Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual


No Extremo Limite

-The End of the Tether-

Joseph Conrad

The Blind Sea Captain - Walter Richard Sickert, 1914
The Blind Sea Captain - Walter Richard Sickert, 1914

 

I

Muito depois de o navio Sofala alterar o rumo e aproar a terra, a costa baixa e pantanosa ainda conservava a mesma aparência de uma simples mancha de escuridão por detrás de uma faixa cintilante. Os raios solares incidiam violentamente sobre o mar calmo, parecendo estilhaçar-se contra uma superfície adamantina, e formavam uma poalha cintilante, um vapor ofuscante de luz que cegava a vista e exauria o cérebro com o seu brilho difuso.

O capitão Whalley não olhava nessa direção. Quando o seu serang se aproximara da ampla cadeira de verga que ele enchia com abundância, e lhe comunicara em voz baixa que era necessário alterar o rumo, levantara-se imediatamente e permanecera de pé, de rosto virado para a frente, enquanto a proa do navio descrevia um quarto de círculo. Não pronunciara uma palavra, nem sequer a voz de comando para firmar o leme. Foi o serang, um malaio entrado em anos, vigilante, de baixa estatura e pele muito escura, que sussurrou a ordem ao timoneiro. E então, lentamente, o capitão Whalley voltou a sentar-se na cadeira sobre a ponte de comando e fixou os olhos no pavimento, entre os pés.

Nada de novo esperaria ver naquela área de mar. Percorrera aquelas costas nos últimos três anos. De Low Cape a Malantan eram cinquenta milhas, seis horas de navegação para o velho navio com a maré a favor, sete com ela contra. Depois apontava-se a embarcação direito a terra, e daí a pouco recortavam-se três palmeiras contra o céu, altas e delgadas, com as cabeças desgrenhadas unidas num molho, como se mexericassem em segredo a respeito dos escuros mangais. O Sofala era aproado na direção da escura faixa da costa, que num dado momento, quando o navio se aproximava dela obliquamente, revelava várias fraturas bem definidas e refulgentes: o transbordante estuário de um rio. Depois em frente, através de um líquido castanho, três partes de água e uma de terra negra, e avante por entre as margens baixas, três partes de terra negra e uma de água salobra, o Sofala lá ia sulcando a sua rota rio acima, como fizera uma vez por mês nos últimos sete anos ou mais, muito antes de ele saber da existência de tal navio, muito antes de lhe passar pela ideia que viria a estar ligado a ele e às suas invariáveis viagens. O velho vapor tinha forçosamente de saber melhor o caminho do que a tripulação, que não se mantivera inalterada durante todo esse tempo; melhor do que o fiel serang, que ele trouxera consigo do seu anterior navio para o substituir no turno de vigia; melhor do que ele próprio, que só era seu capitão havia três anos.

Podia-se confiar sempre naquele navio para manter a rota. As bússolas nunca se desafinavam. Mareá-lo não dava cuidados, dir-se-ia que a provecta idade lhe dera saber, sensatez e estabilidade. Arribava ao ponto determinado com grande precisão e quase no exato minuto previsto. A qualquer momento, estivesse ele sentado na ponte de comando sem levantar os olhos, ou estendido na cama sem conciliar o sono, bastava-lhe contar os dias e as horas para saber onde se encontrava, em que ponto exato do trajeto. Ele próprio conhecia bem este monótono circuito de bufarinheiro, percorrendo os estreitos para baixo e para cima; conhecia o itinerário, os panoramas e as gentes. A começar por Malaca, chegada em pleno dia e partida ao crepúsculo, e atravessando em seguida, seguido por uma rígida esteira fosforescente, esta grande estrada do Extremo Oriente. Trevas e clarões na água, estrelas alvas num céu negro, quiçá as luzes de um vapor de retorno a casa, mantendo uma rota constante no meio do estreito, ou talvez a sombra fugidia de uma embarcação nativa de velas de junco esgueirando-se silenciosamente; e do outro lado avistam-se terras baixas quando o dia nasce. Ao meio-dia as três palmeiras do porto de escala que se segue, subindo um rio indolente. O único branco que lá residia era um jovem marinheiro retirado, com quem ele fizera amizade no decurso de tantas viagens. Sessenta milhas à frente havia outro porto de escala, uma baía cavada com um par de casas na praia e mais nada. E assim por diante, chegar e partir, recebendo carga aqui e além ao longo da costa, e terminando com uma travessia de cem milhas seguidas através do labirinto de um arquipélago de pequenas ilhas, até alcançar uma grande cidade indígena, terminal do circuito. Aí o velho navio repousava três dias, até que ele o pusesse de novo em marcha no sentido inverso, vendo as mesmas costas de uma perspetiva diferente, ouvindo as mesmas vozes nos mesmos lugares, e uma vez mais de volta ao porto de registo do Sofala na grande via para o Oriente, onde ocuparia um ancoradouro quase em frente do enorme edifício de pedra da capitania, até chegar o momento de recomeçar o estafado circuito de mil e seiscentas milhas e trinta dias. Não era uma vida muito arrojada, esta, para o capitão Whalley, Henry Whalley, ou então Harry Whalley, o Destemido, do Condor, um veleiro famoso nos seus tempos. Não. Não era uma vida muito arrojada para um homem que servira companhias famosas, que comandara navios famosos (mais do que um de sua propriedade), que fizera famosas travessias e fora pioneiro de novas rotas e novos comércios, que navegara através das extensões não reconhecidas dos Mares do Sul e vira o Sol nascer em ilhas que não constavam dos mapas. Cinquenta anos no mar, quarenta dos quais no Oriente (<<um tirocínio perfeito», costumava dizer sorrindo), tinham-lhe granjeado uma honrosa reputação junto de uma geração de armadores e mercadores em todos os portos, desde Bombaim até às longitudes onde o Oriente se funde com o Ocidente, nas costas das duas Américas. A sua fama ficou registada, não em letras capitais mas bastante nítidas, nas cartas marítimas do Almirantado. Pois não existia, algures entre a Austrália e a China, uma ilha de Whalley e um recife Condor? Naquele perigoso banco de coral o célebre veleiro ficara encalhado três dias, enquanto o capitão e a tripulação atiravam a carga borda fora com uma mão, e com a outra, por assim dizer, mantinham ao largo uma flotilha de pirogas de guerra selvagens. Nesse tempo, nem a ilha nem o recife existiam oficialmente. Foram os oficiais do Fusilier , o navio a vapor de Sua Majestade enviado para fazer o reconhecimento da rota, que perpetuaram, com a adoção desses dois nomes, o arrojo do homem e a solidez do barco. Além disso, como pode comprovar quem o deseje, o General Directory, vol. II, pág. 410, inicia a descrição da «Passagem Malotu ou de Whalley» com as palavras: «Esta vantajosa rota, descoberta pela primeira vez em 1850 pelo capitão Whalley, a bordo do navio Condor», etc., e termina recomendando-a encarecidamente às embarcações à vela que zarpem dos portos da China rumo a sul nos meses de dezembro a abril, inclusive.

Era este o benefício mais claro que obtivera da vida. Nada poderia retirar-lhe esse género de fama. A abertura do istmo de Suez, como se fosse o rebentamento de um dique, derramara sobre o Oriente uma enxurrada de novos navios, novos homens, novos métodos de comércio. Mudara a feição dos mares orientais e o próprio espírito da sua vivência, de tal modo que as experiências temporãs de Whalley não tinham significado absolutamente nenhum para as novas gerações de homens do mar.

Nesses tempos de outrora passaram-lhe pelas mãos muitos milhares de libras, dinheiro seu e dos seus empregadores; servira fielmente, como por lei um capitão deve fazer, os interesses conflituosos de proprietários, fretadores e agentes de seguros. Nunca perdera um navio nem permitira nenhuma transação menos clara; e aguentara-se bem, acabando por sobreviver às circunstâncias que haviam contribuído para fazer o seu nome. Sepultara a mulher (no golfo de Pechili), casara a filha com o homem que ela azaradamente escolhera, e perdera mais do que um chorudo pé-de-meia com a falência da conhecida Sociedade Bancária Travancore e Deccan, cuja ruína abalara o Oriente como um terremoto. E tinha sessenta e sete anos.

 

II

A idade pouco lhe pesava, e de estar na ruína não se envergonhava. Não fora o único a acreditar na estabilidade da Sociedade Bancária. Homens cujo parecer na área das finanças era tão competente como o seu na arte da marinhagem tinham enaltecido a prudência dos seus investimentos, e eles próprios haviam perdido muito dinheiro com a grande falência. A única diferença entre ele e eles era que ele perdera tudo o que tinha. Aliás, não tudo. Restara-lhe, da fortuna perdida, uma linda barca, a Fair Maid, que comprara para ocupar os seus ócios de marinheiro aposentado - «para me entreter», como ele próprio dizia.

Declarara-se formalmente cansado do mar no ano anterior ao casamento da filha. Mas depois de o jovem casal se ter fixado em Melbourne, descobriu que não era capaz de ser feliz em terra. Havia nele tanto de capitão mercantil que navegar simplesmente por desporto não o podia satisfazer. Faltava-lhe a ilusão dos negócios; e a aquisição da Fair Maid garantiu a continuidade da sua vida. Apresentou-a aos conhecidos em diversos portos como «o meu último comando». Quando fosse demasiado velho para ter um navio ao seu cuidado, punha-a no estaleiro e ia para terra para aí ser sepultado, deixando instruções no testamento para que no dia do seu funeral a barca fosse rebocada e dignamente afundada em águas profundas. A filha não lhe negaria a satisfação de saber que depois dele nenhum estranho poria as mãos no seu último comando. Com a fortuna que conseguia deixar-lhe, o valor de uma barca de quinhentas toneladas não enchia nem vazava. Tudo isto era dito com uma chistosa piscadela de olho - o vigoroso velho tinha demasiada vitalidade para se entregar a sentimentalismos pesa rosos -, e também com uma certa melancolia, porque ele estava na vida como peixe na água, colhendo um prazer genuíno daquilo que ela lhe oferecia em sensações e em posses, da dignidade da sua reputação e riqueza, do amor pela filha, e da satisfação que lhe dava o barco - o brinquedo do seu ócio solitário.

Tinha a cabina arrumada em harmonia com o seu ideal simples de comodidade no mar. Uma grande estante (era um leitor dedicado) ocupava um dos lados do camarote; em frente da cama o retrato a óleo da falecida esposa, betuminoso e sem efeito de profundidade, representando o perfil de uma mulher jovem e um longo anel de cabelo negro.

Três cronómetros que o embalavam com o seu tiquetaque e o saudavam ao acordar com o minúsculo desafio dos seus toques. Levantava-se todos os dias às cinco. O oficial de vigia da manhã, enquanto bebia a chávena de café matinal à ré, junto à roda do leme, ouvia através da ampla abertura dos ventiladores de cobre todo o chapinhar, sopros e gargarejos da toilette do seu capitão. A esses ruídos seguia-se o murmúrio profundo e prolongado do Pai-Nosso, recitado em voz alta e fervorosa. Cinco minutos depois, a cabeça e os ombros do capitão Whalley emergiam da escotilha da escada interior. Invariavelmente, detinha-se uns instantes nos degraus, olhando o horizonte a toda a volta, e depois para cima, para a posição das velas, enquanto inalava grandes golfadas de ar fresco. Só então saía para o tombadilho, correspondendo à mão erguida junto à pala do boné com um majestoso e benigno «Um bom dia para si». Caminhava pelo convés até às oito, meticulosamente. Volta e meia, não mais do que duas vezes por ano, tinha de usar um bordão grosso, semelhante a um cacete, por causa de um entorpecimento na anca - um leve toque de reumatismo, supunha. Além disso, desconhecia todos os males da carne. Quando a sineta tocava para o pequeno-almoço, descia para alimentar os canários, dar corda aos cronómetros e sentar-se à cabeceira da mesa. Dali, tinha diante dos olhos as grandes fotografias a carbono da filha, do genro, e de dois bebés de pernas gordas - os seus netos -, em molduras pretas fixadas à antepara de madeira de ácer da sala de refeições. Após o pequeno-almoço ele próprio limpava os vidros das molduras com um pano, e sacudia o pó do retrato a óleo da esposa com um espanador que tinha pendurado de um pequeno gancho de latão, ao lado da pesada moldura dourada. Em seguida, com a porta do camarote fechada, sentava-se no canapé por baixo do retrato para ler um capítulo de uma grossa bíblia de bolso - a bíblia dela. Mas em certos dias limitava-se a sentar-se ali durante meia hora com o dedo entre as folhas e o livro fechado, pousado nos joelhos. Talvez lhe viesse de repente à lembrança quanto ela gostava de navegar à vela.

Fora uma autêntica companheira de bordo e também uma mulher de verdade. Para ele era um artigo de fé que nunca houvera, nem nunca poderia haver, nem na terra nem no mar, um lar mais radiante e alegre do que o seu, sob o tombadilho do Condor, com o espaçoso camarote principal todo a branco e ouro, engrinaldado com uma coroa de fiores que nunca murchavam, como para uma festa perpétua. Ela decorara o centro de cada painel com um ramo de fiores da pátria. Levou doze meses a contornar a sala de jantar com essa tarefa de amor. Para ele, ficara uma maravilha de pintura, a mais notável realização do bom gosto e da habilidade; e quanto ao velho Swinbume, o seu imediato, cada vez que descia para as refeições ficava embasbacado de admiração perante o avanço da obra. Quase se sentia o perfume daquelas rosas, declarava, aspirando o leve odor a terebintina que nesse tempo pairava na sala, e que (como mais tarde confessou) lhe tirava um pouco do apetite com que habitualmente atacava a comida. Mas não havia nada desse género que interferisse com o seu prazer de ouvi-la cantar. «Mrs Whalley é um rouxinol autêntico, capitão», afirmava com ar judicioso, depois de escutar atentamente o trecho até à última nota pela claraboia da escotilha. Quando o tempo estava bom, no segundo quarto de vigia da tarde, os dois homens ouviam os trinados e gorjeios acompanhados ao piano no camarote. No próprio dia em que ficaram noivos, ele escreveu para Londres a encomendar o instrumento; mas já estavam casados havia mais de um ano quando o receberam, vindo pela rota do Cabo. A enorme caixa fez parte do primeiro carregamento de carga mista direta desembarcado no porto de Hong Kong - um acontecimento que, para quem já andou pelos azafamados cais de hoje, parecia tão remoto e envolto em brumas como a Idade das Trevas. Mas o capitão Whalley conseguia reviver toda a sua vida, incluindo o enamoramento, o idílio e o desgosto, em meia hora de solidão. Tivera de ser ele a fechar-lhe os olhos. Ao partir, ela saíra de debaixo da bandeira da marinha mercante, na sua condição de mulher de um marinheiro, e ela própria um marinheiro em espírito. Ele lera o serviço fúnebre, do livro de orações dela, sem uma quebra de voz. Quando erguia os olhos via na sua frente o velho Swinburne com o boné apertado contra o peito, e o rosto rugoso e curtido do sol impassível e a escorrer água, como um bloco cinzelado de granito vermelho debaixo de chuva. Estava muito certo que o velho lobo-do-mar chorasse. Ele teve de ler tudo até ao fim; mas depois do baque do corpo na água, nos dias que se seguiram não recordava grande coisa do que se passou. De uma das saias pretas da falecida, um marujo mais velho da tripulação com jeito para a costura conseguiu fazer um vestidinho de luto para a menina.

Que ele esquecesse era pouco provável, mas não se pode represar a vida como quem represa um rio pachorrento. Ela galga sempre os diques e escoa-se sobre as mágoas de um homem, fecha-se sobre um desgosto como o mar sobre um corpo sem vida, sem se importar com quanto amor levou para o fundo. E o mundo não é mau. As pessoas foram muito gentis com ele; sobretudo Mrs Gardner, a mulher do sócio principal da firma Gardner, Patteson & Co., proprietária do Condor.

Ela mesma se prontificou a olhar pela menina, e a seu tempo levou-a para Inglaterra com as próprias filhas, para completar a sua educação.

Nesse tempo era uma viagem que metia respeito, mesmo seguindo a rota terrestre do correio. Passaram-se dez anos até ele voltar a vê-la.

Em pequena nunca tivera medo do mau tempo; pedia ao pai que a levasse ao convés, aninhada no interior do seu casaco de oleado, para ver as vagas enormes arremessarem-se contra o Condor. O turbilhão e o estrépito das ondas pareciam encher a sua pequena alma de um deleite que lhe cortava o fôlego. «Um belo rapazinho desperdiçado», costumava ele dizer a brincar. Dera-lhe o nome de Ivy pelo som da palavra, e obscuramente fascinado por uma vaga associação de ideias.

Ela cingira-se firmemente ao seu coração, e ele pretendia que ela se apegasse ao pai como uma hera a um apoio de inabalável firmeza; es quecendo, enquanto ela foi pequena, que pela ordem natural das coisas era provável que ela preferisse apegar-se a outro. Mas ele amava tanto a vida que até esse facto lhe dava uma certa satisfação, não obstante o mais íntimo sentimento de perda.

Depois de ter comprado a Fair Maid para lhe preencher a solidão, apressou-se a aceitar um frete para a Austrália que praticamente não lhe dava lucro, apenas para ter a oportunidade de visitar a filha na sua própria casa. O que lhe desagradou lá não foi ver que ela agora se apegara a outra pessoa, mas que o arrimo que ela escolhera, observado com mais minúcia, parecia ser «um pau carunchoso», mesmo no tocante à saúde. Talvez lhe tenha repugnado mais a cortesia afetada do genro do que o modo como ele dispunha da quantia de dinheiro que dera a Ivy na altura do casamento. Mas acerca das suas apreensões nada disse. Só no dia da partida, com a porta da rua já aberta, pegando-lhe nas mãos e olhando-a firmemente nos olhos, lhe dissera: «Bem sabes, minha querida, que tudo o que tenho é para ti e para os pimpolhos. Vê se me escreves sem rodeios.» Ela respondera-lhe com um movimento de cabeça quase impercetível. Fazia lembrar a mãe na cor dos olhos e no caráter, e também nisto de o compreender sem muitas palavras.

Está bem de ver que ela tinha de escrever; e algumas dessas cartas fizeram o capitão Whalley erguer as brancas sobrancelhas. De resto, ele achava que estava a colher a verdadeira recompensa da sua vida, ao ser capaz de apresentar, a pedido, tudo o que fosse preciso. De certo modo, depois da morte da esposa ainda não se divertira tanto. A pontualidade dos fiascos do genro fazia que ele, à distância, sentisse pelo homem uma espécie de benevolência, o que era típico do seu caráter.

Se o sujeito estava permanentemente à mercê de ventos traiçoeiros, não era justo que se atribuísse tudo à sua negligente navegação. De maneira nenhuma! Ele sabia bem o que isso significava. Era má sorte.

A sua tinha sido simplesmente fantástica, mas ao longo da vida vira demasiados homens bons - marinheiros e não só - afundarem-se sob o peso da má sorte, para que não lhe reconhecesse os sinais fatais.

Por todas essas razões, andava a cogitar na melhor maneira de aferrolhar rigorosamente todos os tostões que tinha para lhes deixar, quando, precedido por um coro de boatos (cujos primeiros ecos o alcançaram por puro acaso em Xangai), se deu o choque da grande falência; e, depois de passar pelas fases do espanto, da incredulidade, da indignação, teve de se render à realidade de não poder dizer que tinha qualquer coisa para lhes deixar.

Ainda por cima, como se só estivesse à espera dessa catástrofe, o homem azarado, lá longe, em Melbourne, desistiu do seu jogo infrutífero e sentou-se, nada mais, nada menos, do que numa cadeira de rodas. «Nunca mais voltará a andar», escreveu a mulher. Pela primeira vez na vida, o capitão Whalley sentiu-se um bocado abalado.

A Fair Maid tinha de ir trabalhar a sério e amargamente. Já não era uma questão de manter viva nos Mares do Sul a memória de Harry Whalley, o Destemido, nem de providenciar uns trocos e umas vestimentas para um velho, e, quem sabe, um bónus especial no final do ano para umas centenas de charutos de primeira. Teria de labutar com afinco e de pôr a barca a navegar a todo o pano, poupando nos dourados que lhe realçavam os arabescos à proa e à popa.

Esta necessidade abriu-lhe os olhos para as mudanças fundamentais ocorridas no mundo. Do seu passado só restavam, aqui e além, os nomes familiares, mas os homens e as coisas, tal como ele os conhecera, tinham desaparecido. O nome da Gardner, Patteson & Coo ainda estava inscrito em paredes de armazéns à beira-mar, em placas de latão e em vidraças nas zonas comerciais de mais do que um porto do Oriente, mas na firma já não existia um Gardner nem um Patteson.

O capitão Whalley já não encontrava à sua espera uma poltrona e uma saudação de boas-vindas no gabinete privado, e um trabalhinho pronto a ser oferecido ao velho amigo em atenção aos serviços passados. Os maridos das meninas Gardner eram quem agora se sentava às secretárias na mesma sala onde ele, mesmo depois de ter deixado de ser seu empregado, conservara o direito de entrar no tempo do velho patrão.

Os barcos da firma agora tinham chaminés amarelas com o rebordo preto e um horário de rotas pré-estabelecidas, como uma detestável carreira de elétricos. Os ventos de dezembro e de junho para eles eram a mesma coisa. Os seus capitães (jovens excelentes, não duvidava disso) estavam de certeza familiarizados com a ilha de Whalley, pois em anos recentes o Governo mandara instalar um farol branco e fixo na extremidade norte, e um sinal vermelho de perigo sobre o recife Condor. Mas quase todos eles ficariam surpreendidos se lhes dissessem que ainda existia um Whalley de carne e osso, um velho que vagueava pelo mundo tentando apanhar aqui e ali um carregamento para a sua pequena barca.

E era assim por toda a parte. Já não existiam os homens que ao ouvirem mencionar o seu nome oscilariam a cabeça num gesto de apreço e se sentiriam na obrigação moral de fazer qualquer coisa por Harry Whalley, o Destemido. Já não existiam as oportunidades que ele saberia aproveitar, nem o bando de clíperes de asas brancas que viviam na tormentosa e incerta vida dos ventos, escumando grandes fortunas da espuma do mar. Num mundo que reduzia os lucros a um mínimo inflexível, num mundo que era capaz de contar de alto a baixo a sua tonelagem devoluta duas vezes ao dia, e no qual os magros fretamentos eram açambarcados por telégrafo com três meses de antecedência, um indivíduo que flanava ao acaso numa pequena barca não tinha qualquer possibilidade de fazer fortuna - na realidade, só a muito custo tinha espaço para nele existir.

De ano para ano encontrava mais dificuldades. Sofria muito devido à exiguidade das quantias que conseguia enviar à filha. Entretanto renunciara aos bons charutos, e mesmo no que se refere aos de inferior qualidade limitava-se a seis por dia. Nunca lhe falou das suas dificuldades, e ela nunca se alargou a respeito da sua luta para sobreviver. A confiança que tinham um no outro não requeria explicações, e o perfeito entendimento recíproco mantinha-se sem necessidade de afirmações de gratidão ou de pesar. Teria ficado ofendido se ela se lembrasse de lhe agradecer com um relambório, mas achou perfeitamente natural que a filha lhe dissesse que precisava de duzentas libras.

Tinha chegado com a Fair Maid lastrada ao porto de registo do Sofala, à procura de um frete, e foi aí que a carta dela lhe chegou às mãos.

O seu teor era que mais valia pôr tudo em pratos limpos. O seu único recurso era abrir uma pensão, pois em sua opinião as perspetivas eram boas. Pelo menos suficientemente boas para lhe dizer com franqueza que duzentas libras davam para começar. Rasgara o envelope à pressa no convés, onde lhe fora entregue pelo paquete do fornecedor naval, que veio entregar o correio quando lançavam ferro. Pela segunda vez na vida sentiu-se abalado, e ficou pregado ao chão à porta da cabina com a carta a tremer-lhe nas mãos. Abrir uma pensão! Duzentas libras para começar! O único recurso! E ele que não sabia onde deitar a mão nem a duzentos pence.

Durante toda a noite o capitão Whalley passeou pelo tombadilho do navio ancorado, como se estivesse prestes a aproximar-se de terra com nevoeiro cerrado e incerto da sua posição, depois de uma viagem de muitos dias cinzentos sem sinal de Sol, Lua ou estrelas. A noite negra cintilava com os faróis de orientação dos marinheiros e as linhas direitas e fixas das luzes da costa; e a toda a volta da Fair Maid as luzes de âncora dos barcos projetavam rastos trémulos sobre as águas do ancoradouro. O capitão Whalley nada vislumbrou até o dia despontar, apercebendo-se então de que a forte geada lhe tinha encharcado as roupas.

O barco já despertara. Deteve-se de chofre, cofiou a barba molhada e desceu a escada do tombadilho de costas, com os pés massacrados. Ao vê-lo, o primeiro-oficial, que perambulava ensonado pelo convés da popa, ficou de boca aberta no meio de um grande bocejo madrugador.

«Um bom dia para si», pronunciou o capitão Whalley solenemente, dirigindo-se para a cabina. Mas parou à entrada e, sem se voltar, disse:

«A propósito, devia estar uma caixa de madeira vazia guardada no paiol da popa. Não se partiu, pois não?» O imediato fechou a boca e depois perguntou, com ar apatetado:

«Que caixa vazia, meu capitão?» «Uma caixa de embalagem, grande e chata, que pertence àquele quadro que está no meu quarto. Mande trazê-la para o convés e diga ao carpinteiro que a inspecione. Talvez tenha de me servir dela em breve.» O primeiro-oficial não mexeu um músculo enquanto não ouviu a porta do camarote do capitão bater, no interior da sala de refeições.

Então, fez um sinal com o indicador para a popa, para o segundo imediato, para lhe dizer que andava qualquer coisa «no ar».

Quando a sineta tocou, a voz autoritária do capitão Whalley ribombou através da porta fechada: «Sentem-se e não esperem por mim.» E os seus oficiais, impressionados, ocuparam os respetivos lugares, trocando olhares e sussurros ao longo da mesa. O quê? Não tomava o pequeno-almoço? E depois de andar toda a noite a marcar passo no convés, ainda por cima! Mais que certo, andava qualquer coisa no ar.

Na claraboia por cima das suas cabeças, gravemente inclinadas sobre os pratos, três gaiolas de arame baloiçavam e chocalhavam devido ao saltitar incessante dos canários esfomeados; e chegavam-lhes os ruídos dos movimentos circunspectos do seu «velhote» no interior do camarote. O capitão Whalley, metodicamente, estava a dar corda aos cronómetros, a limpar o pó ao retrato da finada esposa, a tirar da cómoda uma camisa branca limpa, preparando-se, à sua maneira meticulosa e sem pressas, para ir a terra. Seria incapaz de engolir uma simples garfada de comida naquela manhã. Tomara a decisão de vender a Fair Maid.


III

Justamente naquela altura os japoneses corriam Ceca e Meca à procura de navios de construção europeia, por isso não teve dificuldade em encontrar um comprador, um especulador que regateou bem o negócio mas pagou a Fair Maid à vista, na mira de revendê-la com um bom lucro. E foi assim que uma tarde o capitão Whalley se encontrou a descer os degraus de uma das mais importantes estações dos correios do Oriente, trazendo na mão uma tira de papel azulado. Era o recibo de uma carta registada, contendo uma ordem de pagamento no valor de duzentas libras e endereçada a Melbourne. O capitão Whalley enfiou o papel no bolso do colete, pegou no bordão que tinha debaixo do braço e começou a descer a rua.

Era uma via de abertura recente e pouco asseada, com passeios rudimentares e uma suave camada de pó a atapetar a faixa de rodagem a toda a largura. Uma das extremidades desembocava na rua de casas miseráveis das lojas chinesas, perto do porto, a outra ia diretamente, ao longo de uns três quilómetros sem casas e atravessando manchas de vegetação selvática, até aos portões do recinto envolvente do novo Consórcio das Docas. As incipientes fachadas dos novos edifícios governamentais alternavam com as vedações vazias dos lotes de terreno ainda não ocupados, e a vista do céu parecia aumentar a sensação de espaço daquele amplo panorama. Depois das horas de expediente a rua estava deserta e os nativos evitavam-na, como se esperassem ver um dos tigres das proximidades da Nova Estação Hidráulica, no alto da colina, descer em galope lento até ao meio da via para ir buscar um lojista chinês para o jantar. O capitão Whalley não se sentia pequeno no isolamento daquela rua projetada com tal grandiosidade. Tinha uma presença demasiado distinta para isso. Era apenas uma figura solitária que avançava resolutamente, com uma longa barba branca de peregrino, e um espesso bastão que parecia uma arma. De um lado o novo Palácio da Justiça, que tinha um pórtico baixo e sem adornos, de colunas atarracadas, meio escondido por algumas árvores antigas deixadas no caminho de acesso. Do outro, as alas do pavilhão da nova Tesouraria Colonial vinham até ao nível da rua. Mas o capitão Whalley, que agora não tinha barco nem casa, ao passar lembrou-se de que naquele local preciso, quando ali chegara pela primeira vez vindo de Inglaterra, existia uma aldeia de pescadores, meia dúzia de choças de junco erguidas sobre palafitas, entre uma pequena cala lodosa sujeita às marés e um caminho lamacento e sinuoso que prosseguia por uma selva emaranhada, sem docas nem estações hidráulicas.

Nem barco, nem casa. E a sua pobre Ivy, lá longe, também sem casa. Uma pensão não é nenhuma casa, embora possa dar para viver.

A ideia da pensão mexia-lhe terrivelmente com os sentimentos. Na sua posição social, tinha um temperamento genuinamente aristocrático, caracterizado por um desprezo pelas origens vulgares e uma opinião preconceituosa em relação à natureza aviltante de certas ocupações.

Por seu lado, sempre preferira andar embarcado em navios mercantes (que é uma ocupação honesta) do que dedicar-se à compra e venda de mercadorias, cuja essência é levar a melhor sobre alguém depois de regatear - quando muito, uma prova de esperteza sem qualquer dignidade. O pai fora o coronel Whalley (aposentado), que prestara serviço na Ilustre Companhia das Índias Orientais, possuidor de escassos meios além da pensão, mas que se relacionava com pessoas ilustres. Recordava-se de muitas vezes, quando era criança, ouvir os criados das estalagens, os negociantes da província e a arraia-miúda desse género tratarem o velho guerreiro por my lord, sugestionados pela sua aparência.

O próprio capitão Whalley (que teria entrado para a Marinha Real se o pai não tivesse morrido antes de ele completar catorze anos) tinha um certo ar majestoso que se adequaria a um velho e prestigioso almirante; mas perdeu-se como uma palha na voragem de um ribeiro, no meio do formigueiro de gente castanha e amarela que enchia uma via pública que, em contraste com a vasta avenida deserta por onde acabara de passar, parecia tão estreita como uma azinhaga e absolutamente transbordante de vida. As paredes das casas eram azuis; as lojas dos chineses, escancaradas como antros cavernosos; montes de mercado ria indefinível inundavam a obscuridade da longa fila de arcadas, e a fogosa serenidade do pôr do Sol ocupava o meio da rua de uma ponta à outra, com uma incandescência idêntica ao reflexo de um incêndio.

Caía sobre as cores vivas e sobre as faces escuras da multidão descalça, sobre os dorsos amarelo-pálidos dos cules seminus que abriam caminho à cotovelada, e sobre os aprestos de um soldado sikh alto, com a barba dividida ao meio e bigodes ferozes, de sentinela diante do portão das instalações da polícia. Surgindo acima das cabeças, imersa numa neblina rubra de poeira que a fazia parecer enorme, a carruagem apinhada do elétrico por cabo ia navegando com cautela através do rio humano, acompanhada pelo trombetear incessante da buzina, à maneira de um vapor que andasse às apalpadelas no meio do nevoeiro.

O capitão Whalley emergiu do outro lado como um mergulhador, e na sombra deserta entre as paredes dos armazéns fechados tirou o chapéu para refrescar a fronte. Atribuía-se uma certa má reputação ao ofício de patroa de pensão. Dizia-se que eram mulheres gananciosas, sem escrúpulos, falsas; e embora não menosprezasse nenhuma das classes dos seus semelhantes - Deus o livre! -, não era nada decoroso que uma Whalley se expusesse a tais suspeitas. No entanto, não a censurara. Tinha a certeza de que ela partilhava os seus sentimentos; sentia pena dela; confiava no seu bom senso; considerava um desígnio misericordioso poder ajudá-la uma vez mais, mas no íntimo do seu coração aristocrático ter-lhe-ia sido mais fácil conciliar a ideia de ela ser costureira. Lembrava-se vagamente de ter lido, havia anos, um comovente poema intitulado The Song of the Shirt. Estava muito bem que fizessem poemas dedicados a mulheres pobres. A neta do coronel Whalley, patroa de uma pensão! Tzzz! Pôs o chapéu, remexeu em dois bolsos, parou um momento para chegar a chama de um fósforo à extremidade de um charuto barato, e soprou uma amarga nuvem de fumo à cara de um mundo que era capaz de reservar semelhantes surpresas.

De uma coisa estava certo: ela era a digna filha de uma mãe inteligente. Agora que ultrapassara a dor de se separar do navio, percebeu claramente que aquele passo era inevitável. Talvez tivesse ido tomando consciência disso desde o início, sem o confessar. Mas ela, lá longe, deve ter tido uma perceção intuitiva do facto, com determinação para enfrentar a verdade e coragem para falar abertamente - qualidades que tinham feito da sua mãe uma mulher cujo parecer tinha tanto merecimento.

Era forçoso que tudo viesse a terminar assim! Fora uma sorte ela tê-lo coagido a decidir-se. Dentro de um ano ou dois, a venda nada renderia. Para manter o barco em atividade teve de se aplicar cada vez mais, de ano para ano. Encontrava-se indefeso perante o labor insidioso da adversidade, contra cujos assaltos mais abertos era capaz de fazer frente com firmeza, como um rochedo que aguenta impassível o embate direto do mar, ignorando altivamente o refluxo traiçoeiro que lhe mina a base. Assim sendo, com todos os compromissos cumpridos, tendo satisfeito o pedido dela e não devendo um tostão a ninguém, sobrava-lhe do produto da venda a soma de quinhentas libras, postas em segurança. Além disso, tinha em seu poder quarenta e tal dólares, o suficiente para pagar a conta do hotel, desde que não se demorasse demasiado no quarto modesto em que se refugiara.

Parcamente mobilado e com o soalho encerado, abria para uma das varandas laterais. O irregular edifício de tijolo, arejado como uma gaiola de pássaros, ressoava com o bater incessante das esteiras de rotim sacudidas pelo vento, entre os pilares quadrados caiados de branco da fachada virada para o mar. Os quartos eram altos, uma luzerna de sol deslizava pelos tetos; e as invasões periódicas de turistas de algum navio de passageiros ancorado no porto cirandavam pelo lusco-fusco ventoso dos aposentos, com o tumulto das suas vozes estranhas e da sua presença fugaz, como levas de espetros migratórios condenados a acelerarem sem descanso à volta do mundo sem deixar rasto. A algaraviada dessas invasões extinguia-se tão depressa como surgira; os corredores cheios de correntes de ar e as cadeiras de repouso das varandas já não assistiam à sua pressa de visitar todos os lugares nem ao seu repouso prostrado; e o capitão Whalley, de carne e osso e cheio de dignidade, que ficava quase sozinho no amplo hotel após cada um desses animados corre-corres, cada vez se sentia mais um turista encalhado em seco sem nenhum objetivo à vista, um viajante desamparado e sem lar. Na solidão do quarto fumava, pensativo, com os olhos fixos nos dois baús que continham tudo aquilo a que podia chamar seu neste mundo. Um grosso rolo de cartas de navegação numa bolsa de pano de vela estava encostado a um canto; a caixa achatada contendo o retrato a óleo e as três fotografias a carbono tinha sido enfiada debaixo da cama. Estava cansado de discutir condições, de assistir a vistorias, de toda a rotina do negócio. O que para as outras partes intervenientes era apenas a venda de um navio, para ele era um acontecimento importante que acarretava uma perspetiva radicalmente nova da vida. Sabia que depois deste navio não haveria mais nenhum; e as esperanças da juventude, o exercício das suas competências, cada sentimento e cada realização da sua condição de homem tinham estado indissoluvelmente ligados aos navios. Servira em navios; fora proprietário de navios; e até os anos em que vivera como marinheiro aposentado tinham sido suportáveis graças à convicção de que lhe bastava estender uma mão cheia de dinheiro para ter um navio. Tivera a liberdade de sentir que todos os navios do mundo lhe pertenciam. A venda deste fora uma tarefa desgastante; mas quando finalmente deixou de ser seu, quando assinou o último recibo, foi como se todos os navios tivessem desaparecido do mundo ao mesmo tempo, deixando-o na praia de inacessíveis oceanos com setecentas libras na mão.

Caminhando ao longo do cais em passadas largas e firmes, sem pressa, o capitão Whalley desviou o olhar do ancoradouro familiar.

Duas gerações de marinheiros nascidos desde o seu primeiro dia no mar estavam entre ele e todos os navios ali fundeados. O seu fora vendido e ele interrogava-se: e agora?

Do sentimento de solidão, de vazio interior - e também de perda, como se a própria alma lhe tivesse sido arrancada à força -, despontara inicialmente o desejo de partir de imediato para junto da filha.

«Aqui estão os últimos pence» , dir-lhe-ia; «fica com eles, minha querida. E aqui está o teu velho pai - tens de ficar com ele também.» A alma retraiu-se-lhe, como se temesse aquilo que se ocultava no fundo desse impulso. Render-se? Jamais! Quando estamos exaustos vem-nos à cabeça todo o género de disparates. Que belo presente para uma desditosa mulher, as setecentas libras mais o estorvo de um velho ainda rijo, que era mais do que provável que vivesse ainda muitos anos. Não estava em condições de morrer no ativo, como qualquer dos jovens comandantes daqueles navios ancorados acolá? Era tão robusto agora como sempre fora. Mas a respeito de quem lhe daria trabalho, isso já era outra conversa. Mesmo com a sua aparência e os seus antecedentes, se se pusesse à procura de um emprego normalmente destinado a um homem mais novo, receava que as pessoas não o levassem a sério; ou então, se conseguisse causar boa impressão, talvez obtivesse apenas piedade, o que equivaleria a despir-se voluntariamente para ser açoitado. Não estava propriamente ansioso por se entregar por tuta-e-meia. Não precisava da piedade de ninguém. Por outro lado, não era provável que o comando de um navio - a única coisa que poderia tentar obter, respeitando a mais elementar decência - estivesse à sua espera ao virar da primeira esquina. Hoje em dia não andam por aí a oferecê-los de mão beijada. Desde que desembarcara para tratar do negócio da venda, andara de ouvido à escuta, mas não ouvira qualquer alusão de que houvesse um lugar vago no porto. E mesmo que houvesse, o seu próprio passado bem-sucedido seria um entrave. Fora patrão de si mesmo demasiado tempo. A única credencial que podia apresentar era o testemunho da sua vida inteira. Que melhor recomendação poderia alguém exigir? Mas tinha a vaga sensação de que esse único documento seria visto como uma curiosidade arcaica das águas orientais, uma arenga garatujada em palavras obsoletas, numa língua meio esquecida.


IV

Matutando nestas ideias, passeava junto ao parapeito do cais, de peito amplo, sem uma curvatura do tronco, como se os seus grandes ombros nunca tivessem sentido o peso dos fardos que é preciso carregar entre o berço e o túmulo. Nenhuma prega traiçoeira ou ruga de preocupação lhe desfigurava a expressão repousada do rosto cheio e nada queimado do sol. A parte superior emergia, solidamente serena, da cascata de cabelo prateado, com a impressionante delicadeza da tez clara e a poderosa largura da testa. O seu primeiro olhar caía sobre nós, cândido e ligeiro, como o de uma criança; mas por causa da espessura hirsuta e nívea das sobrancelhas, a afabilidade da sua atenção adquiria o caráter de uma indagação minuciosa e penetrante. Com a idade ganhara carnes, alargara o perímetro da cintura como uma velha árvore que não apresenta sinais de declínio; e até a ondulação opulenta e lustrosa da barba branca sobre o peito parecia um atributo de vitalidade e vigor inextinguíveis.

