de whisky no aparador. Ofereceram-me champanhe e eu, por obediência, aceitei. Pois essa ave esclareceu-me quanto ao que devia ter feito. Na altura de servirem champanhe, devia tê-lo recusado, e olhar para o whisky. Ao deitarem-me vinho tinto no copo, devia recusar também, e continuar a olhar para o whisky. Por ocasião do xerez, idem, idem. Ah, senhora Duquesa, precisamos de saber o que queremos! O seu tucano deu-nos uma lição.

— Bravo! — gritou a titular, deveras deliciada. — Cá está um homem exactamente como eu desejava encontrar. Alguém que lhe dê whisky.

Simpson compreendera que, sempre que a Duquesa dizia «alguém», aquilo era com ele. Foi, pois, ao aparador buscar a garrafa e colocou-a ao lado do Dr. Rob. Mas ninguém reparou que, no fim de contas, o médico (abstémio como era) jamais se serviu de whisky.

— Estou preocupada com aquele pedaço de banana na cadeira — disse Flower. — Suponhamos que alguém se levanta e depois, distraidamente, vai sentar-se ali!

— Alguém que limpe a cadeira! — ordenou a Duquesa.

Simpson correu para lá, com uma colher e um guardanapo. O Dr. Rob pegou numa bolinha de pão, chamou a atenção do tucano e atirou-lha por cima da mesa. O animal aparou-a lindamente e engoliu-a.

A Duquesa estava embevecida. Não sabia (como o Dr. Rob, que era frequentador do Jardim Zoológico) que os tucanos aparam com o bico qualquer coisa que lhes atirem. O Dr. Rob tomou-se o herói do momento por demonstrar com tanta evidência a esperteza anormal do tucano. E a Duquesa, que já deliberara convidar o doutor para uma das suas reuniões excêntricas em Overdene, começou a achar preferível transferi-lo para as reuniões selectas. Todos se puseram a atirar bolas de miolo de pão e o tucano a apanhá-las. Jane agarrou num bago de uva e lançou-o lá do extremo da mesa. A ave apanhou-o e engoliu-o, sem perder o seu ar de gravidade. Flower, que não tinha pontaria, mas que não queria parecer alheada daquele divertimento, foi atingir a Duquesa. Este percalço pôs ponto final no bombardeamento do tucano. Surgiram outros assuntos de conversa. Todavia, não duraram muito tempo.

— Eu chamo-lhe Magistrado — observou a Duquesa ao Dr. Rob.

— Ah! — exclamou o outro, embora não tivesse a mais pequena ideia do motivo pelo qual a Duquesa chamava magistrado a um tucano.

— Por causa do bico — explicou ela.

No resto da mesa não se ouviu a explicação.

— Os magistrados têm bico? — inquiriu Flower.

— Não, senhora. Mas os tucanos têm-no — respondeu o médico.

— Não vale a pena explicar trocadilhos a pessoas que não conhecem bem a nossa língua — acudiu a titular, melindrada. Ainda não se esquecera do bago de uva com que Flower a atingira.

— Oh!— murmurou Garth, contente, ao ouvido de Jane. — Parece uma página de Alice no País das Maravilhas. Lady Brand é Alice. Dize-lhe que, em calão, bico significa magistrado(*).

(N. da T.: Evidentemente que isto se passa na língua inglesa: «beak, magistrate»).

— Flower — interveio Jane — bico, em calão, é magistrado.

— Não sabia — retorquiu Lady Brand, da mesma forma que teria respondido Alice. Garth bateu palmas debaixo da mesa e Jane teve de lhe agarrar nas mãos. — Nunca percebi calão — continuou Flower, muito digna. — Se tivesse ouvido isso, não teria compreendido, e esquecia-me logo. Nesse ponto o meu pequeno parece-se comigo. Dicky tem prazer em falar correctamente.

— Oxalá Dicky não se torne pedante — redarguiu Jane.

— Ah, não, com certeza! — atalhou Garth. — Esse petiz é um encanto. Herdou o melhor do pai e o mais belo da mãe, combinando essas qualidades na sua figurinha adorável. Antes quero falar com Dicky do que com outra pessoa. Até me sinto vaidoso quando ele me procura para declarar: «Senhor Dal, estava desejando conversar consigo...»

Aquilo foi dito com tanta simpatia que a mãe de Dicky, reconhecida, sorriu ao dono da casa, mas depois lembrou-se de que era inútil aquela manifestação; antes, porém, que o seu sorriso se extinguisse, Jane cochichou ao marido: «Flower ficou satisfeita».

