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Helen Keller


1880 - 1968
 

Fotografia de Helen Keller

 


Pequena Biografia da Vida
Grande e Cheia de Helen Keller

I

Ao nascer, era normal, como as outras crianças. Porém, aos dezanove meses, foi atacada por uma doença a que os médicos chamaram «congestão cerebral aguda», e que a privou da vista, do ouvido e, consequentemente, da fala. Os pais sentiram, como é natural, um terrível desgosto. Mais uma dessas criaturas humanas condenadas a uma triste existência. Como poderia ela perceber o sentido das coisas, se estava privada de dois dos seus sentidos? Os que eram apenas cegos, ou surdos-mudos, era-lhes possível aprender a comunicar com o resto do Mundo. Mas para aquela criança que era cega, surda e muda, que esperança podia haver?


Vídeo de 6 minutos com cenas do filme
O Milagre de Anne Sullivan


Um pobre entezinho incapaz de compreender ou de se fazer compreendido. Instintivamente, sentiu que era diferente de todas as outras pessoas, e isso fê-la irascível. Gritava, dava pontapés e arranhões em quem quer que se aproximasse dela. Incapaz de brincar como as demais crianças; divertia-se rasgando as roupas e cortando os cabelos com uma tesoura. Um flagelo impressionante. Não havia forma de a corrigir.

Uma ocasião, fechou a mãe na despensa; e divertiu-se quando sentiu a vibração das pancadas  na porta fechada à chave.

Além disso constituía um perigo. Tinha uma boneca e uma irmã mais pequena. Gostava da boneca porque lhe permitiam que brincasse com ela. Mas não gostava da irmã. De uma vez que a encontrou no berço da boneca, foi acometida de um acesso de raiva e tombou o berço. Só por sorte a mãe evitou que a filhinha caísse no chão e ficasse magoada;Um perigo, não só para os outros como para ela própria.

Uma vez molhou sem querer o avental, e, para o secar, pôs-se diante da lareira. Como o avental não secasse depressa, ela chegou-se para mais perto do lume. Num instante; as roupas incendiaram-se-lhe. A velha governanta a muito custo conseguiu salvar-lhe a vida.

- Coitadinha! - comentaram os parentes. - Talvez fosse uma misericórdia, ela ter morrido.

Mas raiou um dia milagroso, em que uma professora veio ajudá-la a participar do mundo dos viventes.


II

Graças a Alexander Graham Bell, inventor do telefone, é que os pais de Helen se decidiram a contratar a «professora milagrosa» para a sua filha. Mr. Bell, que tinha sentimentos de afeição pelos «espécimes imperfeitos do barro humano», sugerira que Mr. Keller se dirigisse ao Perkins Institute para cegos, expondo o problema de Helen. Como resultado da carta de Mr. Keller, o director do Instituto recomendou Miss Anne Mansfield Sullivan como a professora conveniente para Helen, que tinha então seis anos.

Anne Sullivan, formada pelo Instituto Perkins, era um desses raros génios que surgem e florescem nos ambientes miseráveis. Seu pai era um beberrão sem préstimo algum, o irmão morrera de tuberculose, e ela própria estivera ameaçada de cegueira total até à idade de dezoito anos. Uma operação bem sucedida curara-a parcialmente. Aos vinte, quando se tornou professora de Helen, tinha readquirido suficientemente a vista, de modo que podia ler para a criança e introduzi-la num mundo novo.

Mas, como começar? Como transformar pensamentos em palavras, se a menina não possuía a concepção da linguagem humana? Anne Sullivan encontrou um meio. Na manhã seguinte à sua chegada, deu a Helen uma boneca, objecto com que ela estava muitíssimo familiarizada. Então, usando o alfabeto para cegos, vagarosamente soletrou com os dedos na mão de Helen a palavra b-o-n-e-c-a. A garota, fascinada, começou a imitar desajeitadamente os movimentos, b-o-n-e-c-a. Em seguida correu para a mãe e fez-lhe os mesmos sinais na mão.

