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 Sobre a Deficiência Visual


História do Cerco de Lisboa

José Saramago

- excerto -

Cego na Mesquita - Arthur von Ferraris, 1892
Cego na Mesquita - Arthur von Ferraris, 1892


Quando só uma visão mil vezes mais aguda do que a pode dar a natureza seria capaz de distinguir no oriente do céu a diferença inicial que separa a noite da madrugada, o almuadem [*] acordou. Acordava sempre a esta hora, segundo o sol, tanto lhe fazendo que fosse verão como inverno, e não precisava de qualquer artefacto de medir o tempo, nada mais que uma mudança infinitesimal na escuridão do quarto, o pressentimento da luz apenas adivinhada na pele da fronte, como um ténue sopro que passasse sobre as sobrancelhas ou a primeira e quase imponderável carícia que, tanto quanto se sabe ou acredita, é arte exclusiva e segredo até hoje não revelado daquelas formosas huris que esperam os crentes no paraíso de Maomé. Segredo, e também prodígio, se não mistério intransponível, é a virtude que elas têm de refazer a virgindade tão-logo a perdem, pelos vistos suprema bem-aventurança na vida eterna, o que definitivamente vem provar que não se acabam com esta os trabalhos próprios e alheios, outrossim os sofrimentos imerecidos. O almuadem não abriu os olhos. Podia continuar deitado algum tempo ainda, enquanto o sol, muito devagar, se vinha acercando do horizonte da terra, porém tão longe de chegar que nenhum galo da cidade levantara a cabeça para indagar dos movimentos da manhã. É certo que ladrou um cão, sem resultado, que os mais dormiam, talvez a sonhar que em sonhos estavam ladrando. É um sonho, pensavam, e deixavam-se dormir, rodeados por um mundo povoado de cheiros sem dúvida estimulantes, mas nenhum tão urgente que os fizesse despertar em sobressalto, o odor inconfundível da ameaça ou do medo, para não dar senão estes exemplos elementares. O almuadem levantou-se tacteando no escuro, encontrou a roupa com que acabou de cobrir-se e saiu do quarto. A mesquita estava silenciosa, só os passos inseguros ecoavam sob os arcos, um arrastar de pés cautelosos, como se temesse ser engolido pelo chão. A outra qualquer hora do dia ou da noite nunca experimentava esta angústia do invisível, apenas no momento matinal, este, em que iria subir a escada da almádena para chamar os fiéis à primeira oração. Um escrúpulo supersticioso representava-lhe na imaginação a sua grave culpa de continuarem os moradores a dormir quando já o sol estivesse sobre o rio, e acordando de repelão, aturdidos pela luz clara, perguntassem, aos gritos, onde estava o almuadem que não chamara à hora própria, alguém mais caridoso diria, Por seu mal estará doente, e não era verdade, desaparecera, sim, levado para o interior da terra por um génio das trevas maiores. A escada, em caracol, era trabalhosa de subir, de mais sendo este almuadem já velho, felizmente não precisava que lhe vendassem os olhos como às mulas das atafonas se faz para que lhes não dê o mareio. Quando chegou acima sentiu na cara a frescura da manhã e a vibração da luz alvorecente, ainda cor nenhuma, que a não pode ter aquela pura claridade que antecede o dia e vem tanger na ele um arrepio subtil, como de uns invisíveis dedos, impressão única que faz pensar se a desacreditada criação divina não será, afinal, para humilhação de cépticos e ateus, um irónico facto da história. O almuadem correu a mão, lentamente. ao longo do parapeito circular até encontrar, insculpida na pedra, a marca que apontava a direcção de Meca, cidade santa. Estava preparado. Uns instantes ainda para dar tempo ao sol de assomar aos balcões da terra a sua primeira aura, e também para tornar clara a voz, porque a ciência proclamativa de um almuadem há-de ficar patente logo ao primeiro grito, e nele é que tem de demonstrar-se não quando a garganta já se dulcificou com o trabalho da fala e o consolo da comida. Aos pés do almuadem há uma cidade, mais abaixo um rio, tudo dorme ainda, mas inquietamente. A manhã começa a mover-se sobre as casas, a pele da água torna-se espelho do céu, e então o almuadem inspira fundo e grita, agudíssimo, Allahu akbar, apregoando aos ares a sobre todas grandeza de Deus, e repete, como gritará e repetirá as fórmulas seguintes, em extático canto tomando o mundo por testemunha de que não há outro Deus senão Alá, e que Maomé é o enviado de Alá, e tendo dito estas verdades essenciais chama à oração, Vinde ao azalá, mas sendo o homem de natureza preguiçoso, ainda que crente no poder Daquele que nunca dorme, o almuadem repreende caridosamente esses outros a quem as pálpebras ainda pesam, A oração é melhor que o sono, As-salatu jayrun min an-nawn, para os que nesta língua o entendem enfim concluiu clamando que Alá é o único Deus, La ilaha illa llah, mas agora só uma vez, que é quanto basta quando se trate de verdades definitivas. A cidade murmura as orações, o sol apontou e ilumina as açoteias, não tarda que nos pátios apareçam os moradores. A almádena está em plena luz. O almuadem é cego. [...]

