Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual


Margem Esquerda

Urbano Tavares Rodrigues

The Blind Beggar - Jacob Kramer, 1918
Mendigo cego -  Jacob Kramer, 1918


Óscar Lopes sobre a novela
"Margem Esquerda"

António Ouriço pensava apenas na tulha onde ia poder estender-se, em chegando à vila, quando o automóvel veio contra ele, como um espanto de ferro e fogo, e ali, redondo, o matou. Um segundo antes, pedira ele a Deus ou ao Diabo que lhe abreviasse a jornada, fosse como fosse, que não podia mais. Doíam-lhe as pernas, de tanto andar, mendigando e penando por aquelas estradas de Cristo. Mas nem raiva trazia pegada aos calos da consciência. Nem raiva, nem esperança. Nada. Lembrava-se lá, todo ele cansaço, de que tivera filhos, e que esses filhos cedo haviam morrido (um com as bexigas negras, outro com febres ruins, pior que nas letras dos fados), e uma elefantina mulher sandia, agora encerrada num hospital de abortos! Tal e qual: "num hospital de abortos", como diria o jornaleco de província, indiferentemente piedoso e aliteratado, que no dia seguinte lhe fez o epitáfio, tão longe, valha a verdade, de pressupor o efeito de semelhante lamentação. Não. Frangalho de carne velha isso é que ele era, a vergar-se, a desfazer-se, carne de série, submissa tão-somente às cobiças e aos alívios fisiológicos... Não: nem memória do passado nem projectos de futuro. Só o instante próximo, cada vez mais próximo, e ainda sempre adiado, do repouso, como cabo dos seus desesperos. Esperança, apenas a das pernas que ansiavam pela palha do celeiro. Torturavam-no as veias, inchadas do esforço da marcha, e os ombros e a cabeça pendiam-lhe para a frente. Mas o que parecia impossível era sempre possível. Mais duzentos, trezentos metros... Os últimos é que custariam mais, como de costume.

Afinal, não alcançou sequer a ourela do povoado, onde os cães soíam saltar-lhe em volta do bordão e os ouvidos se lhe enchiam de gente, de vozes em movimento. Era cego de nascença e, no entanto, viu o clarão dos faróis. Nunca vira mesmo, em toda a sua vida, uma chama assim. Foi a primeira e a última vez. Caiu de costas, largando o cajado e o alforje, que foi parar à valeta, pendurado das sarças; e ficou-se. Um sangue preto na boca, os olhos logo vítreos. Desmesuradamente abertos, dir-se-ia que observavam, frios e fixos, os dois homens a saírem do carro, batendo com as pernas desaustinadamente. Por fora, tivera sempre as pupilas como as das criaturas sãs. Uns olhos de medo, agora mortos pela segunda vez.

Debruçou-se sobre ele o condutor do Porsche e em vão lhe auscultava o pulsar do coração, ajoelhado na estrada lamacenta, sobre um jornal dobrado que, ainda previdente, sacara do bolso do impermeável. Tomou-lhe depois o pulso; deixou cair por fim, de manso, aquela mão encardida e arreliadoramente inerte, ergueu o rosto desiludido para o companheiro, que o perscrutava com gravidade de ocasião. E, simulando um compungimento que ele próprio se admirava e intimamente se acusava de não sentir, declarou, com fúnebre pompa, abanando a cabeça:

― Coitado! Estava escrito!... Logo, porém, o instinto de defesa o desviou dessa composição obrigatória do pesar, para a questão, bem mais importante, da sua inocência no desastre: ― Mas também, que raio!, quem é que o mandou meter-se à frente do carro?

O outro baixou-se, por seu turno, sobre o cadáver, com tal ou qual convicção de testemunha, que lhe dava sobre o automobilista desorientado um quase voluptuoso sentimento de poder, em meio daquela "dolorosa e aflitiva situação", e, mais calmo, mais perspicaz, afirmou-se no ténue véu alvacento que esmaiava as pupilas do morto.

― Ó doutor ― disse, antegozando, por trás da sua solenidade de rigor, o efeito pavoroso da descoberta ―, olhe que o homem era cego!

― Ha? Pode lá ser! Isto é... Sim... Talvez você tenha razão. Ora que chatice! Bom, de toda a maneira, o senhor bem reparou, que podia eu fazer? Quem é que adivinha uma coisa destas?

― Pois claro, doutor ― apoiou o Figueiredo, saboreando a sua condescendência, a sua solidariedade. E, achando-se satisfatoriamente generoso, apertou-lhe o braço com os dedos grossos e viris, a reconfortá-lo: ― Não se inquiete, meu amigo, ninguém pode culpá-lo por um azar desta natureza. Mais a mais, o senhor até vinha devagar...

― Vinha, pois vinha, não é verdade? ― acudiu imediatamente o dr. Couceiro, já certo, certíssimo, de que assim fora e registando com sofreguidão aquele depoimento providencial, reconfortante. É que lá se ia, chiça!, toda a sua reputação, se aquele sujeito não quisesse encarar o caso com amizade. E, subitamente, compreendeu que havia laços profundos, inaparentes talvez mas autênticos, a ligarem-no àquele gordo e plácido escrivão de província. Um tipo "porreiro", no fundo! Eram ambos pessoas de posição, ao fim e ao cabo, companheiros de hotel, estranhos naquela fechada terra alentejana. Tinham algo de comum a defender: a sua tranquilidade e o seu bom nome. Ele, então, nomeado, havia tão pouco tempo, delegado do Instituto Nacional do Trabalho, que seria da sua carreira se aquele estúpido acidente degenerasse em escândalo?!

― Metemo-lo no carro? ― perguntou o Figueiredo, num tom baixo de vaga cumplicidade, estendendo o beiço inferior de uma viscosa saliência, corruptiva, e com ele o queixo largamente refegado, para o macabro fantoche atravessado na estrada. Teria morrido de síncope?, perguntava a si próprio, pesando o grau de responsabilidade do companheiro nessa alternativa.

Ao pegarem no corpo, sujo e gelado de morte, ficaram ambos incomodados. Esfregando as mãos nos lenços, prolongadamente, retomaram os seus lugares na dianteira do veículo. O dr. Couceiro achou enfim a chave que rebuscava nos múltiplos bolsos do colete de camurça, estreado naquele mesmo dia e que lhe dava, a despeito do cenho contrito, certa jucundidade abdominal de feirante de fantasia. Ligou atentamente o motor e meteu a primeira velocidade.

Tinham caído uns pinguichos ao fim da tarde, mas a chuva encolhera-se: não queria nada com o Alentejo. Amolecera, em todo o caso, as lamas da véspera.

O céu estava já todo marchetado de estrelas e o frio voltava à planície, transfigurada por uma grande lua cheia, que baixava, veloz, no horizonte, sobre os olivais fuscos à medida que o Porsche corria para ela. Os postes de iluminação, muito raros, espargiam pela orla da estrada umas luzenças funestas e vacilantes, que se embrenhavam nos valados sem som (pois a roncadura contínua do motor abafava toda a respiração da natureza) e ressaltavam a crueldade hirta das figueiras mais próximas, fantasmagóricas, oníricas sentinelas do campo trevoso, onde a angústia do dr. Couceiro levantava os horrores eternos da noite. Figueiras que se pareciam a cachos de forcas entrelaçadas.

― No fundo, tenho asco a esta terra ― disse o doutor, ensimesmadamente.

― Em lhe faltando o sol, é triste como um purgatório ― obtemperou o Figueiredo, que se criara nas veigas ridentes de Coimbra. E, volvendo o olho papudo sobre o ombro, relanceou o cadáver que se agitava e se contorcia, accionado pelos solavancos bruscos, na banqueta de trás. Não chegava a ser macabro: era esquisito e desconsolador.

Cego ainda por cima! No fundo, talvez fosse melhor assim. Para o que o desgraçado devia padecer!...

Couceiro guiava com a mão direita e levava o braço esquerdo de fora da vidraça corrida, dois dedos somente apoiados no volante. Abrira a janela, sem consideração pelo zimbro, que em geral o constipava, para arejar o carro, por causa daquela coabitação forçada e tão desagradável... Não escapava da constipação, com certeza. Tanto pior! O raio daquela noite já lhe tresmalhara todos os hábitos. Agora... paciência!

