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 Sobre a Deficiência Visual


Jorge Luís Borges e a Cegueira
 


El mundo del ciego no es la noche que la gente supone. En todo caso estoy hablando en mi nombre y en nombre de mi padre y de mi abuela, que murieron ciegos; ciegos, sonrientes y valerosos, como yo también espero morir.

Se heredan muchas cosas (la ceguera, por ejemplo), pero no se hereda el valor. Sé que fueron valientes.

Borges, 2004

 

 

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Elogio da sombra

Jorge Luis Borges

1969
 

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.


Jorge Luis Borges, Elogio da sombra
tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques;
revisão da tradução: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz).
Fonte: Projeto Releituras


 

Jorge Luis Borges - fotografia de Diane Arbus
 

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UM CEGO

Jorge Luis Borges

1975


Não sei qual é a face que me fita
Quando observo a face de algum espelho;
No seu reflexo espreita-me esse velho
Com ira muda, fatigada, aflita.

Lento na sombra, com as mãos exploro
Meus invisíveis traços. O mais belo
Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo
Que é já de cinza ou é ainda de ouro.

Repito que perdi unicamente
A superfície sempre vã das coisas.
O consolo é de Milton e é valente,

Mas eu penso nas letras e nas rosas,
Penso que se pudesse ver a cara
Saberia quem sou na tarde rara.


tradução de Fernando Pinto do Amaral
in Obras Completas III, 1975-1985, Editorial Teorema, 1998
 



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O Fazedor

Jorge Luis Borges

1960
 

Fotografia das mãos de J.L.Borges repousando sobre uma bengalaNunca se tinha demorado nos prazeres da memória. As impressões resvalavam sobre ele, momentâneas e vívidas; o vermelhão de um oleiro, a abóbada carregada de estrelas que também eram deuses, a lua, de onde tinha caído um leão, a lisura do mármore sob as lentas gemas sensíveis, o sabor da carne de javali, que gostava de rasgar com dentadas brancas e bruscas, uma palavra fenícia, a sombra negra que uma lança projecta na areia amarela, a proximidade do mar ou das mulheres, o pesado vinho cuja aspereza o mel mitigava podiam abarcar por inteiro o âmbito da sua alma. Conhecia o terror, mas também a cólera e a coragem, tendo sido uma vez o primeiro a escalar um muro inimigo. Ávido, curioso, casual, sem outra lei que a do gozo e da indiferença imediata, andou pela terra vária e olhou, numa e noutra margem do mar, as cidades dos homens e os seus palácios. Nos mercados populosos ou no sopé de uma montanha de cume incerto, onde bem podia haver sátiros, tinha escutado complica­das histórias que recebeu como recebia a realidade, sem indagar se eram verdadeiras ou falsas.

Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estre­las, a terra era insegura sob os seus pés. Tudo se afastava e confundia. Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estóico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem deslustre. «Já não verei — percebeu — nem o céu cheio de pavor mitológico, nem esta cara que os anos transformarão.» Dias e noites passaram sobre esse desespero na sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem espanto) as indistintas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que tudo isso já lhe tinha acontecido e que o encarara com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Então desceu à sua memória, que lhe pareceu interminável, e conseguiu tirar daquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moe­da sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, salvo, quem sabe, num sonho.

A recordação era assim. Outra criança havia-o insultado e ele fora ter com o seu pai e tinha-lhe contado a história. Este deixou-o falar como se o não ouvisse ou compreendesse e despendurou da parede um punhal de bronze, belo e carregado de poder, que a criança tinha furtivamente cobiçado. Agora segurava-o nas mãos e a surpresa da posse anulou a injúria sofrida, mas a voz do pai dizia: «Que alguém saiba que és um homem», e havia uma ordem na voz. A noite cegava os caminhos; abraçado ao punhal, em que pressentia uma força mágica, desceu a brusca ladeira que rodeava a casa e correu até à beira-mar, julgando-se Ájax ou Perseu e povoando de feridas e batalhas a obscuridade salobra. O que procurava era o preciso sabor daquele momento; não lhe importava o resto: as afrontas do desafio, o torpe combate, o regresso com a lâmina ensanguentada.

