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 Sobre a Deficiência Visual


Jacques Lusseyran

-Herói da Resistência-

1924 - 1971

fotografia de Jacques Lusseyran

     
Índice

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SOBRE Jacques Lusseyran

Jacques Lusseyran nasceu em Paris, no dia 19 de Setembro de 1924. Em sua autobiografia, ele descreve sua infância como feliz e seus pais como ideais. Aos oito anos de idade, ele perde a visão num acidente na escola. Seus pais, no entanto, resolvem conservá-lo no liceu regular, em vez de mandá-lo a uma escola especial para cegos. Em seis semanas aprende a ler e escrever em Braille, é aceito condicionalmente pelas autoridades escolares e se sai tão bem que, no fim do ano letivo, lhe é concedido o primeiro prêmio da classe. O jovem Lusseyran foi um estudante bem dotado. Sentia-se especialmente atraído para a literatura e filosofia, mas achava que “a matéria mais importante, o fato de que o mundo não existe só fora de nós, mas também dentro”, faltava inteiramente na classe. “Acumular conhecimentos era bom e belo, mas a razão para os homens adquiri-los haveria de ter maior significado, e ninguém falava disto.”

Na primavera de 1941, durante a ocupação de Paris pelos nazistas, Lusseyran organiza “Os Voluntários da Liberdade”, um grupo de estudantes para a Resistência, o qual passa a publicar um jornal clandestino chamado “O Tigre”. Inicialmente, o membro mais velho do grupo não tinha ainda vinte e um anos, e o próprio Lusseyran, que havia sido eleito chefe, tinha apenas dezessete. Sua principal tarefa era de administrar as atividades do grupo e entrevistar candidatos potenciais, porque ele possuía o que seus companheiros chamavam de “senso para seres humanos”. Ele podia “Ver”, em parte, através de suas vozes, quem merecia confiança e quem revelar-se-ia traidor. Em 1943, o grupo, que crescera ao ponto de ter 600 membros, se une à “Défense de la France”, um dos cinco grandes movimentos da Resistência na França. Lusseyran torna-se membro de seu Comitê Executivo e fica encarregado da distribuição maciça de seu jornal clandestino. Depois da libertação da França, esse jornal se tornou o “France-Soir”, um dos mais importantes diários de Paris.

Em 20 de julho de 1943, Lusseyran é preso por agentes da Gestapo. Ele e outros de seu grupo haviam sido traídos pelo único homem que ele havia recrutado com desconfiança — desconfiança que ele havia ponderado e suprimido. Ele é internado e interrogado em Fresnes e deportado em janeiro de 1944 para Buchenwald, onde fica até ser libertado pelo Terceiro Exército dos Estados Unidos, no dia 18 de abril de 1945. Dos 2.000 franceses que haviam ido com ele a Buchenwald, ele foi um dos 30 sobreviventes.

Terminada a guerra, Lusseyran luta para obter um cargo de professor na França. Apesar de haver completado “cum laude” seus estudos na Sorbonne com uma licenciatura em Letras e Filosofia, o ingresso na École Normale Supérieure, onde estudam funcionários públicos, tais como professores de curso superior e diplomatas, é-lhe recusado por causa de uma lei instituída pelo Governo Vichy, proibindo o ingresso de “inválidos” em empregos públicos.

Tendo, eventualmente, vencido sua luta na França, torna-se professor de curso superior e leciona durante a década de 50; depois resolve mudar-se para os Estados Unidos. Por vários anos leciona como conferencista convidado no Hollins College e, em 1961 toma-se professor associado e, depois, catedrático na Westem Reserve University, de Cleveland. Na época de sua morte, em 1971, ele estava lecionando na Universidade do Havaí.

Em 21 de julho de 1971, Lusseyran morre num acidente de automóvel, junto com sua terceira esposa, Marie, que era pintora e escritora. O acidente aconteceu perto da casa de sua mãe, em Juvardeil, na França, onde ele havia passado muitos verões de sua infância. Deixa quatro filhos.

Além de suas atividades normais como professor, Lusseyran fez conferências por todos os Estados Unidos, Canadá e Europa, falando sobre vários temas literários e filosóficos, muitos dos quais relacionados com a cegueira. Foi também autor de vários livros e artigos. Seu último trabalho, intitulado “Conversations amoureuses” ainda não foi publicado.


APRESENTAÇÃO

Os seguintes dois artigos relatam a experiência de um homem com a cegueira, mas dizem respeito a questões de interesse universal. Hoje, para muitos de nós, o mundo sensório é a única realidade que predomina, e os nossos sentidos físicos são os únicos canais através dos quais temos acesso a ele. Procuramos captar a vida, o conhecimento e mesmo o amor através dos nossos sentidos. Portanto, ser fisicamente deficiente deveria significar uma privação dura, distorcendo drasticamente nossa relação com o mundo e levantando obstáculos à nossa capacidade de gozar a vida. Mas não para Jacques Lusseyran.

Embora Lusseyran tivesse perdido a visão quando criança, aquilo que poderia ser causa de desgosto, ele o transformou em fonte de uma felicidade única. Através de constantes esforços e descobertas, aprendeu que há muitas maneiras de perceber o mundo e que a cegueira física pode levar a um outro grau de percepção. Sua descoberta diz respeito a todos que sofrem uma perda de qualquer natureza, sensória ou outra. Ele achou que para cada perda pode haver um lucro igual ou maior; para ele, a cegueira foi a portadora de extraordinários dons.

Em sua autobiografia “Et La Lumière Fut”, Lusseyran expressa duas verdades que o ensinaram a amar a vida e a enfrentar qualquer desafio que ela possa oferecer. “A primeira verdade é que a alegria não vem de fora; pois tudo quanto aconteça conosco, ela está lá dentro. A segunda é que a luz não vem de fora. A luz está em nós, mesmo que não tenhamos olhos.” Para seus amigos, o mundo de alegria e luz que ele descrevia era um belo sonho, um encantamento, como se fosse mágica. Para ele, não era “mágica alguma, mas fato... Nossa única mágica é a realidade.”.

 

CEGUEIRA – UMA NOVA VISÃO DO MUNDO

Capítulo 1 de

«La lumière dans les ténèbres»


Esta é a minha história: Eu via, via com meus olhos até a idade de oito anos. Há mais de trinta e cinco anos sou cego, completamente cego. Sei que esta história, esta experiência, é a minha maior felicidade.

Sei, também, o que se poderia dizer sobre isto: São só palavras; é mero adorno poético; é um conto de fadas consolador; é misticismo; é uma rebelião orgulhosa contra o destino. Isto, no entanto, não é verdade para mim. Sei bem demais que não alcancei esta felicidade lutando por ela, senão que ela me foi presenteada, e isso de uma maneira muito natural. Sei também que ela não é um privilégio meu, uma propriedade minha, e sim, uma dádiva que devo aceitar de novo todos os dias, e que todos os cegos podem receber à sua própria maneira.

Espero que me perdoem por começar com esta profissão de fé. Porém, não sei dizer nada sobre cegueira que possa ser mais importante. Estou pensando na ajuda espiritual e prática que ela poderia dar a todos aqueles que a compartilham.

E agora me defronto com uma questão fundamental: Qual o valor que a visão tem para nós? Ela visa a que fim? E observo que ninguém tem uma resposta séria, nem os que vêem nem os cegos.

Bem, este silêncio é bastante natural. Por que questionar algo que possuímos: a vida, a visão?

Aqueles que vêem não pensem nisso. Para eles, ver é um ato simples, um bem inalienável. Certamente eles aceitam a advertência dos filósofos que lhes dizem: “Cuidado com a ilusão dos sentidos” e particularmente: “Cuidado com a ilusão dos olhou”. Porém, aqui não é a visão que está sendo acusada, mas sim o uso que se faz dela. Quem aceitaria a validade daquela outra exortação: “Feche os olhos se quiser enxergar”?

Os cegos, por outro lado, poderiam fazer a si mesmos essa pergunta; porém, não se atrevem. Eles acreditam que não têm esse direito. Possuem, certamente, algumas respostas, mas as escondem até para si próprios. Enterram no fundo de sua consciência aquilo que lhes aparece como um mero sonho. No que diz respeito à capacidade dos olhos, eles compartilham da opinião dos que vêem, opinião em que estes os fazem crer de novo todos os dias. A pressão da sociedade — daqueles que vêem — pesa duramente sobre eles.