A primeira criatura viva que se lhes deparou foi uma mulherzinha acurvada, que vinha a rebuçar o queixo no xaile preto e nem lhes deu um olhar. E, de repente, o povoado, de cal e argila, já endorminhado, sob a doçura falsa do plenilúnio, surgiu, liso, sem perspectiva. E com ele a iminência das chatices, a amargura das explicações a dar na Guarda Republicana. Couceiro estava quase certo da compreensão do chefe do posto, mas tinha de passar por aquilo tudo, claro. Dentro dos muros brancos, arrabaldeiros, iam aparecendo os carros de lavoura, tombados, alpendres de tijolo cozido, à claridade verdoenga dos gasómetros. Uma porta ainda aberta, ao rés da estrada, amostrava o poial de ladrilho, pobre, e a pilheira aberta na parede, por cima da chaminé, com tachos de alumínio, daqueles bem areados que o dr. Couceiro, noutras alturas, gostava de remirar com protectora simpatia: o que de melhor aquela gente sabia fazer.

Homens, só mesmo já nas vendas, encostados ao balcão, escorropichando aguardentes, abrigados nos samarrões de borrego, como bichos friorentos eles próprios. Uma concertina. Mas soava longe. O que o dr. Couceiro ambicionava era ver tudo aquilo terminado. Tinha fome. E depois? Que culpa tinha ele de ter fome? Chegava a enfurecer-se, por dentro, quando alguém ou alguma coisa atentava contra a hora das suas refeições. Tinha um estômago certo e exigente. Não que comesse muito, mas comia a horas. Passava tormentos nos jantares de cerimónia com os aperitivos palavrosos, a seco, e com os intervalos de conversa entre os pratos. E então nas assembleias que transpunham a meta das oito da noite, ou nos comboios, e nos velórios!... É certo que aquele morto, de certo modo, lhe pertencia mais do que os outros. Mas, por outro lado, nem sequer o conhecia. Até preferia não saber mais nada dele. Que ganhava em se arreliar?! A menos que desse uma esmola vultosa a algum parente que ele tivesse. Boa ideia! Era um sacrifício, mas valia a pena, como prova da sua bondade. Que, apesar de tudo, humanidade não lhe faltava. Talvez não fosse, porém, de boa táctica falar já nisso ao chefe do posto: podiam confundir com remorso esse rasgo de caridade. Que tempo ia perder, entretanto!... A açordinha à espera no hotel ("todos têm que comer para viver, pois então!"). E a botija a escaldar de que os seus pés quase dormentes traziam saudade!... A presença envolvente daquela criada morenaça, com formas musculosas, e ao mesmo tempo bailadas, de amazona rupestre, de olhar sorrateiro e cúmplice, sob as sobrancelhas de crina, tão grossas, tão pretas!

Era ela, fatalmente, quem lhe levava ao quarto, sempre de bom modo, a água quente para ele se desenfarruscar, quando, de longada, ali batia com os ossos, ausentando-se por uns dias da capital do distrito, e chegava assim tarde, com o hotel já sonarento, quase silencioso. Até isso, agora, com as delongas da praxe, o azar lhe roubava: entretanto a moça deitava-se, pela certa, e lá se ia aquele momento, já seu conhecido, de excitante esperança e hesitação, à espreita de um gesto dela, uma expressão mais clara, uma palavra que o incitasse finalmente às ousadias seguras e lhe franqueasse, o que não havia de ser difícil, aquelas rijas intimidades, que lhe desatasse, de vez, a ela, num franco consentimento, o riso bronco e tentador, tão femeal. Mas tinha de se respeitar. Celibatário era ele, sim, o que sempre lhe dava margem para certos dichotes equívocos, mas oneravam-no as próprias funções que desempenhava agora. Se fosse mal sucedido, logo constaria que gostava de mulheres cheirando a cebola. Seria a risota dos pedantes da vila. Não, não podia correr, naquele hotel de boataria, o risco de um escândalo vexatório, ele, personalidade oficial, que superintendia agora em todos os organismos corporativos da zona, com acção disciplinar e regulamentar nas relações jurídicas de trabalho. Fiscalizava paternalmente as firmas, para fazer cumprir as determinações legais. Tinha seu sabor a certeza desse poder, de que não abusava, pelo contrário. Era preciso saber viver, ser por vezes condescendente! E aquela ameaça, agora, a enfrenesiá-lo!

― Não se apoquente, doutor ― acudiu, bonacheirão, a reconfortá-lo, o Figueiredo, que lhe seguia, pela inquietação das visagens, o curso dos pensamentos, com uma solércia meio regozijada meio compassiva. ― O sargento da Guarda, o Gonçalves, esteja descansado, é bom tipo: não vai querer arranjar-lhe sarilhos. A vida é assim mesmo: temos de ser uns para os outros...

Sol em pino. Azul o céu: um tampo de azul quietude sobre o meio-dia. Azul de distante liberdade. E a terra cheirosa, mas dura, tão dura, cada vez mais dura e por isso mesmo ainda mais bela, e a vila, alva como os ossos e como o pão de trigo, cercada a nascente de pardos, parados, azinhais; e as pedras incendiadas; gotas de luz candente suspensas do grande chafariz, encastrado no roído paredão nobre das muralhas antigas do castelo, aonde iam abeberar-se os machos espanhóis, ainda nessa aliviação enforquilhados pelos ceifões familiares dos almocreves, e as burricas tropeçudas dos hortelões e dos leiteiros.

Velhas devotas, de mantilho de lustro, vinham saindo da igreja e encontravam-se com o olhar feroz dos presos, que lhes pediam esmolas e lhes faziam manguitos por trás das grades da cadeia, voltada para a praça, domesticamente, como uma cloaca aberta, a sangrar e a rir. A água da bica a correr, ao sol, e o vinho a correr defronte, o vinho da vida perra, nas tabernas escuras. Que adiantam mais três tostões sem amanhã? Sol de Inverno, mas luminoso e forte. Passavam as mulheres da labuta no passeio da desconfiança, taleigo debaixo do braço, chapéu ruço na cabeça. E a empregada nova da botica, de salto alto, filha da comadre Matildes que se amancebara com um lavrador, para a pôr a estudar em Beja, de onde ela voltara assim mudada, levava pregadas às costas bamboleadas a chufa insolente e insensata daqueles olhos e uma ânsia recôndita de coitos vingativos. Mas o caso do dia era outro: era a morte do António Ouriço, o pobre de pedir, ceguinho ainda por cima, dizia o Teté, e que uns desalmados tinham atropelado na estrada nova. Quem mais bulia na triste história eram as comadres e os bêbados, que já os havia àquela hora. "Então, querem lá ver a pouca-vergonha? Um crime destes e não se há-de fazer justiça?..."

E aqueles homens, jovens e caducos, os deserdados da alegria e do trabalho, por ali quedos e lentos, jalecas de surrobeco, calças remendadas, estátuas de estanho e estátuas de barro, grudadas às paredes, aguardando (mas o quê), mirando, escutando, num pasmo desconfiado, o movimento do largo: o boquejar das lojas, os tropéis de mulas e a peidorrada dos "jeeps", e o desfile, em grupos, das duas raças distintas da vila, que eles diferençavam perfeitamente, por muito que se copiassem no trajo uma à outra ― a dos senhores da lavoura, cujas razões eles percebiam, para bem ou para mal, até quando os reduziam a menos do que pó, e a outra raça, a dos funcionários e doutores, a gente do hotel e das casinhas de alquiler do bairro da estação, que falava outra língua que não a deles. Só o engraxador, o Teté, rastejante e alcoviteiro, acudia no meio dos malteses, dos mortos-vivos, às botas magnânimas dos lavradores, amesendados no "café", com os jornais da véspera desdobrados sobre as panças arrogantes, diante do uísque ou do aperitivo ― estava-se ali a trinta quilómetros da raia de Espanha. Manso e solícito ou zombeteiro e acirrador, consoante o momento e a companhia, só o Teté, fuliginoso mensageiro da paz, ou da intriga, ligava os dois campos desafectos.

E às janelas, à meia porta, carpideiras embiocadas, desertando um momento os tachos ou os lavores, com as panturrilhas escaldadas das amigas braseiras, de sobre elas ruminarem purgatórios de aborrecimento, romanceavam voluptuosamente o trespasso do cego na estrada nova. Acontecera ali, a menos de um tiro de espingarda, a menos de um estouro de pneu. E a notícia ainda saíra, com seus laivos dramáticos, nem se percebia como, no Diário do Alentejo. Que o automobilista não tivera a culpa. Mas quem sabia? Era o prato do dia para a meia-tijela da vila, um pretexto para a piedade estimulante das anafadas e macias senhoras da Conferência de São Vicente de Paulo, cuja consciência sujeita à monotonia dos pecados diários e das decoradas contrições, pedia o seu tempero de novidade e aquele tributo barato de um suspiro ou de um protesto, que tanto lhes facilitava a digestão, agitando-lhes o seio e o estômago em leves sobressaltos, do mesmo passo que chamava os crentes à boa causa.

