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José António Lages Salgado Baptista

A educação dos cegos
Foi no século XVIII que se iniciou, de forma
sistemática, o ensino dos cegos. Valentin Haüy (1745-1822), homem de
ciência e homem de coração, fundou em Paris, em 1784, a primeira
escola destinada à educação dos cegos e à sua preparação
profissional.
Homem de coração, Valentin Haüy teve a ideia de instruir os cegos
depois de haver contemplado, na Feira de Santo Ovídio, em Paris, um
espectáculo que o chocou profundamente.
Sobre um estrado, por conta de um empresário sem escrúpulos, dez
cegos exibiam-se como fantoches.
Homem de ciência, influenciado pelas filosofias sensistas segundo
as quais tudo vinha dos sentidos, Valentin Haüy entendeu que na
educação dos cegos o problema essencial consistia em fazer que o
visível se tornasse tangível.
Adaptou, pois, para o seu uso, os processos dos videntes. Aliás,
Valentin Haüy foi o primeiro a defender o princípio de que, tanto
quanto fosse possível, a educação dos cegos não deveria
diferenciar-se da dos videntes.
Na sua escola, para a leitura, adoptou o alfabeto vulgar, que se
traçava em relevo na expectativa de que as letras fossem percebidas
pelos dedos dos cegos. Para a escrita (redacções e provas
ortográficas), serviu-se de caracteres móveis. Os alunos aprendiam a
conhecer as letras e os algarismos, a combinar os caracteres para
formar palavras e números e a construir frases.
Tudo isso não passava de meros exercícios tipográficos, sempre
condenados à destruição.
O problema da educação dos cegos só ficou satisfatoriamente
resolvido com a invenção e adopção do Sistema Braille - processo de
leitura e escrita por meio de pontos em relevo hoje empregado no
mundo inteiro.
O Sistema Braille é um modelo de lógica, de simplicidade e de
polivalência, que se tem adaptado a todas as línguas e a toda a
espécie de grafias. Com a sua invenção, Luís Braille abriu aos
cegos, de par em par, as portas da cultura, arrancando-os à cegueira
mental em que viviam e rasgando-lhes horizontes novos na ordem
social, moral e espiritual.
Luís Braille

4 Jan.1809 - 6 Jan.1852
Luís Braille era natural de Coupvray, pequena aldeia a leste de
Paris, onde nasceu a 4 de Janeiro de 1809. Era o filho mais novo de
Simão Renato Braille, o correeiro da localidade, e de Mónica Baron.
Tinha um irmão e duas irmãs.

A sua vida foi uma vida humilde. Das mais modestas. Em 1812,
quando brincava na oficina do pai, Luís Braille feriu-se num dos
olhos. A infecção progrediu, transmitiu-se ao olho são, vindo o
pequeno a ficar completamente cego algum tempo depois. Pouco deve
ter conservado em termos de imagens visuais ou de recordações dos
rostos e dos lugares que rodearam a sua infância.
Os pais souberam assegurar, da melhor maneira possível, a
primeira educação deste seu filho cego. Sabe-se que Luís Braille
frequentou a escola da sua aldeia, beneficiando assim do contacto
com pequenos condiscípulos videntes. Sabe-se também que quando Luís
Braille chegou à escola que Valentin Haüy havia fundado com carácter
privado, e que, depois de ter passado por diversas vicissitudes,
tinha então o nome de Instituição Real dos Jovens Cegos, sabia fazer
franjas para os arneses. Este trabalho foi a base do desenvolvimento
da sua destreza manual.

O pai de Luís Braille teve conhecimento da existência da
Instituição Real dos Jovens Cegos, em Paris, e escreveu repetidas
vezes ao director para se inteirar dos trabalhos que ali se
realizavam e certificar-se de que eram verdadeiramente úteis para a
educação do seu filho. Depois de algumas hesitações, decidiu-se pelo
internamento.
Luís Braille deu entrada na Instituição em 15 de Fevereiro de
1819. Ali estudou e leu nos livros impressos em caracteres
ordinários, ideados por Valentin Haüy. Era habilidoso, aplicado e
inteligente. Carácter sério, dele também se pode dizer que era a
honradez em pessoa. Espírito metódico e apaixonado pela
investigação, nele predominava a imaginação criadora e a mentalidade
lógica.
A partir de 1819 Luís Braille viveu uma vida de internado na
Instituição dos Jovens Cegos, que foi para ele como que um segundo
lar. Mas passava as suas férias em Coupvray e aqui residiu também
todas as vezes que a doença o obrigou a prolongados repousos. Em
Coupvray permaneceram os seus restos mortais desde 10 de Janeiro de
1852, já que a sua morte se verificou em Paris, a 6 do mesmo mês.
