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 Sobre a Deficiência Visual


Meus olhos têm quatro patas

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Cego com cão - detalhe da pintura chinesa "Primavera no Rio Amarelo", séc. XIII [Metropolitan Museum of Art]
Homem cego com cão ― detalhe de "Primavera no Rio Amarelo" ― pintura chinesa, séc. XIII (Metropolitan Museum of Art)
 

Guiar é uma coisa natural

A Cervejaria Antártica deve seu sucesso a dois fatores básicos: a qualidade de seus produtos e um sistema impecável de distribuição. É sobre o segundo fator que falaremos:

No início do século, toda a distribuição de bebidas era feita por carroções puxados por parelhas de burros. A administração da Antártica, muito sabiamente, evitava extenuar seus animais, fazendo-os trabalhar, dia sim, dia não, com direito ao descanso semanal. Assim, mesmo tendo que contar com uma tropa muito menor que a de seus concorrentes, quando necessário podia contar com algumas horas extras de seus burros, pois eles estariam sempre saudáveis, descansados o suficiente para um pequeno esforço adicional. Era justamente isso que garantia a regularidade da distribuição. Com o passar do tempo, os carroções foram gradualmente substituídos por caminhões e a tropa paulatinamente aposentada. A diretoria não abatia ou mesmo vendia os animais; porém, os mantinha em uma fazenda adquirida para esse fim, na região de Campinas.

Lá os animais continuaram a receber igual atenção. Começaram a envelhecer em comunidade. Foi então que se pôde observar que, quando os burros mais velhos passavam a não mais enxergar, os mais jovens os guiavam do estábulo até o pasto e vice-versa. Para isso, eles faziam com que os burros que não enxergavam apoiassem os focinhos em suas ancas para que os seguissem. Ninguém lhes ensinou essa técnica. Faziam isso pelo simples fato de que guiar seus semelhantes cegos era natural. Pude observar algo semelhante com relação à mãe de meu primeiro cão-guia. Sem que ninguém a treinasse, ou mesmo sem qualquer equipamento especializado, ela era perfeitamente capaz de levar meu irmão mais novo pelos arredores do sítio onde ela morava. Não se tratava de coincidência ou mesmo do fato de ela estar habituada ao local. Aquela cadela era capaz de entender a deficiência do menino e o levar, com grande segurança, por morros e beiras de barrancos.

Sabe-se, no entanto, que nem todos os cães são capazes de guiar, assim como muitos seres humanos, apesar de anos de convivência com cegos, também não o são. Entre os seres humanos há sempre os que possuem uma sensibilidade maior para conduzir um cego. Mesmo assim, é preciso um certo treino, como vimos nos capítulos anteriores.

No caso dos animais que se destinam a esse mister (cavalos, cães, etc.), há que se fazer uma triagem ainda maior, posto que sua inteligência costuma ser mais limitada do que a do mais inábil dos humanos. Dividimos essas qualidades especiais em três grandes grupos: psíquicas, físicas e naturais.

Comecemos pelas naturais. Para que um animal — mais notadamente um cão — tenha condições para ser um bom guia, é preciso que ele tenha porte suficiente para tanto. Em outras palavras, é preciso que ele tenha força o suficiente para conduzir; doutra forma, por mais hábil que ele seja, será conduzido pelo seu dono. Ninguém pode imaginar um Pequinês ou Chiuaua guiando um homem de 1,80m e 100Kg pelas ruas de uma grande cidade. Por outro lado, é preciso que nos lembremos de que os cães terão que conviver com seres humanos estranhos ao seu dono e que nem sempre apreciam companhia de animais. Para reforçar o argumento, existe ainda uma outra limitação: a sociedade foi desenhada para seres humanos, o que inviabilizou o uso de animais de porte exageradamente grande; o que não se dirá de um São Bernardo ou Irish Woolf Hound encolhido sob o banco de um ônibus ou mesmo dentro de um elevador cheio. Assim, passou-se a pensar que os melhores serão os cães de médio porte, porém respeitando a estatura de seu dono. O ideal é que ele seja próximo da altura de seu joelho. Isso evitará que se usem cães excessivamente altos e que o dono tropece no animal por ele ser demasiadamente baixo.

Nunca se esqueça de que, por mais que um cego confie em seu cão, sempre tenderá a discutir com ele acerca do melhor caminho a seguir. Assim, é preciso que o animal seja forte o suficiente para evitar que o cego tome uma decisão errada e arrisque seu cachorro, como a si próprio, num perigo desnecessário. Isso tira da lista os animais que, apesar de altos, sejam muito leves, como os Greyhound, os Saluks, Borzois e outros.

Existem autores que dizem que os machos não se prestam a esse tipo de trabalho. Trata-se de uma afirmação muito radical. O certo seria dizer que a maioria dos machos é excessivamente dispersa e independente para esse tipo de serviço. As fêmeas, por serem mais dóceis, têm uma probabilidade maior de se darem bem como guias. Pela sua natureza, os machos contam com algumas dificuldades, como distraírem-se pela presença de cadelas no cio, e tenderem a delimitar seu território, urinando em árvores, postes ou mesmo estacas. Coisas como essas não são, de forma alguma, determinantes de seu comportamento. O máximo que se pode afirmar a esse respeito é que tais instintos serão itens a mais na educação do animal haja vista que cães adestrados para outros usos também têm que se conter em ocasiões como as citadas. O que se sabe é que oitenta por cento dos cães-guia são fêmeas.

Muitas instituições são também radicais no aspecto sexual dos animais, castrando os machos e ligando as trompas das fêmeas. Minha opinião pessoal é a de que isso é uma violência inadmissível, porque, como discutimos no parágrafo anterior, não importa o tipo de adestramento; os cães precisam ser educados. Um bom exemplo disso é o da própria polícia. Todos sabemos que eles usam machos e fêmeas em seu trabalho de policiamento extensivo, sem esterilizá-los. Nem por isso os machos correm desvairadamente atrás da primeira cadela que vêem. Por outro lado, uma fêmea pode ter no máximo três cios por ano, o que a põe fora de suas funções por aproximadamente vinte dias. Isso de forma alguma impede seu uso.

Nos campeonatos procura-se sempre fazerem-se testes a respeito do genótipo dos concorrentes. Isso significa dever-se proceder a testes de caça, para cães de caça, de ataque, para cães de guarda e outros. O caráter é, portanto, parte da qualidade de um animal. Quando se promovem cruzamentos, também esses fatores deverão ser levados em conta. Assim, seria de se esperar que um cão com grande aptidão para guia, se cruzado com outros de semelhante qualificação, venha a gerar bons guias entre seus descendentes. A esterilização é — por assim dizer — uma aberração em termos de apuração de raças. Em outras palavras, quando se consegue um animal impecável para o serviço a que se destina, condenamo-lo à esterilidade, o que impede a disseminação de suas características a futuros cães-guia.

Desde o primeiro capítulo [ver O que é ser Cego], tenho procurado mostrar que não cabe aos videntes tomar decisões pelos cegos. A atitude de se castrarem seus cães-guia é, muitas vezes, justificada pela possibilidade de o cão envolver seu dono em um acidente, pelo fato de estar cumprindo seus instintos. Isso pressupõe uma alienação por parte de seu dono. Supõe que este não seja capaz de distinguir o que se passa a sua volta. Tal suposição é antagônica à própria atividade de adestramento de animais que, espera-se, venham a ampliar a independência de seus donos. Trata-se, portanto, de um paternalismo execrável.

Existe uma grave contradição no comportamento dos seres humanos. Ao mesmo tempo em que lutam para acabar com o preconceito racial entre eles, continuam apurando as raças dos animais e a atribuir-lhes qualidades físicas e psicológicas de pouco teor científico. Pelo que conheço de animais, existe um certo padrão de comportamento entre as raças. Somente isso não é capaz de pré-determinar a índole do animal, como esperam alguns criadores. É justamente por causa desse raciocínio estranho das pessoas que sempre que falamos em cães-guia ouvimos a pergunta " Qual é a raça mais apropriada para esse uso? " Minha resposta nunca é determinante, porque já conheci Filas Brasileiros extremamente dóceis e Perdigueiros que eram verdadeiras feras, contrariando o que se diz ser padrão para essas duas raças. Em resumo, a raça de um cão-guia pode ser qualquer uma, desde que se respeitem as restrições acima e que a índole do animal seja adequada, conforme explicarei.

Marx dizia que somos frutos da sociedade em que vivemos. O mesmo com certeza se aplica aos cães, visto que vivem conosco há pelo menos quinze mil anos. Um cão-guia depende ainda mais dela porque seu contato será mais estreito. Existem algumas premissas que não podemos deixar de entender e respeitar. A primeira e mais importante delas é a de que os cães vivem muito pouco e possuem uma infância muito curta, o que limita em muito sua capacidade mental quando adultos. Não passaria pela cabeça de nenhum ser humano normal e responsável deixar que uma criança de dois anos guie um cego pelas ruas de uma grande cidade. No entanto, procura-se, através do treinamento, fazer com que um cão desempenhe tal função com essa idade. É certo que ele já estará adulto física e mentalmente, mas também é importante lembrar que ele terá tido exatamente o mesmo tempo para adquirir experiências que uma criança da mesma idade. Guiar é, portanto, um esforço mental extremo para o animal, mesmo que o treinador não seja suficientemente perspicaz para entendê-lo.

Guiar é uma coisa natural, mas fazer com que um cão de grande porte, com grande necessidade de se exercitar, fique por horas em um recinto fechado, não é. Por isso mesmo, devemos sempre ter em mente que, além do esforço mental a que submetemos um cão-guia, estamos, de uma certa forma, reprimindo suas necessidades mais básicas, o que se traduz em um grande sacrifício, que só pode ser compensado pelo amor que seus treinadores e donos dediquem a ele.

A terceira premissa, e talvez tão importante quanto as demais, é a de que um cão-guia não é uma máquina e que nunca deixará de ser um cachorro, precisando brincar, correr, cheirar, morder, e tudo o que os demais fazem. Por causa disso, é que não podemos esperar que um cão guie seu dono ao estalar de dedos. Mesmo depois de adulto e treinado, ele precisará de um período de aquecimento antes de passar do lazer ao trabalho. Isso é a maior prova de que guiar não é uma questão de condicionamento, como diria Pavlov, mas de vontade, inteligência e, principalmente, amor. Por todas as premissas que vimos até agora, a primeira conclusão a que chegamos é que o animal precisa ser calmo, porém não apático. Em outras palavras, a calma que se espera de um cão-guia fará com que ele não se excite desnecessariamente e que seja capaz de esperar pelo seu dono por períodos prolongados. Isso, porém, não pode prejudicar-lhe a iniciativa, em hipótese alguma, porque, caso o seu dono pudesse conduzi-lo, não precisaria de um cão-guia.

A segunda qualidade primordial do caráter será a obediência sem robotização. Um cão-guia precisa ser de uma obediência extrema, mas não cega. Devemo-nos lembrar de que seu dono não enxerga e, portanto, não pode saber como o animal está cumprindo suas ordens. Assim, ele precisa ter certeza de que o que foi dito foi feito. Por outro lado, pelo fato de não enxergar, os cegos dão ordens impossíveis de serem cumpridas de imediato. Por exemplo, pode-se comandar "direita!" e o cão não poder obedecer, por não se tratar de uma esquina. Daí conclui-se que o animal deverá filtrar as ordens que receber, cumprindo-as à medida do possível e quando possível.

A terceira dentre as qualidades principais é a sociabilidade. As pessoas, por erro de educação, são muito temerosas quanto aos animais em geral e aos cães em particular. Qual é a mãe que não diz "Cuidado! Não chegue perto! Ele morde!" Como já dissemos, um cão-guia deverá acompanhar seu dono onde quer que ele precise ir, sem assustar as pessoas. Uma postura indiferente é ideal. Se, por um lado, um cão excessivamente agressivo pode causar problemas em locais públicos, por outro, um demasiadamente brincalhão pode causar problemas ainda maiores.

Finalmente, falemos um pouco das qualidades físicas de um cão-guia. Antes de mais nada, é preciso ser muito objetivo na escolha de um animal. O preparo de um guia requer dois anos de investimento entre os cuidados enquanto filhote até o treinamento propriamente dito, passando pelos custos inerentes à escolha de seu futuro. Nenhuma instituição que se proponha a fornecer esse importante auxílio aos deficientes visuais pode se dar ao luxo de desperdiçar recursos com um animal que, em última análise, tenha pequena probabilidade de êxito. É, portanto, imprescindível um apurado exame de saúde, a ser feito por veterinários experimentados e competentes.

Partindo do princípio de que o cão não possua nenhuma doença ou deformidade congênita que comprometa seu desempenho futuro, o segundo ponto a se verificar será o da visão. É bíblico que um cego não pode guiar outro cego. A visão não é o melhor dos sentidos de um cachorro, ficando em primeiro lugar o faro e, em segundo, a audição. Isso se agrava porque oitenta por cento dos cães são míopes ou astigmatas, como ocorre com os seres humanos, porém sem que se possam fazer testes que precisem o grau da deformidade ocular. É talvez esse o maior ponto de descarte de animais para esse fim. Os testes mais usuais podem ser feitos a partir dos três meses de idade. Coloca-se o cão em lugar descampado, de preferência de costas para o vento. Pede-se, então, que a pessoa de quem ele mais goste se aproxime silenciosamente e mede-se a distância em que o cão a reconhece. Não se trata de um teste infalível porque, nessa idade, os animais ainda estão extremamente desatentos, podendo não perceber a aproximação pelo simples fato de ter a atenção voltada para outro lado. O vento pelas costas se justifica para inibir o olfato; e o local descampado, para abafar o ruído dos passos. Repita esse teste mensalmente até os dezoito meses, porque nem todos os cães têm o mesmo ritmo de amadurecimento.

Pelo fato de não enxergarem cores, os cães, como a maioria dos animais, são muito sujeitos a ilusões de ótica. Uma mancha escura no piso pode lhes parecer um buraco, ou mesmo dois objetos que, em preto e branco, dão o mesmo tom de cinza podem lhes parecer iguais. Assim, parte de sua capacidade de locomoção se deve ao excelente ouvido que possui. Devemos, portanto, testar a qualidade do cão, apitando-se perto dele e verificando-se o quanto de força devemos imprimir ao sopro para que ele nos ouça. Como no caso da visão, é bom repetir o teste muitas vezes durante seu crescimento. Cães surdos são muito raros, o que tira essa deficiência do rol das mais freqüentes ou impeditivas.

Durante sua vida ativa, o cão-guia será submetido a inúmeras provas de equilíbrio e motricidade. Os casos mais freqüentes são aqueles em que o espaço é muito estreito para a dupla caminhar lado a lado. Ocorre que o arreio não dá muitas alternativas, obrigando o animal a equilibrar-se em beiradas muitas vezes perigosas. Um bom teste para isso, além dos exames clínicos, é o de passar uma "rasteira" no animal. Ele não deverá cair, apresentando uma pronta reação e recolocando-se em posição equilibrada rapidamente.

Como conseqüência do que dissemos acima, a tendência à vertigem é inadmissível. Ela fará que o animal tenha reações indesejadas em locais que, de fato, não apresentam risco para ele. Os melhores exemplos disso são as pontes, escadas vazadas e elevadores panorâmicos.

Nosso senso de direção está baseado principalmente no ouvido e na memória visual dos locais por onde passamos. Há, também, a motivação. Uma pessoa que nunca teve um automóvel, tendo sempre que andar de transporte coletivo, tende a ter um péssimo senso de direção. Ela confiará ao condutor a tarefa de guiar, crendo que o itinerário será cumprido à risca, levando-a de um lado para o outro, com segurança. Com os cães acontece o mesmo, porém com diferentes graus de dependência deste ou daquele sentido. O faro é, portanto, primordial porque o cão tenderá a guiar-se pela memória olfativa dos locais por onde passou. Se, por um lado, isso é muito preciso porque o faro deles é muito desenvolvido, por outro, torna-se muito crítico, por estar sujeito a mudanças climáticas e químicas. A chuva e a variação na direção dos ventos são bons exemplos do quanto o clima pode afetar o faro, ou melhor, a memória olfativa. As variações químicas são geralmente causadas pelo ser humano. A lavagem de um estabelecimento, por exemplo, pode mascarar seu odor costumeiro, ludibriando o cão. Sempre que sair com um candidato ao treinamento como guia, deixe-o procurar o caminho de casa, a fim de verificar, através de seu comportamento, a capacidade em discernir sobre o melhor caminho a seguir.


1. As raças mais comumente utilizadas são:

  1. pastores alemães, belgas, collies e setter, se bem que a maioria das instituições os rejeitem por causa de seus pelos longos;
  2. boxer, weimaraner, e outros cães de usos variados, como labrador retriever e/ou golden retriever, sendo as duas últimas a imensa maioria.

2. As raças menos utilizadas são os doberman, hotweiller, dog alemão e bull terrier.

3. Os impeditivos em ordem decrescente são:

  1. visão;
  2. força física;
  3. coordenação motora;
  4. destempero;
  5. estatura;
  6. doenças congênitas ,como displasia coxofemural e outras.