Outrora orgulhoso da sua grande força física, e até da sua aparência pessoal, consciente do seu valor e firme na sua retidão, ficara-lhe, como herança da prosperidade perdida, o porte tranquilo de um homem que a si mesmo provou ser apto, de todas as maneiras, para a vida que escolheu. Caminhava em linha reta sob a aba saliente de um velho panamá. Tinha a copa baixa, uma prega a marcar o diâmetro, uma fita preta estreita. Imperecível e um pouco descorado, aquele adorno de cabeça fazia que fosse fácil distingui-lo ao longe nos cais apinhados ou em ruas movimentadas. Nunca adotara a moda relativamente recente dos capacetes de cortiça branqueada com argila. Não gostava do formato; e esperava ser capaz de manter a cabeça fresca até ao fim da vida sem todas essas invenções para uma ventilação higiénica. Usava o cabelo curto e a roupa branca sempre de uma brancura imaculada; um fato de flanela cinzenta, puído até ao fio mas escrupulosamente escovado, flutuava-lhe em torno dos membros robustos, acrescentando-lhe corpulência devido ao corte solto. Os anos tinham suavizado a intrepidez imperturbável e bem-humorada da flor da idade, transformando-a numa índole despreocupadamente serena; e a batida indolente do bordão de ponta de ferro acompanhava as suas passadas, produzindo um som de autoconfiança na calçada. Era impossível associar uma presença tão fina e aquele semblante sereno às dificuldades desgastantes da pobreza; a vida inteira do homem parecia desfilar diante de nós, fácil e abundante, com uma liberdade de meios tão ampla como a roupa que vestia.

O terror irracional de ter de mexer nas quinhentas libras para fazer face às despesas pessoais no hotel perturbava o firme equilíbrio da sua mente. Não havia tempo a perder. A conta ia crescendo. Alimentava a esperança de que aquelas quinhentas pudessem ser o meio, se tudo o mais falhasse, de arranjar qualquer trabalho que, mantendo-lhe o corpo e a alma unidos (o que não dava azo a grandes gastos), lhe permitiria ser útil à filha. Na sua ideia, era do dinheiro dela que se servia, por assim dizer, para patrocinar o pai e apenas em benefício da filha. Assim que tivesse trabalho, ajudá-Ia-ia com a parte maior dos seus proventos; ainda tinha saúde para muitos anos, e o negócio da pensão, discorria consigo mesmo, fossem quais fossem as perspetivas, não podia ser uma mina de ouro desde o começo. Mas que trabalho?

Estava pronto a aceitar qualquer coisa de maneira honesta, para que lhe chegasse depressa às mãos; porque as quinhentas libras deviam conservar-se intactas para qualquer eventualidade. Era essa a grande questão. Com as quinhentas completas, um homem sentia que tinha as costas amparadas; mas se as deixasse minguar para quatrocentas e cinquenta, ou mesmo quatrocentas e oitenta, o dinheiro perderia toda a eficácia, como se existisse um poder mágico no número redondo. Mas que espécie de trabalho?

Confrontado com esta questão persistente, como se ela fosse um fantasma impertinente para o qual não possuía fórmula exorcizante, o capitão Whalley parou de chofre no cume de uma pequena ponte que transpunha com um arco íngreme o leito de um esteiro encanado entre margens de granito. Fundeado entre os blocos quadrados, um parau malaio que se ia fazer ao mar flutuava meio escondido sob o arco de alvenaria, com as vergas arreadas, sem sinal de vida a bordo, e coberto da popa à proa por um telhado de esteiras de palma. Deixara para trás os pavimentos sobreaquecidos, bordejados pelas frontarias de pedra que, como a face escarpada dos rochedos alcantilados, acompanha vam o serpear dos cais; e abriu-se diante dele um espaço ilimitado de aspeto ordenado e silvestre, com amplos tapetes de relva aplanada, se melhantes a extensões de carpete verde bem esticada, e longos renques de árvores alinhadas em pórticos de fustes escuros encimados por uma abóbada de ramos.

Algumas dessas avenidas terminavam no mar. Era uma costa em socalcos; e mais além, sobre a vastidão do horizonte, profunda e cintilante como o olhar de uma íris azul-escura, uma faixa oblíqua pontilhada de púrpura estendia-se a perder de vista através do espaço vazio entre duas verdejantes ilhotas gémeas. Os mastros e vergas de alguns barcos distantes, com o casco oculto nos ancoradouros exteriores, surgiam diretamente da água, num belo intrincado de linhas róseas traçadas a lápis sobre a sombra clara do bordo oriental. O capitão Whalley olhou-os demoradamente. O navio que lhe pertencera estava fundeado acolá. Era desconcertante pensar que já não estava ao seu alcance meter-se num bote no molhe e fazer-se transportar ao seu navio quando a noite chegasse. A navio nenhum. Talvez nunca mais. Antes de a venda estar concluída e até que o valor em dinheiro lhe fosse pago, todos os dias passara algum tempo a bardo da Fair Maid. O dinheiro fora-lhe entregue justamente nessa manhã, e agora, de um momento para o outro, não havia navio absolutamente nenhum a que pudesse subir a bordo quando lhe apetecesse; nenhum navio que precisasse da sua presença para desempenhar a sua tarefa - para viver. Parecia um estado de coisas inacreditável, algo demasiado grotesco para que pudesse perdurar.

E o mar estava cheio de embarcações de toda a espécie. Ali estava aquele parau posto em sossego, envolto no seu manto de folhas de palma cosidas - também ele tinha o seu indispensável homem. Viviam na dependência um do outro, o malaio que ele nunca vira e aquela coisa sem tamanho, de popa alta, que parecia repousar depois de uma longa viagem. E todos os barcos que se avistavam, próximos ou distantes, estavam munidos de um homem, o homem sem o qual o mais belo navio é uma coisa morta, um tara a boiar sem objetivo nenhum.

Após esse único olhar ao ancoradouro seguiu em frente, pois nada havia que o fizesse voltar para trás e o tempo tem de se passar de alguma maneira. As avenidas das grandes árvores seguiam a direito até ao outro lado da Esplanada, intercetando-se em ângulos diversos, colunares em baixo e luxuriantes por cima. As ramadas entrelaçadas nas alturas pareciam dormitar; nem uma folha bulia, e os postes de iluminação de ferro fundido, no meio da estrada, finos como juncos, dourados como cetros, diminuindo de tamanho numa longa perspetiva, com os seus globos de porcelana branca no topo, pareciam uma bárbara decoração de ovos de avestruz expostos em fila. O céu flamejante acendia uma minúscula centelha carmesim na superfície cintilante de cada casca de ovo cristalina.

Com o queixo um pouco descaído, as mãos atrás das costas e a ponta do bastão a desenhar no saibro uma ténue linha vacilante junto aos seus calcanhares, o capitão Whalley refletia que, se um barco sem homem era como um corpo sem alma, um marinheiro sem barco pouco mais importância tinha neste mundo do que um toro sem rumo à deriva no mar. O toro até podia ser bastante sólido, duro de fibra e difícil de destruir, mas que importava isso! E uma súbita sensação de irremediável inatividade pesou-lhe sobre os pés como uma grande canseira.

Uma série de carruagens abertas vinham à desfilada pela estrada do mar, recentemente aberta. Do lado de lá dos vastos tapetes de relva viam-se os discos de vibração produzidos pelos raios das rodas. As umbelas de cores vivas das sombrinhas debruçavam-se ligeiramente para fora, como flores desabrochadas da orla de um vaso; e o sereno lençol de água azul-marinho, atravessado por uma faixa purpúrea, servia de pano de fundo às rodas em acelerada rotação e à impetuosidade dos cavalos, enquanto as cabeças cobertas de turbantes dos criados indianos se elevavam acima da linha do horizonte do mar, deslizando velozmente no azul mais pálido do céu. Num espaço aberto próximo da pequena ponte, cada carruagem, em trote elegante, desenhou uma ampla curva, afastando-se do pôr do Sol; depois, travando de repente, entraram na álea principal, numa longa fila que avançava lentamente, virando as costas à grande quietude rubra do céu. Todos os troncos das possantes árvores tinham um toque de vermelho do mesmo lado, o ar parecia em chamas sob a alta folhagem, o próprio chão era vermelho sob os cascos dos cavalos. As rodas giravam majestosamente; uma após outra, as sombrinhas baixaram-se, recolhendo as suas cores como vistosas flores que fecham as pétalas ao final do dia. Em quase um quilómetro de seres humanos, nenhuma voz pronunciou distintamente uma palavra, apenas se ouvia um ténue ruído surdo misturado com suaves tinidos, e as cabeças e ombros imóveis de homens e mulheres sentados aos pares emergiam fleumaticamente das capotas descidas, como se fossem de madeira. Mas uma carruagem de uma parelha, mais atrasada, não se juntou à fila.

Passou rapidamente, num balanço silencioso; ao entrar na avenida um dos baios escuros bufou, arqueando o pescoço e guinando contra o varal de ponteira de aço; um floco de espuma caiu do freio para a ponta de uma cernelha acetinada, e o rosto moreno do cocheiro debruçou-se imediatamente para a frente, por cima das mãos, dando um forte puxão às rédeas. Era um comprido landó verde-escuro, com um andamento digno e flutuante entre as molas em C acentuadamente curvadas, e uma espécie de majestade estritamente oficial na sua suprema elegância. Dir-se-ia mais espaçoso do que o normal, os cavalos pareciam ligeiramente maiores, os aprestos um nadinha mais perfeitos, os criados empoleirados um pouquinho mais alto na boleia. Os vestidos de três mulheres - duas jovens e graciosas, a outra madura, formosa, grande - pareciam encher completamente a cabina pouco funda da carruagem. O quarto rosto era o de um homem de pálpebras pesadas, distinto e macilento, com uma melancólica pera espessa, de um tom cinzento-aço, e bigodes, que de certo modo tinham o ar de sólidos apêndices. Sua Excelência ...

O veloz andamento daquela carruagem em tudo especial fez todas as outras parecerem muito inferiores, desajeitadas e condenadas a arrastarem-se penosamente em passo de caracol. O landó ultrapassou toda a fila numa espécie de sprint final; as feições dos ocupantes, desaparecendo da vista num ápice, deixaram para trás uma impressão de olhares fixos e de impassível vacuidade; e depois de ter desaparecido como uma bala, por assim dizer, não obstante a longa fila de veículos que seguia a passo beijando o lancil, o panorama sublime da avenida pareceu ficar liberto e esvaziado de vida, com a acrescida impressão de uma augusta solidão.

O capitão Whalley erguera a cabeça para olhar, e a sua mente, cuja meditação foi interrompida, desviou-se surpreendentemente (como acontece às mentes dos homens) para assuntos de nenhuma importância. Ocorreu-lhe que tinha sido para este porto, onde acabara de vender o seu último navio, que viera com o primeiro que possuíra, com a cabeça ocupada pelo projeto de abrir uma nova rota comercial para uma zona afastada do Arquipélago. O então governador encorajara-o vivamente. Não era Sua Excelência - esse Mr Denham -, era um governador em mangas de camisa; um homem que velava noite e dia, digamos assim, pela prosperidade crescente da colónia, com a abnegada dedicação de uma ama à criança que adora; um solteirão solitário que vivia como num acampamento, com os poucos criados e os três cães, naquilo a que na altura se chamava o Bungalow do Governo: uma construção de telhados baixos na encosta meio desbravada de um monte, com um mastro de bandeira novo em frente e um polícia de plantão na varanda. Lembrava-se de ter subido o monte a custo, debaixo de um sol abrasador, para ir à audiência; e também do aspeto desguarnecido do fresco aposento mergulhado em sombra, da longa mesa coberta de pilhas de papéis numa ponta, e duas espingardas, um óculo de metal e um frasco de óleo com uma pena enfiada no gargalo, na outra ponta; e da lisonjeira atenção que lhe foi dispensada pelo homem no poder. Era uma empresa cheia de riscos, a que viera ali expor, mas vinte minutos de conversa no Bungalow do Governo na encosta do monte haviam-lhe amenizado as dificuldades desde o primeiro momento. E quando se ia embora, Mr Denham, já sentado diante da papelada, gritara-lhe ainda: «No mês que vem a Dido parte para aqueles lados em cruzeiro, e pedirei oficialmente ao capitão que dê uma vista de olhos, para ver como lhe estão a correr as coisas.» A Dido era uma das modernas fragatas estacionadas na China, e trinta e cinco anos são uma grande fatia de tempo. Há trinta e cinco anos, uma empresa como a sua tinha tanta importância para a colónia que até um navio da Rainha zelava por ela. Uma grande fatia de tempo. Nessa época os indivíduos tinham um certo valor. Homens como ele; e homens como o infeliz Evans, por exemplo, de rosto rubicundo, suíças negras como carvão e olhos irrequietos, que montara o primeiro estaleiro de plano inclinado para reparação de pequenos navios no limiar da floresta, numa baía solitária a três milhas dali para quem sobe a costa.

Mr Denham também encorajara esse empreendimento, no entanto isso não evitou que o desditoso Evans viesse a morrer na pátria sem um tostão. Constava que o filho, para sobreviver, espremia óleo dos cocos em qualquer ilhota perdida do oceano Índico; mas foi desse estaleiro de plano inclinado numa baía arborizada solitária que nasceram os estaleiros do Consórcio das Docas, com as três docas secas escavadas na rocha maciça, os cais, os molhes, a central elétrica, as usinas de energia a vapor com o seu gigantesco guindaste de mastro, capaz de levantar as cargas mais pesadas alguma vez transportadas por mar, e cuja cabeça, como o cimo de um estranho monumento branco, espreitava sobre pontas de terra arborizadas e promontórios arenosos, para quem se aproximava do Porto Novo vindo de oeste. Tempos houve em que os homens contavam; na colónia não havia então tantas carruagens, embora lhe parecesse que Mr Denham tinha um cabriolé. Foi como se o capitão Whalley tivesse sido arrastado da grande avenida pelo sorvedouro de uma ressaca mental. Recordou costas lamacentas, um porto sem cais, um único pontão de madeira solitário (mas esse era uma obra pública), que avançava pela água todo torto, os primeiros barracões para o carvão erigidos na Ponta dos Macacos, que se incendiaram misteriosamente e arderam em combustão lenta durante dias, enquanto os navios estupefactos entravam num ancoradouro cheio de névoa sulfúrea, e o Sol ao meio-dia estava suspenso, vermelho-fogo.

Recordava-se das coisas, das caras, e de algo mais ainda: como que o ténue aroma de uma chávena esvaziada em grandes tragos até ao fundo, como que uma chispa subtil do ar que já não era possível encontrar na atmosfera de hoje.

Nesta evocação, rápida e cheia de minúcias como o clarão de uma lâmpada de magnésio penetrando nos nichos de um mausoléu mergulhado em escuridão, o capitão Whalley contemplou coisas outrora importantes - os esforços de homens simples, o crescimento de um lugar notável -, mas hoje destituídas de todo o seu valor pela grandeza dos factos consumados e por esperanças ainda maiores; e as coisas que contemplou deram-lhe por instantes um tal poder, quase físico, de agarrar o tempo, uma tal compreensão dos nossos sentimentos imutáveis, que estacou de repente, bateu com o bordão no chão e exclamou mentalmente: «Mas que diabo estou eu a fazer aqui!» Pareceu desorientado numa espécie de espanto; mas ouviu que chamavam pelo seu nome em tons asmáticos, uma vez, duas vezes, e girou sobre os calcanhares devagar.

E então viu, bamboleando-se na sua direção com ar autocrático, um homem de aspeto antiquado e artrítico, com o cabelo tão branco como o seu, mas de faces bem escanhoadas e ruborizadas, que trazia uma gravata - quase um lenço de pescoço - cujas pontas rígidas se projetavam muito para além do queixo; tinha pernas redondas, braços redondos, corpo redondo e cara redonda, e o efeito conjunto dava a impressão de que a sua baixa figura fora inflada com uma bomba de ar, enquanto as costuras do fato aguentaram. Era o superintendente do porto. Superintendente é uma espécie superior de capitão de porto; uma pessoa, no Oriente, de uma certa importância na sua esfera de ação; um funcionário do Governo, magistrado das águas do porto, detentor de uma vasta mas mal definida autoridade disciplinar sobre todas as categorias de marinheiros. Constava que este superintendente em particular considerava essa autoridade miseravelmente inadequada, na medida em que não contemplava o poder de vida e de morte.

Era um exagero jocoso. O capitão Eliott sentia-se bastante satisfeito com o seu cargo e não fomentava qualquer interpretação insignificante do poder que detinha. A sua índole presumida e despótica não lhe permitia deixá-lo minguar-lhe nas mãos por falta de uso. A franqueza ruidosa e colérica dos seus comentários acerca do caráter e da conduta das pessoas fazia que na realidade fosse temido; embora em conversa muitos fingissem não lhe dar a mínima importância, outros sorriam com azedume só de ouvir mencionar o seu nome, e havia mesmo quem se atrevesse a defini-lo como «um velho patife intrometido». Mas para quase todos uma explosão do capitão Eliott era quase tão desagradável de enfrentar como uma hipótese de extermínio.


V

Assim que chegou suficientemente perto, disse, emitindo um resmungo: «Mas o que ouço eu, Whalley? É verdade que vais vender a Fair Maid?» Olhando para outro lado, o capitão Whalley disse que a coisa já estava concluída - o dinheiro fora-lhe entregue nessa manhã; e o outro expressou imediatamente a sua aprovação por um procedimento extremamente sensato como aquele. Ia para casa jantar, mas apeara-se da sua aranha para esticar as pernas, explicou. Sir Frederick estava com bom aspeto, no final da carreira. Não estava?

O capitão Whalley não pôde responder; apenas reparara na carruagem a passar.

O superintendente, enfiando as mãos nos bolsos do casaco de alpaca, inconvenientemente curto e justo para um homem da sua idade e aspeto, ernpertigava-se coxeando levemente; a cabeça chegava-lhe apenas ao ombro do capitão Whalley, que andava com desenvoltura, olhando em frente. Anos antes tinham sido bons camaradas, quase íntimos. No tempo em que Whalley comandava o famoso Condor, Eliott tinha a seu cargo o quase igualmente famoso Ringdove, dos mesmos armadores; e quando o cargo de superintendente foi criado, só Whalley poderia ter sido o outro sério candidato. Mas o capitão Whalley, então na flor da vida, estava resolvido a não servir senão o seu auspicioso destino pessoal. Longe dali, malhando o ferro enquanto estava quente, ficou contente de saber que o outro fora bem-sucedido. Havia uma flexibilidade mundana em Ned Eliott, homem direto nas palavras, que muito útil lhe seria naquele género de cargo oficial. E na verdade eram tão diferentes um do outro que, quando chegaram lentamente ao fim da avenida, diante da catedral, nem passara pela cabeça de Whalley que o lugar que aquele homem ocupava podia ter sido seu - estaria precavido até ao fim dos seus dias.

O sacro edifício, erguido em solene isolamento entre as áleas convergentes de enormes árvores, como se pretendesse introduzir sérios pensamentos celestiais nas horas de ócio, apresentava um portal gótico fechado à luz e à glória do Ocidente. O vidro da rosácea por cima da ogiva brilhava como carvão em brasa depositado nas profundas incisões de uma roda de pedra. Os dois homens voltaram para trás.

«Eu digo-te o que eles deviam fazer agora, Whalley.»

«O quê?»

«Deviam mandar para aqui um lorde dos verdadeiros, quando terminar o tempo de Sir Frederick. Hein?» O capitão Whalley à primeira vista não percebia por que razão um lorde da espécie normal não servia tão bem como outro qualquer. Mas não era esse o ponto de vista do outro.

«Não, não. O território governa-se sozinho. Já nada pode impedir isso. É um belo lugar para um lorde», rosnou em frases curtas. «Repara nas mudanças que tem havido no nosso tempo. Agora precisamos aqui de um lorde. Em Bombaim têm um lorde.» Jantava uma ou duas vezes por ano no Palácio do Governo, um edifício cheio de janelas e arcadas no cimo de uma colina ornamentada com estradas e jardins. E recentemente levara a passeio um duque, na sua lancha a vapor de superintendente, para visitar os melhoramentos do porto. Antes disso tinha ido pessoalmente, «com toda a deferência», arranjar um bom ancoradouro para o iate do duque. Posteriormente fora convidado para almoçar a bordo. A própria duquesa almoçara com eles. Uma mulherona de cara rubicunda. A tez completamente queimada do sol. Arruinada, na sua opinião. Maneiras muito graciosas.

Prosseguiam para o Japão ...

Proferia todas estas minúcias para instigar a admiração do capitão Whalley, interrompendo-se para encher as bochechas de ar, como se impulsionado por um sentimento de importância reprimido, e esticava repetidamente os lábios grossos para fora, dando a ideia de que a ponta carmesim do nariz mergulhava no leite do bigode. O território governava-se sozinho; convinha a qualquer lorde; não dava preocupações, exceto no departamento da Marinha. No departamento da Marinha, repetiu duas vezes, e depois de resfolegar com força começou a relatar que um dia destes o cônsul-geral de Sua Majestade na Cochinchina francesa lhe expedira um cabograma - na qualidade de cônsul -, pedindo que enviasse um homem qualificado para assumir o comando de um navio de Glasgow, cujo capitão morrera em Saigão.

«Dei conhecimento do caso ao aquartelamento dos oficiais na Casa do Marinheiro», continuou, enquanto o andar manco parecia acentuar-se com a irritação crescente da voz. «Aquilo está a abarrotar deles.

Duas vezes mais homens do que lugares disponíveis na navegação local. Todos suspirando por um trabalho fácil. Duas vezes mais homens, e ... O que é que tu pensas, Whalley?...»

Parou de chofre; dava a impressão de que os punhos cerrados e enfiados até ao fundo estavam prestes a rebentar os bolsos do casaco. O capitão Whalley deixou escapar um leve suspiro.

«Hã? Seria natural que pensasses que até se atropelaram uns aos outros. Nada disso. Cheios de cagufa de voltar à pátria. Está-se tão bem aqui no quentinho, deitado numa varanda à espera de um emprego. E eu sentado no meu gabinete a aguardar. Ninguém. O que é que eles julgavam? Que eu ficava ali sentado feito um fantoche, com o cabograma do cônsul-geral na minha frente? Nem por sombras. Consultei uma lista dos oficiais que tenho em meu poder, mandei chamar o Hamilton - o mais mandrião de todos - e limitei-me a mandá-lo ir para lá. Ameacei dar ordens ao camareiro da Casa do Marinheiro para correr com ele sumariamente. Não achava aquele cargo grande coisa; ora vê lá tu! "Tenho aqui a sua folha de serviço", disse-lhe eu. "Você desembarcou aqui há dezoito meses e não trabalhou seis meses sequer.

Está a dever a hospedagem na Casa, e calculo que esteja a contar que a Capitania no fim pague isso. Hein? Assim será; mas se não aceitar esta oportunidade vai recambiado para Inglaterra, passagem paga pelo Governo, no primeiro vapor que aqui aparecer direto para a metrópole. Não passa de um indigente, e indigentes brancos não os queremos cá. " Meti-lhe medo. Mas vê tu a maçada que tudo isto me deu.» «Não terias tido maçada nenhuma», disse o capitão Whalley quase involuntariamente, «Se me tivesses mandado chamar a mim.»

O capitão Eliott ficou imensamente divertido; sacudia-se de riso enquanto caminhava. Mas de repente ficou sério. Uma vaga lembrança atravessou-lhe a mente. Não ouvira dizer, na época da falência da Travancore e Deccan, que o desgraçado do Whalley tinha ficado completamente limpo? «Deus do céu, o tipo está teso!», pensou; e levantou a cabeça imediatamente, lançando um olhar de soslaio ao companheiro.

Mas o capitão Whalley sorria austeramente, olhando em frente, com um porte de cabeça inconcebível num homem que não tem um vintém - e ele tranquilizou-se. Impossível. Não podia ter perdido tudo.

Aquele navio fora só um passatempo para ele. E, refletindo que não era provável que um homem que confessara ter recebido nessa manhã uma quantia em dinheiro, presumivelmente avultada, o surpreendesse com o pedido de um pequeno empréstimo, sentiu-se de novo perfeitamente à vontade. No entanto, dera-se uma longa pausa na conversa e, não sabendo como recomeçar, rosnou num tom moderado: «Nós, os velhos, agora devíamos parar de remar.» «Para alguns de nós, a melhor coisa seria morrer agarrado aos remos», disse o capitão Whalley com desinteresse.

«Ora, ora! Não estás já um bocado farto do espetáculo todo?», resmordeu o outro em tom soturno.

«Tu estás?»

O capitão Eliott estava. Farto até à raiz dos cabelos. Só se aguentava no seu posto para atingir o escalão máximo da pensão antes de regressar à pátria. O que, no entanto, maI o tiraria da pobreza; mas era a única coisa que se interpunha entre ele e o asilo. E tinha família. Três filhas, como Whalley sabia. Deu a entender a «Harry, meu velho», que as três raparigas eram uma fonte de grande ansiedade e preocupação para ele. O suficiente para levar um homem à loucura.

«Porquê? O que têm elas andado a fazer?», perguntou o capitão Whalley, com um ar ausente e divertido.

«A fazer! A fazer nada. A questão é justamente essa. Ténis no relvado e romances idiotas de manhã à noite...»

Se ao menos uma tivesse sido um rapaz! Mas logo as três! E para completar a má sorte, parecia que neste mundo já não havia rapazes decentes. Quando olhava em volta no clube, não via mais do que um bando de peralvilhos presunçosos, demasiado egoístas para pensarem em fazer feliz uma mulher às direitas. Indigência extrema era o que esperava enfrentar em Inglaterra, com aquele gentio para sustentar. Havia acalentado a ideia de construir uma casinha no campo - no Surrey - para lá acabar os seus dias, mas receava que isso estivesse fora de questão ... e revirou os olhos arregalados, numa expressão de ansiedade tão patética que o capitão Whalley, olhando-o de cima, assentiu com um gesto caridoso de cabeça, reprimindo uma vontade enjoada de rir.

«Tu deves saber bem o que isso é, Harry. As raparigas são o diabo para nos darem preocupações e ansiedade.» «Pois é! Mas a minha está bem orientada», pronunciou o capitão Whalley devagar, com os olhos fixos na extremidade da avenida.

O superintendente ficou contente de ouvir isso. Invulgarmente contente. Lembrava-se bem dela. Era uma bonita rapariga.

O capitão Whalley, apressando o passo desinteressado, anuiu, como se sonhasse.

«Era bonita.» A procissão de carruagens começava a dispersar-se.

Uma após outra, abandonavam a fila e afastavam-se a trote, animando a vasta avenida com a vivacidade e o movimento da sua debandada; mas depressa o aspeto de solene solidão voltou a apossar-se da vasta estrada retilínea. Um palafreneiro vestido de branco aguardava junto à cabeça de um pónei birmanês, atrelado a um carro de duas rodas envernizado; encostado ao lancil à espera, aquele conjunto não parecia maior do que um brinquedo de criança esquecido debaixo das árvores altaneiras. O capitão Eliott bamboleou-se até lá e fez menção de subir para ele, mas absteve -se; com uma mão descontraidamente apoiada no varal, mudou de conversa, passando da pensão, das filhas e do regresso à pobreza para o outro único tópico no mundo - a Capitania, os homens e os barcos do porto.

Pôs-se a dar exemplos daquilo que lhe competia fazer; no ar imóvel, a sua voz roufenha causava torpor, como o zumbido monótono de um enorme moscardo. O capitão Whalley não sabia qual a força ou a fraqueza que o impedia de dar as boas-noites e afastar-se. Era como se estivesse cansado de mais para fazer esse esforço. Que estranho. Mais estranho do que qualquer dos exemplos apresentados por Ned.

Ou era só aquela esmagadora sensação de inércia que o fazia estar ali a ouvir as histórias dele? Nada de muito real perturbara alguma vez Ned Eliott; e pouco a pouco pareceu-lhe ir detetando lá no fundo, como se embrulhado no grosso som cavernoso e asmático, um laivo da voz clara e cordial do jovem capitão do Ringdove. Perguntou-se se também teria mudado tanto como ele; e pareceu-lhe que a voz do seu velho camarada afinal não se alterara assim tanto, que o homem era o mesmo. Não era mau sujeito, o alegre e folgazão Eliott, amistoso, bem informado sobre a sua ocupação, e sempre um bocado charlatão.

Recordava-se de como ele costumava divertir a sua desditosa esposa.

Ela lia-o como se fosse um livro aberto. Quando acontecia o Condor e o Ringdove estarem no porto juntos, ela pedia-lhe com frequência que trouxesse o capitão Eliott para jantar. Poucas vezes se haviam encontrado desde esses velhos tempos. Agora, tinham passado talvez cinco anos sem se verem. Os seus olhos abrigados sob as sobrancelhas brancas olhavam para aquele homem, ao qual não era capaz de se confidenciar neste momento crítico; e o outro prosseguia com os desafogos íntimos, e tão distante do seu ouvinte como se estivesse a falar no cimo de um monte, a dois quilómetros dali.

Neste momento enfrentava uma situação difícil em relação ao navio Sofala. Ao fim e ao cabo, qualquer berbicacho que houvesse no porto vinha parar às suas mãos para ser resolvido. Sentiriam a sua falta quando se fosse embora daí a dezoito meses e, muito provavelmente, mandassem para ali recambiado algum oficial da Marinha aposentado - um homem que não perceberia nada daquilo e se preocuparia ainda menos. O tal Sofala era um navio de cabotagem que assegurava uma ligação comercial fixa para norte, até Tenasserim; mas a chatice era não se conseguir arranjar um capitão que o guiasse nesse percurso regular. Ninguém queria andar no navio. E ele, evidentemente, não tinha poderes para ordenar a um homem que aceitasse uma tarefa. Que fosse além das suas competências para atender o pedido de um cônsul-geral, ainda vá, mas...

«Que encrenca é que o navio tem?», interrompeu o capitão Whalley em tom moderado.

«Encrenca nenhuma. É um velho vapor sem qualquer defeito. O dono esteve no meu gabinete esta tarde a arrancar os cabelos.» «É branco?», perguntou Whalley com voz interessada.

«Ele diz que é branco», respondeu o superintendente com desdém; «mas se é, é só no tom da pele e mais nada. Disse-lho na cara, tarmbém.» «Mas afinal quem é ele?» «É o maquinista-chefe do navio. Estás a perceber agora, Harry?» «Percebo», respondeu o capitão Whalley, pensativo. «O maquinista. Estou a perceber.» Como o tipo se tornou também o armador, era uma história e tanto.

Tinha chegado da metrópole como terceiro maquinista de um navio havia cerca de quinze anos, lembrava-se o capitão Eliott, e fora despedido depois de uma rixa feia com o capitão e o maquinista-chefe. Que, aliás, pareciam muito contentes por se verem livres dele a qualquer custo. Um tipo capaz de desencadear motins, claramente. Bom, ele ficou por ali, um perfeito estorvo, tão depressa embarcado como em terra, incapaz de conservar um emprego muito tempo; deve ter passado por quase todas as casas das máquinas que andam à tona de água aqui na colónia. Mas de um momento para o outro: «O que imaginas tu que aconteceu, Harry?» o capitão Whalley, que parecia embrenhado num esforço mental, como se fizesse contas de cabeça, teve um ligeiro sobressalto. Não era capaz de imaginar coisa nenhuma. A voz do superintendente vibrou, embotada, com uma ênfase rouca. O que aconteceu foi que o homem teve a sorte de ganhar o segundo prérnio da lotaria de Manila. Todos os maquinistas e oficiais dos navios compravam cautelas desse jogo. Era uma mania que os atacava a todos.

Estava toda a gente à espera que ele regressasse à metrópole com o dinheiro, e que fosse para o diabo como bem entendesse. Nada disso.

O Sofala, considerado demasiado pequeno e não suficientemente moderno para o tipo de comércio em que se ocupava, pôde ser comprado por um módico preço aos armadores, que já tinham mandado vir da Europa um navio novo. Ele foi a correr comprá-lo. O homem nunca dera sinais daquela espécie de intoxicação mental que o simples facto de se possuir uma quantia avultada pode provocar, mas isso foi enquanto não se tornou dono de um barco; nessa altura perdeu completamente as estribeiras. Entrou na Capitania sem cerimónias para tratar da transferência de propriedade, com o chapéu tombado sobre o olho esquerdo e agitando na mão uma pequena chibata, e disse a cada um dos escriturários em particular que «agora já ninguém podia correr com ele. Chegara a sua vez. No mundo não havia ninguém acima dele, nem nunca haveria.» Pavoneou-se e jactou-se pelo meio das secretárias, falando o mais alto que podia, e sempre a tremer como varas verdes, de modo que o expediente normal do escritório esteve suspenso durante o tempo em que ele lá esteve, e toda a gente na enorme sala ficou de boca aberta a olhar para as suas palhaçadas. Passou a ser visto durante as horas mais quentes do dia, com a cara vermelha como um tomate, percorrendo os cais para baixo e para cima, a fim de observar o seu navio de diferentes ângulos; apetecia-lhe abordar todos os estranhos com quem se cruzava, só para lhes dizer que «nunca mais haveria ninguém acima dele; tinha comprado um navio; agora ninguém podia pô-lo fora da sua casa das máquinas».

Embora o preço do Sofala tivesse sido uma pechincha, levara-lhe o dinheiro da lotaria quase todo. Não deixara uma reserva de capital com que trabalhar. O que não era assim tão importante, porque aqueles eram os ditosos tempos da navegação por cabotagem, antes de algumas companhias de navegação inglesas terem pensado em criar frotas locais para servir as suas principais linhas. Foram estas, depois de organizadas, que ficaram com a maior fatia do bolo, está claro; e não tardou que uma maldita caterva de navios freteiros alemães virasse para oriente no Canal de Suez para vir apanhar as migalhas todas. Por uma ninharia andavam para cá e para lá ao longo da costa e por entre as ilhas, como um cardume de tubarões na água, prontos a abocanhar qualquer coisa que deixemos cair. E assim terminaram de vez os ditosos tempos; na sua opinião, havia anos que o Sofala não dava senão para um parco sustento. O capitão Eliott considerava seu dever ajudar de todas as formas um navio inglês a manter-se ativo; e era evidente que, se por falta de um capitão o Sofala começasse a falhar viagens, depressa perderia os clientes. Esse é que era o dilema. O homem era intratável. «Um pobretanas montado num corcel de fidalgo, é o que ele foi desde o início», explicou. «Com o passar do tempo, as coisas foram piorando. Nos últimos três anos correu com onze capitães; experimentou todos os que aqui há, exceto os das linhas regulares. Eu já o avisara de que isso não dava bom resultado. E agora, é claro, ninguém quer saber do Sofala. Recebi um ou dois homens no meu gabinete e estive a falar com eles; mas, argumentaram, qual o interesse de aceitar o lugar, para levar vida de cão durante um mês e ser posto na rua no final da primeira viagem? O tipo, é claro, disse-me que tudo isso eram tretas; que andavam havia anos a tramar um conluio contra ele e que agora o haviam posto em prática. Que todos os execráveis marinheiros do porto tinham conspirado para o ver de rastos, por ele ser maquinista.»

O capitão Eliott soltou uma risada gutural.

«O que é facto é que, se ele falha mais uma viagem ou duas, escusa de se incomodar a reiniciar o percurso. Não encontrará carga nenhuma da parte dos velhos clientes. Hoje em dia há demasiada concorrência para que as pessoas deixem estar a mercadoria à espera de um navio que não aparece quando é esperado. As perspetivas não são boas para o homem. Ele jura que prefere fechar-se no navio e deixar-se morrer à fome no seu camarote do que vendê-lo, mesmo que lhe aparecesse um comprador. O que é altamente improvável. Nem os japoneses dariam o valor do seguro por ele. Não é a mesma coisa que vender veleiros. Os navios a vapor tornam-se obsoletos, além de envelhecerem.» «Mas ele deve ter posto de parte uma boa maquia», observou o capitão Whalley em tom calmo.

O capitão do porto encheu de ar as bochechas roxas, numa proporção assombrosa.

«Nem um tusto, Harry. Nem-sequer-um-tus-to.»

Ficou à espera; mas como o capitão Whalley, cofiando a barba devagar, olhava para o chão sem dizer palavra, bateu-lhe no braço, pôs-se em bicos de pés e disse, num sussurro rouco:

«A lotaria de Manila tem-lho devorado todo.» Franziu as sobrancelhas e sacudiu a cabeça em pequenos gestos afirmativos. Entregavam-se todos a isso; um terço dos salários pagos aos oficiais dos navios («do meu porto», resmungou) ia para Manila.

Era uma mania. Esse tal Massy tinha sido contagiado por ela logo que chegara, como todos os outros; e depois de ganhar uma vez, pareceu ter-se convencido de que lhe bastava voltar a jogar para ganhar outro prémio grande. Desde então, adquirira dezenas, vintenas de cautelas para cada extração. Não só por causa desse vício, como também pela sua ignorância em negócios, desde que fizera a imprevidente compra do navio andava mais ou menos sem dinheiro.

Isto, na opinião do capitão Eliott, dava a possibilidade a um marinheiro sensato, que tivesse algumas libras, de entrar com o dinheiro e salvar aquele idiota das consequências da sua cretinice. Tinha o capricho de discutir com os capitães. Chegara a ter alguns muito bons, que gostariam de ter permanecido se ele os deixasse. Mas não. Parecia que não se sentia dono do barco se não corresse com alguém ao pontapé de manhã e não discutisse com o respetivo substituto nessa noite. O que ele precisava era de um capitão que dispusesse de umas duzentas libras ou assim, e tivesse sociedade no navio com as devidas formalidades. Não se despede um homem sem motivo, só pelo gozo de lhe dizer que faça a trouxa e desembarque, sabendo que nesse caso tens de voltar a comprar-lhe a sua quota. Por outro lado, não é provável que um tipo que tenha uma comparticipação no navio abandone o seu posto, só porque se irritou por qualquer insignificância. Já explicara isso a Massy. Dissera-lhe: «"Assim não pode ser, Mr Massy. Estamos a ficar fartos de si aqui na Capitania. O que lhe resta fazer é tentar arranjar um marinheiro que se junte a si como sócio. Creio que essa é a única solução."

«E foi um bom conselho, Harry.» O capitão Whalley, apoiado ao bordão, estava perfeitamente imóvel, e a mão que cofiava a barba deteve-se e agarrou-a toda. E o que é que o fulano dissera a isso?

O fulano tivera a desfaçatez de se enfurecer com o superintendente.

Reagira ao conselho da maneira mais descarada. «Eu não vim aqui para se rir de mim», gritara-lhe. «Recorro a si como inglês e como armador, por me encontrar à beira da ruína devido a uma conspiração ilegal dos maltrapilhos dos seus marinheiros, e tudo o que se digna fazer por mim é mandar-me arranjar um sócio!...» O tipo atrevera-se a bater os pés de raiva no soalho do gabinete privado. Onde ia ele arranjar um sócio? Tomava-o por louco? Nem um só, daquele desprezível bando apeado instalado na «Casa», tinha um vintém no bolso para mandar cantar um cego. Até os malandros dos indígenas do bazar sabiam disso ... «E é bem verdade, Harry» , ribombou o capitão Eliott judiciosamente. «O mais certo é que todos eles estejam a dever dinheiro aos chineses de Denham Road, da roupa que trazem no corpo. "Pois bem", disse-lhe eu, "o senhor faz barulho de mais para o meu gosto a respeito do assunto, Mr Massy. Bom dia." Ele saiu e bateu com a porta; atreveu-se a bater com a minha porta, que maldita desfaçatez!» O chefe dos serviços marítimos ficou sem fôlego com a indignação; depois, digamos, recompondo-se, disse: «Acabo por chegar atrasado para jantar, a cavaquear contigo aqui ... a mulher não gosta.» Subiu pesadamente para a aranha; debruçou-se para o lado e só então se perguntou, ofegando, que diabo teria andado o capitão Whalley a fazer nos últimos tempos. Não se tinham avistado durante anos e anos, até que no outro dia lhe aparecera inesperadamente no escritório. Mas que diabo ...

