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 Sobre a Deficiência Visual


O Músico Cego

Vladimir Korolenko

Retrato de um Rapaz Cego - Julius Oldach
Retrato de um Rapaz Cego - Julius Oldach


CAPÍTULO I

Tarde da noite nasceu a criança numa rica família do Sudoeste.

A mãe estava deitada e sonolenta; mas quando o primeiro grito do recém-nascido ressoou no quarto — um vagido doce e lamentoso —, ela, com os olhos fechados, começou a agitar-se no leito. Os lábios murmuraram qualquer coisa e no seu rosto pálido, de traços quase infantis, esboçou-se um esgar de sofrimento impaciente, como um bebé mimado quando experimenta um desgosto inesperado. A parteira inclinou o ouvido para os lábios balbuciantes da jovem mãe.

— Porquê?... Porque está ele assim? — perguntou a doente com voz mal perceptível.

A parteira não compreendeu a pergunta. A criança gritou de novo. O reflexo duma viva dor percorreu a face da parturiente e uma grossa lágrima deslizou dos seus olhos fechados.

— Porquê? Porquê? — murmuravam-lhe os lábios muito docemente.

Desta vez a parteira percebeu a pergunta e respondeu serenamente:

— Quer saber porque chora o menino? É sempre assim, tranquilize-se.

Mas a mãe não se podia acalmar. Estremecia a cada nova queixa da criança e não cessava de repetir, num tom de inquietação irritada:

— Porque grita ele duma forma tão dilacerante?

A parteira não distinguia nada de extraordinário nos lamentos do recém-nascido; e dando conta de que a mãe falava como num sonho, ou simplesmente delirava, não prestou mais atenção e ocupou-se unicamente do pequenito.

A senhora calou-se. Somente de tempos a tempos, num ímpeto de aflição mais dolorosa, que não se podia exprimir, nem por gestos nem por palavras, corriam-lhe dos olhos lágrimas espessas, que se filtravam através das pestanas sombrias e rolavam, suavemente, pela sua face lívida como o mármore.

O coração da mãe pressentia, sem dúvida, que, juntamente com a criança, acabava de nascer um destino votado a uma infelicidade obscura e inexorável — suspenso por sobre o berço — para escoltar aquela nova vida até à sepultura.

Talvez fosse pura imaginação. De qualquer maneira, porém, a criança nasceu cega.

Ao princípio, ninguém notou. O pequenito olhava as pessoas com um olhar vago e indefinido, natural em todos os recém-nascidos até uma certa idade. Passaram-se dias, e a vida do novo homem contava já semanas. Os seus olhos clarearam, a névoa opalina que os cobria tinha desaparecido e já se via nitidamente a pupila.

Mas a criança não voltava a cabeça quando um raio de luz claro e vivo penetrava no quarto, juntamente com o alegre gorjeio dos pássaros e o murmúrio das faias verdes, que se balançavam, pertinho da janela, no jardim cerrado.

A mãe, que se tinha restabelecido, notou ao princípio, com inquietação, a expressão estranha daquela figurinha sempre imóvel, e cuja seriedade não era natural na sua idade; e então ela olhava as pessoas, como uma pomba assustada, e perguntava:

— Digam-me: porque é ele assim?

— Como? — retorquiam-lhe, indiferentes, os estranhos. — Nada o distingue das outras crianças da mesma idade...

— Mas reparem no ar esquisito que ele toma para pegar em qualquer coisa.

— O menino não sabe coordenar o movimento das mãos com as impressões visuais — respondeu-lhe o médico.

— Então, porque olha ele sempre na mesma direcção? Ele... ele é cego?

E, subitamente, a verdade terrível brotou no peito da mãe, que ninguém mais conseguiu acalmar.

O médico pegou na criança, virou-a vivamente para a claridade e fixou-lhe os olhos. Perturbou-se ligeiramente e, depois de proferir algumas frases insignificantes, partiu, com a promessa de voltar dentro de dois ou três dias.

A mãe chorava e gemia como uma ave ferida de morte. Apertava o filho contra o coração, enquanto os olhos do pequenito olhavam com o mesmo olhar imóvel e triste.

Conforme prometera, o médico voltou alguns dias depois com um oftalmoscópio. Acendeu uma vela, e ora a aproximava ora a afastava dos olhos da criança. Olhava-a no fundo das pupilas. Por fim, com ar embaraçado, confessou:

— Minha senhora... infelizmente não se enganou. Na verdade, o seu filho é cego, e sem nenhuma esperança.

A mãe ouviu o diagnóstico com uma tristeza serena.

— Já o sabia há muito tempo — disse ela docemente.

A família onde nasceu a criança não era numerosa. À parte as pessoas mencionadas, compreendia ainda o pai e o «tio Máximo», como lhe chamavam, sem excepção, as pessoas da casa e mesmo os estranhos.

O pai assemelhava-se a milhares de outros grandes proprietários do Sudoeste: bonacheirão, mesmo bom, vigiava os seus trabalhadores e gostava de construir e reconstruir moinhos. Estas ocupações preenchiam-lhe quase todo o tempo, e era por isso que a sua voz se não ouvia na casa senão as horas fixas do almoço e do jantar ou de qualquer outro acontecimento do mesmo género.

Nessas ocasiões pronunciava sempre a mesma frase inalterável: «Estás boa, minha pombinha?», após o que se sentava à mesa e quase não falava.

De tempos a tempos, muito raramente, contava histórias sobre cilindros de carvalho e empenas de paredes. Evidentemente que este homem de espírito pacífico e simples não se impressionava, ou impressionava-se muito pouco, com o estado do filho.

Ao contrário, o tio Máximo era um homem completamente diferente. Uma dúzia de anos antes dos factos relatados o tio Máximo era considerado o espadachim mais perigoso, não só na região onde estava situado o seu domínio, mas mesmo em Kieff, nessa época designada por Contracts [1]. Ninguém conseguia compreender como a Sr.a Popelska — em solteira, Jatzenko —, pertencendo a uma família tão distinta, tinha um irmão tão terrível. Ninguém sabia a forma de se comportar com ele, de o satisfazer. As primeiras investidas amabilíssimas dos nobres respondia ele com grosserias, ao passo que consentia da parte dos mujiques espantosas afrontas, que teriam forçado o homem mais cordato do mundo a replicar com bofetadas.

Enfim, para grande ventura das pessoas sensatas, o tio Máximo começou a odiar os Austríacos — não se sabia ao certo porquê — e partiu para a Itália, onde se reuniu a um homem tão conflituoso e tão herege como ele — Garibaldi —, que, no dizer dos proprietários locais, tinha pacto com o Demónio e desprezava o papa. Bem entendido que, procedendo assim, Máximo tinha perdido, já havia muito, a sua alma ardente de cismático. Mas, por outro lado, nos Contracts havia bem menos escândalos, e mais de uma mãe de família deixou de se inquietar pela sorte do seu filho.

Evidentemente que os Austríacos estavam muitíssimo zangados com o tio Máximo. De vez em quando, o Petit Courrier, jornal preferido dos proprietários da região, mencionava o seu nome como o mais encarniçado sequaz de Garibaldi.

Mas uma bela manhã, o mesmo Petit Courrier fez saber a toda a gente que Máximo tinha morrido, juntamente com o seu cavalo, no campo da honra. Furiosos, os Austríacos — que, havia muito tempo, votavam um rancor venenoso a este russo, único sustentáculo verdadeiro de Garibaldi (tal era, pelo menos, a opinião dos compatriotas do tio Máximo) — picaram-no como se fosse uma couve.

— Acabou bem mal, o nosso Máximo! — resmungaram os proprietários seus vizinhos; e amortalharam-no na sua recordação.

Mas, na realidade, os sabres austríacos não conseguiram prender a alma tenaz de Máximo. Ela conservou-se fiel ao corpo, apesar de ter ficado em muito mau estado.

Os Garibaldinos transportaram o seu heróico camarada do campo de batalha para um hospital. Alguns anos depois, Máximo fez a sua aparição, absolutamente inesperada, na casa da irmã, onde se instalou definitivamente.

Nessa altura já não pensava em brigas. A perna direita tinha sido cortada rente, o que o obrigava a usar uma muleta. Por outro lado, o braço esquerdo estava de tal forma avariado que não servia para outra coisa senão para se apoiar o melhor possível à bengala. De uma maneira geral, tornou-se mais grave, acalmou; e somente de tempos a tempos a sua língua virulenta se manifestava tão afiada como tinha sido outrora a sua espada. Deixou de ir aos Contracts, aparecia raramente na sociedade e conservava-se a maior parte do tempo na biblioteca, no meio de livros, acerca dos quais nada se sabia, e só se supunha que eram anti-religiosos, ou, pelo menos, ímpios. Chegava mesmo a escrever; mas como as suas produções não apareciam no Petit Courrier, ninguém se inquietava com isso.

Na época em que um recém-nascido apareceu na casinha da aldeia e aí começou a dominar, já entre os cabelos aparados curtos do tio Máximo começava a brilhar um ou outro fio de prata. À força de se servir constantemente de muletas, principiava a ganhar corcunda e todo o seu corpo parecia ter-se feito num quadrado. O seu aspecto esquisito, as suas sobrancelhas franzinas e severas, o ruído das muletas e o turbilhão de fumo em que estava sempre envolvido — fumava incessantemente cachimbo —, tudo isto espantava as visitas; e só gente da casa sabia que um coração nobre e quente batia naquele corpo mutilado e que um espírito buliçoso fervia naquela enorme testa rectangular, coberta de cabelos espessos e eriçados.

Mas mesmo os mais chegados não conheciam o problema que então absorvia aquele espírito impenitente. Viam apenas o tio Máximo envolto em fumo azulado, sentado horas inteiras, imóvel, o olhar ausente, as sobrancelhas mais carregadas e ele mais sorumbático do que nunca. O guerreiro mutilado reflectia que a vida era uma luta sem tréguas nem misericórdia, onde não há lugar para os inválidos. Acudia-lhe cada vez mais ao pensamento que estava para sempre expulso das fileiras avançadas e que era em vão que continuava a atravancar o mundo — ele, cavaleiro que já para nada prestava, cuspido do cavalo e lançado no pó. E por isto valia a pena agitar-se, como um verme esmagado no chão? Era digno de si suspender-se no estribo da vida, que prosseguia a sua marcha triunfante, e pedir-lhe algumas graças, as últimas?

Mas enquanto o tio Máximo, cheio de bravura fria e concentrada, meditava neste problema palpitante e confrontava metodicamente todos os prós e os contras, um novo ser, inválido desde o dia da sua entrada no mundo, começou a ocupar progressivamente o seu cérebro.

Ao princípio não prestou atenção à criança cega; mas, em seguida, interessou-se pela semelhança estranha que apresentava a sua sorte e a do pequenito.

— Hum... Hum... — cogitou um dia, olhando o menino de través e pensativamente. — Este pobre garotinho é também um inválido. Se nós nos pudéssemos soldar, talvez se conseguisse um homem que valesse qualquer coisa.

Depois disso, o seu olhar começou a reparar cada vez mais na criança cega.

O pequeno nasceu cego. De quem era a culpa? De ninguém! A origem, a causa mesmo, da infelicidade ocultava-se em qualquer parte, na profundeza dos processos misteriosos e complexos da vida. Dando conta disto, o coração da mãe apertava-se numa dor lancinante todas as vezes que olhava o ceguinho. Evidentemente que, como mãe, sofria com a enfermidade do filho e com o lúgubre pressentimento do futuro desgraçado que esperava fatalmente o pequeno ser. Mas, à parte estes sentimentos, a pobre senhora atormentava-se interiormente com os remorsos da sua consciência, que lhe sugeria que a causa do mal talvez residisse naqueles que tinham dado a vida à criança. Isto bastava para que o serzinho, de olhos lindos, mas cegos, se tornasse o centro da família, um déspota inconsciente, cujo menor capricho pesava sobre toda a casa.

Em que se teria tornado a criança, que a doença impelia para a mais cruel perversidade e em que as pessoas que a rodeavam se ligavam para lhe desenvolver os sentimentos egoístas, se a sorte caprichosa e os sabres austríacos não tivessem forçado o tio Máximo a refugiar-se na casa da irmã, no campo?

A presença do menino cego na casa tinha, pouco a pouco e quase imperceptivelmente, imprimido uma outra direcção ao pensamento do soldado mutilado. Como antes, ficava imóvel horas inteiras, ocupado a fumar o seu cachimbo; mas, em lugar duma dor profunda e amarga, surpreendia-se nos seus olhos a expressão recolhida dum observador interessado. E quanto mais o tio Máximo examinava, mais a fronte se lhe enrugava e mais ele chupava o cachimbo.

Enfim, um dia chegou em que se arriscou a intervir.

— Este pequeno — disse ele, lançando baforadas umas atrás das outras — será ainda mais infeliz do que eu. Mais valia que não tivesse vindo ao mundo.

A mãe baixou a cabeça e uma lágrima caiu-lhe no trabalho.

— É duro dizeres-me isso, Max! — queixou-se ela, baixinho. — De que serve isso? Não compreendo.

— Mas só te digo a verdade, e nada mais que a verdade! — respondeu Máximo. — A mim falta-me um braço e uma perna, mas tenho olhos. Ele não tem olhos, nem terá pernas nem braços, nem sequer vontade.

— Porquê?

— Procura compreender-me, Ana! — disse Máximo com um tom mais terno. — Nunca te diria estas coisas cruéis só pelo prazer de tas dizer. Esta criança é dotada dum sistema nervoso muito delicado. Tem ainda muito tempo e muitíssimas maneiras de desenvolver as suas capacidades, de forma a poder remediar em parte a cegueira. Mas precisa, para isso, de exercícios. Estes são provocados pela necessidade. Os cuidados estúpidos que afastam do pequeno todo o esforço, por mínimo que seja, matam nele todas as possibilidades duma vida risonha.

Inteligente, a mãe conseguiu vencer em si o impulso espontâneo e primitivo que a precipitava apaixonadamente para o filho mal ouvia os seus gritos aflitivos.

Alguns meses depois desta conversa, o rapazinho entrava ousada e livremente através do quarto, aplicando o ouvido a cada som e tacteando todos os objectos que encontrava à mão com uma vivacidade desconhecida noutras crianças.

Aprendeu cedo a reconhecer a mãe pelos passos, pelo ruído surdo do vestido e por outros sinais imperceptíveis a um estranho. Fosse qual fosse o número de pessoas que se encontrasse na sala e os seus diferentes lugares, encaminhava-se sempre, sem se enganar, na direcção onde ela se encontrava. Quando ela o tomava subitamente nos braços, reconhecia imediatamente o abraço da mãe. Mas quando alguém o apertava ao peito começava a passear rapidamente as mãozinhas pela cara que se lhe oferecia.

Foi desta maneira que, por fim, aprendeu igualmente a conhecer a ama, o pai, o tio Máximo. Quando estranhos pegavam nele, procedia ao exame mais devagar. Com um ar prudente e atento, começava a fazer deslizar os dedinhos pela face desconhecida, e então os seus traços acusavam uma tensão interior extraordinária, como se «olhasse» com a ponta dos dedos.

Era de natureza viva e travessa; mas os meses sucediam-se e a cegueira impunha cada vez mais o seu jugo esmagador sobre o temperamento da criança, que principiava a definir-se. A vivacidade dos seus movimentos diminuía progressivamente. Começou a refugiar-se nos cantos mais distantes e mais sossegados, e aí passava tranquilamente horas e horas, as feições contraídas, como se escutasse alguma coisa infinitamente grave e doce. Nestes momentos de silêncio absoluto, em que o cortejo dos ruídos diversos não perturbava a sua atenção, a criança parecia mergulhar num sonho, em meditação, enquanto uma expressão de espanto e de incompreensão se espalhava no seu rosto demasiadamente sério.

O tio Máximo acertou. O sistema nervoso da criança, extremamente delicado e rico, arrebatava-a, e dir-se-ia que ele se esforçava por restabelecer, numa certa medida, pela receptividade chocante do ouvido e do tacto, a plenitude das suas sensações.

Toda a gente se admirava, sobretudo, da subtileza do seu tacto. Dava mesmo, por vezes, a impressão de distinguir as cores. Quando as suas mãos se apossavam de bocados de pano de cores brilhantes, o seu rosto reflectia perfeitamente a expressão duma atenção assinalada. Entretanto, com o andar dos tempos, tornou-se dia a dia mais evidente que a sua impressionabilidade se desenvolvia cada vez mais nos domínios do ouvido.

Pouco tempo depois, ele conhecia à maravilha todas as dependências da casa pelo seu barulho próprio. Distinguia também o andar dos pais e dos criados, como o estalido da cadeira do tio inválido, o ruído seco e regular do fio nas mãos de sua mãe e o tiquetaque uniforme do relógio. Por vezes, deslizando ao longo da parede, aplicava o ouvido e apreendia um som ligeiro, imperceptível dos outros, e a sua mãozinha, no ar, estendia-se em direcção a uma mosca a passear pela parede. Quando o insecto, assustado, esvoaçava, as feições do cego traduziam sempre o mesmo ar de incompreensão.

Não dava conta do desaparecimento misterioso da mosca; mas, em seguida, o rosto conservava, nestes casos, a marca duma atenção reflectida. Voltava a cabeça na direcção tomada pelo insecto — o seu ouvido, duma acuidade excessiva, apreendia no ar o zumbido leve das asas.

O universo brilhante, movimentado e ruidoso em volta dele penetrava na sua cabecinha em grande parte sob a forma de sons; e era justamente segundo esta forma que se moldavam as suas sensações. A sua atenção muito particular aos sons modelava-lhe as feições: o maxilar inferior avançava um pouco sobre o pescoço magro e alto, as sobrancelhas adquiriam uma mobilidade extraordinária e os seus belos olhos mortos imprimiam a toda a sua figura uma máscara bondosa e comovente.

Terminava o segundo Inverno da sua vida. No pátio, a neve começava a fundir-se, murmuravam os riachos primaveris; e, entretanto, a criança, que tinha passado no quarto todo o Inverno um pouco adoentada, ia muito melhor.

Ergueram-se as vidraças das janelas e a Primavera irrompeu violentamente no quarto. Um sol moço mirava-se, a rir, nos vidros inundados de luz. Os ramos ainda nus das faias agitavam-se cheios de confiança. Os campos divisavam-se escuros, ao longe, cobertos, aqui e ali, de manchas brancas, provocadas pela neve, em vias de se derreter. Em certos sítios, a erva fresca aflorava já, mas timidamente. Em toda a parte a Primavera provocava um poderoso fluxo de forças vitais renovadas.

Quanto ao menino cego, a Primavera não se revelava para ele senão por ruídos precipitados. Ouvia correr as torrentes, que, à porfia, inundavam as pedras e desapareciam no seio da terra. As hastes das faias cochichavam, bisbilhoteiras, por detrás das janelas, e, entrelaçando-se, vinham afagar ligeiramente as vidraças, que estremeciam ternamente em resposta.

A liquefacção rápida das camadas de gelo espesso, suspensas do telhado e aquecidas rapidamente pelo sol, tecia uma sinfonia composta de milhares de sons crepitantes, que caíam no aposento como pedras minúsculas e produziam como que um rufo precipitado de tambor. De tempos a tempos, quebrando a trama de ruídos e de sons, os gritos agudos dos grous estalavam alto no céu e agonizavam longamente, como se se fundissem suavemente no ar. A renovação da natureza fazia-se acompanhar duma tensão dolorosa, que invadia todo o organismo do pequeno. Apertava fortemente as sobrancelhas, estendia o pescoço, prestava atenção, e depois, inquieto — parecia com este sussurro incompreensível de sons, estendia repentinamente as mãos, procurava a mãe, lançava-se para ela e chegava-se muito, a tremer, contra o seu peito.

— Mas o que foi? — perguntava a mãe, interrogando-se e interrogando os outros.

O tio Máximo examinava com atenção o esforço do rapazinho e não conseguia explicar este alarme inesperado.

— Não pode compreender... — adivinhava a mãe, surpreendendo no rosto do filho sempre a mesma expressão doentia dum espanto sem limites.

Com efeito, a criança andava inquieta: tão depressa aprendia novos sons como se admirava de não distinguir os antigos, aos quais já se começava a habituar, e que se calavam de repente, e se perdiam em qualquer parte num abismo sem fundo.

O caos do tumulto primaveril extinguiu-se por fim. Sob os raios quentes e até mesmo ardentes do Sol, o trabalho da natureza entrava progressivamente, normalmente, no ritmo habitual. A vida parecia que se espalhava cada vez mais precipitadamente, como a marcha dum comboio que se acelera. As ervas tenras verdejavam já nos relvados e o ar estava saturado do aroma dos rebentos das árvores.

Decidiram ir passear com o menino para os campos marginais do ribeiro mais próximo.

A mãe levava-o pela mão. Ao lado, o tio Máximo coxeava, de muletas. O pequeno grupo tomou o caminho duma colina vizinha onde a terra tinha sido seca pelo sol e pelo vento. Coberta duma erva macia e espessa, oferecia uma vista esplêndida sobre espaços infinitos.

O dia brilhante feria os olhos da mãe e do tio Máximo. Os raios brincalhões do Sol aqueciam-lhes a face, mas o vento primaveril, de asas invisíveis, neutralizava o calor, substituindo-o por uma frescura deliciosa. Qualquer coisa de embriagador até à voluptuosidade, até à languidez, flutuava no ar.

A mãe sentiu a mãozinha da criança apertar a sua. Mas o sopro perturbador da estação tornava-a menos sensível a esta espécie de inquietação infantil. Ela respirava a plenos pulmões e avançava sem se voltar. Todavia, se tivesse feito o menor movimento de cabeça, teria visto uma expressão insólita no rosto do pequeno. Ele virava para o sol os grandes olhos abertos, cheios duma perplexidade muda. Os seus lábios entreabertos aspiravam o ar aos borbotões, como um peixe acabado de retirar da água. A manifestação dum êxtase delicioso aparecia-lhe, por vezes, na face desconcertada, adquiria tiques nervosos, iluminava-lhe as feições por um instante e cedia lugar imediatamente à surpresa, denunciando susto e incompreensão. Somente os olhos conservavam o aspecto igual e imóvel.

Chegados à colina, sentaram-se todos três. Quando a mãe quis levantar o filho do solo, para o colocar mais comodamente, ele agarrou-se-lhe convulsivamente ao vestido, como se sentisse o chão fugir-lhe e como se receasse cair. Ainda desta vez, a mãe não percebeu o movimento inquieto do cego, tendo os olhos e a atenção completamente absorvidos pelo quadro majestoso que a Primavera lhe apresentava.

Era meio-dia. O Sol rolava docemente no céu azul. Da colina onde estavam sentados viam estender-se o ribeiro em curvas desordenadas. Estava já desembaraçado dos blocos de gelo que tinha carreado, e não era senão de longe a longe que flutuavam alguns à superfície e se fundiam como pássaros de asas brancas. Nos prados inundados, a água espalhava-se como grandes toalhas. A abóbada celeste reflectia-se ali, e pequenas nuvens brancas pareciam boiar lentamente na imensidade do céu. Desapareciam pouco a pouco, como se se derretessem à maneira do gelo. De tempos a tempos, brilhando, debaixo do sol, ondulações ligeiras, provocadas pelo vento, corriam ao longo do riacho. Mais longe, por detrás deste, os vales estavam envoltos num vapor sombrio e baço. Este véu de gaze imóvel, reverberante, dissimulava tão bem os pardieiros distantes cobertos de colmo que a linha azul do bosque mal se divisava. A terra parecia suspirar e arremessar para o céu qualquer coisa de semelhante às volutas do incenso purificador.

A natureza estendia-se em volta, como uma grande catedral em véspera de festa. Mas para o cego era sempre a noite imensa que se agitava duma maneira extraordinária, que se movia sem cessar, murmurava, retinia, vibrava, estendia-se em direcção a ele, tocava a sua alma por todos os lados, por meio de sensações desconhecidas, insólitas, novas, sob cuja pressão o seu coração infantil batia dolorosamente até o fazer gemer.

Desde os primeiros passos, desde que os raios quentes lhe caíram sobre o rosto e lhe aqueceram a epiderme delicada, voltou instintivamente os olhos mortos para o Sol, como se sentisse que era ele o centro em volta do qual gravitava tudo que o rodeava. Não havia para a criança nem longes transparentes, nem abóbada azul, nem horizonte mais vasto hoje do que ontem. Sentia somente que qualquer coisa de material, de doce e de quente lhe acariciava a face num contacto terno e tépido. E, depois, alguma coisa de fresco e leve, ainda que menos leve que o calor dos raios solares, começou a afastar-lhe do rosto a languidez que se apoderava dele e a fazer correr ao longo do seu corpo pequenas ondas um pouco frias. Em casa, o pequenito estava habituado a mexer-se livremente e a sentir o vácuo à roda de si. Mas aqui era assaltado por uma espécie de vagas inconstantes e bizarras, uma vez maravilhosamente meigas, outras vezes excitantes e embriagadoras. Os beijos ardentes do sol eram rapidamente arrebatados pela brisa que passava e uma corrente de ar, sussurrando-lhe aos ouvidos, envolvendo-lhe o corpo, as fontes, a cabeça até à nuca, girava em volta de si, como a esforçar-se para o levantar, para o transportar a qualquer parte do espaço, que ele não via, afagando-lhe a consciência, embalando-o e mergulhando-o num lânguido esquecimento. Foi então que a mão do rapazinho apertou mais fortemente a da mãe e que o seu coração começou a desfalecer, como se fosse parar.

Logo que se sentou, pareceu acalmar. Agora, apesar da estranha sensação que o invadia todo, pôs-se a distinguir alguns ruídos isolados. Ondas negras e doces cresciam como anteriormente, com uma força irresistível, e ele tinha a impressão de que lhe penetravam no interior do corpo, pois que as pulsações do seu sangue agitado subiam e desciam ao ritmo dessas ondas. Mas nessa ocasião elas traziam-lhe, ou o gorjeio distinto duma calhandra, ou o murmúrio abafado duma bétula em flor, ou a garrulice, que mal se distinguia, do riacho. Uma andorinha fazia assobiar o ar com o seu voo, descrevendo cada vez mais perto círculos caprichosos. Os grilos cantavam, infatigáveis, e a cobrir todos estes sons diferentes elevava-se por vezes a exclamação arrastada e triste dum trabalhador no vale, excitando os bois no sulco dum baldio.

Mas a criança não conseguia dominar todos os ruídos, todas as vozes; não chegava a uni-los, a coordená-los. Dir-se-ia que, ao penetrarem na sua cabecita torturada, caíam no fundo, um a um, tão depressa mansos e vagos como ruidosos e atordoadores. Algumas vezes amalgamavam-se todos simultaneamente e misturavam-se, resultando daí uma dissonância, tão desagradável como incompreensível.

Entretanto, o vento que vinha do campo fustigava-o, sibilando sempre aos seus ouvidos; e ele tinha a impressão de que as ondas já corriam mais depressa e os seus ruídos extinguiam todos os outros sons, que pareciam agora vir de algum sítio mais longe, como se fossem saudades da véspera.

E à medida que os ruídos se tornavam mais surdos, no peito do cego entrava uma sensação de langor excitante. O rosto cobria-se-lhe de convulsões rítmicas; os olhos, tanto se lhe fechavam como se reabriam. As sobrancelhas moviam-se, inquietas, e todos os traços traduziam perguntas, esforços dolorosos do seu pensamento e da sua imaginação. Fraco ainda e cheio de sensações novas, a consciência começava a transbordar-lhe. Tinha sido inútil lutar contra as impressões que de toda a parte o assaltavam, resistir a esta avalancha de ideias, coordená-las e dominá-las... A tarefa era forte de mais para ele; era desmedida para o seu cérebro infantil, que não possuía noções visuais, exigidas para esse trabalho.

E os sons registavam-se, um após outro, excessivamente variados, demasiadamente barulhentos. As ondas que se apoderavam do pequenito cresciam de intensidade, perfurando as trevas sonoras, para se perderem em seguida na mesma noite, dando lugar a novas ondas, a sons novos. Essas ondas erguiam-se cada vez mais rápidas, a cada momento mais altas, com um impulso que fazia mal. A nota triste dum longínquo grito humano atravessou uma vez mais o rumor que agonizava; e, depois, tudo se calou de repente.

A criança soltou um gemido doce e deitou-se sobre a erva. A mãe voltou-se para ele e deu também um grito: ele estava estendido, pálido, perdido num desmaio profundo.

O tio Máximo inquietou-se muito com este incidente. Passado tempo, principiou a dedicar-se a leituras de psicologia e pedagogia e entregou-se, com a habitual energia, a tudo aquilo que a ciência ensina sobre o crescimento misterioso e o desenvolvimento da alma infantil.

Este trabalho apaixonava-o cada vez mais; e era por isso que as ideias lúgubres acerca da sua invalidez, da sua incapacidade de lutar na vida, «o verme rojando-se na poeira», etc., se desfariam, pouco a pouco e insensivelmente, na sua cabeça quadrada de velho veterano. No lugar delas agitavam-se outros pensamentos: e tinham uma tal influência sobre o velho companheiro de Garibaldi que, de tempos a tempos, faziam germinar sonhos cor-de-rosa no seu coração envelhecido. O tio Máximo estava persuadido de que a natureza, que tinha recusado a vista à criança, não tinha sido injusta para os outros sentidos. Era preciso um ser para agir sobre todas as impressões exteriores acessíveis ao pequenito, de maneira a assegurar-lhe uma plenitude e uma força muito especial. E o tio Máximo principiava a crer que tinha sido designado para desenvolver os dons naturais do menino; para contrabalançar, pelos esforços do seu espírito e da sua influência, a maldade do destino; para se fazer substituir nas fileiras dos que combatem pelas nobres causas por este recruta, com o qual ninguém contava, se ele, o pobre mutilado, não interviesse.

«Quem sabe?», pensava o velho garibaldino. «Pode-se perfeitamente lutar sem ser com a ajuda do sabre e da lança. E muito possível que esta criatura, injustamente ferida pelo destino, levante um dia a arma que será destinada a proteger os desgraçados, igualmente ultrajados pela vida; e então eu, velho soldado mutilado, não terei sido de mais neste mundo...»

Mesmo os mais avançados livre-pensadores desta época estavam em parte influenciados pela superstição, que pretendia que o universo era regido segundo «intenções misteriosas» da natureza.

Também o tio Máximo, que seguia de perto a evolução da criança, que cada dia, e progressivamente, manifestava capacidades extraordinárias, se aferrou definitivamente à convicção de que a cegueira do pequeno era uma dessas intenções misteriosas.

«Um ferido para todos os feridos» — era a divisa que o tio Máximo tinha aplicado em boa hora ao seu pupilo.

Após o primeiro passeio da Primavera, a criança passou alguns dias em delírio. Tão depressa estava deitada, imóvel e silenciosa, no leito, como se agitava, balbuciava palavras incompreensíveis e aplicava o ouvido a qualquer ruído. Mas durante todo o tempo o seu rosto conservou a expressão característica do espanto.

— Palavra! Dir-se-ia que se esforça por compreender alguma coisa sem o conseguir — dizia a mãe.

O tio Máximo, pensativo, abanava a cabeça. Tinha compreendido imediatamente que a excitação anormal e o desfalecimento do menino tinham explicação na abundância de impressões e sensações demasiadamente violentas, que abalaram a sua consciência infantil; e foi por isso que tomou a decisão de lhas proporcionar só em acesso progressivo junto do convalescente, de não consentir que as impressões chegassem senão uma a uma. As portas da janela do quarto onde dormia o doente estavam cuidadosamente fechadas. E, em seguida, à proporção que ele melhorava, abriam-nas, passeavam-no através do aposento, faziam-no descer, pela escadaria externa, para o pátio, para o jardim. E todas as vezes que uma expressão inquieta ensombrava as faces do cego a mãe explicava-lhe a natureza dos sons que o surpreendiam.

— É a corneta do pastor que ressoa por detrás da floresta — dizia-lhe. — E aquilo é a voz dum passarinho que se chama toutinegra... E agora é a cegonha que grita sobre a roda; vem de países distantes e instala-se no seu antigo domicílio.

E a criança virava para ela o rosto resplandecente de gratidão, agarrava-lhe na mão, mexia a cabeça, continuando a prestar atenção com um ar pensativo e reflectido.

Começou a documentar-se sobre as coisas que lhe despertavam atenção, e a mãe, ou, a maior parte das vezes, o tio Máximo, descreviam-lhe as diferentes coisas ou animais que provocavam tal ou tal ruído. As explicações da mãe, mais vivas e mais coloridas, produziam no pequeno uma forte impressão, por vezes dolorosíssima. Emocionada, alterada, o rosto descomposto, os olhos cheios de lágrimas e de sofrimento sem alternativa nem esperança, a pobre senhora procurava comunicar ao filho a noção elementar das formas e das cores.

A criança fixava a sua atenção, franzia o sobrolho, e ligeiras rugas sulcavam-lhe a face. Evidentemente que o seu pequeno cérebro infantil estava empenhado numa tarefa excessivamente complicada para si. A imaginação obscurecida debatia-se, esforçava-se o mais possível, para, com dados abstractos, criar um novo conceito; mas não o conseguia. Nestas ocasiões, o tio Máximo ficava carrancudo, e assim que os olhos da mãe se toldavam de lágrimas e o rosto da criança empalidecia de cansaço o velho soldado intervinha na conversa, afastava a irmã e encetava uma exposição, na qual, tanto quanto possível, só fazia uso de noções de espaço e de som. Então o rosto do cego acalmava-se.

— Bem; como é ela? É grande? — perguntava a criança a respeito da cegonha.

Nesse momento abria os braços. Fazia assim sempre que formulava tais perguntas; e o tio Máximo indicava-lhe o ponto exacto em que ele devia parar. Então abria completamente os braços pequeninos, mas o professor dizia-lhe:

— Não, meu pequeno, ela é ainda maior. Se a introduzíssemos no quarto e a puséssemos no chão, a cabeça chegaria acima do espaldar da cadeira. Compreendes?

— Então é muito grande — disse o pequeno, pensativo. — E a toutinegra, é assim? — e afastava um bocadinho apenas as palmas das mãos, postas uma contra a outra.

— Sim, a toutinegra é assim, exactamente. Mas repara que as aves grandes não cantam nunca tão bem como as pequenas. A toutinegra é uma ave encantadora e o seu canto agrada a toda a gente. Quanto à cegonha, é uma ave sisuda, que se sustém numa só pata dentro do ninho, olha sempre à volta de si, como um patrão severo vigia os trabalhadores, e grasna mais alto, sem se importar de que a sua voz rouca vá perturbar os estranhos...

O pequeno ria ouvindo estas descrições — e esquecia por momentos os esforços penosos que fazia para compreender as narrações da mãe. Mas isto passava depressa — e antes queria dirigir-se à mãe do que ao tio Máximo.

O cérebro confuso do pequeno enriquecia-se de novas noções; e, graças ao ouvido extremamente apurado, penetrava cada vez mais na natureza que o cercava. Por cima e em volta de si, sempre a mesma noite profunda e impermeável. Estas trevas pesavam-lhe como uma nuvem negra sobre o cérebro; e, embora ela o tivesse acompanhado desde o primeiro dia de vida e ele devesse habituar-se à sua infelicidade, a natureza, submetida talvez a algum instinto superior, procurava, sem cessar, libertar-se daquele véu escuro. Estes impulsos instintivos para a luz, que não o abandonavam um segundo, davam-lhe ao rosto a marca dum esforço doloroso.

No entanto, também ele conhecia instantes de alegria clara, transportes infantis deliciosos; e isso sucedia-lhe sobretudo nos momentos em que o mundo exterior lhe comunicava uma nova e forte sensação ou lhe fazia conhecer novos fenómenos do universo invisível.

Imensa e vigorosa, a natureza não se lhe fechava inteiramente. Assim, um dia em que o levaram a uma rocha escarpada, na margem da ribeira, escutava, com uma atenção particularíssima, o murmúrio abafado das pequeninas vagas a seus pés; e, com o coração transido, agarrava-se ao vestido da mãe e seguia a queda dos calhaus que se desprendiam dos rochedos e caíam sobre a água. Desde esse momento representava-se-lhe a profundidade como uma espécie de borbotão amortecido de água junto do rochedo, ou sob a forma de agitação furtiva de pedrinhas escorregando ligeiras para o rio.

A sensação de distância repercutia-se nos seus ouvidos como uma canção que se extingue. Mas quando o trovão, em Maio, rolava com fragor pelo céu, enchendo o espaço de estrondo, e se perdia por detrás das nuvens — sempre como se estivesse zangado —, a criança cega aplicava o ouvido a esta voz ensurdecedora com um terror religioso; e então dilatava-se-lhe o peito e surgia-lhe no espírito a noção majestosa do infinito e da atmosfera.

