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 Sobre a Deficiência Visual


Glauco Mattoso:

Conto "O Podomante", Entrevista e Sonetos

Glauco Mattoso

O Polvo - Graham Sutherland, 1978-9

 


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O PODOMANTE

2007

O pai de Danilo era kardecista teórico; a mãe, católica lá não muito praticante. Do pai, Danilo herdara hipotéticas noções de missão que, em vez de cumprida, será comprida; da mãe, hipócritas noções em torno da outra face oferecida à bofetada e da mão esquerda que não precisa saber o que a direita dá — noções que, trocadas em miúdos, equivalem a esperar a hora de dar o troco e a esperar o troco do que foi dado. De herança material, ali no duro, Danilo só recebera, em lugar de hipóteses e hipocrisias, uma hipertensão ocular, mal hereditário que, segundo os hipocráticos, podia levá-lo à cegueira, tão precocemente quanto fora levado à orfandade.

Como todo revoltado, Danilo era impaciente; como paciente, porém, não foi rebelde: retornava ao consultório na data marcada, pingava os colírios na contagem de gotas indicada e, quando a tonometria comprovou a ineficácia dos colírios, submeteu-se à cirurgia, cujos resultados nunca eram garantidos, mas, para a suposta sorte do rapaz, bastariam para controlar-lhe a pressão do humor aquoso.

Na casa dos tios que o sustentaram até a maioridade, não tinha Danilo com quem brincar; na escola e na rua, franzino, tinha medo de ferir os olhos buftálmicos e, ressabiado, evitava as brincadeiras da molecada. Só na faculdade de direito chegou a fazer amizade com um colega, mas, em compensação, a amizade se estreitou quase tanto quanto seu ângulo de visão. Vladimir e ele olhavam-se com ternura mas tratavam-se com, digamos, socrático platonismo. Formados, foram trabalhar no mesmo escritório de advocacia, onde o grandalhão Vladimir conheceu a graciosa Rute como cliente e logo a apresentou ao amigo como namorada.

Aproximaram-se os três; convivência trouxe intimidade. Liam os mesmos livros, saíam juntos para jantar ou para o cinema. Danilo ensinou-os a brincar de fazer perguntas ao "Livro do Destino" de Hermes Trismegisto, aprendeu com eles a jogar tarô, e passavam horas especulando o futuro e mascarando o passado.

Rute não estranhou a amizade dos dois. Ao invés de alimentar ciúmes, comovia-se com a deficiência visual de Danilo. Era sua enfermeira moral, e, quando o rapaz voltou do consultório, mais desanimado que de hábito, fez-lhe cafuné até que desabafasse tudo e esmiuçasse o resultado da consulta: a cirurgia tinha perdido o efeito e a pressão voltava a subir perigosamente. Vladimir também teve vontade de fazer-lhe cafuné, mas limitou-se ao abraço apertado, testa contra testa.

A indicação médica era para uma nova tentativa cirúrgica, a trabeculectomia, com técnica mais avançada, mas Danilo já não queria acreditar na medicina. A decepção com a ciência se sobrepunha à descrença nas hipocrisias e hipóteses religiosas, tudo passível das mesmas dúvidas e negações... e o rapaz parecia entregue ao destino implacável. Foi quando Rute se lembrou do astro-reflexólogo.

— Astro-reflexólogo? Que diabo é isso?

— Não sei se é coisa do diabo ou se é divina. Sei que funciona, porque já funcionou comigo. O cara estuda a sola do seu pé, descobre nela os pontos que têm relação com seu problema, e faz um prognóstico.

— Ah, não passa dum vidente! Em vez de ler a mão, lê o pé! Ah, Rutinha, acha que eu vou atrás desses charlatanismos? Se até dos oculistas estou duvidando...

Rute pegou-lhe nas mãos e olhou-o nos olhos, fixamente:

— Mas ele previu que eu casaria com o Vlado, quando nós ainda nem estávamos saindo... De quebra, até sarei da insônia, só com aquela massagem de hipnotizar... Vá por mim, Dani! Você não tem nada a perder: ele não vai curar seu olho mexendo no seu pé, vai só dizer se dessa vez a operação pode dar certo...