Uma infância equilibrada.

Todos os dias a televisão nos mostra o resultado de uma infância inadequada no comportamento de nossos adultos. Muitos desses, talvez a maioria, são apáticos. Outros são violentos, chegando mesmo a ser criminosos. Há, ainda, os que são deficientes físicos por traumas ocorridos durante seus primeiros anos de vida, enquanto outros são deficientes mentais por problemas alimentares e traumas psicológicos.

Tudo o que descrevemos se aplica aos cães, já que vivem em nossa sociedade e não no meio para que foram criados. Isso, aliás, em si já se constitui numa violência a que todos eles são submetidos, independentemente de sua raça ou da classe social de seus donos. Acontece que todos eles são separados de seus pais ao redor das oito semanas de idade. Na Natureza, as pesquisas provam que os lobos só deixam seus locais de nascimento por volta de um ano de idade, quando seus pais os consideram aptos a sobreviver por si mesmos. Se as crianças abandonadas apresentam seqüelas, por que os cães não estariam sujeitos a se comportar de modo que reflita semelhante violência?

Nós, seres humanos, somos excessivamente insensíveis para levar isso em consideração. Além disso, muitas de nossas religiões nos ensinam que somente nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus, o que referenda nossa pseudo-superioridade. Tornamo-nos, então, ainda mais insensíveis às necessidades que os animais têm de carinho e de compreensão pelos destratos que sofrem.

Mesmo os criadores neófitos percebem que os cães que crescem em lares são mais independentes, vivazes e inteligentes que os criados em canis, onde o tratamento dispensado a eles não passa de uma rotina. Além do amor, que é insubstituível, há ainda o fato de que cachorros não falam. É, portanto, preciso que conheçamos muito bem o animal, para adivinhar-lhes as mazelas e carências. Num ambiente de canil isso se torna impraticável porque os animais são tantos que o tempo dispensado a cada um deles não é suficiente para que tal empatia se desenvolva.

Como acontece com as crianças, os filhotes possuem uma grande quantidade de energia a despender. Assim, é de se supor que precisem de espaço para correr, saltar e brincar. O espaço, no entanto, não é suficiente. É preciso companhia disposta a um nível de exercícios muitas vezes além da capacidade física de um adulto, seja ele humano ou canino. É justamente por isso que os cachorros criados em casas onde há crianças são muito mais equilibrados do que os que vivem exclusivamente em companhia de adultos. Estes últimos vivem entre dois extremos: ou são excessivamente mimados, para suprir carência de seus próprios donos, ou ficam relegados a um segundo plano, por falta de tempo para lhes darem atenção.

A exemplo de tudo o que foi dito, os mais famosos educadores afirmam que a curiosidade é uma qualidade e não um defeito. Ela demonstra que o indivíduo possui iniciativa e espírito investigador, qualidades que, indiscutivelmente, acompanham os adultos bem sucedidos. Infelizmente, por questões de incapacidade intelectual, ou mesmo por pura preguiça, os adultos costumam reprimir a curiosidade em seus menores, tornando-os apáticos e medíocres. Isso, como tudo o mais, também se aplica aos filhotes de cão. Como as crianças, eles também têm sede de saber como são as coisas que os cercam, meio mais rápido e natural para uma maturidade segura e equilibrada. Permitir que um filhote seja curioso e mesmo assim tenha uma infância segura dá muito trabalho, porque eles tendem a se meter em constantes e perigosas confusões. Tal dedicação só se pode encontrar em lares onde os donos sejam devidamente educados e instruídos no sentido do bem-criar.

Por melhor que seja a educação de um cão, é preciso que compreendamos que eles serão sempre menos aptos a abstrair que os seres humanos. Por isso mesmo, tendem a depender muito mais dos sentidos do que nós. Qualquer cinófilo sabe que o sentido mais aguçado de um cão é o faro.

Assim como nós precisamos ser sensíveis às necessidades deles, eles precisam entender nossas limitações. Isso só se consegue com uma convivência longa e isenta de traumas de parte a parte. Desde o nascimento de um novo candidato a cão guia, os envolvidos precisam entender que seus futuros donos não precisam de robôs, mas de seres pensantes que aprendam quando seus donos precisam deles e, principalmente, quando é que eles não precisam de auxílio. Resumindo, mais que o puro treino, a empatia é que faz com que um cão seja capaz de guiar um deficiente visual. Isso só se consegue a partir de uma índole adequada e desenvolvida em um ambiente cercado de carinho e amor.

Por tudo o que dissemos, a grande maioria das instituições que criam cães guias usam casas de famílias equilibradas, com crianças como "puppy holders". As crianças devem estar entre os dez e os quatorze anos de idade. Espera-se que, nessa faixa etária, os indivíduos já possuam responsabilidade suficiente para não submeter os filhotes a maus tratos. Além disso, já contarão com liberdade suficiente para sair constantemente com eles, já que seus afazeres ainda não lhes ocupam demasiadamente o tempo. Tais famílias precisam ter sempre em mente que, aos seis meses de idade, os cães precisarão ser encaminhados ao treinamento, não podendo ficar eternamente com eles. A tristeza da separação deve ser compensada pela nobreza do trabalho que se está executando e isso é o principal motivador para que tais crianças desejem cuidar de um segundo ou mesmo terceiro candidato a cão-guia.

Pessoalmente, sou totalmente contrário a que o cão seja criado junto a seu futuro dono. O primeiro motivo diz respeito à racionalidade com que devemos encarar a escolha de um cão. Não creio que tenhamos esse direito, muito menos essa aptidão. Na verdade, penso que os cães é que escolhem seus donos. Não acredito que muitos cinófilos discordem disso, posto que em suas experiências já terão observado que o cão acaba por eleger aquele a quem dedicará todo o seu carinho, mesmo que não seja aquele que o alimente ou cuide mais proximamente dele. Assim, ao se colocar o cão prematuramente junto ao seu futuro dono, corre-se o risco de que não seja o deficiente o dono escolhido pelo animal, o que reduzirá em muito a eficiência de seu trabalho.

A exemplo de tudo o que se pode considerar profissional, as coisas se dividem em certas, quando se seguem as regras, ou erradas, quando se tenta abrir uma exceção, sem o devido suporte lógico e científico. Houve um candidato a usuário que se dizia "cachorreiro profissional". De fato, ele vivia de criar e vender cães da raça shnhnauser mini. Pensamos que, através de sua experiência como criador, pudesse cuidar daquela filhote tão especial e querida. Impusemos algumas condições, como a de jamais deixá-la em um canil. Não foi o que ele fez. À primeira oportunidade, levou-a para lá, alegando ser local de trabalho, onde poderia ter mais contato. Ocorre que a cadela ficava em seu cercado, para não atrapalhar seus afazeres. Quando solta, ela tentava extravasar toda a ansiedade acumulada durante as horas de solidão. Foi-nos devolvida como hiperativa. De fato, nos dois primeiros dias, ela não dormia. Seu coração permanecia acelerado. Foi preciso que eu e minha esposa nos revezássemos ao seu lado, no chão, até que ela restabeleceu sua autoconfiança. Houve momentos em que pensamos que estivesse irremediavelmente estragada. Hoje, porém, como veremos nos próximos capítulos, é motivo de orgulho para todos os que se envolveram com seu treinamento.

O segundo aspecto que julgo primordial é o de que o cão fornecido pode não se identificar com o trabalho que irá executar, muito embora já tenha desenvolvido laços de amizade com o deficiente que o criou. Como então separá-los? É muito provável que o deficiente prefira abrir mão do guia pelo cão de companhia, o que não é a finalidade da doação.

Aqui vai um exemplo que ilustra bem o de que estamos falando. Há uns dois anos, fomos procurados por uma família que pretendia obter um cão para seu filho adolescente. Sugerimos que ele esperasse um retriever do Labrador que se ajustasse, não só ao trabalho em si, como a ele próprio. Ocorreu que seu irmão ganhou um pastor canadense a quem o menino se afeiçoou. Foi-lhe repassado o cão. Após uma avaliação, chegamos à conclusão de que ele tinha pouquíssima probabilidade de ser um cão-guia. Durante a entrevista, perguntamos ao garoto, caso o treinamento não funcionasse, se ele estaria disposto a trocar de animal. Sua negativa foi veemente. Achamos por bem não treiná-lo. Uma tentativa particular foi feita e nossas previsões se concretizaram. O animal sentia-se acuado em lugares públicos, chegando a tentar fugir. Hoje, ele é um agradável cão de companhia, mas o menino não possui um guia.

A segurança do filhote também deve ser observada. Sei disso, por experiência própria. Meu primeiro cão-guia foi criado comigo. Quando ele tinha dois meses de vida, estava dormindo atrás da porta do lavabo de minha casa. Quando entrei, pisei-lhe o tórax. Como eu era jovem, com reações rápidas, e acostumado aos cachorros, retirei de pronto o pé, antes de que algo de pior acontecesse. Mesmo assim, ele chorou longamente. Eu poderia tê-lo matado. Sempre que penso nisso sinto uma aflição extrema porque estou perfeitamente consciente de que um deficiente mais idoso, pesado ou desatento tê-lo-ia feito. Não há nada de científico na afirmação que vou fazer, mas deve haver um fundo de verdade: o susto por que passou aquele filhote deve tê-lo acompanhado até o fim de sua vida.

Passemos às regras básicas do tratamento que os "puppy holders" devem seguir para aumentar a probabilidade de êxito no treinamento.


Tópicos sobre "puppy holding".

1) O "puppy holder" precisa ser, antes de tudo, um cinófilo. Não queremos dizer, contudo que precise ser o que chamamos vulgarmente de "cachorreiro", ou seja: aquele que vive de criar cães ou mesmo que têm neles o seu único hobby. Significa, sim, que o interessado em educar um candidato a cão-guia, durante os seis primeiros meses de vida, deverá saber algo a respeito dos animais. É imprescindível que o trabalho de "puppy holding" seja precedido pela leitura de bons livros de cinofilia. Isso fará com que se tenha uma noção do que é um cão, suas principais doenças e respectivos cuidados, seus hábitos naturais, alimentação, etc. É justamente o "puppy holder" que terá o convívio necessário com o filhote e que poderá passar a seus futuros treinadores quais são as principais características de sua personalidade. Isso auxiliará em muito o trabalho de adestramento.

2) Muito embora faça parte da cinofilia, ensinar bons hábitos de higiene ao cão é uma das principais atribuições de um "puppy holder". Devemo-nos lembrar constantemente de que cães guias precisam ir com seus donos a locais em que cães normais jamais entrariam. Assim, é preciso que, além de saber onde e quando se é lícito satisfazer suas necessidades fisiológicas, o cão terá que aprender como demonstrá-las a seu futuro dono, a fim de evitar embaraços. A propósito, deve-se ensiná-los a usar folhas de jornais para isso. Desta forma, seus donos não precisarão se deslocar. Num hotel, por exemplo, o cego poderá estendê-las no banheiro. Aproximadamente quinze minutos depois de comer, o cão dirigir-se-á para lá e defecará sobre o jornal. O seu usuário poderá jogar o produto no vaso e o papel no lixo. Métodos para esse tipo de educação são encontrados em profusão na literatura especializada.

3) Também porque cães-guia estão sempre indo a lugares públicos, precisam se comportar de forma o mais indiferente possível em relação à presença de estranhos a seu redor. Não deverá tomar atitudes demasiadamente agressivas ou mesmo fazer exagerada festa. Tanto uma coisa como outra, além de desviar a atenção do animal, torna seu convívio desagradável aos transeuntes, haja vista que nem todos são obrigados a gostar de cachorros. Isso se consegue saindo-se diariamente com o animal e levando-o a locais movimentados. Sempre que ele tentar cheirar ou agredir alguém, reprima-o; porém, sem violência. Os americanos e os ingleses, no intuito de evitar que o animal se desconcentre, levam-nos a uma aparente apatia. Embora dê muito mais trabalho, preferimos tornar o cão-guia o mais simpático possível, porém dentro de rígidos padrões de educação. Dedicarei um capítulo inteiro a esse tema.

4) Como já discutimos largamente, cães-guia precisam ser emocionalmente muito equilibrados. Não use jamais de violência para coibir atitudes desinteressantes. Quando precisar fazê-lo, evite movimentos bruscos, dando preferência ao apertão no focinho ou mesmo um puxão no seu enforcador, ao invés da agressão direta. Nunca chame o cão para lhe aplicar um castigo, caso contrário, ele terá medo de se aproximar, o que pode estragá-lo para sempre. Se o cão fugir, agrade-o ao voltar para que ele ache que sempre é melhor estar perto do que longe. Na hipótese de ele não voltar quando chamado, vire as costas e, fingindo que vai abandoná-lo, afaste-se, repetindo seu nome em voz alta. Isso costuma funcionar porque, na cabeça deles, nós somos sua propriedade. Seu sentimento de posse faz com que eles temam perder-nos e se aproximam imediatamente. Agrade-os na chegada.

5) A inteligência de um cão é limitada. Assim, a única palavra que acompanha uma repressão é "não". De nada adianta dizer: "chega!' ou "pare com isso!". Eles são muito mais capazes de entender a entonação do que as palavras que lhes são dirigidas. Assim, quanto mais preciso e restrito puder ser o seu vocabulário no "diálogo" com um cão, mais fácil será sua educação. Por outro lado, não poupe carinho quando ele fizer alguma coisa que você julgue correta. Eles precisam se sentir queridos e próximos de nós, a ponto de considerarem isso a grande missão de suas curtas vidas.

6) Quando sair à rua, faça com que o cão ande sempre do seu lado esquerdo. Nunca se esqueça que não faz o menor sentido esperar que um cão-guia siga a perna de seu dono, como costumamos treinar nossos cachorros de companhia. Assim, reprima-o somente em caso de o animal puxar com força excessiva, mas não faça que ele venha com a cabeça alinhada com seu joelho. Ele, na verdade, deverá ter as patas traseiras sincronizadas com o passo de seu condutor.

7) Frases como "lugar de cachorro é no quintal" não têm cabimento quando se trata de um guia. Não reprima sua entrada em casa porque, caso contrário, quando isso ocorrer ele ficará tão curioso que será de difícil controle. Esse é o tipo de atitude que não se pode esperar de um guia. Reforçando: jamais o amarre. Não o prenda preventivamente. SE o fizer, você jamais saberá até que ponto poderá contar com ele.

8) Lembre-se sempre de que um cão-guia precisa ser, antes de tudo, um atleta, porque terá que usar sua força para vencer a teimosia de seu dono. Faça, portanto, com que ele corra muito, salte mais ainda e, se possível, nade o quanto puder. No mais, siga a literatura especializada, procurando evitar que ele fique em locais escorregadios, que não tome sol, e outras coisas.

9) Caso você saia com ele por períodos prolongados, evite ficar segurando-o pela guia o tempo todo; isso fará com que, quando solto, o cão dispare. Assim, se o ambiente permitir, deixe-o o mais livre possível, mesmo porque, quando adulto, ele sempre precisará ter iniciativa. Se, quando solto, ele tomar alguma atitude reprovável, reprima-o. Em geral, principalmente as mulheres, temem soltar os cães, com medo de que eles perturbem os transeuntes. Isso é um grave erro, pois assim ele jamais se tornará verdadeiramente adulto. Nunca me esqueço da primeira vez em que levei minha atual cadela à praia. Era uma manhã de sol e a praia estava bastante cheia. Soltei-a tão logo chegamos. Minha esposa, que até então não tinha participado de nenhum treinamento, e minha sogra se apavoraram. Alegavam que ela iria perturbar a todos a que respondi: "Se ela não errar, como poderei reprimi-la?"

10) Contrariando as prescrições dos veterinários, os candidatos precisam sair à rua desde as oito semanas, com grande freqüência. O tempo é soberano. Muitas vezes tentamos comparar a idade física de um cão com seu equivalente em um ser humano, a partir de uma simples proporção aritmética (7..1, 8..1). Isso não tem nada a ver com a realidade, posto que a infância de um cão é proporcionalmente muito menor que a de um ser humano. Desta forma, há que se induzir o animal ao maior número de experiências possível antes de que atinja idade suficiente para que seu treinamento seja iniciado. É, portanto, preciso que ele seja levado a supermercados, lojas, parques e quaisquer outros locais que possam acrescentar algo ao seu conhecimento. É evidente que não se pretende expô-los desnecessariamente ao risco de contaminação. Esse risco, porém, é notoriamente maior nos candidatos a cães guias.


Premissas

Há alguns anos atrás, pesquisei preços para a produção de um vídeo institucional. Destinava-se a instruir possíveis adestradores na arte de se treinar um cão guia. Essa pesquisa me levou ao estúdio de um grande amigo meu, cujo nome não gostaria de declinar.