Assim, o som era para ele a principal expressão, e a mais directa, do mundo exterior; as outras só lhe serviam para suplemento às acções do ouvido, que urdiam a trama geral das suas concepções.

Às vezes, nas tardes quentes, quando tudo se calava à volta dele, quando a circulação parava e a natureza se enchia daquela espécie particular de silêncio, em que só se percebe a subida incessante e muda das forças vitais, o rosto do rapazinho transformava-se miraculosamente. Parecia que, sob a influência do sossego exterior, os sons donde ele extraía o ritmo e a vibração subiam do fundo da sua alma e ele os escutava com uma atenção surpreendente. Dir-se-ia, olhando-o nestes momentos, que uma noção mal definida brotava, principiava a retinir no seu coração, como um vago estribilho de balada.

Estava já nos 5 anos. Era magro e débil. Mas isso não o impedia de andar e mesmo correr por toda a casa. Se um estranho o tivesse visto passear com um passo seguro pelos quartos, voltar exactamente onde devia, procurar e encontrar nos lugares respectivos todos os objectos de que tinha necessidade, não acreditaria que estava em presença dum cego. Teria tomado o rapazinho por uma criança caprichosamente concentrada, de olhar meditativo, fixando uma distância indefinida.

Mas já era com dificuldade que ele se deslocava no pátio. Era-lhe necessário servir-se dum pau, com o qual tacteava ligeiramente o chão. Quando o não tinha, preferia ir de gatas, examinando minuciosamente os objectos que se encontravam na sua passagem.


CAPÍTULO II

O que se segue sucedeu numa noite calma de Verão. O tio Máximo estava sentado no jardim. Segundo o seu costume, o pai andava entretido em qualquer parte dos campos. Tudo era serenidade na casa e nos arredores. A aldeia adormecia... Na cozinha, também o ruído dos trabalhadores e das criadas se apagava. Passada uma hora, o menino estava deitado na cama.

Apossou-se dele uma sonolência. Havia já algum tempo, que, em si, uma reminiscência estranha se casava com a doçura desta hora tardia. Bem entendido: ele não via o céu azul escurecer, nem o cimo negro das árvores balançar-se, recortando-se no céu estrelado, nem os largos muros dos edifícios que rodeavam a casa velarem-se de sombra, nem as trevas azuladas e densas envolverem a terra ao mesmo tempo que a poalha de prata do luar. E já havia alguns dias que adormecia alanceado por uma impressão estranha e embriagadora ao mesmo tempo, de que ele não tomava conhecimento senão no dia seguinte.

No momento em que o sono vinha entorpecer-lhe a consciência e o rumor vago das faias se aquietava completamente, a criança deixava de distinguir os latidos distantes dos cães na aldeia, os trilos dos rouxinóis, do outro lado do regato, e o badalar melancólico dos guizos das mulas que passavam na estepe. Logo que todos estes sons isolados se apagavam, se perdiam no infinito, ele começava a ter a impressão de que eles se fundiam num acorde harmonioso, penetrando, como um enxame, pela janela, no seu quarto, e volteavam longamente, lentamente, em roda do leito, mergulhando-o num sonho delicioso, se bem que de natureza imprecisa.

E na manhã seguinte acordava muito terno e dirigia à mãe uma pergunta palpitante.

— Dize, mamã, o que foi aquilo... ontem? Dize, mamã, o que era?

A mãe não sabia do que se tratava e julgava que eram sonhos que atormentavam o seu filho.

Deitava-o então na caminha e não se afastava senão quando ele adormecia e nada se notava de singular. Mas na manhã seguinte o pequeno repetia-lhe a mesma coisa e contava-lhe então o que lhe tinha agitado deliciosamente a vigília.

— Ai, querida mamã, era tão lindo, tão lindo... Mas o que era?

Uma noite tomou ela a decisão de ficar ao pé do leito do filho mais tempo, para esclarecer este estranho enigma. Sentou-se numa cadeira ao lado da cama, a trabalhar quase automaticamente no seu tricot, escutando com atenção a respiração igual do seu Pedrinho.

Parecia ele dormir tranquilamente, quando, de súbito, a sua voz doce atravessou a escuridão:

— Mamã... estás aí?

— Sim, sim... filho...

— Vai-te embora, peço-te. Ele tem medo de ti e não veio ainda. Já estava quase a dormir, mas ele ainda ali não está.

Espantada, a mãe ouviu, com um sentimento penoso, este cochichar queixoso, meio a delirar. A criança falava-lhe dos seus sonhos com uma lucidez chocante, como se se tratasse de uma coisa real. Contudo, levantou-se, inclinou-se para o filho, abraçou-o e saiu docemente, com o intento de se aproximar, sem ser notada, da janela aberta, que dava para o jardim.

Não teve mesmo tempo de fazer o exame: o mistério esclareceu-se. De repente percebeu os gorjeios suaves e harmoniosos de uma flauta, que vinham da cavalariça e se misturavam com os rumores indistintos da noite meridional.

Compreendeu imediatamente que eram justamente esses simples harpejos que compunham uma melodia ingénua e que, ligando-se ao mistério da hora, davam uma nota tão agradável às recordações nocturnas do menino. Parou, ficou um minuto sem se mexer, a escutar o motivo adoptado pela canção ucraniana, e depois retirou-se tranquila, indo encontrar numa álea escura do jardim o tio Máximo, que a esperava.

«Como ele toca bem, o nosso Jokhime», pensou ela. «Espera, é esquisito: tanta sensibilidade num mujique tão grosseiro!»

 

The Blind Fiddler - David Wilkie, 1806
O Cego Rabequista - David Wilkie, 1806


Efectivamente, Jokhime tocava muito bem. Era mesmo competente para dominar um violino rebelde; e contava-se que, noutros tempos, ninguém tocava melhor que ele a «cossaca» ou a endiabrada cracoviana, ao domingo, na estalagem. Quando, sentado a um canto sobre um escabelo, o queixo rapado apoiado na tampa do violino o alto boné de pele arrogantemente inclinado para a nuca, ele dava uma arcada nas cordas bem retesadas, não ficava ninguém quieto na taberna. Mesmo o velho judeu zarolho que acompanhava Jokhime em contrabaixo se animava com um entusiasmo louco; o seu instrumento, pesado e desajeitado, parecia que rebentava sob os esforços que ele fazia para seguir, com as notas baixas, os sons ligeiros, cantantes e saltitantes do violino de Jokhime; e até o velho Iankel, cujos ombros saltavam a cada movimento, agitava a cabeça calva, enfeitada com um ??, e balançava todo o corpo, ao ritmo da melodia jovial e arrebatadora. E que dizer dos cristãos, cujas pernas estão, desde o começo dos séculos, dispostas de tal forma que se bamboleiam e saracoteiam, como sombras, ao primeiro som dum compasso de dança?

Mas desde o tempo em que se apaixonou por Maria, criada dum nobre vizinho, Jokhime tinha tomado ódio — sem se saber porquê — ao alegre violino. Em abono da verdade, deve dizer-se que o instrumento não o ajudara nada a conquistar a rapariga, que preferiu a cabeça caucasiana dum criado de quarto ao penteado cossaco do mujique.

Desde essa altura em diante, nunca mais se ouviu o violino de Jokhime, nem na estalagem, nem nas festas da aldeia. Pendurou-o num prego da cavalariça e nunca se importou de que as cordas do instrumento, outrora tão amado, uma após outra se partissem. E, no entanto, ao quebrarem-se, as cordas produziam sons plangentes e tão cheios de uma angústia mortal que os próprios cavalos relinchavam, compadecidos, e, espantados, voltavam a cabeça para aquele homem empedernido pela rapariga que o tinha escorraçado. Em substituição do violino, Jokhime comprou uma flauta de madeira a um montanhês nómada dos Carpatos. Esperava que as notas suaves e ternas se ligassem muito melhor com a sua triste sorte e melhor pudessem traduzir todas as penas dum coração desprezado.

Mas a flauta da montanha iludiu-o nas suas esperanças. Ensaiou trinta e seis maneiras, aparou-a, mergulhou-a na água e secou-a ao sol. Depois suspendeu-a do tecto por um fio delgado, para que o vento lhe batesse e a limpasse. Mas tudo em vão. A flauta estranha não se submeteu. Assobiava justamente quando devia cantar, produzia sons agudos nos momentos em que Jokhime lhe pedia vibrações langorosas e comoventes. Numa palavra, a flauta recusava-se terminantemente a adoptar o sentir do seu dono. Jokhime comprou umas dez. E, por fim, terrivelmente zangado com todos os montanheses nómadas, a quem reconheceu completa incapacidade para fazer uma boa flauta, decidiu ele mesmo fazer uma a seu gosto. Vagueou durante alguns dias, a testa enrugada, o sobrolho franzido, pelos campos e pelos charcos, aproximando-se de cada bosquezinho de salgueiros que via, examinando todos os ramos e cortando alguns. Mas não encontrava o que procurava. De sobrancelhas sempre carregadas, ia mais longe, continuando as pesquisas. Parou, por fim, num cantinho, onde as águas meio adormecidas do riacho deslizavam indolentemente. Nesta enseada, o ribeiro acariciava as cabeças brancas dos nenúfares. O vento quase não chegava a este sítio, por causa das moitas espessas dos salgueiros que, com ar calmo e recolhido, se inclinavam para a profundidade das águas, negras e quietas.

Jokhime afastou os arbustos, aproximou-se do regato, esteve imóvel durante uns momentos e capacitou-se de repente de que encontrara ali o que procurava. A fronte desenrugou-se-lhe. Tirou da algibeira uma navalha de mola ligada a uma correia curta e, depois de ter abrangido com um olhar atento os salgueiros, que murmuravam com ar preocupado, dirigiu-se, precipitadamente, com passos seguros, para uma arvorezinha esbelta e flexível que se balançava por cima dum rego cavado pela duna.

Deu-lhe um piparote, viu-a, com prazer, estremecer com uma flexibilidade prodigiosa, escutou o sussurro da folhagem e abanou a cabeça.

— Mas é exactamente o que eu preciso! disse Jokhime encantado; e arremessou à água todas as varas que antes tinha cortado.

Arranjou uma flauta notável. Depois de seco o salgueiro, queimou-lhe a medula com um fio de ferro incandescente, abriu-lhe seis buracos redondos, acrescentou um transversal suplementar e, após ter tapado uma das extremidades com um batoque de madeira, deixou-lhe uma fendazinha. Em seguida ficou o instrumento a balançar durante uma semana inteira na extremidade de um cordel, largamente exposto ao sol, que o aquecia, e ao vento, que o acariciava por todos os lados.

Depois, o músico amador aparou-o com a navalha, limpou-o com um bocado de vidro e enxugou-o cuidadosamente com um trapo grosseiro. A cabeça da flauta ficou redonda. Do centro partiam facetas de superfície igual, bem polidas, que ele cobriu de chapas de metal, formando motivos complicados.

Depois de ter tentado fazê-la soltar quaisquer notas rápidas, abanou a cabeça com um ar comovido e produziu um som completamente extravagante; mas, evidentemente satisfeito, escondeu apressadamente a flauta perto da cama. Ele não queria executar o primeiro exercício musical na atmosfera agitada do dia. Quando a noite caiu e os ruídos se apagaram, acentos ternos e modulados, cheios duma doçura rara e duma fantasia embriagadora, irromperam da cavalariça.

Jokhime estava verdadeiramente satisfeito com o seu trabalho. O instrumento parecia uma parte do seu criador. Dir-se-ia que os sons escapavam do seu próprio coração ardente e enternecido, tanto a flauta maravilhosa reflectia as menores nuances dos seus sentimentos, os menores frémitos da sua tristeza. Soltavam-se, deslizavam mansamente, uns a seguir aos outros, enchendo a noite que os escutava atenta.

Presentemente, Jokhime estava enamorado do instrumento e passava na sua companhia a lua-de-mel. Durante o dia cumpria escrupulosamente os deveres de criado de cavalariça, levava os cavalos ao bebedouro, atrelava-os, passeava na carruagem a dona da casa ou o tio Máximo. Passando de tempos a tempos pela aldeia vizinha, sentia a angústia invadir-lhe o coração; mas, ao aproximar-se a noite, esquecia tudo e todos, e mesmo a imagem da rapariga de soberbas pestanas negras se envolvia numa espécie de névoa. Esta recordação perdia a sua realidade e apresentava-se-lhe num tom vago, flutuante, ainda que bastante perceptível para dar um carácter sonhador e triste às modulações da flauta milagrosa.

Naquela noite, como habitualmente, Jokhime estava meio deitado na cavalariça e, cheio de um êxtase musical, dava livre curso a melodias alegres. O músico conseguia, não somente esquecer a bela de coração cruel, mas a própria existência e tudo que o rodeava, quando, subitamente, estremeceu, erguendo-se no leito.

No momento mais patético sentiu uma mãozinha passar os dedos ligeiros pelo seu rosto, deslizar imediatamente ao longo das suas mãos e pôr-se a tactear sofregamente a flauta. Ao mesmo tempo sentiu perto de si uma respiração ofegante, alterada e breve.

— Mas que é isto? — gritou ele, temendo ser vítima dum malefício e pronto a pronunciar palavras destinadas a conjurá-lo.

Desejoso de verificar se se tratava de sortilégio, acrescentou imediatamente:

— És o Diabo ou Deus?

Mas um raio de luar, que acabava de penetrar pelo portal aberto da cavalariça, mostrou-lhe que se enganava. Pertinho da sua cama achava-se Pedro, a estender para si os deditos.

Uma hora depois, a mãe, desejando deitar um olhar ao seu filho adormecido, não o encontrou na cama. À primeira impressão, assustou-se terrivelmente; mas o instinto maternal sugeriu-lhe imediatamente o lugar onde devia ir procurá-lo.

Jokhime ficou muito confuso quando, parando inopinadamente para tomar fôlego, distinguiu a patroa no limiar da porta. Certamente que ela já ali estava havia alguns momentos, escutando a música e observando o filho, que, envolvido na curta pelica de Jokhime, estava sentado na cama e continuava prestando atenção à canção interrompida.

A partir dessa noite, o menino foi regularmente à cavalariça para junto de Jokhime.

Nunca ele pensou em pedir ao mujique que tocasse de dia. Tinha a impressão de que a agitação quotidiana e o rumor universal excluíam toda a possibilidade de produzir aquelas doces melodias.

Mas logo que a noite caía sobre a Terra, Pedro experimentava uma impaciência nervosa. O jantar só lhe servia de sinal precursor da aproximação do momento venturoso; e se bem que a mãe, instintivamente, não gostasse por aí além das sessões musicais, não podia impedir o filho querido de ir visitar o músico aldeão nem de passar na cavalariça duas horas antes de se deitar. Essas horas tornavam-se para a criança cega a parte mais feliz do dia; e, cheia de ciúmes devoradores, a mãe compreendia que as impressões nocturnas preocupavam o filho durante todo o dia seguinte. Notara ela também que o pequeno já não correspondia com o mesmo entusiasmo às suas carícias e que, sentado nos seus joelhos e abraçando-a, recordava incessantemente a canção da véspera tocada por Jokhime.

Então lembrou-se de que, quando estudava no colégio de meninas de Mme Radetzky, tinha aprendido música, que ela incluía entre as artes agradáveis. Falando propriamente, as suas recordações não eram extremamente gratas, considerando que elas se ligavam à imagem de M.lle Klaps, institutrice alemã, rapariga esgrouviada, magra, prosaica e, sobretudo, terrivelmente maldosa.

Esta professora, repleta infalivelmente de fel, era muito capaz de partir os dedos às alunas para conseguir uma agilidade inconcebível, chegando assim a afugentar perfeitamente delas os menores traços de sentimento musical. Esse sentimento, excessivamente tímido, não suportava sequer a simples presença de M.lle Klaps, que tinha, além disso, uma noção bizarra dos métodos pedagógicos.

Foi por isso que, depois de terminar os estudos e casar-se, Ana Mikhailowna não pensou mais em retomar os exercícios de música.

Presentemente, porém, à medida que escutava o tocador de flauta ucraniana, sentia que, com o ciúme, uma paixão real por uma música viva nascia cada vez mais no seu coração, e que, ao mesmo tempo, a imagem da demoiselle alemã se desvanecia. Em consequência disso, a Sr.a Popelska pediu com veemência ao marido que lhe mandasse vir da cidade um piano.

— Como quiseres! — respondeu-lhe o marido, modelo dos maridos. Mas, se não me engano, tu não gostavas muito de música!

Nesse mesmo dia, a encomenda partiu, mas a compra e o transporte do instrumento para o campo demandavam duas ou três semanas, pelo menos.

Entretanto, os apelos melodiosos escapavam-se todas as noites da cavalariça e a criança cega precipitava-se para ali sem mesmo esperar pela licença da mãe.

O cheiro particular da cavalariça misturava-se ao perfume das ervas secas e ao cheiro forte das correias. Os cavalos ruminavam docemente, revolvendo os montes de feno, que puxavam da manjedoura. No momento em que o musico parava para tomar alento, o murmúrio das faias verdes do jardim chegava distintamente à cavalariça. Sentado, o pequeno Pedro conservava-se como num encantamento e escutava. Nunca interrompeu o tocador; e era somente quando ele parava e dois ou três minutos se passavam que o encantamento silencioso dava lugar a uma avidez singular. Inclinava-se para a flauta, pegava-lhe com as mãos trementes e levava-a aos lábios.

Como nessa altura a emoção lhe cortava o sopro, os primeiros sons que saíam eram habitualmente surdos e hesitantes. Mas, em seguida, começou, pouco a pouco, a dominar o instrumento primitivo. Jokhime colocava-lhe os dedos perto dos buracos e, se bem que a sua minúscula mão não pudesse tapar os orifícios, o cego habituou-se rapidamente aos sons da escala elementar. Cada nota tinha para ele um carácter próprio, uma fisionomia particular. Sabia já em que buraco residia tal ou tal som, como era preciso produzi-lo; e, de tempos a tempos, seguindo as modulações simplicíssimas de Jokhime, os dedos da criança começavam a mover-se ao ritmo da canção. Exprimia claramente os tons sucessivos, colocados no seu lugar ordinário, na ordem ascendente ou descendente.

Enfim, justamente três semanas depois, o piano chegou à herdade. Pedro estava no pátio e escutava atentamente os trabalhadores atarefados em transportar «a música» para casa. O instrumento era, evidentemente, muito pesado, pois no momento em que começaram a levantá-lo o carro rangeu e os que o transportavam gemiam e respiravam com dificuldade. Mas quando avançavam com custo, pausadamente, a cada passo, qualquer coisa de esquisito zumbia, fazia estrondo e vibrava por cima da sua cabeça. Logo que colocaram o instrumento no soalho, ele respondeu com um eco surdo; como se, arrebatado pelo furor, se zangasse com qualquer pessoa ou a ameaçasse.

Tudo isto produziu na criança uma impressão vincada de receio e não o dispôs nada bem a respeito do novo hóspede irritado, apesar de inanimado.

Saiu para o jardim e não ouviu como se colocava o instrumento sobre os seus pés, nem como o afinador, vindo expressamente da cidade, o tinha afinado com a chave, tocava o teclado e tirava as cordas. Só depois de tudo isto acabado é que a mãe deu ordem para levarem Pedro para a sala.

E então, com a ajuda dum piano, saído duma das melhores oficinas vienenses, Ana Mikhallowna celebrou antecipadamente a sua vitória sobre a singela flauta aldeã. Estava segura de que, doravante, o seu Pedro esqueceria a cavalariça e o seu morador e que, a partir desse dia, ela seria sozinha a garantir todas as alegrias e todos os prazeres do filho.

Olhou sorridente a criança, que entrava na sala, timidamente, acompanhada pelo tio Máximo e por Jokhime, que pediu licença para ouvir a música e parou à porta, de olhos baixos pela perturbação e a longa madeixa de cabelo caída na testa. Quando o tio Máximo e Pedro se sentaram no sofá, Ana Mikhallowna executou subitamente uma passagem no piano.

Tocava ela um trecho que aprendera na perfeição, sob a superintendência de M.lle Klaps, no colégio de meninas de Mme Radetzky. Era qualquer coisa de fortemente barulhento, de bastante complexo, que exigia uma agilidade extraordinária de dedos.

Na altura do exame, Ana Mikhailowna tinha obtido, executando este trecho, uma torrente de elogios, que iam, na sua maior parte, para a professora.

Ninguém sabia nada ao certo, mas muita gente supôs que o silencioso M. Popelsky se cativou da menina Jatzenko justamente no momento em que a rapariga encantava a assistência tocando este dificílimo fragmento.

Tocava-o agora de novo, esperando no seu foro íntimo uma outra vitória; e empregava todos os esforços para seduzir o coraçãozinho do filho, enfeitiçado por uma vulgar gaita ucraniana.

Mas desta vez foi iludida a sua esperança: o instrumento vienense não era suficientemente forte para lutar com um pedaço de salgueiro russo. É certo que o piano possuía meios formidáveis: madeira preciosa, cordas extraordinárias, execução perfeitíssima dum artista de Viena e toda a riqueza de um extenso registo. Mas, em contrapartida, a modesta flauta também tinha os seus aliados: estava em sua casa, no seu país, no quadro familiar da Ucrânia.

Antes que Jokhime a tivesse cortado com a sua navalha e lhe tivesse queimado o coração com um ferro em brasa, ela balançava-se ali pertinho, por cima do ribeiro tão conhecido do cego. Tinha sido beijada pelo sol ucraniano, que também a aquecera; tinha sido vergada e açoitada pelo vento ucraniano, até ao momento em que o olhar perspicaz dum tocador de flauta a assinalou, palpitante, por cima duma ladeira escarpada, desgastada pela chuva. Era por isso que se tornava particularmente difícil ao hóspede estrangeiro lutar com a flautazinha singela, que se tinha revelado à criança na hora suave do entardecer, no meio do misterioso encantamento da noite, do sussurro das faias, que adormeciam ao rumor familiar de toda a natureza ucraniana.

E, além disso, a Sra Popelska não podia de forma nenhuma medir-se com Jokhime. Sim, decerto que os seus dedos delicados eram muito mais vivos e ligeiros, a melodia que ela tocava era também mais rica e complexa e a demoiselle Klaps tinha despendido todos os seus esforços para conseguir que a aluna se tornasse mestra num instrumento tão difícil. Mas, por seu turno, Jokhime possuía um sentido musical inato. Amava, aborrecia-se, e o seu amor e o seu desgosto confiava-os ele aos elementos que conhecia desde a mais tenra infância. Esses motivos, simples e tocantes, aprendeu-os ao pé desta mesma natureza, junto dos ruídos da floresta, do doce murmúrio da erva e da estepe e da canção velhinha do país natal, tão chegada e tão sonhadora, que ele ouvira soar em volta do seu berço de criança.

Ah, sim, era bem difícil para o instrumento vienense vencê-la. Ao fim de um minuto, o tio bateu com força no soalho com a muleta. Ana Mikhailowna voltou-se vivamente na sua direcção e leu no rosto de Pedro a mesma expressão, que ela conservava inesquecível, do primeiro passeio da Primavera, em que ele se precipitara, desmaiado, sobre a erva.

Jokhime olhou compadecido para o pequeno, lançou um olhar desdenhoso à «música alemã» e retirou-se do salão, arrastando as botas pesadas de camponês.

Este insucesso custou muitas lágrimas à pobre mãe. Todas as vezes que se lembrava do olhar desprezível do palafreneiro Jokhime, depois do seu concerto verdadeiramente desastroso, corava de vergonha, e começou a odiar o infeliz ucraniano.

E, contudo, todas as noites, logo que o filho se escapava para a cavalariça, abria a janela, apoiava os cotovelos no parapeito e escutava avidamente. Ao princípio fazia isso com um sentimento de desdém irritado, esforçando-se sobretudo por descobrir os lados ridículos daquela «estúpida chilreada»; mas, em seguida, sem mesmo dar conta de tal, «o chilreio» principiou a apoderar-se da sua atenção e começou a seguir, com uma disposição completamente diferente, os motivos deliciosos e tristes da flauta. Analisando-se, perguntava a si própria donde provinham o encanto e o mistério inebriante daquelas canções. E, pouco a pouco, as noites azuis, as sombras imprecisas e os acordes surpreendentes das melodias de Jokhime, com o quadro que o rodeava, ajudaram-na a resolver o problema.

— Sim — disse ela, vencida e cativada por sua vez —, desprende-se daquilo um sentimento singular e sincero, uma poesia maravilhosa, que nenhuma anotação musical reproduziria.

E era verdade. O mistério desta poesia estava na ligação subtil que existia entre o passado, morto há muito tempo, e a natureza eterna, testemunha desse passado. Aquele mujique, de aspecto grosseiro, de botas enceradas, trazia consigo esta harmonia divina, esta paixão viva da natureza.

Ana Mikhailowna reconhecia que dentro de si mesma a altiva senhora se curvava diante do cocheiro. Esquecia o vestuário rude e o cheiro a sebo de que Jokhime estava impregnado; e através dos doces trinados da flauta lembrava-se sobretudo do rosto bonacheirão do músico, da expressão terna e graciosa dos seus olhos cinzentos e do sorriso tímido e confuso que se ocultava debaixo do seu comprido bigode. Se de tempos a tempos o rubor ainda lhe subia às faces e à fronte, era que na luta encarniçada travada com o fim de conquistar a atenção do filho se encontrava na mesma arena e estava em pé de igualdade com esse mujique; e que, no fim de contas, era justamente ele quem triunfava.

Durante este tempo, as árvores do jardim cochichavam por cima da sua cabeça e resplandeciam cada vez mais as luzes no céu imenso, de um sombrio tom azul. As trevas melancólicas invadiam a terra inteira e a tristeza ardente das canções de Jokhime penetrava na sua alma de mulher. E ela acalmava-se, pouco a pouco, como que vencida pelo mistério inocente desta poesia, pura, simples e franca.

Sim! O mujique Jokhime possuía esse sentimento sincero e vivo! E ela? Era possível que nem um átomo tivesse? Então como explicar a agitação do seu coração, a angústia de que o seu ser estava cheio e aquelas lágrimas que, mau grado seu, lhe inundavam os olhos? Não é um sentimento, um sentimento de amor ardente pelo seu pobre filho, cego e deserdado, que a abandona para fugir para Jokhime?

Lembrava-se sempre da expressão dolorosa das feições da criança quando ela tocava, e lágrimas amargas deslizavam-lhe, irresistíveis, pela cara, sendo-lhe impossível reter os soluços prestes a estalar que lhe apertavam a garganta.

Pobre mãe! A cegueira do filho tornara-se nela, por fim, como uma doença crónica, uma enfermidade incurável, que se manifestava na ternura exagerada e quase anormal que lhe dedicava, e, sobretudo, nessa obsessão que a absorvia inteiramente e que acorrentava, por milhares de cordas invisíveis, o seu coração ulcerado pela dor ao menor sinal de sofrimento do filho. Era por isso que uma coisa extremamente simples, que poderia causar um sentimento de despeito passageiro a qualquer de feitio mais tranquilo — essa concorrência singular com um tocador de flauta ucraniano —, se tornava para si numa fonte inesgotável de sofrimentos, incrivelmente dolorosos.

Passavam os dias sem lhe trazerem consolação, mas não sem utilidade: ela começava a sentir o fluxo esquisito dessas sensações vibrantes de poesia musical que tanto a fascinavam no tocar de Jokhime. Então renasceu-lhe a esperança. Impelida por um súbito impulso, por uma nova segurança, aproximou-se várias vezes do piano e abriu-o, desejosa de abafar com os acordes sonoros dos seus toques a tímida flauta do palafreneiro; mas um movimento de hesitação e de pudor retinha-a. Lembrava-se do rosto alterado do filho e do olhar desprezador do mujique, e as faces acendiam-se-lhe de vergonha na noite. Com uma rapidez medrosa, contentava-se em passar a mão pelo teclado.

Apesar disso, a profunda consciência da sua força aumentava de dia para dia, e, aproveitando os momentos em que à tarde o filho brincava numa álea distante ou passeava em qualquer parte, sentava-se ao piano. Os primeiros ensaios não a satisfizeram. As mãos não se submetiam às concepções interiores; e, ao princípio, os sons do instrumento pareciam-lhe estranhos ao estado de alma que a avassalava. Mas, pouco a pouco, e progressivamente, a expressão dos seus sentimentos transmitiu-se ao seu toque, com uma plenitude e uma facilidade que cresciam gradualmente. As lições do mujique tinham-lhe aproveitado; e, por outro lado, o seu amor maternal sem limites e a noção excessivamente delicada do que lhe faltava para conquistar o coração subtil do filho asseguravam-lhe a inteira possibilidade de lucrar com as suas lições. Doravante abandonava para sempre os trechos agudos e complexos doutrora; e eram canções tristes, delicadas doumkas ucranianas, que soavam, gementes, na sala escura e comoviam até as lágrimas o coração da pobre mulher.

Chegou, enfim, o dia em que se sentiu suficientemente forte para travar uma luta aberta e franca.

Então, uma espécie de despique original principiou entre a casa dos patrões e a cavalariça de Jokhime. Da cocheira sombria, de tecto de colmo inclinado, saíam gorjeios ondeantes de flauta; e, indo ao seu encontro, das grandes janelas abertas da casa senhorial, que reflectiam por entre os ramos das faias o luar brilhante, brotavam os sons cantantes e cheios do piano.

Ao princípio, nem o pequeno nem Jokhime quiseram tomar em consideração «a música dos senhores», a respeito da qual experimentavam um preconceito invencível. O rapaz chegava mesmo a franzir as sobrancelhas e instigava Jokhime quando ele, de tempos a tempos, parava.

— Continua! Toca, toca!

Passados dias, estas paragens começaram a ser cada vez mais prolongadas e frequentes. Jokhime abandonava de momento a momento a flauta e prestava atenção, com um interesse crescente; e o pequeno, por seu lado, esquecia-se de espicaçar o amigo e escutava também, tomado por um sentimento completamente novo. Por fim, sem poder mais, o mujique disse, uma noite:

— Vamos lá, que está bem... bem de verdade... É efectivamente extraordinário!

E depois, com aquele ar distraído e meditativo ao mesmo tempo, próprio de todo o homem que escuta com atenção, pegou no rapaz ao colo e atravessou o jardim na direcção duma das janelas abertas da casa.

Julgava que a patroa tocava para as suas recordações, sem lhe prestar a menor atenção. Mas, durante as pausas, Ana Mikhailowna tinha reparado perfeitamente que o seu rival — a flauta se calara, e, verificando esta vitória heroicamente ganha, o coração batia-lhe numa alegria indescritível...

Ao mesmo tempo, a sua irritação contra Jokhime desaparecia por si e definitivamente. Era feliz e sabia que só a ele devia essa ventura. Fora ele que lhe ensinara a arte de resgatar o filho; e se o pequeno querido recebia doravante o tesouro inesgotável de impressões inéditas, os dois, mãe e filho, sabiam que fora isso graças ao mujique, mestre dum e doutro.

O gelo rompeu-se. No dia seguinte a criança entrou com ar tímido no salão, onde não ia desde a chegada do hóspede excêntrico vindo da cidade, e que lhe parecera terrivelmente importuno e barulhento. Os cantos deste visitante deliciavam agora o ouvido do menino e transformaram, como por encanto, a sua disposição de espírito. Conservando ainda os últimos traços de timidez, aproximou-se do sítio onde o piano se encontrava, parou a alguma distância, e o seu aspecto denunciou uma certa expectativa. Não estava ninguém na sala. A mãe encontrava-se num quarto vizinho, sentada num sofá, ocupada num trabalho de senhoras. Viu imediatamente o filho e, retendo a respiração, pôs-se a observá-lo, admirando a mobilidade da sua fisionomia impressionante e seguindo todas as alterações da sua expressão.

Estendendo as mãos, Pedro tocou a superfície envernizada do instrumento e, ao mesmo tempo, fez um movimento receoso para trás. Repetindo duas vezes seguidas a mesma experiência, aproximou-se do piano e pôs-se a examiná-lo, curvando-se até ao soalho, para lhe tocar nos pés e andar à roda dele. A sua mão caiu, por fim, nas teclas polidas.

Um som doce, escapando-se duma corda em movimento, tremeu fugazmente no ar. A criança escutou longamente as vibrações, que já não eram perceptíveis para a mãe, e com um ar de atenção suspensa tocou outra tecla, deslizando em seguida os dedos por todo o teclado. Na passagem encontrou uma nota de registo superior. Dava tempo a cada tecla de revelar toda a sua musicalidade, e os sons, um após outro, vibravam, tremiam e morriam no ar. Simultaneamente a uma extrema atenção, a fisionomia do cego exprimia prazer. Admirava, evidentemente, cada som isolado, e só à mãe esta atenção dócil a respeito dos sons elementares e das partes integrantes da melodia revelava dons indiscutíveis de artista. Mas, por outro lado, o ceguinho dava a impressão de atribuir a cada som propriedades particulares: logo que uma nota alegre e clara do registo superior tilintava sob os seus dedos, ele levantava a face animada e sorria, como se o sorriso acompanhasse a vibração alada. Pelo contrário, a cada som grave, surdo, mal perceptível, inclinava o ouvido. Parecia-lhe que essa nota pesada se devia arrastar apenas e irresistivelmente pelo solo, dispersar-se ao nível do soalho e perder-se em recantos escuros.

O tio Máximo mostrava-se indulgente relativamente a todas estas experiências musicais. Coisa estranha, aquelas faculdades que se manifestaram no pequenito em tão boa hora inspiravam ao inválido sentimentos contraditórios. Por um lado, esta paixão maravilhosa pela música revelava um talento seguro e definia, dessa forma, o possível futuro do rapaz. Por outro lado, coexistia no coração do velho soldado uma vaga pontinha de decepção.

«Seguramente», dizia o tio Máximo, «que a arte musical é uma força prodigiosa, considerável, que faculta o meio de conquistar as massas. É possível que esta criança cega faça acorrer centenas de damas e de snobs elegantes... Que lhes toque valsas e nocturnos e os obrigue a chorar de emoção. Mas, que diabo! Não foi isso que ambicionei para ele. No entanto, que fazer? Que quereis que faça um pobre cego como ele?... Não lhe resta senão sujeitar-se à sua sorte e fazer o que puder...»

Passado tempo, o tio Máximo principiou a enervar-se.

— Eh! Jokhime — disse ele uma noite, entrando, a seguir ao pequeno, na cocheira. Deixa o assobio por uma vez. Isso serve ainda para os garotos da rua ou para o pastor nos campos; mas para ti, que já és um mujique, um adulto, embora essa estúpida Maria te tenha transformado num autêntico vitelo... Pff! Até se tem vergonha, palavra, de olhar para ti. Uma rapariga qualquer despediu-te e ficaste um molanqueirão. Apitas toda a noite, como uma codorniz, que é capaz de cantar toda a vida.

Escutando esta longa tirada do mutilado, que o olhava com ar enfadado, Jokhime sorria no escuro da cavalariça; e somente a alusão aos rapazes da rua e ao assobio do pegureiro o irritou um pouco.

— Não diga isso, senhor — replicou ele. Uma flauta como a minha não a encontrará em parte nenhuma da Ucrânia ou mesmo entre os pastores. Tem razão, toda essa gente para aí mal sabe assobiar; mas eu... Além disso, basta-lhe só esperar um pouco.

Tapou com os dedos todos os buracos do instrumento e percorreu a oitava inteira duas vezes seguidas, admirando ele próprio o som cheio e modulado. O tio Máximo escarrou.

— Mas escuta... Palavra que és estúpido por uma vez... Perdeste a cabeça e vais cada vez pior, meu velho. Para que falas tu da tua flauta? Tudo isso nada vale, nada... as flautas e as mulheres, incluindo a tua Maria. Farias melhor em nos cantar uma canção, se é que sabes, bem entendido, uma canção antiga. Eh!

O tio Máximo, ele próprio ucraniano, homem simples e franco, colocava-se em pé de igualdade com os mujiques e os criados. Chegava muitas vezes mesmo a gritar e a injuriar, mas de uma maneira tão bonacheirona que ninguém lhe queria mal e toda a gente o tratava com o maior respeito, ainda que sem cerimónia.

— Para quê? — respondeu Jokhime à sugestão do tio Máximo. — No meu tempo cantava, e menos mal. Mas pode muito bem acontecer que as nossas canções de mujique nada falem do vosso gosto do senhor, nem — notou ele, troçando ligeiramente do seu interlocutor.