[...] O historiador, que somente fala de minarete e muezim, talvez ignorasse que quase todos os almuadens, naquele tempo e por muito tempo depois, eram cegos. E se o sabe, porventura imagina que seria vocação particular da invalidez o canto da oração, ou que as comunidades mouras resolviam assim, parcialmente, como sempre foi feito e continuará a fazer-se, o problema de dar trabalho a gente a quem faltava o precioso órgão da visão. Erro seu, agora, que a todos invariavelmente acaba por tocar. A verdade histórica, aprenda-o, é que os almuadens eram escolhidos entre os cegos, não por humanitária política de emprego ou encaminhamento profissional fisiologicamente adequado, mas para que não pudessem devassar a intimidade dos pátios e açoteias que, do alto da almádena, em figura dominavam. O revisor já não se recorda de como o soube, certamente o terá lido em livro digno de confiança, que o tempo não emendou, por isso pode insistir agora que os almuadens eram cegos, sim senhor. Quase todos. Apenas, quando em tal lhe acontece pensar, não consegue repelir de si uma dúvida, se a esses homens não lhes furariam os olhos lúcidos, como se fazia e talvez se faça ainda aos rouxinóis, para que da luz não conhecessem outra manifestação que uma voz ouvida nas trevas, a sua, ou, porventura, a daquele Outro que não sabe mais que repetir as palavras que vamos inventando, estas com que tentamos dizer tudo, bendição e maldição, até o que nome não terá nunca, inominável. [...]  
 

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Nota: O almuadem ou muezim é, no Islão, o encarregado de anunciar em voz alta, do alto das almádenas (ou minaretes), o momento das cinco preces diárias. O chamamento consiste em proferir a frase Allah hu Akbar (Alá é grande), seguida da chamada, a "profissão de fé" islâmica através da qual se atesta que "não há outro Deus para além de Alá e Muhammad é o seu profeta". Esse chamamento é entoado de forma melodiosa, sendo necessário que as palavras sejam bem pronunciadas. O primeiro almuadem foi Bilal, um escravo da Abissínia libertado por Muhammad (Maomé), que fazia o chamamento a partir do telhado da casa do profeta em Medina. Tradicionalmente procurou-se que o almuadem fosse um cego para assim se evitar a tendência para espreitar as mulheres nos seus pátios. O almuadem não é uma pessoa sagrada, mas um servidor da mesquita. A sua função pode ser exercida por qualquer pessoa. Hoje em dia, o almuadem é muitas vezes substituído por altofalantes que reproduzem uma gravação ou por anúncios transmitidos pelas estações de rádio. Wikipedia   Δ

 

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José Saramago
José Saramago
16.Nov.1922 - 18.Jun.2010

História do Cerco de Lisboa
José Saramago
excerto: págs 17a19, 29
Editorial Caminho
Lisboa, 1989

 


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18.Jun.2012
Publicado por MJA