|
|
excerto

Cego guia de cegos - Walter Heckmann, 1991
[...]
Desamparado, no
meio da rua, sentindo que o chão lhe fugia debaixo dos pés, tentou conter a
aflição que lhe subia pela garganta. Agitava as mãos à frente da cara,
nervosamente, como se nadasse naquilo a que chamara um mar de leite, mas a
boca já se lhe abria para lançar um grito de socorro, foi no último momento que
a mão do outro lhe tocou de leve no braço, Acalme-se, eu levo-o. Foram
andando muito devagar, com o medo de cair o cego arrastava os pés, mas isso
fazia-o tropeçar nas irregularidades da calçada, Tenha paciência, já estamos
quase a chegar, murmurava o outro, e um pouco mais adiante perguntou, Está
alguém em sua casa que possa tomar conta de si, e o cego respondeu, Não sei, a
minha mulher ainda não deve ter vindo do trabalho, eu hoje é que calhei sair
mais cedo, e logo me sucede isto, Verá que não vai ser nada, nunca ouvi dizer
que alguém tivesse ficado cego assim de repente, Que eu até me gabava de não
usar óculos, nunca precisei, Então, já vê. Tinham chegado à porta do prédio,
duas mulheres da vizinhança olharam curiosas a cena, vai ali aquele vizinho
levado pelo braço, mas nenhuma delas teve a ideia de perguntar, Entrou-lhe
alguma coisa para os olhos, não lhes ocorreu, e tão-pouco ele lhes poderia
responder, Sim, entrou-me um mar de leite. Já dentro do prédio, o cego disse,
Muito obrigado, desculpe o transtorno que lhe causei, agora eu cá me arranjo,
Ora essa, eu subo consigo, não ficaria descansado se o deixasse aqui. Entraram
dificilmente no elevador apertado, Em que andar mora, No terceiro, não
imagina quanto lhe estou agradecido, Não me agradeça, hoje por si, Sim, tem
razão, amanhã por si. O elevador parou, saíram para o patamar, Quer que o
ajude a abrir a porta, Obrigado, isso eu acho que posso fazer. Tirou do bolso um
pequeno molho de chaves, tacteou-as, uma por uma, ao longo do denteado,
disse, Esta deve de ser e, apalpando a fechadura com as pontas dos dedos da
mão esquerda, tentou abrir a porta, Não é esta, Deixe-me cá ver, eu ajudo-o. A
porta abriu-se à terceira tentativa. Então o cego perguntou para dentro, Estás aí.
Ninguém respondeu, e ele, Era o que eu dizia, ainda não veio. Levando as mãos
adiante, às apalpadelas, passou para o corredor, depois voltou-se
cautelosamente, orientando a cara na direcção em que calculava encontrar-se o
outro, Como poderei agradecer-lhe, disse, não fiz mais que o meu dever,
justificou o bom samaritano, não me agradeça, e acrescentou, Quer que o ajude
a instalar-se, que lhe faça companhia enquanto a sua mulher não chega. O zelo
pareceu de repente suspeito ao cego, evidentemente não iria deixar entrar em
casa uma pessoa desconhecida que, no fim de contas, bem poderia estar a
tramar, naquele preciso momento, como haveria de reduzir, atar e amordaçar o
infeliz cego sem defesa, para depois deitar a mão ao que encontrasse de valor.
Não é preciso, não se incomode, disse, eu fico bem, e repetiu enquanto ia
fechando a porta lentamente, Não é preciso, não é preciso.