— Não digas asneiras! — retorquiu o tio Máximo. — Não há comparação entre uma canção e uma flauta, com a condição, é claro, de se cantar bem. Queres, meu menino — disse, dirigindo-se a Pedro —, que ouçamos a cantiga de Jokhime? O que eu não sei, é claro, é se tu a compreenderás.

— E será uma canção de escravos? — perguntou o pequeno. — Eu conheço a língua.

Máximo suspirou. Romântico puro, sonhava sempre com a liberdade de todo o mundo.

— Não, menino. Não são cantigas de escravos. Pelo contrário, são canções de um povo forte, vigoroso e livre. Teus avós pelo lado materno cantavam-nas nas estepes que limitam o Dnieper, o Danúbio, o mar Negro. Pois bem: um dia virá em que hás-de compreender. Mas, por agora — acrescentou, sonhador —, por agora, receio outra coisa...

Na verdade, o tio Máximo temia uma outra espécie de incompreensão. Acreditava que, para falar directamente ao coração, as fortes imagens das canções, evocando a epopeia gloriosa do seu país, deviam ser infalivelmente apoiadas em impressões visuais. Receava ainda que o cérebro obscurecido da criança não fosse capaz de apreender a linguagem cheia de cor da poesia popular.

Tinha esquecido completamente nesta ocorrência que os velhos poetas populares, os cantores ucranianos e os tocadores de bandurra eram outrora, na sua maior parte, cegos. Efectivamente, muitas vezes, a desgraça ou a invalidez obrigavam as pessoas a lançar mão de uma lira ou de uma bandurra e a pedir esmola. Mas não eram os mendigos e os profissionais de voz nasalada que consagravam a vida inteira a esta arte. A cegueira envolve todo o universo num véu impermeável, que pesa certamente sobre o cérebro, que oprime e entrava o trabalho. Apesar de tudo, graças às impressões hereditárias e às reacções obtidas por outros meios, a imaginação dum cego cria o seu mundo próprio, um mundo triste, sombrio, povoado de angústia, mas que não é, todavia, destituído de uma poesia imprecisa, muito particular...

O tio Máximo e Pedro sentaram-se sobre um monte de feno. Jokhime encostou-se sobre o cotovelo, na cama (esta posição era a que mais convinha ao seu temperamento artístico), e, a seguir à pausa dum instante, principiou a cantar.

Teria sido difícil dizer se a sua escolha foi ocasional ou instintiva; mas o que é certo é que ela foi muito feliz. Decidiu-se por uma recordação histórica:

Oh! Além, na montanha,
Os ceifeiros fazem a colheita...

Todos aqueles que ouviram uma execução conveniente desta estranha canção popular, sem dúvida que nunca mais esquecerão o motivo delicado, pungente, contínuo, lânguido, que parecia envolvido pela melancolia das reminiscências históricas. Não era narração de acontecimentos célebres, de batalhas sangrentas, nem de ilustres façanhas, nem ainda de algum cossaco despedindo-se da bem-amada, nem de incursão ousada, ou de expedição sobre «gaivotas» descendo o mar azul em direcção ao Danúbio. Não; era somente uma visão rápida, aparecendo como um relâmpago, das saudades dum ucraniano — um sonho vago, lembrando um episódio dum passado que se perde imperceptivelmente numa nebulosa distância. No meio dum trabalho sombrio, cheio de inquietações quotidianas mesquinhas, o quadro surge subitamente na imaginação — quadro esfumado, envolto numa fina gaze, reflectindo aquela tristeza que afasta o velho tempo, tão querido e tão desesperadamente desaparecido. Desaparecido, sim, mas não sem deixar vestígios. Não nos falam desse passado os altos túmulos onde repousam os ossos dos cossacos e donde saem gemidos aflitivos e dilacerantes?

Não é de outrora que nos fala a legenda da canção popular, cada vez mais esquecida:

No alto da colina verde
Fazem a colheita os ceifeiros.
Em baixo, ao pé da colina verde,
Os cossacos vão, vão...

O tio Máximo esqueceu-se, a escutar a canção impregnada de tristeza. A imagem sugerida pelo maravilhoso motivo, e correspondente, duma maneira extraordinária, ao motivo da ária, apareceu no seu espírito, como iluminada pelos reflexos melancólicos do poente. Nos campos tranquilos da colina verde desenham-se os corpos dos segadores, inclinados silenciosamente para os sulcos do arado. E em baixo, sem o menor ruído, passam, um após outro, destacamentos de guerreiros, desaparecendo nas sombras da noite que banham o vale.

As notas fracas da canção de outrora hesitam, vibram e calam-se, agonizantes, no ar, para ressoar um instante ainda e para arrancar à penumbra novidades, figuras sempre inéditas.

A criança escutava com um ar triste, que se tornava taciturno. Quando a cantiga de Jokhime evocava a colina onde trabalhavam os ceifeiros, a imaginação forte de Pedro transportava-o imediatamente ao cimo do rochedo escarpado, que já lhe era familiar. Reconhecia-o ao marulho doce, que mal se percebia, da vaga que brincava aos pés do enorme pedregulho. Sabia já também o que eram segadores: ele ouvia claramente o tinir das foices e o ruído das espigas a cair.

Logo que a cantiga evocava o que se desenrolava no fundo da colina, a mesma imaginação vigorosa do ouvinte cego afastava-o do alto, para o descer prontamente ao vale.

O tilintar das foices cala-se, mas a criança sabe que os segadores estão sempre lá, na colina, que permanecem onde estavam ainda havia pouco e que se ele os não ouve é porque estão lá em cima, muito alto, tão alto como os pinheiros, cujo murmúrio precipitado ele ouvia quando estava de pé, em baixo, junto ao rochedo. Lá, para além do ribeiro, retine o matraquear igual e serrado dos cascos dos cavalos. Um rumor impreciso ecoa lá em baixo, nas trevas, de roda da colina. São «os cossacos que vão, vão...».

Ele sabe também o que é um cossaco. O velho Fedko, que vem, de tempos a tempos, de visita ao domínio, é conhecido por toda a gente como o «velho cossaco». É mesmo assim que lhe chamam. Ele toma muitas vezes — oh! muitas vezes! Pedro nos joelhos, acaricia-lhe os cabelos com a mão trémula. Um dia o rapaz, segundo o hábito, pôs-se a tactear-lhe o rosto e, com os dedos sensíveis, descobriu rugas profundas, longos bigodes caídos e lágrimas senis deslizando pelas faces.

É assim que, escutando a canção arrastada, a criança figura os cossacos lá em baixo, ao pé da colina. Estão a cavalo; têm também grandes bigodes e são também curvados, também velhos como Fedko. Avançam, como sombras vagas na noite; e, à maneira de Fedko, choram, não se sabe porquê; e é talvez por isso que, ao cimo da colina, assim como sobre todo o vale, flutuam gemidos tristes, aqueles gemidos magoados da canção de Jokhime...

Basta um olhar ao tio Máximo para notar que, apesar da sua cegueira, na natureza sensível do pequenito são bem capazes de ecoar as imagens poéticas da canção.


CAPÍTULO III

Graças ao regime estabelecido pelo plano do tio Máximo, o ceguinho era, tanto quanto possível, confiado aos seus próprios esforços, o que não tinha tardado a produzir os mais felizes resultados. Em casa não tinha impressão nenhuma de ser vigiado; passeava por toda a parte com passo seguro, arrumava ele mesmo o seu quarto e guardava as suas coisas.

De resto, o tio Máximo ocupava-se dos exercícios físicos da criança, que dispunha dum grande sortido de aparelhos de ginástica. Quando Pedro fez 6 anos, o tio Máximo presenteou-o com um cavalinho muito manso. Ao princípio, a mãe não concebia o seu filho cego montado a cavalo e considerava uma rematada loucura a ideia fantástica do irmão. Mas o inválido pôs em jogo toda a sua influência, e, ao fim de dois ou três meses, Pedro galopava alegremente ao lado de Jokhime, que só o orientava nas voltas.

A cegueira não lhe impedia de forma nenhuma um desenvolvimento físico normal; e, assim, a sua repercussão no moral era consideravelmente enfraquecida. Para a sua idade, Pedro estava crescido e bem proporcionado; o seu rosto era um pouco pálido, os traços finos e fortemente expressivos. Os cabelos, negros, sublinhavam ainda mais a palidez da sua pele, e os olhos, grandes, pretos, pouco móveis, comunicavam-lhe ao rosto uma expressão singular, que chamava imediatamente a atenção. Um pequeno vinco por cima das sobrancelhas, o hábito de avançar ligeiramente a cabeça, sombras de tristeza deslizando de vez em quando, como nuvens, na sua face bela, era tudo o que exteriormente denunciava a cegueira. Se bem que manifestasse uma grande segurança nos sítios familiares, via-se nitidamente que a sua vivacidade natural se encontrava oprimida; o que se revelava, de tempos a tempos, por bruscos movimentos nervosos.

Presentemente, as impressões auditivas desempenhavam um papel preponderante na vida do cego e as formas sonoras tornaram-se as formas principais do seu pensamento, o centro do seu trabalho intelectual. Retinha duma maneira espantosa as cantigas que lhe cantavam, entregava-se de corpo e alma aos assuntos que o apaixonavam e, segundo o seu carácter, pintava-os de tristeza, de alegria ou de sonho. Prestava atenção crescente a todas as vozes da natureza, que lhe chegavam aos ouvidos, e, misturando impressões vagas, vindas de toda a parte. Com assuntos conhecidos e familiares, acontecia, por momentos, amalgamá-los numa espécie de improviso livre, em que era dificílimo determinar onde acabava o motivo popular conhecido e onde começava a criação individual. Ele próprio não conseguia, a maior parte das vezes, isolar nas suas canções estes dois elementos. (Para que se veja a que ponto eles estavam ligados no seu foro íntimo.) Aprendia rapidamente o que a mãe lhe ensinava. Ela dava-lhe lições de piano; mas ele continuava a gostar como dantes da flauta de Jokhime. O piano era, evidentemente, mais rico, mais sonoro e mais cheio; mas estava preso na sala, enquanto a flauta podia levar-se para o campo, onde os seus gorjeios se confundiam tão completamente com o suave murmúrio da estepe que muitas vezes sucedia o pequeno Pedro não dar conta se era o vento que lhe inspirava de longe ideias vagas e etéreas ou se era ele que as fazia sair da sua flauta.

Esta paixão pela música tornou-se o eixo do seu desenvolvimento intelectual: completava-lhe e amenizava-lhe a existência. O tio Máximo aproveitava-a para lhe ensinar a história do país, que perpassava, diante da imaginação do cego, toda urdida de sons. Interessando-se por uma canção, travava conhecimento com os seus heróis, com o seu destino, com o destino da pátria. Daí nasceu o interesse que ele tomou pela literatura. O tio Máximo começou as primeiras lições quando Pedro completou 9 anos. Os processos inteligentes do inválido, que se dedicara a aprender especialmente os métodos próprios ao ensino dos cegos, agradaram imenso ao rapazinho. Introduziram um novo elemento na sua vida, uma nota definida e clara, que equilibrava as impressões vagas da música.

Assim, o dia de Pedro estava completamente preenchido, e ele não podia queixar-se da pobreza de impressões. Parecia que, considerando a sua idade, gozava duma vida plena. Parecia igualmente que não dava pela sua cegueira.

Todavia, uma tristeza funda, nada infantil, marcava-lhe o carácter. O tio Máximo explicava-a pela falta de camaradas e de todo o coração procurou preencher esta lacuna.

Os rapazes da aldeia, quando eram convidados para a casa dos patrões, sentiam-se constrangidos e não davam toda a medida da sua alegria natural.

Ainda além do quadro a que não estavam habituados, a cegueira de Pedro embaraçava-os. Olhavam-no timidamente e, juntando-se em grupo, calavam-se ou cochichavam entre si, desconcertados. Quando os deixavam brincar sós, no jardim ou nos campos, tornavam-se mais livres e mais atrevidos; mas verificava-se, ao mesmo tempo, que o pobre cego ficava sempre de lado e com um ar triste, a escutar o recreio animado dos companheiros.

Por vezes, Jokhime rodeava-se de garotos e contava-lhes fábulas e contos divertidíssimos. Os aldeõezinhos, que viviam em intimidade com o estúpido Diabo ucraniano e com as bruxas malignas, completavam as narrações com reservas próprias bem fornecidas; e em geral as palestras eram muito animadas. O cego seguia as narrativas atentamente, manifestava por elas um interesse considerável, mas raramente se ria. Podia-se concluir que a graça da conversa animada lhe ficava inacessível, na sua maior parte; e não havia nisso nada de espantar: era-lhe impossível observar o brilho folgazão que perpassava nos olhos do narrador, as rugas risonhas, o tremer dos compridos bigodes caídos.

Tempos depois mudaram de caseiro numa propriedade vizinha. Para o lugar do antigo rendeiro, homem excessivamente irrequieto e difícil, que estava mesmo decidido a intentar uma acção contra o pacífico pai de Pedro, veio o velho Sr. laskoulsky com sua mulher. Se bem que os dois esposos não tivessem, juntos, menos de 100 anos, estavam casados havia relativamente pouco tempo. O Sr. laskoulsky tinha conseguido juntar, com muita dificuldade, dinheiro suficiente para tomar de arrendamento uma herdade e tinha sido obrigado a trabalhar como administrador em casa de pessoas mais ricas do que ele. Quanto à futura Mme laskouslky, tinha sido forçada também a trabalhar — enquanto esperava o feliz momento — na qualidade de dama de companhia da condessa Potoczka.

E quando, enfim, chegou o dia do casamento e os recém-casados entraram de braço dado na igreja, uma boa metade do bigode e do cabelo do noivo estavam grisalhos e a face pudicamente corada da noiva estava enquadrada em bandós prateados. Mas isso não constituiu, de forma nenhuma, obstáculo à felicidade do casal; e o fruto deste amor um pouco serôdio foi uma filha, que era quase da mesma idade do rapazinho cego. Instalando-se numa idade relativamente avançada no seu próprio lar, e onde — se bem que provisoriamente — se podiam considerar em sua casa, a família laskoulsky principiou a viver uma vida tranquila e modesta, como se desejasse compensar, pela calma e pelo isolamento, os anos laboriosos e cheios de aborrecimentos passados sob tectos estranhos.

Não tendo sido muito vantajoso o seu primeiro arrendamento, foram forçados a reduzir um pouco as despesas. Mas logo que chegaram ao novo domicílio instalaram-se imediatamente segundo os seus gostos e hábitos. No canto do quarto, ocupado por numerosas imagens, engrinaldadas de hera, guardava Mme laskoulsky sacos cheios de ervas e raízes, com as quais tratava o marido e os camponeses e camponesas que a vinham consultar. Essas ervas, as mais variadas, enchiam o ar dum perfume particular, que penetrava as recordações encantadoras, trazidas por todos os visitantes daquela casinha asseada, do seu silêncio, da sua ordem impecável e dos dois velhos, que ali levavam uma existência calma, pacata e extraordinária para os tempos que corriam.

Rodeado pelos dois velhos, crescia o seu único tesouro, uma menina de compridas tranças louras e olhos azuis, que impressionava as visitas pelo ar sério e enérgico que se desprendia de todo o seu ser. Dir-se-ia que a natureza tranquila do amor tardio dos pais se reflectia no carácter da filha, na sua gravidade de pessoa crescida, na calma uniforme dos seus movimentos e no ar sonhador e profundo dos seus olhos azuis. Nunca estava acanhada diante de estranhos, buscava a companhia de crianças da sua idade e tomava parte espontânea nas suas brincadeiras. Mas entregava-se a isso com um ar indulgente, como se pessoalmente não experimentasse a menor necessidade de o fazer. Com efeito, contentava-se absolutamente com a sua própria sociedade, passeava, colhia flores, conversava com a boneca e mostrava a maior parte do tempo tanta seriedade e circunspecção que parecia encontrarmo-nos em presença de uma mulherzinha, não de uma criança.

Pedro estava um dia, sozinho, sentado numa colina sobranceira ao ribeiro. Punha-se o Sol. Um silêncio absoluto reinava no ar, e somente de tempos a tempos — abafados pela distância os mugidos do rebanho, que regressava à aldeia, perturbavam a calma deliciosa da paisagem. O rapaz acabava de tocar e, deitado na erva, entregava-se indolentemente ao encanto embriagador daquela tarde de Verão. Ainda havia pouco que ali estava quando passos ligeiros o arrancaram àquela sonolência. Descontente, ergueu-se, apoiou-se no cotovelo e prestou atenção. Os passos pararam junto da colina.

Aquele andar era-lhe completamente desconhecido.

— Eh!, rapaz — exclamou de repente uma voz infantil —, não sabes quem estava aqui a tocar, há pouco?

O cego não gostava que o incomodassem no seu isolamento. Foi por isso que respondeu, aborrecido:

— Era eu.

Uma exclamação breve, cheia de espanto, foi a resposta a esta declaração; e, pouco depois, a voz duma rapariguinha ajuntou, num tom de aprovação simples:

— Que bem que tocava! Pedro não replicou ao elogio.

— Mas porque se não vai embora? — perguntou ele, percebendo que a intrusa permanecia no mesmo sítio.

— Porque me mandas embora? — inquiriu, admirada, a menina, com voz clara e ingénua.

O som daquela voz doce, de criança, cativou o cego; no entanto, respondeu no mesmo tom:

— Não gosto que me venham ver. A pequenita riu-se.

— Essa agora! Tem graça! Julgas que toda a terra é tua e que podes proibir toda a gente de passear por ela?

— A minha mamã deu ordem para que ninguém aqui viesse.

— A tua mamã deu essa ordem? — perguntou novamente a rapariguinha, com um ar pensativo.

— Mas a minha deu-me licença para passear ao longo da ribeira.

O pequeno, bastante mimado pela indulgência geral, não estava habituado a estas réplicas.

Uma crise de cólera transtornou-lhe o rosto. Levantou-se e pôs-se a falar precipitadamente, num tom excitado:

— Vá-se embora! Vá-se embora! Vá-se embora!

Seria difícil prever o desenlace desta cena bastante violenta. Felizmente, nesse momento patético a voz de Jokhime ressoou, na casa dos senhores, a chamar o pequeno para tomar chá. Pedro deixou rapidamente a colina.

— Ah!, que rapaz tão ruim! — ouviu ele dizer por trás de si, numa exclamação cheia de indignação sincera.

No dia seguinte, sentado no mesmo lugar, o cego lembrava-se do encontro da véspera. Nesta recordação não havia já nenhum traço de despeito. Pelo contrário, teria gostado que ela voltasse, aquela menina de voz tão calma e agradável. Nunca tinha ouvido outra semelhante. As crianças que conhecia gritavam desabaladamente, riam às gargalhadas, espancavam-se, choravam, mas nem uma só falava com tanta simpatia. Lamentava-se de ter ofendido a desconhecida, que certamente não voltaria mais.

Na realidade, passaram alguns dias e a rapariguinha não vinha. Mas, um dia, Pedro pressentiu os seus passos em baixo, na margem do regato. Caminhava de mansinho; as pedras pequenas do caminho sussurravam levemente sob os seus pés, e ela cantarolava uma cançoneta polaca.

— Ouça! — disse o rapazinho quando ela passou na sua frente. — É você?

A pequena não respondeu.

As pedrinhas faziam ruído sempre sob os seus pés. Na negligência artificial da sua voz, trauteando a melodia, o rapazinho sentia, ainda viva, a ofensa que lhe tinha causado dias antes.

Todavia, depois de ter dado alguns passos, a desconhecida parou. Dois ou três minutos decorreram silenciosamente. Ela brincava com um raminho de flores campestres que tinha na mão, enquanto Pedro esperava a resposta. Surpreendeu ele uma variante de desdém premeditado nesta paragem e no silêncio que se seguiu.

— Então não vê que sou eu? — interrogou ela por fim, com muita dignidade, cessando de brincar com o ramo.

Esta pergunta, tão simples na verdade, acordou um eco doloroso na alma do cego. Não disse uma palavra; somente as suas mãos, firmando-se no chão, se agarraram convulsivamente à erva. Mas, duma maneira ou doutra, a conversa começou, e a pequena, mantendo-se ainda no mesmo lugar e pondo-se outra vez a brincar com o ramo, perguntou:

— Quem te ensinou a tocar tão bem flauta?

— Foi Jokhime.

— Muito bem. E porque te zangaste tanto?

— Não me zanguei consigo.

— Ah! Então, bem. Nesse caso, também não estou arreliada. Queres brincar comigo?

— Não saberia brincar consigo — respondeu Pedro, baixando a cabeça.

— Não sabes brincar? Ora essa! Porquê?

— É assim...

— Mas não... mas não... Dize-me porquê.

— É assim! — retorquiu ele com voz mal perceptível e baixando cada vez mais a cabeça.

Nunca lhe tinha acontecido ainda falar da sua cegueira a alguém; e o tom simples da pequena, insistindo ingenuamente na pergunta, torturava-lhe o coração.

A desconhecida subiu a colina.

— Mas que engraçado tu és!— pôs-se ela a dizer, com a voz cheia dum sentimento indulgente, e sentando-se ao lado de Pedro. — É que ainda não me conheces. Quando me conheceres, deixarás de ter receio de mim. Eu não tenho medo de ninguém... nunca.

Conversava com um à-vontade tranquilo, sem a menor preocupação, e o rapaz percebeu que ela lançava para o avental um punhado de flores.

— Onde colheu essas flores? — perguntou ele.

— Ali! — disse ela, apontando com a cabeça na direcção de qualquer sítio atrás de si.

— No prado?

— Não, ali, ali!

— Então, no bosquezinho? Mas que flores são essas?

— Não as conheces? Ouve, tu és um rapaz bem esquisito... Palavra! Muito esquisito...

O pequeno pegou numa flor. Os seus dedos passaram rapidamente pelas folhas e pela corola.

— É acónito — disse ele. — E isto é uma violeta.

Em seguida quis travar conhecimento da mesma maneira com a sua interlocutora: agarrou com a mão esquerda o ombro da menina, enquanto a direita lhe deslizava pelos cabelos e pelas sobrancelhas. Pôs-se depois a percorrer-lhe o rosto com os dedos, e parava, às vezes, a estudar atentamente os traços desconhecidos.

Mas tudo isto foi feito tão depressa e inesperadamente que a rapariguinha, ferida pela surpresa, nem teve tempo de pronunciar uma única palavra. Encarava-o apenas com os seus olhos desmesuradamente abertos, nos quais se reflectia uma estupefacção que quase tocava o terror. De súbito percebeu qualquer coisa extraordinária no rosto daquele rapaz. As suas feições finas e pálidas estavam presas numa expressão tensa, que se não harmonizava com o olhar imóvel. Os seus olhos fixavam qualquer ponto, sem tomar o menor interesse pelo que ele fazia, e o reflexo do poente nas suas pupilas era qualquer coisa de estranho.

Desembaraçando o ombro da mão do pequeno, ela deu então um salto brusco e começou a chorar.

— Para que me fazes medo, grande mau? bradou com voz irritada através das lágrimas.

— Que foi que eu te fiz?. Porquê?

Ele conservava-se no mesmo sítio, consternado, de cabeça baixa; e um sentimento esquisito, misto de respeito e de humilhação, enchia todo o seu ser duma dor que o queimava. Pela primeira vez na sua vida ele experimentava a humilhação de ser um enfermo. Pela primeira vez compreendeu que a sua enfermidade era capaz de inspirar, não só compaixão, mas também terror. É certo que ele não podia perceber completamente a causa desse sentimento; mas, ainda que vaga e imprecisa, nem por isso esta sensação era menos dolorosa.

A consciência da sua dor aflitiva e do seu desespero apertou-lhe a garganta. Atirou-se para cima da erva e pôs-se a chorar. Os soluços aumentavam cada vez mais e convulsões penosas contraíam-lhe o corpo, tanto mais porque uma altivez inata o obrigava a dominar essa crise de nervos.

A pequena descia, a correr, a colina: mas, ao ouvir soluçar, voltou-se, impressionada. Notando que o seu amiguinho colara a cara contra a erva e chorava lágrimas ardentes, comoveu-se muito e, compadecida, tornou a subir vagarosamente e parou junto dele.

— Bem — disse ela baixinho —, porque choras? Julgas que me vou queixar de ti? Não chores! Eu não direi nada a ninguém.

As palavras meigas e o tom acariciante da pequena provocaram uma crise de soluços ainda mais forte. Então ela acocorou-se junto dele e, passado um minuto, tocou-lhe ao de leve nos cabelos, afagou-lhe a cabeça e, com a persistência terna de uma mãe acalmando o filho castigado, levantou a cabeça do cego e começou a limpar-lhe com o lenço os olhos cheios de lágrimas.

— Vamos... basta de chorar — disse ela num tom grave de mulher. Já há muito que não estou zangada... Bem vejo que estás arrependido de me teres feito medo... Então?

— Eu não quis fazer-lhe medo — respondeu ele com um suspiro profundo, desejoso de abafar, enfim, a sua crise.

— Bem, bem. Não estou zangada. Não tornas a fazer isso, pois não?

E ergueu-o do chão, esforçando-se por sentá-lo ao seu lado.

Ele submeteu-se. Estava agora na posição anterior, com a cabeça virada para o ocidente; e quando a pequenita encarou de novo o seu rosto iluminado pelos raios avermelhados do Sol ainda lhe pareceu mais estranho. Os olhos, sempre cheios de lágrimas, permaneciam imóveis. As feições continuavam nervosamente contraídas e um pesar profundo, esmagador, que nada tinha de infantil e que o penetrava todo, impressionou-a vivamente.

— És muito esquisito, apesar de tudo...— disse por sua vez, compadecida e distraída.

— Não... não... não sou esquisito, não — respondeu ele com um trejeito choroso. Digo-lhe que não sou esquisito... Eu... eu... sou cego.

-Cé...é...go! — gritou ela com voz vibrante e lenta, que tremia, como se aquela palavra triste, pronunciada tão docemente por Pedro, fosse um golpe irresistível para o seu coraçãozinho de mulher. — Cé...é...go! — repetiu ela. E a sua voz tremia ainda mais, como se procurasse defender-se do sentimento de piedade que crescia em si; e abraçando de repente o pescoço do rapaz, encostou a sua cara à dele.

Impressionada por aquela inesperada e terrível descoberta, não conseguiu forças para ficar calma; e, transformada bruscamente numa criança entristecida e abandonada na sua desventura, começou, por sua vez, a chorar lágrimas ardentes...

Decorreram alguns minutos de silêncio. A menina deixou de chorar e só suspirava profundamente ou soluçava de tempos a tempos. Com os olhos húmidos, contemplava o Sol, que lhe dava a impressão de rolar na atmosfera incandescente do poente e de se enterrar com saudade na barra escura do horizonte. Uma vez ainda, brilhou a tira dourada do círculo de fogo, depois brotaram duas ou três centelhas ardentes, e, subitamente, os contornos sombrios da floresta distante destacaram-se numa linha azul e contínua. Uma vibração fresca subia do ribeiro; e a paz branda da tarde que caía reflectia-se no rosto do cego, que estava sentado, de cabeça vergada, e parecia espantado deste testemunho de compaixão calorosa.

— Que pena... — disse por fim a pequenita, continuando a soluçar.

Dir-se-ia que queria assim explicar a sua fraqueza.

Em seguida refreou-se um pouco e tentou mudar de conversa, encontrar um assunto neutro, que pudessem tratar com indiferença.

— O solzinho foi-se embora — murmurou ela com ar pensativo.

— Não sei como ele é! —respondeu ele cheio de tristeza — Sinto-o somente.

— Não conheces o solzinho?

— Não...

— E a tua mãe... também a não conheces?

— Sim, conheço a mamã. Conheço os seus passos sempre, mesmo de longe.

— Sim, sim, é certo. Eu reconheço a minha de olhos fechados.

A conversa tornou-se mais calma...

— Sabe — e o cego começou a falar com certa animação —, sabe que sinto o sol e sei muito bem quando ele se esconde?

— Como sabes isso?

— Porque... tu compreendes... Eu mesmo, não sei porquê, nem como...

— Ah!... — disse a menina, muito satisfeita, evidentemente, com esta resposta; e ambos se calaram.

— Sei ler — disse primeiro Pedro — e, dentro em pouco, vou aprender a escrever com uma pena.

— Mas como é que...? — começou ela, e calou-se logo, confusa, não desejando continuar este interrogatório delicado. Mas ele compreendeu bem.

— Leio no meu livro — explicou —, com a ajuda dos dedos.

— Com a ajuda dos dedos? Calcula! Eu, por exemplo, nunca saberia ler com os dedos. Mesmo com os olhos, leio mal. Meu pai diz que as mulheres só muito pouco compreendem as ciências.

— Sei ler mesmo francês... sim...

— Mesmo francês! E sempre com os dedos? Então tu és muito inteligente! — exclamou ela num tom de admiração sincera. — Mas ouve, eu tenho medo de que arrefeças. Olá!, que nevoeiro por cima da ribeira!

— E tu?

— Eu? Não tenho receio por mim. Que me poderia acontecer?

— Pois bem!... Também eu não tenho medo. É possível que um homem se resfrie mais facilmente do que uma mulher? O tio Máximo diz que um homem não deve temer nada, nem frio, nem fome, nem trovoada, nem escuridão, nem nada!

— Máximo? É aquele homem que anda de muletas? Já o vi. É medonho!

— Não é, não! Não é medonho. Pelo contrário, é muito bom.

— Não, é medonho — insistiu, convencida, a pequenita. — Não sabes porque não vês.

— Mas como é que eu não havia de o conhecer? É ele que me ensina tudo!

— Bate-te?

— Ele? Nunca me bateu, nem grita nunca comigo. Nunca...

— Está bem. Seria possível bater num rapaz cego? Era um grande pecado.

— Mas é que ele não bate em ninguém disse Pedro um pouco distraído, porque o seu ouvido apurado acabava de perceber os passos de Jokhime.

Com efeito, o robusto arcabouço do ucraniano desenhou-se, ao fim dum instante, na pequena cadeia de colmas que separavam a herdade do riacho, e a sua voz desdobrou-se no silêncio do entardecer:

— Eh... h... h... Pedro... o... o...

— Estão a chamar-te — disse a rapariguinha, levantando-se.

— É verdade... mas não me queria ir daqui embora.

— Vai... Amanhã virei ver-te. Estão à tua espera, e de mim também, com certeza.

A pequenita cumpriu a palavra, e talvez mais cedo do que Pedro esperava.

Na manhã seguinte, quando, como de costume, ele fazia no quarto os seus exercícios em presença do tio Máximo, levantou de repente a cabeça, escutou um momento e disse, alegre:

— Deixe-me ir lá fora um minuto apenas. A menina veio, está lá.

— A menina? Qual menina? — disse, admirado, o tio Máximo, que seguiu o pequeno até à porta da saída.

Na verdade, a pequena com quem Pedro na véspera tinha travado conhecimento vinha a entrar pelo portão do pátio. Logo que viu Ana Mikhailowna, dirigiu-se para ela com ar decidido.

— Que queres, minha querida? — perguntou a mãe de Pedro, julgando que ela tivesse vindo fazer um recado.

Muito séria, a mulherzinha estendeu-lhe a mão e perguntou, por seu turno:

— É aqui que mora um rapaz cego? É aqui?

— Sim, pequenina, é aqui — respondeu a senhora, admirando os olhos claros e o ar desembaraçado da visita.

— É que, minha senhora... a minha mãe deu-me licença para o vir visitar. Posso vê-lo?

Justamente neste momento, Pedro correu para ela, enquanto o tio Máximo aparecia na escadaria.

— É a menina de que te falei — disse o rapaz ao saudar a nova amiga. — Mas eu estava a fazer os meus exercícios neste momento...

— Por esta vez, o tio Máximo dá-te licença. Eu peço-lhe.

Entretanto, a pequena, que estava ali como na sua casa, dirigiu-se ao tio Máximo, que, a coxear nas muletas, vinha ao seu encontro.

Ela estendeu-lhe a mão e disse, num tom de aprovação indulgente:

— É muito bonito da sua parte não "bater num rapaz cego. Ele disse-mo.

— É possível, querida senhora! — exclamou, com importância cómica, o tio Máximo; e recebeu na larga manápula a mãozinha da menina. Estou infinitamente reconhecido ao meu aluno por dispor bem a meu favor uma pessoa assim tão encantadora, minha querida menina.

E riu-se, acariciando a pequenina mão feminina que ele retinha na sua. Entretanto, a rapariga continuava a encará-lo com o seu olhar franco, o que a levou a vencer dum golpe o coração misógino do velho inválido.

— Repara! — disse ele, dirigindo-se à irmã; e um sorriso estranho esboçou-se-lhe no rosto.

— O nosso rapaz começa a criar relações próprias. E deves reconhecer, Aninhas, que, apesar de cego, fez uma escolha que não é má de todo, não achas?

— Que queres dizer com isso? — perguntou, severa, a senhora, corando um pouco.

— São tolices, e mais nada! — respondeu o irmão, percebendo que acabava de tocar num ponto sensível e de descobrir o pensamento secreto que se agitava no coração previdente da mãe.

Ana Mikhailowna corou ainda mais e, inclinando-se vivamente, beijou a pequenita com um transporte de ternura apaixonada. A criança aceitou esta meiguice tão violenta como inesperada, conservando sempre a mesma expressão franca, se bem que um pouco admirada.

A partir deste dia estabeleceram-se as mais estreitas relações entre a casa do rendeiro e o castelo Popelsky. A rapariguinha, que se chamava Evelina, vinha todos os dias e, passado tempo, tornou-se aluna do tio Máximo.

Ao princípio esse plano de «escola mista» não agradou muito ao Sr. laskoulsky. Primeiro, achava suficiente para uma mulher saber dar a roupa ao rol e ter em ordem o caderno das despesas. Segundo, como católico fervoroso, estava absolutamente convencido de que o tio Máximo tinha procedido muito mal guerreando os Austríacos, contra a vontade bem expressa do papa. Enfim, a sua mais firme convicção era de que o bom Deus existia e que, sem dúvida, havia de punir lá em cima o tio Máximo.

No entanto, depois de se ter aproximado um pouco deste, foi levado a reconhecer que esse homem herético e conflituoso era uma pessoa muito agradável e um espírito dos mais nobres, o que acalmou um pouco a sua animosidade contra ele.

Contudo, havia ainda uma certa inquietação no fundo da alma do velho nobre polaco; e foi por isso que, levando a filhinha para a primeira lição, achou bem dirigir-lhe uma alocução solene e um pouco empolada, que, aliás, visava mais o honrado professor do que Evelina.

— Ouve, minha filha, ouve o que te vou dizer — começou ele, agarrando a pequenita pelo ombro e olhando o seu futuro professor. — Não te esqueças nunca de que temos o nosso Deus no Céu e que o Santo Padre, o papa, que habita em Roma, é o seu representante na Terra. Sou eu, Valentim laskoulsky, que to digo; e tu deves acreditar-me, porque sou teu pai. Et primo.

Aqui lançou outro olhar bem expressivo na direcção do tio Máximo, que não se mexia.

Ele sublinhava o seu latim, desejoso, evidentemente, de fazer compreender que não lhe eram estranhas as altas ciências e que, chegada a ocasião, seria bem difícil enganá-lo.

— Secundo, sou um pobre polaco, cujas armas, além de uma mó e de uma pega, ostentam uma cruz sobre um fundo azul; o que quer dizer muito. Os laskoulsky, cavaleiros respeitados, trocaram, por mais de uma vez, as espadas pelos missais e interpretaram sempre, e não muito mal, os negócios do Céu. Eis uma outra razão, portanto, para ter toda a confiança em mim. Pois bem! Quanto ao resto, quer dizer, quanto à orbis terrarum, obedece a tudo o que te disser o Sr. Máximo latzenko e aprende bem a ciência.

— Não tenha medo, Sr. Valentim — respondeu sorridente o tio Máximo a esta introdução de boa fé. — Não recruto meninas para o exército de Garibaldi. Nada receie.

O ensino em comum aproveitava muito às duas crianças. Pedro ocupava sempre o primeiro lugar, mas isso não excluía uma certa concorrência. Além disso, o rapaz ajudava por vezes a sua camaradinha a fazer os exercícios, enquanto ela, por sua vez, encontrava muitas vezes maneiras felizes de lhe explicar o que, para ele, era quase incompreensível; sem falar em que a presença de Evelina comunicava aos seus estudos qualquer coisa de singular e dava ao seu trabalho intelectual uma agradável excitação.