Quem não se contentava com lamentos nem com lágrimas eram as figuras torvas que começavam a bracejar, que ameaçavam descomedir-se, naqueles adjuntos de gente ainda pasmada e tolhida, em meio da praça, ao sol, renques de "desocupados", vadios por fatalidade, bandadas vagarosas de jornaleiros, abegões, ferradores, albardeiros, cabreiros, aprendizes de sapateiro ou "curiosos", daqueles que deitam rodeios nos sapatos próprios e depois nos alheios, para não morrerem de fome. E os mais assanhados, os mais desbocados, eram, claro está, os desempregados, até por nada terem a perder com os seus arremessos e invectivas. Esses não regateavam nomes soezes aos autores daquele "feito", mas era já menos com dó do que com ódio, com um escuro ódio habitual, que exumavam a vítima das circunstâncias da sua morte, tão avezados estavam todos eles às máximas misérias que já não sentiam tanto no caso a agonia banal de um homem como o acicate de mais uma afronta colectiva, que, tudo o levava a crer, ficaria impune. "Passam os carros por cima dos pobrezinhos, como se eles fossem laranjas podres, e ninguém lhes vai à mão, a esses reais..."

― Veja-os você, meu amigo! Veja bem como esta gente é! ― dizia o dr. Antunes, conservador do Registo Predial, travando por um braço o dr. Couceiro, "seu estimado colega", e arrastando-o, em plena luz, para o varandim do hotel, um belo balcão com ondulações de ferro forjado, que ganhara um prémio por altura do último concurso das janelas floridas. ― Veja ― insistia o dr. Antunes, apesar da relutância do "seu estimado colega" em ali permanecer em foco ―, lá estão eles, aqui como em toda a parte: os caudilhos da eterna arruaça, os profetas ingénitos da reclamação!... Profetas indignados... e também avinhados!

Couceiro sorriu, por cortesia, mau grado o seu desejo de sacudir para longe o importuno. Tudo aquilo o ultrapassava. Não queria fazer causa comum com ninguém. E, no entanto, bem lhe parecia que se estava a tornar uma carta de um naipe, e logo das mais altas, com o jogo a ir para a mesa. E ele que só queria sossego! Mas, que remédio!

O dr. Antunes, inspirado, até se esquecia dos seus complexos. Era um sujeito baixinho, precocemente envelhecido, nervoso, com uma digna calvície sebosa, os olhos ainda ramalhudos e chamejantes. Para se fazer mais alto, acrescentava uma almofada ao assento do seu automóvel, quando conduzia, ou à cadeira em que imperava na repartição. Estava eufórico, pelo ensejo que se lhe oferecia de perorar com supino acerto:

― O pior, doutor, são os insensatos que lhes dão força com palavras loucas. Esses é que têm a culpa. Desclassificam-se e denunciam-nos a nós, por vaidade, no fundo, ou por rancor. E sem medirem sequer o alcance dessa oratória... Transviados!... Transviados é que eles andam! ― Fez uma pausa de efeito, buscando o olhar do dr. Couceiro, que se lhe furtava obstinadamente, e esporeou-o: ― E afinal tudo isto porquê, toda esta excitação?... Por menos do que um fósforo... Se você nem sequer teve a culpa do desastre!... Não é verdade?...

Couceiro baixou a cabeça, por duas vezes, compenetradamente, e, ostentando ou querendo ostentar o desprendimento da inocência (mas, que raio, não era assim tão culpado como isso!) anunciou, com a fala um tanto embargada: ― bom! vou lavar as mãos, que o almoço deve estar por pouco. ― E cravou uns olhos atentos e reflectidos no relógio, como se os ponteiros fossem os dados de um difícil problema.

Debaixo do varandim soou, porém, nesse preciso momento, a voz de comando do Samora, que acabava de sair das navalhas e das turqueses do barbeiro, escanhoado e direito como um ás das barras paralelas.

― Uma atmosferazita insurreccional a levantar-se, ha? ― considerou, com violento desdém, inflando o tórax. ― Tivesse eu poderes para isso e nenhum abria o bico. Mau é eles começarem...

― Tinha um físico híbrido de camponês de charrua e de desportista saxónico, desempenado, sobre o loiro, mas com qualquer coisa indefinível de pícaro, de esconso, de matreiro. Antigo furriel miliciano e oficial da Legião Portuguesa, andara pela Índia e por lá, nas horas de ócio, ardidamente traficara e ao mesmo tempo se polira. Aventureiro e ardiloso que nem um mercador dos mares de Quinhentos, viera dar, por fim, àquele mar de searas; e esperto e despejado como era, inclinado a saias e ciganas e a negociatas arrojadas, adulando com uma das mãos e espancando com a outra, içara-se a vereador, sem ser da terra, nem sequer alentejano, por desinteresse dos homens ricos da vila.

― Com aquele gajo é que eu um dia hei-de ter uma grande conversa. E que conversa! ― dizia o Teté, de longe, apontando-o, com um riso torticeiro, numa roda de ganhões terrentos, que galhofavam, quase escarninhos, de o verem, a ele, sempre tão mesureiro com os grandes, assim venenoso e vindicativo.

― Mas se tu lhe lambes as botas todos os dias e até lhe fazes mandados que um homem não tem cara para aceitar! Tu que já lhe foste arranjar mulheres, viúvas e solteiras, e que só falta ficares atrás da porta, como um cão de guarda, enquanto ele as fornica!...

― Até aposto ― aventurou outro ― que o Teté lhe faz já uma vénia quando o filha da mãe aqui se chegar!

― Por isso mesmo, por isso mesmo!... ― disse o Teté, encolhendo os ombros. ― Vocês não percebem: quanto mais raiva eu lhes tenho, mais me agacho. Mas por dentro, não queiram vocês saber!... Às vezes todo eu sou riso cá por dentro. Se os tipos soubessem o que eu gozo!... ― E, acabando de proferir estas palavras, correu a atravessar-se na frente do sólido e altaneiro vereador, que o evitou com um movimento de repulsa. Mas o Teté não se dava assim por vencido e, ante a expectativa irónica da ralé, foi-o perseguindo disfarçadamente, descobrindo-lhe côdeas de lama nas botas, com mesuras e piruetas que tanto podiam ser de subserviência como de chacota.

Ficaram no ar uns motejos abafados, uns relentos de gargalhadas fungadas. A raiva apodrecia. A raiva. Com a novidade da monda química, que havia três anos chegara ao Alentejo, era uma desgraça o que se passava. E quem tinha a culpa? Os lavradores davam-se por contentes de poder dispensar a mão-de-obra que, diziam eles, lhes pesava. Era um gosto ver em acção a nova maravilha: uma máquina e uma droga, nada mais. Bastava pulverizar o trigo: só escapavam as malvas e o balanço. Os homens ofereciam-se por quinze escudos, engolindo a vergonha rubra de se venderem tão barato, e levavam sopa. Fevereiro maldito! A monda química, um líquido mágico, podia mais contra eles do que as balas de um canhão. Mas sempre se recompunham. Eram homens. Vinham para a praça. Deixavam-se para ali estar à boa vida, cozendo ao sol os seus despeitos, encostados às paredes. As lágrimas ficavam para as mulheres, em casa sem pão, sem azeite, sem grão, com os filhos a reclamarem, a uivarem, a sofrerem à vista delas, buscando pelos cantos a comida que lá não encontravam. Iam então pedir pelos "montes" uma ajudazita às criaturas mais humanas; e viam cada coisa: ainda havia quem enterrasse nas eiras linguiças rançosas. Se elas as comeriam, com ranço e mais ranço que fosse!... Também passavam às vezes na praça, lutuosas e definhadas, e assemelhavam aves negras, fechadas nos lenços e nos xailes, com as asas transidas e tristemente recolhidas.

Má ocasião escolhera o António Ouriço para se fazer matar na estrada nova. Um pobre de Cristo menos do que o gado, que esse ainda tinha preço para os donos. Mas era um homem. E valia mais morto do que vivo. Nem sequer beatas, que as não via, ele podia apanhar do chão, como os outros pedintes. Já só servia mesmo, com os seus cerdosos cabelos, desalinhados e erectos, para meter respeito aos meninos, quando adregavam de o chamar, mor de fazer entrar em casa o homem do saco. E, apesar da cegueira sem remédio e desses pêlos de ouriço que lhe haviam merecido a crisma popular, apesar de tudo isso, o António Mortimério Domingues, tal era a sua graça verdadeira, não deixara de arranjar mulher ― e até sem grandes trabalhos entre a gente da sua igualha. "Há sempre desgraças maiores do que as nossas. A gente julga que a vida nos aleija e..."

