|
|

O Mendigo Cego - J. Dyckmans, 1853
Era já noite cerrada,
Diz o filho: "Oh minha mãe,
Debaixo daquela arcada
Passava-se a noite bem!"
A cega, que todo o dia
Tinha levado a andar,
A tais palavras do guia
Sentiu-se reanimar.
Mas saltam dois cães de gado,
Que eram como dois leões:
Tinha-os à porta o morgado
Para o guardar dos ladrões.
Tornam os pobres à estrada,
E aonde haviam de ir dar?
Ao palácio da tapada
Onde el-rei ia caçar.
À ceguinha meio morta
Torna o filho: "Oh minha mãe,
Ali no vão de uma porta
Passava-se a noite bem!"
- Se os cães deixarem... (diz ela,
A triste num riso amargo).
Com efeito a sentinela:
- Quem vem lá?... Passe de largo!"
Então ceguinha e filhinho.
Vendo a sua esperança vã,
Deitaram-se no caminho
Até romper a manhã!
ϟ
Ceguinha
Depois que Deus me cegou,
Não vejo os filhos andar
Nesta miséria em que estou:
Mil graças, Senhor, vos dou!
Mas inda os oiço chorar...
E assim pobre como sou,
Nada tenho que lhes dar,
E debalde me condoo!
Senhor, poupai-me o pesar
Também de os ouvir chorar!
ϟ
![João Deus - poeta e pedagogo [1830-1896]](http://www.citador.pt/images/autorid21206.jpg)
João de Deus de Nogueira Ramos nasceu em São Bartolomeu de Messines, Algarve, no dia 8 de março de 1830 e faleceu em Lisboa no dia 11 de Janeiro de 1896. Frequentou o
curso de Direito na Universidade de Coimbra e, acabado o curso, dedicou-se ao jornalismo e à advocacia em Coimbra, Beja, Évora e Lisboa. Ligado inicialmente ao
ultra-romantismo, depressa o abandonou seguindo uma estética muito própria. As suas poesias foram reunidas na colectânea Campo de Flores, publicada em 1893,
incluindo-se nesta duas obras anteriores: Flores do Campo e Folhas Soltas. Dedicou-se à pedagogia, resultando daí a Cartilha Maternal, publicada em 1876 e tendo como fim
o ensino da leitura às crianças. Foi um dos grandes amigos e admiradores de Antero de Quental.
ϟ
in Campo de Flores
Poesias Líricas Completas
de João de Deus
coordenadas sob as vistas do autor
por Teófilo Braga
1893
1.Maio.2014
Publicado por
MJA
|