Qual é o valor da visão? Permitam-me que tente responder.

A visão é um sentido precioso. Aqueles que estão privados dele bem o sabem. Mas, antes de mais nada, a visão é um sentido prático. Permite manejar formas e distâncias. Todo objeto ela torna útil ou, pelo menos, usável.

A vista se nos apresenta como um prolongamento de nossas mãos, como uma faculdade adicional de manipular. É graças aos nossos olhos que seguimos adiante. Fazemos nossa uma parte maior do universo. Podemos agir até mesmo onde nossos braços e pernas não alcançam.

Por meio de nossos olhos, podemos fazer observações simultâneas. Quando nos servimos deles, não nos é preciso conhecer cada objeto em separado, medir as coisas em relação às proporções de nosso corpo. Os olhos nos proporcionam muitas vitórias magníficas sobre o tempo e o espaço. E é essa a vantagem fundamental da visão: ela nos coloca no centro de um mundo que é muito maior que nós.

Todavia, não são essas as qualidades de um instrumento ou mesmo de uma ferramenta? Suas vantagens são óbvias. Porém, não dependem inteiramente do uso que fazemos delas? Em resumo, possui a visão um poder próprio, ou é ela nada mais que uma ferramenta?

É uma ferramenta muito preciosa, e os cegos que são privados dela sofrem uma grave perda. Contudo, é apenas uma ferramenta e, por isso, pode ser substituída. Nisto, certamente, reside uma das maiores riquezas de nossas possibilidades de conhecimento sensorial: não há uma ferramenta que seja única e insubstituível. Cada sentido pode tomar o lugar de um outro, se for usado em sua totalidade.

Agora, porém, estamos diante de uma grande dificuldade, pois a visão é um sentido superficial.

Costuma-se dizer que a visão nos aproxima mais das coisas. Decerto. Ela nos permite achar nosso caminho, orientando-nos no espaço. Porém, a qual parte dos objetos ela mais nos aproxima? Ela nos relaciona com a superfície das coisas. Com os olhos, passamos pelos móveis, pelas árvores, pelas pessoas. Este movimento ao longo das coisas, este deslizar, é suficiente para nós. Chamamo-lo cognição. E é aqui, creio eu que reside um grande perigo. A verdadeira natureza das coisas não é revelada pelo seu primeiro aspecto. Sei que o pensamento pode corrigir a informação que recebemos através dos olhos. Mas para esse fim temos de pôr nosso pensamento em ação, e o turbilhão das necessidades diárias nem sempre nos deixa tempo para isso.

A visão prefere a aparência externa; é parte de sua natureza. Ela tende a considerar como causas, as conseqüências. Em nossa estranha atitude para com a luz, acreditamos que nossos olhos vêem o sol, embora percebam apenas objetos iluminados.

Por conseguinte, o perigo jaz na natureza da própria vista, em sua rapidez, em sua utilidade. Isto é verdade principalmente quando nos servimos dela para conhecer outras pessoas. Pensem nos desastrosos erros de nosso julgamento, quando o baseamos nas roupas, no penteado e no sorriso da pessoa que encontramos. A maior parte de nosso amar e de nosso odiar, assim como a maior parte de nossas opiniões, depende dessas roupas, desse sorriso.

Uma pessoa se aproxima de nós. Que significa ela para nossos olhos? Antes de mais nada, ela nos causa uma impressão física, isto é, não existe relacionamento algum — nem mesmo um relacionamento fugaz — entre ela e nós, mas sim apenas entre ela e a sociedade, pois é óbvio que vestuário, sorriso, expressão facial e mesmo gestos, numa palavra, comportamento, são patrimônio comum da sociedade.

Penso nesse jogo sem fim, um jogo que se tomou involuntário. Nós o praticamos para chamar a atenção sobre nós mesmos. É a arte de enganar os olhos dos outros, uma arte que toma tantos minutos de nossas vidas, O que enganamos são os olhos. Para eles é que trabalhamos. Sabemos muito bem que eles passarão por nós rapidamente, e não levarão muito tempo nos examinando.

Naturalmente, há olhos que examinam e não apenas vêem. São os olhos de uma mãe ou de uma esposa ansiosa, os olhos de um bom médico, de um homem sábio, de um artista e — porque não — os olhos de um humorista. Mas por que será que, no momento em que esses olhos vêem, eles parecem meio fechados e voltados para dentro?

Este processo tem muitos nomes: refletir, concentrar-se, lembrar-se. Pensando bem, é sempre um reflexo de defesa contra vista. Após termos recebido imagens através dos olhos, é necessário reter essas imagens, explicá-las a nós mesmos sem qualquer apoio visual, em resumo, dar-lhes uma forma de existência amplamente nova: a existência interior. Se não estivermos prontos para renunciar, pelo menos temporariamente, às impressões que recebemos através dos olhos, nenhuma cognição verdadeira, em minha opinião, será possível.

Este simples fato deveria prevenir-nos contra uma grande ilusão: a ilusão de que as formas são onipotentes.

Os seres humanos gostam de colecionar de tudo. Sonham em multiplicar, infinitamente, fatos e experiências. Se querem conhecer o mundo das plantas, eles então observam todas as plantas, uma após a outra. Examinam todas as partes, determinam divergências e similaridades; diferenciam e classificam. Enumerar e classificar formas tornou-se a função mais importante da inteligência. O que é verdadeiro para a pesquisa sistemática também é verdadeiro para nossa vida diária. Para a maioria das pessoas, viajar significa ver tudo: todas as paisagens, uma após a outra, cada paisagem em sua particularidade, todos os recintos de uma casa, quem não viu todos os quartos, não viu a casa. Quem não viu todos os advogados, todos os operários, não chegou a ver o homem que é chamado advogado ou operário. Este é o princípio básico de todas as enciclopédias, de todos os dicionários, de quase todos os compêndios. Desta maneira faz-se pesquisa histórica, pesquisa do homem e pesquisa na natureza. E depois nos surpreendemos com sua pobreza e sua insuficiência.

Creio que a visão é responsável pela opinião predominante de que podemos compreender o mundo e conhecê-lo completamente, passando de uma forma à outra, de um fenômeno a outro. Esquecemos que a própria força de movimento que conduz os olhos de um objeto a outro não se pode realizar dentro dos olhos. Ela, forçosamente, precede e dirige o seu deslocamento.

Nos dias de hoje, estas observações adquirem uma importância inteiramente nova, pois nosso mundo atual de cartazes, anúncios luminosos, cinema e televisão se baseia inteiramente na confiança nos olhos. Foi dito, com toda a razão, que vivemos hoje na era das imagens. Pois já não está na iminência de ser reduzida a imagens externas a transmissão dos pensamentos? Já não estamos a caminho de um ensino inteiramente orientado para o visual? Que um cego levante a voz, como estou fazendo, e previna os que vêem para que se acautelem quanto ao uso de seus próprios olhos, pode parecer descabido e até cômico. Porém não é o processo de ver que estou atacando.

Acuso apenas uma certa idolatria. O ídolo é aquela convicção, que é característica dos que vêem, de que a visão é a atividade principal do espírito e suficiente para ele.

Naturalmente não se pode culpar os olhos. Pelo contrário, eles são tão bons que deveriam mesmo ser melhorados mais ainda.

O que, simplesmente, deve ser compreendido é que ver não é exclusivamente trabalho dos olhos. A vista, a faculdade de ver, existe antes do instrumento que são os olhos. Enquanto os homens esquecerem esse fato, defrontar-se-ão constantemente com ilusões e fracassos. Ficarão impacientes. Hão de querer ver sempre mais e mais, e não se reconhecerão mais no individuo que se encontra frente a uma tal torrente de impressões e que as vê.

Tudo isso é do conhecimento de uma pessoa cega. Ela o sabe, não por causa de um extraordinário dom da inteligência ou por seu próprio mérito, mas sim naturalmente: despojado do privilégio da vista, ele mede, ao mesmo tempo, sua perda e seu ganho. Sobretudo, continua a viver e a experimentar, com uma força irresistível, esse maravilhoso intercâmbio que se realiza entre o mundo interior e o exterior.

Deus nos concede sempre essa continuidade na vida. Quando percebemos, em algum lugar, um muro, ou experimentamos uma perda, uma desgraça, não foi Deus quem ergueu esse obstáculo, mas sim nosso espírito. Ele brotou para fora da criação perpétua. Por assim dizer, preferiu sua própria corrente de força à corrente de força universal.