Quando comecei a falar sobre cães, ele me disse que tinha acabado de produzir uma fita para divulgar um centro de treinamento de cães de guarda. A idéia que procurara passar aos espectadores era a de que, mesmo que o guarda estivesse armado, o cão seria útil porque, "Como os cães não pensam, não têm medo. Assim, você sempre poderá mandá-lo pegar o bandido e, enquanto ele estiver atirando no cachorro, você terá tempo de atirar nele." Confesso que fiquei surpreso e aborrecido. Como seria possível que se tentasse vender uma idéia tão distorcida? Quem seria o maluco capaz de investir na alimentação, saúde e adestramento de um animal para depois utilizá-lo como um simples chamariz? Não seria muito mais interessante aproveitar as qualidades do animal para que o seu dono nunca fosse surpreendido por um bandido? Que tal nos lembrarmos de que um cão é capaz de detectar a presença de uma arma a dezenas de metros e que, depois das corujas, é o vertebrado terrestre que tem a audição mais apurada. Principalmente, não seria mais interessante quebrar alguns preconceitos e entender que todos os seres vivos são capazes de pensar, de dar amor e de nos fazer mais felizes e inteligentes?

Todo o conhecimento científico se baseia em premissas. Assim, uma teoria será mais ou menos válida conforme a validade das premissas em que tiver sido calcada. Se nossas atitudes tiverem seu alicerce na ciência, serão mais ou menos corretas quanto mais verossímeis forem as premissas de que partirmos.

No caso acima, o treinamento jamais poderá ser bom, seja para o guarda, seja para o cão, pelo simples motivo de que os adestradores partiram de premissas verdadeiramente absurdas. Aqui, apresentaremos dez premissas que devem reger o adestramento.

1) Guiar é uma atividade intelectual.

Meu primeiro cão guia costumava afastar do trajeto as pessoas que, porventura, estivessem nos acompanhando. Ele tinha uma grande necessidade de se sentir como o guia de todos os que o seguiam. Depois de algumas vezes em que minha esposa saiu a passeio conosco, ele passou a confiar nela e lhe transferiu a responsabilidade por me conduzir. As caminhadas com ela passaram a ser para o meu cão uma diversão. Como seria ele capaz de agir de modo tão humano se não pensasse? O que o faria encarar obstáculos totalmente novos com serenidade se não possuísse uma inteligência tão aguçada?

Alguns treinadores continuam acreditando que o adestramento seja sinônimo de condicionamento. De fato, pode-se condicionar um animal a andar de seu lado esquerdo, a sentar quando requerido, a fingir-se de morto e inúmeros outros truques. No entanto, seria impossível condicionar-se um animal a caminhar por lugares desconhecidos, com obstáculos novos e diferentes, como obras, buracos, poças d'água e outros. Em algum momento ele precisará parar, pensar e decidir sobre o melhor caminho para o seu dono e para si próprio. Isso só se torna possível quando ele tiver plena consciência do grau de dependência que envolve seu relacionamento com aquele a quem conduz. Assim, o condicionamento se resume tão somente às atitudes inerentes à quebra da barreira lingüística que separa o homem do animal.

Tenho notado que a presunção de que os animais não pensam está mais presente em pessoas excessivamente religiosas ou em profissionais da mente humana, como psicólogos e psiquiatras. Não quero cometer injustiças. Fique bem claro que não generalizo. Tenho ótimos amigos nas duas condições que citei e alguns que conjugam ambas. Cito, porém, dois casos entre tantos que presenciei.

O primeiro deu-se durante a entrevista com um candidato a usuário. Ele tinha pego uma "carona" com seu genro. Em uma dada altura da conversa, este último me perguntou: "Deve dar muito trabalho condicionar um cachorro a guiar." Argüi-lhe então se era psicólogo de profissão. Surpreso, ele quis saber como eu tinha adivinhado. Respondi-lhe com uma pergunta: "Onde está a lógica em se condicionar alguém ao inesperado?"

O segundo foi até mesmo uma mostra de radicalismo. Admiti em meu escritório uma estagiária em análise de sistemas, que é adventista. Em uma conversa, citei o elevado grau de inteligência dos cães. Note-se que a moça já convivia com minha cadela há mais de um mês. Ela disse com uma certa ironia:

— Cachorros não pensam!

— Mas você nunca viu a Nina guiar?

— Vi. Mas não passa de um instinto!

— Como isso pode ser um instinto, se os cães, quando na cidade, estão totalmente fora de seu "habitat"?

— Mas na bíblia está escrito que Deus só criou os seres humanos à sua imagem e semelhança; portanto, só nós podemos pensar.

Volto a dizer que não quero cometer nenhuma injustiça. Talvez essa moça seja irracionalmente religiosa, porque foi entre os adventistas que consegui os melhores "puppy-holders".

2) Guiar é, antes de tudo, um ato de amor.

No caso que descrevi acima, o insensível proprietário do canil pensava que o cão só seria capaz de atacar por ter escutado a voz de comando do guarda e, por reflexo condicionado, se atiraria contra o atacante. Não poderia ele pensar que o medo é uma emoção das mais primárias e que grande parte de seu impulso seria motivado pelo amor que o animal dedica ao homem.

Assim, é preciso que se desenvolva uma relação de amor entre o adestrador e o cão e, posteriormente, entre o cego e seu cão, para que este último venha a desempenhar suas funções sempre alegre e satisfeito por estar servindo alguém que precisa dele.

Estou plenamente consciente de que o que acabo de afirmar gera uma enorme discussão entre os psicólogos. Isso se deve ao fato de que cada escola interpreta e define os sentimentos à sua maneira. Como não sou psicólogo, apesar de me interessar muito pela matéria, sinto-me livre para interpretar à minha moda, sem me sentir obrigado a defender uma tese de doutoramento sobre isso.

É essa mesma relação de amor que dará ao cego a confiança necessária para que ele tenha coragem de se expor a inúmeros perigos, tendo um animal dito irracional como um guia.

3) Guiar é sinônimo de iniciativa.

Um animal que se destina a um trabalho como esse precisa estar constantemente alternando doses de submissão e autoridade com relação ao seu dono. É preciso que se submeta a situações totalmente estranhas à sua natureza, como estar deitado por horas a fio entre os bancos de um avião, subir escadas rolantes, aguardar do lado de fora de barbearias, consultórios médicos e outros estabelecimentos onde os padrões de higiene não permitam sua permanência. Por outro lado, é o cão que decide o melhor caminho para ambos e deverá fazê-lo de forma extremamente autoritária, pois o cego, em sua grande teimosia, poderá colocar ambos em graves perigos.

O adestrador deverá ter em mente que não poderá usar práticas que limitem a iniciativa do animal além do que for necessário ao seu bom comportamento social. Termos como "quebrar o temperamento" jamais cabem nesse tipo de treinamento, porque a apatia não é admissível em um animal para tal uso.

4) Medo não é sinônimo de responsabilidade.

É sabido que os brasileiros gostam de ser técnicos em tudo. Durante o adestramento do meu primeiro cão, ouvi inúmeros comentários como: "O cachorro guia precisa ter medo, para evitar ir para lugares perigosos." Tais palpites vinham de adestradores particulares e mesmo militares, que incorriam no mesmo erro que discutimos largamente nos capítulos IV e V: eles queriam decidir o que poderia ou não ser perigoso para o deficiente.

O que faz um ser vivo temer pela sua sorte ou pela de seus dependentes não é exatamente o medo, mas a responsabilidade. O medo fará com que ele se desespere, a responsabilidade fará com que receie. O medo é controlável pelo intelecto. A responsabilidade é capaz de controlar o medo. Assim, práticas de recompensa e castigo não podem levar o animal a se descontrolar. Pelo contrário, cabe ao adestrador transmitir calma e confiança, para que o animal possa se desincumbir de suas obrigações condignamente.

Um exemplo disso foi minha chegada de avião a Porto Alegre com minha atual cadela. Essa foi a primeira viagem de avião que ela fez. No desembarque ela se assustou um pouco com o ruído das turbinas. Isso se deveu ao fato de que o Aeroporto de Salgado Filho não possui os tubos de embarque vulgarmente conhecidos como "fingers". Assim, fomos obrigados a descer as escadas por trás das turbinas do aparelho. Ocorre que os cães são capazes de ouvir até 200 (três oitavas acima da capacidade auditiva de um ser humano). Era, então, de se esperar que ela se sentisse terrivelmente incomodada pelo ruído. Seu primeiro impulso foi retornar para o interior da aeronave. Os presentes se ofereceram para carregá-la escada abaixo, ao que me opus veementemente. Ela precisava absorver também essa nova experiência de forma não traumática; caso contrário, ao invés de um amadurecimento, criaríamos um amedrontamento desnecessário. Pedi-lhe, então, que se sentasse no topo da escada e, com o toque de minhas mãos fiz com que relaxasse. Ela então desceu tranqüila e segura os degraus e nunca mais se assustou com aquele tipo de ruído.

O exemplo acima prova que jamais se deve submeter o animal à violência, devendo o castigo ser aplicado apenas quando a atitude for consciente. Mesmo assim, ele deverá ser exclusivamente moral.

5) Cães não são robôs.

Uma vez, um de meus estagiários disse: "No Japão, estão pesquisando um robô para guiar cegos." Excluindo-se o fato de que o Japão é, não sem méritos, o país da moda, investir-se uma fortuna no desenvolvimento de robôs com a finalidade específica de guiar deficientes visuais seria um verdadeiro acinte ao raciocínio humano. Isso decorre do fato de que, para guiar, o robô precisaria enxergar com a acuidade igual ou superior a um ser humano. Ora, não seria muito mais racional destinar tais recursos a uma instituição que, há mais de vinte anos, pesquisa o olho biônico? Como, apesar de minha experiência, nunca ouvi falar em semelhante desenvolvimento, relevei o comentário.

Por outro lado, eu lido com sistemas de computadores. Isso faz com que eu tenha uma pequena noção da dificuldade que se encontraria para desenvolver os programas destinados a permitir que um robô fosse capaz de guiar um cego. Dentre outras atividades, ele teria que aprender quais são as deficiências adjacentes de seu dono como: altura máxima de degraus, tamanhos de passada nas mais diversas velocidades, tempo de reação, hábitos pessoais, caminhos mais comumente percorridos, etc. Um cão, por outro lado, é dotado de tais qualidades, e muitas reações advêm do convívio com seu dono.

Sem que ninguém ensinasse, meu primeiro cão aprendeu a retirar do caminho obstáculos como tábuas, caixas de papelão e outros objetos leves, ao invés de desviar deles. Isso decorreu do fato de que constantemente estávamos caminhando por calçadas excessivamente estreitas, sem espaço para que desviássemos de forma segura.

Minha cadela atual percebeu, sem qualquer instrução, que, quando a rua é muito íngreme, os degraus das calçadas são muito menores perto das sarjetas que dos muros. Assim, para minimizar o número de vezes que ela tem que parar para me avisar de um degrau, ela prefere caminhar junto ao meio-fio. Exemplos como esse contam-se aos milhares, porque cada cão tem sua individualidade e está sujeito à realidade de seu dono. Em outras palavras, provavelmente meu primeiro cão não observou a questão dos degraus, porque as ruas por onde eu caminhava quando ele era vivo eram planas, ao passo que os obstáculos móveis podem ter passado desapercebidos por minha segunda cadela, pelo simples fato de que hoje raramente caminho por ruas tão movimentadas.

A exemplo do que ocorre com as pessoas e ao contrário do que acontece com os robôs, os cães não passam imediatamente do estado de ócio para a atividade a um toque de botão. É preciso que adquiram concentração. No início de suas carreiras, isso toma mais tempo do que durante sua maturidade, posto que a experiência lhes molda o comportamento. Isso significa que cego e adestrador precisem fazer um certo aquecimento com o animal antes que ele comece de fato a guiar. Além disso, sua capacidade de concentração é finita, de sorte que não se pode ultrapassá-la sem que se encontre uma séria baixa de produtividade.

O último aspecto é o de que cão e cego adquirem vícios durante suas vidas em comum. Isso leva à necessidade de periódicas reciclagens de treinamento. Alguns hábitos não são propriamente vícios, mas adaptações da técnica ao cotidiano. A reciclagem é útil tanto para adestrador como para os usuários, pois é aí que se trocam as experiências mais recentes.

6) Cães guias sempre serão cachorros.

Sempre que dou uma entrevista a respeito do uso de cães para conduzir deficientes visuais, perguntam-me o que fazemos com o animal quando ele não nos está guiando. Acho muita graça nisso, porque é óbvio que não os podemos desligar e guardar em um armário, para religá-los apenas quando precisarmos deles.

Existe toda uma carga afetiva que envolve o relacionamento entre o cego e seu cão. É preciso que o deficiente brinque com ele, se encarregue de sua alimentação e higiene, assim como todas as atividades que envolvem a boa cinofilia. Portanto, tudo o que se aplica a cães de guarda, de detecção de drogas, busca e salvamento e outros aplica-se aos guias, principalmente no que tange ao carinho e dedicação que requerem de seus donos.

Um aspecto, no entanto, deve ser ressaltado: os guias não se movimentam muito mais que seus donos. Assim, é preciso que estes últimos dediquem uma parcela de seu tempo a exercitá-los. Isso, naturalmente, dependerá, em muito, da imaginação do usuário, visto que ele nem sempre tem as condições mais adequadas para tal.

Como estamos falando de animais de porte médio ou grande, precisamos nos lembrar que eles podem estar vivendo em apartamentos ou mesmo casas muito pequenas para suas necessidades de espaço. Uma esteira pode ser uma solução; mas precisa de muito cuidado por parte do dono, para evitar levar o animal à exaustão. Outra possibilidade é a de usar a escada de casa para exercitar a musculatura. Para tanto, basta que se jogue uma bola, pedindo que o cão suba a escada para trazê-la de volta.

7) Um guia tem dois corpos.

O cão é muito mais flexível e ágil que o homem. Salta até quatro vezes sua altura. Dependendo da raça, pode atingir 90 Km/h. Possui um faro cerca de duzentas vezes mais aguçado que nós e escuta dez vezes mais.

Ao ser atrelado a um indivíduo, precisará sempre contar com o seu corpo e com o daquele a quem estiver conduzindo. Todos os espaços terão que ser calculados levando-se esse estorvo em consideração. Estorvo mesmo. O corpo extra que ele está levando se assemelha a uma motocicleta com “side car, posto que este adiciona aos inconvenientes da moto os transtornos causados por se possuir quatro rodas. Em outras palavras, o corpo a mais com que o cão se vê obrigado a contar é lento e freqüentemente desastrado. Além disso, suas reações são mais ou menos imprevisíveis.

Por tudo isso, devemos esperar que o cão possa contar com um treinamento primário muito apurado. É preciso que, através de saltos, túneis, escadas, tambores e todo o equipamento que se usa para esse fim, ele tenha consciência de suas reais possibilidades para empregá-las como recursos em seu trabalho. Não são admissíveis falta de coordenação motora, vertigem ou mesmo claustrofobia.

8) Um guia nem sempre obedece.

Um cego pode dar ordens "absurdas”, como mandar que seu cão vire à esquerda no meio de um quarteirão, subir por onde não há escadas, atravessar um rua quando o tráfego não permite e muitas outras. Naturalmente, o número de ordens inexeqüíveis vai diminuindo à medida em que o cão passe a conhecer os caminhos por onde deverá passar e em que o cego demonstre confiança no seu discernimento. Mesmo assim, esse tipo de comportamento não se extingue totalmente.

O cão deve possuir o que chamamos de desobediência racional. Em outras palavras: o treinamento de um guia não só fará com que ele obedeça, no que é similar a qualquer outro adestramento, como ensinará o animal a desobedecer quando preciso, o que afeta exclusivamente a sua atividade.

Uma vez, durante a inauguração do novo hospital veterinário da Polícia Militar do Estado , um oficial do exército comentou: "Você quase não dá ordens ao seu cão!". Respondi: "Se eu pudesse dar-lhe ordens, eu enxergaria." Quero dizer que, durante seu trabalho, quem manda é o cão.

9) O adestramento se assemelha muito mais à atividade de "handling" do que a qualquer outro tipo de treinamento.

Devido às várias situações que um guia precisa enfrentar, como ficar parado em um avião, andar de forma compassada e nível de sociabilização, o adestramento de cães para exposições é infinitamente mais próximo, em técnica e objetivo, ao de um guia do que aquele que se destina a cães de guarda.

Difere, no entanto, no que tange à diversificação e multiplicidade das ordens. Um bom guia deverá atender a todas as palavras normalmente usadas durante o treinamento de obediência e a muitas outras que são afeitas às sua atividade. Essas palavras podem estar classificadas entre fixas e variáveis. As fixas são aquelas que todos os guias precisam aprender, como: frente, esquerda, direita, volta, sobe, desce etc. Variáveis são as que o animal acrescenta a seu "vocabulário" durante sua vida ou as que o próprio adestrador lhe ensina, tendo em vista as dificuldades específicas do usuário.

10) Cães guiam uma só pessoa.