O capitão Whalley parecia sorrir de si para si, por baixo da barba branca.

«O mundo é grande», disse distraidamente.

O outro, como se pretendesse testar a afirmação, olhou a toda a volta, do alto da cadeira do condutor. A Esplanada estava em sossego; só de longe, de muito longe, de muita distância da beira-mar, através dos extensos relvados e das longas filas de árvores, chegou o ténue tuu -tuu-tuu do elétrico por cabo, que dava a partida em frente do peristilo vazio da Biblioteca Pública para o seu percurso de cinco quilómetros até às Docas do Porto Novo.

«Mas já não parece que haja tanto espaço nele», rosnou o superintendente, «desde que vieram esses alemães, a empurrar-nos com os ombros a todo o passo. No nosso tempo não era assim.» Mergulhou em pensamentos, respirando com pieira, como se estivesse a passar pelas brasas de olhos abertos. Talvez também ele, pelo seu lado, tivesse detetado na silenciosa figura de peregrino, ali em pé ao lado da roda, um viajante interrompido, as feições sepultadas do semblante de outrora do jovem capitão do Condor. Bom tipo, o Harry Whalley, nunca fora muito falador. Nunca se sabia o que ele andava a magicar; um pouco sem-cerimonioso com as pessoas importantes, e tendia a fazer uma ideia errada das ações dos outros. O facto é que tinha uma opinião demasiado boa de si mesmo. Gostaria de lhe dizer que subisse e de o levar até casa para jantar. Mas vá-se lá saber. A mulher não ia gostar.

«E é engraçado pensarmos, Harry» , prosseguiu num ronco abafado, «que de toda a gente que o habita só restamos eu e tu para recordar esta parte do mundo tal como ela era ...»

Estava pronto a entregar-se à doçura de uma onda sentimental, se não tivesse reparado de repente que o capitão Whalley, imóvel e sem dizer palavra, parecia estar à espera de alguma coisa - talvez na expetativa ... Agarrou imediatamente nas rédeas e irrompeu em grunhidos espontâneos e entusiásticos:

«Ah! Meu rapaz. Os homens que nós conhecemos, os navios que comandámos ... Sim! E as coisas que fizemos ...» O pónei lançou-se em corrida, o palafreneiro desviou-se de um salto. O capitão Whalley ergueu o braço.

«Adeus.»


VI

O Sol já se pusera. E quando, depois de escavar um profundo buraco com o bordão, se moveu daquele sítio, a noite já tinha reunido o seu exército de sombras sob as árvores. Enchiam as extremidades orientais da avenida, como se aguardassem apenas o sinal para iniciarem um avanço em massa contra os espaços abertos do mundo; aglomeravam-se lá em baixo, entre as profundas margens do canal revestidas de pedra. O parau malaio, meio oculto sob o arco da ponte, não alterara a posição nem um milímetro. Durante muito tempo, o capitão Whalley permaneceu encostado ao parapeito a olhar para baixo, até que por fim a imobilidade flutuante daquela coisa encoberta começou a adquirir a natureza de algo inexplicável e alarmante. O crepúsculo abandonou o zénite; os seus clarões refletidos retiraram-se do mundo inferior, e a água do canal pareceu transformar-se em breu. O capitão Whalley cruzou a ponte.

A curva para a direita, que o levaria ao hotel, estava a poucos passos. Parou mais uma vez (todas as casas da frente marítima estavam fechadas, o passeio do cais deserto, com exceção de um ou dois vultos de nativos a caminhar ao longe) e pôs-se a calcular o montante da conta. Tantos dias no hotel, a tantos dólares por dia. Para contar os dias, serviu-se dos dedos; enfiando uma mão no bolso, fez tilintar algumas moedas de prata. Chegavam para mais três dias; depois, se não surgisse qualquer coisa, tinha de encetar as quinhentas - o dinheiro de Ivy investido no pai. Tinha a impressão de que a primeira refeição saída dessa reserva o faria engasgar-se - de certeza. A razão de nada servia. Era uma questão de sentimento. Os seus sentimentos nunca o tinham enganado.

Não virou à direita. Seguiu em frente, como se ainda houvesse um navio no ancoradouro para onde podia fazer-se transportar a remos à noite. À distância, para lá das casas, no declive de um promontório azul-anil que impedia a vista dos cais, a coluna esguia da chaminé de uma fábrica fumegava verticalmente para a atmosfera clara. Um chinês, enroscado à popa de uma das seis sampanas que flutuavam perto da ponta do molhe, avistou uma mão a acenar. Ergueu-se de um salto, enrolou o rabicho à volta da cabeça num instante, com dois movimentos rápidos enfiou as largas calças escuras nas coxas amarelas e, num único e silencioso agitar dos remos, idêntico ao de uma grande barbatana, encostou a sampana aos degraus com a suavidade e a precisão de um peixe a nadar.

«Sofala»; pronunciou o capitão Whalley lá de cima; e o chinês, talvez um imigrante recente, olhou para cima fixamente com uma atenção tensa, como se esperasse ver a estranha palavra cair literalmente dos lábios do branco. «Sofala», repetiu o capitão Whalley; e de repente faltou-lhe a coragem. Fez uma pausa. As costas, as ilhotas, as terras altas, as pontas baixas estavam escuras; o horizonte tornara-se sombrio; e sobre a linha curva da costa para leste, o obelisco branco, que assinalava o ponto de chegada do cabo do telégrafo, erguia-se como um pálido fantasma na praia, diante da extensão escura de telhados irregulares entremeados de palmeiras da cidade indígena. O capitão Whalley recomeçou.

«Sofala. Savee So-fa-la, John?» Desta vez o chinês compreendeu aquele som estranho, e do fundo da garganta nua grunhiu o seu tosco assentimento. Com a primeira centelha amarela de uma estrela, que surgiu como a cabeça de um alfinete profundamente espetado no tecido liso, claro e bruxuleante do céu, a lâmina de um frio penetrante fendeu o ar quente da terra.

No momento em que punha o pé na sampana para ir candidatar-se ao comando do Sofala, o capitão Whalley estremeceu ligeiramente.

Quando, no regresso, voltou a pisar o molhe, Vénus, como uma gema preciosa embutida na orla do céu, lançava um ténue rasto dourado atrás dele, sobre o ancoradouro, plano como um pavimento feito de uma só pedra escura e polida. As eminentes abóbadas das avenidas estavam negras - tudo negro acima da cabeça -, e os globos de porcelana dos postes de iluminação faziam lembrar pérolas ovais, gigantescas e luminosas, expostas numa fieira cuja extremidade mais longínqua parecia mergulhar na distância, descendo ao nível dos seus joelhos. Pôs as mãos atrás das costas. Agora iria ponderar com calma a prudência daquele passo, antes de dar a última palavra no dia seguinte.

O saibro rangia ruidosamente sob os seus pés - a prudência daquele passo. Seria mais fácil de avaliar se houvesse uma alternativa viável.

A honestidade do ato era indiscutível: tinha boas intenções para com o sujeito; intermitentemente, a sua sombra saltava-lhe ao lado, precisa, sobre os troncos das árvores, para logo se alongar, oblíqua e indistinta, na amplidão dos relvados, reproduzindo as suas passadas.

A prudência daquele passo. Tinha alternativa? Parecia-lhe que já perdera alguma coisa de si; que cedera a um espetro faminto uma fração da sua autenticidade e da sua dignidade, para sobreviver. Mas a sua vida era necessária. A pobreza que fizesse o que lhe desse na real gana para cobrar o seu tributo de humilhação. Era certo que Ned Eliott lhe prestara, sem o saber, um serviço que teria sido impossível pedir.

Esperava que Ned não pensasse que houvera subterfúgio no modo como agira. Estava em crer que quando lhe chegasse aos ouvidos ele perceberia, ou talvez se limitasse a considerar Whalley um velho palerma excêntrico. De que serviria ter-lhe contado, para ele ir papaguear a história toda ao tal Massy? Quinhentas libras prontas para investir.

Que as aproveite da melhor maneira. Que se maravilhe. Você procura um capitão, eu procuro um navio. E mais nada. Brrrr! Que impressão desagradável lhe provocara aquele navio vazio, escuro, cheio de ecos!

Um vapor no estaleiro era uma coisa morta, essa é que é essa; um veleiro, de certa maneira, parece estar sempre pronto a saltar para a vida com o sopro do incorruptível céu; mas um piróscafo, pensava o capitão Whalley, com os fogos apagados, sem as baforadas quentes vindas de baixo que vêm ter connosco aos conveses, sem o silvo do vapor e os tinidos do ferro no peito, jaz frio e quieto e sem pulsação, como um cadáver.

Na solidão da avenida, com escuro total por cima e iluminação em baixo, o capitão Whalley, ponderando a prudência do seu ato, encontrou, digamos que acidentalmente, a ideia da morte. Empurrou-a para o lado com repugnância e desprezo. Quase se riu dela; e com a inextinguível vitalidade dos seus muitos anos apenas pensou, com uma espécie de exultação, em quão pouco lhe bastava para manter corpo e alma unidos. Não era um mau investimento para a infeliz mulher, a sólida carcaça do seu progenitor. E quanto ao resto - caso acontecesse alguma coisa -, o acordo seria claro: as quinhentas libras ser-lhe-iam restituídas na íntegra dentro de três meses. Na íntegra. Nem um penny a menos. Não estava disposto a perder nem um chavo do dinheiro dela, fosse o que fosse que isso lhe custasse: um pouco de dignidade, algum do seu amor-próprio. Nunca antes permitira que alguém ficasse com uma impressão errada a seu respeito. Pois bem, isso agora punha-se de lado, por amor dela. Afinal, nunca dissera nada que induzisse alguém em erro - aqui, o capitão Whalley sentiu-se corrupto até ao tutano.

Riu-se um pouco, com um íntimo desprezo pela sua circunspeção em relação às coisas do mundo. Era óbvio que com um tipo daquela espécie, e dado o peculiar relacionamento que teriam um com o outro, não teria sido oportuno despejar o saco. Não tinha gostado do sujeito. Não lhe agradaram os seus acessos de verbosidade bajuladora e explosões de melindre. Resumindo, um pobre diabo. Não gostaria de estar na pele dele. Os homens não eram maus, no fundo. Não apreciou os seus cabelos lustrosos e o modo estranho de estar em pé de lado, com o nariz no ar, virando a cara sobre o ombro para olhar para uma pessoa.

Não. De um modo geral, os homens não eram maus - eram apenas néscios ou infelizes.

O capitão Whalley acabara de ponderar a prudência daquele passo, e tinha diante de si toda a longa noite. Em plena luz, a barba comprida reluzia como uma couraça de prata a cobrir-lhe o coração; nos intervalos entre os candeeiros a sua figura corpulenta passava menos distinta, aparentava ser muito grande, errante, misteriosa. Não; não existia nos homens muita maldade genuína. E durante todo aquele tempo uma sombra caminhava-lhe ao lado, inclinada sobre a sua mão esquerda, o que no Oriente é um mau presságio.


***

«Já consegues avistar o grupo de palmeiras, serang?», perguntou o capitão Whalley da sua cadeira na ponte de comando do Sofala, ao aproximar-se da barra de Batu Beru.

«Não, tuan. Daqui a pouco vejo.» O velho malaio, com um fato de cotim azul, plantado sobre os pés escuros e ossudos debaixo do toldo da ponte, pôs as mãos atrás das costas e fixou o olhar em frente, através das inúmeras rugas que tinha nos cantos dos olhos.

O capitão Whalley, sentado sem se mexer, não levantava a cabeça para ver por si. Três anos - trinta e seis vezes. Alcançara estas palmeiras trinta e seis vezes, vindo de sul. Na altura certa, apareceriam à vista. Graças a Deus o velho navio percorria as rotas e as distâncias, viagem após viagem, com a precisão de um relógio. Por fim murmurou de novo:

«Já se avistam?»

«O Sol faz um clarão muito grande, tuan.» «Vê lá bem, serang.» «Sim, tuan.»

Um branco subira a escada desde o convés sem fazer ruído, e escutara em silêncio aquele curto diálogo. Depois saiu para a ponte e começou a percorrê-la de ponta a ponta, segurando pela comprida haste um cachimbo de cerejeira. Os cabelos pretos formavam longas madeixas escorridas cheias de fixador, que lhe atravessavam a calva no cimo da cabeça; tinha a testa enrugada, tez amarela e um nariz grosso e disforme. As suíças ralas não escondiam o contorno da mandíbula.

O seu semblante era o de quem remói preocupações; e, chupando pela boquilha negra e encurvada, apresentava um perfil protuberante tão carregado que até o serang não podia deixar de refletir por vezes na extrema fealdade de alguns brancos.

O capitão Whalley pareceu retesar-se na cadeira, mas não deu qualquer sinal de se ter apercebido daquela presença. O outro soprava baforadas de fumo; depois, de repente:

«Não consigo compreender essa nova mania de ter aqui este malaio como se fosse a sua sombra, sócio.»

O capitão Whalley levantou-se da cadeira em toda a sua imponente estatura e dirigiu-se à bitácula, tomando uma direção tão firme que o outro teve de recuar à pressa e ficou como que intimidado, com o cachimbo a tremer-lhe na mão. «Agora passa por cima de mim», resmungou numa espécie de sussurro de espanto e perplexidade. Depois disse, lenta e destacadamente:

«Eu-não-sou-Iixo.» E acrescentou, em tom de provocação: «Como você parece pensar.» O serang exclamou abruptamente:

«Vejo as palmeiras agora, tuan» O capitão Whalley dirigiu-se para o parapeito; mas os seus olhos, em vez de fixarem de imediato aquele ponto com o olhar perspicaz e seguro de um marinheiro, vaguearam irresolutos no espaço, como se ele, o descobridor de novas rotas, se tivesse perdido naquele mar estreito.

Outro branco, o imediato, subiu à ponte. Era jovem, alto e magro, com um bigode de soldado de cavalaria e um brilho malicioso nos olhos. Posicionou-se ao lado do maquinista. O capitão Whalley, de costas para eles, perguntou:

«O que indica a barquilha?» «Oitenta e cinco», respondeu o imediato à pressa, dando uma cotovelada ao maquinista.

As mãos musculadas do capitão Whalley apertaram o parapeito de ferro com uma força extraordinária; os seus olhos lançaram chispas com um esforço enorme; franziu os sobrolhos, a transpiração escorreu-lhe de sob o chapéu, e, em voz sumida, murmurou: «Fixa-lhe o rumo, serang, quando estiver na direção certa.» O malaio silencioso recuou, aguardou um instante, e levantou o braço para avisar o timoneiro. A roda girou velozmente, para acompanhar a rotação do navio. O imediato deu outra cotovelada ao maquinista.

Mas Massy reagiu mal.

«Mr Sterne», disse com violência, «deixe que lhe diga, na minha qualidade de armador, que você não passa de um maldito idiota.»

 

VII

Sterne foi para baixo com um sorriso malicioso e aparentemente nada embaraçado, mas o maquinista Massy permaneceu na ponte, a andar de um lado para o outro com inquieta arrogância. Todos a bordo eram seus subordinados - todos sem exceção. Era ele que lhes pagava os salários e lhes proporcionava a alimentação. Comiam mais do seu pão e metiam ao bolso mais dinheiro seu do que mereciam; e não tinham cuidados neste mundo, ao passo que ele era obrigado a resolver todas as dificuldades que um armador enfrenta. Quando considerava a situação em toda a sua ameaçadora complexidade, parecia-lhe ser vítima de um bando de parasitas havia anos; via com maus olhos todos os que estavam ligados ao Sofala, exceto, talvez, os fogueiros chineses, que serviam para manter o navio a andar. Tinham uma utilidade óbvia: eram uma parte indispensável da maquinaria de que ele era o dono.

Quando passava pelos seus conveses, abria caminho à bruta por entre aqueles que encontrava; mas os moços de convés malaios tinham aprendido a esquivar-se-lhe. Tivera de se resignar a tolerá-los, porque o indispensável trabalho braçal do navio tinha de ser feito. Era obrigado a lutar, planificar e maquinar para manter o Sofala à tona de água, e o que ganhava com isso? Nem sequer o devido respeito. Nunca lho poderiam dar na medida suficiente, mesmo que todos os seus pensamentos e ações visassem esse objetivo. A vaidade da posse e a vanglória do poder já se tinham desvanecido; prevaleciam as dificuldades materiais, o medo de perder aquela posição que afinal não valia a pena ter, e uma ansiedade mental que nem a mais abjeta subserviência dos homens poderia compensar.

Caminhava para cá e para lá. Afinal, a ponte de comando pertencia-lhe. Pagara-a com o seu dinheiro; segurando na haste do cachimbo, parava de chofre de vez em quando, como se para escutar com profunda e concentrada atenção a pancada abafada das máquinas (as suas máquinas) e o leve rangido das cordas da roda do leme, por cima do contínuo marulhar da água nos costados. Se não fossem esses sons, o navio estaria tão quieto como se fundeado na margem, e tão silencioso como se não abrigasse vivalma; só a costa, a costa baixa feita de lamaceiros e mangais, com o grupo das três palmeiras por trás, se tornava pouco a pouco mais distinta na sua extensa linha reta, sem uma única característica que prendesse a atenção. Os passageiros indígenas do Sofala estavam estendidos nas esteiras, aqui e acolá, debaixo dos toldos; o fumo da chaminé parecia o único sinal de vida do navio, e conjugava-se com o seu movimento deslizante de forma misteriosa.

O capitão Whalley, de pé, com o binóculo na mão e o pequeno serang malaio ao lado, fazendo lembrar um velho gigante assistido por um pigmeu encarquilhado, conduzia o navio através das águas pouco profundas da barra.

Aquela cordilheira submarina de lama, que a corrente arrastava do leito macio do rio e depositava ao largo, sobre o fundo rijo do mar, era difícil de transpor. Uma vez que a costa aluvial não apresentava sinais distintivos, os pontos de referência do local da travessia tinham de ser encontrados na configuração das montanhas do interior. Era necessário procurar para orientação um topo de forma achatada e irregular do feitio de um dente molar e outro cume liso em forma de sela, por entre o grande clarão sem nuvens que parecia deslocar-se e flutuar como uma névoa seca e ardente que impregnava o ar, subindo da água, amortalhando as lonjuras, chamuscando os olhos. Neste véu de luz só a orla ribeirinha da costa sobressaía, quase tão negra como carvão, na sua solidez opaca e imóvel. A trinta milhas de distância, a cadeia dentilhada do interior estendia-se à largura do horizonte com os seus contornos e matizes de azul, esbatidos e trémulos como um pano de fundo pintado em tule diáfano sobre o tecido tremente de um pano de boca que descia até à planura do terreno aluvial; e as embocaduras do estuário surgiram, com um brilho branco, como pedaços de prata derramados nos retalhos quadrados recortados com nitidez e precisão do corpo da terra bordejada de mangais.

No lado dianteiro da ponte o gigante e o pigmeu segredavam coisas um ao outro com frequência, em tons calmos. Atrás deles, de lado, Massy observava com uma expressão de desdém e expetativa. Os seus olhos redondos estavam fixamente imóveis, e parecia ter esquecido o longo cachimbo que tinha na mão. No convés da proa por baixo da ponte, coberto obliquamente pelas abas brancas dos toldos, um jovem marinheiro indígena galgara o parapeito. Ajustou rapidamente uma larga faixa de lona de vela sob as axilas e, pressionando o peito contra ela, debruçou-se muito para fora por cima da água. A manga da fina camisa de algodão, cortada rente ao ombro, desnudava-lhe o braço castanho de formas cheias e roliças e de pele acetinada como a de uma mulher. Tomou balanço com o braço rígido, com o movimento rotativo e ameaçador de um fundibulário: o peso de sete quilos avançou pelo ar em círculos, e de repente voou a direito até à curva da proa.

Uma linha fina molhada sibilou como seda arranhada correndo entre os dedos escuros do homem, e o mergulho da sonda perto do costado do navio produziu uma fugaz cicatriz argêntea no esplendor dourado; após uma pausa, a voz sonora e arrastada do jovem malaio anunciou na sua língua a profundidade da água.

«Tiga stengah», gritava depois de cada mergulho e de cada pausa, recolhendo a linha à pressa para novo lançamento. «Tiga stengah», que significa três braças e meia. Ao longo de mais ou menos uma milha, para quem vem do mar, a profundidade da água era uniforme até à barra. «Três e meia. Três e meia. Três e meia.» O seu grito modulado, que voltava monótono e sem pressa como o pio repetido de uma ave, parecia afastar-se flutuando ao sol e desaparecendo no vasto silêncio de um mar deserto e de uma costa sem vida, um descampado a norte e a sul, a este e a oeste, sem a agitação da sombra de uma nuvem nem o ciciar de outra voz.

O maquinista-armador do Sofala permaneceu imóvel atrás dos dois marinheiros de diferente raça, credo e cor; o europeu com o vigor do seu velho arcaboiço que desafiava o tempo, e o pequeno malaio, também velho, mas franzino e enrugado como uma folha castanha encarquilhada, trazida por um vento fortuito até à sombra imponente do outro. Atarefados a olhar para a terra em frente, não tinham olhos para mais nada; e Massy, observando-os de trás com olhar feroz, parecia melindrado com a atenção que dispensavam à sua tarefa, como se de uma desconsideração pessoal se tratasse.

Era uma coisa irracional; mas havia muitos anos que vivia num seu mundo de ressentimentos irracionais. Por fim, passando a mão húmida pelas escassas madeixas ralas de cabelo áspero no cocuruto da cabeça amarela, começou a falar lentamente.

«Precisa você de um sondador! Isso deve ser o perfeito estilo do barco-correio. Não tem discernimento suficiente para saber onde está olhando para terra? Ora essa, eu, com menos de doze meses de ofício já conhecia bem esse truque - e não passo de um maquinista. Posso indicar-lhe daqui onde está a barra, e também lhe poderia dizer que muito provavelmente daqui a cinco minutos terá o navio atolado na lama; mas julgo que você chamaria a isso interferir. E há aquele nosso acordo escrito, que diz que eu não devo interferir.»

A voz silenciou-se. O capitão Whalley, sem afrouxar a firme severidade das suas feições, moveu os lábios para perguntar num breve sussurro:

«Está perto, serang?» «Muito perto agora, tuan» , balbuciou o malaio à pressa.

«Lentidão máxima», disse o capitão em voz alta, num tom firme.

O serang deitou a mão à manivela do telégrafo. Em baixo ressoou um gongo. Massy afastou-se disfarçando um riso de desprezo e enfiou a cabeça na claraboia da casa das máquinas.

«Prepara-te para umas acrobacias raras com as máquinas, Jack», berrou lá para dentro. O espaço onde o olhar dele penetrou era fundo e mergulhado em escuridão; os brilhos cinzentos do aço lá em baixo transmitiam frieza, depois do esplendor intenso do mar em torno do navio. Mas o ar que lhe bateu no rosto era quente e pegajoso. Do fundo cavernoso subiu um breve apupo, ao qual seria impossível atribuir qualquer espécie de interpretação. Era dessa maneira que o segundo maquinista respondia ao seu chefe.

Era um homem de meia-idade, distraído e aparentemente absorvido por uma preocupação tão taciturna com as suas máquinas que dava a ideia de ter perdido o uso da fala. Quando alguém lhe dirigia a palavra diretamente, a sua única resposta era um grunhido ou um apupo, dependendo da distância. Ao longo dos anos que já passara no Sofala, nunca constara que dirigisse sequer um simples bom-dia a nenhum dos companheiros de bordo. Parecia não se aperceber de que os homens iam e vinham neste mundo; era como se nem os visse. De facto, em terra nunca reconhecia os companheiros. À mesa (os quatro brancos do Sofala tomavam as refeições juntos), sentava-se a olhar para o prato impassível, mas no final da refeição levantava-se de um salto e sumia-se lá para baixo, como se um pensamento repentino o impelisse a ir a correr ver se não lhe tinham roubado as máquinas enquanto comia. No porto, no final da viagem, desembarcava com regularidade, mas ninguém sabia onde passava as noites nem como. A frota de cabotagem local preservava a história estouvada e incoerente da sua paixão pela mulher de um sargento do regimento de infantaria irlandês. Mas esse regimento prestara ali serviço de guarnição militar havia um ror de anos e fora dali para cascos de rolha, sabia-se lá para onde. Duas ou três vezes por ano metia-se nos copos. Nessas ocasiões regressava a bordo mais cedo do que o habitual; atravessava o convés a correr de braços abertos para se equilibrar, como um funâmbulo; fechava a porta do camarote à chave e punha-se a falar e a discutir sozinho toda a noite, numa espantosa variedade de tons: furioso, trocista e lamuriento, com uma persistência inesgotável. Na porta ao lado, Massy soerguia-se no beliche apoiado no cotovelo e descobria que o seu segundo se lembrava de todos os nomes dos brancos que tinham passado pelo Sofala durante anos e anos. Recordava-se dos nomes dos que morreram, dos que regressaram à pátria e dos que foram para a América. Quando estava com os copos, lembrava-se dos nomes de homens cuja passagem pelo navio fora tão efémera que Massy quase se esquecera das circunstâncias e mal se lembrava da cara deles. A voz ébria do outro lado da antepara fazia comentários a respeito de todos eles, com invenções difamatórias de extraordinária e engenhosa peçonha. Dava a entender que todos o tinham ofendido de uma maneira ou de outra, e em troca ele descobrira-lhes as carecas. Resmungava sinistramente; ria sardonicamente; espezinhava-os um após outro; mas a respeito do seu chefe, Massy, palrava com uma admiração invejosa e ingénua.

Que salafrário inteligente! Não se encontra um assim todos os dias.

Olhem-me só para ele. Ah! Grande! Dono de um navio. Àquele não o apanho em falta. Não receia nada - aquela besta! E Massy, depois de ouvir com um sorriso de gratidão esses toscos tributos à sua grandeza, começava a gritar, batendo com os punhos na antepara:

«Cala a boca, grande chanfrado! Não me deixas dormir, ó palerma!» Mas ficava-lhe a bailar nos lábios um meio sorriso de orgulho; lá fora, o indígena solitário designado para o turno de vigia noturno no porto, talvez um jovem acabado de chegar de uma aldeia na floresta, postava-se imóvel nas sombras do convés, à escuta do interminável palratório do bêbedo. O coração saltava-lhe no peito, esbaforido de medo dos brancos, esses homens despóticos e obstinados que perseguem inflexivelmente os seus objetivos incompreensíveis, esses seres com estranhas entoações de voz movidos por sentimentos inexplicáveis, impulsionados por motivos insondáveis.


VIII

Depois do apupo com que o seu segundo lhe respondeu, Massy ficou uns instantes debruçado para a casa das máquinas com expressão sombria. O capitão Whalley, que graças ao poder de quinhentas libras conservava aquele comando havia três anos, podia ser suspeito de nunca ter visto aquela costa. Parecia incapaz de baixar o binóculo, como se ele estivesse colado sob as sobrancelhas contraídas. O cenho assim carregado dava-lhe ao rosto um ar de severidade invencível e legítima; mas o cotovelo levantado tremia-lhe ligeiramente, e a transpiração escorria-lhe por baixo do chapéu como se um segundo Sol tivesse subitamente resplandecido no zénite ao lado do globo imóvel e ardente que já lá estava, em cujo calor branco e ofuscante a Terra rodopiava e brilhava como um grânulo de poeira.

Sempre a segurar no binóculo, de vez em quando levantava a outra mão para enxugar o rosto gotejante. As gotas rolavam-lhe pelas faces, caíam-lhe como pingos de chuva sobre os cabelos brancos da barba, e bruscamente, como se guiado por um impulso incontrolável e ansioso, o seu braço avançou para o pedestal do telégrafo da casa das máquinas.

O gongo soou lá em baixo. A vibração regular da lentíssima velocidade cessou, bem como todos os sons e estremecimentos do navio, como se a grande quietude que reinava sobre a costa se tivesse insinuado nos seus flancos de ferro, apoderando-se dos seus mais recônditos recessos. A ilusão de perfeita imobilidade parecia cair sobre o navio vinda da luminosa abóbada azul imaculada, arqueada sobre um mar plano, sem uma ruga. A ligeira brisa que ele próprio produzira feneceu, como se de repente o ar se tivesse tornado demasiado espesso para se mover; até o leve sibilo da água a tocar na proa se extinguiu.

O casco longo e estreito, que vencia o caminho sem uma ondulação, parecia aproximar-se do baixio da barra furtivamente. O mergulho da sonda, acompanhado do grito lamentoso e mecanizado do indígena, surgia a intervalos cada vez mais espaçados; e os homens na ponte de comando pareciam conter a respiração. O malaio ao leme olhava fixamente para a rosa dos ventos, o capitão e o serang tinham os olhos postos na costa.

Massy afastara-se da claraboia e, caminhando com pezinhos de lã, voltara devagarinho para o mesmo lugar da ponte que ocupara antes.

Um arreganho lento e prolongado expôs-lhe os grandes dentes brancos; brilhavam todos por igual à sombra do toldo, como o teclado de um piano na obscuridade de uma sala.

Por fim, fingindo que falava sozinho num excesso de espanto, disse em tom moderado:

«Agora param-se as máquinas. O que mais se seguirá, não me dizem?» Ficou à espera de ombros caídos, cabeça pendurada, olhar oblíquo.

Depois, levantando um pouco a voz:

«Se me atrevesse a fazer uma observação absurda, diria que você não tem estômago para ...» Mas um espírito excitado e vociferante, quiçá alguma alma frenética que errava, insuspeita, pela vasta quietude da costa, apoderara-se do corpo do indígena que manobrava a sonda. A lânguida monotonia da sua lamúria transformou-se num clamor ágil e agudo. O peso voava após um único zumbido, a linha zunia, os tombos na água sucediam-se com rapidez. A água perdera profundidade e o homem, em vez da cantilena sonolenta das braças, gritava agora as prumadas em pés.

«Quinze pés. Quinze, quinze! Catorze, catorze ...»

O capitão Whalley baixou o braço que segurava o binóculo. Desceu lentamente, como se impulsionado pelo próprio peso; nenhuma outra parte do corpo altaneiro se moveu; os gritos velozes, com a sua nota de ansioso aviso, passavam-lhe ao lado como se fosse surdo.

Massy, imóvel e de ouvido à escuta, tinha os olhos cravados na nuca argêntea e bem aparada da cabeça velha e firme. O próprio navio parecia estar parado, não fora o decréscimo gradual da profundidade da água sob a quilha.

«Treze pés ... Treze! Doze!», gritava o sondador ansiosamente por baixo da ponte. Subitamente os pés descalços do serang afastaram-se sem ruído, para deitar uma olhadela pela borda lateral.

Estreito de ombros, com um fato de algodão azul debotado e um velho chapéu de feltro cinzento enterrado na cabeça, a nuca encovada no pescoço escuro e os membros delgados, de costas não parecia maior do que um rapaz de catorze anos. Havia uma impulsividade infantil na curiosidade com que observava a expansão das volumosas convoluções amareladas que volteavam de baixo até à superfície da água azul, como nuvens maciças que se elevassem lentamente no céu insondável.

Não estava minimamente surpreendido com o que via. Não fora a dúvida, mas sim a certeza de que a quilha do Sofala já estaria a revolver a lama que o levou a espreitar pela bordada.

Os seus olhos perscrutadores, traçados obliquamente num rosto de tipo chinês, pequeno rosto de velho, impassíveis, como se esculpidos em madeira velha de carvalho castanho, há muito o haviam informado de que o navio não estava devidamente alinhado com a barra. Dispensado da Fair Maid após a conclusão da venda, juntamente com o resto da tripulação, andara a rondar as portas da Capitania com o seu fato azul debotado e o chapéu cinzento flácido, até que um dia, vendo o capitão Whalley aproximar-se à procura de uma tripulação para o Sofala, se plantou no seu caminho muito calado, com os pés descalços na poeira e um olhar mudo dirigido para cima. Os olhos do seu velho comandante pousaram nele com agrado - devia ser um dia favorável -, e daí a menos de meia hora os brancos do «Escritóio» já tinham inscrito o seu nome num documento como serang do navio de fogo Sofala. Desde então olhara repetidas vezes para aquele estuário, para aquela costa, desta ponte de comando e deste lado da barra. O mundo visual registava-se, através dos olhos, na sua mente não especulativa, da mesma maneira que numa chapa sensível através da objetiva de uma máquina fotográfica. O seu conhecimento era absoluto e preciso; no entanto, se lhe pedissem uma opinião, e sobretudo se o interpelassem à maneira categórica e alarmante dos brancos, teria mostrado a hesitação própria da ignorância. Estava certo das suas convicções, mas essa certeza pouco contava perante a dúvida de saber qual a resposta mais apreciada. Cinquenta anos atrás, numa aldeia da selva, e antes de ter um dia de vida, o seu pai (que morreu sem nunca ter visto a cara de um branco) mandara fazer o seu horóscopo por um homem hábil e erudito em astrologia, porque na disposição das estrelas pode-se ler a última palavra do destino humano. O seu destino fora o de medrar no mar, com o favor de vários homens brancos. Tinha varrido os conveses de navios, tinha tratado dos seus lemes, tinha tomado conta das provisões, e por fim chegara a serang; e a sua mente plácida tinha-se mantido tão incapaz de penetrar nos motivos mais simples daqueles que servira como eles eram incapazes de descobrir, através da crosta da Terra, a natureza secreta do seu coração, que pode ser de fogo ou pode ser de pedra. Mas não tinha a mínima dúvida de que o Sofala estava fora da rota certa para atravessar a barra em Batu Beru.

O erro era ligeiro. O navio não podia estar mais do que duas vezes o seu comprimento demasiado a norte; e um branco que estivesse atrapalhado sem saber explicar a razão (uma vez que era impossível suspeitar-se de ignorância crassa, falta de perícia ou negligência da parte do capitão Whalley) inclinar-se-ia para duvidar do testemunho dos seus sentidos. Era um sentimento desse género que fazia que Massy estivesse ali imóvel, com os dentes expostos por uma careta ansiosa. Mas o serang não. Não estava perturbado por qualquer desconfiança intelectual dos seus sentidos. Se o seu capitão decidia revolver a lama, estava bem assim. Na sua vida soubera de brancos que cediam a impulsos igualmente estranhos. Só estava genuinamente interessado em ver o que aquilo ia dar. Por fim, aparentemente satisfeito, afastou-se do parapeito.

Não fizera o menor rumor, mas o capitão Whalley parecia ter observado os movimentos do seu serang. Conservando a cabeça bem firme, perguntou com um simples bulir dos lábios:

«Ainda avança, serang?»

«Ainda avança um pouco, tuan» , respondeu o malaio. Depois acrescentou, em tom casual: «Já a passou.»

A sonda confirmou as suas palavras; a profundidade da água aumentava a cada arremesso, e a alma da excitação abandonou subitamente o sondador que oscilava na faixa de lona, suspenso do parapeito do Sofala. O capitão Whalley mandou recolher a sonda, ligar as máquinas e avançar sem pressas, desviou os olhos da costa e deu instruções ao serang para manter a rota até ao meio da embocadura.

Massy bateu com a palma da mão na coxa, produzindo um forte estalo.

«Você arranhou a barra. Vá olhar à popa e veja se não é verdade.

Veja o rasto que o navio deixou. Vê-se nitidamente. Pela minha alma, eu sabia que ia fazer isso! O que o levou a fazê-lo? Que diabo o levou a fazê-lo? Estou convencido de que anda a tentar assustar-me.» Falava devagar, pode dizer-se que com circunspeção, com os olhos negros proeminentes cravados no seu capitão. Havia também uma ligeira nota lamentosa na sua cólera crescente, pois, acima de tudo, era a perceção clara de uma afronta sofrida imerecidamente que o fazia odiar o homem que, por umas miseráveis quinhentas libras, exigia a sexta parte dos lucros a coberto do contrato de três anos. Sempre que o seu ressentimento se sobrepunha ao temor respeitoso que a pessoa do capitão Whalley inspirava, ele, literalmente, gania de raiva.

«Não sabe o que há de inventar para me infernizar a vida. Nunca pensei que um homem da sua categoria descesse tão ...» Interrompeu-se, meio esperançado, meio receoso, como se esperasse, cada vez que o capitão Whalley fazia o menor movimento na cadeira de lona, ser aplacado com um discurso brando ou ser atacado e corrido para fora da ponte.

«Estou perplexo», recomeçou, com o seu antissorriso vigilante que lhe descobria os grandes dentes. «Não sei o que pensar. Julgo que está a tentar assustar-me. Pouco faltou para encalhá-lo na barra durante doze horas pelo menos, além de ficarmos com as máquinas atulhadas de lama. Um navio hoje em dia não pode dar-se ao luxo de perder doze horas numa viagem, como deveria saber muito bem, e de certeza que sabe muito bem, só que ...» Aquela lenta verborreia, as torcidelas de pescoço para os lados, os relances escuros mesmo pelo canto dos olhos deixavam o capitão Whalley impassível. Olhava para o convés de cenho carrancudo. Massy aguardou um pouco e depois começou com as ameaças queixosas.

«Pensa que me atou de pés e mãos com aquele contrato. Julga que me pode atormentar como muito bem lhe apetecer. Ah! Mas não se esqueça de que ainda faltam seis semanas para se vencer. Ainda estou a tempo de o despedir antes de os três anos expirarem. Ainda há de fazer alguma que me dará a oportunidade de o despedir e de o fazer esperar doze meses pelo seu dinheiro, antes que você se ponha na alheta e retire as suas quinhentas, deixando-me sem um tostão para comprar caldeiras novas. Regozija-se com isso, não é? Acho que está aí sentado a regozijar-se. É como se eu tivesse vendido a alma por quinhentas libras, para no fim ser condenado eternamente ...»

Interrompeu-se, aparentando não estar irritado, e depois continuou no mesmo tom:

«... Com as caldeiras gastas e a vistoria a pender-me sobre a cabeça, capitão Whalley - capitão Whalley, pergunto-lhe, o que vai fazer com o seu dinheiro? Deve ter montes de dinheiro em qualquer parte, um homem como você tem de ter. É lógico. Eu não sou nenhum parvo, é claro, capitão Whalley ... sócio.»

Fez nova pausa, como se desse a conversa por encerrada. Passou a língua pelos lábios, lançou um olhar para trás na direção do serang, que ia governando o navio a cochichar baixinho e a fazer ligeiros sinais com a mão. O marulho da hélice projetava uma leve ondulação, com uma crista de espuma escura, sobre uma vasta restinga plana de limo negro. O Sofala entrara no rio; o rasto que deixara ao revolver a barra estava agora a uma milha à popa, fora da vista, desaparecido de todo; e o mar liso e deserto ao longo da costa ficou para trás, na resplandecente desolação da luz solar. Ao fundo, de ambos os lados do navio, extensões de mangais sombrios e retorcidos cobriam as margens semilíquidas; e Massy prosseguiu no tom habitual, com um arranque abrupto, como se tivesse sido espremido para as palavras saírem, tal qual uma melodia sai de um realejo quando se dá à manivela.