Em suma, esta amizade era um verdadeiro dom do destino benfazejo. Agora o rapaz não procurava o isolamento; tinha encontrado uma concordância que não podia alcançar na amizade das pessoas crescidas; e mesmo nos momentos da mais completa serenidade moral gostava do seu convívio. Iam sempre juntos para a pequena colina ou para o ribeiro.

Quando ele tocava, ela escutava, a transbordar de admiração ingénua. Quando ele punha a flauta de lado, ela transmitia-lhe as suas impressões de criança, extremamente vivas, acerca da natureza que os rodeava.

É certo que ela não sabia traduzir essas impressões plenamente, visto não dispor para isso do vocabulário necessário; mas, em compensação, Pedro apreendia nas suas descrições espontâneas, e, sobretudo, no seu tom, o colorido individual do fenómeno que ela lhe pintava.

Assim, por exemplo, quando ela lhe falava do crepúsculo, cobrindo a Terra, com uma noite negra e húmida, ele parecia compreender as trevas a subir, no acento da sua voz que perdia pouco a pouco a força. E quando, por outro lado, ela lhe dizia: «Ai que cerração aí vem, que nevoeiro tão escuro!», ele sentia, de repente, uma espécie de sopro frio e percebia na sua voz como que um ruído medonho dum monstro, a rastejar, nas esferas distantes do Céu.


CAPÍTULO IV

Há seres que se diria predestinados para as doces vitórias dum amor, ligado estreitamente aos desgostos e inquietações contínuas; seres para quem as angústias nascidas das penas dos que vivem perto de si constituem a sua atmosfera própria, a sua necessidade orgânica. A natureza dotou-os antecipadamente de calma, sem a qual a vitória quotidiana é impossível. Previamente, tornou-os sensatos; e com o cálculo dos seus entusiasmos pessoais, das ambições da sua vida individual, submete-os ao traço predominante do seu carácter. Por vezes, estes seres dão a impressão de serem demasiadamente razoáveis, destituídos de sentimento.

Tornam-se surdos aos afectos apaixonados da vida pecadora e seguem pelo austero caminho do dever, com o mesmo ar calmo que manifestariam na senda da mais venturosa felicidade pessoal. Parecem frios e majestosos, como os cumes nevados das montanhas.

A trivialidade mundana anda de rastos aos pés; os mexericos e as intrigas caíam-lhes dos vestidos brancos de neve, tal como os salpicos de lama suja das asas dum cisne...

A companheira de Pedro apresentava justamente todas as características deste tipo que a vida e a instrução nos dão muitíssimo raramente. Como o talento, como o génio, é um apanágio de seres preferidos entre os eleitos, e revela-se muito cedo.

A mãe da criança cega notava perfeitamente a felicidade com que o destino presenteara o filho. O tio Máximo compreendia-o também e pensava que o seu aluno dispunha agora de tudo aquilo que até à data lhe tinha faltado e que para o futuro o desenvolvimento espiritual de Pedro avançaria num passo suave e igual, que nada poderia deter.

Foi um erro fatal...

Dada a tenra idade de Pedro, o tio Máximo pensava que era ele sozinho a dirigir o desenvolvimento moral do pequeno e que, mesmo que este desenvolvimento não se produzisse sob a sua influência pessoal directa, não era menos certo que toda a transformação, toda a conquista neste domínio, não se podiam dar sem a sua intervenção.

E foi só neste momento da vida da criança, transitório entre a infância e a adolescência, que o velho garibaldino verificou toda a instabilidade das suas respeitáveis fantasias pedagógicas.

Quase cada semana trazia qualquer coisa de novo, por vezes absolutamente inesperada num cego; e quando o tio Máximo se esforçava por encontrar as origens de tal ou tal nova ideia ou concepção, manifestada subitamente pela criança, só encontrava confusão.

Uma força desconhecida, incompreensível, se manifestava livremente no mais íntimo da alma infantil e fazia brotar as expressões inesperadas dum desenvolvimento espiritual absolutamente independente.

E com um sentimento de veneração a apossar-se dele, o tio Máximo só tinha de se inclinar diante dos processos misteriosos da natureza, que interferia assim com o seu trabalho pedagógico. Estas impressões espontâneas, estas descobertas inesperadas, pareciam proporcionar ao pequeno conhecimentos que a experiência pessoal não teria podido dar-lhe: e Máximo pressentia nisto o laço indissolúvel dos métodos vitais, que, dispersando-se em milhares de etapas, abraçam, um após outro, os períodos sucessivos de vidas humanas separadas.

Ao princípio, a comprovação deste facto desconcertou o tio Máximo. Notando que não era sozinho a governar o espírito da criança e que esse espírito era influenciado por qualquer coisa independente dele, inquietou-se pela sorte do seu pupilo, consciente de que um grande número de questões, dada a cegueira de Pedro, lhe podiam causar sofrimentos constantes, que nada conseguiria acalmar. E esforçava-se por encontrar a origem dessas fontes, que mandavam, sabia Deus donde, a fim de as calafetar para sempre, a bem do rapaz. A mãe também reparara nestes fenómenos inesperados. Uma manhã, Pedro correu para ela muito agitado.

— Mamã, mamã —gritou —, vi um sonho!

— E então que viste tu, meu querido? — perguntou ela com voz trémula e cheia de tristes conjecturas.

— Vi no meu sonho que te tinha visto... a ti e ao tio Máximo e também... que tinha visto tudo, tudo... todos... Como era lindo, mamã querida!... Como era lindo!...

— E então que viste mais? Dize, meu menino.

— Não me lembro.

— Mas lembras-te de mim?

— Não — respondeu o rapaz, pensativo —, não... Esqueci-me de tudo. E, todavia, eu vi. Palavra... eu vi — acrescentou depois de um curto silêncio. E, de repente, o rosto alterou-se-lhe e uma grande lágrima correu dos seus olhos mortos.

Repetiu-se isto muitas vezes; e sempre a seguir a semelhantes sonhos Pedro tornava-se mais triste a agitado.

Um dia, quando atravessava o pátio, o tio Máximo ouviu uns estranhos exercícios musicais que vinham do salão, onde geralmente Pedro recebia lição de música. Compunham-se de duas notas. Ao princípio, na saraivada de pancadas que feriam as teclas, rápidas, contínuas, quase fundidas umas nas outras, vibrava a nota mais alta do registo superior, que era substituída, bruscamente, pelo surdo rufar do registo inferior.

Curioso de conhecer estes estudos, o tio Máximo meteu-se a coxear através do jardim e, passado um minuto, entrou no salão.

Mas, lá, ficou pregado à soleira da porta, impressionado por um espectáculo absolutamente imprevisto.

O rapaz, que já tinha 10 anos, estava sentado numa cadeirinha ao pé da mãe. Ao lado, esticando o pescoço e agitando o bico comprido, estava uma cegonha novinha domesticada, com que Jokhime tinha presenteado recentemente o seu «pequeno senhor». Pedro dava de comer à ave todas as manhãs com as suas próprias mãos e a cegonha acompanhava para toda a parte o seu novo patrão e companheiro. Exprimindo uma atenção intensa, Pedro, com um braço, segurava a sua amiga, enquanto lhe passava carinhosamente a outra mão ao longo do corpo. Com o rosto ardente e sobreexcitado e os olhos mais tristes do que nunca, a mãe tocava rapidamente com o dedo numa tecla, extraindo do instrumento um som alto, que vibrava longamente no ar. E, curvando-se um pouco no banco, seguia ao mesmo tempo, com um interesse doentio, a expressão que se reflectia no rosto do filho.

No momento em que a mão de Pedro, ao acariciar as penas brancas e brilhantes da cegonha, tocava no sítio onde o branco de neve cedia o lugar, repentinamente, às penas negras da cauda, Ana Mikhaiilowna passava vivamente, sem transição, a mão para uma tecla diametralmente oposta, e uma nota baixa, espessa, rolava surdamente no aposento.

Os dois, tanto a mãe como o filho, estavam de tal maneira absorvidos que não deram pela entrada do tio Máximo; até que este, refazendo-se um pouco do espanto, interrompeu a sessão com a seguinte pergunta:

— Anica, que significa isto?

A senhora, furtando-se ao olhar perscrutador do irmão, envergonhou-se, como se tivesse sido apanhada em flagrante delito por um professor severo.

— É que... — começou, confusa — é que... compreendes, Pedro disse-me que percebia uma certa diferença nas cores das penas da cegonha, mas que não a alcançava completamente. Dou-te a minha palavra que foi ele o primeiro a falar nisso, e eu entendi que ele tinha razão.

— E então?

— E então... então, nada. Queria somente facilitar um pouco, explicar-lhe esta diferença de cores, por meio de sons. Não te zangues, Max. Palavra que me pareceu que era bom para todos.

Esta ideia original chocou a tal ponto o tio Máximo que no primeiro momento não soube que responder à irmã. Propôs-lhe que repetisse a experiência e, seguindo atentamente a expressão aplicada do cego, abanou a cabeça.

— Escuta, Ana — disse ele particularmente à irmã-, não deves provocar nele perguntas a que nunca, nunca, poderias dar respostas satisfatórias.

— Mas foi ele que fez a primeira pergunta interrompeu Ana Mikhailowna.

— Não quer dizer nada. O rapaz tem de se habituar à cegueira. Quanto a nós, devemos fazer-lhe esquecer tudo o que se relaciona com a vista. Pelo meu lado, trato de evitar toda a espécie de apelos exteriores, capazes de o excitarem e de lhe fazerem pôr questões inúteis, estéreis mesmo. Se nós chegarmos a desviar estes apelos, a criança não sentirá a lacuna dos seus sentidos. Por exemplo, nós, que possuímos os cinco sentidos, não sofremos absolutamente nada por não termos o sexto... Portanto...

— Não, Max, sofremos! — respondeu baixo a senhora.

— Ana!

— Sim, sim! — declarou num tom obstinado.

— Sofremos muitas vezes por não possuirmos coisas que se não podem alcançar.

De resto, segundo o seu hábito, a irmã aceitou as razões do irmão. Mas desta vez o tio Máximo não teve razão; quando forcejava por expulsar certos apelos exteriores esquecia completamente os impulsos vigorosos que a própria natureza introduz no temperamento infantil.

Alguém disse: «Os olhos são o espelho da alma!»

Talvez fosse mais justo compará-los às janelas, pelas quais as impressões dum universo luminoso, brilhante e multicolor, penetram na alma. Quem saberia descrever ou definir a parte do nosso moral que se relaciona directamente com as sensações estritamente visuais? Todo o homem é um anel na cadeia infinita das vidas que por ele passam, desde as profundezas do passado até às do futuro. E eis que um acidente fatal tinha querido fechar essas janelas dos elos a uma criança cega, cuja vida inteira devia ficar mergulhada numa escuridão completa. Mas resultava daí, por isso, que estavam partidas todas as fibras pelas quais a alma reage às impressões luminosas? Não, a sensibilidade interior à luz devia persistir e, apesar das trevas em que se debatia, esta existência era chamada a ser transmitida às gerações ulteriores. A criança cega possuía uma alma humana, completa e normal, rica de todas as suas particulares características; e como toda a particularidade traz em si mesma o desejo da mais plena realização, a alma sombria do pequenito era habitada por uma aspiração insaciável de claridade.

Sob a forma vaga de «possibilidades», forças hereditárias dormitavam, latentes, em qualquer parte, no mistério do seu foro íntimo, e estavam prontas a correr ao encontro do primeiro raio luminoso que lhe saltasse aos olhos. Mas as janelas continuavam fechadas, o destino da criança estava marcado.

Jamais ele veria esse raio claro! E toda a sua vida se passaria na noite!

Essa noite estava povoada de fantasmas. Se a existência do pequeno decorresse no meio de privações e dissabores, talvez que o seu espírito fosse atraído pelas causas exteriores dos seus desgostos.

Mas as pessoas que o rodeavam afastavam tudo aquilo que o pudesse entristecer. Asseguravam-lhe o sossego, uma paz ideal, e, então, aquele mesmo silêncio que no seu coração reinava permitia distinguir-se ainda mais claramente a sua irritação interior. Na tranquilidade e na noite que o invadiam erguia-se a consciência, inquieta e incessante, duma necessidade que procurava realizar-se; e atormentava-o um desejo doloroso, que exigia a acção das forças sonolentas que nele existiam em potencial, sem encontrar saída.

Daí o número de pressentimentos imprecisos e de impulsos parecidos com esses desejos de ascensão que todo o homem experimenta na infância e se manifesta nessa idade por fantasias maravilhosas.

Daí, enfim, esforços instintivos do pensamento infantil, que se reflectiam nas feições por uma expressão ansiosa e doentia. Estas «possibilidades» hereditárias, de que não podia tirar utilidade para a sua vida, das representações visuais surgiam fantasmagóricas na sua pobre cabecinha e aí circulavam, destituídas de forma, vagas e obscuras, fragmentárias, provocando-lhe sempre esforços penosos, sem resultados definidos.

A natureza revoltava-se contra o «caso individual» que violava a lei comum da vida.

Ora, se o tio Máximo tinha conseguido desviar todos os «apelos exteriores», não conseguira nunca refrear o brotar interno duma necessidade insatisfeita. O mais que podia fazer, graças à sua previdência, era não despertar prematuramente essa necessidade, não aumentar o sofrimento do cego. Para mais, o destino trágico da criança tinha de cumprir-se, com todas as consequências que o escoltavam.

O destino aproximava-se como uma nuvem sombria. A vivacidade natural da criança diminuía com a idade, à maneira duma vaga que decresce, cada vez mais, enquanto a disposição do seu espírito melancólico se desenvolvia, influenciando o temperamento. O riso que espontaneamente rebentava na sua meninice, a cada impressão nova, mais ou menos surpreendente, só se ouvia agora muito raras vezes. Tudo que era risonho, alegre e marcado ou sublinhado pela graça dificilmente o compreendia. Em redor de si, tudo que era vago, triste, sem causa precisa e melancólico, em meia tinta, finalmente, tudo aquilo que repercute no ar do Meio-Dia e se reflecte na canção popular, apreendia-o com uma perfeição admirável. Subiam-lhe sempre lágrimas aos olhos quando ouvia como «o túmulo nos campos falava ao vento» e gostava imenso de ir para a campina escutar esta canção pouco banal.

Manifestava-se nele cada vez mais uma inclinação para o isolamento; e quando, ao aproveitar as horas livres, ia passear sozinho, os seus parentes procuravam dar uma direcção diferente aos seus passos para não lhe perturbarem a solidão.

Sentado sobre um cabeço na estepe, ou numa colina à margem do rio, ou, enfim, no rochedo escarpado tão seu conhecido, ouvia o sussurro da folhagem, o murmúrio das ervas ou os suspiros longínquos do vento das estepes.

Tudo isto se harmonizava duma maneira singular com o fundo do seu carácter. Na medida em que lhe era possível compreender a natureza, era essa justamente que ele compreendia por completo, até ao mais íntimo. Ela não o atormentava com perguntas precisas e insolúveis ao mesmo tempo. O vento atravessava-o até ao coração e a erva parecia segredar-lhe palavras ternas de dó. E quando a sua alma de adolescente, ligando-se à doce harmonia que o rodeava, se enternecia com as carícias quentes da natureza, qualquer coisa lhe assaltava o peito e, ampliando-se, apossava-se progressivamente de todo o seu ser. Comprimia-se então contra a erva fresca e húmida e chorava docemente, mas sem que nas suas lágrimas houvesse qualquer azedume. Pegava às vezes na flauta e, esquecendo-se de tudo, improvisava melodias correspondentes à sua disposição de espírito e à placidez da estepe.

Qualquer rumor humano que passasse bruscamente nesta atmosfera delicada produzia em Pedro o efeito duma dissonância grosseira e anormal. Nesses momentos só podia comunicar com uma alma compreensiva, que fosse verdadeiramente querida; tinha uma: a rapariga loura da sua idade, que morava na herdade vizinha.

Esta amizade fortalecia-se dia a dia e era retribuída com o maior entusiasmo.

Se Evelina lhe insuflava a sua calma delicada, a sua alegria suave, e lhe fazia conhecer todas as cambiantes do ambiente, Pedro, por seu lado, dava-lhe... a sua dor. Julgar-se-ia que o primeiro encontro tinha dilacerado profundamente o coração extremamente sensível da rapariguinha. Retirar o punhal da ferida seria condenar Evelina a morrer da perda do seu sangue. Logo que o conheceu na pequena colina da estepe experimentou um sentimento agudo de compaixão, e, por fim, a presença de Pedro tornou-se-lhe uma necessidade que não podia dispensar. Tinha a impressão nítida de que, longe dele, a cicatriz abria, a dor aumentava; e corria então para o cego, para o seu camarada querido, a fim de apaziguar os próprios sofrimentos com uma comiseração permanente.

Numa noite de Outono estavam sentadas as duas famílias num banco em frente do castelo, admirando o céu constelado de estrelas, o azul denso e profundo e a claridade que resplandecia aqui e ali. Como de costume, o cego estava ao lado da sua amiguinha, perto da mãe.

Havia já um instante em que todos permaneciam silenciosos. Em torno reinava uma calma absoluta; e só as folhas, animando-se de tempos a tempos, murmuravam, em segredo, qualquer coisa de inarticulado e calavam-se em seguida.

De súbito, um meteoro resplandecente surgiu de qualquer parte do céu profundo, traçou um sulco brilhante no azul e deixou atrás de si um rasto fosforescente, que morria lentamente e quase imperceptivelmente à vista.

Todos levantaram os olhos. Ana Mikhaflovma, que tinha a mão de Pedro na sua, sentiu-o agitar-se e estremecer.

— Que foi? — exclamou ele, voltando para a mãe a face alterada.

— Foi uma estrela que caiu, meu querido.

— Ah, sim... uma estrela!... — repetiu, pensativo. — Eu sei.

— Mas, meu filho, como sabes tu? — perguntou a mãe, denunciando na voz uma dúvida cheia de tristeza. — Como?

— Sim, sim — disse Evelina, metendo-se na conversa. — É verdade o que ele diz. Conhece muitas coisas... como isso...

Esta sensibilidade, que se evidenciava mais rica todos os dias, demonstrava que Pedro se aproximava fatalmente daquela idade crítica que separa a adolescência da juventude. Não obstante, o seu crescimento produzia-se em condições bastante favoráveis. Tinha-se mesmo a impressão de que já se tinha habituado ao seu destino infeliz e que esse estado de alma, estranhamente equilibrado, em que a tristeza — o fundo normal da sua existência — se manifestava sem rodeios nem sobressaltos, também, sem arrebatamentos dolorosos, se adoçara um pouco. Mas era um período de apaziguamento temporário, e nada mais. Dir-se-ia que a natureza concede de propósito essas tréguas curtas para que um organismo novo se recolha e se reconforte, para afrontar uma outra borrasca que se aproxima já impetuosa. É justamente nos períodos de calma que nascem e surgem problemas novos. Um pequeno choque é suficiente para que todo o equilíbrio exterior se abale completamente, tal como o mar sob o golpe súbito de uma violenta rajada.


CAPÍTULO V

Passaram alguns anos.

Nada tinha mudado no castelo: as faias murmuravam como dantes no jardim, mas a sua folhagem tornara-se mais escura, mais densa. Como outrora, resplandecia a brancura acolhedora dos muros da casa, mas davam a impressão de estarem um pouco curvados e mais baixos. Os tectos de palha das dependências encarquilhavam-se cada vez mais; e a flauta de Jokhime ouvia-se às mesmas horas, mas com a diferença de que, agora, Jokhime, sempre solteirão e sempre cocheiro, preferia ouvir o patrão novo tocá-la ou tocar piano.

O tio Máximo estava ainda mais grisalho. Não tendo os Popelsky outro filho, mantinha-se o cego, como nos primeiros dias da sua existência, o centro em volta do qual se movia toda a vida do castelo. Este tinha-se encerrado num círculo muito estreito, contentando-se com a sua própria vida pacata, que tocava de perto a existência da herdade vizinha, também tranquila.

Desta forma, transformou-se Pedro pouco a pouco em adolescente; desenvolveu-se como uma flor de estufa, bem abrigada das diversas e bruscas influências da vida, que seguia a sua rota tumultuosa longe deste círculo.

Como antigamente, o cego permanecia no centro dum universo obscuro e formidável. Por cima e em volta de si, a noite estendia-se sem fim... Todo o seu ser fino e sensível em excesso retesava-se, como uma corda rígida, a cada impressão, e estava pronto a vibrar a todo o momento, tal como um eco responde infalivelmente ao som que o faz nascer. Esta expectativa subtil tinha uma grande repercussão no temperamento do cego. Muitas vezes ele tinha a impressão de que a noite ia estender para si mãos invisíveis e tocar qualquer coisa que dormitava dolorosamente na sua alma.

Mas a noite bem conhecida do castelo, essa noite doce e monótona, só lhe fazia ouvir o murmúrio acariciante do velho jardim e só lhe inspirava pensamentos vagos e calmos. Quanto ao universo, que se manifestava, estranho, ao longe, o cego somente o compreendia por intermédio dos livros e das canções. A surdina embaladora do jardim envelhecido, no decorrer contínuo dos dias sempre iguais e tranquilos do castelo, as narrações dos seus parentes, só lhe traziam um eco enfraquecido dos rumores e das tormentas da vida longínqua. E tudo isto se lhe apresentava através duma neblina mágica, como um conto de fadas, como um sonho...

Dir-se-ia que tudo se passava no melhor dos mundos... A mãe via que a alma do filho, encerrada desta maneira, dormitava num delírio enfeitiçado, mentiroso, mas tranquilo, e temia violar esta paz, adquirida pelo preço de tantos desgostos.

Evelina, que se tornara uma senhora quase sem se dar por tal, contemplava esta calma encantada, com os seus olhos claros, onde se lia, por momentos, uma espécie de incompreensão ou de incerteza relativamente ao futuro, mas que nunca eram ensombrados pela mais leve expressão de impaciência.

O pai Popelsky dirigia na perfeição a sua herdade, mas não se preocupava de forma nenhuma com qualquer coisa que dissesse respeito à carreira do filho. Gostava dele, mas já estava habituado a que as coisas se arranjassem por si. Só o tio Máximo, um temperamento completamente diferente, suportava com custo esta tranquilidade, que ele aceitava somente como um estado de coisas provisório, que fazia, volens nolens, parte dos seus planos. Achava bem, mesmo necessário, dar repouso a Pedro, torná-lo forte, para que pudesse prevenir-se contra os bruscos repelões da vida. Entretanto, para lá deste ambiente de magia, a vida agitava-se, ardente, em turbilhões.

Mas chegou, enfim, o dia em que o velho professor decidiu romper o círculo vicioso e abrir a porta da estufa, para deixar entrar uma corrente de ar fresco.

Para principiar, convidou um velho camarada que vivia à distância de setenta verstas do castelo dos Popelsky. O tio Máximo ia vê-lo uma vez por outra, mas sabia que agora muita gente nova estava de visita em casa de Stawroushmko e escreveu-lhe uma carta convidando-os todos.

Aceitaram com o maior prazer. Os velhos estavam desde há muito unidos por laços de amizade; quanto aos novos, lembravam-se ainda do nome, outrora célebre, de Máximo lastzenko, portador de certas tradições liberais. Um dos filhos de Stawroushmko era estudante da Universidade de Kieff, onde aprendia ciências fisiológicas, muito em moda naquela época.

O outro era aluno do Conservatório de Petersburgo. Levaram com eles um camarada mais novo, filho dum grande proprietário vizinho.

Stawroushmko era um velhote robusto, de cabelos grisalhos e longos bigodes cossacos, vestido com umas calças largas, igualmente cossacas. Trazia presos na cintura um cachimbo e uma bolsa de tabaco e só falava ucraniano. Rodeado pelos dois filhos, que vestiam uns curtos sobretudos brancos, sem mangas, e camisas bordadas ucranianas, parecia-se muito com Tarass Boulba, de Gogol.

Todavia, era absolutamente destituído dos traços românticos que caracterizam o célebre herói de Gogol. Ao contrário, era um proprietário técnico de primeira ordem que tinha sabido acomodar-se perfeitamente ao regime da escravidão e que, suprimida esta, soubera arranjar-se igualmente pelo melhor nas novas condições.

Conhecia o povo como todos os proprietários, isto é, conhecia todos os mujiques do seu domínio; todos juntos e cada um de per si. Conhecia também todas as vacas que cada camponês possuía e quase todos os rublos da bolsa de cada um.

Se não imitava Tarass Boulba a respeito do pugilato entre pai e filhos, o certo é que havia entre eles querelas constantes e violentas. Por toda a parte, em casa e em visitas, por um pretexto fútil, discussões intermináveis estalavam entre o velho e os rapazes. Começavam geralmente por uma impertinência de Stawroushinko, que troçava dos filhos «idealistas». Estes inflamavam-se, o pai seguia-os no seu arrebatamento, e era então que se produzia uma discussão veemente, donde só se retiravam os adversários depois de muita pancada.

Era uma consequência da famosa e clássica oposição entre os «pais e os filhos», com a diferença de que os fenómenos se manifestavam nos Stawroushinkos sob uma forma atenuada.

A mocidade, que ia para a escola de tenra idade, só via o campo durante as férias, aliás bastante curtas; e por isso não possuía conhecimento concreto e completo do povo que distinguia «os pais». Quando a famosa vaga do amor pelo povo se apossou subitamente da intelligenzia russa, atingiu a juventude nas classes mais adiantadas dos colégios. Essa mocidade dedicou-se logo ao estudo do povo, mas só nos livros. O segundo passo levou-os ao estudo directo das expressões do génio popular nas suas criações. As visitas dos jovens senhores — vestidos de elegantes switka brancas e de camisas da mesma cor, para ir a casa dos camponeses — eram nessa época um facto corrente em todo o Sudoeste. Não se prestava a menor atenção ao estudo das condições estritamente económicas. Os rapazes tomavam nota das palavras e da música das canções populares, ocupavam-se particularmente das lendas locais, comparavam os factos históricos nos seus reflexos na memória do povo e, em geral, olhavam o mujique através do prisma poético do romantismo nacional. Os pais também gostariam de proceder desta forma; mas, apesar de toda a sua boa vontade, não conseguiam entender-se com os filhos.

— Ouve lá, queres ouvi-lo um bocado? — dizia Stawroushinko ao tio Máximo, com ar astucioso e tocando-lhe no cotovelo, quando o seu filho falava, de face afogueada e o olhar brilhante.

— Como o achas? Repara neste filho de cão, que fala como se tivesse lido qualquer coisa. Oh! é uma inteligência, apesar de tudo. Mas escuta, homem sábio, não nos queres contar como o nosso Netchipore te enganou? Vá lá, meu velho, vá!

Os velhos riam à gargalhada, fazendo estremecer os bigodes, com uma disposição genuinamente ucraniana. Os rapazes coravam, mas não cediam lugar. Se não conheciam Fedko ou Netchipore de tal ou tal ideia, distinguiam, em compensação, sinais característicos de todo o povo, que eles tinham num conceito elevado, humanitário, o único que admite conclusões e generalizações verdadeiramente largas. Eles abrangem perspectivas longínquas de horizontes infinitos, enquanto os velhos práticos, atolados na rotina até ao pescoço, enxergam perfeitamente as árvores, mas não distinguem a floresta.

Não era, porém, nada desagradável ao velho escutar estas tagarelices.

— Vê-se bem que não perdem o tempo na escola — dizia ele, olhando com satisfação o auditório. — Mas, em suma, eis o que eu quero dizer: o meu Fedko, ainda que simples mujique, leva-vos e levar-vos-á para onde quiser; e vós segui-lo-eis como os mais estúpidos bezerros do mundo. Pronto! — E acrescentou: — Quanto a mim, dobrava em quatro esse valdevinos do Fedko, metia-o na minha bolsa do tabaco e guardava tudo na algibeira, sem lhe dar tempo sequer de perceber o que se passava. Quer isto dizer: para mim não passais de uns totozinhos diante de um canzarrão.

Acabava assim neste momento uma das muitas discussões daquela natureza. Os velhos entraram em casa e, de vez em quando, ouvia-se, pelas janelas abertas, Stawroushinko contar histórias cómicas que faziam estourar de riso os ouvintes.

Os novos ficaram no jardim. O estudante de Kieff, estendendo a jaleca ucraniana e baixando para a nuca o boné de peles, deitou-se na erva, com um à-vontade um pouco livre. O irmão mais velho estava sentado com Evelina sobre o talude. Vestido de ponto em branco, o mais novo estava ao lado; e, um pouco desviado, a cabeça baixa e apoiado no parapeito da janela, sentara-se o cego, que meditava nos assuntos há pouco debatidos.

— Em que pensa, menina Evelina? — perguntou o Stawroushinko mais novo. — Se não me engano, não lhe escapou nem uma palavra da nossa discussão. Não é verdade?

— Tudo que disse a seu pai está muito bem, mas...

— Mas... quê?

A rapariga hesitou em responder. Colocou o trabalho nos joelhos, desembaraçou-o das mãos e, com a cabeça ligeiramente inclinada, pôs-se a olhar para ele, pensativa. Era difícil distinguir se meditava na resposta ou se reflectia na escolha do algodão para o bordado.

Entretanto, os rapazes esperavam com impaciência a réplica. O estudante ergueu-se um pouco sobre o cotovelo e voltou para Evelina o rosto animado por uma ardente curiosidade. O que estava ao pé dela, fixava-a com um olhar ao mesmo tempo calmo e perscrutador. O cego mudou de posição, endireitou-se, ergueu a cabeça e voltou as costas aos assistentes.

— Mas... — disse ela baixinho, continuando a acomodar o trabalho. — Acho que cada um deve tomar o seu caminho na vida...

— Oh, meu Deus! — exclamou bruscamente o estudante. — Que ponderação! Quer dizer-me quantos anos tem?

— Dezassete — respondeu ela com simplicidade, ajuntando imediatamente, com uma curiosidade tocante, misturada de triunfo: — Ora diga, julgava-me mais velha, não é verdade?

Os rapazes riram-se.

— Se alguém me perguntasse a opinião sobre a sua idade, palavra que ficaria na dúvida entre treze e vinte e três anos. Sim, sim, é verdade. Às vezes dá-me a impressão duma menina pequena; mas outras vezes raciocina como uma senhora de idade, com muita experiência.

— Ouça, Gavrilo Petrowitch, trata-se de coisas sérias e devemos discorrer atinadamente — retorquiu a mulherzinha, retomando o seu trabalho.

Durante um instante toda a gente se conservou calada. A agulha de Evelina recomeçou a marcha regular no trabalho, enquanto eles contemplavam curiosamente a rapariga cheia de sensatez.

Evidentemente que Evelina tinha crescido e se tinha desenvolvido, desde o encontro com Pedro; mas a opinião do estudante a respeito do aspecto da rapariga era pura verdade. Lançado o primeiro olhar para esta criaturinha pequena e delgada, tinha-se a impressão de que era uma garota; mas bem depressa os seus movimentos, lentos e seguros, acusavam o equilíbrio duma mulher feita. Acontecia a mesma coisa com as feições, que, segundo parece, só se encontram nas mulheres eslavas. Os traços, finos e regulares, eram desenhados em linha contínua e firme. Os olhos, azuis, fixavam-nos direitos, com calma; raramente a cor lhe subia às faces, mas não tinha aquela palidez ordinária, capaz de desaparecer sob a chama ardente das paixões. Era antes o branco frio da neve.

Os cabelos louros de Evelina, penteados lisos, eram mais escuros nas têmporas, de mármore, e caíam numa trança pesada, que parecia atirar-lhe a cabeça para trás quando ela andava.

Também o cego cresceu e atingiu idade viril. Alguém que o olhasse nesse momento, em que ele estava sentado longe do grupo — pálido, comovido e belo —, ficaria impressionado com esse rosto original, que reflectia tão nitidamente todo o movimento da alma.

Cabelos negros, delicadamente ondulados, caíam-lhe na fronte abaulada, coberta de rugas prematuras. Tão depressa lhe subiam cores vivas às faces como logo davam lugar a uma lividez mate. O lábio inferior, um tudo nada pendente, tremia de vez em quando duma forma estranha; e então as sobrancelhas estendiam-se, moviam-se, inquietas, e os seus olhos belos e grandes olhavam o mundo com um ar indiferente e imóvel, comunicando ao rosto daquele homem ainda novo uma sombra de melancolia singular.

— Então — disse ironicamente o estudante depois dum curto silêncio — a Evelina julga que tudo que há pouco dissemos deve ser estranho ao espírito feminino e que o ambiente das mulheres se limita à esfera estreita compreendida entre o quarto dos filhos e a cozinha?

Uma ironia provocante e bem calculada transparecia nas palavras do rapaz. Reinou o silêncio em volta durante algum tempo e, enervada, a rapariga corou.

— Vai um pouco apressado nas suas conclusões — murmurou ela. — Compreendo tudo em que falaram e que o espírito feminino é bem capaz de o apreender. Não me referia há pouco senão a mim pessoalmente.

Calou-se e inclinou-se para o trabalho, tão atenta para a sua arte feminina que o estudante não ousou continuar o interrogatório.

— Extraordinária, apesar de tudo — balbuciou ele. — Dir-se-ia que elaborou o seu plano de vida, desde o princípio até à morte.

— Nada disso é de espantar, Gavrilo Petrowitch! — ripostou, tranquila, Evelina. — Penso que Ilya Ivanowitch (o nome do mais novo) tem já traçado o seu plano de vida, e eu sou mais velha do que ele.

— É verdade — respondeu este, contente com a alusão. — Li, não há muito tempo, a vida do célebre general N. N.... Ele prosseguiu toda a sua vida segundo o plano firme que elaborou na juventude: casou-se aos vinte anos, e aos trinta e cinco comandava já um corpo de exército.

O estudante riu, trocista. A rapariga corou de novo.

— Aí está! Você vê bem — disse ela, passado um minuto, com voz fria e severa. — Cada um no seu caminho.

Ninguém a contradisse. Um silêncio pesado pairou sobre eles, um silêncio carregado, contudo, duma impressão delicada: todos compreendiam vagamente que a conversação tocara em qualquer coisa de individual e que, debaixo daquelas palavras simples e inofensivas aparentemente, uma corda subtil, extremamente tensa, tinha ressoado em qualquer parte...

E rompendo, de tempos a tempos, este silêncio recolhido, ouvia-se o murmúrio do velho jardim, que se tornava cada vez mais sombrio e que parecia mal humorado e hostil.

Todas estas conversas e discussões, este fluxo de problemas novos, palpitantes de esperanças, de expectativas, de opiniões, tudo isto se precipitava bruscamente, inopinadamente, sobre o cego. Ao princípio, ele escutava-os com uma expressão de admiração entusiasta; mas, passado algum tempo, não pôde deixar de perceber que essa onda viva rolava a seu lado sem lhe tocar.

Ninguém lhe fazia perguntas, não interessavam as suas opiniões; e compreendeu igualmente que era preciso manter-se afastado, numa espécie de isolamento, tanto mais triste quanto a vida do castelo se animara agora como nunca.

Apesar disso, continuou a prestar atenção àquilo que para ele era novidade; e as suas sobrancelhas fortemente franzidas e o rosto muito pálido denunciavam o violento esforço da sua atenção.

Mas era uma atenção melancólica, que ocultava um trabalho de espírito tão penoso como amargo.

Com os olhos cheios de lágrimas, a mãe observava o filho. O olhar de Evelina exprimia compaixão e desassossego. Somente Máximo fingia não compreender o efeito produzido sobre o cego por esta sociedade turbulenta e convidava os hóspedes, sempre com o mesmo olhar acolhedor, a voltar ao castelo todas as vezes que pudessem.

Os visitantes prometeram tornar o mais brevemente possível e partiram. Despedindo-se, os rapazes apertaram amigavelmente a mão de Pedro. Este respondeu com um entusiasmo espontâneo e ficou atento ao barulho da carruagem. Em seguida virou-se bruscamente e foi para o jardim.

Após a partida dos hóspedes, tudo se apaziguou no castelo; mas este silêncio pareceu ao cego impregnado dum tom singular, desacostumado. Parecia que o próprio ar insinuava que alguma coisa de muito importante se passava. Nas aldeias, de novo silenciosas e povoadas somente pelo sussurro tímido das faias e dos lilases, o cego julgava distinguir os ecos das conversações recentes.

Pela janela aberta ouvia também a mãe, Evelina e o tio Máximo, que discutiam no salão. Na voz da mãe descobria-se sofrimento e súplica, na de Evelina indignação; e quanto ao tio Máximo, Pedro tinha a impressão de que ele aparava com tanto ardor como firmeza o ataque das mulheres. À aproximação do cego a altercação cessou de repente.