A Duquesa continuava entretida com o Dr. Rob.

— Não, ele não fala — dizia ela. — E é pena.

— Acho que faz muito bem — volveu o médico, depois de ponderar no caso. — Isso é bom para as aves vulgares. Agora, ficar silencioso e ter um bico daqueles denota a profundeza do juízo de que dispõe.

— Ah, quando o senhor for a Overdene há-de ouvir Tommy, a minha arara! Que julga que ela diz quando eu desço a escada com o meu chapéu de jardinar?

— Sabes a história de Tommy, dize minha senhora? — perguntou Garth à mulher, em voz baixa.

— Não, e gostava de a ouvir...

— Pois amaldiçoo quem a contar! És capaz de olhar para o relógio, disfarçadamente, e de me dizeres que horas são?

— Impossível. Daqui não vejo o relógio, e não me atrevo a consultar o meu.

— Por que é este silêncio?

— Acabou a anedota da arara. E o tucano está a beber champanhe pela taça da tia Georgina.

— É um pecado dar champanhe a uma ave inocente — observou Lady Brand.

— O quê? Inocente? — observou Garth. — Nenhuma das aves da Duquesa é inocente. Tommy... essa merece ir para o Inferno! Conhece a história do termómetro?

— Cala-te, Garth — acudiu Jane. — Não recordes nada contra Tommy. Bem basta o que lhe sucede agora.

Dizendo isto trocou um olhar com Deryck. É que havia na carreira de Sir Brand um episódio ignorado por Flower e cuja lembrança mortificava o especialista.

Por fim, aconteceu o inevitável. O champanhe produziu súbito efeito no tucano. Com um grito profundo, semelhante ao berro dum carneiro desesperado, mas ampliado umas poucas de vezes, o animal atroou os ares, saltou para as costas da Duquesa e começou a debicar-lhe a cabeleira postiça.

A dona assestou a luneta de cabo, mas o seu algoz estava fora do alcance. E, a cada puxão daquele bico enorme e esverdeado, a cabeleira sofria grandes tratos...

— Alguém que o tire daqui! — gritou ela. Simpson, porém, declinou desta vez a sua identificação com a palavra «alguém». Fugiu precipitadamente para trás do biombo e ficou lá a espreitar através duma frincha.

Sir Deryck levantou-se, chegou junto da Duquesa e agarrou o tucano com as duas mãos. Depois, com grande presença de espírito, meteu-lhe um dedo no bico a ver se a ave largava a presa, que era a cabeleira da dona. Como o bico monstruoso se fechasse sobre o dedo, Flower soltou uma exclamação de horror.

— Não há perigo — disse Sir Brand, rindo e metendo o tucano na sua gaiola. — Estes bicos, grandes como vêem, são inofensivos se se lhes põe o dedo com cuidado. Não têm poder de alavanca. Assim falando, deu a volta à mesa e mostrou à mulher que o dedo estava intacto.

— O meu cabelo! — exclamou a Duquesa, desejosa de classificar melhor o seu adorno capilar. — Que atrevida ave! E tão de repente... Obrigada, Sir Deryck — acrescentou quando o especialista se sentou a seu lado. — Oxalá não lhe tenha feito mal. Não consente que o afastem de mim. É tão afectuoso...

— Se fôssemos até ao jardim? — propôs Jane, lembrando-se de repente que era a dona da casa. — As carruagens estão prontas há mais duma hora. Flower, vou acompanhá-la até à colina. Tia Gina, quer o café no terraço? E o senhor, Dr. Rob? Deryck, Garth gostava de dar uma volta contigo.

Meia hora depois Sir Deryck procurou Jane, que estava à porta da biblioteca, defronte do jardim, entre a Duquesa e Flower:

— Jeanette, podes dispensar-me quinze minutos? Jane levantou-se logo.

— Às ordens, Dicky. Mereces todas as atenções.
 

— VAMOS para o mesmo ponto do pinhal onde passei momentos críticos entre dois cegos — propôs Deryck Brand.

— Já disseste a Garth o que sabias nessa altura? — indagou Jane.

— Já. E ele desculpa-nos a ambos; diz que se lembra de todas as palavras de cada conversa, e que tanto tu como eu nos conservámos dentro da verdade, se não em espírito pelo menos nas frases pronunciadas. Declarou-me que Rob era o único mentiroso.

— Coitado do Dr. Rob! No fim de contas, foi ele quem salvou a situação.