Os cinco primeiros capítulos se destinaram a instruir o leitor quanto às enormes diferenças que existem entre os cegos. Seja por causa da deficiência, seja pela idade, seja pelo grau de instrução ou mesmo nível social, eles se comportam de forma distinta em muitos aspectos. Há, portanto, uma fase do treinamento em que o dono deve participar; nela visam-se três objetivos principais.

O primeiro deles é fazer com que o animal se acostume com o passo do usuário, pressão correta do arreio em sua mão e outros fatores puramente físicos. O segundo é fazer com que o cego se acostume a ser guiado pelo cão, perdendo o medo que se espera ele possa ter. Isso, aliás, não é fácil, visto que muitos cegos temem até mesmo ser guiados por seres humanos; o que não se dirá de depositar sua vida nos olhos e cérebro de um cão? Finalmente, deve-se introduzir o cão nas atividades sociais e profissionais de seu usuário, acelerando sua adaptação à nova realidade.

Por tudo isso, acrescido do fator emocional que envolve o relacionamento entre os dois, não se pode esperar que um animal, por mais bem treinado que seja, possa guiar duas pessoas. Ele é limitado e útil enquanto tais limites forem respeitados. Não se espere dele mais do que suas habilidades e personalidade permitem que se cumpra.


Treinamento primário.

Uma finalidade desta obra é a de não tentar "ensinar o Padre Nosso ao vigário". Partimos, pois, do princípio de que os possíveis adestradores interessados em desenvolver essa tarefa já sejam experientes em suas áreas de atuação. Assim, questões como ensinar um cão a se sentar usando puxar a guia para cima e forçando com a outra mão os quadris do cão para baixo poderão passar uma idéia errada para o leitor.

Ater-nos-emos à comparação entre o treinamento primário de um cão de guarda e o de um guia, descrevendo as similaridades e enfatizando as diferenças. Não é, portanto, o caso de se ditarem regras, mas de não deixar fazer algo que prejudique o desempenho futuro.

Noventa e nove porcento dos treinadores iniciam o processo fazendo com que o cão ande sempre de seu lado esquerdo, mantendo a cabeça na altura do joelho do condutor. Isso é muito cômodo porque se tem sempre a certeza de o cão o estar seguindo. No caso específico de um policial, o lado esquerdo deve prevalecer, para que não se tenha que contar com a mão direita para controlar o animal, deixando-a livre para outras atividades. No caso de um guia, a necessidade de se manter a mão mais hábil desocupada é ainda maior porque o cego fará uso dela para tatear, o que ocorre com muita freqüência. Isso traz à baila outro problema: e quando se é canhoto?

A resposta mais imediata seria: coloca-se o cão do lado direito de seu dono, para que a mão esquerda fique mais livre. Isso, porém, não é deveras factível porque, na maior parte das escolas, os animais são treinados antes de conhecer seu usuário. Assim, não há como se adivinhar se ele será ou não canhoto. O lado esquerdo permanece, portanto, como regra, a não ser que o fenômeno de lateralidade seja tão gritante naquela pessoa em particular que não haja condições de ele ser conduzido com eficiência.

Além disso, por serem obrigados adigitar, ler em braille e outras atividades, os cegos canhotos desenvolvem a ambidestria, o que resolve em parte esse problema.

Também a grande maioria dos treinadores reprova o uso da mão direita para afagar o animal quando este se desincumbem bem em uma tarefa. Dizem eles que isso fará com que o cão tenda a cruzar a frente de seu condutor, a fim de receber o esperado agrado. Deve-se portanto, usar a mão esquerda para esse fim, aproveitando-se a flexibilidade da guia. Ocorre que um cão guia estará utilizando um arreio que impossibilita seu usuário de adotar tal procedimento. Cabe ao adestrador fazer que, apesar do uso da mão direita, o cão não cruze a frente de quem estiver conduzindo.

Pelas particularidades acima e por outras mais, aqui apresentaremos, de forma comentada, as dezesseis ordens que se constituem no treinamento primário de um cão guia. Antes, porém, lembremo-nos de que, a exemplo do que acontece com os cães de guarda, esse treinamento será dado com guia longa (1,5 metros) e enforcador de elos corrediços. Evite-se obrigatoriamente qualquer dispositivo que possa ferir o animal, assim como retirar-lhe a liberdade de movimentos.


1) "Frente" ou "em frente". Geralmente, o treinamento se inicia por fazer com que o cão se acostume a caminhar do lado esquerdo de seu dono. USA-se, para tanto, uma parede que, colocada daquele lado do animal, impede que ele se afaste e facilita ao adestrador o trabalho de evitar que o cão cruze sua frente, fique para traz ou se adiante em demasia. Tudo isso é válido para o guia, porém, com algumas restrições. O animal não poderá andar sem ordem prévia. Em outras palavras, o cão não deverá tracionar o braço de seu dono desnecessariamente, porque este poderá estar desenvolvendo alguma outra atividade com as mãos, como: ver as horas em um relógio braille, ler um endereço, etc. Duas são as maneiras para se obter um bom resultado para essa ordem. A primeira é atirar um brinquedo de gosto do animal para um ou dois metros de distância, impedindo que ele o siga. Mantenha-o seguro, reprimindo-o sempre que ele avançar. Então, com a ordem "frente", permita que vá buscar o objeto. Repita o procedimento, atirando o brinquedo cada vez mais longe, até que, um dia, deixe de atirá-lo. Não se esqueça de que, durante o percurso, ele deverá comportar-se como um cão de pista, porém sem ter que acompanhar a perna de seu condutor. O outro método é o de fixar em sua guia uma haste razoavelmente rígida, porém não a ponto de ferir o animal. Com a ponta da aste, toque-o de leve, repetindo a ordem "frente", incentivando o animal a caminhar. Esse método precisa ser utilizado com a intenção de transformar a guia numa extensão do braço do treinador, não em algo que o ofenda.

2) "Alto". Obviamente, é preciso fazer com que o cão pare a um comando de seu dono. O adestrador menos experiente pode perguntar: "Não seria suficiente o dono parar e o animal fazer o mesmo?" A resposta é um sonoro "não". Muitas vezes, o dono pode precisar evitar que o cão exerça pressão sobre sua mão, porque perdeu o equilíbrio ou porque precisa dela para obter uma outra informação. Se ele simplesmente parar, haverá um lapso indesejável até que o animal perceba o que aconteceu e pare também. Nesse período, ele continuará caminhando, o que pode ser perigoso. Além disso, nunca é demais repetir que um guia deve puxar levemente, pois é justamente essa pressão que indica ao dono que ele está de fato guiando. Atenção! A literatura especializada costuma dizer que o cão deve sentar-se sempre que seu dono parar. No caso de um guia, isso não só é reprovável como inviável. Isso se deve ao fato de que, se o fizer, tomará tempo até que recomece a caminhada. Além disso, os melhores arreios ficam com sua trela voltada para baixo quando o animal se senta, o que obriga o dono a largá-la. Assim, é preferível que ele se mantenha de pé, porém, estático, aguardando a ordem para recomeçar a caminhada.

Um adestrador não especializado em guias para cegos pediu-me para mostrar-lhe o desempenho de minha cadela no trânsito. Fomos atravessar uma avenida de mão dupla, sem ilha de separação. Cruzamos a primeira metade da pista e ficamos esperando uma brecha para concluir a travessia. Ele me perguntou porque não a tinha feito sentar-se sobre a faixa. Fi-lo ver o absurdo da hipótese. Se ela se sentasse, seríamos fatalmente atropelados. Até ela se levantar e eu me colocar em posição, a oportunidade já se teria perdido.

3) "Senta". Essa ordem não apresenta nenhuma utilidade específica para um guia, mas é de suma importância para o desenvolvimento do treinamento em si, assim como para evitar problemas do dia-a-dia do usuário. Este lançará mão dela sempre que precisar que o cão ocupe o menor espaço possível e como ordem inicial a um estado de espera que, como veremos no decorrer deste capítulo, faz parte integrante de pelo menos oitenta porcento do tempo em que o cão está trabalhando. As técnicas a serem empregadas podem ser as mais tradicionais.

Mandar um animal sentar-se é sempre útil, quando se precisa retomar o controle sobre ele, ou mesmo quando se quer que ele reassuma seu autocontrole. Citei um exemplo no episódio do avião. Há, no entanto, situações muito mais corriqueiras, onde seu uso é imprescindível. Durante o adestramento, o cão tende a distrair-se com outros cães, ou mesmo com gatos. Sempre que isso ocorrer, ordena-se-lhe que sente, obrigando-o a ficar nessa posição até que sua ansiedade passe, retomando o caminho a partir desse ponto. Esse procedimento deve ser repassado ao cego, durante o período de adaptação.

4) ”Deita” — A exemplo do que esclarecemos no parágrafo anterior, essa ordem fará que o animal minimize sua altura, com grande importância no uso de transportes coletivos, restaurantes e muitas outras ocasiões. Será usada, também, sempre que a expectativa do tempo de espera do cão forlonga, como no exterior de lojas de roupas, consultórios médicos ou dentários, barbearias etc. Pode-se empregar o que já se conhece acerca desta ordem na literatura especializada. Se o animal não for de grande autocontrole, pode-se reforçar o ensinamento, treinando-o a se fingir de morto. Não que se vá obrigar o animal a tão insólita tarefa na sua vida prática, mas que isso fará que ele se mantenha quieto por longos períodos, com mais facilidade.

5) "Aqui" — é uma ordem de indescritível importância no convívio de um cego com seu cão. Inúmeras são as ocasiões em que ambos se vêem obrigados a se separar. Numa loja de roupas, por exemplo, por mais limpo e treinado que o animal seja, causa alguns inconvenientes involuntários, como deixar pelos nas roupas em exposição. Assim, será preciso deixá-lo do lado de fora, esperando. O usuário precisará, então, chamá-lo e ser prontamente atendido. Ao chegar, o cão precisará avisar o seu dono de sua presença, tocando-lhe a mão com o focinho. Geralmente, pelo convívio, o cão percebe que seu dono não pode vê-lo e toma atitude semelhante por conta própria. Devemo-nos lembrar, no entanto, que o animal só entrará em contato com seu dono no período de adaptação; portanto, findo o treinamento. Assim sendo, é bom que se tome esse cuidado antecipadamente.

6) "Junto" — costuma ser a primeira ordem verbal que se dá a um cão. Geralmente ela significa que o cão deverá ficar o mais próximo possível da perna esquerda de seu dono, seguindo-a prontamente. Mais uma vez repetimos que não há o menor sentido em que um guia siga a perna de um cego. Assim, o comando "junto" tem conotação totalmente diversa do usual. A essa ordem, o guia deverá postar-se em pé à esquerda de seu dono, com as patas traseiras alinhadas com a perna deste último. Essa posição permitirá que, ao usar o arreio apropriado, ele o ofereça para que o usuário o tome em sua mão, para iniciar uma caminhada. O animal jamais deverá cruzar a frente de seu dono para obedecer a essa ordem, passando por traz deste, se necessário. O melhor método para obter sucesso em fazer o cão entender o que se espera dele consiste nos seguintes passos:

  1. coloque-o a uma certa distância de si;
  2. chame-o para perto de si, com o comando "aqui";
  3. tome a guia na mão e, repetindo a ordem, gire o próprio corpo até que ele fique na posição correta.

Mais tarde, fique parado e faça com que o cão se poste no lugar correto, porém usando a guia o mínimo possível, para não lhe inibir a iniciativa. Caso o cachorro teime em cruzar-lhe a frente, tropece nele propositadamente, para que ele perceba por que não deve fazê-lo. Lembre-se de que, quando a dupla não está caminhando, o usuário segura apenas a ponta da guia, largando quase que imediatamente o arreio. Daí a importância deste comando.

7) "Fica" — é uma ordem complementar a todas as que vimos até então e de muitas que veremos adiante. Confesso que fiquei em dúvida quanto ao ponto em que ela deveria ser inserida no texto. Em qualquer ponto, seria prematuro, e, em todas as posições, ela é extremamente necessária. Num táxi, por exemplo, o cão deverá deitar-se entre os bancos dianteiro e traseiro, ou, se o modelo do carro o permitir, embaixo do painel, afim de não soltar pêlos no estofamento, o que, no mínimo, irá denegrir sua imagem junto aos profissionais desse transporte público. Ali deverá ficar pelo tempo que a viagem perdurar. O mesmo se aplica a aviões, ônibus e inúmeros outros meios de transporte. Assim, ela é um complemento para o senta, deita, em pé, junto, etc. Trata-se de mais uma semelhança com o treinamento de cães de pista, porque o "stay" ali empregado fará que o animal permaneça imóvel pelo tempo que for necessário ao exame do árbitro. Sua dificuldade, porém, é muito agravada por dois motivos: o cego precisa confiar em que o animal ficará onde ele o deixou e porque este nem sempre poderá ver onde seu dono está.

Durante o treinamento primário, limitar-nos-emos a fazê-los ficar onde nos possam ver, deixando para a etapa seguinte os casos onde a visão for parcial ou totalmente encoberta. Podem-se usar os métodos tradicionais para isso, desde que não se esqueçam os detalhes abaixo:

a) não faz sentido o cego precisar tatear à procura de seu guia, o que libera o treinador do trabalho de impedir que o cão venha receber seu dono quando este se aproxima;
b) é preciso fazer com que o animal se sinta relaxado após essa ordem, porque não se sabe por quanto tempo ele ali ficará, sendo excessivamente estressante para ele permanecer tenso ou alerta nesses casos.

8) "Olé" — é uma ordem para que o cão salte. Na verdade, poder-se-ia usar qualquer outra palavra: upa, pula, salta, etc. Essa foi a que primeiro me veio à mente. O adestrador menos experiente poderia perguntar: "Para quê se vai ensinar um guia a saltar, se, na verdade, ele deveria evitar os obstáculos?" é importante analisar a questão por dois ângulos. O primeiro diz respeito ao fato de que o cão precisará, muitas vezes, se esgueirar por espaços extremamente exíguos, principalmente em se tratando de nossas cidades, onde não há medida padrão para largura de calçadas e os motoristas não respeitam as leis de trânsito. É, portanto, preciso que tenhamos à mão animais com extrema coordenação motora. Assim, é durante esse tipo de treinamento que deficiências são detectadas, chegando mesmo ao descarte do animal. Por outro lado, "mens sana in corpore sano" também se aplica a esse caso. Como os atletas, os cães também se tornam mais sagazes e destemidos se tiverem consciência de suas potencialidades. Defeitos como vertigem e apatia não são, de forma alguma, aceitáveis nessa atividade. É, no entanto, imprescindível lembrar-se que esse treinamento só pode ser feito na fase primária, porque, se adiado, ele entrará em conflito com o de desviar de obstáculos.

9) "Sobe" — Quando treinamos cães nas pistas de obstáculos, apreciamos seu vigor, que os faz saltar os primeiros degraus das escadas na subida e os últimos na descida. Um guia, no entanto, deverá parar diante de uma escada e, sob a ordem "sobe", iniciar a escalada; porém, degrau a degrau, conforme a capacidade de locomoção de seu dono. É evidente que o uso do arreio impede que o cão salte os primeiros degraus, mas é muito importante que ele o faça como parte de seu treinamento primário, para que crie uma maior consciência de limitação de seu dono quando estiver trabalhando. Mais tarde, essa ordem terá sua conotação ligeiramente alterada, como teremos oportunidade de analisar no capítulo XI.

10) "Desce" — Dizer que "para baixo todo o santo ajuda" não vale para os cegos. Degraus para baixo são infinitamente mais perigosos do que os em aclive. Assim, ainda na pista de obstáculos, os cães precisarão aprender a parar no topo das escadas e aguardar a ordem "desce", sem, contudo, saltar os últimos degraus, derrubando seu dono. No mais se aplica o dito anteriormente

11) "Esquerda/direita" — Numa demonstração, um adestrador observou que dou pouquíssimas ordens à Nina, durante seu trabalho. É fato. Sua atividade não requer comandos constantes, principalmente se seu itinerário for conhecido. Isso nem sempre acontece; para tanto, é preciso que os guias aprendam, com perfeição, o sentido de direção dado verbalmente. O cego não pode, em hipótese alguma, guiar o cão, puxando-o para cá ou para lá, pelo simples motivo de que, se pudesse saber a exata direção, não precisaria de um guia. Assim, o treinador, a exemplo do dito para outros comandos, não poderá usar a guia para indicar a direção porque isso mata a iniciativa do animal, o qual passa a esperar que seu dono o conduza. Isso, sem dúvida, dificulta a instrução. Ajoelhe-se ao lado do animal e, com o braço estendido, mostre-lhe a direção que se pretende tomar. Ainda ajoelhado, ordene "frente" e só fique em pé e acompanhe o cão assim que este retomar a caminhada na direção correta. Em outras palavras, se ao iniciar a caminhada ele seguir a direção errada, ordene: "alto!". Mostre-lhe, então, o caminho a seguir e ordene-lhe novamente: "frente!". Não se trata de um ponto fácil do treinamento, precisando ser repetido inúmeras vezes até que se tenha segurança do sucesso.