Com mão segura e impiedosa, o tio Máximo abrira a primeira brecha na muralha que cercava o sobrinho. A primeira torrente, sonora e violenta, tinha sido já arremessada pela abertura, e o equilíbrio moral do adolescente foi abalado pelo choque formidável.

Agora sentia-se constrangido no seu círculo vicioso. A repousada calma do castelo era-lhe insuportável; o murmúrio preguiçoso, o segredar contínuo do velho jardim e a monotonia do letargo do seu espírito moço cada vez o importunavam mais.

A noite começava a falar-lhe com uma voz desconhecida e feiticeira e povoava-se de súbito de imagens flutuantes, que se juntavam, se apertavam, se agitavam, cheias, sempre cheias, duma animação que fascinava.

A noite chamava-o, encantava-o, despertava-lhe os instintos que dormitavam na sua alma; estes primeiros apelos traduziam-se pela palidez do seu rosto e por uma dor surda e imprecisa no coração.

Estes sinistros presságios não escapavam aos olhos das mulheres. Nós, os que vemos, vigiamos os reflexos das emoções sobre as fisionomias dos nossos vizinhos, e é por isso que aprendemos a dissimular as nossas próprias emoções. Ao contrário, os cegos estão absolutamente desprovidos de recursos, por este lado. E lia-se na face pálida de Pedro como num jornal íntimo deixado aberto num salão...

Uma angústia perturbadora lá estava gravada. As mulheres notaram que o tio Máximo tinha percebido, mas parecia — julgavam elas que isso entrava nos seus planos; e ambas o consideravam um acto de violência, ardendo a mãe por defender o filho do seu próprio corpo.

«Uma estufa? Muito bem! E já que ao filho lhe agradava a estufa, melhor seria que esta situação, por precária que fosse, durasse ainda e se mantivesse o maior tempo possível, sempre... Havia tanta tranquilidade, tanta doçura, tanta serenidade...»

Com certeza que Evelina não exprimia tudo o que lhe ia no coração, mas, passado tempo, mudou a sua atitude para com o tio Máximo e começou a opor-se, com uma força desusada, a certos projectos sem grande importância.

O inválido observava-a de través, com olhar investigador, que se chocava por momentos com o de Evelina, irritado e brilhante. Depois meneava a cabeça, balbuciava algumas palavras, envolvia-se em espirais de fumo mais densas que o costume, o que acusava o trabalho intenso do seu pensamento; mas ficava na mesma posição, e, sem propriamente dirigir a fala a ninguém, disparava sentenças desdenhosas acerca do amor feminino insensato...

Sonhava com a plenitude desejada da existência para Pedro, e não com uma vã tranquilidade. Sabe-se que todo o professor pretende fazer do seu aluno seu emulo. O tio Máximo aspirava para Pedro ao que ele próprio experimentara e tinha deixado — ai dele! — tão cedo, às crises violentas e à luta. Sob que formas?

Não o sabia, mas isso não o impedia de alargar, tanto quanto lhe fosse possível, os limites das impressões exteriores acessíveis ao cego, arriscando-se a expô-lo a emoções e mesmo a choques tremendos... Sentia bem que as duas mulheres queriam outra coisa.

— Galinha choca! — dizia ele para a irmã à guisa de censura e batendo no chão com as muletas indignadamente. — Galinha choca!

Mas zangava-se raramente, opondo a maior parte das vezes às razões da irmã um pesar sereno e mais indulgente do que outra coisa. De resto, mal ficava sozinha com o irmão, Ana Mikhallowna cedia invariavelmente, o que não queria dizer que a discussão não recomeçasse no primeiro momento oportuno.

Mas as coisas tomavam um rumo muito diferente quando Evelina estava presente: nesse caso o tio Máximo preferia fazer-se surdo-mudo. Parecia que uma espécie de luta se travava entre ele e a rapariga e que cada um deles, em suma, se contentava com estudar o adversário, surpreendendo-lhe o jogo com muita habilidade.

Quando, passados uns quinze dias, os rapazes, acompanhados de Stawroushinko, voltaram ao castelo, Evelina fez-lhes um acolhimento bastante reservado, se não frio. No entanto era-lhe difícil opor-se à animação entusiasta da mocidade.

Durante dias inteiros os rapazes vagabundearam pela aldeia, caçaram nos arredores, escreveram a música das canções dos ceifeiros e das ceifeiras nos campos; e quando a noite caía toda a gente se reunia no jardim, num banco, junto da casa dos senhores.

Uma noite, sem que Evelina tivesse tido tempo de reparar, a conversa abordou de novo o tema delicado. Como aconteceu isto? Quem falou primeiro? Nem ela nem ninguém o poderia saber. Aconteceu, por assim dizer, tão insensivelmente como o pôr do Sol se extinguiu, as sombras da noite se apossaram de todo o jardim e o rouxinol começou a cantar nos arbustos a sua serenata nocturna.

O estudante falava com veemência, com aquela paixão própria da juventude que se lança ao encontro do futuro desconhecido, sem calcular nem reflectir.

Havia nesta crença do futuro carregado de milagres uma força particularmente sedutora, a roçar quase irresistível dum desafio supremo...

A rapariga excitou-se, compreendendo que este repto, talvez sem intenção prévia, era dirigido a ela, e só a ela.

Escutava inclinada para o trabalho. Os olhos brilhavam-lhe, as faces queimavam-na, cobertas de vermelho vivo, e o coração batia-lhe apressado. Depois o fulgor dos olhos desapareceu, contraíram-se-lhe os lábios, o coração principiou a palpitar mais doidamente ainda, e uma expressão de terror surgiu no seu rosto empalidecido.

Se ela estava amedrontada, era porque uma espécie de véu escuro se tinha afastado diante dos seus olhos, e por essa clareira se precipitaram em turbilhão perspectivas longínquas, que se abriam para um mundo imenso, activo, em efervescência.

Sim, este mundo há muito que a atraía. Ela o sentia duma maneira completa, mas ficava imóvel durante horas e horas, nas sombras do jardim, num banco isolado, abandonando-se a sonhos extraordinários. A imaginação dócil apresentava-lhe imagens resplandecentes, que se perdiam ao longe, onde não havia o mais pequeno lugar para o cego.

Agora este universo aproximava-se de si. Presentemente não se contentava em a seduzir, mas reclamava-lhe qualquer coisa, exigia simplesmente que o declarasse legítimo.

Lançou um olhar rápido na direcção de Pedro o coração apertou-se-lhe. Ele estava sentado, imóvel e pensativo. Todo o seu corpo parecia entorpecido e não era mais que uma mancha escura nas recordações de Evelina.

«Ele compreendeu tudo... tudo!...» Este pensamento, vivo como um relâmpago, acudiu-lhe ao espírito e um arrepio de frio percorreu-a toda. O sangue precipitou-se-lhe no coração e ela sentiu mesmo uma palidez subtil cobrir-lhe o rosto.

Imaginou-se, por um instante, já muito além, nesse universo longínquo, enquanto Pedro ficava sempre aqui sozinho, de cabeça caída. Ou não...

Ele está além, na pequena colina sobranceira ao rio, ele, a criança cega, que a tinha feito chorar tanto, naquela tarde...

Então teve medo. E teve a impressão também de que alguém queria retirar o punhal da sua ferida antiga.

Recordou-se dos longos olhares do tio Máximo. Pronto! Aí está o que significavam esses olhares silenciosos! Melhor do que ela própria, conhecia ele a sua disposição de espírito; adivinhava que uma luta encarniçada era ainda possível no seu coração. Uma luta e uma escolha também, porque ela não estava nada segura de si.

Mas então, não. Enganava-se o velho tio Máximo! Ela estava segura do primeiro passo a dar, e depois ver-se-ia o que ela podia ainda tirar da vida...

Respirou penosamente, com um esforço visível, como se retomasse alento depois de um trabalho esgotante, e passeou o olhar em volta.

Não saberia dizer se o silêncio durava há muito, se o estudante se calara logo ou depois dalgum tempo, ou se continuava a falar...

Olhou para onde Pedro estava sentado havia um minuto...

O cego tinha desaparecido...

Então, dobrando tranquilamente o trabalho, levantou-se por sua vez.

— Peço-lhes desculpa, senhores — disse aos hóspedes —, mas preciso deixá-los sós um momento.

E foi-se ao longo de uma álea escura.

Esta noite estava cheia de inquietação, e não somente para Evelina. Ao voltar para uma ruazinha onde estava um banco, a rapariga distinguiu vozes agitadas. O tio Máximo conversava com a irmã.

— Sim, ela preocupa-me agora tanto como ele — disse o velho num tom severo, mesmo rude. Deves pensar que é uma criança que desconhece absolutamente tudo na vida. Não quero crer que pretendas explorar a sua ignorância.

Havia lágrimas na voz de Ana Mikhailowna quando respondeu ao irmão:

— Mas ouve, Max... E se... se ela... Que será então do meu pobre filho?

— Sabe-se lá! — declarou o velho soldado, firme e austero. — Ver-se-á mais tarde; mas, em todo o caso, a consciência de haver escangalhado a vida de outra pessoa não lhe deve pesar. E a nós também não. Reflecte nisto, Ana!— ajuntou, um pouco mais gentil.

Pegou na mão da irmã e beijou-a ternamente. Ana Mikhailowna curvou a cabeça.

— Pobre rapaz... Meu pobre pequeno... Teria sido melhor que nunca a tivesse encontrado...

Este gemido caiu tão fracamente dos lábios da mãe que a rapariga mais adivinhou as palavras do que as ouviu.

Subiu-lhe o rubor às faces e parou, contrariada, à esquina da álea.

Que fazer? Desde que se mostrasse, os dois, irmão e irmã, compreenderiam que ela acabava de ouvir os seus pensamentos secretos...

Mas, logo depois, levantou altivamente a cabeça. Não tinha tido intenção nenhuma de os espiar e, de toda a maneira, uma falsa vergonha não a deteria nunca no seu caminho. De resto, o velho exagerava... Ela saberia bem vencer as dificuldades da vida.

Desembocou da rua e passou diante deles, que há pouco falavam dela, com a cabeça levantada e a maior calma. Com uma precipitação quase involuntária, o tio Máximo afastou as muletas para lhe desimpedir o caminho, enquanto Ana Mikhailowna lhe lançava um olhar cheio de muda expressão de afecto e quase também de admiração e de temor.

Parecia que a mãe pressentia que esta orgulhosa rapariga, que acabava de passar na frente deles com um semblante tão arrogante e altaneiro, devia trazer ao seu filho ou a felicidade ou a desgraça.

No canto mais arredado do jardim encontrava-se um velho moinho abandonado. As rodas havia muito que não giravam, o musgo crescia-lhe nos cilindros e, através dos açudes velhos, a água filtrava-se em delgados fiozinhos, que murmuravam sem interrupção nem fadiga.

Era o sítio preferido do cego. Ficava lá sentado horas inteiras, apoiado contra o parapeito da represa, a escutar o pairar das águas, que ele traduzia para o piano na perfeição. Mas agora não pensava nisso. Agora caminhava a passos largos vivamente pelo pequeno atalho, com o coração cheio de amargura, a face torcida pela dor íntima.

Ouvindo os passos da rapariga, parou. Evelina pôs-lhe a mão no ombro e perguntou-lhe gravemente:

— Dize-me, Pedro, que tens tu? Porque é esse aspecto tão triste?

Voltando-se rapidamente, ele retomou o passeio na vereda. A rapariga caminhava a seu lado.

Ouvia-se uma canção que vinha do castelo:

Por detrás de uma montanha escarpada
Voavam águias...
Voavam, gritavam,
Procuravam a presa...

Atenuada pela distância, uma voz jovem e fresca glorificava o amor, o bem-estar e o espaço infinito; e os seus acentos vagueavam no silêncio da noite, cobrindo o sussurro lânguido do jardim.

Além havia criaturas felizes que falavam duma vida plena e rica de sensações...

Ela estava com elas, há minutos, embriagada pela ideia duma vida onde não havia o mais pequeno lugar para ele. Não notara mesmo a sua partida, e quem saberia dizer quão longos lhe tinham parecido esses momentos de solidão angustiosa...

Estas meditações perseguiam o espírito da rapariga enquanto caminhava ao lado de Pedro ao longo da álea. Nunca até àquele momento lhe tinha sido tão penoso e difícil falar com ele e ser a senhora da sua disposição. Entretanto, ela sentia que, graças à sua presença, a melancolia se lhe apaziguava pouco a pouco.

Com efeito, o andar tornou-se-lhe menos precipitado, o rosto mais calmo. Ouvia a seu lado os passos de Evelina e, gradualmente, o desespero abrandava, dando lugar a um outro sentimento.

Ele não tinha ainda dado por esse sentimento, mas era-lhe familiar e submetia-se voluntariamente à sua influência favorável.

— Mas, vejamos, que tens tu? — repetiu ela.

— Nada de extraordinário — respondeu Pedro com amargura. — Parece-me somente que sou de mais no mundo.

A canção que partia da casa calou-se e uma outra ressoou passado um minuto. Esta era apenas perceptível; agora o estudante cantava uma douma antiga, imitando o canto terno dos tocadores de bandurra. Parecia que a voz se abafava completamente, e então uma vaga fantasia apossava-se da imaginação; mas ao fim dum instante a melodia oculta misturava-se de novo com o murmúrio da folhagem.

Pedro, involuntariamente, parou, prestando atenção.

— Sabes — começou ele com sua voz triste —, parece-me que os velhos têm toda a razão quando dizem que a vida é cada vez mais dura. Outrora era mais fácil, mesmo para os cegos. Em vez de piano, eu tocaria só bandurra, percorreria as cidades e as aldeias. Gente em bandos viria atrás de mim, para escutar as minhas canções, exaltando a vida e os feitos heróicos de seus pais e avós. E eu teria então o meu lugar ao sol, o meu valor. E agora?... Até esse rapazinho de voz tão penetrante — recordas-te? — disse que se queria casar e comandar um corpo de exército... Ele ousa fantasiar... e eu não o posso fazer...

Os olhos azuis da rapariga dilataram-se de pavor e cobriram-se de lágrimas.

— Tudo isto por causa do Stawroushinko mais novo, que tagarela sem cessar — disse ela, confusa, esforçando-se por dar às suas palavras uma aparência de gracejo.

— Sim, talvez — disse Pedro num ar sonhador; e acrescentou: — Tem uma voz agradável. Ele é bonito?

— Sim, é simpático — confirmou Evelina com o mesmo ar sonhador. Mas corrigiu-se, dizendo bruscamente, quase irritada: — Não, não gosto nada dele. É muito vaidoso e a voz também é aguda e áspera.

Pedro ouviu admirado esta explosão imprevista.

A rapariga bateu com o pé no chão e continuou:

— Oh! Tudo isto são tolices, e nada mais. Sei perfeitamente que o causador de tudo isto é Máximo. Oh, como eu odeio esse Máximo!

— Mas que dizes, Velia? — perguntou o cego, pasmado. — O que fez ele, na verdade?

— Odeio-o, odeio-o! — repetiu Evelina, intransigente. — Todos os seus planos e os seus cálculos lhe mataram o coração. Não me fales dele, não me fales dele, peço-te. Não sei ao certo donde lhe vem o direito de dispor do destino e da vida dos outros.

Subitamente parou, apertou as mãos finas com tanta força que os dedos estalaram, e pôs-se a chorar como uma criança.

O cego, com uma compaixão misturada de espanto, tomou-lhe as mãos. Esta crise de nervos, por parte da sua amiga, habitualmente tranquila e reservada em extremo, era tão extraordinária e inexplicável... Escutava ao mesmo tempo os soluços de Evelina e o eco que lhe produzia o choro no coração. Recordou-se dos anos passados: estava ele sentado numa pequena colina, tão triste como agora, e ela chorava a seu lado como agora também...

De repente ela libertou o braço e o cego ficou novamente surpreendido:

A rapariga ria.

— Como eu sou tola, meu Deus! E porque é que eu choro?

Enxugou os olhos e disse em seguida, docemente e comovida:

— Não, meu pequeno; sejamos justos: os dois são gentis. E também o que ele disse é gentil. Mas não para toda a gente.

— E para aqueles que se podem aproveitar disso — replicou o cego.

— Bagatelas! —respondeu ela com ar calmo, se bem que na sua voz se percebesse ainda o riso e as lágrimas de há pouco. — Consideremos o tio Máximo, por exemplo: enquanto pôde, lutou pelas suas ideias e agora vive como a vida o obriga. Nós também...

— Não digas «nós». Contigo é diferente.

— Porquê? De forma nenhuma.

— Como?

— Porque... porque te casarás comigo, não é verdade? E então viveremos a mesma vida os dois.

Pedro parou, abalado.

— Eu?... Casar-me-ei contigo? Então queres ser minha mulher?

— Mas decerto, decerto! Claro que quero! exclamou ela emocionada e precipitadamente. Mas como tu és tolinho! Na verdade, nunca pensaste nisso? E, todavia, é tão simples: se não fosse comigo, com quem te havias de casar?

— Sim, com certeza! — aquiesceu ele dominado por uma espécie de estranho egoísmo; mas caiu em si imediatamente.

— Escuta, Velia — continuou, agarrando as mãos dela. — Há pouco ouvimos dizer que as raparigas estudavam, nas grandes cidades... Diante de ti também podia abrir-se um amplo caminho, mas eu...

— Que queres dizer? Dize.

— Sim... eu sou cego, eu... — concluiu ele duma maneira absolutamente ilógica.

E lembrou-se de novo da sua infância, dos murmúrios brandos do ribeiro, do primeiro encontro com Evelina, das suas lágrimas acerbas, quando ele pronunciou a palavra «cego».

Notando instintivamente que lhe fazia mal como outrora, abandonou a recordação. Reinou o silêncio durante alguns instantes, e só a água gemia ligeira e ternamente na represa. Não se ouvia Evelina, como se tivesse desaparecido. Um estremecimento contraiu-lhe o rosto, mas ela conteve a emoção e, quando de novo falou, a sua voz ressoou, descuidada e alegre.

— Está bem! Sim, tu és cego. Mas não tem importância nenhuma — declarou ela. — Desde que uma rapariga ama um cego, deve forçosamente casar-se com ele. Pois se acontece isso todos os dias, que queres que eu faça?

— Se uma rapariga ama... —repetiu ele pensativamente, franzindo as sobrancelhas. Parecia sopesar os novos sons da palavra familiar. — Se ela ama? — perguntou ele outra vez, com uma animação que aumentava.

— Mas com certeza! Tu e eu amamo-nos! Ora repara. Dize lá: ser-te-ia possível ficares aqui sozinho sem mim, sozinho, sozinho?

Ele fez-se branco de repente; os seus olhos mortos estacaram, completamente abertos, mais imóveis que nunca. O silêncio reinava sempre e só a água pairava e tilintava como dantes. Parecia às vezes que este murmúrio abrandava, para se calar por um instante completamente; mas aumentava logo e continuava de novo. As cerejeiras ramalhudas segredavam na sua folhagem escura. Já se não ouvia a canção, mas, em troca, um rouxinol, dissimulado no açude, principiou a trinar.

— Morreria! — disse Pedro surdamente.

Os lábios de Evelina tremeram, como no dia do primeiro encontro, e ela balbuciou com esforço, numa voz fraca, infantil:

— E eu também... Sem ti, sozinha... mundo vasto e distante.

Ele estreitou na dele a sua mão pequenina e admirou-se de que o fraco aperto de mão de Evelina se não assemelhasse em nada aos de outrora. O suave movimento dos seus deditos reflectia-se agora mais forte que nunca no íntimo do seu coração.

Estranha à Evelina do passado, à sua amiga de infância, sentia nela agora uma outra rapariga, completamente diferente daquela que tão bem conhecia. De repente viu-se forte e vigoroso, enquanto ela lhe parecia frágil e lacrimosa.

E então, sob a pressão duma ternura que lhe saltava o coração, atraiu-a com uma mão e com a outra pôs-se a acariciar-lhe os cabelos sedosos. Afigurou-se-lhe que neste momento todo o desgosto desaparecia da sua alma, que mais nenhum impulso ou desejo subsistia e que fora deste minuto nada mais existia para ele no mundo.

O rouxinol, que ensaiava a voz havia algum tempo, assegurou-se de que estava perfeita e pôs-se a assobiar maravilhosamente e a espalhar por todo o jardim silencioso os seus gorjeios arrebatadores.

A rapariga agitou-se e, com um gesto tímido, afastou a mão do cego. Este não resistiu e, largando Evelina, respirou a plenos pulmões. Percebeu que ela arranjava o penteado. O coração batia-lhe apressado, mas uniforme e agradavelmente. Sentiu um sangue novo derramar-lhe pelo corpo uma força nova e irreprimível... Quando, um minuto depois, Evelina lhe disse naturalmente: «Bem, agora voltemos para junto dos nossos hóspedes», ele ouviu admirado aquela voz adorada, onde perpassavam sons inéditos para ele.

Os donos da casa e os convidados já estavam sentados no salão. Só faltavam Evelina e Pedro. O tio Máximo conversava com o velho camarada, os rapazes mantinham-se silenciosos perto das janelas, largamente abertas para o jardim. A pequena sociedade estava dum bom humor singular, que não impedia de se pressentir um vago drama, bem visível para toda a gente.

A ausência de Pedro e Evelina era particularmente eloquente. Enquanto falava, o tio Máximo não cessava de lançar olhares breves e um pouco ansiosos na direcção da porta. Ana Mikhailowna, com o aspecto triste e uma expressão que se diria de culpada, fazia esforços evidentes para ser uma dona de casa amável e atenciosa, mas só o conseguia de uma forma incompleta. Sozinho, o Sr. Popelsky, sempre bonacheirão e que começava a engordar muitíssimo, cabeceava na cadeira à espera do jantar.

Quando, no terraço que ligava o jardim ao salão, soaram passos, todos os olhares se voltaram atentos para esse lado. No rectângulo de sombra da larga porta apareceu a silhueta de Evelina e por detrás dela o cego subia lentamente a escada.

A rapariga sentiu imediatamente todos aqueles olhares fixos e interrogativos. Atravessou o aposento com o seu passo natural, sempre igual, e quando encontrou o olhar fugidio do tio Máximo retorquiu-lhe com um fino sorriso e os seus olhos brilhantes num desafio trocista. Ana Mikhailowna examinava avidamente cada movimento do filho.

O rapaz seguia Evelina sem reparar para onde ela o levava. Quando o seu rosto pálido e o corpo magro apareceram à entrada da porta, parou repentinamente no limiar da sala iluminada. Depois avançou e aproximou-se rapidamente do piano, com o mesmo ar meio distraído, meio recolhido.

Ainda que a música constituísse um elemento quotidiano na existência pacata do castelo, não deixava, contudo, de ser muito íntima e, por assim dizer, familiar. Nos dias em que a casa inteira se enchia do ruído e das canções dos rapazes, Pedro não se aproximava nunca do piano, no qual tocava o filho mais velho de Stawroushinko, um músico profissional. Resultava desta espécie de abstenção que o cego ainda mais se apagava neste quadro animado, e a mãe observava, com uma angústia mortal, a figura do filho a desvanecer-se no fundo movimentado da alegria geral. Agora, pela primeira vez, ele dirigia-se, com um passo resoluto, ainda que um pouco inconsciente, para o lugar habitual. Parecia que tinha esquecido completamente a presença de estranhos em casa. De resto, logo que os dois entraram no salão, fez-se um tal silêncio que o cego podia muito facilmente julgar o aposento absolutamente vazio.

Levantando a tampa do instrumento, tocou ao de leve no teclado e ensaiou alguns acordes rápidos e alados. Teve-se a impressão de que pedia alguma coisa ao piano ou ao seu próprio estado. Depois, correndo as mãos pelas teclas, mergulhou-se em meditação e o silêncio da sala tornou-se ainda mais profundo.

A noite olhava, sonhadora, pelas aberturas negras das janelas. Aqui e ali, folhas verdes, iluminadas pela luz do candeeiro, espreitavam, curiosas, do jardim para a sala. Toda a assistência, excitada pela ressonância do piano, que acabava de se calar, e impressionada em parte pelo sopro de inspiração pouco comum que se apoderava das faces lívidas do cego, permanecia numa expectativa silenciosa.

Com os olhos mortos levantados para o tecto, como se prestasse atenção a qualquer coisa, Pedro permanecia sempre imóvel. Como vagas em movimento, revolviam-se-lhe na alma as mais diversas sensações. A torrente duma vida, até essa altura desconhecida, abalava-o, como o mar alto abala um barquito abandonado há muito na ribeira.

O seu rosto reflectia surpresa e interrogação e uma exaltação singular percorria-o, como fantasma vivo. Os olhos do cego apareciam profundos e escuros.

Dir-se-ia, durante um minuto, que ele não encontrou na sua alma o que escutava com tão sôfrega atenção. Mas em seguida, se bem que conservasse o mesmo ar de admiração, e como se não tivesse sentido o que adivinhava, estremeceu, roçou as teclas e, impelido pela onda nova do sentimento que o arrebatava todo, abandonou-se inteiramente ao jogo dos acordes mais correntes, mais sonoros, mais harmoniosos uns do que os outros.

Em geral, é extremamente difícil para um cego fazer uso da música escrita. Os sinais são feitos em relevo; cada nota é marcada por cifras particulares, que se dispõem como as linhas dum livro. Para indicar as notas que compõem um acorde, coloca-se um ponto de exclamação nos intervalos. É evidente que o cego é obrigado a aprendê-los de cor e para cada mão separadamente. Donde resulta um trabalho extremamente difícil e muito complexo.

Mas Pedro era auxiliado pela sua paixão nas partes integrantes deste processo. Depois de ter aprendido algumas passagens para cada mão em separado, sentava-se ao piano e quando da junção destes hieróglifos em relevo se compunham, quase inesperadamente para ele mesmo, consonâncias harmónicas, sentia com isso tanto prazer e achava tão vivo interesse neste trabalho, aparentemente ingrato, que mudava de aspecto e tornava-se quase atraente.

Todavia, numerosos processos intermediários surgiam, forçosamente, entre o trecho apresentado no papel e a sua execução. Antes que um sinal se possa transformar numa parte de melodia, deve passar pelas mãos, fixar-se na memória e depois efectuar um caminho de retorno para as extremidades dos dedos que tocam. Demais a mais, a imaginação musical, excepcionalmente desenvolvida no cego, tomava parte no trabalho complexo do estudo e imprimia ao fragmento características individuais bastante vincadas. As formas artísticas que prenderam o sentido musical de Pedro eram justamente aquelas que lhe tinham preparado o primeiro conhecimento da melodia. Eram igualmente as formas recentes do tocar da mãe, ou, antes, as formas da música popular, que repercutiam sempre na sua alma e por meio das quais lhe falava a natureza.

E agora, que o coração lhe batia e rejubilava, ele tocava um bocado italiano qualquer, e a sua execução, desde os primeiros acordes, revelou qualquer coisa de tão pessoal que o assombro invadiu os auditores; e, minutos depois, a admiração apossou-se de toda a assistência sem distinção. Só o filho mais velho de Stawroushinko, músico de profissão, estudava ainda longamente a maneira de tocar do cego, forçando-se por interpretar aquele trecho bem conhecido e analisar a maneira singular do pianista.

As cordas vibravam e retiniam, enchendo o salão e escoando-se para o jardim tranquilo. Os olhos dos rapazes brilhavam de curiosidade e de prazer. Com a cabeça inclinada, o pai Stawroushinko escutava a música silenciosamente; e depois, animando-se cada vez mais, principiou a tocar no cotovelo do tio Máximo e cochichou:

— Eis o que se chama tocar bem! Bravo. Pois então! Achas que não tenho razão?

À medida que os sons tomavam amplidão, o velho altercador recordava-se de qualquer coisa, talvez da sua juventude, pois os olhos tornaram-se-lhe brilhantes, corou e todo o seu corpo se endireitou. Levantando de repente a mão, pouco faltou que desse um murro formidável na mesa; mas felizmente conteve-se e deixou cair o punho sem produzir o menor ruído. Lançou um olhar furtivo para os seus rapazes, cofiou os bigodes e, inclinando-se para o tio Máximo, disse:

— Estes fedelhos querem-nos meter no sótão, convencidos de que já não prestamos para nada... Que mentira! Outrora, nós também, meu velho, nós também... Eh! Mesmo agora... Não é verdade o que digo?

O tio Máximo, ordinariamente um melómano um pouco frio, sentia desta vez alguma coisa de novo na música do seu aluno. Envolvendo-se em baforadas de fumo, escutava o toque de Pedro, abanava a cabeça e passeava o olhar de Pedro para Evelina e inversamente. Uma vez mais, o impulso formidável duma força vital directa introduzia-se no seu sistema duma maneira inteiramente inesperada...

Também Ana Mikhaiilowna lançava à rapariga olhadelas interrogativas, como se perguntasse donde vinha tudo aquilo. Era então a felicidade que se manifestava, desvairada, no tocar de Pedro, ou, pelo contrário, o desgosto?

Evelina estava sentada na sombra projectada pelo abat-jour e só os olhos, maiores e mais escuros que nunca, se distinguiam na meia obscuridade. Talvez que só ela compreendesse o verdadeiro sentido dessa música, onde se ouvia a água gemer na velha represa e o murmúrio das cerejeiras nas áleas banhadas pelo crepúsculo da tarde.

Havia muito tempo que a melodia mudara. Abandonando o trecho italiano, Pedro entregou-se de corpo e alma à sua imaginação. Havia ali tudo o que o perseguia nas recordações de minutos antes, quando, sentado, de cabeça curvada, escutava as impressões e as reminiscências do passado ressuscitado. Havia ali as vozes da natureza, o ruído do vento, o sussurro da floresta, os repuxos do rio e um murmúrio vago que morria nos longes desconhecidos e imprecisos. Tudo isto se entrelaçava e ressoava sobre a trama desta sensação profunda e perturbadora, que faz nascer no nosso íntimo a linguagem misteriosa da natureza e que é tão estranhamente difícil de definir.

É aflição? Então porque é tão agradável? E alegria? Porque é então tão penetrante, tão infinitamente triste?

Por momentos, os sons aumentavam, ampliavam-se, profundavam-se, e então a figura do músico tornava-se singularmente lúgubre. Parecia que até ele se admirava da força desconhecida destas novas melodias e que aguardava ainda qualquer coisa... E parecia que iam retinir as pancadas mágicas que uniriam todos estes acordes no feixe duma harmonia vigorosa e esplêndida; e nesse instante o coração dos ouvintes desfalecia numa expectativa feliz. Mas antes mesmo de subir à altura desejada a melodia caía, rápida, com um murmúrio choroso, semelhante a uma vaga a desfazer-se em ressaltos de espuma. E muito tempo depois da queda ouviam-se notas amargas de incompreensão e de dúvida.

As vezes, o cego interrompia-se por um instante, e então reinava um silêncio quase absoluto no salão, quebrado apenas pelo sussurro das folhas no jardim.

O encantamento que avassalava os ouvintes e os transportava para longe, infinitamente longe daquelas paredes modestas, desvanecia-se bruscamente e a sala tornava-se a fechar, mais pequena ainda do que era dantes. E a noite olhava, bisbilhoteira, pelas janelas escuras, até que o músico, retomando força, começou a ferir as teclas.

E de novo os sons aumentavam, firmavam-se e, como se buscassem qualquer coisa, subiam sempre, em toda a sua plenitude, sempre mais alto, sempre mais forte. Nos intervalos dos acordes resvalavam fragmentos de canções populares, impregnadas, uma vezes de amor e de tristeza, outras vezes de saudades dolorosas e de glória, ou cheias de bravura, de fé e de esperança. Era assim que o músico cego procurava dar aos sentimentos formas familiares e conhecidas.

Logo que as primeiras notas vibraram, repletas de lamentos e dum subtil descontentamento, Ana Mikhailowna encarou o filho e notou-lhe na face uma expressão que lhe pareceu conhecida. Recordou-se do dia soalheiro duma Primavera distante em que o seu menino estava deitado à borda do rio, esmagado pelas impressões excessivamente fortes provocadas pela natureza primaveril. Mas foi só ela que o notou. Levantou-se um tumulto no salão. O velho Stawroushinko gritava qualquer coisa ao tio Máximo; comovidos, os rapazes apertavam a mão do músico, profetizando-lhe uma brilhante carreira artística.

— Sim, sim— afirmava o irmão mais velho. Interpretou duma maneira verdadeiramente notável o carácter da canção popular. Afirmarei mesmo que não fez senão um com essa melodia, pois assimilou-a primorosamente. Mas, diga-me, qual era a peça que tocou ao princípio?

Pedro nomeou o fragmento italiano.

— É isso, não me enganei — respondeu o rapaz. — É-me conhecida em parte. Admiro a sua maneira absolutamente pessoal. Há quem toque melhor, e muito melhor que você, mas ninguém, que eu saiba, executa esse trecho assim. Como dizer? É uma espécie de tradução da língua musical italiana para ucraniano. Se há alguma coisa que lhe falta a si, é uma escola séria... E então...

O cego escutava atentamente. Pela primeira vez tornava-se o centro de toda esta efervescência, destas discussões animadas, e no seu espírito germinava a consciência orgulhosa da sua força.

Seria possível que estes sons, que há pouco lhe causavam mais dor e mais sofrimento que nunca, produzissem uma tão forte impressão sobre os outros? Então... então era capaz de fazer alguma coisa na vida!

Estava sentado na cadeira, os dedos ainda no teclado, quando sentiu uma carícia quente roçar-Ihe pela mão. Era Evelina que se aproximara dele e que, apertando as mãos do seu amigo sem que ninguém desse por isso, se pôs a murmurar, num êxtase de ventura:

— Ouviste? Toda a gente diz que terás o teu trabalho, as tuas ocupações. Se tu soubesses, se pudesses fazer ideia da impressão que causas em nós, em nós todos!...

O cego estremeceu e levantou a cabeça.

Ninguém no salão se apercebeu desta curta cena; ninguém, excepto a mãe. A face purpureou-se-lhe, como se fosse ela que recebesse o primeiro beijo do primeiro amor.

O cego permaneceu sempre no mesmo lugar. Lutava tenazmente contra as sensações inéditas que o invadiam e lhe sugeriam brandamente a felicidade que o esperava. Talvez que pressentisse igualmente a aproximação da borrasca, que já subia em nuvens, pesadas e amorfas, das profundidades do seu ser.


CAPÍTULO VI

Na manhã seguinte Pedro acordou cedo. O seu quarto estava tranquilo; além de que em toda a casa o movimento do dia ainda não tinha começado. Pela janela, que ficava aberta toda a noite, subia do jardim a frescura matinal. Apesar da cegueira, Pedro sentia perfeitamente a natureza. Sabia que era ainda muito cedo, que o sol olhava, como amigo, para o seu quarto e que, se ele estendesse o braço pela janela, gotazinhas de orvalho cairiam, furtivas, dos arbustos. E sentia, além disso, que todo o seu ser estava impregnado duma sensação nova, desconhecida.

Ficou alguns minutos na cama a escutar o doce gorjeio dum passarinho no jardim e a analisar o sentimento estranho que surgia no seu coração.

«Que aconteceu?», pensava ele; e de repente brotaram-lhe na memória as palavras pronunciadas na véspera, ao cair do crepúsculo, por Evelina, ao pé do moinho: «Na verdade, tu nunca pensaste nisso? Como tu és tonto, meu Deus, como tu és tonto...»

Pois bem... Sim, ele nunca tinha pensado nisso. A presença de Evelina causava-lhe um prazer enorme, mas até àquele dia ele não tinha dado por isso, da mesma maneira que nós não sentimos o ar que respiramos. Aquelas simples palavras tinham-lhe caído no coração como uma pedra que escorrega de alto sobre a superfície luzente da água. Um minuto antes estava unida e reflectia tranquilamente a luz do Sol e o céu azul; bastou, porém, um único choque para ela se agitar completamente.

Agora tinha acordado com uma alma rejuvenescida, renovada, e via já a sua amiga de infância sob outro prisma. Ao lembrar-se, nos mínimos pormenores, de tudo que sucedera na véspera, escutava, espantado, o tom da sua «nova» voz, que a memória dócil lhe recordava: «Como és tonto!»

Saltou do leito, vestiu-se à pressa e precipitou-se, pelos atalhos cobertos de orvalho, para o velho moinho. A água pairava como na véspera e, como na véspera igualmente, as hastes das cerejeiras cochichavam. Mas ontem era escuro, enquanto hoje brilhava um esplêndido sol matinal. Nunca, como agora, sentira tão nitidamente a claridade. E afigurava-se-lhe que com a humidade embalsamada e o frio delicioso da manhã os raios do dia o penetravam do seu esplendor risonho até ao fundo do seu ser e lhe excitavam todos os sentidos.