"Não, que não aleija!" ― contrariou o mano Cecílio Narro, que, a despeito do nome mulherengo, fruto da extravagância materna, era homenzarrão barbado, de cenho descido e pouco sensível a generalizações. "Dizem os antigos..." ia prosseguir o tio Romualdo, ainda a respeito da desgraçada vida do António Ouriço. Mas os mais moços mandaram― no calar: "Meta a viola no saco, tio Romualdo." "Ora, anda cá se queres!..."

Arranjara mulher, pois arranjara, o bom do António Ouriço, mas era uma frangalhona desamparada, varrida do sentido, que já nessa altura escapara por duas vezes às investidas do dr. Resende, que a queria internar num manicómio. Achacoso e desprezado, ainda o António Ouriço lhe fizera dois filhos. Para isso não precisava ele da vista. Cego e trôpego, mas homem como os outros. "Às vezes são os mais garanhões!".

"Agora, nestes últimos tempos, era mesmo um dó ver aquelas almas penadas. No fim de contas, mais lhes valia morrer ― disse o tio Romualdo. ― A pobre da Maria Chica estará por acaso melhor do que ele, encerrada numa casa de doidos?". "Eu cá não vejo a coisa assim ― declarou o Amândio, um ruivo, pedreiro sem trabalho, sardento e triste, de grandes orelhas e boca de rã. ― É como se nos tivessem atropelado a todos". "Pois é! ― concordaram os mais novos. ― Fazem-lhe o enterro e, pronto, acabou-se a história..." Nem mesmo prenhe, a Maria Chica cessara de esmolar por "montes" e aldeias; e os catraios haviam crescido naquela humilhação da pedincha, ainda de mama, depois de pé descalço atrás das saias da mãe, até que o mau sustento, de tanto os atrofiar, os levara à cova. "Estará isso certo, amigos?" ― perguntava, iracundo, o Manuel Calafate, que entre os trabalhadores era dos mais acatados, por ser de algumas letras e até pela sua majestosa estatura, como a de um guerreiro, os altos ombros maciços, o bigode ruço no rosto sulcado de rugas verticais. "Isto não pode ficar assim: há-de haver uma justiça!" ― bradava, a apoiá-lo, o Cecílio Narro, atirando o olhar profético, num clamor de impotência, à varanda do hotel, onde, havia nada, tinham assomado os doutores. Foi então que as primeiras nuvens vieram enturvar aquele céu brilhante, mas falso, de Fevereiro, esvaindo por instantes a brancura intensa do casario. À parte as raras casas nobres, de sobrado, eram tudo rasteiras habitações, singelas, mas secretas, que pareciam, as mais pobres pelo menos, assim brancas de nascença e de morte, filhas gémeas do mesmo amor e da mesma sina; e, no entanto, vistas de per si, eram todas elas caprichosamente diferentes, com os rodapés e as esquinas pintados de azul espesso, de negro ou de amarelo forte, coalhado de sol.

No meio do largo, por entre as laranjeiras, já os galgos e os cães ― cadelos, em suas contumadas brincadeiras, suas lascívias e desafios, farejavam o vento. E esse vento não tardaria a sacudir as mansas oliveiras, a bater com as portas, a arrastar o fumo das chaminés, como fantasmas, pelas ruas velhas de terra batida.

Ainda o almoço não ia em meio, no hotel, quando a chuva apareceu de viés, súbita e logo grossa, arremetendo com as vidraças da casa de jantar.

― O Fevereiro enganou a mãe ao soalheiro ― sentenciou o dr. Gouveia, relanceando as amplas janelas, de cara franzida, mas sem desviar por muito tempo a atenção do prato, cujo fundo, ainda encarniçado do molho, ele ia limpando carinhosamente com miolo de pão. ― Ó Joaquim ― intimou, no seu vozeirão estralejante de homem recto e rico ―, traz cá outra vez essa bodega. Este pessoal de agora já não sabe fazer comida... Ah! quando eu aqui me batia com feijãozinho guisado nestas nalgas, com vossa licença, minhas senhoras!...

Todos os restantes comensais o aborreciam devotadamente, mas suportavam-no com paciência e com sorrisos, porque o dr. Gouveia, que era médico e lavrador, um curioso fenómeno de estupidez ruidosa e triunfal, lhes abrira liberalmente as portas das melhores famílias da vila e até, em certos dias, como aquele, deixava a sua casa e a sua azáfama cozinha para vir almoçar com eles, por causa da cavaqueira.

― Se esta chuva pega, então é que são elas! ― observou o Figueiredo. ― Os lavradores têm por força que negar trabalho aos jornaleiros, como na semana passada, que foram três dias a fio de tanta água que nem um dilúvio, com os campos alagados e a gente sem poder sequer sair à rua. E eles então ― prosseguiu, espetando o dedo gordo e desconfiado na direcção do largo ―, esses homens, no estado em que andam, põem-se como lobos!...

― Se lhe parece! ― interveio, frouxamente, o dr. Couceiro.

― Isso! Defenda-os o senhor, que eles andam a jurar-lhe pela pele! ― chasqueou o dr. Gouveia. ― O senhor ainda é muito ingénuo...

― Eu não fiz mal a ninguém, não quero mal a ninguém! Figueiredo, com uma sonsa curiosidade, espiava-lhe as reacções na fisionomia cansada. As emoções da véspera, a vigília, o medo dos dissabores, tinham-no amarrotado visivelmente. Mas tudo ficara nos devidos termos. O sargento da Guarda portara-se à altura. Arranjara-se tudo. O Figueiredo, inesperadamente, contara como o cego se atravessara, tarde de mais, no caminho. Teria sido mesmo assim? E que importância tinha isso, agora que estava tudo resolvido?! Nem ele, Leopoldo Couceiro, já sabia mesmo ao certo como é que se dera o malfadado desastre. A todo o momento, porém, se encarava casualmente com a face bonachona e hipócrita do escrivão, tinha a impressão de que o outro ia repentinamente aproximar-se dele, familiar, para lhe dar uma cotovelada na barriga e gracejar: "Desta safou-se você, ha, seu felizardo?!", ou outra pilhéria do mesmo gosto duvidoso, como, por exemplo: "Cá o moço sabe o que faz, ha, seu doutor?!"

A voz irritante e insistente daquele monstruoso dr. Gouveia forçava-o de novo à atenção:

― Ó doutor, olhe que esta gente é mesmo má. São rancorosos. Nem agradecem o bem que se lhes faz! E sempre lhe digo que a seu respeito, há pouco... (O amigo da onça! Mas que graça julgaria aquela besta que tinha?). ― E o velho sendeiro que não parava de atenazá-lo: ― O senhor não tem aparecido lá pelo consultório, dr. Couceiro. Apareça, está a ouvir? Apareça!

Neste comenos entrou na sala, a espirrar, todo resguardado num rígido casacão de cabedal, o delegado de saúde.

― Meus senhores! ― cumprimentou ele, em volta, e parecia assim saudar, numa larga facécia espirituosa, todas as pessoas e coisas, desde a mesa principal dos doutores e "suas senhoras" à dos caixeiros viajantes, relegada para o canto mais obscuro da casa de jantar, e a dos outros dois forasteiros, ambos representantes de companhias de gasolina, vestidos com uma elegância espartilhada e intrometida, à italiana, e até os seres inanimados, os móveis reluzentes, as belas estanheiras decorativas, a louça de cobre na cantareira, as mantas alentejanas que ornamentavam a parede. Permanentemente bem disposto aquele dr. Jaime Pedrisco!

Levantou-se, de repelão, o dr. Gouveia, pondo em perigo o equilíbrio dos copos, e foi abraçar, expansiva e energicamente, o recém-chegado:

― Olha o nosso querido dr. Jaime! Olha o nosso dr. Jaime! Bons olhos o vejam! ― e, pegando de uma cadeira frágil com aquela manápula peluda que os sessenta e cinco outonos frondosos lhe não haviam ainda enfraquecido, entalou-a ali, junto da mesa, entre as suas pernas e o regaço esquivo da esposa do dr. Antunes, onde jaziam o guardanapo e uma biografia francesa de Santa Teresinha de Lisieux, e ordenou: ― Sente-se aí! Você merece tudo, homem!