Tinham chegado à clareira, onde se encontravam as duas árvores derrubadas, e sentaram-se no tronco em que Jane estivera de olhos vendados, quando o fósforo aceso lhe caíra na mão. Desceu um silêncio sobre eles. A lealdade e afeição de anos, que haviam atravessado tantas provas, deviam sobreviver à desse dia, o qual, no entanto, custara mais a Deryck do que ele supusera. E havia uma coisa que o médico queria dizer a Jane, para se poder separar dela de coração leve.

— Jeanette — começou na sua voz profunda e calma, tão semelhante à de Jane — lembras-te como me mostrei impertinente nessa manhã, depois da minha conversa com Dalmain na véspera à noite? Estava rabugento, inferior, irritante... e tu aí sentada, de olhos tapados, às escuras...

Jane sorriu.

— Oh, não foi tão mau como isso, Dicky! O que estavas era vexado pela minha teimosia em recusar tirar a venda antes de te ires embora. Não me pareceste irritante, meu velho, nem rabugento, mas simplesmente um pouco menos sensato e calmo do que costumas ser. Direi até muito menos. A que propósito te lembraste disso agora?

— Jeanette, não fui absolutamente franco contigo, deixando-te supor que estava somente preocupado com as tuas aflições e as dele. Mas a verdade é que Dalmain me disse uma coisa a teu respeito, coisa que se me insinuou no espírito e me estragou o dia. Nessa ocasião não pude falar-te nisso.

— Uma coisa que Garth disse a meu respeito? — repetiu Jane, atónita. Então, como se a menção do nome dele fosse o bastante para alargar os diques da sua ternura, os lábios entreabriram-se-lhe num sorriso e às faces subiu-Ihe uma onda de rubor. — Que disse de mim o meu marido?— perguntou ela serenamente.

Era a primeira vez que o designava assim, desde que tinham casado.

O médico fitou-a, e respondeu lentamente: — Falou de ti como sendo a «mulher única», julgando sempre que eu não fazia ideia de quem se tratava. Parecia saber tudo a teu respeito, e disse que estava certo de que nunca amaras verdadeiramente nem te sentiras amada até àquela noite em que vocês se encontraram no terraço. No entanto, tinha a impressão de que... há muitos anos... houvera qualquer rapaz de quem fizeras o teu ideal, isto é, uma espécie de bitola por onde regulavas os outros; e que se esse rapaz não tivesse sido insensato poderia ter conquistado... o que Dalmain conquistou hoje. Não acredito nisto, Jeanette, pois se houvesse um homem que tivesse a felicidade de ser amado por ti, seria impossível que não desse por isso.

A testa de Brand estava coberta de gotas de suor.

Jane voltou-se de repente para ele e, soltando uma gargalhada de puro divertimento, colocou a mão esquerda, onde luzia a aliança, sobre a do médico.

— Ah, meu velho e sincero amigo! Começo a perceber. Serei absolutamente franca contigo, e nenhuma nuvem ofuscará a nossa amizade através da radiante perspectiva do futuro que se anuncia feliz. Garth tinha absoluta razão. Houve um homem de quem fiz o meu ideal; e ainda faço, mesmo que ele seja impertinente (nunca o é) ou um tanto louco (só o foi uma única vez na sua vida sensatíssima). Mas jamais me deu origem a uma enxaqueca. O que acontece às vezes é que o meu coração se dói por causa dele, pois não é tão feliz quanto devia ser. Se me tivesse pedido em casamento, teria respondido «sim», pois nunca me passou pela cabeça recusar-lhe fosse o que fosse ou investigar a justeza do seu julgamento. É certo que não fazia a menor ideia, nesse tempo, do que era o amor. Mas ele não seria feliz e eu também não o seria, porque somos demasiado parecidos para nos juntarmos no matrimónio. Discutiríamos sobre todos os pontos e as nossas divergências seriam de graves consequências. Metade do tempo insistiria para que fizesse de mim o seu capacho, e na outra metade censurá-lo-ia por ter feito tal coisa. Enfim, tudo elementos para uma esplêndida amizade, mas incapazes de produzirem um casamento bem sucedido. Ah, Dicky! Não te importes com os tais insensatos que julgas haverem-me desprezado outrora. Ninguém me desprezou, mas eu fiquei apta para conceber um ideal que me preservou dos homens inferiores e dos amores mesquinhos e que me trouxe intacta, protegida e ignorante através dos anos de adolescência e de nubilidade até à portentosa maravilha do dia de hoje.

O médico olhou para a aliança de oiro que reluzia naquela mão forte e generosa.