Danilo achava-se diante do inexorável véu opaco da cegueira. Pensava no inexplicável de tantas coisas... na voz do pai repetindo-lhe uma porção de "lindos casos", na da mãe fingindo devoção mas traduzindo desilusão... No desespero, o rapaz se agarrou à inesperada hipótese.

Havia já descartado a acupuntura, a homeopatia e a fitoterapia, face à falta de perspectivas a curto prazo. Uma visita avulsa ao tal astro-reflexólogo não iria fazer diferença, mas podia fazer alguma diferença. Na dúvida, foi.

Voltou impressionado. Na saleta mal-iluminada, a atmosfera despojada antes aumentava que afetava o magnetismo de quem ali atendia. A uma ligeira pressão do polegar em seu pulso, o terapeuta sentiu-lhe na circulação a origem de suas preocupações. Levando imediatamente a mão aos olhos do rapaz, apalpou-lhe as pálpebras cerradas e no ato diagnosticou os ceratocônicos efeitos do líquido acumulado na câmara anterior do globo. Depois mostrou, tateando-lhe a planta, a posição correspondente aos olhos no vão entre o segundo e o terceiro artelho de cada pé. Nesse ponto os dedos do especialista concentraram a massagem, e, finda a sessão, Danilo saiu tão relaxado que até parecia sentir na córnea o alívio experimentado na sola, cujas linhas foram mapeadas de modo a nortear a difícil decisão: operaria de novo. Correria o risco da fatal hemorragia pós-operatória, já que a leitura podoscópica lhe garantia que, passada a crise, a pressão estaria definitivamente controlada. Pelo menos o reflexólogo, sem sorrir, fora objetivo: "Vá sossegado. Não se desespere, porque tudo tem remédio. Sua pressão ocular nunca mais vai subir. Acredite, você ainda vai enxergar melhor que eu..." E tocou-lhe na testa com o dedo indicador.

— Incrível! Ele nem me perguntou nada! Tomou meu pulso e foi direto no olho! Mexeu no meu pé e me deixou dopado!

— Não falei?

Rute falou com entusiasmo tão triunfal que Danilo chegou a rir dos seus receios e deixou de lado as últimas hesitações, revigorado por aquela fé nova e vivaz. Na véspera da internação, sonhou que estava na praia, a contemplar o mar que se abraçava ao céu num único tom de azul, profundo e infinito. Teve assim uma sensação do futuro, um futuro longo, longo, interminável. Já na maca, a caminho da anestesia geral, apertou a mão de Vladimir e puxou-o para perto. Testa contra testa, cochichou ao amigo que, acontecesse o que havia de acontecer, Rute continuaria sem saber de nada entre os dois. Vladimir tranqüilizou-o, e a maca entrou no elevador. Na recepção do hospital, Vladimir avistou Rute, que chegava atrasada:

— A rua tava atravancada com um caminhão tombado, o táxi fez uma volta ainda maior! Ele já entrou na sala? Ah, Vlado, que pena! Não deu tempo de dar um beijinho de boa sorte...

Um supersticioso poderia atribuir à falta do beijinho, um reflexólogo à falta de continuidade no tratamento, um oftalmologista à súbita queda na tensão intra-ocular, mas o fato é que o sangramento ocorreu ainda na mesa. Danilo deixou o hospital praticamente cego, visto que a fracassada intervenção sacrificara justamente o olho menos comprometido, na tentativa de salvá-lo do estrago irreversível verificado no outro olho.

— E agora, Vlado? Ele não pode continuar morando sozinho!

— Cê tá sugerindo que ele fique morando aqui?

— Ué, por que não? Ele já passa aqui a maior parte do tempo! Agora é que ele mais necessita da gente! Ah, Vlado, ele tem que vir, já, já, pra nossa casa! Você precisa falar com ele, urgente!

Se a própria Rute não se opunha, o leitor suporá que Vladimir estava à vontade quando convenceu Danilo a mudar-se para o apartamento do casal.