«Pese embora que, se alguma vez alguém levou a melhor sobre mim, foi você. Não me importo de o dizer. Está dito, aí tem! Que mais quer? Não é suficiente para o seu orgulho, capitão Whalley? Passou por cima de mim desde o início. Quando olho para trás, foi sempre a mesma coisa. Deixou-me incluir aquela cláusula sobre o abuso da bebida sem dizer nada, mostrando-se só muito enjoado quando eu fiz questão de que aquilo ficasse preto no branco. Como é que eu podia saber qual era o seu defeito? Geralmente há um defeito qualquer. Mas quem é que ia adivinhar? Quando vem para bordo, descobre-se que tem o hábito de beber apenas água há anos e anos.» A sua lamúria dogmática e recriminatória cessou. Ficou a cismar profundamente, à maneira das pessoas manhosas e pouco inteligentes.

Parecia inconcebível que o capitão Whalley não se risse da expressão de asco que se espalhou naquele semblante amarelo e pesado. Mas o capitão Whalley, sentado na poltrona, ultrajado, cheio de dignidade, e imóvel, nem chegou a erguer os olhos.

«Grande vantagem para mim», protestou Massy em tom monótono, «inserir uma cláusula de despedimento por abuso da bebida contra um homem que não bebe senão água. Ainda por cima tinha um ar tão enfadado quando li o rascunho no escritório do advogado naquela manhã, capitão Whalley, tinha um ar tão abatido que eu fiquei convencido de ter acertado em cheio no seu ponto fraco. Um armador nunca pode ser muito cuidadoso com o tipo de capitão que arranja. Deve ter-se rido de mim à socapa todo o bendito tempo ... hein? O que tem para me dizer?»

O capitão Whalley limitara-se a arrastar levemente os pés. Nos olhares de soslaio de Massy transpareceu uma animosidade néscia.

«Mas não se esqueça de que há outros motivos para despedimento.

Há a incúria habitual, que é como quem diz incompetência - há negligência grosseira e continuada do dever. Não sou tão estúpido como você quer fazer crer que sou. Ultimamente tem sido desleixado, deixando tudo nas mãos daquele serang. Pois quê! Tenho-o visto deixar aquele velho maluco do malaio tirar marcações por si, como se fosse demasiado importante para fazer o seu trabalho pessoalmente. E o que chama àquela maneira arriscada como fez o navio entrar a barra agora mesmo? Espera que eu pactue com isso?» Com o cotovelo apoiado à escada por trás da ponte de comando, Sterne, o imediato, tentava ouvir, enquanto ia piscando o olho de longe ao segundo maquinista, que subira por instantes e estava parado na escada da casa das máquinas. Enquanto esfregava as mãos num pedaço de desperdício, olhava com indiferença para a esquerda e para a direita, vendo as margens do rio deslizar para trás do Sofala calmamente.

Massy virou-se de frente para a cadeira. O tom da sua lamúria tornou-se de novo ameaçador.

«Tome cuidado. Eu ainda o posso despedir e congelar o seu dinheiro durante um ano. Posso ...» Mas perante a imobilidade rígida e silenciosa do homem cujo dinheiro viera a tempo de o salvar por uma unha negra da ruína total, a voz morreu-lhe na garganta.

«Não é que eu queira que se vá embora», recomeçou depois de um silêncio, e num tom absurdamente insinuante. «Não há nada que eu mais deseje do que sermos amigos e renovar o contrato, se estiver disposto a arranjar mais duzentas para contribuir para as caldeiras novas, capitão Whalley. Já lhe tinha dito. O navio precisa de caldeiras novas, sabe-o tão bem como eu. Já pensou nisso?» Ficou à espera. A haste delgada do cachimbo, com o volumoso fornilho na ponta, pendia-lhe dos lábios grossos. Apagara-se. De repente desprendeu-a dos dentes e torceu ligeiramente as mãos.

«Não acredita em mim?» Enfiou o fornilho do cachimbo no bolso do lustroso casaco preto.

«É como lidar com o diabo», disse. «Porque não fala? A princípio era tão arrogante comigo que eu mal me atrevia a rastejar pelo convés que é meu. Agora não lhe arranco uma palavra. Até parece que não me vê. O que significa isso? Pela minha alma, você aterroriza-me com esse truque do surdo-mudo. O que lhe vai na cabeça? O que anda a tramar contra mim com tanta concentração que nem pode falar? Não é capaz de me fazer crer que você - você! - não sabe onde há de ir buscar duas centenas de libras. Já me fez amaldiçoar o dia em que nasci...»

«Mr Massy», disse o capitão Whalley subitamente, sem se mexer.

O maquinista estremeceu violentamente.

«Se isso é verdade, só me resta pedir-lhe que me perdoe.» «Para estibordo», sussurrou o serang ao timoneiro; e o Sofala começou a tornear o meandro para entrar no segundo troço do rio.

«Uff!» , fez Massy, estremecendo. «Você gela-me o sangue. O que o fez vir aqui? O que o fez vir a bordo naquela noite, inesperadamente, com a sua conversa emproada e o seu dinheiro? Foi para me tentar? Sempre me tem intrigado o que o motivou. Atracou-se a mim para ter vida fácil e engordar chupando-me o sangue, é o que lhe digo. Foi para isso? Creio que você é o maior sovina deste mundo, senão, porquê ...»

«Não. Sou simplesmente pobre», interrompeu o capitão Whalley com toda a frieza.

«Avante», murmurou o serang. Massy olhou para o lado, com o queixo apoiado no ombro.

«Não acredito», disse no seu tom dogmático. O capitão Whalley não fez qualquer movimento. «Ei-lo aí sentado como um abutre empanzinado, exatamente como um abutre.» Abarcou o centro do rio e ambas as margens com um olhar circular, vazio, cego, e abandonou a ponte de comando devagar.


IX

Ao voltar-se para descer, Massy avistou a cabeça do imediato Sterne, ocioso, com o seu sorriso malicioso e descarado, os bigodes vermelhos e os olhos piscaretos, ao fundo da escada.

Antes de vir para o Sofala, Sterne fora oficial subalterno numa das maiores companhias de navegação. Tinha abandonado o emprego, dizia, «por motivos diversos». A promoção na carreira era muito lenta, queixava-se, e achava que estava na altura de subir um pouco na vida.

Parecia que nunca ninguém morria nem saía da firma; ficavam todos agarrados aos seus postos até criarem bolor; estava farto de esperar; e receava que, quando surgisse uma vaga, os melhores funcionários não pudessem ter a certeza de ser tratados com justiça. Além disso, o capitão de quem era subordinado - o capitão Provost - era um homem imprevisível que o tomara de ponta por qualquer razão. Provavelmente por ele fazer mais do que a sua mera obrigação. Se fazia alguma coisa mal, aceitava que o repreendessem, como a um homem; mas também esperava ser tratado como um homem, e não que se dirigissem sempre a ele como se fosse um cão. Já pedira ao capitão Provost que lhe dissesse, pão, pão, queijo, queijo, em que é que estava em falta, e o capitão Provost, da maneira mais desdenhosa, respondera-lhe que ele era um oficial perfeito, e que se não gostava da maneira como era tratado a prancha de desembarque estava à disposição, podia desembarcar imediatamente. Mas todos sabiam que espécie de homem era o capitão Provost. De nada servia dirigir-se à administração. O capitão Provost tinha demasiada influência na firma. Seja como for, tiveram de lhe passar um bom atestado de serviço. Permitia-se dizer que de nada o podiam acusar neste mundo, e como soubera por acaso que o imediato do Sofala fora levado para o hospital nessa manhã com uma insolação, pensou que não perdia nada em ir ver se não o quereriam ...

Apresentara-se ao capitão Whalley barbeado de fresco, rosto corado, ancas estreitas, o magro peito saliente, e contara-lhe a sua curta história com uma presunção franca e varonil. De vez em quando tremiam-lhe levemente as pálpebras, e a mão corria furtivamente até à ponta do bigode flamejante; as sobrancelhas eram direitas, espessas, de cor castanha, e a firmeza do olhar parecia vacilar no limite da impudência. O capitão Whalley contratara-o a título provisório; depois, como o outro homem recebera ordens dos médicos para regressar à metrópole, ele ficou para a viagem seguinte, e depois para a seguinte.

Agora já estava como efetivo, e o desempenho das suas tarefas era caraterizado por um ar de aplicação séria e determinada. Se lhe dirigiam a palavra, começava a sorrir atenciosamente, exprimindo uma grande deferência em todas as suas poses; mas havia naquele rápido e contínuo pestanejar qualquer coisa de zombeteiro, como se fosse detentor do segredo de uma piada universal que zombava de todos os seres mas era impenetrável para os outros mortais.

Grave e sorridente, observava Massy a descer degrau a degrau; quando o maquinista-chefe chegou ao convés, ele deu meia-volta e ficaram cara a cara. Iguais na altura mas completamente diferentes, confrontaram-se como se houvesse alguma coisa entre os dois - alguma coisa além da brilhante faixa de sol que, passando através da junção de dois toldos, cortava de través o estreito sobrado do convés e se imiscuía entre os pés dos dois homens como se fosse um curso de água; qualquer coisa profunda, subtil e inconcebível, como um entendimento tácito, uma suspeita secreta, ou uma espécie de medo.

Por fim, Sterne, batendo as pálpebras dos olhos encovados e esticando o queixo bem delineado e escanhoado, tão carmesim como o resto da cara, murmurou:

«Viu? Ele raspou o fundo. Viu?»

Desdenhoso e sem levantar o semblante amarelo e polposo, Massy respondeu no mesmo tom:

«Talvez. Mas se tivesse sido você, teríamos ficado atascados na lama.»

«Perdão, Mr Massy. Peço licença para desmenti-lo. É claro que um armador pode dizer tudo o que lhe apetecer no convés do seu navio. Quanto a isso, está muito bem; mas peço licença para ...»

«Saia-me da frente!»

O outro teve um ligeiro sobressalto, talvez um impulso de indignação reprimido, mas conteve-se. O olhar de Massy vagueava pelo chão, para a esquerda e para a direita, como se o convés em torno de Sterne se encontrasse coberto de ovos que não convinha quebrar e tentasse descobrir, com irritação, intervalos onde pôr os pés para fugir. Mas acabou por ficar ali parado, embora houvesse espaço suficiente para passar.

«Ouvi-o dizer lá em cima», prosseguiu o imediato, «e até foi uma observação muito acertada, que há sempre algum defeito ...» «Andar a escutar pelos cantos é o seu defeito, Mr Sterne.» «Ouça, se o senhor fizesse o favor de me ouvir só um momento, Mr Massy, eu podia ...» «Você é um coscuvilheiro», interrompeu-o Massy à pressa, conseguindo ter tempo de repetir «um vulgar coscuvilheiro», antes que o imediato recomeçasse a argumentar:

«Ouça cá, do que é que o senhor precisa? Precisa ...» «Preciso, preciso», gaguejou Massy, furioso e atónito. «Preciso?

Como é que você sabe que eu preciso de alguma coisa? Como se atreve? ... O que quer dizer com isso? ... O que é que pretende - você ...» «Ser promovido.» Sterne silenciou-o com a sua fanfarronice franca.

As bochechas redondas e moles do maquinista ainda tremiam, mas disse com bastante calma:

«Você só quer apoquentar-me», ao que Sterne lhe respondeu, com um sorrisinho atrevido:

«Um conhecido, do ofício (que hoje está muito bem na vida), costumava dizer-me que assim é que se faz. "Chega-te sempre bem à frente", aconselhava-me. "Põe-te mesmo na frente do teu chefe. Intervém sempre que tiveres uma oportunidade. Mostra-lhe aquilo que sabes. Apoquenta-o até ele reparar em ti." Era o conselho dele. Eu não conheço aqui outro chefe senão o senhor. É o armador, por isso aos meus olhos mais ninguém conta. Compreende, Mr Massy? Eu quero progredir. Não faço segredo disso, sou o género de tipo que quer subir. Homens desses é que devem ser aproveitados, chefe. O senhor não chegou ao ponto mais alto sem tirar essa conclusão, quer-me parecer.» «Se quiseres subir, apoquenta o teu chefe», repetiu Massy, como se a originalidade da ideia o espantasse.

«Não me admiraria se fosse esse o motivo por que os da Blue Anchor correram consigo da companhia a pontapé. É a isso que chama subir na vida? Aqui também subirá da mesma maneira, se não tiver cuidado, isso lhe garanto.»

Sterne baixou a cabeça, pensativo, perplexo, pestanejando com força para o chão do convés. Ultimamente, todas as suas tentativas para estabelecer uma relação de confiança com o armador não tinham tido melhor conclusão do que estas ameaças veladas de despedimento; e uma ameaça de despedimento remetia-o imediatamente a um silêncio hesitante, por não ter a certeza se chegara o momento de a desafiar.

Naquela altura pareceu ter perdido a língua por instantes, e Massy arrancou, passando por ele com um andar pesado, numa tentativa gorada de o empurrar. Sterne evitou-o dando um passo para o lado. Depois virou-se rapidamente, escancarou a boca como se fosse gritar qualquer coisa ao maquinista, mas pareceu reconsiderar.

Sempre alerta - como ele próprio admitia -, à espera de uma aberta para subir na carreira, tornara-se instintivo nele observar a conduta dos seus superiores imediatos, na expetativa de algo «a que pudesse deitar a mão». Era sua convicção que nenhum capitão neste mundo conservaria o posto um só dia se alguém «desse conhecimento» aos armadores. Esta teoria romântica e ingénua já o metera em sarilhos mais de uma vez, mas continuava incorrigível; e o seu caráter era tão instintivamente desleal que, todas as vezes que começava a trabalhar num navio, a intenção de desalojar o comandante e ocupar-lhe o lugar estava sempre latente na sua cabeça, como uma coisa natural.

Preenchia-lhe o ócio das horas de vigília com devaneios de planos cautelosos e descobertas comprometedoras, e os sonhos das horas de repouso com imagens de mudanças felizes e acidentes favoráveis.

Sabia-se de capitães que adoeceram e morreram no mar, e nada melhor do que isso para dar a um imediato espertalhão a oportunidade de mostrar de que massa é feito. Às vezes caíam borda fora, ouvira contar um caso ou dois desse género. Havia outros que ... Mas, como se de lei se tratasse, era fiel à convicção de que a conduta de nenhum deles resistiria à prova de uma observação atenta por parte de um homem que «tinha a escola toda» e que estava sempre «de olhos bem abertos».

Desde que obtivera um cargo efetivo a bordo do Sofala, permitira que as suas esperanças permanentes voassem mais alto. Para começar, era uma grande vantagem ter um capitão já velho, o género de homem que, pela ordem natural das coisas, era provável que abandonasse o posto dentro de pouco tempo, por um motivo ou por outro. Mas Sterne estava muito arreliado por verificar que ele não dava mostras de estar prestes a largar o trabalho. No entanto, estes velhos às vezes iam-se abaixo de um momento para o outro. Depois, o maquinista-armador estava ali à mão de semear, para se deixar impressionar pelo seu zelo e perseverança. Sterne nunca por um só instante duvidara da qualidade óbvia dos seus méritos (era de facto um excelente oficial); mas hoje em dia o mérito profissional por si só não basta para um homem singrar. Um tipo tem de possuir uma certa intrepidez e também de dar uso à sua esperteza no trabalho, se quiser chegar longe. Estava decidido a herdar o comando daquele navio, desde que surgisse a oportunidade; não que considerasse o comando do Sofala uma mina de ouro, mas porque o importante é começar, sobretudo no Oriente, e porque um comando leva a outro.

Começou por prometer a si mesmo comportar-se com grande circunspeção; os humores sombrios e excêntricos de Massy intimidavam-no, porque não se enquadravam na experiência habitual da vida no mar; mas tinha inteligência suficiente para perceber, quase desde o início, que estava ali em presença de uma situação excecional. A sua peculiar imaginação de bisbilhoteiro depressa a detetou; a sensação de que havia um elemento que escapava à sua perspicácia exasperava-lhe a impaciência por subir na vida. E assim uma viagem chegou ao fim, e depois outra, e iniciou a terceira antes de ver uma abertura por onde pudesse penetrar com algum resultado. Fora tudo muito estranho e muito obscuro; passava-se qualquer coisa a seu lado que parecia separada por um abismo da vida quotidiana e do trabalho de rotina no navio, que eram exatamente iguais à vida e à rotina em qualquer outro navio a vapor de cabotagem daquela categoria.

Até que um dia fez a descoberta.

Após todas aquelas semanas de observação atenta e conjeturas confusas, surgiu-lhe de repente, como a solução longamente procurada de um enigma que num lampejo se insinua na mente. Mas não com a mesma firmeza. Com a breca! Seria possível que fosse isso? Depois de permanecer uns segundos estupefacto, tentou afastar a ideia com indignação, como se ela fosse o produto de uma inclinação doentia para o Incrível, o Inexplicável, o Inaudito, o Louco! Aquilo - o momento de iluminação - ocorrera na viagem anterior, no percurso de regresso. Tinham acabado de zarpar de um ponto de escala em terra firme chamado Pangu; vinham a sair de uma baía em linha reta. A leste, um promontório de grandes dimensões encerrava o panorama, deixando ver as arestas em declive dos estratos rochosos por entre o revestimento irregular de arbustos viçosos e trepadeiras espinhosas. O vento começara a cantar nas enxárcias; o mar ao longo da costa, verde e como que enfolado um pouco acima da linha do horizonte, parecia derramar-se uma vez e outra, com um tombo lento e tonante, para a sombra do cabo a sotavento; através da ampla abertura surgia a ilhota mais próxima de um grupo de pequenas ilhas, envolta na luz amarela e brumosa de um nascer do Sol ventoso; mais ao largo, os cumes elevados de outras ilhotas espreitavam, imóveis, sobre a água dos canais que as separavam, violentamente açoitada pelo vento.

A rota habitual do Sofala, tanto à ida como no regresso de cada viagem, obrigava-o a passar por aquela região infestada de escolhos.

Seguia por um amplo canal, deixando para trás, um após outro, aqueles torrões de crosta terrestre que faziam lembrar uma esquadrilha de cascos desmastreados lançada desordenadamente sobre um leito traiçoeiro de rochas e baixios. Com efeito, alguns desses fragmentos de terra pareciam não ser maiores do que um navio encalhado; outros, perfeitamente planos, flutuavam à tona de água como jangadas ancoradas, pesadas jangadas de pedra negra; alguns, densamente arborizados e de base circular, emergiam como abóbadas atarracadas de folhagem verde-escura que tremiam misteriosamente de alto a baixo ao contacto esvoaçante da sombra das nuvens, empurradas pelas rajadas repentinas da estação borrascosa. As trovoadas costeiras rebentavam frequentemente sobre aquele aglomerado de ilhotas, que então se tornava mais umbroso em toda a sua extensão; mais escuro se tornava ainda, e aparentando uma maior quietude, com os reflexos dos relâmpagos; e mais impenetravelmente silencioso com o fragor dos trovões; as suas formas indistintas desapareciam, diluindo-se por vezes com pletamente sob a chuva cerrada, para reaparecerem nítidas e negras na luz da tempestade, contra o lençol cinzento da nuvem, dispersas sobre a redonda mesa de ardósia do mar. Incólume aos temporais, resistente à ação dos anos, intocado pelos conflitos do mundo, o grupo de ilhotas ali estava, inalterado, como naquele dia, há quatrocentos anos, em que pela primeira vez foi contemplado por olhos ocidentais, do convés de uma caravela de alta popa.

Era um desses lugares retirados que se encontram de quando em quando em mares movimentados, como em terra se nos depara por vezes o grupo de casas de um lugarejo intocado pela agitação dos homens, intocado pela sua necessidade, pelo seu pensamento, e como que esquecido pelo próprio tempo. As vidas de incontáveis gerações haviam passado por ali, e as multidões de aves marinhas apressando o voo, vindas de todos os pontos do horizonte para dormir nos recifes exteriores do grupo de ilhas, desenrolavam as evoluções convergentes do seu voo em extensas serpentinas escuras sobre o céu rubro.

A nuvem palpitante das suas asas levantava e baixava por cima dos pináculos dos rochedos, por cima dos escolhos finos como agulhas ou atarracados como torres Martello, por cima de montículos piramidais como ruínas caídas, por cima das extensões de calhaus arredondados que se assemelhavam a uma muralha de pedra feita em pedaços e chamuscada pelos raios - com o bruxuleio claro e sonolento da água em cada fenda. O ruído contínuo e violento dos seus crocitos enchia o ar.

Aquela algazarra aguardava o Sofala depois de passar por Batu Beru; aguardava-o em noites tranquilas, um clamor impiedoso e selvagem amortecido pela distância, o clamor de aves marinhas que se preparam para o repouso e que lutam por um poiso no final do dia.

Ninguém a bordo lhe prestava grande atenção; era a voz do infalível aportamento do navio, que punha fim à firme tirada de cem milhas.

Fizera o seu percurso sem problemas, percorrera a sua distância até as ilhotas começarem a aparecer uma a uma, pontualmente, as pontas das rochas, os montículos de terra ... e a nuvem de pássaros a pairar no ar - a nuvem inquieta que emitia uma algazarra estridente e cruel, o som da cena familiar, a parte viva da terra fragmentada ali em baixo, da extensão de mar, do alto céu sem uma mancha.

Mas quando acontecia o Sofala aproximar-se de terra depois do sol-posto, encontrava ali uma quietude total sob o manto da noite. Estava tudo silencioso, mudo, quase invisível - exceto a ocultação das constelações baixas, que se escondiam à vez por trás dos vultos vagos das ilhotas, cujos contornos reais escapavam à vista entre os espaços escuros do céu, e as três luzes do navio, parecidas com três estrelas - a vermelha e a verde, com a branca por cima; essas três luzes, como três estrelas vagueando juntas pela Terra, seguiam a sua rota imutável em direção à passagem na extremidade sul do grupo de ilhotas. Por vezes havia olhos humanos abertos à espera de as verem aproximar-se, deslizando suavemente na escuridão vazia; os olhos de um pescador nu na sua canoa, flutuando sobre um recife. Pensava, ensonado: «Ah! O navio de fogo que uma vez em cada lua entra e sai da baía de Pangu.» Mais não sabia sobre ele. E no instante em que detetava o ritmo débil da hélice, percutindo a água calma a milha e meia de distância, para o Sofala era chegada a hora de alterar o rumo, as luzes giravam desviando dele o seu triplo raio - e desapareciam.

Algumas famílias miseráveis, seminuas, uma espécie de tribo pária de gente magra, de cabelos compridos e olhos bravios, lutavam para sobreviver na erma solidão destas ilhotas, que ali jaziam como um reduto defensivo de terra abandonado, às portas da baía. No meio das voltas e reviravoltas dos rochedos, a água repousava mais transparente do que cristal por baixo das suas canoas curvas e mal vedadas, escavadas num tronco de árvore; as formas do fundo ondulavam levemente à imersão de uma pagaia; e os homens pareciam suspensos no ar, pareciam suspensos inseridos nas fibras de um tronco escuro ensopado em água, pescando pacientemente numa atmosfera estranha, instável, verde e diáfana, sobre os baixios.

Os seus corpos castanhos e emaciados, como se ressequidos pelo sol, agitavam-se; as suas vidas definhavam em silêncio; as casas onde nasciam, repousavam e morriam - frágeis abrigos de juncos e ervas ásperas, completados com algumas esteiras esfarrapadas - estavam escondidas, fora da vista do mar largo. Nunca o clarão de um fogo caseiro animou um marinheiro com uma centelha rubra na noite cega das ilhotas; e as calmarias da costa, as longas calmarias ardentes do equador, as calmarias concentradas, irrespiráveis, como a profunda in trospeção de uma natureza apaixonada, pairavam impiedosas durante dias e semanas seguidas sobre a herança imutável dos seus filhos; até as pedras, quentes como brasas vivas, queimarem a sola dos pés descalços; até a água aderir, quente e enjoativa e parecendo mais espessa, às pernas de homens magros com os rins enfaixados, que caminhavam com água até às coxas no braseiro pálido dos baixios. Uma vez por outra acontecia que o Sofala, devido a qualquer demora num dos portos de escala, só aparecia no horizonte a caminho da baía de Pangu ao meio-dia.

A bruma ténue do seu fumo, a princípio só uma nuvem esborratada, erguia-se misteriosamente de um ponto vazio na linha nítida de mar e céu. Os pescadores taciturnos no meio dos recifes estendiam os braços delgados para o mar largo; e as figuras castanhas agachadas nas praias minúsculas, as figuras castanhas de homens, mulheres e crianças esgravatando na areia à procura de ovos de tartaruga, erguiam-se, com o cotovelo pontiagudo no ar e a mão em pala sobre os olhos, para ver essa aparição mensal deslizar em frente, guinar para o lado e passar diante deles. Os seus ouvidos captavam o arquejo daquele navio; os seus olhos seguiam-no até ele passar entre os dois cabos de terra firme à velocidade máxima, como se esperasse seguir caminho até ao seio da Terra sem encontrar obstáculos.

Em dias desses, o mar luminoso não dava sinal dos perigos emboscados de ambos os lados do caminho. Tudo permanecia imóvel, subjugado pelo poder esmagador da luz; e todo o grupo de ilhotas, opacas à luz do Sol - as rochas que pareciam pináculos, as rochas que pareciam agulhas, as rochas que pareciam ruínas, as formas das ilhotas semelhantes a cortiços, semelhantes a montículos de terra das toupeiras, as ilhotas que faziam lembrar medas de feno, contornos de torres revestidas de hera -, aparecia refletido na água lisa, de cabeça para baixo, como brinquedos esculpidos em ébano dispostos sobre o vidro prateado de um espelho.

Ao primeiro sinal de tempo ventoso, todas as ilhotas eram envolvidas pela espuma das vagas de barlavento, como se pela repentina explosão de vapor de uma nuvem; e a água límpida parecia entrar em ebulição em todos os estreitos. O mar irritado delineava com exatidão, num esboço de espuma enraivecida, a ampla base do grupo de ilhotas; a camada submersa de detritos e refugo que sobraram da construção da costa vizinha projetava os seus perigosos aguilhões, todos à tona de água, para o interior do canal, e eriçava-se de longos e perversos esporões, por vezes com uma milha de comprimento, mortíferos esporões feitos de espuma e pedras.

E até uma simples brisa fresca - como naquela manhã, na viagem anterior, em que o Sofala zarpou cedo da baía de Pangu, e a descoberta de Mr Sterne iria desabrochar como uma flor de aspeto incrível e maléfico da pequena semente da suspeição instintiva -, até uma brisa como essa tinha força suficiente para arrancar da face do mar a sua plácida máscara. Para Sterne, que olhava em volta com indiferença, fora como uma revelação contemplar pela primeira vez os perigos assinalados na água pelos retalhos lívidos e sibilantes, tão distintamente como se estivessem impressos no papel de uma carta de navegação.

Ocorreu-lhe que este género de dia era o mais favorável para um inexperiente tentar a travessia do passo navegável: um dia limpo, com o pouco vento que bastava para o mar rebentar em cada escolho, marcando claramente o canal com boias, chamemos-lhes assim, diante dos nossos olhos; ao passo que durante a calmaria não se podia contar com mais nada senão com a bússola e o discernimento treinado da própria visão. No entanto, os sucessivos capitães do Sofala tiveram de o guiar mais do que uma vez por aquela passagem à noite. Hoje em dia, ninguém podia dar-se ao luxo de desperdiçar seis ou sete horas do horário de um navio. Lá isso não. Mas é preciso ver que o hábito é tudo, e com o devido cuidado ... O canal era bastante largo e seguro; de noite, o essencial era acertar no ponto de entrada corretamente, porque se um homem se fosse meter naquela zona de rebentação lá mais adiante nunca de lá sairia com o navio inteiro - se é que conseguia sair de lá.

Esta foi a última sequência de ideias de Sterne independente da grande descoberta. Acabara de se certificar da firmeza da âncora, e ficara uns instantes à proa, a divagar. O capitão encontrava-se na ponte de comando, no exercício das suas funções. Com um leve bocejo desviou a atenção da observação do mar e encostou-se ao turco.

Rigorosamente falando, foram esses os últimos momentos de descontração que conheceria a bordo do Sofala. Todos os momentos que vieram depois seriam prenhes de intenções e de uma insuportável perplexidade. Acabaram-se as divagações e os pensamentos fortuitos; a descoberta arrumá-los-ia na prateleira, a ponto de por vezes desejar ter sido suficientemente estúpido para não a fazer. No entanto, se a sua oportunidade de subir dependia da descoberta de «algum defeito», não podia ter esperado um golpe de sorte maior.


X

Aquilo que descobriu era deveras perturbador. Existia «um defeito» e de grandes proporções, e ter moralmente a certeza disso foi, de início, simplesmente assustador de contemplar. Sterne estivera a olhar na direção da popa com uma disposição tão indolente que, uma vez sem exemplo, nem sequer estava a pensar mal de ninguém. O capitão na ponte de comando era uma visão absolutamente natural para ele. Como era insignificante, como era casual o pensamento que desencadeara a sequência da descoberta - tal e qual como uma faúlha acidental, que basta para atiçar a carga explosiva de uma tremenda mina! Apanhando a brisa por baixo, os toldos do convés da proa subiam, enfolados, e vinham abaixo lentamente, e por cima dessa pesada agitação o tecido cinzento do amplo casaco do capitão Whalley adejava-lhe incessantemente em torno dos braços e do tronco. Recebia o vento no rosto em plena luz, com a longa barba prateada soprada violentamente contra o peito; as sobrancelhas sobrepunham-se, cerradas, às sombras de onde o seu olhar parecia direcionado para a frente com uma intensidade penetrante. Sterne só conseguia distinguir o brilho gerninado do branco dos olhos a mover-se sob os arcos hirsutos das sobrancelhas.

De perto, aqueles olhos, apesar dos modos amáveis do homem, pareciam atravessar uma pessoa de lado a lado. Sterne nunca conseguia evitar essa sensação quando tinha oportunidade de falar com o capitão.

Não lhe agradava. Que bisarma de homem que ele parecia lá em cima, com aquele pigmeu do serang ao lado, a ajudá-lo, como era uso naquele singular piróscafo! Que raio de costume absurdo aquele. Sterne detestava aquilo. Com certeza que o velhote era capaz de tomar conta do navio sem aquele indígena mandrião ao lado. Encolheu os ombros com enfado. O que seria? Indolência ou quê?

O velho capitão deve ter-se tornado preguiçoso ao longo dos anos.

Aqui no Oriente todos eles se tornavam preguiçosos (Sterne tinha perfeita consciência de que o seu espírito diligente estava intacto); eram uns perfeitos ronceiros. Mas a sua figura ereta dominava a ponte de comando; e, baixíssimo ao pé dele, como uma criança pequena que mal chega com os olhos ao tampo da mesa, o chapéu andrajoso e mole e a cara castanha do serang espreitavam por cima do guarda-vento de tela branca do parapeito.

Não havia dúvida, o malaio estava mais atrás, mais perto do timão; mas a grande disparidade de tamanhos em estreita associação divertia Sterne, como se observasse um fenómeno grotesco da natureza. Havia peixes tão estranhos no mar como fora dele.

Viu o capitão Whalley virar a cabeça à pressa para falar com o serang; o vento fustigou todo o volume branco da barba para o lado. Estaria a dar instruções ao sujeito para verificar a bússola em vez dele, e sabe-se lá que mais. Pois claro. Seria uma maçada ter de dar um passo para ir olhar. O desprezo de Sterne por aquela indolência física, que pesa excessivamente sobre os brancos no Oriente, aumentou depois daquelas reflexões. Alguns deles estariam completamente perdidos se não tivessem todos estes indígenas à sua disposição; e tornavam-se uns perfeitos desavergonhados em relação a isso. Ele não era desse género, felizmente! Não era para o feitio dele, depender de qualquer malaiozeco ressequido como aquele para realizar o seu trabalho. Como se neste mundo alguém pudesse confiar num estúpido indígena para alguma coisa! Mas, segundo parecia, aquele velhote distinto pensava de maneira diferente. Ali estavam eles juntos, nunca se distanciavam um do outro; um parzinho que trazia à ideia a imagem de uma velha baleia assistida por um peixe-piloto.

A singularidade da comparação fê-lo sorrir. Uma baleia com um peixe-piloto inseparável! Era o que o velho parecia; porque não se podia dizer que ele parecesse um tubarão, embora Mr Massy já lhe tivesse chamado isso. Mas Mr Massy não tinha tento no que dizia durante os seus acessos de raiva. Sterne sorriu para si mesmo. E pouco a pouco as ideias evocadas pelo som e pela forma imaginada da palavra peixe-piloto, a ideia de ajuda, de orientação necessária e recebida, ganharam relevo na sua mente. A palavra piloto induziu a ideia de confiança, de dependência, a ideia da ajuda bem-vinda de um olhar nítido, oferecida ao marinheiro que procura a terra tateando no escuro; que procura às cegas nas brumas, apalpando o caminho no ar espesso dos temporais que, enchendo o ar de uma neblina salgada soprada do mar, reduz de todos os lados o alcance da vista a um horizonte restrito que parece estar ao alcance da mão.

Um piloto vê melhor do que um inexperiente, porque o seu conhecimento do local, da mesma forma que uma visão mais apurada, completa as formas das coisas fugazmente lobrigadas, penetra nos véus de neblina espalhados sobre a terra pelas tempestades do mar, define com exatidão os contornos de uma costa que jaz sob a mortalha do nevoeiro e as formas dos pontos de referência meio sepultados numa noite sem estrelas como se numa campa rasa. Reconhece porque já conhece. Não é à sua vista de longo alcance mas ao seu conhecimento mais vasto que o piloto pede a certeza; a certeza da posição do navio, da qual pode depender a boa reputação de um homem e a paz da sua consciência, a justificação da confiança depositada nas suas mãos, e também a sua própria vida, que raramente é inteiramente sua para que a deite fora, e as vidas humildes de outros, talvez enraizadas em afetos distantes, e que têm tanto peso como as vidas de reis, devido à carga de mistério que as aguarda. O conhecimento do piloto proporciona alívio e segurança ao comandante de um navio; ao serang, porém, na sua fantasiosa sugestão de um peixe-piloto que serve de guia a uma baleia, não se poderia de modo nenhum atribuir um conhecimento superior. Como poderia tê-lo? Aqueles dois homens - o branco e o moreno - haviam iniciado este percurso juntos, no mesmo dia; e é claro que um branco aprende mais numa semana do que o melhor dos indígenas aprenderia num mês. Faziam-no estar colado ao capitão como se tivesse alguma utilidade - como o peixe-piloto tem, dizem, para a baleia. Mas como - e aqui é que batia o ponto -, como? Um peixe-piloto - um piloto - um ... Mas se não era conhecimento superior, então ...

Sterne acabava de fazer a descoberta. Era repugnante para a sua imaginação, chocante para a sua ideia de honestidade, chocante para a sua conceção da humanidade. Era uma enormidade que afetava a perspetiva que se tem daquilo que é possível neste mundo; era como se por exemplo o Sol se tivesse tornado azul, derramando uma luz nova e sinistra sobre os homens e a natureza. No instante inicial sentira mesmo náuseas, como se tivesse levado um murro abaixo da cintura; durante um segundo teve a impressão de que a cor do mar se alterara, o que pareceu estranho aos seus olhos errantes; e teve uma sensação passageira de desequilíbrio em todo o corpo, como se a Terra tivesse começado a girar em sentido contrário.

A natural incredulidade que se seguiu à sensação de ter os pés elevados do chão trouxe-lhe um certo alívio. Faltara-lhe o fôlego; depois passou. Mas ao longo de todo o dia foi assaltado por súbitos acessos de espanto durante as suas ocupações. Parava e sacudia a cabeça. A revolta da incredulidade diluíra-se quase tão depressa como a emoção inicial da descoberta, e nas vinte e quatro horas que se seguiram não conseguiu pegar no sono. Assim não podia ser. À hora das refeições (sentava-se ao fundo da mesa que era posta na ponte de comando para os brancos) não conseguia evitar perder-se numa contemplação fascinada do capitão Whalley, sentado na sua frente. Observava os circunspectos movimentos ascendentes do braço; o velho levava a comida à boca como se não esperasse sentir qualquer sabor na bucha diária, como se nunca lhe tivesse conhecido o gosto. Alimentava-se como um sonâmbulo. «Que espetáculo desagradável», pensava Sterne. E observava também o longo espaço de tempo de uma imobilidade melancólica e silenciosa, em que a grande mão morena pousava ao lado do prato, frouxa, fechada, até notar que os dois maquinistas, um à sua esquerda e outro à sua direita, estavam a olhar para ele admirados.

Então, fechava a boca à pressa, baixava os olhos e pestanejava para o prato. Era horrível ver o velhote ali sentado; também era horrível pensar que com três palavras podia mandá-lo pelos ares. Bastava-lhe levantar a voz e pronunciar uma curta frase, no entanto esse simples ato parecia-lhe tão impossível de realizar como retirar o Sol do seu lugar no céu. O velhote conseguia comer à sua maneira mecânica e assustadora; mas Sterne, devido à excitação mental, não conseguia - pelo menos naquela noite.

Já tivera tempo suficiente para se habituar à tensão da hora das refeições. Nunca teria julgado isso possível, mas o hábito é tudo; só a potencialidade do seu êxito impedia algo parecido com júbilo. Sentia-se como um homem que, na sua busca legítima de uma arma carregada que o ajude a abrir caminho no mundo, encontra por acaso um torpedo - um torpedo vivo, com uma carga destruidora na cabeça e uma pressão de muitas atmosferas na cauda. É o tipo de arma que preocupa e enerva quem a possui. Não tinha qualquer intenção de ser ele a ir pelos ares, mas não conseguia afastar a ideia de que a explosão tinha forçosamente de lhe causar danos também, de uma maneira ou de outra.

Esta vaga apreensão a princípio coibira-o. Agora já era capaz de comer e de dormir com aquela arma assustadora ao lado, com a convicção do seu poder sempre na ideia. Não lhe chegara através de qualquer processo reflexivo; mas assim que a ideia lhe entrara na cabeça, a convicção seguira-se-lhe de uma forma avassaladora, pela observação de uma série de pequenos factos a que antes prestara apenas uma atenção apática. As modulações abruptas e hesitantes da voz profunda; a taciturnidade vestida como uma armadura; os movimentos circunspectos, quase cautelosos; os longos períodos de imobilidade, como se o homem que andava a observar tivesse receio de incomodar o próprio ar. Cada gesto familiar, cada palavra pronunciada ao alcance do seu ouvido, cada suspiro escutado às escondidas, tinham adquirido um significado especial, um sentido confirmativo.

A cada dia que passava, o Sofala apresentava-se a Sterne simplesmente a abarrotar de provas - de provas incontestáveis. À noite, quando não estava de serviço, saía do camarote à socapa, em pijama (à procura de mais provas), e chegava a ficar uma hora sob a ponte de comando, descalço, tão imóvel como o pontalete do toldo no mancal perto de si. Nas tiradas de navegação fácil não é costume que o capitão de um navio costeiro permaneça no convés todo o seu quarto de vigia. O serang fá-lo por ele, por uma questão de hábito; no mar largo, numa rota a direito, normalmente é encarregado de olhar pelo navio sozinho.

Mas este velhote parecia não ser capaz de ficar lá em baixo descansado. Era óbvio que não conseguia dormir. E não admirava. Também isso era uma prova. De repente, no silêncio do navio que arquejava sobre o mar calmo e escuro, Sterne ouvia lá em cima uma voz baixa exclamar, com nervosismo:

«Serang!» «tuan!» «Estás bem atento à bússola?»

«Sim, tuan, estou bem atento.»

«O navio está a seguir a rota?»

«Está, sim, tuan. Mesmo a direito.»

«Está bem; e lembra-te, serang, as ordens são para tu tomares conta dos timoneiros e fazeres a guarda com cuidado, como se eu não estivesse no convés.»