— Obrigado, Jeanette — disse; e então exclamou inesperadamente: — Oh, gostaria tanto que ele não fosse cego! Impressiona-me ver-te sacrificada à cegueira...

— Cala-te — atalhou Jane, com brandura; e a luz do seu olhar era quase divina. — Pisas um chão sagrado e esqueces-te de tirar os sapatos. Uma das coisas mais consoladoras que este dia consagrou entre mim e meu marido é termos aprendido a beijar essa cruz.

Jane ergueu-se e ficou a olhar, por cima do vale, para a colina purpúrea e distante. Depois virou-se, encarou Deryck e colocou as mãos sobre as dele.

— Adeus, meu amigo — disse ela. — Agradeço-te haveres-me feito aquela pergunta com tanta franqueza. Mais ninguém seria capaz de proceder assim. Um dia, Garth poderia contar-me o que disse a ti e eu talvez me afligisse no receio de que houvesse um mal-entendido da tua parte. Mas a verdade é que, durante todos esses longos anos, só me deste auxílio e benefício sem jamais me haveres atormentado. Agora vamo-nos. Quanto te agradecemos teres desviado a Duquesa! Imagina que ela tencionava ficar aqui para assistir à lua-de-mel. Bem sabia que virias salvar-nos. Sabes sempre manejar os outros... e seguir o teu próprio caminho. Só a maneira como agarraste aquele tucano embriagado!

— Jeanette — observou Sir Deryck, quando se aproximavam de casa — este é o dia do teu casamento e, como sabes, as noivas têm certos privilégios. No vestíbulo, quando Flower e o teu marido estiverem presentes, posso despedir-me de ti com um beijo?

— Meu caro Dicky, esse teu desejo é-me deveras simpático. Mas, se não te importas, preferia que não o fizesses. Em primeiro lugar, porque sempre fui avessa a beijos, achando muito mais acertado um aperto de mão. Em segundo lugar, porque seria pena estragar a bela recordação a que te referiste no consultório, da última vez que lá estive: disseste que me conhecias há tanto tempo sem jamais ter feito nada dessas coisas desnecessárias e inúteis. E em terceiro lugar — acrescentou Jane, dando à voz um tom mais terno e profundo — em terceiro lugar não me importo de te dizer, Deryck, que desejo poder declarar a Garth, se me perguntar, que nenhum homem, salvo ele, me beijou. Compreendes?

— Compreendo muito bem — assentiu o médico.

Ao dizer isto, esboçou-se-lhe nos lábios um sorriso estranho. Chegaram a casa. Sir Deryck ficara a saber tudo o que queria, e talvez um pouco mais. Não era fácil ser sempre amigo dum noivo; mas era mais difícil ainda ser amigo duma noiva. Olhando para o botão de rosa que tinha na lapela, notou que não havia murchado; pelo contrário, desabrochara numa linda flor. De coração aliviado, Sir Deryck Brand foi ao encontro da sua adorável Flower. E, na companhia dela, regressou ao lar.
 

LUAR no terraço — luz branca, prateada, serena. Garth e Jane penetraram na zona luminosa, e, achando que a noite estava tépida e tranquila e que os rouxinóis enchiam os bosques de música deliciosa, transportaram as cadeiras em que se costumavam sentar junto do fogão e colocaram-nas próximo do guardapeito do terraço a fim de escutarem os sons da noite melodiosa.

A solidão era perfeita, a calma completa. Garth tirou a almofada da cadeira, pô-la no chão e instalou-se aos pés da mulher, com a cabeça encostada aos joelhos dela. Jane acariciou-lhe os cabelos levemente, enquanto falaram. De vez em quando ele apoderava-se da mão da esposa, levava-a aos lábios e beijava o anel que nunca tinha visto.

Longos e ternos silêncios pairavam entre eles. Agora, que estavam finalmente sós, sentiam-se demasiado felizes para falarem; o silêncio parecia ser mais expressivo do que quaisquer palavras, Garth, porém, nem por um instante consentia Jane fora do alcance da sua mão. O que para outro seria: «não posso deixar de a ver» era para ele: «não posso deixar de a sentir junto de mim». Jane compreendia a necessidade de Garth e sentia-se tão feliz como ele nessas doces carícias. Quantas vezes, durante aquelas longas semanas de expectativa, sentira desejos de o estreitar nos braços e nem sequer se atrevia a tocar-lhe na mão!

Cantava um rouxinol não muito longe. Garth, num assobio trinado, imitou-o na perfeição.