«Nessa ocasião», escreve Miss Keller na "História da Minha Vida", «eu não sabia, que estava a soletrar uma palavra, nem mesmo que existiam palavras; estava simplesmente a imitar com os dedos».

Pouco a pouco, entretanto, Miss Sullivan conseguiu que ela percebesse terem aqueles movimentos uma significação. Indicavam uma coisa. Alguma coisa com que ela brincava. Alguma coisa pela qual ela tinha certa vez empurrado a irmãzinha para fora do berço. E havia outros movimentos que significavam outras coisas. C-ã-o queria dizer uma coisa com um focinho felpudo e que saltitava em redor da gente. C-o-p-o era uma coisa em que se deitava água para beber. C-h-a-p-é-u, uma coisa que se punha na cabeça quando a mãe levava a gente a passear. Que jogo maravilhoso! Que mundo maravilhoso! Como estava cheio de coisas e mais coisas! E tudo tinha um nome!

Helen aprendeu a seguir um novo grupo de palavras: mãe, pai, irmã. Havia anos que ela vivia com eles, e só agora sabia como se chamavam. E professora! O nome dessa agradável nova companheira! Venha, vamos continuar. É tão divertido! Ensine-me mais nomes, mais, mais. A sede de conhecimento da menina era insaciável, e Miss Sullivan satisfazia-a com uma solicitude e uma prodigalidade de recursos surpreendentes. Na Primavera, quando as margaridas e os rainúnculos abriram e os pássaros e esquilos acordaram para nova vida, a professora fez a sua aluna cega «aprofundar» os segredos da Natureza.

«Enquanto o meu conhecimento das coisas crescia, eu sentia cada vez mais a delicia do Mundo em que vivia.»

Depois, Miss Sullivan abriu para ela um novo mundo de delícias, o mundo dos livros. Ensinou a pequena a ler, utilizando tiras de cartolina nas quais algumas palavras estavam como gravadas em relevo. Novas coisas, novos nomes, novas ideias. Histórias. Poemas. Lindos pensamentos, lindas rimas.

Ela não podia ouvir essas rimas, mas podia sentir com os dedos a mesma espécie de letras nos fins das linhas. Como os contornos dos lindos enfeites no seu vestido domingueiro. Afinal de contas, se não podes ouvir nem ver as lindas coisas do Mundo, de um modo ou de outro consegues atingi-las. Como que sentes o caminho para elas.

Ora Anne Sullivan dissera-lhe que mesmo aqueles capazes de ver e ouvir devem sentir a relação que há entre eles e as coisas. A esperança, por exemplo, ou a alegria ou o amor.

- Considere o amor, Helen. Ninguém pode vê-lo, ou ouvi-lo, ou prová-lo, ou cheirá-lo, ou tocar-lhe. Mas nem por isso ele deixa de existir, na sua força, na sua beleza, na sua realidade. Como conhece-la? Senti-lo é justamente a maneira de conhecê-lo.

E assim, a alma de Helen abriu-se gradualmente, até que um dia - milagre dos milagres! - ela aprendeu a falar. O processo foi longo e laborioso e às vezes aparentemente sem esperança. O método, em resumo, era o seguinte: a professora pronunciava certos sons enquanto Helen lhe passava os dedos pela língua, pelos lábios e pela garganta. Depois, repetindo esses gestos em si própria, Helen procurava emitir sons imitando as posições em que os órgãos vocais de Miss Sullivan ficavam ao falar. Após malogros que pareciam infindáveis, a menina, que tinha a esse tempo dez anos, conseguiu afinal articular as letras do alfabeto. Chegou então o grande momento da sua vida, quando tartamudeou a sua primeira afirmação concatenada: «Está quente».

