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 Sobre a Deficiência Visual


Lutando contra as Trevas:
Minha Professora, Anne Sullivan Macy

Helen Keller

Anne Sullivan lê para Helen Keller
Anne Sullivan lê para Helen Keller


I

Numa tarde de novembro de 1946, eu e Polly Thomson nos encontramos na Acrópole, em frente ao hotel onde estávamos passando alguns dias. Tínhamos vindo de Nápoles para Atenas, num avião militar americano, com o propósito de investigar as condições dos cegos atingidos pela guerra, no Sul da Grécia. Já havíamos estado na Inglaterra, na França e na Itália, visitando os cegos de guerra e estávamos acabrunhadas e exaustas, mas não podíamos suportar a idéia de partir sem ver o Partenon. Escapulimos, assim, do hotel, sem que ninguém notasse.

Era uma subida longa e árdua, em que pisávamos em rústicos e em pedras que quase se desmoronavam sob os nossos pés, mas, antes de iniciarmos a ascensão, procuramos entre as ruínas uma pilastra caída, que eu apalpei de ponta a ponta, a fim de poder imaginar, até certo ponto, como as colunas se erguiam para o firmamento; e quando, finalmente chegamos ao cimo, o esplendor tangível do Partenon se revelou para mim. A suavidade de suas colunas, a qual o tempo e os elementos não puderam corromper, eram para mim símbolos de forças celestiais e terrenas que ainda não foram devidamente compreendidas. Naquela altura, onde se descortina Atenas, fiquei indizivelmente emocionada ao tocar os sublimes triunfos dos arquitetos e engenheiros gregos e senti a serena atmosfera onde Palas Atena se locomovera e onde os homens eram visitados pelos deuses, que os recompensavam por seus feitos heróicos ou os castigavam por seus crimes. A professora, como eu sempre chamava Anne Sullivan Macy, estava comigo, embora de forma invisível e os mitos gregos e os poemas, que ela me havia repetido, quando eu era criança, assumiram uma palpitante realidade. As brincadeiras em que ela e eu fingíamos de gregos e bárbaros, vieram-me à memória com todo o seu vigor. A minha imaginação se inflamou novamente pelo poder de Zeus, com os seus trovões, e pelo de Hermes calçado com as suas mágicas sandálias aladas. Com os olhos na fantasia, vi Poseidon agitando o tridente sobre o mar e Perséfone ser arrastada aos gritos, por Plutão, para dentro do seu sombrio reino. As histórias que a professora me contara sobre o sítio e a destruição de Tróia passaram-me pela memória como se fossem o prenúncio de alguma calamidade insuspeitada.

Eu e Polly reconstituímos mentalmente a antiga Acrópole - a colina que Demóstenes subia diariamente correndo, com um seixo na boca, a fim de corrigir a gagueira; o mercado, onde os homens de Atenas ouviam os conselhos de Péricles e para onde mensageiros de pés agilíssimos haviam trazido, de Maratona, a notícia da vitória. Ali Eurípides, destemidamente erguera a voz cheia de compaixão em defesa da raça humana e condenara a escravatura. Ali Sócrates ensinara à juventude ateniense e Platão transmitira à posteridade uma filosofia que até hoje aviva os olhos e os ouvidos daqueles que querem ver e ouvir.

A ascensão da Acrópole simbolizava, para mim, as dificuldades que eu e a professora vencêramos juntas e fortaleceu-me o espírito para galgar uma Acrópole figurada, em meu trabalho em prol dos sem-visão. À medida que íamos de acampamento em acampamento de cegos desesperançados, uma montanha de sofrimentos se abatia sobre mim. Sabia que trazê-los de volta a uma existência independente e útil, requeria esforços constantes. Sentia a singularidade da tragédia que me defrontava, mas a recordação da perseverança de minha professora animava-me a prosseguir.

Há apenas cerca de 150 anos que os cegos da Europa foram arrancados do desespero. Naturalmente, eles prezavam muito as poucas vantagens que haviam obtido no árduo regresso a uma vida humana - escolas, professores dedicados, livros em Braille lentamente adquiridos com pequenos recursos. E, então, com destruidora rapidez, a II Guerra Mundial arrebatou-lhes essas vantagens. Inúmeros cegos perderam o lar e a família. As suas escolas e oficinas, obtidas a duras penas, foram destruídas e pilhadas pelos nazistas. Os seus aparelhos Braille foram fundidos para fazer munição, a sua literatura foi queimada como combustível e as agências, que arranjavam empregos para os cegos adultos capazes, deixaram de funcionar. Sofrimento e provações havia por toda parte, mas, em sua complicada insegurança, os cegos precisavam mais do que os outros de serem educados, porque só por meio da instrução especializada podiam aprender a manter-se a si próprios. Compreendi que, embora o povo americano fosse esplendidamente generoso para com os infelizes do mundo todo, mesmo para ele seria uma tarefa estarrecedora reparar as escolas danificadas da Europa, construir novas, fornecer dispendiosas prensas de Braille, material educativo e equipamento para os cegos, civis e militares, para que Pudessem se reabilitar. Esses eram os problemas que me martelavam a cabeça, quando nos detivemos em Roma a fim de esperar o avião que nos levaria de volta à Inglaterra. Estávamos no Excelsior Hotel, quando recebemos um telegrama, comunicando que nossa casa de Arcan Ridge, em Conecticut, havia sido terrivelmente danificada por um incêndio. era toda de madeira. Polly e eu temíamos o pior e caímos aturdidas, uma nos braços da outra. Parecia incrível que tivéssemos perdido tudo num só instante: a casa onde nós e o nosso fiel e prestativo Herbert esperávamos passar o resto de nossos dias; nossos insubstituíveis tesouros do Japão, lembranças da afeição de amigos, a minha biblioteca com todos os seus livros e papéis, as cartas que eu tanto prezava, especialmente as de minha mãe, de minha professora e de pessoas de todo o mundo. Com angústia, pensei no manuscrito de Minha Professora, três quartas partes do qual se achavam terminadas e onde eu havia trabalhado, nas horas vagas, durante vinte anos. Disse a Polly que a perda daquele manuscrito me era como uma mutilação. No momento, em que falei, irrompeu em mim uma chama, não para destruir e enegrecer o meu espírito e sim para iluminá-lo e dar-lhe uma finalidade. Espicaçada pelo pensamento das criancinhas cegas que eram também mutiladas, acrescentei: "Serei estóica. Esta perda não será como a separação de minha professora que, por assim dizer, destruiu a morada de minha vida."

"Sim", respondeu Polly, "seremos estóicas. Estamos em meio a uma obra pelo próximo. Muita gente depositou sua confiança em nós e não podemos desapontá-la."

"Além disso", acrescentei, "temos ótimos amigos e alguns recursos, o que milhões e milhões de pessoas não possuem."

"É verdade!" irrompeu dos dedos de Polly, repletos de coragem. "Isto é um desafio. Prosseguiremos."

Herbert se encontrava em Paris. Nós o trouxéramos para a Europa, desejando que ele gozasse verdadeiras férias - as primeiras desde que estava connosco, há doze anos. Fora visitar amigos na Holanda e estava então à nossa espera. Quando nos reunimos a ele, confirmou os nossos temores. A casa de Arcan Ridge queimara até os alicerces. Herbert chorou ao exclamar: "Antes tivesse ficado em casa! A professora disse que confiava vocês duas a mim. Antes tivesse ficado em casa!" Continuou deprimido, a despeito de tudo o que dissemos para encorajá-lo. Desde o momento, porém, em que compreendi a amplitude de nossa desgraça, senti a vida triunfando sobre a estreiteza de minha existência corpórea - uma vida poderosa, dotada de visão e de audição, a criação do espírito. Esta vida interior surgiu e se expandiu dentro de mim e eu fiquei maravilhada pela segurança que sentia em minha morada espiritual, apesar de Polly e eu não possuirmos habitação material a que pudéssemos chamar nossa.

A despeito das dificuldades que, no fundo de minha mente, exigiam solução, eu continuava a pensar em todos os incêndios pelos quais havia recentemente passado em imaginação. Havia o holocausto dos ataques aéreos, que lançavam chamas nos países invadidos, onde homens, mulheres e também crianças - dotados de visão ou meio cegos - combatiam num inferno para escapar à destruição. Havia a "fumaça mortal", que reduzia a cinzas milhões de judeus, nas câmaras de gás do nazismo - melhor chamado baalismo. E doía-me o coração ao recordar-me das ruínas fumegantes das casas de Tóquio, frágeis como papel, durante a II Guerra Mundial. Oh, com quanta nitidez a minha pequena conflagração sublinhava desgraças alheias, encarceradas entre os horrores da matança e da rapina. Uma inextinguível indignação ardia dentro de mim e resolvi combater de todos os modos possíveis os impulsos malignos que espreitam o homem, serpentes aladas da complacência e a cruel filosofia que nega a liberdade, a fraternidade universal, a personalidade e a felicidade.

Os meus pensamentos voaram do incêndio material para o togo do desastre que eu havia presenciado ao visitar os soldados feridos nos hospitais da marinha e do exército, na América e na Europa - mutilações, feridas que se recusavam a cicatrizar, paraplegia, desespero por causa da cegueira ou surdez repentinas, enfermarias de isolamento, medo de ser banido da sociedade pelo resto da vida em consequência deste ou daquele desfiguramento, doenças sem nome das quais não se falava em voz alta, mas que era preciso se atacar se se quisesse manter sã e limpa a mente do homem! À luz crepuscular daquelas lembranças; com mais vigor do que nunca tomei a resolução de manter os olhos voltados para o farol da boa vontade, que procura salvar e enaltecer a vida humana.

Outro "uso amável" do infortúnio, que me atingira, adviera do fato de eu poder falar, sem presunção, das perdas comuns que deslocam tantas vidas, importantes ou humildes, humanas ou animais. E alegrava-me, sobretudo, a idéia de que ainda tinha comigo Polly e Herbert, sãos e salvos.

Quando regressamos a Wesport, a 20 de dezembro, ficamos instalados numa casa que nos foi cedida pelo senhor G. A. Pfeiffer, tio Gus, um verdadeiro amigo nosso, cuja bondade havia sido como uma luz em nosso caminho, desde a morte da professora. Na manhã do dia de Natal, eu, Polly e Herbert caminhamos sobre o túmulo de nossa preciosa morada - um buraco profundo e negro, onde vivêramos sete anos de labor, aventura e conforto e onde cada um se regozijara com a alegria dos outros. Ali nos quedamos fascinados, adorando aquelas últimas ruínas. Parecia-me estar caminhando através de chamas, como, na Idade Média, faziam as pessoas acusadas a fim de pôr à prova a sua inocência. Restavam apenas o quarto de Herbert e parte da garagem.

Fora com tristeza que eu e a professora deixáramos a nossa casa de Wrentham, mas pelo menos havíamos trazido os nossos livros e os nossos bens e essa encantadora companhia nos ajudara a adaptarmos a um meio desconhecido. Naquele momento, porém, a privação era completa. Haviam desaparecido os livros que me alimentaram o espírito desde o início da maturidade, alguns dos quais transportara comigo em viagens e ainda outros que eu muito prezava por me terem sido oferecidos por minha mãe, pela professora e pelo meu padrasto, John Hitz. Fôra-se a Bíblia, cujos pontos em relevo se tinham tornado confusos sob os meus dedos; fôra-se Shakespeare, glorioso gênio universal, cuja obra, além da Bíblia, povoara o meu espírito desde a infância; e foram-se asnotas harmoniosas dos poetas de todas as idades que haviam cantado em meu silêncio. Fui, mais tarde, agraciada com novos exemplares de alguns desses livros, mas sentirei eternamente um doloroso vácuo ao pensar nas cartas vibrantes de afeição ou brilhantes de ensinamentos que me foram irremediavelmente arrebatadas! Com que aperto no coração eu e Polly nos estreitamos as mãos ao ver em espírito, naquelas cinzas, as lembranças queridas da professora e os tesouros que havíamos colecionado no curso de nossas viagens! Naquele intolerável momento, senti a mão divina pousar sobre a minha alma, curando-a, e revesti-me de fé

... estranha à carne e aos sentidos,
de que a Vida é sempre Senhora da Morte
e de que o Amor nunca é derrotado

Passeávamos vagarosamente em torno do local, quando Polly reparou no belo carvalho que chamávamos de "árvore da professora", porque parecia retratar o seu ideal de graça amena e era como que um reflexo de luz. Estava horrivelmente queimado de um lado e não acreditávamos que pudesse resistir ao frio agudo e aos açoites do inverno; contudo, na primavera seguinte, os seus ramos se cobriram de folhagem verde e a árvore continuou a crescer e a se expandir, amenizando com a sua grata frescura o calor do verão.

Alguns dias depois, eu e Polly tivemos uma longa conversa com a nossa cara amiga e conselheira literária, Nella Braddy Henney, autora de Anne Sullivan Macy. Quando estávamos reunidas, sentimos que a nossa tristeza ficara duplicada em seu bondoso coração; o "confortador orvalho do Céu", que emanava de suas palavras, fortaleceu-me na resolução de não me afligir. Nella falou como os gregos: "Não vos entregueis à adversidade, mas prossegui com mais coragem". Regozijou-se comigo porque Polly e Herbert haviam sido poupados para dirigir o barco de minha vida, nas águas do futuro, e fêz-me recordar que eu continuaria o meu trabalho, livre de velhas responsabilidades e desagradáveis decisões. Contei-lhe então que, embora parecesse estranho, havia silenciado a voz interior que há anos me avisava persistentemente de que um dia voltaríamos para casa e a encontraríamos em ruínas. Não sei explicar porque esse pensamento me atormentara tantas vezes, embora sempre o afastasse despreocupadamente.

Entre outras coisas, falei com Nella a respeito dos livros que havia perdido - a Bíblia, as obras de Swedenborg copiadas pelo senhor Hitz, durante e após o período em que eu estivera na Universidade, e que me haviam acompanhado por toda parte; os gorduchos volumezinhos de Alice no País das Maravilhas, que eu recebera como presente de aniversário de Carl Arensberg, um brilhante estudante de Harvard; um velho Prometeu Libertado, no qual eu havia marcado várias passagens; os Poemas de John B. Tabb, encadernados cro vermelho e que haviam sido transcritos por minha irmã Mildred; e inúmeros outros tesouros que eu considerava de valor inestimável. Enquanto eu falava, sentia a chama criadora do espírito da minha professora e, sob essa luz, obtive uma nova compreensão de como o brilho de sua personalidade e a sombras de sua cegueira, parcial a princípio e quase total mais tarde, haviam feito parte integrante de minha vida, durante cinqüenta anos. E Nella me disse: "Quando você tornar a escrever a biografia de sua professora, ela lhe surgirá como um fogo sagrado, que não consome, mas aquece, acaricia e ilumina." Emocionada por essa confiança em mim da parte de alguém, cuja história vivida e compreensiva de minha professora tem comovido tantos corações, espero com fervor poder transmitir aos meus leitores alguns reflexos da natureza de uma mulher que possuía um coração talhado para uma vida gloriosa e cujos olhos estavam voltados para "a beleza que ultrapassa o sonho."

foto a preto e branco de Hellen Keller e Anne Sullivan
Hellen Keller com Anne Sullivan

II

Foi uma clara e brilhante centelha da alma de minha professora que venceu os arroubos do mau gênio e dos desejos contrariados, no mundo fantasma da menina Helena. A centelha foi a palavra "água". O vocábulo compaixão, no seu velho sentido, não explica a origem dos motivos de minha professora. Ela não acreditava que a Natureza fosse uma amiga fiel do homem e essa descrença estava na base de seus esforços para libertar Helena - ou o fantasma, como prefiro chamar aquele pequeno ser governado apenas por impulsos animais, nem sempre dóceis. O combate da professora contra a sua própria cegueira começou na infância e a sua recuperação parcial da visão enquanto se achava na Instituição Per-kins para Cegos, em Boston, não pôs fim à sua luta para manter a sua ascendência sobre a Natureza. Esse combate durou toda a sua vida.

Secreta ou abertamente, ela sempre sentiu uma grande revolta contra as enfermidades que lhe pareciam inúteis e que lhe haviam prejudicado a visão, arruinado a saúde física e mental e a felicidade de milhões de pessoas em todo o mundo. Era então implacável o seu combate à cegueira, à surdez e à mudez que mantinham a sua pupila numa tríplice prisão de instintos contrariados. Ousadamente resolveu colocar-se no lugar da Natureza e destituí-la da vã supremacia sobre Helena, substituindo, pelo amor e pela inventiva a inconscient crueldade do destino da criança.

Aflige-me recordar esse período da vida de minha professôra. Desejaria, naturalmente, que, após a onda de deslumbramento em que mergulhou quando as operações lhe franquearam a leitura normal, ela tivesse encontrado uma criança que correspondesse ao seu toque de simpatia. Mas o fantasma não possuía nenhuma compreensão dos laços naturais com a humanidade. Toda a doçura da infância, feita de vozes amigas e de rostos sorridentes, não existia para ela. Não compreendia a obediência nem apreciava a bondade. Lembro-me do fantasma como uma criança gorda, forte, selvagem e destemida. Recusava-se a ser guiada e teve que ser levada a força escada acima, para receber a sua primeira aula. Certa ocasião, suas maneiras à mesa exigiram uma imediata correção. O fantasma estava habituado a tomar o alimento de seu prato e do prato dos outros com as próprias mãos. Annie Sullivan não podia admitir tal comportamento e surgiu logo uma briga, durante a qual a família se retirou da sala. O fantasma se portou como um demônio, dando pontapés, gritando, beliscando quem o queria libertar e quase jogando a professora fora da cadeira. Annie, porém, conseguiu forçá-la a comer com uma colher e a manter as mãos fora do prato. Então o fantasma atirou no chão o guarda-napo; mas, depois de uma luta que durou uma hora, Annie fêz com que a criança o apanhasse e o dobrasse. Certa manhã, o fantasma não quis sentar-se para aprender as palavras que nada significavam para ela e deu um pontapé «a mesa, virando-a. Depois que Annie recolocou o móvel no lugar e insistiu em continuar a aula, os punhos do fantasma se ergueram como um raio e quebraram dois dentes da professôra.

Nunca uma jovem entusiasmada com fins tão nobres teve que enfrentar situação tão desagradável. Os pais do fantasma interferiam todas as vezes que a professora fazia tentativas para discipliná-la. Por esta razão, Annie obteve consentimento para levá-la a um local tranqüilo e, por sugestão dos pais, instalou a criança num anexo próximo à casa e coberto de trepadeiras, chamado Ivy Green. Mudou-se o mobiliário para que o fantasma não pudesse reconhecê-lo - até a minha memória olfativa do local era diferente - e ficou combinado que a família viria visitá-las todos os dias, sem que Helena soubesse dessas visitas. Por declarações posteriores da professora, eu soube que nós duas ficamos encarceradas, por assim dizer, no anexo e eu me surpreendo ao pensar que Annie tivesse tido a coragem de ficar sozinha com tamanha ameaça à sua segurança pessoal.

Já me referi às várias lutas entre Annie e o fantasma, não porque tenha delas lembrança coerente ou detalhada, mas porque indicam a natureza terrível da tarefa que a professora se propunha empreender. Em A História de Minha Vida, que escrevi com a despreocupação de uma jovem feliz e positiva, deixei de frisar suficientemente os obstáculos e as agruras por que passou a professora. Houve também outros defeitos no livro que a minha compreensão amadurecida do sacrifício daquela excelente criatura não deixaria permanecer sem correção.

Em minhas lembranças do anexo tenho plena consciência de um fantasma perdido no que lhe parecia um novo ambiente. Noto gestos bruscos, empurrões e pancadas desferidas não por Annie mas, pelo próprio fantasma, na tentativa de fugir aos braços que o continham. Como se parecia a um potro, corcoveando e escoiceando. Era, sem dúvida, uma criatura tenaz que tentava vencer pelo cansaço o seu suposto inimigo. Volta-me à lembrança uma luta, ao redor de um objeto que as minhas recordações táteis dizem ser uma cama, e um gesto firme de Annie, fazendo-me deitar ou levantar e me vestir.

O fantasma não tinha noção de tempo e só muitos anos depois teve conhecimento das horas exaustivas que Annie passou tentando dominá-lo sem abater-lhe o espírito. E isso tinha sido apenas parcialmente realizado, quando as duas voltaram para casa. Um dia o fantasma se zangou porque Annie tentava repetidamente fazê-lo compreender a diferença entre "água" e "tigela". Com a memória tátil, recordo passos apressados no quarto e a mão de minha mãe agarrando o fantasma e salvando-o de uma boa surra. Depois disso, a aluna começou a melhorar, mas não possuia ainda o amor pelo elogio, peculiar a toda criança normal. Não compreendia que havia sido punida porque não distinguia entre o certo e o errado. O seu corpo estava-se desenvolvendo, mas a mente se achava agrilhoada à escuridão, como o espírito do fogo à pederneira. Finalmente, a 5 de abril de 1887, quase exatamente um mês depois de sua chegada a Tuscumbia, Annie atingia a percepção do fantasma com a palavra "água". Isto se deu na casa da bomba. O fantasma tinha na mão uma tigela e, enquanto a mantinha sob o esguicho, Annie bombeava água para enchê-la; à medida que o líquido espirrava sobre a mão que segurava a tigela a professora escrevia á-g-u-a sobre a outra mão. De súbito, o fantasma compreendeu o significado da palavra e em seu espírito começaram a agitar-se pequeninas chamas. Possuída da primeira alegria que veio a sentir desde que pegara a doença, agarrou àvidamente a mão sempre pronta de Annie, suplicando novas palavras para identificar os objetos que tocasse. Sucessivos relâmpagos de compreensão cruzaram-lhe a mente, aquecen-do-lhe o coração e fazendo brotar nele a afeição. Da casa da bomba, saíram dois seres maravilhados que se chamavam um ao outro de "Helena" e "professora". Não há dúvida de que momentos de enlevo como este contêm mais vida do que uma eternidade de trevas.

Lamento profundamente que em A História de Minha Vida tenha sido descuidada no que escrevi acerca dos meus progressos em adquirir vocabulário e em aprender a falar. A narrativa foi tão exagerada que o leitor comum pode ter a impressão de que Helena, num só instante, "compreendeu todo o mistério da linguagem". Devo ter estabelecido certa confusão com minha inábil narrativa e acredito que uma pessoa amadurecida e crítica teria certamente relatado o caso com um melhor senso de perspectiva.

Já que minha transformação em ser humano foi a obra da vida de minha professora, devo talvez, embora correndo o risco de me repetir, insistir sobre a verdadeira situação de Helena, depois de ter perdido a visão e a audição com a idade de dezenove meses. Com surpreendente rapidez, a criança passou da luz à escuridão e se transformou num fantasma. O vento deixou de ter voz para ela, o silêncio apoderou-se do seu espírito, pairando sobre todo o espaço em que ela se movimentava. A aridez mental se apossou do seu ser. As suas palavras feneceram. Extinguiu-se a luz do Sol que lhe permitia correr com senso de direção. Os seus olhos, que se haviam alimentado de sorrisos, nada recebiam em troca senão um imutável vazio. A primavera não podia cativá-la com as suas flores; o verão, com os seus frutos, passava despercebido e ela não sabia que o outono trazia consigo a riqueza das colheitas. Os pássaros deixaram de cantar em seu coração porque ela não lhes podia imitar a alegria. O seu corpo era sadio, mas para grande desolação dos seus pais, havia a infortunada ausência de uma verdadeira meninice: a mudez e a ausência do olhar, em lugar do sorriso que costumava alegrar a todos, a morte aparente de tudo o que prometia fala, brincadeira e animação A família permanecia impotente diante daquela inteligência frustrada, quando as mãos do fantasma se estendiam para tocar as formas que podia alcançar, mas que nada significavam para ela.

O fantasma não procurava solução para o seu caos porque não tinha conhecimento dele. Não procurava também a morte porque não possuía nenhuma concepção dela. Tudo o que tocava era mancha sem encanto ou previsão, curiosidade ou consciência. Se se encontrava numa multidão, não fazia idéia de humanidade coletiva. Não compreendia a relação entre uma coisa e outra. E, dentro de mim, explodiam iras freqüentes e ferozes, das quais não me recordo pela emoção mas pela memória tátil dos pontapés e golpes que eu desferia no objeto dessa ira. Lembro-me do mesmo modo, das lágrimas que me corriam pelas faces, lágrimas essas que não eram de tristeza. Não possuía palavras para essa emoção ou para qualquer outra e, por conseguinte, elas não tinham nome. O fantasma não conhecia "sombra" por que não possuía nenhuma idéia de "substância". Para êle não existiam beleza, simetria, ou proporção. Tudo era privação - privação sem direção, que é a origem de todas as privações da humanidade concretizadas numa multiplicidade de maneiras. Foi só depois do episódio da casa da bomba que o fantasma sentiu um impulso em direção de algo definido, isto é, aprender os nomes dos objetos que desejava ou tocava. Ainda assim era apenas um impulso rudimentar.

O que aconteceu na casa da bomba foi que o nada se desvaneceu, mas o fantasma não penetrara ainda num mundo real. Começou a associar corretamente as palavras aos objetos que tocava, tais como "bomba", "chão", "bebê", "professora" e se entregava à alegria de se ver libertada da impossibilidade de expressar as suas necessidades físicas. Sentia-se atraída para a professora, não por um sentimento de obrigação, mas pelo impulso de receber dela, pelo movimento dos dedos, o que a sua fome de palavras ambicionava, exatamente como o recém-nascido procura o seio da mãe em busca de leite. Pensava somente nas palavras que aprendera e recordava-as, quando precisava usá-las. Não refletia nem procurava descrever o que quer que fosse para si própria. As primeiras palavras que compreendeu, porém, tiveram o efeito dos cálidos raios de sol que iniciam o degelo, floco por floco, um pedaço aqui e outro ali. Depois de aprender vários substantivos, vieram os adjetivos e o degelo se tornou mais rápido. Finalmente a professora indicou os verbos, um a um, às vezes em grupos, mas para Helena não havia ligação entre as palavras, nenhuma imagem, forma ou composição. Lentamente principiou a fazer perguntas das mais simples. Jamais concebera coisas tais como "o que", "onde", "como" e "porque" e outras palavras de ligação nas quais penduramos nossas frases; mas, a medida, que as aprendia e passava a formular hesitantes perguntas, as respostas saídas da mão da professora extinguiam o seu isolamento. Depois disso, esta passou a falar o tempo todo comigo e eu percebia que as coisas iam deixando de ser um simples tatear fragmentário, sob aquele mágico toque de mãos A professora devia usar de toda a sua perspicácia para adivinhar os incoerentes fragmentos de pensamento que lutavam por se expressar na mente da criança. Seus olhos devem ter ficado cansados de ler os dedos agilíssimos de Helena à medida que esta se tornava mais curiosa, tentando conseguir em meses um vocabulário que deveria ter começado cinco anos antes. Apesar dos conhecimentos deficientes e elementares de Helena, cada objeto que tocava sofria uma transformação. Terra, ar e água tomavam vida pela mão criadora da mestra e o fantasma desaparecia à medida que a vida entrava a jorros, cheia de significado, em Helena: mãe, pai, o bebê Mildred, a prima Leila e suas filhinhas, as crianças negras que há anos suportavam as suas maneiras selvagens, tentavam arranjar brincadeiras Para ela e sempre lhe demonstravam carinho. A verdadeira maravilha daqueles primeiros dias residia mais na recuperação do companheirismo do que propriamente no chamado Progresso "fenomenal" de Helena em captar a linguagem.

Um dos primeiros atos de Anne Sullivan foi ensinar Helena a brincar. Para isso, procurou amoldar as faculdades da criança, sem o que tanto o estudo como o trabalho seriam quase impossíveis. Helena não rira desde que se tornara surda. Depois de lhe ensinar a ser obediente e a ter um pouco de paciência, a professora entrou um dia na sala rindo alegremente, esparzindo auras de contentamento. Colocou a mão da criança sobre o seu rosto radiante, soletrando "riso" e, em seguida, incitou-a gentilmente a dar uma risada, o que alegrou toda a família. Repetiu a ação várias vezes e depois começou a ensinar a Helena certas traquinadas, como balançar-se, dar cambalhotas, pular, saltar, escorregar e assim por diante, fazendo acompanhar cada ato da palavra escrita. Dentro de poucos dias Helena era outra criança, "que irradiava uma contagiante alegria", e que maravilhosas brincadeiras ela e Annie inventavam Que alegria transbordante, esfuziante, que exaltação inexprimível, que animação de novas descobertas envolviam Helena qual uma onda de luz Ao correr com a aluna, a própria professora se sentia transportada para o país das fadas, onde lhe era outorgado o dom dos jogos educativos, que ela não conhecera na infância. Por intermédio de todas as modalidades de movimento, exercícios e jogos, Helena sentia-se estimulada a perguntar os nomes de diferentes ações e a adquirir conhecimentos por meio da fonte inesgotável, que era o alfabeto manual de sua professora. E o sortilégio daquela escrita era inesquecível. Os dedos de Anne como que faiscavam na mão de Helena, enquanto as duas brincavam de esconde-esconde, jogavam bola ou se divertiam com gatinhos ou cães.

A professora mantinha em seu quarto alguns pombos engaiolados a fim de que, quando estes fossem libertados e Helena os perseguisse, ela pudesse sentir o vento das suas asas, ter conhecimento do vôo dos pássaros e conceber o esplendor das coisas aladas. Quando os pombos venceram a timidez, passaram a pousar sobre a cabeça e os ombros de Helena e esta aprendeu a alimentá-los e a compreender-lhes as bicadas, os arrulhos e as palpitações. É por este motivo que os pássaros, embora não fossem vistos, passaram a fazer parte do seu mundo, como as flores e as pedras.

Na coelheira de Helena havia adoráveis coelhinhos brancos de olhos côr de rubi. A professora até então nunca tinha visto coelhos e aqueles focinhos em perene movimento eram uma fonte de constante alegria para ela, mas a maneira como eles mastigavam o alimento pareceu-lhe errada e um dia tentou fazer com que um deles mastigasse de modo diferente; minha mãe e meu pai riram até chorar. Este é um exemplo, entre muitos, do pouco conhecimento da professora sobre Zoologia e outros assuntos; afinal, ela só estudara durante seis anos. Juntas, porém, Annie e Helena descobriram curiosos detalhes a respeito dos coelhos selvagens, partindo do que viam nos coelhos mansos; e assim o alegre fogo de palavras se renovava cada dia, até Helena ter "ouvido" com os dedos o relinchar de Príncipe, o cavalo de sela, o mugir das vacas, o guincho dos porquinhos e o vigoroso desafio do nosso galo. Helena não sabia cantar ou imitar o galo, mas, como a professora costumava dizer, o seu rosto irradiava uma alegria que nem mesmo a causada pela aquisição da fala lhe podia ser igualada.

O que acabei de escrever são simples divagações que lembram a estrela de Browning, a qual lhe mostrava um raio de luz vermelha, depois azul. Ainda assim a estrela d'alva da recém-despertada infância de Helena se revela hoje para mim.

Sim, a professora, literalmente, transferiu a sua vitalidade, a sua imaginação, todo o conhecimento que pôde obter nos livros a respeito de animais, vegetais e minerais e tudo o que era vivaz e infantil em si própria para a inquieta e insureita aluna. Helena estava apenas alegremente absorvida pelo desejo de viver, enquanto a professora estava firmemente decidida a cumprir o seu voto, isto é, destruir o vácuo na vida da criança, por meio dos olhos e dos ouvidos da inteligência, da riqueza de expedientes e associação de idéias; fazer com que o amor, a inventiva e a literatura restaurassem, até certo ponto, as faculdades das quais a Natureza cega, indiferente e insensível havia privado um pequeno ser humano. Era assim que pensava a professora, conforme descobri muito depois. Sempre que Helena se embaraçava com substantivos, verbos e preposições e mostrava por meio de gestos, o que não podia dizer, a professora acorria em seu auxílio com uma ou duas palavras significativas ou uma sentença proveitosa que davam novas asas à personalidade da criança. Depois que esta cresceu um pouco mais, a professora conseguiu fazê-la rir com os versos de Mother Goose, ou emocioná-la com trechos de poesia simples, porém belos. Embora Helena não tivesse consciência da magnitude da herança que lhe estava sendo restituída, a sua reação extática à poesia sobrevive, até hoje, o que muito me emociona.

Que perfumada Presença sobrepuja o aroma do tomilho,
Que vozes enfeitiçam o despontar balsâmico da noite

Era assim que Helena se sentia, quando lia poesias com a professora.

Os dedos ágeis de Annie faziam parte do deslumbramento, pois, por assim dizer, brincavam com os ritmos fluidos, musicais e de quando em quando envolviam Helena no mais profundo sentimento de alegria ou de dor que o tato pode realizar.

As leituras da professora tornavam-se gradualmente mais longas e mais freqüentes e as novas palavras aprendidas pela criança serviam-lhe de instrumento para formular perguntas que conduziam a outras palavras.

Os livros que eram lidos para ela e os que ela própria lia multiplicavam-lhe o vocabulário. A aquisição da fala acelerou o seu desenvolvimento mental e ajudou-a a aperfeiçoar-se como um ser humano dotado de pensamentos coerentes e de faculdade de raciocínio. Em A História de Minha Vida, porém, conforme já declarei, não analisei corretamente o estado da criança antes de ser instruída, as fases sucessivas em que aprendeu a linguagem, ou a naturalidade do método da professora. Além disso, omiti detalhes vitais à apreciação das várias facetas da tarefa de transformar um ser humano cego e surdo numa pessoa tão normal quanto possível dentro das circunstâncias.

A professora costumava contar, por exemplo, como a menina Helena era desajeitada e desastrada. Foram necessárias algumas semanas de trabalho e paciência para fazer a criança perder o hábito de empurrar para o lado o abajur ou outros objetos contra os quais batia. Sem esmorecer-lhe a alegria de estar em constante movimento, a professora lhe ensinou a tratar tudo com delicadeza: um canário, o pêlo de um gatinho, uma rosa com o orvalho a cair-lhe das pétalas, a irmãzinha de um ano, Mildred. A importância da brandura ficou demonstrada pela morte de um filhote de pombo ao qual, pesa-me recordar, Helena tinha dado alimento em excesso. Um dia, a professora surpreendeu a aluna picando cruelmente um gafanhoto que apanhara e colocara numa caixa sem ar, tentando fazê-lo "cantar". (Na verdade, ela pensava que o inseto não era sensível, pois não percebera nele partes moles.) Inúmeras teriam sido as vidazinhas frágeis que seriam maltratadas ou amedrontadas pela violência da criança se não fosse a vigilância de Anne Sullivan.

Além de ensinar Helena a sentar-se, a ficar de pé corretamente e a caminhar com certa graça, a professora tinha todos os cuidados que tem a maioria dos pais, isto é, fazer com que os filhos se lavem atrás das orelhas, penteiem e escovem os cabelos e vistam roupa limpa. Isto levou muito tempo, pois Helena não tinha nenhuma noção de posição correta e detestava que lhe chamassem a atenção continuamente, Era um diabinho incorrigível. Foi preciso todo o poder de persuasão da professora para impedir que a criança beliscasse a avó, de quem não gostava. O emprego da força era inútil numa criança de seu temperamento e, por isso, Annie mostrou-se muito paciente com ela, durante um ou dois anos. Mas a obstinação de Helena chegou a um ponto em que era preciso fazer algo para livrá-la dos hábitos que tornam as crianças repulsivas. Helena roía as unhas. Um dia desabou sobre ela um furacão humano que lhe puxou as orelhas e lhe amarrou as mãos às costas, cortando-lhe assim todos os meios de comunicação. Só quando sentiu as mãos presas é que o desejo de expressar os seus pensamentos se tornou bastante forte para permitir-lhe combater o mau hábito. Mas ela não sofreu tanto quanto Annie, que andou de um lado para o outro do quarto, sentindo-se completamente incapaz de ler ou de se interessar por qualquer outra coisa.

Isto me faz lembrar que Helena acintosamente cometia o grave erro de escrever constantemente para si própria, com os dedos, mesmo depois de ter aprendido a falar com a boca. Todas as censuras e rogos da professora, toda a sua eloqüência ao exaltar o exemplo de outras crianças eram em vão. Naquela época, porém, li que os bons ou maus hábitos são como uma corda que é feita fibra a fibra até se tornar tão resistente que não pode ser rompida. Tomei a decisão de parar de escrever para mim mesma, antes que isso se tornasse um hábito incorrigível e, por isso, pedi à professora que atasse os meus dedos com papel. Ela o fêz, embora com tristeza ao pensar no meu sacrifício, chegando até a chorar. Durante muitas horas, dias e noites, tentei dolorosamente formar as palavras, que me mantinham em contato com os outros, e a experiência teve êxito, excetuando o fato de que mesmo hoje em dia, em momentos de agitação ou ao despertar, surpreendo-me de vez em quando escrevendo com os dedos.

Mas voltemos à professora, nos seus dois primeiros anos de trabalho com Helena. Havia dias em que esta não queria prestar a devida atenção às lições ou observar as coisas e os movimentos com o cuidado necessário. Ela gostava de usar anéis e, nessas ocasiões, a professora a privava deles e fazia-a ficar de pé no canto da parede até achar que a aluna estava suficientemente castigada. Depois que Helena tinha adquirido vocabulário suficiente para distinguir entre o certo e o errado, quando cometia uma falta, Annie mandava-a para a cama, como a qualquer criança mal comportada. Preguiça, descuido, desmazêlo e protelação eram os outros defeitos do caráter de Helena, defeitos que a professora enfrentava com habilidade, bom humor e pronta ironia. O hábito de se desculpar foi outra falta que Annie combateu até a adolescência de Helena e que até hoje me acomete de vez em quando. Menciono tudo isto somente para que todos possam ter uma idéia exata das dificuldades e tribulações por que passou a professora por minha causa.

Creio que, naquele tempo, Annie se sentia como as raízes, que lutam no escuro e no frio para compor o delicado tecido das flores, e me lembro com prazer que ela costumava declarar que esse foi o mais alegre e feliz período de sua vida. Ela tinha encontrado um centro do qual podia irradiar a sua personalidade como "uma luz e uma força transmissíveis". Pobre, meio cega, solitária nos seus ideais e nas suas convicções, ela espiritualmente se aproximava dos outros mestres que haviam rompido as trevas da ignorância, do barbarismo e das restrições. Sentia-se viver ao lado deles, igualmente desprendida de sua época, realizando a libertação intelectual de outrem e, inspirando-se naquelas vidas, abnegadas, tornou-se forte.

Ela nunca foi a "professora" retratada em alguns artigos que tenho lido. Era uma jovem cheia de vivacidade, cuja imaginação, inflamada pelas vitórias que obtinha com a aluna, sonhava conduzir uma criatura surda e cega até à vida completa de um ser humano, útil e normal. Embebida nesses sonhos, as suas palavras escorriam pela mão da criança como pequenos meteoros, abrindo fulgurantes sulcos de iniciativa. Até hoje não posso "apelar para os usos de minha alma" ou dispor a mente para a ação sem me recordar do toque quase elétrico dos seus dedos sobre a palma da minha mão. Enojada pela irrefletida adulação que me era dispensada, regozijo-me com o apreço daqueles que compreenderam os esforços de Annie Sullivan no sentido de salvar uma vida do tríplice desastre, dando-lhe ainda forma e elegância. A tarefa não foi das mais suaves. Não foi o acaso que libertou o espírito de Helena, mas a visão profética e o talento de uma mestra inata, cujo cérebro ardia com um fogo interior. Humildemente, espero neste livro revestir os nossos esforços e triun-fos conjuntos não com a vulgaridade dos milagres, mas com a dignidade dos acontecimentos humanos ordenados por Deus e permitidos por Seu divino amor.

Apesar da sua visão deficiente, os sentidos representados pelos seus olhos e ouvidos permaneciam atentos e bem abertos. O seu inglês castiço e o seu amor pela beleza foram talvez os principais fatores da obra que realizou com Helena. A sua paixão pelo apuro no estilo literário, no caráter e na conversação, prevaleceu sobre a sua educação deficiente, o seu sentimento de desigualdade social, as suas dificuldades pecuniárias e os embates de seu temperamento violento. Quem poderá calcular a resistência a todas as circunstâncias desfavoráveis que se acumularam contra ela, desde a infância até a cegueira total, que a tornou dependente de outros? Ela deve ter vencido enormes obstáculos interiores e exteriores. Enquanto se transformava em olhos e ouvidos a fim de ministrar linguagem e conhecimentos normais a um espírito esfaimado, submetia-se às imperiosas necessidades da individualidade de sua aluna. Apesar da sua personalidade dotada de extravagantes inclinações, Annie era, contudo, diferente das mulheres a quem Amiel admira mas critica porque "querem fazer o bem à sua moda". Fazia o bem com desinteresse, isto é, queria para a sua aluna aquilo que lhe fosse mais proveitoso para a vida. Comove-me profundamente essa fé e constância que me arrancaram, qual nova Eurídice, das regiões plutonianas, mergulhadas em trevas e silêncio. Anne Sullivan poderia facilmente ter-se distinguido em qualquer outro setor e eu até hoje não entendo porque ela ficou comigo durante meio século.

Naturalmente, Helena considerava a professora apenas como um guia carinhoso dotado de uma encantadora faculdade de transmitir conhecimentos. Annie jamais falara sobre a triste história dos anos que passou no orfanato de Tewksbury a fim de não perturbar o espírito alegre de uma criança que deveria desenvolver-se num ambiente normal. Guardou aquele segredo sombrio até os sessenta e quatro anos de idade. Eu tinha então cinqüenta. Contudo, quando eu era menina, falava-me livremente sobre a aldeia de Teed-ing Hills, Massachusetts, onde nascera, e a respeito de seu irmãozinho Jimmie, cuja morte a abalara tão profundamente. As minhas ávidas perguntas a respeito de sua família levavam-na a contar-me histórias emocionantes sobre a sua irmã Mary e outras meninas que conhecera ou a narrar-me contos do povo irlandês que o seu pai lhe havia relatado. E assim criou-se um novo elo de maravilhosa simpatia entre aquela mulher solitária e a sua aluna.

Anne jamais se queixava de sua solidão. Quando me Ponho a recordar aqueles primeiros anos, fico impressionada Pela confiança com que ela se movia entre as chamas da criação, as quais extraem personalidades normais de material pouco prometedor. Ela estava explorando uma região que lhe despertava todos os instintos de abnegação, aventura e aspiração a grandes feitos. Nunca se soubera de ninguém que considerasse uma criatura surda e cega (uso a palavra no sentido literal, uma "criatura" das circunstâncias) capaz de chegar à normalidade, exceto em grau muito reduzido. Mas olhai, lá está Anne Sullivan voando nas asas de fogo daquele sonho Como o concebeu e porque perseverou toda a vida em direção da meta a que chamava de "perfeição" não sei, mas por fragmentos de conversação, que surpreendi em seus dedos, descobri que no seu espírito habitavam encantadoras visões, ora radiantes, ora enevoadas pelo desapontamento, visões de "uma criança-anjo", "uma jovem bela e cheia de graça", "uma jovem mulher lutando, com voz normal, pela causa dos infelizes" e outras imagens cuja não-concretização me traz lágrimas aos olhos. A mesma sensação de encantamento que eu senti ao tocar as flores que tremulavam em suas hastes, volta-me ao espírito ao lembrar-me das ambições de Annie em prol da minha transformação num ser completo. Essa recordação enche-me de encanto e de assombro. Ima-ginàriamente, ela espreitava em todos os berços, esperando descobrir uma nova e esplêndida versão da humanidade. Com toda a certeza havia uma afinidade espiritual entre ela e "A. E.", cujos poemas vi freqüentemente em suas mãos. Ambas galgaram degraus de sonho até a beleza, a pureza e a alegria, das quais nenhum ambiente hostil as poderia privar. Rezo com fervor para que "a beleza fugitiva", que ela tão apaixonadamente buscava, permaneça com ela para sempre. Penso que desse ideal de perfeição nasceu-lhe o amor pela beleza física.