— Isso lembra-me certa música que gostaria de te ouvir cantar — disse Jane. — Não sei como se chama, mas com certeza te recordarás qual é. Cantaste-a na segunda-feira à noite, depois de eu ter visto os quadros e a enfermeira Rosemary os haver descrito. Os nossos pobres corações estavam cheios de angústia. Recolhi-me cedo ao quarto para redigir a minha confissão, e, enquanto a escrevia, ouvi-te tocar piano na biblioteca. Começaste por músicas conhecidas, que noutros tempos havíamos executado juntos, mas depois ouvi uma coisa absolutamente nova para mim, duma doçura maravilhosa. Parei de escrever e pus-me à escuta. Por diversas vezes tocaste o mesmo tema com algumas variantes, como se estivesses a tentar recordar-te da música completa. Depois, com alegria minha, puseste-te a cantar. Atravessei então o meu quarto, abri devagarinho a janela e debrucei-me para ouvir melhor. Distingui algumas palavras, mas não todas. Contudo, houve dois versos que percebi perfeitamente, impregnados de tanta ternura e melancolia que apoiei a cabeça no rebordo da janela e senti desejos de não escrever confissão nenhuma e ir dizer-te tudo de viva voz, para não esperar mais tempo.

Garth puxou para si a querida mão que segurava a pena naquela noite e beijou-lhe docemente a palma.

— E que versos eram, Jane? — perguntou.

— Eram estes, Garth:

Ó Cristo, quando tudo terminar,
Conduzi-nos ao porto

― Ah, meu amor, que sentimento o destas palavras «quando tudo terminar»! Fosse quem fosse que escreveu isso, devia ter sofrido tanto como nós. Depois vinha um tema de esperança e alegria tão comunicativas que me encheu de coragem, e retomei a pena e continuei a carta. Em seguida, ouvi mais dois versos:

Aonde vós, eterna Luz das Luzes,
Sois o Senhor de Tudo!

Que é isto, Garth? E de quem é? Onde ouviste? Queres cantar agora para eu ouvir? Invadiu-me um desejo doido de te escutar nessa música e nessa letra, e não posso esperar.

Garth riu-se, num riso breve em que se misturava toda a espécie de emoções.

— Jane, gosto de ouvir-te dizer que não podes esperar. Não costumas ser assim: és cheia de paciência. No entanto, é muito teu, isso de não ocultares o que pensas. Descobri a letra num hinário da Catedral de Worcester, o ano passado durante as vésperas. Copiei-a na minha agenda, na altura do sermão, até tenho vergonha de o confessar! Mas não perdi muito, porque era tudo a respeito do que disse Balac a Balaão e Balaão a Balac. De maneira que espero ser perdoado... Quanto aos versos, pareceram-me dos mais belos que jamais lera, e logo os decorei. Se tanto o desejas, não tenho dúvidas em cantar esse hino, mas receio que, sem acompanhamento, seja fraco o efeito... A verdade, porém, é que ninguém me arranca daqui, neste momento!

Soergueu-se, ao luar, de costas para Jane, e, de mãos cruzadas sobre os joelhos, pôs-se a cantar. O longo treino acrescentara maior doçura e desembaraço à sua voz, de modo que deu à música toda a expressão que a letra implicava:

A manhã radiante já passou,
Todo o seu oiro cedo consumiu;
Densas sombras dum dia moribundo
Mais uma vez se arrastam.
 
A nossa vida é apenas uma aurora
Pálida, e o meio-dia vem depressa!
Ó Cristo, quando tudo terminar,
Conduzi-nos ao porto.
 
Lá onde anjos e santos são vestidos
De imaculada alvura, e não há noite.
Aonde vós, eterna Luz das Luzes,
Sois o Senhor de Tudo!

A adoração que se revelava no último verso vibrou na noite e repercutiu ao longe. Garth soltou as mãos e recostou-se nos joelhos da mulher, visivelmente satisfeito.

— Admirável! — exclamou Jane. — Garthie, talvez seja por teres sido tu a cantar, ou por causa desta noite... mas o certo é que me parece a coisa mais bela que até hoje ouvi! E tão própria para nós... neste dia especial!

— Oh, não sei — volveu Garth, estendendo as pernas e pondo os pés um sobre o outro. — Se me sinto conduzido «ao porto» não é porque «tudo tenha terminado» mas porque tenho tudo, tendo-te a ti, Jane.

Esta inclinou-se e tocou com a face na cabeça do marido.