A barreira que se interpunha entre ela e o resto do mundo ruíra finalmente. Ela quase que era como as outras pessoas! A sua aprendizagem preliminar libertara-a da prisão do seu isolamento e desamparo. E agora estava em condições de entrar com as outras meninas na competição escolar de uma instrução mais adiantada.


III

Em 1896, em Massachusetts, acompanhada pela sua professora, Helen matriculou-se na Cambridge School, para raparigas, onde se preparou para entrar no Radcliffe College.  Miss Sullivan assistia às aulas com ela, tomava as necessárias notas e depois transmitia-as a Helen no sistema de linguagem para cegos. Os exames eram em casa, sob a supervisão da directora, que aprendera o «alfabeto manual» e soletrava as perguntas na mão de Helen. Esta respondia às perguntas numa maquina de escrever, por meio do sistema para cegos.

«Ela nunca acertará com isso», diziam as professoras no começo.

Mas acertou, e num tempo relativamente curto. Um ano depois do seu ingresso na Cambridge School, prestou exame preliminar de admissão para o Radcliffe, e passou com «distinção» em inglês e alemão. Dois anos depois passou nos exames finais e entrou no Radcliffe College, sempre acompanhada da sua «amada» Anne Sullivan. Juntamente com o resto dos estudantes, estava pronta para mergulhar no mundo desconhecido do saber.

«No mundo maravilhoso do Espírito, senti-me tão livre como se estivesse no outro mundo.»

Estudou Shakespeare com o professor Kittredge, e composição inglesa com o professor Copeland, «homens capazes de dar nova visão aos cegos». Foi Charles Townsend Copeland, a quem os alunos afectuosamente chamavam «Copey», quem lhe descobriu o talento de escritora.

«A senhora tem coisas muito suas a dizer, Miss Keller, e tem um modo particular de dizê-las.»

Sugeriu-lhe que desenvolvesse algumas das suas composições escolares, completando a história da sua vida: Ela seguiu a sugestão e deu ao Mundo um dos documentos humanos mais raros: a luta de uma alma, coarctada por enormes limitações, para penetrar num universo ilimitado. A cegueira, afirma ela, não é nada, nada é a surdez. Todos nós somos cegos e surdos às coisas eternas. Mas a Natureza é bondosa para  nós, na sua própria dureza. Favoreceu-nos, a nós, possuidores de cinco débeis sentidos, com um infinito sexto sentido, «um sentido que  vê, ouve, sente, tudo num só acto».

A "História da Minha Vida" foi publicada no Ladies Home Journal, e mais tarde em livro.

Nesse meio tempo, Helen Keller fora diplomada pelo Radcliffe. Com o dinheiro que recebeu pela venda do seu manuscrito, estabeleceu-se com Anne Sullivan numa granja, em Wremtham, Massachusetts, dedicando-se à meditação e a escrever. Um ambiente silencioso, calmo, porém emocionante. Passeios pelos bosques. Anne Sullivan esticara um fio de arame de árvore em árvore, de modo que Helen pudesse caminhar sozinha sem se perder. Excursões pelo lago, num bote a remos, com os amigos.

«É divertido passear de barco guiado pelo aroma dos lírios que crescem nas margens. Vogando de canoa ao luar, não posso, é verdade, ver a Lua par trás dos pinheiros, mas posso imaginar que sinto o reflexo da sua luz, quando arrasto a minha mão pela água.» Imaginando o Mundo como ele é verdadeiramente. «Já terá alguém conhecido o verdadeiro Mundo?»

Traduzindo as sensações da vista em sensações do tacto: «Muitas vezes senti as pétalas lançadas sobre mim pela brisa, assim pude imaginar o pôr do Sol como rosas cujas pétalas tivessem sido sacudidas e se espalhassem pelo céu.»

Mas de todas as experiências, a que lhe dava maior prazer era ler livros. Anne arranjou-lhe todos os clássicos impressos no  sistema Braille, e os sensíveis dedos de Helen estavam constantemente ocupados em «olhar» o íntimo dos mestres. Não havia de que se ter pena de Helen Keller, quando vivia na sua quinta de Wrentham, com Anne Sullivan a assisti-la e o Mundo inteiro a acompanhá-la.