Tinha-se a impressão de que tudo no castelo se tornara mais claro e mais festivo. Dir-se-ia que Ana Mikhailowna tinha remoçado como por encanto. O tio Máximo gracejava muito mais vezes, ainda que de tempos a tempos se ouvisse, através de nuvens de fumo, o seu ronco, semelhante ao rolar duma tempestade, passando ao lado em qualquer parte. Resmungava que certas pessoas tomavam a vida por uma espécie de romance falhado, terminando por um casamento, e insistia no facto de a existência humana encerrar coisas que deviam prender muito mais a atenção do que infelizmente se julgava. O Sr. Popelsky, que entretanto se tornara um homem imponente e quase quadrado, com os cabelos a embranquecerem duma maneira regular e esquisita e o aspecto invariavelmente frio, estava sempre de acordo com o cunhado, de quem aceitava as sentenças, aparentemente por sua própria conta — o que o forçava a entregar-se com mais zelo ainda aos seus trabalhos, que, aliás, caminhavam duma forma irrepreensível. Os rapazes sorriam misteriosamente e tiravam as suas conclusões. Duma maneira ou doutra, toda a gente era de opinião de que Pedro devia continuar os estudos musicais.

Num dia de Outono, na época em que as colheitas terminam e em que o «Verão feminino» [2] flutua, preguiçoso e lânguido, no ar que ele tecia de numerosos fios de ouro, toda a família Popelsky foi de visita a casa dos Stawroushinkos. O domínio destes encontrava-se a cerca de 70 verstas do castelo Popelsky, mas a paisagem desta região era completamente diferente: os últimos contrafortes dos Carpatos, visíveis ainda nos distritos de Volínia e nas regiões banhadas pelo Bug, já se não viam e cediam o lugar às estepes ucranianas. Ao longo destes vales acidentados, cortados aqui e ali por profundas ravinas, estendiam-se, perdidas entre jardins e hortas, muitas aldeias, separadas na sua maior parte por altos cabeços, que se desenhavam nítidos no horizonte, e rodeados de medas de feno, já meio amareladas.

A família Popelsky não estava nada habituada a este género de viagem relativamente longa. Fora da sua aldeia e dos campos vizinhos, que conhecia perfeitamente, Pedro perdia o pé e tinha uma consciência mais forte da sua cegueira, tornando-se inquieto e irascível. Entretanto, desta vez tinha aceite voluntariamente o convite dos Stawroushinkos. Depois daquela noite inolvidável, no decurso da qual compreendeu a força nascente do seu talento, começou a experimentar um pouco mais de segurança em face do desconhecido sombrio e impreciso que lhe encobria o mundo exterior. Este mistério distante começou mesmo a traí-lo e a tomar cada vez mais lugar na sua imaginação.

Passaram-se alguns dias muito bem. Pedro estava agora mais à vontade entre a mocidade. Escutava com uma atenção ávida o tocar cheio de técnica do jovem Stawroushinko e as suas explicações a respeito do Conservatório e dos concertos na capital. Corava de cada vez que o elogiavam entusiasticamente pela finura do vigoroso, ainda que inculto, sentido musical. Agora já se não escondia nos cantos retirados, mas, como um interessado, tomava parte, com muito tacto, nas conversas gerais. A recente reserva e extrema prudência de Evelina desapareceram igualmente. Estava, pelo contrário, muito alegre, sentia-se perfeitamente à vontade e cativava toda a gente com as explosões inesperadas de alegria encantadora.

Pouco mais ou menos à distância de 10 verstas do domínio estava situado um antigo mosteiro, muito conhecido e célebre em toda a região. Tinha desempenhado em tempos passados um papel muito importante na história do país. Mais duma vez, como um bando de gafanhotos, as hordas tártaras tinham-no cercado e arremessaram-lhe nuvens de flechas. Por vezes, bandos com polacos à mistura escalavam com fúria os muros e, ao contrário dos cossacos, atacavam com uma fúria selvagem a pequena fortaleza, rodeando o mosteiro para dar caça aos intrépidos guerreiros do rei da Polónia. Mas agora as velhas torrinhas esboroavam-se, os muros tinham sido em parte substituídos por sebes ordinárias, tendo o único objectivo, bem modesto, aliás, de defender sobretudo as numerosas hortas do mosteiro contra as invasões do gado dos mujiques. Ao fundo dos largos fossos que costeavam os muros, o milho crescia em abundância.

Por um delicioso dia de Outono, os proprietários do domínio e os convidados partiram para ir ao mosteiro. O tio Máximo e as mulheres tomaram lugar numa grande e velha caleche, que oscilava sobre molas altas. Os rapazes, incluindo Pedro, partiram a cavalo.

O cego montava extraordinariamente bem e com grande desembaraço, habituado desde pequeno a prestar atenção ao bater das patas dos outros cavalos e ao rodar das carruagens que o precediam. Ao vê-lo sentado com tanta segurança e arrogância na sela ninguém adivinharia que este cavaleiro não via o caminho e que se confiava totalmente ao instinto do cavalo. Ao princípio, Ana Mikhallowna voltava-se timidamente, com um enorme receio do cavalo e dos caminhos desconhecidos, mas o tio Máximo olhava-a de lado, com um ar orgulhoso, onde se lia a zombaria terna dum professor seguro da sua arte.

— Ouçam — disse o estudante aproximando-se da carruagem. — Acabo de me lembrar dum túmulo excepcionalmente curioso, cuja história descobrimos nos arquivos do mosteiro. Se quiserem, podemos lá ir. Não é longe daqui, na extremidade da aldeia.

— Diga-me, caro amigo: porque evoca assim connosco tão tristes lembranças? — disse Evelina, gaiatamente. — Não é gentil... bem sabe.

— Responderei à sua pergunta um pouco mais tarde.— E o estudante dirigiu-se ao cocheiro. Vá para o vergel de Ostape.

Dito isto, voltou o cavalo e alcançou a galope os outros cavaleiros.

Passados minutos, quando o carro fazia gemer as rodas na poeira mole e seguia por uma estreita vereda, os rapazes passaram rapidamente à frente e apearam-se dos cavalos um pouco mais longe e prenderam-nos a uns arbustos. Os irmãos Stawroushinkos apressaram-se a ir ao encontro das senhoras, para as ajudarem a descer da carruagem. Pedro conservou-se no mesmo lugar, encostado ao arção da sela, e de cabeça inclinada, segundo o seu costume, procurava, tanto quanto possível, definir a sua posição neste sítio desconhecido.

Para ele, este dia cheio de sol de Outono não era senão uma noite profunda, animada e alumiada pelos ruídos estrepitosos do dia. Percebia na estrada o arrastar do carro que se aproximava e as divertidas brincadeiras dos rapazes que corriam ao seu encontro.

Ao lado, os cavalos faziam tilintar as argolas de aço das rédeas, passando a cabeça por cima da sebe, para atingir a erva alta da horta. Em qualquer parte, nas proximidades, partindo, evidentemente, do jardim, ressoava uma canção suave, lânguida, que parecia ondular nas asas da brisa. As folhas sussurravam; uma cegonha gritava com voz rouca; um galo, lembrando-se de repente de qualquer coisa, soltou um grito fora de horas e sacudiu as asas com agitação; a roldana dum poço chiava, queixosa, e todos os sons demonstravam que os trabalhos quotidianos tinham atingido a sua plenitude.

Realmente tinham parado junto da vedação do último jardim da aldeia. Entre os mais distantes ruídos, distinguia-se o som pausado e cadenciado do relógio do mosteiro, de timbre forte e agudo. Por efeito deste som ou do ruído do vento, ou talvez por outro sinal desconhecido, Pedro sentia que lá em baixo, por detrás do mosteiro, o terreno começava a baixar, a descer talvez na direcção dum rio, e que na outra margem se estendia, a perder de vista, um vale povoado de murmúrios indistintos. Mal perceptíveis na tranquila vida diária, estes murmúrios chegavam-lhe em trinados fracos, proporcionando-lhe, entretanto, uma noção velada, pouco firme, estritamente auditiva, dum ambiente estranho. É assim que nós vemos os lugares remotos na névoa delicada do entardecer.

O vento agitava-lhe a madeixa de cabelo que se lhe escapava do chapéu e assobiava-lhe por detrás das orelhas, como o canto contínuo e prolongado duma harpa eólia. Reminiscências vagas erravam-lhe na memória, e momentos da sua infância passada, que a imaginação arrancava às recordações de outrora, ressuscitavam sob a forma de sopros, de carícias, de sons...

Parecia-lhe que este vento, misturado com o tilintar abafado dos sinos e com bocados da canção, lhe contava uma velha e triste lenda do passado deste país ou do seu próprio passado, ou, quem sabe?, do seu futuro sombrio e incerto.

Um minuto depois chegou o carro. Todos desceram e passaram por uma brecha da cerca, dirigindo-se para o pomar. Lá, num canto abandonado, coberto de altas ervas bravas, jazia uma ampla pedra de cantaria, que estava enterrada quase por completo no solo. Folhas verdes de bardana, com flores de rosa escarlate, nigelas desenvoltas, de haste fina, surgiam das ervas balouçando ao vento, e Pedro percebia o seu murmúrio vago por cima do túmulo meio dissimulado pela vegetação espessa.

— Não há muito que descobrimos a existência deste monumento — disse o filho de Stawroushinko. — E, contudo, sabem quem repousa ali? O célebre cavaleiro, o velho guerreiro Inácio Kary.

— Então é aqui que repousam os restos desse velho bandido?!— disse o tio Máximo com ar pensativo. — Mas como se encontra o seu corpo aí? Eis o que eu não consigo compreender!

— Em 18... os cossacos, ajudados pelos Tártaros, sitiaram este mosteiro, ocupado por tropas polacas. Sabe bem que os Tártaros foram sempre considerados aliados perigosos.

E possível que os sitiados conseguissem corromper um chefe tártaro; mas, fosse como fosse, sabe-se que, numa noite, Tártaros e Polacos atacaram juntos os cossacos. E foi justamente aqui, em Kolodnia, que se deu um recontro formidável. Se me não engano, os Tártaros foram completamente derrotados. Mas os cossacos perderam os seu chefe na batalha. Há nesta história uma outra personagem— continuou o rapaz, sempre pensativo —, mas seria trabalho perdido procurar aqui outro túmulo. Segundo as velhas memórias que encontrámos no mosteiro, ao lado do chefe Kary foi enterrado um jovem tocador de bandurra... um cego, que o acompanhava em todas as campanhas... —-

— Um cego... que tomava parte em campanhas? — bradou, horrorizada, Ana Mikhailowna, afigurando-se-lhe subitamente o filho a participar numa terrível batalha nocturna.

— Sim, um cego. Era um cantor célebre, conhecido em toda a Ucrânia. As memórias de que há pouco lhes falei confirmam, pelo menos, a minha suposição. Esperem! Parece-me que conheço de cor a página que se refere ao assassínio do cego.

«E, ao mesmo tempo, morreu lurko, célebre poeta cossaco, que nunca abandonava Kary, de quem era profundamente amado. Os inimigos pagãos mataram lurko, e duma maneira horrível, sem perdoar ao seu grande talento de poeta e de músico. Ainda que ele tocasse com tanta sensibilidade que teria sido capaz de enternecer os lobos nas estepes, os hereges não tiveram piedade e massacraram-no, durante o ataque nocturno. Jazem ao lado um do outro, o poeta e o cavaleiro, e possa Deus conceder-lhes uma memória eterna. Ámen!»

— A pedra é bastante larga — diz alguém. É possível que lá repousem os dois.

— Talvez, mas a infelicidade é que as inscrições que nela estão gravadas se encontram estragadas pelos musgos. Olhem, pode ainda distinguir-se o bastão do comando e o bastão de hetman [3] mas tudo o mais está completamente verde, por causa dos líquenes.

Esperem! — exclamou de repente Pedro, que escutara a descrição com emoção surpreendente.

Aproximou-se do túmulo, inclinou-se sobre ele e os seus dedos delicados fixaram-se sobre a camada verde dos líquenes que cobriam a laje. Através das plantas, tacteou as saliências duras da pedra. Permaneceu assim um bocado, de cabeça erguida, as sobrancelhas carregadas. Depois começou a ler: «Inácio, chamado Kary... nascido em... abatido por uma flecha... atirada por um arco tártaro».

— Nós também podemos ler isso — disse o estudante —, mas quanto às palavras que se seguem...

Contudo, os dedos do cego, extremamente tensos, com as articulações dobradas, desciam mais:

— « ... ímpios mataram...»

— «... lurko e duma maneira horrível...» — continuou vivamente o estudante. — São justamente as mesmas palavras que encontramos na descrição da morte de lurko. Então, é verdade, também ele jaz sob esta pedra.

— ... Sim «...os exércitos pagãos» — leu Pedro. — A seguir não há mais nada... Não, não, esperem: «... massacrados pelos sabres tártaros...» Parece que há ainda uma palavra... Não, não há mais nada.

Na verdade, a recordação inteira do grande tocador de bandurra perdia-se na lepra enorme da laje, que contava mais de cento e cinquenta anos de existência.

Durante alguns instantes reinou um profundo silêncio, quebrado somente pelo ruído da folhagem. Foi subitamente cortado por um suspiro lento, cheio de respeito e veneração. Era Ostape, o proprietário do jardim, e que, partindo da última morada do velho hetman, se tinha aproximado dos visitantes inesperados e mirava, com um espanto indescritível, este homem novo de olhos parados e erguidos para o céu, que decifrava, apalpando, as palavras gastas pelas chuvas e pelos ventos e inacessíveis àqueles que viam, durante séculos inteiros...

— Só o bom Deus... — disse ele, fixando Pedro com respeito... — Deus faz milagres e faz ler a um cego aquilo que os que vêem não puderam ler com os seus olhos.

— Compreende agora, querida menina, porque me lembrei de Iurko, o tocador de bandurra? perguntou o estudante quando o carro retomou o caminho pela estrada poeirenta em direcção ao mosteiro. — Meu irmão e eu admirávamo-nos de como um cego pudesse acompanhar Kary com as suas tropas, tão ágeis como hábeis. Na generalidade, os tocadores de bandurra eram velhos cegos, muito pobres, que só possuíam os seus alforjes e as suas canções e que erravam de aldeia em aldeia, de burgo em burgo. E só hoje, quando vi o seu amigo Pedro a cavalo, me surgiu repentinamente na imaginação a figura de lurko, o cego, sobraçando a bandurra em lugar duma espingarda e cavalgando atrás do chefe. É bem possível que tivesse participado em combates — continuou o rapaz, como num sonho. — Não há dúvida nenhuma de que, quanto às campanhas e aos perigos, partilhava deles com todos os camaradas... Oh, meu Deus, que belas horas vivia a nossa Ucrânia!

— Era terrível! — suspirou Ana Mikhallowna.

— Era esplêndido! — ripostou o jovem visionário.

— Agora nada resta! — declarou Pedro num tom decisivo, aproximando-se do lado da carruagem. Alteando as sobrancelhas e aplicando o ouvido ao passo dos cavalos vizinhos, obrigou o seu a regular-se pela caleche. — Tudo agora desapareceu — repetiu ele.

— O que foi condenado a desaparecer desapareceu — declarou o tio Máximo, num tom estranhamente frio. — Eles viviam à sua maneira, vós viveis à vossa, eis tudo.

— O senhor não se arrisca a nada agora — respondeu o estudante. — Já tomou da vida tudo o que ela lhe podia dar. Nós é outra coisa.

— É bem verdade, a vida deu-me tudo e tudo me tirou — disse, sarcástico, o velho garibaldino, olhando as muletas. E depois dum curto silêncio acrescentou: — Há muito tempo, também eu aspirava a tomar parte em batalhas, sonhava com a poesia furiosa das lutas e com a liberdade completa do espírito... Parti mesmo para a Turquia, onde Tchaikovsky, nosso compatriota, queria organizar um estado cossaco, completamente independente...

— E depois? — perguntaram vivamente os rapazes.

— Depois... curei-me, e bem depressa. Curei-me desde que vi «os livres cossacos» servir o despotismo turco. Uma mascarada histórica e uma escroquerie política foi tudo o que verifiquei. Então parti para a Itália. Sem mesmo conhecer a língua dos Italianos, estava pronto a morrer pelo seu ideal.

O tio Máximo falava com ar seríssimo, com uma sinceridade grave. Habitualmente não partilhava das discussões de Stawroushinko pai com os filhos, contentando-se em sorrir, duma forma complacente, em resposta aos apelos dos rapazes, que o consideravam seu partidário. Mas agora, arrastado pela evocação do drama patético, chamado tão subitamente para junto da velha pedra alcatifada de musgo, sentiu que este episódio, exumado de tempos passados e esquecidos, tocava profundamente, por causa de Pedro, num presente bem vivo.

Desta vez os rapazes, não o contradisseram em nada. Não se poderia dizer se estavam impressionados pelas comoções que acabavam de passar ao lado deste túmulo no jardim de Ostape ou se se inclinavam diante da sinceridade convincente do velho veterano.

— Então que nos resta fazer? — perguntou o estudante, depois de uma pausa impressionante.

— Sempre a mesma luta eterna, eis o que lhes resta.

— Mas onde? Sob que formas?

— Procurem! — respondeu laconicamente o tio Máximo.

Desde o momento que ele tinha abandonado o tom normalmente trocista, estava, sem dúvida, pronto a continuar a discussão; mas já não havia tempo para isso... O carro parava diante da portaria do mosteiro e o estudante, inclinando-se ligeiramente, segurou pela rédea o cavalo de Pedro, que reflectia no rosto, como uma alma humana entreaberta, uma emoção profunda...

No mosteiro visitava-se geralmente a igreja e subia-se à torre, donde se desfrutava um panorama tão vasto como magnífico.

O sol começava já a esconder-se quando o pequeno grupo se aproximou da porta fechada da torre do sino. O tio Máximo ficou no patamar duma das células. Novo e franzino, um irmão converso, vestido de sotaina e com um capuz, conservava-se sob a abóbada, apoiado com uma das mãos à fechadura da porta cerrada. Perto dele, como um bando de pássaros espavoridos, agrupava-se um rancho de crianças. Era claro que um incidente desagradável se acabava de passar entre o jovem converso e o grupo das crianças. Da sua posição belicosa e da maneira de se apoiar à fechadura deduzia-se facilmente que os pequenos desejavam subir ao sino atrás dos visitantes, mas que o monge não consentia em tal. Estava pálido e irritado e só as maçãs do rosto estavam coradas.

Os olhos do noviço feriam pela sua estranha imobilidade. Ana Mikhailowna foi a primeira a notar a expressão daquela figura e desses olhos, e com um gesto nervoso agarrou na mão de Evelina.

— Um cego! — murmurou a rapariga ligeiramente assustada.

— Chut! — respondeu a mãe. — Também vês?

— Sim. Era difícil não dar pela semelhança flagrante do frade com Pedro. A mesma palidez nervosa, as mesmas retinas puras, mas imóveis, o mesmo movimento agitado das sobrancelhas, estendendo-se a todo o ruído novo e agitando-se por cima dos olhos, como as antenas dum insecto amedrontado.

As feições eram mais grosseiras e o corpo mais anguloso; mas a semelhança acentuava-se cada vez mais. Quando ele tossiu, com uma tosse cavernosa e alquebrada, segurando com as mãos o peito dobrado, Ana Mikhailowna fixou-o com os olhos muito abertos, como se um fantasma surgisse na sua frente.

Depois que a tosse se acalmou, o irmão converso abriu a porta e, parando no patamar, perguntou, com voz trémula e débil:

— Não há garotos? Ide-vos embora, canalhas! — gritou, parecendo que se atirava na sua direcção. E, depois de ter feito passar as visitas, disse, num tom ávido e velhaco:

— Querem dar qualquer coisa ao sineiro? Cuidado... não tenham pressa... aqui é escuro.

Todos principiaram a subir. Ana Mikhailowna, que hesitava nesse momento em trepar a escada, muito escarpada e incómoda para si, seguiu por fim, docilmente, os companheiros.

O sineiro cego fechou a porta atrás deles. A luz desapareceu, e só passados instantes Ana Mikhailowna, que ia mais atrasada, enquanto os mais novos, saltando e atropelando-se, escalavam as espirais difíceis da escada em caracol, conseguiu ver um fiozinho vago de claridade turva, através duma fenda longitudinal, na larga parede de pedra. Sob este raio carinhoso brilhavam fracamente algumas pedras poeirentas, dum tamanho irregular.

— Tio! Eh, eh... tiozinho, deixe-me passar! — gritavam de fora as vozes franzinas das crianças. — Deixe-nos passar... Seja gentil, tiozinho...

O sineiro, arreliado, precipitou-se para a porta e pôs-se a bater violentamente com os punhos na dupla porta de ferro.

— Ide embora! Ide embora, rapazes malditos! Que o raio do bom Deus vos fulmine! — gritava, espumando e rouco de desespero.

— O diabo do cego! — responderam num grito algumas vozes sonoras, pateando muito depressa uma dezena de pés descalços do outro lado da porta.

O sineiro pôs-se à escuta e reteve a respiração.

— Como são espertos, os canalhinhas... os malditos! Que a morte vos leve a todos. — E mudou subitamente de tom. — Ó, meu Deus! ó, Senhor! Porque me abandonaste? — bradou ele com uma voz completamente diferente, onde se denunciava toda a angústia dum homem infinitamente desgraçado.

— Quem está aqui? Porque ficaste aqui? — interpelou ele grosseiramente, chocando com Ana Mikhailowna, que tinha estacado junto dos primeiros degraus.

—Mas...

— Ah! Desculpe! Vá, vá! — ajuntou ele mais docemente. — Espere... Tem para mim... Isto é ... assim... Quer dar alguma coisa ao sineiro?... perguntou com uma voz insinuante e desagradável.

Ana Mikhailowna pegou no porta-moedas e tirou uma nota, que passou, em plena obscuridade, para o cego. Ele agarrou rapidamente no dinheiro da mão da visitante, que, sob a luz turva do raio sempre em movimento, viu o noviço levar o papelinho à face e passar por ele os dedos trémulos. Aquele rosto, iluminado por um clarão misterioso e tão parecido com o de Pedro, crispou-se bruscamente, para reflectir uma expressão de alegria selvagem e sôfrega.

— Obrigado... Agradeço-lhe muito... É dinheiro autêntico... E eu... que julgava que a senhora estava a troçar de mim! Sabe, há pessoas que gostam de arreliar os pobres cegos...

O rosto da pobre mãe estava inundado de lágrimas. Enxugou-as à pressa, à toa, e começou a subir a escadaria. Lá em cima, como uma torrente de água por trás de um muro, retiniam passos sonoros e as vozes animadas do grupo que se tinha adiantado.

Numa das voltas da escada, os rapazes pararam.

Tinham já subido muito alto; e por uma janela muito estreita, com o ar fresco penetrava um feixe de luz mais claro, ainda que bastante disperso. Na parede, relativamente plana e lisa neste sítio, formigavam inscrições. Eram na maior parte assinaturas improvisadas dos visitantes.

Trocando gracejos, os rapazes procuraram nomes de amigos seus.

— E há sentenças! — exclamou o estudante; e leu com um certo esforço: «Muitos são aqueles que começam, mas são poucos os que vão até ao fim...». Trata-se, evidentemente, desta ascensão! — acrescentou em tom de brincalhão.

— Compreenda-o como quiser! — respondeu o sineiro rudemente, desviando a atenção; e as sobrancelhas começaram a agitar-se-lhe, apressadas e inquietas. — Há outros versos, mais abaixo. Deve lê-los...

— Onde? Não vejo versos.

— Então tu dizes que os não há e eu digo que os há. Existem muitas coisas que se escondem aos olhos dos que vêem.

Desceu dois degraus e, depois de ter tacteado com a mão na obscuridade, onde se perdiam já os últimos vislumbres do dia, disse:

— Ei-los. Os versos são muito bonitos, mas, infelizmente, não os poderão ler sem uma lanterna.

Pedro aproximou-se e, apalpando a parede durante uns instantes, encontrou facilmente o aforismo austero, gravado na parede por um homem morto havia talvez mais de cem anos:

Não te esqueças da hora da morte. Não te esqueças do toque da trombeta.
Não te esqueças da separação da vida. Não te esqueças das penas eternas.

— Uma sentença a mais! — tentou brincar o estudante, mas sem êxito.

— Não te agrada, hem? — disse o sineiro maliciosamente. — Sim, decerto, és ainda muito novo... mas apesar disso... nunca se sabe. A hora da morte vem como um ladrão na noite. Não, os versos são muito bonitos — acrescentou com uma voz diferente. — «Não te esqueças da hora da morte...». Pois é... espera-nos lá em cima qualquer coisa — concluiu num tom maldoso.

Mais uns degraus e toda a gente saiu para o primeiro patamar da torre. Lá estava-se já a uma altura elevada, mas uma abertura na parede conduzia, por uma passagem mais incómoda, ainda mais longe. Abria-se da última plataforma uma vista larga e esplêndida. O sol descia para o ocidente, aproximando-se cada vez mais do horizonte; em baixo, em traços longos, apareciam as sombras e as cores crepusculares; uma enorme e pesada nuvem parara a leste; os longes perdiam-se nos véus da noite e somente aqui e ali — aliás muito raramente — os raios oblíquios do poente arrancavam às penumbras azuis, quer a parede rebocada duma isba branca, quer uma janela brilhante como um rubi, quer uma centelha vivíssima na cruz duma torre distante.

Todos se calaram. Um vento alto, puro, livre de eflúvios terrestres, soprava pelos orifícios, agitava as cordas e penetrava até aos sinos, tirando deles às vezes ecos contínuos, estranhamente sonoros. Os sinos respondiam com um ruído profundo de metal, nos quais o ouvido surpreendia qualquer coisa apenas perceptível, como uma música longínqua e imprecisa ou os suspiros melancólicos do cobre. O panorama que em baixo se estendia estava impregnado duma paz imperturbável e duma calma serena.

Mas o silêncio que se estabeleceu entre a reduzida sociedade tinha ainda outra causa: impelidos pelo mesmo impulso, decerto devido à altura em que se encontravam e à sensação da sua mútua fraqueza perante os elementos, os dois cegos aproximaram-se das extremidades da balaustrada, apoiaram-se nas mãos e voltaram o rosto na direcção donde vinha o vento suave da tarde.

Agora a semelhança era impressionante e chamava a atenção de todos. O sineiro era um pouco mais velho; a larga sotaina caía-lhe em pregas ao longo do corpo magro e descarnado. As suas feições eram mais grosseiras e mais duras que as de Pedro. Depois dum exame mais atento, notava-se facilmente a diferença. O sineiro era louro e tinha o nariz um pouco corcovado e os lábios mais delgados que os de Pedro. Já tinha bigode e uma barbicha crespa ornava-lhe o queixo. Mas nos gestos, nas comissuras nervosas dos lábios, no movimento incessante dos sobrolhos, notava-se aquela analogia mil vezes estranha, aquela espantosa semelhança, que faz que todos os corcundas se pareçam como irmãos.

O rosto de Pedro era mais calmo. Seduzia pela expressão duma tristeza habitual, que na figura do sineiro era substituída por uma irascibilidade que se denunciava e mesmo pela maldade. Mas também ele, aliás, se acalmava pouco a pouco. O sopro igual do vento parecia varrer-lhe da fronte todas as rugas, todos os cuidados, e saturá-lo da calma delicada de que estava banhada toda a natureza roubada aos seus olhos mortos. As sobrancelhas animavam-se cada vez menos...

Mas eis que de novo palpitam nos dois simultâneamente, como se ouvissem um som vindo do Vale, e ainda imperceptível para todos.

— Estão a tocar! — disse Pedro.

— É a quinze verstas daqui — explicou o sineiro —, na Igreja de S. Jorge; tocam lá as vésperas sempre meia hora mais cedo que nós. Ouve tocar? Eu também. Mas os outros não ouvem nada. — E acrescentou com ar melancólico, depois dum curto silêncio: — Está-se bem aqui. Sobretudo nos dias de festa. Já me ouviu alguma vez tocar?

Uma vaidade ingénua ressoou na sua pergunta.

— Venha um dia ouvir-me tocar... O padre Panfílio... Não conhece o padre Panfílio? Bom. Ele mandou vir expressamente para mim estes dois pequenos sinos.

Dizendo isto, abandonou a parede e com mão amorosa acariciou dois sinos que não tinham tido tempo de ser empanados como os outros.

— Como tocam bem estes sininhos! Como eles cantam, como eles cantam bem! Sobretudo na véspera da Páscoa.

Agarrou no extremo da corda pendente e, num movimento rápido de dedos, produziu nos dois sinos como que o rufar de tambor, surdo e melodioso. As pancadas dos badalos foram tão fracas e tão nítidas que toda a gente ouviu o tinido, mas os sons não ultrapassaram decerto a plataforma da torre.

— E este — mostrou o sino grande — faz: «Bou-ouk! Bou-ouk! Bou-ouk!».

O rosto resplandecia-lhe já duma alegria a que se misturava, todavia, uma expressão dolorosa que causava grande pena.

— O padre Panfílio mandou vir os sinos — disse com um suspiro —, mas não pensa em me fazer uma peliça nova. É muito avarento. E, contudo, faz bem frio na torre, sobretudo no Outono... Oh, que frio lá faz!... — Parou e, escutando, disse : — O coxo chama-vos lá em baixo. Vão, que é tempo.

— Vamos — disse Evelina, que foi a primeira a levantar-se. E continuou a fitar o sineiro com um olhar fixo, como se estivesse enfeitiçada.

Os rapazes tomaram o caminho da saída. O sineiro ficou em cima. Pedro, depois de ter andado alguns passos atrás da mãe, parou bruscamente.

— Desçam — disse num tom imperativo —, irei ter já com vocês.

Os passos deixaram de se ouvir. Só Evelina, deixando passar Ana Mikhailowna, ficou no mesmo lugar e, sem quase respirar, colou-se contra a parede.

Os cegos julgaram-se sozinhos na torre. Durante alguns instantes permaneceram imóveis, constrangidos, escutando alguma coisa.

— Quem está aí? — perguntou enfim o sineiro.

— Eu...

— Tu também és cego? —

— Sim, cego. Há muito tempo que perdeste a vista? — interrogou Pedro.

— Nasci cego — respondeu o sineiro. — Temos cá um outro; chama-se Roman... Perdeu a vista aos sete anos. E tu, sabes distinguir o dia da noite?

— Sim, sei.

— Eu também. Sinto perfeitamente quando ele principia a romper. Roman não, e, contudo, devia ser-lhe mais fácil.

— Porquê? — perguntou vivamente Pedro.

— Porquê? Não deduzes porquê? Ele viu o dia e lembra-se da mãe. Compreendes... adormece, por exemplo, e eis que a mãe vem ao pé dele, visitá-lo, à noite. Mas agora é velha, enquanto ele a vê sempre nova. E tu tens sonhos?

— Não — respondeu surdamente Pedro.

— Ora vê lá! São somente os que perderam a vista que podem ainda sonhar. Mas nós, os cegos de nascença, é outra coisa...

Pedro permanecia triste, sombrio, como se uma nuvem o envolvesse. As sobrancelhas do sineiro ergueram-se subitamente por cima dos olhos, nos quais Evelina viu a expressão do sofrimento dos cegos, que ela conhecia.

-Ó, Senhor!, Virgem Santa, faz-me ver o dia alegre, nem que seja uma vez só! — bradou de repente o sineiro.

Mas a face crispou-se-lhe e ele repetiu, com ar colérico e cheio do fel que lhe era familiar:

— Não, não, nunca... nunca me concederão isso. Oh! Sim, acontece-me por momentos começar sonhos; então qualquer coisa brilha ao longe e desaparece imediatamente. Mas quando acordo não me lembro de nada.

Parou e aplicou o ouvido. Empalideceu e uma expressão convulsiva, maldosa, contraiu-lhe as feições.

— Deixaram entrar os monstrozinhos — disse ele malevolamente.

Com efeito, de baixo, da passagem estreita, como um rumor de enchente, subiam passos e gritos infantis. Num instante cessou tudo; a turba de gaiatos chegava, evidentemente, à plataforma do meio e todo o alarido se espalhou para fora. Mas imediatamente na galeria escura começou o estrondo, como num tubo de órgão, e um enxame gárrulo de crianças, correndo o mais que podia, passou como um relâmpago na frente de Evelina. Os garotos pararam um momento no último degrau e depois alinharam na frente do sineiro cego, que, com o aspecto alterado pelo furor, arremessava à toa os punhos fechados, esforçando-se por atingir os invasores.

De repente surgiu na obscuridade da abertura uma nova personagem. Era, sem dúvida, Roman. Tinha um rosto largo, bondoso, desfigurado pelas bexigas. As pálpebras descidas dissimulavam as órbitas vazias e bailava-lhe nos lábios um sorriso bondoso. Passando diante da rapariga escondida contra o muro, subiu à plataforma. O braço levantado do camarada caiu-lhe justamente sobre a nuca.

— Irmão! — exclamou ele numa voz agradável e bem timbrada. — Jorge, estás sempre em pé de guerra.

Encontraram-se e apalparam-se um ao outro.

— Porque deixaste passar estes monstrozinhos? — interpelou-o Jorge, em ucraniano, a voz ainda trémula de cólera.

— E porque não? — respondeu Roman, imperturbavelmente complacente. — São avezinhas do Senhor... Porque lhes ralhas sempre? Não é preciso, meu pequeno, não é preciso... Onde estais vós, os monstros?

Os garotos, muito calados, agachavam-se nos cantos, perto das grades, e os olhos brilhavam-lhes de malícia e, em parte, de medo.

Evelina, caminhando sem barulho na sombra, acabava de descer até metade da primeira escadaria quando os passos firmes dos dois cegos ressoaram por detrás dela e no alto se ouviram guinchos furiosos e os gritos das crianças que tinham atacado em bando Roman, que ficara na última plataforma.

Os visitantes saíam do portão do mosteiro quando retiniu a primeira pancada do sino. Era Roman que tocava as vésperas.

Tinha-se posto o Sol. O carro rodava ao longo dos campos que escureciam, acompanhado pelos toques do sino, iguais e melancólicos, que morriam, desfalecidos, nas sombras azuladas do crepúsculo.

Quase todos se conservaram silenciosos até chegarem a casa. À noite notaram repentinamente que Pedro não estava presente. Estava sentado em qualquer parte, num canto escuro do jardim, e não respondia sequer às chamadas de Evelina. Entrou às apalpadelas no quarto quando já todos estavam deitados.

Os Popelsky passaram ainda uns dias em casa dos Stawroushmkos. Uma vez por outra reaparecia o bom humor em Pedro, que mostrava então um ar animado e mesmo alegre; tocava em vários instrumentos, de que o filho mais velho de Stawroushinko possuía uma colecção bastante considerável, e isso prendia muito a atenção do cego. Entretanto, a disposição taciturna predominava e os períodos de animação pareciam ser curtas crises no fundo geral, que se tornava cada vez mais negro.

Como se fosse de comum acordo, ninguém fazia alusão ao episódio do mosteiro. Parecia que esta parte do divertimento tinha desaparecido da memória e estava completamente esquecida.

Todavia, era fácil verificar que a sua recordação estava profundamente radicada no coração do cego. Todas as vezes que ficava sozinho, quando dominava um silêncio geral ou, enfim, quando não prestava atenção nenhuma as conversas dos outros, Pedro caía em meditação e um ar de desgosto amargo obscurecia-lhe o rosto. Era uma expressão muito conhecida de todos, mas, agora, acentuava-se cada vez mais, fazendo lembrar terrivelmente a do sineiro cego.

Sentado ao piano, no mais aceso da inspiração, introduzia muitas vezes notas que lembravam o delicado repique dos sinos e os suspiros requebrados do cobre do campanário. E se ninguém se atrevia a falar, saltavam, no entanto, claramente, à imaginação de cada um as passagens obscuras, a pancada delicada do sineiro, com cor de tuberculoso, os seus gritos maldosos e os seus lamentos amargos contra o destino. E, a seguir, os dois cegos na mesma posição de atalaia.

O que os pais e amigos de Pedro tomavam como o carácter individual eram já os traços comuns dos cegos, impondo a marca misteriosa, igual para todas as vítimas.

— Escuta, Ana — perguntou o tio Máximo à irmã, quando regressaram a casa —, não sabes o que aconteceu durante a nossa viagem? Noto que o nosso rapaz mudou duma forma terrível nestes últimos dias. O que há?

— Ah! Tudo isso são consequências do encontro com o cego — respondeu Ana Mikhailowna num suspiro.