12) "Latindo/mudo" — Nunca nos esqueçamos de que os cegos se orientam pela audição, antes de qualquer coisa. Assim, muitas vezes, ao deixar seu cão em algum lugar um tanto distante dele, o usuário pode desorientar-se e precisar saber onde seu companheiro se encontra. Use as técnicas mais consagradas para isso, mas faça com que o cão não se levante ou saia do lugar. Por outro lado, cães-guia viajam com seus donos, não se podendo constituir em incômodos para ele ou seus vizinhos. Assim, é preciso que se lhes ensinem a calar, quando solicitado. Use o método de sua preferência para esse fim, desde que não violento.

13) "Leva/busca" — Os cães precisam saber apanhar objetos para seus donos, seja porque eles tenham caído, seja porque outras pessoas lhos estendem de forma que os primeiros não os possam alcançar. Use os métodos de sua preferência.


Treinamento secundário.

Definiremos o treinamento secundário como sendo o conjunto de procedimentos que o cão deverá assumir sem que seu dono possa tomar a guia nas mãos ou mesmo proferir as ordens.

"Proferir as ordens", aliás, lembra-me um acontecimento recente, em que eu precisava dar ordens e estava completamente impedido de expressar-me verbalmente. Precisei ir ao dentista e minha cadela, como era de se esperar, foi comigo. Como fosse caminho, um membro de nossa equipe do escritório foi junto. De lá, iríamos a um novo cliente. Como de hábito, deixei Nina na sala de espera, visto que, como já discutimos, por questões de higiene, um cão, por mais bem tratado que seja, não deixa de ser um animal capaz de transmitir doenças. Como ela não conseguisse me ver e eu estivesse demorando, aliado ao fato de que, para ela, o tratamento pudesse ser uma forma de agressão, ela se levantou e foi me procurar na sala de atendimento. Meu amigo a seguiu e perguntou-me se não seria melhor ela ficar por ali mesmo. Ocorre que, exatamente naquele momento, eu tinha o maxilar superior trespassado por uma agulha hipodérmica, porque estava sendo anestesiado. Não só estava totalmente impossibilitado de responder a um ser humano, como radicalmente incapaz de ordenar ao cão que voltasse para o lugar de onde viera. Ao rapaz, pude fazer um gesto desesperado, significando "não" à sua pergunta. Mais desesperado ficaria se tivesse que fazer o mesmo com o cão.

O caso acima serve para ilustrar o fato de que nem só de ordens se compõe o treinamento secundário. É constituído, muito mais, por padrões de comportamento em inúmeras situações, muitas delas totalmente imprevistas. Aqui selecionamos doze, que parecem ser as mais comuns.

Nesse ponto do treinamento, o arreio já será usado. Use-o sempre que sair à rua, mesmo que não seja para treinamento. Por mais leve e confortável que esse instrumento seja, há de ser sempre um incômodo extra para o animal. Para minimizar seus efeitos negativos, faça com que ele represente o que há de bom em um passeio. Isso ajudará em muito os passos a seguir.

1) "Fica" — é uma ordem que precisa ser cumprida à risca, a não ser que a situação exija procedimento contrário. Como pode um cão atingir, pela instrução, um tão elevado discernimento? Isso é impossível. Somente o convívio com seu dono desenvolverá uma empatia capaz de promover semelhante compreensão tácita. Assim, cabe ao adestrador fazer com que essa ordem seja atendida sem exceção. Não se trata, portanto, de uma lição; porém, de um comportamento que tomará tempo de todas as aulas até o final do ciclo de aprendizado, precisando ser repisado, de tempos em tempos, durante toda a vida adulta do cão. Comece por fazer com que o cão fique parado no mesmo lugar por cinco minutos, a aproximadamente cinqüenta passos de distância. Se ele se levantar, seja enérgico, ordenando-lhe que se sente e repetindo a ordem: "fica!". Quando sentir segurança, faça o mesmo, porém, escondendo-se atrás de árvores, automóveis ou vidros, ou de qualquer outro lugar de onde possa observá-lo e, se necessário, agir rapidamente. Com o passar do tempo aumente o grau de dificuldade, levando o animal para lugares cada vez mais movimentados, até que se possa afirmar que ele ficaria tranqüilo em qualquer ambiente. Não se esqueça, no entanto, de duas coisas: a primeira diz respeito ao fato de que o cão só ficará ali porque confia no adestrador; a segunda — que será muitas vezes enfatizada — tem a ver com o fato de que o relacionamento com o usuário será muito mais rico em afetividade. Isso fará com que se espere um diferencial de comportamento.

2) O comando "fora" é uma conseqüência da desobediência da primeira ordem ("fica"). Talvez eu esteja sendo um tanto radical. Talvez seja melhor dizer que, a esse comando, o cão deverá abandonar o recinto em que se encontra, mas ficar próximo de sua entrada, sem se afastar em demasia. Os menos experientes podem pensar que se trate de punição, o que está radicalmente longe da verdade. No caso do dentista, se pudesse falar, seria esse o comando que daria. Como poderia eu repreender minha cadela, por não entender o que se passava?

3) O comando "volta" é de extrema utilidade para o cego e requer técnica especial por parte do adestrador. Ao ouvi-lo, o cão deverá voltar sobre seus passos até o último lugar de onde possa ter saído. Lembre-se de que o adestrador jamais deverá conduzir o animal. Assim, não use a guia para isso. Desta forma, diga "volta!" e gire o corpo a 180º, ordenando a seguir: "junto". Repita o comando até que o cão entenda o que se espera dele. É dogma que este comando só pode ser dado se se estiver em movimento. Isso, porém, não é tudo. É preciso fazê-lo entender que ele deverá perfazer o mesmo itinerário de antes. Assim, faça-o retornar ao ponto de onde saiu, repreendendo-o sempre que se desviar do percurso.

4) "Casa" ou "para casa" devem indicar que seu dono deseja ir para um lugar definitivo, como seu escritório, sua casa, etc. Isso implica aumentar o censo de direção do animal. Geralmente o usuário de um cão guia sabe exatamente de onde saiu e qual o caminho de volta. Gostaria de enfatizar, por tudo o que expus atéagora, que o adestrador jamais deverá subestimar a capacidade do cego e assumir uma postura paternalista. A necessidade de um comando como esse se deve muito mais a situações adversas, onde a deficiência sensorial se faz mais gritante. Um bom exemplo disso é uma praia. Nela os cegos se orientam pela direção do vento, pelo ruído das ondas e pelo fato de que o chão está sempre inclinado na direção do mar. O problema de orientação reside em se saber em que ponto devemos deixar a praia, para retomar o rumo de casa. Há sempre a possibilidade de se usar, como ponto de aproximação, o ruído provocado por um bar, quiosque ou outra fonte sonora. Não passam, no entanto, de uma macro-orientação, cabendo ao cão lembrar-se exatamente do caminho de casa. Assim, a essa ordem, o cão deverá procurar a direção correta. Para tanto, peça a um conhecido que leve o cão para uma distância razoável do portão do local onde ele viva (vinte metros, a princípio). Em seguida, chame-o para junto de si alternando os comandos: "casa" e "aqui". Mais tarde, passe a sair com o animal solto (sem guia ou arreio) e, no caminho de volta, repita sempre "casa"...

5) Andar de carro é uma exigência dos nossos tempos. Muitos adestradores que nunca lidaram com a matéria pensam que o treinamento de um guia resume em fazer com que ele leve seu dono de um ponto a outro em segurança. Ledo engano. Numa grande cidade, a maioria dos percursos têm longa distância e não será o ato de se possuir um cão que levará o cego a recusar outras formas de transporte. Assim sendo, é preciso que o animal saiba como se comportar quando dentro de um veículo. É regra básica que ele não deverá subir no banco. É preferível que fique deitado no assoalho, entre os bancos da frente e de traz ou, se o modelo do automóvel permitir, debaixo do painel, evitando sujar o estofamento. Aqui partimos do princípio de que, pelo trabalho de puppy holding, o animal já esteja acostumado a andar de carro e não possua problemas como cinefobia e outros. Deixe a porta do carro aberta. Se o animal tentar entrar sem ordem, reprima-o. Entre você primeiro, chamando-o para junto de si. Se ele tentar subir no banco, reprima-o energicamente. Peça a alguém que dirija o carro. Controle o animal sempre deitado, não importando o quão longo seja o percurso. Quando não houver mais resistência do animal a permanecer nessa posição, passe a sentar-se no banco da frente, mantendo-o onde o colocou. Quando isso também estiver bem resolvido, experimente sair do carro, ordenando-lhe que fique. Se ele tentar subir no banco para poder vê-lo, reprima-o incontinente. Nunca nos devemos esquecer de que um cão-guia é, antes de qualquer outra coisa, um animal humanizado.

Um dos meus cavalos teve uma infecção no casco. Foi um longo tratamento. Era preciso freqüentar o Jockey Club para adquirir medicamentos e material de higiene. Ocorre que lá não são permitidos cães, porque os cavalos que ali residem são extremamente ariscos, podendo provocar acidentes. Nina é muito acostumada com eqüinos e tenho certeza de que não causaria problemas. Como a minha permanência no local seria curta e esporádica, preferi não discutir nem evocar meus direitos. Pedia ao motorista do taxi que descesse comigo e ordenava a Nina que me esperasse no carro, o que ela fazia pelo tempo necessário. Esse é só um exemplo da necessidade de rigor quanto a esse item do trabalho.

6) Sempre que estou falando acerca de cães-guia, a primeira pergunta que me fazem é: "Como é que o cão vai usar os ônibus, trens de metrô e trens urbanos que, no Brasil, são tão lotados que não dão sequer para as pessoas?" A pergunta, sem dúvida, procede. Ocorre, porém, que o transporte coletivo não é lotado somente no Brasil. No Japão, por exemplo, há guardas cuja função é empurrar os passageiros para dentro dos trens, a fim de aumentar a vazão do tráfego. Para dar outro exemplo, em Nova York, os trens são tão deteriorados que há pelo menos uma batida por semana, com graves conseqüências. Além disso, no primeiro mundo, as mulheres não carregam seus bebês, com medo de danificarem suas espinhas. Assim, é extremamente comum verem-se carrinhos nos ônibus, metrôs e trens urbanos. É justamente por isso que os cães precisam ser treinados para andar sempre debaixo dos bancos, a fim de não ocupar espaço útil e evitar serem pisados pelos transeuntes. O método mais fácil é o de usar um banco sobressalente de ônibus, para esse fim. Ao se aproximar, dê a ordem: "entra", fazendo com que o animal se deite com o rabo por baixo do corpo, acompanhando o gesto com a ordem "fica". Caso não encontre o dispositivo adequado, improvise com sofás altos, cadeiras, ou mesmo caixotes. Os aviões são um caso à parte. A IATA, assim com o D. A. C. têm normas próprias. A regra diz que o animal poderá viajar na cabina de passageiros, não havendo, no entanto, cobranças extras como taxa de embarque, seguro e excesso de peso. Ele não poderá ocupar nenhum espaço nas áreas destinadas à circulação de pessoas (corredores, entradas de banheiros etc.). Alguns países, como a Alemanha, exigem focinheiras, o que torna a viagem desnecessariamente desconfortável para o animal. No Brasil, segundo a portaria 957 de 12 de dezembro de 1989, do Ministério da Aeronáutica, não existe semelhante radicalismo. Quando a viagem for longa, deve-se dar preferência ao transporte dentro da caixa apropriada. Isso se deve ao fato de que é muito menos extressante que permanecer por horas a fio na mesma posição. As empresas aéreas consideram os bancos de 1A a 1C (os primeiros à boreste da aeronave) como assentos de conveniência, reservando-os para crianças desacompanhadas, mulheres com bebês e deficientes em geral. Por contar com muito mais espaço, é local ideal para que o cão fique.

7) Não há como evitar que se tenha que entrar com um cão guia em um local público, como restaurantes ou cinemas. Isso se deve ao fato de que o cão acompanha o seu dono no dia-a-dia, inclusive — talvez principalmente — na sua vida social. Os cinemas do primeiro mundo contam com lugares específicos para cegos com seus cães. Tratam-se de poltronas colocadas na última fila, com espaços suficientes para que os animais possam deitar-se ao lado de seu donos. Os restaurantes são, pois, a maior prova de educação, principalmente por se constituírem em verdadeiros paraísos olfativos. A exemplo do que acontece com os táxis, o cão deve deitar-se embaixo da mesa, evitando causar má impressão aos demais clientes ou mesmo aos proprietários. Use, naturalmente, o mesmo comando "entra", empregado nos coletivos. Acresça, porém, com o fato de se afastar, sem que o animal o siga. Isso será muito útil para restaurantes do tipo “self service””. O polimento final deve ser dado pedindo-se que um estranho ofereça alguma migalha de pão ou outro tipo de guloseima. Se o cão aceitar, reprima-o energicamente, até que ele passe a recusar tais ofertas.

8) Cego e adestrador precisam ter plena consciência de que há locais em que os cães, por mais bem treinados, limpos e asseados, não poderão entrar. Dividiremos esse assunto em três áreas distintas:

  1. centros cirúrgicos e ambulatórios de instituições de saúde como hospitais, maternidades, clínicas e outras;
  2. estabelecimentos comerciais, onde o uso de um cão possa trazer danos materiais aos clientes ou proprietários, onde se incluem as lojas de roupas, museus, zoológico, etc.;
  3. locais onde o animal se sentirá infalivelmente mal, prejudicando-lhe a saúde física ou mental (matadouros, curtumes, fábricas de papel, algumas indústrias químicas e outros).

9) O uso de elevadores pode ser um problema para os cães. Alguns têm claustrofobia e, muito embora o tempo de permanência seja curto demais para causar um crise mais séria, pode provocar um desconcentração indesejável a um guia. Durante o puppy holding isso deve ser observado. Mesmo assim, nas primeiras vezes em que o animal tiver que usar esse meio de transporte, preste muita atenção para ver se seu comportamento não se apresenta excessivamente tenso. Se a tensão for normal, apenas causada pelo desconhecido, afague-o até que se acalme. A regra básica é a de que o animal deverá dirigir-se para o fundo do elevador, postando-se de frente para a porta e sentando-se, para minimizar o espaço ocupado. A maioria dos cães tendem a querer sair na primeira vez em que a porta se abre. Isso pode ser um problema, pois o cego poderá descer no andar errado. Espera-se que ele tenha o discernimento suficiente para não se perder. Mesmo assim, é interessante reprimir esse comportamento, fazendo com que o cão só se levante quando ordenado.

10) Filas são um problema com que os cães guias se confrontam sempre. Não há como evitar seguirem-se filas, como em bancos, compras de passagens, metrô, etc. Pelo próprio treinamento terciário, o cão tenderá a desviar-se da fila, quando o que se deseja é que ele se aproxime dela. Assim, é preciso ensinar-lhe o comando "fila". Como citamos no capítulo "Premissas", cães-guia têm dificuldade em se desviar de transeuntes, porque pensam que isso seja uma obrigação dos outros. Além disso, é muito mais fácil adestrar o animal acerca de objetos inanimados do que conseguirem-se figurantes para se postarem parados no caminho, a fim de dar cabo a tal treino. Da mesma forma, é preciso fazerem-se muitas lições em locais calmos, antes de que possamos passar a estabelecimentos de grande fluxo de pessoas. Assim, procure simular uma fila, usando cadeiras, ou quaisquer outros objetos. Não se esqueça de trocá-los periodicamente; caso contrário, o animal pensará que "fila" corresponde a um conjunto de cadeiras, ou de mesas, etc. Ao comando, o cão deverá postar-se no final da fila, do lado esquerdo, de modo que o seu dono fique exatamente atrás de seu antecessor, porém sem tocá-lo. Filas, no entanto, não são estáticas. Assim, depois de o comando ter sido assimilado, passe para locais públicos, reprimindo o cão sempre que este se adiantar em demasia ou tentar sair daquela formação.

11) O fato de o cão ser um guia não o transforma em um adivinho. Sempre que o local for novo, ele também terá que aprender o caminho. É então preciso que saiba o significado da palavra "segue". Peça a um auxiliar que se coloque na frente do animal e fique fazendo movimentos com a mão, sem, contudo, provocá-lo. A partir do momento em que perceber que o cão está prestando atenção no auxiliar, passe a alternar as ordens "segue" e "frente", incentivado-o a caminhar atrás do outro. Se o cão se desviar do trajeto, peça a seu auxiliar que chame a atenção do animal com mais veemência e torne a insentivá-lo com as mesmas ordens acima. Depois de algumas aulas, peça ao auxiliar que caminhe somente e passe a usar apenas a palavra "segue", reprimindo o cão, sempre que este se desviar do trajeto percorrido pelo primeiro.

Essa ordem é de uso muito mais freqüente do que se pode imaginar. Em aeroportos, estações rodoviárias, indústrias e outras construções amplas e desconhecidas, ela é muito necessária.