Que contava para ele, Couceiro, aquele tão festejado dr. Jaime, de insípida carantonha semita, que ali se esparramava, na sua frente, mais um esculápio lavrador, de pálpebra pesada, os óculos derrubados até meio da nodulosa cana do nariz, sobre a bochecha esclerosada, onde pungia sempre uma barba de desmazelamento, apesar da opulência que lhe atribuíam? Sim, existia sequer para ele o dr. Jaime? Dava-se conta, aliás, naquele começo de tarde pardo e molesto, de que pouco significavam para ele as pessoas, quando não as tinha pela frente a agirem, visíveis, palpáveis, quando delas não dependiam os seus próprios gestos e a tranquilidade do seu amanhã. O sofrimento alheio incomodava-o quando o presenciava, apenas quando o presenciava, por uma questão de comodismo. Solteirão, só e independente, com belas perspectivas de futuro, que por nada deste mundo queria arriscar, sentia-se tão livre do peso dos outros, tão "só ele", que até se imaginava capaz de carregar sem esforço na campainha do Mandarim.

Mas então, porque voltava agora, obsidiante, a apoquentá-lo a memória daquele mendigo cego? Esse sim, que já não existia e estava mais vivo, naquele momento, dentro dele, do que o dr. Jaime. Era o seu assunto tabu e o único, no entanto, em que lhe apetecia falar.

― Isso a você faz-lhe tanta diferença como deitar um copo de água aí no Guadiana ― dizia o dr. Gouveia, com fartos e efusivos acenos de cabeça.

O dr. Jaime apenas sorria e esboçava um protesto formal, incapaz de deter a corrente. E o outro insistia:

― Se eu um dia precisar de dinheiro, amigo, sei onde o encontrar!

― Chegue aqui um instante, ó Couceiro ― chamou o dr. Antunes, que acabava de se levantar da mesa, como picado por uma vespa, e fora encostar o crânio despenado e luminescente aos vidros embaciados de uma das janelas. Você está a ouvi-los? O dinheiro, só o dinheiro! A inteligência aqui é zero. Vou-lhe dar a fórmula para você, que não tem a desdita de aqui viver, compreender melhor este curral, que isto nem povo é; é uma soma de récuas de porcos, mais os porqueiros e os donos dos porcos. E entre uns e outros, que venha o Diabo e escolha.

Couceiro fitou nele uns olhos atentos e conformados. A verborreia escolhida do dr. Antunes dava-lhe habitualmente uma sensação, senão de pânico, pelo menos de constrangimento. E o pior é que ele, Couceiro, parecia-se desde sempre com toda a gente e tinha, mau grado a força do seu egoísmo, pouco transparente, um viso diligenciador e cordato que ainda estimulava a facúndia daquele tribuno em potência, pondo-o soberanamente à vontade. Era, ainda por cima, um novato na terra, um iniciando.

― Olhe, meu caro colega ― disse Estêvão Antunes, pausado, antegozando o efeito das suas palavras lapidares ―, quando aqui toma posse um juiz, alguns lavradores vão assistir à cerimónia. São os que têm menos de dez mil contos. Aqueles que pesam de dez a vinte mil, esses tiram-lhe o chapéu na rua, quando muito. Agora daí para cima, os senhores magnates ignoram o juiz. Está você a ver a qualidade dos bichos?!

Couceiro, instintivamente, numa brusca associação de ideias, por antinomia, torceu a cabeça sobre o ombro, para a vidraça inundada, onde a chuva seguia tamborilando, já miudinha, e espreitou, na praça quase vazia, os mais persistentes dos deserdados da outra raça local. Avistavam-se ainda muitos à boca das locandas e das mercearias, pingando água, mas sempre lerdos, calmos, como que transformados, por algum mau olhado, em bonecos de terracota, de uma deslumbrante e fatídica segurança.

― Deixe que depressa estia e os que aí faltam não se farão rogados: cai aí outra vez o Carmo e a Trindade. Isto não é povo que preste. Agora não terão trabalho, está certo; mas, pode crer, disto mesmo é que eles gostam, de olhar para as moscas, de roçarem as costas pelas paredes. Mesmo, quando trabalham, não rendem nada que valha: são como os mouros, só lhes falta, à tardinha, andarem por aí a passear os canários e a fazê-los cantar...

Couceiro não protestou. Repugnava ao seu egoísmo uma discussão ociosa e, de mais a mais, deslocada, na sua situação actual, ainda movediça. Assentiu assim, mornamente, às razões pesporrentes do colega, embora aquela gente arisca e grave lá de baixo lhe infundisse bem distintos sentimentos, sobretudo agora: antes uma espécie de afligimento distante e como que sagrado, composto talvez de temor e de consideração, consideração ou mal-estar a que não seria de todo estranha a sua vaga enxaqueca de remorso... ou lá o que era.

― E que remédio tem isto, ó doutor? ― perguntou, pela necessidade de se fazer também ouvir.

― Que remédio? ― hesitou o luminar Estêvão Antunes que, ainda estudante, desfavorecido embora nos exames por incompreensão dos mestres (os seus créditos não deixava ele por mãos alheias), já tinha a língua tão pronta e confiante como a dos "ursos" da aula, um dos quais agora era antigo ministro, enquanto o outro, liberal dos quatro costados, que dera as suas cabeçadas políticas, acabara por emigrar para o Brasil. ― Que remédio, pergunta-me você? O Cristianismo, homem, o Cristianismo! Mais humanidade, de uns e de outros, mais fé, mais apego aos valores espirituais. A caridade enobrece e o sofrimento também. E a Deus o que é de Deus, a César o que é de César! Mas não me venham cá falar de colectivizações, de granjas, de trapalhadas do arco-da-velha. Não! a canalhocracia, isso nunca. Olhe você para aquelas caras patibulares. Você quer ver aqueles tipos a mandarem em si? Quer?

Couceiro disse que não com a fronte densamente encaracolada e já grisalha. Não era por Deus nem pelo Homem: era por si próprio. Sorriu, céptico e transigente, e meteu-se em copas.

As senhoras, enfastiadas já, a mais não poder, da diarreia vocal e das gracetas, por vezes inconvenientes, do tonitruante dr. Gouveia, cujas cascalhadas estremeciam a baixela da sala, voltavam-se, num silencioso apelo, para o par de doutores, ainda em conciliábulo no desvão da janela alta. Era a Marquinhas, a mulher do Antunes, a dr.ª Marquinhas, como lhe chamavam as comadres mesureiras (não chegara a formar-se, mas ainda leccionava num lar de religiosas), quem dava mostras mais agitadas de saturação, pois o caramonho evangélico de Dona Ana, a plácida e enxundiosa consorte do senhor Figueiredo, tão "paz de alma" como o marido, jamais se descompunha quando era de bom-tom e seu dever conjugal ser paciente e aprobativa, mesmo que não lograsse falar cinco minutinhos de problemas de criadas nem do cinema, a sua única distracção, aos sábados. Ninguém aguentava, de bom grado, por muito tempo, a exuberância invasora do dr. Gouveia. Mas, além de um volver de olhos implorativo ao dr. Antunes, um rapaz tão delicado, nenhum enfado a Dona Ana se permitia deixar adivinhar. A Marquinhas, magra e esverdeada, matizada de nódoas roxas e de livores recalcados, essa é que já se agitava, frenética, na cadeira, e olhava, de esconso, o velho clínico jucundo com uma quase declarada aversão, pudica e desdenhosa.

Teve mesmo o Antunes de abrir-lhe os olhos e fazer-lhe até um sinal intimativo, para a aquietar. Não, que o dr. Gouveia representava dez mil dele. E fazia gala de se dar com os magistrados, ele que ― bem alto o apregoava ― não precisava de ninguém para coisíssima nenhuma.

Iam a retirar-se os dois homens de leis de ao pé da janela, quando lá em baixo saiu o Teté, com uma saca pela cabeça, debaixo de chuva, a espinotear doidamente pelo meio da praça, chocalhando duas latas de graxa uma na outra, numa absurda euforia de truão. Era um espectáculo ainda trivial, se bem que prenunciador, dir-se-ia, de um conluio, de alguma estranha palhaçada. Trivial, ainda, no entanto. Sim, trivial. Mas, ao mesmo tempo, surgiram, como quem não quer a coisa, de aqui, de além, no largo cinzento e expectante, fustigado pela nortada, soldados da Guarda, aos pares, com suas vigilantes carabinas. O dr. Couceiro sentiu então um calafrio súbito, irracional, incontível, descer-lhe pela espinha, gelá-lo: aquilo era com ele, ia jurar!

Ao lusco-fusco, após uma tarde longa de borrasca, com o sol, despicador, a jogar aos esconderelos, volta não volta aparecendo em meio da chuva grossa, tornou a borriçar seguido, por mais de uma hora, a lama pastosa a empoçar nas ruelas e nos campos, que era mesmo um dó de alma, ficava tudo dado cabo ― como futurava gravemente o tio Romualdo: "Vem esta água toda por junto e agora até Maio viste-la!"