No centenário da sua morte, em Junho de 1952, representantes de
quarenta países foram em romagem a Coupvray, ao túmulo de Luís
Braille, e acompanharam a trasladação do seu corpo para o Panteão
dos Homens Ilustres. Era o reconhecimento da França, para quem o
nome de Braille é um raio do esplendor da intelectualidade e do
humanismo francês. Era a gratidão dos cegos de todo o mundo, para
quem Braille, mais do que um nome, é um símbolo. Símbolo da
emancipação conquistada, para todos os cegos, por um dos seus.
Da sonografia de Barbier ao sistema braille
No próprio ano em que Luís Braille foi admitido como aluno da
Real Instituição, o capitão de artilharia Carlos Barbier de la Serre
começou a interessar-se pela escrita dos cegos.
Numa outra fase desta evolução Barbier teve a ideia de designar
as coordenadas dos seus símbolos sonográficos por certo número de
pontos (indicativos da linha e da coluna a que o símbolo pertencia)
colocados em duas filas verticais e paralelas. Assim, por exemplo, o
sinal que estivesse em última posição na segunda linha seria
representado por dois pontos na fila vertical esquerda e seis pontos
na fila vertical direita.
Neste ponto da sua evolução a sonografia de Barbier estava
concebida e realizada para que os videntes se entendessem no que
concerne à escrita secreta por meio de pontos, que deviam fazer-se
com o lápis ou a pena.
Mas, sendo Barbier capitão de artilharia, algum dia terá pensado
na necessidade de os oficiais em campanha expedirem mensagens na
obscuridade. Assim, em novo aperfeiçoamento, introduziu os pontos em
relevo para ir ao encontro dessa necessidade. Barbier inventou um
pequeno instrumento por meio do qual, com auxílio de um estilete,
podiam gravar-se no papel todos os símbolos do seu sistema. E deu o
nome de escrita nocturna sem lápis e sem tinta a esta sonografia
mais aperfeiçoada. A escrita nocturna podia até tornar possível
decifrar mensagens no escuro, contando os pontos com os dedos.
O tacto acabou por aparecer como elemento essencial para a
interpretação dos símbolos formados por pontos em relevo, que agora
constituíam a sonografia de Barbier. Foi então que lhe ocorreu, não
se sabe devido a que circunstâncias, pôr esta sonografia, ou escrita
nocturna , ao serviço dos cegos. Do ponto de vista psicológico,
coube-lhe o mérito de evidenciar que a leitura por meio de pontos é
mais adequada para o sentido do tacto do que as letras vulgares em
relevo linear.
Em Março e Abril de 1821, depois de ter experimentado com alguns
cegos, Carlos Barbier foi recebido na Instituição e apresentou a sua
escrita nocturna . Mas as grandes dimensões dos caracteres tornavam
difícil conhecê-los ao primeiro contacto táctil e lê-los sem
ziguezaguear com o dedo através das linhas.
Por outro lado, os princípios fonéticos em que o sistema
assentava faziam dele, apesar dos seus méritos, um sistema pouco
prático.
O sistema de Barbier nunca foi usado na Instituição, mas
constituiu a base dos trabalhos que Luís Braille realizou por volta
de 1825. Luís Braille reconheceu que os sinais com mais de três
pontos em cada fila ultrapassavam as possibilidades de uma única
percepção táctil. Tratou, pois, de lhes reduzir as proporções, de
modo a obter sinais que pudessem formar uma verdadeira imagem
debaixo dos dedos. Além disso, criou uma convenção gráfica,
atribuindo a cada símbolo valor ortográfico e não fonético, em
perfeita equivalência com os caracteres vulgares.
Aponta-se geralmente o ano de 1825 como a data do aparecimento do
Sistema Braille, mas só em 1829 Luís Braille publicou a primeira
edição do seu Processo para Escrever as Palavras, a Música e o Canto-Chão por meio de Pontos, para Uso dos Cegos e dispostos para
Eles, a que deu forma definitiva na segunda edição publicada em
1837.
Na edição de 1829 há 96 sinais. Os sinais estão agrupados em nove
séries de dez sinais cada uma e mais seis suplementares. Apenas as
quatro primeiras séries correspondem ao sistema que actualmente
conhecemos. As restantes séries combinam pontos e traços,
aproveitando, pois, elementos dos métodos anteriores de escrita
linear.
O Processo de 1829 proporcionou uma excelente base de
experimentação. Sabe-se que por volta de 1830 o Sistema Braille se
começou a empregar nas aulas para a escrita de exercícios. Esta
feliz iniciativa fez com que se prescindisse dos sinais com traço
liso, muito difíceis de escrever.