12) Todos nos lembramos do quão desagradável é, para uma criança pequena, subir por uma escada rolante. Por sermos mais baixos que o corrimão, não percebemos claramente o movimento, o que faz que os degraus pareçam sumir ao longe. Tendemos, então, a continuar caminhando, ao invés de pararmos, esperando que o mecanismo nos conduza. Ao crescermos, a má impressão se desvanece porque podemos observar o que se passa e porque nossa inteligência vai-se tornando mais abstrata. Os cães nunca terão essa oportunidade; assim, é preciso que nos coloquemos em seu lugar, experimentando subir uma escada rolante de gatinhas. Depois de fazê-lo, trate de ensinar ao cão que ele deve ficar parado enquanto a escada não estiver totalmente plana.

A descida é muito mais fácil de se ensinar porque o cão vê os degraus sumirem por baixo da chapa que encobre a curva de retorno.

Um cuidado deve ser tomado: faça com que o animal coloque suas patas no centro dos degraus. Isso se deve ao fato de que o pelo de suas membranas interdigitais pode ficar saliente. Se ele as puser na beirada, quando a escada se tornar plana, os pêlos podem prender-se, ferindo seriamente o cão. Por outro lado, suas unhas também possuem um formato desfavorável, caso o animal ponha as patas muito adiante. Nesse caso, são elas que se podem prender no momento em que os degraus se aplainarem.

Quando estávamos treinando Nina a usar escadas rolantes, escolhemos o Shopping Center Yguatemi. Subíamos por um lado e descíamos pelo outro sucessivamente. Um segurança local veio repreender-nos: "Vocês não podem brincar na escada rolante!” Eu não esperava chegar próximo dos quarenta anos para ouvir semelhante absurdo, mesmo porque escolhemos um horário de pouquíssimo movimento para os exercícios. Além disso, tínhamos permissão para fazê-lo.


Treinamento específico.

Se o adestramento secundário já se compunha por ordens e normas de procedimento, o treinamento específico trata quase que exclusivamente de atitudes que o animal deverá assumir independentemente dos comandos que venha a receber.

É justamente nesse período que ele deve aprender que, a partir do momento em que o arreio se lhe é colocado, ele passará a ter dois corpos. Na minha infância, cheguei a ver alguns exemplares de motocicletas com “side car” (vide capítulo "Premissas", item 7). Hoje, um aparelho que consegue reunir os problemas de segurança das motos com a falta de dirigibilidade de um automóvel só pode ser visto em funcionamento quando assistimos a filmes sobre a Segunda Grande Guerra. No caso das motocicletas, a presença de um “side car” é menos desconfortável que, para um cão, ver-se atrelado a um ser que, se não bastasse ser mais lento, é, ainda por cima, mais alto, o que limita ainda mais seus movimentos.

Até esse ponto, o cão já deverá estar acostumado com o arreio, mas não com a responsabilidade por guiar uma pessoa. Ela deverá ir num crescendo para que o animal não se sinta agredido e passe a encarar a atividade como um incômodo insuportável. Devemo-nos lembrar sempre de que guiar contraria muitos pontos da natureza dos cães e a vida dos guias é muito mais dura do que a da média dos animais de trabalho. Um cão pastor, por exemplo, executa suas tarefas ao ar livre, exercitando toda a musculatura de seu corpo e, a bem dizer, cumprindo seus instintos. Da mesma forma, um de caça seja ele pointer, terrier ou retriever também se divertem no trabalho. Já o guia se vê obrigado a passar horas a fio às vezes a vida inteira em recintos fechados e estático, o que lhe é sumamente estressante. Se não formos capazes de transformar tamanho fardo em algo mais ameno, estaremos sujeitando animal e usuário a um esforço totalmente improdutivo.


1) O Itinerário:

O caminho a seguir é o primeiro ponto a que o adestrador deverá ater-se. Ele pode dividir-se em dois grupos básicos: conhecidos e desconhecidos. Por caminhos conhecidos entendemos aqueles que sejam habituais a ambos: animal e ser humano. Assim, são bons exemplos de caminhos conhecidos o local de trabalho, clubes que o cego costume freqüentar, a própria casa e as residências de amigos mais chegados. Já os caminhos desconhecidos podem sê-lo para o cão e não para o dono, ou mesmo para os dois, o que exige comportamento diferente. O adestramento quanto aos caminhos conhecidos deverá ficar a cargo do próprio condutor, durante o período de adaptação. Assim, o adestrador deverá partir do princípio de que nenhum caminho seja do conhecimento do animal. Isso significa que ele, como regra, deverá seguir o comportamento abaixo:

  1. parar sempre que encontrar uma encruzilhada, esperando que seu dono lhe indique a direção a tomar (esquerda, direita, em frente ou volta);
  2. manter-se em pé e pronto para retomar a caminhada, sempre que tiver que parar, a não ser que seu dono o ponha em descanso;
  3. sempre que houver calçadas, deverá caminhar por elas, descendo apenas sob comando;
  4. no caso de não haver guias ou sarjetas, o espaço maior ficará para eventual tráfego, resguardando a segurança de si próprio e de seu dono.

A questão das calçadas é muito interessante. No Brasil, ou pelo menos na maioria de suas cidades, não há normas relativas à largura ou mesmo padrão de calçamento. Isso torna a atividade do animal muito mais dura do que nos países do primeiro mundo. Como se isso não bastasse, os motoristas ainda possuem o péssimo hábito de estacionar sobre elas, impedindo o trânsito de pedestres, que se vêem obrigados a caminhar sobre o leito carroçável, com sério perigo de vida para si e seus acompanhantes. Além disso, encontram-se obstáculos, como montes de areia e outros materiais de construção, que costumam obstruir totalmente as calçadas, denotando total falta de bom senso por parte dos nossos cidadãos e autoridades. Se, por um lado, isso dificulta o trabalho do cão, por outro aumenta em muito sua utilidade. Apesar de tudo, transitar sobre as calçadas ainda se constitui no rumo mais seguro a seguir. Mas não nos estamos referindo somente às ruas. Há também as praças e demais áreas abertas onde o tráfego deva se restringir a estreitas faixas pavimentadas. Também elas deverão ser opções prioritárias para o cão.

A irresponsabilidade a que me referi está ligada com o caso a seguir. Mais do que isso, denota-se uma forma de interpretar a lei totalmente distorcida, chegando às raias da infantilidade.

Estávamos, Nina e eu, caminhando pela R. Ministro Rocha Azevedo, em São Paulo, quando deparamos com um caminhão misturador de concreto descarregando em uma obra. Sua cabina estava tomando toda a extensão do passeio público, obrigando-nos a cruzar a frente do veículo pelo leito carroçável de uma rua extremamente movimentada, em pleno horário de pico. Acontece que, se o motorista tivesse estacionado na direção oposta (com a frente voltada para o interior da obra), não bloquearia o caminho. Ocorre que se teria de manobrar aquele trambolho, quando a descarga estivesse concluída. Chamei um guarda de trânsito para que multasse o motorista. Este, que deveria zelar pela segurança dos transeuntes, recusou-se a fazê-lo, dando origem ao seguinte diálogo:

— Ele também tem o direito de trabalhar.

— Mas está pondo a população em risco. Eu mesmo poderia ser atropelado.

— Se o senhor fosse atropelado ele poderia ser processado.

— E eu morreria.

Ao chegar ao escritório, telefonei para o batalhão a que o policial pertencia, muito mais para instruir do que para reclamar. Entendo perfeitamente que semelhante falta de lógica está arraigada no nosso povo e só se extinguirá com muito investimento em educação.

Quanto a parar nas encruzilhadas, parece evidente que, assumindo-se que o destino seja desconhecido, o cão não saiba que decisão tomar. Com o passar do tempo, a integração entre animal e homem se torna mais efetiva e o cão passa a usar os meios de comunicação de que dispõe (dar focinhadas, abanar o rabo, latir ...) para perguntar a seu dono qual a rota a seguir. É justamente por isso que, quando o itinerário se torna conhecido, cego e cão passam a desrespeitar momentaneamente as regras acima, o que torna o tráfego mais rápido e menos imperativo quanto à deficiência visual do homem.


2) Obstáculos baixos

Entendamos por baixos todos os que se elevam sem intervalos a partir do solo: postes, troncos de árvores, cadeiras, jardineiras etc. Eles devem ser os primeiros a se trabalharem porque é nesse ponto que o cão deverá aprender que só poderá passar por espaços suficientes aos dois corpos. Use latões de óleo, placas metálicas ou quaisquer objetos que, além de leves, promovam bastante ruído quando tocados ou mesmo arremessados.

Aqui vai um postulado: "Jamais leve o cão de encontro aos obstáculos". Isso se explica porque, durante o treinamento do meu primeiro cão, o adestrador tendia a se dirigir para os obstáculos, reprimindo-o a priori. Por se tratarem de seres sensíveis, adestrador e cão, percebeu-se logo o erro e houve tempo para corrigi-lo. Se persistíssemos, mataríamos a iniciativa do animal, criando-lhe um trauma irreparável. Assim, se o treinador não se achar capaz de seguir o animal, deverá vendar os olhos obrigando-se a fazê-lo.

Coloque os objetos de modo que não haja espaço para que os dois corpos possam passar. Escolha locais onde a parte fixa (paredes e outros entraves permanentes) fiquem do lado do cão e os obstáculos móveis (latas, cadeiras etc.) fiquem do lado do adestrador. Ao esbarrar, chute o objeto ou bata nele com as mãos, a fim de chamar atenção do cão, reprimindo-o com a palavra "não !!".

Preste muita atenção: não seja tímido. Muitos adestradores, principalmente quando precisam trabalhar em locais públicos, temem a sensação de ridículo de sua atividade e passam a agir de modo tão discreto que o cão se vê impossibilitado de entender o que se espera dele. Em outras palavras, se precisar chutar uma lata, faça-o da forma mais escandalosa possível. Doutra forma não conseguirá chamar a sua atenção como se deve.

Sempre que esbarrar em algo e o tiver advertido apropriadamente, recoloque o objeto em sua posição original, ordene-lhe que volte — não o puxe — e repita o trajeto. Entendida a lição, encerre a aula imediatamente, fazendo-o brincar.

Os videntes costumam ser muito insensíveis quanto ao trabalho de um guia. Estávamos passando férias na praia. Um dia, retornando para casa, Nina estancou de repente porque o vão existente entre a folha do portão e a quina do pára-choque do meu carro era insuficiente para que ambos passássemos. Uma conhecida que nos acompanhava começou a insistir com Nina para prosseguir, como se sua atitude fosse irracional. Tive que lhe explicar o que se estava passando, caso contrário ela não entenderia por si só.

O exemplo acima é muito freqüente. Ainda hoje, quando saio com alguém que enxerga, tenho que pedir que pare de dar ordens à minha cadela, de tão arraigada está, na mente de nosso povo, a idéia de que cães não pensam.


3) Obstáculos profundos

Entendamos por profundos todos os que têm sua face superior voltada para o calçamento: buracos, degraus em declive, barrancos, etc.

Escolha um buraco razoavelmente grande em um calçamento, enchendo-o com latas de cerveja ou quaisquer outros objetos que façam barulho ao serem pisados.

Também nesse caso o som é o melhor meio de se chamar a atenção de um cão. Mais uma vez, não seja tímido: faça uma encenação completa, com tombo e tudo.

Após o cão ter entendido o que se espera dele quanto a buracos, deve-se passar a repetir as lições, porém com degraus em declive, principalmente os que correm paralelamente à trajetória pré-definida. Lembre-se de que o cão só deverá transitar por espaços suficientes aos dois corpos.

É interessantíssimo observar que, concluída essa etapa, os cachorros passam — e com muita razão — a considerar as poças d’água como obstáculos profundos, desviando também delas. Essa atitude costuma causar admiração entre os transeuntes e erros de interpretação por parte das pessoas que se julgam mais entendidas.

Minha irmã usa como guia um filho de Nina. Depois de um certo tempo, comecei a ouvir a reclamação de que ele estaria desviando-se ao atravessar algumas ruas. Um dia, resolvi tomá-lo emprestado, para que eu e minha esposa pudéssemos interpretar seu comportamento. Percebemos que ele via a poça d’água da esquina oposta e a evitava por antecipação, descrevendo um "L". Havia naquele caso um erro a corrigir. Ele tendia a se desviar sempre para o mesmo lado. Assim, se o leito carroçável estivesse junto a ele, seria invadido, podendo provocar um acidente. Isso, porém, não invalida a inclinação dos humanos a menosprezar a sua inteligência.

4) Obstáculos altos

Uma vez, fui demonstrar um sintetizador de voz na PRODAN (Cia. de Processamento de Dados do Município de São Paulo) e Nina foi levar-me. Ali há aproximadamente doze cegos trabalhando e nenhum deles tem qualquer ligação com cães-guia. O que causou maior espanto foi o fato de que ela, não só impedia que eu esbarrasse em cadeiras e mesas, como prestava atenção para que eu não batesse a cabeça contra os vasos de plantas que pendiam do teto.

Os "orelhões", galhos de árvore, toldos e enfeites de lojas, corrente de demarcação são os obstáculos altos mais comuns em nossa sociedade. Entendemos como altos todos aqueles cuja altura for suficiente para que o cão passe por baixo, mas o dono, não. Trata-se dos mais difíceis empecilhos ao seu entendimento.

Por natureza, a visão não é o melhor sentido dos caninos, ficando sua orientação a cargo da audição e, principalmente, do faro. Assim, eles tendem a manter sua cabeça baixa com o focinho apontado para o chão quando estão caminhando. Sua função, no entanto, requer uma postura anti-natural. Não se pode exigir que o cão acerte sempre, principalmente quando a iluminação não causar sombras, pois são elas que lhes chamarão a atenção em primeiro lugar.

O método é semelhante aos demais. Pendure objetos de metal em galhos de árvore, varais ou quaisquer outros dispositivos. Ao esbarrar, bata-lhes com força, chamando a atenção do animal, pedindo-lhe que volte e tentando outra vez. Nunca tente ensinar esse tipo de obstáculo antes de os demais terem sido verdadeiramente assimilados.

Atente para o fato de que costuma ser justamente nesse ponto que o cão passa a entender que seu dono não vê e que precisa dele. Quando estava treinando meu primeiro cão-guia, deu-se um fato muito interessante. Naquele tempo, os orelhões não eram muito comuns na cidade. Escolhemos, então, um galho baixo que, ao esbarrar, atingia meu rosto à altura do nariz. Após inúmeras tentativas e em diversas ocasiões, começamos a desanimar. Até então, não nos tínhamos colocado em seu lugar, para ver o quão difícil era discernir a partir de que altura os obstáculos passavam a constituir perigo para minha caminhada. Em outras palavras, inúmeros eram os galhos de árvore cuja altura era mais que suficiente para que ambos passássemos por baixo. Aquele, no entanto, era baixo demais, o que o transformava em real entrave para minha trajetória. Um dia, porém, após algumas tentativas mal sucedidas, Führer colocou-se nas patas traseiras, passando a olhar sucessivamente para meu rosto e para o galho. Pôs-se depois nas quatro patas, desviou do galho e, a partir de então, passou a de fato me guiar de uma forma consciente e mesmo profissional. Foi uma pena não contarmos com equipamento para fotografar ou mesmo filmar a cena que muito nos emocionou. Passados tantos anos, ainda sinto a mesma sensação de trabalho realizado, quando presencio algo semelhante.

No caso acima, assim como no treinamento de minha atual cadela, eu podia estar perto para essas lições. O que aconteceria, no entanto, se o adestrador fosse significativamente mais baixo do que eu e não pudesse contar comigo ? No capítulo "Premissas", quando dissemos que um cão guia uma só pessoa, procuramos refletir, dentre outros, esse problema. Mesmo bem treinado, durante o período de adaptação, é preciso que se venham a repetir essas aulas com insistência, para acostumar o animal com a altura de seu usuário.

5) Atravessando ruas

Dizer-se que o cão é capaz de orientar plenamente seu dono acerca do tráfego, é, senão ilusório, leviano. Quantas vezes nos defrontamos com vira-latas perfeitamente aptos a atravessar quaisquer avenidas. Vê-mo-los com uma expressão muito séria olhar para um lado e para o outro, antes de se decidirem pela travessia. Consideramos isso uma proeza, mas não imaginamos quantos outros cães de rua não terão sido atropelados até que esse mais habilidoso conseguisse sobreviver. Mesmo assim, eles são limitados pela baixa estatura e pela má acuidade visual, inerentes à sua natureza. Quaisquer anteparos podem toldar-lhes a visão, fazendo com que, mesmo para esse fim, contem quase que exclusivamente com a audição. Pode-se então afirmar que, para caminhar no trânsito, é preciso treinar-se a dupla: usuário e cão.