― Na, isto não tem dúvida ― contrapôs o Manuel Calafate, com o hábito persistente de esperança que lhe ficara de seus anos melhores, esperança nos astros e nas leivas que nada já lhe aproveitava, a ele que tudo perdera, mas que era assim mesmo, uma oração sem destino, uma força fora dele que o arrebatava ante a fecundidade da natureza, e, por instantes, lhe dissolvia em luz tristezas e ressentimentos. Seguro de si, a rebater vãos receios, prosseguiu, sondando o firmamento ruvinhoso com os direitos olhos azuis: "As nuvens maiores já passaram para o lado de lá, agora é só o rabozinho da trovoada. Daqui a nada escampa." Manuel Calafate fora toda a vida seareiro, num "povo" aventuroso e honrado ― dos últimos assim ― onde ainda toda a gente semeava. Nos livres e espinhosos barrocais de Santo Aleixo da Restauração. Havia lá coisa mais linda do que semear, mesmo em solo madrasto e com céus duvidosos, semear, e esperar, e colher o pão que a terra dava!... Mas os tempos haviam-se posto ruins, os lavradores já não cediam as courelas e os ferragiais ao quarto nem a meias. E os seareiros, então, vá de se endividarem, e sem poderem pagar as rendas, sofrendo como danados, e mais um empréstimo ao lavrador, mais um empréstimo à Caixa Agrícola... Assim, de tombo em tombo, mas lutando sempre, o Manuel Calafate se fora abaixo; raso o deixara a vida como o chão, tanto que estivera a termo de se enforcar, mas depois mudou-se-lhe a ideia: vendeu a casa que já herdara dos pais, quatro paredes velhas de adobe, uma ridicularia, mas de estimação, e meteu-se a ganhão, alugando os braços, que outro governo tinha ele?, para pagar, ao menos, as dívidas. Todos ali lhe tinham respeito: nem o Tété se atrevia a dar de ombros às suas razões. Chovesse que não chovesse, mano Manuel Calafate sabia como ninguém das leiras da terra e do céu.

Novamente, conforme os aguaceiros iam minguando, começavam a reunir-se no largo, à boa vida, e de bem má catadura, os coitados, os sem-trabalho, os maltrapilhos, os pedintões; e vinham com eles acompadrar-se homens válidos e enxutos de vergonha, operários, camponeses, pastores, os mesmos de onde agora, uns de ganga, outros de bombazina, ou de saragoça e com jaquetas listradas, aldeãs, patriarcais, gente em barda, amaltesada, excitada. Uma atmosfera de segredo, de conjura, amordaçava as vozes iradas, mas falavam alto os olhos cúmplices, acirrados pelas espingardas da Guarda. Ali, ali mesmo, debaixo daqueles balcões amaldiçoados do hotel, ali não havia nada a fazer. Ali não. E, no entanto, lá para meio da tarde, fora por uma unha negra que eles não haviam arrebentado aquelas janelas à pedrada. Já tinham mesmo a boca cheia de gritos. E houveram de os engolir. Até parecia que a Guarda lhes adivinhara os propósitos. Mas o Teté agora tivera uma ideia. Uma ideia bem diferente! E essa ideia de brasa, de desforra, correra, entrara, como o vento bravo, nas casas em sossego, nas vendas aguardentadas, e, mais viva do que a chuva, no largo enxaboucado, prurira, incendiara, os bons e os maus, mansos e assanhadiços, diligentes e calões, mancebos imberbes e pais de família, saídos dos seus temores, servos pacíficos que, a sós, os mais dos dias, antes se amagariam e se deixariam malhar, por mor de filhos e cadilhos. Mas a febre subira de repente. E estavam arrimados uns aos outros, todos, naquela hora, irmanados numa contagiosa cólera surda e crescente. Vinte, trinta homens ao corrente da coisa, não convinha que fossem além dessa conta. Minuto a minuto, "Arre! cuidam os gajos que a gente somos de merda!", os nervos crispavam-se, as veias doíam, a chusma destemperada não podia com a espera. Quem diria que o António Ouriço, depois de morto ― excogitava o tio Romualdo ―, havia de arregimentar toda aquela fúria!

Quando escurejasse a noite, assim que ela abafasse a vila, de vez ― então seria tempo. Até lá era mister aguardar com cautela, com muita cautela.

Rescendiam os restos da água do céu nos vasos, às dezenas, alinhados nas brancas paredes silentes das ruas afidalgadas, cactos, malvas, diminutivos da planície, risos verdes transplantados para aquela lisura de oferenda, quase sevilhana, das fachadas de cal puríssima, e cheiravam bem, tão bem, os quinteiros escondidos, os pátios, onde os arreios, amontoados, as cangas dos muares, vizinhavam com as tangerineiras, ramalhudas, e até as escadas estreitas, carunchosas, que alguma porta indiscreta amostrava, no bairro seminobre, agradeciam, com seus gemidos de madeira antiga, a visita demorada da chuva. Mas ali, na praça da revolta e das fomes remordidas, ali o Teté, desossado, porco de graxa, ele o mais avernoso, o mais rancoroso, o aliado da última hora, com a barriga cheia de insultos e de óbolos, ia pulando, quase contente, só ele contente, de grupo em grupo, de um a outro, e escancarava a boca roxa e grulhava:

― Hoje é que é, carago!, ou hoje ou nunca: se a gente se fica, cagam-nos em cima.

Transcorreu mais de uma hora na praça velha, cada minuto a arder dentro daqueles homens, numa combustão de febre lenta e sombria. Uma última vez, absurdo, lampejou furtivamente aquele sol de borrasca, espada curva e escamosa a entrar na bainha da noite, deitada sobre o horizonte, sobre uns repuxos cor de cereja espanhola, as espigas sangrentas do fim do dia; silenciou enfim o recorte ameado da torre do relógio; o branco do vilarejo, as nuvens-castelas, ao alto, tudo se confundiu, se amodorrou; e outra vez ainda a chuva tenaz volveu à terra como um rogo mansamente desesperado, como uma cantilena de serena loucura.

Vieram rodando e chiando os derradeiros carros, já disformes, pelo meio do largo, os almocreves de pé, tesos, ferrados às rédeas, sacas tristes, pela cabeça e pelas costas, a defenderem-nos do aguaceiro. Um deles praguejou, junto da venda do Tostado, onde o Teté, palheirão, a disfarçar, o increpou pela moleza das bestas.

― Não têm zelo nenhum ― concordou o homem, apeando-se, ainda fora do clarão da taberna. ― Só quando o carro os empurra é que lá mexem um bocadinho mais as patas.

Acercou-se e então é que o reconheceram. Olha quem ele havia de ser? O mano João Reboxo, o próprio cunhado do António Ouriço, única criatura ainda viva daquela família de má sina. Havia quem suspeitasse que também ele não regulava lá muito bem. Vinha a modos que a varejar. Fome ou a frieza da noitinha. Um rosto mongólico, de olhos miúdos e oblíquos, a barba crescida mas rala, doce o sorriso, a fala esquisitamente branda, branda de mais, tão branda que, causando lástima, incomodava, quase metia medo. Trazia novas; andara a inteirar-se de como as coisas corriam e já sabia que pelo lado do doutor tudo estava arrumado: fizera uma choradeira e levara-os à certa: punham uma pedra em cima do caso, e pronto! Que para o Ouriço ― dizia-se ― até fora uma graça de Deus abreviarem-lhe os dias. E mais isto, mais aquilo: que a Guarda já estava escamada com aquela ira do povo, que bem se conhecia. "Ele está para acontecer alguma, digo-vos eu!"

Então, de comum acordo, puseram-no ao corrente. Não era ele o cunhado do morto, o único parente?! Tinha o direito de saber o que eles haviam resolvido.

E com eles, assim, foi também o João Reboxo, pelas veredas da noite, desviados uns dos outros, atascando-se nos charcos, cosidos com a correnteza dos chaparros, pelo meio do montado espigado de fragas pardas e fantásticas que nem abantesmas, sob um céu baixo e velado, sempre gotejante. Agora, subitamente, cruzado de milhanos, como se ainda, ali perto do sítio da barbaridade, o cadáver do Ouriço continuasse, cego, a censurar os astros.