Muito recentemente tinha ela enviado ao mosteiro duas peliças de pele de carneiro, dinheiro e uma carta dirigida ao padre Panfílio pedindo-lhe que amenizasse a sorte dos dois cegos. Geralmente, ela tinha bom coração e era muito generosa; mas primeiro tinha-se esquecido por completo da existência de Roman, e foi preciso Evelina lembrar-lhe que era necessário cuidar dos dois desgraçados.

«Ah! Sim, sim, bem entendido!», respondera Ana Mikhailowna; mas era evidente que tinha o espírito ocupado por qualquer outra coisa. Misturava uma espécie de sentimento supersticioso com a sua ardente compaixão. Parecia-lhe que este acto de caridade ajudaria a afastar uma força tenebrosa, que já estava suspensa, como uma sombra negra, por cima da cabeça do seu filho.

— Com qual cego? — perguntou o tio Máximo, muito admirado.

— Com aquele... da torre...

O tio Máximo deu com a muleta uma pancada feroz.

— Oh! Ai, ai, que desgraça ser um mutilado sem pernas! Esqueces, evidentemente, que eu não subo às torres dos sinos! Será realmente possível entendermo-nos com as mulheres? Evelina, minha amiga, fazes favor de me contar convenientemente o que se passou na torre.

— É que... — respondeu baixinho a rapariga, que também perdera as suas cores havia alguns dias — ...é que há lá um sineiro cego. E ele...

Estacou. Ana Mikhailowna cobriu com as mãos a face ardente, coberta de lágrimas.

— E ele... parece-se muito com Pedro.

— Mas vocês não me disseram nada! E então? Não vejo ainda explicação suficiente para esta cena trágica. Ana, escuta... — disse ele num tom de doce censura.

— Ah! É terrível! — respondeu Ana Mikhailowna, com voz abafada.

— Mas o que é terrível? Que ele se pareça com o teu filho?

Evelina lançou um olhar significativo ao velho e ele calou-se. Alguns minutos depois, Ana Mikhailowna saiu e Evelina ficou com o seu inseparável trabalho entre mãos.

— Não me disseste tudo? — perguntou o tio Máximo, depois de um silêncio de alguns segundos.

— Sim... Quando todos desceram, Pedro ficou lá em cima. Pediu à tia Ana (era assim que ela tratava sempre Mme Popelsky) que seguisse o grupo e que ele ficasse sozinho com o cego. Mas eu... eu também fiquei.

— Para os espiar? — interrogou o velho pedagogo, quase maquinalmente.

— Não pude ir-me embora — respondeu Evelina. — Eles conversavam como...

— Como companheiros de desgraça?

— Isso... como cegos. Depois Jorge perguntou a Pedro se via a mãe em sonhos. Pedro respondeu: «Não!». Jorge também nunca vê a mãe. Mas há ainda outro cego, Roman, que vê a mãe em sonhos, inteiramente jovem, se bem que ela já seja velha...

— Bem. E então?

Evelina ficou pensativa e depois, erguendo para o velho os seus olhos azuis, onde se lia ao mesmo tempo o sofrimento e a luta, disse:

— O outro cego, Roman, é muito gentil e calmo. Tem um aspecto triste, mas nada maldoso. Nasceu com vista. Mas o outro... sofre horrivelmente — disse ela mudando bruscamente de tom.

— Fala-me francamente, peço-te — interrompeu, impaciente, o tio Máximo. — O outro encoleriza-se?

— Sim. Quis bater nas crianças e injuria-as constantemente. Quanto a Roman, os garotos gostam dele, evidentemente.

— Ele é mau e parece-se com Pedro... Sim, compreendo — disse o tio Máximo com ar meditativo.

Evelina calou-se uns instantes e em seguida, como se as palavras lhe custassem uma luta interior extremamente violenta, disse baixinho:

— Não se parecem na cara... As feições são completamente diferentes. Afigurava-se-me ao princípio que a expressão de Pedro era antes a mesma de Roman, mas agora... vejo cada vez mais que ele se parece com o outro... e ainda... receio, creio...

— Que receias tu? Vem cá, criança sensata— disse o tio Máximo com uma ternura extraordinária.

E quando, desfalecendo sob esta inesperada carícia, Evelina se aproximou dele com as lágrimas nos olhos, passou-lhe a mão grande pelos cabelos macios e disse-lhe:

— Então, que pensas tu? Dize, querida. Vejo que sabes discorrer.

— Penso que ele supõe agora que todos os cegos de nascença são ruins... e que... ainda está persuadido de que também ele o é, infalivelmente. .

— Ah... Essa agora! — bradou o tio Máximo, erguendo a mão. — Fazes favor, minha querida, de me chegar o cachimbo. Está no parapeito da janela.

Instantes depois espalharam-se por cima da sua cabeça espirais azuis de fumo de tabaco.

— Sim, é uma infelicidade — murmurava ele em aparte. — Enganei-me. Ana tinha razão: pode-se sofrer muito e entristecer-se a gente por aquilo que nunca se experimentou. Doravante a consciência juntar-se-á ao instinto. É um caso verdadeiramente infeliz. Além disso, é fatal, não há fumo sem fogo. Este dia havia de chegar, cedo ou tarde.

Desapareceu por completo na nuvem azul e negra.

Na cabeça do velho mutilado agitavam-se ideias novas, decisões imprevistas.

Chegou o Inverno. A neve espessa cobriu as estradas, os campos, as aldeias. O castelo estava branco; grandes flocos graciosos acumulavam-se nas árvores, dando a impressão de que o jardim desabrochava em flores brancas. O fogo granizava no grande fogão e todos os que vinham do pátio traziam o cheiro e a frescura da neve macia.

O cego compreendia à sua maneira a poesia do primeiro dia de Inverno. Ao acordar experimentava sempre a impressão duma força inteiramente particular e percebia a chegada do Inverno no bater característico dos pés das pessoas que entravam na cozinha, no ruído das portas, nos eflúvios ligeiros que invadiam a casa toda, no ranger das botas no pátio, na frieza singular de todos os sons exteriores. E quando partia para os campos na companhia de Jokhime escutava com delícia os rangidos sonoros do trenó escorregando na neve inviolada e os estalidos ressoantes que trocava a floresta da margem oposta com a estrada larga e o campo.

Desta vez, o primeiro dia branco não lhe trouxe senão uma melancolia mais profunda do que nunca. Tendo calçado de bom humor as botas altas, saiu para o pátio e, deixando para trás um sulco ligeiro, dirigiu-se para o moinho, por veredas cobertas de neve.

Uma calma absoluta reinava no jardim. O solo gelado, coberto dum tapete suave e compacto, estava silencioso e não devolvia eco nenhum. Em compensação, o ar estava particularmente ressoante e repercutia, mais claramente e mais plenamente do que nunca, os gritos da pega, os golpes do machado e o fraco estalido dum ramo que se quebrava subitamente. De tempos a tempos distinguia-se um som estranho, que parecia produzido pela vibração dum vidro frágil. O ruído subia a alturas inconcebíveis e dir-se-ia morrer nos longes inacessíveis. Eram garotos que atiravam pedras ao tanque da aldeia, coberto pela delgada camada do primeiro gelo.

O tanque do castelo estava também gelado; mas o riacho junto do moinho, que se tornara lento e mais negro que o costume, filtrava ainda entre as margens lanuginosas e murmurava nos açudes.

Pedro aproximou-se do dique e parou. O sussurro da água era já diferente, mais pesado, sem melodia. Parecia que o frio dos arredores adormecidos o tinha invadido.

Também na alma de Pedro fazia frio e havia sombra. O sentimento perturbador que, desde a reunião daquela noite feliz e inolvidável, se duplicara, no seu íntimo, de dúvida, dum certo descontentamento e de hesitação, tinha já tido tempo de crescer e de ocupar o lugar das emoções e alegrias de outrora.

Evelina estava ausente do castelo. Os laskoulsky tinham partido para casa da velha condessa Potozka, que insistia por que os velhos lhe levassem a filha. Depois de, ao princípio, ter resistido, Evelina satisfez por fim a vontade ao pai, ao qual se tinha aliado com toda a energia o tio Máximo.

Perto do moinho, Pedro recordava-se dos antigos sentimentos, procurava revivê-los em toda a sua plenitude e perguntava a si mesmo se sentia verdadeiramente a falta da sua amiga e companheira. Sim, evidentemente, sentia-a; mas, ao mesmo tempo, verificava que a presença de Evelina lhe não assegurava a felicidade e que, pelo contrário, lhe causava certos sofrimentos que se atenuavam com a separação.

Aos seus ouvidos pareciam ressoar-lhe ainda as palavras que Evelina tinha pronunciado não havia muito tempo. Na memória surgiam-lhe, com nitidez, todos os pormenores da primeira explicação, sentia na mão os seus adoráveis cabelos macios, ouvia ainda no seu peito o palpitar do coração da rapariga. De toda esta cena formava-se ordinariamente uma imagem que o enchia de alegria. Mas nesta ocasião qualquer coisa de amorfo, como um fantasma vago, fez passar sobre esta imagem um sopro mortífero, e ela desapareceu. Não conseguia já reunir as suas recordações nessa plenitude harmoniosa de sentimento, que o tinha enchido de entusiasmo nos primeiros tempos. Ao princípio mesmo, a suspeita duma «outra coisa» conservava-se no fundo desta sensação. Mas agora esta «outra coisa» estendia-se na sua frente, como uma nuvem tempestuosa se estende no horizonte. Extinguindo-se o som da voz de Evelina, abria-se um vácuo onde estavam outrora as recordações brilhantes daquela noite de felicidade. E para preencher esse vácuo subia do fundo da alma do cego um novo sentimento, tão incómodo como penoso.

Agora queria vê-la!

Dantes experimentava apenas uma dor surda, que o inquietava duma maneira imprecisa, que o atormentava como uma dor de dentes a que se não presta senão uma reduzida atenção. O encontro com o sineiro cego tinha comunicado a este mal a aspereza dum tormento reconhecido e definido.

Ele queria ver Evelina!

Assim decorriam os dias no castelo, amortalhados na neve e na quietação.

Quando as recordações de felicidade jorravam, vivas e sonoras, Pedro animava-se um pouco e o seu rosto iluminava-se. Mas isto não durava muito e, sepultados com o andar do tempo, estes minutos claros impregnavam-se mesmo duma característica inquietadora: parecia que o cego receava que eles desaparecessem instantaneamente, para nunca mais voltarem.

Este receio tornava-o desigual; momentos de ternura espontânea e impetuosa e de forte excitação nervosa cediam lugar a dias inteiros de tristeza acabrunhante e sem consolo. À noite, o piano chorava no salão, chorava e saturava o ar duma profunda e dolorosa melancolia, provocando cada som um eco acerbo no coração de Ana Mikhailowna. Enfim, as suas mais pessimistas apreensões realizavam-se: os sonhos aflitivos da infância voltavam a apoquentar Pedro.

Uma manhã entrou a mãe no quarto do filho.

Ele dormia ainda, mas o seu sono era estranhamente perturbado: com os olhos meio fechados, filtrava-se um olhar vago por debaixo das pálpebras soerguidas; o rosto estava pálido e transmitia uma expressão de excitação geral.

Ana Mikhailowna parou e pôs-se a examinar o filho, esforçando-se por descobrir a causa dessa alteração estranha. Mas somente conseguia verificar que a inquietação ia aumentando e que o aspecto de Pedro, adormecido, reflectia cada vez mais uma tensão esgotante.

Subitamente teve a impressão de que um movimento apenas perceptível se produzira ao de cima da cama do filho. Um raio brilhante de sol de Inverno veio bater na parede, justamente no travesseiro de Pedro; depois tremeu ligeiramente, quebrou-se e resvalou mais para baixo. Ainda uma outra vez e ainda... A pequena linha luminosa deslizava docemente, prudentemente, para os olhos, sempre meio cerrados, e à medida que se aproximava a excitação de Pedro aumentava.

Ana Mikhailowna conservava-se imóvel, num estado frisante de pesadelo, e não podia desviar o olhar cheio de pavor daquela pequenina tira reluzente que lhe parecia descer por sacudidelas ligeiras, mas perceptíveis, para o rosto do filho. E este rosto empalidecia cada vez mais, alongava-se, contraía-se numa máscara de feições endurecidas pelo esforço interior. O raio de ouro tocou nos cabelos, iluminou a fronte de Pedro; num gesto instintivo, a mãe lançou-se para a frente, para defender o seu filho, mas as pernas não se mexeram, como que retidas pelo medo. Durante este tempo as pálpebras do adolescente levantaram-se; umas faúlhas brincavam nas retinas imóveis e a cabeça destacou-se nítida no travesseiro, ao encontro da luz. Qualquer coisa como um sorriso — podia mesmo dizer-se como um soluço correu-lhe em convulsão momentânea pelos lábios, e, depois, todo o seu rosto se condensou de novo num élan imóvel.

A mãe conseguiu enfim vencer o entorpecimento que lhe prendia o corpo e, aproximando-se da cama, pousou a mão na cabeça de Pedro. Este estremeceu e acordou.

— És tu, mamã? — perguntou.

Levantou-se. Parecia que uma névoa lhe envolvia a consciência. Mas disse um segundo depois:

— Sonhei novamente. Acontece-me agora muitas vezes, mas não me recordo de nada...

Ao humor desesperadamente melancólico de Pedro sucedia-se uma irritabilidade nervosa. Ao mesmo tempo a acuidade extraordinária das suas sensações aumentava dia a dia. O ouvido estava maravilhosamente apurado; ele sentia a luz com todo o seu ser e demonstrava-o mesmo durante a noite; conseguia distinguir uma noite de luar duma noite escura e acontecia-lhe muitíssimas vezes passear longamente no pátio em plena noite enquanto toda a gente dormia. E, triste e silencioso, entregava-se de corpo e alma à influência singular do luar, sonhador e fantástico. Nesses momentos a sua face pálida voltava-se invariavelmente para o globo de fogo que boiava no éter e os seus olhos reflectiam a luz faiscante dos raios frios.

E quando esse globo, que crescia à medida que se aproximava da Terra, se cobria dum pesado nevoeiro vermelho e se escondia lentamente por detrás do horizonte nevado, o rosto do cego tornava-se mais calmo, mais tranquilo, e ele voltava para o quarto.

Seria difícil dizer em que pensava durante estas compridas noites. Todo o homem que tem uma consciência passa numa certa idade por uma crise moral. Suspendendo-se no limiar da existência cheia de actividade que o espera, esforça-se por definir o seu lugar na natureza, a sua significação, o seu valor, as suas relações e os seus laços com o universo que o rodeia. É uma espécie de «ponto morto» muito perigoso, e feliz é aquele que neste período não provoca um abalo muito violento. Para Pedro, esta crise agravava-se naturalmente muito mais, pois que à pergunta geral: «Para que viver?», juntava-se uma pergunta estritamente pessoal: «Qual a razão de viver para um cego?» E à inquietação provocada por este pensamento lúgubre juntava-se qualquer coisa de estranho, uma espécie de mortificação física produzida por uma necessidade insaciável, que tinha um reflexo tão normal como molesto na formação do seu carácter.

Pouco antes do Natal, os laskoulsky regressaram a casa, e Evelina, com uma animação encantadora e uma alegria juvenil, os cabelos polvilhados de neve e toda penetrada de frescura e de frio, acorreu ao castelo e abraçou com uma impetuosidade violenta Ana Mikhailowna, o tio Máximo e Pedro. No primeiro momento o rosto do cego iluminou-se, como ao sopro duma ventura inesperada; mas pouco depois reapareceu-lhe a expressão de tristeza habitual.

— Parece-te que te amo? — perguntou ele num tom glacial à rapariga, no mesmo dia, logo que ficaram sozinhos.

— Mas, meu pequeno, estou certa disso! respondeu Evelina.

--Pois bem... eu não sei ao certo! — replicou o cego, mais taciturno que nunca. — Não há muito tempo, também eu estava absolutamente seguro de que te amava acima de tudo no mundo; mas agora não sei nada. Deixa-me, atende antes aqueles que te convidam a viver uma verdadeira vida, e fá-lo enquanto não é tarde de mais.

— Porque me atormentas? — queixou-se Evelina docemente.

— Atormento-te, eu? — perguntou Pedro, e de novo uma expressão de egoísmo voluntarioso lhe endureceu a face. — Ah, sim, tens razão, é verdade que te atormento! E fica sabendo que te atormentarei assim sempre, toda a vida, e que não posso comportar-me doutra maneira... não posso deixar de te atormentar. É a minha natureza, que queres tu? Não o sabia eu mesmo, mas sei-o agora. Não tenho culpa. O mesmo destino que me privou da vista, mesmo antes de nascer, pôs-me no coração esta maldade. Nós todos, cegos de nascença, somos assim. Deixa-me, deixai-me todos, porque em troca do vosso amor só vos posso dar sofrimentos. Eu quero ver — compreendes o que te digo? —, eu quero ver e não consigo desembaraçar-me deste desejo. Se pudesse — ainda que fosse uma só vez! — ver o céu, a terra e o sol! Se pudesse ainda, uma vez também, ver a minha mãe, o meu pai, ver-te a ti e ao tio Máximo, seria feliz! Lembrar-me-ia sempre, e traria a recordação nas trevas do resto da minha vida.

Com uma tenacidade verdadeiramente surpreendente, voltava sempre a esta ideia. Desde que ficasse só, tomava nas mãos diversos objectos apalpava-os com uma atenção verdadeiramente extraordinária e depois, pondo-os de lado, esforçava-se por se aperfeiçoar no conhecimento das suas formas. Reflectia igualmente nas diferenças entre as superfícies escarlates e coloridas que, graças à sensibilidade extrema do seu sistema nervoso, ele percebia com a ajuda do tacto. Mas tudo isto penetrava na consciência justamente e unicamente como diferenças, como correlações mútuas de coisas, sem lhe dar a menor noção da substância real dessas mesmas coisas. Presentemente não distinguia um dia de sol da obscuridade nocturna senão pelo efeito da luz, que, impressionando-lhe o cérebro, por vias subconscientes, lhe provocava crises cada vez mais terríveis.

Um dia, entrando o tio Máximo no salão, encontrou lá Evelina e Pedro. A rapariga parecia confusa; o rosto do cego estava carregado.

Parecia, havia algum tempo, que sentia uma espécie de necessidade irresistível de procurar novas fontes de dor e de martirizar os outros tanto como se martirizava a si.

— Ele pergunta-me o que é o «repique vermelho» — disse Evelina ao tio Máximo —, e eu não lhe sei explicar.

— De que se trata? — perguntou Máximo laconicamente a Pedro.

O cego encolheu os ombros.

— Para falar a verdade, nada de extraordinário. Mas desde que os sons têm cores e eu não vejo, resulta daí que os sons e os ruídos não me são acessíveis em toda a sua plenitude. Ora aí está!

— Bagatelas e mais nada! — respondeu o tio Máximo, decisivo. — Tu mesmo compreendes muito bem que isso não é assim ; os ruídos são-te acessíveis numa medida que ultrapassa, e muito, a nossa.

— Mas então esta expressão verbal, que significa? Representa alguma coisa? Sim, ou não?

Máximo ficou pensativo.

— É uma simples comparação — disse por fim. — Dado que o som não é senão o efeito do movimento, como a luz, devem ter os dois muitos traços comuns.

— Bom! De que propriedades naturais se trata nesse caso? — continuou o cego obstinadamente. — «O repique vermelho» o que é?

Máximo recaiu em meditação. Veio-lhe repentinamente ao espírito uma explicação respeitante aos relativos entre os números de vibrações, mas sabia perfeitamente que não era a nada disso que o cego se aferrava. Além disso, dizia-se que aquele que primeiro se serviu do epíteto estritamente visual no domínio auditivo não conhecia seguramente a física. O que não o impedira de apreender uma certa semelhança. Onde residia ela?

Principiou a formar-se no espírito do velho uma imagem.

— Espera — disse ele. — De resto, não sei se conseguirei explicar-te como deve ser. Tu sabes tão bem como eu o que significa «o repique vermelho». Mais de uma vez o ouviste nos dias de festa, mas esta expressão não é corrente no nosso pais.

— Ah, sim, sim, espere! — interrompeu Pedro, e abriu rapidamente o piano. Com mão segura bateu as teclas, imitando o toque majestoso dos sinos. A ilusão era absoluta. Um acorde de algumas sonoridades médias compunha uma espécie de fundo, sobre o qual se destacavam, alegres e saltitantes, notas mais claras e mais rápidas do registo superior. Em suma, era justamente esse canto alto, alegre e excitante que inundava ordinariamente o ar de festa.

— Sim — disse o tio Máximo —, isso assemelha-se muito, e nós, os que vemos, não poderíamos nunca apreender melhor que tu essa parecença. Compreendes, meu pequeno... Quando olho uma grande superfície vermelha, ela produz na minha vista a mesma impressão inquietante que uma coisa que fosse rígida e vacilante ao mesmo tempo. Parece-me que o vermelho muda, conservando sempre o mesmo fundo escuro; eleva-se aqui e ali em manchas mais claras, que se destacam vivamente e tornam a cair igualmente rápidas... Se queres, são ondas que se agitam fortemente sobre a vista, sobre a minha vista, pelo menos.

— Justamente, justamente! — exclamou Evelina. — Também eu experimento a mesma sensação e não posso, por exemplo, olhar durante muito tempo para um tapete de pano vermelho.

— Exactamente como certas pessoas que não suportam o repique de festa. Para que a minha comparação seja satisfatória, ocorre-me ao espírito uma outra. Sabem que existe entre nós ainda uma expressão: «o repique morango», à maneira da cor «morango». Esta aproxima-se do vermelho, mas é mais profunda, mais unida, mais doce. Diz-se entre nós que toda a campainha, depois dum largo uso, soa muito melhor; é que a sua tonalidade perde pouco a pouco as irregularidades que feriam o ouvido ao princípio, e então a campainha produz o som que se chama som «morango». Pode-se chegar ao mesmo resultado escolhendo uma combinação de sinos pequenos de igreja.

Sob os dedos de Pedro o piano ressoou, como uma porção de campainhas de estação telégrafo-postal.

— Não! — disse o tio Máximo. — Eu diria que é vermelho de mais.

— Ah! Cá está! Recordo-me...

E o instrumento pôs-se a vibrar mais por igual. Altos, animados e claros ao princípio, os sons tornavam-se cada vez mais profundos e suaves. Dir-se-ia o tilintar duma escala de guizos, presos ao arco duma tróica russa, correndo numa estrada poeirenta para distâncias desconhecidas, e desaparecendo docemente... sempre mais doce até morrerem as últimas notas no silêncio dos campos sossegados.

— Aí está! — bradou o tio Máximo. — Compreendeste a diferença. Noutro tempo, quando tu ainda eras pequeno, a tua mãe tentou explicar-te as cores pelos sons.

— Sim, eu lembro-me. Porque não nos deixou continuar? Talvez eu conseguisse compreender.

— Não — respondeu o velho mutilado, pensativo —; não, não valeria de nada. Creio, além disso, que a uma certa profundidade da alma as impressões provocadas pelas cores e pelos sons são já uniformes. Lemos frequentemente: «Este homem encara a vida por um prisma cor-de-rosa...» Isso quer dizer que esse indivíduo tem bom humor. A mesma disposição de espírito pode ser criada por um conjunto estudado de sons. Em geral, os sons e as cores são os símbolos dos movimentos mentais.

O tio Máximo acendeu o cachimbo e encarou atentamente o sobrinho. O cego mantinha-se imóvel e escutava avidamente o seu interlocutor.

«Devo continuar?», pensava o velho; mas um instante depois abandonava-se já, como contrariado, ao curso bastante estranho dos seus pensamentos.

— Sim, sim, é bem assim... Ideias singulares me vêm muitas vezes ao espírito. É, na verdade, um facto ocasional que o nosso sangue seja vermelho?

— É vermelho... quente — disse o rapaz, meditativo.

— Justamente — vermelho e quente. A cor vermelha, assim como os sons vermelhos, dão à nossa alma claridade, excitação e impressões de sensibilidade que nós designamos exactamente por «quentes>-., «ardentes», etc... Note-se que os artistas chamam aos tons vermelhos e avermelhados «tons quentes».

O tio Máximo aspirou o fumo, envolveu-se em espirais azuis e continuou:

— Brandindo o teu braço por cima da cabeça, traças um semicírculo. Suponhamos agora que o teu braço é infinitamente longo. Ora, se pudesses fazer um movimento com esse braço desmedido, traçarias um semicírculo nos espaços infinitos. É assim que vemos o hemisfério do céu, que é infinito, azul e puro. Quando o vemos assim, a nossa alma enche-se duma sensação de serenidade e de calma. Mas quando o céu se cobre esta serenidade de alma enfraquece e começa a desaparecer. Sentes a aproximação duma tempestade, não é assim?

— Sim, tenho então uma sensação estranha, como se alguém, ou alguma coisa, me apertasse a alma.

— É isso! Esperamos com impaciência que o azul profundo reapareça por detrás das nuvens. Logo que a tormenta passe, o céu retomará as suas cores. Nós sabemo-lo muito bem, e é por isso que esperamos o fim da borrasca. Portanto, o céu é azul. O mar também é azul quando está calmo. A tua mãe tem os olhos azuis. Evelina também...

— Como o céu... — disse o cego com uma ternura inesperadamente revelada.

— Como o céu, perfeitamente. Os olhos azuis são sinal duma alma serena. E agora queres que te diga duas palavras a respeito da cor verde? O solo é negro. Os troncos das árvores, na Primavera são negros ou pardos; mas desde que os raios claros e quentes do Sol aquecem as superfícies escuras, principiam a crescer ervas verdes e folhas verdes. A verdura tem necessidade de luz e de calor, mas em proporções moderadas. É por isso que a verdura é tão agradável à vista; ela evoca imagens de alegria tranquila, de saúde, mas não as das paixões e do que a gente chama felicidade. Compreendeste?

— Não! Isso não é suficientemente claro. Mas não tem importância, continue sempre.

— Pois sim, continuo, ainda que nada consiga. Desde que o Verão se torna mais quente, a verdura parece começar a fatigar-se da superabundância de forças vitais, as folhas pendem, languescentes, e se o calor não é doseado pela humidade da chuva a verdura pode perecer completamente. Mas, no Outono, o fruto que se esconde na folhagem fatigada fica cheio e escarlate. Faz-se vermelho justamente do lado onde há mais luz, e dir-se-ia que lá se concentra toda a força da vida, todo o ardor da natureza, da flora. Vês bem que aqui também o vermelho é a cor da paixão, de que é o símbolo. É a cor da embriaguez dos sentidos, do pecado, da fúria, da cólera e da vingança. O povo, em todos os países, na ocasião das rebeliões, exprime os sentimentos que o abrasam, na bandeira vermelha que flutua por cima das suas cabeças como uma flâmula. Já não compreendes bem?

— Não importa, continue!

— Mas eis que chegam os últimos dias de Outono. O fruto já está muito pesado. Não podendo mais, desprende-se do ramo materno e cai, maduro, ao chão. Morre, mas já um germe lá vive, e nesse germe estão contidas, latentes, todas as possibilidades, toda a planta futura, com toda a sua folhagem cerrada e com o fruto que há-de vir. O germe cai no solo. A terra já está aquecida e iluminada por um sol frio; é varrida cada vez mais, fustigada pelos ventos, e envolvida em nevoeiros húmidos.

Não somente a paixão, mas a própria vida, se entorpecem lentamente, imperceptivelmente. Por baixo da verdura, o solo aparece completamente negro, todo negro, e cambiantes sempre frias, impiedosamente cinzentas, reinam na atmosfera.

Mas um dia vem em que esta terra, resignada e triste como uma viúva, se cobre de milhões de flocos de neve, e então torna-se monótona, igual, fria... e branca. O branco é a cor da neve fria, a cor das imagens mais longínquas da terra, que flutuam na frialdade inacessível dos céus — a cor dos cumes altivos e estéreis. É o emblema da impassibilidade, da santidade austera e melancólica; enfim, o emblema da vida árida do Além. Quanto à cor negra?...

— Eu sei... eu sei...-cortou o cego. — é... quando não há sons, nem movimentos. É a noite!

— Sim, meu rapaz, sim! É o emblema da tristeza e da morte.

Pedro estremeceu e disse com voz surda:

— Tu mesmo o disseste: da morte. Mas para mim tudo é negro em redor... sempre e por toda a parte negro.

— Isso não é verdade! — respondeu o tio Máximo, que se tornou brusco. — Há muita coisa bela e boa para ti; os ruídos, o calor, o movimento e o amor. Tu estás rodeado de amor. Muitos são aqueles que gostariam de sacrificar a luz dos seus olhos para dispor daquilo que tu desdenhas, tu, louco que és! Passeias por todos os lados a tua desgraça, como um autêntico egoísta.

— Sim — gritou com veemência Pedro. É contra vontade que eu a passeio, como tu dizes. Como queres que me furte a ela, se ela me segue sempre e por toda a parte?

— Bastaria apenas que quisesses reparar que a vida regurgita de infelicidades que são cem, mil vezes mais terríveis que a tua! Existem desgostos em face dos quais a tua vida assegurada e a tua existência, que goza da compaixão geral, são um verdadeiro bem-estar, um sonho ou conto de fadas, mas...

— Não é verdade! Não é verdade! — interrompeu o cego num tom de arrebatamento apaixonado. — Eu desejaria trocar a minha situação com o mais miserável mendigo, pois ele é bem mais venturoso que eu. E, por outro lado, os cegos não têm necessidade nenhuma de estar cercados de cuidados; é um grande erro! Eles só pedem uma coisa: que os guieis à estrada larga e os deixeis aí pedir esmola. Se eu fosse um simples pobre de pedir, seria com certeza menos desgraçado e suportaria privações muito menores que agora.

— Acreditas? — perguntou o tio Máximo friamente ; e olhou na direcção de Evelina. Um sentimento de piedade e de pesar brilhou nesse olhar.

A rapariga estava branca e o seu rosto patenteava uma expressão grave como nunca.

— Sim, acredito — respondeu Pedro, inflexível. — Mesmo agora, invejo Jorge, que trabalha lá em baixo na torre. Muitas vezes, ao acordar, e sobretudo quando uma tempestade de neve sepulta tudo lá fora, lembro-me de Jorge e vejo-o subir à sua guarita.

— Mas há frio na sua guarita — disse-lhe Máximo, baixinho.

— Sim, eu sei... há lá muito frio; ele treme e tosse. E pragueja contra o pai Panfílio, que lhe não quer comprar uma peliça. Depois aproxima-se dos sinos; agarra as cordas com as mãos transidas de frio e toca as matinas. Talvez se esqueça de que é cego. Quanto a mim, não esqueço nunca a minha enfermidade, e eu...

— E tu não tens ninguém a quem recriminar.

— Sim, é assim mesmo. Não tenho nada a censurar a ninguém. Toda a minha vida é preenchida pela minha cegueira. Ninguém tem culpa, mas isso não impede que eu seja mais infeliz que qualquer mendigo.

— Não quero discutir contigo — disse o tio Máximo, cada vez mais pensativo. — É possível que tenhas razão. De toda a maneira, há uma coisa que é certa: se a tua vida fosse pior do que é agora, tu, pessoalmente, serias melhor.

Lançou ainda um olhar condoído à rapariga e saiu do quarto, batendo com as muletas no chão.

Tendo-se agravado a sua disposição dolorosamente depois desta conversa, Pedro entregava-se cada vez mais à análise penosa que lhe devorava o cérebro. Por vezes conseguia aquilo que procurava: encontrava por breves instantes as sensações de que lhe falara o tio Máximo, e acrescentava-as às suas concepções da distância.

Triste e soturna, a terra estendia-se infinitamente. Pedro desejava medi-la, mas não possuía meio de o fazer; alguma coisa lho arranjou... Um trovão atordoante rolava na sua memória, e nesses momentos concebia, ou quase, a noção do espaço e do infinito do universo. E depois o trovão cessava, mas no alto, no céu, ficava sempre qualquer coisa que lhe fazia nascer na alma impressões de grandeza e de claridade. De tempos a tempos, essas impressões definiam-se: a voz de Evelina misturava-se com elas e a da mãe também, «cujos olhos eram como o céu». Então a imagem que se esboçava no fundo da sua imaginação, e que quase se precisava por completo, desaparecia de súbito, ou, mais exactamente, passava para um outro domínio de concepções.

Todos estes fenómenos, extremamente vagos e obscuros, afligiam-no e tiravam-lhe toda a satisfação. Requeriam esforços consideráveis, e, no fim de tudo, eram de tal forma indecisos que ele sentia um descontentamento contínuo, seguido duma dor pesada e aguda ao mesmo tempo, penetrando todo o seu ser, que, em busca de satisfação nas suas sensações, não queria de forma nenhuma parar diante de um obstáculo, fosse ele qual fosse.

Chegou a Primavera.

À distância de cerca de sessenta verstas do castelo de Popelsky, na direcção oposta ao domínio dos Stawroushinkos, uma cidade atraía muitíssima gente, graças a uma milagrosa imagem católica. Os iniciados descreviam em todos os seus pormenores o poder extraordinário dessa imagem sagrada: todo o homem que fosse a pé vê-la no dia da sua festa beneficiava de vinte dias de indulgência, durante os quais o bom Deus lhe perdoava todos os pecados que ele cometesse durante esse período. É por isso que todos os anos, logo no começo da Primavera, num dia fixo e conhecido de toda a região, a pequena cidade de província se animava, até ao ponto de mudar completamente de aspecto.

A velha capela era enfeitada na altura da festa com as primeiras verduras e as primeiras flores primaveris.

O ar enchia-se do repique festivo dos sinos; divisavam-se em todos os cantos as carruagens dos proprietários das vizinhanças e os peregrinos marchavam em bando pelas ruas e praças, chegando mesmo a embrenhar-se pelos campos. Não eram somente católicos que lá iam. A fama da célebre imagem espalhava-se por todo o país e seduzia numerosos ortodoxos, doentes e melancólicos, que na sua maior parte pertenciam à burguesia.

No próprio dia de festa os crentes alinhavam-se numa fila interminável e heterogénea dos dois lados da capela. Aquele que contemplasse este espectáculo do alto duma das colinas que rodeavam a povoação teria tido, sem dúvida, a impressão de que uma serpente gigantesca se estirava pela estrada junto da capela, e aí se mantinha imóvel, agitando somente, de tempos a tempos, as escamas mates e multicolores. Uma multidão de Mendigos, importunando os peregrinos com súplicas, postava-se nas bordas da estrada, cheia de homens, mulheres e crianças, chegados de todos os lados.

O tio Máximo, sobre as muletas, e ao lado Jokhime, com Pedro, passavam lentamente ao longo da rua que conduzia à saída da cidade em direcção aos campos.

Os gritos da multidão de vozes múltiplas, a algazarra dos mercadores judeus, o estrondo dos carros, todo este tumulto que rolava numa vaga enorme e produzia um bramido incessante, vibrando como uma corda, tinha ficado para trás deles. Mas mesmo aqui, se bem que a turba estivesse mais espalhada, se ouvia o estrépito dos transeuntes, o ranger das rodas e as vozes das pessoas, num movimento contínuo. Um séquito de carroças de aldeões chegava do campo, com um estrondo de fazer arrebentar os tímpanos, e virava para uma ruela próxima.

Pedro seguia docilmente o tio Máximo e não prestava senão uma fraca atenção ao que ocorria à volta de si. Aconchegava a todo o momento o sobretudo, pois fazia frio, e, enquanto caminhava, agitavam-se-lhe continuamente na cabeça pensamentos fatigantes.

Mas, de súbito, no meio das suas meditações egoístas, um espectáculo o impressionou a tal ponto que tremeu e parou, chumbado ao chão.

Terminavam nessa altura as últimas casas da cidade. Abria-se uma larga estrada entre um grande número de valados e de extensos terrenos. Mesmo no limite dos campos, uma mão piedosa tinha edificado um pilar de pedra com uma imagem e uma lanterna, que se limitava a gemer ao vento e não alumiava nunca. Ao pé deste pilar estavam amontoados pedintes cegos, escorraçados, pelos concorrentes com vista, dos lugares mais bem situados e vantajosos. Com escudelas de madeira nas mãos, mantinham-se quase imóveis, e só de tempos a tempos um deles encetava uma cantilena chorosa.

— Dai aos pó... bres cé... gos, em no... me de Cris... to...