Mas a verdade é que o desconforto de Danilo, todo tolhido nos movimentos e recolhido à mudez dos desgraçados, causava em Vladimir uma incômoda sensação de repulsa. Mais ou menos como o espelho partido, que já não nos atrai o olhar e precisava ser removido, mas que continua ali, reclamando atenção. Por ironia, a biblioteca doméstica deu lugar ao quarto do cego. Foi uma fase traumática, mas a cicatrização psicológica demorou só um pouquinho mais que a recuperação física do paciente. Ao fazer aniversário, ele ganhou de Vladimir um cartão sonoro e, de Rute, uma bengala importada. Já meio anestesiado pelo ceticismo que voltava a tomar conta de sua mente, Danilo reagia à tragédia com uma frieza admirável, que Rute alardeava no escritório como sendo firmeza de caráter:

— Tá vendo? Ele não se deixa abater! Desde que o Vlado me apresentou esse menino, eu vi que ali tava um cara de fibra!

Dois séculos atrás, quando Louis Braille inventava seu alfabeto rudimentar, a vida cultural de qualquer cego nada tinha de estimulante, exceto para algum gênio da literatura, que seria considerado um prodígio da força de vontade. Naquela época, quem se privasse da visão só podia contar com o tato. Hoje, o computador falante substitui a visão pela audição e mantém a relevância do tato na digitação, de modo que o deficiente pode exercer atividades profissionais antes quase inviáveis, como a advocacia. Assim é o cego, assim são as coisas que o cercam: remediando o que não tem remédio, caçando com gatos; tirando o máximo do mínimo; trocando o sensual pelo sentimental, o sensorial pelo sensitivo.

Não tardaria para que o sapato se acomodasse ao pé.

Vê-se, pois, que, enquanto não retornava, gradativamente, ao teclado e aos trâmites burocráticos do ofício, Danilo passou por um penoso período de adaptação. Foi então que Rute se lembrou do astro-reflexólogo. Danilo já ia rechaçando a idéia com um gesto incrédulo e ríspido, quando ela explicou:

— Não, Dani, você não entendeu! Não é pra ser paciente dele: é pra você ser colega dele!

— Ora essa, Rutinha! O cara falhou na previsão comigo, e você quer que eu seja outro charlatão?

— Ele não falhou: ele previu que sua pressão ia se estabilizar. Depois que seu olho murchou, a pressão baixou, não baixou? Então, Dani! Ele não tinha falado nada a respeito de cegueira, tinha? É que nem aqueles oráculos antigos, a gente tem que saber interpretar a mensagem que eles passam... Aí é que tá o mistério: eles adivinham o que a gente faz, e a gente adivinha o que eles falam...

Rute costumava ser tão espontânea, tão bem-intencionada, que o rapaz não fez caso do humor negro implícito naquele jogo de mal-entendidos. Ainda assim, relutava em admitir qualquer propósito na idéia que ela levantava:

— Mas o que é que eu vou fazer com esse tipo de conhecimento? Não tenho vocação pra oráculo. Não preciso disso...

— Ah, Dani, não seja negativista! Todo cego tem um dom, só precisa desenvolver. Você pode praticar no meu pé, no pé do Vlado... Aposto que vai ter mais clarividência que os colegas. Além do mais, isso vai ajudar no seu auto-conhecimento, melhorar sua disposição pra encarar a vida...

Vá por mim, Dani: o melhor podomante é você mesmo!

E ela se empolgava com as próprias sugestões, demonstrando, com uma lógica irrefutável, como a habilidade tátil do cego condiz com a sensibilidade do massoterapeuta, e esta com a percepção extra-sensorial do podomante. Tão persuasivo foi o arrazoado da oradora, que uma luz lampejou no fundo do olho de Danilo, mais cintilante que os escotomas a que estava acostumado desde criança: um curso de podomancia holística podia não ser tão decisivo a ponto de fazê-lo mudar de ramo, mas certamente lhe abriria uma insuspeitada brecha para... quem sabe... "tatear o marido", nas palavras de Machado, ou, por outra, reaproximá-lo corporalmente de Vladimir, a quem espiritualmente se achava ligado desde sempre.

Não. Quem gosta de dramalhões fatais até acertaria quando detectasse no pensamento de Vladimir alguma idéia suicida, caso lhe chegasse às mãos uma carta anônima, acusando-o do relacionamento que, em outro século, não ousaria dizer seu nome, envolvendo sua amizade com Danilo. Ou então alguém mais policialesco detectaria na mente de Rute alguma idéia homicida, caso fosse ela a destinatária da intrigante carta. Neste caso nada disso ocorreu: apenas ficou mais patente o caráter não tão nobre de Vladimir, que, já decidido a virar a página homoerótica, não via naquele inferiorizado ceguinho alguém capaz de desestabilizar sua relação com Rute. Agora é ele quem desejava obter de Danilo um juramento de sigilo, porém desta vez já não seria um juramento cochichado, como antes, testa contra testa. No máximo, durante uma sessão de reflexologia, dedos contra artelhos. E tais sessões só teriam lugar, a partir de então, à vista dela.