Anne Sullivan tinha nascido para ambientes refinados, para uma vida delicada, para realizações artísticas e intelectuais. Orgulhava-se do trabalho, afirmando que êle era a manifestação da dignidade do homem e não suportava vê-lo malfeito.

Qualquer feiúra em seres humanos ou em ambientes afligia-3 imensamente; tinha horror à deformidade, embora o seu coração compassivo estivesse sempre pronto a socorrer os infelizes. A pobreza degradante, sob todas as suas formas, feria-lhe a vista e eu sei que ela passou noites em claro, procurando meios de aboli-la. Era tão sensível a rostos agradáveis, ao esplendor das paisagens e à beleza artística, que às vezes chegava a chorar. Ficava magoada ao ver quebrar-„se um belo vaso ou uma estatueta finamente esculpida, como se os objetos fossem vivos, e ficava zangada, tal como ma-dame Curie quando algum de seus aprendizes sujava uma mesa durante uma experiência de laboratório. Entre as minhas primeiras recordações, guardo a da visita que Annie fêz a uma loja de Boston, onde ficou tão cativada por uma capa de veludo debruada de peles que gastou nela todo o seu reduzido salário. Eu estava com ela na ocasião e senti grande satisfação em considerar-me como uma cúmplice voluntária daquele seu ato. Usou a capa ao voltarmos para a Instituição Perkins, onde nos achávamos naquela época, e eu sorrio ao me lembrar como fomos censuradas por aquela extravagância infantil provocada por seu amor à beleza e por seu orgulho em usar o dinheiro que havia ganho.

A finalidade dessa digressão é mostrar algumas luzes e sombras do temperamento, o qual era a força motriz da obra de Annie Sullivan. Se não fosse o seu imenso amor pela Perfeição, dificilmente teria ela ficado presa à sua tarefa, durante períodos deprimentes de sua vida, num lugarejo remoto. Às vezes se impacientava e me dizia que tudo lhe Parecia maçante. Empregava uma palavra comprida que encantava a aluna: "Nada acontece dia após dia e a vida é monótona" como o grito do bacurau". Mas essa obstinação ajudou-a a transmitir ao seu trabalho a lindeza de seus ninhos e os reflexos de beleza que via diariamente, isto era parte do segredo com que ela criava uma infância feliz que eu recordo com amor.

Antes de vir para minha companhia, Anne tinha forçado muito a sua recém-adquirida visão, lendo atentamente os relatórios do Dr. Samuel Gridley Howe sobre o seu trabalho com Laura Bridgman, a fim de se preparar para a tarefa mal compreendida de arrebatar uma alma à escuridão e ao silêncio. Mesmo naquele tempo, ela só podia ler durante curtos períodos, com longas pausas de descanso. Mais tarde, em meio à crescente complexidade de seu trabalho, ela abusou impiedosamente da vista e só muito depois a aluna veio a saber que constituía um grande esforço, para a professora, ler em voz alta. Às vezes, Helena a encontrava na cama, presa de dor de cabeça e náuseas, mas a professora nunca mencionava a vista. Assim que a dor diminuía, Annie voltava a escrever com os dedos, contando a Helena mitos gregos e sugerindo maneiras de representar cada personagem. Quando se refazia, as duas começavam uma brincadeira em que representavam Perséfone e Plutão, ou os Argonautas; Perseu e Ariana; ou Boadicéia e os seus cap-tores romanos.

Helena estava com nove anos, quando Annie declarou pela primeira vez que sua doença na vista era séria e que precisava ausentar-se por algum tempo a fim de consultar o seu oculista em Boston. Mesmo então Helena não compreendeu o que ela queria dizer. Pensava que a vista da professora estaria em breve curada. Não compreendia que Anne deveria prestar incessantes cuidados aos olhos e não sabia que ela havia posto de lado todas as precauções.

Quando a indisposição recomeçava, Helena perguntava insistentemente: "Por que é que seus olhos doem tanto?"

"Ora, por várias razões", respondia Annie. "O reflexo do Sol sobre a terra vermelha não lhes faz bem", ou: "Fiquei escrevendo, ontem, durante muito tempo".

Contudo, pouco depois, Helena a surpreendeu com um livro junto ao rosto, segurando-o de modo diferente do das outras pessoas e perguntou: "Professora, por que você lê com o livro quase encostado aos olhos e move a cabeça de um lado para o outro?"

Então Anne confessou que sua visão era muito deficiente. "Não se preocupe, Helena", disse. "Sinto-me feliz porque posso ler e escrever o suficiente para gozar do colorido do céu, da terra e das águas e andar por toda parte". E acrescentou: "Vejo melhor pela manhã, quando a claridade é bem forte". Helena compreendeu então que do que a professora mais precisava era descansar bastante a vista e decidiu que só a deixaria enfiar o nariz em um livro, pela manhã, e depois a arrastaria para passear ou brincar. Uma vez, porém, Helena descobriu Annie lendo à tarde e puxou-a pelo braço, indignada. Quis arrancar-lhe o livro das mãos, mas ficou com medo de bater em alguma coisa com êle. "Não posso ver a mais de uma polegada de distância", admitiu a professora. E Helena fêz com que ela se deitasse até à hora da ceia.

Somente alguns anos mais tarde, Helena compreendeu que Anne sobrecarregava a vista para procurar informações sobre assuntos relativos à pedagogia, para se ilustrar e raramente para se distrair. Ela quase extinguiu a sua visão lendo até encontrar os tesouros que procurava. Não queria simplesmente adquirir conhecimentos e sim também um inglês apurado para si e para Helena, além das mil pequenas graças e amenidades que denunciam o requinte e a verdadeira cultura. Em certo sentido, a professora e a aluna eram duas crianças crescendo juntas, mas Annie corava pelas lacunas de sua educação, enquanto Helena rodopiava durante as lições e se entregava aos folguedos.

Quando recordo as diversas maneiras pelas quais a Professora arruinou a sua vista em meu proveito, os seus olhos me pareceram dois gêniozinhos, demasiado delicados para executar as suas ordens incessantes, que muitas vezes ficavam atormentados sem ter nenhuma culpa. Eles eram desiguais - um via mais do que o outro e os dois não focalizavam normalmente. Contudo, embora fossem muito maltratados, procuravam ser fiéis na "execução de sua delicada tarefa". Ardendo de desejo de repousar, mantinham entrevistas com a luz para que Annie pudesse captar momentos de esplendor ao ar livre ou se esforçavam sobre uma página impressa a fim de que o espírito da professora recebesse as luzes sobre os mistérios do coração humano ou se regalasse com as flores poéticas que mantêm seus flagrantes tecidos e suas tonalidades celestiais Banhados para sempre em orvalhos eternos.

Em menina, Helena não se detinha durante muito tempo nesses assuntos, mas ao atingir a maturidade, a tragédia da visão da professora recaiu sobre ela pesadamente e a sua maior tristeza foi o silêncio imposto pela certeza de nada poder fazer para remediá-la.

Contudo, a atitude alegre e bem humorada de Annie Sullivan, em face da vida, permitiu-lhe manter o equilíbrio entre o trabalho e o desespero. Embora o seu temperamento não fosse sereno e a sua impetuosidade pudesse surgir ao primeiro sinal de estupidez de Helena ou de qualquer outra pessoa, ela era capaz de manter o espírito calmo e desembaraçado ao considerar os minuciosos mas necessários detalhes e fazer as devidas concessões à lentidão no progresso da aluna. Ocorreu-me mais tarde que a professora teria preferido ficar só, durante mais tempo, a fim de poder preparar melhor a sua aluna para o encontro com os caprichos bem intencionados mas muitas vezes importunos do público.

Por exemplo, a questão de escrever a lápis. A princípio, Helena se divertia muito formando as letras nas ranhuras da lousa de escrever, inventada especialmente para os cegos, mas, depois de alguns meses, contraiu uma profunda aversão pela escrita em virtude de lhe solicitarem muitos autógrafos e cartas para amigos e parentes. O resultado foi que ficou com a mão cansada e se formaram pequenos calos no seu polegar, em conseqüência de segurar o lápis com muita rigidez. Agora me divirto e também me penalizo ao recordar que, para ela, escrever era como enfrentar um leão. Era patético e engraçado ver a professora sentá-la à mesa e sugerir que "pensasse" enquanto praticava. A mente da criança se fechava como uma ostra na concha e se recusava a formular pensamentos ou perguntas espontâneas; e eu me envergonho ao pensar nas tolices que confiava ao papel.

Um dia em que Helena fora deixada para praticar, numa sala, onde havia doces de coco recém-confeccionados, postos a secar sobre uma escrivaninha, enquanto a professora e a mãe se ocupavam com os preparativos para o seu aniversário que ocorreria no dia seguinte, o coração da criança encheu-se de revolta. Os bolos a tentaram além de suas forças e, depois de devorar dois ou três, passou-lhe o mau humor e ela voltou a praticar. Mas, como as pessoas continuaram a pedir-lhe que escrevesse, Helena perdeu a calma, chorou e amuou-se. "Que menina ingrata!" escreveu-lhe na mão a professora. "Estas pessoas foram bondosas para você e eu estou envergonhada do seu comportamento". Secretamente, porém, deu razão a Helena e reduziu aquela importunação, fazendo-a atender apenas a um ou outro pedido. Mais tarde, declarou que sentia ter-me feito passar tanto tempo com a lousa de escrever. Depois que aPrendi datilografia, abandonei a lousa por completo.

Para estimular o fluxo de pensamentos, em Helena, a professôra a encorajava a decorar poesias como Hiawatha de Longfellow, trechos de Evangeline e To a Water-Fowl, de Bryant. Helena se comprazia em pensar que os dois irmãos gêmeos, o Verso e a Música, destruiriam os obstáculos que se lhe antepunham para uma perfeita articulação vocal e a professora acariciava a mesma esperança. Annie ansiava por descobrir meios para fazer com que a aluna falasse tão naturalmente como conversava com os dedos. Sentia algo que muito mais tarde Helena encontraria palavras para expressar: "Sem qualquer espécie de linguagem não se é um ser humano; sem a fala não se é um ser humano completo" Por intuição, Annie compreendia profundamente a importância da fala na educação dos surdos e a avidez de Helena para falar arrastou-as de modo irresistível. Depois das primeiras onze lições de linguagem falada com a senhorita Sara Fuller, em Boston, Annie se entregou à nova tarefa com a sincera dedicação que a caracterizava, mas trilhou esse caminho com temor, um sentimento diverso da confiança que a tinha sustentado ao fazer comigo as primeiras experiências com o alfabeto manual. E a trágica realidade é que ela e a senhorita Fuller se enganaram não desenvolvendo em primeiro lugar os órgãos vocais de Helena para, em seguida, passar à articulação. O esforço que eu fiz para falar de modo que me entendessem fêz-me perceber a luta universal contra as limitações, luta que até hoje me persegue. Contudo, embora a minha fala fosse penosa e desagradável ao ouvido, fiquei maravilhada ao sentir-me capaz de pronunciar as palavras. Meus pensamentos semicativos iam se libertando das cadeias impostas pelo alfabeto manual. Essas cadeias se rompiam à medida que as palavras e as idéias que as representavam acorriam-me cada vez com mais presteza e a minha língua aprendia a acompanhar-lhes o ritmo. Helena ficou radiante ao notar que a sua família e alguns amigos íntimos conseguiam entendê-la. Todas essas manifestações de aperfeiçoamento encantavam a professora e ela costumava dizer que renunciaria de bom grado a toda a beleza deste mundo e do próximo, se a aluna conseguisse falar normalmente. "Oh, não, professora! Não deve dizer isto!" exclamava a menina. Annie, porém, não podia dominar o seu anseio de perfeição. Era por natureza uma desbravadora, uma peregrina da vida íntegra. E assim, dia após dia, mês após mês, ano após ano, lutou para me proporcionar uma dicção e uma voz adequada ao meu serviço em prol dos cegos.

Não entrarei aqui em detalhes porque já discorri sobre o assunto em meus outros livros. Desejo apenas dizer que só depois que o Senhor Charles White, um distinto professor de canto do Conservatório de Música de Boston, deu-me lições de dicção, durante três verões, por pura bondade, eu e a professora compreendemos o nosso erro inicial: havíamos tentado criar a fala sem produção da voz!

Era extremamente penosa, para a professora, a idéia de que durante meus anos de formação ela não possuíra o conhecimento necessário da estrutura vocal ou tempo suficiente para se ocupar com minha voz. Contudo, munida de in-dômita coragem e das idéias que havia adquirido com o Senhor White, ela continuou a luta a fim de melhorar a minha dicção. À medida que labutava, sonhava e, com uma paciência, que ainda hoje me parece sobre-humana, colocava as minhas mãos sobre o seu rosto a fim de que eu pudesse receber ao mesmo tempo todas as vibrações dos lábios, do pescoço e da faringe. Juntas repetíamos, inúmeras vezes, palavras ou frases até eu me tornar menos rígida e afetada. Assim fizemos até o ano de sua última doença e, como sempre, os seus pobres olhos executavam a cansativa tarefa de verificar se eu abria e fechava os lábios corretamente, movia os Maxilares com facilidade e mantinha uma expressão natural, “para mim, não há maior tristeza do que ter ficado tão aquém de suas ambições de mestra e artista. Mas, embora fale imperfeitamente e seja compreendida apenas por alguns de meus amigos, multipliquei com isso os meios de servir ao próximo e esse dom inestimável eu devo a Anne Sullivan.

Com a aquisição da fala passei do período infantil do meu desenvolvimento mental à minha identidade de um ser distinto, consciente e, até certo ponto, independente. Eu era ainda alegre e, de certo modo, indolente e descuidada. A professora viu em mim uma vontade que ela não podia dominar, mas fêz o possível para guiá-la até os planos mais elevados. Não me impôs nenhuma diretiva. Já que eu havia deixado de quebrar objetos, dava-me plena liberdade para correr e brincar em ambientes que me eram familiares. Contudo, apesar de ter confiança na vontade livre dos jovens, não lhes sobrestimava a capacidade de se arranjarem sozinhos na vida. Quando comecei a falar em independência ela notou que eu ainda não tinha compreendido que as circunstâncias me haviam tornado uma figura singular. No momento, disse apenas: "Oh, como será bom se você conseguir tornar-se completamente independente, como as treze Colônias", mas, aos poucos, foi expondo a verdade acerca da minha dependência dos outros. "Eu ouço e tenho um Pouco de visão para trabalhar", disse, "mas, ainda assim, devido aos meus olhos doentes, preciso de ajuda constante. É bom que você se precavenha quando crescer, para não se Perder no labirinto da vida. Siga o fio de Ariadne sobre o qual me tem falado, estude cuidadosamente todas as suas faculdades e aproveite-as ao máximo. Aconteça o que acontecer, lembre-se de que a verdadeira independência reside no espírito e na mente".

"Sei ler e vou devorar todos os livros que me caírem nas mãos", declarei.

"Isso é uma esplêndida maneira de se tornar independente", respondeu, "mas não basta. Se você se tornar um rato de biblioteca, de que modo poderá ser útil à humanidade. Vejamos o que você pode fazer para dar satisfação aos outros com os livros que possui. Aprenda os poemas de Longfellow, The Childrens Hour e The Light of Stars e repita-os em voz alta até que todos a possam compreender".

E deu-me um feliz exemplo: a história da brilhante amiguinha de Walter Scott, que, quando tinha aproximadamente a minha idade, recitava com voz clara e animada as poesias ou os trechos do grande escritor, causando prazer a muita gente. Aprendi um grande número de poesias de todos os gêneros, algumas delicadas, outras elevadas e outras ainda humorísticas e, vezes sem conta, eu e a professora tentamos fazer com que o encanto desses versos desabrochassem em minha dicção. Certa vez aprendi de cor a maior parte de Evangeline e a professora, encantada, encorajou-me a decorar as melhores passagens que eu encontrasse em histórias e poesias. "Não leia simplesmente histórias, mas procure também o talismã de ouro com o qual você se poderá tornar como as filhas de Zeus, claudicantes mas repletas de luz e dotadas de vozes suaves, a quem os gregos chamavam de Graças. Quem sabe? Talvez você possa conquistar ouvintes e fasciná-los com o esplendor dos pensamentos que declamar". Fiz inúmeras tentativas, mas sentia que era muito forte a atração que exercia sobre mim o fruto proibido, isto é, os livros de história. Fora das minhas aulas diárias e da prática de linguagem rotineira, deixei muitas vezes de visitar as Musas. Em vez disso li com certo remorso Os Últimos Dias de Pompéia. "Peguei-a em flagrante!" exclamava a professora quando surpreendia em meu regaço qualquer coisa que não um clássico de literatura. E eu suplicava outra oportunidade. Às vezes, ela me encontrava sentada quieta, aspirando a fragrância dos buxos e das rosas, coisa que me agradava mais do que lidar com a poesia. Desapontada e exasperada, a professora dizia: "Que vergonha! Você tem tantos livros cheios de frases primorosas e idéias interessantes e, no entanto, está aqui sentada como uma tola, sem qualquer lampejo de expressão no rosto." E não me dirigia a palavra até o dia seguinte. Depois disso, ficava toda sorrisos e dizia: "Vamos praticar as palavras compridas de que você gosta; você as pronuncia melhor do que as curtas e eu quero descobrir a razão disso." Lembro-me de alguns desses longos vocábulos de minhas lições: "atitude", "altitude", "considerável" e "petrificado". Recordo a última porque, certa vez, eu a assustei sem querer retesando a garganta e a língua e fazendo-a exclamar com os lábios: "Oh, pare, Helena! Você parece estar petrificada". Depois de praticarmos durante algum tempo, a professora dizia: "Veja se você consegue dar colorido e interesse à poesia, como acabou de dar a essas palavras compridas." Algumas vezes a idéia produzia resultado, outras vezes não. A professora sentia-se radiosa a cada progresso meu e tornava-se freqüentemente severa com os meus fracassos. Penso que os incessantes reveses que sofri nos meus esforços para me tornar uma nova Marjorie Dawn, (este era o nome da amiguinha de Walter Scott) eram maiores do que o que eu podia suportar. Era verdadeiramente perturbador sentir a professora observar o meu rosto e os meus lábios com tanta tenSão como se temesse ficar cega a qualquer momento. É com Prazer que medito hoje sobre como as suas idéias, o seu entusiasmo celta e também o seu temperamento burilaram o meu spirito, fazendo da poesia como que "um barco de bronze e cristal" que me conduziria para além da prisão dos sentidos; contudo, é com tristeza que recordo a visão e a energia que ela despendeu tentando o impossível.


Hellen Keller e Anne Sullivan
Hellen Keller com Anne Sullivan

Se eu pudesse tecer as palavras com a delicadeza das belas rendas que vi na Bretanha e na Irlanda, ser-me-ia mais fácil contar como se desfez em pó outro sonho da professora. Durante uma de nossas visitas a Boston um artista nosso amigo, Albert H. Munsell, que havia pintado o meu retrato, me disse: "Sei que você gosta de apalpar estátuas, que possui mãos sensíveis de artista. Por que você não procura saber se tem talento para a Escultura?" As suas palavras nos entusiasmaram com a perspectiva de novas descobertas. (A professora nada me disse, na ocasião, a respeito da estátua de neve, feita por ela, pouco depois das operações que lhe permitiram recuperar toda a visão que teria em sua vida e, só anos mais tarde, eu soube que ela tinha vocação para a Escultura, a qual poderia ter sido cultivada). Ela sentia-se feliz em pensar que eu poderia cultivar uma extrema sensibilidade no tato e criar belas e significativas obras de arte plástica. A professora tinha curiosidade em saber se podia ensinar aos cegos, dotados de senso de estética, a fazer esculturas de real valor e o seu insaciável desejo de explorar as possibilidades ocultas em cada ser humano guiava-a por essa trilha de beleza. Imaginou até um meio de ministrar-me o ensino de outras matérias a fim de apurar a minha sensibilidade artística e estimular o meu amor à criação. Nós duas recebemos então instruções, primeiro em cera, depois em argila, A princípio fiquei fascinada com a variedade de objetos que podia modelar -- xícaras, pires, cestas, frutas e assim por diante. A professora observava esperançosa e sonhava enquanto eu copiava uma planta ou o modelo de um pássaro. "Toque todas as coisas como você tocaria uma flor - de leve, com suavidade; observe longamente, assim como observa minha voz, e imite com cuidado na argila de modelar", admoestava. Eu queria vê-la feliz e trabalhava até sentir as mãos cansadíssimas. Annie lia para mim biografias de escultores, a fim de que eu ficasse a par da tremenda força de vontade com que trabalhavam até conseguir o que ambicionavam. E eu fazia novas tentativas. Um dia, porém, fracassei redondamente ao ver-me às voltas com uma planta grande, artificial, desinteressante; não se parecia com os graciosos fetos que eu apalpara nos bosques. A professora insistiu em que eu a copiasse corretamente, mas ai de mim, não me mostrei perseverante como ela o desejava. Eu preferia ler. Ela não o permitiu e me submeteu a uma penosa tarefa de trabalhos enfadonhos, que não produziram resultados satisfatórios. Certa manhã, teve uma explosão de cólera e me esbofeteou com a argila fria e molhada. Contudo, havia na professora uma indefinível ternura que fazia com que se arrependesse facilmente de seus gestos bruscos e dissesse contra si os piores nomes que lhe ocorriam. Pouco depois daquele arrebatamento, aproximou-se de mim e disse: "Perdoe-me, Helena! Nunca posso imaginar que você seja surda e cega; amo-a demais para pensar assim. Mas eu devia-me lembrar de que você é uma criatura humana e de que não posso ser tão ambiciosa a ponto de não a deixar descansar de vez em quando." Haverá cena mais comovente do que a de uma mulher sábia e extremamente sensível pedindo perdão a uma criança, reproduzindo o gesto do Rei Lear ajoelhado diante de Cordélia. Aquelas ternas palavras, contudo, não atenuavam a tragédia que constituía para ela o fato de não me poder fazer presente do talismã com que havia operado em si mesma uma prodigiosa transformação. Quanto a mim, não sinto menos profundamente por ter fracassado na dedicação plena àquela gloriosa aventura. Na maturidade cheguei a modelar cabeças que, Pelo menos, sugeriram a um ou dois artistas amigos traços dos meus ideais espirituais e, se estivesse então livre, teria labutado intensamente em memória da professora e também pela satisfação de realizar algo que os cegos-surdos ainda não haviam tentado. Não foi Annie Sullivan, mas o destino, ou eu mesma, com a obstinação e a crueldade inconsciente de uma criança de vontade forte, quem decidiu o meu futuro.

Antes que a professora completasse vinte e nove anos e eu quinze, jamais pude conceber a personalidade independente de sua vocação de amante da beleza. Mas, à medida que me tornava mais experiente, ela me manifestava todas as variedades de seu humor e por causa disto não fui tomada de surpresa pelas tempestades do destino.

Aos quinze anos, quando pude observá-la mais de perto, aprendi que a sua disposição de espírito mudava continuamente. "Não repita o que lhe vou contar", dizia, e me colocava a par do seu cansaço diante de mulheres que a importunavam com os seus pequenos dramas e futilidades. Juntas vimos a vida em todos os seus diferentes aspectos e estivemos freqüentemente no convívio dos grandes, dos talentosos, dos poderosos, entre os quais se achavam, mulheres belas, tanto física como espiritualmente, cuja conversação cativava a professora. O que a irritava eram as palestras desprovidas de idéias e as ações sem a graça da individualidade. Desculpava os pobres desafortunados e os inválidos desprotegidos e ignorantes, mas nunca os que possuíam meios de se educar e aperfeiçoar.

A professora sofreu também, embora por pouco tempo, de uma melancolia que a tornou incapaz de reagir até aos mais bondosos gestos de seus amigos íntimos. Fugia deles em direção aos bosques ou, se estava perto do mar, ocultava-se durante horas sob um barco que estivesse na praia. Mais tarde, porém, voltava aos amigos e pedia desculpas. Certa ocasião em que sofria de erisipela, ocultou-se de todos, até de mim, durante um dia inteiro, e só na hora da ceia minha mãe encontrou-a deitada na cama. Tenho conhecido gente tola que não se quer esclarecer sobre esses males humanos e, portanto, não posso contar toda a verdade, embora eu nada diga que não seja verdadeiro. Sem dúvida, esses sombrios estados de alma tiveram início durante a juventude de Annie em Perkins e continuaram a afligi-la esporadicamente até a morte, prejudicando-lhe a visão. A cada assalto reagia valentemente e, embora muitas vezes se irritasse, nunca perdia ou interrompia o livre exercício de suas faculdades mentais, exceto quando dormia e aquele cruel patrão, o cérebro, guiava o leme dela como bem entendia. Acordada, analisava as suas dificuldades com uma clareza diamantina e prontamente voltava a ser a mesma pessoa animada, sadia e brincalhona. Pela multiplicidade de cartas que era obrigada a escrever e que eu datilografava para ela, vi como a professora era capaz de conservar a mente voltada para assuntos que exigiam minuciosa atenção e conceber planos de longo alcance, como os que me facultaram a educação universitária.

Muitos anos depois, visitamos juntas a Irlanda. Revejo-a agora entre as lembranças da terra dos seus pais, terra cheia de umidade e rochedos brilhantes banhados pelo sol, ou faiscando a uma luz verde e irreal, terra animada por um povo ativo, exuberante de imagens, combativo e irônico, dando um toque de fantástico a cada coisa, apresentando todas essas qualidades combinadas ou eclipsadas umas pelas outras, de acordo com os ritmos de um clima surpreendentemente inconstante.

A professora não era coerente. No entanto, foi a única mulher que eu conheci intimamente capaz de se entregar às asperezas de uma discussão e sair vitoriosa. Era preciso cautela com suas impetuosas réplicas quando falava com demasiada firmeza ou entusiasmo em favor disto ou daquilo. Aborrecia-se com o lugar-comum em qualquer assunto: educação, política, religião ou qualquer outra esfera de intercâmbio social. Uma conversa arrastada sobre Ciência ou Filosofia era um suplício para os seus nervos, mas a palestra agradável de um Mark Twain ou de um Dr. Alexandre Graham Bell prendia-lhe a atenção sobre um tema profundo, durante um tempo suficiente para fazê-la sentir-se arejada e inspirada. Detestava a retórica, mas era sensível a qualquer expressão das faculdades superiores de outrem.

Eu procurava não discutir com ela - e poucas vezes o conseguia- pois sabia que ela me faria ficar confusa e sem argumentos, principalmente quando ela estava zangada ou com a imaginação inflamada. Os seus comentários brotavam espontaneamente, de modo convincente e incisivo, deixando-me "ofuscada, encantada e muda ao mesmo tempo". Não falava como um poeta, exceto quando descrevia para mim as belezas arrebatadoras da Natureza, mas secretamente anotava fragmentos de poesia, à medida que estes lhe ocorriam. A maior parte desses fragmentos foi queimada no incêndio que destruiu nossa casa de Arcan Ridge; alguns, porém, escaparam. Aqui está um deles:

Quando Deus abre os portões da luz,
Loucas fantasias pousam nas bordas da lua
Como fantasmas de pássaros.
O riacho escuro da vida corre
Descuidado através do tempo e do espaço;
Ninguém reconhece a luz
Que penetra nos grandes olhos fechados ao seu destino.
Tudo se move num grande oceano;
Idéias de um outro silêncio derramam-se
Como flores que se abrem na noite.;
Tombam no espaço como a chuva de abril.
Colorida e de forma própria
Como a pérola na concha da ostra.
Depois, mãos invisíveis mergulham em pequenas
poças do céu; Aqui e ali
As mãos do espírito ficam úmidas
Com a prata das gotas de chuva;
Com toda a sua percepção a mente assinala
A fuga variável do vento,
Deixando cair pérolas sobre os muros da noite
Fazendo penetrar na escuridão as gotas de chuva,
O espírito avançando no mundo da luz.

Se a visão da professora fosse normal, estou certa de que se deleitaria na contemplação do firmamento, das estrelas e dos planetas como diante de um espetáculo estupendo e eternamente variável. Na impossibilidade de fazê-lo, preferia o universo dos livros, embora os seus fracos olhos pudessem absorver apenas uma reduzida porção deles.

A poesia e a música eram suas aliadas. Em seus dedos os vocábulos cantavam, agitavam-se, dançavam, zumbiam e murmuravam. Ela fazia vibrar cada palavra no meu espírito e não permitia que fosse silencioso, o silêncio que me rodeava. Ela procurava manter em meu pensamento as qualidades audíveis, perceptíveis e outras ainda, de todos os objetos que eu tocava. Fazia-me entrar em contato sensorial com tudo o que pudéssemos tocar ou sentir: a calma ensolarada do verão, o estremecimento das bolhas de sabão em contato com a luz, o canto dos pássaros, a fúria das tempestades, o ruído dos insetos, o murmúrio das árvores, as vozes queridas ou desagradáveis, as vibrações familiares do fogo na lareira, o farfalhar da seda, o ranger de uma porta e o sangue que pulsava em minhas veias.

Aqui está outro de seus fragmentos:

Mãos, compreensivas mãos
Mãos que acariciam como delicadas folhas verdes,
Mãos, ávidas mãos.
Mãos que colhem saber de grandes livros,
Livros em Braille...
Mãos que enchem o vácuo de coisas vivas,
Mãos tão quietas, cruzadas sobre um livro..
Mãos esquecidas de palavras que foram lidas a noite inteira,
Mãos adormecidas sobre a página aberta,
Mãos vigorosas que semeiam e colhem idéias,
Mãos trêmulas e extáticas ouvindo música,
Mãos que marcam o ritmo da canção e da dança.

Certas circunstâncias da minha meninice revelaram outros aspectos da personalidade da professora. Durante o inverno e a primavera de 1897-98, fomos hóspedes de nossos amigos, o senhor e a senhora Joseph E. Chamberlin, na bonita e antiga aldeia de Wrentham, Massachusetts. Por vários anos, havíamos feito alegres visitas a sua casa coberta de videiras, Red Farm, que dominava a lagoa King Philip, mas depois que nos receberam como hóspedes, fiquei fascinada por novos aspectos da personalidade da professora. Ela costumava dizer que aqueles oito meses foram um dos períodos mais felizes de sua vida. Pela primeira vez, desde que estava comigo, desfrutava de autêntica liberdade e nada me poderia proporcionar maior prazer do que isto, pois eu muito desejava que ela vivesse a sua própria vida.

Durante cerca de sete anos, desde o infeliz episódio do The Frosí King, que nos causara indizível sofrimento, a professora havia estado, por assim dizer, prisioneira de uma sensação de incapacidade. The Frost King é uma historieta Que escrevi quando tinha dez anos. Pensava realmente que ela "saíra da minha cabeça" e enviei-a como presente de aniversário ao senhor Anagnos, diretor da Instituição Perkins. Este gostou tanto dela que a mandou publicar; então, Para nosso horror, descobrimos que eu a tinha plagiado de84

uma história do livro de Miss Margaret Canby, Birdie and his Fairy Friends! Evidentemente eu a lera dois ou três anos antes, ou alguém (não a professora) a tinha lido para mim; esqueci-me completamente do fato até que a historieta me voltou à memória com tanta clareza que pensei que fosse minha.

Miss Canby foi muito compreensiva e generosa e vários de nossos amigos nos prestaram o seu apoio. Orgulhosa e sensível em todos os assuntos referentes à minha felicidade, Anne Sullivan tentou ressuscitar o meu interesse por trabalhos literários, encorajando-me a escrever um conto sobre minha vida para The Youths Companion, mas eu não conseguia expressar-me livremente, tanto medo tinha de, inadvertidamente, copiar um trabalho alheio e ser novamente acusada de plagiaria. A mestra se sentiu ofendida pelo fato de minha honestidade ter sido posta em dúvida por pessoas que não queriam reconhecer que todas as crianças, cegas ou dotadas de visão, aprendem a expressar suas idéias por meio da imitação e de assimilação. Além disso, ficou embaraçada, como lhe acontecia freqüentemente pela lembrança de sua própria educação deficiente.

Até então estivera confiante no rumo adotado para o meu desenvolvimento, mas daí em diante esse recurso parecia começar a faltar-lhe. Contudo, ela estava decidida a fazer com que o meu espírito continuasse a desenvolver-se livre de temores e, ao mesmo tempo, sentia que me havia chegado a época de estudar com instrutores especializados. Depois do inquérito sobre o meu "plágio", no curso do qual enfrentei sozinha um conselho, na Instituição Perkins, não quis permanecer ali. Para onde iria eu, porém, e para quem se voltaria a professora em busca de conselhos relativos à experiência que ela estava empreendendo?

Os amigos procuravam distrair-nos, organizando interessantes excursões, e foi assim que nos fizeram comparecer à posse do presidente Cleveland e nos proporcionaram um dia emocionante entre as maravilhas das cataratas do Niágara. O Dr. Alexandre Graham Bell foi conosco à Feira Mundial de Chicago. A professora se consolava com o fluxo constante de novas palavras que me animava e enriquecia os meus conceitos do mundo; mas onde, onde poderia ela me colocar sob a direção de mestres competentes, que dispensassem conhecimentos especializados?

No outono de 1893, visitamos a família do senhor Wil-liam Wade, em Hulton, Pensilvânia e a professora descobriu o que lhe parecia uma oportunidade favorável para mim. Um vizinho dos Wades, o senhor Irons, que era um competente mestre de Latim, consentiu em me receber como aluna. Foi uma experiência agradável, para mim, iniciar aulas regulares. Os ensinamentos eficientes do senhor Irons despertaram a verdadeira menina estudiosa que a professora esperava que eu fosse. O mestre também me auxiliava em Aritmética e me fêz ler com êle, de um ponto de vista crítico, o In Memoriam, de Tennyson, que eu possuía com letras em relevo. Comecei a ler a Guerra Gálica de César e comecei a adorar o estudo de línguas estrangeiras, considerando-as minhas matérias favoritas. Ficamos, porém, apenas três meses em Hulton e, quando as aulas foram interrompidas, a professora se sentiu novamente como num barco sem leme. Tensa, nervosa, vagava e ziguezagueava à procura de um curso que se adaptasse às minhas aptidões. Meu pai não lhe pudera pagar o salário durante vários anos; ela, porém, nunca me mencionou tal fato. Annie Sullivan era uma das pessoas mais desinteressadas por dinheiro que já conheci. Conforme soube, quando fiquei mais velha, ela acreditava que, mesmo quando não se tivesse um cêntimo, devia-se encarar o futuro de cabeça erguida e prosseguir-se na jornada. O seu desejo de me ver instruída e preparada, Para poder futuramente fazer o bem a outros, era mais forte do que qualquer temor por dificuldades financeiras. Nada podia resistir ao misto de dignidade e audácia com que lutava pela minha causa. Não me surpreenderia saber que um amigo compreensivo como o Dr. Bell havia aplainado as nossas dificuldades financeiras, a fim de que pudéssemos assistir a congressos em prol dos surdos. A professora me considerava um habitante do mundo das pessoas normais e isso a impedia de tolerar um certo tipo de surdos ou cegos; contudo, acompanhou-me à Escola de Surdos Wright Humason, em Nova Iorque, com a esperança de que a minha fala adquirisse asas, ficasse afinada a ponto de emprestar suavidade às palavras de ânimo e conforto que eu desejava pronunciar. Aguardava-nos, porém, o desapontamento. Embora os meus outros estudos fossem muito interessantes e, até hoje, eu guardo uma agradável lembrança da grande bondade com que os professores da escola me transmitiam conhecimentos superiores, foi o nobre espírito de alguém que tinha confiança em mim e na professora - o senhor John Spaulding, de Boston - que nos permitiu enfrentar aquela parte de minha educação.

Por essa época, eu estava com dezesseis anos e havia tomado a resolução de ir para a universidade. Com a ajuda sempre pronta da professora, eu havia resistido aos conselhos vigorosamente argumentados de amigos que achavam que eu devia "levar tudo com calma", seguir meu curso de Radcliffe, estudando especialmente Literatura Inglesa e alguma outra matéria e assim me preparar para executar um determinado trabalho. Não sentia dentro de mim os lampejos do gênio ou de um talento excepcional para justificar preparação tão minuciosa em duas ou três matérias e não queria que me dissessem o que eu devia ou não devia fazer, só porque eu era diferente dos outros. Preferia competir com moças dotadas de audição e vista na aquisição de conhecimentos gerais e, em seguida, decidir sobre quaisquer possibilidades de trabalho que se me pudessem apresentar. Quando relembro aquela memorável ocasião, surpreende-me o autodomínio com que a professora se submeteu às dificuldades e incertezas do curso que eu adotara. Nunca manifestou uma opinião sobre se eu estava certa ou errada. O seu espírito de aventura mostrou-se à altura da ocasião. Foi para ela um alívio, após os muitos dias que passou pensando no meu futuro, que eu própria tivesse tomado a decisão. Durante os meus anos de preparação em Cambridge, decidiu alugar uma casa ou um apartamento onde pudéssemos ficar a sós, tendo Bridget Crimmins, uma irlandesa de quem muito gostávamos, para cuidar dos afazeres domésticos.

A professora esperava que seria respeitada a minha intenção de freqüentar a universidade nas mesmas condições que as outras moças, que as pessoas bem intencionadas, mas intrometidas, me permitissem executar meus planos sem ser molestada e que as más línguas, que ainda espalhavam críticas injustas e suspeitas sobre a minha capacidade, se calassem. Tal, porém, não se deu, como já contei nos meus outros livros; e desejo aqui realçar um serviço que me prestou a professora, nessa ocasião, e que me valeria durante a vida inteira.

Anne Sullivan considerava os cegos não como uma classe à parte, mas como seres humanos dotados de direitos à educação, à recreação e aos empregos tanto quanto possível apropriados a seus gostos e habilidades. Foi por isso que resistiu aos planos do senhor Anagnos de nos conservar a ambas na Instituição Perkins. O senhor Anagnos era um grande amigo meu e eu gostava dele particularmente porque havia sido êle quem me enviara a minha professora e libertadora. Perkins me tinha oferecido preciosas vantagens com seus livros em relevo e a companhia afetuosa das crianças cegas que sabiam escrever em minha mão. A professora, porem, era contrária à internação num instituto de qualquer criança incapacitada que pudesse ser instruída em ambiente normal e o senhor Anagnos deixou de se interessar por nós quando saímos da Instituição Perkins em busca de outras oportunidades. A professora também não gostou da Escola de Surdos Wright Humason, embora apreciasse o bem-estar que eu gozava ali. Foi por isso que me levou para a escola preparatória feminina Gilman, em Cambridge, certa de que ali eu viveria inteiramente entre pessoas normais. O tempo provou a sabedoria de sua decisão. Foi preciso, contudo, empregar a sua rija têmpera para me proteger contra a interferência e o zelo de estranhos que desejavam governar a minha vida. Parece incrível que, depois de dez anos de dedicação a mim, tenham feito uma tentativa deliberada de nos separar na escola Gilman, sem sequer consultar os nossos desejos. O rompimento ocorreu, quando se procurava decidir a respeito do tempo que eu deveria ficar na escola. A princípio, tinha sido planejado que o meu curso duraria cinco anos, mas, à medida que os estudos progrediam, o as- sistente do diretor achou que o período poderia ser reduzido a três anos. Isto agradou a mim e à professora. Ela e o senhor Gilman se desentenderam a respeito de como eu deveria ser "dirigida". Annie Sullivan suspeitava, por amarga experiência, que muitas pessoas, que se ofereciam para nos auxiliar, desejavam, na realidade, usar-me em benefício próprio e, a julgar pelos acontecimentos, o senhor Gilman era um dos que mereciam tal acusação.

Foi uma cruel provação, para mim, ver novamente tratada com injustiça uma pessoa cujos pensamentos, do primeiro ao último, consistiam em ampliar a minha parcela de beleza, de conhecimentos e de realização própria. Enquanto urdiam-se tramas cruéis, em torno dela, Annie Sullivan sentava-se ao meu lado nas classes, anotando as instruções de cada professor, forçando a vista ao ler-me tudo o que não se encontrava em Braille e percorrendo dicionários alemães ou franceses em busca das palavras que eu precisava. O meu aparelho para escrever em grego estava atrasado e ela escrevia, em Braille, para mim, os problemas de Física e Álgebra, traçando com alfinete, sobre um papel duro, as figuras geométricas. Apesar disso, ainda havia forças ocultas que ousavam deter-nos em meu primeiro ano de estudo entre moças normais. Este infeliz incidente já foi narrado em outra ocasião, mas há uma lembrança que não cessará de pesar sobre o meu coração até que Deus me chame a si. Naquela terrível noite, quando a professora soube que o senhor Gilman havia iniciado um movimento para nos separar, ela resolveu recorrer aos nossos sinceros amigos, o casal Richard Derby Fuller, de Boston. Sentia-se dominada pelo desespero. Certa vez, quando se aproximava do rio Charles, teve um impulso quase irresistível de se lançar às águas, mas pareceu-lhe que um anjo a detinha e dizia: "Ainda não". Isto lhe deu forças para voltar a Cambridge, na manhã seguinte e recusar-se a sair, a não ser à força, até ter visto a minha irmã Mildred e a mim. Foi um período angustioso, mas eu e a professora saímos vitoriosas, provando que dentro de dois anos eu estaria pronta para ingressar no Radcliffe College.

Mesmo depois que saímos de Cambridge, fêz-se muito espalhafato acerca de minha saúde e eu fiquei exasperada porque recomendaram à professora que não me deixasse estudar excessivamente. Conforme eu soube mais tarde, isto-era um exemplo da luta entre o bom-senso com respeito aos inválidos e o tolo sentimentalismo que lhes quer evitar a necessidade de trabalhar, por pouco que seja. Quando penso no número infinito de aleijados, de tuberculosos e de outras vítimas da doença ou de privações, que têm sido pioneiros de nobres realizações, sinto-me profundamente envergonhada por terem desperdiçado compaixão para comigo, que era sadia e vigorosa. Eu e a professora conhecíamos o grau de minha resistência. Eu própria queria estudar muito e a mestra apenas me seguia para onde eu desejava ir. Ela não podia deter a minha marcha acelerada em busca da cultura, que os seus antagonistas chamavam de "perfeita opressão", sem me privar da alegria que a juventude normal experimenta em se ilustrar. E o fato de que ela não me deteve, mesmo sob uma crescente pressão, está entre as inúmeras razões porque eu prezo e bendigo o seu amor compreensivo.

Por falar em esforços extremos, havia na professora uma qualidade artística que não posso deixar de destacar. Fosse qual fosse o trabalho extra que eu estivesse executando, ela nunca desleixava a disciplina nascida do seu amor pela poesia e pelo inglês requintado. A minha correspondência com toda classe de pessoas estava-se tornando cada vez mais difícil e, conseqüentemente, mais exigente a necessidade de desembaraço em lidar com cada uma individualmente. Se minhas cartas ou meus temas não estavam à altura de suas normas de bom gosto e clareza ou não revelavam a minha personalidade, ela apontava os defeitos e eu tinha que escrever as cartas várias vezes, até que ela as considerasse não só corretas, como também úteis e expressivas. Foi para mim uma vantagem excepcional estudar Literatura Inglesa, tendo ao lado uma artista da linguagem que procurava apurar ao máximo o meu estilo, com vistas ao dia em que eu pudesse me tornar autora de livros. Mas, afinal de contas, eu e a professora tínhamos consciência de que estávamos na terra.