Na realidade, não existe nem muro nem perda. Tudo é substituível e contínuo. Assim acontece também com a luz para os cegos.

Ouço, sempre com renovada surpresa, as pessoas mais sérias — médicos, escritores, psicólogos — falarem da terrível “noite” em que a cegueira nos atira. “Noite” é a palavra que todo mundo usa, e não posso senão protestar contra ela, porque essa palavra revela um julgamento estranho, um preconceito ou, simplesmente, uma opinião superficial; pois, como é possível, especialmente para um médico ou um psicólogo, não suspeitar, ao menos, do caráter principalmente relativo de toda percepção?

Os fatos são bem diferentes de tudo o que realmente imaginamos. Deixar de enxergar com os olhos não significa entrar num mundo em que a luz deixou de existir.

No momento em que perdi a luz dos meus olhos, descobri que a luz dentro de mim não diminuíra. Não era obrigado a lembrar o que essa luz havia significado para os meus olhos, nem a manter viva a memória desse fato: a luz estava ali em meu espírito e em meu corpo. Estava gravada neles integralmente. A luz estava ali, acompanhada de todas as formas, cores e todos os contornos visíveis, dotada do mesmo poder de aumentar, de diminuir e de se deslocar, que possui no mundo dos olhos.

Repito: a experiência que me fora concedida não era a de uma lembrança. A luz que eu continuava a ver sem meus olhos era a mesma de antes. Porém, meu ponto de vista em relação a ela havia mudado: eu me aproximara mais de sua origem.

Era como se a luz não fosse mais aquele objeto do mundo exterior, aquela estranha iluminação, aquele fenômeno da natureza que pode acontecer ou não, e sobre o qual temos tão pouco poder. Em vez disso, era como se a luz, daí por diante, envolvesse a mim e ao mundo exterior num único movimento, abarcando-os de uma só vez.

Privado da luz dos meus olhos, eu não podia dizer que a luz que eu via viesse de fora; tampouco podia dizer que viesse de dentro.

E realmente: Dentro e fora tornaram-se conceitos inadequados. Quando, muito mais tarde, durante o tempo de meus estudos, ouvia falar da diferença entre fatos objetivos e subjetivos, não fiquei satisfeito: via claramente que essa diferença se baseava numa concepção errônea da percepção.

Já estamos agora bem longe da “noite” de que se costuma falar. Aquilo que habita a cabeça de um cego é a luz. Devemos dizer: a sua cabeça, ou o seu coração? Ou até talvez os seus olhos? Para que? Que diferença faz, já que a luz não é algo nem interno nem externo, mas abarca todo o ser e confunde as distinções que fazemos por causa do hábito. A luz está ali. Esta é e única certeza.

Sei muito bem a objeção que poderia ser levantada: Não seria a sua experiência uma ilusão? Você, tempos atrás, já havia enxergado, havia conhecido cores e formas, podia nomeá-las. Porém, o que acontece com aquele que nasce cego?

Admito que essa seja uma objeção de peso; e o seria ainda mais, se não tivéssemos o testemunho dos cegos de nascença que foram curados. Sem dúvida, todos afirmam que a luz, tal como se revelou aos seus olhos, foi uma surpresa para eles, uma nova descoberta. Mas, ao mesmo tempo, confessam que antes de poderem ver com seus olhos, traziam dentro de si mesmos uma contrapartida dessa luz.

E assim tudo é luz nesta cegueira: e essa luminosidade manifesta ainda contém uma lição magnífica. Desde minha infância, me impressionara com um fenômeno de uma nitidez surpreendente: a luz que via se modificava conforme meu estado interior. Em parte, isso dependia de minha condição física, por exemplo, cansaço, repouso, tensão ou relaxamento. Mas isso era relativamente raro. As verdadeiras mudanças dependiam do meu estado de alma.

Quando estava triste, quando tinha medo, todos os matizes escureciam e todas as formas se tornavam indistintas. Ao contrário, quando estava alegre e atento, todas as imagens clareavam. Rancor ou escrúpulos mergulhavam tudo na escuridão. Uma resolução magnânima, uma decisão corajosa, emitia um claro raio de luz. Pouco a pouco, aprendi a distinguir que amar significava ver e odiar significava cegueira e noite.

Desta maneira compreendi que a moral (não a moral social, mas a espiritual) não era simplesmente um conjunto de normas abstratas, mas sim uma ordem bem disposta, uma seqüência de fatos, como um manejar da luz.

Passei pela mesma aventura em relação ao espaço. Quando fiquei cego, descobri que existia um espaço interior. Este espaço também mudava suas dimensões conforme o meu estado de alma. Tristeza, ódio ou medo não somente escureciam meu universo, como também o reduziam. O número de objetos que eu, com um olhar, podia abranger dentro de mim diminuía. No sentido exato da palavra, eu me chocava contra tudo. Seres e coisas se tornavam obstáculos dentro de mim mesmo. Externamente, não conseguia deixar de colidir com portas e móveis. Era castigado rapidamente e da maneira mais completa.

Entretanto, pelo contrário, coragem, atenção, alegria, tinham o efeito imediato de alargar e clarear o espaço. Logo, tudo dentro de mim existia em abundância: uma grande quantidade de objetos, imagens, seres. Via diante de mim uma paisagem grandiosa. Sabia que essa paisagem podia se expandir indefinidamente; para conseguir isto, minha alegria tinha simplesmente que aumentar.

Ao mesmo tempo, minha destreza física progredia; aprendi a me orientar e a me mover com segurança. Em resumo, havia duas possibilidades: rejeitar o mundo — e isto significava escuridão, revezes —, ou aceitá-lo, o que significava luz e força.

Acho que esta minha explanação não representa algo particularmente novo, a não ser que se leve em conta o caráter experimental, concreto e manifesto dos fatos descritos. A descoberta que a cegueira possibilitou foi, sem dúvida, a da existência de uma vida interior. De inúmeros encontros com pessoas cegas e de inúmeras perguntas que lhes fiz, fiquei sabendo que os outros haviam tido experiências similares. Contudo, a maioria não fala sobre elas.

Para poder descrever essas experiências é necessário, sem dúvida, um certo material técnico; é preciso dominar uma linguagem especial, a da psicologia, e estar habituado a um certo tipo de análise. Mas isso não é assim tão difícil e muitas pessoas cegas têm essas possibilidades.

Todos nós sabemos o quanto nossas experiências, especialmente nossas experiências internas, dependem da língua. No entanto, a língua é, antes de mais nada, uma ferramenta da coletividade, Pode-se dizer que ela é a ferramenta da maioria.

As palavras de que os cegos se servem são as palavras dos que vêem. Eles tomaram emprestado todas elas, e os que vêem não aceitam de muito bom grado o fato de que os cegos fazem delas um uso tão positivo. Os que vêem são dados à intolerância.

Um cego é um inválido; é um incapacitado, ou seja, um excluído da sociedade, e não é levado em conta. Ele recebe compaixão e até ajuda, mas quase todo mundo prefere ouvi-lo lastimar-se, revoltar-se, censurar-se por ser diferente, do que ouvi-lo descrever, com segurança, o mundo que ele traz dentro de si. Freqüentemente, os cegos sentem, de maneira bastante dolorosa, a dúvida e a descrença com que sua experiência pessoal é recebida.

Em conseqüência, ou os cegos se isolam do mundo e levam uma vida cheia de hábitos estranhos, aumentando assim ainda mais o abismo que os separa do mundo dos que vêem, ou dirigem seus esforços no sentido de fazer com que os outros esqueçam sua cegueira. Raramente, muito raramente, eles se apresentam, realmente, como cegos, e como quem deseja exercer sua função como cego.

Acredito que a cegueira tenha uma função própria. Ela tem a tarefa de nos lembrar que o despotismo de um dos nossos sentidos, a visão, não se justifica, e de nos acautelar contra a forma de percepção que atualmente predomina. Mais ainda: sua tarefa não é apenas a de evocar em nós a origem de todo saber, mas também fazer com que nos lembremos do dom maravilhoso que nos permite um intercâmbio entre outras formas de percepção e imagens percebidas.

Os cegos sabem, por experiência direta, que o ato de ver tem prioridade sobre a visão no sentido usual, a visão externa. Acho importante que eles não escondam esse conhecimento.