Era um dia acentuadamente fresco, e os mendigos, pobres diabos que ocupavam os seus lugares desde manhãzinha, se não desde a madrugada, estavam expostos ao vento flagelador que vinha dos campos. Era-lhes impossível circular por entre a multidão para reanimarem um pouco, e nas suas vozes, psalmodiando cada um por sua vez canções vagarosas e aflitivas, havia o eco dos seus males físicos e do seu completo desamparo. Percebiam-se bem os primeiros sons, mas em seguida um murmúrio queixoso escapava-se daqueles peitos atrofiados e morria num ligeiro tremor provocado, que se tornava por fim intolerável. Entretanto, a mais insignificante e a mais primitiva melodia, que se perdia, por vezes, no alarido da rua antes de chegar a ouvidos humanos, chocava o ouvinte pela intensidade da agonia que nela se encerrava.

The Blind Beggar - Jules Bastien Lepage
O Mendigo Cego - Jules Bastien Lepage

Pedro estacou, e o rosto crispou-se-lhe subitamente, como se um fantasma sonoro tivesse surgido diante dele sob a forma de gemidos, cheios duma angústia indizível.

— Porque estás espavorido? — perguntou-lhe o tio Máximo. — Mas são justamente estes lamentos abençoados que tu invejavas não há muito tempo. São mendigos cegos que pedem esmola. Bem entendido que eles têm um certo frio... Mas, na tua opinião, estão perfeitamente...

— Passemos! — gritou Pedro, agarrando-lhe na mão.

— Ah! Bem... Já queres passar... Em face do verdadeiro sofrimento alheio não encontras eco no teu coração. Mas espera um pouco, peço-te. Queria falar-te inteiramente a sério e ficaria satisfeito se fosse aqui mesmo. Lamentas-te constantemente de que os tempos mudaram e de que os cegos não participam, como Iurko, o tocador de bandurra, de terríveis combates na noite, e que os não matem. Irritas-te por não teres motivos de recriminação, como Jorge, o sineiro, e, ao mesmo tempo, amaldiçoas a família que te ama ternamente e que acusas de te ter privado de todas as vantagens de que gozam os cegos. Palavra, é natural que tenhas razão. Sim, juro pela minha honra de velho soldado que cada um tem todo o direito de dispor da própria sorte. És um homem; logo... Mas, ainda assim, escuta o que te vou dizer: se queres reparar todas as nossas faltas, todos os nossos erros, se queres arremessar à face do destino todas as mercês de que a vida te rodeou desde a mais terna infância, dize-mo francamente; e então eu, Máximo Iatzenko, prometo-te toda a minha estima, a minha ajuda e tudo aquilo de que disponho. Pedro, ouves-me bem? Repara no que te digo. Era um pouco mais velho do que tu quando me lancei na luta... Como faz agora a tua mãe, a minha também chorou lágrimas ardentes quando eu parti. Mas, que diabo!, eu acreditava que agia no meu pleno direito, como tu neste momento. Uma vez na vida acontece a mesma coisa ao homem. O destino aproxima-se de nós e diz: «Escolhe!» Ora tu não tens agora mais nada senão escolher!

Dito isto, voltou-se para os cegos e gritou:

— Teodoro Kandiba, estás aí?

— Pois decerto que estou. É o senhor que me chama, Máximo Mikhailowitch?

— Sim, meu amigo, sou eu. Queres ir, de hoje a oito dias, onde te disse?

— Irei, senhor; irei sem falta.

Neste meio tempo a voz do cego juntou-se de novo ao coro dos camaradas.

— Bem! — disse o tio Máximo, e os olhos brilharam-lhe. — Escuta, Pedro... Vais conhecer um homem que tem tanto direito de se queixar da sua sorte como da gente. Aprende com ele como se pode suportar a desgraça.

— Ora vamos! — disse com maldade Jokhime, lançando um olhar furioso ao velho mutilado.

— Não dês importância, Pedrinho...

— Alto! — gritou, por seu turno, maliciosamente, o tio Máximo. — Ninguém passa diante dos cegos sem lhes dar dinheiro. É possível que te fosses daqui sem ao menos esboçares esse gesto insignificante? Tu, homem farto e que invejas as criaturas que têm fome! Tu, que não podes só blasfemar! É vergonhoso isso!

Pedro levantou a cabeça, como se o tivessem esbofeteado. Tirando a bolsa da algibeira, dirigiu-se para os cegos. Tacteando com a bengala o primeiro enfermo, encontrou com as mãos a malga de madeira, contendo algumas peças de cobre, e lá pôs cuidadosamente o seu dinheiro.

Alguns transeuntes pararam e olharam com espanto este rapaz gentil, belo e elegantemente vestido, que, às apalpadelas, dava esmola a um cego, que, igualmente às apalpadelas, lha aceitava.

Durante este tempo o tio Máximo voltou-se bruscamente e seguiu a coxear pela rua. Tinha o rosto afogueado e os olhos brilhavam-lhe. Passava, evidentemente, por uma das crises conhecidas de todos no período da sua juventude. Neste momento não se tratava dum pedagogo sopesando as palavras antes de as dizer; era um homem vítima das suas paixões, que dava livre curso à sua cólera ardente. Mas repentinamente lançou um olhar de través a Pedro e pareceu sossegar um pouco. Pedro estava pálido como um lençol, mas o sobrolho tinha carregado e o seu rosto reflectia uma agitação desusada, mesmo para ele.

Um vento frio ergueu turbilhões de poeira, que ele fazia ir adiante de si pela povoação adiante. De roda do pilar, no meio dos cegos, soltavam-se gritos e injúrias, por causa do dinheiro dado por Pedro.

Seria difícil dizer se era consequência dum resfriamento ou o resultado duma crise moral, ou, enfim, as duas coisas juntas, mas o certo é que na manhã seguinte Pedro estava doente, de cama, com uma febre nervosa. Com a face crispada, agitava-se no leito e, de vez em quando, prestava atenção a ruídos imperceptíveis e tinha o ar de quem queria correr perdidamente para qualquer parte. O velho médico da pequena cidade apalpava o pulso do doente e falava do vento frio do Outono.

O tio Máximo franzia as sobrancelhas e evitava olhar a irmã.

A enfermidade anunciou-se tenaz desde o primeiro momento. Em plena crise, o doente ficou sem se mexer durante dias seguidos. Por fim, o organismo moço triunfou.

Uma manhã — era um dia soalheiro do Outono — um raio brincalhão penetrou pelos vidros da janela e caiu na cabeceira da cama de Pedro. Notando-o, Ana Mikhailowna disse a Evelina:

— Puxa o cortinado. Tenho tanto medo desta claridade...

A rapariga levantou-se para executar a ordem, mas a voz do enfermo ergueu-se pela primeira vez e fê-la parar:

— Não, não, está bem... Peço-lhes... Deixem assim...

As duas mulheres inclinaram-se para ele, contentes.

— Ouves-me, meu querido? Estou aqui, perto de ti, perto do meu queridinho! — disse a mãe.

— Sim... — respondeu Pedro; e calou-se bruscamente, como se procurasse recordar-se de qualquer coisa.

— Ah, sim — começou docemente, e fez um movimento inesperado para se levantar... — Dize... o homem... quer dizer, Teodoro, já me veio ver?

Evelina olhou interrogativamente Ana Mikhailowna; a mãe tapou a boca do filho com a mão.

— Chut... chut... Não fales, que te faz mal...

Pedro levou a mão da mãe aos lábios e cobriu-a de beijos. Saltaram-lhe lágrimas dos olhos. Chorou durante muito tempo, e isso pareceu acalmá-lo um pouco. Durante alguns dias conservou-se meigo e pensativo; mas um ar de acentuada inquietação se apoderava dele todas as vezes que o tio Máximo passava diante do quarto.

Notando isso, as mulheres pediram ao inválido que se mantivesse provisoriamente um pouco longe. Mas um dia o próprio Pedro pediu que chamassem o tio Máximo e os deixassem sozinhos.

Entrando no quarto, o tio Máximo tomou a mão do doente e acariciou-a com muita ternura.

— Está bem, meu pobre amigo; parece-me que desta vez te devo pedir perdão.

— Compreendo — disse, baixo, Pedro em resposta ao aperto de mão do velho. — Deste-me uma boa lição e estou-te reconhecidíssimo.

— Ao Diabo as lições — trovejou o tio Máximo, com uma careta de impaciência. — É muito mau permanecer-se demasiado tempo pedagogo; tornei-me realmente asno. Não, desta vez não pensava em lição nenhuma; estava simplesmente arreliado contigo, e mesmo comigo.

— Então tu querias, seriamente, que eu...

— Sim, exactamente. Eu queria isso. Quem poderá dizer o que um homem quer quando, de repente se enraivece! Quereria que sentisses os desgostos alheios e que deixasses de passear os teus por toda a parte... Eis tudo! Calaram-se ambos um instante.

— Aquela canção — recomeçou Pedro —, lembro-me dela até no meu delírio. Mas dize, tio, quem é esse Teodoro que convidaste a vir a nossa casa?

— Teodoro Kandiba é meu amigo velho.

— Ele também é... cego de nascença?

— Pior ainda. Perdeu a vista durante a guerra. Tem os dois olhos queimados.

— E ele passeia pelo mundo entoando aquela canção?

— Sim. Mais ainda: ampara e alimenta um rebanho inteiro de sobrinhos órfãos. Homem curioso, encontra para cada um uma palavra alegre e uma amabilidade.

— É verdade? — perguntou Pedro, admirado.

— Dize o que quiseres, mas aí há um mistério. Eu também, muito quereria...

— Que quererias, meu rapaz?

Mas nessa altura ressoaram os passos precipitados de Ana Mikhailowna, que entrou em seguida no quarto. Pôs-se a encarar, inquieta, os dois homens e buscava, evidentemente, o motivo da conversa, interrompida pela sua chegada.

Uma vez vencida a doença, o organismo moço de Pedro acabou por dar depressa fim a tudo que ainda restava. Quinze dias depois já estava a pé.

Mudou muito e até as feições se lhe alteraram. Parecia que a marca dos antigos sofrimentos morais abandonara para sempre a face delicada de Pedro. O choque brusco, ressentido em todo o seu ser, tinha feito nascer uma embaladora fantasia e uma melancolia calma.

O tio Máximo receava imenso que isto não passasse duma mudança temporária, provocada pelo enfraquecimento da tensão nervosa de Pedro durante a sua doença.

Um dia, ao crepúsculo, aproximando-se do piano, pela primeira vez desde que esteve doente, Pedro começou a improvisar, segundo o seu hábito. Os temas eram tão calmos e tristes como a sua disposição.

Mas eis que, inesperadamente, entre uma avalancha de sons impregnados duma melancolia cativante, saltaram as primeiras notas da canção dos cegos. A melodia calou-se de repente. Pedro levantou-se bruscamente do piano; pelo rosto, decomposto, rolaram-lhe grossas lágrimas.

Na mesma tarde, o tio Máximo conversou de novo e longamente, a sós, com Pedro. Passaram-se semanas depois deste incidente, e a disposição de espírito do rapaz era sempre a mesma. Parecia que a consciência excessiva e terrivelmente egoísta do seu mal individual lhe comunicava uma passividade acabrunhante e carregava pesadamente a sua energia inata, agitando-a e dando lugar a outra qualquer coisa. Começava outra vez a elaborar planos, a visar certos objectivos ambiciosos. A vida renascia nele, tenaz e exigente; a alma, meio despedaçada, fazia renascer os rebentos, como um arbusto abalado e doente que a Primavera milagrosa faz florir com o seu sopro de ressurreição.

Os Popelsky, numa reunião familiar, tomaram a decisão firme de mandar Pedro no Verão seguinte para Kieff, a fim de continuar os estudos com um dos mais célebres pianistas. O tio Máximo insistia para que partissem os dois, ele e Pedro; e lá o levou.

Por uma tépida noite de Julho, uma caleche meio descoberta, atrelada a uma parelha de cavalos, estava parada em pleno campo, perto duma clareira.

Na manhã seguinte, de madrugada ainda, passaram na grande estrada que serpenteava ao lado de dois cegos. Um deles manobrava a manivela dum instrumento primitivo, composto dum cilindro de madeira, que girava na abertura duma caixa vazia, e fazia vibrar cordas fortemente retesadas. O instrumento produzia um rumor monótono e triste. Uma voz de velho, nasalada, mas muito agradável, cantava uma prece matinal.

 

http://deficienciavisual5.comCegoTocador de Viola de Corda - Francisco Herrero o Velho, 1640
Cego Tocador de Viola de Corda - Francisco Herrero o Velho, 1640


Os mujiques ucranianos que passavam na estrada nas suas carroças carregadas de peixe seco viram dois senhores, sentados num tapete, no meio do campo, ao lado da caleche, chamar os dois cegos. Quando, um pouco mais tarde, os carros pararam junto dum poço para os animais beberem, os cegos passaram novamente diante deles, mas eram então três. Em cabelo, batendo no chão com um pau comprido, caminhava um velho de cabeleira grisalha ao vento e de longos bigodes caídos. A testa estava coberta de cicatrizes de antigas úlceras, provenientes, parecia, de queimaduras; no lugar dos olhos só se viam cavidades. Trazia ao ombro uma correia larga, presa à cintura do cego que marchava atrás de si. O outro era muitíssimo robusto, a face amarela terrivelmente marcada pelas bexigas. Os dois avançavam com passo igual, regular, a cabeça levantada para o céu, como se lá procurassem o seu caminho.

O terceiro cego era um adolescente, vestido com fato de aldeão, completamente novo. O seu rosto impressionava pela palidez e pela expressão ligeiramente assustada. Os seus passos eram mal seguros e parava de tempos a tempos, a escutar qualquer coisa, retardando os seus camaradas de jornada.

Pelas duas horas da manhã já eles estavam muito longe. A floresta estendia-se como uma fita azul no horizonte longínquo. Em redor deles era só a estepe, e o ar estava cheio da vibração dos fios telegráficos, aquecidos cada vez mais pelo sol, e que corriam ao longo, atravessando a estrada envolta de poeira. Os cegos desembocaram nesta e tiveram somente o tempo suficiente de tomar o primeiro cotovelo à direita quando ouviram por trás de si o trote de cavalos e o ruído seco de rodas rangendo nas pedras miúdas.

Os cegos alinharam à borda da estrada:

— Dai qualquer coisa aos pobres cegos...

Ao ruído do cilindro de madeira misturava-se agora o canto suave das cordas, sob os dedos do adolescente.

Uma moeda tiniu, caindo aos pés do velho Kandiba. O rumor das rodas cessara; os passeantes pararam, evidentemente para observar se os cegos encontravam a moeda. Kandiba achou-a apalpando um momento e o rosto reflectiu imediatamente todo o seu contentamento.

— Que Deus vos abençoe! — disse ele para a caleche, onde estava imobilizado o corpo quadrado dum senhor grisalho, tendo ao lado duas muletas.

O cavalheiro de idade olhou atentamente para o cego mais novo. Este estava ainda pálido, mas muito mais sereno. Aos primeiros sons da canção, os dedos correram-lhe nervosamente pelas cordas, como se procurassem a melhor maneira de adoçar os sons, antes bruscos e duros, do instrumento. A caleche continuou o seu caminho, mas o velho distinto voltou-se repetidas vezes para os enfermos, que retomaram a estrada. Dentro em pouco, o fragor das rodas extinguiu-se ao longe. Os cegos alinharam-se e seguiram o seu caminho.

— Sabes, Iury, és muito habilidoso — disse Kandiba — e tocas muito bem.

Passado um minuto, o cego que estava no meio perguntou:

— Que vais fazer a Potskaieff? Prometeste isso? Fizeste algum voto?

— Sim! — respondeu de mansinho o jovem.

— Esperas que Deus te restitua a vista? — perguntou ainda o cego do centro, com um sorriso amargo.

— As vezes acontece... — disse o velho, conciliador...

— Há muito tempo que corro mundo, mas nunca encontrei um caso desses! — ripostou o cego bexigoso. E continuaram o caminho.

O sol continuava a subir; só se via a linha branca da estrada, direita como uma flecha, os corpos escuros dos cegos e o ponto negro da caleche que acabava de passar. Depois a estrada bifurcava-se. A carruagem tomou a direcção de Kieff. Os cegos viraram à direita, seguindo caminhos adjacentes a Potskaieff, célebre pelo seu mosteiro.

Uma carta chegada de Kieff informava os habitantes de que tudo ia bem. O tio Máximo escrevia que os dois se encontravam bem e tudo se havia de arranjar o melhor possível.

Durante esse tempo, os três cegos caminhavam para mais longe. Nesta altura já andavam os três com passo igual. Como anteriormente, Kandiba, batendo no chão com o pau, mantinha-se à cabeça do grupo. Conhecia perfeitamente todos os caminhos, grandes e pequenos, e conseguia, sem errar, chegar a aldeias importantes nos dias de festa, onde os lugares de mercados regurgitavam de gente vinda de toda a parte.
 

http://deficienciavisuaCaravana de ciegos - Manuel Vega Lopez
Caravana de ciegos - Manuel Vega Lopez


A pequena orquestra atraía os amores apaixonados e as peças de metal não cessavam de tilintar alegremente no boné de Kandiba.

Toda a expressão de perturbação e receio desaparecera, havia muito, do rosto do rapaz e tinha sido substituída por outra completamente diferente. A cada passo chegavam até eles novos ruídos, provenientes dum mundo estranho, vasto, enorme, que substituía perfeitamente o murmúrio dolente e embalador do castelo.

Os olhos cegos tornaram-se-lhe maiores; parecia que o peito também se alargava e que o ouvido se desenvolvia em proporções incríveis.

No meio da multidão reconhecia ele sem a menor dificuldade os companheiros: Kandiba, sempre bondoso e compreensível, e Kouzna, invariavelmente irascível. Gostava de caminhar atrás das carroças estridentes dos mujiques, dormia junto das fogueiras na estepe, escutava com prazer o alarido dos mercados e das feiras de aldeia e aprendia a verdadeira natureza da infelicidade, tanto dos que viam como dos cegos, diante da qual já mais duma vez o seu coração se tinha confrangido dolorosamente.

Coisa extraordinária: hoje encontrava lugar bastante na sua alma para todas estas sensações. Tinha assimilado completamente a arte vocal dos vagabundos cegos, e dia a dia, à voz deste mar imenso de sofrimentos humanos, as suas aspirações individuais para objectivos inacessíveis serenavam cada vez mais. A sua memória, extremamente sensível, apanhava todas as novas canções ou melodias e, no momento em que, ao caminhar, ele começava a dedilhar, branda e docemente, as cordas do instrumento, o próprio Kouzma, de aspecto soturno e cheio de fel, reflectia um contentamento calmo, roçando o êxtase.

À medida que se aproximavam de Potskaleff, aumentava o bando de cegos.

Num dos últimos dias de Outono, na estrada obstruída pelas primeiras neves, com grande espanto de todos, Pedro, acompanhado de dois cegos e miseravelmente vestido como um verdadeiro mendigo, regressou ao castelo. Segundo uns — e eram muitos —, Pedro tinha partido de Potskaleff com o único fim de obter a cura, por meio de orações.

No entanto, os seus olhos estavam como dantes: puros e cegos. Mas a sua alma sem dúvida que tinha sarado. Dir-se-ia que um pesadelo terrível abandonara para sempre o castelo. Quando o tio Máximo, que continuava a escrever, cada vez mais bem disposto, voltou, enfim, a casa, Ana Mikhailowna, correndo ao seu encontro, bradou-lhe, indignada:

— Nunca mais na minha vida te perdoarei isto! — Mas via-se claramente que as palavras estavam em flagrante desacordo com a expressão dos seus olhos.

Durante noites inteiras Pedro relatou a sua vida de vagabundo e, ao anoitecer, ressoavam ao piano novas melodias, que ninguém em casa até aí tinha ouvido.

A viagem a Kieff foi adiada para o ano seguinte e todo o castelo vivia somente das esperanças e dos planos de Pedro.


CAPÍTULO VII

No mesmo Outono, Evelina anunciou aos pais a decisão irrevogável de se casar com «o cego do castelo». A mãe desfez-se em pranto. Quanto ao velho laskoulsky, começou por erguer orações ardentes aos santos familiares e disse logo que, na sua opinião, era justamente assim que o Todo-Poderoso exprimia a sua firme vontade!

Celebrou-se o casamento. Uma ventura juvenil e calma começou então para Pedro. Todavia, um certo desassossego se infiltrava no seu bem-estar; nos instantes mais serenos e descuidados na aparência sorria de tal forma que através desse sorriso se lia uma dúvida angustiosa, como se ele mesmo considerasse a sua felicidade como qualquer coisa de ilegítimo e instável. E quando lhe anunciaram que talvez fosse ser pai recebeu esta notícia com tanto pavor que nem procurava sequer dissimulá-lo.

Contudo, a vida quotidiana, que lhe impunha os esforços mais sérios e cuidados meticulosos referentes à mulher e ao futuro filho, não lhe permitia muito concentrar-se nas velhas e estéreis ocupações. Em certos momentos, no meio destes pensamentos, que lhe absorviam todo ou quase todo o tempo, subiam-lhe ao coração reminiscências ligadas estreitamente aos gemidos chorosos dos cegos. E então partia para a aldeia, em cuja extremidade se encontrava a nova cabana de Teodoro Kandiba. Este pegava na sua cozba, ao som da qual cantava de maneira que fazia correr as lágrimas. Às vezes conversava tranquila e longamente, e as inquietações de Pedro desfaziam-se como por milagre e os seus planos consolidavam-se.

Agora era bem menos sensível às sensações luminosas exteriores e a agitação interior de outrora tinha abrandado. Parecia que as forças orgânicas, que lhe comunicavam a perturbação, estavam adormecidas, e ele procurava não as despertar, graças ao trabalho assíduo da vontade, que lhe ditava, lhe sugeria, que reunisse num todo sensações diversas. E em lugar desses esforços inúteis e desagradáveis ele tinha agora fortes e seguras recordações vivas e esperanças actuais mais ou menos susceptíveis de ter realização. Mas quem poderia dizer se esta calma espiritual não era devida muitíssimo mais ao trabalho orgânico subconsciente que se impunha a toda a sua vida? É assim que nos sonhos a nossa cabeça cria ideias e imagens que não elaboraria nunca se fosse ajudado e criado pela vontade.

No mesmo quarto onde, um dia, tinha nascido Pedro reinava um profundo silêncio, interrompido somente pelos vagidos vagos e fracos dum recém-nascido.

Já tinham passado alguns dias após o seu nascimento e Evelina recobrara rapidamente as forças. Ao contrário, nesses dias, Pedro parecia esmagado pelo pressentimento duma desgraça próxima e iminente.

O médico tomou a criança nos braços, deu alguns passos com ela e aproximou-se da janela. Arredando rapidamente o cortinado, deixou penetrar no aposento um raio claro de sol e, com um instrumento de óptica na mão, inclinou-se para o recém-nascido. Pedro estava sentado no mesmo quarto, de cabeça baixa, acabrunhado, e parecia indiferente ao que se passava em torno de si. Como sabia de antemão o resultado, não prestava a menor atenção aparente ao exame do médico.

— É com certeza cego — repetia ele. — Não devia ter nascido.

O médico, novo ainda, não respondia e continuava as suas observações. Por fim pôs o oftalnioscópio de lado e ouviu-se no quarto a sua voz calma e bem timbrada:

— A pupila contraiu-se. Não há dúvida nenhuma: a criança vê bem.

Pedro estremeceu e levantou-se rapidamente. Este movimento demonstrava que tinha ouvido as palavras do médico, mas julgar-se-ia, pela sua expressão, que não tinha compreendido a significação delas. Apoiando-se com a mão trémula à ombreira da janela, conservou-se assim, com o rosto, pálido, erguido para o tecto e as feições absolutamente imóveis.

Até este momento tinha manifestado uma excitação insólita. Parecia não dar pela sua existência, embora todos os seus nervos só vibrassem e estremecessem de impaciência.

Sentia vivamente a escuridão que o rodeava como um mar. Reconhecia-a, sentia-a fora de si, em toda a sua imensidade. Movia-se por cima de si, e ele abraçava-a na imaginação, media-a, como se quisesse defrontá-la. Dirigia-se ao seu encontro, desejoso de defender o filho contra esse oceano formidável de trevas impermeáveis. Permaneceu neste estado de sobreexcitação extrema todo o tempo em que o médico fez os preparativos. Já estava inquieto mais cedo ainda, antes do nascimento do filho; mas umas veleidades de esperança viviam até aí na sua alma, ao passo que agora era tudo diferente. Hoje, a angústia, terrível e esgotante, tinha atingido o último grau, apossando-se por completo dos seus nervos, violentamente tensos, ao mesmo tempo que a esperança se lhe apertava no fundo do coração e ia morrendo, tímida, lânguida...

E, bruscamente, esta frase curta: «A criança vê bem...», tinha mudado completamente a sua disposição de espírito. Era um abalo brusco, um golpe formidável, que penetrava, como um raio fulminante, na sua alma entristecida. Teve a impressão de que as palavras do médico lhe deixavam um traço de fogo no cérebro. Uma centelha brotou, em qualquer parte, dentro de si e abrasou o fundo misterioso do seu ser... Tudo nele se pôs em movimento e ele próprio tremeu como uma corda fortemente esticada treme sob o efeito duma pancada inesperada. E a seguir, imediatamente a este relâmpago, fantasmas estranhos iluminaram-se subitamente diante dos olhos, que estavam extintos antes mesmo de ele nascer. Não podia distinguir se eram cintilações ou sons. Eram antes sons que nasciam milagrosos, tomavam formas cuja natureza se não podia perceber e se moviam, se dispersavam e se uniam em raios de luz. Brilhavam como a cúpula do céu; rolavam como sol brilhante na abóbada etérea; vibravam como vibra o murmúrio e o segredar duma estepe nova e verde; balançavam-se como a folhagem das faias em meditação.

Tal foi o primeiro momento, curto como um pensamento. Só as impressões entrecortadas e misturadas deste momento se fixaram na sua memória. Tudo o mais esqueceu ele em seguida. Mas não se cansava de afirmar que tinha visto durante esse instante.

Era absolutamente impossível saber o que ele tinha visto, como tinha visto e se na realidade vira alguma coisa. Alguns asseguravam que isso era impossível, mas ele insistia que tinha visto o céu e a terra, a mãe, a mulher e o tio Máximo.

Passaram alguns minutos sem ele se mexer, de cabeça levantada e a face mais pálida e mais serena do que nunca. Produzia uma impressão tão fantástica que todos se voltaram para ele e tudo se calou. Parecia que o homem que estava no meio do quarto não tinha semelhança nenhuma com aquele que eles conheciam havia muitos anos e, antes, era um outro ser, completamente diferente e desconhecido. O antigo Pedro tinha desaparecido, envolto num mistério que o penetrara e transformara de repente.

Este mistério pairou por cima dele durante uns breves instantes. Apesar de todas as contradições, Pedro conservou durante muito tempo a certeza inteira de que tinha recobrado momentaneamente a vista, o que lhe proporcionara uma sensação de alegria sem fim.

Era possível, realmente?

Era possível que ele tivesse visto com os seus olhos mortos o céu azul, o sol resplandecente e o rio transparente com a colinazinha ao lado, onde ele tinha experimentado tantas sensações delicadas, melancólicas, e onde chorara tantas vezes, na sua tenra infância? E depois o moinho, e as noites com o firmamento cheio de estrelas, quando ele se atormentava horrivelmente, e a Lua silenciosa, taciturna? E a larga estrada poeirenta, e a calçada, e a fila de carroças com as rodas cercadas de ferro, e a multidão heterogénea e multicor no meio da qual ele cantava a canção dos cegos?...

Ou era, talvez, a sua imaginação vigorosa que lhe tinha gerado imagens fantásticas no cérebro e lá lhe introduzira montanhas desconhecidas de todos, imensos e prodigiosos vales, árvores esplêndidas que não existiam em parte nenhuma, inundado todo o quadro de jorros de sol que tinham admirado inumeráveis gerações de antepassados?

Pode ser que tudo isso se agitasse em sensações nessa zona profunda do seu cérebro onde, segundo o tio Máximo, as cores reflectiam tão bem como os sons a satisfação ou a melancolia, a alegria ou a angústia.

Quem sabe?

Quanto a ele próprio, só se recordava duma coisa — desse momento para sempre inolvidável em que o mistério o tinha envolvido inteiramente. Nesse instante, resplandecentes e deslumbrantes, as visões sonoras, entrelaçadas e entremeadas profundamente, tinham vibrado, extinguindo-se depois — como vibra e vai morrendo uma corda tensa —, ao princípio mais nítidas e em seguida enfraquecendo, cada vez mais mal perceptíveis, fundindo-se num clarão gigantesco que desmaia numa noite...

O mistério caiu no fundo do oceano e... fez-se silêncio.

Noite plena e silêncio completo... Fantasmas indefinidos, esforçando-se ainda por renascer das sombras escuras, mas já sem forma, sem tintas nem cores. Somente os trilos duma escala de música ressoam tímidos, em qualquer parte, além, muito longe, em filas cerradas e fulgurantes, rasgam o crepúsculo e caem, enfim, por sua vez, no abismo.

Então parece que os ruídos vindos do outro mundo chegam aos seus ouvidos sob a forma habitual. Pedro tem o ar de quem desperta, mas permanece de pé e, radioso, feliz, aperta as mãos da mãe e do tio Máximo.

— Que tens, meu filho? — pergunta-lhe Ana Mikhailowna, com voz inquieta.

— Deus... Mas parece-me que eu... que vos vi a todos. Não estou a dormir, não é verdade?

— E agora? — inquiriu ainda a mãe, sempre comovida. — Lembras-te agora? Poderás recordar-te?

O cego suspirou profundamente.

— Não — respondeu ele enfim, fazendo um grande esforço... — Mas não importa, porque dei tudo isso... a ele... ao filho e a vós todos...


EPÍLOGO

Passaram-se três anos.

Um público numeroso, aproveitando a época dos Contracts em Kieff, dirigia-se a um concerto, dado por um músico muito original.

Era cego, mas corria que era dotado de um grande talento e que, sobretudo, o seu destino era extraordinário. Contava-se que, ainda criança, terá sido roubado a uma família abastada, por um bando de cegos, com os quais tinha andado de terra em terra, até que um célebre professor de música se interessou vivamente, ardentemente, pelo seu prodigioso talento.

Outros diziam que ele tinha abandonado a família voluntariamente, levado por um impulso puramente romântico. Duma maneira ou doutra, a sala do concerto estava à cunha e a receita, que era destinada a uma obra de beneficência ignorada, ultrapassava tudo o que se pudesse esperar.

Um silêncio profundo reinava na sala quando no estrado apareceu um homem novo, de rosto pálido e olhos grandes e belos. Ninguém o julgaria cego, se os olhos não ferissem pela sua imobilidade e se o músico não tivesse sido guiado por uma jovem loura, que parecia ser sua mulher.

— Nada admira que produza uma tão formidável impressão — disse na multidão um melómano, dirigindo-se ao vizinho. — Logo à primeira vista ele cativa pelo seu aspecto extremamente dramático.

Na verdade, essa figura pálida, de expressão sonhadora e grave ao mesmo tempo, com os olhos fixos, e toda essa distinta apresentação, faziam esperar qualquer coisa de singular, de desusado.

Em geral, o auditório ucraniano gosta e aprecia as canções populares. Mas nesta altura a multidão confusa dos Contracts comoveu-se imediatamente com a profunda sinceridade da expressão musical. O sentimento vivo do país natal, o sentido original e tocante das fontes directas da melodia popular, exprimiam-se da maneira mais encantadora na improvisação que, como uma corrente irresistível, escapava das mãos do músico cego. Rica de cores, leve e deliciosamente cantante, ondulava em arabescos sonoros, umas vezes elevando-se em hino solene, inundando a sala, outras vezes repetindo-se em motivos melancólicos, arrancados ao coração, e que mal se ouviam. Parecia que, por momentos, uma tempestade formidável crescia no firmamento e rolava sem obstáculo no espaço infinito. Por vezes, o vento da estepe rumorejava na erva sobre a colina e trazia em si os sonhos embaladores do passado distante.

Quando acabou, um trovão de aplausos frenéticos encheu a enorme sala.

O cego ficou com a cabeça inclinada, escutando, admirado, o alarido entusiasta. Mas eis que ele levanta novamente as mãos e toca no teclado. O auditório de milhares de cabeças tornou-se silencioso num momento.

Neste instante o tio Máximo entrou na sala. Lançou um olhar atento à assistência, presa pelo mesmo sentimento e que voltava os olhares ávidos e brilhantes para o cego.

O velho inválido compreendeu e esperou. Mais que ninguém de entre o auditório, ele compreendia o drama vivo que se reflectia claramente no tocar de Pedro. Receava que este improviso vigoroso, que se derramava com tanta facilidade da alma do músico, se interrompesse, como outrora, por uma questão de angústia dolorosa, capaz de abrir uma nova chaga sangrenta no coração do seu discípulo. Mas os sons aumentavam, estabilizavam-se, tomavam amplitude, impunham-se cada vez mais e ganhavam o coração da multidão enfeitiçada, arrebatada pela mesma alegria.

E quanto mais o tio Máximo escutava, mais nitidamente retinia nos seus ouvidos um motivo conhecido no toque do cego.

Sim, era bem ela, a rua barulhenta. Uma vaga muito avermelhada, retumbante, cheia de vida, rola, esparge, derrama chispas, dispersa-se em milhares de sons. Tanto sobe larga e robusta como cai em murmúrios longínquos e incessantes, conservando sempre o mesmo tom calmo, solene, impassível e frio. Subitamente, o coração do tio Máximo apertou-se. Como nos tempos passados, um gemido saltou das mãos do músico. Saltou, produziu um som pungente e morreu. E de novo foi o murmúrio repleto de vida, crescendo dum instante para o outro, forte, brilhante e inconstante, feliz e claro, claro...

Já não eram somente os queixumes do desgosto individual, os gemidos provocados pelas dores pessoais da cegueira. Lágrimas grossas deslizaram dos olhos do tio Máximo. Lágrimas corriam pelas faces dos seus vizinhos.

«Recobrou a vista... Sim, sim, achou-a!», pensou o velho.

Todavia, sobre a trama da melodia serena e animada, venturosa e livre como o vento dos campos e como ele descuidada, entre a algazarra colorida e atordoadora da vida, sobre o fundo, umas vezes melancólico, outras vezes majestoso, do motivo da canção popular, uma nota surpreendente, dolorosa, se destacava cada vez mais frequente, dominadora e forte.

«Muito bem, meu rapaz, muito bem!», encorajava o tio Máximo em pensamento. «Eles são felizes e contentes; dize-lhes então toda a verdade. Esse leitmotiv é justamente o que falta. Muito bem...»

Um instante depois só a canção dos cegos, majestosa e cativante, dominava a imensa sala e a multidão encantada.

«Dai... aos pó... bres cé... gos...» Mas já não era uma súplica de esmola, um gemido choroso, que abafava o estrépito da rua. Não, tinha lá tudo o que dantes tinha quando, sob a influência da melodia, Pedro, não podendo mais, com a face crispada de emoção, fugia do piano, não tendo forças para lutar com a dor lancinante. Agora tinha triunfado na sua alma e vencia a alma dessa multidão, dizendo-lhe toda a profundidade e todo o horror da verdade que governa a vida...

Era a noite sobre o fundo da luz fascinante, era uma chamada à desgraça no meio da plenitude duma existência feliz. Dir-se-ia que um estrondo terrível retumbava por cima da multidão e que todos os corações tremeram, como se Pedro lhes tivesse tocado com os seus dedos vivos e rápidos. Apesar de ele ter acabado de tocar, a assistência continuava a guardar o mais profundo silêncio.

O tio Máximo baixou a cabeça e pensou: «Sim, ele vê. Ele substituiu os seus sofrimentos egoístas, cegos e insaciáveis por uma verdadeira e nobre noção do que é a vida. Já sente a ventura e a desgraça humana. Recuperou, enfim, a vista e saberá doravante lembrar aos felizes que existem desgraçados...»

E o velho soldado inclinou a cabeça, meditando ainda.

Ele próprio tinha executado tudo que as forças lhe consentiram. Então não tinha sido de mais na Terra. Asseguravam-lho os sons cheios de energia e convicção que enchiam e arrebatavam todo o auditório.

E assim começou o músico cego.

FIM


 

NOTAS
1. Era assim que se chamava antigamente a célebre feira de Kieff.
2. É assim que se chama na Rússia aos últimos dias de Verão.
3. Título entre os cossacos, (N. da T.)

 

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texto integral de:

O Músico Cego (1886)
Vladimíro Korolenko
Tradução de Natércia Caramalho
Colecção Livros de Bolso Europa América
Publicações Europa-América, 1971
 


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10.Jan.2011
Publicado por MJA