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 Sobre a Deficiência Visual


Milton e a sua Cegueira

1608 – 1674

John Milton

 

Paraíso Perdido

Canto III 
(excerto)

Tornam as estações girando os anos,
Mas para mim não torna a luz do dia.
Já não me encantam da manhã e da tarde
As suaves, pinturescas perspectivas,
Da primavera e do verão as flores,
Nem mansas greis, nem gordos armentios,
Nem o ar divino do semblante humano;
E, em vez de tais belezas, me circunda
Nuvem cerrada, escuridão perene
Que as avenidas do saber me entupe,
Mostrando-me somente, em tábua rasa,
Um vácuo universal, sem cor, sem formas,
Donde, para jamais me aparecerem,
Da Natureza as cenas se apagaram:
Adeus, ó livros, da sapiência fontes!
Adeus, ó grande livro do Universo!


John Milton, 1667
Paradise Lost [excerto]
Tradução de António José de Lima Leitão (1787-1856)

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Paradise Lost - capa de DVD

 

On His Blindness

Soneto 16


Quando medito em minha luz perdida,
Nesta tão vasta e mais sombria terra,
E que esse dom que só a Morte cerra
Inútil mora em mim, embora a vida

N´alma me seja ao Criador rendida
E a mais prestar-lhe a conta que não erra,
«A quem, negada a luz, a treva encerra,
Calcula Deus a quotidiana lida?»

Pergunto ansiosamente. E a Paciência
O murmurar me cala: «El´ não precisa
Dos dons de um só em cada humana esfera.

Se El´ convoca os seus fiéis, e com ardência
Que milhar´s correm para onde Ele pisa.
Também O serve aquel´ que fica e espera.»


John Milton, 1655
tradução de Jorge de Sena
in blog de José Maria Alves 

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On His Blindness (Soneto 16) - capa de DVD

 

Sobre a cegueira de JOHN MILTON
 

Alguns autores têm escrito sobre a cegueira de John Milton e têm arriscado uma indicação da causa do grave problema que mudou a vida desse grande poeta épico inglês. De entre as causas arroladas podemos destacar "castigo de Deus devido à sua participação na revolta de Cromwell", "catarata", "glaucoma crónico", "complicações de miopia", "descolamento de retina", "glaucoma agudo devido a crises emocionais", "albinismo", "neuroretinite de origem sifilítica congénita" e também "fraqueza natural".

A fonte mais preciosa de informação quanto às reações de John Milton à sua perda da visão é uma carta que ele escreveu a seu amigo Leonard Philaras. De entre os muitos ângulos abordados pelo escritor cego, convém ressaltarmos as belas frases em que mostra a forma como aceita a cegueira.

Diz ele:

..."minha escuridão, por singular misericórdia de Deus, com a ajuda de estudos, lazer e a bondosa conversação de meus amigos, é muito menos opressiva do que a mortal escuridão à qual se alude.
Porque se, conforme está escrito, o homem não vive só de pão, mas de cada palavra que vem da boca de Deus, por que um homem não pode realmente aceitar isso, pensando que só pode obter a luz de seus próprios olhos, julgando-se, todavia, suficientemente iluminado pela orientação e providência de Deus?
Portanto, já que Êle prevê as coisas e me dá cobertura, como faz, e me leva para diante e para trás pela Sua mão, como se o fizesse pela vida toda, não poderei eu dar uma folga a meus olhos, já que esse parece ser o Seu prazer?"
John Milton, 1654

 

Na verdade, durante os 22 anos de sua cegueira, Milton tornou-se bem mais ocupado e a sua atividade de trabalho cresceu como nunca antes ocorrera. Os primeiros oito anos de sua vida como cego, dedicou-os a Cromwell, como Secretário para Línguas Estrangeiras. Traduzia cartas do latim para o inglês e vice-versa. Milton trabalhava com a ajuda de secretários e amanuenses.

Organizou um dicionário de Latim, preparou uma História da Inglaterra para publicação e chegou a publicar um estudo muito sério sobre a doutina cristã. Alem disso, sempre manteve extensa correspondência, como era costumeiro.