Sobretudo, considero importante que o cego e aquele que vê comparem o que vêem. Eles deveriam se reunir, antes de pronunciar qualquer julgamento, e antes de estabelecer qualquer regra de classificação para a visão interna e externa; deveriam comparar suas experiências, ficar cientes de sua mútua riqueza de experiências. E tanto um como o outro deveriam aceitar suas respectivas limitações. Estou convencido de que essa comparação efetuaria um valioso trabalho. Estou convencido de que, depois de tal intercâmbio de pensamentos, os limites de ambos os tipos de percepção, limites que deveriam ser conhecidos, surgirão com uma nova claridade.

Para que esta comparação, entre o mundo que os olhos vêem e o mundo percebido sem olhos, ficasse perfeitamente compreensível, deveria ser conduzida pelos dois lados. Esperemos que um dia este diálogo seja levado a cabo com toda franqueza!

Contudo, acredito que hoje já seja possível fazer uma relação provisória das faculdades dos cegos. Hoje, em geral, se diz que a perda da visão imediatamente faz com que os outros sentidos se desenvolvam mais, e que haja uma compensação. Isso é verdade. É verdade que os cegos ouvem melhor do que os que vêem. Os sons lhes dão a possibilidade de perceber distâncias e até vultos.

A sombra de uma árvore no caminho não constitui apenas um fenômeno visual. É também audível, O carvalho, o choupo, a nogueira têm seus níveis específicos de som. Penetra-se na tonalidade de um plátano como se penetra numa sala. Reconhece-se nisto uma certa ordem do espaço, zonas de tensão e zonas de livre passagem. A mesma coisa é válida para um muro ou toda uma paisagem.

Todas as graduações da luz têm graduações correspondentes no som. Aquilo que escuto, debruçado na minha janela, sob um cinzento céu nublado, é indolente. Todos os sons se tornam fracos. Movimentam-se em pequenos grupos desconexos. Circulam num único plano espacial. Aquilo que escuto quando o sol brilha possui uma vibração muito mais intensa. Objetos reais, emitindo sons, começam a aparecer. Os sons vagueiam à vontade, encontrando-se de acordo com sua afinidade, e se combinam em formas.

Uma pessoa cega ouve melhor, e isto é bom; pois ela ouve aquilo que não vê. Um cego possui um melhor senso de sentir, de paladar e de tato. Deveria ser-lhe dito o quanto os seus sentidos guardam em reserva para ele. Contudo, me parece que, antes de mais nada, deve-se chamar sua atenção para a condição que leva a uma tal amplitude dos sentidos.

Essa condição não é simplesmente o fato de não mais poder ver. Nem significa que seja dada, aos sentidos remanescentes, uma nova estrutura. A condição necessária é muito mais simples: deve-se estar atento. Uma pessoa realmente atenta poderia identificar tudo. Para esse reconhecimento, ela não precisaria de nada que tivesse ligação com os sentidos. Para ela nãoo existiria nem luz, nem som, nem a forma peculiar a cada objeto, mas cada objeto se revelaria a ela em todos os seus aspectos possíveis. Em outras palavras, ela penetraria completamente em seu mundo interior.

Os sentidos continuariam a existir, porque seu papel como intermediários naturais foi estabelecido pela própria ordem da criação. Porém, eles não mais funcionariam independentemente, uns separados dos outros, como erradamente supomos que deveriam.

É justamente dessa “atenção total” que as pessoas que vêem se desviam constantemente. Assim também os cegos, porém não até o mesmo grau. É para eles uma necessidade prática permanecerem atentos, e esse simples fato constitui o primeiro dos seus dons.

A audição, o olfato, o tato! Sinceramente, hesito em fazer essas diferenciações, pois receio que sejam arbitrárias.

Sabe o cego realmente o que percebe quando, caminhando pela calçada, indica subitamente que reconheceu uma brecha num muro ou numa construção, ou quando ele pára a pouca distância de um obstáculo, sem tê-lo tocado nem mesmo de leve? Pode ele expressar em palavras aquela experiência? Creio não. Se o perguntarmos, dirá que ouviu algo. Uma leve ressonância, um movimento do ar, como a aproximação muito vagarosa de um objeto. Mas essa explicação seria apenas uma concessão à linguagem geralmente usada.

Ele não ouvia; tocava. A audição e o tato talvez sejam a mesma percepção sensorial. O fato de ter o cego apontado a brecha no muro significa que a área livre de cimento ou pedras, já se apoderara de todo o seu corpo; ou seja, que, com toda a superfície de seu corpo, ele já havia experimentado aquela forma e seu poder de resistência. Significa até que ele já havia passado através da abertura.

Creio que todos os nossos sentidos se unem num só. Eles são estágios sucessivos de uma única percepção, e essa percepção sempre apenas uma percepção de tato. Portanto, a audição pode substituir a visão, e a visão, o tato. Em conseqüência, nenhuma perda é irreparável.

A essa altura me pergunto se é possível que aquilo que chamamos de “atenção” seja a forma psicológica desse contato fundamental, forma essa baseada tanto na sensação como no intelecto. Em outras palavras: seria a atenção uma espécie de tato?

Uma pessoa cega encontra-se numa sala; entra um homem, senta-se e não fala. Pode o cego chegar a conhecê-lo? O senso comum diria que não. Mas não tenho certeza de que esse senso comum tenha razão. O cego é capaz de intensificar sua atenção; ele pode se abrir a tal ponto que esse homem imóvel chegue mais perto dele. Pouco a pouco, silenciosamente e sem se mexer, ele pode remover todos os recônditos obstáculos que o separam do outro e que se encontram no interior de todos nós, e pode começar a absorver a aparência desse homem.

Sei que uma tal experiência vai até os limites da cognição; sei que ela quase nunca é realizada conscientemente. No entanto, acredito que todo cego já a tenha tido, quer estivesse cônscio disto, quer não.

O que se diria neste caso? Teria o cego desenvolvido um poder superior? Com a ajuda do espírito, teria ele transcendido as condições normais de percepção? Creio que se deveria dizer simplesmente: Ele tocou.

Usei como exemplo uma pessoa cega. Da mesma forma eu poderia ter falado de uma pessoa que vê, pois — repito — o mérito especial da cegueira não consiste em criar uma experiência diferente, mas sim em nos levar, por necessidade, a uma experiência elevada.

Alguns chamaram este tato fundamental de “sentido de obstáculos”. Tentaram até atribuir-lhe uma determinada parte do corpo. Uns queriam localizá-lo, de acordo com a tradição da fisiologia esotérica, na região da testa, no “olho de Shiva”; Outros, seguindo uma hipótese puramente racional, falaram de uma concordância, de uma mistura de sensações elementares de caráter visual, as quais estariam situadas, principalmente, em certos pontos de nossa pele. Esta é a famosa tese de Jules Romain, formulada em sua monografia sobre “Visão Para-ótica” ou a “visão que ocorre fora da retina”.

No que me diz respeito, prefiro me restringir a uma observação mais direta.

Aquilo que um cego sente na presença de um objeto é uma pressão. Estando de pé diante de um muro que ele nunca tocou e não está tocando no momento, ele sente uma pressão física: o muro, por assim dizer, cai sobre ele. Uma emanação sutil se exala do muro e, no momento em que ela se encontra com outra emanação que se origina no cego, tem lugar a percepção consciente.

Por conseguinte, a percepção significaria entrar num equilíbrio de pressão, num campo de forças. Assim que prestamos atenção a esse fenômeno, o mundo se revela de uma maneira surpreendentemente diferente. Nenhum único objeto, nenhum só indivíduo permanece neutro. A unidade do mundo é vivenciada como um acontecimento físico.

A pressão pode assumir todas as formas: absorção, transferência, cooperação. Tudo entra num relacionamento íntimo e ativo conosco — a janela, a rua, as paredes do quarto, a mobília, o leve movimento do ar, os seres vivos. Finalmente, até os próprios pensamentos adquirem peso e direção.

Esta é a experiência do cego, mas é também — disto estou convencido — uma experiência comum. As pessoas que vêem também experimentam esses efeitos de pressão, mas não os deixam entrar em suas consciências.

Todavia, parece-me que elucidariam um grande número de estados de espírito, bastante vagos, mas importantes: simpatia, antipatia, sensação de mal-estar, boa-vontade, o desejo de ficar ou de fugir, oposição, devoção.

Existe a tendência de explicar estes estados a todo custo psicologicamente: considero-os como sendo muito mais simples.