Depois de o serang dar a resposta, cessavam os tons de voz baixos na ponte de comando e tudo em volta de Sterne parecia ficar mais quieto e num silêncio mais profundo. Levemente enregelado e com as costas um pouco doridas por estar muito tempo imóvel, escapulia-se para o quarto, no lado de bombordo do convés. Havia muito que se apartara dos últimos vestígios de incredulidade; das emoções iniciais, que a descoberta tornara tumultuosas, restavam só algumas marcas do pavor inicial. Não era pavor do homem em si mesmo - podia fazê-lo ir pelos ares com meia dúzia de palavras -; era, sim, uma indignação apavorada perante a estouvada perversidade da avareza (que outra coisa podia ser?), perante a decisão louca e sinistra de, por amor a uns dólares mais, desprezar as regras mais elementares da consciência e ter a pretensão de lutar contra as leis da Providência.

Não era possível encontrar outro homem como este, nem que se desse a volta ao mundo - felizmente! Havia algo tão diabolicamente temerário na natureza daquele logro que nos fazia parar para pensar.

Outras considerações que a prudência lhe sugeria tinham feito que se mantivesse calado dia após dia. Parecia-lhe agora que teria sido mais fácil falar no momento da descoberta. Quase lamentava não ter feito imediatamente um escarcéu. Mas, na altura, a monstruosidade da descoberta ... Caramba! A ele próprio custou enfrentá-la, quanto mais revelá-la a outra pessoa. Além disso, com um bandido daquela espécie, nunca se sabe. O objetivo não era pô-lo a andar (isso era como se já tivesse acontecido), mas ocupar o lugar dele. Por mais excêntrica que a ideia pareça, o capitão até podia dar luta. Um sujeito capaz de preparar semelhante fraude teria desfaçatez para qualquer coisa; um sujeito que, por assim dizer, se rebelava contra o próprio Deus omnipotente. Era um prodígio de repugnância, eis o que ele era; seria muito capaz de enfrentar o assunto descaradamente e fazer um escândalo até conseguir que ele (Sterne) fosse corrido do navio e visse as suas perspetivas para sempre goradas nesta zona do Oriente. Contudo, se queremos subir, alguma coisa temos de arriscar. Por vezes Sterne pensava que no passado fora excessivamente tímido no modo de agir; e o pior é que agora chegara ao ponto de não saber que atitude tomar.

O brutal mau humor de Massy era totalmente desconcertante. Era um fator imprevisível da situação. Não se percebia o que estava por trás daquela ferocidade insultuosa. Quem é que se podia fiar em semelhante índole? Não que Sterne o receasse fisicamente, mas assustava-o por demais em relação aos seus projetos.

Embora, claro está, tendesse a atribuir a si próprio excecionais capacidades de observação, já havia demasiado tempo que vivia com o peso da sua descoberta. Nunca mais tivera olhos para mais nada, até que um dia, por fim, lhe ocorreu que a coisa era tão óbvia que ninguém podia deixar de a ver. Ao todo, havia quatro brancos a bordo do Sofala. Jack, o segundo maquinista, era demasiado néscio para reparar em alguma coisa que se passasse fora da sua casa das máquinas. Restava Massy, o armador, a pessoa interessada, capaz de enlouquecer com as preocupações. Sterne tinha ouvido e visto a bordo mais do que suficiente para saber o que o apoquentava; mas o seu desespero parecia tomá-lo surdo a propostas cautas. Ora, se ele soubesse disto, aí tinha justamente o que queria. Mas como se podia negociar com um homem daquela espécie? Era o mesmo que entrar no covil de um tigre com um pedaço de carne crua na mão. O mais provável seria fazer uma pessoa em bocados, por ela se ter dado ao incómodo. Aliás, estava sempre a ameaçar fazer precisamente isso; e a urgência do caso, associada à impossibilidade de o tratar com segurança, faziam que Sterne, por causa das vigílias debaixo da ponte, se virasse e resmungasse no beliche durante horas, de olhos abertos, como se estivesse a arder em febre.

Ocorrências como a da recente travessia da barra eram extremamente alarmantes para os seus projetos. Não queria ficar para trás devido a qualquer catástrofe repentina. Com Massy na ponte de comando, o velhote tinha de se concentrar e de dar espetáculo, supunha. Mas as coisas agora estavam a ficar feias para ele, mesmo muito feias. Até Massy tivera a coragem de censurar, desta vez; Sterne, à escuta ao fundo da escada, ouvira as acusações lamurientas e toscas do outro.

Por sorte, a besta era tão estúpida que não fora capaz de ver a razão de tudo aquilo. Mas enfim, não se lhe podia atribuir muita culpa; só um homem inteligente poderia ter descoberto a causa. De qualquer maneira, estava na altura de fazer alguma coisa. Não se podia permitir que o jogo do velho durasse muitos dias mais.

«Posso até perder a vida nesta embrulhada, já para não falar da minha oportunidade», murmurou Sterne para si mesmo com azedume, depois de as costas inclinadas do primeiro maquinista terem desaparecido em tomo do ângulo da claraboia. Sim, sem dúvida, pensou; mas revelar sem mais nem menos aquilo que sabia não faria avançar os seus projetos. Pelo contrário, o mais certo era acabar com eles completamente.

Receava outro fracasso. Tinha a vaga consciência de que não era muito estimado pelos companheiros nestas paragens; o que era inexplicável, pois nunca lhes fizera nada. Inveja, supunha. As pessoas veem sempre com maus olhos um tipo inteligente que não fez segredo da sua determinação em subir na vida. Fazer o nosso dever e esperar gratidão da parte daquele bruto do Massy seria uma perfeita loucura. Aquilo era má rês. Um cobarde! Um homem vil! Ruim! Ruim! Uma besta! Uma besta sem uma centelha de qualquer coisa de humano; nem sequer curiosidade tem, senão teria reagido de alguma maneira a todas as insinuações que lhe foram feitas ... Uma insensibilidade destas era quase um mistério. Sterne achava que o estado de exasperação de Massy o tornara estúpido para além do grau de idiotice que é normal nos armadores.

Meditando nos obstáculos criados por essa estupidez, Sterne mostrava uma atitude apática. O seu olhar petrificado estava cravado no sobrado do convés, sem pestanejar.

O ligeiro tremor que agitava toda a estrutura do navio era mais percetível no rio silencioso, sombreado e tranquilo como uma vereda numa floresta. O Sofala, deslizando com um movimento uniforme, já ultrapassara a cintura costeira de lama e mangais. As margens eram agora mais altas, sólidos taludes em declive, e a floresta de grandes árvores descia até à beira da água. Nos sítios onde a terra havia sido desagre gada pelas enchentes, apresentava um corte castanho abrupto, pondo a descoberto um amontoado de raízes emaranhadas, como se lutassem entre si no subsolo; no ar, os ramos entrelaçados, unidos e carregados de trepadeiras, travavam a luta pela vida, misturando a sua folhagem numa só muralha sólida de folhas, onde sobressaía aqui e além a forma de um enorme pilar escuro elevando-se nos ares, ou uma abertura esfarrapada, como se rasgada pela passagem de uma bala de canhão, revelando a escuridão impenetrável do seu interior, a inviolável obscu ridade secular da floresta virgem. A batida das máquinas repercutia-se regularmente, como a pancada de um metrónomo a marcar a cadência do vasto silêncio, a sombra da muralha da margem ocidental atravessava o rio, e o fumo, que da chaminé se derramava para trás, descia em remoinho para a esteira do navio e espalhava um ténue véu cinzento sobre a água baça, que, reprimida pela maré cheia, parecia estagnada nas longas retas dos troços do rio.

O corpo de Sterne, como se tivesse ganhado raízes naquele lugar, tremia levemente da cabeça aos pés com a vibração interna do navio; sob os seus pés ecoava por vezes um súbito barulho de ferro, o ruidoso clamor de um grito lá em baixo; à direita, as folhas do cume das árvores captavam os raios do Sol já baixo, parecendo brilhar com uma luz verde-dourada que elas próprias emitiam em torno dos ramos mais altos, que se destacavam, negros, contra um céu azul sereno que parecia pender sobre o leito do rio como o teto de uma tenda. Os passageiros para Batu Beru, ajoelhados no sobrado, enrolavam as suas camas de esteira muito atarefados, atavam trouxas, produziam estalidos com os fechos de caixas de madeira. Um vendedor ambulante de miudezas com o rosto marcado das bexigas lançou a cabeça para trás e deixou escorrer para a garganta as últimas gotas de uma garrafa de barro, antes de a enfiar num rolo de cobertores. Grupinhos de mercadores viajantes espalhados pelo convés conversavam em voz baixa; o séquito de um pequeno rajá da costa, jovens simples de rosto largo, de bragas brancas e solidéu de algodão branco, com os coloridos sarongues traçados em torno dos ombros de bronze, acocorados sobre as nádegas em cima da escotilha, mascavam bétele com as bocas vermelhas e brilhantes como se tivessem saboreado sangue. As suas lanças, todas amontoadas dentro do círculo formado pelos pés descalços, faziam lembrar um feixe qualquer de bambus secos; um chinês delgado e pálido, com um pacote volumoso envolto em folhas já enfiado debaixo do braço, olhava em frente com ansiedade; um kling errante esfregava os dentes com um pedaço de madeira, deixando escorrer da boca para o lado um jorro de água brilhante; o gordo rajá dormitava numa cadeira de repouso coçada. E de cada vez que se contornava um meandro as duas muralhas de folhas reapareciam, correndo paralelas ao longo das margens, com a sua impenetrável solidez a esbater-se no topo numa vaporosa bruma de incontáveis rebentos finos crescendo em liberdade, de jovens ramos delicados despontando das mais altas pernadas de troncos encanecidos, de cabeças emplumadas de trepadeiras como vergônteas de prata, que se elevavam no ar sem um tremor. Não havia sinais de uma clareira em parte nenhuma, nem vestígios de habitação humana, exceto num ponto, quando, na extremidade nua de um cabo baixo, sob um grupo isolado de delicados fetos arbóreos, surgiram os restos amolgados e retorcidos de urna velha cabana sobre palafitas, com aquele aspeto peculiar das paredes de bambu destruídas, como se tivessem sido abatidas à mocada. Mais adiante, meio escondida sob os arbustos pendentes, uma canoa com um homem e uma mulher acompanhados de urna dúzia de cocos verdes empilhados baloiçava na inevitável agitação após a passagem do Sofala, parecendo uma engenhoca navegante de insetos temerários, de formigas viajantes; enquanto duas pregas vítreas de água, abrindo-se dos dois lados da proa e atravessando o rio a toda a largura, acompanhavam o navio serenamente e se quebravam contra a orla lamacenta de cada margem, numa cambalhota de espuma castanha sussurrante.

«Tenho de meter aquela besta do Massy nos carris», pensava Sterne. «Isto está a tornar-se demasiado absurdo. Lá está o velho na ponte, enterrado na cadeira - bem podia estar no túmulo, dada a utilidade que tem neste mundo -, e o serang a comandar. Porque é mesmo isso que ele faz. Comandar. No lugar que é meu por direito. Tenho de meter aquele estúpido selvagem na ordem. E é o que vou fazer já ...» Quando o imediato fez uma arrancada brusca, um garoto escuro seminu, de grandes olhos negros e uma fita ao pescoço com uma fórmula mágica escrita, ficou espavorido. Deixou cair a banana que mastigava ruidosamente e correu a agarrar-se aos joelhos de um árabe escuro e solene, de vestes flutuantes, sentado como uma figura bíblica incoerente sobre um baú de lata amarelo, atado com uma corda de rotim.

O pai, impassível, estendeu a mão para acariciar a pequena cabeça rapada de forma protetora.


XI

Sterne atravessou o convés na peugada do maquinista-chefe. Jack, o segundo maquinista, que descia de costas a escada da casa das máquinas ainda a limpar as mãos, presenteou-o com um incompreensível arreganho de dentes brancos no rosto duro e imundo; Massy não se via em lado nenhum. Sterne arranhou levemente na porta e depois, encostando a boca ao ralo do ventilador, disse:

«Preciso de falar consigo, Mr Massy. Dispense-me só um minuto ou dois.»

«Estou ocupado. Afaste-se da minha porta.»

«Mas, por favor, Mr Massy ...»

«Vá-se embora. Está a ouvir? Afaste-se para longe daqui, para a outra ponta do navio, para bem longe ...»

A voz lá dentro baixou de tom. «Para o diabo.» Sterne ficou calado e depois, em tom discreto:

«É bastante urgente. Quando pensa que estará livre, senhor?»

A resposta foi um exasperado «Nunca»; e Sterne imediatamente, com uma expressão muito decidida no rosto, girou o puxador.

O camarote de Mr Massy - uma cabina estreita, de um beliche cheirava intensamente a sabão e apresentava à vista um asseio varrido, limpo de pó e sem adornos, mais do que despido, estéril, mais do que austero, frígido, e falho de calor humano, como a enfermaria de um hospital, ou antes (dadas as pequenas dimensões), como o refúgio asseado de uma pessoa desesperadamente pobre mas exemplar. Nem uma simples fotografia emoldurada ornamentava as anteparas; nem uma peça de roupa, tão-pouco um boné sobressalente, pendurados nos ganchos metálicos. O interior estava inteiramente pintado de um tom simples, azul-pálido; dois grandes baús de marinheiro com coberturas de lona e cadeados de ferro encaixavam perfeitamente no espaço por baixo do beliche. Um olhar bastava para abarcar toda a área de tábuas bem esfregadas, dentro dos quatro cantos a descoberto. A ausência do habitual canapé era surpreendente; a cobertura de madeira de teca do lavatório parecia estar hermeticamente fechada, e o mesmo acontecia com a tampa da escrivaninha, que sobressaía da divisória aos pés da cama, a qual continha um colchão fino como uma panqueca por baixo de um cobertor puído com uma faixa vermelha debotada, e uma rede mosquiteira dobrada para as noites passadas no porto. Não se via um retalho de papel em parte nenhuma, nem botas no chão, nem desarrumação de espécie alguma, nem uma partícula de pó, nem sequer vestígios de cinza do cachimbo, o que, num fumador inveterado, era moralmente revoltante, como que uma manifestação de extrema hipocrisia; e o fundo da velha poltrona de madeira (o único assento ali existente), polido pelo muito uso, brilhava como se aquele tareco tivesse sido encerado.

O painel de folhas da margem, que ia passando pela abertura redonda da vigia como se fosse continuamente desenrolado, projetava um rendilhado vacilante de luz e sombra para dentro do aposento.

Sterne, segurando a porta com a mão, introduzira a cabeça e os ombros. Ao ver esta espantosa intrusão, Massy, que não estava a fazer absolutamente nada, levantou-se de um salto, emudecido.

«Não me chame nomes», murmurou Sterne precipitadamente. «Não quero que me chame nomes. Eu não penso senão no seu bem, Mr Massy.»

Seguiu-se uma pausa, aparentemente de extremo espanto. Parecia que ambos tinham perdido a língua. Depois, o imediato prosseguiu com circunspecta fluência.

«O senhor seria incapaz de imaginar o que se passa a bordo do seu navio. Nem por um momento lhe passaria pela cabeça. O senhor é demasiado bom - demasiado - demasiado honesto, Mr Massy, para suspeitar tal coisa de alguém ... É algo capaz de lhe pôr os cabelos em pé.» Estava atento ao efeito: Massy parecia entorpecido, sem compreender nada. Limitou-se a passar a palma da mão pelas madeixas negras como carvão coladas com fixador ao cocuruto. Alterando subitamente o tom para audácia confidencial, Sterne acelerou.

«Lembre-se de que só já faltam seis semanas ...» O outro olhava para ele petrificado. «Por isso, seja como for, dentro de pouco tempo vai precisar de um capitão para o navio.» Só então, como se aquela alusão lhe tivesse martirizado a carne à maneira de um ferro em brasa, Massy teve um sobressalto e pareceu que ia começar a guinchar. Conteve-se com grande esforço.

«Precisar de - um - capitão», repetiu com sarcástica lentidão. «Quem é que precisa de um capitão? Atreve-se a dizer-me que eu preciso de algum de vós, seus marinheiros intrujões, para marear o meu navio. Há anos que você e os da sua laia engordam à minha custa.

Teria tido menos prejuízo se atirasse o meu dinheiro borda fora. Mi-ma-dos, i-nú-teis, t-t-t-trapaceiros. Este navio velho sabe tanto como o melhor de vocês.» Rangeu os dentes ruidosamente e grunhiu, com eles cerrados: «A estúpida lei é que exige um capitão.» Sterne entretanto ganhara coragem com o comentário favorável.

«E os idiotas dos seguros também», disse com ligeireza. «Mas não faça caso disso. O que lhe quero perguntar é: por que razão não havia eu de servir? Não digo que o senhor não fosse capaz de marear um vapor por esse mundo fora tão bem como qualquer marinheiro. Não tenho a pretensão de lhe dizer que isso é uma grande proeza ...» Soltou uma gargalhada curta e oca, com familiaridade. «... Não fui eu que fiz a lei, mas ela existe; e eu sou um rapaz desembaraçado; partilho plenamente as suas ideias; já sei como o senhor gosta das coisas, Mr Massy.

Não pretenderia dar-me ares como aquele - aquele - bem - aquele exemplar de velho preguiçoso que está lá em cima.» Pronunciou a última frase com acentuada ênfase, para fazer Massy descarrilar no caso de ... mas já não duvidava de ter o sucesso na mão.

O maquinista-chefe tinha um ar atrapalhado, como um homem de reação lenta desafiado a receber na mão um pião a que outro deu corda.

«Do que o senhor precisa é de um tipo sem macaquinhos no sótão, que se contente em ser o mestre do seu navio. E assim é que deve ser.

Ora bem, sou tão competente para fazer esse trabalho como aquele serang. Porque é isso que está em causa. O senhor sabe que quem governa o seu navio é o diacho de um macaco malaio - ele e mais ninguém?

Basta que oiça os pés dele a saltitar por cima de nós, na ponte, o verdadeiro oficial no comando. É ele que mareia o navio rio acima, enquanto o figurão está espojado na cadeira - se calhar a dormir; e mesmo que esteja, isso não irá piorar a situação, acredite no que lhe digo.» Tentou penetrar mais na cabina. Massy, de cabeça baixa e com uma mão apoiada nas costas da poltrona, não se mexeu.

«O senhor pensa que o homem o tem amarrado ao contrato ...» Massy, ao ouvir isto, ergueu um rosto carregado e pronto a soltar impropérios.

«... Ora, senhor, uma pessoa não pode deixar de ouvir falar nisso a bordo. Não é segredo. E em terra, há anos que não se fala de outra coisa; até há quem tenha feito apostas sobre isso. Não, senhor! Ele é que está à sua mercê. Dir-me-á que não o pode despedir por indolência. É difícil de provar em tribunal, etc. e tal. Lá isso é verdade. Mas basta que o senhor diga uma palavra e eu conto-lhe uma coisa a respeito da indolência dele que lhe dará o pleno direito de o despedir no mesmo instante, e entregar-me o comando já para o resto desta viagem - sim, senhor, antes de largarmos de Batu Beru - e fazê-lo pagar um dólar por dia pelo seu sustento até regressarmos à base, se assim quiser. Então, o que me diz a isto? Vamos. Diga lá. Vai valer bem a pena, e eu estou disposto a aceitar a sua simples palavra. Uma afirmação clara da sua parte terá o mesmo valor que um contrato.»

Os olhos começaram a luzir-lhe. Insistiu. Bastava uma simples afirmação - e pensava com os seus botões que arranjaria maneira de ficar de pedra e cal naquele posto enquanto lhe conviesse. Tornar-se-ia indispensável; o navio tinha má fama no porto a que pertencia; seria fácil assustar os outros interessados e mantê-los ao largo. Massy seria obrigado a conservá-lo no posto.

«Uma afirmação clara da minha parte seria suficiente», repetiu Massy devagar.

«Seria, sim, senhor.» Sterne esticou o queixo para fora todo contente e pestanejou muito perto da cara do outro, com aquela desfaçatez inconsciente que tinha o poder de enraivecer Massy para além das marcas.

O maquinista falou muito claramente.

«Pois então, ouça-me bem, Mr Sterne: eu nunca - está a ouvir? -, nunca lhe ofereceria o valor de dois tostões furados por nada que você tivesse para me contar.»

Com uma pancada firme afastou o braço de Sterne e, agarrando o puxador, empurrou também a porta. O terrível estrondo escureceu imediatamente a cabina aos seus olhos, como após o clarão de uma explosão. Deixou-se cair na poltrona de supetão. «Ah, não! Nem pensar!», balbuciou baixinho.

Naquele ponto o navio tinha de rasar a margem de tão perto que a gigantesca muralha de folhas deslizou como uma persiana ao encontro da vigia; a escuridão da floresta primordial pareceu invadir a cabina nua, trazendo o cheiro de folhas em putrefação, de solo empapado em água - o forte odor a lama da terra viva a descoberto, exalando vapor após a passagem de um dilúvio. Os arbustos sibilaram ruidosamente contra o costado do navio; de cima veio uma série de sons crepitantes e uma chuva cerrada de pequenos ramos partidos caiu na ponte de comando; uma trepadeira embateu com grande estrépito na ponta do turco das baleeiras, e um longo rebento de um verde luxuriante entrou e saiu às chicotadas pela vigia aberta, deixando para trás algumas folhas soltas que ficaram de imediato em repouso sobre o cobertor de Mr Massy. Depois, à medida que o navio foi regressando ao meio do rio, a luz começou a regressar, mas não foi além de uma claridade fosca, porque o Sol já estava muito baixo e o rio, seguindo o seu curso sinuoso por entre uma imensidão de árvores seculares, como se corresse no fundo de um íngreme desfiladeiro, já fora invadido por uma obscuridade cada vez mais densa - a veloz precursora da noite.

«Ah, não, nem pensar!», murmurou o maquinista de novo. Os lábios tremiam-lhe quase impercetivelmente, e as mãos um pouco também; para se acalmar abriu a escrivaninha, pousou sobre ela uma folha de papel fino acinzentado coberta de números impressos, e começou a analisá-los pela vigésima vez nesta viagem, pelo menos.

Com os cotovelos apoiados no tampo e a cabeça entre as mãos, pareceu enfronhar-se no estudo de um abstruso problema de matemática. Era a lista dos números vencedores da última extração da grande lotaria, que era o único acontecimento inspirador da sua existência havia tantos anos. A ideia de uma vida sem aquela folha de papel periódica era totalmente inconcebível para ele, da mesma forma que outro homem, dependendo da sua índole, não seria capaz de imaginar um mundo sem ar fresco, sem atividade ou sem afeto. Uma grande pilha de folhas frágeis fora crescendo na sua secretária ao longo dos anos, enquanto o Sofala, movido pelo fiel Jack, desgastava as caldeiras percorrendo aqueles estreitos para baixo e para cima, indo de um cabo a outro, de rio em rio e de baía em baía; assim fora acumulando, graças ao duro esforço de um navio usado abusivamente e deteriorado, aquele volume enegrecido de documentos. Massy guardava-os a sete chaves, como um tesouro. Havia neles, como na experiência da vida, o fascínio da esperança, a excitação de um mistério meio compreendido, o anseio de um desejo meio satisfeito.

Em viagem, fechava-se dias seguidos no camarote com eles; com a pancada das máquinas cansadas a pulsar-lhe no ouvido, queimava os miolos esquadrinhando fiadas de números sem qualquer relação entre si, perplexo com aquelas sequências sem sentido, que até faziam lembrar os reveses da fortuna. Alimentava a convicção de que devia haver alguma lógica escondida algures nos resultados da sorte. Julgava ter descoberto essa fórmula. A cabeça andava-lhe à roda; doíam-lhe os membros; tirava cachimbadas mecanicamente; um torpor contemplativo mitigava a irritabilidade do seu caráter, como a quietude física passiva causada por uma droga, enquanto a mente continua tensa do esforço. Nove, nove, zero, quatro, dois. Tomou nota. O número em que saiu o grande prémio na extração seguinte foi o quarenta e sete mil e cinco. Estes números, evidentemente, tinham de ser evitados futuramente, quando escrevesse para Manila a pedir cautelas. Balbuciava, de lápis na mão ... «e cinco. Mmm ... mmm.» Humedecia o dedo, os papéis resmalhavam. Ah! Mas o que é isto aqui? Há três anos, na extração de setembro, foi no número nove, zero, quatro, dois, que saiu o primeiro prémio. Muito interessante. Ali estava a sugestão de uma regra definitiva! Receava que lhe escapasse qualquer princípio oculto na portentosa riqueza do seu material. Qual seria ela? E durante meia hora ficava completamente imóvel, curvado sobre a secretária, sem mover um músculo. Nas suas costas o camarote estava turvo, com uma densa concentração de fumo, como se ali tivesse rebentado uma bomba sem ninguém ver, sem ninguém ouvir.

Por fim fechava a escrivaninha à chave com o gesto decisivo de uma confiança não abalada, levantava-se de um salto e saía. Punha-se a passear apressado para a frente e para trás naquela parte da coberta de proa que se conservava livre de trastes e dos corpos dos passageiros indígenas. Eram um grande incómodo, mas também eram uma fonte de rendimento que não se podia desdenhar. Precisava de cada tostão que o Sofala lhe pudesse dar de lucro. Que, para ser franco, bem pouco era! A incerteza da sorte não lhe dava preocupações, uma vez que já chegara à conclusão de que, no correr dos anos, todos os números estavam destinados a ter a sua vez de ganhar. Era simplesmente uma questão de tempo e de comprar para cada extração tantas cautelas quantas pudesse.

Geralmente comprava mais do que isso; todo o rendimento do navio ia para aí, bem como o salário que se permitia ter como maquinista-chefe. Os salários que pagava aos outros é que ele chorava, com um desgosto lógico e ao mesmo tempo apaixonado. Olhava de esguelha para os marinheiros indígenas que varriam o convés, para os contramestres que esfregavam os corrimãos de metal com trapos engordurados; comprazia-se em agitar o pulso e rosnar impropérios em mau malaio ao pobre do carpinteiro, um chinês tímido, enfermiço, embotado pelo ópio, de bragas azuis folgadas como único vestuário, que invariavelmente, perante a fúria daquele «demónio», pousava as ferramentas e corria a refugiar-se lá em baixo, com o rabicho a flutuar e a tremer da cabeça aos pés. Mas quando levantava os olhos para a ponte de comando, onde um desses marinheiros de faz de conta estava sempre plantado, por lei, aos comandos do seu navio, é que se sentia mais atordoado de raiva. Abominava-os a todos; era uma animosidade antiga, dos seus primeiros tempos de embarcadiço, rapazola inexperiente mas muito presunçoso, na casa das máquinas. As desconsiderações que lhe fizeram! As perseguições que sofrera às mãos dos capitães - uns perfeitos zés-ninguém, ao fim e ao cabo, num navio a vapor. E agora que se alcandorara à categoria de armador, continuavam a ser uma praga para ele: era obrigado a despender quantias preciosas com aqueles mandriões inúteis e presumidos. Como se um maquinista perfeitamente qualificado - que era também o armador - não tivesse capacidade para lhe ser confiada a inteira responsabilidade de um navio. Pois bem! Fazia-lhes a vida negra, mas era fraca consolação. Com o tempo começara a odiar também o navio, por causa das reparações de que precisava, pelas contas do carvão que tinha de pagar, pelos fretes miseráveis que lhe eram confiados. Enquanto caminhava, costumava cerrar o punho e dar de repente um murro no parapeito, com rancor, como se o navio pudesse sentir dor. Todavia, não podia passar sem ele; precisava dele; tinha de se agarrar a ele com unhas e dentes se queria manter a cabeça fora de água até que a tão esperada maré de fortuna viesse e levasse tudo à frente, depositando-o são e salvo na elevada margem da sua ambição.

A qual por agora se resumia a não fazer nada, absolutamente nada, e ter dinheiro com fartura para assim continuar. Já provara o sabor do poder, na forma mais elevada que a sua experiência limitada conhecia - o poder de ser dono de um navio. Que engano! Vaidade das vaidades! Espantava-se com a sua tolice. Deitara fora a substância pela aparência. Da gratificação da riqueza não conhecia o suficiente para estimular a imaginação com visões de fausto. Como havia de conhecer, se era filho de um caldeireiro bêbedo e transitara diretamente da oficina para a sala das máquinas de um navio carvoeiro de um país do Norte! Mas a ideia da ociosidade absoluta derivada da riqueza era muito capaz de conceber. Deleitava-se com ela, para esquecer as agruras do presente; imaginava-se a passear pelas ruas de Hull (conhecera bem os seus bairros pobres em garoto) com os bolsos cheios de libras de ouro.

Compraria uma casa para viver; as irmãs casadas, os respetivos maridos, os velhos companheiros de oficina render-lhe-iam homenagens infnitas. Não teria nada em que pensar. A sua palavra seria lei. Passara muito tempo sem trabalho antes de ganhar o prémio, e lembrava-se de Carlo Mariani (popularmente conhecido como Charley Pançudo), o maltês gerente do hotel na zona de casas miseráveis da Denham Street, o ter bajulado alegremente nessa noite, quando chegou a notícia. Pobre Charley, embora sobrevivesse à custa de vários vícios abjetos, dava crédito a muitos brancos vencidos da vida para que pudessem comer.

Estava candidamente doido de alegria com a perspetiva de as velhas contas lhe serem pagas, e contava confiadamente com uma temporada de festejos na cavernosa taberna do rés do chão. Massy lembrava-se dos olhares de curiosidade e respeito dos brancos desprezíveis que lá se encontravam. O coração inchara-lhe dentro do peito. Assim que tomou consciência das possibilidades que se abriam diante de si, saiu do antro infame de Charley muito senhor do seu nariz. Mais tarde, a lembrança daquelas adulações dava-lhe tristeza.

Era esse o verdadeiro poder do dinheiro - e nada de chatices por causa disso, nem motivos para pensar. Ele pensava com dificuldade e sentia com intensidade; para o seu cérebro rombo, os problemas apresentados por qualquer esquema ordenado da vida pareciam, na sua cruel dureza, ter sido postos no seu caminho pela manifesta malevolência dos homens. Como armador, toda a gente tinha conspirado para fazer dele um zé-ninguém. Como podia ter sido tão idiota, ao ponto de comprar aquele maldito navio? Fora indecentemente burlado, e aquela burla nunca mais tinha fim; e à medida que as dificuldades derivadas da imprevidente ambição se foram acumulando à sua volta, começou de facto a odiar toda a gente com quem estivera em contacto. Um caráter irritável por natureza e uma sensibilidade extraordinária aos direitos da sua personalidade tinham acabado por lhe tornar a vida uma espécie de inferno: um lugar onde a sua alma perdida fora entregue ao tormento de uma cisma feroz.

Mas nunca odiara ninguém como odiava aquele velho que uma noite aparecera sem mais nem menos para o salvar da ruína total, da conspiração daqueles marinheiros miseráveis. Apareceu no navio como se tivesse caído do céu. Os passos a ecoarem na embarcação deserta e a voz estranha, de tons profundos, a repetir no convés, com acentos interrogativos, «Mr Massy, está aí, Mr Massy?», tinham-no surpreendido como um milagre. Subindo das profundezas da fria casa das máquinas, onde, à luz da vela, estivera a matar o tempo tristemente no meio das enormes sombras projetadas em todas as direções pelos membros esqueléticos da maquinaria, Massy ficara mudo de espanto na presença daquele velho imponente cuja barba era como uma couraça de prata, erguendo-se altaneiro no lusco-fusco a que os últimos fulgores do sol-posto emprestavam laivos de cobre.

«Quer falar comigo por causa de trabalho? Que trabalho? Não tenho trabalho nenhum. Não vê que o navio está em estaleiro?» Massy estava entre a espada e a parede, perante a importuna ironia do seu desastre. Passados instantes, não acreditava naquilo que ouvia. Onde é que aquele velho queria chegar? As coisas não acontecem assim. Aquilo era um sonho. Quando finalmente acordou, o homem evaporara-se, como um vulto desenhado pela névoa. A solenidade, a dignidade, o tom firme e cortês daquele atlético velho desconhecido impressionaram Massy. Estava quase assustado. Mas não fora sonho. Quinhentas libras não são nenhum sonho. De repente, ficou desconfiado. O que significava aquilo? Claro que era uma proposta para agarrar com as duas mãos. Mas o que poderia estar por trás dela?

Antes de se separarem, depois de terem combinado encontrar-se ao início da manhã seguinte no escritório de um solicitador, Massy interrogara-se: «Que razão o motiva?» Passou a noite a planear as cláusulas do contrato, uma escritura única no género, cujo teor se divulgou não se sabe como e se tornou motivo de conversa e de espanto no porto.

O objetivo de Massy fora garantir o maior número possível de formas de se livrar do sócio sem lhe ser imediatamente exigida a restituição da respetiva quota. Os esforços do capitão Whalley eram no sentido de garantir que o dinheiro ficava protegido de qualquer risco.

Então não era o dinheiro de Ivy, uma parte da sua fortuna, da qual o outro único ativo era o corpo desafiador do tempo do seu velho pai?

Certo da tolerância que lhe advinha do seu amor por ela, aceitou, com sublime serenidade, os parágrafos estupidamente ardilosos de Massy contra a sua incompetência, desonestidade, embriaguez, para contrabalançar outras condições rígidas. Ao fim de três anos era livre de se retirar da sociedade, levando o seu dinheiro consigo. Foram tomadas providências para a instituição de um fundo para lhe pagar. Mas se deixasse o Sofala antes do prazo, fosse qual fosse o motivo (exceto a morte), Massy teria um ano inteiro para pagar. «Doença?», sugerira o advogado, um jovem acabado de chegar da Europa e não propriamente sobrecarregado de trabalho, que estava bastante divertido. Massy começou a lamuriar melifluamente: «Quem iria pensar que ele? ...»

«Tirem isso da cabeça», dissera o capitão Whalley com uma soberba confiança no seu físico. «Causas naturais», acrescentou. No meio da vida já estamos nas mãos da morte, mas ele confiava no Criador com uma intrepidez ainda maior, no Criador que conhecia os seus pensamentos, os seus afetos humanos e os seus motivos. O Criador sabia qual o uso que ele estava a fazer da sua saúde, quanto precisava dela ... «Estou convencido de que a minha primeira doença será também a última. Nunca estive doente, que me lembre», afirmara. «Esqueçam isso.»

Mas já nessa fase inicial havia despertado a hostilidade de Massy, por se recusar a entrar com seiscentas em vez de quinhentas. «Não posso fazer isso», limitara-se a dizer com simplicidade, mas com tanta firmeza que Massy desistira imediatamente de insistir nesse ponto; no entanto, dissera para si mesmo: «Não pode! Unhas de fome. Não quer! Deve ter montes de dinheiro, mas o que ele queria era deitar a mão a um trabalho leve e à sexta parte dos meus lucros, de borla, se pudesse.»

E durante os últimos anos a aversão de Massy crescera, refreada por algo semelhante a medo.

A simplicidade daquele homem afigurava-se-lhe perigosa. Mas ultimamente estava mudado, o aspeto era menos impressionante e o vigor vital diminuíra, como se tivesse sofrido uma ferida secreta. No entanto, continuava incompreensível na sua simplicidade, intrepidez e retidão. E quando Massy soube que ele tencionava abandoná-lo no final do prazo, deixando-o com o problema das caldeiras às costas, a aversão deflagrou secretamente em ódio.

O ódio tornara-o tão clarividente que havia já muito tempo que Mr Sterne não lhe poderia dizer nada que ele não soubesse já. Dava-lhe água pela barba tentar aterrorizar aquele abjeto coscuvilheiro para o reduzir ao silêncio; queria lidar com a situação sozinho; e - por mais incrível que isso parecesse a Mr Sterne - ainda não perdera a esperança e o desejo de convencer aquele velho odioso a ficar. Que diacho!

Era a única coisa a fazer, a não ser que pusesse de parte as suas perspetivas de prosperidade. Mas agora, de um momento para o outro, desde a travessia da barra em Batu Beru, as coisas pareciam aproximar-se rapidamente de um ponto decisivo. Aquilo inquietou-o tanto que o estudo dos números vencedores não conseguiu acalmar-lhe a agitação, e o lusco-fusco intensificou-se na cabina, escureceu muito.

Pôs a lista de parte, murmurando mais uma vez: «Ah, não, meu menino, isso é que não. Enquanto eu puder, não.» Não queria que aquele intrujão piscareto que escutava às portas o obrigasse a agir. Pôs outra vez a cabeça entre as mãos; a sua imobilidade confinada à escuridão daquele cubículo fechado fazia dele uma coisa à parte, infinitamente afastada da agitação e dos sons do convés.

Ele ouvia-os, os passageiros começavam a tagarelar, excitados; alguém passou pela sua porta arrastando uma caixa pesada. Ouviu a voz do capitão Whalley lá em cima:

«Atracar, Mr Sterne.» E também a resposta, de algures no convés da proa:

«Si, si, sim, senhor.»

«Atracamos com a proa contra a corrente, desta vez; a maré está a vazar.»

«Proa contra a corrente, sim, senhor.»

«Trate disso, Mr Sterne.»

A resposta foi encoberta pelo tinido prepotente do gongo da casa das máquinas. A hélice continuou a bater devagar: um, dois, três; um, dois, três, com pausas, como se hesitasse a cada rotação. O gongo retinia sem parar, e a água agitada para um lado e para outro pelas pás provocava um ruidoso tumulto contra os costados. Mr Massy não se mexeu. Uma luz de orientação costeira a um quarto de milha de distância na outra margem, não maior do que uma estrelinha, derivou e atravessou lentamente o círculo da vigia de enviesado. Vozes vindas do desembarcadouro de Mr Van Wyk responderam aos chamamentos do navio; as amarras foram lançadas, falharam, e voltaram a ser lançadas; a chama oscilante de uma tocha transportada por uma grande sampana, que vinha buscar o rajá da costa sul com toda a pompa, lançou um repentino clarão rubro para dentro da cabina e para cima da sua pessoa. Mr Massy não se mexeu. Depois de mais umas voltas potentes as máquinas pararam, e o retinir prolongado do gongo significava que o capitão já não precisava delas. Um grande número de botes e canoas de todos os tamanhos flanquearam o bojo do lado direito do Sofala. Passado algum tempo o ruidoso tumulto de água a chapinhar, de gritos, de pés arrastados, de fardos deixados cair com estrondo, e o barulho dos passageiros indígenas a afastarem-se, sossegou lentamente. No cais, uma voz culta e ligeiramente autoritária fez-se ouvir, muito perto do navio:

«Trouxeram correio para mim desta vez?»

«Sim, Mr Van Wyk.» Foi Sterne que lhe respondeu da amurada, num tom de respeitosa cordialidade. «Quer que lho leve aí?»

Mas a voz fez nova pergunta:

«Onde está o capitão?»

«Ainda na ponte, acho eu. Não se levantou da cadeira. Quer que ...»

A voz interrompeu-o com indiferença:

«Eu vou a bordo.»

«Mr Van Wyk» , disse Sterne num repente, com um esforço ansioso, «podia fazer-me o favor...»

O imediato afastou-se à pressa, na direção da prancha de desembarque. Fez-se silêncio. Mr Massy, às escuras, não se mexeu.

Assim como não se mexeu quando ouviu um lento arrastar de pés passar junto à sua cabina indolentemente. Limitou-se a berrar através da porta fechada:

«Tu - Jack!»

Os passos retrocederam sem pressa, o puxador da porta rangeu e o segundo maquinista apareceu na abertura, como uma sombra contra o clarão da vigia que tinha atrás de si, com a cara aparentemente tão escura como o resto do vulto.

«Levámos muito tempo a subir, desta vez», resmungou Mr Massy sem mudar de posição.

«O que é que espera, com metade dos tubos da caldeira tapados por causa das fugas?», defendeu-se o segundo, sem papas na língua.

«Não me fales com insolência», disse Massy.