Uma terceira pessoa, foi juntar-se a esse pequeno mundo cheio de beleza e emoção: John Macy, um dos professores ingleses de Helen no Radcliffe. Casou com Anne Sullivan e foi morar com elas, em Wrentham.

«Nao me é possivel enumerar os actos de bondade com que ele me auxiliou e me aplanou o caminho... Uma vez, achando-me cansada com o trabalho manual das minhas cópias, passou acordado uma noite inteira a dactilografar quarenta páginas do meu manuscrito, de maneira que puderam chegar ao prelo a tempo.»

Uma nova variante no velho triângulo de duas mulheres e um homem. Não um triângulo de paixão, ciúme e vingança, mas de fé, caridade e amor.


IV

Durante um curto período de êxtase primaveril, Helen Keller experimentou o que é o amor de uma mulher por um homem, Anne Sullivan e John Macy foram gozar umas pequenas férias, e um jovem veio servir-lhe de secretário. O amor zomba de todas as barreiras. O rapaz propõs-lhe casamento; e Helen aceitou.

«Por um breve espaço de tempo, dancei dentro e fora dos portões do Céu, envolvida por uma teia de esplêndidas imaginações.» Mas depressa acordou para a realidade. O amor físico, o casamento, as alegrias e as responsabilidades da maternidade, essas coisas não eram para ela. Devia contentar-se com aquele seu mundo particular, cercada dos seus sonhos e dos seus livros.

E os amigos. A poucos terá sido dado possuir tantas e tão constantes amizades como eram as de Helen Keller. Entre aqueles quelhe dedicavam verdadeira afeições - para mencionar só alguns - estavam os filantropos H. H. Rogers, Andrew Carnegie e Otto Kahn, que a ajudaram a vencer muitas dificuldades, quando o dinheiro dela escasseava; Mark Twain, que a brincar lhe dizia que ela enxergava melhor do que muita gente («o Mundo, Helen, está cheio de olhos que não vêem, olhos parados, espantados, insensíveis»); Frank Doubleday, seu editor, «cuja bondade para comigo tem sido a bondade não apenas de um amigo, mas de um pai»; Eugene Debs, «esse esquecido S. Francisco do século XX»; e Alexander Graham Bell, acerca do qual, por ocasião da sua morte, ela escreveu:

«Ainda que a vida já não parecesse a mesma desde que soubemos que o dr. Bell tinha morrido, a obscuridade das lágrimas resplandece com a parte dele que continua a viver em mim.»

A morte dos amigos entristecia-a profundamente. Mas continuava no seu trabatlo de ensinar a cegos e sãos. Viajou pelo país, a pronunciar conferências - aprendera a falar com suficiente clareza - e em toda a parte foi aclamada como um milagroso capricho da Natureza. Divertia-se com o que os jornais publicavam a seu respeito.

«Pela primeira vez fiquei sabendo que nasci cega, surda e muda que me eduquei por mim mesmo, que consegui distinguir as cores, ouvir telefonemas... que nunca fui triste, nem desanimada, nem pessimista, que me esforcei com celeste energia para ser feliz... Nós fornecemos aos jornais os factos pelos quais nos perguntam, mas nunca sabemos o que é feito desses factos.»

0 que o público distraído foi incapaz de perceber a respeito de Helen Keller foi apenas isto: que ela é um ser humano com talvez algo mais do que o seu quinhão do aflição mortal e certamente com algo mais do que o seu quinhão de génio imortal. O destino tinha-a feito ver menos, mas enxergar mais do que o normal.

A sua «visão» facultava-lhe a percepção do futuro da Humanidade. Ela acreditava que a salvação dos homens viria de um aplicação inteligente do socialismo: alimentos para os famintos, habitações para os desabrigados, educação para os ignorantes, paz entre as nações, e justiça para todas.