Assim se explica que, ao ser massageado nas solas, Vladimir estivesse, passado algum tempo, inteiramente à vontade na presença de Rute, que sempre aguardava ansiosa a vez de também ter seus pés manipulados pelo aprendiz de fetichista. Nesses momentos, o marido não perdia a ocasião de mostrar-se um tanto cruel. Mal Danilo trocava sua chata chulapa pelo arqueado pezinho feminino, comentava em tom descontraído:

— Hem, Danilo, é bem mais fácil trabalhar no pé da Rutinha, né? Aposto que você já decifrou, no meu e no dela, como ela me ama e como é correspondida, né?

— Mais no meu que no dele, né, Dani?

Rute brincava, mas Danilo, sem interromper a massagem, sorria amarelo, pensativamente, talvez perguntando consigo qual papel caberia melhor à mulher: se ela participaria da crueldade do marido, ou se era a inocente de sempre ao gracejar. Para isso a reflexologia não tinha resposta, nem a podomancia.

Vladimir, Danilo e Rute: três nomes, uma aventura, e duas explicações, a intuitiva e a ingênua, mas nenhuma convincente. Candura esconderia astúcia? Cada vez mais cismado, porém resignado em sua solidão visual, Danilo não deixava transparecer o que concluía e o que assimilava daquela experiência, nem até que ponto cumpria a profecia do calejado colega, quando este predissera que o rapaz enxergaria melhor que ele...

De prático, mesmo, o que Danilo demonstrava era a facilidade de imprimir aquele sentido sibilino às respostas, quando consultado. Se o consulente era Vladimir, respondia:

— Esta linha da sua sola me diz que a Rutinha sabe que você sente ainda mais amor por ela agora do que antes...

Vladimir gargalhava satisfeito e, quando a consulente era Rute, o oráculo respondia:

— Seu dedão me parece cada vez mais curto que o vizinho. Isso está me indicando que você manda no coração do Vlado...

— E no seu, Dani, qual de nós dois manda mais?

Ao esportivo desafio da amiga e confidente, Danilo tinha a réplica na ponta da língua:

— Você, Rutinha. O dedão do Vlado é maior, mas não mata nem piolho! O seu mata e mostra o pau...

E os três caem numa risada cúmplice que, para os kardecistas, seria sem malícia e, para os católicos, maliciosa.


NOTA:
Originalmente publicado na antologia "Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte" (2008, organizada por Rinaldo de Fernandes), glosando o conto machadiano "A cartomante".

 

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Entrevista concedida por Glauco Mattoso a Jean Vinicius Abreu, editor do sítio VISÃO GERAL - dedicado aos portadores de glaucoma -, matéria publicada em 2004.


[1] Qual seu tipo de glaucoma? Como foi o desenvolvimento da doença e o tratamento?

GLAUCO MATTOSO: Como vocês perceberam, meu pseudônimo literário é um trocadilho com o portador de glaucoma (glaucomatoso), e foi escolhido justamente porque sou glaucomatoso de nascença, ou seja, antes mesmo de ser batizado como Pedro-José. Não acompanho a evolução da nomenclatura oftalmológica, mas meu glaucoma congênito era caracterizado pelo tamanho grande do olho logo ao nascer, anomalia chamada na época de "buftalmo".