Eu disse “pressão”. Disse “emanação”. Poderia também ter me expressado diferentemente e falado sobre um “campo vibratório”. Essa vibração básica que dá forma aos objetos e revela os seres, é para mais perto dela que somos conduzidos pela cegueira.

Não me parece conveniente levar mais longe esta análise, porque penetramos no domínio da experiência pessoal. Quando desejamos transmitir nossas experiências a outras pessoas, o único modo é explicar e tornar a explicar, e com todos os detalhes.

Quis chamar a atenção para o caráter estranhamente unilateral de nossa psicologia da percepção. O preconceito que, arbitrariamente, eleva a visão à sua posição todo-poderosa ocultou à maioria dos pensadores, aquilo que torna possível a visão, assim como todas as outras percepções sensoriais e, de uma forma geral, nosso relacionamento com o mundo.

Por todas essas razões, o cego tem o direito de dizer: A cegueira alterou minha visão, mas não a extinguiu.

E agora espero que vocês possam aceitar com mais facilidade o meu paradoxo, a profissão de fé que fiz no início: A cegueira é a minha maior felicidade: A cegueira nos dá uma grande felicidade. Ela nos dá uma verdadeira oportunidade, tanto através da desordem quanto da ordem que ela cria.

A desordem é a peça que ela nos prega, a leve alteração que causa: força-nos a enxergar o mundo de um ponto de vista diferente. Essa desordem é necessária, pois a principal causa de nossa infelicidade e de nossos erros é que nossos pontos de vista são fixos.

Quanto à ordem gerada pela cegueira, ela é a descoberta da criação constantemente presente. Acusamos sempre as condições de nossas vidas; nós as chamamos de incidentes, acidentes, doenças, obrigações, defeitos. Desejamos impor nossas próprias condições à vida: é aí que reside nossa verdadeira fraqueza. Nos esquecemos de que Deus nunca nos cria novas condições sem nos dar a força para enfrentá-las. Sou grato à cegueira que não me permitiu esquecer isto.

Gostaria que esta atitude fosse considerada “otimista”, se bem que, hoje em dia, o otimismo não seja muito bem visto. Este é o meu desejo, porque não posso admitir que se deprecie o valor de uma experiência, somente por ser uma experiência feliz.

Os cegos vêem à sua maneira, mas realmente vêem. Para eles isso não é um consolo. É um fato que lhes acarreta tantos riscos e obrigações quanto os que a visão acarreta para aqueles que dispõem da luz de seus olhos.


Capítulo 2

da obra «La lumière dans les ténèbres»

A longa viagem que me trouxe do meio do Oceano Pacífico até à Suíça e que me dá hoje a alegria de me encontrar com vocês se realizou por causa de um livro. Escrevi esse livro primeiramente na minha língua materna, o francês, e lhe dei o nome “Et la Lumière Fut”. Depois, publiquei-o em inglês, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Finalmente, foi traduzido para o alemão com o titulo “Das wiedergefundene Licht”. É a história de minha vida, ou antes, daquilo que a vida me ensinou, desde a idade de sete anos e meio, quando, num acidente, perdi, completa e irremediavelmente, a visão — até a primavera de 1945, aquele momento em que saí com vida do campo de concentração Buchenwald, na Alemanha nazista.

Esse livro é, indubitavelmente, o mais pessoal de todos os que escrevi até hoje — o mais pessoal e quase que o mais íntimo. Contudo, é aquele que me tem dado até agora a oportunidade de entrar em contato com o maior número possível de meus semelhantes. Isto não me surpreende, pois sempre que nos damos ao trabalho de sondar as profundezas de uma experiência e extrair dela tudo o que ela contém, do mais simples e do mais oculto, cessamos de falar só e unicamente de nós mesmos: entramos nos domínios daquilo que é mais precioso, nos domínios da experiência universal, aquela experiência que compartilhamos com os outros.

Portanto, não vou pedir desculpas por lhes contar hoje um pouco mais de mim. Aquilo que um homem descobriu em sua vida — por mais singular e única que ela seja — pertence a todos. E se suas descobertas podem elevar e enriquecer a vida de outros, é sua obrigação falar delas.

Pois bem, é este o meu caso. O que trinta e sete anos de cegueira me ensinaram — devo admitir — foi fazer grandes esforços; porém, eles são mais do que esforços: são também descobertas. Mal posso esperar para lhes contar algumas delas.

Apenas dez dias após o acidente que me roubara a vista, fiz a descoberta fundamental. Estou ainda como enlevado nela. Só posso descrevê-la com palavras claras e diretas: eu perdera totalmente a visão; não podia mais enxergar a luz do mundo. Contudo a luz continuava ali.

Ela estava ali. Tentem imaginar como isto deve ter constituído uma surpresa para mim, menino que ainda não tinha oito anos. É verdade que não podia mais ver a luz fora de mim, a luz que ilumina as coisas, que está associada a elas e influi nelas; todo mundo estava convencido de que eu a perdera para sempre; mas a reencontrei em outro lugar. Encontrei-a dentro de mim mesmo, e — que milagre! — ela estava intacta.

Contudo, este “dentro de mim mesmo” — onde se encontrava? Em minha cabeça, em meu coração, em minha imaginação? Não sentem vocês que tais indagações são de natureza puramente intelectual e dignas somente daqueles que já esqueceram a simplicidade e o poder indiscutível das experiências genuínas? Para mim — eu tinha oito anos de idade e vivia em vez de pensar —, para mim, a luz estava presente. Sua fonte não cessara. Eu sentia que ela continuava jorrando a todo momento e transbordando, sentia o quanto ela desejava espalhar-se pelo mundo afora. Era só recebê-la. Ela estava inevitavelmente presente. Estava toda lá, e eu reencontrei seus matizes e movimentos, isto é, suas cores, as quais eu havia amado tão apaixonadamente poucas semanas antes.

Vocês compreendem que isto era algo inteiramente novo, tanto mais que contradizia tudo aquilo em que acreditavam aqueles que têm olhos. A origem da luz não se encontra no mundo exterior. Só acreditamos que esteja lá em virtude de uma ilusão comum. A luz habita onde a vida também habita: dentro de nós.

Contudo, tive de me esforçar para achar meu caminho entre as portas, as paredes, os homens e as árvores. Como acontece com todos os cegos, eu me machucava freqüentemente. Porém, não demorei a aprender que esbarrava nas coisas unicamente quando me esquecia da luz. Quando não deixava de prestar atenção à luz, corria muito menos perigo. Quase que imediatamente depois disto veio a segunda grande descoberta. Havia apenas um meio de poder contemplar a luz interior: amar.

Quando eu era vencido pela tristeza, quando me deixava arrebatar pela cólera, quando invejava aqueles que possuíam a luz de seus olhos, a luz imediatamente diminuía. Às vezes se apagava por completo. Então, eu ficava cego. Porém, esta cegueira era um estado de não mais amar, era estar triste; não era ter perdido a visão.

Falei-lhes de descobertas. Essa foi uma delas, e era tão grandiosa que, muitas vezes, toda uma vida repleta de Religião e Moralidade não basta para que os outros possam realizá-la.

Em outro aspecto, também, desejo deixar dito, fui extremamente afortunado. Tive pais que compreenderam. Nem minha mãe, nem meu pai demonstraram, alguma vez, piedade pela minha sorte. Nunca usaram em minha presença a palavra “infortúnio”. Especialmente meu pai que possuía uma profunda compreensão da vida espiritual logo me disse: “Conte-nos toda vez que fizer uma descoberta”. Descobrir cada vez mais? Ele tinha razão. Não se trata de consolar, nem aqueles que perderam a visão, nem os que sofreram outras perdas — a fortuna, a saúde ou um ente querido. Em vez disto é preciso mostrar-lhes o que essa perda lhes traz, e quais as dádivas que recebem em lugar daquilo que perderam. Porque sempre recebemos dádivas. Deus assim o quer. A ordem se restabelece; nada jamais desaparece completamente.

Eu soube disso aos oito anos de idade, porque havia reencontrado a luz. Desde aquele momento, a cegueira se tornou para mim, uma experiência fascinante e uma tentativa de viver uma vida nova.

Já não podia ler com meus olhos. Porém, que importava? Desenhava, dentro de mim, letras e palavras numa tela, maior e mais luminosa do que todos os quadros negros, e, dentro de poucas semanas, pude aprender a escrever de novo, em Braille.