Cabe ao usuário decidir qual é o ponto onde o trabalho do cão poderá ser mais facilmente executado. Nas esquinas, os semáforos podem ajudar muito, desde que se saiba da impossibilidade de os automóveis fazerem conversões naquele local. Caso contrário, deve-se preferir o centro dos quarteirões, a fim de evitar surpresas, como a de um automóvel contornar inadvertidamente a esquina. Faixas para pedestres e outros dispositivos podem auxiliar, mas são de difícil entendimento para o animal. Mesmo assim, há como melhorar seu nível de consciência a esse respeito. Poste-se à beira de uma calçada e peça a um amigo que dirija um automóvel em primeira e em marcha lenta. A velocidade será de aproximadamente 1,4 Km/h. Quando o automóvel estiver chegando, ordene "em frente !" O cão caminhará, sendo atropelado em seguida. Não há o menor risco de ferimento. O animal, no entanto, sentirá como é duro e forte o carro e começará a prestar mais atenção ao movimento.

Há, entretanto, duas coisas que o adestrador deverá evitar: a primeira delas é deixar que o automóvel chegue sempre pelo mesmo lado. Isso fará com que o cão se condicione a olhar numa direção só. Evite também utilizar sempre o mesmo carro, porque, passado um certo tempo, o cão passará a temê-lo e a pensar que é perseguido por ele. Evite o condicionamento. Tente fazê-lo entender o que se está passando.

Quanto mais o tempo passa e quanto mais eu lido com cachorros, percebo que tudo o que é de difícil entendimento é extremamente estressante para eles. Coloquemo-nos no lugar de um deles e procuremos entender por que um adestrador, em quem confiamos, nos obriga a passar pela frente de um carro em movimento. Mesmo uma criança, com quem nos comunicamos com muito mais facilidade, não seria capaz de entender. A primeira reação é de sentir-se profundamente traído. Por isso, nas primeiras aulas, use essa prática uma vez só, continuando as demais atividades logo a seguir. Isso fará com que o sentimento de ofensa se apague rapidamente, retornando a velha amizade.

Quando você começar a perceber sinais de entendimento, pode intensificar o treinamento, paulatinamente, pedindo ao auxiliar que imprima maior velocidade ao automóvel. Quando sentir que o entendimento é real, vá aumentando o grau de dificuldade, repetindo essa atividade em ruas cada vez mais movimentadas.

Reiteramos que não se pode esperar perfeição. Cães jamais serão capazes de interpretar pisca-piscas, buzinas e gestos dos motoristas. Deve-se contar apenas comque, em os cães guias tornando-se mais comuns, passem a ser mais respeitados no tráfego de nossas cidades.

6) Semáforos e faixas para pedestres

Cães são capazes de ver semáforos. Não pelas suas cores, mas pela alteração do movimento dos automóveis. Uma dificuldade, porém, é insuperável: os sinais de trânsito nem sempre possuem apenas duas fases. Como ensiná-los então ?

Voltemos ao conceito de caminho conhecido. Se bem que nem sempre isso seja verdade, a repetição de um mesmo caminho é capaz de fazer que o animal entenda qual é a melhor fase para uma determinada travessia. O número de repetições variará conforme o grau de complexidade da travessia a ser feita. Mesmo assim, esse treinamento só poderá ser feito durante o período de adaptação. Isso decorre do fato de que, a priori, o adestrador não pode saber quais são os itinerários mais freqüentes ao usuário.

As faixas para pedestres são características de cada cidade e, muitas vezes, de cada bairro dentro da mesma cidade. Isso se configura numa dificuldade extra que se costuma sentir ao se viajar. O tempo de adaptação é de, aproximadamente, duas semanas de uso constante.

Não pense que a instrução, conforme descrita acima, redunde na criação de um instrumento verdadeiramente adequado. Nunca subestime um cego. Procure incutir-lhe a idéia de que o treinamento final é de sua única e exclusiva responsabilidade. Mais do que isso, cabe ao usuário informar o adestrador acerca das falhas de treinamento e mesmo das dificuldades práticas que vier a encontrar.

 

Outros aspectos

Este capítulo é destinado a aspectos variados de assuntos adjacentes à criação e ao uso de um cão-guia.

1) Arreios

Há basicamente três tipos de arreio. O primeiro consta de uma coleira à qual se acopla uma guia relativamente rígida. Possui vários inconvenientes: é desconfortável para o cão, podendo, inclusive, feri-lo; transmite ao usuário os movimentos do pescoço do cão e são de curta duração. O segundo possui um peitoral, geralmente de couro, com uma trela em forma de "U" fixada sobre as omoplatas do animal. Este já é bem mais confortável e, por possuir dois pontos de fixação para o, arreio já transmite melhor a direção que o cão está seguindo a seu dono. Possui, entretanto, dois defeitos: se o cão se abaixar, a trela pode cair sobre sua cabeça, dificultando-lhe entregá-la novamente ao usuário. É também muito pesado, graças à grande área de couro formada pelos triângulos laterais. O terceiro tipo, muito utilizado nos Estados Unidos, parece ser o melhor. Possui uma trela em "U", porém muito mais longa que a do anterior, alcançando as articulações dos braços, transmitindo seus movimentos ao cego, passo a passo, assim que são executados. Além disso, as alças laterais impedem a trela de cair para frente, deixando-a numa posição muito confortável para que o homem a tome na mão sempre que necessário. Finalmente, a área de atrito com a pelagem é muito pequena, minimizando-lhe o desconforto.

Parece claro que prefiro o terceiro tipo. Nele fiz algumas alterações quanto ao material empregado e aos tipos de ajustes. O arreio pode ser ajustado em três direções, permitindo seu uso em animais de quaisquer raças ou estaturas. Em vez do couro, material caro e de difícil manutenção, passei a usar cadarços de algodão. Estes são laváveis e de muita resistência física. Além disso, podem ser costurados com muito mais facilidade que o material anterior. Os mosquetões metálicos, tradicionalmente usados, com a constante exposição às intempéries, tendem a se deteriorar e não podem ser lavados. Assim, passei a usar os de plástico, muito comuns em alças de mochilas e sacolas. Finalmente, nos arreios estrangeiros, a trela é feita de tubo de alumínio, a que se agrega uma fita branca auto-adesiva à guisa de revestimento. Na vida prática, essa solução se mostra precária, porque o atrito com postes, troncos de árvores, quinas de muros e outros obstáculos a que o animal está sujeito danificam rápida e constantemente a fita. Isso obriga o usuário a trocá-la freqüentemente. Preferi, pois, usar tubos de PVC branco que eliminam esse tipo de manutenção, bastando serem lixados quando os arranhões forem excessivamente profundos e visíveis.

O comprimento da trela deverá levar em consideração os seguintes fatores: porte do cão, estatura do cego, tempo de reação e demais itens que determinam o comprimento das bengalas. Em outras palavras, é justamente o tamanho da trela que vai permitir ao deficiente seguir seu guia. À medida em que a pessoa vai envelhecendo e suas reações se tornam mais lentas, a trela precisará ser alongada, a fim de compensar sua falta de agilidade. Deve-se, também, observar se as patas traseiras do cachorro estão sendo pisadas com grande freqüência. Se isso ocorrer, ela deve ser alongada, pois um pisão mais forte pode mesmo esmagar-lhe os ossos dos artelhos. Além disso, se possível, o conjunto deverá permitir ao dono afagar o guia sempre que este agir corretamente. Finalmente, o arreio não poderá impedir o animal de comunicar-se com seu dono sempre que necessário. Isso é geralmente feito através de focinho no joelho ou na mão direita.

É preciso lembrar que cães arfam para facilitar a troca de calor. Muitos arreios não levam isso em consideração, pressionando-lhes o tórax em demasia. Isso, além de dificultar-lhes a respiração, em percursos mais longos, pode provocar aumento desnecessário da temperatura interna de seu corpo. Deve-se, também, levar em consideração o tipo de pelagem do animal, procurando minimizar os malefícios que o atrito constante pode provocar.

Por mais discriminatório que possa parecer, o arreio deverá ser sempre o símbolo de que aquele cão está guiando um cego, da mesma forma que uma bengala deve deixar claro o motivo de seu uso. Assim, ele precisará ser visível. Daí a cor branca para a trela e o contraste entre o peitoral e os pêlos do cão. Sugerimos cores claras para cães escuros e cores escuras para cães claros. Há quem preconize o uso de cruzes vermelhas indicativas de sua função. Isso pode ser usado em alguns países, mas não me lembro de tê-las visto em minhas viagens. Não penso serem necessárias.

A maioria dos cegos inexperientes no uso de cães-guia segura o animal pelo arreio. O treinador deverá insistir que a trela, apesar de pressionar a mão do usuário, serve somente para que ele possa guiar-se. Se for preciso conter o animal, deve-se fazê-lo pela guia.

A melhor maneira de seguir o cão é colocar os dedos médio e anular na trela, enquanto se segura a guia com o indicador e o polegar da mesma mão. No início, os usuários agarram-se à trela como se estivessem pendurados em um trapézio. Na tentativa de defender-se dessa agressão, o cachorro passa a puxar com mais força, comprometendo o equilíbrio do conjunto.

Nos aviões, retirar o arreio e colocá-lo no porta-bagagem superior, junto com as maletas de mão é imprescindível. Em caso de acidente, a trela pode se transformar em uma armadilha para os passageiros e animais.

2) Guias e colares

Durante o treinamento, é perfeitamente compreensível que se usem guias de 1,5 m de lona simples ou dupla, ficando a critério do adestrador. Mais tarde, deve-se trocá-la por uma guia de exposição ou modelo leve e confortável. Isso se deve basicamente a dois fatores: a guia só servirá para que o dono não perca o contato físico com seu cão. Quanto mais fina ela for, melhor será a impressão que causa aos transeuntes.

Os colares ou enforcadores jamais deverão ser agressivos, como os famosos e inúteis colares de espinho, proibidos pela FCI, desde 1973. Não nos esqueçamos, porém, de que, no início do adestramento, por não ser adulto, o animal contará com cabeça e pescoço muito mais estreitos do que suas medidas definitivas. Assim, se for possível conseguir-se algum tipo de enforcador de corrente dupla, como o mostrado na figura 4, com tamanho ajustável, é sempre interessante.

A exemplo do que dissemos acerca das guias, colares feitos com correntes delgadas dão sempre melhor impressão aos passantes, significando não se tratar de animal agressivo, mas de cão dócil e bem educado.

Na verdade, seu uso se limita a prender a guia ao pescoço, posto que o arreio é o único instrumento importante durante a caminhada.

O usuário deve ser conscientizado de que a aparência de seu cão é importantíssima para sua aceitação. Assim, procurar manter arreio, guia e colar sempre limpos e brilhantes.

3) Outros acessórios

Como manda a boa cinofilia, o cão deverá ser escovado pelo menos uma vez ao dia. Dependendo dos lugares por onde andar e do clima, as escovações poderão multiplicar-se. Assim, o usuário deverá contar com os seguintes acessórios:

a) um pente, a ser guardado no bolso ou pochette;
b) uma escova de grande área e dentes pouco flexíveis;
c) uma escova de roupa.

O pente servirá para alguma emergência, devendo estar sempre à mão, mesmo durante as caminhadas. A escova do item "b" acima servirá para manter limpos os pêlos do dorso, pescoço e cauda. A escova de roupa servirá para limpar as partes menos providas de pêlo, como peito, barriga, patas e orelhas. Reforçamos a idéia de que a aparência de um guia precisa ser no mínimo perfeita, para garantir-lhe boa aceitação em locais públicos.

As especificações do equipamento variarão em função da raça do animal. Um collie, por exemplo, tem suas regras de higiene diferentes das de um poodle ou mesmo das de um weimaraner.

4) Alimentação

Há uma certa discussão acerca de quantas vezes por dia um cachorro deve comer. Há os que defendem duas, alegando que a digestão será melhor, evitando problemas estomacais. Há os que pensam que, por serem predadores, na natureza, os cães costumam comer apenas uma vez, se conseguirem caçar. Acham que o que é natural deve ser respeitado. Não penso que qualquer um dos dois ramos esteja correto ou mesmo errado. Isso depende de inúmeros fatores: a individualidade do próprio animal, da raça, da idade e do trabalho que desempenha.

Se nada do que foi dito for obstáculo, acho mais prudente alimentar os cães-guia uma vez ao dia. O horário dependerá da atividade do usuário. Esse deverá adequá-lo a sua rotina, levando sempre em consideração que o tempo de digestão leva cerca de nove horas.

O número de vezes que um cão defeca é proporcional ao número de refeições que ele faz. Isso ,por si só, é suficiente para justificar minha opção por alimentar o cão uma vez ao dia. Mas não basta. É preciso escolher a alimentação correta. Os ditames da boa cinofilia, cuja literatura é vasta, poderão dar indicações acerca do caminho a seguir. Minha preferência é pelas rações secas pelos motivos que se seguem:

a) se o cão estiver acostumado, a digestão passa a ser muito regular, o que nos permite antever com razoável aproximação a hora de defecar;
b) as fezes tornam-se mais secas e fáceis de limpar;
c) torna-se mais fácil a educação do animal, que, por diferenciar sua alimentação da dos humanos, torna-se menos exigente e pidão;
d) rações secas são fáceis de encontrar em qualquer lugar, bastando respeitar os problemas de palatabilidade;
e) rações secas são mais fáceis de armazenar.

É preciso evitar, de qualquer maneira, alimentar o cachorro em horários variáveis, com as mãos, com restos de alimentos temperados ou doces. Nunca se esqueça de que ele freqüentará restaurantes, bares, lanchonetes e mesmo festas, não devendo estar pedindo comida ao dono e/ou quaisquer outras pessoas presentes no local. Esse cuidado deve-se não somente à educação explícita como também a questões de saúde e higiene. Mais ainda, deve-se a problemas práticos como: o que o cego fará, se o seu cão tiver uma diarréia ?

5) O cio e a reprodução

Cães são indivíduos, portanto, cada um deles comportar-se-á de modo único perante fenômenos que possam alterar seus organismos. Geralmente a proximidade do cio deixa as cadelas mais dispersas e temerosas que o normal.

O cego precisará evitar deixá-las em estado de espera por longos períodos, pois não se pode garantir sua permanência, por melhor que seja o treinamento. Esse é um dos pontos pelos quais as escolas européias e americanas preferem suspender o ciclo reprodutivo das cadelas, através de injeções, ligadura de trompas e outros métodos. Como já discutimos, não me parece ser a solução ideal, posto serem animais com grande probabilidade de perpetuar genótipo e fenótipo adequados a sua função. Por isso mesmo é preciso instruírem-se os futuros usuários a respeito das regras mais básicas de cinofilia, fazendo-os interessarem-se por tais variações de comportamento. Isso os tornará mais atentos e perceptivos, melhorando as condições de trabalho da dupla (cego-cão).

O sangramento não é exatamente impeditivo do uso da cadela. Dá mais trabalho. O cego deverá limpar os órgãos genitais da fêmea constantemente, de preferência com lenços perfumados , a fim de desviar a atenção dos machos. Mesmo assim, o uso das fêmeas durante esses dias é tolhido, por não se desejar sujarem-se carpetes e tapetes alheios, o que prejudica a imagem do cão perante os outros.

A partir do décimo dia, ou quando o sangramento se tornar mais rosado, deve-se suspender o trabalho da cadela, mantendo-a em lugar seguro. Após uma prova de aptidão, pelo menos uma vez na vida as cadelas devem procriar, a fim de perpetuar suas qualidades.

No caso de gravidez, a cadela poderá ser utilizada até o quadragésimo quinto dia. O cego, porém, precisará procurar ajuda especializada, a fim de zelar pela saúde da mãe e dos futuros filhotes. Além desse prazo, é preferível que ela seja deixada em casa, se possível com atenção dos familiares para que tudo corra bem.

No caso dos machos, basta reprimir as tentativas de assédio que ele possa apresentar durante o seu trabalho. Teo Gigas, em sua obra "O Cão em nosso lar", aconselha o uso de um estilingue cujos projéteis, ao atingirem partes posteriores e mais carnudas do cão, levam-no a desistir de tal intento fora de hora. A polícia militar do estado de São Paulo também, durante o treinamento, faz com que seus animais se contenham na presença de fêmeas no cio. O cego também precisará aprender a interpretar a desatenção de seu cão nesses casos, parando e colocando-o sentado e aguardando que o motivo de sua dispersão se vá.


O cego e seu cachorro

No capítulo "Guiar é uma coisa natural", citei o fato de a mãe de meu primeiro cachorro guiar meu irmão mais novo, sem qualquer treino. Na minha última viagem a Porto Alegre, conheci um senhor que dizia ter sido guiado por um vira-latas sem qualquer adestramento, por mais de dez anos. Afirmava mesmo que seus amigos, para testar as habilidades do bichinho, empurravam caixas, cadeiras e outros obstáculos, sem conseguirem enganar animal e dono. Eu mesmo fui conduzido por dois cães guias, no espaço de mais de vinte anos, sem quaisquer problemas que pudesse registrar como impeditivos de seu uso. Dever-se-ia, portanto, ao treino o fato de os cães serem capazes de guiar cegos? Não seria imprescindível que o próprio deficiente estivesse apto a ser conduzido?