Meu olho direito era maior e mais duro que o esquerdo, e bem cedo notei que enxergava menos com ele, enquanto o esquerdo tinha visão praticamente normal. Já na idade escolar fui notando que ambos eram míopes, o direito em maior grau. Ainda no primário comecei a usar óculos e aos oito anos fui operado pela primeira vez, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Mais tarde meus pais foram aconselhados a procurar tratamento no Instituto Penido Burnier, em Campinas, que então era um centro de referência. Os médicos não quiseram tentar nova operação até que eu estivesse adulto, e fui sendo tratado com um colírio de pilocarpina e comprimidos diuréticos. Aos dezoito anos comecei a perder o olho direito, cujo volume foi aumentando junto com a miopia. Operei-o aos vinte e um anos, com o professor da USP Celso Antônio de Carvalho, mas houve perda total na própria mesa de cirurgia. Desde então fiquei caolho, com a miopia progredindo proporcionalmente à pressão ocular do esquerdo. Cheguei a usar óculos com mais de dez graus, e mesmo depois de outra intervenção (com o Dr. Hilton Rocha, famoso cirurgião mineiro), a pressão continuava subindo. Aos trinta anos fui novamente operado, desta vez pelo médico paulista John Helal Jr., discípulo de Celso Carvalho, e a pressão se estabilizou por alguns anos. Aos quarenta o Dr. John operou-me a catarata e implantou uma lente de grau, que diminuiu as grossas lentes dos óculos, mas a pressão voltou a subir. Nova operação aos quarenta e dois anos, mas àquela altura as cirurgias indicadas (trabeculotomia, trabeculectomia) já não davam resultado. Dois anos depois ainda tentei nova operação, com um médico do hospital Albert Einstein, mas a hemorragia pôs definitivamente a perder minha visão já muito fraca. No olho direito, o mais afetado, a pressão atingiu picos superiores a sessenta pontos, enquanto a do esquerdo, nos momentos mais críticos, passou de cinqüenta. Mesmo depois da perda total tive que continuar usando colírios, e atualmente a pressão do esquerdo se mantém em torno dos vinte pontos, graças ao colírio Xalatan, que substituiu todos os outros colírios e comprimidos, mas que não evitou a cegueira, já que meu campo visual estava muito reduzido pelos escotomas e pelos descolamentos internos, sangramentos, inflamações, etc. Pode-se dizer que a medicina não tem solução para casos como o meu, apenas consegue adiar a cegueira.


[2] Como era sua visão e como é hoje? Como tem sido sua adaptação?

GLAUCO MATTOSO: Hoje não enxergo nada, nem mesmo as sombras e claridades que conseguia distinguir antes da última cirurgia, mas até os quarenta pude ler e escrever o suficiente para estudar, me formar (cursei biblioteconomia e letras), trabalhar (fui funcionário do Banco do Brasil) e desenvolver minha carreira literária (tenho mais de vinte livros publicados), entre outras atividades. Minha visão nunca foi normal, sequer na infância, pois só conseguia ver de longe pelo olho esquerdo. O direito era tão míope que só servia para ler bem de perto.

Isso não impediu que eu me dedicasse às artes visuais, como a poesia concreta e os quadrinhos (não me confundam com o cartunista Glauco, criador do Geraldão), antes pelo contrário: impedido de brincar como os outros meninos, que praticavam esportes, andavam de bicicleta e dançavam nos bailinhos, tornei-me mais estudioso e amante das letras. Com o agravamento da moléstia, tive que abrir mão da leitura até que, já cego, passei a me dedicar à produção de CDs de rock alternativo (associado a um selo independente), mas no finalzinho do século apareceu um sistema de computação sonora chamado Dos Vox (desenvolvido pela UFRJ para a língua portuguesa), que "fala" o que vai sendo digitado ou "lê em voz alta" o que já vem escrito, possibilitando-me o retorno à poesia e à publicação de livros, bem como abrindo-me as portas da comunicação internáutica. Já no dia-a-dia a coisa é mais difícil e sofrida, pois não consigo me adaptar à cegueira nos atos mais práticos, e dependo de ajuda dentro ou fora de casa. Outro problema é o despreparo e a discriminação das pessoas em relação ao deficiente visual, o que me acarreta o sofrimento adicional de suportar maus tratos. A única compensação que consigo tirar é a fantasia masoquista, que se realiza através da minha obra, na qual me sujeito às piores humilhações e desabafo minha revolta contra as injustiças (humanas e divinas) de que me julgo vítima.


[3] Fale de sua formação e de seu trabalho no banco.