Com meus olhos, eu não via nem o sol, nem as plantas, nem os rostos. Mas bastava que o calor do dia me tocasse, que uma árvore aparecesse ao longo do caminho, que uma voz me chamasse e imediatamente aqueles seres e aquelas coisas surgiam na minha tela interior. Só faltava aprender algumas técnicas simples a fim de enfrentar os problemas do dia-a-dia — as únicas que ainda podiam ser consideradas dificuldades: escrever em Braille, ler em Braille o mais fluentemente possível, bater a uma máquina de escrever comum, pois era necessário poder entrar em contato com os que viam. Felizmente, aprendi tudo isto muito cedo em minha vida, dos oito aos dez anos de idade.

Além disto, meus pais haviam resolvido deixar-me ficar entre meus colegas que viam. Foi uma decisão ousada. Uma escola especializada para cegos teria oferecido maiores garantias, e ainda hoje acredito que, para a maioria dos cegos, uma escola especial seja mais eficiente e mais vantajosa. Contudo, a obrigatoriedade de viver sob as mesmas condições que todos os outros me ensinou muita coisa.

Eu tinha de esquecer que era cego. Tinha de parar de pensar no assunto. Pude comparar minhas experiências com as dos outros, e compreendi bem rapidamente que minha cegueira me preservava de uma grande desgraça: a de conviver com egoístas ou tolos. Somente aqueles que eram capazes de ser generosos e compreensivos procuravam minha companhia. Para mim, a escolha de meus camaradas era bem mais fácil do que para os outros. Não conheci rapazes e moças que esperavam da amizade apenas o lucro pessoal, porque esses nunca se aproximavam de mim. Assim, conheci os melhores, tanto na escola primária, como depois no ginásio, em Paris, sem jamais ter de me preocupar com isto. Eles estavam ali, perto de mim, comigo. Eles me interrogavam, e eu os interrogava de volta. Ajudaram-me a viver como se tivesse olhos, ajudaram-me a correr, a subir em árvores, andar de barco e, às vezes, a furtar maçãs. E, para sua maior surpresa e, muitas vezes, para surpresa minha, eu lhes ensinava a ver melhor.

Graças à minha cegueira, eu havia desenvolvido uma nova faculdade. A rigor, todo homem a possui, mas quase todos se esquecem de usá-la. Essa faculdade é a atenção. Para poder viver sem olhos, é necessário estar muito atento, ficar horas e horas num estado de vigilância e, ao mesmo tempo, de receptividade e de atividade. De fato, a atenção não é, simplesmente, uma virtude da inteligência ou resultado de educação, e algo de que se pode prescindir com facilidade: é um estado de ser. É um estado sem o qual nunca seremos capazes de nos aperfeiçoar. No seu sentido mais exato, ela é o posto de escuta do Universo.

Eu era muito atento. Era mais atento que qualquer um dos meus companheiros. Todos os cegos o são ou podem ser. Assim, adquirem o poder de estar completamente presentes, às vezes até mesmo o poder de transformar a vida ao seu redor, um poder que a civilização distraída do século XX não possui mais.

Estar atento abre uma esfera de realidade de que ninguém suspeita. Se eu, por exemplo, passeava por um atalho sem prestar atenção, completamente imerso em mim mesmo, nem sabia se havia árvores ao longo do caminho, ou qual o seu tamanho, ou se elas tinham folhas. No entanto, quando despertava minha atenção, cada árvore, imediatamente, se fazia presente. Isto deve ser tomado bem ao pé da letra: cada uma das árvores projetava sua forma, seu peso, seu movimento - mesmo quando estava quase imóvel — em minha direção. Eu podia apontar o seu tronco e o lugar de onde saíam os primeiros galhos, mesmo quando estava a vários metros dela. Pouco a pouco, algo novo se me tornava evidente, algo que nunca se encontra nos livros: o mundo exerce de longe uma pressão sobre nós.

Aqueles que vêem cometem um estranho engano: acreditam que conhecemos o mundo somente através de nossos olhos. De minha parte, descobri que o Universo consiste de pressão, que cada objeto e cada ser vivo se revela a nós, em primeiro lugar por uma espécie de pressão muito suave e inequívoca, que nos revela sua intenção e sua forma. Passei por uma experiência maravilhosa que foi a seguinte: uma voz, a voz de uma pessoa, faz com que ela apareça como uma imagem. Quando a voz de uma pessoa me alcança, percebo logo sua figura, seu ritmo e a maioria de suas intenções. Mesmo as pedras pesam sobre nós à distância, e assim também os contornos das montanhas distantes e a súbita depressão de um lago no fundo de um vale.

Essa comunicação é tão exata que eu, passeando de braço dado com um amigo pelos caminhos dos Alpes, sabia como era a paisagem e, algumas vezes, era capaz de descrevê-la com uma clareza surpreendente. Algumas vezes; sim, apenas algumas vezes. Eu o conseguia quando convocava toda minha atenção: Permitam-me que diga com toda franqueza: se todos os homens fossem atentos, se se encarregassem de sê-lo em todos os momentos de suas vidas redescobririam o mundo; veriam subitamente que o mundo é inteiramente diferente do que acreditavam que fosse. Toda a ciência se tornaria obsoleta num instante, e nós penetraríamos no milagre da cognição imediata.

Essa cognição imediata e completa, eu lhes asseguro, não a possuo. Os cegos não a têm. Todavia, têm uma chance adicional quando tentam aproximar-se dela.

Aos dezessete anos de idade, formei-me no colégio e entrei na Universidade. Porém, isto já não era essencial para mim. A falsa paz entre as duas guerras tinha chegado ao fim. A Europa se lançara no pior conflito de sua história, e minha pátria, a França, fora conquistada em cinco semanas. Paris estava ocupada pelos nazistas.

Como vocês podem imaginar, muitas vezes me perguntaram como me fora possível participar da Resistência e prestar valiosos serviços a ela. Com mais freqüência ainda me perguntaram por que eu, um cego, escolhera fazer isso. Permitam-me que o explique de uma maneira mais simples do que jamais o havia explicado antes.

Durante os primeiros meses da ocupação, experimentei algo como uma segunda cegueira. Isso aconteceu embora eu não fosse nacionalista. A ocupação da França fora um choque para mim; porém, pensava na opressão de toda a Europa ainda mais do que no terrível e todo-abrangente fato da ocupação em si. Além do mais, nem eu nem minha família éramos anti-alemães. Eu tinha estudado, cheio de respeito e fascinação, a cultura e a língua alemãs. Contudo, essa segunda cegueira, a ocupação nazista, eu a experimentei tal como a primeira.

Nove anos antes, a luz externa me havia sido tirada. Desta vez, tiraram-me a liberdade externa. Nove anos antes, eu reencontrara, dentro de mim, a luz, intacta e até fortalecida. Desta vez, encontrei dentro de mim a liberdade, presente e exigente como sempre. Em poucas semanas, compreendi que o destino esperava de mim, pela segunda vez, a mesma tarefa. Havia aprendido que a liberdade era a luz da alma.

Ninguém tem o direito de interferir com o livre-arbítrio dos homens ou com o seu auto-respeito. Ninguém tem o direito de assassinar em nome de uma idéia — muito menos em nome de uma idéia insana. Lembrar-me sem cessar de que a liberdade existia, e lembrar constantemente esse fato a todos que encontrava, tornou-se para mim um dever, tão incontestável quanto o de manter viva a luz atrás dos meus olhos fechados. Não houve nenhuma outra razão para minha entrada no movimento da Resistência. Mas houve a dificuldade de como consegui-lo.

Já tinha resolvido muitos problemas, problemas relacionados com meus estudos, com a inteligência e com a vida interior. Porém, agora deparava com um muito difícil: como poderia eu encontrar um lugar na sociedade dos outros, a fim de mostrar que era útil e necessário a eles e com eles? Jamais um cego seria admitido num grupo da Resistência. Ninguém poderia visualizar um lugar para ele.

Por isso, na primavera de 1941, fiz aquilo que, sem dúvida, tivesse eu ainda a luz dos meus olhos, nunca teria feito de uma forma tão completa e repentina: Formei, eu mesmo, um grupo no movimento de Resistência.