«Não me fale nas suas caldeiras podres, digo eu», retorquiu-lhe o fiel subordinado sem vivacidade, em voz rouca. «Vá lá abaixo e dê-lhes a pressão de vapor necessária, se for capaz. Eu não sou.»

«Então não mereces o pão que comes», disse Massy. O outro fez um ruído baixo que pareceu uma risadinha, mas podia ter sido um respingo.

«Mais vale ir devagar do que parar o navio de uma vez», foi a advertência que fez ao seu admirado superior. Desta vez, Mr Massy mexeu-se. Virou-se na cadeira e, rangendo os dentes:

«Raios te partam a ti e ao navio! Quem me dera que ele estivesse no fundo do mar. Eras obrigado a morrer à fome.»

O segundo maquinista, merecedor da sua confiança, fechou a porta delicadamente.

Massy ficou à escuta. Em vez de seguir para a casa de banho, onde deveria ter ido para se lavar, o segundo entrou na cabina, que era na porta ao lado. Mr Massy pôs-se em pé de um salto e esperou. Nisto, ouviu a fechadura dele dar um estalido. Saiu a correr e deu um violento pontapé na porta.

«Calculo que te fechaste à chave para te embebedares», gritou.

Passados uns instantes, ouviu uma resposta abafada.

«Estou no meu tempo livre.»

«Se começas a engrossar-te em viagem ponho-te no olho da rua», berrou Massy.

Um silêncio obstinado seguiu-se àquela ameaça. Massy afastou-se, perplexo. Surgiram dois vultos no cais, aproximando-se da prancha de desembarque. Ouviu uma voz com um tom de desdém:

«Preferiria duvidar da sua palavra. Mas pode crer que lhe vou falar nisso.»

A outra voz, a de Sterne, disse com uma espécie de formalidade ressentida:

«Obrigado. É só isso que eu quero. Tenho de fazer o meu dever.»

Mr Massy ficou surpreendido. Uma figura baixa e elegante saltou com ligeireza para o convés e quase chocou com ele, que se encontrava fora do círculo de luz da lanterna da prancha. Quando o outro se afastou em direção à ponte de comando, depois de trocarem um apressado «Boa noite», Massy disse desabridamente a Sterne, que ia andando devagar:

«O que é isso, agora tenta conquistar as boas graças de Mr Van Wyk para quê?»

«Longe disso, Mr Massy. Eu para Mr Van Wyk não valho nada. E acho que o senhor, na opinião dele, também não. Já o capitão Whalley parece que sim. Ele foi convidá-lo para jantar lá em casa esta noite.»

Depois murmurou para si mesmo, sinistramente:

«Espero que goste.»


XII

Mr Van Wyk, o branco de Batu Beru, um ex-oficial da Marinha que, por razões que só ele conhecia bem, rejeitara a promessa de uma brilhante carreira para se tornar o pioneiro dos plantadores de tabaco naquela zona remota da costa, aprendera a gostar do capitão Whalley.

A aparência do novo capitão do navio chamara-lhe a atenção. Não se podia imaginar nada mais diferente dos diversos tipos que vira sucederem-se na ponte de comando do Sofala.

Nesse tempo, Batu Beru não era aquilo em que se transformou desde essa altura: o centro de uma próspera região de plantações de tabaco, um pequeno povoado de chalés de madeira de aspeto suburbano tropical dispostos ao longo de uma ma comprida, à sombra de duas fileiras de árvores e rodeados de exuberantes jardins bem amanhados e floridos, com uma faixa de rodagem de cinco quilómetros para os passeios de carruagem vespertinos, e um residente de primeira classe cuja esposa gorda e jovial orientava o convívio social dos administradores das fazendas que eram casados e dos jovens solteiros ao serviço de grandes companhias.

Toda esta prosperidade não existia ainda; e Mr Van Wyk prosperara sozinho na margem esquerda, na sua profunda clareira roubada à floresta, que chegava até à beira da água a montante e a jusante. Em frente do seu chalé solitário, na margem oposta do rio, ficavam as casas do sultão, um velho soberano irrequieto e melancólico que fechara as portas ao amor e à guerra, para quem a vida já não tinha sabor (exceção feita a presságios funestos) e o tempo nunca tivera valor. Temia a morte, e esperava morrer antes que os brancos estivessem prontos para lhe tirar o seu território. Atravessava o rio com frequência (nunca com menos de dez barcos apinhados de gente), na frenética esperança de extrair qualquer informação sobre o assunto ao seu homem branco. Havia uma determinada cadeira na varanda em que ele se sentava sempre; os dignitários da corte acocoravam-se nos tapetes e peles no meio dos móveis, e os de classe inferior ficavam na extensão de terra coberta de relva entre a casa e o rio, em filas de três ou quatro ao longo de toda a frente. Não era raro a visita ter início ao nascer do dia. Mr Van Wyk tolerava estas incursões. Acenava com a cabeça da janela do quarto, com a escova de dentes ou a navalha de barbear na mão, ou passava por entre o tropel de cortesãos em roupão de banho. Aparecia e desaparecia trauteando uma ária, envernizava as unhas com atenção, esfregava a cara escanhoada com água-de-colónia, bebia o primeiro chá e saía para ver os seus cules a trabalhar; regressava, dava uma vista de olhos aos papéis à secretária, lia uma página ou duas de um livro ou sentava-se diante do pequeno piano vertical, todo chegado para trás no banco e de braços esticados, os dedos nas teclas, balouçando levemente o corpo de um lado para o outro. Se era absolutamente obrigado a falar, dava respostas evasivas e vagamente tranquilizadoras, por pura compaixão; era talvez o mesmo sentimento que fazia que fosse tão prodigamente hospitaleiro com as bebidas gaseificadas que mais de uma vez ficou sem água gaseificada durante uma semana inteira. O velho sultão concedera-lhe toda a terra que ele quisesse desarborizar, o que era simplesmente uma fortuna.

Quer fosse fortuna ou isolamento dos seus semelhantes o que Mr Van Wyk procurava, não podia ter escolhido melhor sítio. Mesmo os barcos-correio da companhia subvencionada, que paravam em todos os aglomerados de cabanas cobertas de palma ao longo da costa, passavam muito ao largo da embocadura do rio Batu Beru. O contrato era velho; talvez dentro de alguns anos, quando ele expirasse, Batu Beru passasse a ser incluído no serviço; entretanto, o correio de Mr Van Wyk era todo endereçado a Malaca, de onde o seu agente lho enviava uma vez por mês pelo Sofala. O resultado era que sempre que Massy ficava sem dinheiro (por comprar demasiados bilhetes da lotaria), ou tinha dificuldade em arranjar um capitão, Mr Van Wyk não recebia as suas cartas e jornais. Por essa razão, tinha um interesse pessoal nas sortes do Sofala. Embora se considerasse um eremita (e não por capricho passageiro, evidentemente, uma vez que já levava oito anos dessa vida), gostava de saber o que acontecia pelo mundo.

Na varanda, à mão de semear, em cima de uma étagère de nogueira (trazida pelo Sofala no ano anterior - vinha tudo pelo Sofala), empilhadas sob pesos de bronze, havia uma quantidade de edições semanais do The Times, as grandes folhas do Rotterdam Courant, o Graphic nos seus invólucros verdes conhecidos em todo o mundo, um periódico holandês ilustrado sem capa, os números de uma revista alemã com a capa de cor «castanho Bismarck». Também lá havia embrulhos com músicas novas, embora o piano (viera havia uns anos, pelo Sofala), na atmosfera húmida da floresta, estivesse quase sempre desafinado. Era irritante estar completamente alheio a tudo, por vezes sessenta dias seguidos, sem ter maneira de saber qual a razão. E quando o Sofala reaparecia Mr Van Wyk descia os degraus da varanda e atravessava o relvado em frente da casa até à beira da água, com o branco cenho franzido.

«Estiveram no estaleiro devido a algum acidente, presumo.»

O comentário era dirigido à ponte de comando, mas antes que alguém pudesse responder já Massy tratara de saltar para terra trepando o parapeito e avançava para ele, comprimindo as palmas das mãos uma contra a outra e inclinando a cabeça lustrosa, como se o cocuruto estivesse coberto de fios e fitas colados com goma. Ficava tão furioso por ter de dar-lhe explicações que a sua lamúria era um espetáculo lamentável, enquanto ao mesmo tempo se esforçava para dar à grande boca a forma de um sorriso.

«Não, Mr Van Wyk. O senhor nem imagina. Não era capaz de arranjar um desses canalhas para poder sair com o navio. Não conseguia convencer nem uma dessas bestas preguiçosas, e a lei, sabe como é, Mr Van Wyk ...»

A choradeira para se justificar nunca mais acabava; as palavras conspiração, conluio e inveja saíam-lhe com ênfase, gemendo-as com mais energia. Mr Van Wyk, examinando as unhas polidas com uma leve careta, dizia: «Mmm. Grande azar», e virava-lhe as costas.

Difícil de contentar, inteligente, um pouco desconfiado, habituado à melhor sociedade (ocupara um posto muito invejado no Ministério da Marinha durante um ano, antes de se retirar da profissão e da Europa), possuía sentimentos calorosos em estado latente e capacidades de compaixão, dissimulados por uma espécie de indiferença arrogante e despótica dos modos, que lhe vinham da educação inicial; e por algo que um inimigo poderia definir como presumido, no aspeto - como que um eco distorcido de elegâncias passadas. Conseguia manter uma disciplina quase militar entre os cules da fazenda, que expusera à luz do dia arrancando-a ao emaranhado e às sombras da selva; e a camisa branca que vestia todas as noites, com o peitilho rígido e lustroso e o colarinho alto, era um sinal de que pretendia preservar a respeitável cerimónia do fato de noite; contudo, enrolava uma larga faixa rubra em torno dos quadris numa concessão à natureza silvestre, em tempos sua adversária e hoje sua subjugada companheira. Além disso, era uma precaução higiénica. Pendia-lhe dos ombros um casaco curto amplamente aberto na frente, de um vaporoso tecido de seda. O cabelo louro e macio, escasso no alto da cabeça, encaracolava levemente nos lados; o bigode cuidadosamente tratado, a fronte descoberta, o brilho dos sapatos baixos de verniz que espreitavam sob a ampla bainha das pernas das calças, talhadas a direito do mesmo tecido vaporoso do casaco, completavam uma figura que fazia lembrar, com aquela faixa, um chefe de corsários de um livro de aventuras, e ao mesmo tempo a elegância de um dandy ligeiramente calvo que, vivendo em retiro, se permitia um gosto por vestuário menos ortodoxo.

Era o seu traje de noite. A hora estipulada para o Sofala chegar a Batu Beru era uma hora antes do pôr do Sol, e ele apresentava um ar pitoresco, e ao mesmo tempo perfeitamente correto, caminhando à beira da água e tendo por fundo o declive herboso, coroado por um chalé baixo e comprido com o telhado de folhas de palma imensamente íngreme, e coberto até aos beirais de trepadeiras em flor. Enquanto o Sofala estava a ser atracado, ele passeava à sombra das poucas árvores deixadas perto do cais de desembarque, à espera de poder ir a bordo.

Os brancos da tripulação não eram homens do seu género. O velho sultão (embora as suas angustiantes invasões fossem uma maçada) era sem dúvida muito mais aceitável para o seu gosto exigente. Mas sempre eram brancos; as visitas periódicas do navio constituíam uma pausa na preenchida rotina dos dias, sem perturbar a sua privacidade. Mais do que isso, eram necessárias de um ponto de vista prático; e devido a uma exigência de precisão que fazia parte da sua natureza, ficava irritado sempre que o navio não aparecia à hora prevista.

A causa da irregularidade era demasiado absurda, e Massy, na sua opinião, era um idiota desprezível. A primeira vez que o Sofala reapareceu após o novo contrato, oscilando ao sair da curva a jusante, depois de ele quase ter perdido a esperança de voltar a vê-lo, sentiu-se tão irritado que não desceu logo até ao cais. Os seus servos tinham ido a correr dar-lhe a novidade, e ele puxou uma cadeira para junto do parapeito frontal da varanda, esticou os cotovelos para fora, apoiou o queixo nas mãos e ficou a olhar fixamente para ele enquanto o atracavam em frente da casa. Distinguia facilmente todas as caras brancas a bordo. Quem raio era aquela espécie de patriarca que eles agora traziam na ponte de comando?

Por fim levantou-se e começou a descer o caminho de saibro. A verdade é que até o saibro para os caminhos havia sido importado pelo Sofala. Exasperado apesar da tranquila altivez, sem olhar para ninguém quer à direita quer à esquerda, dirigiu-se diretamente a Massy de maneira tão determinada que o maquinista, embaraçado, começou a gaguejar de forma ininteligível. Não se conseguiu ouvir mais do que as palavras: «Mr Van Wyk ... Com certeza, Mr Van Wyk ... No futuro, Mr Van Wyk»; e o sangue afluiu-lhe de tal maneira que a grande cara amarelenta adquiriu uma tonalidade cor de laranja nada natural, na qual os inquietos olhos, negros como carvão, reluziam de forma extraordinária.

«Que despropósito. Estou farto disto. Espanta-me que tenha a desfaçatez de atracar no meu cais como se eu o tivesse feito só para sua conveniência.»

Massy tentou protestar a sério. Mr Van Wyk mostrava-se muito zangado. Estava determinado a chamar aquela firma alemã, aqueles de Malaca - como se chamavam? Os barcos com chaminés verdes. Ficariam bastante contentes com a oportunidade de pôr um dos seus pequenos piróscafos a fazer a carreira. Sim; Schnitzler, Jacob Schnitzler, ia já fazer isso. Sim. Estava decidido a escrever sem demora.

Extremamente agitado, Massy apanhou o cachimbo que ia a cair.

«O senhor não está a falar a sério!», guinchou.

«Não devia administrar o seu serviço tão mal, isto é ridículo.»

Mr Van Wyk girou sobre os calcanhares. Os outros três brancos na ponte nem buliram durante a cena. Massy pôs-se a caminhar para cá e para lá precipitadamente, enchia as bochechas de ar, faltava-lhe o fôlego.

«Seu holandês presumido!»

Lastimou-se, exaltado, de uma longa série de desgraças. Os esforços que fizera todos aqueles anos para agradar àquele homem. Era esta a paga que obtinha por isso, hein? Lindo. Escrever ao Schnitzler, deixar vir para aqui os barcos de chaminé verde, fazer que um velho judeu de Hamburgo o arruinasse. Não, na verdade era para rir... Riu-se a soluçar ... Ah! Ah! Ah! E mandá-lo levar as cartas no seu próprio navio, provavelmente.

Tropeçou numa barra de ferro e praguejou. Não hesitaria em atirar borda fora a correspondência do holandês, todo o maldito maço. Nunca tinha cobrado nada por esse serviço, nunca. Mas o capitão Whalley, o seu novo sócio, provavelmente não lho permitiria; além disso, tal mais não seria do que protelar o dia aziago. Pelo seu lado, antes fazer um buraco na água do que ficar docilmente a ver as chaminés verdes a invadirem a sua rota de negócio.

Disparatava em voz alta. Os lacaios chineses aguardavam ao fundo da escada, com os pratos na mão. Ele gritou da ponte para o convés:

«Então esta noite não se come nada?» Depois dirigiu-se com violência ao capitão Whalley, que aguardava, solene e paciente, à cabeceira da mesa, cofiando a barba em silêncio de vez em quando com um gesto tolerante.

«Parece não se importar com aquilo que me acontece. Não vê que isto afeta tanto os seus interesses como os meus? Não é brincadeira nenhuma.»

Sentou-se ao fundo da mesa resmungando entre dentes.

«A não ser que tenha alguns milhares de parte em qualquer sítio. Eu não tenho.»

Mr Van Wyk jantou no seu chalé profusamente iluminado, dando uma ponta de esplendor à noite na sua clareira que dominava a escura margem do rio. Depois sentou-se ao piano, e ao fazer uma pausa deu-se conta de uns passos vagarosos que percorriam o caminho em frente da casa. Uma tábua ou duas rangeram sob um pé pesado; deu meia-volta no banco, à escuta, com os dedos pousados no teclado. O seu pequeno terrier ladrava furiosamente, recuando da varanda para dentro. Uma voz profunda pediu desculpa solenemente por «aquela intrusão». Saiu rapidamente para a varanda.

No cimo dos degraus, a figura patriarcal que aparentemente era o novo capitão do Sofala (conhecera uma boa dúzia deles, mas nenhum daquela espécie) erguia-se imponente, mas sem avançar. O cãozinho ladrava sem cessar, até que um piparote do lenço de assoar de Mr Van Wyk o fez saltar para o lado e calar-se. O capitão Whalley, atacando o assunto, encontrou uma oposição formalmente educada mas determinada. Prosseguiram a discussão em pé, no mesmo sítio onde se haviam encontrado cara a cara. Mr Van Wyk observava o visitante com atenção. E por fim, como se forçado a pôr de lado a reserva:

«Surpreende-me que o senhor interceda por um idiota tão abominável.»

Esta saída era quase um cumprimento, como se ele quisesse dizer: «Que um homem como o senhor interceda!» O capitão Whalley deixou passar a observação, sem vacilar. Dir-se-ia que não a ouvira. Limitou-se a prosseguir, afirmando que estava pessoalmente interessado em esclarecer as coisas entre eles. Pessoalmente ...

Mas Mr Van Wyk, realmente transtornado pela sua indignação com Massy, tornou-se muito incisivo:

«Sabe - se é que posso ser franco consigo -, não me parece que ele seja uma pessoa digna de estima nem de confiança ...»

O capitão Whalley,já de si muito direito, pareceu aumentar uns centímetros em altura, e também em largura, como se o contorno do peito se tivesse de repente expandido por baixo da barba.

«Meu caro senhor, não pense que eu vim aqui para discutir a respeito de um homem ao qual estou ... estou ... mmm ... estreitamente associado.»

Uma espécie de silêncio solene instalou-se por instantes. Não estava acostumado a pedir favores, mas a importância que dava àquela sociedade encorajara-o a tentar... Mr Van Wyk, favoravelmente impressionado e aplacado por um súbito desejo de se rir, interrompeu:

«Está muito bem, se faz disso uma questão pessoal; mas não lhe perdoo se não se sentar a fumar um charuto comigo.»

Uma ligeira pausa, e o capitão Whalley avançou pesadamente. No que respeitava ao serviço, de futuro ele próprio se responsabilizava por isso; e o seu nome era Whalley - talvez para um marinheiro (estava a falar com um marinheiro, não estava?) não fosse de todo desconhecido. Havia atualmente um farol, numa ilha. Quem sabe se Mr Van Wyk ...

«Sim, sim. Pois claro.» Mr Van Wyk compreendeu imediatamente.

Indicou-lhe uma cadeira. Mas que interessante. Quanto a ele, servira na última guerra de Acheen, mas nunca se deslocara tanto para oriente.

Ilha de Whalley? É claro. Que coisa tão interessante. Que mudanças não tinha o seu convidado visto desde então.

«Posso olhar ainda mais para trás, para um inteiro meio século.»

O capitão Whalley tornou-se mais expansivo. O aroma de um bom charuto (uma sua fraqueza) fora-lhe direito ao coração, bem como a delicadeza daquele jovem. Havia algo naquele contacto acidental de que muito sentira a falta nos seus anos de luta.

A reentrância da parede frontal formava um recesso quadrado, mobilado como uma sala. Um candeeiro com um quebra-luz de vidro leitoso, suspenso sob a acentuada inclinação do alto telhado, na extremidade de uma fina corrente de latão, projetava um círculo brilhante de luz sobre uma mesinha onde estava um livro aberto e um corta-papel de marfim. Mais atrás, nas sombras translúcidas, viam-se outras mesas, numerosas poltronas de formas várias, e uma grande profusão de tapetes de pele espalhados no sobrado de teca, por toda a varanda.

As trepadeiras em flor perfumavam o ar. A sua folhagem, aparada entre os pilares, formava como que diversas molduras de folhas densas e imóveis, que refletiam a luz do candeeiro com uma luminosidade verde. Pela abertura a seu lado o capitão Whalley via a lanterna da rampa de desembarque do Sofala, que ardia, baça, à beira-rio, os vultos sombrios do povoado do outro lado da ampla escuridão reluzente do rio, e, como que suspensa ao longo do rebordo linear dos beirais salientes, uma estreita faixa negra do céu noturno cheio de estrelas, resplandecente. Com o excelente charuto na mão, gozou um momento de satisfação.

«Nada de especial. Alguém tem de desbravar o caminho. Eu apenas mostrei que a coisa podia ser feita; mas vocês, homens que foram criados com o uso do vapor, não podem fazer ideia da grande importância que o meu pedacinho de arrojo representou para o comércio do Oriente daquele tempo. Veja, aquela nova rota reduziu o tempo médio de um percurso para sul em onze dias, na maior parte do ano. Onze dias! Está registado. Mas o mais notável - falando a um marinheiro - diria que foi ...»

Falava bem, sem egotismo, de forma profissional. A voz poderosa, emitida sem esforço, enchia o chalé, penetrava nas salas vazias com uma ressonância profunda e límpida, parecia criar uma paz ali fora; Mr Van Wyk estava surpreendido com o tom sereno do seu timbre, era como a perfeição da delicadeza viril. Com o pequeno pé coberto por uma meia de seda e um sapato de verniz apoiado gentilmente no joelho, sentia-se imensamente deleitado. Era como se já não houvesse quem falasse assim, e os olhos mergulhados em sombras, a barba branca pendente, a grande estatura, a serenidade, a inteira índole do homem eram uma surpreendente relíquia dos tempos pré-históricos do mundo, que chegara até ele vinda do mar.

O capitão Whalley também fora o pioneiro dos primeiros intercâmbios no golfo de Pechili. Até encontrou uma oportunidade para mencionar que sepultara lá a sua «querida esposa», havia vinte e seis anos. Mr Van Wyk, impassível, não pôde deixar de pensar para si, rapidamente, que género de mulher casaria com semelhante homem. Teriam formado um par aventureiro e harmonioso? Não. Muito provavelmente ela era pequena, frágil, sem dúvida muito feminina - ou, mais provavelmente, banal, com instintos domésticos, absolutamente insignificante. Mas o capitão Whalley não era nenhum gárrulo maçador e, abanando a cabeça como se quisesse dissipar a tristeza momentânea que se fixara no seu velho rosto bem-parecido, aludiu em tom coloquial à solidão de Mr Van Wyk.

Mr Van Wyk afirmou que por vezes tinha mais companhia do que desejava. Mencionou a sorrir algumas das peculiaridades do seu relacionamento com «o meu sultão». Fazia-lhe visitas em peso. Aquela gente estragava-lhe o relvado em frente (não era fácil conseguir algo parecido com um relvado, nos trópicos), e dias antes tinham-lhe partido uns arbustos raros que lá plantara. O capitão Whalley recordou-se imediatamente de que, em quarenta e sete, o então sultão, «o avô deste», se tornara famoso como grande protetor das frotas piratas de paraus vindos de paragens mais a oriente. Tinham um refúgio seguro no rio, em Batu Beru. Financiava sobretudo um chefe balinini chamado Haji Daman. O capitão Whalley, agitando significativamente as suas espessas sobrancelhas brancas, tinha boas razões para saber disso. O mundo progredira desde esses tempos.

MrVan Wyk objetou com inesperado azedume. Progrediu em quê?, queria saber.

Ora essa, no conhecimento da verdade, na decência, na justiça, na ordem - e também na honestidade, visto que os homens faziam mal uns aos outros sobretudo por ignorância. Era mais agradável viver nele agora, concluiu o capitão Whalley de maneira original.

Mr Van Wyk, caprichosamente, não admitia que Mr Massy, por exemplo, fosse por natureza mais agradável do que os piratas balinini.

O rio não ganhara muito com a mudança. Cada qual à sua maneira, tão honestos eram uns como outros. Massy era menos feroz do que Haji Daman, sem dúvida, mas ...

«E quanto a si, meu caro senhor?» O capitão Whalley deu uma risada profunda e suave. «O senhor é sem dúvida uma melhoria.»

Continuou com a mesma veia chistosa. Um bom charuto era melhor do que uma mocada na cabeça - o tipo de acolhimento que teria encontrado naquele rio quarenta ou cinquenta anos antes. Depois inclinou-se ligeiramente para a frente e o seu semblante tornou-se sério. Dá a impressão de que, excetuando as suas tribos de ciganos do mar, esses flibusteiros odiavam toda a humanidade com um ódio sanguinário, incompreensível. Entretanto tinha-se posto fim às suas pilhagens, e qual fora a consequência? A nova geração era ordeira, pacífica, instalara-se em aldeias prósperas. Podia falar disso com conhecimento próprio. Mesmo os poucos sobreviventes desse tempo - agora já velhos - tinham mudado de tal maneira que seria cruel lembrar em seu desabono que alguma vez na vida tinham cortado uma garganta. Tinha em mente sobretudo um: o chefe venerável e digno de uma certa aldeia da costa de grandes dimensões, a cerca de sessenta milhas a sudoeste de Tampasuk. Consolava o coração de uma pessoa ouvir aquele homem falar. Talvez em tempos tivesse sido um selvagem feroz. O que os homens precisavam era de ser confrontados com uma inteligência superior, com um conhecimento superior, e também com uma força superior - sim, uma força concedida por Deus e santificada por ser usada de acordo com a Sua vontade expressa. O capitão Whalley acreditava que em cada homem existia uma tendência para o bem, apesar de o mundo, no seu todo, não ser um lugar muito feliz. Na sabedoria dos homens não confiava tanto. Reconhecia que aquela tendência por vezes tinha de ser veementemente estimulada. Podem ser idiotas, estouvados, infelizes; mas maus por natureza, não. Lá no fundo existia, pelo menos, uma total inocência ...

«Existe mesmo?», interrompeu Mr Van Wyk desabridamente.

O capitão Whalley riu-se da observação, com o bom humor próprio de uma grande e tolerante certeza. Podia olhar um século para trás, salientou. O fumo fluía placidamente por entre os pelos brancos, escondendo-lhe os lábios bondosos.

«Seja como for», continuou depois de uma pausa, «fico feliz por eles ainda não terem tido tempo de lhe fazer muito mal, por enquanto.»

Esta alusão à sua relativa juventude não ofendeu Mr Van Wyk, que se pôs em pé e encolheu os ombros com um meio sorriso enigmático.

Encaminharam-se amigavelmente juntos para a noite estrelada, na direção do rio. Os seus passos ressoavam diferentemente no escuro do cantinho. Na extremidade inferior da rampa de desembarque, a lanterna, a baixa altura junto ao corrimão, iluminou com nitidez as pernas brancas e os grandes pés pretos de Mr Massy, que aguardava ansiosamente. Da cintura para cima mantinha-se na sombra, com uma fila de botões a reluzir até ao vago contorno do queixo.

«Pode agradecer isto ao capitão Whalley», disse Mr Van Wyk de modo conciso antes de virar as costas.

Os candeeiros da varanda projetavam por entre os pilares três longos quadrados de luz que avançavam até longe na relva. Um morcego passou-lhe a voar diante do rosto como um floco rodopiante de tom escuro aveludado. Ao longo da sebe de jasmim o ar noturno estava pesado do orvalho perfumado que caía; canteiros de flores bordejavam o caminho; os arbustos aparados sobressaíam em formas escuras arredondadas aqui e ali na frente da casa; a densa folhagem das trepadeiras filtrava a claridade dos candeeiros do interior, produzindo um clarão suave em toda a fachada; e todas as coisas, próximas e distantes, estavam sossegadas numa perfeita imobilidade, numa grande doçura.

Mr Van Wyk (que anos antes tivera o ensejo de se julgar mais mal tratado do que alguém já fora por uma mulher) sentia pelas opiniões otimistas do capitão Whalley o desdém próprio de um homem que um dia também já fora crédulo. A sua aversão ao mundo (essa mulher chegara a preencher inteiramente o seu) tomara a forma de atividade em retiro, porque, embora capaz de uma grande profundidade de sentimentos, era enérgico e essencialmente prático. Mas havia naquele velho marinheiro invulgar, que chegara ao sabor da maré até às imediações da sua azafamada solidão, algo que fascinava o seu ceticismo.

A sua própria simplicidade (bastante divertida) era como o delicado requinte de um caráter reto. Num homem reduzido a tão humilde condição, a impressionante dignidade de maneiras não podia ser outra coisa senão a expressão de algo essencialmente nobre presente no seu caráter. Com toda a confiança que depositava na humanidade, não era parvo nenhum; a sua índole serena ao fim de tantos anos tinha todo o ar de profunda sabedoria, uma vez que não podia, obviamente, ter sido aplacada pelo sucesso. Mr Van Wyk por vezes achava-a divertida.

Até mesmo os traços físicos do velho capitão do Sofala, o sólido arcaboiço, o semblante tranquilo, o rosto inteligente e bem-parecido, os membros grandes, a afável cortesia, o toque de inflexível severidade nos sobrolhos hirsutos, compunham uma personalidade sedutora. Mr Van Wyk detestava qualquer género de pequenez, mas aquele homem nada tinha de pequeno, e ao longo da exemplar regularidade de muitas viagens criara-se entre eles uma intimidade, a que subjazia um caloroso sentimento traduzido numa delicada pompa de formalidades que agradava ao seu temperamento niquento.

Conservavam as suas opiniões pessoais sobre todas as questões deste mundo. O capitão Whalley nunca pretendeu impor as suas diferentes convicções. A diferença de idades era mais um traço de união entre eles. Uma vez, censurado pela falta de caridade própria da sua juventude, Mr Van Wyk, passando os olhos pelas avantajadas proporções do seu interlocutor, retorquiu com um gracejo amigável:

«Oh. Ainda há de pensar como eu. Não lhe faltará tempo para isso.

«Não diga que é velho. Tudo em si indica que chegará aos cem.»

Mas não podia passar sem a sua mordacidade contundente e, embora moderando-a com um sorriso quase afetuoso, acrescentou:

«E provavelmente nessa altura perrnitir-se-á morrer de puro tédio.»

O capitão Whalley, também a sorrir, abanou a cabeça. «Deus não o permita!»

Pensou que, bem vistas as coisas, decerto merecia melhor do que morrer com tais sentimentos. A hora teria de chegar, é claro, e contava que o Criador arranjasse uma maneira de o levar de que não tivesse de se envergonhar. De resto, esperava viver até aos cem se necessário fosse. Sabia-se de outros homens, não seria nenhum milagre. Não estava à espera de milagres.

O tom acentuado e lógico fez que Mr Van Wyk levantasse a cabeça e olhasse para ele com firmeza. O capitão Whalley tinha o olhar fixo, com uma expressão de êxtase, como se tivesse visto o decreto favorável do Criador escrito na parede em misteriosos carateres. Ficou uns segundos perfeitamente imóvel e depois ergueu da cadeira a sua grande corpulência, com tal ímpeto que Mr Van Wyk se sobressaltou.

Primeiro deu um forte murro no peito cheio de ar, depois, esticando na horizontal um grande braço que ficou firme, estendido no ar como a pernada de uma árvore num dia sem vento:

«Nenhuma dor nem nenhuma fraqueza aqui. Vê-o tremer minimamente?»

Disse-o em voz baixa, num contraste respeitoso e confidencial com a ênfase precipitada dos movimentos. Sentou-se abruptamente.

«Isto não é para me vangloriar, entenda. Eu não sou nada», disse sem esforço na sua voz forte, que parecia sair com a mesma naturalidade com que um rio corre. Pegou no coto do charuto que pusera de lado, e acrescentou pacificamente, com um leve aceno de cabeça:

«Acontece que a minha vida é necessária; não me pertence, não - só Deus sabe.»

Não disse muito mais no resto da noite, mas Mr Van Wyk reparou mais de uma vez num sorriso fugidio, de autoconfiança, que pairava sob o pesado bigode.

Depois disso, o capitão Whalley de vez em quando aceitava jantar «na casa». Até foi possível convencê-lo a beber um copo de vinho.

«Não pense que é por medo, meu caro senhor», explicou. «Houve uma boa razão para eu ter de deixar de beber.»

Noutra ocasião, recostando-se comodamente, observou: «O senhor tratou-me muito, muito humanamente, meu caro senhor Van Wyk; desde o princípio.»

«Tem de admitir que houve um certo mérito», insinuou Mr Van Wyk maliciosamente. «Como sócio daquele excelente Massy ... Está bem, está bem, meu caro capitão, não direi uma palavra em desfavor dele.»

«De nada serviria que dissesse alguma coisa contra ele», declarou o capitão Whalley, um pouco taciturno. «Como já antes lhe disse, a minha vida, o meu trabalho, são necessários, e não apenas a mim. Não tenho alternativa ...» Calou-se, girou a toda a volta o copo que tinha na frente ... «Tenho uma filha, única.»

O amplo movimento descendente do braço sobre a mesa pareceu sugerir uma menina pequena a grande distância. «Espero voltar a vê-la antes de morrer. Entretanto, basta saber que ela me tem a mim são e forte, graças a Deus. O senhor não pode compreender como uma pessoa se sente. Sangue do meu sangue, carne da minha carne; é a imagem da minha infeliz esposa. Pois é, ela ...»

Fez outra pausa, depois pronunciou estoicamente as palavras: «Ela trava uma luta difícil.»

A cabeça tombou-lhe sobre o peito, os sobrolhos contraíram-se, como se num esforço de meditação. Mas geralmente a sua mente dir-se-ia imbuída da serenidade de uma confiança ilimitada num poder superior. Por vezes Mr Van Wyk pensava quanta dessa confiança se devia à esplêndida vitalidade do homem, ao vigor físico que parece ceder parte da sua força à alma. Mas aprendera a gostar muito dele.

 

XIII

Por isso é que o recado confidencial de Mr Sterne, transmitido à pressa no cais junto ao fianco do navio escuro e silencioso, perturbara a sua serenidade. Era a coisa mais incompreensível e inesperada que podia acontecer; o seu espírito ficou tão perturbado que se esqueceu completamente da correspondência e subiu a correr a escada da ponte de comando.

A mesa portátil estava a ser montada para o jantar, à esquerda do timão, por dois rapazes de rabicho que, como de costume, litigavam um com o outro por causa da tarefa, enquanto um terceiro, um chinês muito amarelo, lúgubre e corpulento, parecido com Mr Massy, aguardava, apático, com a toalha pendurada no braço e uma pilha de pratos grossos encostadas ao peito. Uma lanterna normal de cabina trazida lá de baixo, à qual faltava o globo, fora pendurada na armação de madeira do toldo; os painéis laterais tinham sido abaixados a toda a volta; o capitão Whalley, preenchendo as profundezas da cadeira de verga, parecia entorpecido e sentado numa tenda de lona mal iluminada e usada como arrecadação de objetos náuticos; uma roda do leme gasta, uma bitácula de metal amolgada sobre um robusto pedestal de mogno, duas boias de salvação sujas, uma molhelha velha de cortiça atirada para um canto, arcas de convés a cair aos bocados com argolas de corda fina no lugar dos manípulos.

O capitão sacudiu a aparência de torpor para retribuir o cumprimento anormalmente jovial de Mr Van Wyk, mas recaiu de imediato na mesma modorra. Aceitar um convite insistente para jantar «lá em cima na casa» custou-lhe outro esforço físico muito evidente. Perplexo, Mr Van Wyk cruzou os braços, encostou-se ao parapeito com os pezinhos pretos e resplendentes projetados para a frente, e pôs-se a observá-lo disfarçadamente.

«Ultimamente tenho notado que o senhor não parece o mesmo, meu bom amigo.»

Deu uma inflexão de afetuosa delicadeza às três últimas palavras. A genuína intimidade do seu relacionamento nunca antes fora expressa com tal veemência.

«Essa agora!»

A cadeira de verga rangeu ruidosamente.

«Irritável», comentou Mr Van Wyk consigo mesmo; e em voz alta: «Espero-o dentro de meia hora, então», disse em tom despreocupado, afastando-se.

«Dentro de meia hora», repetiu a rígida cabeça prateada do capitão Whalley nas suas costas, como se em transe.

A meia nave, por baixo, próximo da casa das máquinas, ouviam-se duas vozes em diálogo, uma furiosa e lenta, a outra perspicaz.

«O que lhe digo é que aquela besta se fechou à chave para se embebedar.»

«Não se pode impedi-lo, Mr Massy. Afinal de contas, um homem tem o direito de se fechar na cabina quando não está de serviço.»

«Mas não para se embebedar.»

«Ouvi-o praguejar que a apoquentação com as caldeiras era motivo para um homem se embebedar», disse Sterne com malícia.

Massy sibilou qualquer coisa a respeito de arrombar a porta. Mr Van Wyk, para os evitar, atravessou no escuro até ao outro lado do convés deserto. O entabuado do pequeno cais ressoou levemente sob os seus pés apressados.

«Mr Van Wyk! Mr Van Wyk!»

Não se deteve, vinha alguém a correr pela vereda. «Esqueceu-se de receber o seu correio.»

Sterne, com um maço de papéis na mão, alcançou-o.

«Oh, obrigado.»

Mas como o outro continuava a acompanhá-lo, Mr Van Wyk estacou de repente. Os beirais salientes, descendo até abaixo sobre a frente iluminada do chalé, projetavam uma sombra negra e retilínea para o imenso espaço noturno daquele lado. Estava tudo em sossego. Ouvia-se um tinir de talheres e um leve tilintar de copos. Os criados de Mr Van Wyk estavam a pôr a mesa na varanda para duas pessoas.

«Receio que o senhor não dê crédito às minhas boas intenções acerca do assunto de que lhe falei», disse Sterne.

«Eu simplesmente não o entendo.»

«O capitão Whalley é um homem muito atrevido, mas tem de compreender que o seu jogo acabou. Isto é tudo o que qualquer pessoa precisa de saber da minha boca. Acredite, eu ponderei muito sobre isto, mas dever é dever. Não quero fazer espalhafato. Tudo o que lhe peço, como amigo dele, é que lhe diga da minha parte que o jogo acabou. Isso basta.»

Mr Van Wyk sentiu uma consternação asquerosa perante aquele estranho privilégio da amizade. Não se rebaixaria a pedir-lhe a mais pequena explicação; pô-lo a andar com insolência não achou prudente - pelo menos por enquanto. Tanta certeza intrigava-o. Sabe-se lá o que aquilo implicava, pensou. A sua estima pelo capitão Whalley tinha a firmeza de um sentimento desinteressado, e, recorrendo ao seu instinto prático, dissimulou o desdém.

«Devo portanto inferir que se trata de uma coisa grave.»

«Muito grave», assentiu Sterne solenemente, encantado por ter finalmente provocado alguma reação. Fez menção de acrescentar alguns efusivos protestos do seu pesar pela «inevitável necessidade», mas Mr Van Wyk cortou-lhe a palavra - muito educadamente, porém.

Já na varanda, Mr Van Wyk pôs as mãos nos bolsos e, alargando as pernas, ficou de olhos fixos na pele de uma pantera negra estendida no chão, diante de uma cadeira de balanço. «A impressão que dá é de que este tipo não tem coragem para fazer o seu precioso jogo abertamente», pensou.

E era bem verdade. Em face da última rejeição de Massy, Sterne não se atrevia a declarar aquilo que sabia. O seu objetivo era simplesmente assumir o comando do navio e conservá-lo durante um certo tempo.

Massy nunca lhe perdoaria se ele se impusesse; mas se o capitão Whalley deixasse o navio de livre vontade, o comando ser-lhe-ia entregue para o resto da viagem; por isso magicara na brilhante ideia de meter medo ao velho para correr com ele. Uma ameaça velada, uma mera insinuação, seria o suficiente num caso tão descarado; e, com uma estranha mescla de compaixão, pensou que Batu Beru era um ótimo sítio para atirar a toalha ao chão. O capitão podia desembarcar sem alaridos e ficar com o seu querido holandês. Não eram unha com carne um com o outro? E depois de muito matutar, achou que havia maneira de resolver toda a questão com a colaboração do grande amigo do velho. Esta fora outra brilhante ideia. Tinha uma preferência nata por processos tortuosos. Mas neste caso particular apeteceu-lhe ficar o mais possível em segundo plano, para evitar irritar Massy sem necessidade. Nada de espalhafatos! Deixemos que tudo aconteça naturalmente.