Todas as escolas especializadas do mundo destinam pelo menos quarenta dias para adaptar o cego ao cão e vice-e-versa. Se não houver confiança mútua, não haverá a menor probabilidade de sucesso. Na Seeing Eyes (NJ USA), por exemplo, quando se vai entregar um cachorro para um cego, leva-se em consideração a necessidade de empatia. Põem-se quatro cegos em uma sala, e deixa-se que o cão escolha dentre eles qual será seu dono. Isso, por si só, já é meio caminho andado para o sucesso.

É óbvio que outros fatores são levados em consideração. A estatura do deficiente é o primeiro ponto. Um cão-guia nunca deve ser mais baixo do que o joelho de quem vai conduzir; caso contrário, o cego poderá tropeçar nele ao invés de segui-lo. O segundo aspecto diz respeito ao tempo de reação. Quanto mais lenta for a capacidade de reagir a estímulos, maior e mais lento precisará ser o guia. Esse tempo de reação tem a ver com a idade e com o estado físico e atlético do usuário. Finalmente, procura-se saber o motivo da cegueira. Diabéticos, por exemplo, têm limitações maiores que os demais, já que não devem cortar-se, pois seu tempo de cicatrização é muito lento.

O trabalho de adaptação se inicia com a obediência. Como é de se esperar, o cachorro não passará a obedecer ao novo dono assim que este último lhe for apresentado. Será preciso criar uma intimidade, que advém de o cão se sentir seguro ao lado de seu definitivo amo. Para tanto, mais do que ensinar as palavras corretas ao usuário, o adestrador transmitir-lhe-á noções de cinofilia, fazendo que o primeiro alimente, escove e assuma todas as responsabilidades necessárias a um bom convívio.

Não nos esqueçamos de que o fato de o usuário ter que cuidar de seu novo amigo é, antes de tudo, uma terapia para si próprio. Isso se deve a que, juntamente com o desempenhar correto da rotina, um sentimento de amor e responsabilidade deverá ser desenvolvido entre eles. Tais sentimentos trazem o cego para o convívio social, na exata medida em que este venha a sentir-se útil e querido. Em outras palavras, é justamente nesse ponto que se evitam sentimentos errôneos, que farão o cego encarar o cão como uma simples bengala viva — como já ouvi de um adestrador — ou mesmo o transforme em uma muleta para enfrentar a vida. O modo correto de pensar deverá ser: "Ele me guia porque me ama e, como correspondo, tratá-lo-ei melhor do que a mim mesmo."

Quando estava por me decidir acerca da aquisição de um companheiro para minha cadela guia, minha cunhada disse: "Você pretende ter mais um cachorro?" Respondi que sim, ao que ela retorquiu: "Mas dá trabalho!" "Dar trabalho" é uma expressão muito interessante. Cuidar de qualquer ser vivo dá trabalho, seja ele criança, animal ou planta. Aliás, nosso patrimônio material e intelectual também requer um certo esforço e dedicação, para que não se deteriore. Resumindo, viver dá trabalho; e sorte de nós que, graças a nossas capacidades, obtemos rendimentos a partir do que de material possuímos e carinho do que de vivo cuidamos. "Dar trabalho", portanto, torna-se uma expressão vazia de sentido, proferida por seres vazios de ambição ou sentimento. Se essa for a mensagem que um cão puder trazer a seu dono, já se terá conseguido muito. Se ele for capaz de guiá-lo vida afora, teremos atingido a perfeição.

Esse tema merece discussão mais detalhada. O maior problema que nos aflige ao escolher um usuário é a sua família. Por incrível que pareça, há inúmeras vezes em que mães e esposas estão mais preocupadas com os pelos no carpete do que com a integridade do deficiente.

Führer morreu no dia 9 de março de 1986. Dois meses depois, iniciamos uma reforma em casa e eu costumava acompanhar a obra, porque meu horário de trabalho sempre foi mais flexível do que o de minha esposa. Um dia, tomei de minha bengala e desci a rua para pegar um táxi na avenida. Quando me aproximava da esquina pisei a tampa solta de um bueiro que, como uma arapuca, me engoliu. Pelo peso da tampa, não pude, a partir da bengala, perceber que o bloco de concreto estava solto. Estou vivo porque, ao cair, virei minha bengala, que me foi a "tábua de salvação".

Como se tratasse de um misto de esgoto com galeria de águas pluviais, sentia o fluxo me puxar com toda a força. Fiquei com um medo indescritível, porque não sabia o quanto a bengala resistiria. Um transeunte, na tentativa de ajudar-me, começou a puxar-me pelos ombros. Meu medo só aumentava. Sabia que o rapaz não venceria meus mais de oitenta quilos somados à pressão da água. Qualquer mudança de posição poderia desencaixar a bengala e eu fatalmente entraria pelo cano. Travou-se o seguinte monólogo:

— Segure a tampa, que eu saio sozinho!

— Por favor!! Segure a tampa, que eu saio sozinho!!

— Segure a merda da tampa, que eu saio sozinho!!!

Finalmente, ele entendeu e eu sai. A conversa continuou:

— Você está nervoso?

— Não! Eu quase morri, fiquei todo sujo e estou calmíssimo!

A estorinha que acabei de contar é apenas uma dentre tantos perigos por que já passei. Sei de outros muito piores ocorridos com outros cegos, apresentando graves ferimentos, até mortes, como resultado. Se eu estivesse sendo conduzido por um cachorro, ele teria interpretado o bueiro como obstáculo profundo e o teria evitado.

Criada a semente do relacionamento futuro, passa-se a fazer que o animal se acostume a guiar seu dono definitivo, enquanto este passa a acostumar-se com os meios de comunicação de seu novo companheiro. Fazem-se caminhadas curtas por lugares tranqüilos, aumentando a dificuldade gradativamente até que cão e usuário deixem de se sentir amedrontados um com o outro. Essa confiança tende a crescer no decorrer da vida de ambos, até que a capacidade física do cão comece a declinar.

Um exemplo do que acabo de dizer ocorreu recentemente, quando fomos fazer uma demonstração das capacidades de um guia num programa de auditório. Além de mim e Nina, minha cadelinha Labrador Retriever, estavam um outro cego e sua cadela, da mesma raça, adestrada pela Polícia Militar do Estado de S. Paulo. Ocorre que Lince tinha pertencido a uma moça cega que sofria de esclerose múltipla, e teve que ser readaptada para o segundo dono. Durante a apresentação, Nina se saiu muito melhor. Isso, contudo, não se deveu exclusivamente ao treinamento diferente, mas principalmente ao fato de que confio cegamente nela. Assim, pude transmitir-lhe a calma de que precisava para desempenhar suas funções com perfeição. Sei que, daqui para frente, o desempenho de Lince dependerá mais e mais de seu relacionamento com Sebastião, seu atual usuário. Será preciso que ele se entregue nas patas e olhos de sua cadela na exata medida em que ela se entrega aos cuidados que ele lhe possa dispensar. Será, pois, como ocorre comigo, um relacionamento de interdependência extremamente positiva, pois é do dar e do receber que a humanidade precisa para manter essa qualificação.

Até agora, só falamos no ato físico de guiar. Isso, porém, é só trinta porcento do que os cegos devem aos seus cães-guia. Os outros setenta estão representados pela integração à sociedade. Ao se aposentarem, dificilmente esses bichinhos tão queridos saberão o quão longa terá sido a trilha percorrida por ele e seus donos, no infinito labirinto que é o relacionamento humano. Isso é de tamanha importância que encerro aqui o que há de material e dedico o próximo capítulo ao que de mais importante existe: o crescimento individual.


Usar ou não usar: eis a questão.

Um dia, um amigo meu perguntou, referindo-se à Nina: "Não dá para você “se virar” sem ela?" Questionei-lhe se ele não seria capaz de "se virar" sem seu carro. É evidente que posso, assim como estou certo de que ele seria capaz de desenvolver suas atividades utilizando-se do transporte público. Resta saber se é conveniente.

Parece claro que se treinam cachorros como guias com a finalidade de tornar os cegos mais independentes. Se não se o conseguir, o trabalho terá sido perdido. Há uma seriíssima tendência a se confundirem os conceitos de independência e auto-suficiência, o que leva a afirmações verdadeiramente absurdas.

Auto-suficiência tem a ver com se bastar, aproximando-se do moto contínuo. É, portanto, uma utopia que beira o ingênuo. A independência, por seu lado, está relacionada com o uso da vontade, dentro do socialmente aceitável.

Quando compramos o primeiro carro, temos uma enorme sensação de independência. Ela dura até que o tanque de combustível se esvazie. O automóvel lembra-nos então de que nossas decisões são um eterno assumir de obrigações.

Não pensei que teria oportunidade de fazê-lo, mas vou falar como o economista que sou. Uma das maiores características dos países subdesenvolvidos é o fato de nele se encontrar tudo o que há de melhor nos superdesenvolvidos, porém não disponível para todos, além de uma forte propensão ao único. No Brasil tudo tende a ser um só: Religião, a católica; esporte, o futebol; automóvel, o daquela marca; emissora de televisão, um canal só, e outras facetas de nossa sociedade. O desenvolvimento, no entanto, advém do pluralismo e da diversidade de opiniões e não da unanimidade.

A comunidade dos cegos não fugiu à regra. Criaram-se papas como Geraldo sandoval, do CENAI, e Dorina G. Nowill, da Fundação de mesmo nome (antiga Fundação Para o Livro do Cego no Brasil). Pelo seu pioneirismo pessoas como as que citei passaram a ser consultadas sobre tudo o que se referia aos cegos. Se o caso fosse o do aproveitamento de um não vidente em uma indústria, pedia-se a benção do Sr. Geraldo, que determinava se o indivíduo poderia ou não exercer aquela função. Se o assunto derivasse para a educação ou para a reabilitação, qualquer decisão deveria ser sacramentada pela opinião positiva dos profissionais da Fundação.

Esse apelido, tão usado pelos cegos de minha geração e mais velhos, por si só já denota a falsa impressão de ser a única. Não se trata de criticar as instituições em si. Também não se discutem as boas intenções das pessoas nelas envolvidas. O reproche recai sobre o país como um todo. O treinamento de cães-guia para cegos teve inúmeras iniciativas abortadas nos últimos cinqüenta anos porque a opinião da fundação era a de que seu uso aumentaria o grau de dependência.

Se afirmarmos que a adoção de semelhante recurso é ideal para todos, estaremos sendo tão autocráticos e preconceituosos quanto aqueles que reprovam seu uso. Há casos em que a simples presença do cão é extremamente benéfica, assim como em outros, sua posse é um verdadeiro estorvo.

Lembram-se da Minie, aquela filha de Nina de quem falamos no capítulo "Premissas"? Depois de recuperada, ela foi encaminhada para um fisiatra que tinha perdido a visão por diabete. Talvez ela não o esteja guiando tanto quanto gostaríamos, mas é responsável pela maior sensação de realização que já senti. Aproximadamente um ano depois de ir morar com Sampson, recebi um telefonema, em que ele me afirmava ter aprendido mais sobre reabilitação com ela do que em sua vida profissional.

Infelizmente não posso me esquecer da usuária que tinha tanto medo de deixar de ser o centro das atenções da família que, por puro ciúme, passou a surrar sua cadelinha. Isso levou à total desagregação, jogando-a na mais completa solidão.

Como em tudo o que se refere ao ser humano, não há regras que garantam o bom desempenho de uma dupla. Há, porém, características que, com mais freqüência, levam ao sucesso.

A primeira é a disciplina. Assim como as crianças, os animais possuem uma lógica quase binária. Para eles não há tons de cinza; ou se é branco ou se é preto; "talvez" não faz parte de seu vocabulário, ou se é sim ou se é não. Se o usuário não for minimamente equilibrado, só fará confundir o animal levando-o ao fracasso. Não agirá com moderação, alternando momentos de amor e de ódio, sem que haja uma razão concreta. Cães treinados também são alvos de repreensões, algumas vezes castigos, o que não justifica destempero por parte do dono. É justamente por isso que tendemos a descartar candidatos com problemas adicionais como alcoolismo e outros.

A segunda é a aceitação da condição de cego por parte do usuário. O numeral ordinal que usei só serve para enfileirar parágrafos, visto que está no mesmo nível de importância. Nos últimos oito anos, tenho sido consultado por uma quantidade significativa de interessados, que têm ojeriza à bengala. Ela é estigmatizante; porém, necessária. Uma amiga tinha acabado de mudar-se de Portugal para o Brasil e ainda se sentia insegura ao volante. Um dia, dobrou uma esquina, tentando ler o nome da rua, quando atropelou uma moça. Saiu do carro e disse: "Você parece cega!" Ao que a acidentada respondeu: "Não pareço, sou cega!" Natalha só então viu a bengala. O fato é que esse instrumento dá um bom acréscimo de segurança e é base para um bom desempenho junto ao cão. Seríamos levianos se criássemos a expectativa de que o uso de um guia vivo substitui o treinamento tradicional de locomoção. É a dupla que anda. Se não houver mútua confiança, não há como se sair de um lugar e chegar a outro. Infelizmente, não podemos mostrar um cartão de visitas a um cachorro e pedir-lhe que nos leve até lá. É importantíssimo estarmos treinados a andar sós.

A terceira é a maturidade. Aproximadamente trinta por cento das consultas que recebo são de adolescentes. Por sorte, desistem assim que descobrem que terão obrigações intransferíveis. Nessa idade, os jovens querem pertencer ao grupo em que se, encontram a qualquer preço. Nesse período, a bengala é tão estigmatizante que chega a queimar. Já passei por isso e hoje sei muito bem que, se tivesse limitado meu relacionamento às pessoas portadoras da mesma deficiência, a falta de uma bengala é que seria símbolo da diferença. Um cão de raça pura é indubitavelmente mais estético.

A quarta é, pelo menos enquanto os cães guias forem raros no Brasil, de suma importância. Diz respeito à desinibição. Para diminuir meus gastos com condução, resolvi ir de ônibus para o escritório. Consultei o Dr. Mário Pereira, diretor jurídico do Departamento de Transportes Públicos do Município de São Paulo, sobre os impedimentos legais a que estaria sujeito. Ele me informou que não havia qualquer lei que impedisse o acesso de animais ao transporte coletivo. Sugeriu que a São Paulo Transportes S. A., por coordenar as concessionárias, poderia ter algum regulamento. Como ele pediu, escrevi um ofício à empresa que operava a linha que eu iria usar, a fim de evitar atritos. O gerente foi muito gentil e se propôs a instruir os motoristas. Mesmo assim, decidi por, na primeira semana, tomar o ônibus no ponto final. Dessa forma, se tivesse que discutir com o motorista, não perturbaria seu trajeto e contaria com o fiscal para me ajudar. Como tudo corresse perfeitamente bem, passei a esperar o veículo no ponto que me era mais conveniente.

No segundo dia, o motorista que parou estava desinformado e tentou impedir a entrada de Nina. Fui mais rápido e a embarquei antes que ele pudesse fazer alguma coisa e a discussão foi acalorada:

— O cachorro não pode ficar no ônibus!

— Você não está vendo que é um guia de cego?...

— E daí?

— Eu tenho permissão para entrar com ela no carro!

— De boca não vale! Você tem que trazer por escrito.

— O que não é proibido é permitido. Você é que tem que mostrar um regulamento que proíba.

— Para tudo tem uma licença!

— Ah é? Mostre-me sua "carteirinha de respiração" agora mesmo, senão eu o sufoco!

Evidentemente o diálogo careceu de suporte jurídico, de parte a parte. Como se tratasse de ônibus "executivo", a polêmica não fugiu ao controle. Muitos ficaram a meu favor. No fim da viagem, graças à extrema educação de Nina, todos, incluindo o motorista, estavam admirados com seu comportamento e responsabilidade.

Se eu fosse uma pessoa de índole passiva, teria sido posto para fora, com sério risco para minha integridade e a de meu cão. Depois de vinte e três anos sofrendo todos os tipos de discriminação, minha língua ficou muito afiada. Sei que há momentos em que o uso de nossos recursos intelectuais e verbais abrem portas, mas é a simpatia de Nina que as mantém abertas.

Sua popularidade é tão grande que, se não a levo em viagens de trabalho, meus clientes reclamam veementemente. Paulo Autran costuma dizer que os bichos e as crianças roubam as cenas. Eu não me importo em ficar em segundo plano quando contraceno com um bichinho tão querido quanto ela.

FIM
 

Dedico este trabalho a quem nunca o lerá.
Dedico-o aos cães que entram em nossas vidas mansamente
e vão-nas enchendo de felicidade, até que não restem espaços
vazios para que nos ocupemos de coisas menos nobres.
Dedico a eles que são bolinhas de carinho quando nascem
e símbolos eternos de amor e compaixão quando se vão.
Luiz Alberto


Luiz Alberto Melchert é economista, professor universitário e presidente do Instituto 'Meus Olhos Têm Quatro Patas'. Conta com o auxílio de cães-guias há 37 anos.

 

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Meus olhos têm quatro patas
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva, 1993
excerto: caps. 6 a 14
nota: Os caps 1 a 5 foram reunidos sob o título O QUE É SER CEGO.

Fonte do texto: Digital Source


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14.Jul.2012
Publicado por MJA