GLAUCO MATTOSO: No banco o serviço era burocrático e rotineiro, mas quando me formei bibliotecário tive oportunidade de trabalhar no Centro Cultural do Banco do Brasil (que então era um departamento englobando a biblioteca e o museu de numismática, no Rio) e saí da casa dos pais, em São Paulo, para passar uns anos na Cidade Maravilhosa, onde incrementei a vida literária. De volta a Sampa, continuei no banco, mas caí de novo na rotina dos formulários, das contas e dos carimbos, até ser aposentado por invalidez. Não fiquei no Rio porque aqui estou mais perto da família e das raízes culturais. Pensei várias vezes em me mudar para outro país, mas a precariedade do meu estado clínico não me animou a sobreviver longe da aposentadoria e da assistência médica a que tenho direito, e assim me conformei com a condição de ex-bancário e ex-bibliotecário, lembrando que a literatura não sustenta ninguém nesta terra.


[4] Fale de seus trabalhos como escritor e da relação de sua obra com o glaucoma.

GLAUCO MATTOSO: Desde adolescente eu escrevia bastante, inventava uns contos malucos, mas a poesia eu comecei a praticar nos anos 70, paralelamente àquela geração dos "poetas marginais", só que meus primeiros poemas já descreviam as sensações de quem sofre de glaucoma, daí meu pseudônimo. No final deste texto dou dois exemplos daqueles primeiros poemas, aludindo a alguns sintomas mais perceptíveis, tais como o arco-íris circular que surge em torno de lâmpadas acesas e outros focos luminosos, as manchas cegas que surgem em vários pontos do campo visual (chamadas de escotomas), as "estrelinhas" que pipocam a qualquer momento, dependendo do movimento ou do esforço físico que a gente fizesse, e assim por diante. Outras impressões mais graves, como a perda progressiva das cores (o vermelho e o verde foram as primeiras a dar lugar a um cinza pálido), típicas da fase terminal da capacidade visual, foram descritas nos sonetos dos quais dou uma amostra logo abaixo.


[5] Lembra de outras dificuldades e problemas decorrentes do glaucoma?

GLAUCO MATTOSO: São inúmeros os complicadores para quem sofre deste mal.

Contra-indicações de remédios, alimentos e bebidas a evitar, esforços físicos... sem falar na miopia, que nunca estacionava, da dor de cabeça causada pela pilocarpina e por outros colírios, da angústia e da paranóia diante da perspectiva de ficar cego não se sabe quando... Mesmo depois da perda total o glaucoma não pára de incomodar. Se a pressão do olho cego deixar de ser controlada com medicamentos, a dor pode ficar insuportável. No caso do olho direito (o que foi inutilizado há mais tempo), demorou para que ele perdesse a rigidez de pedra e começasse a murchar, e até nesse processo de encolhimento passei por muitos sangramentos, pontadas, pruridos e corrimentos. Enfim, a agonia tem sido longa e constante. Claro que nem todos os glaucomas são graves e fatais como o meu, mas quem puder se prevenir que se previna.


[6] Encerre com o que mais quizer acrescentar.

GLAUCO MATTOSO: Apenas o consolo de saber que nós, os glaucomatosos, estamos, como os cegos, em boa companhia: de Ray Charles a James Joyce, de Jânio Quadros a Sérgio Sant'Anna, temos "colegas" em todos os campos da celebridade. Pra não dizerem que sou maria-vai-com-as-outras, resolvi me diferenciar pela atitude politicamente incorreta e escancaro meu sadomasoquismo, meu fetichismo e minha escatologia numa linguagem muito suja e violenta, razão pela qual sou conhecido como "o poeta da crueldade". Meus livros e meu sítio pessoal dão provas desse comportamento anticonvencional, mas quem tiver a curiosidade de ler o que escrevo vai perceber que por trás da baixaria está algo mais profundo, ou mais elevado, como queiram: o protesto contra todo tipo de desumanidade, venha ela do próprio homem ou do Além.

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POEMAS SOBRE O GLAUCOMA

compostos entre 1999 e 2003, quando o poeta já estava cego

 

SONETO GLAUCOMATOSO [242]

Barroco é uma charada cuja chave
depende da veneta do freguês.

Vendendo alguma dose de talvez,
compõe a pauta toda só com clave.

Glaucoma é uma ocular moléstia grave,
vendeta original de Quem nos fez.

Queimar ou torturar com a torquês
ao morbo comparado, é mais suave.