Durante todo o jantar Mr Van Wyk teve a perceção de uma sensação de isolamento, que por vezes se imiscui na intimidade de um relacionamento humano. As tentativas do capitão Whalley para comer qualquer coisa falharam todas, de maneira óbvia e lamentável. Parecia dominado por uma estranha abstração. A mão ficava-lhe a pairar, irresoluta, como se privada de orientação por uma mente preocupada.

Mr Van Wyk ouvira-o aproximar-se ao longe, no profundo silêncio da beira-rio, e notara a hesitação dos seus passos. A biqueira da bota tropeçara no degrau do fundo, como se ele viesse embasbacado, de cabeça no ar até junto dos degraus da varanda. Fosse o capitão do Sofala outra espécie de homem, teria suspeitado que fosse efeito da idade.

Mas bastava olhar para ele. O tempo - depois de, evidentemente, gravar nele as suas marcas - deixara-o dedicar-se à sua utilidade, e a sua fé simples via nisso uma prova da misericórdia divina. «Como é que vou avisá-lo?», perguntava-se Mr Van Wyk, como se o capitão Whalley estivesse a milhas e milhas de distância, longe da vista e do ouvido de qualquer desgraça. Sentia náuseas, pelo enorme asco que Sterne lhe causava. A simples menção da sua ameaça contra um homem como Whalley seria uma indececência absoluta. Havia algo mais vil e ultrajante na sua insinuação do que numa acusação final de crime - a mancha aviltante da chantagem. «O que poderia alguém alegar contra ele?», perguntou-se. Era uma personagem límpida. «E com que intenção?» O Poder em que aquele homem confiava achara justo não lhe deixar nada neste mundo de que a inveja quisesse apoderar-se, exceto uma côdea de pão às secas.

«Não quer provar disto?», perguntou, empurrando ligeiramente um prato. De repente veio-lhe à ideia que provavelmente Sterne andava a cobiçar o comando do Sofala. Na sua misantropia, ficou espantado com aquilo que parecia ser a prova de que ninguém pode considerar-se a salvo dos seus semelhantes, a não ser que se encontre na mais negra miséria. Concluiu que não valia a pena preocupar-se com uma intriga daquele género; no entanto, tendo de lidar com um imbecil como Massy, Whalley devia, ou melhor, tinha de ser avisado.

Nesse instante o capitão Whalley, direito como um fuso, com as bastas sobrancelhas suspensas sobre as órbitas profundas, e uma grande mão morena apoiada de cada lado do prato vazio, falou bruscamente, da outra extremidade da toalha:

«Mr Van Wyk, o senhor sempre me tratou com a mais humana consideração .»

«Meu caro capitão, o senhor atribui demasiada importância ao simples facto de eu não ser um selvagem.» Mr Van Wyk, profundamente revoltado com o pensamento da obscura tentativa de Sterne, levantou a voz em tom incisivo, como se o imediato estivesse escondido algures, onde o pudesse ouvir. «Se alguma consideração fui capaz de mostrar, não fiz mais do que a devida obrigação com uma pessoa que entretanto aprendi a respeitar com uma estima que nada pode abalar.»

Um leve tinir de vidros fê-lo erguer os olhos da fatia de ananás que estava a cortar em bocadinhos no prato. Ao mudar de posição, o capitão Whalley encalhara num copo vazio, derrubando-o.

Olhando noutra direção, inclinado para o lado sobre o cotovelo e com a outra mão em pala sobre a fronte, tenteou na sombra à procura dele, mas desistiu. Van Wyk olhava-o estupefacto, como se de repente algo de grave tivesse acontecido. Não compreendia porque se sentia tão alarmado, mas nesse momento esqueceu Sterne completamente.

«Mas afinal o que se passa?»

O capitão Whalley, meio desviado, murmurou numa voz abafada e agitada:

«Estima!»

«E posso acrescentar mais qualquer coisa», pronunciou Mr Van Wyk lentamente, com o olhar bem firme.

«Pare! Basta!» O capitão Whalley não mudou de posição nem levantou a voz. «Não diga mais nada! Eu não posso retribuir-lhe. Até para isso já sou demasiado pobre. A sua estima é valiosa. O senhor não é homem que se curve para ludibriar o mais pobre diabo que há no mundo, nem para fazer que um navio esteja interdito de navegar cada vez que ele o leva para o mar.»

Mr Van Wyk, debruçado para a frente, com o rosto todo ruborizado, o guardanapo engomado pousado nos joelhos, sentiu-se inclinado para duvidar dos seus sentidos, da sua capacidade de compreensão, da sanidade mental do seu convidado.

«Onde? Porquê? Em nome de Deus! O que é isto? Que navio? Não percebo quem ...»

«Pois bem, em nome de Deus, estou a falar de mim! Um navio está interdito de navegar quando o seu capitão não vê. Estou a ficar cego.»

Mr Van Wyk fez um ligeiro movimento e sentou-se muito quieto durante uns segundos; depois, pensando na frase de Sterne, «o jogo acabou», curvou-se de repente para apanhar debaixo da mesa o guardanapo que lhe escorregara dos joelhos. Era este o jogo que acabara.

Ao mesmo tempo, a voz estrangulada do capitão Whalley passou por cima dele:

«Ludibriei-os a todos. Ninguém sabe.»

Reemergiu, corado até aos olhos. O capitão Whalley, imóvel sob o forte clarão do candeeiro, abrigava o rosto com a mão.

«E teve essa coragem?»

«Chame-lhe o que quiser. Mas o senhor mostra que é uma pessoa humanitária, um ... um cavalheiro, Mr Van Wyk. Podia ter antes perguntado o que fiz eu da minha consciência.»

Parecia meditar, profundamente silencioso, imóvel na sua pose dolorosa.

«Comecei a fazer jogo sujo por orgulho. Começamos a ver muita coisa, quando estamos a ficar cegos. Nem fui capaz de ser franco com um velho companheiro. Não fui franco com Massy, não, de modo nenhum. Vi que ele me tomou por um marinheiro rico e estúpido, e permiti. Quis conservar a minha importância, porque lá longe estava a pobre Ivy, a minha filha. Por que razão me aproveitei da desgraça dele? Aproveitei-me, sim, por ela. E agora, que clemência podia esperar dele? Seria a sua vez de tirar proveito da minha desgraça, se o soubesse. Corria com o velho fraudulento e ficava um ano agarrado ao dinheiro. O dinheiro de Ivy. Não fiquei com um único tostão para mim. Como vou viver durante um ano? Um ano! Ao fim de um ano já o Sol não brilhará no céu para o pai dela.»

A voz profunda saía-lhe terrivelmente velada, como se tivesse sido sepultado por um deslizamento de terras e exteriorizasse os pensamentos que assombram os mortos nos seus túmulos. Um arrepio de frio desceu pelas costas de Mr Van Wyk.

«E há quanto tempo começou a ... ?», principiou.

«Foi muito antes de eu ser capaz de acreditar nesta ... nesta provação que o Céu me enviou.» Falava com triste resignação, cobrindo-se com a mão.

Não se julgara merecedor daquilo. Começara por enganar-se a si próprio dia após dia, semana após semana. Tinha a seu lado o serang, um velho servo. Veio gradualmente, e quando já não podia enganar-se a si próprio ...

A voz quase se lhe extinguiu.

«Em vez de abandoná-la, decidi ludibriar-vos a todos.»

«É inacreditável», sussurrou Mr Van Wyk. O aterrador murmúrio do capitão Whalley prosseguiu.

«Nem o sinal da cólera divina podia fazer que a esquecesse. Como poderia desamparar a minha filha, se continuava a sentir o meu vigor, o sangue a correr-me quente nas veias? Tão quente como o seu. Parecia-me que, como Sansão privado da visão, teria força para fazer cair um templo sobre a minha cabeça. É uma mulher lutadora, a minha filha, costumávamos rezar por ela juntos, eu e a minha defunta esposa. Recorda-se daquele dia em que lhe dei a entender que acreditava que Deus me deixaria viver até aos cem anos, por amor a ela? Que pecado existe em amar a própria filha? Está a compreender? Estava disposto a viver para sempre, por amor a ela. Quase acreditava que assim seria. Desde então, tenho rezado para que a morte venha. Ah! Homem presumido, querias viver...»

Um tremendo estremecimento daquela grande compleição física, sacudida por um soluço arquejante, fez tilintar os objetos de vidro que estavam sobre a mesa, pareceu fazer tremer toda a casa até à viga-mestra do telhado. E Mr Van Wyk, cujo sentimento de amor ultrajado se traduzira numa forma de luta com a natureza, compreendia muito bem que para aquele homem, cuja vida inteira fora condicionada pela ação, não podia existir outra forma de exprimir todas as emoções; que deixar voluntariamente de se arriscar, de fazer, de se aguentar, por amor à filha, seria o mesmo que arrancar-lhe do coração vivo o seu afetuoso amor por ela. Algo demasiado monstruoso, demasiado impossível, até mesmo de imaginar.

O capitão Whalley não mudara de posição, a qual parecia exprimir simultaneamente vergonha, sofrimento e desafio.

«Também o enganei a si. Se não fosse aquela palavra "estima"! Não são palavras para mim. Ter-Ihe-ia mentido. Não lhe menti já? Não ia confiar os seus bens ao navio também nesta viagem?»

«Tenho uma apólice anual de seguro marítimo», disse Mr Van Wyk quase inconscientemente, e ficou espantado com a inesperada alusão a um pormenor de natureza comercial.

«O navio está interdito de navegar, já lhe disse. A apólice seria invalidada se se soubesse ...»

«Então, dividiremos a culpa.»

«Nada poderia tornar a minha menor», afirmou o capitão Whalley.

Não se atrevera a consultar um médico; provavelmente quereria saber quem ele era, o que fazia; poderia chegar aos ouvidos de Massy. Continuara a fazer a sua vida sem qualquer ajuda, humana ou divina. Até as orações se lhe encravavam na garganta. Rezar por quê? E a morte parecia tão distante como antes. Quando recolhia à sua cabina não se atrevia a sair de novo; quando se sentava não se atrevia a levantar-se; não se atrevia a erguer os olhos para encarar ninguém; tinha relutância em olhar para o mar ou para o céu. O mundo desaparecia gradualmente perante o seu grande receio de se trair. O velho navio era o seu último amigo; não tinha medo dele; conhecia cada centímetro do convés; mas mesmo para ele quase não se atrevia a olhar, com receio de descobrir que via menos do que no dia anterior. Rodeava-o uma grande incerteza. O horizonte desaparecera; o céu misturava-se obscuramente com o mar. Quem era aquela figura acolá, em pé? Que coisa era aquela além em baixo? E uma dúvida aterradora sobre a realidade daquilo que conseguia ver transformava a pouca visão que lhe restava num tormento acrescido, numa cilada sempre à espreita, para o seu desgraçado fingimento. Tinha medo de tropeçar em qualquer coisa sem explicação, de responder com um fatal Sim ou Não a uma pergunta. A mão de Deus estava suspensa sobre ele, mas não podia arrancá-lo à filha. E, como um pesadelo de humilhação, qualquer homem sem feições distintas lhe parecia um inimigo.

Deixou cair a mão em peso sobre a mesa. Mr Van Wyk, de braços caídos, o queixo assente no peito, um fulgor de dentes brancos pressionando o lábio inferior, meditava na frase de Sterne «o jogo acabou».

«O serang não sabe, está claro.»

«Ninguém», afirmou o capitão Whalley com convicção.

«Ah, pois. Ninguém. Muito bem. Consegue aguentar-se até ao fim da viagem? É a última a coberto do contrato com o Massy.»

O capitão Whalley pôs-se em pé e permaneceu ereto, muito imponente, com a grande barba branca pousada como uma couraça sobre o terrível segredo do seu coração. Sim; era essa a única esperança que lhe restava de alguma vez voltar a vê-la, de proteger o dinheiro, a última coisa que podia fazer por ela antes de se arrastar furtivamente para qualquer sítio, um inútil, um fardo, uma vergonha para si próprio. Tremeu-lhe a voz.

«Imagine! Nunca mais vê-la, o único ser humano no mundo, além de mim, que pode recordar a minha esposa. Ela é igual à mãe. Por sorte essa infeliz encontra-se num lugar onde não se vertem lágrimas por aqueles que se amaram na Terra, e que continuam a rezar para que os não deixem cair em tentação, pois imagino que os bem-aventurados conheçam o segredo da graça nas relações de Deus com as suas criaturas.»

Oscilou um pouco e disse com austera dignidade:

«Eu não. Eu apenas conheço a filha que Ele me deu.»

Começou a caminhar. Mr Van Wyk, pondo-se em pé de um pulo, percebeu todo o significado da cabeça rígida, dos pés hesitantes, da mão vagamente estendida. O coração batia-lhe com força; desviou uma cadeira para o lado e avançou instintivamente, como se lhe fosse oferecer o braço. Mas o capitão Whalley passou por ele, dirigindo-se aos degraus em linha reta.

«Nem me chegou a ver, fora da direção que seguiu», pensou Van Wyk com uma espécie de assombro. Depois avançou até ao cimo da escada e perguntou em voz trémula:

«Como é, como uma névoa, como ...»

O capitão Whalley, já a meio da escada, parou e voltou-se, impávido, para responder.

«É como se a luz estivesse a retirar-se do mundo. Já viu o mar em refluxo numa ampla extensão de areal, a retirar-se cada vez para mais longe de si? É como isto, só que não se seguirá um novo fluxo. Nunca mais. É como se o Sol fosse ficando mais pequeno, as estrelas apagando-se uma a uma. Já não deve haver muitas que eu ainda consiga ver. Mas ultimamente não tenho tido coragem de olhar...» Deve ter conseguido distinguir Mr Van Wyk, pois deteve-o com um gesto autoritário e um estoico: «Ainda consigo deslocar-me sozinho.»

Era como se tivesse tomado o seu rumo e não aceitasse a ajuda dos homens, depois de ter sido expulso do seu paraíso, como um Titã atrevido. Mr Van Wyk, imóvel, parecia contar os passos de ouvido.

Passeou por entre as mesas, batendo os tacões com força, pegou num corta-papel, soltou-o após um olhar vago à lâmina; ao passar pelo piano tocou uns acordes, de pé em frente do teclado com uma pose atenta da cabeça, como um afinador de pianos; tapou-o e girou sobre os calcanhares bruscamente, desviou-se do pequeno terrier que dormia confiante sobre as patas da frente cruzadas, chegou à escada e, como se tivesse perdido o equilíbrio no primeiro degrau, correu precipitadamente para fora de casa. Os criados, que começavam a levantar a mesa, ouviram-no resmungar entre dentes (impropérios, sem dúvida) ao fundo da escada e, após uma pausa, seguir na direção do cais em passo vagaroso.

O costado do Sofala, paralelo ao desembarcadouro, formava uma parede baixa e negra no contorno ondulado da margem. Dois mastros e uma chaminé erguiam-se por trás da amurada com uma grande inclinação, dando a ideia de que pouco faltava para caírem; ao meio, de uma elevação sólida e quadrada pendiam as formas fantasmagóricas das baleeiras brancas, as curvas dos turcos, linhas de corrimãos e pontaletes que se misturavam e confundiam por todo o lado, no escuro; mas em baixo, a meia nave, uma única vigia iluminada olhava fixamente a noite, perfeitamente redonda, como uma pequena Lua cheia, cujo raio de luz amarela incidia sobre um pedaço de lama encharcada, a orla da erva pisada, duas voltas de um pesado cabo enrolado em torno da base de um grosso pilar de madeira cravado na terra.

Mr Van Wyk, escutando ao longo do costado, ouviu uma voz embriagada e fanfarrona que aparentemente zombava de alguém que se chamava Prendergast. Proferia insultos numa linguagem estrangulada e pastosa; depois pronunciou distintamente a palavra «Murphy» e riu-se à socapa. Ouviu-se um trémulo tilintar de vidro. Todos estes sons vinham da vigia iluminada. Mr Van Wyk hesitou, inclinou-se; era impossível ver lá para dentro, a não ser que pisasse a lama.

«Sterne», disse a meia-voz.

A voz embriagada no interior disse alegremente:

«Sterne, é claro. Vejam como ele pestaneja. Olhem para ele! Sterne, Whalley, Massy. Massy, Whalley, Sterne. Mas Massy é o maior. Àquele ninguém o engana. Ele gostava era que morrêssemos à fome.»

Mr Van Wyk afastou-se, avistou para o lado da proa uma cabeça no escuro por baixo dos toldos, como se estivesse à coca, e disse baixinho em malaio: «O imediato está a dormir?»

«Não. Estou aqui, às suas ordens.»

Num instante Sterne apareceu no cais, caminhando silencioso como um gato.

«Está tão escuro, e não esperava que viesse até cá abaixo esta noite.»

«Que delírio execrável é este?», perguntou Mr Van Wyk, como se quisesse explicar a causa de um tremor que o agitava percetivelmente.

«O Jack resolveu apanhar uma piela. É o nosso segundo. É hábito dele. Amanhã à tarde já estará em condições, só que Mr Massy não para de andar para cá e para lá no convés a apoquentar-se. É melhor sairmos daqui.»

Sussurrou um alvitre para irem conversar «lá em cima na casa». Havia muito tempo que desejava ter a oportunidade de lá entrar, mas Mr Van Wyk opôs-se com indiferença: receava que não fosse muito prudente, talvez; a sombra negra e opaca debaixo de uma das duas grandes árvores que haviam sido poupadas no desembarcadouro engoliu-os, impenetravelmente cerrada do lado do amplo rio, que parecia formar fios cintilantes tecendo a luz que as poucas mas grandes estrelas derramavam aqui e além sobre a sua extensa quietude fluida.

«A situação é grave, não há dúvida», disse Mr Van Wyk. Idênticos a fantasmas com as suas roupas brancas, não conseguiam distinguir as feições um do outro, e os pés não faziam o menor ruído na terra macia.

Ouviu-se uma espécie de ronrom. Era Mr Sterne, de tão contente que estava com este começo.

«Pensei logo, Mr Van Wyk, que um cavalheiro como o senhor veria imediatamente a situação embaraçosa em que eu me encontrava.»

«Sim, bastante. É evidente que não goza de boa saúde. É possível que se esteja a ir abaixo. Eu noto, e ele próprio está ciente disso - parto do princípio de que estou a falar com um homem de bom senso -, ele está bem ciente de que as pernas se estão a ir abaixo.»

«As pernas - ah!» Mr Sterne ficou desconcertado, e em seguida mostrou-se mal-humorado. «Chame-lhe pernas, se quiser; o que eu quero saber é se ele tenciona pôr-se na alheta sem levantar ondas. Essa por acaso está boa! As pernas! Tzzz!»

«Ora essa, é, sim. Basta ver a maneira como ele anda», retorquiu Mr Van Wyk num tom perfeitamente frio e convicto. «A questão, todavia, é se o seu sentido do dever, Mr Sterne, não o leva para muito longe do seu real interesse. Ao fim e ao cabo, também eu poderia fazer alguma coisa por si. Sabe quem eu sou.»

«Toda a gente, ao longo desses estreitos, já ouviu falar em si, senhor.»

Mr Van Wyk presumiu que isto representava algo a seu favor. Sterne reagiu com uma risadinha a esse gracejo. Disso não havia dúvida!

Com a afirmação de abertura, de que o contrato da sociedade expirava no final desta viagem, concordou delicadamente. Tinha conhecimento disso. A bordo não se falava de outra coisa todo o santo dia. Quanto a Massy, não era segredo para ninguém que estava metido numa camisa de onze varas por causa daquelas caldeiras espatifadas. Primeiro que tudo teria de pedir algures um empréstimo de umas centenas de libras para reembolsar o capitão; e depois teria de hipotecar o navio para arranjar dinheiro para as novas caldeiras - isto é, se houver quem lho empreste. Isso representa pelo menos perda de tempo, uma quebra no negócio, poucos ganhos anuais, e havia sempre o perigo de os alemães lhe roubarem a clientela. Dizia-se à boca fechada que ele já sondara duas firmas. Nenhuma quisera nada com ele. O navio, demasiado velho, e o homem conhecido de ginjeira na terra ... O breve pestanejar com que Mr Sterne encerrou o discurso ficou sepultado na profunda escuridão, que sibilava com os seus sussurros.

«Ora bem, suponhamos que ele consegue o empréstimo.» Mr Van Wyk retomou a palavra em tom circunspecto, a meia-voz. «Por aquilo que o senhor me diz, é mais que provável que o credor lhe impinja um homem da sua confiança para capitão. Por mim, sei que estipularia isso como condição se lhe adiantasse o dinheiro. E, para ser franco, estou a pensar fazer isso. Para mim era vantajoso em muitos aspetos. Está a ver o que isso implicaria para o caso que estamos a discutir?»

«Obrigado, senhor. Estou certo de que não arranjaria ninguém que melhor defendesse os seus interesses.»

«Pois bem, é do meu interesse que o capitão Whalley termine o tempo do contrato. Talvez eu seja vosso passageiro na travessia dos estreitos. Se a coisa for posta em prática, estarei presente quando todas essas alterações forem feitas, e em posição de poder defender os seus interesses.»

«Mr Van Wyk, não posso desejar nada melhor. Tenho a certeza de que sou infinitamente ...»

«Tomo como certo, então, que isto se pode fazer sem dissabores.»

«Bem, o risco que envolve não pode ser evitado; mas (falando consigo já como meu patrão) a coisa não é tão arriscada como parece. Se alguém me tivesse contado, eu não teria acreditado, mas vi com os meus próprios olhos. O velho serang foi ensaiado para entrar no jogo. Não tem problema nenhum nos ... nos membros, senhor. Habituou-se a fazer tudo sozinho de forma impressionante. E deixe que lhe diga, senhor, o capitão Whalley, coitado, não é nenhum inútil. Verdade. Deixe-me explicar. Ele aperta com aquele macaco velho do malaio, que sabe muito bem o que tem de fazer. Pois é, deve ter feito os quartos de vigia do capitão nos últimos vinte e cinco anos, para trás e para diante, em todo o tipo de navios do país. Estes indígenas, senhor, desde que tenham sempre um branco em cima deles, fazem as coisas como deve ser, surpreendentemente bem, até quando os deixam entregues a si próprios ... Só que o branco tem de ser capaz de ser duro com eles, e o capitão é bom nisso. Só lhe digo, treinou-o tão bem que quase não precisa de lhe dizer nada. Eu vi aquele simiozeco encarquilhado fazer o navio sair da baía de Pangu numa manhã ventosa, e ir por ali fora atravessando as ilhas todas; fazer uma saída de primeira, senhor, disfarçado debaixo da asa do velho, e com um estilo tão tranquilo que o senhor não podia jurar pela sua vida qual dos dois é que ia a governar lá no alto. É nisso que o nosso infeliz amigo ainda podia ser útil ao navio, mesmo se - se - já não conseguisse levantar os pés do chão. Desde que o serang não saiba que há alguma coisa que não está bem.»

«Não sabe.»

«Pois claro que não. Está muito para além do seu entendimento.

Eles não são capazes de descobrir nada sobre nós, senhor.»

«Você parece ser um homem perspicaz», disse Mr Van Wyk num murmúrio sufocado, como se sentisse vómitos.

«Vai ver que sou um bom servidor, senhor.»

Mr Sterne agora contava pelo menos com um aperto de mão, mas inesperadamente, com um «O que é isso? É melhor que não nos vejam juntos», o vulto branco de Mr Van Wyk esgueirou-se e logo pareceu dissolver-se no ar negro sob o teto das pernadas. O imediato ficou pasmado. Sim. Havia um vago rumor de passos.

Saiu furtivamente da sombra. A vigia iluminada luzia ao longe. A cabeça andava-lhe à roda com a excitação do sucesso inesperado. Que coisa fantástica, lidar com um cavalheiro! Subiu sorrateiramente a bordo e algo estranho se passava na extensão escura de conveses desertos, chegou-lhe o eco de gritos e pancadas provenientes de uma zona mais escura a meia nave. Massy dava largas à sua raiva diante da porta do camarote. A voz ébria no interior fluía impassível por entre o violento estardalhaço de pontapés.

«Cala-te! Apaga a luz e deita-te, maldito suíno beberrão. Tu! Estás a ouvir-me, grande besta?»

Os pontapés pararam e, aproveitando a pausa, a pastosa voz oracular anunciou do interior:

«Ah! O Massy, isso é outra loiça. O Massy é matreiro.»

«Quem está aí à popa? Você, Sterne? Vai beber até lhe dar uma síncope.» O maquinista-chefe apareceu, esbatido e enorme, no canto da vigia da casa das máquinas.

«Ele amanhã está recuperado para trabalhar. Se fosse eu, não fazia caso, Mr Massy.»

Sterne escapuliu-se para o seu camarote e foi obrigado a sentar-se. Andava-lhe a cabeça à roda de alegria. Enfiou-se no beliche como num sonho. Dominou-o uma sensação de profunda paz, de tranquila alegria. No convés estava tudo em sossego.

Mr Massy, com o ouvido encostado à porta da cabina de Jack, escutava criteriosamente a profunda respiração estertorosa no interior. Era um tipo morto de bêbedo a dormir. Acabara-se o regabofe. Tranquilo com o resultado, também se foi deitar, e com delicados meneios desenfiou o seu velho casaco de tweed. Era uma peça de vestuário com muitos bolsos que ele costumava vestir às mais estranhas horas do dia, pois era atacado por repentinos acessos de frio, e quando se sentia quente despia-o e pendurava-o onde calhava. Viam-no balouçar das malaguetas, atirado para cima dos cabrestantes, e até pendurado nos puxadores das portas dos outros. Então não era o dono do navio? Mas o seu sítio preferido era um gancho num pontalete de madeira do toldo na ponte de comando, quase encostado à bitácula. Por causa disso, nos primeiros tempos litigara mais do que uma vez com o capitão Whalley, que queria a ponte sempre arrumada. Nessa altura ficara intimidado.

Mas ultimamente conseguia provocar o sócio impunemente. O capitão Whalley agora parecia não reparar em nada. Quanto aos malaios, com o medo que tinham daquele homem intratável, nenhum dos membros da tripulação sonharia sequer pôr a mão no objeto, fosse qual fosse o sítio onde se encontrasse ou estivesse pendurado.

Com uma imprevisibilidade tal que fez Mr Massy dar um pulo e deixar cair o casaco para o chão, ouviu-se no camarote ao lado o estrépito e o baque de um trambolhão de cabeça acompanhado de tinidos e retinidos. O fiel Jack devia ter adormecido de repente sentado, em pleno regabofe, e agora desmoronara-se com cadeira e tudo, partindo, a julgar pelo barulho, todos os copos e garrafas que tinha na cabina. Depois do terrível estrondo tudo ficou sossegado por instantes, como se ele se tivesse matado no ato. Mr Massy conteve a respiração. Por fim um suspiro sonolento, queixoso e apreensivo foi exalado lentamente do outro lado da antepara.

«Agora faço figas para que ele esteja tão bêbedo que não acorde», murmurou Mr Massy.

O som de um risinho suave e manhoso quase o levou ao desespero.

Praguejou violentamente em voz abafada. O imbecil agora não o deixaria pregar olho a noite inteira, com certeza. Maldisse a sua sorte. Por vezes queria esquecer no sono as preocupações que o faziam enlouquecer. Não detetava movimentos. Sem fazer, aparentemente, a menor tentativa para se levantar, Jack continuava com o seu risinho abafado no sítio onde caíra; depois começou a falar, praticamente no ponto em que se tinha interrompido:

«Massy! Adoro aquele velhaco imundo. Ele gostava de ver o seu pobre Jack morrer à fome, mas vejam bem onde ele chegou ...» Estava com soluços, num tom elevado e vagaroso. «... Armador como os melhores. Um bilhete da lotaria é o que tu queres. Ah! Ah! Eu dou-te bilhetes da lotaria, meu menino. Que o velho navio se afunde e o velho companheiro morra de fome - está certo. A ele não acontece mal - ao Massy. A ele não. É um génio, aquele homem é. Assim é que consegues o teu dinheiro. O navio e o companheiro vão à vida.»

«O grande idiota tomou aquilo a peito», balbuciou Massy para si mesmo. E pôs-se à escuta, com uma expressão de rosto suavizada, à espera de algum sinal de regresso à modorra, mas foi profundamente desencorajado por uma gargalhada cheia de ironia prazenteira.

«Gostavas de o ver no fundo do mar! Oh, és esperto, és um diabo espertalhão! Queres que ele se afunde, hein? Parece-me que é isso que tu queres, meu rapaz; esta maldita sucata, e com ela todos os teus problemas. Arrebanhas o dinheiro do seguro - voltas as costas ao teu velho companheiro - não faz mal - cavalheiro outra vez.»

No rosto de Massy fixara-se uma rígida imobilidade. Só os grandes olhos negros se revolviam inquietos. Que louco delirante. No entanto, era tudo verdade. Sim. Os bilhetes da lotaria também. Tudo verdade. O quê? Ia começar outra vez? Oxalá não ...

Mas assim era. O fantasioso beberrão do outro lado da antepara agitou o silêncio de morte que após as suas últimas palavras se abatera sobre o navio às escuras, fundeado numa margem silenciosa.

«Não se atrevam a dizer nada contra o Ex.mo Sr. George Massy. Quando estiver farto de esperar, vê-se livre dele. Vejam! Lá vai ele para o fundo, companheiro e tudo. Ele saberá como ...»

A voz hesitou, exausta, devaneante, desprendida, como a extinguir-se num vasto espaço aberto. «... arranjar uma artimanha que resulte. Ele anda a maquinar isso - sem receio ...»

Devia estar muito embriagado, pois finalmente um sono pesado apoderou-se dele tão de repente como um encanto mágico, e a última palavra prolongou-se num ressonar engolido, ruidoso, interminável. Depois parou de ressonar e ficou tudo em silêncio.

Mas parecia que Mr Massy subitamente começara a duvidar da eficácia do sono como remédio para as apoquentações dos homens; ou talvez tivesse encontrado o alívio de que precisava no sossego de uma calma contemplação, que pode albergar calorosos pensamentos de riqueza, de um golpe de sorte, de uma longa ociosidade, e pode pôr diante de nós a forma imaginada de cada desejo; visto que, dando meia-volta e lançando os braços sobre o rebordo do beliche, ali se postou com os pés em cima do seu velho casaco preferido, contemplando através da vigia redonda a noite estendida sobre o rio. Por vezes entrava uma aragem que lhe tocava no rosto, uma aragem fria carregada do bafo fresco e húmido de uma vasta massa de água. Um bruxuleio aqui e além era tudo o que avistava; e pode muito bem ter passado pelas brasas, uma vez que diante dos seus olhos surgiu inesperadamente, e sem estar relacionada com nenhum sonho, uma fila de gigantescos algarismos flamejantes - três zero sete um dois - formando um número que podia muito bem encontrar-se numa cautela da lotaria. E de súbito a vigia já não era negra: era cinzento-pérola, emoldurava um litoral enxameado de casas, telhado de colmo atrás de telhado de colmo, paredes de esteira e bambu, coruchéus de madeira de teca esculpidos. Fileiras de habitações erguidas sobre uma floresta de palafitas bordejavam a margem cor de aço do rio, cheio e sereno, com a maré a mudar. Isto era Batu Beru, e o dia nascera.

Mr Massy sacudiu-se, vestiu o casaco de tweed, e, tiritando de nervosismo como se tivesse apanhado um grande susto, tomou nota do número. Um palpite raro e afortunado, aquele. Sim, mas para perseguir a sorte era preciso dinheiro - a tilintar no bolso.

Saiu do camarote e preparou-se para descer até à casa das máquinas.

Era preciso tratar de várias tarefas de pequena monta e Jack estava estendido no chão da cabina, bêbedo como um cacho e ainda por cima com a porta fechada à chave. Revoltou-se-lhe o estômago ao pensar em trabalho. Chiça! Mas se não queres fazer nada tens de arranjar primeiro uma boa batelada de dinheiro. Um navio não te serve para nada. Verdade, tudo verdade. Estava farto de esperar pela oportunidade de finalmente se ver livre daquele navio, que se tornara uma maldição na sua vida.

 

XIV

O silvo profundo e interminável do apito a vapor tinha, na sua nota grave e vibrante, algo de intolerável que fez descer um leve calafrio pela espinha de Mr Van Wyk. Era ao início da tarde; o Sofala zarpava de Batu Beru para Pangu, próximo porto de escala. Fez uma rotação na corrente, escoltado por um pequeno número de canoas e, deslizando pelo amplo rio, desapareceu da vista do chalé de Mr Van Wyk.

Desta vez o seu morador não fora assistir à partida. Geralmente descia até ao cais, trocava algumas palavras com a ponte de comando enquanto o navio desatracava e no último momento acenava ao capitão Whalley. Nesse dia não foi sequer até à balaustrada da varanda. «Ele não conseguia ver-me, se eu fosse», disse para si. «Será que ainda consegue distinguir a casa?» Esse pensamento fê-lo sentir-se mais só do que alguma vez se sentira em todos aqueles anos. Quantos eram? Seis ou sete? Sete. Tanto tempo.

Sentou-se na varanda com um livro fechado sobre os joelhos e, digamos assim, deitou um olhar sobre a sua solidão, como se o facto da cegueira do capitão Whalley lhe tivesse aberto os olhos para a sua.

Havia muitas espécies de mágoas e preocupações, e não havia sítio nenhum onde um homem lhes pudesse escapar. E sentiu-se envergonhado, como se durante seis anos se tivesse comportado como um garoto impertinente.

Em pensamento acompanhava o Sofala no seu trajeto. No calor do momento agira impulsivamente, voltando-se para o que era mais urgente. E que mais podia ter feito? Mais tarde, veria. Parecia ser necessário que fizesse a sua aparição no mundo, pelo menos por uns tempos. Tinha dinheiro, alguma coisa se havia de arranjar; não choraria o tempo, nem a maçada, nem a perda da solidão. Aquilo agora era um peso para ele; recordou a imagem do capitão Whalley, sentado, a cobrir os olhos com a mão, como se, traído na confiança que tinha na sua fé, estivesse para além de todo o bem e mal que pode ser forjado por mãos humanas.

Os pensamentos de Mr Van Wyk acompanhavam o Sofala rio abaixo, serpejando através da cintura de floresta costeira, por entre as amplas bases reforçadas das grandes árvores, pelo meio da faixa de mangais, e atravessando a barra. O navio atravessou-a facilmente em plena luz do dia, pilotado, por sinal, por Mr Sterne, que fez o quarto de vigia das quatro às seis e em seguida desceu para se congratular com deleite ante a perspetiva de estar virtualmente ao serviço de um homem rico como Mr Van Wyk. Não via que pudesse surgir qualquer obstáculo. Parecia não ser ainda capaz de se capacitar de que estava «finalmente instalado na vida». Das seis às oito, no turno de serviço, o serang ocupou-se sozinho do navio, que tinha pela frente um trajeto desimpedido até cerca das três da manhã, altura em que estaria perto do grupo de ilhas de Pangu. Às oito Mr Sterne apresentou-se, bem-disposto, para entrar de serviço outra vez até à meia-noite. Às dez ainda estava a gorjear e a cantarolar sozinho na ponte de comando, e por volta dessa hora o pensamento de Mr Van Wyk abandonou o Sofala. Mr Van Wyk finalmente adormecera.

Massy, bloqueando a escada da casa das máquinas, contorcia-se para enfiar o casaco de tweed de mau humor, enquanto o segundo aguardava com ar carrancudo.

«Ah! Dignaste-te aparecer! Grande beberrão! E então, o que tens para dizer em tua defesa?»

Estivera de serviço às máquinas até então. Uma fúria cega ofuscava-lhe a mente: uma raiva feroz contra o navio, contra as agruras da vida, contra os homens por serem trapaceiros, e contra si próprio também, por causa de um tremor secreto do seu coração.

Uma rosnadela incompreensível foi o que teve por resposta.

«O quê? Agora não consegues abrir a boca? Quando estás bêbedo ladras bem alto as tuas tolices infernais. O que é que pretendes ao insultar as pessoas daquela maneira? Seu beberrão inútil!»

«Não tenho pulso em mim. Não me lembro de nada. Tu não devias escutar.»

«Atreves-te a dizer-me isso! Com que intenção é que te emborrachas assim?»

«Não me perguntes. Estou farto das malditas caldeiras, como tu estarias. Farto da vida.»

«Quem me dera que tivesses morrido, então. Fizeste-me ficar farto de ti. Não te lembras do estardalhaço que fizeste a noite passada? Seu borrachão sem vergonha!

«Não, não me lembro. Nem quero lembrar-me. Quando é para beber, é para beber.»

«Não sei o que me impede de correr contigo ao pontapé. O que queres daqui?»

«Render-te. Já estás aí em baixo há demasiado tempo, George.»

«Não me trates por George, meu traste velho beberrão! Se eu amanhã me finasse, morrias à fome. Lembra-te disso. Diz Mr Massy.»

«Mr Massy», repetiu o outro, impassível.

Desgrenhado, com os olhos mortiços injetados de sangue, uma camisa imunda e malcheirosa, calças engorduradas, pés nus enfiados nuns chinelos esfarrapados, esgueirou-se lá para dentro de cabeça baixa assim que Massy o deixou passar.

O maquinista-chefe olhou em redor. O convés estava vazio até ao corrimão de popa. Desta vez os passageiros indígenas tinham saído todos em Batu Beru e não entraram outros. O mostrador do odómetro tilintava periodicamente no escuro, ao fundo do navio. Estava uma calma podre e, sob o céu nublado, atravessando o ar imóvel que parecia aderir, quente e com um cheiro a algas, ao casco esbelto, sobre um mar cinzento-baço e sem uma ruga, o navio avançava num equilíbrio perfeitamente horizontal, como se flutuasse suspenso no espaço vazio.

Mas Mr Massy bateu na testa, cambaleou um pouco, e agarrou-se a uma malagueta da base do mastro.

«Ainda enlouqueço», murmurou, atravessando o convés em passo vacilante. Uma pá raspava carvão derramado lá em baixo - uma porta de chaminé fechou-se com estrépito. Sterne, na ponte de comando, começou a assobiar outra modinha.

O capitão Whalley, sentado no canapé, desperto e completamente vestido, ouviu a porta da cabina abrir-se. Não esboçou o menor movimento, à espera de reconhecer a voz, num espantoso esforço de prudência.

Uma lanterna fixada na antepara iluminava a pintura branca, a pelúcia carmesim, o verniz castanho das travessas de mogno. O baú de madeira branca debaixo da cama permanecera fechado nos últimos três anos, como se o capitão Whalley tivesse concluído que, depois de ter ficado sem a Fair Maid, não existia no mundo lugar seguro para os seus afectos. Tinha as mãos pousadas nos joelhos, e a formosa cabeça, com as espessas sobrancelhas, apresentava um perfil rígido a quem a olhava da porta. Por fim, a voz aguardada falou.

«Pois bem, uma vez mais. Como devo tratá-lo?»

Ah! Massy. Outra vez. A maçada da sua insistência apertava-lhe o coração, e a dor da vergonha quase ia além do que era capaz de suportar sem chorar.

«Então, poderá continuar a ser por "sócio"?»

«O senhor não sabe o que está a pedir.»

«Sei o que pretendo ...»

Massy entrou e fechou a porta.

«... E vou tentar fazer um acordo consigo uma vez mais.»

A sua lamúria era meio persuasiva, meio ameaçadora.

