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 Sobre a Deficiência Visual


O Nome da Rosa

Umberto Eco

-excerto-

Jorge de Burgos: imagem do filme

 

E foi enquanto todos ainda riam que ouvimos atrás de nós uma voz, solene e severa.

― Verba vana aur risui apta non loqui.

Voltámo-nos. Quem tinha falado era um monge curvado pelo peso dos anos, branco como a neve, não digo só o cabelo, mas também o rosto, as pupilas. Reparei que era cego. A voz era ainda majestosa e os membros potentes, embora o corpo tivesse encolhido ao peso da idade. Fixava-nos como se nos visse, e sempre também em seguida o vi mover-se e falar como se possuísse ainda o dom da vista. Mas o tom da voz era, pelo contrário, de quem possui só o dom da profecia.

― O homem venerando em idade e sapiência que vedes ― disse Malaquias a Guilherme, indicando-lhe o recém-chegado ― é Jorge de Burgos. Mais velho do que quem quer que viva no mosteiro, salvo Alinardo de Grottaferrata, ele é aquele a quem muitíssimos dos monges confiam a carga dos seus pecados no segredo da confissão.

Depois, dirigindo-se ao velho ― Aquele que está diante de vós é frade Guilherme de Baskerville, nosso hóspede.

― Espero que não vos tenhais zangado pelas minhas palavras ― disse o velho em tom brusco. ― Ouvi pessoas que riam de coisas risíveis e recordei-lhes um dos princípios da nossa regra. E como diz o salmista, se o monge se deve abster dos discursos bons pelo voto do silêncio, com muito maior razão deve subtrair-se aos discursos maus. E tal como existem discursos maus existem imagens más. E são aquelas que mentem acerca da forma da criação e mostram o mundo ao contrário daquilo que deve ser, sempre foi e sempre será nos séculos dos séculos até à consumação dos tempos. Mas vós vindes de outra ordem, onde me dizem que é vista com indulgência até a jovialidade mais inoportuna.

Aludia àquilo que entre os beneditinos se dizia das extravagancias atribuídas a São Francisco de Assis e talvez também das extravagancias atribuídas a fraticelli e espirituais de toda a espécie, que, da ordem franciscana, eram os mais recentes e embaraçosos rebentos. Mas frade Guilherme deu mostras de não perceber a insinuação.

― As imagens marginais induzem muitas vezes a sorrir, mas com fins de edificação ― respondeu. ― Como nos sermões para tocar a imaginação das piedosas multidões é preciso inserir exemplos, não raro facetos assim também o discurso das imagens deve permitir estas nugae. Para cada virtude e para cada pecado há um exemplo tirado dos bestiários, e os animais fazem-se figura do mundo humano.

― Oh, sim ― motejou o velho, mas sem sorrir —, toda a imagem é boa para estimular a virtude, para que a obra-prima da criação, posta de cabeça para baixo, se torne matéria de riso. E assim a palavra de Deus manifesta-se através do burro que toca lira, do tolo que lavra com o escudo, dos bois que se atrelam sozinhos ao arado, dos rios que correm ao contrário, do mar que se incendeia, do lobo que se faz eremita! Caçai a lebre com o boi, mandai ensinar gramática pelas corujas, que os cães mordam as pulgas, os cegos olhem para os mudos e os mudos peçam pão, a formiga dê à luz um vitelo, voem os frangos assados, as fogaças cresçam nos telhados, os papagaios dêem lições de retórica, as galinhas fecundem os galos, metei o carro adiante dos bois, ponde o cão a dormir na cama e que todos caminhem de pernas para o ar! Que querem todas estas nugae? Um mundo invertido e oposto ao estabelecido por Deus, sob o pretexto de ensinar os preceitos divinos!

― Mas o Areopagita ensina ― disse humildemente Guilherme ― que Deus só pode ser nomeado através das coisas mais disformes. E Hugo de São Vítor recorda-nos que, quanto mais a similitude se faz dissímil, tanto mais a verdade nos é revelada sob o véu de figuras horríveis e indecorosas, tanto menos a imaginação se aplaca no gozo carnal e é obrigada a colher os mistérios que se ocultam sob a turpitude das imagens...

― Conheço o argumento! E admito com vergonha que foi o argumento principal da nossa ordem, quando os abades clunicenses se batiam contra os cistercienses. Mas São Bernardo tinha razão: pouco a pouco o homem que representa monstros e portentos da natureza para revelar as coisas de Deus per speculum et in aenigmate toma gosto na própria natureza das monstruosidades que cria e deleita-se com elas, e por elas, e já não vê senão arravés delas. Basta que olheis, vós que ainda tendes vista, para os capiréis do vosso claustro ― e apontou com a mão para fora das janelas, na direcção da igreja ―, sob os olhos dos frades absorvidos na meditação, que significam aquelas ridículas monstruosidades, aquelas disformes formosuras e formosas deformidades? Aqueles sórdidos macacos? Aqueles leões, aqueles centauros, aqueles seres semi-humanos, com a boca no ventre, com um só pé, com orelhas de abano? Aqueles tigres malhados, aqueles guerreiros em luta, aqueles caçadores que sopram o corno, e aqueles múltiplos corpos numa só cabeça e muitas cabeças num só corpo? Quadrúpedes com cauda de serpente, e peixes com cabeça de quadrúpede, e aqui um animal que pela frente parece um cavalo e por trás um bode, e além um equino com cornos e assim sucessivamente. Agora é mais agradável para um monge ler os mármores do que os manuscritos, e admirar as obras do homem em vez de meditar sobre a lei de Deus. Tende vergonha pelo desejo dos vossos olhos e pelos vossos sorrisos!

O grande velho parou arquejando. E eu admirei a viva memória com que, talvez cego há tantos anos, ainda recordava as imagens de cuja turpitude nos falava. Tanto que suspeitei que elas o tinham seduzido muito quando as tinha visto, se sabia descrevê-las ainda com tanta paixão. [...]

FIM

 

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Em 'O Nome da Rosa', Umberto Eco retrata um episódio, passado durante a Idade Média, no qual o riso era considerado, pela Igreja, um pecado. O enredo gira em torno das investigações de uma série de crimes misteriosos, cometidos dentro de uma abadia medieval. O investigador, o frade franciscano Guilherme de Baskerville, assessorado pelo noviço Adso de Melk, vai a fundo nas suas investigações, apesar da resistência de alguns dos religiosos do local, até que desvenda que as causas do crime estavam ligadas à manutenção de uma biblioteca que mantém em segredo obras apócrifas, obras que não seriam aceites pela igreja cristã da Idade Média. Sobre o título escolhido, sugeriu-se que Eco se tenha inspirado nas referências de Borges, que disse: "...quem viu o Zahir pronto verá uma rosa: o Zahir é a sombra da rosa e o rasgo do Velo". Wikipedia

A personagem Jorge de Burgos, criada por Humberto Eco, é uma homenagem a Jorge Luis Borges. Além da semelhança no nome, é também cego, como Borges foi ficando ao longo da vida. Também a biblioteca que serve como plano de fundo do livro é inspirada no conto de Borges "A Biblioteca de Babel" - uma biblioteca universal e infinita que abrange todos os livros do mundo.



trailer de »O Nome da Rosa« de Jean-Jacques Annaud (1986)

 

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-excerto- de

O Nome da Rosa
Umberto Eco
título original: Il nome della rosa (1980)
tradução: Maria Celeste Pinto
edição: Difel, 1983


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25.Abr.2014
Publicado por MJA