Suspirou de alívio ao ouvir o ruído do elevador descendo. Num gesto
maquinal, sem se lembrar do estado em que se encontrava, afastou a tampa do
ralo da porta e espreitou para fora. Era como se houvesse um muro branco do
outro lado. Sentia o contacto do aro metálico na arcada supraciliar, roçava com
as pestanas a minúscula lente, mas não os podia ver, a insondável brancura
cobria tudo. Sabia que estava na sua casa, reconhecia-a pelo odor, pela
atmosfera, pelo silêncio, distinguia os móveis e os objectos só de tocar-lhes,
passar-lhes os dedos por cima, ao de leve, mas era também como se tudo isto
estivesse já a diluir-se numa espécie de estranha dimensão, sem direcções nem
referências, sem norte nem sul, sem baixo nem alto. Como toda a gente
provavelmente o fez, jogara algumas vezes consigo mesmo, na adolescência, ao
jogo do E se eu fosse cego, e chegara à conclusão, ao cabo de cinco minutos com
os olhos fechados, de que a cegueira, sem dúvida alguma uma terrível desgraça,
poderia, ainda assim, ser relativamente suportável se a vítima de tal
infelicidade tivesse conservado uma lembrança suficiente, não só das cores, mas
também das formas e dos planos, das superfícies e dos contornos, supondo,
claro está, que a dita cegueira não fosse de nascença. Chegara mesmo ao ponto
de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a
simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava
a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu
véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa
brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as
cores, mas as próprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira,
duplamente invisíveis. Ao mover-se em direcção à sala de estar, e apesar da prudente lentidão
com que avançava, deslizando a mão hesitante ao longo da parede, fez cair ao
chão uma jarra de flores de que não estava à espera. Tinha-se esquecido dela,
ou então fora a mulher que a deixara ali quando saiu para o emprego, com a
intenção de colocá-la depois em lugar adequado. Baixou-se para avaliar a
gravidade do desastre. A água espalhara-se pelo chão encerado. Quis recolher
as flores, mas não pensou nos vidros partidos, uma lasca longa, finíssima,
espetou-se-lhe num dedo, e ele tornou a lacrimejar de dor, de abandono, como
uma criança, cego de brancura no meio duma casa que, com o declinar da tarde,
já começava a escurecer. Sem largar as flores, sentindo o sangue a escorrer,
torceu-se todo para tirar o lenço do bolso e, como pôde, envolveu o dedo.
Depois, apalpando, tropeçando, contornando os móveis, pisando
cautelosamente para não enfiar os pés nos tapetes, alcançou o sofá onde ele e a
mulher viam a televisão. Sentou-se, pôs as flores em cima das pernas, e, com
muito cuidado, desenrolou o lenço. O sangue, pegajoso ao tacto, perturbou-o,
pensou que devia ser porque não podia vê-lo, o seu sangue tornara-se numa
viscosidade sem cor, em algo de certo modo alheio que apesar disso lhe
pertencia, mas como uma ameaça de si contra si mesmo. Devagarinho,
apalpando levemente com a mão boa, procurou a delgada esquírola de vidro,
aguda como uma espada minúscula, e, fazendo pinça com as unhas do polegar
e do indicador, conseguiu extraí-la inteira. Tornou a envolver no lenço o dedo
maltratado, com força para estancar o sangue e, rendido, exausto, reclinou-se no
sofá. Um minuto mais tarde, por uma dessas não raras desistências do corpo,
que escolhe, para renunciar, certos momentos de angústia ou de desespero,
quando, se por a exclusiva lógica se governasse, todos os seus nervos deveriam
estar despertos e tensos, entrou-lhe um espécie de quebranto, mais sonolência
do que sono autêntico, mas tão pesada como ele. Imediatamente sonhou que
estava a jogar o jogo do E se eu fosse cego, sonhava que fechava e abria os olhos
muitas vezes, e que, de cada vez, como se estivesse a regressar de uma viagem, encontrava à sua espera, firmes e inalteradas, todas as formas e cores, o mundo
como o conhecia. Por debaixo desta certeza tranquilizadora percebia, contudo, o
remoer surdo de uma dúvida, talvez se tratasse de um sonho enganador, um
sonho de que teria de acordar mais cedo ou mais tarde, sem saber, nesse
momento, que realidade estaria à sua espera. Depois, se tal palavra tem algum sentido aplicada a um quebrantamento que não durou mais que uns instantes, e já naquele estado de meia vigília que vai preparando o despertar, considerou
seriamente que não estava bem manter-se numa tal indecisão, acordo, não
acordo, acordo, não acordo, sempre chega uma altura em que não há outro
remédio que arriscar, Eu que faço aqui, com estas flores em cima das pernas e
os olhos fechados, que parece que estou com medo de os abrir, Que fazes tu aí,
a dormir, com essas flores em cima das pernas, perguntava-lhe a mulher. [...]
ϟ
excerto de
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
José Saramago
Editorial
Caminho
1995
4.Mai.2011
Publicado por
MJA
|