— Tens tudo o que tenho para te dar... tudo, tudo. Mas, nestes dias sombrios que passaram, tudo pareceu terminado para nós ambos. «Ó Cristo... conduzi-nos...» Foi Ele que nos conduziu através da noite e nos trouxe até cá... Ah, Garth, que consolação é saber que Ele é o Senhor de Tudo: o Senhor da nossa alegria, do nosso amor, da nossa vida... da nossa vida de casados! Não poderíamos ser tão seguramente, tão bem-aventuradamente um do outro, se não fôssemos um só, n’Ele. Não achas isto verdadeiro?

Garth buscou-lhe a mão esquerda, puxou-a para si e encostou-a à face; depois, foi rodando devagarinho a aliança, beijando-a em toda a volta.

— Sim, e peço a Deus que possa dizer sempre: «...Vós, eterna Luz das Luzes, sois o Senhor de Tudo!»

Seguiu-se um silêncio longo e suave. De repente, Jane disse:

— Ah, e a música, Garthie! Quem é o autor daquela linda música?

Garth riu-se outra vez, com um riso onde se misturavam acanhamento e satisfação.

— Ainda bem que gostaste, Jane — disse ele — pois fui eu quem compôs essa música. No hinário só havia a letra. Naquela tarde terrível, em que a pequena Rosemary me falou tanto da «senhora retratada», e me disse o que o amor dela devia ser, e o que havia de ser, e o que podia ser, e me descreveu o quadro de A Esposa e... a outra pintura, senti-me tão triste, tão isolado! Ocorreram-me então ao espírito estas palavras consoladoras: «Ó Cristo, quando tudo terminar, conduzi-nos ao porto»... porque me parecia que tudo terminara para mim neste mundo.

Garth ergueu-se um pouco mais, de modo a ficar com a cabeça apoiada no peito de Jane, e acrescentou:

— Eis o meu porto de abrigo. — Ficou um momento calado, uma alegria indizível, mas depois, lembrando-se do que estava a dizer, prosseguiu: — Recordei-me da letra do hino e, para afugentar a minha tristeza, comecei a recitá-la, com um acompanhamento de acordes.

A manhã radiante já passou,
Todo o seu oiro cedo consumiu;
Densas sombras dum dia moribundo...

E então, Jane, de repente, vi isto em som! Tal como eu costumava ver um pôr-do-Sol, em luz e sombra, e depois o transferia para a tela em desenho e cor, assim ouvi um pôr-de-Sol em gamas de harmonia, e senti a mesma espécie de latejo nos dedos que costumava sentir quando me vinha a inspiração e percebia que era esse o momento propício para agarrar na paleta e nos pincéis... Pus-me então a reproduzir em sons o pôr-do-Sol. Em seguida compus a música para a vida que se vai desvanecendo, esforçando-me por reproduzir os sentimentos que nos dominam quando o dia finda e a escuridão tudo envolve. Depois, ouvi uma visão do céu, onde as sombras da noite nunca descem, e onde só há paz e amor... Foi assim que compus a música. Era como se estivesse a fazer estudos para uma pintura. Por isso me ouviste tocar como se tentasse recordar-me... Mas não, pretendia apenas conseguir a forma definitiva. Sinto-me contentíssimo por teres gostado, Jane; talvez possas escrever a música e a queiras cantar, acompanhando-te eu ao piano... Oh, começa a chover?! Caiu-me um pingo na cara, e outro na mão.

Nenhuma resposta. Garth percebeu então que Jane estava a chorar.

— Jane! — exclamou ele, ajoelhando em frente da mulher. — O que tens, meu amor? Disse-te alguma coisa que te magoasse? Jane, o que tens? Oh, meu Deus, porque não posso vê-la?!

Com grande esforço, Jane dominou a comoção e, obrigando-o a sentar-se, falou no tom mais natural que pôde:

— Sossega, meu querido. Choro de alegria, de pura alegria. Encosta-te a mim outra vez, que vou explicar-te. Sabes que compuseste uma das mais belas músicas do mundo? Sabes, meu amor, que não só a tua feliz e orgulhosa esposa como todas as cantoras quererão cantar a tua música? Garthie, compreendes o que isto significa? O teu poder criador é tão forte que, tendo-lhe sido negada uma saída, irrompeu de outro modo. Quando possuías vista, criaste através dos olhos e das mãos; agora através das mãos e do ouvido. A força criadora é a mesma; simplesmente, trabalha noutro campo. Imagina o que isto representa! Imagina! Tens de novo o mundo à tua frente.