O Teté, acaudilhando aquela súcia quase quimérica, entre o negror dos azinhais e das searas, avoejava à frente, meio fantoche meio saltão, prantando as botas onde calhasse, sobre os tenros pés das favas e das ervilhas, fossem elas de quem fossem, doesse a quem doesse. O Manuel Calafate, embora na sua campanha, é que não podia, cá de trás, sem um alvoroto de horror nos penetrais do coração, vê-lo fazer tal desnoca, pateando tudo. Os homens seriam maus e inimigos uns dos outros, mas a terra era para ele sagrada. Ademais, não havia só os ricos e os pobres. Ajuntara-se com eles, ajuntara-se com os seus, com os da sua igualha, pois então, que a união fazia a força e as escândulas eram muitas (e onde lhe competia a ele estar?), mas a coisa tinha mais que se lhe dissesse, e ele sempre enxergava dois palmos adiante do nariz; e a verdade, verdade bem no entendia, ainda que não lhe cumprisse, sobretudo naquela altura, pensar nisso ― era que havia duas qualidades de homens, ricos ou desgraçados, e que não se reconheciam: os que gostavam, por gostar, das outras criaturas, e até dos bichos, quando os bichos sofriam, e os que só queriam importância e a barriga cheia, e sempre mais importância, e que tudo resolviam com falsura, ou à má cara, e que não tinham dó dos mais nem da terra mãe, da terra mimosa, prenhe de grãos ou de vagens, pela qual os seus olhos rezavam, sem ele querer, como se fosse sua. Mesmo num momento daqueles, lamentava com o tio Romualdo os trigos novos mal medrados: "Nunca chegaram a tomar raízes, como é devido!"

Voltou-se para o ancião, ajudando-o a pular um valado e, já do outro lado, inquiriu, com estranheza:

― Ó homem, porque é que vossemecê vem com a gente, se isto está-se mesmo a ver que não é acção que a vossemecê lhe quadre?

Tio Romualdo apoiou-se nele, aproximando-lhe da face o rosto encarquilhado e o hálito de velho:

― Pois não será, não, também a mim me parece... Mas, que quer vossemecê?, antes que não tenham razão nem uns nem outros, este é que é o lugar que o destino esta noite me marcou. Sinto esta escuridão cá dentro...

E batia no peito com a mão pedragosa.

Veio, de repente, mais água. Ainda mais. E com uns ares trevosos, que as faíscas espadaçavam, clareando de chofre todos aqueles campos, inçados de monstros, desde a volta do céu à linha limite dos cabeços, lá longe...

― Arruma-te aí com essa oliveira, que dá bom cómodo ― bradou o Cecílio Narro para o Teté, que seguia ainda na dianteira, entanto ele próprio tratava de se abrigar sob a copa de outra árvore centenária, onde o Amândio veio juntar-se-lhe, às carreiras.

Cravou-se então, avante deles uns cem metros, se tanto, uma faísca, lagarto súbito de luz, numa moita recortada de carrasqueiras, que a tragaram. E, por entre a arramada, pasma, submissiva, daquela chã desconforme que a tempestade vergastava, apareceram num tronco velho de oliveira dois olhos grandes, redondos, quais os de uma pessoa. E de lá vinham uns miados como de gato, coisa mesmo mal-assombrada.

― Ai, Mãe Santíssima! ― gritou o João Reboxo, a tremelar, num susto irreprimível.

― Homem, então o que temos?! ― fanfou o Amândio, mais arrojadiço. ― Então vossemecê não vê que é um mocho? Ora já viram: fazer um escarapanto destes por semelhante coisa!...

O Cecílio Narro pôs-se a rir, de gosto, sorvendo a chuva, o pescoço encordoado, o estômago empinado, e enxugando-se violentamente a um grande lenço de riscado, todo sujo.

― Vamos lá, companheiros ― decidiu ele por fim, ao cabo de uma áspera trégua, assim como a primeira aberta se esboçou sobre o olival. ― Não é tarde nem cedo, são mesmo boas horas!

O Teté prontamente, assobiou, a reunir a matilha, e logo acudiram dois moços tuchados, os mais forçudos da companhia, a erguerem detrás de um tufo de estevas gadelhudas, onde os haviam largado, os troncos danados que, por aqueles tremedais, eles vinham carregando, a ocultas da outra gente, desde as portas da vila.

Estavam já a chegar à estrada nova. Ali, onde o cego morrera, ali mesmo é que havia de ser. Ajoujados ao peso dos madeiros, os vultos corpulentos dos dois voluntários galgaram o ladeiro postremo, já com os bofes na boca, e enfim, rodeando-os, a meio da estrada ensaibrada, o grupo tenebroso parou.

Leopoldo Couceiro estorcia-se, com uma insónia mofenta, no leito de ferros do hotel, que, depois de tantas voltas e com o colchão já descaído, antes se lhe figurava um potro de tortura que uma cama de gente. Culpa não a tinha ele, não, de aquele mendigo se lhe ter atravessado à frente do carro. Como um minuto de azar, caramba, podia assim decidir do destino de duas pessoas! E não teria ele mesmo culpa nenhuma? Bem sabia a velocidade a que ia... Mas tudo isso passara. O Figueiredo, ao menos, portara-se na linha!

"Se o safardana daquele jornalista amaricado não tem escrito aquela porcaria na folheca regional!..." Ora! Do mal o menos: tudo se compusera pelo melhor!...

O cego, porém, não lhe saía da lembrança.

Esforçava-se por adormecer, enterrava a cabeça no travesseiro estopentudo, já nojoso de brilhantina; fechava os olhos com força de desespero, mas um largo écran vermelho, agressivamente nu e brilhante, e doloroso, enchia-lhe toda a visão interior. E a imagem obsessiva, repelida, voltava, desenhava-se, ganhava relevo, pouco a pouco, naquele quadro rubescente: o rosto hirto, inquietante, nem sequer reprovativo, do mendigo morto, tal como o vira, pela primeira vez, caído, à beira da estrada.

"Vamos pensar antes nas satisfações de amanhã", intimava-se o dr. Couceiro, guiando adrede o pensamento para a reunião das "forças vivas" do concelho, em que tomaria parte, no dia seguinte, e após a qual ― ufa! se rasparia para Beja, de regresso aos seus hábitos tranquilos.

Não era sem tempo! Deixaria aquilo tudo para trás, de vez.

Mas nem assim. O olhar quieto do morto, quieto e, no entanto, sibilino, concertadamente claro e severo, ressurgia, e a moedura recomeçava.

Como era possível que só agora se recordasse, precisamente agora, com tanta nitidez, do bordão nodoso que resvalara da mão do moribundo para o meio daquela moita de sarças ou de raizedos? É claro que amanhã o absurdo pesadelo estaria enfim sepulto, definitivamente. Ou não? Seria que a intimidade do matador e da vítima se prolongava, se prolongaria, para além do encerramento do caso e das sentenças baldadas dos homens e das leis? Iria ele conviver por muito tempo com o seu morto? Teria de aguardar acaso (quantas noites ainda?) que o outro se cansasse ou que o tempo lhe dissolvesse a envolvente presença incorpórea e cruel?...

Via a estrada deserta, o Porsche, cromado e afiado, seu pégaso real no vento rápido, e ele ao volante, tão descuidoso; e depois aquela forma brusca e decisiva, já tarde de mais, um abujão da noite, o mísero, adiante das rodas assassinas. E não hesitara um segundo. Não, nem uma fracção de segundo. Uma guinada qualquer naquele piso de saibro e areia ensopada teria lançado o carro fora do leito da estrada: poria em risco a vida dele, Couceiro, bem mais importante que a de um estranho, de uma vaga forma desconhecida. E sentia o choque dos ferros da frente com a carne seca do velho. E agora, por mais que fizesse e lutasse e se escondesse de si próprio, a verdade é que se desprezava. Queria fugir ao próprio desprezo e não podia. Mas no dia seguinte estaria firme, havia de estar firme, entre os seus pares, à despedida, e ninguém lhe havia de ler no rosto aquela angústia póstuma. Não. Mas o sítio do homem morto, novamente deserto até da própria morte, não lhe saía da ideia.

E contudo, nesse mesmo momento, enquanto o dr. Couceiro tresvariava na sua cama do hotel, entregue ao luxo azedo de estrancilhar, a sós consigo, as franças da consciência, ali, exactamente ali, no local da morte, que já não estava deserto, junto daquelas mesmas sarças em que o cajado do António Ouriço se embebera, eles, os campaniços chambões, mal-enjorcados, clandestinos, atravessavam a toda a largura da estrada escura e resvaladiça, que a noite cerrada enigmava, dois grossos e pustulosos troncos de árvores decepadas, sentinelas de outras mortes suspensas.