Para transitórios pesares, simples astúcias,
Elogios, culpas, amores, beijos, lágrimas e sorrisos.

Naquele tempo, eu estava a par de algumas de suas preocupações sobre os males da publicidade e da exploração e estava a par de suas dificuldades financeiras.

À medida que me transformava em mulher, ela desabafava comigo os seus aborrecimentos, sem medo de ser mal interpretada. A professora nem sempre conseguia dominar os nervos, ou a sua "pessoa física", como costumava dizer, e não sabia recolher-se ao próprio íntimo. Não conseguia simplificar-se, dominar a ambição (prefiro dizer amor à perfeição) ou restringir os seus planos em relação a mim. Achava-se esgotada pela agitação e sentia-se incapaz de cultivar a moderação. Não podia submeter-se a qualquer sina que significasse uma derrota para nós. Não possuía o que posso chamar de "religião da cegueira" - a fé que garante a paz na luz e nas trevas, tal como uma substância que se acha duplamente protegida para resistir tanto ao fogo como à água. Colocava tão alto a sua tarefa, que se não fosse sofreada pela nossa afeição, estaria sempre forçando as circunstâncias e desafiando o cruel mundo exterior. Armava-se, todas as manhãs, da resolução de tornar o dia feliz para nós e, muitas vezes, quando contemplava o pôr do sol, absorvendo-lhe o maravilhoso colorido, o seu coração transbordava de alegria pela certeza do trabalho bem executado; às vezes, porém, quando uma composição que eu escrevera não lhe agradava, ou eu não conseguira resolver um problema de Geometria, ou ainda cometera alguma estupidez que a encolerizara - então parecia que uma nuvem de tempestade passava sobre mim.

Considerando os extraordinários encargos que pesavam sobre a professora na Escola Gilman, não posso deixar de ser demasiado grata aos Chamberlins por nos terem recebido. Fomos para lá a fim de que eu pudesse estudar e não apenas para me distrair andando de trenó, brincando com bolas de neve e caminhando sobre o lago gelado. As condições eram ideais Para mim. Todos os membros daquela família falavam tão claramente que eu podia ler-lhes as palavras nos lábios e Betty, uma das moças mais velhas, conhecia o alfabeto manual. Como Mildred, Betty era uma encantadora companheira de folguedos e também se interessava por livros adiantados para a sua idade, tais como A Casa das Sete Torres, de Hawthorne. Gostava de levar-me para o ar livre e inventar brincadeiras interessantes nas quais as outras crianças nos podiam acompanhar. No intervalo das aulas, divertia-me traves-samente com elas e, quando parávamos para tomar fôlego, surgia uma multidão de criancinhas, pedindo-me que lhes contasse as histórias que me povoavam a cabeça, principalmente O Duende que Montou uma Casa e a história O Príncipe e a Andorinha, de Oscar Wilde. Tranqüilizada por ver a minha vida decorrer de modo tão natural, a minha professora sentia-se feliz naquele ambiente compreensivo e afetuoso, onde sabia que era apreciada. Achava-se rodeada de simplicidade e bondade num ambiente rural sadio. Na primavera, ela já se havia libertado do fardo de muitos anos de frustrações e tinha recuperado a sua antiga espontaneidade. Era comovente ver o que um pouco de tato, paciência ou bom humor podiam fazer para abrandar as rugas de sua alma. Com a aproximação de maio, ela sentia que sua vida se tornava cada vez mais intensa e mais feliz. Regozijava-se por fazer parte da vida universal, que é como uma comunhão com Deus. O sangue lhe corria nas veias como a seiva nas plantas e ela voltou ao palácio de nuvens tão caro à sua natureza.

Red Farm, conforme eu já disse, estava situada às margens da lagoa King Philip e, para a professora, constituía um verdadeiro êxtase ficar sob as árvores, quando a temperatura estava amena, e contemplar a harmonia de cores na folhagem e as résteas douradas que o sol poente deixava sobre o lago. Era surpreendente a variedade de cenas, contornos e vistas que lhe proporcionava um grupo de árvores, alguns rochedos e o lago emoldurado pelas colinas pouco elevadas. Vivia sob o encantamento das fadas célticas. Embora não pudesse admirar os longínquos vislumbres de beleza, como o vôo das aves, a menos que usasse binóculo, podia ouvir-lhes a melodia, o que lhe trazia grande felicidade. E Annie Sullivan se perdia na contemplação do encanto do lago, dos céus e da colina. Aprender a remar exigiria um grande esforço de sua vista, mas, a embriaguez de poder gozar de outras distrações além de caminhar, dominou-a e fê-la forçar os olhos como o fizera com os livros. Ela sentia-se realmente louca de alegria, ao mesmo tempo que colhia novas forças do inexaurível tesouro da Natureza.

O senhor Chamberlin era o Ouvinte do Transcvipt de Boston e, por conseguinte, toda classe de gente visitava Red Farm - escritores, poetas, pintores, filósofos e atores. Na companhia dessas pessoas, a professora se movia como um pássaro no ar. A conversação estimulante que entretinha eletrizava-a e lhe multiplicava os pensamentos como a chuva faz desabrochar as flores. Entre elas, encontravam-se Mary Wilkins, Louise Guiney e uma encantadora índia que escrevia fascinantes histórias sobre o seu povo, os Sioux. Conhecemos também Bliss Corman, Richard Hovey, Edward Hol-mesf, que mais tarde inventou a bússola mestra, Louis Mora, que pintou quadros esplêndidos para a Feira Mundial de Chicago, e o poeta canadense Frederico Lampson. A professora irradiava juventude, quando assistia às infindáveis discussões que eles mantinham, e disseram-me que ela demonstrava então viva inteligência, sagacidade e bom humor. Sentia-se encantada por trocar idéias com rapazes e moças que principiavam a explorar novas regiões da vida. A poesia, sob a magia da Natureza, as novas amizades e a compreensão por parte daqueles que distinguiam o seu gosto apurado e a sua paixão pela literatura, combinavam-se para amoldar-lhe a vida com um toque maravilhoso que ela jamais olvidaria. De vez em quando, a vontade de fazer brincadeiras apoderava-se de todos eles e a professora ria a bandeiras despregadas, o que causaria surpresa às solenes personagens que tentaram subjugá-la.

Repetidas vezes me tinham dito que Annie Sullivan era uma mulher fascinante e que havia um brilho irresistível em suas réplicas. As vezes, como fazem às outras moças, pregava peças inteligentes nos rapazes que flertavam com ela. Estava sempre pronta a ouvir novas idéias e um novo mundo se abriu diante dela, quando o senhor Chamberlin, ou tio Ed, como o chamávamos, iniciou-a na poesia de Walt Whit-man. Pessoas cuja afetação e desmedida admiração pela métrica e pela rima as impedia de perceber a verdadeira estatura daquele profeta moderno, haviam-na predisposto contra Whitman. A professora repartiu o seu deleite comigo, mais tarde, quando lemos juntas na universidade, My Cap-tain, O My Captaín, America, e Drum Taps, muito antes que Leaves of Grass fosse publicado em relevo. Ela já havia completado trinta e um anos e nunca estivera mais próxima do seu autodomínio. Estava inflamada de novas esperanças. A melancolia que a oprimia havia afrouxado o seu domínio sobre ela. O futuro era incerto, mas as dúvidas a meu respeito haviam diminuído e o seu amor à vida se tornou mais firme. As suas forças e as suas habilidades práticas se expandiram; deixou de me tratar como criança e passou a não me dar mais ordens.

A professora percebia também que muito do que havia nos livros era falso, quando comparado com a vida real. Reconhecia, com certo medo, que tinha vivido sob uma perigosa ilusão: a de que tudo o que vale a pena se saber se encontra nos livros e de que estes ensinam mais depressa e de modo mais completo. Um dia ela me disse: "De vez em quando mudo as minhas teorias sobre a vida e isto mantém o tédio à distância". Ela não era coerente, como já declarei, e não compreendia que afastar de si, impulsivamente, as suas próprias conclusões era como desenterrar sementes para ver se estão germinando. Suponho que a sua idéia era de que todos os dias perdemos algo de nós mesmos. As nossas ilusões se desfazem, os nossos ideais mudam, as amizades se dissipam e tudo aquilo que nos é familiar como que escorre por entre os nossos dedos. Tórnâmo-nos estranhos ao eu que viveu como se não fosse nós próprios. Contudo, o que a protegeu contra os conceitos desprovidos de sensação foi o seu inextinguível amor pela beleza exterior, e contra as sensações desprovidas de conceitos, foram a sua vontade dominadora, a pertinaz recordação da sua infância e adolescência e das personagens e incidentes em torno dos quais se centralizou a sua vida, naquela época.

Quando mais jovem, a professora costumava assumir uma atitude mais agressiva nas discussões, estivesse falando com os sulistas do velho Sul Confederado, com os ianques, que não compreendiam os problemas dos "negros emancipados", ou com os ministros protestantes que desejavam impor aos outros os seus próprios dogmas. Gostava de ofender os outros e de se sentir ofendida. Podia-se ser inflexível e orgulhosa e, para ela, era um ponto de honra impor os seus argumentos àqueles que diferiam dela, em lugar de conquistá-los com tato. Isto em parte, acontecia, porque ela era uma mulher verdadeiramente livre, mais forte que as circunstâncias. Não quero dizer que fosse forte no sentido de desejar dominar, mas por considerar a personalidade como um dom acima da fortuna e do poder. Não era como o Dr. Alexandre Graham Bell, que podia dizer a um oponente: "Talvez o senhor tenha razão. Vejamos até que ponto coincidem as nossas idéias sobre o assunto. É possível que seja eu quem necessita de esclarecimentos". Era, porém, afetuosa e gostava de provocar no próximo os lampejos de Pensamento independente e o seu grande coração estava Pronto a se arrepender por qualquer falta de consideração, •e lhe faziam perguntas diretas, não disfarçava as suas idéias; era "um porco-espinho de princípios", mas detestava o sarcasmo. Ainda não havia adquirido a ampla caridade e simpatia compreensiva que, futuramente, a aproximariam de todas as pessoas que encontrasse. Mais tarde, mesmo as pessoas aparentemente mais insignificantes revelavam-lhe às vezes, inesperados gestos de bondade ou uma rara faculdade de observação, aspirações que ela sabia que se iriam concretizar, ou demonstravam alegrias e tristezas ao lhe narrarem, com cores vivas, fatos que despertavam eco em sua alma. Ela costumava dizer-me: "Helena, sei que quase todas as pessoas vivem sem conhecer umas às outras e sei também que a vulgaridade me impacienta, mas há milhões de seres mudos cujos pensamentos, se fossem cantados por um poeta ou interpretados por um mestre de gênio, ecoariam pelo mundo inteiro; e, se é sincera a sua fé na Nova Igreja, você procurará, com afinco, descobrir o que a mão de Deus escreveu em cada um deles."

Este é o meu toque final ao retrato mental da professora em Red Farm. Desde menina eu gostava de colocar as mãos sobre o seu rosto. Era tão lindo, tão expressivo e tão cheio de interesse pelas pessoas e pelas coisas! Os seus olhos foram sempre doentes, embora amigos me dissessem que não eram desagradáveis à vista, como os de muitas pessoas cuja visão é deficiente, mas o seu rosto possuía uma beleza peculiar que se casava com os contornos graciosos de todo o seu corpo. Uma adorável e atenta suavidade imprimia-lhe um encanto especial à boca e a recordação de meus beijos infantis, prontamente respondidos, aquece-me hoje como centelhas alimentadas em cinzas. A sua testa era lisa como a de Palas Atena e era encantadora a postura da sua cabeça. Mamãe achava-a muito linda e John Macy, êle próprio um apreciador da beleza, confirmava a minha impressão sobre a graciosidade de Annie Sullivan. O seu semi" melancólico e semicômico sentimento de impaciência contra a estupidez do mundo e o incessante tormento que lhe causavam os olhos deixaram uma marca indelével no seu semblante, embora este nunca perdesse o resplendor da felicidade espontânea, até o dia em que se viu separada de John, e mesmo então apresentava um sorriso encantador para aqueles cuja afeição ela prezava.
 

Portrait of Helen Keller with John Macy and Annie Sullivan Macy, Whitman Studio, ca. 1900
Helen Keller com John Macy e Annie Sullivan Macy, c.1900


A voz da professora, que com tanta constância procurava persuadir a minha a ser natural, era um dom dos deuses. Que eu saiba, ela nunca estudou declamação e, no entanto, a sua dicção era maravilhosamente clara - jamais articulava uma só palavra indistinta, ou uma ênfase fora do lugar. Muitas vezes, ela declarava que gostaria de ser cantora pela alegria de produzir melodias e pela compensação material que isso lhe proporcionaria.

Durante a nossa permanência em Red Farm, os Estados Unidos declararam guerra à Espanha e a professora se ofereceu como enfermeira ao Exército. Nós duas pensávamos da mesma forma acerca de sua vontade de se alistar, porém, ela desistiu da idéia, quando soube que seria preciso tanto tempo para ser treinada a fim de exercer aquela tarefa como para construir um navio. "Vamos para Cuba ou para qualquer outra ilha das Antilhas cultivar laranjas e limões. Podemos, pelo menos, envelhecer em paz e você talvez venha a escrever." O coração palpitou de alegria à perspectiva de tal aventura, mas argumentei que não havia meios de obtermos uma ajuda financeira para tal empresa e, mesmo que fôssemos capazes de cultivar as frutas, não tínhamos o direito de arriscar a sua vista, afastando-nos da assistência médica que ela tanto necessitava. Parece-me, porém, que ela não falava isso a sério, pois dentro de poucos dias havia esquecido o devaneio. Estávamos partindo de Red Farm para casa de campo que a professora havia arrendado próximo ao Lago Wollomonapoag e para onde íamos todos os verões até ocuparmos nossa primeira casa de Wrentham.

Na casa de campo, a professora se sentia ainda mais livre e quando revejo em memória o manancial de seu coração, contemplo as riquezas de sua natureza hospitaleira. Ela convidou mamãe, Mildred e Phillips, meu irmãozinho, para passar conosco o verão e parte do outono, embora mal tivesse meios para custear as nossas despesas. Não nos poderia aguardar mais abundante reserva de alegrias. Annie Sullívan gostava da minha família como se fosse a sua própria e, quanto aos meus, nada lhes poderia causar maior felicidade do que estar conosco entre os lagos e as colinas de Wrentham, depois da morte de papai. Além de meu botezinho, o Naiad, a mestra possuía uma canoa, uma jangada e asas de natação. A casa de campo era visitada por toda espécie de hóspedes - ricos e pobres, especialmente pelos jovens brilhantes do círculo do Tio Ed e todos os Chamberlins. Certo verão em que se realizou um congresso de trabalhadores em prol dos surdos, em Boston, um grande número deles surpreendeu a professora aparecendo certa manhã na casa de campo, muito Regres e bem-humorados, dispostos a nadar e a fazer um piquenique! A chegada inesperada dessa gente foi um transtorno para a professora e para Bridget, que tinham acabado de lavar a louça do café da manhã. E foi preciso todo o seu expediente, bom humor e energia para organizar o programa de natação e remo e para alimentar todos esses alegres invasores. A sua cordialidade e preocupação com o prazer alheio fizeram com que ela se mostrasse à altura da ocasião e que o grupo importuno deixasse a nossa casa de campo satisfeito com o passeio e encantado com o seu delicado interesse pelos métodos de educação dos surdos que ela considerava demasiado antiquados. Contudo, assim que eles se retiraram, ela me suplicou que eu não me dedicasse a atividade em prol dos cegos, ou dos surdos, ou de qualquer outro grupo antes de atingir uma idade mais madura. Nisto repousava mais um de seus inúmeros problemas: impedir que a publicidade me submergisse ou deformasse a minha perspectiva da vida antes que eu estivesse bem orientada em programas de assistência aos incapacitados.

O espírito inventivo da professora era contagioso, enchendo-nos os dias de excitantes aventuras, em algumas das quais eu podia participar, como mergulhar e nadar sobre e debaixo d’água (eu amarrava uma longa corda à cintura, enquanto uma das suas extremidades ficava presa à terra, ou a um bote, de modo que me pudesse mover livremente), participar das corridas de canoas ao fim das quais nós, os jovens, abalroávamos uns aos outros; jogar pólo aquático; tomar parte nas festas à luz de lanternas entre os abetos e os pinheiros; fazer longas caminhadas ao redor do lago ou explorando as várias lagoas que brilhavam como olhos enfeitiçantes na paisagem de Wrentham - e toda vez que falávamos com a professora ela parecia ter a nossa idade.

Anne Sullivan achava que a saúde é a primeira das liberdades e, sem dúvida, a minha capacidade de poder fazer uso de toda a vitalidade que eu possuía proporcionou-me uma nova liberdade. Adquiri maior desembaraço físico com a natação e andando numa bicicleta de dois lugares, consegui o vigor que é a base da saúde. Tornando-me feliz de outras maneiras, a professora literalmente ampliou-me o ser e duplicou-me a intensidade de vida. Era sempre uma revelação, mesmo para nós que a conhecíamos melhor, o seu poder de nos despertar alegria e sensibilidade diante do encanto das macieiras em flor, na primavera, ou da serenidade das noites de verão embalsamadas pelo feno, quando passeávamos de barco. Mesmo quando se achava deprimida, ela estava sempre pronta a espargir esperança pelo árduo caminho da existência. Fosse qual fosse a sua disposição de espírito, achava que, de um modo geral, a humanidade experimenta mais prazer do que sofrimento; e, se assim não fosse, a raça já teria perecido há muito tempo.

Embora, em criança, a professora nunca tivesse feito proezas aquáticas, tornou-se depois exímia nadadora e eu gostava de sentir os seus movimentos seguros ao deslizarmos para longe da margem. Uma tarde, quando Phillips e eu nos estávamos banhando, êle agarrou a minha mão (não sabia o alfabeto manual) e senti que o seu rosto se contraía de terror enquanto eu lia em seus lábios: "Não estou vendo a professora". Corremos loucamente pelo cais chamando por mamãe. Esta se apressou em dar o alarma e vários homens saíram remando para o meio do lago onde avistaram a professora. Esta fora imprudente tentando chegar sozinha até uma ilha. Estava quase sem forças quando os homens a puxaram para o barco e a trouxeram de volta. Vendo como todos nós estávamos aflitos, sorriu enquanto bebia algo quente e disse: "Não se preocupem, estou a salvo". "Você sabe, Helena, como as sereias tentam a gente!" No dia seguinte foi novamente nadar - com mais cautela, porém, não com menos alegria.

A professora era também perita na arte de equitação. Sentia um fascínio por todos os cavalos: cavalos de carruagem, que ela dirigia embora somente em estradas retiradas, e cavalos de tiro, nos quais via insondáveis reservas de paciência e energia. Se a sua vista não fosse tão doente, creio que, como Atalanta, teria montado um cavalo de corrida, igualando o ardor do animal com o de sua própria alma. Certa vez montou num cavalo bravio, pensando que o domaria com carícias e com a sua voz amiga. Subitamente o animal atirou-a numa estrada escabrosa e ela bateu com a cabeça numa pedra aguda com uma força tal que o sangue lhe escorreu pelo pescoço. Como dominou a vertigem que a acometeu é um mistério, mas conseguiu que o animal indômito, embora incerto como ela própria - se deixasse guiar até Red Farm, onde a senhora Chamberlin e um médico, chamado às pressas, cuidaram dela. Esperava-se uma grave infecção mas, para surpresa de todos, esta não se deu e dentro de alguns dias a professora estava outra vez tranqüilamente montando a cavalo. "Veja", disse-me rindo, "quem me pregou uma peça no outro dia não foi nenhum Pégaso alado, mas um cavalinho de carrossel. Algum tempo depois, nosso amigo, o senhor Sanders, de Haverhill, Massachusetts, pai de um menino surdo a quem o Dr. Bell instruíra, deu à professora o mais belo corcel que ela jamais possuiu. Batizamo-lo de Lucky Star e êle logo se tornava querido por onde quer que passasse. Era fiel, afetuoso, veloz como o malfadado cavalo de corrida de A Casa do Carrasco, de Donn Byrne. A professora nunca precisava de rebenque. Conforme escreveu à senhora Lawrence Hutton, esmerava-se em bem tratá-lo e alimentá-lo e o animal lhe comunicava com relinchos todos os seus desejos. Lambia os seus braços roliços antes que ela o montasse e lá iam os dois a trote ou a galope por uma vereda primaveril marginada de flores multicoloridas ou de majestosas plumas de virga-áurea. A mestra sentia gosto em vê-lo com a cabeça erguida e admirava-lhe o brilho do pescoço baio, o declive dos ombros e a marcha rápida que denotava a saúde e leveza do seu corpo. Sem que eu o soubesse, levava consigo um livro e, quando achava um local fresco sob às árvores, com suficiente claridade, desmontava. Em seguida, sentava-se ou deitava-se, com as rédeas do cavalo soltas nos seus pés, e colhia os frutos proibidos de uma leitura prolongada, enquanto Lucky Star mordiscava o capim ou andava pelos arredores, tirando as folhas de algum arbusto próximo. Que quadro encantador deviam formar: a professora com o seu traje de montar côr de ameixa e Lucky com o seu pêlo baio bem escovado e a crina agitando-se! Foi com o coração partido que se separou, quando fomos para Cambridge, de uma criatura que parecia ter nascido especialmente para ela. Tratava-se, porém, do meu último ano na universidade e estávamos incorrendo em pesadas despesas com a restauração da nossa recém-adquirida moradia, para o verão seguinte.
 


Hellen Keller com Anne Sullivan


O desânimo obscureceu as minhas primeiras impressões do colégio Radcliffe. Não me refiro às boas relações que travei com as moças que conheci nem aos estudos que eu tanto apreciava, mas à crescente piora dos olhos doentes da professora. Não me foi possível descobrir com antecedência quais os livros que eu necessitaria para o curso universitário e conseqüentemente a transcrição para o Braille ficou muito atrasada. Tive a sorte de conseguir, em latim, A Eneida, As Éclogas e o poema filosófico de Lucrécio - que lembra extraordinariamente a nossa era atômica - mas foi preciso algum tempo para que eu obtivesse, em Braille, Catulo, Plauto e as cartas de Cícero. Eu lera Anábase e encontrei à minha espera, uma cópia de vários livros da Ilíada. Não havia, porém, vocabulários em relevo e a professora percorria os dicionários em letra de fôrma, a fim de procurar as inúmeras palavras que eu precisava. O curso de Literatura Inglesa compreendia vários livros que não se encontravam em relevo, desde Chaucer até o período abrangido pelo Golden Treasury, de Palgrave, que só depois de muitos anos foi publicado em relevo. Da era isabelina somente as peças e os sonetos de Shakespeare e The Faerie Queen, de Spencer, podiam ser obtidos em Braille. Isto significava que a professora tinha de ler para mim uma infinidade de livros de autores medievais, além de obras em francês e alemão. Muitas vezes a vista lhe falhava e ela viu-se obrigada a consultar o Dr. Morgan, um famoso oftalmologista recomendado pela senhora Hutton. Quando este soube que a professora lia para mim, diariamente, durante cinco horas ou mais, exclamou: "Oh, meu Deus Isto é rematada loucura, senhorita Sullivan. Você precisa descansar completamente a vista se quiser que a senhorita Keller termine o curso". Como odiei os livros naquele momento. Não era fácil encontrar-se imediatamente alguém para me auxiliar e aqueles "dedicados gêniozinhos" que eram os olhos da professora continuaram o seu penoso trabalho, enquanto eu sofria uma inexprimível tortura. Quando a mestra perguntava se eu queria ouvir pela segunda vez certas passagens, eu mentia e afirmava que as poderia recordar. Para falar a verdade, elas haviam escapado à memória. Finalmente, Lenore Kinney, que se casara havia pouco tempo com Philip Smith, um geólogo de Harvard, e que conhecia o alfabeto manual, passou a ler para mim e nunca deixei de abençoá-la por ter-me restituído a paz de espírito. Sem lhe falar acerca das minhas mentiras, pedi-lhe que procurasse as passagens que eu havia esquecido e assim recuperei o bastante para passar nos exames do meio do ano.

Naturalmente naquela época, era quase impossível a professora escrever. Ela mal podia enxergar além do nariz e tinha que se concentrar no lápis e na palavra que estava traçando. Isto era uma dura prova para o seu temperamento e lhe cerceava toda inspiração, alegria e fluxo de idéias. Depois que aprendi datilografia, passei a copiar todas as suas contas, anotações e cartas. Então as suas idéias voltaram a fluir livremente e eu sentia um grande consolo por lhe poder prestar algum serviço.

Todos os amigos que souberam de nossas dificuldades procuraram ajudar-nos na medida do possível. Entre estes se encontrava John Macy. Além de redigir a história de minha vida, que consistia originalmente em temas colegiais, êle sugeria os estudos para os meus dois últimos anos em Radcliffe, que poupariam até certo ponto os olhos da professora, lendo para mim sempre que podia escapar de suas aulas.

Desejo aqui prestar um tributo de gratidão ao Dr. Gold-thwaite, de Boston. Durante muito tempo a professora fora obrigada a usar ataduras nos pés, talvez em conseqüência de ter tido que calçar sapatos demasiado pequenos quando era criança. No meu último ano de universidade ela claudi-cava acentuadamente e John Macy a persuadiu a consultar o Dr. Goldthwaite. Após minucioso exame, o eminente cirurgião declarou que seria preciso operá-la. A professora respondeu prontamente que não se submeteria a uma operação até que eu me graduasse. O médico respondeu com firmeza: "Senhorita Sullivan, sua saúde é mais importante que a educação de Helena Keller". Eu tive vontade de beijá-lo por isso. Não tínhamos dinheiro para a hospitalização, mas o Dr. Goldthwaite veio ao apartamento onde morávamos trazendo uma enfermeira e os instrumentos necessários à operação. Bridget esfregou a cozinha até mais não poder, instalamos uma mesa extra e o médico e a enfermeira aplicaram a anestesia. Jamais esquecerei como o Dr. Goldthwaite me pareceu alto, forte e belo quando carregou nos braços a professora para a improvisada sala de operações. Salvou-a de ficar defeituosa pelo resto da vida. Dentro de um mês estava caminhando comigo melhor do que jamais o fizera. É preciso ler-se Os Heróis e o seu Culto, de Carlyle, para compreender-se a veneração da professora pelos médicos depois dessa experiência.

Em Minha Vida de Mulher, descrevi minuciosamente uma outra tentativa feita para me afastar dos estudos - o Plano para estabelecer em meu nome uma escola para crianças surdas e cegas. Isto tocou o lado afetivo de minha natureza e desejei ser livre para ajudar a libertar as crianças da dupla prisão da alma e do corpo que eu já conhecera; mas era um direito meu, assim como um dever completar o curso universitário, a fim de demonstrar até que ponto os duplamente incapacitados podem-se desenvolver. A professora havia decidido que eu não seria influenciada por nenhuma escola. Menciono o fato simplesmente porque se acha entre os inúmeros aborrecimentos que tivemos e porque aumentou o desapontamento da professora por não ter eu conseguido os primeiros lugares em todas as matérias que estudei. Sentia-se torturada de emoção e abatimento por causa da minha aparente falta de zelo para obter as notas máximas. Annie Sullivan possuía um estranho senso dos grandes obstáculos e dos abismos de indecisão e necessitava de carinho a fim de se reanimar para uma nova perspectiva das possibilidades da vida. Foi graças à árdua aprendizagem que recebemos da professora que, desde que ela deixou este mundo, eu e Polly Thomson temos sido capazes de eliminar os planos dos que nos querem dominar e temos conseguido manter a nossa posição de mulheres livres e confiantes

Depois que eu e a professora nos instalamos em Wrentham, ela ficou, durante um ano, mudando continuamente de opinião a respeito do seu casamento com John e eu disse para mim mesma: "O curso do verdadeiro amor jamais correu tranqüilo". Eu estava contente por ela ter encontrado um homem bom, como então supunha, para participar de suas tarefas e ajudá-la a carregar o seu fardo. Uma noite, ao voltarmos de uma conferência em Boston, onde eu havia falado para os cegos e John me servira de intérprete, sentei-me em seu quarto e ela me disse que eu ficara bonita e graciosa de pé, em frente à platéia, e finalmente, me comunicou que jamais se casaria. "Oh, professora", exclamei, "se você gosta de John e o manda embora, eu me sentirei como um terrível estorvo à sua felicidade!"

Seja como fôr, quando tento penetrar nas flutuações daquele passado distante, sou perseguida pela idéia de que Annie jamais aceitou inteiramente o fato de ser casada. Ela tinha adquirido maior autodomínio - controlava bem os seus estados depressivos, como um treinador domina suas feras, embora de vez em quando pudesse ouvi-las rugindo, e dizia que precisava de mim para manter-se calma e ajuizada. John era um amigo inestimável, pois me dava ótimos conselhos sobre o meu trabalho literário e lia em voz alta para a esposa uma quantidade de livros encantadores, espirituosos ou geniais, afastando assim os seus ataques de melancolia. Êle era dotado de uma aguda percepção para os esplendores da Natureza, embora nunca desse apreço às asperezas de uma vida simples e independente, como a de Thoreau. Participando de nossas alegrias, enriquecia-as com seu indefinível encanto.

Contudo, havia uma pequena discordância no modo de ser das duas vidas que tornavam tão feliz a minha. O temperamento de Anne Sullivan, cheio de nuanças, agravado por seus nervos abalados, intrigava as pessoas simples e mesmo as pessoas mais sensatas nem sempre sabiam exatamente a que atribuir os impulsos de sua natureza. Só a afeição verdadeira capacitava o melhor dos amigos a decifrar algumas das luzes e sombras do seu gênio. Ela estava sempre à procura de um derivativo para a sua inquietação. Acreditava em viajar freqüentemente para ver coisas novas; com isto não quero insinuar um fútil anseio por distrações, mas uma necessidade de auto-renovação. "Somos demasiado aferrados a hábitos", dizia. Desejaria ter prestado mais atenção às suas sugestões. Ela se esforçava para que eu encontrasse gente moça e tivesse aventuras fora do comum, introduzindo assim constantemente um elemento novo no meu ambiente. Penso agora que deveríamos manter-nos por um processo similar ao da mudança de penas nos pássaros. Uma alteração adequada ajuda-nos a fazer um balanço de nossas idéias a fim de que o espírito possa se recrear, aventurar-se num plano mais alto com asas mais poderosas e despertar e ativar novos interesses. Isto pode ser - quem sabe? - uma solução para os problemas sociais. Pode-se unir a alegria ao dever e o útil ao belo, proporcionando-se a outrem equilíbrio e harmonia. Como desejaria ter viajado com a professora até os confins do mundo! Mas, por essa época, eu me havia preparado para a faina literária, O animal selvagem, dentro de mim, debatera-se e resistira mas se submetera por fim ao jugo, e eu não queria vê-lo liberto até ter realizado algum trabalho. Ela ficou muito zangada comigo, mas respeitou a minha personalidade como respeitava a sua própria e a nossa tempestade num copo d'água amainou.

Mais tarde propôs uma viagem às Bermudas. Depois de estudar nossas finanças, verifiquei que simplesmente não possuíamos dinheiro para realizar tal passeio - e nem mesmo para as despesas imediatas - e eu não sabia se ganharia o bastante para uma excursão despreocupada, escrevendo artigos sobre a viagem. A professora trovejou como o deus Pã e logo em seguida irradiou uma céltica alegria, Apesar disto, não posso esquecer que lhe causei esse desapontamento

Só para gozar de sua deliciosa imprevidência eu estava sempre disposta a interromper qualquer tarefa, como varrer, espanar ou escrever a máquina, a fim de passear ou fazer piqueniques com ela no bosque de pinheiros próximo à nossa casa, ou correr a juntar palha para as imensas fogueiras que ela tanto apreciava e se comprazia ao observar as belas chamas que saltavam cada vez mais alto e depois se extinguiam no chão. Outras vezes, íamos ao lago em roupa de banho, enquanto uma tempestade açoitava furiosamente as ondas e os relâmpagos brincavam à nossa volta. Ficávamos encharcados com as pesadas gotas de chuva, mas depois o firmamento clareava e nós mergulhávamos na água para nadar. A excitação era a vida da sua alma.

Quando reflito naqueles adoráveis traços do temperamento da professora, acode-me que a razão básica de sua ansiedade para escaparmos ao eterno bater de minha máquina de escrever era a maldosa acusação que lhe haviam feito de estar ela me forçando a trabalhar demasiado na escola preparatória feminina de Cambrídge. Depois daquele acidente eu não quis consultar os médicos enquanto me achava na universidade, temendo que um falso boato fosse espalhado contra a professora. Sofri diariamente de dores de cabeça que me dificultavam os estudos e, em desespero, livrava-me delas fazendo jejum durante um ou dois dias. A professora foi um amor e me deixou sofrer as conseqüências de minha resolução sem um só comentário. As dores de cabeça desapareceram, mas os fados me puniram por ter eu exagerado. Passei a sofrer de anemia e tive um longo assédio de nevralgia. Pode-se bem imaginar quão profundamente agitada ficou a professora ao descobrir o medo opressivo que me havia perseguido desde os meus dezoito anos de idade.

Houve, porém, uma outra circunstância que nos causou grande felicidade: a sua completa liberdade de me falar como falava aos outros. Nossas aventuras na escola de Cambridge haviam-lhe conferido uma prudência particular ao expressar, diante de mim, os seus pontos de vista sobre assuntos públicos porque haviam afirmado abertamente que ela impunha suas opiniões à minha jovem mente. Um amigo do Canadá que estava sempre procurando, muitas vezes com êxito, oportunidades culturais para os sem recursos, escreveu-me uma sábia carta onde dizia que eu era uma jovem educada e que tivera uma infância feliz, apesar da surdez e da cegueira e que a cultura era um princípio de democracia aplicável a todos os capazes de aprender. Lembrou que eu estava freqüentemente em companhia dos grandes, dos talentosos, dos influentes e sugeriu que sem mencionar-lhe o nome, eu expusesse diante de algum poderoso filantropo o seu plano de fundar uma escola para moças em Cuba. O projeto estava habilmente esboçado e a carta me fornecia todas as informações necessárias; a professora não achou nenhum inconveniente em que eu mandasse uma carta à senhora Hutton. Esta se interessou pelo projeto e mostrou a missiva a pessoas abastadas e influentes das suas relações. Ela pensava, assim como a professora, que a idéia era construtiva e que alguém poderia adotá-la como sua. De sementes lançadas ao acaso têm surgido movimentos que repercutem pelo mundo inteiro. Qual não foi a nossa penosa surpresa quando a senhora Hutton nos informou de que seus amigos não acreditavam que eu fosse a autora da carta! Ferida por uma atitude tão desprovida de imaginação e espirito público da parte de pessoas cultas e talentosas, a professora, depois disso, calou diante de mim em todos os assuntos - educacionais, políticos, sociais ou religiosos - que a agitavam profundamente. Na universidade, ela tinha sido também agrilhoada pela tirania da sociedade, que declarava que eu era um autômato, um porta-voz a ecoar os seus pensamentos e sentimentos. Depois que se casou, porém, sofreu uma agradável mudança. Os seus dedos, para não dizer a sua língua, se desembaraçaram e eu gostei de uma nova modalidade de companheirismo. Na nossa própria casa, quando John lia em voz alta sobre assuntos que provocavam controvérsia, a professora me transmitia as suas opiniões sem reserva e era para nós ao mesmo tempo divertido e agradável podermos discutir à vontade.

Ela não era sufragista. Eu o era. Naquele tempo, a professora tinha idéias muito conservadoras. Jamais defendia idéias avançadas, exceto ao combater contra toda limitação causada pelo homem, reputando-a um crime. Considerava sagrada a liberdade de espírito, de consciência e de pesquisa. Quanto mais falávamos tanto menos pensávamos de igual modo, exceto no nosso comum anseio do bem e no nosso intenso desejo de ver a inteligência considerada como atributo universal da humanidade. Como Mark Twain, ela era muito pessimista em relação ao progresso. Mesmo o trabalho em prol dos cegos não constituía exceção. Havia testemunhado belos resultados obtidos por homens sem visão, de têmpera excepcional, que haviam transformado a sua desgraça numa riqueza de dedicação ao próximo, mas duvidava que o cego comum tivesse capacidade para realizar uma vida total. É para mim uma alegria poder hoje provar que as atividades dos cegos comuns se desenvolveram de tal modo neste país e na Grã-Bretanha, durante os últimos trinta anos, que um número cada vez maior, onde se incluem os cegos-surdos, está conseguindo a independência e alcançando a verdadeira felicidade. Cada vez que volto os pensamentos para a professora, desejo que ela possa descobrir neles os tesouros que não esperava pudessem ser revelados nas trevas. Na verdade, quando passei a conhecer a sua completa personalidade, comecei a vê-la como um tecido de chamas e me senti um ser privilegiado por poder caminhar no fogo benéfico de sua pronta intuição e idéias progressistas. Os poucos anos, durante os quais o casamento lhe proporcionou felicidade e satisfação, foram, em vários sentidos, a parte mais produtiva de nossa vida em comum.

Mas, de acordo com a sua natureza, a professora, não podia conter a sua impaciência em um lugarejo onde nada acontecia ou dedicar-se inteiramente aos afazeres domésticos - e Thoreau teria compreendido o seu ponto de vista. Sempre que lhe surgia uma oportunidade, procurava as aventuras da equitação. Infelizmente ela tinha escolhido um cavalo malvado, mas, como era êle belo e arisco, ela se apegara a êle, enquanto eu fazia votos para que a sua bondade e a sua voz encantadora o subjugassem. Certa manhã, eu estivera passeando no campo e quando entrei em casa alguém me disse: "Aquele cavalo endiabrado tentou matar a professora. Lançou-a ao chão e ela está agora de cama". Perguntei se ficara muito ferida. "Não, mas está muito abalada". Encolerizei-me de súbito. Durante dezesseis anos, ela aproveitara todas as oportunidades para experimentar qualquer cavalo que se deixasse montar, mesmo desatendendo a avisos de que o animal não oferecia muita segurança. Perdi a paciência com essas suas loucas escapadas e fiquei completamente descontrolada. Falei-lhe com aspereza e ela riu amargamente, dizendo: "Desculpe-me, Helena. Eu estava procurando fugir da cozinha e de tudo o que me faz envelhecer. Dê-me um beijo e começarei vida nova!" Nunca mais ela se queixou dos seus afazeres domésticos e, só muitos anos mais tarde, descobri a verdadeira causa do comportamento extraordinário da professora. Isto, porém, é um dos trágicos segredos que devem ficar encerrados no coração dos homens e das mulheres que penetram fundo nos mistérios da vida.

Com tristeza, notei que a vigorosa saúde da professora estava começando a declinar. Isto, em parte, era devido aos seus períodos de tensão nervosa, ao incessante tormento da sua vista e ao seu imenso desapontamento por não ter filhos. Outros sofrimentos físicos vieram-lhe agravar a situação - uma séria operação a que ela se submeteu antes de iniciarmos uma tournée de conferências, os freqüentes e fortes resfriados que a acometeram, durante a viagem, e o acidente em que caiu da escada, fraturando um braço e deslocando a clavícula. Essas lesões nunca receberam tratamento adequado até que ela fosse hospitalizada sob os cuidados do Dr. Goldthwaite.

Contudo, surgiu um brilhante clarão azul nas nuvens de sua ansiedade. John levou-nos a Wolfeboro, New Hampshi-re, onde o Dr. Bradford, que anos antes havia feito as operações que lhe restituíram a visão, vivia retirado em conseqüência de atrozes crises de reumatismo. Êle nos recebeu com muita satisfação. Lembrava-se de cada detalhe das operações e admirou-se de que a vista de Anníe ainda estivesse naquelas condições, apesar de ter a minha professora abusado tão impiedosamente dela. Receitou umas gotas de alu-me para remover a granulação que estava recomeçando a encobrir-lhe os olhos e, durante algum tempo, respiramos com desafogo.

Naqueles dias da minha mocidade, tão cheios de estimulantes descobertas e exercícios mentais para favorecer o meu desenvolvimento espiritual, eu às vezes discutia com a professora sobre assuntos religiosos. Ela havia aguardado o tempo e o desenvolvimento da minha personalidade para me falar com a mesma franqueza com que falava aos outros. À semelhança de Robert Ingersoll, ela pouco se preocupava com os vários credos e dogmas cujo discordante "ruído" ecoa pelos púlpitos de todo o mundo. "Religião", costumava ela dizer, "é uma forma de vida e não apenas de crença. Afirme mais com atos do que com palavras o que lhe pareça verdadeiro. Os povos têm-se digladiado, através dos tempos, por causa de crenças religiosas e de que serviu isto? Muito melhor é ajudar o próximo a bem viver. Procure não magoar os corações ou perturbar as mentes que se esforçam em pensar com inteligência e agir com nobreza". Eu lhe dissera que Emanuel Swedenborg me auxiliava na interpretação da Bíblia como norma de vida e ela me pareceu haver ficado contrariada por ter eu escolhido as pesquisas do século XVIII daquele pensador ou as de outros teólogos em lugar de explorar a minha própria mente. As explicações meticulosas, a irritavam, por isso não esclareci que Swedenborg não era um teólogo, mas um sábio que se havia dedicado à tarefa de reunir o amor ou a boa-vontade, à razão ou ao raciocínio esclarecido, que haviam sido separados por muitas Igrejas em conseqüência da doutrina da justificação só pela fé. Nem sequer lhe lembrei o que ela bem sabia, isto é, que quase todos nós transmitimos os pensamentos alheios que recebemos e que a nossa única originalidade reside na maneira de expressá-los. Em lugar disso, contei-lhe que me sentia feliz porque Swedenborg me libertara a imaginação fazendo-a vaguear sobre o cimo das montanhas e pelos vales da imortalidade pessoal e da imortalidade da matéria. "Não creio na imortalidade", disse ela.

"Sinto uma reviravolta na mente quando ouço a palavra. Além disso, a Terra é bastante bela e divertida para preencher-me o curto tempo que passarei aqui."

"Eu também amo as idéias belas", respondi, "e nenhuma me parece mais encantadora do que a de um ser humano dotado de uma imortalidade feliz, que floresceu e frutificou em belos pensamentos e boas ações".

"É um grande consolo para mim saber que você pode aguardar com alegria um mundo melhor do que este. Naturalmente, às vezes digo isto ou aquilo e pareço querer que você pense de outro modo; nada, porém, está mais longe dos meus desejos. Não me interesso por religião e você sim. Concordemos em discordar e vivamos o melhor possível de acordo com os nossos ideais".

"Sim, querida, sou a sua mãe de coração e de espírito, mas não sou a sua dona. Quero que você forme as suas opiniões com independência. Conserve-se, porém, livre de seitas e de credos cheios de rivalidades e não se deixe dominar por qualquer fanatismo. Seja sempre justa e generosa para com aqueles de quem discordar".