Acima e para além de tudo isso, escreveu o belíssimo poema épico pelo qual é universalmente conhecido: Paraíso Perdido.
 


Milton dita o poema Paradise Lost às filhas - Eugène Delacroix, 1826
 

Segundo autores vários, é fundamental que nos lembremos que as belas declarações de fé escritas por Milton foram compostas por um homem que ficou cego no auge de seu potencial e que se sentia nas mãos de Deus.

John Milton casou-se três vezes. A sua terceira esposa era uma mulher muito bela, mas dona de um temperamento difícil e muito violento. Dizem que quando Lord Buckingham o visitou, despediu-se dele dizendo que considerava que ele estava casado com uma verdadeira rosa. Milton respondeu: "Não posso julgar pelas cores, my lord, mas sinto-o pelos espinhos".  Fonte: Centro de Referências Faster

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Sobre Milton  diz Jorge Luis Borges:
 

A cegueira de John Milton foi propositada. Ele estragou os olhos escrevendo panfletos em defesa da execução do Rei pelo Parlamento. Costumava dizer que havia perdido a vista em defesa da liberdade. Falava dessa nobre tarefa e não se queixava por ser cego. Compunha versos e a sua memória melhorou. Após cegar, Milton passava muito tempo sozinho. Escreveu um longo poema, PARAÍSO PERDIDO, sobre o tema de Adão, pai de todos nós. Embora cego, Milton conseguia manter na cabeça 40 ou 50 hendecassílabos, que depois ditava às pessoas que vinham visitá-lo. Foi assim que escreveu PARAÍSO PERDIDO.  in  JLBorges, conferência  "A Cegueira"

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Sonnet XXII:
To mr. Cyriack Skinner
upon his blindness

Cyriack, this three years' day these eyes, though clear
To outward view of blemish or of spot,
Bereft of light, their seeing have forgot;
Nor to their idle orbs doth sight appear

Of sun or moon or star throughout the year,
Or man or woman. Yet I argue not
Against Heav'n's hand or will, not bate a jot
Of heart or hope, but still bear up and steer

Right onward. What supports me, dost thou ask?
The conscience, friend, to have lost them overplied
In liberty's defence, my noble task,

Of which all Europe talks from side to side.
This thought might lead me through the world's vain mask
Content, though blind, had I no better guide.

John Milton, 1655

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Os filisteus cegam Sansão - Rembrandt, 1636


Samson Agonistes
 

[...]
О loss of sight ! of thee I most complain !
Blind among enemies, О worse than chains,
Dungeon, or beggary, or decrepit age !
Light, the prime work of God, to me is extinct,
And all her various objects of delight
Annulled, which might in part my grief have eased,
Inferior to the vilest now become
Of man or worm ; the vilest here excel me.
They creep, yet see; I, dark in light, exposed
To daily fraud, contempt, abuse, and wrong,
Within doors, or without, still as a fool,
In power of others, never in my own ;
Scarce half I seem to live, dead more than half.
О dark, dark, dark, amid the blaze of noon,
Irrecoverably dark : total eclipse,
Without all hope of day !
О first created beam, and thou great word,
"Let there be light" and light was over all,
Why am I thus bereaved thy prime decree?
The sun to me is dark,
And silent as the moon,
When she deserts the night,
Hid in her vacant interlunar cave.
Since light so necessary is to life,
And almost life itself—if it be true
That light is in the soul,
She all in every part—why was the sight
To such a tender ball as the eye confined,
So obvious and so easy to be quenched,
And not, as feeling, through all parts diffused,
That she might look at will through every pore?
Then had I not been thus exiled from light,
As in the land of darkness, yet in light,
To live a life half dead, a living death,
And buried ; but O, yet more miserable !
Myself my sepulchre, a moving grave ;
Buried, yet not exempt,
By privilege of death and burial,
From worst of other evils, pains and wrongs;
But made hereby obnoxious more
To all the miseries of life,
Life in captivity
Among inhuman foes.
[...]
 

John Milton, 1671

 

 


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20.Abr.2010
Publicado por MJA