A edição de 1837 confirma o alfabeto e estabelece uma
estenografia rudimentar, que evoca claramente a sonografia de
Barbier. Normaliza a representação dos números, que vêm formados
pelos sinais da primeira série precedidos do que ainda hoje
conhecemos como sinal numérico . Os sinais de pontuação são
representados com os sinais que constituem a actual quinta série.
A edição de 1837 contém ainda uma notação que, nas suas linhas
essenciais, constitui o núcleo da musicografia braille dos nossos
dias.
O triunfo do sistema braille
Era necessário um cego para imaginar um alfabeto táctil. E também
foi preciso, em muitos sítios, o esforço perseverante dos cegos para
impor o seu uso. Os professores e directores de escolas especiais,
quase sempre pessoas videntes, eram contrários à adopção de um
alfabeto duro para a vista. Por isso, agarravam-se ao princípio de
Haüy segundo o qual a educação dos cegos não deveria diferenciar-se
da dos videntes, levavam esse princípio ao exagero e não renunciavam
à leitura em caracteres comuns. Só o formidável impulso dos cegos
que se serviam do alfabeto braille pôde obrigar os responsáveis pela
sua educação a reconhecer os frutos que a aplicação deste alfabeto
produzia nas escolas.
Coisa diferente aconteceu nos países ou regiões em que não era
conhecido nenhum outro método de leitura e escrita para cegos. Foi o
caso da América Latina, onde a história da educação das pessoas
cegas começa com o Sistema Braille. A chegada do braille, o início
da alfabetização e educação e também a criação de imprensas e
bibliotecas para cegos foram fenómenos simultâneos.
Na França. - A Instituição Real dos Jovens Cegos, onde o Sistema
Braille foi concebido e aperfeiçoado, demorou 25 anos a aceitá-lo de
maneira definitiva. Aponta-se a data de 1854 como a da implantação
do Sistema Braille em França.
Na Instituição era conhecido outro método de leitura para cegos.
O director foi jubilado prematuramente e o novo director pretendeu
voltar ao relevo linear, impondo-o no campo literário entre 1840 e
1850. Durante esses anos de eclipse o braille afirma-se na música
(há obras impressas em que o texto literal aparece em caracteres
ordinários em alto relevo e a música em notação braille) e os alunos
e professores usam-no nas suas coisas pessoais.
NO BRASIL. - A data de 1854 pode também considerar-se como o
ponto de partida da difusão do Sistema Braille fora da França. Nesse
ano foi levada a cabo, na Instituição Real dos Jovens Cegos, a
impressão de um método de leitura em língua portuguesa, registado no
Museu Valentin Haüy com o nG 1439.
Acontece que um rapaz cego, José Álvares de Azevedo, regressou ao
Brasil depois de ter estudado durante seis anos em Paris. O Dr.
Xavier Sigaud, médico francês que esteve ao serviço da corte
imperial brasileira e pai de uma filha cega, Adélia Sigaud,
conheceu-o e apresentou-o ao Imperador D. Pedro II, conseguindo
despertar o seu interesse para a possibilidade de educar os cegos. O
Dr. Xavier Sigaud foi o primeiro director do Imperial Instituto dos
Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant, inaugurado no Rio
de Janeiro em 17 de Setembro de 1854.
EM PORTUGAL. - Adélia Sigaud estava em Lisboa por volta de 1885.
É conhecida na história da tiflologia em Portugal como Madame Sigaud
Souto. Aqui estava também, por essa altura, Léon Jamet, que era
organista na igreja de S. Luís dos Franceses e havia estudado na
Instituição de Paris.
A convivência com estes dois não videntes instruídos motivou, em
1887, um grupo de pessoas a fundar a Associação Promotora do Ensino
dos Cegos.
Em 1888 a APEC inaugurava a sua primeira escola, que adoptou a
classificação de asilo-escola e tomou por patrono António Feliciano
de Castilho em 1912, ao instalar-se em Campo de Ourique, em edifício
próprio.
Branco Rodrigues (1861-1926) colaborou com Madame Sigaud Souto.
Foi o primeiro grande impulsionador da valorização dos cegos em
Portugal. Em 1896, depois de ter instruído alguns alunos na escola
da APEC, criou uma aula de leitura e de música no Asilo de Nossa
Senhora da Esperança, em Castelo de Vide. Em 1897, numa sala cedida
pela Misericórdia de Lisboa, instalou outra aula de leitura. Fundou
escolas que vieram a transformar-se no Instituto de Cegos Branco
Rodrigues, em S. João do Estoril, e no Instituto S. Manuel, no
Porto. Dotou essas instituições com bibliotecas braille, literárias
e musicais, quer adquirindo livros impressos no estrangeiro, quer
promovendo a sua produção por transcritores e copistas voluntários.