Eu e a professora olhávamos, juntas, a vida sob muitas variedades, boas e más, que tornavam vívidos e convincentes os personagens dos livros que eu lia. Os comentários da professora eram breves e construtivos. As pessoas mais perversas que ela conhecia passavam a ter qualidades úteis depois que a sua zanga amainava e que se achavam longe da sua presença. Possuía uma profunda inocência que a fazia recusar a crer que alguém amasse verdadeiramente o mal. "Uma das razões porque não creio na vida futura", dizia, "é porque não posso imaginar um Deus sábio e bom queimando Suas criaturas em fogo eterno por não executar a Sua vontade. Além disso, se elas tivessem consciência de sua vileza, sentiriam um remorso que lhes tornaria a vida insuportável e Deus seria compelido a matá-las - o que constituiria uma abdicação de Sua divindade!" Respondi que o mal se pune a si próprio nesta vida e na próxima (eu ainda não havia lido o belo ensaio de Emerson - Compensação, que dá ênfase à essa idéia) e que Deus benignamente põe um véu em cima dos olhos dos incuravelmente maus e os coloca numa esfera à parte, de acordo com os seus gostos pervertidos, onde os seus malignos desejos e prazeres não contaminam nem destroem os outros. De qualquer modo, acrescentei, eles não se tornam piores e, de um modo extraordinário, que fica além de nossa imaginação, são usados para o fortalecimento dos justos.

"Graças a Deus", exclamou ela, com um gesto da mão, "você encara a religião com alegria e com o propósito de tornar a Terra, pelo menos, uma morada temporária e um lar para a humanidade, em vez de escravizar-se prematuramente às exigências de uma vida futura. Posso respeitar as suas crenças porque você não as usa para se consolar da cegueira e da surdez, mas como uma parte da felicidade que Deus quer proporcionar a todos nós".

Os credos que ela abominava eram aqueles que impunham aos seres humanos a idéia de que Deus não quer que eles sejam felizes. Afirmava ela também que há no mundo cerca de uma dúzia de diferentes códigos religiosos e éticos e milhares de seitas e credos menos importantes e que, embora as fés sejam muitas, as faltas de natureza humana são as mesmas em toda parte. Não via nenhuma diferença entre um mau maometano, um mau cristão e um mau budista. Cada um vive de acordo com as convicções pelas quais daria de bom grado a vida, mas, ao mesmo tempo, dificultava o seu desenvolvimento não cultivando a ética fundamental. Se uma pessoa fôr convertida por um dos mais amplos e mais florescentes grupos escolásticos ou teológicos, adquire apenas uma nova maneira de falar sobre as virtudes que ela não pratica.

Penso que o espírito da professora se teria aberto, com uma ou duas reservas apenas, ao plano do Maatma Gândi para a produção de personalidades, uma passiva não-cooperação com os costumes e as instituições que são uma ofensa ao princípio da ação justa. Para o progresso individual não seria necessário estorvar as atividades alheias. Poderíamos apenas nos abster silenciosamente de participar de sistemas ou instituições malsãs; devemos recordar, porém, que os indivíduos só se tornam fortes em proporção do seu desenvolvimento espiritual. Nós duas acreditávamos que o auto-aperfeiçoamento não é demasiado difícil, quando se reconhece a sua necessidade e quando é realizado como uma experiência interior consciente e com força de vontade. Meu querido padrasto, John Hitz, incentivou-me a encarar assim o problema e disse à professora o que ela já havia adivinnhado: que os padrões éticos impostos a um indivíduo pelo exterior prejudicam o seu desenvolvimento interior, acarretando-lhe um fardo extra, por restringir a manifestação espontânea até dos seus mais nobres impulsos.

"Veja então, Helena", dizia a mestra, "porque você não se deve deixar influenciar por teólogos severos ou se tornar farisaica. Todo ser humano é um mistério e nem você nem qualquer outro ser mortal pode seguir os infindáveis meandros do seu espírito. Somente Deus possui tal sapiência e se há um Além, Êle encontrará na pior de suas criaturas um lampejo de pureza que a arrebatará do inferno".

A professora era às vezes insensata, pensava eu, por relutar em me falar livremente, mesmo por alguns minutos, sobre as crenças dirigentes do meu destino. "Seja apenas simples, branda, resignada às circunstâncias e..." Não Posso dizer o resto. Tornava-se inconsistente, ou assim eu o imaginava, em tudo o que ela estava habituada a dizer acerca do meu direito de me manifestar livremente. E a sua excitação comunicava-me uma sensação de segredos não revelados. Vinte e cinco anos depois, quando a maioria dos meus livros estava escrita e o meu trabalho na Fundação Americana de Proteção aos Cegos se achava bem firmado, soube da verdade acerca da vida da professora no asilo de Tewksbury. Nella estava escrevendo um livro a seu respeito e eu me sentia feliz porque fora uma amiga tão sincera e perspicaz quem tomara a cargo tal tarefa. Polly se achava em férias no estrangeiro. Eu e a professora estávamos sós em nossa casinha de Forest Hills, Long Island. Antes de me contar a sua história, a mestra dispensou a empregada pela tarde toda e acomodou num canto para que não nos estorvasse, o seu collie Díleas - o seu lindo "sopro da leiteria do céu". Em seguida, sentamo-nos lado a lado e o terrível drama de seus primeiros anos começou a se desenrolar na palma da minha mão. Ali estava a bela, distinta e sensível mestra, conhecida no mundo inteiro, a personalidade a quem os grandes e os poderosos haviam prestado elevado tributo em minha presença, vertendo a narrativa de uma trágica infância passada entre seres humanos mergulhados na miséria, na degradação e na doença.

Durante um longo tempo, eu havia estudado os problemas da extrema pobreza e ela sabia que eu a compreenderia. Identifiquei-me com o espírito de pesquisa da criança meio cega, solitária, que vivia naquele medonho ambiente e quase enlouqueci ao ouvir os terríveis soluços com que, após um silêncio de meio século, ela falou da morte de seu irmão Jimmie, ocorrida no asilo. Não pude dormir naquela noite, tão profunda era a angústia que sentia. Não podia deixar de pensar no amor da professora pelo irmão e acabei por senti-lo como se meu próprio. Pareceu confortá-la o fato de os nossos corações guardarem sua imagem com igual ternura. Compreendi então as desoladoras memórias que lhe amargavam as discussões sobre a morte e a imortalidade. Contudo, a situação se tornou um tanto mais fácil após a sua narrativa e ela às vezes tentava sentir como eu "o âmago da doçura" da vida espiritual dentro da vida terrena. E, afinal, isto foi a parte mais alentadora da minha educação - eram como que estrelas que surgiam no firmamento do meu espírito,

uma palavra viva saída da boca de Deus. Um som visível, uma luz audível, palavra que iluminava para mim o tempo, o espaço e a Eternidade.

Outra conseqüência da narrativa da professora foi a de me proporcionar o senso do equilíbrio. Anteriormente, ignorando muita coisa sobre aquela parte de sua vida, eu me sentia às vezes só e confusa em conseqüência de certas peculiaridades suas. De modo algum teria invadido o sigilo que lhe amortalhava a existência. Contudo, experimentava uma sensação de estranheza. Algo demasiado sutil para ser expresso em palavras se achava ausente das nossas relações mútuas; mas, depois que a sua alma corajosa e oprimida se desnudou diante dos olhos do meu espírito, senti nascer dentro de mim uma nova espécie de coragem pelo fato de minha mestra ter transposto aquele medonho deserto de abandono, chegado a um oásis de cultura e, em seguida, ter achado a oportunidade de dedicar-me a sua vida, como se tinha dedicado a Jimmie nos poucos meses em que estiveram juntos em Tewksbury.

Mas voltemos aos primeiros tempos em Wrentham. Havia ainda um outro aspecto da natureza da professora que me deixava intrigada. Tínhamos ido a Cape Cod para umas curtas férias de verão. Instalamo-nos numa cabana próxima a uma pensão, onde podíamos fazer as refeições, e a professora sentia-se particularmente feliz porque desejava estar só. Estivéramos nadando e ela havia acendido um fogo na lareira, pois subitamente o tempo esfriara muito, quando me assustei, sentindo um forte cheiro de papel queimado. "Que está você fazendo, professora?" Perguntei.

"Queimei o meu diário", declarou calmamente, "e agora sinto-me aliviada".

Quando eu tinha nove anos de idade, certa vez, encontrei a professora rabiscando qualquer coisa, com o rosto muito colado ao papel e perguntei-lhe: "Que é que você está escrevendo?"

"Ora, não seja tão curiosa", respondeu-me rindo. "Você nunca me deixa em paz! Eu também estou estudando inglês e escrevendo um diário. Vá-se embora e não me interrompa".

Nunca vi o tal diário. Censurei-a quando ela o queimou. "Por que você o destruiu? Com certeza, havia nele pensamentos originais e suas idéias próprias sobre educação."

"Não o creio e não me importo", disse tranqüilamente. "Pareceu-me horrível, vingativo, parcial, Tentei lê-lo, esperando que contivesse algo que você pudesse copiar para as suas notas sobre a minha biografia, mas foi um desperdício de vista o simples fato de folheá-lo. Vi muitas passagens rabugentas que se estendiam página após página e lancei tudo às chamas. Não poderia ter um momento de paz se você ou John o lessem". Não quis dizer quando o iniciara ou por quanto tempo o escrevera. Desfez-se dele cabalmente, declarando que havia ultrapassado o seu período de utilidade -- se é que algum dia o tivera.

Já que o pobre diário fora imolado à autocrítica, talvez demasiado severa da professora, nada mais me restava senão refletir que Samuel Johnson fizera também queimar alguns de seus escritos antes de morrer. Prestei tributo à grandeza de alma que impediu a essas duas figuras singulares de aborrir inutilmente os contemporâneos com explosões que podiam tresandar a ódio ou vingança. Constituía um dos amáveis rasgos da mestra o de lançar mão de qualquer epíteto autodepreciativo que lhe ocorria, toda vez que recordava uma zanga ou um louco impulso para torcer o pescoço de algum importuno persistente. Imaginei, portanto, que, como Henrique Frederico Amiel, ela usava o diário como uma espécie de penitência medieval e, depois de escrevê-lo, voltava para o mundo amável e compassiva. Sem dúvida, confiara-lhe as recordações da trágica infância, tudo o que tinha ouvido falar "daqueles homens horríveis" pelas mulheres que davam à luz em Tewksbury e a sua horrorizada compreensão, quando já adulta, do inferno ao qual tinha sobrevivido. Mencionara, talvez, as suas fugas em Perkins, as críticas que lhe fizeram os seus professores e que tanto a magoaram e o riso impensado das alunas que quase a enlouquecia. Provavelmente esboçara, às pressas, os seus gostos e aversões, a sua feroz ternura pelos desprotegidos da sorte e procurara traçar o seu itinerário mental, o que constituía uma sadia proteção contra o processo destrutivo de sua impiedosa análise intelectual e contra os mal-entendidos que sempre a afligiam. De qualquer modo, sei que o diário deve ter tido muito valor para a professora, se não o teve para ninguém mais. Estou certa de que ao escrevê-lo, ela avivou a nitidez e a exatidão de suas primeiras lembranças num tempo que corre com tanta rapidez, lembranças essas que nenhum ser humano seria capaz de fazê-la recordar. Sem dúvida ela jamais se deixaria arrastar à solidão onde sabia que teria de combater a tentação da misantropia. Estava sempre negando que fosse bondosa e como prova indicava o diário e o seu freqüente comportamento irracional. Quanto mais insistia, tanto mais eu percebia a lenta formação do seu modo de pensar: um verdadeiro espírito de sacrifício que se regozijava em fazer o bem pela alegria que êle proporcionava.

Detestava a afetação e a bondade ostensiva, o pecador com semblante sombrio e o moqueur d'aatmi, mesmo que estes quebrassem a monotonia dos tipos banais. Infelizmente, em seu nobre zelo, esquecia que não se devem executar boas obras ou espalhar sábias idéias por intermédio de pessoas más, porque mais cedo ou mais tarde elas as pervertem. Mas nenhum poder terreno podia desviá-la de um propósito elevado, uma vez que este lhe tivesse passado pela mente.

Certa ocasião, na universidade, a professora deve ter estado pensando em seu diário quando recitei uma ode de Horácio traduzida para o inglês, pois me disse: "Horácio tem razão, Helena. Quase nunca se pode dizer que alguma coisa é inteiramente branca ou inteiramente preta. Os estóicos dizem que não é possível justificar as faltas como tais, mas em diversos indivíduos há faltas que têm um lado bom, por assim dizer. Por exemplo, pode ser que você queira chamar alguém de avarento, mas na realidade aquela pessoa economiza para prestar algum verdadeiro serviço ao próximo e não para si mesma. Ou então há uma pessoa que todos consideram de mau gênio, mas na verdade ela se sente indignada com a mesquinhez e o egoísmo dos que a rodeiam e não com o seu destino. Há também os que são chamados de "ambiciosos" e que, na realidade, procuram oportunidades para servir ao próximo de quem nada recebem. Você acha que posso dizer, sem injúria, que às vezes uma bela virtude provém de um defeito impresso na natureza humana?"

Respondi que me parecia que, no trato diário e na literatura, as palavras depreciativas ultrapassam em número as de louvor. "Isto é uma linguagem que se atola no lodo", disse ela. "Por que não podemos criar variações na forma dos termos, dando nomes novos aos atos de bondade e usando-os para acabar com as maldosas repetições criadas pela indolência da natureza humana?" Ficamos encantadas ao saber que o Dr. Edward Everett Hale, da Igreja Unitária de Boston, havia feito uma lista de palavras e das novas forças que elas expressavam, vocábulos que existiam há apenas vinte e cinco ou cinqüenta anos -- entre os quais "altruísmo" e "solidariedade" - e profetizava que seriam cunhados muitos outros termos para identificar as nuanças de amor e as forças mentais ainda sem nome.

Para a professora, "procurar" ser boa soava falso e desprovido de espontaneidade, portanto, eu não o procurava. Era feliz com ela e simplesmente afastava a impaciência ou qualquer outro defeito, ou então me agarrava a êle, fracassando continuamente até abater o inimigo como o lobo abate o alce americano; em seguida, eu não pensava mais no caso, a não ser para agradecer a Deus e a minha professora por me encorajarem. Como Tomás Hood, sinto-me hoje mais longe do céu do que quando eu era criança, mas, inspirada por Deus, que conduziu a mestra através de terríveis provações, sou capaz de continuar o combate a fim de espiritualizar a minha vida terrena.

Anne Sullivan amava verdadeiramente as criaturas e ansiava por arrebatá-las consigo para longe da vulgaridade. E, no entanto, elas a atormentavam. Ser bondosa para com pessoas estúpidas foi para ela uma luta constante. O incessante tagarelar dessa gente irritava-a como um jardim zoológico e dava-lhe ânsias de fugir. A sua bondade, porém, fazia descer um manto de silêncio sobre aquelas chocalhantes tolices; ou então ela procurava sonhar um pouco sobre cada um, partindo de uma circunstância interessante, a que se tivessem referido, de uma observação fora do comum, de uma expressão, que lhes notasse no semblante, ou de uma história sobre as suas famílias ou seus deveres de cidadãos. O intelecto da professora era como um violino de vários tons, mas a maioria das pessoas que encontrávamos não possuía a sagacidade necessária para notá-lo. A inteligência estreita dessa gente fatigava-a, porém ela não queria mostrar-se superior ou demasiado sutil na sua atitude para com os outros. Mesmo que os quadros imaginativos, que ela formava dessas pessoas, não se justificassem, sob esse encantamento, elas se tornavam suportáveis, divertidas e até atraentes. Havia ocasiões em que eu ficava encantada por ver um grupo de pessoas elevar-se acima dos pensamentos chãos pelo simples contágio da finura de espírito da professora, ou pelo entusiasmo dos seus pronunciamentos sobre política, passando elas a expressar idéias vibrantes e a argumentar com uma habilidade que teria feito honra a grupos de homens mais cultos que tenho conhecido. Assim, a professora fazia passar rapidamente muitas horas de visitas excessivamente longas, em nossa casa.

Outra lembrança agradável que guardo dessa época são as animadas discussões que eu entretinha com a mestra e com John a respeito de Psicologia e a entusiástica receptividade com que leram as declarações sobre a minha existência antes de eu escrever O Mundo em que Vivo. O estudo de Filosofia, na universidade, me tinha feito compreender que eu não descrevera fielmente aquela condição em A História de Minha Vida. Quando ingressei em Radcliffe, tinha idade bastante para que a minha história houvesse sido narrada várias vezes, mas, como pessoa, eu era muito jovem e imatura. Tão ansiosa me achava para parecer como os outros jovens que simplesmente pensava que todos os meus processos mentais eram parecidos com os deles. Compondo temas, escrevia pela alegria de usar palavras e não porque considerasse cuidadosamente qualquer acontecimento dos anos que precederam a minha educação. Quando examinei mais tarde A História de Minha Vida, surpreendeu-me a falta de precisão nos detalhes. Descobri que havia expressado de maneira demasiado dogmática uma cadeia de pensamentos que não poderia existir no mundo do fantasma - um período inconsciente, mas consciente de falta de personalidade. Quando me achava trabalhando em O Mundo em que Vivo, no capítulo XI, "Antes da Alvorada do Espírito", decidi refundir as minhas declarações precedentes. O que vou citar causou um grande abalo na família.

"Eu desconhecia que sabia o que quer que fosse, que vivia, agia ou desejava. Não possuía nem vontade, nem intelecto. Era impelida para certos objetos e atos por uma espécie de um cego ímpeto animal. Possuía um espírito que me permitia sentir raiva, satisfação, desejo. Esses dois fatos levavam aqueles que me cercavam a supor que eu desejava e pensava. Lembro-me de tudo isto, não porque soubesse que era assim, mas porque tenho uma memória tátil, a qual me permite recordar que eu nunca contraía a testa no ato de pensar. Nunca estudava qualquer coisa com antecedência ou fazia qualquer escolha".

A minha mãe ficou profundamente perturbada ao ler esta passagem e queria que eu a omitisse. Antes que a professora viesse para Tuscumbia, uma ou duas pessoas havíam-lhe dito, ou antes, insinuado que eu era idiota e ela temia que aquele trecho que eu havia escrito o confirmasse. Foi preciso muito tato e o depoimento da mestra sobre os verdadeiros débeis mentais, que ela conhecera, para convencer a minha mãe que a passagem era inócua, já que se referia a Helena apenas como um ser adormecido. Foi uma ocasião de indisfarçável orgulho para a professora. Não só lhe agradava ver-me defender a liberdade individual, pensando com independência e descrevendo com a pena o mundo tal como aparecia aos meus três sentidos e à minha visão interior, como declarou que, de então em diante, seríamos verdadeiras companheiras nas fainas literárias. Finalmente, ela teve a satisfação de sentir que eu havia chegado ao porto da livre manifestação pessoal através da literatura. Estava em suas mãos facilitar as minhas lutas com os anjos e os demônios da arte literária, deixando-me conversar com ela e assim arejar as minhas idéias.

Era maravilhoso para mim possuir não um, mas dois críticos para os meus livros: a professora e John. A mestra teve uma prostração física logo após a minha graduação. Eu também não me sentia bem de saúde e vi-me perseguida pelo nervosismo durante muito tempo. Eram numerosas, porém, as solicitações de artigos sobre os cegos e sobre a prevenção da cegueira, dois assuntos a respeito dos quais o público precisava urgentemente ser informado. Diziam-me que o que eu escrevesse seria de utilidade, por isso eu não podia resistir ao desejo de aceder. Escrevia os artigos em Braille e copiava-os na máquina de escrever, além de ler e responder diariamente um monte de cartas, até que as minhas mãos quase se recusavam a trabalhar. A lamentável inconstância da visão da minha professora punha fora de cogitação que ela pudesse ler para mim os meus livros. Por conseguinte, ela fazia sugestões enquanto John lia os manuscritos em voz alta e acrescentava repetidas vezes, as inúmeras correções que eu madava fazer.

Outro livro, cuja criação constituiu uma alegria para mim, foi A Canção da Muralha de Pedra. Certa vez, penetrada no encanto de uma linda manhã de maio, eu e a professora resolvemos reconstruir um velho muro de pedras a fim de estender os meus passeios pelo nosso campo verde. Enquanto colocávamos uma pedra sobre a outra, eu apalpava os seus variados formatos, texturas e tamanhos, começando a sentir uma beleza que, até então, me passara despercebida. Como eu tinha lido recentemente um livro sobre Geologia, achava-me com o interesse aguçado pelas pedras nas quais eu tropeçava de vez em quando - lisas ou cobertas de ranhuras, grandes ou pequenas, algumas cheias de fendas e contornos ásperos, outras polidas pelo frio ou trituradas pelo calor e outras ainda dotadas de curvas e ângulos agudos, A despeito de sua rudeza e irregularidade, elas possuíam uma qualidade peculiar que logo dominou fortemente a minha imaginação. Através das frestas do muro, eu sentia o sopro das ligeiras brisas e a mudança dos raios de sol que despertavam diferentes odores nas plantas que o cercavam. "Oh, professora", exclamei "há um poema a ser escrito sobre esses muros de pedra, caso eu seja bastante poeta para tal empresa".

"Por que não?" respondeu prontamente a professora. Nada a tornava mais feliz do que o jogo de palavras que canta o feitiço da Natureza e, observando como se acumulavam os tesouros de deleite ao alcance dos meus dedos, ela queria apaixonadamente que eu os concretizasse na poesia, que é uma forma elevada da verdade. Sentou-se ali mesmo, observou atentamente o muro e descreveu os efeitos de luz e sombra e a tapeçaria de flores e tufos de plantas que cobriam parte de sua superfície. Havia uma nuança céltica em algumas de suas palavras e eu as entreteci mais tarde com as minhas.

Os muros estão em atividade.
Brandos sussurros de chuva e de flores
Fazem parte do seu canto de primavera...
Os muros entoam a canção do pássaro selvagem, o tropel dos veados,
O cochicho dos pinheiros e dos cedros, o murmúrio de inúmeros regatos...

Durante muito tempo, esquecida do trabalho e de tudo o mais, contei-lhe que desejava fazer em versos um paralelo entre os muros de pedra e os puritanos, com a sua vida corajosa e o seu ousado idealismo.

No dia seguinte, John levou-nos ao velho cemitério para que eu pudesse tocar os túmulos cobertos de musgo e as inscrições "desgraciosas como a morte", mas plenas de fé inabalável. Durante semanas, passei horas lendo crônicas e baladas da Nova Inglaterra e procurando palavras que retratassem poeticamente os meus pensamentos sobre os colonos puritanos que abriram caminho nas selvas, polegada por polegada, para a construção de casas, capelas e escolas. Sempre que a professora tinha algum tempo livre, eu lia para ela o que estava escrevendo e lhe pedia que repetisse as minhas linhas deixando-me ler os seus lábios, a fim de verificar se havia algo que valesse a pena em meus rudes versos. O seu sorriso alegre tranqüilizava-me freqüentemente, mas às vezes ela criticava impiedosamente meus erros até que eu captasse um ritmo que lhe agradasse. Ficou indizivelmente satisfeita quando a Century Magazine aceitou o meu poema. "Nada me poderia tornar mais orgulhosa", declarou, do que ver você contribuir, mesmo de maneira tão imperfeita, para o grande Poema que, segundo Shelley, todos os poetas, como idéias coordenadas de um vasto espírito, vêm construindo desde os primórdios do mundo".

Deste modo, a professora abriu os imagináveis canais das minhas faculdades com que Deus me havia dotado: os de amar, raciocinar, agir e falar, isto é, todos os meios de comunicação com o próximo. Quatro modalidades de vida. Também, para outros, era ela uma fonte de incentivo no desenvolvimento de suas mais altas qualidades. Quando estava na melhor de suas disposições, ela envolvia a todos com a sua simpatia. Considerava-os um insuspeitável repositório de alegrias, tristezas, afeições e forças criadoras e as pessoas, muitas vezes, correspondiam à sua expectativa. Na verdade ela era o espírito que animava as reuniões em nossa casa de Wrentham. Estava sempre imaginando algo fora do comum para alegrar os hóspedes e procurava ser amável para todos. Ela era muito extravagante no que dizia respeito à reforma e à ampliação de nossa casa, mas isto era outro defeito com um lado bom, uma expressão de sua "verve criadora" e de sua determinação em fazer progredir uma empresa que justificaria os benefícios que isso nos traria.

Agradava-me bater, na minha máquina de escrever artigos a respeito dos cegos e informar o público sobre os métodos adequados de fazê-los recuperar, pelo menos em parte, o desembaraço e a independência. Sentíamos grande prazer em entreter na nossa casa homens e mulheres sem visão e ajudá-los, de todas as maneiras, mas pessoalmente nada lográvamos com isso. Em vista da imensa capacidade da professora eu não queria arrastá-la a qualquer causa beneficente de pouca importância ou de curto alcance. De um lado, sentia-me perturbada por ver a sua vida desperdiçada em serviços domésticos, que ela tanto detestava. De outro, eu estava ansiosa por juntar algumas economias, em seu benefício, como havia resolvido fazer aos dezesseis anos de idade, quando amigos bem intencionados, mas intrometidos, levaram-na a me dizer que ela trabalhava como uma escrava. Foram precisos muitos anos de dolorosa paciência para eu realizar esse desejo.

Nos fins de 1914, a professora estava enfrentando a sua maior provação e exigia o meu amor de forma confrangedora. Durante dias seguidos, ela se fechava quase aturdida, procurando arquitetar um plano que trouxesse John de volta, ou chorando como só as mulheres abandonadas por quem amam podem chorar. Mamãe, que estava passando uns tempos conosco, ficava torturada ao ver o sofrimento da professora. "Não creio, Helena, que o destino seja mais compassivo com uma mulher brilhante e bonita, arrastada ao casamento, do que o é com outras mulheres. Annie estava cheia de planos que um homem dotado de múltiplos talentos, como John, poderia certamente ter realizado. E agora a vida com que sonhara está caindo em ruínas ao seu redor".

O reflexo de felicidade desvanecera-se no rosto da professora, mas ela era demasiado reservada para mostrar abertamente a sua dor e se recusava aceitar qualquer consolo. A ninguém, exceto a mim, no silêncio da noite, falava ela da angústia ou dos terríveis sonhos que a perseguiam. Não estava bem de saúde. Tinha praticado antes exercícios vigorosos, mas então uma das suas principais dificuldades, o excesso de peso, causava-lhe infinito desconforto. A visão piorava e ela não podia mais consolar-se, mesmo por curtos períodos de tempo, dedicando-se à leitura independente. Continuava, porém, firme na resolução de que o desenvolvimento sadio, que me havia proporcionado, não seria destruído por qualquer deficiência ou desajustamento que a assediassem.

Algum tempo antes minha mãe nos havia acompanhado em nossa primeira jornada de conferências pelo longínquo Oeste do país. No fim de 1914, a professora começou a instruir a nossa nova companheira, Polly Thomson, uma decidida moça escocesa que possuía pequeno conhecimento do mundo, mas estava ansiosa por ver os Estados Unidos em todo o seu esplendor e grandeza natural e cujo coração generoso queria apenas nos auxiliar. Após alguns meses de instrução, Polly acompanhou-nos na segunda viagem pelo continente. E jamais explorador algum do Ártico, do Antártico ou do mais recôndito da África, enfrentou riscos e aventuras com maior firmeza do que aquela moça na sua busca de aperfeiçoamento e no seu esforço para compreender as esquisitices da natureza da professora - habilidade essencial para alcançar êxito na sua empresa.

Por aquele tempo, a melancolia que se apoderava de vez em quando, da mestra assaltou-a com tamanha intensidade que lhe transformou a existência num calvário. Na verdade, havia ocasiões em que chegava a pensar que ia ficar louca, mas o seu juízo permanecia intato e ela nunca deixava de trabalhar com o cérebro ou com as mãos. Era a sua imaginação e não a sua razão, que se achava perturbada. Mas aquela irrequieta imaginação trazia-lhe uma crescente aversão a hábitos regulares e a professora começava a planejar atividades e divertimentos a fim de se livrar de sua obsessão. Não conseguia dormir como deveria, mas a dor nos olhos diminuía com o chegar da manhã, e, por isso, quando ela tinha oportunidade, dormia até tarde, refazendo-se assim para o labor que reclamava de seu cansado corpo horas contínuas de esforço. De vez em quando colocava a cabeça em meu ombro e dizia: "Como sinto horror deste dia!" Em seguida, retesava-se, exclamando: "Nosso público nada tem a ver com o que me aconteceu. Tenho pelo menos a sua história para contar e você poderá encorajar algumas pessoas a suportar fardos que de outro modo as esmagariam. Pense em tudo o que se fêz por nós e ajude-me a retribuir com dedicação tanta boa vontade. Lembre-se, Helena, dos versos de Shelley:

Um raio de coragem para os oprimidos e os pobres
Uma centelha que, embora faiscando na lareira de uma choça,
Atravessará as cúpulas douradas,
Qual farol na escuridão da Terra;
Sol que, sobre a paisagem renovada,
Dardejará como a Verdade onde o Erro habitava

E assim viajávamos e fazíamos conferências, mas o meu desejo de economizar para a professora ainda não começava a realizar-se.

Devido às nossas idéias sobre economia e sobre como devia ser distribuída a riqueza, havíamos resolvido nos sustentar por meio de conferências e, sempre que possível, eu deveria ganhar dinheiro escrevendo artigos. André Carne-gie, nosso admirável amigo, ajudou-me concedendo uma pensão em virtude da minha falta de visão e audição, o que veio atenuar a minha subida pelas íngremes colinas do sustento próprio.

Não fosse a compreensão desse filantropo, nascida do que êle sofreu na infância, nós duas, mulheres incapacitadas não teríamos podido manter uma casa em Wrentham, ou em Long Island, nem eu teria sido capaz de proporcionar a minha professora umas curtas férias em Porto Rico, onde ela pôde recuperar temporariamente a saúde.

A princípio - estávamos nos começos do inverno de 1916 - a professora foi para o Lago Plácido a fim de tratar-se de um prolongado ataque de tosse causado por um enfraquecimento orgânico. Polly a acompanhou, enquanto eu fui para Alabama com mamãe. Polly escreveu dizendo que a professora achava-se infeliz, aborrecida e irritável em virtude do mau tempo e da solidão em que se encontrava, sensação de cansaço que se abatia sobre ela como chumbo agravada ainda pela "gente idosa e irritante" que a cercava. Nunca o vi submeter-se mansamente, mesmo à autoridade dos médicos, quando as circunstâncias eram demasiado desagradáveis e não fiquei surpreendida, quando me mandou dizer que se achava em viagem para Porto Rico. O meu coração jamais pulsou com tão sincera gratidão para com um benfeitor, como o fêz então pelo senhor Carnegie, quando comecei a receber as suas cartas, escritas por ela própria com um estilete Braille, plenas de encanto pelo que chamava de "ilha da alegria". A primeira tirou-me o fôlego. Contava que ela e Polly tinham viajado onze dias através da neve, dos ventos cortantes e dos céus de chumbo das montanhas de Adirondack. "Parecia incrível, Helena! Tinha que me beliscar para verificar se eu estava acordada ou sonhando. Ali, para além da estreita faixa do oceano encapelado e aquecido pelo sol, achava-se Porto Rico, qual um grande navio flutuando em águas agitadas!"

Ela entusiasmou-se sobejamente com a beleza paradisíaca da ilha- "um perfeito tumulto de cores, árvores em flor, arbustos, rosas, clematites, lírios-gigantes, poinsétias e várias flores que eu nunca havia visto antes; até os postes do telégrafo achavam-se adornados com uma planta parasita deslumbrante.

Acima de tudo, porém, o clima é maravilhoso, cálido, mas não é quente, isto é, não é desagradavelmente quente, havendo sempre uma deliciosa brisa do oceano.

As casas não têm janelas e os nativos quase não se vestem. Na verdade as criancinhas negras andam nuas. As casas são pintadas de todas as cores do arco-íris, o que empresta um aspecto pitoresco às ruas".

Aquelas cartas tornaram-me felicíssima. Enquanto eu decifrava as palavras em Braille americano antigo, compreendi quantos anos haviam decorrido desde que a professora o usara para me instruir. O lento e tedioso processo pelo qual ela escrevia teria sido bastante para tornar preciosas aquelas cartas, mas havia muito mais: a sua recuperada alegria de viver, o êxtase com que ela absorvia a tranqüilidade e a poesia de Porto Rico, o enlevo pelas belezas que a cercavam e a fluência da sua narrativa que havia sido o estímulo de minha infância. A sua felicidade me era mais cara do que a minha própria e confortava-me poder pensar nela novamente como a Anne Sullivan dos tempos antigos, jovial, ávida de aventuras e divertimento, afastando os entraves à plenitude da vida, lendo - com dificuldade, é certo - mas enri-quecendo-se com tesouros de alegria. Era delicioso saber como se divertia ao tentar fazer com que os nativos compreendessem a sua linguagem de sinais e respondessem em coro "Si, si, senora", e a confusão deles, quando ela abanava a cabeça. Isto me faz recordar que eu antigamente ficava surpreendida porque a professora aparentemente não tinha inclinação para aprender línguas. Sem dúvida um forte desejo a teria induzido a acrescentar esse tesouro a sua pequena reserva de conhecimentos, porém notei mais tarde que os seus olhos quase se recusavam à tarefa. Por exemplo, constituía um grande esforço para eles procurar vocábulos gregos, com suas letras de forma peculiar; ler Hertnann e Dorothea, de Goethe, na sua "impressão bárbara", livro que eu não podia obter em Braille; e distinguir o tipo e os acentos difíceis das peças de Molière, Corneille e Racine.



Hellen Keller com Anne Sullivan

A velha independência da professora está evidente no seguinte extrato da carta que citei: "Vou alugar uma pequena cabana nas colinas e aí me instalar. A casa de campo, como a chamamos, tem quatro aposentos. Nada mais. Comprarei o necessário e me arranjarei do melhor modo possível. Você sabe que levará algum tempo até eu me refazer e creio que posso ser mais feliz aqui do que em qualquer outro lugar ao alcance de minhas posses. A cabana é alta e fica bem no meio de uma pequena plantação de laranjeiras e toronjas, com uma fileira de pés de ananás em frente".

A decisão da professora causou preocupação a todos nós e enviamos-lhe cartas de queixas e súplicas. Tantas vezes, porém, fazia o que queria e, ao mesmo tempo, provava a sabedoria da sua decisão que eu não me opus muito à sua idéia. De qualquer modo, a carta seguinte, transbordante de seu incorrigível encanto e malicioso bom humor, tranqüilizou meu coração:

"Preciso dizer agora uma última palavra sobre os preconceitos de sua mãe contra Porto Rico. Não compreendo como possa ter opiniões tão firmes a respeito de um lugar que não conhece. Gostaria que você delicadamente a fizesse compreender que pretendo ficar aqui até abril. Prefiro marchar diretamente para a cova do leão do que voltar para o lago Plácido. Parafraseando Emerson, os aposentos do Clube são verdadeiras prisões. John Bunyan preferiu Ir para a prisão do que freqüentar a igreja paroquial. George Fox preferiu ser preso a tirar o chapéu em presença do magistrado e eu prefiro ser martirizada de qualquer maneira a voltar para as montanhas de Adirondack".

"Se todas as pessoas soubessem o que lhes convém e agissem de acordo, este mundo seria muito diferente, embora não tão interessante. Mas não sabemos o que é bom para nós e eu estou passando meus dias tentando descobri-lo. A experiência é divertida e às vezes dispendiosa, mas não há outro modo de se obter conhecimentos."

"Alegro-me por não ter herdado o senso de responsabilidade das pessoas da Nova Inglaterra. Se tivesse, estaria agora me preocupando com os pecados que estou praticando em Porto Rico. Não é possível deixar-se de ser feliz aqui, Helena - feliz, preguiçosa, sem objetivo e sem crença - todos os pecados contra os quais somos prevenidos. Vou para a cama todas as noites ébria de sol e de flores de laranjeira e adormeço ao ruído soporífero dos bois, que mastigam folhas de bananeira".

A essa altura, a professora e Polly já se achavam instaladas na cabana e eu posso imaginar a alegria de Anne, quando vários bois entraram solenemente em seu quarto e olharam para ela com olhos que lembravam profundas e plácidas lagoas, enquanto Bayamon, um cão abandonado que ela havia adotado, engordado e banhado até atingir aspecto agradável, ladrava furiosamente

A carta continuava:

"Sentamo-nos na varanda todas as tardes e contemplamos o pôr do sol passando de uma côr vívida para outra - rosa, asfódelo (sabe que côr é esta? Pensei que fosse azul, mas agora sei que é amarela côr de ouro, a côr da giesta escocesa), violeta e depois púrpura escura. Polly e eu contemos a respiração quando as estrelas surgem no firmamento - parecem estar próximas e lâmpadas de várias cores - e miríades de vaga-lumes saem do capim e cintilam nas árvores sombrias!"

... O local enfeitiçou-me. Algo adormecido em mim despertou e está vigilante. Desembarcar em San Juan foi como pisar nas urzes do meu país natal, após uma longa e triste ausência".

Como deve ter fatigado a professora a luta com a pequena lousa Braille a fim de gravar nela as suas belas descrições, principalmente porque ela desconhecia as numerosas contrações e abreviações que se tornam necessárias para facilitar aos cegos a leitura e a escrita. Além de compor, ocupava-se com os afazeres domésticos e ensinava Polly a cozinhar, treinando-a para tomar o seu lugar ao nosso lado em todas as emergências de nossa vida privada e de nossas atividades públicas. Polly havia cuidado de nossa correspondência e do nosso guarda-roupa, enquanto estávamos em viagem e nos ajudara a realizar entrevistas. Em Porto Rico, o seu coração mais precioso que o ouro e a altivez de participar da luta de minha professora animaram-na a desenvolver as suas habilidades, a fim de nos ajudar a transportar o fardo que nos pesava nos ombros, naquele tempo e nos anos que se seguiram. Pelo que a mestra escrevera pude verificar que ela ainda não estava restabelecida, mas senti-me feliz porque sabia que Polly se achava com ela, tornando-lhe possível descansar e imergir todo o ser na calma benfazeja de sua "ilha da alegria".

Numa outra carta, a mim dirigida, a sua alma parecia derramar-se, extática:

"O sol dardeja os seus raios de ouro sobre o solo. O ar está impregnado do aroma das flores de laranjeira e o solo parece em chamas com as longas folhas de ananás, semelhantes a fitas. Da varanda, esse espetáculo se assemelha a um enorme tapete persa, que, embora mais brilhante, não é nada convidativo para nele se repousar. O ananás é lindo para ser contemplado, mas é tão agradável ao contato como um ouriço. Se eu tivesse uma grama do juízo dos beija-flores, que estão voando ao redor das laranjeiras como um cordão de opalas de fogo, eu não teria perdido tanto tempo e tanto esforço em reflexões sobre a guerra. Não somos bobos em perder tempo com as diabruras dos homens, em lugar de nos ocuparmos com as belezas da Natureza? Devemos, porém, nos ajudar mutuamente o mais que pudermos e procurarmos conservar o juízo, tanto mais quando cremos que o mundo enlouqueceu".

Foi uma agradável notícia saber que a manutenção de um automóvel em Porto Rico não seria muito dispendiosa e a professora contou-me que Harry Lamb, nosso chofer, havia adquirido o carro por uma pequena quantia. "Harry será de grande utilidade em vários sentidos e como apreciaremos o carro aqui! Além disso, precisávamos realmente dele, pois não tínhamos meios de ir a parte alguma, nem mesmo para adquirir provisões, exceto por intermédio da bondade de vizinhos, que não moram muito perto. Portanto, venha reunir-se a mim e eu lhe mostrarei todos os recantos do meu paraíso".

Certa vez, a professora escreveu sobre um fato muito estranho que se estava verificando com ela:

Constantemente parece-me estar recordando coisas, às vezes de modo vago, outras vezes com nitidez, como se tivesse estado antes naquele lugar ou num sítio tropical semelhante. O calor do sol após uma chuvarada me agita e me excita. O verde da cana-de-açúcar nas colinas parece-me uma coisa perturbadoramente familiar e as sombras azuis projetadas pela encosta de uma montanha, no lugar onde a estrada descreve uma curva aguda, faz-me. isto é, faz-me voltar a cabeça rapidamente, como se esperasse ver alguém conhecido. Não é esquisito? A planta baioneta dá-me ímpetos de correr; sinto em minha carne a picada de seus dedos longos e afiados! A impressão é tão forte que às vezes eu me surpreendo apalpando o local em que imagino que fui ferida"

Algumas noites atrás, quando regressávamos de San Juan, entramos por um desvio da estrada e fomos dar próximo às águas escuras do mar. Uma lua amarela brilhava no oriente. Harry exclamou: "Vejam!" Polly debruçou-se para fora do carro a fim de ver o que era. Eu nem pude tentar ver; todo o meu corpo estava rígido de medo. Sabia com tanta certeza como se estivesse vendo com os olhos da carne que dois homens nus estavam lutando ferozmente naquela luz mortiça. E era isso exatamente o que estava acontecendo. Quando Polly e Harry me contaram o que viram fiquei gelada e penetrada de uma terrível sensação de isolamento. Fantástico, não é? Seja qual fôr a sua causa, essas impressões parecem reminiscentes. Quem sabe se alguma jovem irlandesa da velha linhagem dos Sullivans amou algum soldado espanhol, com sinceridade, mas sem juízo? Você sabe que os exércitos enviados contra a Irlanda eram muitas vezes compostos de mercenários franceses, espanhóis, holandeses, aventureiros de todas as terras".

"Quando os peões estão trabalhando, caminhando ou sentados nas soleiras das portas, costumam cantarolar num tom choroso e rítmico contando o que estão fazendo, tal como você quando fala sozinha, Helena: "Colhendo laranjas, uma por uma". "Pescando, lançando a linha, recolhendo-a". "Caminhando, um passo depois do outro, passos curtos, passos longos". - foi como lhe ensinei adjetivos, lembra-se".

"Desejaria que me fosse mais fácil escrever em Braille! A lentidão do processo impede-me a manifestação de muitos pensamentos. Mas você sabe que estão em meu coração, tão certo como os narcisos dourados de que você me falou estavam sob a terra durante o inverno. Os meus pensamentos hão de florir na primavera do nosso encontro e, como os narcisos, dar-lhe-ão um momento de alegria".

O seu convite era tentador, porém nem eu nem mamãe achávamos que devíamos aceitá-lo porque tínhamos certeza de que isso romperia o isolamento do mundo de que a professora tão desesperadamente necessitava.

Algumas de suas cartas eram um precioso manancial de conselhos, manifestando idéias que me estimulam até hoje. Em resposta ao que eu escrevera com respeito às minhas preocupações por sua causa e pelo nosso futuro, ela respondeu:

"Helena, você não se deve preocupar com o futuro. Não vou morrer ainda - sei que vou ficar boa. Não me sinto nem um pouquinho doente.."

"Mesmo que eu morresse, não haveria razão para que você não continuasse a viver.. Se observar calmamente a vida que a rodeia e a sua em particular, verá que o futuro não pode ser tão desprovido de esperanças como parecia o começo de sua vida, antes que nos conhecêssemos. Além disso você crê na vigilância amorosa de um Pai Celestial. (Eu não renho esse consolo, mas sinto-me profundamente feliz porque você o tem) Há sempre uma saída para as situações difíceis, quando realmente queremos resolvê-las".