Em tomando a iniciativa, imediatamente invalidei todos os preconceitos. Apenas pela minha resolução, já havia provado que precisavam de mim. E isso, realmente, não foi difícil. Um trabalho feito às ocultas requeria mãos e olhos, mas também coragem e pensamentos claros. Também era necessária uma convicção que não dependia de uma idéia, mesmo que fosse uma idéia honesta, mas sim de uma experiência adquirida dia após dia. Essa convicção, eu a possuía.

Tudo mais aconteceu como que por si mesmo. Reuni em volta de mim várias centenas de jovens, na maioria estudantes. Editamos e publicamos um periódico clandestino. Formamos pequenos grupos de ação que pudessem tomar-se um dia, os quadros de um movimento nacional. De fato, no começo de 1943, eu e 600 dos meus camaradas pudemos, finalmente, unir-nos ao movimento “Défense de la France”, um dos cinco mais importantes grupos não comunistas do movimento da Resistência.

Repito: Não tenho certeza de que me teria saído bem sem minha cegueira. Foi o líder cego a quem todos os meus camaradas escolheram e em que acreditavam. Desde a primeira hora, assumi toda a responsabilidade pelo alistamento de novos membros. Cada novo candidato era apresentado a mim, e somente a mim. Eu conversava com ele bastante tempo. Dirigia-lhe aquele olhar especial que a cegueira me ensinara. Era muito mais fácil para mim do que para qualquer outra pessoa despojá-lo de todas as aparências. Sua voz expressava seu interior e, às vezes, o denunciava.

Finalmente, me era possível fazer uso daquela vida interior que o destino me forçara a descobrir tão cedo e tão a fundo. Servia-me dela para saber melhor o que eu mesmo queria, e para averiguar do que os outros eram capazes. A habilidade de concatenar pensamentos e sentimentos, de ordenar, no meu coração e meu espírito, o mundo sem a ajuda de objetos, podia, finalmente, ser utilizada para uma tarefa, cujas metas transcendiam a minha pessoa. Tenho certeza de que, durante mais de dois anos, nenhum dos meus camaradas jamais pensou nas limitações que a cegueira impunha ao meu trabalho. Eu não podia andar armado, nem percorrer as ruas de Paris com um saco de jornais clandestinos ao ombro, nem me pôr em campo para descobrir uma base militar alemã. Meus camaradas iam em meu lugar. Porém, antes de saírem, vinham a mim para saber o caminho; depois voltavam a mim para relatar seus triunfos, e era minha tarefa fazer um balanço dos resultados e decidir sobre novas ações.

Em poucas palavras — perdoem-me esta declaração que faço novamente contra minha vontade —, descobri que não existe cegueira quando se trata de refletir, de querer, de planejar alguma coisa, ou mesmo de ajudar os homens a viverem. E quando, em 1943, unira meu pequeno pelotão à “Défense de la France” e me tomara, de repente, um membro de seu “Comité Directive Clandestine” e responsável pela distribuição de um jornal que saía de 15 em 15 dias, com uma tiragem de mais de 250.000 exemplares, ninguém ao meu redor se surpreendeu realmente.

O teste a que fui submetido um pouco mais tarde foi de natureza inteiramente diferente. Em julho de 1943, fui preso pela Gestapo. Isto aconteceu, como no caso de quase todos os combatentes da Resistência, por causa de uma traição; sem traidores, a Gestapo nunca teria podido lançar sua rede sobre uma só organização clandestina. Fui interrogado durante quarenta e cinco dias; fiquei preso durante seis meses e, em janeiro de 1944, fui levado para o campo de concentração de Buchenwald. Desta vez, minha sorte não tinha nada de extraordinário.

É impossível dizer em poucas palavras o que era um campo de concentração, e não tentarei fazê-lo. Além do mais, haveria na Europa uma só pessoa que não o soubesse? Porém, eu não era um preso igual aos outros, pois era cego. Devo ao menos contar-lhes porque sobrevivi.

Dos 2.000 franceses que chegaram a Buchenwald no mesmo dia que eu, apenas trinta estavam vivos quando o Terceiro Exército Norte-Americano libertou o campo. O fato de eu ainda estar aqui é um daqueles trinta milagres. Meus 29 camaradas não podem explicar melhor que eu.

Contudo, não hesito em dizer que devo à minha cegueira, mais do que a qualquer outra coisa, o fato de ter sido capaz de agüentar. Não tomem isto no sentido físico. Se consegui ser tolerado num campo onde os nazistas aniquilavam, sistematicamente, todos aqueles que classificavam como “incapazes para o trabalho”, foi porque eu havia encontrado uma maneira de ser útil à comunidade dos prisioneiros. Tornara-me intérprete. E essa era uma função real. Não agia como intérprete entre meus camaradas e os nazistas — estes nos ignoravam, a não ser nas horas de extermínio —, mas entre meus próprios camaradas. Nessa comunidade internacional que vivia debaixo do terror era muito importante falar francês, alemão e, mais tarde, um pouco de russo. Eu estabelecia as comunicações, transmitia notícias; conseguia escutar as falsas notícias do alto comando da Wehrmacht e as explicava aos meus companheiros, decifrando e corrigindo-as. Essa atividade assegurou-me um lugar entre eles. Já não era mais um inválido.

Mas isso não foi o bastante. Para sobreviver num campo de concentração, nenhum estratagema é suficiente, nenhuma forma de inteligência é bastante. Quando a morte está presente a todo minuto, quando todos aqueles que amamos desaparecem, quando a dignidade humana se esvai, quando não existe mais um motivo concreto, nem um só motivo razoável para se ter esperança, então se faz necessário um refúgio imediato, todo-poderoso. E esse refúgio é a fé. Todavia, frequentemente, a fé mais fervorosa não é mais que uma crença. É necessário um tipo de fé que esteja enraizada em nosso ser, uma fé que, com o tempo, se torne o nosso próprio eu. Em outras palavras: é necessária uma experiência. Essa experiência, eu a adquirira; a cegueira me havia ensinado um dia.

Eu sabia que, quando a luz me fosse tirada, poderia fazê-la reviver dentro de mim. Sabia que, quando o amor me fosse tirado, sua fonte fluiria novamente dentro de mim. Sabia até que, quando a vida está em jogo, é possível encontrar sua fonte dentro do próprio ser.

Sei que estas explanações podem parecer abstratas, e que não se vive de consolo teórico. Para mim, entretanto, não eram abstratas. Toda vez que a cena e as provações do campo se tomavam insuportáveis, eu me isolava do mundo. Penetrava naquele refúgio em que a SS não me podia alcançar. Dirigia meu olhar para aquela luz interior, que havia visto quando tinha oito anos de idade. Fazia-a vibrar através de mim. E não tardei a descobrir que aquela luz era vida, era amor. Agora podia abrir de novo os olhos — e também os ouvidos e o nariz — à matança e à desgraça. Sobrevivi a elas.

Se existe alguém que não aceita esta explicação, que é a única explicação correta, então me parece que esse alguém ignora uma verdade mais importante do que todas as demais, a saber: de que nosso destino se forma de dentro para fora, nunca de fora para dentro. A cegueira, tal como qualquer outra grande perda, física ou moral, ensina-nos essa verdade de maneira tão cabal que, afinal, é impossível negá-la. Como posso chamar ainda de “infortúnio” ao acidente que me trouxe uma tal dádiva?

O infortúnio eu só vim a conhecer mais tarde. Chamo, aqui, de infortúnio àquelas circunstâncias que nossos esforços pessoais são incapazes de mudar; àquelas que nos são impostas pelos preconceitos da maioria e pela indolência dos que estão no poder.

Nunca esqueçamos que a sorte da comunidade dos cegos é a sorte de todas as minorias. Não importa se essas minorias são de origem nacional, religiosa ou física. Quando muito, elas são toleradas. Quase nunca compreendidas.

Quando terminou a guerra voltei à minha pátria, pronto para concluir meus estudos e escolher uma das profissões para as quais me considerava mais apto: a diplomacia ou o magistério. Mas em 1942, o governo de Vichy, à imitação dos nazistas, havia posto em vigor uma nova lei. Essa lei estabelecia as qualificações físicas exigidas aos candidatos, para serem admitidos às posições controladas pelo governo. Isto se referia, especificamente, ao magistério e à diplomacia.

Hoje, essa lei absurda não existe mais. Porém, foram necessários dezessete anos de esforços infindos para aboli-la. E naqueles dezessete anos, descobri o abismo que separa os que vêem daqueles que não possuem a luz dos seus olhos.