«Existe hoje no Mundo excesso de irreflexão e carência de alegria.» Se os ambiciosos ricos fossem capazes de pensar melhor, os necessitados estariam em condições de viver melhor.

Ao meditar sabre o Progresso humano, dizia ela, não tinha demasiadas esperanças nem excessivos desalentos.

«Como o poeta Henry van Dyke», escreveu ela, «não sou uma optimista: há mal em excesso no Mundo e em mim. Tão pouco sou uma pessimista; há bem de sobra no Mundo e em Deus. Sou, assim, uma melhorista, acreditando que Ele quer fazer o Mundo melhor, e procuro dar a minha parte de ajuda, desejando que ela fosse melhor.»

Tal como um relógio-de-sol, que só marca as horas quando faz bom tempo  - «só recordo as horas claras da vida» - ela vivia no seu lindo mundo, a procurar, na parte que lhe dizia respeito, ajudá-lo a tornar-se mais lindo. E quando as sombras se lhe atravessavam no caminho, ela enxugava as lágrimas e esperava pacientemente pelo próximo dia de luz.

Uma das mais escuras sombras da sua vida baixou sobre ela quando Anne Sullivan morreu (1936). Foi como se um pedaço da sua própria alma tivesse morrido.

«Suponho», declara o dr. Richard C. Cabot, «que tão extraordinária união de duas almas nunca existirá sabre a Terra.»

Por algum tempo, Helen Keller ficou como que perdida. Mas afinal repeliu a sua desolação e, com o auxílio da sua nova secretária, Miss Polly Thompson, continuou a trabalhar. Continuou a interpretar com a sua sensível inteligência o Mundo que «via» com os seus dedos sensíveis. E como ela conseguia «ver» tão perfeitamente com esses dedos!

Um dia, visitou o estúdio da escultora Malvina Hoffman. Entre as estátuas que examinou, achava-se a de um homem. Ela tacteou as dobras do manto, o cordão que lhe rodeava a cintura, as sandálias dos pés. «Um monge», exclamou ela. Prosseguiu no seu exame e, sempre pelo tacto, notou que um lobo tinha a cabeça encostada ao homem, que um coelho lhe descansava nos braços e que um passarinho estava aninhado no seu capuz. Deslizou os dedos pelo rosto do homem. Estava erguido para o Céu. «Ele ama a Deus e é amigo dos animais», disse ela. E em seguida: - Já sei! É S. Francisco! Como S. Francisco de Assis, Helen Keller estava convencida de que o fim da estrada para o qual se dirigia tão pacientemente às apalpadelas era apenas o começo de uma estrada mais linda.

Helen Keller, em virtude da deficiência dos seus sentidos, gozou a emoção de procurar a porta de saída das trevas, não somente para si mas para o resto da Humanidade. Mesmo cega, ela foi guia tanto de cegos como de alguns que tinham vista.


Fonte: Excertos de "Vidas de Grandes Mulheres"
Edições Livros do Brasil - Colecção Vidas Célebres

in Associação de Surdos do Porto


Publicado por MJA [6 Nov 07]


 

 

Três dias para ver

Helen Keller
 

Várias vezes pensei que seria uma bênção se todo o ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias no princípio da vida adulta. As trevas o fariam apreciar mais a visão e o silêncio lhe ensinaria as alegrias do som.

De vez em quando, testo meus amigos que enxergam para descobrir o que eles vêem. Há pouco tempo perguntei a uma amiga que voltava de um longo passeio pelo bosque o que ela observara. “Nada de especial”  foi à resposta.