Em outra ocasião encorajou-me a seguir um método que uso até hoje:

"Agrada-me que você esteja lendo poesia para apurar o espírito. É um maravilhoso exercício mental despetalar os pensamentos de um poeta, expor o fruto ao sol de nossa própria disposição de espírito e observar como o sabor desse fruto se transforma sob os raios solares. É fascinante observar-se como as flores e os frutos da mente do poeta adquirem diferentes tonalidades, odores e sabores quando transplantados para outro cérebro". (Ela se lembrava tão pungentemente como eu, da triste paralisação mental que sofri após o episódio do "Frost King").

"O jogo de palavras é o único que você pode praticar em igualdade de condições com o melhor dos poetas. Não se impaciente com a sua lentidão. Lembre-se de que os grandes escritores muitas vezes lutam durante dias até que lhes ocorra a frase ou a imagem correta Você se interessa por assuntos da atualidade e pelos incapacitados físicos e deseja servir à humanidade. Como poderá fazê-lo, senão escrevendo?"

A cruz de amar alguém, que se inclinava para o agnosticismo, pesava sobre mim, quando eu lia as suas reafirmações de descrença na imortalidade. Recordava que ela estivera próxima da morte e afligia-me verificar que ela não possuía noção da perpetuação da vida.

"Penaliza-me profundamente, Helena, não ser eu capaz de crer como você. Dói-me não compartilhar do lado religioso de sua vida. Para mim, como você bem o sabe, esta vida é que tem valor. O que fazemos agora e aqui é muito importante porque nossos atos afetam outros seres humanos"

"Admiro muito a Bíblia como uma obra poética. Encontro nela belezas que me encantam, mas não creio que tenha sido inspirada por Deus de preferência a qualquer outro belo escrito. O futuro para mim está envolto em trevas. Creio que o amor seja eterno e que se manifestará perpètuamente na vida. Uso a palavra "eterno" no sentido de que o amor irá tão longe quanto possa alcançar a minha imaginação".

"Em você, é instintiva a crença em um futuro onde os erros serão corrigidos. A fé na imortalidade consciente ajuda-nos a considerar a vida digna de ser vivida, apesar de nossas limitações e dificuldades. A idéia de viver para sempre num lugar chamado Céu não me atrai em absoluto. Alegra-me que a morte seja definitiva, exceto quando vivemos na lembrança do próximo".

Como o meu espírito se volta para a mestra, quando cito este parágrafo. Anseio por afirmar-lhe que tenho amado a vida por si mesma e também por ter conhecido tão boa conselheira e amiga. Aceitei jubilosamente o credo da Nova Igreja, não por motivo das "consolações" que êle trazia à minha surdez, cegueira ou qualquer outra dificuldade.

Sempre senti que usava fundamentalmente os cinco sentidos dentro de mim e é por isso que minha vida tem sido cheia e completa. Já me acho no mundo espiritual, onde a minha vida continuará até a eternidade, quando despertarei deste sonho terreno; por conseguinte, nunca senti que eu e a professora estivéssemos realmente separadas. Não me sentirei oprimida pela eternidade, assim como não me sinto oprimida pelo tempo. Não me deterei em "lugares" ã procura de novas experiências emotivas e intelectuais. É triste para mim refletir que a impaciência da professora a impediu de apreender o absoluto em todos nós, que é o que dá validez aos cinco sentidos residentes no cérebro, lançando luzes sobre o que é invisível e música sobre o que é inaudível.

Cheguei agora a certas cartas da professora as quais têm um belo significado porque mostram sua profunda consideração por mim como ser humano e não como uma criatura surda e cega. Jamais, em circunstância alguma, quis que eu pensasse, falasse ou agisse contra a minha consciência. Entre os privilégios que me foram concedidos por Deus, costumava êle citar o direito de ela externar as minhas opiniões sobre política, economia e religião e o de ouvir o que os outros diziam com igual franqueza. Ela jamais escarneceu das minhas limitações físicas; ouvia de espírito aberto a quaisquer opiniões que eu adotasse, sem atender ao quanto pudéssemos diferir e ficou ao meu lado na maturidade, enquanto eu desenvolvia as minhas idéias e procurava novos meios de manifestar a minha individualidade.

"Você, querida, é uma reformadora apaixonada, por temperamento. Ambas combatemos pela paz, como soldados num campo de batalha. Quantas vezes eu já não disse que nós transformamos a vida num combate! Talvez houvesse mais paz no mundo se cultivássemos as virtudes mais moderadas. Cabe a nós, que pensamos estar com a razão, procurar ser pacientes e tolerantes para com todos. O próprio Deus não pode tornar o mundo mais agradável sem o nosso auxílio."

É, naturalmente, coisa para se lastimar que Wilson não haja crescido com a expansão do mundo. Mas será que o mundo ao seu redor se expandiu? Parece ser verdade que alguns espíritos não são capazes de assimilar coisa alguma que não lhes seja muito pessoal. Envelhecem, imaginando que a maturidade significa sabedoria.

"Não estou absolutamente influenciada pela confiança de Upton Sinclair no Presidente Wilson. Sinclair é um desses socialistas de gabinete que Joe Ettor despreza. É exatamente um desses que se deixam iludir facilmente pela verbosidade de Wilson. Não, não! Wilson não é um grande humanista. Todas as suas palavras e todos os seus atos são controlados por uma idéia fixa. Não estou segura sobre qual seja essa idéia, mas ela se revelará com o desenrolar dos acontecimentos. Uma coisa é certa: tudo o que êle faz será para o supremo bem do mundo. A exploração é sempre benevolente - éa atitude cristã. Temo que nada menos que uma revelação do alto possa abrir-me o espírito e o coração a fim de distinguir qualquer coisa que se aproxime do altruísmo nos feitos e nas abundantes palavras do presidente Wilson. Acho que sou uma dessas pessoas que não se expandem"

A carta seguinte cortou-me o coração. Ao tempo em que entramos naGuerra Mundial, a minha consciência estava tranqüila e consegui manter o meu pacifismo, mas, quando irrompeu o segundo conflito, a questão me parecia clara: a liberdade ou Hitler - e fiz tudo ao meu alcance para ajudar a América e os Aliados a dominarem a horrível tirania. Contudo, sentia-me como se tivesse desertado da bandeira celestial da Paz e ainda me sinto perturbada por isso.

"Naturalmente não posso afastar do seu espírito o horror desta medonha guerra. Nada podemos fazer senão esperar.

Penso que estaremos participando dela em poucos meses. Não vejo que bem isto trará, mas nós pessoalmente temos feito tudo o que podemos para manter a América fora do redemoinho..."

"Sim, é inconcebível que uma coisa tão infame aconteça na época em que vivemos, a qual achamos esclarecida e civilizada. Pode-se então entender por que Bill Haywood escarnece da idéia de que haja algum país civilizado. Lembro-me de ouvi-lo dizer que os nossos requintes são um fino verniz que oculta os mentirosos, os trapaceiros e os assassinos. Naquela ocasião, eu pensava que êle estava falando com certo exagero, mas agora os horrores desta guerra fazem com que as suas declarações pareçam até muito brandas".

"Você sabe que nunca confiei no Presidente Wilson. No fundo é um egotista, um tirano que deseja ser Bismarck sem possuir a inteligência deste. Quando os banqueiros ficarem nervosos com os seus empréstimos, força-lo-ão a entrar na guerra. Mas você sabe, Helena, que na História as piores coisas, os mais medonhos desastres abriram caminho para uma nova época. A destruição, a ruína e o horror da Revolução Francesa foram necessários para despertar, nas pessoas abjetas, o senso dos seus direitos humanos. Mas, quem sabe? Esta guerra poderá lançar por terra a brutalidade, a insensatez e a vileza desta imensa e materializada plutocracia. A perda de capital poderá ser tão prodigiosa que o capitalismo não será capaz de se reerguer. O sacrifício será incomensurável, mas talvez os benefícios também sejam enormes. Oh, como é melancólica esta carta! E como destoa do que me cerca!"

O meu coração sentiu um grande choque, quando a professora incluiu na sua missiva seguinte uma carta aberta de Romain Rolland ao presidente Wilson. Não, eu não esperava que houvesse qualquer resposta ao generoso apelo de Rolland, mas a carta confirmava a minha fé de que a gente humanitária de todo o mundo desejava a paz.

"Os povos estão rompendo as suas correntes. Está soando a hora que todos previam e desejavam. Que não soe em vão! De um extremo a outro da Europa surge entre os povos a vontade de assumir novamente o controle do seu próprio destino e de unir-se com o propósito de regenerar o continente. Através das fronteiras políticas as suas mãos procuram, umas às outras, com o desejo de se unir. Entre elas, porém, estão os abismos hiantes e os mal-entendidos perenes. É preciso que se construa uma ponte sobre esses abismos. As correntes daquele antigo fatalismo, que impele esses povos a guerras nacionais e faz com que se arremetam cegamente uns contra os outros para a destruição mútua, devem ser esmigalhadas. Sozinhos não o podem fazer. E bradam por socorro. Mas a quem se devem eles dirigir?

Só vós, senhor Presidente, ainda gozais de uma autoridade moral universal entre todos aqueles que estão agora sobrecarregados com a terrível honra de guiar a política dos povos. Tomai essas mãos que se estendem e ajudai-as a se reunirem. Auxiliai esses povos vacilantes a descobrir novamente um caminho, a estabelecer uma nova carta de liberdade e unidade, cujos princípios eles estão procurando tão apaixonadamente". "Considerai: a Europa ameaça desintegrar-se no caos. Os povos de todas as terras têm pouca confiança nas classes dominantes. Neste momento sois ainda o único que pode falar e ser ouvido pelos povos, pela burguesia de todas as nações, de ambos os lados; sois o único que pode servir de mediador entre eles. (Podereis sê-lo também amanhã?) Se esse mediador falhar as massas humanas divididas, desequilibradas, serão fatalmente impelidas a cometer excessos: os povos à sangrenta anarquia e os partidos da velha ordem à sangrenta reação. Guerra de classes, guerra de raças, guerra entre as raças de ontem, e as que estão formando agora, cegas lutas sociais que procuram satisfazer apenas os ódios e a cobiça comuns, sonhos loucos de uma hora de vida sem um amanhã".

"Herdeiro de Jorge Washington e Abraão Lincoln! Não desposeis a causa de um único partido ou de um só povo, mas tomai em mãos a causa de todos! Convidai os representantes dos povos ao Congresso da Humanidade. Presidi a êle com toda a autoridade que a vossa elevada consciência moral e o poderoso futuro da tremenda América vos asseguram. Falai, falai a todos! O mundo tem fome de uma voz que transcenda as fronteiras das raças e das classes. Sede o árbitro dos povos livres. E que o futuro vos aclame com o nome de Reconciliador".

As cartas de Porto Rico refletem a única parte da vida da professora da qual se acha ausente o perpétuo conflito entre as circunstâncias externas e o mundo ideal - porém, mesmo então intrometeu-se a guerra mundial. Não me surpreende a extrema relutância com que ela deixou a "ilha da alegria" para voltar ao seu ambiente carregado de preocupações. Ela sabia que as alterações e vicissitudes que precisamente gostava de explorar não estariam mais ao seu alcance. Sabia que não possuía meios para preeencher as lacunas deixadas em seu mundo pelo velho inimigo - a análise. Temia as minúcias da atividade circunscrita pela crescente escuridão de sua vista e também as lutas íntimas com o seu próprio temperamento violento.

Foi unicamente a esperança de poder juntar um pecúlio para a professora que me levou a Hollywood, a fim de que se fizesse um filme sobre a história da minha vida. A mestra não se achava completamente restabelecida e não poderia fazer conferências antes de um ano, mas trabalhar no filme fê-la recuperar parte do equilíbrio, além de manter-lhe o espírito inteiramente ocupado. Estávamos no verão de 1918 e quase todos os dias eram quentes; as noites, porém, eram frescas. Constituíam perene alegria os gerânios crescendo como arbustos, as vistosas papoulas e as poinsétias que Annie dizia lembrarem-lhe a minha alma galgando novos horizontes. Quando nos dirigíamos para o estúdio, surgia-nos sempre aos olhos algo inesperado: uma expedição de esquimós com os seus cães e trenós sobre as regiões inexploradas do Alasca, uma antiga diligência marchando a toda velocidade pelo campo, ou um grupo de alpinistas munidos de esquis.
 


cenas do filme O Milagre de Anne Sullivan


Entre as cenas em que trabalhávamos, a professora conversava e gracejava com o diretor e os operários. Cheia de planos simbolistas, que partilhava comigo, discutia com o Dr. Liebfreed, o representante encarregado de pagar as contas, e conseguia dele maravilhosas promessas de que êle se tornaria o nosso patrono nos esforços que empreendíamos para descobrir novas maneiras de captar o interesse e a simpatia das pessoas que fariam a revisão do filme. Essas promessas não foram cumpridas e sempre que êle ficava rubro de raiva com as crescentes despesas, Annie, paciente e inexoravelmente fazia com que êle se lembrasse da palavra empenhada. Então a torrente de sua ira se desencadeava e a professora replicava com a sua antiga temeridade. De repente, êle interrompia a discussão, dirigia-me algumas palavras carinhosas e depois voltava ao ataque. Êle desejava um filme comercialmente sensacional, enquanto eu e a professora queríamos um documentário histórico; esses dois pontos de vista pareciam irreconciliáveis. Era uma comédia sombria, mas, embora a professora se encolerizasse e se deixasse dominar pelo seu temperamento impulsivo, lutava inabalavelmente pelo meu direito de tentar experiências e de estender as fronteiras inexploradas de minha compreensão dos negócios terrenos.

Eu esperava que as circunstâncias peculiares de Hollywood provocassem novas revelações da sua verdadeira personalidade, mas ela comportou-se de modo extremamente reservado quando nos apresentaram a Mary Rickford e Douglas Fairbanks e à senhora Carrie Jacob Bond. Todos se mostravam muito amáveis, mas nos cumprimentos que me dirigiam eu me sentia involuntariamente lesada. Poucos, se é que alguém o fêz, falaram da professora como uma pessoa que merecesse elogios especiais por haver aberto sulcos através de minhas limitações e me presenteado com a preciosa colheita da herança humana. Contudo, a mestra postou-se de maneira exuberante e encantadora com Charlie Chaplin. Ambos haviam sofrido a pobreza e as deformações que esta provoca no corpo e na alma. Ambos haviam lutado pela igualdade cultural e social e como o êxito lhes havia coroado os esforços, tinham-se desdobrado em ternura para com os desprovidos da sorte. Ambos eram tímidos e não se deixavam embriagar pela vitória sobre o destino. Era portanto natural que se compreendessem e formassem uma daquelas amizades que trazem consolo aos grandes artistas num mundo freqüentemente ingrato para com os filhos dos gênios. Raramente, porém, foi satisfeita a vaidade que eu sentia por ela (se é que o amor pode assim ser chamado), apesar de toda a minha silenciosa cautela e todo o meu desejo de vê-la apreciada por suas próprias qualidades pessoais. Se ela pensava que eu me sentia feliz ou resignada com o excesso de aplauso público, estava cega pelo amor que me dedicava. Não é a ingratidão, mas um sentimento de justiça que me conduz a um exame dos tolos juízos com que foi recebido o nosso trabalho em conjunto.

Já escrevi a respeito do meu plágio de The Frost King. Com relação a isso, a que não posso perdoar é terem acusado Annie Sullivan de me haver pervertido a mente. Durante os meus estudos no Colégio Radcliffe, certas pessoas que se intitulavam "cristãs" e "amigas dos cegos" espalharam dúvidas e suspeitas em meu caminho porque eu não podia ver nem ouvir e, sem mencionar o nome da professora, insinuavam que eu estava sendo forçada a estudar matérias que a minha mente não seria capaz de aprender devidamente.

Mesmo nos tempos felizes de Wrentham, quando por puro prazer escrevi a respeito da discussão Shakespeare -- Bacon, tomando o partido do último escanlalizei amigos como Richard Watson Gilder, do Century Magazine. Este senhor me havia permitido escrever O Mundo em que vivo e A Canção da Muralha de Pedra, para o Century. O primeiro estava extremamente sujeito a controvérsias, apesar disso, êle o aceitou. Mas quando lhe enviei o artigo sobre Shakespeare e Bacon, êle manifestou o temor de que eu pudesse ficar prejudicada ao externar publicamente as minhas opiniões sobre tal assunto. Até culpou a professora e John por me terem deixado escrever o artigo! Como poderia achar que eles interferiam em meus direitos de mulher livre para dizer o que quer que me agradasse? Faço menção ao fato não por causa de sua importância, mas porque era a primeira vez que eu dava a entender a estranhos que eu pensava com independência.

A principal restrição contra a qual eu me debatia era a de ser reduzida a dois tópicos. O primeiro era eu própria, assunto do qual já me cansara sinceramente e o segundo eram os cegos. A professora quase não me deixava contar nada sobre ela, mesmo em A História de Minha Vida. Em 1906, fiquei desapontada quando fui escolhida como membro da Comissão de Massachusetts em prol dos Cegos, em lugar da professora, que tinha uma longa experiência de trabalho pelos sem-visão. Perturbou-me o fato de terem consultado a mim e não a ela, que há anos possuía conhecimentos diretos dos métodos de assistência aos incapacitados. Sentia-me surpreendida quando as numerosas pessoas, que nos visitavam em Wrentham, discutiam comigo problemas inteiramente diferentes dos que se referiam aos surdos, cegos ou cegos-surdos, em lugar de procurarem o conselho da hábil mestra que podia responder competentemente às suas perguntas.

Logo que eu e a professora nos instalamos em Wrentham, esperava-se que eu trabalhasse em prol dos cegos e não pela prevenção da cegueira. Só os cegos seriam bastantes para me manter inteiramente ocupada. Havia apenas alguns anos que eu tinha oportunidade de viver com independência e ainda procurava a sabedoria da mestra, quando os complicados problemas dos cegos se abatiam sobre mim. Mantínhamos longas palestras à medida que as diferentes questões se apresentavam e John lia livros e relatórios, alguns em francês e alemão, sobre como eram encarados os problemas dos sem-visão na América, na Inglaterra, na França e na Alemanha. É importante recordar que o movimento em prol dos cegos era relativamente novo na América e quase ninguém, exceto os que se encontravam nas poucas escolas especializadas, tinha conhecimento dos métodos de instruí-los. Quanto mais eu averiguava a situação, tanto mais sentia a minha incapacidade. O público pensava e ainda pensa que os cegos são uma só classe. A verdade é que não se encontram dois indivíduos exatamente iguais, entre os cegos, assim como não se encontram entre os videntes; são necessários quase tantos métodos diferentes de auxílio quantos são os sem-visão.

Há um modo de se instruir os bebês sem visão e um modo diferente de se instruir os bebês com visão limitada ou nula; há o zelo de empregar-se o cego adulto em oficinas especializadas ou o de fazê-lo executar trabalhos em casa; há o cuidado dos cegos idosos e enfermos. E há o dever do povo e a responsabilidade do governo em enfrentar as suas necessidades sempre variáveis. Portanto, não era surpresa que eu e a professora tivéssemos freqüentemente de lidar com uma fase nova do trabalho, antes que eu pudesse falar em reuniões públicas ou apelar para os legisladores em prol dos incapacitados E parecerá estranho que eu considerasse Annie Sullivan, com os seus vastos recursos e a sua rica experiência entre os cegos, como a melhor conselheira no assunto e a mim mesma como uma simples auxiliar na execução do Plano Providencial que sentíamos à distância?

Desejo dizer agora que, num tempo em que a Ophthaomia neonatorum (cegueira do recém-nascido) era um assunto proibido em sociedade, entrei de espontânea vontade no movimento em prol do extirpamento daquela doença. Tomei essa decisão também porque me achava comovida pelo sofrimento ocasionado pela moléstia da vista de minha professora. Contudo, uma amiga que eu muito prezava censurou-me, e também à professora, pelos artigos que escrevi e pelos discursos que pronunciei acerca da cegueira evitável! "Por que você se preocupa com questões tão fúteis!” disse ela. "É próprio da natureza humana arruinar os olhos das crianças por puro descuido e você sabe que é inútil tentar mudar a natureza humana." Discuti longamente com ela sem chegar a qualquer resultado. Muita água passou sob a ponte desde então e tais preconceitos parecem incríveis a nós que sabemos que hoje em dia organizam-se anualmente congressos internacionais a fim de se discutirem os melhores métodos de combater toda cegueira evitável.

Às vezes eu me ria dos absurdos conceitos que circulavam, e que até hoje circulam, a respeito dos cegos-surdos, como, por exemplo, o de que eles se acham na impossibilidade de saber o que quer que seja sobre o mundo e o que nele se passa; tais opiniões anulavam assim os epítetos enaltecedores que me atribuíam, tais como "deusa", "santa", ou "arcanjo surgido das trevas".

Quando fui nomeada para a Comissão em prol dos cegos de Massachusetts, senti um particular interesse pela campanha que o Estado estava promovendo contra o preconceito e a ignorância a fim de salvaguardar o direito do cego adulto de ser instruído e colocado em posição de se manter com independência. Lembrei-me de que a professora havia sido aluna de Perkins e que fora o Dr. Howe, o primeiro diretor desse instituto, quem havia planejado um estabelecimento estatal que daria emprego a todo cego adulto em condições de trabalhar. Essa idéia construtiva não tinha sido levada tão avante quanto deveria sê-lo e eu e a professora nos esforçamos ao máximo para que tal plano se realizasse o mais completamente possível. De súbito recebi um terrível choque. Eu conhecia o senhor F.B. Sanborn, diretor do Republican, de Springfield. Êle tinha sido membro da diretoria que se encarregara do asilo de TewJcsbury e fora por seu intermédio que Anne Sullivan havia sido enviada para Perkins. Dever-se-ia pensar que, em face da coragem com que Annie havia lutado por sua educação e da obra humanitária a que se havia dedicado, o senhor Sanborn se mostraria reconhecido à reserva com que a professora se referia a respeito de Tewksbury; mas fiquei desiludida. Depois que falei à Legislatura de Massachusetts sobre as necessidades do cego adulto, amigos leais me informaram que o senhor Sanborn havia insultado a professora. Êle atirou-lhe em rosto a sua origem humilde e condenou a "ingratidão" para com a instituição que havia aceitado "um ônus do estado" como aluna. A professora nunca me disse uma palavra a esse respeito mas, contra a sua vontade, extravasei a minha indignação numa carta dirigida ao senhor Sanborn. Até hoje não posso perdoar a sua mesquinha atitude. Êle não se recordava de que, por mais impacientes que sejamos com os nossos semelhantes, estamos todos entrelaçados e vivemos uns para os outros e uns pelos outros. A realização de uma obra digna pode ser destruída por uma conduta que degrada a dignidade humana. Foi uma lição amarga para mim ver uma pessoa que, como Emerson e Thoreau, havia prestado culto ao Ideal, dele haurir desprezo em vez de boa vontade para com os pobres e os desventurados.

Essa terrível compreensão da crueldade e feiúra que a natureza humana às vezes exibe não me tomou de assalto, por assim dizer, durante a série de conferências que realizei de 1914 a 1916. Nosso público, em toda parte, era bondoso e eu admirava a paciência com que todas as pessoas ouviam a minha fala defeituosa, mas não podia perdoar o fato de não ser a minha professora inteiramente apreciada como devia. Já que ela possuía um dom natural para falar em público, a sua parte no programa tornou-se a mais importante e eu sentia-me feliz por ver que a sua preciosa luz, a sua obra, não mais podia ficar oculta por uma peneira. Pelas Poucas e indiferentes respostas que eu recebia às perguntas que dirigia ao auditório, eu sabia que as pessoas ali presentes não se interessavam pelo que eu dizia a respeito da paz, da estrutura da sociedade ou do movimento trabalhista; queriam somente ouvir-me a respeito dos cegos ou talvez que eu lhes transmitisse uma mensagem de felicidade. Contudo, alegrar-me-ia se ouvissem a professora. Eu imaginava que, quando ela se erguesse sobre a plataforma, simples e modesta como era, apresentaria uma mensagem sobre a verdadeira educação das crianças normais ou deficientes, mensagem essa que iria agitar novos pensamentos em todo o mundo:

Espalhar, como de um fogo inextinguível, cinzas e fagulhas.

mas o desapontamento me acompanhava de lugar em lugar. Embora lhe dispensassem cumprimentos gentis, eu percebia que a maioria do público não possuía a necessária sutileza para apreender as suas idéias. É evidente que, poucas pessoas, relativamente, compreendem que a fala é um milagre e que menos ainda lhe dedicam um amor tão sincero como o Dr. Bell e a professora. Annie Sullivan nunca me permitiu manifestar o desejo de que ela fosse mais ampla e calorosamente reconhecida e, se eu me mostrava rebelde a tal idéia, ameaçava não fazer mais conferências.

Mesmo entre os socialistas e os outros grupos liberais onde eu e a professora nos sentíamos mais à vontade, foram precisos muitos anos para que eu dominasse a minha impaciência juvenil e compreendesse que as idéias sobre educação, economia, governo, ciência ou qualquer outro assunto estudado através dos tempos, são de lento desenvolvimento. Tal como as poderosas sequóias, elas lançam as suas raízes, polegada a polegada, na percepção humana e espalham aos pouquinhos os seus ramos de elucidação no amplo firmamento das idéias.. Eu percebia a falta de apreciação inteligente de seu trabalho.

A professora já havia feito essa descoberta há muito tempo, mas, a despeito da tragédia daGuerra Mundial, da nossa descrença em alguns líderes radicais e de suas crises de desânimo, ela apoiou sem hesitação os meus esforços pelos deserdados e empobrecidos e pela paz. Julgava que, como membro da humanidade, eu deveria gozar de completa liberdade de escolha. Informava-me se as minhas atitudes com respeito às questões sociais eram aprovadas ou censuradas pelos mais esclarecidos e eu aceitava a responsabilidade da livre escolha. A esse respeito, não era influenciada pelo seu individualismo, como o são algumas pessoas que conheci e cujo egocentrismo, consciente ou inconsciente, destrói a personalidade que professam desenvolver.

A princípio, tudo parecia conspirar contra mim com respeito ao meu desejo de juntar um pecúlio para a professora. Havíamos esperado grandes lucros de Hollywood e fracassamos. Voltamo-nos então para o teatro de variedades. Minha voz, que era parte essencial da nossa representação, não havia melhorado tanto quanto eu desejava. Não esperava então ser poupada pelo público mais do que o fora no passado e quase me desencorajava, quando refletia que se fracassasse, a professora sofreria mais do que eu do rosnar do tigre e dos dentes do lobo. As circunstâncias, porém, nos foram favoráveis. O público, mesmo quando incluía gente rústica, mostrava agrado por nossa representação e recebia com bondade a minha mensagem sobre as maravilhas que ocorreriam no mundo se as pessoas compreendessem que há bastante inteligência e boa vontade para curar as grandes desgraças evitáveis da humanidade. Tal como Madame Schumann-Heink, eu me orgulhava de me manter Por meio de uma representação digna e não me importava em melindrar sensibilidades ultradelicadas. Nosso agente, Harry Weber, facilitava-nos tudo com uma atenção fora do comum. Consegui por fim adquirir um modesto pecúlio para a professora, sonho que me acalentava desde mocinha. Sinto-me particularmente grata ao senhor Weber por ter-me ensinado a lidar com as pessoas que nos criticavam. Quando se opunham a que eu falasse em salas de conferência e igrejas, mas não achavam uma solução prática para a nossa situação financeira, êle simplesmente perguntava: "Os senhores lhe pagarão tanto quanto nós?" Nunca mais ouvíamos falar deles. Era também uma vantagem para nós que a música ocupasse a maior parte do nosso espetáculo e que a representação durasse vinte minutos, em vez de hora e meia. Além disso, podíamos permanecer uma semana num só lugar e não precisávamos, como antigamente nas conferências, aceitar a bem intencionada, mas cansativa hospitalidade daqueles que nos contratavam.

Por outro lado, aqueles dois anos constituíram medonha provação para a professora. Nunca apreciara falar em público, embora em toda parte me dissessem que era uma delícia ouvir-lhe a voz. Além disso, todas as vezes que ela aparecia diante dos refletores sofria terríveis dores na vista. Ademais, o seu vasto espírito se irritava contra a estreiteza e as freqüentes trivialidades do que via e ouvia. Admirava-me do seu senso de justiça, quando falava das cansativas horas que passava no teatro de variedades, mas eu bem sabia que a sua sensibilidade não suportava as vulgaridades que divertiam o público comum. A sua vida parecia rodar sempre em torno de círculos fúteis como um peixe num aquário e os seus acessos de melancolia lhe agravavam mais ainda os sofrimentos. Naquela angustiosa luta, a sua alma vertia gotas de fogo que as lágrimas não podiam extinguir.

Ela detestava as brigas, a inveja e a mesquinhez que se encontram em todas as profissões, artes e ocupações. Entrava em contato com pessoas com as quais perdia a paciência porque pouco acreditavam em Suas próprias opiniões e raras vezes ou nunca punham em prática as suas resoluções. Quando uma dessas pessoas conversava com ela, exclamava: "Aconteça o que acontecer, torne a principiar mesmo que tenha fracassado. Cada vez que fracassar, comece novamente e acabará por descobrir que realizou um propósito: talvez não aquele com o qual principiou, mas algum que lhes será grato recordar." E quem contará as inúmeras vezes que ela tentou, fracassou e venceu?

Causa-me remorso e ao mesmo tempo admiração refletir que a professora tenha viajado com o teatro de variedades numa idade em que deveria estar descansando. Entristece-me também recordar como eu a perturbava com a minha propensão para responder a perguntas embaraçosas com pouca ou nenhuma reserva. A sua saúde estava abalada e ela era capaz de tropeçar se Polly não caminhasse ao seu lado. Era freqüentemente acometida por fortes resfriados, laringites ou bronquites. Os oculistas das várias cidades por onde passávamos examinavam-lhe os olhos e declaravam que estes precisavam de descanso ou ela perderia inteiramente a visão. A professora não lhes quis acatar as ordens e continuou a lutar até que em Toronto, no decurso de 1921, caiu de cama em conseqüência de um sério ataque de gripe. Polly, que não se achava preparada para tal emergência, conseguiu, porém, substituí-la diante dos refletores. A professora prontamente se refez o suficiente para voltar ao palco durante algum tempo, mas no começo de 1922, uma doença nos brônquios forçou-a a deter-se, pois mal podia sussurrar.

Polly dominou maravilhosamente a situação, depois de receber as devidas instruções de minha professora, e passou a trabalhar satisfatoriamente comigo no palco. Não poderia haver prova mais dramática do amor de Annie Sullivan por mim do que essa redução de minha dependência física de sua pessoa, com a possibilidade de continuar o meu trabalho com outrem. Durante algum tempo, fiquei inteiramente perdida, sentindo falta da minha principal inspiração, mas não ousava lamentar-me depois do heróico sacrifício que ela havia realizado por minha causa.

Foi com grande tristeza que nós três deixamos o teatro de variedades e voltamos para Forest Hills. A professora mostrava-se comovedoramente agradecida pelo que eu fizera para ampliar os seus "magros recursos", mas eu não me deixei iludir. Era demasiado evidente que a preciosa alegria de viver deixara de existir para ela. Estava extinta a luz que costumava brilhar-lhe no semblante. Ela se queixava do tempo em que podia gozar da independência de andar sozinha, a pé e de automóvel, e ler livros sem ajuda. O que a fazia sofrer não era a mudança de vida num mundo novo, mas um destino quase brutal que lhe reduzia a atividade. Não quero dizer que ela estivesse realmente abatida. Esforçava-se por ser alegre e falar animadamente todas as vezes que recebia amigos em nossa casa. Não suportava as pessoas que julgavam ser sensato e conveniente mostrar-se sombrias. Olhava com desdém os que espreitavam, por entre as cortinas, o relicário da vida, achavam-no vazio e se afastavam murmurando, sem sequer suspeitar da estreiteza de sua própria visão espiritual. Não podia, contudo, reconciliar-se com o fato de que os seus olhos, abandonados e maltratados, mais cedo ou mais tarde, se tornariam incapazes de servi-la. Acreditara sempre no que o Dr. Samuel Gridley Howe dissera quando já era diretor da Instituição Perkins há dezesseis anos: "Supor que pode haver um desenvolvimento completo e harmonioso do caráter sem a visão é supor que Deus nos deu superfluamente esse nobre sentido".

A professora não negava que houvesse compensações e recordava o soberbo soneto de Milton, a respeito de sua cegueira, que dizia: "também são úteis aqueles que apenas ficam de pé e esperam". Mas, segundo o seu ponto de vista, as compensações não eram suficientes para a longa noite de trevas. Ela era um desses espíritos sensíveis que experimentam vergonha pela cegueira, a qual os humilha como um erro estúpido ou um membro deformado. Não contam com a misericordiosa compreensão do próximo e se retraem dos comentários daqueles que observam a sua luta contra o infortúnio. A cegueira é um golpe contra a liberdade e a dignidade dessas pessoas, principalmente quando elas foram sempre ativas e diligentes.

Se a professora, em criança, tivesse sido devidamente exercitada nas atitudes adequadas à falta de visão, teria desenvolvido técnicas que preservariam a sua independência até mais tarde; mas, além disso, ela tinha sofrido frustrações das quais somente os mais íntimos tinham conhecimento. Pessoas insensíveis a esse fato tornavam-se às vezes culpadas de crueldades involuntárias. Mesmo com os amigos ansiosos em lerem para ela em voz alta, a professora não se podia resignar com o que acontecia mais tarde: a incapacidade de descobrir passagens que desejava reler em livros impressos. Temia tornar-se incômoda e fatigante para aqueles que cuidavam dela. Já que sentia de memória, com tanta perspicácia, a escuridão onde antigamente vivera, o seu cérebro "ardia em claridade" e não podia facilmente aceitar a volta àquele exílio sem luz.

Como sempre, porém, a professora tirava da cabeça esses maus pensamentos e daí a um ou dois dias se achava ativamente à procura de uma boa obra ou do caminho da felicidade.

"Que tal se eu dissesse isto ou aquilo a respeito da futilidade da vida?" exclamava com impaciência, "Você sabe que eu sou um camaleão. Suportemos o fardo dos outros! Adaptemo-nos ao momento presente. Semeemos sem contar os grãos. Sejamos úteis ao próximo. Convertamos os sentidos que possuímos em benéfica energia. Pensaremos então menos em nos defender contra as circunstâncias e mais em fazer brilhar o sol à nossa volta - e eu talvez consiga tornar sublimes as minhas experiências e compreenda a ciência das alegrias e tristezas com as quais são tecidos os nossos dias".

Para demonstrar que a professora tinha a alma do bom companheirismo, não importa quão perversos fossem os impulsos que a assaltassem, verterei em palavras o que me tentou dizer: "O bom companheirismo impede um juízo demasiado severo. Deixado a si próprio, nosso intelecto é cruel e se irrita com a estupidez da maioria das mentes. A vida se torna enfadonha para as pessoas muito cultas, a menos que estas possuam uma visão poética. Para os arrogantes tudo o que é comum é um pântano de tédio. Mas o bom companheirismo suaviza a hostilidade da percepção e não critica excessivamente as limitações da inteligência comum. Não é altivo e considera com bondade e bom humor as idio-sincrasias e imperfeições da humanidade. Para que o próximo não venha a sofrer torna-se testemunha complacente da sabedoria mundana. O bom companheirismo é uma linda flor ou um precioso fruto numa árvore de crescimento lento, é um raio de esplendor onde tudo o mais parece vulgar, é uma opala ornando um conjunto monótono. O bom companheirismo vence as suas próprias repugnâncias a fim de incentivar e libertar os valores ocultos. "A tocha ardente, êle não extinguira". Estes novos pensamentos revelam, de modo mais amplo, o aprimoramento espiritual da professora, durante o seu trabalho no teatro de variedades.

Como no tempo das conferências e das representações teatrais, a mestra manteve-se ocupada, de várias maneiras engenhosas, depois de nossa volta a Forest Hills. Enquanto Polly dirigia a casa, cozinhava, atendia o telefone e a campainha da porta e cuidava de nossas contas, a professora supervisionava os meus exercícios vocais. Oh, se eu tivesse podido fazê-los continuamente! Se, enquanto eu lia em seus lábios e repetia as palavras, imitando-a, os meus dedos pudessem aprisionar a fada do som que revela o seu segredo ao ouvido! Ninguém mais neste mundo teria tido a força de vontade da minha professora para remover dois grandes obstáculos: a monotonia e a falta de inflexão na minha voz. Nessa tarefa, ela mostrava uma paciência inigualável. Lia em voz alta uma curta poesia ou um trecho em prosa (o meu braço ficava demasiado fatigado quando eu o mantinha erguido para ler um artigo inteiro nos lábios da professora) e eu o repetia várias vezes, tentando adquirir a ressonância e os altos e baixos de sua articulação. Ela ficava contente quando eu punha humor ou seriedade no que dizia, mas a ressonância e a acentuação fugiam-me incessantemente. Para sugerir o que estava tentando obter, a professora usava toda espécie de comparação, como a ondulação de um regato, os agudos plenos e tranqüilos dos pássaros, ou as notas de um instrumento musical. Às vezes eu sentia, na garganta, que as palavras se tornavam redondas, macias e agradáveis e imaginava que iria vencer; ela, porém, me dizia que o tom era suave, mas as palavras não saíam com clareza. Suplicava-me que praticasse de manhã, à tarde, e à noite no sótão onde dormíamos. Eu desejava ardentemente acertar mas não o conseguia. Longe estavam as horas de lazer, de que eu dispunha em Wrentham, quando podia tentar ler em voz alta, cantarolar e colocar as mãos sobre diferentes materiais a fim de ver como reagiam às minhas vibrações vocais. Estou provavelmente me entregando a pensamentos nostálgicos, mas parece-me que se pudéssemos ter ficado tranqüilamente em Wrentham, durante um período mais longo, e tido menos compromissos de conferência, eu teria feito maiores progressos na obtenção de uma fala normal. Nossas viagens de um extremo ao outro do país tomavam todo o nosso tempo e os ensaios apressados de meus discursos, antes das conferências, não nos davam lazer para o exercício cuidadoso e construtivo que poderia ter tornado a minha voz mais agradável e mais inteligível.

Uma vez instaladas em Forest Hills, o efeito deprimente de minha ambição insatisfeita de falar normalmente e o meu embaraço quando subia à plataforma diminuíram o entusiasmo com que eu poderia ter atacado as dificuldades da fala. O meu objetivo principal que era poder falar com uma voz natural parecia-me, então, inatingível. Para contentar a minha professora eu me teria isolado com prazer e praticado até ficar exausta, mas outras exigências absorviam todas as nossas energias. O nosso trabalho em casa estava então redobrado, pois tentávamos preencher as nossas lacunas nas informações sobre os cegos, surdos, questões de paz e guerra, livros recém-publicados, socialismo e outros assuntos. Além disso, havia literalmente milhares de cartas empilhadas esperando resposta, a maioria das quais escrita a mão ou a máquina de escrever comum. Polly não podia tratar disso, pois não tínhamos empregada. Era a minha querida professora com os seus olhos doentes quem separava as cartas mais urgentes que me eram dirigidas. Polly escrevia uma resposta rápida para algumas das outras, sempre que podia escapar aos deveres caseiros. Assim corriam as horas na vã tentativa de diminuir o fardo da correspondência e a minha voz, que devia vir em primeiro lugar, ficava quase negligenciada.

Mas, a professora não me permitia ficar eternamente Preocupada com as "más fadas", que haviam destruído as minhas melhores intenções. Fazia-me lembrar então que, quando estávamos passeando de automóvel pelas montanhas, havíamos dormido sob os pinheiros e ficáramos encantadas com as fragrâncias da noite e com as estrelas que brilhavam lá no alto. Planejou uma viagem diferente através da Nova Inglaterra, no verão de 1924, enquanto Polly passava as férias na Escócia; Harry Lamb acompanhou-nos. No automóvel levávamos uma nova espécie de tenda com colchões, um fogareiro, uma geladeira e a dona de nossos corações- a cadela dinamarquesa, ruiva e dourada, Sieglinde. Era para mim um prazer notar como renascia o interesse da professora pela vida à medida que fugíamos do calor para o verde acolhedor das montanhas de Berkshire. Quando nos deitávamos na tenda depois de saborear um delicioso jantar que consistia de bife, batatas e maçapão, a professora dizia: "É maravilhoso respirar este ar tão puro que só a mão de Deus poderia espalhá-lo. E lá estão

A coruja e o esquilo às portas frescas da noite falando ao silêncio.

Certa manhã, quando estávamos sentados do lado de fora da tenda, em uma pastagem, algumas vacas me cercaram. Senti-lhes o doce bafo e uma delas chegou a lamber-me o rosto. Nada poderia agradar mais à professora do que os meus contatos felizes e diretos com a Natureza. Fazíamos as nossas abluções no fresco regato próximo e o tremor de suas ondas rápidas comunicava-me a vibração da vida simples que eu tanto amava. Maior deslumbramento, porém, nos aguardava quando Harry nos conduziu ao Maine e, certa manhã bem cedo, mergulhamos nas águas velozes do rio Kennebec. Naturalmente não podíamos nadar aí;agarramo-nos simplesmente às rochas, enquanto enormes troncos passavam rapidamente. Naqueles instantes cheios de emoção, vimos através da imaginação as aventuras dos exploradores que descobriram o Kennebec e a impetuosa grandeza da indústria madeireira. O nosso acampamento seguinte deu-se no lago Moosehead, onde os madeireiros nos saudaram com as suas maneiras livres e cordiais. O cheiro do feno recém-cortado e das rosas silvestres chegava até nós, enquanto estávamos sentados tomando sol, após termos mergulhado no lago. Eu e a minha professora ficamos desapontadas por não termos surpreendido nenhuma corça; tínhamos ouvido falar tanto naquele animal e no caribu do Maine e do Canadá! Quando penetrávamos nos densos bosques de abetos e pinheiros, eu pensava nas maravilhosas descrições daquela região, feitas por Thoreau, e percebia que a "escuridão parada" das árvores era algo que eu podia na verdade sentir sem ver.

Seguimos depois ao longo do rio São Lourenço, em direção a Montreal e Quebec. A professora e Harry, que conhecia o alfabeto manual, falavam-me das originais capelinhas e cruzes que se encontravam à margem da estrada. Quando descreviam as casas de variadas cores, principiei a achar que eles estavam de fato vendo coisas muito interessantes. No deleite sereno da professora, durante a viagem, eu sentia uma paz que desejava fosse duradoura. Todas as vezes que lhe tocava o rosto a minha felicidade se tornava completa, porque eu sentia que a vida corria de modo encantador para ela. Apesar dos românticos desconfortos e deficiências, ela achava-se contente por se ver livre das eternas Preocupações e das desagradáveis tarefas que constituíam a Sua vida em Forest Hills. Nossa era toda a imensidão da terra, do céu e da água. Podíamos falar, rir ou ficar silenciosos; estávamos distantes de toda sociedade e podíamos vestir-nos como quiséssemos e nos entregar a devaneios, durante horas seguidas. Por algum tempo, senti-me aliviada do pensamento cheio de remorso de que talvez a sua individualidade estivesse subordinada à minha (pensamento que ela jamais sugerira). Nada havia de mais agradável para nós que o sentimento de igualdade entre duas almas que conmungavam no amor e em todo âmbito do universo. É, por isso, que a alegria que compartilhamos pela beleza e tranqüilidade daquela viagem é para mim uma coisa indizivelmente preciosa.