Sei que a esse respeito, a França se mostrou de uma estreiteza e de uma obstinação que não existem em outros países. Mas o exemplo francês continua muito significativo: os que vêem não crêem nos cegos.

Essa dúvida injusta e tola orientou minhas ações durante todos aqueles anos. Resolvi não lutar contra a lei diretamente, mas sim, apresentar provas. Queria lecionar. E lecionei, por assim dizer, à força. Tomei a meu cargo lecionar sem garantias, sem emprego fixo, sem direito a pensão e sem ordenado durante as férias. Ofereci meus serviços com uma teimosia persistente. Apenas exigi que eles fossem julgados pelo seu valor real, e não pelo que supunham que valessem. Levei avante uma batalha longa e solitária que, sem dúvida, foi a mais dura de minha vida. Mais uma vez, a história de minha luta não é minha pessoal: é a mesma luta que todos os cegos têm de empreender.

Estou convencido de que chegou a hora de mostrar ao mundo a cegueira tal como ela é: não uma enfermidade que os que dela sofrem tentam compensar constantemente de acordo com suas capacidades — isto é, sempre de maneira imperfeita —, mas, sim, um estado diferente de percepção. Esse estado tem as dificuldades práticas que lhe são inerentes. Um professor cego precisa de uma secretária para obter o material necessário ao seu trabalho. O diretor cego de uma companhia comercial precisa de alguém que o acompanhe aonde quer que vá. Porém, nas condições da vida moderna, tais obstáculos dificilmente são dignos de nota. Qual o advogado, e mesmo qual o engenheiro que, hoje em dia, poderia levar a cabo seu trabalho sem a ajuda de alguns auxiliares competentes?

Tomada realmente a sério, a cegueira é um estado de percepção que — se for aceito e utilizado — é capaz de desenvolver muitas faculdades extremamente necessárias para toda atividade intelectual e organizacional. Entre duas pessoas de igual talento, a memória de um cego é melhor que a de uma pessoa que vê. E quando dizemos “memória”, nos referimos, ao mesmo tempo, àquela outra valiosa habilidade: a habilidade de associar fatos e idéias, de compará-los e de perceber noves combinações.

Não existe um motivo misterioso para a memória melhor. Acontece simplesmente que os cegos, no decorrer do tempo, são forçados a memorizar mais do que aqueles que vêem. Por conseguinte, um cego, como eu já falei várias vezes, descobre imediatamente, o alcance todo poderoso e inexplorado da atenção. Em outras palavras, ele sofre menos a distração do mundo. Por que não tirar proveito disto? Por que não destinar aos cegos aquelas tarefas que no mundo requerem este raro talento?

Permitam-me fazer uma sugestão prática. Já que é uma realidade serem fortes os preconceitos contra os cegos e o preconceito é aquilo que o ser humano tem mais dificuldade de superar, eu gostaria de sugerir a seguinte norma: cada vez que um cego se candidate a um trabalho, que lhe seja dada uma chance; que ele seja empregado por um período de experiência. Poderíamos planejar um estágio de seis ou doze meses durante o qual o escritório, a escola ou a firma que o contratou não teria compromisso com ele.

De dez cegos, a nove já foi negado um emprego. Não por se mostrarem incapazes, mas porque nem mesmo lhes foi permitida a oportunidade de dar provas de suas capacidades.

Vamos permitir que eles trabalhem. Vamos confiar neles por algum tempo. Os resultados seriam provavelmente espantosos.

Estou sugerindo exatamente aquilo que consegui para mim mesmo. Na verdade, só conhecemos aquilo que experimentamos em nós mesmos. Aconteceu que, apesar das leis antiquadas, feudais de meu país, eu me tornei professor de universidade e continuo a exercer minha profissão há vinte e quatro anos, sem enfrentar dificuldade alguma, a não ser aquelas inerentes à própria profissão em si.
Atrevo-me a dizer que lecionar é menos difícil para um cego do que para uma pessoa que enxerga. Sempre que este ponto de vista é discutido, sempre se referem à questão delicada da disciplina.

No entanto, eu lhes pergunto: será que todos os professores que enxergam são capazes de manter o respeito de seus alunos?

É óbvio que a disciplina depende da autoridade natural do professor, de sua força moral, de sua capacidade de dar vida à sua matéria. E a autoridade moral nada tem a ver com o fato de enxergar.

Sou professor há vinte e quatro anos e jamais me defrontei com qualquer dificuldade causada pela falta de visão. Na verdade, o oposto é verdadeiro.

Uma aula é um exercício do espírito e do caráter. Baseia-se inteiramente em nossa capacidade de plasmar, de formar a nossa vida interior, de transmiti-la aos outros. Quanto a isso, a cegueira é uma escola sem igual.

Por que haveria de ser necessário, quando me encontro em frente aos meus alunos, observar a posição de seus braços e pernas? Por que deveria eu observar a vaga expressão de seus rostos que transmite apenas a sua distração ou curiosidade?

A cegueira me revelou um outro espaço que não o visto, que só serve para separá-los de mim e me separar deles. Esse outro espaço é aquele onde nascem as atividades da alma e do espírito. Eu o conheço graças a uma longa experiência prática. É o silêncio. Um certo tipo de silêncio me mostra muito melhor o grau de interesse, de compreensão, ou de opressão que provoco em meus alunos que seria impossível conseguir com a ampliação de um filme que mostrasse a presença física deles em câmara lenta.

O que causa, hoje em dia, o fracasso de tantos professores, tanto na Europa como nos Estados Unidos, e se está fazendo um grande alarde desse fracasso, é a sua incapacidade de sair de sua própria cabeça.

Muitos professores são competentes, muitos se esforçam de maneira louvável, mas bem poucos são capazes de penetrar no único domínio em que o ensino pode prosperar: o espaço comum entre os espíritos. Nisso a cegueira tem me ajudado. Eu praticara durante muito tempo a técnica da troca direta entre seres humanos. Avaliar as vozes, avaliar o silêncio. Graças à cegueira aprendi avaliar muitos sinais que me vinham de outras pessoas que, normalmente, escapam à observação dos que enxergam. Se existe um domínio em que a cegueira nos torna peritos, é o domínio do invisível.

Um auditório não é um inimigo para mim. É uma entidade nova para mim. Muitas conexões novas se formam, subitamente, dentro de mim e, como não tenho que abranger o auditório com a vista e dividir sua presença em percepções isoladas, o que seria uma tarefa infrutífera, o auditório me fala como um todo, como uma unidade capaz de comunicar-se.

Não vou esconder de vocês o fato de que amo minha profissão. Ela me permite, todos os dias, compartilhar um pouco da riqueza inesperada, inquietante que a cegueira me trouxe.

É preciso terminar. E realmente, há mais alguma coisa que eu possa acrescentar? Talvez isto: se a cegueira é tida como uma privação, ela se toma uma privação. Se pensamos na cegueira como uma deficiência que deve ser compensada a todo custo, um caminho talvez se abra, mas não vai longe.

Quando, pelo contrário, se considerar a cegueira como um outro estado de percepção, como um outro âmbito de experiência, tudo se tornará possível.

Continuar a ver, se bem a seu modo, é, sem dúvida, o mais importante para um cego. Eu não lhes disse que possuo olhos como vocês; disse que tenho olhos diferentes. Não lhes disse que minhas experiências são mais verdadeiras ou mais completas. Seria uma presunção ridícula, e até mesmo uma mentira. Disse-lhes que chegou a hora de comparar nossas experiências. Quando minha esposa pinta, eu lhe pergunto o que seus olhos vêem, indago acerca de todas as linhas que eles seguem, de todas as cores que eles encontram. Ao mesmo tempo, pinto mentalmente, dentro de mim, um outro quadro. Sei que é ela quem vê o quadro real, mas eu o vejo tão bem quanto ela. Não é um grande milagre que haja tantas maneiras de perceber o mundo e não apenas uma?

Sim, vocês me ouviram bem: muitas maneiras de perceber — e é justamente esta a nossa chance!

FIM

 

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imagem de capa
 

Jacques Lusseyran: herói da Resistência
«Cegueira - Uma nova Visão do Mundo e o Cego na Sociedade»
inclui a tradução de: 'La lumière dans les ténèbres' de Jacques Lusseyran
Editado pela Associação Beneficente Tobias – São Paulo, 1983
in Portal do Deficiente Visual
 


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18.Jan.2011
Publicado por MJA