Requinte é uma palavra que bem calha
a Góngora, Quevedo ou Torquemada,
na fórmula forjada na fornalha.

Bem antes que a visão se torne um nada,
as cores do arco-íris formam malha
concêntrica na noite iluminada.


SONETO NATAL [951]

Nasci glaucomatoso, não poeta.
Poeta me tornei pela revolta
que contra o mundo a língua suja solta
e a vida como báratro interpreta.

Bastardo como bardo, minha meta
jamais foi ao guru servir de escolta
nem crer que do Messias venha a volta,
mas sim invectivar tudo o que veta.

Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche,
lambendo, por debaixo, os pés do algoz.

Mas não compenso, nem que o gozo esguiche,
masoca, esta cegueira, e meus pornôs
poemas de Bocage são pastiche.


SONETO ASTROLÓGICO [178]

No azar do tempo, câncer é meu signo.
Meu ascendente é sina, com certeza.
As cartas, já marcadas, sobre a mesa
só rezam que ao destino me resigno.

Como estigmatizado, me persigno.
Meu mapa astral não dá qualquer defesa.
Ser pato no zodíaco é dureza.
Se feio, então, não tem futuro digno.

Na tal constelação do Caranguejo
está um buraco negro gigantesco,
origem do glaucoma malfazejo.

Só mesmo um cosmo novo, ainda fresco,
reserva-me outra vida que, antevejo,
será sob um horóscopo momesco...


SONETO CONSOLO [380]

Não sou leproso, aidético ou capado.
Não sofro de impotência ou alergia.
Não cago sete vezes num só dia,
nem passo todo o mês sem ter cagado.

Não quero ser chamado de viado,
mas vejo a viadagem sem fobia.
Pó, pedra, pico ou gás não me vicia.
Jamais fumei sequer um baseado.

Mas, em compensação, lembro do olhar
de quem se foi, e à noite não sossego,
tentando com as trevas não sonhar.

Quanto mais vivo, à vida mais me apego.
Enfim, não sou tão vítima do azar:
só sou glaucomatoso e fiquei cego.


SONETO MEDICINAL [877]

Avanços mais comuns da medicina
são para os cardiopatas, para os loucos,
neuróticos, asmáticos ou roucos,
na cura ou no pregão que o mal previna.

Não há, porém, antídoto ou vacina
que livre da aflição aqueles poucos
que sofrem, cegos, mudos, mancos, moucos,
no horror da invalidez que os contamina.

Vergonha é o que a ciência inda não sente
mas era pra sentir, sendo tão lerda
no trato do glaucoma e seu doente!

Em vez de "irreversível", uma perda
da vista será, pura e simplesmente,
aquilo que foi sempre e é hoje: merda!


SONETO RASGADO [713]

Fenômeno curioso, força oculta
suspende de repente o meu sintoma
de febre, dor de dentes ou glaucoma
na véspera do exame ou da consulta.

Vem desde nossa infância à idade adulta,
e nada tem a ver com o diploma
exposto em consultórios ou a soma
cobrada, que nos dói mais que uma multa.

O fato é que saramos num instante,
com medo, porventura, do motor,
da pinça, faca ou coisa semelhante.

Porém o que nos causa mais pavor,
acima até do inferno que viu Dante,
é o mórbido sorriso do doutor...


SONETO DISSONANTE [116]

Palácios, almofadas de cetim,
caramanchões, perfume de alfazema,
diamante em preciosíssimo diadema,
manjares, vinho, essência de jasmim.

Malária, convulsão, pedra no rim,
gangrena, diabetes, enfisema,
bronquite, tifo, lepra, cancro, edema,
glaucoma, raiva, cólera... Ai de mim!

Você que lê, sentiu-se incomodado?
Então já percebeu como me sinto,
um cego porco em solo imaculado.

Até que meu grunhido seja extinto,
serei saliva imunda no solado
de quem pisa soalho tão distinto.


SONETO MONSTRUOSO [132]

Quasímodo é platônico na marra.
A fera, sem a bela, é só uma fera.
O Hyde e o Frankenstein também. Pudera!
Qual virgem quer beijar uma bocarra?

Já o sapo se deu bem, a lenda narra:
virou gato e casou cuma pantera.
Até o patinho feio recupera,
já cisne, a mesma estima da cigarra.