O tempo até então tinha sido o melhor possível, mas quando estávamos voltando para casa, através de Nova Hampshire, os ventos dos quatro cantos do céu conspiraram contra nós. Mal nos havíamos recolhido, atacaram-nos com uma fúria demoníaca. A porta da tenda se abriu violentamente, nós nos agarramos às cobertas com todas as forças. Os postes começaram a se partir e a pobre Sieglinde uivava de fazer pena. Temíamos que antes da alvorada os ventos nos atirassem com tenda e tudo no lago Winnepesauke. Vestimo-nos com desesperada rapidez, jogamos Sieglinde e tudo o mais no carro e Harry nos conduziu para longe dali, na maior velocidade. Os ventos nos perseguiam impiedosamente até que chegamos a um lugar tranqüilo, lá em baixo em Massachusetts. Após repousarmos um pouco, preparamos o café da manhã e a professora consolou Sieglinde com carne de porco, ovos e torrada com manteiga. Ficamos por ali o dia inteiro e a noite transcorreu sem incidentes. Antes de adormecer, enfiei os dedos por baixo da tenda e percebi o roçar silencioso do capim, as notazinhas dos insetos, que caminhavam ou voavam através da quietude e murmurei um saudoso adeus aos dias ciganos que haviam feito o meu coração palpitar com tanta força. A professora afirmou-me que não estava triste por voltar para casa, mas hei de lembrar sempre como aqueles dias foram tão cheios do fogo e luz espirituais que são a fonte da própria vida.

A viagem foi a mais benéfica preparação que poderíamos ter para os dias cansativos que se seguiriam. A Fundação Americana de Proteção aos Cegos foi fundada em 1921, tornando-se logo o escritóriode informações dos cegos que todos os lutadores esclarecidos em prol dos sem-visão há tanto muito desejavam. Eu e a professora ainda estávamos no teatro de variedades, quando a Fundação se dirigiu a nós, pela primeira vez. Estava fora de nossa cogitação quebrarmos os nossos compromissos daquela época, mas em 1923, começamos a falar em reuniões aqui e ali, nas proximidades de Nova Iorque. Naturalmente, eu havia obtido muita experiência conferenciando sozinha e representando no teatro de variedades e isso me habilitava para serviços mais amplos em prol dos incapacitados. Mas, até então, tudo era "luz na meta e escuridão pelo caminho". Confesso que a perspectiva me desagradava e o mesmo sucedia à professora. Quando falei, pela primeira vez, diante da Legislatura de Massachusetts, insistindo para que o cego adulto tivesse oportunidade de se instruir a fim de se poder manter, éramos duas mulheres jovens cheias de ambiciosas aspirações e eu estava certa de que todos os cegos do Estado, em boas condições físicas, seriam rapidamente convocados e aceitos cordialmente como capazes de trabalhar em diversas ocupações. A mestra previa um progresso lento, porque não havia um esforço organizado para educar o público nos problemas dos sem-visão, único modo de obter-lhes uma assistência eficiente. Era patético ver-se alguns cegos ambiciosos - mais numerosos que no passado, é verdade, mais ainda muito poucos - trabalhando por salários insuficientes, num pequeno número de artes e ofícios, mas que raramente conseguiam ser admitidos nas fábricas para trabalharem junto aos que tinham visão. O sonho de um mundo melhor para os cegos vivia constantemente dentro de mim e eu me considerava uma pioneira nesse assunto, mas não esperava presenciar, como o tenho feito desde aquela época, tão grande parte da desolação da cegueira tornar-se "uma brilhante, lúcida e florescente ilhota da Criação cercada pelo vácuo".

A Fundação, porém, era um movimento novo para nós, em alguns sentidos. Tornou-se uma dessas experiências tão desiguais e perturbadoras que é preciso usarmos toda a filosofia, espírito esportivo e resistência que possuímos, para sobrepujá-las. Súbitas e estranhas situações da vida lançam-nos confusos a crises que devem ser encaradas com firmeza, o que significa que devemos apelar para todas as nossas faculdades, dar uma nova orientação às nossas idéias, modificar as nossas relações com o próximo e mudar a nossa maneira de viver. Foi isto o que aconteceu à professora quase até o fim de sua vida e, especialmente, durante o tempo em que tomou parte nas atividades da Fundação.

Se ela tivesse a liberdade de escolher o seu destino, jamais teria se restringido à causa dos cegos. Foi só porque viu uma oportunidade de lhes ser útil que juntou aos meus esforços as riquezas de seu espírito e de seu coração. Quanto a mim, não foi a minha própria cegueira que me arrastou para eles, nem uma ternura particular por qualquer grupo de sofredores, senão o amor da humanidade comum que pulsa nos cego e em mim. Eles possuem visão mental, assim como eu e foram postos aqui na Terra, como os outros seres humanos, para descobrir, com as suas próprias energias e a ajuda do próximo, meios pelos quais possam tornar as suas vidas dignas de serem vividas. Sou constituída de tal forma que teria trabalhado com igual alegria pelos aleijados, pelos pobres e pelos oprimidos.

A personalidade de Anne Sullivan apareceu-me sob um novo aspecto, durante os primeiros anos de trabalho na Fundação. Ela era freqüentemente consultada pelos membros da diretoria e eu observava que os seus comentários, as suas críticas e o seu espírito incisivo exerciam uma influência marcante sobre a política que eles seguiam. Um dos membros era um esplêndido e dedicado lutador de Massachusetts, possuidor de idéias progressistas a respeito do cego adulto e que entusiàsticamente concedia à minha professora o seu lugar de direito como estrêla-guia na noite dos sem-- visão. Ela acreditava que o cego, para resolver realmente os seus problemas, precisava descobrir a vida por si mesmo. Sabia também que os cegos precisam aprender tudo o que é possível a respeito da existência dos que vêem, por meio da faculdade de que dispõem -- o tato - já que a palavra "vista" nada significa para eles, a menos que tenham tido visão antes que se extinguisse a luz dos seus olhos. A minha professora quando começou a me ensinar não me falava sobre objetos tangíveis; colocava-os em minhas mãos e dava--lhes nome: cão, gato, galinha, pombo, livro, relógio, telescópio e assim por diante, enquanto punha os meus dedos sobre o seu rosto para que eu acompanhasse as expressões infinitamente variadas. Deixava assim que tudo o que eu tocasse me exibisse as suas qualidades.

Anne Sullivan estava entre os primeiros que perceberam a natureza maligna do principal obstáculo dos sem-visão: a compaixão. A compaixão criou escolas para os cegos - mas esses edifícios foram chamados asilos, não escolas. Tal atitude quase neutralizava um ato de autêntica boa vontade. Pode ser poético verter-se lágrimas pelos infelizes e sentir-se o peso esmagador do destino sobre os seres humanos, mas não é desse modo que Deus quer que elevemos o ânimo dos sofredores acima dos males do corpo. Uma Pessoa fisicamente incapacitada só vem a conhecer as suas fôrças ocultas ao ser tratada como um ser humano normal e encorajada a amoldar a sua própria vida. É por isso que os amigos esclarecidos dos cegos voltam-se para a minha Professôra à procura de conselhos e sugestões.

Ela acreditava em Educação com letra maiúscula, não como uma forma de esmola concedida a qualquer grupo, mesmo aos débeis mentais. Como já disse em outra parte, ela nunca fazia caso das minhas limitações. Para ela eu era como que uma pequena exploradora da vida; não me mimava, nem me elogiava, exceto quando os meus esforços igualavam o máximo do que é capaz uma criança normal. Ela inventava meios para eu explorar o terreno em que eu pisava e não ficava alarmada quando eu caía numa cesta de roupa suja, dava cabeçadas ou arranhava as mãos colhendo amoras-silvestres ou rosas. Ela sabia que eu aprenderia a me proteger contra os elementos hostis da Natureza e até a me divertir com eles. Todo cego perseverante e inteligente a quem é permitida a experiência pessoal acaba por adquirir confiança em si mesmo e por provar quão benéfica esta se mostra na obtenção de algumas das satisfações mais completas da vida. Os exemplos são numerosos, alguns deles heróicos e se estão multiplicando pelo mundo inteiro, mas estou escrevendo sobre a minha professora e isto é um prazer todo especial, pois pela primeira vez tenho plena liberdade para retratar certas facetas de sua complexa personalidade. Durante muito tempo, a destruição do meu primeiro manuscrito sobre a sua vida pareceu-me um irreparável desperdício dos meus esforços, mas chegou o dia em que compreendi que o livro cuja perda lamentava, não era, afinal, o que eu desejava escrever sobre ela. Eu havia começado o manuscrito sob a sua imperiosa supervisão. Raras vezes, ela me deixava à vontade para descrever os seus infortúnios e as suas doenças e nunca permitia que eu me referisse à freqüente indiferença que lhe dispensavam como meu guia por entre os tesouros da luz e da beleza. Minha afeição por ela não mudou, mas estou livre, enquanto aqui escrevo, para falar de nossas duas independentes almas, inteligências, corações e forças. Imagino-a, a ela que me emprestou a sua natureza humana para criar a minha, cumprindo o seu destino sobre a Terra e seguindo uma feliz estrada em outro mundo, de onde, em momentos críticos, envia um sorriso de aprovação ou um gesto de advertência.

A situação que defrontamos em 1923, ao começarmos o trabalho que tenho executado desde então, era um caos de boas intenções em benefício dos cegos. Embora se considere essencial a uniformidade no sistema de escrita e de leitura entre os que vêem, havia cinco diferentes processos de escrita em relevo, para os cegos, e os adeptos de cada um defendiam-no com intransigente ferocidade, como se aquele fosse o único caminho de salvação. Eu e a minha professora ouvíamos essas discussões até ficarmos esgotadas e tentávamos em vão persuadir os combatentes a depor as armas e a esboçar um modus vivendi para se poder levar a cabo a obra em favor dos cegos em geral. O partidarismo fervia a tal ponto que não podíamos discutir o assunto em reuniões públicas.

Até 1915, quando foi formada a comissão, mais tarde conhecida como Sociedade Nacional pela Prevenção da Cegueira, não havia nenhuma organização nos Estados Unidos que cuidasse dos cegos como um todo. a menos que consideremos de âmbito nacional a Casa Impressora Americana para Cegos (American Printing House for the Blind). O Cego, sua Condição e o Trabalho que se Está Fazendo por Êle, do Dr. Harry Best, era o único tratado verdadeiramente útil no preparo dos meus artigos e como a minha professora conseguira lê-lo para mim não o sei dizer; talvez que, com os seus vastos conhecimentos, o seu bom senso intuitivo e o seu surpreendente dom de apreender a essência de um livro, não precisasse lê-lo do começo ao fim.

Havia entidades particulares, tais como o Farol dos Cegos, na cidade de Nova Iorque, dirigido pela senhora Ru-ius Graves Mather, que eu conheci como senhorita Winifred Holt, mas, falando de um modo geral, as oficinas e associações americanas para os cegos eram poucas e espalhadas; as escolas eram sobretudo isolacionistas em seus métodos. Os obreiros de uma localidade poucas informações recebiam sobre o que os outros estavam realizando. Em conseqüência, muito dinheiro e boa vontade eram desperdiçados num esforço desorganizado. Poucos Estados haviam aprovado e posto em vigor as leis de proteção aos olhos dos recém-nascidos e das crianças mais idosas, porém a luta pelos cegos, como um todo, estava bloqueada por persistentes frustrações. E foi atendendo a um veemente apelo dos próprios cegos que se resolveu organizar a Fundação Americana de Proteção aos Cegos. Se eu não tivesse uma fé profunda no constante embora lento progresso da sabedoria e cooperação humanas, teria ficado surpreendida por ter isso ocorrido nos dias turbulentos que se seguiram à Guerra Mundial. A professora saudou a Fundação como um símbolo de grandes acontecimentos que poderiam ainda transformar a sorte do cego e torná-lo talvez tão útil como os seus semelhantes dotados de visão. A sua opinião era que assim como o rá-dium, quando submetido a um tratamento adequado torna-se espontaneamente luminoso no escuro, assim também a filosofia da assistência aos incapacitados dota de luz as suas faculdades que podem ser desenvolvidas, não devido à própria incapacidade deles, mas porque são seres humanos dotados de inteligência a ser educada e de faculdades a serem cultivadas para realizações capazes e uma vida feliz e útil. Revelando a eles próprios o que têm de melhor, pode-se elevá-los acima da situação de "criaturas atormentadas" e dotar-lhes a sombria existência do esplendor e dignidade a que fazem jus os filhos de Deus.

Num sentido, a minha obra e de Annie Sullivan é formada pela reunião das idéias e dos esforços de gente de todos os tempos, assim como os rochedos da Inglaterra são compostos de conchas depositadas por milhões e milhões de minúsculas criaturas; noutro sentido, porém, a minha mestra foi uma pioneira no que diz respeito à educação dos cegos e dos surdos e eu devo manter a sua imagem diante de mim como um elixir de vigor para a longa, longa trilha que se estende para o futuro. Eis a maneira de assimilar o ideal que ela me instilou: considerar a utilidade de almas sãs em corpos imperfeitos e a sua justificação no Livro de Criação e, ao mesmo tempo, prestar uma homenagem a Deus.

Entrar para a Fundação foi, para nós duas, como penetrar num novo mundo. É verdade que estávamos acostumadas a trabalhar individualmente, respondendo às cartas que nos perguntavam onde os cegos adultos poderiam instruir-se e encontrar empregos convenientes, fazendo sugestões aos pais de crianças sem visão acerca do melhor modode atender às suas necessidades ou, ainda, agitando a questão prevenção da cegueira. Eu enviava também mensagens de incentivo aos estudantes cegos que cursavam as escolas, com dificuldade, emprestava-lhes os livros em relevo que usara em Radcliffe e indicava as livrarias onde poderiam obter outros. As circunstâncias, porém, se tornaram muito diferentes quando eu e a professora passamos a fazer parte da Fundação, a qual estava lentamente forjando da discórdia a união. Recomeçamos a viajar de um lado para o outro do vasto continente, parando apenas um dia ou dois em cada cidade que visitávamos e fazendo reuniões durante as quais eram explicados ao público os objetivos que a Fundação desejava salientar. Um clérigo da cidade abençoava o empreendimento, um ou dois cidadãos de destaque recomendavam a causa dos cegos americanos à generosidade do público, algum membro da Fundação delineava o programa nacional e eu fazia um apelo às pessoas para que imaginassem o que era não ter visão e dessem tanto quanto possível para a instrução e o emprego dos cegos capazes. Uma talentosa músico cego, que viajava no nosso grupo, tocava, enquanto o dinheiro era recolhido. Eu ficava comovida pela espontaneidade com que o povo reagia em quase toda parte; o nosso movimento era apoiado pelos jornais e revistas, alguns dos quais transmitiam minha mensagem de um modo inteligente e sem o elemento destruidor da compaixão, pelos homens e mulheres de renome em todas as esferas, pelos grandes doadores, aos quais eu escrevia, e até pelas crianças, que nos ofertavam os seus níqueis que poderiam gastar em suas pequenas guloseimas. São inesquecíveis os anos que passamos erguendo o fundo de doações da organização, constituído na maior parte de pequenas contribuições daqueles cujos impulsos generosos são a verdadeira riqueza de uma nação.

Ao mesmo tempo, eu e a professora sentíamos verdadeiro acanhamento de mendigar nas portas dos abastados, embora estivéssemos trabalhando com todas as nossas forças para arrancar o cego à mendicância. Havia sempre um vulcão de ressentimento dentro de minha professora porque, apesar de todos os elogios e altissonantes afirmações de filantropia, permanecia o fato de que os cegos eram olhados com certo desprezo, como sempre o foram em todas as épocas. Não quero dizer que os sem-visão deste país foram relegados propositalmente aos antros da miséria e humilhação, mas o hábito de serem encarados como objetos de caridade foi muito difícil de ser extirpado. Era quase impossível para a Fundação, com a sua rica reserva de experiência, persuadir os empregadores a dar trabalho mesmo aos cegos bem instruídos e capazes de trabalhar ao lado dos que •vêem. Em cidades como Chicago, talentosos cegos músicos achavam dificuldade em obter contratos, porque se pensava que aqueles que viriam ouvi-los ficariam demasiado dominados pela compaixão para gostar do espetáculo. E nós prosseguíamos no longo combate contra a ignorância e o preconceito que cercava o cego na América e ainda o isola das coisas boas da vida na maior parte do mundo.

Houve bravos soldados do bem, que ficavam ao nosso lado, durante todos esses anos. A professora, porém, foi inigualável na prodigiosa energia com que se lançou ao combate e pelas vantagens que eu deveria obter com a vitória. Eu não podia deixar de sentir a misteriosa força que a impelia para diante e perguntava: "Por que você insiste tanto neste ou naquele plano, em meu benefício quando, na verdade, você não se interessa pelos cegos em geral?"

"Você está sempre imaginando coisas", respondia com impaciência. "Vamos trabalhar no aperfeiçoamento de sua voz".

Mas, a julgar por acontecimentos subseqüentes, sei que a sua ira contra a pobreza que causa a cegueira, a surdez e a loucura e a maior parte dos males da humanidade era o gatilho da arma com que ela atirava nos inimigos que apareciam no meu caminho. Segundo escrevi a uma fiel companheira de trabalho: "A irmã Ana sobe à torre para ver se os cavalheiros estão chegando para salvá-la e desce com o semblante triste dizendo que ainda não há sinal deles". Como sempre, porém, Annie Sullivan era uma sarça ardente que os ventos não podiam extinguir. Sempre que tínhamos um dia livre na Califórnia, que ela tanto amava, ela levava todos nós a um maravilhoso passeio de automóvel até Monte-rey, Del Monte, ou Santa Bárbara, e fazíamos um piqueni-que num local de encantadora beleza, entre as montanhas ou à beira-mar.

"A única razão por que não vivo aqui permanentemente", declarava, "é porque toda essa beleza me enfeitiçaria irremediavelmente e eu não trabalharia nem um pouquinho".

Observando-a, porém, de perto, eu percebia que ela estava sofrendo. Além da freqüente recusa dos seus olhos em querer servi-la e das terríveis bronquites a que estava sujeita, ela, de vez em quando, perdia o sentido do olfato que era para si, assim como para mim, uma fonte de suaves alegrias.

Outra peculiaridade extraordinária da professora era a sua preocupação com o meu futuro. Pressentindo que não ficaria muito mais tempo ao meu lado, ajudou Polly a se adaptar ao seu trabalho. Polly ficava nos bastidores, noite após noite, aprendendo a contar a história da professora na terceira pessoa do singular. Adquiriu assim uma boa noção da espécie de perguntas que devia fazer e das que lhe seriam provavelmente feitas. De vez em quando eu sugeria novas perguntas às quais eu podia responder com idéias novas. Naturalmente, eu nunca poderia admitir que alguém fosse realmente capaz de tomar o lugar de minha professora, mas a profunda integridade de Polly fêz com que a mestra se sentisse confiante de que o "fino ligamento de simpatia" entre os seus esforços e os meus jamais seriam rompidos. Assim, durante as suas freqüentes doenças, Polly a substituía e a maior parte do público nos recebia com o mesmo carinho.

EM 1927, a professora, que renunciara então definitivamente a aparecer em público, disse-me: "Por que você não se afasta durante um ano do trabalho e atualiza a história de sua vida, como a editora há muito lhe pediu que fizesse?”

"Não!" exclamei. "Prefiro escrever a sua biografia. Venho acumulando notas sobre a sua vida e ficarei terrivelmente desapontada se não escrever esse livro!"

"Oh, Helena, não se transforme na imagem do Infortúnio! Escrevendo sobre você escreverá também sobre mim".

Instintivamente respondi: "Isto só é verdade num sentido - você é a vida da minha vida e eu lhe sou infinitamente grata por isso, mas somos duas personalidades independentes e eu, que acredito firmemente nos privilégios de cada um, não vou sacrificar o seu direito à própria individualidade!" Ela nada respondeu, mas discutimos durante algum tempo e deixamos de lado o assunto de minha vida futura.

Mais tarde um ministro da Nova Igreja pediu-me que escrevesse sobre Emanuel Swedenborg e o que os seus ensinamentos significavam para mim. Era uma oportunidade de fugir a uma tarefa que eu temia e de depositar sobre o altar do amor uma dessas mensagens de fé que são como que uma fonte de vigor e alegria, mensagem que me havia assegurado uma independência parcial das condições terrenas. Recordei, com prazer um verso que a professora me havia lido certa vez, sugerindo a liberdade de escolha em relação à crença religiosa.

.. Ó Espírito, como um corredor se despoja Numa tarde tempestuosa, Desembaraça-te do que te preocupa. Ergue-te com graça E segue, nobremente, encarando o vento.

Nesse estado de regozijo eu aceitara os ensinamentos de Swedenborg, absorvera as suas interpretações da Bíblia, que embora destemidas e reverentes, eram tão livres como o Sol, as nuvens e o mar, cuja liberdade a mestra havia insulado na minha pessoa. Não esperava ajuda de sua parte, pois ela não tinha fé, por isso estive a ponto de chorar quando se colocou em meu lugar, imaginando o que devia significar a minha fé e escrevendo em minha mão longos artigos sobre o vidente sueco e a Nova Igreja, da qual ele não desejava ser considerado fundador. Leu também para mim como os seus escritos haviam influenciado Elizabeth Barrett Brown-ing, William Dean Howells e o velho James, pai de William e Henry James. Eu já tinha lido em Braille os Homens Representativos, de Emerson, que inclui Swedenborg.

Certa vez, surpreendi-a relendo as Palavras aos Mestrês, de William James, que ela havia apreciado através da voz expressiva de John Macy. Embora sentisse um choque ao pensar em sua visão precária, respeitei-lhe as associações afetivas com o livro e não a censurei como era meu hábito em outras ocasiões

Quando terminei Minha Religião, a mestra disse-me carinhosamente: "Você insistiu em que somos duas personalidades distintas. Afastei a minha em seu benefício. Agora, por favor, façamos uma troca do que há de melhor em nós duas; coloque-se no meu lugar e faça um registro do trabalho que realizamos juntas nos últimos vinte anos, mas só fale em nossas pessoas como instrumentos de libertação dos cegos". E foi assim que ela converteu num ato de amor o meu receio por tal desagradável obrigação.

Contudo, achei que a professora se tornava menos razoável à medida que me aproximava do fim de Minha Vida de Mulher. Obrigou-me a usar um tom forçado no capitulo que intitulei: "Meu Anjo da Guarda". Não permitiu nenhuma referência à sua origem humilde, ao asilo ou aos seus sofrimentos e decepções. Senti-me verdadeiramente humilhada, quase como se tivesse mentido ao próprio Deus, e nunca mais lhe falei no livro, após essa experiência que me causou aversão, pois eu amava Annie Sullivan e não a mim própria em sua pessoa.

Não me perturbaram as inúmeras tarefas que se acumularam entre 1927 e 1930: trabalho literário, um tremendo acúmulo de correspondência e atividades dentro e fora de casa, que eram um verdadeiro alívio para mim, após o eterno martelar na máquina de escrever. Além disso, havia a delícia de ler em voz alta para a professora. Oprimia-me a tristeza de saber que se aproximava a sua cegueira total. Ela não podia ler a olho nu ou com óculos comuns. Achava-se sob os cuidados devotados do Dr. Conrad E. Berens, de Nova Iorque, que costumava visitá-la geralmente à tardinha. Êle receitava umas gotas a serem usadas freqüentemente e lentes telescópicas bifocais. Até uma toalha de mesa, branca, estendida diante dela causava-lhe forte desconforto e as velas e as lâmpadas sem quebra-luz feriam-lhe os globos oculares. Por insistência minha deixou de ler, enquanto Polly estava visitando a família na Escócia. De qualquer modo, ela preparava as nossas refeições, olhando para o fogo o menos possível, apalpando o pão para saber se estava torrado e prestando toda atenção para ouvir o café ferver. Quando o pequeno almoço estava pronto, a querida Sieglinde instalava-se entre nós, com o focinho aveludado encostado às nossas mãos, à espera de sua parte. A professora só ficava completamente satisfeita durante a refeição se houvesse um cão para roubar ou pedir alguma coisa; e Sieglinde era a companheira mais adorável que se possa imaginar. Estava conosco desde pequenina e a professora estimava-a com uma ternura que lembrava a do homem pobre da Bíblia por sua única ovelhinha. Sempre que entrava em nossa casa alguém que aborrecia a professora, Sieglinde sabia-o perfeitamente e se aproximava do visitante para tentar afastá-lo. Era do tamanho de um pônei Shetland e um dos mais caros retratos de memória, que os meus dedos conservam, foi obtido numa tarde em que a encontrei com as patas nos ombros de minha professora, lambendo-lhe o rosto e passando-lhe uma de suas macias orelhas sobre os olhos como se compreendesse que eles estavam doentes. Tive então a suave sensação de viver cada linha do poema de Elizabeth Barrett Browning, intitulado Flash. Mas, ai, como aquele anjo de Sieglinde sabia de vez em quando roubar! Certo dia, enquanto a professora falava com o rapaz do armazém, deixou sobre a mesa da cozinha uma panela que continha um delicioso ravióli. Sieglinde sorrateiramente esticou-se e comeu a gostosa refeição antes que alguém pudesse impedi-la. É surpreendente que isto não tenha sido a causa de sua morte!

Foi nessa ocasião que a professora, com a sua imensa bondade, empregou uma ótima senhora cega, (que mais tarde trabalhou pelos sem-visão de Vermont), para copiar as notas do livro de Nella Henney. Isto é apenas um exemplo da cordial hospitalidade com que os cegos e surdos eram recebidos em nossa casa de Forest Hills. Algumas das minhas antigas colegas de classe da Escola de Surdos Wright-fiumason moravam não longe de nós e já que a minha professora gostava que eu tivesse a alegria -de me reunir a elas de quando em vez, quando eu não estava viajando, costumava convidá-las para as minhas festas de aniversário e outros acontecimentos sociais. Contentamento e jovialidade enchem-me a lembrança quando evoco essas horas de conversação animada (feita com os dedos) e de reminiscências dos nossos tempos de escola. Uma alegre moça canadense, que ouvia um pouco e tinha certo talento para a poesia morou conosco até conseguir trabalho na cidade. Elizabeth Gar-xett, filha do último e maior dos xerifes do Oeste americano, estudava com um célebre professor de canto, o senhor Wi-therspòon, em Nova Iorque, e visita-nos com freqüência. Eu gostava do seu rosto expressivo embora desprovido de visão, de sua alegria e de seu repertório de histórias cômicas, que punham minha professora num feliz estado de espírito. Elizabeth tinha corajosamente viajado sozinha cantando e tocando por todo o país.

Sentíamo-nos orgulhosos dela, naquele tempo, e ficamo-lo mais ainda quando ela se tornou célebre como musicista em todo o Estado de Novo México, onde havia nascido. Deste modo e de muitos outros, a professora procurava manter um ambiente em nosso lar e esquecer o suplício de sua vista. Estava sempre me animando a ser um instrumento de Deus, a procurar outras modalidades de vida, a criar novos meios de expressão para os talentos do próximo e a não desperdiçar com ela um só pensamento triste. Mais do que nunca, a minha alma se elevava diante de sua coragem que, como declarou o Dr. Johnson, é a maior de todas as virtudes, porque a pessoa que não a possuir, não poderá estar certa de conseguir preservar qualquer das outras. Eu, porém, não podia esquecer que o seu voluntário abuso da visão encurtara o período durante o qual ela poderia enxergar. Sabia que o Dr. Berens lhe implorava com lágrimas nos olhos que seguisse cuidadosamente o tratamento e sobretudo repousasse. Nem êle, nem eu, nem pessoa alguma poderia induzi-la a poupar-se. Quando eu não me achava próxima ou até mesmo quando me achava, ela tinha o rosto mergulhado num livro. A leitura tornara-se então verdadeiramente a sua vida e eu tinha que sofrer o meu atroz martírio. Ela lia para mim algumas das cartas mais importantes que o correio trazia diariamente e eu as respondia. Lançava o resto atabalhoadamente dentro de escaninhos e gavetas, de onde Polly as desenterrava ao voltar do estrangeiro. Enquanto a nossa amiga se achava ausente, o telefone e a campainha da porta podiam tocar em vão até o fim do mundo - eu não a ouvia e, tal como o Dr. Bell, a professora se recusava a atendê-los. Lia até ficar doente, como passou a acontecer cada vez com maior freqüência, e ela acabou tendo de ficar de cama.

Naquela ocasião ficou pronto o primeiro esboço de Minha Religião e, após vários dias de descanso e retardada obediência às ordens do Dr. Berens, ela tentou ler o manuscrito e escrevê-lo em minha mão. Eu o havia composto em meio a interrupções que, como uma corrente elétrica subitamente cortada, matavam as idéias e faziam com que tudo me fugisse da mente. Nem as lentes telescópicas da professora a ajudavam a decifrar uma só palavra! Ela era como uma criança imprevidente. Parecia ter esquecido que as nossas faculdades, quando usadas comedidamente, ajudam as dos outros; o Dr. Frederico Tilney costumava precisamente dizer que os sábios ensinamentos da mestra haviam sido essenciais na libertação do meu espírito das cadeias da ignorância. Estávamos entravadas. Um terrível silêncio caiu sobre nós. Felizmente o nosso prestimoso amigo, o senhor T. H. Dott-bleday, acorreu em nosso auxílio, quando soube da situação, encarregando Nella Braddy de emprestar os seus olhos a mim e à professora. Desde aquele memorável dia até o presente a sua rara e preciosa amizade tem sido como uma bênção em nossas vidas.

A mestra sentiu-se subjugada quando compreendeu que se achava quase extinta para ela a alegria de ler. A sua incurável inquietação, porém, fê-la aceitar um convite para passarmos o verão numa cabana de caçadores situada numa ilhota perto de Cohasset, Massachusetts. Nella permaneceu conosco durante algum tempo. O desejo de viajar, de minha professora, desta vez, foi causado em parte, por emoções semelhantes àquelas que "A.E." descreve em "Transciência". Annie Sullivan estava eternamente à procura da beleza perfeita e por mais maravilhada que ficasse com o tesouro que acabava de encontrar, ansiava logo por achar outro. Ela costumava dizer que todas as coisas passam e que estejamos nós onde quer que estivermos queremos sempre estar em outro lugar. "Talvez isto aconteça", dizia ela, "para nos impedir de gostar tanto deste mundo que relutamos em morrer e procurar ura ambiente mais belo e mais perfeito. Foi esta a última vez em que sentiu prazer numa viagem. Havia ainda um espumar de champanha em sua conversa, uma integridade no seu corpo, que irradiava contentamento quando ela ria, o que eu era capaz de senti-lo fisicamente. A mestra passeava conosco em torno da ilha, adorando o ar marinho e a solidão ensolarada. Sieglinde havia morrido no ano anterior e a professora ficou tão desolada que escreveu em minha mão: "É pior perder esta atraente imagem muda da afeição do que perder um filho!" Naturalmente isto foi dito de modo impulsivo. Mais tarde declarou que, se pudesse, faria amizade com todos os cães e adotou um pequeno ferrier preto e um grande dinamarquês, Hans, vindo da Alemanha. Esses dois recém-chegados à nossa família brincavam na ilha, perseguindo-se mutuamente nas brancas areias, nas rochas resistentes e nas ondas que rolavam mansamente. Os cães foram indispensáveis ao bem-estar da professora até a sua morte - cães de diferentes nacionalidades e raças, dinamarqueses, terries, collies Shelíand - qualquer cão que soubesse dar mostras de amizade com a língua ou as patas, abanar a cauda ou entretê-la com exibições inesperadas de suas habilidades para o bem e para as diabruras. Certa noite de tempestade, lá na ilha, sentamos bem juntinhas, enquanto as ondas se lançavam contra a parede de cimento que se erguia entre nós e o oceano espumante. Os cães uivavam, mas nós nos sentíamos contentes porque Nella havia lido as últimas provas de Minha Vida de Mulher e a mestra as repetira para mim.

Agora que o livro estava pronto, eu e a professora podíamos, de vez em quando, aproveitar os momentos de intimidade para abordar os nossos pensamentos íntimos e sentir que nos "pertencíamos" mutuamente, antes de reatar as nossas atividades normais na Fundação Americana de Proteção aos Cegos. Em Minha Vida de Mulher eu me havia manifestado livremente sobre assuntos econômicos, sociais e políticos e ela declarava que, por um caminho diferente, ou seja, a experiência direta da vida, havia chegado às mesmas conclusões

"Você diz, Helena, que a sua filosofia ensina que a cegueira e a surdez não existem num mundo que você considera uno e total. Portanto, qualquer experiência humana está ao alcance de sua compreensão e você não precisa renunciar aos pensamentos e ideais que adotou como o seu verdadeiro ser. Embora como escritora, que se dedica aos cegos, e defensora pública da causa deles, você não tivesse permissão de se referir, exceto de passagem, à minha infância, você é tão sensível como eu aos horrores da extrema pobreza, da doença, da debilidade e falta de decoro que esta acarreta. Eu também sofri ao ver a pobreza fazer gente mergulhar cada vez mais no abismo social, mas nunca acreditei que alguém quisesse prejudicar o próximo. Estou certa de que ninguém previa quão horrível, aterradora e escravizadora se tornaria a vida industrial - patrões, proprietários, financistas e operários presos às agruras de um sistema econômico e mecânico que cresceu mais depressa do que o homem poderia prever".

No entanto, a professora jamais pôde perdoar as condições que levaram Vachel Lindsay a escrever The Leaden-eyed, pois aquilo significava o sufocamento dos dons divinos da literatura, música, pintura, escultura e da vida intelectual que ela tanto admirava. Este era o motivo por que ela nunca se sentia à vontade, quando eu solicitava o auxílio financeiro dos ricos e poderosos.

"Mas enquanto houver alguém que recuse aceitar como inevitáveis, neste mundo, a confusão, o ódio, a fraude, o choque de interesses, os preconceitos e o direito do mais forte", declarava, "haverá uma probabilidade da humanidade sobreviver. Podemos contemplar a História tanto de cima como de baixo e renovar os nossos bons propósitos com a música das regiões eternas".

O inverno de 1928-1929 quase me submergiu numa torrente de trabalho: eu tinha de levantar fundos para ensinar as criancinhas a adquirirem hábitos normais antes de entrarem para a escola, conseguir bolsas de estudo universitário para os estudantes cegos, fazer discursos perante o Congresso, suplicando o aumento da verba anual destinada à literatura em relevo, para o cego adulto, e assim por diante. Polly me acompanhava às reuniões, porém, a professora dava um toque novo a tudo o que eu escrevia e falava. Ela possuía o condão de usar palavras simples, dando novas nuanças ao seu significado, e colocando-as intencionalmente de modo a tornarem as frases mais claras. Era estranho como ela percebia como se sentiriam os cegos que me ouvissem; parecia que ela havia adquirido um senso divinatório muito mais penetrante do que a visão física que estava perdendo. Eu me sentia orgulhosa, quando as suas frases cristalinas partiam, como flechas, do meu arco até o alvo.

No verão de 1929, o Dr. Berens operou o olho direito da professora. Depois disso, eu e Polly descobrimos uma casinha em Long Lake nas montanhas Adirondack. Era um lugar delicioso, onde eu podia passear até a praia guiando-me por uma corda, usando uma outra para nadar; a professora, porém, não podia mais me acompanhar dentro d'água ou andar comigo e com Polly por entre os abetos. A sua saúde estava em declínio e eu precisava lutar incessantemente para impedi-la de ler. As solicitações que me fizeram, durante aquelas férias, foram excepcionalmente numerosas, mas a professora não procurava tirar-me o prazer de aproveitar o pouco tempo de que eu dispunha para nadar, espreitar os beija-flores, cujas asas eu acariciava quando eles esvoaçavam ao longo de minha corda de passeio, e ouvir histórias sobre os cães que importunavam os porcos-espinhos e eram devidamente castigados, pois ficavam com o focinho coberto de espinhos. Ela se sentia tão nervosa quanto eu, quando ouvia um grande urso galgar a macieira próxima à casa e mastigar os frutos. Quando não havia sol para atormentá-la, entrávamos todos num barco a motor e dávamos uma volta pelo lago ou deslizávamos ao sabor da corrente. A professora ao sentir a beleza readquiria prontamente a sua antiga viva-cidade. Ela amava a perfeição e o contra-senso duas entidades que parecem ser quase opostas, mas que freqüentemente se encontram nos temperamentos artísticos. Mas ao voltarmos a Forest Hills, ela me disse: "Oh, Helena, como é triste sentir o próprio declínio! Cada força que me abandona é uma antecipação da ruína, que é pior do que a morte. Não é terrível a gente decair na escala da existência?

A terra estreita os meus ossos.
Deixai-me, ó forças celestiais,
Sou irmão da relva e das pedras.

A primavera E o verão de 1930 trouxeram-nos uma nova riqueza, não a riqueza de uma nova vida, pois a vida é universal, e sim a riqueza de admirar outros países que respiram uma atmosfera diferente, que têm uma história diversa da nossa e possuem outra flora e outra fauna que proporcionam os mais agradáveis deleites. Era indispensável irmos ao estrangeiro para que a vista esquerda da professora tivesse um descanso completo, e, assim, obtive uma licença para me ausentar da Fundação.

Eu julgava estar inteiramente familiarizada com as fantasias e os caprichos de Annie Sullivan, mas, nessa ocasião, fiquei chocada com a perversidade inesperada que se revelou numa pessoa que era capaz de se analisar com tanta justeza. A princípio sugerimos uma viagem à França. A professora riu e disse: "Ah, não quero de modo algum ir àquele país gaulês".

"Como Exclamei: "Não quer visitar Paris, cujo bomgôsto você tanto admira Não quer ver o Sena, a Notre Dame, as Tulherias, Versalhes e todos os lugares fervilhantes de recordações revolucionárias que você costuma descrever-me"?

"Não quero ir", declarou, fazendo um gesto impertinente. Os nossos amigos uniram as suas súplicas às nossas. Suspeito que tenhamos exagerado. Ela ficou perturbada, depois zangada e passou a argumentar com razões contrárias ao bom-senso e à cortesia. Lamentou a doença, o cansaço, a decrepitude e, finalmente, alegou que tal viagem só lhe aumentaria o tédio, pois ficaria longe dos seus livros, das suas diversões e da beleza natural, que ela tanto apreciava. Fiquei quieta diante de sua irritação e ela, finalmente, se calou, parecendo ter cedido. Eu e Polly apressamos os preparativos para embarcar no President Harding, antes que ela mudasse de idéia. Poucas horas antes de sair de casa, porém, nos certificamos de que não havia força ou persuasão que a fizesse viajar. Tivemos então que cancelar a nossa passagem.

De repente, a professora pareceu despertar de um sonho e ver como Polly estava triste, cansada e desanimada, sem pronunciar uma só palavra. Eu me pus a trabalhar na minha escrivaninha e não disse nada. Muito arrependida, ela perguntou qual o próximo navio que poderíamos tomar. Felizmente, o President Roosevelt saía a 1 de abril e a mestra apreciou realmente o lindo dia em que deslizamos para fora do porto de Nova Iorque. Ignorávamos onde ficaríamos, mas isso não a perturbava. Não tardou que desabasse sobre o navio uma violenta tempestade que durou vários dias. As mesas e as cadeiras do nosso camarote eram tumultuosamente arremessadas contra as camas; uma grande cesta de frutas tombou no chão e Polly atirou-se para apanhar as maçãs e as laranjas que rolavam pelo chão. A professora se lamentava: "Quisera ter ficado em casa!" Contudo, ela não enjoou a bordo e, após algumas horas de sono, participou conosco de tudo o que era cômico e agradável na viagem.

Estávamos bastante nervosas, quando chegamos a Lí-zard, perto de Lands End, que é a língua, o olho e ouvido da Grã-Bretanha. Em Plymouth, encontramos um recado da irmã de Polly comunicando-nos que um confortável refúgio se achava à nossa disposição em Looe, uma aldeia da Cor-nualha. O dia estava magnífico e o meu coração batia cada vez com mais pressa à medida que atravessávamos Plymouth, de onde haviam saído alguns dos meus antepassados, trocando o Velho Mundo pelo Novo. As ruas estavam cheias de carrocinhas abarrotadas de narcisos, abróteas e outras flores primaveris, o que fêz com que a professora ficasse louca de alegria. O resultado foi que adquiriu o bastante delas para encher o automóvel que nos conduzia. No trajeto, passamos ao lado de um rio e as violetas se espalhavam por toda parte em poças azuis. Chegamos, por fim, a um bangalô no alto de um rochedo, à volta do qual as gaivotas esvoaçavam, soltando gritos. A professora ficou fascinada por aquele alarido que parecia o som de um sino e era tão diferente do das gaivotas americanas. Ali passamos dois meses maravilhosos durante os quais a saúde melhorou bastante e ela recuperou a velha alegria. Nos dias quentes, caminhava comigo por uma vereda que se estendia do bangalô até um pasto cheio de ovelhas. Sentava-se, então, bem no meio delas. Várias ovelhas se aproximavam de mim e cheiravam o meu vestido azul como se achassem que seria agradável para comer-se. A professora fazia Polly ler, em voz alta, todas as poesias e lendas que pudesse encontrar sobre a Cornualha e as transmitir para mim. Parecia-me estar de volta à infância, quando ela começara a me instruir. A mestra literalmente transbordava de alegria, quando tentava descrever o pitoresco das coisas, como as velhas e acolhedoras hospedarias, as aldeias de pescadores com casebres que desciam até o mar, as antigas tabernas, as igrejas de pedra carcomida pelo tempo, a acidentada linha da costa e os urzais agitados pelo vento, mais para o interior. Às vezes, caminhávamos por entre os rebanhos de ovelhas que eram levadas à tosquia e eu e a professora gozávamos de uma curiosa sensação, quando os ovinos nos tocavam com os seus densos e quentes pêlos lanosos, ao se agruparem à nossa volta. Ela se expandia como uma planta ao sol, quando passeávamos durante horas pelas tortuosas e perfumadas veredas cheias de campânulas, goivos e outras flores que cresciam nas cercas e nos muros dos jardins, todas rebrilhando de orvalho, sol e ar marinho. E descíamos do carro para que eu pudesse tocar as casinhas cobertas de colmo. Durante o passeio, a professora ouvia as histórias do Rei Artur, de Morgana, do lago onde mergulhara a Escalibor e do Old Artful, com seus malefícios e burlas, assim como antigamente prestara ouvidos às histórias do "povinho" e da cavalaria irlandesa. Havia qualquer coisa tão deleitável e esquisita nessas lendas que nós duas desejamos logo transmiti-las para os cegos da América. A professora, então, contou-me minuciosamente tudo o que tinha ouvido e eu datilografei rapidamente um manuscrito, numa máquina emprestada, e mandei-o ao Ziegler Magazine for the Blind.

Visitamos também o tranqüilo e repousante condado de Devon, onde as macieiras lançavam à brisa da primavera as suas viçosas flores. Por toda parte, viam-se gramados verdejantes, atalhos sombrios, prados e colinas, onde os pássaros cantavam em orquestrações jubilosas ou lamentosas. Certa vez, visitamos a aldeia de Egdon Heath, onde nasceu Tomás Hardy. Entramos na sua casa de campo, ornada de rosas que trepavam pelas janelas, e vimos o quarto modesto, ao qual êle se recolhia para escrever. Fomos também ao pequeno cemitério, onde jaz o seu coração, que pulsava de compaixão pelo sofrimento humano.