Além disso, com a colaboração de um habilidoso funcionário da
Imprensa Nacional, fez as primeiras impressões em braille que
apareceram em Portugal. A primeira impressão foi em 1898, de um
número especial do Jornal dos Cegos , comemorativo do 4º centenário
do descobrimento do caminho marítimo para a Índia.
NOS PAÍSES GERMÂNICOS. - A segunda edição do Processo , em 1837,
foi confeccionada para dar a conhecer o Sistema Braille e assegurar
a sua difusão no estrangeiro. Apresentava o Pai Nosso em seis
línguas - latim, italiano, espanhol, inglês, alemão e francês -, com
a correspondente versão em caracteres ordinários em relevo linear.
Sabe-se que esta edição foi remetida a todas as escolas de cegos
então existentes.
Mas nos países germânicos o Sistema Braille levou 40 anos a
impor-se. Era acusado de erguer um muro entre os cegos e os
videntes. Não se queria aceitar um processo que os videntes não
podiam ler senão após um período de aprendizagem.
Uns estavam demasiado apegados à rotina e outros queriam ser
também inventores. Por isso, o sistema original francês haveria
ainda de sofrer um novo embate. Em Santa Maria de Leipzig, fazendo
malabarismos com o braille, idearam um alfabeto no qual as letras
com menos pontos correspondiam às letras mais usadas em língua
alemã. Assim, a primeira série representava as letras e, m, r, u, i,
l, p, g, d, f. O Congresso Internacional de Paris, em 1878, liquidou
estas diferenças por grande maioria, inclinando a balança para o
sistema francês. Assistiram representantes da Inglaterra, França,
Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda, Suécia, Suíça, Estados Unidos...
NOS ESTADOS UNIDOS. - De todos os países de línguas europeias só
os Estados Unidos da América se atrasaram muito em seguir este
movimento. Na maior parte das instituições usavam-se os caracteres
romanos juntamente com o New York Point ou Wait System. Neste
sistema, o rectângulo braille tinha três pontos de largura por dois
de altura. O acordo apenas surgiu no Congresso de Little Rock, em
1910. O braille original impunha-se pelas suas próprias virtudes.
O sistema braille e a vida dos cegos

O Sistema Braille é constituído por 63 sinais, obtidos pela
combinação metódica de seis pontos que, na sua forma fundamental, se
agrupam em duas filas verticais e justapostas de três pontos cada. Estes sinais não excedem o campo táctil e podem ser identificados
com rapidez, pois, pela sua forma, adaptam-se exactamente à polpa do
dedo.
Na leitura, qualquer letra ou sinal braille é apreendido em todas
as suas partes ao mesmo tempo, sem que o dedo tenha que ziguezaguear
para cima e para baixo. Nos leitores experimentados o único
movimento que se observa é da esquerda para a direita, ao longo das
linhas. Não somente a mão direita corre com agilidade sobre as
linhas, mas também a mão esquerda toma parte activa na interpretação
dos sinais. Em alguns leitores a mão esquerda avança até mais ou
menos metade da linha, proporcionando assim um notável aumento de
velocidade na leitura.
Dispondo de um processo fácil de leitura, o gosto pelos livros
estendeu-se amplamente entre os cegos e ocupou um lugar importante
na sua vida. À instrução oral sucedeu a instrução pelo livro. O
conhecimento intelectual, sob todas as suas formas (filosofia,
psicologia, teologia, matemáticas, filologia, história, literatura,
direito...), tornou-se mais acessível aos cegos.
Os benefícios do Sistema Braille estenderam-se progressivamente,
à medida que as aplicações revelavam todas as suas potencialidades.
As estenografias tornaram a escrita mais rápida e menos espaçosa. As
máquinas de escrever permitiram fazer simultaneamente todos os
pontos de um sinal, em vez de os gravar um a um, com o punção.
Enfim, obteve-se o interponto, graças a um sistema de precisão em
que é possível intercalar os pontos do reverso de uma página com os
do seu anverso.
Nos dias de hoje as novas tecnologias representam o mais
espantoso contributo para valorizar o Sistema Braille, depois da sua
invenção. A drástica redução de espaço proporcionada pelo braille
electrónico é exemplo disso. Um livro em braille com 2000 páginas de
formato A4 pode ficar contido numa só disquete. Uma vez introduzido
o texto desse livro no computador, o utilizador cego tem ao seu
alcance toda a informação não gráfica disponível no ecrã, que pode
ler através de um terminal braille.