Destino ingrato é ser defeituoso!
Qualquer metamorfose só piora:
É cego hoje quem foi glaucomatoso.

Em vez duma princesa, beijo agora
a bota do bandido a quem dou gozo
chupando, pois não mama quem não chora...


SONETO TÂNTALO [311]

Tormentos são momentos. Dor eterna
é tão insuportável quanto o gozo
que nunca terminasse, caudaloso
lençol abastecendo uma cisterna.

Não há mal que não finde, nem interna
pressão total do humor glaucomatoso.
Um parto não é sempre doloroso.
Nem sempre uma gangrena amputa a perna.

A dor, como um orgasmo, é passageira.
Não fosse assim, o corpo acostumava,
e o ferro em brasa não fede nem cheira.

Sem dúvida, a tortura é nossa escrava,
exceto em se tratando de cegueira,
que, quanto mais perdura, mais se agrava.


SONETO CROMATOLÓGICO [332]

O branco é somatória; o preto, ausência.
O verde é o tom de azul com amarelo.
O cinza é um preto e branco menos belo.
Violeta é um desafio pra ciência.

Marrom e creme é mera conseqüência.
Abóbora e laranja não pincelo.
Magenta e sépia existem só no prelo.
Vermelho é comunista ou emergência.

Mania do pintor, como do vate,
as cores são constantes citações:
carmim, rosado, púrpura, escarlate.

Nuances, sangue em manchas e borrões
fizeram do meu olho este tomate,
e só guardei da cor recordações.


SONETO INFERIOR [360]

Mudei-me para o Rio desolado.
Perdi minha nissei. Nem vi o diploma.
Temendo o agravamento do glaucoma,
queria me atirar do Corcovado.

Pensei no Assis Valente, outro coitado
que de autocompaixão fatal se toma.
A calma da visão, porém, me embroma,
e a trágica opção fica de lado.

Ao pé do Pão de Açúcar, pelo Aterro,
caminho, sob o efeito azul do clima,
tentando achar as causas de algum erro.

A luz do sol me aquece e reanima.
Farei um bom proveito do desterro.
Fiquei por baixo. Agora estou por cima.


SONETO PASSAGEIRO [162]

Noventa e três foi ano de ansiedade.
Já quase sem visão, em Londres tento
buscar num oculista algum alento,
mas tudo em vão. Lá vem fatalidade!

Sem rei nem roque, andei pela cidade
e, em vez dum quadro lúgubre e cinzento,
vi cores, da abadia ao parlamento;
vi parques e palácios pela grade.

Um ônibus vermelho, em dois andares,
levou-me à estranha feira na avenida
e ao pub, em nada igual aos nossos bares.

Na feira, comprei bota já lambida.
No bar, bebi cerveja com meus pares,
pessoas que uma vez só vi na vida.


SONETO PREMIADO [417]

Tu pensas que és a glória da nação
apenas por ter condecoração?

Troféus, estatuetas, copas, taças,
medalhas, láureas, placas e diplomas,
os pés no calçadão, bustos nas praças...

Comendas não são tudo nesta vida!
Doutor honoris causa é qualquer um
que, só porque também soltou seu pum,
já julga ter a merda mais fedida!

Do meu anonimato não desfaças,
pois com o mais terrível dos glaucomas
ganhei o campeonato das desgraças!

Exijo mais respeito, cidadão!
Não sou tão pouca porcaria, não!


Soneto Lírico [26]

Dizem que o amor é cego e a carne é fraca,
mas só amei alguém quando enxergava.
Hoje a cegueira queima como lava
e o coração resiste a qualquer faca.

Ontem tesão, agora só ressaca.
Foi-se a paixão que fez minh'alma escrava.
Se inda me queixo dessa zica brava,
sou caçoado e passo por babaca.

Nem tudo está perdido: resta o cheiro
que invade-me as narinas quando passo
na porta do vizinho sapateiro.

Vá lá: o papel que faço é de palhaço.
O olfato é meu recurso derradeiro
e o cheiro do fetiche o único laço.
 

 

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Glauco Mattoso é poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias. Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), o nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), além de aludir a Gregório de Matos, de quem é herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.


Fonte: http://glaucomattoso.sites.uol.com.br/


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19.Out.2011
Publicado por MJA