Em junho do mesmo ano, a professora, Polly e eu tomamos passagem para Waterford, Irlanda, num navio cargueiro pitorescamente batizado de Bally Cotton. Recordo as nossas palestras com a tripulação, sobretudo com um dos seus membros que prestava solícitos cuidados aos animais que estavam a bordo. A professora ficou impressionada com a sua finura e os seus extensos conhecimentos relativos não só à política inglesa, como também aos problemas sociais de todo o mundo. Confesso que me sentia triste ao pensar que visitaríamos a Irlanda onde tentaríamos descobrir vestígios dos pais de minha professora. Eu havia lido que certas partes do país eram muito belas e o meu coração transbordava de gratidão para com a Irlanda por me ter dado uma filha que havia transformado a minha vida de privações numa realidade de alegria e satisfação íntima. Sentia, porém, duplicada em minha alma, a dolorosa mágoa da mestra pela pobreza aparentemente inevitável que há séculos pesava sobre o seu país. Conforme ela escreveu mais tarde, causaram-lhe verdadeira humilhação ver os "xales das mulheres, de um preto ferrugento, os passos arrastados dos homens, o lombo magro dos burricos melancólicos e o sol que brilhava com timidez sobre a Irlanda, como se não quisesse contemplar tanta desgraça". Detestou as rochas sombrias das colinas, os pântanos de onde as pessoas arrancavam turfa para fazer fogo e o miserável aspecto de County Clare. Falou-me com muita ternura do Shannon - "a lágrima caída dos olhos do Senhor" pela infelicidade da Irlanda - rio que havia deslizado em seus sonhos desde a infância. A contragosto, inflamou-se de ódio pela Inglaterra, que pouco antes achara encantadora. Uma força procurava desprender-se dela, como um exército lutando cegamente sem saber contra quem ou por quê. Seguindo o processo de um lúcido raciocínio, ela se desnacionalizou; de um modo geral, simpatizava igualmente com todas as raças oprimidas da humanidade. Sabia que a miséria econômica da Irlanda não era fundamentalmente diferente da africana, da asiática ou da filipina, mas naquela ocasião sentia-se arrebatada pelos instintos atávicos. Declarava freqüentemente que ninguém precisava dizer-lhe que ela era desarrazoada; sabia-o, mas sentia-se impotente como num pesadelo. Não era mais ela própria. E eu fiquei contente, quando nos despedimos de Erin e voltamos aos dias mais ensolarados da Inglaterra.

Os bons fados permitiram que a mestra me transmitisse os encantos dos últimos dias outonais, antes do nosso regresso a Forest Hills. Isso me capacitou a dedicar todas as minhas energias ao levantamento de fundos para o primeiro conselho mundial sobre assistência aos cegos, promovido pela Fundação na cidade de Nova Iorque em abril de 1931. Este grande avanço nas perspectivas em favor dos cegos transtornou a nossa rotina. A publicidade às vezes pesava sobre nós como correntes, mas tudo o que então se passou não deixou de ser uma gloriosa aventura, um novo passo para tornar a história do cego mais ampla e mais luminosa.

Outro acontecimento ocorrido em 1931 me é tão grato à memória como se supunha que o incenso fosse para os deuses. Por solicitação urgente e persistente do Dr. A. Edward Newton e outras pessoas, a Temple University concedeu à minha professora o grau de Doutora em Humanidades. Os meus pensamentos se voltam sempre cheios de gratidão para o senhor Newton, cujo senso de justiça concedeu a Annie Sullivan o seu verdadeiro lugar no campo do ensino. O Dr. Bell costumava dizer que ela foi uma das pessoas que mais contribuíram para a educação não somente dos surdos como também das crianças normais. A Dra. Maria Montessouri, que encontramos em São Francisco durante a Exposição de 1915, prestou um belo e sincero tributo à minha professora ao considerá-la uma "verdadeira pioneira" da pedagogia. Cito com orgulho as palavras do senhor Newton:

"Outro motivo que me leva a confiar que a senhora aceitará o grau oferecido pela Temple é o seguinte: aceitan-do-o a senhora dá a esta universidade a oportunidade de proclamar o desejo de incentivar as realizações extraordinárias, em qualquer atividade humana, especialmente quando o objeto dessa honra ocupa uma posição que torna improvável qualquer retribuição de sua parte. Inúmeras honrarias são concedidas por universidades na esperança de receberem um quid pto quo. Temple não está sendo movida por isso. Portanto, esta homenagem a senhora não tem o direito de declinar. Será que a senhorita Keller e os seus inúmeros amigos aquilatam mais corretamente do que a senhora o valor de sua obra?"

E êle deixou de acrescentar um fato igualmente importante, isto é, que a Temple University havia sido fundada para dar aos rapazes e moças que trabalham uma oportunidade na vida. A princípio, a professora recusou o grau honorífico, embora eu houvesse aceitado o meu. Pareceu-me que ela assim procedia em oposição ao espírito e à natureza do povo ao qual pertencia e também contra as faculdades com que ela havia conseguido libertar-se do seu negro destino e divisar horizontes mais amplos.

Contudo, sempre que ela tinha oportunidade, falava em público sobre os feitos de outras mestras. Após termos recebido a dupla honra de Membros do Instituto Educacional da Escócia, Annie declarou: "Jamais pensei que merecesse « mais louvor do que outras mestras que dão o melhor de si aos alunos. Se seus esforços não libertaram um Ariel do carvalho que o aprisionava, é sem dúvida porque não havia um Ariel a libertar".

"Tenho visto professores dispensar minuciosos cuidados e consumado engenho a crianças irremediavelmente estúpidas! Sei de alguns que renunciaram a tarefas mais agradáveis a fim de dedicar a vida ao que me pareceu um trabalho monótono e desinteressante. Tenho-os visto transformar a terra, o mar, o céu e tudo o que há neles em benefício de seres que são incapazes de fazer o que quer que seja de valor. Com amor cristão e paciência estão sempre prontos a socorrer os abandonados, os retardados ou os infelizes da raça humana".

Era esta personalidade de alma tão generosa que eu tanto admirava e ainda hoje admiro; e em homenagem a ela procuro viver com os espíritos nobres que me elevem a uma esfera mais alta.

Vou agora falar francamente a respeito da personalidade da professora e também da minha. É relativamente novo o movimento para reabilitar os cegos de modo que possam viver uma existência normal. Poucos o compreendem. Desde tempos imemoriais, os cegos têm sido considerados como criaturas à parte, embora, através dos séculos, alguns deles, possuidores de talento fora do comum e acuidade de espírito, tenham obtido as maiores distinções. Homero e Milton compuseram poemas nas trevas e conquistaram a admiração do mundo. Num dos piores períodos da história romana o grande advogado cego Ápio Claudino Ceco, redigiu uma coleção de estatutos para proteger os direitos do povo, inclusive o dos escravos, e há muitos outros ainda cujos feitos luminosos ultrapassaram as trevas em que se achavam mergulhados. Mas, fosse qual fosse o seu talento ou gênio, isto não era uma conseqüência da cegueira.

A maioria dos cegos não instruídos é como a madeira ou o carvão à espera de ser inflamado por idéias de espíritos esclarecidos, embora às vezes os que têm vista não sejam assim tão esclarecidos. Tais pessoas atribuem aos cegos que aprendem a fazer bem coisas triviais qualidades que não existem. em lugar de procurar descobrir como estes empregam os sentidos físicos que ainda possuem. O mesmo sucede aos surdos, aos aleijados e aos outros grupos de incapacitados.

Foi nessa densa floresta de ignorância que a professora acendeu o seu farol. Tratou-me exatamente como a uma criança que vê e ouve, com exceção apenas de que em vez de usar palavras faladas ela as escrevia em minha mão. Nunca permitiu que ninguém me lamentasse ou adotasse para comigo o excesso de zelo que pode tornar a cegueira uma grande tragédia. Não consentia que alguém elogiasse qualquer coisa que eu tivesse executado, a menos que estivesse bem feita, e ficava ressentida quando alguém se dirigia a ela e não a mim, como o faria se eu fosse uma criança normal. Encorajava a minha família e os meus amigos a falar-me livremente sobre todos os assuntos para que eu aprendesse mais rapidamente a me expressar. Foi preciso verdadeira coragem para isso, pois a minha mãe e a prima Leila Lassiter eram as únicas, em Tuscumbia, que compreendiam a sabedoria do método.

Anos mais tarde, senti-me grata a uma professora de Geometria porque se mostrou zangada quando custei a compreender a proposição XVIII e percebi que o Professor Copeland me considerava uma aluna comum quando condenou as minhas ineptas traduções de La Fontaine com as suas críticas severas e sarcásticas. Às judiciosas opiniões da professora sobre os meus êxitos e fracassos devo todo o equilíbrio mental que hoje possuo. Naquela época, ela ainda não me revelara o que sabia sobre as falsas noções acerca da natureza da cegueira e foi por isso que escrevi com alegria o Mundo em que Vivo, rindo-me dos críticos que me negavam o uso de palavras como "cores", "paisagem", "luz", da lua e das estrelas e "tons" de voz, que são perceptíveis ao tato. Constituía para mim um verdadeiro prazer mostrar como eu me divertia usando vocábulos cujo significado podia advinhar somente pela analogia e imaginação. A professora muito lutou para organizar a minha vida de modo que eu pudesse arrancar das minhas limitações a beleza oculta e talvez fazer com que os meus leitores adotassem um conceito mais sadio da cegueira e da surdez, vendo-as contra o fundo da psicologia comum.

O que quero dizer é o seguinte: embora eu tenha sido generosa e extravagantemente elogiada por minhas realizações, jamais encarei esses tributos como devidos a mim. Não me coube nenhum dos triunfos do "gênio". Diz-se que o gênio é a capacidade de ser infinitamente paciente e eu nunca possuí tal qualidade. Trabalhei simplesmente com mais afinco em tarefas comuns em conseqüência da minha tríplice limitação. Tive sorte, já que tanto a professora como eu gostávamos de literatura inglesa. Tenho sempre procurado mostrar que ela era para mim os olhos e os ouvidos pois que me permitiam adquirir a linguagem e que não somente encorajou-me a escrever, como também sugeria maneiras pelas quais eu podia usar os meus escritos e a minha fala em melhor proveito dos incapacitados. Os mal-entendidos resultaram das normas psicológicas errôneas estabelecidas pelos que vêem para com os fisicamente deficientes. Suponho que era quase inevitável que poucas das pessoas que conheci soubessem reconhecer a audaciosa capacidade da professora ou quisessem me considerar simplesmente como um ser humano normal que usa os recursos da alma, como o pode fazer qualquer pessoa que o queira, a fim de compensar as deficiências físicas. A professora criou para mim uma existência completa porque acreditava que todo ser humano tem ocultas dentro de si aptidões à espera de serem descobertas. Teve a confiança de arrebatar a vida para mim, como a águia segura a presa e a transporta pelo ar; e ela se ergueu com seu galardão na serenidade da atividade criadora. Realizar uma obra é um prazer - o mais satisfatório de todos os prazeres, que somente se consegue ao preço de ardoroso combate. É a palma que coroa o vencedor. Realizar uma obra é subjugar uma parte do infinito. A professora não construíra a vida com as suas próprias limitações e sim com os seus talentos. Não conformou suas ações à minha fraqueza. Elevou as faculdades do meu espírito até às suas ações. Não tolerava os arrogantes, com a sua autoridade protetora sobre os cegos e outros grupos desafortunados, as suas esmolas, a que faltava o amor compreensivo, e tudo neles que parecia matar a vontade ou enfraquecer a capacidade de realizar as ações que renovam a existência. Sempre que possível afastava-lhes da mente os vapores da falsa compaixão e confrontava-os com a humanidade de olhos voltados para o alto que eles negavam aos incapacitados. Para ser Safo é preciso ter-se a alma de Safo. Para ser uma verdadeira Mãe Espiritual, como o foi minha professora, é necessário desposar um ideal ativo e possuir entranhas que gerem almas. O espírito pioneiro da professora - perdoe-me a repetição - era guiado pelo sonho de que a inteligência se ergueria por fim em toda parte julgando tanto as habilidades dos normais como as dos incapacitados, que se romperiam as obstinadas barras dos preconceitos, que novas idéias fariam florescer uma maravilhosa primavera, que os velhos jardins da cultura receberiam o orvalho novo com frescos rebentos, enquanto os canteiros ficariam cobertos de radiantes flores, e que brilhantes arroios entoariam cânticos de um mundo por nascer.

Como estão longe deste objetivo os que laboram em benefício dos cegos, embora sejam devotados e perseverantes! Surgem-lhes a todo momento problemas sobre os quais não possuem a mínima noção. Por exemplo, há a urgente questão de se conseguirem professores especializados que dediquem todo o seu tempo e energia às crianças totalmente cegas ou com pequena percepção visual e outros mestres para as crianças que vêem parcialmente, mas que não se podem beneficiar inteiramente da educação ministrada nas escolas públicas. A professora estava totalmente a par dessa dificuldade e também do fato de que se deve considerar cada cego individualmente se se quiser obter resultados satisfatórios; mas foi só recentemente que os educadores e assistentes sociais iniciaram em conjunto essa tarefa.

A professora sabia também por intuição que "a deficiência visual não é um fator de união, assim como não o é o dom da visão. Muito pelo contrário, acarreta imprevistos que precisam ser estudados cuidadosamente". Com sua experiência pessoal, ela estava convencida de que a conformidade da visão de cada indivíduo com as tarefas particulares de sua vida diária é mais importante do que a acuidade visual òpticamente medida. Interessava-se pela influência da cegueira sobre a personalidade, pela percepção espacial, orientação e espírito criador e confiava esperançosamente que algum dia haveria uma profunda compreensão da natureza humana em geral que eliminasse a teoria de uma classe única para os cegos. Estou dizendo tudo isso a fim de explicar por que lamento que ela tenha sido consultada tão poucas vezes em assuntos que eu, pela própria natureza das coisas, não podia assimilar diretamente. A professora não era um porta-estandarte, como ela própria dizia, e naturalmente, como mulher livre, tinha o direito de falar ou de se calar sobre qualquer assunto. Contudo, eu me sentiria hoje muito mais feliz e confiante se certas pessoas tivessem levado em consideração às esclarecidas opiniões da professora e aproveitado os benefícios dos seus valiosos conselhos e as suas perspectivas ricas de imaginação. Assim sendo, só posso buscar conforto no fato de que os seus anseios pelo bem dos cegos e de todos os outros grupos de incapacitados acham-se agora realizados nos amigos sinceros conquistados não só na América, como em todo o mundo.

Na primavera de 1931, a professora sentiu-se exausta depois de termos ajudado a organizar e assistirmos às reuniões do Primeiro Concílio Mundial pró-Cegos e por isso no verão fomos para Concarneau, na Bretanha, a fim de descansar e pôr em dia a correspondência atrasada. Em breve, porém, descobrimos que precisavam de nós na Iugoslávia para levantar fundos em prol da reabilitação dos cegos - minha primeira aventura dessa espécie fora dos Estados Unidos - e a professora não se negou a participar da campanha. Conseqüentemente estava doente quando voltamos para a Bretanha, em pleno calor de verão. Além disso ela se sentia deprimida porque se estava extinguindo a pouca visão que lhe restava. Choveu quase todos os dias que lá passamos. Nossa visita a Iugoslávia nos exigiu um árduo trabalho. Além disso, as viagens representavam um tremendo incômodo para a professora. Ela dizia que, embora tivesse todos os caprichos, inconsistências e contradições dos irlandeses, não participava de seus impulsos para vagar de terra em terra. "Lar, doce lar, é o único lugar que me serve", exclamava como se a Inglaterra, que achara tão encantadora um ano antes, houvesse desaparecido de sua memória. Lamentava a barreira da língua francesa que eu considerava uma dádiva do céu a nos Proteger contra interrupções.

Não obstante ela rompeu a barreira com uma deliciosa diablerie d'esprit. A bondosa mulher, que cuidava da casinha que alugáramos, não sabia uma só palavra de inglês, mas nós nos entendíamos perfeitamente. Os gestos apontando para objetos, as adivinhações com muitas risadas e o pouco francês ou inglês que eu conseguia traduzir, faziam com que nós nos sentíssemos inteiramente à vontade. Louise era não só uma excelente amiga nossa e de Scottie, como também uma ótima cozinheira. Tinha o rosto expressivo e era muito pitoresca com os seus trajes bretões. Havia entre nós uma verdadeira afeição. Ficávamos encantadas, quando se sentava para tomar chá conosco ou nos acompanhava num piquenique, quando o dia estava ensolarado, ou nas visitas que fazíamos a uma velha igreja bretã. Contava-nos que nunca estivera a mais de vinte e cinco milhas de Concarneau e que ansiava por conhecer a Capital que, em seus sonhos, era não só o símbolo da beleza, da arte e da história da França, como também da história de todo o mundo. Quando chegou, por-tanto, a ocasião de partirmos, a professora arranjou para que ela fosse conosco a Paris. Jamais vi alguém tão absorvido ou arrebatado como Louise, quando passamos por alguns lugares como Rennes, o Loire regurgitante de castelos e Or-leans, onde vimos de passagem a estátua de Joana d'arke. As brilhantes luzes de Paris acolheram-nos ao anoitecer; Louise pernoitou conosco e depois do café da manhã mostramos-lhe tudo o que nos foi possível antes de embarcarmos à tarde. Manteve-se constantemente arrebatada diante de Notre Dame, do Sena, o qual apresentava toda a sua magnífica beleza naquele dia dourado de sol, do túmulo de Napoleão e de outros lugares de interesse histórico. Foi-nos difícil separarmo-nos de uma amiga tão sincera. Lembro com melancolia a infinita bondade que a professora dispensava às pessoas humildes, cujo serviço ou amizade ela prezava.

Nada me causa tanto prazer como louvar a Inglaterra e a Escócia por nos ter distinguido com tanta hospitalidade e apreço, por nos ter proporcionado tão belas oportunidades para ajudar os incapacitados e, finalmente, por nos ter concedido a possibilidade de descansar em paz, sob a influência salutar da Natureza. Quando fomos à Escócia, em 1932, a fim de que eu recebesse a homenagem da Universidade de Glasgow, o Dr. Jaime Kerr Love, grande cirurgião e meu velho amigo, instalou-nos numa encantadora casinha coberta de rosas, Dalveen, onde eu podia ter um pouco de sossego para preparar os meus discursos. Quando me debruçava na janela, quase que podia sentir os botões de rosas se abrindo. Todas as manhãs eu me encaminhava até o jardim, sendo às vezes acompanhada pela professora, e aí acariciávamos os canteiros de miosótis e anômonas, que os seus olhos doentes mal podiam distinguir. Ela gostaria de ter podido passar todo o verão na Cornualha, onde a Natureza lhe falava a mais encantadora linguagem da beleza. A mestra, porém, concordou alegremente em seguir o rumo que os nossos negócios haviam tomado, já que o título que a Universidade de Glasgow me ia conceder agradava-lhe imensamente. Sentia-se também feliz por podermos trabalhar em Dalveen com o canto dos pássaros, o zumbir dos insetos e as flores desabrochando à nossa volta. Se não fossem as suas engenhosas sugestões eu não poderia ter enfrentado com êxito as conferências com os membros da Universidade de Glasgow assim como as inúmeras entrevistas, cartas, telegramas e fotografias que a publicidade relativa ao título desencadeou. Estávamos quase apavoradas diante das brilhantes cerimônias daquele augusto estabelecimento que possuía um registro tão impressionante de eminentes sábios e homens de gênio, a partir do século XV. Mas o Dr. Love, com a sua simpatia cativante, facilitava-nos tudo. A professora mostrou toda a sua gratidão tanto a êle como à sua gentil esposa pela atmosfera de compreensão e cordialidade com que nos rodearam. Vendo-nos juntas, eles logo compreenderam quão profundamente a professora fazia parte de mim. Foram dos poucos que perceberam o caráter entrelaçado de nossas existências.

Depois de aceitar o primeiro convite não seria correto recusar os demais e fizemos tudo o que nos foi possível nesse sentido. Éramos convidadas a conhecer pessoas interessantes e a fazer toda sorte de coisas agradáveis. Eu desejava visitar os estabelecimentos dedicados aos cegos e surdos sobre os quais havia lido e que me haviam enviado tantas provas de consideração, desde a minha infância. Entre os primeiros em importância achava-se o Instituto dos Cegos, de Edimburgo, do qual me recordo particularmente porque o senhor W. W. McKechnie, do Departamento Escocês de Educação, ali falou sobre a professora com eloqüência e espírito. Êle possuía uma clarividência que em nada se comparava à tola e ignorante adulação que constantemente me dispensavam, e percebia a inabalável dedicação e o labor construtivo da mestra a fim de recuperar-me a vida, conferindo-lhe forma e beleza. Não é com freqüência que se ouvem palavras tão brilhantes e verdadeiras. À medida que êle falava eu sentia

Como se de novo os deuses estivessem chamando
De algum homérico passado.

Naquele dia, o senhor McKechnie elevou as nossas lutas e vitórias à dignidade de coisas divinas.

Ao deixarmos Dalveen, fomos para Londres, onde passamos a comparecer a três, quatro ou cinco solenidades por dia. Tenho uma lembrança agradabilíssima de como a mestra lutou contra a fadiga e o nervosismo para interpretar os meus numerosos discursos.

Havia também outros compromissos, tais como jantar na Casa dos Comuns, assistir a um lindo garden party no Buckingham Palace, onde a professora, Polly e eu fomos apresentadas ao rei Jorge V e à rainha Mary, visitar Hampton Court e aparecer no Instituto Nacional dos Cegos, onde conseguimos a generosa assistência do senhor W. W. Mac G. Eeager, então diretor, e de seus secretários a fim de podermos cumprir o movimentado programa de Londres. O senhor Eeager foi outro eminente educador que demonstrou uma entusiástica admiração e amizade pela professora. Passamos um dia memorável na Escola Real de Cegos, em Leatherhead, Surrey, onde formosos e comoventes tributos foram prestados a Annie Sullivan pelo Reverendo E. H. Griffith, diretor da escola. Eu desejava que o povo dos E. U. A. tivesse ouvido as expressivas frases pronunciadas a respeito da professora em Leatherhead e as idéias construtivas então apresentadas com relação aos cegos surdos. Correr de um lugar para outro, contudo, era demais para nós e, quando tudo terminou, a professora adoeceu de bronquite e eu e Polly pagamos pesado tributo, por termos ficado tão ansiosas em ver tudo, sentindo-nos completamente exaustas. O médico achou que uma altitude mais elevada traria grandes benefícios à professora e nós fugimos para as regiões montanhosas da Escócia.

Dirigimo-nos febrilmente para Tain, uma aldeia montanhosa, onde o irmão de Polly e a sua família estavam passando as férias. Era a estação da caça e pesca e, durante algum tempo, tememos não encontrar abrigo para nos recolher, mas, finalmente localizamos uma fazenda em South Arcan, próximo a Muir of Ord, Ross-shire, e eu me senti como Cristiano quando o seu fardo lhe caiu das costas. Só em ver o dourado, a côr púrpura e o azul das colinas escocesas, a professora melhorou como por passe de mágica. Só desejávamos tranqüilidade para trabalhar em minha correspondência e, no entanto, não queríamos perder coisa alguma do esplendor que nos cercava. Havia ali todos os encantos que alegram o coração de um adorador da Natureza: a solidão entre os grandes campos de trigo, a música dos arroios e as charnecas de urzes de côr púrpura, em flor. A professora deliciava-se com o silêncio quebrado apenas pelo mugir do gado Angus, o balir das ovelhas e o bater das asas dos inúmeros pássaros. Eu podia passear só, usando um cajado de pastor e seguindo um velho muro sombreado por carvalhos e uma cerca de árvore-da-vida, dedaleiras e giesta dourada, que desprendiam uma fragrância melífica e cujas vagens de tonantes vibravam em meus dedos. Quando eu e a professora vagávamos pelos campos com Scottie seguindo-nos de perto, ela me contava encantada como a cadelinha assustava os bandos de perdizes, gaios silvestres, faisões, tordos e pombos cinzentos. Quando a bronquite da professora foi dominada, fizemos divertidos passeios de cargo pelos arredores, mas logo chegaram ao fim os nossos dias de trabalho diário e a inexorável consciência fêz-nos voltar a Nova Iorque onde estava sendo planejada a nossa campanha de inverno.

Eu sabia que o trabalho pelos sem-visão estava-se estendendo rapidamente para além dos Estados Unidos e que muito dinheiro precisava ser levantado para cobrir as exigências da Fundação Americana de Proteção aos Cegos. Só duas de nós viajamos naquele ano, Polly e eu, embora tivéssemos às vezes ajuda de algum membro da diretoria da Fundação, para organização das conferências e para responder às perguntas freqüentemente pouco inspiradas da imprensa. A maioria dos repórteres parecia pensar ainda que era coisa simples ajudar aos cegos: bastava que revelássemos as suas necessidades. Senti falta dos felizes apartes da professora. De inúmeras maneiras tentei explicar aos jornais que não há uma fórmula especial para se prestar assistência aos cegos - que alguns têm um pouquinho mais de visãoque outros e que são necessários quase tantos métodos quantos são os seus diferentes graus de incapacidade. Doía-me o coração ao pensar que a professora se encontrava sozinha em Forest Hills, sofrendo dores quase constantes, cuidando dos cães e tentando ler quando não o deveria fazer. Não tínhamos empregada e eu ficava pensando como ela poderia preparar as suas refeições - ou talvez passasse sem elas. Muitas noites fiquei acordada tentando descobrir um meio de facilitar-lhe as tarefas. Depois de longas viagens eu e Polly geralmente voltávamos para Forest Hills por volta de meia-noite impressionadas com a solidão da professora, imaginando as coisas horríveis que lhe poderiam acontecer, e a encontrávamos bem acordada, pronta para rir de nossos temores. Mas ela não podia nos enganar. Sabíamos que estava ficando cada vez mais fraca, mas não consentia que adiássemos os nossos compromissos para cuidar dela.

Meu único consolo era que a beleza da Escócia acariciava-lhe o espírito como um pássaro acolhe os seus filhotes sob as asas. Eu e Polly terminamos o mais breve possível a campanha pela Fundação e fizemo-la voltar às pressas para a fazenda de South Arcan, em junho de 1933. A princípio ela pareceu refazer-se e comecei a pensar que nenhuma primavera ou verão poderia oferecer-me a riqueza e a suave doçura que senti no outono da vida da mestra. É assim que a doce esperança nos embala no decorrer das "horas sombrias e tortuosas passagens" do destino.

Mais uma vez, o fascínio da Caledõnia apoderava-se da minha professora e eu participei dos seus sentimentos, achando que não havia país mais cativante, mais tranqüilo ou mais abundante em influências salutares. Daquela vez ela podia permanecer ociosa e tranqüila na calma das regiões montanhosas da Escócia. Ela gostava de ouvir os pássaros e lançava-lhes migalhas quando se agrupavam perto da porta. Reviveu o seu amor pelas urzes e reviu em espírito o esplendor das colinas e dos regatos ocultos pela cortina que se fechava diante dos seus olhos. A sua alegria era grande demais para ser traduzida em palavras; ela adorava as veredas de bétulas prateadas, freixos, larícios e espinheiros em flor. De quando em vez, faziam um longo passeio de automóvel, durante o qual o espírito de aventura tecia, entre as nossas almas, simpatias demasiado profundas para serem expressas em palavras. Em tais momentos alegrava-me saber que

O solo verde se inclina numa esfera de ar
E se banha numa chama de espaço
E um sol longínquo numa concha de silêncio
Irisa as paredes para mim.

Creio que a razão pela qual ela achava tão doce aquela vida era por ter descoberto que se encontrava num mundo cordial e bondoso. Muitos dos amigos, que fizéramos no ano anterior, vieram visitar-nos na fazenda e a sinceridade, o interesse, a hospitalidade e a verdadeira bondade de toda essa gente eram coisas preciosas para a professora. Durante muitos anos, Annie Sullivan Macy vivera constantemente sob tensão, numa atividade e vigilância extraordinárias e, portanto, era-lhe um grande conforto descansar sob a carícia daquela simpatia compreensiva. Falou-me da vida que se forma dentro de nós e que tende a renovar-se sem a nossa contribuição, sarando as suas próprias feridas, trazendo esperança ao coração e tornando mais aguda a nossa visão mental. "E por que não aconteceria isto a mim como já tem acontecido a tantas pessoas!" dizia ela, para suavizar a minha tristeza que ela adivinhava. E, como no passado, entregou-se à alegria e aos divertimentos. A família de Polly nos visitava freqüentemente.

O Dr. Love e senhora, M. Eager e outros passaram vários dias conosco. Nossos amigos de Inverness, de Muir of Ord e de outros lugares próximos procuravam sempre nos ser agradáveis, e distraíam a professora, dando-lhe provas de afetuoso apreço. Raras vezes fui testemunha de tão carinhosa afeição. A bondade da mestra para com os pastores era imensa, como sempre o fora para com os humildes, e recordo hoje com prazer a hospitalidade rude, mas cordial daquela gente.

Polly, seu irmão e eu levamos a professora para um passeio de barco até as ilhas Orkneys e Shetlands, o que eu esperava que lhe seria bastante benéfico. Paramos em Orkneys e todos nós, com exceção da professora, exploramos as ruínas da aldeia da Idade da Pedra, em Skara Brae. Descemos por degraus íngremes e estreitos e em virtude de ser eu tão desajeitada fiquei presa entre os muros num ponto de onde não podia nem voltar nem continuar a descer. Durante alguns instantes, tive a sensação de estar mergulhada eternamente nos mistérios de um passado distante. Felizmente, desembaraçaram-me daquela situação e guiaram-me com segurança até as salas inferiores. O teto aí era tão baixo que tínhamos que curvar o corpo para explorá-las. Fiquei admirada da habilidade e perfeição com que o povo havia trabalhado as pedras, para fazer camas, armários e prateleiras para roupas, armas e ornamentos. Apalpei também os compartimentos onde os habitantes antigos guardavam peixe e outros alimentos salgados, e a lareira do centro a qual tinha um buraco no teto para permitir a saída da fumaça. É deliciosa a minha recordação das Orkneys principalmente devido ao agradável perfume de trevo que se espalhava por essas ilhas.

Quando a professora iniciou aquela viagem estava decidida a gozá-la a fundo, mas não pôde suportar a luz do sol que refletia sobre as águas; por isso deitou-se e adormeceu, enquanto nós nos sentamos no convés. Eu temia que a mestra não estivesse em condições de sentir a peculiar atmosfera viking das Shetlands, porém, ela se mostrou à altura da ocasião. Quando passeamos em Lerwick, a professora em parte viu e em parte imaginou as casas originais com o peixe seco pendurado ao teto. Ficou encantada ao me ver apalpar os pequenos animais das Shetlands - pôneis, carneiros e cães pastores. Enquanto contornávamos várias ilhas de bote, os seus dedos tremiam nervosamente por causa das nuvens barulhentas de gaivotas e mergulhões que nos rodeavam. Causava-nos uma estranha sensação o fato de o sol brilhar intensamente dia e noite e ficávamos encantados com a grande atividade daquela gente no mercado ou nas redes de pesca até as primeiras horas da manhã.

Voltamos pelas Orkneys e, quando passamos por elas, uma inesperada alegria iluminou o rosto da professora. O sol se punha sobre o mar numa confusa apoteose de tons suaves e sombras trêmulas e ela o contemplou fascinada até que desaparecesse o arrebol. Foi esta a última vez que ela pôde apreciar a incomparável beleza da terra e do mar. Nada podia destruir o tesouro íntimo de sua imaginação e a claridade imponderável que o seu coração espalhava em seu redor, mas a sua vontade obstinada havia extinguido o tênue raio de luz que poderia ter-lhe servido até o fim. Desaparecera a independência que lhe era mais cara do que um trono a uma rainha.

Aproximava-se o outono e compreendi que a saúde da professora estava longe de ter melhorado. Consegui uma licença da Fundação, pois estava decidida a fazer tudo para que ela ficasse boa. Instalamo-nos convictamente na velha fazenda e, mal comparando, posso dizer que me sentia como uma escrava que acabava de ser libertada. Para ser exata. eu ainda não havia tido umas férias verdadeiras desde os tempos universitários. Dedicara-me com prazer às atividades da Fundação, mas tanto eu como a professora pagáramos pesado tributo em virtude dos grandes esforços que despendemos nas atividades literárias, nas conferências e no teatro de variedades. A inquietação pela precariedade de sua vista e de sua saúde perseguira-me durante anos. A vida que eu levava em Nova Iorque e a sua conseqüente publicidade não me haviam sido favoráveis, nascida e criada que fora em espaçosa fazenda do Sul dos Estados Unidos. Minha alma ansiava por uma permanência mais longa nas regiões montanhosas da Escócia. Pareceu-me um conto de fadas, quando a Fundação permitiu que descansássemos um ano inteiro. Durante alguns dias não fiz mais do que ficar deitada no campo durante horas, tentando praticar o hábito de não pensar, como costumava fazer W. H. Hudson, após os seus tremendos períodos de produção literária. Consegui uma inundação de paz que me refrescou o cérebro cansado e até certo ponto acalmou-me os nervos. De tanta gratidão, tive ímpetos de beijar o solo, o riacho Orrin e o Sol que me conferia uma nova sensação de bem-estar. Sentia-me feliz ao encontrar capim nos cabelos e urzes no vestido de tiveed, após um passeio pelo campo. Constituía para nós uma fonte de perene surpresa o fato de sabermos que estávamos apenas a dezoito milhas de Inverness- uma cidade de lagos, estuários e velhos castelos - e contudo gozarmos de perfeita solidão

Mas o inverno se aproximava e a mestra começou a sentir uma penosa invalidez. Fomos para Glasgow no Natal e lá permanecemos algumas semanas. O Dr. Love prestava uma excelente assistência médica à professora e nos dispensava uma comovente e leal amizade. O destino, porém, aniquilou todos os nossos esforços no sentido de aliviá-la e voltamos abatidas para South Arcan. A professora sofreu de carbúnculos durante um ano, enquanto Polly, que também merecia um longo descanso, servia de enfermeira, lia para a mestra, cuidava da casa e ainda tinha de correr atrás do meu cão pastor Díleas, e de Maida, o terrier de Lakeland, que estava sempre caçando lebres ou coelhos. Depois de suas loucas escapadas, os dois marotos voltavam, pulavam na cama da professora e comiam parte de sua refeição. Díleas, um cachorro castanho, de patas e coleira branca e uma adorável cauda que varria o chão e Maída, uma cadela preta, com uma cabeça engraçada, da côr de azul-fumaça e com olhos amorosos e vivos davam-lhe um conforto sem o qual ela declarava que não poderia resistir ao inverno.

Quando não se sentia muito doente, Annie sugeria alguns tópicos para os artigos que eu estava escrevendo para a revista Towers. Nessa época, eu trabalhava também na sua primeira biografia que foi destruída quando o fogo consumiu a nossa primeira casa de Westport. Em conseqüência da sua inatividade obrigatória, durante longos dias e noites, ocorriam-lhe os mais estranhos pensamentos. Com a sua sutilíssima percepção, ela sentia as forças que residem em cada um de nós, embora os tumultos da terra nos impeçam de ouvi-las. Passou a dar menos atenção às coisas que a exasperavam e tornou-se mais sensível do que nunca aos sofrimentos alheios. Foi assim que ela atravessou um inverno curto, em relação aos de Nova Iorque, mas úmido, nevoento, gelado e de vez em quando bafejado pelos ventos do Ártico. Embora raramente nevasse, podíamos ouvir os carneiros balindo no frio e o gado Angus soltando os seus mugidos longos e chorosos

No início da primavera, a professora pôde dar alguns passos comigo entre as violetas, as campânulas e as abróteas que ela tocava tal como eu, escrevendo depois em minha mão: "Que bênção para você, Helena, poder passear no nosso Getsêmane e sentir a sua abundante floração!" Durante esses intervalos de convalescença, ela dava as festas que se tornaram famosas, convidando os amigos cuja compreensão e jovialidade nos proporcionavam tantas horas de alegria e felicidade. Havia, porém, em meu coração um inevitável pressentimento

A Fundação anunciara a invenção do livro falado para cego adulto e expressara o desejo de que eu tomasse parte na campanha para angariar fundos destinados a produzir as máquinas dessa nova maneira de "ler". A professora compreendeu logo o valor dessa diversão que seria muito mais fácil para o cego idoso do que o sistema Braille, que a maioria não conseguia ler com facilidade ou prazer. Suplicou-me que ajudasse a obter os meios pecuniários, o que fiz no inverno seguinte. Contudo, percebi que a mestra não ficou satisfeita, pois gostaria que eu levasse a tarefa até o fim. Além disso, ela ficara desapontada porque nada se fizera pelos cegos-surdos, cuja triste sorte, ela o sabia, pesava sobre mim. Em Forest Hills, ela pensava em organizar uma vida nova, ensinando a uma outra aluna privada de visão e audição. Quando se descobriu Kentucky, uma criança abandonada, surda, e cega, em Louisville, a idéia de conferir luz e alegria à menina apoderou-se da professora como se a chama da juventude eterna houvesse penetrado em seu corpo fatigado. Só depois de involuntárias discussões que nós, que sabíamos de sua precária saúde pudemos induzi-la a desistir da idéia de adotar a criança. Às suas trevas, porém, agitavam-se ao fogo oculto daquele desejo e ela freqüentemente me falava sobre os cegos-surdos de todo o mundo, à espera de libertação. "Estenda-lhes os braços, esqueça-se de si mesma e seja fiel à sua causa. Este será o verdadeiro monumento que você erguerá em minha homenagem, Helena. Pode haver um muro entre você e eles, mas destrua-o pedra por pedra, mesmo que você seja aniquilada pelo esforço, tal como morreram de cansaço algumas das enfermeiras de Florence Nightingale".

Múltiplas e pesadas tarefas nos aguardavam ao voltarmos para casa. Além das eternas cartas de apelo e demais correspondência, eu era solicitada a comparecer, em Nova Iorque, a chás e reuniões em prol do livro falado. Eu e Polly partimos novamente sem a professora e cada vez que me dispunha à alegria de ficar um pouco em companhia da mestra, sentia-me obcecada pelo temor de estar negligenciando alguma urgente obrigação em favor dos cegos. Mesmo quando eu me encontrava no meu gabinete de trabalho pegado ao quarto da professora, no sótão, parecia-me estar a grande distância dela. Porém, não precisávamos mais deixá-la sozinha. Estava agora conosco um rapaz, chamado Herbert Haas, de quem muito gostávamos, por ser tão agradável e amigo! Êle possuía um sadio bom humor e tinha um rosto que parecia uma sorridente maçã vermelha. Era dotado de múltiplos talentos. Durante as nossas ausências, Herbert distraía a professora e daí nasceu uma profunda afeição entre os dois. Mais tarde, êle passou a ocupar um quarto na nossa casa e sentiu-se indizivelmente alegre por ter conquistado um verdadeiro lar. Os seus pais eram falecidos. O pai fora músico e a mãe, enfermeira. Da última herdara um jeito tranqüilizador de que a professora muito gostava. Cuidava da casa e era um bom administrador dos assuntos domésticos, o que aliviava grandemente as responsabilidades de Polly. Guiava o carro - quando possuíamos um - entendia de trabalhos de escritório e sabia consertar a minha máquina de escrever e o meu aparelho Braille. Aprendeu o alfabeto manual e também a escrever em Braille, a fim de poder copiar diretamente os artigos e documentos sobre os cegos, trabalho que Polly anteriormente mandava transcrever fora. Nossos cães o estimavam e nada poderia ter agradado mais à professora. As maneiras expansivas de Herbert grangearam-lhe uma grande popularidade. Era um rapaz inteligente, honesto, muito trabalhador e o seu sorriso cordial, as suas maneiras francas e o seu amor por anedotas e histórias eram um prazer para todos os que o conheciam.

Entrementes eu e Polly fazíamos o possível para entrar em contato com pessoas capazes de se interessar pelo livro falado. Will Rogers, o querido filósofo e humorista, fêz um caloroso apelo, pelo rádio. Recebi um magnífico donativo da senhora William Moore, cujo sincero interesse pelos cegos há muito se tornara precioso para mim e para a professora. Com a ajuda de inúmeras contribuições menores, a Fundação pôde abrir uma oficina, onde foram feitas várias experiências até que se reconheceu o valor da indústria e o Congresso concedeu uma generosa verba para os livros falados e também para a literatura em relevo.

Durante a primavera de 1935, a professora foi para c Doctors Hospital, de Nova Iorque, afim de se tratar de diversas doenças e os médicos acharam aconselhável mantê-la em repouso. Permitia-me visitá-la, de vez em quando, somente durante alguns minutos, porque ela se preocupava nervosamente com o meu trabalho, o que produzia efeitos maléficos em sua pessoa. Estava esgotada e, segundo me confessou mais tarde, deixara-se arrastar a uma fútil revolta contra a sua cegueira. "Tenho-me portado como uma criança travessa"; disse-me ela; "desejei a Lua e desobedeci aos meus próprios preceitos que mandam encarar a incapacidade física como uma oportunidade para se mostrar coragem". Além disso, a professora tinha a mente atordoada por idéias que desejava que eu anotasse, mas quando eu ia visitá-la, percebia que ela as havia esquecido totalmente. Pobre professora! Era-lhe menos penoso viver nas trevas do que perder uma linda fantasia, uma idéia alimentada pela música da Natureza ou umas frases vigorosas sobre a grandeza e a responsabilidade do poder criador da alma.

Polly, Herbert e eu levamo-la naquele verão para Cat-skills, onde ela procurava consolo nas sombras das colinas, das árvores e dos lagos. Uma vez mais, o seu amor pela vida sobrepujou o cansaço. Eu e Polly fingíamos uma alegria que realmente não sentíamos diante dos pequenos grupos que vinham "alegrá-la". Entre os visitantes, achava-se o senhor Migel, o presidente da fundação e o Dr. Bevens; todos nós, exceto a mestra passávamos algum tempo pescando trutas. A professora insistia em que eu deveria escrever um folheto mais apropriado para o leitor comum do que Minha Religião, por isso, nos momentos livres, escrevi "Paz ao Anoitecer".

Ela não se restabelecia e ardia em inquietação - o seu antigo incitamento à aventura era agora o seu pior inimigo. Falava sempre na sua "ilha da alegria", Porto Rico, e no seu desejo de experimentar um recanto de delícias igual àquele. Em outubro de 1935, nós quatro fomos para Jamaica, nas Antilhas. Era uma ilha maravilhosa, com jardins tropicais, palmeiras, montanhas escarpadas e velhas igrejas coloridas, mas para a professora Jamaica não possuía nada do fascínio de Porto Rico, e ela se achava tão cansada! Perseguia-a a idéia fixa de que a velhice era mais difícil do que a morte, pois era menos penoso renunciar inteiramente à vida com todas as suas alegrias, do que renunciar a ela pouco a pouco. Lamentava o que lhe parecia a sua crescente decrepitude e na sua cegueira imaginava-se velha. Acho, porém, que não era esta a sua verdadeira tragédia. A sua tragédia era o fato de que em criança não lhe haviam incutido, ou não adquirira, uma vigilância mental que lhe teria possibilitado gozar de maior independência, ouvir os conselhos da razão e usar da vista com prudência. Eu concordava com ela em que é uma desgraça o envelhecimento do corpo e do espírito, mas lembravam-lhe também que há as chamadas vidas jovens que embora não sejam oprimidas pela pobreza acham-se, contudo, irremediavelmente fracas e decrépitas. Dizia eu que muitas vezes

Os sábios desejam o amor e os que amam desejam sabedoria; E assim as melhores coisas se confundem para o mal.