Como é possível, pensei, caminhar durante uma hora pelos bosques e não ver nada digno de nota? Eu, que não posso ver, apenas pelo tacto encontro centenas de objectos que me interessam. Sinto a delicada simetria de uma folha. Passo as mãos pela casca lisa de uma bétula ou pelo tronco áspero de um pinheiro. Na primavera, toco os galhos das árvores na esperança de encontrar um botão, o primeiro sinal da natureza despertando após o sono do inverno. Por vezes, quando tenho muita sorte, pouso suavemente a mão numa arvorezinha e sinto o palpitar feliz de um pássaro cantando.

Às vezes, meu coração anseia por ver tudo isso. Se consigo ter tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela visão! E imaginei o que mais gostaria de ver se pudesse enxergar, digamos por apenas três dias.

Eu dividiria esse período em três partes. No primeiro dia gostaria de ver as pessoas cuja bondade e companhia fizeram minha vida valer a pena. Não sei o que é olhar dentro do coração de um amigo pelas “janelas da alma”, os olhos. Só consigo “ver” as linhas de um rosto por meio das pontas dos dedos. Posso perceber o riso, a tristeza e muitas outras emoções. Conheço meus amigos pelo que toco em seus rostos. Como deve ser mais fácil e muito mais satisfatório para você, que pode ver, perceber num instante as qualidades essenciais de outra pessoa ao observar as subtilezas de sua expressão, o tremor de um músculo, a agitação das mãos.  

.........Mas será que já lhe ocorreu usar a visão para perscrutar a natureza íntima de um amigo?

.........Será que a maioria de vocês que enxergam não se limita a ver por alto as feições externas de uma fisionomia e se dar por satisfeita?

.........Por exemplo, você seria capaz de descrever com precisão o rosto de cinco bons amigos?

.........Como  experiência,  perguntei  a  alguns  maridos  qual  a  exacta  cor  dos  olhos de  suas  mulheres e muitos deles  confessaram, encabulados, que não sabiam.

O primeiro dia seria muito ocupado. Eu reuniria todos os meus amigos queridos e olharia seus rostos por muito tempo, imprimindo em minha mente as provas exteriores da beleza que existe dentro deles. Também fixaria os olhos no rosto de um bebé, para poder ter a visão da beleza ansiosa e inocente que precede a consciência individual dos conflitos que a vida apresenta. Gostaria de ver os livros que já foram lidos para mim e que me revelaram os meandros mais profundos da vida humana. E gostaria de olhar nos olhos fiéis e confiantes de meus cães, o pequeno scot terrier e o vigoroso dinamarquês. À tarde daria um longo passeio pela floresta, intoxicando meus olhos com belezas da natureza. E rezaria pela glória de um pôr-do-sol colorido. Creio que nessa noite não conseguiria dormir.

No dia seguinte eu me levantaria ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em dia. Contemplaria assombrado o magnífico panorama de luz com que o Sol desperta a Terra adormecida. Esse dia eu dedicaria a uma breve visão do mundo, passado e presente. Como gostaria de ver o desfile do progresso do homem, visitaria os museus. Ali, meus olhos  veriam a história condensada da Terra -- os animais e as raças dos homens em seu ambiente natural; gigantescas carcaças de dinossauros e mastodontes que vagavam pelo planeta antes da chegada do homem, que, com sua baixa estatura e seu cérebro poderoso, dominaria o reino animal.

Minha parada seguinte seria o Museu de Artes. Conheço bem, pelas minhas mãos, os deuses e as deusas esculpidos da antiga terra do Nilo. Já senti pelo tacto as cópias dos frisos do Parténon e a beleza rítmica do ataque dos guerreiros atenienses. As feições nodosas e barbadas de Homero me são caras, pois também ele conheceu a cegueira.

Assim, nesse meu segundo dia, tentaria sondar a alma do homem por meio de sua arte. Veria, então, o que conheci pelo tacto. Mais maravilhoso ainda, todo o magnífico mundo da pintura me seria apresentado. Mas eu poderia ter apenas uma impressão superficial. Dizem os pintores que, para se apreciar a arte, real e profundamente, é preciso educar o olhar. É preciso, pela experiência, avaliar o mérito das linhas, da composição, da forma e da cor. Se eu tivesse a visão, ficaria muito feliz por me entregar a um estudo tão fascinante.