Garth riu, passou a mão por aquele rosto querido ainda húmido de lágrimas e exclamou:

— Que me importa o mundo! Só quero a minha mulher. Jane estreitou-o a si. Ah, que ar de garoto ele tinha às vezes! Que jovialidade a sua! Nessa ocasião sentia-se muito mais velha do que o marido; isso, porém, não a afligia nada. Assim, melhor o envolveria na sua ternura; defendê-lo-ia das desilusões e ajudá-lo-ia a tirar o melhor partido dos seus grandes dons.

— Bem sei, querido — retorquiu Jane — e ela é toda tua. Mas pensa no futuro, que se apresenta maravilhoso. Graças a Deus, conheço suficientemente a técnica da música para escrever as tuas composições. Imagina, Garth, quando formos juntos às catedrais e ouvirmos o teu hino. E aos concertos onde as mais belas vozes interpretarão as tuas canções. Corações comovidos da pura harmonia, almas impressionadas pelos sons evocadores... exactamente como antes, quando tu os costumavas despertar pela beleza das tuas pinturas!

Garth ergueu a cabeça.

— É assim tão bom, Jane?

— Só te digo que, ao ouvir pela primeira vez essa música, pensei: «É a mais bela coisa que até hoje me foi dado escutar!» E não fazia a menor ideia de que fosse tua.

— Sinto-me satisfeito — retorquiu Garth. — E agora, falemos de outra coisa. Escuta, Jane. O presente é tão belo que me parece melhor não fazermos projectos para o futuro. Falemos, pois, da hora que passa.

Jane sorriu, com o mesmo sorriso de A Esposa: enigmático, terno, compassivo. Inclinando-se sobre o marido, ficou algum tempo com o rosto encostado à cabeça dele.

— Pois sim, falemos do presente, se é essa a tua vontade. Começa tu.

— Olha para a casa e descreve-a, precisamente como a vês ao luar.

— Acinzentada, calma, pacificadora. Como o nosso lar deve ser, Garthie.

Há luz nas janelas?

— Há. A habitação está iluminada, tal qual como a deixámos. A porta está aberta. O candeeiro de suporte, com o seu quebra-luz de seda escarlate, parece mais bonito visto daqui. Espalha uma claridade tépida no interior. Na casa de jantar avisto também uma luz. Simpson deve estar a guardar as pratas.

— E que mais, Jane?

— Outra luz no quarto de varanda. Vejo Margery andar cá e lá. Calculo que esteja a arrumar as minhas coisas, a dar-lhe os retoques finais. O teu quarto, a seguir, também está iluminado. Ela agora foi para lá, distingo-a a olhar em volta, a ver se tudo se encontra no seu lugar... Coitada da Margery! É tão agradável estarmos em nossa casa, servidos por gente que nos estima deveras!

— Alegra-me bastante que penses dessa forma, Jane. Estava com medo que lastimasses não ter uma lua-de-mel como os outros. Ah, não, não receava nada!... Pois se estamos juntos, que mais podemos desejar? Não és minha mulher? Temos tudo o que quisermos.

— Tudo.

Ouviu-se um relógio dar nove horas.

— Querido e velho relógio — murmurou Garth. — Ouvia-o também dar nove horas, quando estava deitado, em pequenino. Antes que a minha mãe atravessasse para o seu quarto, eu fazia esforços por não dormir. A porta de comunicação ficava entreaberta e eu via, no tecto do meu quarto, uma faixa luminosa projectada pela vela. A olhar para essa faixa, adormecia então. Sentia-me tão seguro sabendo que minha mãe estava ali perto! O quarto de varanda agrada-te, Jane?

— Agrada-me, sim. É lindo, e mais valioso por ter sido dela. Imagina que a tia insistiu em vê-lo, e declarou que o devíamos mandar caiar e cobrir de papel novo. Mas recusei-me a isso. Esse tecto antigo foi pintado por um artista, como as paredes, e eu tinha a certeza de que tu, em pequeno, apreciavas essas pinturas. Ainda te deves lembrar delas.

— Lembro-me muito bem. Foi um pintor francês, que esteve cá um tempo, quem as fez: água, caniços, lindos flamingos... Os das paredes têm os pés dentro de água, os do tecto voam de asas muito abertas num céu verde-pálido, acima de flocos de nuvens brancas. Jane, sou capaz de dar a volta a esse quarto, de olhos fechados... ou, melhor, como estou agora, e apontar o sítio exacto de cada flamingo.