Um outro exemplo é a facilidade de imprimir textos em braille.
Introduzidos no computador, os textos podem ser submetidos a um
programa de tratamento específico e sair numa impressora braille. Os
textos assim tratados podem utilizar-se, quer na produção directa em
papel, quer na produção de placas de impressão, conforme o número de
exemplares a obter. A impressão de livros, permitindo a sua
multiplicação, tem um efeito cultural considerável.
A utilização do sistema braille nos nossos dias
Não obstante as virtudes do Sistema Braille, não obstante a
extensão dos seus benefícios, temos de reconhecer que nos nossos
dias existe uma tendência para a menor utilização do braille e para
o abaixamento da qualidade do braille que se utiliza. O alerta foi
dado quando o uso dos livros sonoros se começou a generalizar, mas
há outros factores que igualmente explicam a crise. Entre estes
factores conta-se a exiguidade dos fundos bibliográficos braille,
que podem eventualmente não corresponder às necessidades dos
potenciais utilizadores. Em Portugal, por exemplo, a maior parte do
braille que se produz é destinada ao ensino, designadamente aos
estudantes que frequentam o ensino regular.
A crise do braille também tem a ver com dificuldades inerentes ao
próprio braille, sobretudo quando, como acontece actualmente entre
nós, essas dificuldades são agravadas por um ensino mal orientado.
Efectivamente, hoje em dia, durante a Escolaridade Obrigatória, os
nossos estudantes cegos não são motivados para a prática do braille
nem o conhecem em todas as suas modalidades. Lêem pouco, o processo
de reconhecimento dos caracteres é lento e eles cansam-se depressa.
Incapazes de ler a um ritmo satisfatório, fogem de utilizar os
livros e manuais que já vão tendo ao seu dispor. Recorrem
preferencialmente a textos introduzidos no computador, que ouvem com
recurso à voz sintética, ou servem-se de leituras feitas por outrem,
normalmente gravações em fita magnética (livros sonoros).
A falta de leitura directa reflecte-se, naturalmente, na escrita,
que é deficiente quanto ao braille e desconcertante quanto à
ortografia.
Os livros sonoros e a informática são muito importantes para o
desenvolvimento cultural dos cegos, mas nada poderá ou deverá
substituir o braille como sistema base da sua educação.

Tal como a leitura visual, a leitura braille leva os
conhecimentos ao espírito através de mecanismos que facilitam a
meditação e assimilação pessoal daquilo que se lê. O braille permite
estudar os quadros em relevo e ler eficientemente os livros
técnicos. O braille é, ainda, o único meio de leitura disponível
para os surdocegos. Por outro lado, a perfeição na escrita está
relacionada com a leitura braille que cada um faz, pois é através
dela que entra em contacto com a estrutura dos textos, a ortografia
das palavras e a pontuação.
A qualidade do ensino do braille é decisiva para uma leitura
destra e para a aquisição de hábitos de leitura. Se os alunos cegos,
como as outras crianças, forem motivados para a prática normal e
constante do seu método de leitura e escrita, a leitura será rápida
e tornar-se-á também mais agradável e instrutiva, porque a atenção,
menos requerida pelo trabalho de reconhecimento dos caracteres, irá
mais em ajuda do pensamento. Ao acabarem de ler, as crianças e
jovens cegos terão aprendido alguma coisa e estarão mentalmente
dispostos a partir para novas leituras.
Ora, é a ler que se ganha e se desenvolve o gosto pela leitura.
Só o gosto de ler garante que o processo de aquisição de cultura não
se interromperá ao sair da Escola, apesar das vicissitudes do
quotidiano. E não se pode ignorar a importância da cultura como
factor de integração social, como instrumento de trabalho e como
elemento de conscientização na vida das pessoas cegas.
É, pois, necessário rever a política até agora seguida pelo
Ministério da Educação no que toca ao ensino dos alunos cegos, para
que os passe a habilitar a ler e a escrever braille exactamente como
os demais alunos são habilitados a ler e a escrever. Levar os jovens
cegos a utilizar abusivamente meios que são complementares do
braille, não lhes fornecer os livros em braille e outros materiais
de que precisam e já existem ou é possível produzir, abandoná-los a
si mesmos ou às condições que o meio familiar e a sua escola lhes
dêem, equivale a comprometer seriamente, no dia de amanhã, as suas
possibilidades de afirmação, tanto na vida profissional como nas
actividades de lazer.
Julho 2000
José António Lages Salgado Baptista
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2 Jan 2009
Publicado por
MJA
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