À noite de meu segundo dia seria passada no teatro ou no cinema. Como gostaria de ver a figura fascinante de Hamlet ou o tempestuoso Falstaff no colorido cenário isabelino! Não posso desfrutar da beleza do movimento rítmico senão numa esfera restrita ao toque de minhas mãos. Só posso imaginar vagamente a graça de uma bailarina, como Pavlova, embora conheça algo do prazer do ritmo, pois muitas vezes sinto o compasso da música vibrando através do piso.

Imagino que o movimento cadenciado seja um dos espectáculos mais agradáveis do mundo. Entendi algo sobre isso, deslizando os dedos pelas linhas de um mármore esculpido; se essa graça estática pode ser tão encantadora, deve ser mesmo muito mais forte a emoção de ver a graça em movimento.

Na manhã seguinte, ávida por conhecer novos deleites, novas revelações de beleza, mais uma vez receberia a aurora. Hoje, o terceiro dia, passarei no mundo do trabalho, nos ambientes dos homens que tratam do negócio da vida. A cidade é o meu destino.

Primeiro, paro numa esquina movimentada, apenas olhando para as pessoas, tentando, por sua aparência, entender algo sobre seu dia-a-dia. Vejo sorrisos e fico feliz. Vejo uma séria determinação e me orgulho. Vejo o sofrimento e me compadeço.

Caminhando pela 5.ª Avenida, em Nova York, deixo meu olhar vagar, sem se fixar em nenhum objecto em especial, vendo apenas um caleidoscópio fervilhando de cores. Tenho certeza de que o colorido dos vestidos das mulheres movendo-se na multidão deve ser uma cena espectacular, da qual eu nunca me cansaria. Mas, talvez, se pudesse enxergar, eu fosse como a maioria das mulheres – interessadas demais na moda para dar atenção ao esplendor das cores em meio à massa.

Da 5ª Avenida dou um giro pela cidade – vou aos bairros pobres, às fábricas, aos parques onde as crianças brincam. Viajo pelo mundo visitando os bairros estrangeiros. E meus olhos estão sempre bem abertos tanto para as cenas de felicidade quanto para as de tristeza, de modo que eu possa descobrir como as pessoas vivem e trabalham, e compreendê-las melhor.

Meu terceiro dia de visão está chegando ao fim. Talvez haja muitas actividades a que devesse dedicar as poucas horas restantes, mas aço que na noite desse último dia vou voltar depressa a um teatro e ver uma peça cómica, para poder apreciar as implicações da comédia no espírito humano.

À meia-noite, uma escuridão permanente outra vez se cerraria sobre mim. Claro, nesses três curtos dias eu não teria visto tudo que queria ver. Só quando as trevas descessem de novo é que me daria conta do quanto eu deixei de apreciar.

Talvez este resumo não se adapte ao programa que você faria se soubesse que estava prestes a perder a visão. Mas sei que, se encarasse esse destino, usaria seus olhos como nunca usara antes. Tudo quanto visse lhe pareceria novo. Seus olhos tocariam e abraçariam cada objecto que surgisse em seu campo visual. Então, finalmente, você veria de verdade, e um novo mundo de beleza se abriria para você.

Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão àqueles que vêem: usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. E o mesmo se aplica aos outros sentidos. Ouçam a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objecto como se amanhã perdessem o tacto. Sintam o perfume das flores, sintam o sabor de cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos. Usem ao máximo todos os sentidos; gozem de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contacto fornecidos pela natureza. Mas, de todos os sentidos, estou certa de que a visão deve ser o mais delicioso.

“Three Days to See” foi escrito por Helen Keller em 1933 para o Atlantic Monthly Magazine
Fonte: Reader’s Digest
http://www.alfa.br/revista/artigo07.php


Publicado por MJA
[6 Nov 07]