"A tradição e o hábito não deviam deixar que as pessoas, jovens ou velhas, que ficam enrugadas no coração e arqueadas nas idéias influenciassem os negócios da humanidade", prosseguia eu. "Seu esplêndido exemplo de vitória sobre o ambiente, professora, é um desafio fulminante aos homens e mulheres que trabalham e pensam, um testemunho de que quanto mais eles afastam os obstáculos do pessimismo destruidor e do otimismo enceguecedor, maior será a capacidade dessa gente para criar um mundo de corações jovens e inteligências abertas à verdade e ao idealismo".

"Gostaria de estar certa disto, Helena, "respondeu, cansada. "E espero que você, com o seu espírito esclarecido, possa manter o seu lugar à frente da batalha".

Eu e Polly nos vimos novamente envolvidas numa campanha para angariar fundos para a Fundação e poucas vezes parávamos em casa. Numa dessas raras ocasiões, Takeo Iwahashi, o chefe do movimento em prol dos cegos, no Japão, veio visitar-nos.

Estava estudando os métodos americanos para resolver os problemas dos sem-visão. Dominava o inglês de um modo surpreendente. Cego, cheio de ardor poético e de entusiasmo, insistiu para que eu fosse ao Japão e lançasse os raios da esperança no coração dos cegos em luta. Falei-lhe sobre o estado da professora - ela se achava muito doente para recebê-lo e disse que não podia pensar em me separar dela. Quando a mestra soube da nossa entrevista com Takeo e viu como estávamos impressionadas com a sua nobre personalidade e com as suas bem desenvolvidas qualidades intelectuais, disse:

Eis uma oportunidade que vocês não devem perder."

"Mas eu simplesmente não posso ir sem você, professora, e já que você não me pode acompanhar, não devo aceitar o convite."

Suplico-lhe que me prometa, Helena", insistiu "que, depois da minha morte, você e Polly serão portadores de esperança para os incapacitados do Japão."

"Procuraremos fazê-lo, professora, mas agora não posso pensar neste salto no desconhecido."

A professora estivera tentando convencer o Dr. Berens a operar-lhe os olhos. O médico declarou francamente que, em sua opinião, aquilo de nada adiantaria. Ela abraçou-o implorou-lhe com lágrimas nos olhos que fizesse a tentativa. Êle, finalmente acedeu e o resultado foi precisamente o que previa.

Não houve melhoras. Era de cortar o coração vê-la desapontada e desanimada, doente sofrendo dores e não podendo descansar. Enquanto se achava hospitalizada, Alexandre Woollcott escreveu-lhe bilhetes encantadores e todos os dias enviava-lhe um pequeno ramalhete de flores que ela podia segurar com a mão. A professora apreciava as suas esquisitices e o seu espírito, mas eu e Polly nos lembrávamos como se sentira cheia de timidez quando êle a visitara pela primeira vez em Forest Hills. Ela não conseguia compreender como podia despertar interesse num homem tão brilhante e ativo, que se achava no auge da celebridade. Êle, porém, persistiu em conversar com ela e ler em voz alta até que a mestra gradualmente acabou por se sentir à vontade em sua presença. Por ocasião da morte da professora, convidaram-no a carregar o caixão, porém, êle recusou com um modo brusco, aparentemente injustificado. Mais tarde, eu soube que êle não se considerava digno de tamanha honra. Lembrar-me-ei sempre dele com afeição como um dos mais compreensivos intérpretes da personalidade de Annie Sullivan Macy.

Consciente de nossa desolação por vê-la incapaz de se restabelecer, a professora animou-me a pedir a Polly que procurasse um lugar onde pudéssemos passar o verão. Her-bert finalmente levou-nos a La Corniche, uma aldeia nas proximidades de Quebec, nas montanhas Lourencianas. A viagem foi muito penosa para a professora e ela sentiu o frio tão intensamente que decidiu permanecer no leito. Estávamos numa casa de campo, que dominava um lago no coração da floresta. Tenho uma lembrança de como Herbert, sem dizer uma só palavra ou medir esforços, abriu um caminho através da mata para que os nossos cães e eu pudéssemos passear, todos os dias. Sofri porque o lugar era demasiado bonito; feria-me o coração penetrar em suas delícias sem a professora. Esse sentimento era algo com que ela não contava - tínhamos que estar juntas para gozar plenamente de qualquer coisa. Ficou verdadeiramente aborrecida comigo e consigo mesma por se sentir tão doente em meio àquela absorvente beleza na qual não encontrava prazer. Não era exatamente aquilo o que ela apreciava, isto é, viajar livremente em minha companhia, esquecida de qualquer preocupação pelo futuro e sob a influência salutar da Natureza? Como era incoerente e de acordo com o seu caráter! Passamos o meu aniversário em seu quarto e o rosto alegre, que eu apresentava, ocultava o pressentimento de que aquele seria o meu último natalício em sua companhia. Declarava sempre que tinha que tomar medidas enérgicas: voltar para casa e adotar uma outra disposição de espírito para continuar a viver, fosse como fosse.

As suas palavras não me enganavam. Eu sabia que ela estava começando a morrer. Um instinto me dizia que, quando ela compreendesse que nunca mais tornaria a ver, perderia o interesse pela vida. Tornara-se, agora, uma mulher silenciosa e, embora eu quisesse ardentemente comunicar-me com ela, sentia-me dominada por um temor indefinível de abrir a porta que ela havia cerrado. Em agosto, voltamos todos para Nova Iorque, depois de passar alguns dias no Chatham Hotel, descobrimos uma casinha à beira-mar, em Greenport, Long Island. Este foi o nosso último e desesperado esforço para fortalecê-la a fim de que a sua vida se tornasse suportável. Um dia, ela me surpreendeu descendo a praia e entrando na água, pensando, suponho, que seria capaz de boiar. Subitamente, teve uma tontura e caiu. Conduzimo-la para casa e deitamo-la. "Estou fazendo tantos esforços para viver para você", disse, soluçando. Notei-lhe então uma das inúmeras mudanças que ocorreram durante a sua vida cheia de contradições. Embora o óleo da vida se estivesse extinguindo em seu corpo cansado, a chama da vida interior brilhava cada vez mais alta e mais pura, Com uma energia de Prometeu. Combateu a dor e o cansaço a fim de, com sugestões e conselhos, prestar a assistência que lhe fosse possível em qualquer setor do meu trabalho. No dia seguinte, porém, foi conduzida ao hospital numa ambulância. Antes de partir, disse-me docemente: "Perdi tempo chorando por meus olhos. Estou muitíssimo arrependida, mas o que está feito, está feito. Bebi o meu cálice até a última gota. Mas se você tem razão a respeito de Deus e da imortalidade, podemos ter certeza de que Êle não deixará perecer as "grandes", solenes e eternas idéias."

A professora foi cuidadosamente examinada e os médicos e enfermeiras daquele hospital foram muito bondosos para com ela, segundo me contou. Certo dia, após uma de minhas visitas, disse: "Deitada aqui no hospital, sinto-me aos pés de Deus." Depois que se fêz tudo o que era possível, em seu caso, levamo-la para casa.

Nos dias que se seguiram, parecia que o meu coração ia parar de bater. A professora passava de um estado de espírito para outro. Entregava-se ao desespero e quase nunca parecia se importar que Polly e eu ficássemos cheias de angústia. Quando alguém lhe arrumava o quarto, ela dizia que o Anjo da Morte viria buscá-la em breve e que tudo precisava estar em ordem para a sua chegada. Em seguida, sem se importar com o que acabava de dizer, indagava do meu trabalho e dos bons resultados que eu obtivera com as cartas de apelo em prol da Fundação. Às vezes dizia: "Deixe a correspondência e fique comigo até que eu me vá." Apesar disso, nunca permitia que eu o fizesse. Certa vez, um membro da diretoria da Fundação procurou-me para um assunto urgente, quando eu me achava sentada a seu lado. Ela estava semiconsciente mas ergueu-se no leito e fêz-me repetir em voz alta, para embaraço do visitante, o que êle estava me comunicando por meio do alfabeto manual e não sossegou enquanto não atendi ao assunto em discussão, depois que a pessoa se retirou!

Uma semana antes do desenlace, a sua alma indomável e generosa e seu coração ultra-sensível mostraram-se em toda a plenitude. Uma enfermeira viera auxiliar Polly e não se sabe por que a professora teve a impressão de que isso significava que Polly nos ia deixar. Surpreendia-a, arras-tando-se penosamente e chorando: "Polly, oh, Polly, não vá embora!" Polly acariciou-a e fê-la voltar para a cama, dizendo: "Vou apenas descer para arranjar-lhe uma xícara de chá". Voltando-se para mim, a mestra disse: "Vocês duas querem ir comigo à Escócia na próxima primavera? Sempre senti a carícia daquela terra maravilhosa e lá ficarei em paz," Prometi que iria.

A última lembrança que retenho da professora, tal como a conheci, é a de uma noite de outubro, quando ela se achava bem acordada, sentada numa poltrona e rodeada por todos nós. Ria, enquanto Herbert lhe contava o rodeio de gado que acabara de assistir. Transmitia-me tudo o que êle dizia e me acariciava ternamente a mão. O seu carinho era sem limites e quase intolerável. O toque de sua mão era belo, qual chama criadora de onde emanava a alegria da comunicação, a força do amor que me ligava aos meus semelhantes e a inteligência que despertava novos sentidos dentro de minhas limitações. Mais tarde ela mergulhou num estado de coma do qual nunca mais despertou neste mundo.

O funeral da professora realizou-se na Igreja Presbiteriana da Avenida Madison, de Nova Iorque. Foi acompanhado por amigos e estranhos. O Dr. Fosdick pronunciou uma comovente oração sobre a sua obra no campo da educação e sobre a delicadeza dos seus dons artísticos ao esculpir a individualidade de uma criança surda e cega. Alexandre Woollcott escreveu um tocante artigo sobre sua infância, comovendo a muitos corações com sua história.

A data era 21 de outubro. O corpo da professora foi cremado e as cinzas foram colocadas na Catedral Nacional de Washington, Capital dos Estados Unidos. Eu e Polly partimos em seguida para a Escócia, onde o seu irmão nos acolheu generosamente em sua casa, durante três meses, para que eu pudesse recuperar o meu equilíbrio.

Nunca perdi a fé na imortalidade pessoal, mas o falecimento da professora desorganizou-me a vida de tal forma que só muitos meses depois foi que consegui orientar-me novamente, embora até hoje não o tenha feito plenamente. Sentia-me tão consciente de sua alma como entidade independente que não me apeguei ao seu envoltório físico, como infelizmente ela se havia apegado ao corpo de seu irmãozinho; e não posso dizer que ela continua a viver em mim. Ela foi-me enviada pelo Senhor para que eu pudesse desenvolver a minha personalidade, apesar das trevas e do silêncio e não ousei pedir mais, a não ser que Êle me tornasse mais digna do Seu dom. Sentia-me impotente como Meleager, personagem de um conto grego, cuja vida pendia de um tição que a sua mãe conservava em brasa e que, um dia, irada, acabou por extinguir. Não fui assassinada como Me-leager, mas senti como se a chama do espírito da professora, através do qual eu experimentara a luz, a música, e o esplendor da vida, me fosse subitamente arrebatada. Havia ainda o milagre da fala que ela deixara em minhas mãos, mas desaparecera a misteriosa bateria que a alimentava. Desaparecera também o incomparável estímulo da vida diária ao lado de uma criatura excepcional, que impedira que as trevas ameaçadoras se fechassem sobre mim. Eu não possuía então luz interior suficiente para combatê-las sozinha. Só depois que Polly e eu viajamos para o Japão, no Asama Mavu, é que uma centelha de atividade própria começou a iluminar o vácuo que me rodeava.

SENTI como se uma mão carinhosa me fosse estendida, quando surpreendi prenúncios de terra e Polly me descreveu o Fujiyama que, como um grande e confortador pensamento, elevava-se majestosamente ao sol primaveril. Ao descer à terra, fomos recebidas por Takeo Iwahashi, autoridades governamentais e representantes das escolas de cegos e surdos, pelo Embaixador Grew e por outras personalidades de destaque e também pela imprensa. O meu trabalho começou com tal intensidade que me elevou o espírito acima do sofrimento pessoal: conferências com altos dignitários sobre o processo adequado para reabilitar as crianças sem visão e sem audição, entrevistas à imprensa, discursos em instituições de proteção aos incapacitados, uma visita ao príncipe e à princesa Takamatsu e um garden party no Palácio Imperial de Tóquio, onde fomos recebidas pelo Imperador e pela Imperatriz. A despeito da invasão da civilização ocidental nas grandes cidades, eu e Polly sentimo-nos envolvidas por uma atmosfera que transpirava uma graciosa antigüidade. Takeo e sua esposa levaram-nos a aldeias ocultas entre colinas. Fizemos refeições japonesas, sentadas nos calcanhares, com toda a graça de que fomos capazes e dormimos em casa dos nossos anfitriões. Deitar sobre um rara-mi teve um peculiar encanto para mim; eu podia colocar a mão sobre o tapete sem mancha e sentir as vibrações das portas e janelas de correr, o leve pisar das mulheres e o farfalhar de seus quimonos. Quando os japoneses esparzíam o incenso, acendiam as suas "varetas dos espíritos" e prestavam o seu culto no santuário da família, eu me sentia próxima da sua fé. Era diferente a forma de nossas crenças, mas eu gostava do calor com que o povo japonês honrava os seus mortos e aguardava o dia de se reunir a eles.

Em meu redor, havia também o intenso amor da beleza que eu conhecera na professora. No Japão todas as coisas se encontram ao nosso alcance: as tigelas, os leques, os biombos, os obis coloridos das moças japonesas, a indescritível beleza das cerejeiras em flor, a graça simples dos jardins ornados de pedras, os lagos, os pinheiros anões e as estruturas características dos templos. Em Nara, os sacerdotes permitiram que eu subisse uma escada que ia até os pés do grande Buda, o qual se achava sentado sobre um colossal lódão esculpido, flor que, por ser a mais perfeita, tornou-se o emblema de todas as virtudes. Fui a primeira mulher no mundo a quem foi concedido tão sagrado privilégio. Colocando a mão na corda, percebi a voz trovejante e sugestiva do poderoso sino que repicava os louvores de Buda. Em Xizuoca, apalpei as folhas de chá que cresciam numa sucessão de campos e os grandes chapéus dos pacientes trabalhadores que as colhiam, sob um sol abrasador. Na aldeia de Tacarazuca, subimos as colinas com as duas encantadoras jovens japonesas, que eram nossas assistentes, e eu senti os bem regados campos de arroz, que forneciam uma parte tão vital da alimentação do povo.

Todos esses relances da vida rural eram, porém, obtidos de passagem. Eu e Polly estávamos continuamente visitando instituições de cegos e de surdos, de uma extremidade à outra do Japão, no Mar Interior, ao redor das nascentes de água quente de Beppu, na Coréia e Dairen, Manchúria. Conferenciamos com pessoas eminentes, tais como o ministro da Educação, marquês Okuba, que se interessava particularmente pelos cegos e o marquês Takugawa, que trabalhava pelos surdos. Takeo se ocupava infadigàvelmente em traduzir para o japonês as minhas mensagens de estímulo, explicando a ignorância do público dotado de visão a respeito dos cegos e o espírito pioneiro das várias escolas que visitávamos. Graças a êle recebi com menos receio as perguntas feitas pelos que desejavam abrir caminhos de luz interior para as mentes obscurecidas e as vidas atrofiadas. Mesmo depois de tanto tempo passado, sinto-me cheia de admiração pela coragem e inteligência de Takeo. Êle se encontrava numa posição similar à dos atuais líderes avançados do Egito, da Turquia, do Irã e da índia, que estão destruindo um regime feudal de idéias e emoções, a fim de que tanto os normais como os incapacitados encontrem a liberdade por meio da educação. Em nossas visitas às escolas, eu e Polly recebemos como uma revelação a honra em que são tidos os professores, ou sensei; e inúmeros tributos afetuosos foram prestados particularmente a minha sensei. Essa expansão, que se estendeu até terras longínquas, da obra da professora e o ressurgimento de sua presença na minha vida são as recordações mais preciosas que guardo da minha primeira viagem ao Japão.

Eu sabia positivamente que a professora estava comigo e senti mais intensamente a sua presença, quando eu e Polly viajamos pelo Havaí, Austrália e Nova Zelândia e principalmente, no outono de 1948, quando, a convite do General MacArthur, visitamos pela segunda vez o Japão. Em todos os países, os cegos me recebiam de braços abertos e eu me sentia inspirada por aquela que já havia partido deste mundo.

As mudanças ocorridas no Japão, depois da chegada das Forças de Ocupação Americanas foram para mim de imensa vantagem. Quando chegamos à estação de Tóquio, fmos recebidas pelo general-de-brigada e senhora Sams, por membros do Comitê Helena Keller, representantes do governo e outras personalidades. Uma tremenda multidão nos comprimia e foram abolidas as solenes formalidades que eu associara à etiqueta nipônica. Haviam desaparecido a reserva e o medo impostos à multidão por um despotismo absoluto. A cordialidade espontânea com que todos me cercavam era verdadeiramente dramática. Conseguimos finalmente alcançar Takeo e a sua esposa Kio e caminhar com eles numa explosão de lashes sobre um tapete vermelho que até então era reservado exclusivamente para o Imperador. Aquele tapete era o símbolo da libertação dos cegos e surdos, que passaram da sufocante prisão das limitações para uma igualdade de condições com os que vêem e ouvem!

Takeo estava empreendendo uma campanha heróica para obter cinqüenta milhões de ienes para a reabilitação dos cegos e foi para mim um privilégio auxiliá-lo na realização do seu objetivo. Quando fiz a minha primeira conferência, em Tóquio, a 3 de setembro, fiquei emocionada com a notícia de que naquele dia mais de um milhão de incapacitados japoneses estavam reunidos para se empenhar em conseguir uma legislação que lhes permitisse sobrepujar as suas dificuldades e alcançar a dignidade de seres humanos. Ao mesmo tempo, houve um grande comício de cegos com a finalidade de exigir rápida sanção da lei que os beneficiaria. A 4 de setembro, imensa multidão - cerca de setenta mil pessoas - reuniu-se na praça do Palácio Imperial para dar a Polly e a mim as boas-vindas de toda a nação. Antes que eu iniciasse o apelo para conseguir doações, Takeo expôs eloqüentemente os fios do destino que me ligava à minha professora. Acentuou o fato de que assim como Roma não fora edificada num só dia, eu fora criada pela perseverança e pelo desvelo que a mestra me dedicara durante cinqüenta anos.

Por intermédio de Annie Sullivan, disse êle, "Deus está lançando as suas luzes sobre o nosso barco de caridade" e com esse elevado sentimento a campanha foi conduzida até o fim. Tive a certeza de que a professora emprestava asas à minha alma quando me assaltava uma sensação de impotência diante da tarefa. A força pacificadora que emana do lado divino da vida ajudou-me a sobrepujar as dificuldades de uma fala deficiente e de um ambiente inteiramente diverso de qualquer outro que eu conhecera.

Outro elemento que me proporcionou imenso prazer foi a emancipação da mulher japonesa e de suas atividades como membro da Dieta. Mostraram-me como as mulheres nipônicas estavam resolutamente adquirindo experiência como assistentes sociais e me convenci de que aquelas que se estavam dedicando particularmente aos cegos e aos surdos seriam um inestimável baluarte da reabilitação desses incapacitados.

Outra mudança que me impressionou foi a rapidez com que as multidões, em nossos comícios, atendiam ao meu apelo em prol dos incapacitados. Isto se refletia nos discursos de boas-vindas dos governadores, prefeitos de cidades e eminentes educadores - todos fazendo parte de um povo re-cém-libertado, confuso, é verdade, mas que se afastava corajosamente da uniformidade das massas para o desenvolvimento individual e o patriotismo, baseado na responsabilidade coletiva pelo bem de todos.

A campanha era diferente de qualquer outra de que eu tenha participado. A excelente publicidade e a habilidade com que os comícios e as recepções eram organizados, as multidões que se formavam nas estações por onde passávamos foram acontecimentos que lembrarei eternamente. Conforme fiquei sabendo pelos dedos de Polly e pelas traduções subseqüentes, Takeo comovia o público com a sua chama poética, a sua rica voz e o seu agradável senso de humor.

Mainichi enviou representantes que nos acompanhavam por toda parte. Por meio de entrevistas demonstravam ao público, dotado de visão, que os cegos podem não só aprender a ler e a escrever como também a se tornar eficientes artesões e músicos. Ajudaram assim a convencer os próprios cegos que a cegueira não é uma condenação. Em conseqüência da magnífica publicidade feita por Mainichi em prol da campanha, houve uma fusão de forças para garantir-lhe o êxito: a generosidade das tropas de ocupação, das autoridades de cada metrópole, cidade e prefeitura, dos ministros da Educação, Trabalho e Bem-Estar e de milhares de homens, mulheres e crianças unidos pelo nobre impulso de iluminar existências mergulhadas nas trevas. A abnegação que, durante séculos, estivera canalizada em benefício da nação personificada pelo Imperador passou livremente a ser dedicada ao alívio da cegueira e à atenuação dos males da surdez. Por exemplo, quando estávamos voltando de Hocaido, um tufão varreu o Distrito de Tokohu, desencadeando uma inundação; isto, porém, não fêz diminuir o ardor da campanha. Profundamente abaladas, atravessamos cenas de terremoto em Fucui a qual havia sido reduzida a ruínas. Sofríamos intensamente ao percorrer milha após milha de lugares desertos onde antes existiam habitações. Contudo, Fucui contribuiu com sua parte do fundo em prol dos cegos, embora o frio inverno ameaçasse os habitantes da cidade e todos estivessem ansiosos por conseguir algum abrigo enquanto reconstruíam os seus lares. Até Hiroxima, terrivelmente arrasada pela bomba atômica e ainda claudicando num lento processo de reconstrução, e Nagasaqui, um terço da qual fora destruído, tomaram parte ativa na campanha. A minha impressão suprema do Japão é a de respeito por um povo que pratica o seu credo de misericórdia sob um outro sol a cujos raios oferece os seus dons por uma das mais belas causas: a recuperação dos incapacitados para que eles possam voltar a ocupar o lugar que merecem na sociedade. Durante todo o tempo que lá estive levantaram-se, como incenso, tributos em honra da minha professora e, quando da nossa visita a Miiajima, acenderam-se as grandes lanternas de pedra como um símbolo de que a árvore de sua lembrança produzirá eternamente abundantes frutos. Que movimento poderia celebrar mais dignamente a vida de Annie Sullivan Macy diante de futuros professores do que a esplêndida associação dos cegos japoneses e a lei em prol do bem-estar de todos os incapacitados do Japão? E que luz terrena poderia dar maior prazer à professora do que a honra que lhe foi concedida por um povo, cujo apaixonado amor pela beleza, profunda bondade e qualidades espirituais ela tanto admirava?

A maré da vida carregou-me para bem longe e estou certa de que também está levando a professora de uma esfera estreita para outra mais vasta, onde a vista é mais ampla e a atmosfera mais livre. Graças à inextinguível chama que ela lançou em meu caminho, fui capaz, juntamente com Polly, de empreender uma viagem após outra, levando mensagens de esperança aos soldados feridos em hospitais da marinha e do exército e aos cegos e surdos de outras raças.

No inverno de 1944, quando eu e Polly partimos para Valley Forge e Butter, na Pensilvânia, a fim de tentar preparar para uma nova vida os soldados recentemente acometidos de cegueira e surdez, eu não esperava estar entre os privilegiados que visitavam os feridos em geral. Certo dia, ao conversar com Nella Braddy Henney, ela compreendeu que a II Guerra Mundial provocava em meu espírito intensa angústia e, sem preâmbulo ou desculpa, os seus dedos escreveram em minha mão: "Por que você não vai visitar os soldados feridos e descobrir por si mesma o que fazer para ajudá-los? Você tem duas mãos, um coração e a confiança de que eles são capazes de se erguer acima das circunstâncias. Lembre-se de que eles têm adaptações a fazer como lhe sucedeu quando em criança. Você já esqueceu o horror das trevas e do silêncio que a sufocavam, mas tem uma dívida para com os soldados. Todos nós a temos. Talvez você consiga saldar a sua. Poderia então aceitar o sacrifício deles por nós, sacrifício de uns pelos outros e pelo sonho irrealizado a que chamamos de civilização".

Após o desafio de Nella, senti que, por seu intermédio, a professora estava me encorajando e via-me de repente liberta do embaraço causado pela minha fala deficiente, minha lentidão e minha falta de jeito. Expus à Fundação Americana de Proteção aos Cegos o projeto de visitar os soldados incapacitados de todo o país. A bondade com que a Fundação atendeu ao meu desejo tornou possível tudo o que pude realizar nesse sentido.

Em breve, Polly, que com tanta fidelidade e disposição me tem ajudado a executar os meus planos, durante todos esses anos, estava comigo em viagem para visitar os grupos de soldados hospitalizados em Washington e na cidade de Atlantic. Senti-me como se estivesse saindo de uma ilha, o que na realidade o são a cegueira e a surdez, em direção a um continente de paisagens confusas e de rios tortuosos. Durante os dois anos e meio que se seguiram, visitamos mais de setenta hospitais e, para minha surpresa, descobri que desaparecera a minha perene frustração. Devido à imensa variedade de contatos com toda espécie de gente e a nova luz lançada sobre a obra em prol dos cegos e surdos, pude ter um conhecimento geral do assunto, em vez de me ocupar apenas com detalhes. Atingi assim o objetivo pelo qual a professora despendera tanto esforço e saúde e sentia-me feliz ao vê-lo, enfim, realizado.

Nossa primeira longa viagem começou em Hot Springs, Arkansas, num hospital de soldados paralíticos. Daí seguimos para Oklahoma, onde se acha o moderno Borden Cen-ter para soldados surdos, em Chickasha. Continuamos através do Texas, Novo México, Colorado, Utah, Califórnia, Oregon e Estado de Washington. A princípio, eu tinha carta branca para entrar somente nos hospitais do exército, mas quando escrevi ao Almirante Mclntire pedindo permissão para visitar os da marinha, êle concordou muito gentilmente. Eu e Polly percorremos então todos os hospitais do exército e da marinha, de costa à costa; e nas viagens pelo estrangeiro visitamos os feridos na Inglaterra, França, Itália e Grécia. Exteriormente isto é apenas um itinerário, mas na minha memória isso é qualquer coisa que canta, brilha e pulsa com uma legião de ardentes amizades, de esforços heróicos e, às vezes triunfantes, dos feridos para sobrepujarem os obstáculos, alegrando-me também o impressionante progresso que ocorreu na arte da recuperação, durante as duas últimas décadas. Milhares de pessoas cuja sorte não há muito seria considerada irremediável, têm readquirido valentemente as suas desaparecidas capacidades.

É impossível fazer justiça ao heroísmo épico que presenciei. Foi maior do que o de Homero e praticado por gente de diversas idades e de diferentes países, homens de todas as culturas, gostos, ocupações, crenças religiosas e políticas, descendentes de quase todas as nações, inclusive os hindus, filipinos, chineses e japoneses. À medida que eu passava de cama em cama-? eu e Polly andávamos diariamente milhas e mais milhas -? as palavras dos soldados tornavam-se eloqüentes na minha imaginação. Os meus pensamentos saltavam sobre terras e mares, quando mencionavam as diversas frentes em que haviam combatido. Fiquei taciturna, quando me contaram que foi no silêncio da meia-noite que a gigantesca armada desembarcara as tropas no Norte da África, silêncio este que era, de vez em quando, perturbado pela explosão que arrancava um ou outro soldado de um navio; atravessei as extensões geladas do Atlântico Norte ou me arrastei pelas selvas tropicais, agachan-do-me, aturdida num inferno de fumaça, pó e ruídos medonhos, enquanto os bombardeios faziam tremer a terra; marchei com os combatentes no deserto; galguei as montanhas da Itália; suportei a tremenda solidão das Aleutas; e vi-me encarcerada com os discarnados prisioneiros de guerra na Alemanha. E no fundo do que êles diziam as suas almas modestas e valentes reluziam como poeira de estrelas.

Explorei as trincheiras das limitações, onde as vítimas da guerra continuavam a combater, e sei que não há escuridão que não se abra diante de uma perspectiva de vitória próxima sobre os maléficos efeitos psicológicos dos ferimentos e das moléstias. Verdadeiros milagres de readaptação foram e estão sendo realizados pela inventiva e habilidade dos cirurgiões e pela dedicação das enfermeiras e, o que é mais importante, esses benefícios estão sendo levados a todos os campos civis do sofrimento. Posso dizer, por estar diretamente a par do assunto, que os cegos e os surdos da guerra foram reequipados para o serviço público e a própria manutenção, de forma tal que não encontra paralelo na história da reabilitação. Aproxima-se o dia em que os incapacitados de todo o mundo serão considerados cidadãos responsáveis. Isto virá em conseqüência de ousadas experiências, da consciência social, da cooperação da ciência médica e cirúrgica e da arte de ensinar. Se a professora está agora a par deste vasto acúmulo de bem - e eu creio que ela está- deve regozijar-se por ter sido o instrumento que me enviou cada vez mais longe, conduzindo o evangelho da cura, num mundo onde a vida é ainda uma tragédia. Certa vez ela me disse: "Helena, você terá prazer em recordar a luta sem tréguas a que eu às vezes lhe submeti", e não há dúvida de que hoje eu sinto tal prazer.

Após a gloriosa renovação social que presenciei entre os soldados incapacitados, o meu desejo em auxiliar os cegos-surdos ardeu com mais intensidade do que nunca. Muitos deles se tornavam fantasmas, como eu fui. Entre as lições que a professora me instilou, a que me atingiu mais profundamente foi a de que a verdade e a responsabilidade são a base de todas as relações humanas; e, por isso, eu não podia admitir que a Fundação Americana de Proteção aos Cegos se tornasse cada vez mais forte e ampliasse os seus serviços sem nada fazer em prol dos cegos-surdos. Em 1945, lutei com todas as minhas forças contra o obstáculo que encontram esses tão solitários seres humanos para obterem a sua parcela de educação e de direitos de cidadão. Depois de muito escrever, consegui despertar o interesse do senhor Ziegier, presidente da Fundação, e de algumas outras pessoas, e formou-se então um comitê para defender os direitos dos surdos-cegos da América. Alegrou-me o fato de que o Centro Industrial de Cegos de Brooklyn já estivesse empregando treze surdos-cegos em suas oficinas. Agora a Fundação lançou uma campanha intensiva para localizar todas as crianças cegas-surdas capazes de serem instruídas. Atendendo aos pedidos vindos de todos os pontos do país está-se fazendo uma tentativa a fim de se conseguir dos centros sanitários, educacionais e de assistência social, informações completas sobre cada criança duplamente incapacitada, para que se possa auxiliar o Estado em que ela nasceu no planejamento de sua instrução individual e nas suas necessidades educacionais. Esta medida humanitária sozinha justificaria os ardentes esforços da minha professora.

Não tive oportunidade de "viver" em outras terras, que Polly e eu visitamos, como a África do Sul, o Oriente Médio e a América Latina. Menciono-as de passagem por que essas viagens foram novos rebentos da árvore da vida da professora que brotaram dentro de mim. Foram, contudo, aventuras emocionantes, nas quais me orgulho de ter tomado parte. Por exemplo, eu e Polly fomos de avião às cataratas Vitória, na África do Sul, e quando nos encontrávamos' nas suas margens, próximo ao local onde viveu Livingstone, senti a abundante espuma da água que fervia e se precipitava numa garganta. Guardo também uma grata recordação dos três dias adoráveis que passamos num acampamento do Parque Nacional Kruger, onde desde a madrugada até a noite percorremos milhas e mais milhas de terras, vendo numerosas espécies de animais selvagens e lindos pássaros. Foi para mim uma verdadeira dádiva do céu virar as páginas do livro da Criação, do qual inúmeros capítulos já me haviam sido lidos pela professora.

Quanto ao nosso trabalho pelos incapacitados da África do Sul, sinto dizer que, tanto quanto eu saiba, os resultados não foram tão satisfatórios como os alcançados em Quênia, Nairóbi e outras partes da África Ocidental e Oriental. A reabilitação do cego branco na África do Sul está sendo incentivada com grande vigor, mas a luta contra o preconceito racial continua a ser profundamente constrangedora. Todas as fibras do meu organismo se revoltam contra as circunstâncias que ameaçam o espírito dos incapacitados - ou de qualquer outro grupo - e reduz as suas contingências de bem-estar. Posso apenas rezar para que chegue o tempo em que as diversas raças da África participem igualmente da luta pelo bem-estar e felicidade de seus incapacitados. Graças a Deus, já há muitos espíritos nobres que não desanimam diante da loucura e da mesquinhez, que obscurecem a natureza humana, e procuram formar uma grande fraternidade de todas as raças, governada pela justiça e pela razão.

Um acontecimento que teve grande significação para mim, em nossa viagem à África do Sul, foi a inauguração da Fundação Oftalmológica São João, próxima a Joanesburgo, a primeira clínica de olhos para nativos instalada ao Sul do Cairo. Tive, muitas vezes, o privilégio de falar pela recuperação da vista, mas nunca senti tamanha reverência como a que me aconteceu naquele memorável sábado, 19 de maio de 1951.. Tenho certeza de que o verdadeiro ideal cristão acompanhará as ações benfeitoras da Fundação Oftalmológica São João e salvará os olhos e também os ouvidos de milhares de seres humanos que são mais preciosos para a África do que todas as suas minas de ouro e de diamantes. Desta sorte, a lembrança mais feliz do meu dia no hospital

Desperta para o nascer e o florescer - Da vida e da luz.

Nossa peregrinação de assistência aos incapacitados do Oriente Médio resplandecia de fé nas realizações concretas. Viajamos pelo Egito, Líbano, Damasco, Jordânia e Israel e, embora aqui e ali encontrássemos caudalosos rios de cegueira ainda não iluminados pelo humanitarismo esclarecedor, achei abundantes razões para me sentir encorajada. No Egito, senti uma profunda e medonha impressão ao tocar as pirâmides próximas ao Cairo, que me pareciam simples monumentos de opressão, superstição e abuso dos governantes. O que verdadeiramente me comoveu, porém, foi ver o Egito despertar do seu sono de vários séculos e, com prodigiosa energia, tomar as rédeas de uma nova civilização. Outro despertar que me emocionou foi o início do Concilio Mundial pelo Bem-Estar dos Cegos, pelo qual a professora e eu havíamos lutado tão apaixonadamente, em 1931. Devido à influência deste concilio as Nações Unidas resolveram criar no Cairo um serviço de assistência com a finalidade de melhorar as condições dos cegos e eu falei diante dos responsáveis por tão humanitária obra. No ano seguinte, um novo centro experimental foi aberto no Cairo para a instrução de professores para os cegos, não só no Egito como de todo o mundo árabe e eu confio que isso será um importante fator no soerguimento de uma classe que, através dos tempos, tem estado mergulhada na ignorância e no abandono. Eu e Polly visitamos várias excelentes escolas e oficinas egípcias, que são dirigidas por homens e mulheres dotados de grande capacidade de organização e de uma carinhosa compreensão dos problemas e aspiração dos cegos e dos surdos. Em Beirute, Líbano, visitamos a Escola de Cegos patrocinada pelos Amigos Suíços dos Armenianos e que é eficientemente dirigida pelo senhor Karl Meyer. Comoveu-me a história da longa e árdua luta dessa escola, mas confio plenamente no seu triunfo final. Na Jordânia, encontrei um rapaz cego que teria conquistado o coração da professora. À custa de tremendos esforços, conseguira êle fundar uma escola e uma oficina para jovens cegos, pequenas mas em franca expansão, e, pelas últimas notícias recebidas, prevejo que êle realizará os seus ousados planos em prol dos sem-visão de todo o mundo árabe. Em Israel, fiquei impressionadíssima com os colossais empreendimentos que fazem surgir a ordem, a saúde e a fertilidade, do caos, das doenças e das extensões desérticas que eram a praga da terra, onde soou a mensagem de Deus, que trouxe forças e conforto para a humanidade. Apesar das incalculáveis dificuldades, os cegos e os surdos estão recebendo gradualmente a sua cota de saber e de oportunidade e, à medida que o tempo passa, tomam parte no desenvolvimento de sua gloriosa comunidade.

O grande encanto de nossa viagem pela América Latina foi a cordialidade com que o povo nos recebeu. Flores de indescritível beleza e fragrância choviam sobre mim, por toda parte onde eu fosse, e eu me sentia quase sepultada por elas. Como a professora as teria apreciado! No Rio de Janeiro, falamos no Instituto Benjamin Constant, para cegos, e saudámos os professores e o Instituto de Educação, que é a maior escola normal do Brasil. Falei sobre a dívida de gratidão que o mundo tem para com todos os mestres e disse que a comunidade que possui os melhores educadores está na vanguarda do progresso.

Fiquei encantada com o espírito progressista de São Paulo, não só no que diz respeito ao trabalho em favor dos cegos como também em outros empreendimentos. Surpreendeu-me verificar o quanto havia realizado a senhora Dorina Nowill, diretora da Fundação Brasileira de Proteção aos Cegos. Cega ela própria e quase sem o auxílio de estranhos escolheu pessoas competentes para a diretoria da sociedade, conseguiu uma prensa Braille, fundou uma biblioteca, cuidou das crianças cegas em idade pré-escolar, pôs em prática idéias avançadas tal como a educação de jovens cegos junto aos dotados de visão e procurou empregos úteis para os adultos sem vista. Ela precisava, porém, da cooperação do público e foi por isso que me convidou a visitar o Brasil. Em diferentes reuniões, expressei a minha satisfação pela crescente atividade no mais importante de todos os trabalhos em prol dos cegos: a conservação da vista. Alegrei-me com a notícia de que grupos de oftalmologistas viajam regularmente pelas cidades pequenas e vilas ministrando tratamento dos olhos e regozijei-me em saber que se estavam promovendo campanhas nas fábricas a fim de se eliminar ou reduzir os acidentes industriais. O entusiasmo com que foi recebida a minha mensagem fêz-me ficar mentalmente na ponta dos pés, como faço geralmente ao perceber um clarão da era universal da boa-vontade, que se aproxima lenta mas firmemente.

Depois de cumprir vários compromissos no Chile, Peru e Panamá, passamos dez dias atarefadas e felizes na cidade do México e nos seus arredores. Na segunda-feira. 15 de junho eu e Polly visitamos o Centro de Reabilitação de Cegos Víenna Goyoacán e eu me senti orgulhosa pela variedade e qualidade artística das cestas, tapetes, peças tricotadas e tecidos que são ali produzidos. Os cegos também transcrevem obras para a biblioteca Braille e ajudam a escrever livros em relevo na oficina de impressão. Senti-me feliz pelo zelo com que o México ingressou no Concilio Mundial pelo Bem-Es-tar do Cego.

Na quinta-feira, dia 19, estivemos na Clínica de Prevenção da Cegueira, onde duzentos pacientes são gratuitamente tratados todos os dias. Comoveu-me o abnegado labor de oftalmologistas que não só fazem tratamentos sem remuneração, como também realizam operações. Os médicos me pediram que dirigisse um apelo a outros oftalmologistas a fim de que viessem cuidar gratuitamente de pacientes sem recursos e eu concordei. Soube mais tarde que vários especialistas atenderam ao meu apelo.

A 20 de junho, eu e Polly passamos uma hora maravilhosa e comovedora no Instituto Mexicano de Audição e Linguagem. Quando entramos no vestibulo, toquei com os dedos no nome Annie Sullivan, esculpido numa parede. Seguiram-se belos discursos sobre a sua obra, durante os quais senti-me muito próxima a ela. Com uma emoção que quase me embargou a voz, agradeci aos professores por reconhecerem a fonte de onde eu hauria a minha força. É assim que a mestra viaja sempre comigo para todos os lugares, onde se me apresentam novos problemas, e, depois de tantos anos, divide ainda comigo as alegrias "proporcionadas pela união dos sentidos com o espírito".

Imagino-a como um espírito de onde emana o calor, o sol da vida. Como diz Romain Rolland! Aquele que gozou de uma preciosa intimidade e amizade sem limites com outro ser humano "tem uma alegria que o tornará infeliz pelo resto da vida". Na personalidade da professora havia tal virtude e tamanha capacidade de comunicação que depois de sua morte elas me ajudaram a me manter e a prosseguir. Fui arrebatada pela força do destino, que ela havia traçado para mim, e esse destino me elevou acima de mim mesma para empreender a guerra do Bem contra as trevas. Naturalmente, pode-se sempre escolher entre dois caminhos e, assim após ter perdido toda a segurança, eu poderia ter desistido de qualquer atividade; a professora, porém, acreditava em mim e eu resolvi não trair essa confiança. Cônscia de que ela vive comigo, tenho procurado novas maneiras de dar vida a homens e mulheres a quem as trevas, o silêncio ou a dor estão fazendo definhar. E, às vezes, parece-me que Deus a está usando, a ela que iluminou a minha noite, para atear novas chamas do Bem. Embora eu esteja avançando na idade e saiba que serei feliz, ao me ver livre do meu corpo já cansado, experimento, ainda um renascimento e um rejuvenescimento na aluna da professora. A certeza de que a sua inteligência criadora e as suas qualidades de espírito, verdadeiramente humanas, continuarão a sua obra e jamais perecerão, suaviza o meu isolamento e mantém como o cálido ar da primavera no meu coração.

FIM


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Helen Keller nasceu em Tuscumbia, Alabama, E. U. A., di a 27 de junho de 1880. Apesar de haver nascido normal, uma enfermidade deixou-a cega e surda, e, em conseqüência, muda, antes dos dois anos de idade. Graças a uma professora particular - Anne Sullivan, acrescido, depois, de Macy, por casamento - conseguiu aos dez anos de idade pronunciar uma frase completa: "Eu não sou muda". Daí em diante começou seus estudos competindo com as moças que podiam ver e ouvir, conseguindo formar-se com laude aos vinte e quatro anos de idade. Por esse tempo sai seu primeiro livro "A História de Minha Vida", que se tornou clássico, traduzido em todos os idiomas. A essa obra seguiram-se outras com igual sucesso. A personalidade e o "caso" de Helen Keller foram muito discutidos e hostilizados no princípio do século, mas sua estatura moral acabou por se impor aos seus compatriotas e, galgando as fronteiras, tornou-se uma das figuras mais conhecidas e veneradas do mundo de hoje, sem divisão ocidental ou oriental. Nos últimos vinte anos tem visitado repetidamente vários países, em prol da recuperação social e profissional dos cegos e incapacitados.

Escreveu as seguintes obras: "Teacher: Anne Sullivan Macy", "Let us Have Faith", "Helen Keller's Journal", "Optimism (an essay)", "Out of the Dark"., "Midstream: My Later Life", "My Religion', "The Song of the Stone Wall", "The Story of my Life", "The World I Live in".

 

Lutando contra as trevas

título: LUTANDO CONTRA AS TREVAS - MINHA PROFESSORA: ANNE SULLIVAN MACY
autora: HELEN KELLER
tradução de: ÁUREA WEISSENBERG
1.ª edição brasileira: Janeiro de 1959

título original: TEACHER: ANNE SULLIVAN MACY
A Tribute by the Foster-child of Her Mind
HELEN KELLER
Doubleday Company, Inc.
New York, 1957
 


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27.Out.2013
Publicado por MJA