― Ó almas do diabo, pensem bem o que fazem ― ralhou ainda, num reviramento, o tio Romualdo, espectral, os braços magérrimos de espantalho a saírem-lhe do pelico alvação, erguidos num alarme. ― Não há direito: assim é que se tira a vida a uma criatura, que até pode ser gente nossa, e sem mais quês nem para quês.

― Qual história! Cale-se daí, homem! Essa cantiga já é velha ― replicou o Cecílio Narro. ― Fosse a gente a dar-lhe ouvidos e ninguém se mexia.

― O que eu não posso é ver dar cabo de um inocente!

― Vossemecê a dar-lhe e a burra a correr. Um inocente! E depois? Se nos enganamos? Paga o justo pelo pecador. É a vida. Não fui eu que a fiz assim.

― Eu cá ― interveio o Manuel Calafate, a morder o bigode, os braços poderosos cruzados no peito ― vim com vocês até aqui e já estou repeso. E daí não sei... Mas senpre pergunto: que culpa têm os outros afinal do que aquele fez, sejam ricos ou não?

― Os ricos são todos iguais! Nunca têm dó da gente. Porque é que a gente havia de ter dó deles? ― guinchou o Teté, pulando, num exaspero nervoso, trémulo de álcool e de furor, com as mãos enclavinhadas. ― E deixemo-nos de conversas. Assim mesmo é que tem de ser!

― Escute lá, compadre Manuel ― acudiu ainda o Cecílio Narro, a reforçar as razões do Teté ―, vossemecê não vê que não temos outra maneira de responder. Que pode a gente contra a força? Não viu as espingardas da Guarda? Se não for deste jeito, olhe, ponto em boca e rabinho entre as pernas. Vossemecê quer-lhes dar améns?

Voltou à carga o tio Romualdo:

― Seja como for, é uma injustiça. Não digam depois que não os avisei: é uma descaridade. Nós não temos que responder ao mal com o mal.

Foi então que o Amândio, sempre mazombo, inesperadamente se saiu do seu mutismo sardento e, com a veemência do longo rancor acalcado, varreu da sestra assembleia as hesitações do último instante:

― Então não: mata-se assim um homem e eles ficam-se todos a rir? E a gente amarga-se? (esbracejava, doidamente, nem parecia o mesmo homem). Não, desta vez a moda é outra. O primeiro que vier há-de quinar!

Um burburinho de aclamações, de concordâncias, levedou no ranchel dos vingadores. João Reboxo, lívido, benzeu-se, os olhos arregalados, um suor frio nas pernas. Mas era o cunhado do morto. Vivia o momento mais importante da sua vida. E fez coro com os outros.

O tio Romualdo apartou-se do grupo e, sozinho, vergado, meteu-se pelos olivedos negruscos, e presto se sumiu, que a repulsa do que estava para vir lhe punha asas nos velhos pés.

Não tardaram os restantes a desbandar, em vários magotes, levando cada um consigo um fio da torva meada. Mas ficava-lhes ali o sentido. No sítio do cego atropelado. Já nem sentiam a moinha. Rompiam-lhes chamas no ventre. Caminhavam como sobre navalhas abertas, todas as navalhas do pavor esparso agora na noite.

E quando, ao longe, soou um "klaxon" incauto, num meandro inacessível da estrada, não faltou, entre os mais ardidos, quem quisesse retroceder e correr, voar, a suster ainda o destino armado por eles. Mas era tarde.

"É bem feito, é justo" ― disse brutalmente Cecílio Narro. Mas não encontrou eco àquelas palavras de estímulo nem dentro dele próprio. Imóvel, de orelha fita, atento aos ruídos distantes do motor e das rodas do automóvel sereno, daquele anónimo automóvel condenado, cuspia a desesperação imprevista do fracasso para a enxurrada nocturna fervendo-lhe aos pés num barranco de agouro, diante do qual os passos o haviam levado. Os olhos de Manuel Calafate ardiam, como estrelas de remorso; os de Amândio baixavam-se, enjoosos, erradiços, para o fundo do córrego; o Teté, sardónico, tentava acender um cigarro, mas os fósforos, húmidos, apagavam-se.

E sobre todos eles desceu o odioso do sangue desconhecido, sempre o sangue, ainda mais sangue, naquele sítio da estrada. E a certeza lacerante de que, afinal, aquilo não adiantava...

FIM

 

ϟ


Sobre a novela "Margem Esquerda"

Oscar Lopes

A composição de Margem Esquerda conduz, alternativamente, em dois meios sociais diferentes de uma vila alentejana, as consequências e incidências do atropelamento de um mendigo por um alto funcionário de arribação. A câmara óptica acompanha, primeiro, um pobre cego pela estrada fora, quase a chegar ao povoado; depois do clarão de alarme da morte, focam-se as reacções dos dois viajantes do carro, principalmente as do responsável; estamos, pouco adiante, em plena vila, e então já operam, nitidamente, duas câmaras cujos planos se alternam ou combinam, uma na sala da pensão para proprietários e doutores, indígenas ou não, e outra no largo dos ganhões e outros populares. O pólo da comédia burguesa situa-se na corrente de consciência, captada aliás na terceira pessoa, do homicida involuntário, o Dr. Couceiro. Vemo-lo, ao começo, de um ponto de vista externo, a auscultar o coração do mendigo que atropelara, ajoelhado na estrada lamacenta, sobre um jornal dobrado que, ainda previdente, sacara do bolso do impermeável. Sentimo-lo depois na sua intimidade, como uma voz em off, varado de ansiedade, tentando aliciar como cúmplice o malicioso companheiro de viagem. Voltamos à focagem exterior (o seu colete de camurça, a sua jucundidade abdominal), mas na página seguinte postamo-nos de novo dentro daquela sua angústia que, ao longo da estrada nocturna, suscitara os horrores eternos da noite no renque das figueiras laterais. Doravante, funciona definitivamente como núcleo subjectivo, no círculo das altas personalidades locais, quer intempestivamente apoquentado, a meio de várias formalidades e maçadas, pela necessidade de comer a horas; quer reiniciando os seus devaneios de solteirão pacato, mortinho por ensejos propícios às ousadias seguras de um amor ancilar; quer desejoso de deixar de ser o alvo em que se polariza o ódio confuso dos populares, ele tão cordato, tão parecido desde sempre a toda a gente; quer, por fim, a estorcer-se numa insónia de preocupações e remorsos.
As mais vivas impressões que nos ficam devem-se à arte de seleccionar, alternar, engrenar as imagens em campo e contracampo das duas câmaras: os doutores ― lavradores da pensão lendo, através do varandim, os movimentos dos grupos no largo, e vice-versa; as ambiguidades na atitude de Teté, o engraxador, cujo servilismo raia pelos exageros da farsa trocista. Observem-se certos pormenores e comparsas deste drama travado entre dois estratos sociais, que um expressionismo talvez inconsciente mas bem logrado situa em dois níveis horizontais diferentes: o abeberar dos machos e burros; os presos nas grades da cadeia domesticamente voltada para a praça; mulheres, fechadas nos lenços, espiando-se no passeio da desconfiança ou romanceando e saboreando entre si a grande nova, com as panturrilhas crestadas na braseira. Estas coisas ficam nos olhos com a nitidez quase alucinatória das minúcias marginais a um estado de tensão. Mas o que mormente não nos larga os sentidos são as vicissitudes meteorológicas; elas resumem, desde a lama em torno do agonizante na estrada, através dos aguaceiros intermitentes do dia seguinte, e até ao relâmpago (lagarto súbito de luz ― bela imagem) iluminando a torva conjura final dos pobres contra os automobilistas ― essas vicissitudes meteorológicas resumem o ritmo geral da acção dupla, soldam de um modo natural e persuasivo as mutações dos planos, e entranham o sabor único da terra e do dia na totalidade, mais analítica, do conflito social.
A lição negativa do desfecho, a moralidade a contrário sensu da bronca atitude de vingança colectiva ― isso é que fica a oprimir-nos como estigma de um pessimismo histórico sem perspectiva. A sua mais amarga fórmula encontra-a, algo literalizada, o Tio Romualdo: antes que não tenham razão nem uns nem outros, este é que é o lugar que o destino esta noite me marcou. Voltamos assim à ética camusiana do mito de Sísifo.  
ÓSCAR LOPES

 

fotografia de Urbano Tavares Rodrigues

Margem Esquerda
(novela)
Urbano Tavares Rodrigues, 1959
in  AS AVES DA MADRUGADA  [novelas]
5.ª edição ― com um estudo de Óscar Lopes
Editor: Francisco Lyon de Castro
Publicações Europa-América
 


Δ

11.Nov.2012
Publicado por MJA