— Decerto — volveu Jane, em voz magoada. Aqueles esquecimentos de Garth a respeito da sua cegueira pungiam-lhe sempre o coração. — A pouco e pouco ir-me-ás contando tudo o que fazia o teu encanto. Sentirei o mesmo que tu então sentias. Sempre foi teu esse quarto contíguo ao da tua mãe?

— Tanto quanto me posso lembrar. A porta de comunicação estava sempre aberta. Depois da morte da mãe, fechei a porta à chave. Mas na véspera do meu dia de anos costumava abri-la, e, ao acordar de manhã cedo, via-a entreaberta, levantava-me e ia logo lá... Parecia-me que essa querida morta estava viva e presente para me felicitar, naquela manhã... Mas tinha de saltar da cama logo que despertasse, como quem quer ver o ardor róseo do sol nascente nas nuvens que se desvanecem rápidas, ou o brilho do orvalho nas teias de aranha, nos ramos de urze... O caso é que Margery deu fé do que eu fazia e, à terceira vez, achei uma folha de papel presa numa pregadeira com um alfinete grande de cabeça preta. Na caligrafia bem pautada de Margery, lia-se o seguinte: «Que este dia feliz se repita por muitos anos, Garthie!» Quanta diplomacia naquela ideia! Chegava a comover. Mas o caso é que me destruiu a ilusão. Desde esse ano a porta ficou fechada.

Seguiu-se outro silêncio demorado e consolador. Nas árvores distantes, dois rouxinóis cantavam ao desafio, em trinos melodiosos.

Garth fez girar de novo a aliança do dedo de Jane e encostou-lhe os lábios.

— Disseste que Margery passara dum quarto para o outro. A porta está, pois, aberta esta noite?

Jane apertou as mãos fortes e amplas, que tremiam um pouco, em roda da cabeça de Garth, e atraiu-a a si, tal como fizera no terraço de Shenstone, três anos antes.

— Sim, está aberta — respondeu ela.

— Jane, Jane!

Garth desembaraçou-se das mãos que o cingiam e ergueu o rosto para encarar o da mulher.

Então, de súbito, Jane sucumbiu à comoção.

— Ah, meu querido, leva-me deste luar, que já não suporto! Faz-me lembrar Shenstone, e todo o mal que te fiz. Parece um obstáculo entre mim e ti. Cruel brancura de que não podes compartilhar!

Sobre a face dele tombaram as lágrimas de Jane. Garth pôs-se então de pé, num movimento repentino, movido pela sensação da sua virilidade, pelo direito do mando, pela alegria da posse. Ele era o mais forte mesmo na sua cegueira. Jane devia curvar-se-lhe, em tudo que fosse essencial, embora ele estivesse desamparado em muitas outras coisas. Levantou-a mansamente, rodeou-a com os braços e, glorificado pelo seu grande amor, murmurou: — Escuta, minha bem-amada, nem a luz nem as trevas nos poderão separar. Este luar plácido não conseguirá arrancar-te de mim, e na escuridão perfeita e calma tu serás mais completamente minha, sem nada que nos divida. Vamos, apaguemos as luzes, corramos os reposteiros. Sentar-te-ás no sofá, junto do piano, como estavas naquela noite inesquecível em que quase te assustei, minha corajosa Jane. Agora não te assustarás, pois és minha inteiramente, e farei o que for da minha vontade, e direi o que quiser. Não haverá o perigo de surgir a enfermeira Rosemary. És tu, Jane, quem eu quero, tu só! Vem, meu amor. E eu, que vejo tão claramente nas trevas como vi à claridade, sentar-me-ei para tocar  O Rosário em tua honra. E depois o Veni, Creator Spiritus, e cantarei os versos que foram a fonte secreta da paz e a força que me sustentou a vida interior nestes longos e duros anos em que vivi sozinho.

— Canta — suspirou Jane — enquanto vamos.

Garth pôs a mão dela sobre o seu braço; e, enquanto seguiam, cantou em voz baixa:

Com a vossa eterna luz
Desfazei nossa cegueira.
Sustentai nossa fraqueza
Co’a vossa graça abundante...

Assim, apoiando-se ao marido e entretanto guiando-o, Jane encaminhou-se para a perfeita felicidade da sua vida conjugal.

Fim.
 

ϟ

fotografia de Florence L. Barclay

excerto de

O ROSÁRIO
Florence Barclay
Título original: THE ROSARY
G.P. Putnam's Sons
Londres, 1909 - 1.ª edição
Traduzido por:  Maria Franco
Editorial Minerva, 6.ª edição -   Lisboa, 1970
 


Δ

27.Jan.2012
Publicado por MJA