«Porque de nada adianta dizer-me que é pobre. Não gasta nada consigo, é verdade; mas para isso existe outro nome. Pensa que vai obter aquilo que espera de mim há três anos, para em seguida me abandonar sem ouvir o que penso de si. Pensa que eu me teria sujeitado aos seus modos se soubesse que não tinha mais do que umas míseras quinhentas libras? Devia ter-me dito.»

«Talvez», disse o capitão Whalley, curvando a cabeça. «No entanto, elas salvaram-no.» (Massy riu-se com desprezo.) «Disse-lho bastantes vezes, desde o início.»

«Pois eu não acredito em si. Quando penso que o deixei armar-se em senhor no meu navio! Lembra-se com que insolência me tratava por causa do meu casaco e da sua ponte de comando? Ele estorvava-o. Na "sua" ponte de comando! "E não vou pactuar com isto. E seria incapaz de fazer aquilo." O homem reto! E agora salta tudo cá para fora. "Eu sou pobre, não posso. Estas quinhentas são tudo o que possuo no mundo."»

Contemplava a imobilidade do capitão Whalley, que parecia representar um obstáculo insuperável no seu caminho. O seu rosto assumiu uma expressão dolorosa.

«O senhor é um homem duro.»

«Basta», disse o capitão Whalley, voltando-se para ele. «Não levará nada de mim, porque eu não tenho nada de meu que possa dar.»

«Vá contar essa a outro!»

Antes de sair, Mr Massy olhou para trás; depois a porta fechou-se e o capitão Whalley, sozinho, continuou sentado, tão imóvel como antes. Nada tinha de seu - até o seu passado de honra, de verdade, de justificado orgulho, perdera. Toda a sua vida sem mácula se precipitara no abismo. Dissera-lhe o derradeiro adeus. Mas o que lhe pertencia a ela, isso tencionava salvar. Apenas algum dinheiro. Iria levar-lho com as próprias mãos - a última dádiva de um homem que durara tempo de mais. E um ímpeto imenso e ardente, a genuína paixão da paternidade, inflamou-o com todo o inextinguível vigor da sua vida imprestável, na ânsia de lhe poder ver o rosto.

Massy foi diretamente para a sua cabina, do lado oposto do convés, acendeu um candeeiro e procurou o apontamento do número sonhado, cujos algarismos se haviam também inflamado com o ardor de uma outra paixão. Tinha de arranjar maneira de não falhar uma única extração. Aquele número queria dizer alguma coisa. Mas que expediente havia de magicar para poder continuar em frente?

«Sovina miserável!» , murmurou.

Enquanto Mr Sterne não seria capaz de lhe dizer nada de novo a respeito do seu sócio, ele poderia dizer a Mr Sterne que era possível dar outro uso à enfermidade de um homem, em vez de simplesmente correr com ele, protelando assim o prazo de um pagamento difícil por mais um ano. Guardar segredo da enfermidade e induzi-lo a ficar era uma jogada melhor. Sem dinheiro, estaria ansioso por ficar; e isso arrumava a questão de lhe restituir a quota. Não sabia bem até que ponto o capitão Whalley estava incapacitado; mas se acontecesse ele encalhar o navio em qualquer sítio de uma vez por todas, não era culpa do armador - ou era? Ele não tinha a obrigação de saber que alguma coisa não corria bem. Mas o mais provável era que ninguém levantasse essa questão, e o navio estava segurado contra tudo. Tivera autodomínio suficiente para liquidar todos os prémios de seguro. E isso não era tudo. Não podia crer que o capitão Whalley estivesse tão privado de recursos que não tivesse algum dinheiro de parte em qualquer lado. Se ele, Massy, lhe pudesse deitar a mão, serviria para pagar as caldeiras, e tudo continuaria como antes. E se o navio acabasse por se perder, tanto melhor. Odiava-o. Detestava as apoquentações que lhe afastavam a mente dos acasos da sorte. O que desejava era o navio no fundo do mar e o dinheiro no seu bolso. E quando, frustrado, saiu da cabina do capitão Whalley, incluía no mesmo ódio o navio com as caldeiras espatifadas e o homem de olhos ofuscados.

E a nossa conduta, ao fim e ao cabo, depende de tal modo das sugestões alheias que, se não fosse a algaraviada de bêbedo do seu Jack, teria cortado as vazas imediatamente àquele homem miserável, que não queria ajudá-lo, nem ficar, nem muito menos levar o navio à perdição. O impostor do velho! Ansiava por correr com ele. Mas continha-se. Tinha muito tempo para isso - quando lhe apetecesse. Um novo pensamento aterrador ocupava-lhe a mente. Não estava decidido a pô-lo em prática, afinal? Como aquela besta do Jack tinha tresvariado! «Arranjar uma artimanha para se ver livre do navio.» Ora bem, o Jack não andava muito longe da verdade. Ocorrera-lhe uma artimanha muito engenhosa. Pois é. Mas quais os riscos?

Um sentimento de orgulho - o orgulho da superioridade em relação aos preconceitos comuns - insinuou-se-lhe no peito, acelerou-lhe o coração, secou-lhe a boca. Nem todos se atreveriam; mas ele era Massy, e estava decidido a pô-la em prática!

Soaram seis toques de sineta no convés. Onze! Bebeu um copo de água e sentou-se durante cerca de dez minutos para se acalmar. Depois tirou da arca uma pequena lanterna de furta-fogo que lhe pertencia e acendeu-a.

Quase em frente do seu camarote, atravessando a estreita passagem sob a ponte de comando, havia, na estrutura de ferro do convés que cobria o espaço das fornalhas e das caldeiras, uma arrecadação com paredes de ferro, teto de ferro e chão chapeado a ferro também, por causa do calor existente por baixo. Atirava-se para lá todo o género de refugo: um monte de ferro-velho a um canto; filas de latas de óleo vazias, sacas cheias de desperdício, uma pilha de carvão, uma forja de bordo, os restos de uma velha capoeira, coberturas de cabrestantes feitas em farrapos, restos de lanternas; e um chapéu de feltro castanho posto de parte por um homem que já morrera (de febres, na costa do Brasil) e que em tempos fora o imediato do Sofala, o qual ficara anos entalado atrás de um grande tubo de cobre que explodira e voara para fora da casa das máquinas, não podia precisar quando. Uma escuridão total e impenetrável enchia aquele cafarnaum de coisas esquecidas. Um pequeno raio de luz da lanterna de furta-fogo de Mr Massy penetrou-o obliquamente.

Tinha o casaco desabotoado; fechou a porta no ferrolho (não havia qualquer outra fechadura) e, acocorado diante do monte de ferro-velho, começou a encher os bolsos com pedaços de ferro. Acomodou-os com cuidado, como se as porcas ferrugentas, os ferrolhos partidos, os elos da corrente do guincho fossem o ouro que podia levar consigo naquela ocasião única. Encheu as algibeiras laterais até ficarem inchadas, o bolso do peito e os bolsos interiores. Revirava os pedaços na mão.

Alguns, rejeitava-os. Uma ténue névoa de pó de ferrugem começou a subir-lhe em torno das mãos atarefadas. Mr Massy sabia alguma coisa sobre as bases científicas da sua engenhosa artimanha. Se quisermos desviar a agulha magnética da bússola de um navio, o ferro macio é a melhor coisa; do mesmo modo, muitos pedaços pequenos nos bolsos de um casaco produziriam melhor efeito do que poucos pedaços grandes, porque dessa forma obtém-se uma maior quantidade de superfície em relação ao peso do ferro, e é a superfície que conta.

Esgueirou-se para fora com ligeireza - duas passadas largas bastaram - e na cabina apercebeu-se de que as mãos estavam todas vermelhas, vermelhas de ferrugem. Aquilo perturbou-o, como se as tivesse encontrado cobertas de sangue; examinou as roupas à pressa. Olha, as calças também! Esfregara nas pernas as mãos cheias de ferrugem.

Com a precipitação arrancou o botão do cós das calças, escovou o casaco, lavou as mãos. Então, passou-lhe o ar de culpa e sentou-se à espera.

Sentou-se na poltrona direito como um espeto e carregado com o peso do ferro. Tinha um volume granuloso e duro contra cada quadril, sentia os fragmentos de ferro que tinha nos bolsos tocarem-lhe nas costelas a cada inspiração, e a força que arrastava todos aqueles quilos para baixo pesava-lhe sobre os ombros. Apresentava também um ar muito néscio, ali sentado sem fazer nada, e o rosto amarelo, com os olhos negros imóveis, possuía algo de passivo e triste na sua quietude.

Quando ouviu oito toques de sineta por cima da cabeça, ergueu-se e preparou-se para sair. Os seus movimentos pareciam sem propósito, o lábio inferior descaíra um pouco, os olhos deambulavam pela cabina, e a tremenda tensão da decisão que tomara roubara-lhes qualquer vestígio de inteligência.

Ao último toque da sineta o serang surgiu sem fazer rumor na ponte de comando, para render o imediato. Sterne transbordava de bondade, desde que não tinha mais nada para desejar.

«Já tens os olhos bem abertos, serang? Está um escuro moderado; eu espero até a tua vista se habituar.»

O velho malaio murmurou, levantou os olhos cansados, deu uns passos de lado até à luz da bitácula, e, cruzando as mãos atrás das costas, fixou o olhar na rosa dos ventos.

«Por volta das três e meia tens de estar bem alerta à proa à espera de ver surgir terra. Está bastante claridade, de qualquer maneira. Deste uma espreitadela ao capitão quando vinhas para cá, hein? Ele sabe as horas? Então está bem, retiro-me.»

Ao fundo da escada desviou-se para o capitão passar. Olhou-o enquanto subia em passo regular e firme e ficou um momento pensativo.

«Tem graça», disse para consigo, «nunca sabemos se aquele homem nos viu ou não. Deve ter-me ouvido respirar, desta vez.»

Ao fim e ao cabo, era um homem extraordinário. Diziam que fora famoso, nos seus tempos. Mr Sterne acreditava facilmente nisso; e concluiu serenamente que o capitão Whalley devia conseguir ver mais ou menos as pessoas, como acontecera consigo mesmo agora, mas não tendo a certeza de quem eram, era forçado a manter a pose silenciosa como se não tivesse dado por nada, com receio de se trair. Mr Sterne era um adivinho perspicaz.

Essa constante necessidade cravava no coração do capitão Whalley a humilhação da sua falsidade. Fora levado a isso pelo amor paterno, pela incredulidade, pela confiança ilimitada na justiça divina concedida na Terra, em harmonia com os sentimentos dos homens. Daria à sua infeliz Ivy o benefício de mais um mês de trabalho; talvez a enfermidade fosse passageira. Certamente Deus não privaria a filha da sua capacidade de a ajudar, atirando-o, indefeso, para uma noite sem fim. Tinha-se agarrado a todas as esperanças; e quando a realidade da sua desventura foi mais forte do que a esperança, tentou não acreditar no que era evidente.

Em vão. No universo que se obscurecia continuamente, uma claridade sinistra iluminou as suas ideias. Nos iluminantes momentos de sofrimento via a vida, os homens, todas as coisas, a terra inteira com a sua carga de natureza criada, como nunca antes os vira.

Por vezes era tomado por uma súbita vertigem e um terror opressivo; e surgia-lhe a imagem da filha. Também nunca a vira antes com tanta clareza. Seria possível que nunca mais pudesse fazer nada por ela? Nada. E que nunca mais voltasse a vê-la? Nunca.

Porquê? Era um castigo demasiado grande por um pouco de presunção, um pouco de orgulho. E por fim acabou por se agarrar ao seu embuste com a feroz determinação de o levar até ao fim, para manter o dinheiro dela intacto e a contemplar uma vez mais com os seus olhos.

E depois? O quê? A ideia do suicídio repugnava ao seu vigor viril. Rezara para que a morte viesse, até as orações se lhe encravarem na garganta. Todos os dias da sua vida rezara, pelo pão diário, para não cair em tentação, com uma humildade de espírito pueril. As palavras nada significavam? De onde nos veio o dom da palavra? A batida violenta do coração retumbava-lhe na cabeça, parecia despedaçar-lhe o cérebro.

Sentou-se pesadamente na poltrona de verga, para fazer a sua pretensa vigia. A noite estava escura. Agora todas as noites eram escuras.

«Serang», chamou em voz bem audível.

«Ada, tuan. Estou aqui.»

«Há nuvens no céu?»

«Há, sim, tuan.»

«Deixa-o seguir a direito. Para norte.»

«Está a ir para norte, tuan.»

O serang recuou. O capitão Whalley reconheceu os passos de Massy na ponte de comando.

O maquinista caminhava para bombordo e voltava, passando por trás da cadeira várias vezes. O capitão Whalley detetou no seu deambular uma característica insólita, como que um cuidado discreto. A presença próxima daquele homem implicava sempre um recrudescer do sofrimento moral para o capitão Whalley. Não era remorso. Afinal, não fizera senão bem àquele pobre diabo. Havia também uma sensação de perigo - a necessidade de estar mais atento.

Massy parou e disse:

«Então, continua a dizer que tem de ir-se embora?»

«É verdade, tenho de ir.»

«E não podia ao menos deixar ficar o dinheiro pelo prazo de alguns anos?»

«Impossível.»

«Não se fia em mim sem estar presente, hein?»

O capitão Whalley ficou em silêncio. Massy deu um fundo suspiro junto às costas da cadeira.

«Serviria para me salvar», disse em voz trémula.

«Já o salvei uma vez.»

O maquinista-chefe despiu o casaco com movimentos cautelosos e começou a apalpar à procura do gancho metálico aparafusado ao pontalete de madeira. Para o fazer colocou-se mesmo em frente da bitácula, escondendo completamente a rosa dos ventos dos olhos do contramestre que estava ao timão. «Tuan!», murmurou finalmente o marinheiro indígena, com a intenção de dar a perceber ao branco que não conseguia ver a bússola para poder governar.

Mr Massy concretizara o seu propósito. O casaco estava pendurado no prego, a quinze centímetros da bitácula. E assim que se desviou para o lado, o contramestre, um malaio de Sumatra de meia-idade com o rosto picado das bexigas e quase tão escuro como um negro, notou com admiração que naquele curto lapso de tempo, com o mar liso, sem um sopro de vento, o navio se afastara muito da rota. Nunca lhe constara que ele tivesse tido um desvio assim. Com um leve resmungo de espanto girou o timão à pressa, para que a proa voltasse a apontar para norte, que era o rumo. O rangido dos gualdropes, os resmungos de reprovação do serang, que viera para junto do timão, provocaram uma certa agitação, que atraiu a ansiosa atenção do capitão Whalley.

«Toma mais cuidado», disse. Depois tudo voltou à normal tranquilidade na ponte de comando. Mr Massy desaparecera.

Mas o ferro nos bolsos do casaco fizera o seu trabalho; o Sofala, que se dirigia para o norte indicado pela bússola que aquele simples estratagema tornara inexata, já não percorria uma rota segura para a baía de Pangu. O sibilo da água que a proa fendia, o latejar das máquinas, todos os sons da sua vida fiel e laboriosa prosseguiam ininterruptos na grande calmaria do mar, que de todos os lados se unia à imóvel camada de nuvens que ocultava o céu. Uma amável quietude, vasta como o mundo, parecia aguardá-lo no seu caminho, envolvendo-o amorosamente numa suprema carícia. Mr Massy pensou que não podia haver melhor noite para um naufrágio preparado.

Encalhar num dos recifes a leste de Pangu - aguardar a luz do dia - rombo no fundo - baleeiras ao mar - baía de Pangu ainda nessa noite. Mais ou menos isso. Assim que o navio tocasse corria para a ponte, pegava no casaco (no escuro ninguém reparava) virava-o e sacudia-o borda fora, ou então arrojava-o ao mar. Um pormenor. Quem poderia suspeitar? Um casaco visto centenas de vezes pendurado naquele gancho. Todavia, quando se sentou no degrau ao fundo da escada da ponte, os joelhos batiam ligeiramente um no outro. A espera era a parte pior de todas. De vez em quando começava a arfar acelerado, como se tivesse corrido, depois respirava fundo, inchado com a íntima sensação de ter dominado o destino. Ouvia às vezes o arrastar dos pés descalços do serang lá em cima; vozes baixas, tranquilas, trocavam algumas palavras e mergulhavam quase de imediato no silêncio ...

«Avisa-me assim que avistares terra, serang.»

«Sim, tuan. Ainda não.»

«Não, ainda não», concordava o capitão Whalley.

O navio fora o melhor amigo do seu declínio. Todo o dinheiro que ganhara com o Sofala e a bordo dele enviara-o à filha. O pensamento demorou-se naquele nome. Quantas vezes ele e a mulher haviam falado junto ao berço da menina na grande cabina à popa do Condor; havia de crescer, e de casar, e de amá-los, eles viveriam perto dela e contemplariam a sua felicidade - que nunca conheceria fim. Afinal, a esposa morrera, e à filha dera tudo o que tinha para dar; gostava de poder ir para junto dela, de a ver, ver o seu rosto ainda uma vez, viver no som da sua voz, isso poderia tornar suportável a escuridão do túmulo em vida que o aguardava. Tinha fome de amor havia muito tempo. Imaginava a ternura dela.

O serang ia atento à proa e uma vez por outra olhava de relance para a cadeira. Andava de um lado para outro agitado, e de repente exclamou, junto do capitão Whalley:

«Tuan, vê terra nalgum sítio?»

A voz alarmada levou o capitão a pôr-se subitamente de pé. Ele! Ver! A pergunta fez que a maldição da sua cegueira lhe caísse em cima cem vezes com mais força.

«Que horas são?», exclamou.

«Três e meia, tuan.»

«Estamos perto. Tu é que tens de ver. Olha, já te disse. Olha.»

Mr Massy, despertado de uma curta soneca no degrau de baixo pelo súbito rumor de conversa, perguntou-se o que estava ali a fazer. Ah! Sentiu uma tontura. Uma coisa é lançar a semente de um acidente, e outra é ver o fruto monstruoso suspenso sobre a nossa cabeça, pronto a cair ao som de vozes agitadas. «Não há perigo», murmurou em voz espessa.

O horror da incerteza apoderara-se do capitão Whalley, o suplício da falta de confiança nos homens, nas coisas, na própria Terra. Fizera aquela mesma rota trinta e seis vezes, guiando-se pela mesma bússola - se de alguma coisa podia ter a certeza neste mundo era da sua exatidão absoluta, infalível. Então, o que é que acontecera? Teria o serang mentido? Mentir para quê? Porquê? Também estaria a ficar cego?

«Há neblina? Olha para baixo, para a água. Lá mesmo em baixo, digo eu.»

«Tuan, não há neblina. Também podes ver.»

O capitão Whalley fez um esforço para dominar o tremor dos membros. Devia parar as máquinas imediatamente e trair-se? O sabor da indecisão agitou toda a espécie de ideias grotescas na sua mente. O insólito acontecera, e ele não estava em condições de lidar com ele. Naquele instante de inexprimível angústia viu o rosto dela - o rosto de uma menina - com uma força extraordinária da ilusão. Não, não devia trair-se depois de ter chegado tão longe por amor dela.

«Seguiste a rota? Seguiste? Diz a verdade.»

«Sim, tuan. Está na rota, mesmo agora está. Olha.»

O capitão Whalley caminhou em passos largos para a bitácula, que para ele era uma mancha fosca de luz numa infinidade de sombra sem forma. Inclinando o rosto até ao vidro já antes conseguira ...

Tendo de se debruçar tanto, estendeu instintivamente o braço para onde sabia que havia um pontalete, para se equilibrar nele. A mão fechou-se-lhe sobre algo que não era madeira mas sim tecido. O leve puxão, acrescido ao peso, arrancou o gancho, e o casaco de Mr Massy, quando caiu, atingiu pesadamente o sobrado produzindo um baque surdo acompanhado de uma série de estalidos.

«O que é isto?»

O capitão Whalley caiu de joelhos, com as mãos tateantes estendidas, num claro gesto de cego. Tremiam, essas mãos que buscavam a verdade. E encontrou-a. Ferro junto da bússola. Rota errada. Fazê-lo naufragar! O seu navio. Oh, não. Essa não.

«Corre, manda-o parar!», rugiu com uma voz que não era a sua.

Ele próprio correu - as mãos à frente, como um cego, e enquanto o clangor do gongo ainda ecoava por todo o navio, pareceu que o Sofala chocara contra o lado de uma montanha com toda a força. A maré estava baixa no lado norte do estreito. Mr Massy não contara com isso. Em vez de encalhar em seco metade do seu comprimento, o Sofala embateu em cheio contra o cume talhado a pique de um recife rochoso que estaria à flor da água se a maré estivesse cheia. Isto fez que o choque fosse absolutamente terrível. Todos os que se encontravam em pé no navio foram atirados ao chão de supetão; a estrutura, ao ser sacudida, rangeu até às borlas dos mastros. Todas as luzes se apagaram; diversas correntes de sustentação partiram-se de chofre e bateram com fragor contra a chaminé; ouviram-se estrépitos, silvos de cabos metálicos rebentados, ruídos de estilhaços e enormes estrondos; o farol do topo do mastro voou por cima da proa, e todas as portas que davam para o convés começaram a bater com força. Depois do embate o navio ressaltou, bateu pela segunda vez precisamente no mesmo ponto, como um aríete. Isto completou a destruição; a chaminé, partidos todos os cabos de sustentação, despenhou-se com um som surdo de trovoada, fazendo o timão em pedaços, esmagando a estrutura dos toldos, quebrando as arcas, deixando a ponte de comando coberta de pedaços de madeira partida. O capitão Whalley levantou-se e encontrou-se enterrado em destroços até aos joelhos, roto, a sangrar, ciente da natureza do perigo a que escapara, sobretudo pelo som, e segurando nos braços o casaco de Mr Massy.

Por essa altura Sterne (que fora atirado para fora do beliche) já ligara as máquinas em marcha-atrás. Fizeram algumas rotações, mas uma voz berrou: «Sai já dessa maldita casa das máquinas, Jack!», e as máquinas pararam; mas o navio afastara-se do recife e jazia imóvel, com uma espessa nuvem de vapor a sair dos tubos rebentados no convés e dispersando-se em forma de penachos que desapareciam na noite. Não obstante o inesperado do desastre, não houve gritos, como se a própria violência do embate tivesse aturdido o punhado de pessoas envoltas em sombras que se agitavam aqui e além pelos conveses.

A voz do serang pronunciou distintamente, sobrepondo-se aos murmúrios confusos:

«Não acho fundo.» Tinha lançado o prumo.

A seguir Mr Sterne gritou, em tom agudo:

«Onde diabo é que ele bateu? Onde estamos?»

O capitão Whalley respondeu numa tranquila voz de baixo:

«No meio dos recifes, para leste.»

«Está certo disso, senhor? Então ele nunca mais daqui sairá.»

«Daqui a cinco minutos afunda-se. Baleeiras, Sterne. Bastará uma para vos salvar a todos, com esta calmaria.»

Os fogueiros chineses correram numa pressa desordenada para as baleeiras a bombordo. Ninguém tentou detê-los. Os malaios, após uns instantes de atrapalhação, acalmaram-se, e Mr Sterne mantinha a compostura. O capitão Whalley não se mexera. Os seus pensamentos eram mais tenebrosos do que esta noite em que perdera o seu primeiro navio.

«Fez-me perder um navio.»

Outro vulto alto, parado diante dele no meio dos destroços causados pelo embate na ponte de comando, segredou como um demente: «Não diga nada sobre isto.»

Massy aproximou-se mais, aos tropeções. O capitão Whalley ouviu-lhe os dentes a bater.

«Eu tenho o casaco.»

«Deite-o lá para baixo e venha daí», instou a voz gaguejante. «Ba-ba-ba-ba-baleeira!»

«Vai apanhar cinco anos por isto.»

Mr Massy perdeu a voz. As suas palavras não eram mais do que um sussurro seco na garganta.

«Tenha piedade!»

«Você teve-a, quando me fez perder o meu navio? Mr Massy, você vai apanhar cinco anos por causa disto!»

«Precisava de dinheiro! Dinheiro! O meu dinheiro! Eu dou-lhe uma parte. Fique com metade. Você também gosta de dinheiro.»

«Existe uma justiça ...»

Massy fez um esforço horrível e, numa voz estranha, meio estrangulada:

«Seu cego malvado! Foi você que me levou a isto.»

O capitão Whalley, abraçando o casaco contra o peito, não emitiu qualquer som. A luz ausentara-se do mundo para sempre - pois que desaparecesse tudo! Mas este homem não podia escapar impune.

A voz de Sterne ordenou:

«Baixar baleeira!»

As roldanas rangeram.

«Toca a andar», gritou, «vamos embora. Por aqui. Tu, Jack, aqui. Mr Massy! Mr Massy! Capitão! Depressa, senhor! Vamos ...»

«Eu irei para a prisão por tentar ludibriar o seguro, mas você será desmascarado; você, o homem honesto que me tem andado a ludibriar. É pobre, não é? Não possui mais do que as quinhentas libras. Pois bem, agora não tem nada. O navio está perdido, e o seguro não pagará.»

O capitão Whalley não se mexeu. Era verdade! O dinheiro de Ivy! Perdido com o naufrágio. Teve de novo um lampejo de discernimento. Chegara de facto ao seu extremo limite.

Vozes urgentes gritavam em uníssono a bombordo. Massy parecia não ser capaz de se afastar da ponte de comando. Rangia os dentes e silvava, em desespero:

«Entregue-me o casaco! Entregue-mo!»

«Não», disse o capitão Whalley; «não lho posso entregar. É melhor ir andando. Não fique à espera, homem, se quer salvar a vida. Está a afundar de proa rapidamente. Não; eu fico com ele, mas permaneço a bordo.»

Massy não pareceu ter compreendido; mas o amor à vida, subitamente desperto, levou-o a afastar-se da ponte de comando.

O capitão Whalley pousou o casaco e, tropeçando nos montes de destroços, foi até à amurada.

«Mr Massy está convosco?», bradou para a noite.

Sterne gritou-lhe da baleeira:

«Está, sim, está connosco. Venha daí, senhor. É uma loucura ficar mais tempo.»

O capitão Whalley tateou com cuidado ao longo do parapeito e, sem uma palavra, soltou a amarra. Ainda o esperavam lá em baixo. Esperavam-no, até que uma voz exclamou de repente:

«Estamos à deriva! Afastemo-nos!»

«Capitão Whalley! Salte!... Esperem um pouco ... Salte! Sabe nadar.»

Naquele velho coração, naquele corpo vigoroso, havia, para que nada faltasse, um horror à morte que aparentemente nem o horror à cegueira conseguia vencer. Mas, afinal, por Ivy levara avante o seu intento, e caminhara nas trevas da cegueira até à beira de um crime. Deus não ouvira as suas orações. A luz acabara de se retirar do mundo; nem uma centelha. Era um ermo tenebroso; mas era indecoroso que um Whalley, que fora longe de mais para concretizar o seu intento, continuasse a viver. Devia pagar o preço.

«Salte para o mais longe que puder, senhor; nós vamos apanhá-lo.»

Não o ouviram responder. Mas os gritos deles pareceram recordá-lo de qualquer coisa. Voltou para trás às apalpadelas, foi à procura do casaco de Massy. De facto, sabia nadar; por vezes acontece que as pessoas sorvidas pela voragem de um navio que se afunda voltam à superfície, e era indecente que um Whalley, que tomara a decisão de morrer, fosse ludibriado pela sorte e levado a lutar pela vida. Poria todos aqueles pedaços de ferro nos bolsos.

Os outros, olhando da baleeira, viram o Sofala, uma massa negra sobre um negro mar, em total quietude e espantosamente adernado. Nenhum som se desprendia dele. Nisto, com um forte e grotesco ruído arrastado, como se as caldeiras tivessem penetrado as anteparas, e uma frouxa detonação abafada, no sítio onde o navio se encontrava surgiu por instantes uma forma vertical e estreita, como um rochedo fora de água. Depois também isso desapareceu.

Quando o Sofala não reapareceu em Batu Beru à hora estipulada, Mr Van Wyk pressentiu imediatamente que não voltaria a vê-lo. Mas só soube o que acontecera algumas semanas depois, quando, numa embarcação indígena emprestada pelo seu sultão, chegou ao porto de registo do Sofala, onde a sua existência e o inquérito oficial ao naufrágio começavam a ser esquecidos.

Não se tratara de um caso muito notável ou interessante, exceto a circunstância de o capitão se ter afundado com o navio. Fora a única vida que se perdera; e Mr Van Wyk não teria tido maneira de saber quaisquer pormenores se não fosse Sterne, que encontrou um dia no cais, junto à ponte sobre o esteiro, quase no mesmo sítio onde o capitão Whalley, para manter intactas as quinhentas libras da filha, dera meia-volta para ir apanhar uma sampana que o levaria a bordo do Sofala.

De longe, Mr Van Wyk viu Sterne pestanejar direito a ele e levar a mão ao boné. Acolheram-se à sombra de um edifício (era um banco) e o imediato contou-lhe que as baleeiras com a tripulação chegaram à baía de Pangu cerca de seis horas após o acidente, e que tinham vivido duas semanas num estado de indigência, até terem oportunidade de sair daquele lugar detestável. O inquérito isentara toda a gente de culpas. O naufrágio do navio fora atribuído a um insólito movimento da corrente. E a verdade é que não podia ter sido outra coisa; não havia outra explicação para o facto de o navio se ter desviado sete milhas para leste da sua rota durante o quarto da meia-noite às quatro.

«Foi um grande azar para mim.» Sterne passou a língua pelos lábios e olhou para o lado. «Perdi a grande oportunidade de ser seu empregado, senhor. Nunca lamentarei isso o suficiente. Mas a vida é assim: o azar de uns é a sorte de outros. Isto não podia ter sido mais vantajoso para Mr Massy, nem se tivesse sido ele a preparar o naufrágio. O naufrágio mais oportuno de que já ouvi falar.»

«O que foi feito desse Massy?», perguntou Mr Van Wyk.

«Esse, senhor? Ah! Ah! Ia-me dizendo que tencionava comprar outro navio, mas assim que se apanhou com o dinheiro no bolso escapuliu-se para Manila no barco-correio, ao nascer do dia. Segui-o até dentro do barco, e disse-me que ia fazer fortuna em Manila de certeza absoluta. Eu que fosse para o diabo, que a ele não lhe importava. No entanto, quase prometeu que me dava o comando, se eu não falasse de mais.»

«Você nunca disse nada ...», começou Mr Van Wyk.

«Eu não, senhor. Para quê? Eu quero ir em frente, mas os mortos não me estorvam», disse Sterne. Batia as pálpebras com rapidez, depois parou por instantes. «Além do mais, senhor, teria sido uma situação embaraçosa. O senhor fez-me refrear a língua um bocadinho a mais.»

«Sabe por que motivo o capitão Whalley ficou a bordo? É verdade que se recusou a abandonar o navio? Vá, diga lá! Ou teria sido algo acidental... ?»

«Nada disso!», interrompeu Sterne com energia. «O que lhe digo é que lhe gritei para saltar borda fora. Deve ter sido ele próprio que soltou simplesmente a amarra da baleeira. Nós estávamos todos a gritar-lhe - isto é, o Jack e eu. Nem tão-pouco nos respondeu. No final, o navio estava silencioso como um túmulo. Depois as caldeiras soltaram-se e ele afundou-se. Acidente! Nem pensar! O jogo chegara ao fim, senhor, é o que lhe digo.»

Era tudo o que Sterne tinha para dizer.

Mr Van Wyk, evidentemente, era hóspede do clube por duas semanas, e foi lá que encontrou o advogado em cujo escritório o acordo entre Massy e o capitão Whalley fora assinado.

«Um velho extraordinário», disse-lhe ele. «Apareceu no meu escritório como se tivesse caído do céu, pode dizer-se, com as quinhentas libras para investir e o tal maquinista a segui-lo ansiosamente. E agora foi-se um pouco inexplicavelmente, tal como viera. Nunca consegui entendê-lo bem. Não havia mistério nenhum a respeito daquele Massy, pois não? Será que Whalley se recusou a abandonar o navio? Teria sido um disparate. Não havia qualquer culpa a imputar-lhe, como o tribunal concluiu.»

Mr Van Wyk disse-lhe que o conhecia bem e que não acreditava em suicídio. Semelhante ato não se coadunava com aquilo que sabia a respeito do homem.

«Sou da mesma opinião», anuiu o advogado. A teoria generalizada era de que o capitão ficara demasiado tempo a bordo tentando salvar alguma coisa importante. Talvez a carta do roteiro marítimo, que o absolveria, ou uma coisa de valor no seu camarote. A amarra da baleeira soltara-se sozinha, era o que se supunha. No entanto, estranha coincidência, pouco tempo antes daquela viagem o infeliz Whalley passara pelo seu escritório e deixara-lhe um envelope sigilado e endereçado à filha, para lhe ser enviado no caso de ele falecer. No entanto, não era nada de insólito, sobretudo num homem da sua idade. Mr Van Wyk abanou a cabeça. O capitão Whalley parecia ter saúde para viver até aos cem anos.

«Lá isso é verdade», concordou o advogado. «Aquele velho dava a impressão de ter vindo ao mundo já adulto e com aquela longa barba. Não sei porquê, mas nunca consegui imaginá-lo nem mais novo nem mais velho - já viu isto? Transmitia também uma sensação de força física, aquele homem. Talvez fosse esse o segredo daquele quê de peculiar que existia na sua pessoa e que impressionava todos os que contactavam com ele. Parecia indestrutível por qualquer das formas que normalmente põem fim às vidas dos outros. A delicadeza circunspecta e pomposa dos seus modos era plena de significado. Era como se tivesse a certeza de ter tempo à farta para tudo. Sim, havia nele algo de indestrutível; e pela maneira como por vezes falava, dir-se-ia que ele próprio acreditava nisso. Esta última vez que me visitou, com a tal carta que queria deixar ao meu cuidado, não estava absolutamente nada deprimido. Talvez um nadinha mais circunspecto nas palavras e nos modos. Mas deprimido, nem um pouco. Dar-se-á o caso de ter tido um pressentimento? Talvez! De qualquer modo, penso que foi um fim deplorável para uma figura tão impressionante.»

«Oh, sim! Foi um fim deplorável», concordou Mr Van Wyk, com tal fervor que o advogado olhou para ele com ar curioso; e depois de se separarem, observou para um seu conhecido:

«Uma pessoa original, este holandês plantador de tabaco de Batu Beru. Sabe alguma coisa sobre ele?»

«Pipas de dinheiro», respondeu-lhe o gerente do banco. «Constou-me que regressa à pátria no próximo navio-correio, para constituir uma firma que tomará conta das suas fazendas. Mais uma região produtora de tabaco que se abre ao mercado. Acho que ele é prudente. Estes bons tempos não duram eternamente.»

No hemisfério sul, a filha do capitão Whalley não teve qualquer pressentimento de desgraça quando recebeu o envelope que lhe era endereçado na caligrafia do advogado. Recebera-o depois de almoço; os hóspedes tinham saído todos, os filhos estavam na escola, o marido no andar de cima sentado na grande poltrona com um livro, de rosto chupado, enrolado em cobertores até à cintura. A casa estava em sossego, e o tom cinzento de um dia nublado estampava-se nas vidraças das janelas.

Na sala de jantar miserável, onde um leve odor insípido a comida estagnava o ano inteiro, sentada à cabeceira de uma comprida mesa rodeada por muitas cadeiras, empurradas para debaixo da mesa e com as costas apoiadas contra a orla da toalha que a cobria permanentemente, leu as frases de abertura: «O mais profundo pesar - doloroso dever - o seu pai já não - de acordo com as suas instruções - sinistro fatal - consolação - nenhuma culpa ligada à sua memória ...»

O rosto era fino, as têmporas um pouco encovadas sob os bandós de cabelo negro, os lábios resolutamente comprimidos, enquanto os olhos escuros se faziam maiores, até que por fim, com um grito abafado, se levantou e logo se curvou para apanhar outro envelope que lhe escorregara dos joelhos para o chão.

Abriu-o, retirou o conteúdo ...

«Minha adorada filha», dizia, «escrevo-te esta carta enquanto ainda consigo escrever de forma legível. Tento esforçadamente conservar para ti todo o dinheiro que resta; guardei-o com a única intenção de te ser mais útil. É teu. Não será perdido; não será tocado. Aqui tens quinhentas libras. Daquilo que ganhei não ficou nada em meu poder, até à data. De futuro, se eu viver, terei de guardar algum - pouca coisa - para ir ter contigo. Tenho de ir ter contigo. Preciso de te ver mais uma vez.

«É difícil crer que algum dia lerás estas linhas. Deus parece ter-se esquecido de mim. Desejo ver-te - contudo, a morte seria uma graça maior. Se alguma vez leres estas palavras, exorto-te a que comeces por agradecer a um Deus que finalmente foi misericordioso, pois nessa altura estarei morto, e estará bem assim. Minha querida, cheguei ao meu extremo limite.»

O parágrafo seguinte começava com as palavras: «Estou a perder a visão ...»

Não leu mais, naquele dia. A mão que segurava a carta em frente aos olhos descaiu lentamente, e a sua figura esbelta, com um simples vestido negro, dirigiu-se à janela rigidamente. Os olhos estavam secos; nenhum soluço de dor ou murmúrio de agradecimento subiu dos lábios dela ao Céu. Não obstante os esforços do amor paterno, a vida tinha sido muito dura. Silenciara-lhe as emoções. Mas pela primeira vez em tantos anos, esse ferrão soltara-se, a atormentadora preocupação da pobreza, a mesquinhez de uma dura luta pelo pão. Até a imagem do marido e dos filhos parecia flutuar para longe dela no lusco-fusco cinzento; era só o rosto do pai que via, como se ele tivesse vindo visitá-la, sempre sereno e grande, como o vira da última vez, mas com um não-sei-quê de mais solene e mais terno no semblante.

Introduziu a carta dobrada por entre os dois botões do corpete preto e liso, apoiou a fronte na vidraça e ficou ali até anoitecer, perfeitamente imóvel, dando-lhe a ele todo o tempo de que podia dispor. Morto! Era possível?

Meu Deus, era possível? O golpe chegara suavizado pelos espaços da Terra, pelos anos de ausência. Dias inteiros houvera em que nem pensara nele - não tivera tempo. Mas amara-o, sentia que o amara, apesar de tudo.

FIM
 

ϟ

Joseph Conrad
(1857-1924)
foi um escritor britânico, mais conhecido pelas obras "Lord Jim" e "O Coração das Trevas". De origem polaca, foi considerado um dos mais importantes autores da língua inglesa. Com 16 anos, Conrad resolve viajar para Marselha, onde trabalhou em navios da Marinha Mercante francesa. Em 1878 passou a servir num navio britânico para fugir ao serviço militar russo. Durante vários anos, viajou pela Ásia, África, América e Europa. Nessa época já dominava a língua inglesa. Depois de várias tentativas consegue passar no exame para capitão de longo curso da Marinha Mercante Inglesa. Após vários anos na marinha, entra pela primeira vez em Londres e passa a viver na Inglaterra. Recebe a nacionalidade britânica, em 1886.  Em 1894, Joseph Conrad resolve abandonar a sua bem sucedida carreira de marinheiro para se dedicar à literatura. As diversas e incontáveis viagens que realizou a bordo dos navios forneceram vasto material para suas histórias. As suas obras ficcionais têm quase sempre o mar como cenário central. O seu estilo aliava a introspecção e a análise psicológica, tem em comum o homem em crise com a própria identidade e com a condição de ser humano. Os seus personagens muitas vezes estão isolados da sociedade e enfrentam situações extremas. Joseph Conrad foi considerado um dos grandes escritores da língua inglesa. in e-biografia
 

Capa de 'The End of the Tether'
 

NO EXTREMO LIMITE
-texto integral-
autor: Joseph Conrad
título original: The End of the Tether (1902)
tradução: Margarida Periquito
Relógio d'Água Editores
Lisboa, 2012


Δ

9.Nov.2016
Publicado por MJA