Outra recordação, em que também havia uma noite e uma iminência de aventura, brotou daquela. Uma mulher, a primeira que lhe enviaram os deuses, tinha-o esperado na sombra de um hipogeu, e ele procurou-a por galerias que eram como redes de pedra e por declives que se afundavam na sombra. Porque lhe chegavam essas memórias e porque lhe chegariam elas sem amargura, como uma mera prefiguração do presente?

Com grave assombro compreendeu. Nessa noite dos seus olhos mortais, onde agora descia, aguardavam-no também o amor e o risco. Ares e Afrodite, porque já adivinhava (já o cercava) um rumor de glória e de hexâmetros, um rumor de homens que defendem um templo que os deu­ses não salvarão e de baixéis negros que procuram no mar uma ilha querida, o rumor das Odisseias e Ilíadas que era seu destino cantar e deixar ressoando concavamente na memória humana. Sabemos estas coisas, mas não as que sentiu ao descer à última sombra.


Jorge Luis Borges, O Fazedor
Obras Completas Vol.II, Lisboa, Teorema.

Fonte: Fac. Ciências Sociais e Humanas - Univ. Nova Lisboa


 

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Borges com Maria Kodama, sua secretária e mais tarde sua mulher.



O CEGO

Jorge Luis Borges

1972
 

I

Despojaram-no do diverso mundo,
Dos rostos, que são sempre o que eram antes,
Das ruas próximas, hoje distantes,
E do côncavo azul, ontem profundo.
Dos livros guarda apenas quanto colhe
A memória, essa forma de um olvido
Que formato retém ­– não o sentido,
E que apenas uns títulos recolhe.
Os desníveis espreitam. Cada passo
Pode bem ser a queda. Sou eu lento
Prisioneiro de um tempo sonolento
Sem aurora ou ocaso em seu compasso.
É noite. Ninguém mais. Devo, no verso,
Lavrar o meu insípido universo.
 

II

Desde noventa e nove, ano do meu nascimento,
Desde a parreira côncava e do poço profundo,
O tempo minucioso (e que parece um momento)
Me foi tirando as formas visíveis deste mundo.
Os dias e as noites foram limando a figura
Das letras humanas e dos rostos muito amados;
Em vão interrogaram, meus olhos esgotados,
A estante vã, a biblioteca sem aventura.
O azul e o vermelho são agora como a névoa
E dua s vozes inúteis. O espelho que miro
É uma coisa cinzenta. No jardim eu aspiro,
Amigos, a obscuridade rosada da treva.
Agora só perduram as formas amarelas
E os pesadelos são tudo o que a visão revela.


De: El Oro de los Tigres (1972)
in Borges Poeta - Editora Leviatã, 1992


 

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A CEGUEIRA

Jorge Luis Borges

1977

[Entre Junho e Agosto de 1977 Borges proferiu uma série de sete conferências no Teatro Coliseo de Buenos Aires, e dedicou a sétima delas à cegueira). As conferências foram editadas no livro Siete Noches.]
 

“Poetas, como os cegos,
 podem ver no escuro”
        Jorge Luis Borges

Em 1955, tive a honra de ser nomeado director da Biblioteca Nacional Argentina. Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca. (Outros pensam nele como um jardim ou, talvez, um palácio.) Lá estava eu, no meio de 900.000 livros em vários idiomas. No entanto, quase não conseguia ler-lhes os títulos, as lombadas. Poder-se-ia dizer que, praticamente, para meus olhos cegos, aqueles livros estavam em branco, vazios.

Continuo cego de um olho, mas tenho visão parcial no outro, e consigo distinguir algumas cores. As pessoas pensam que os cegos vivem em total escuridão, mas o seu mundo não é a noite que as pessoas imaginam. Vivemos num ambiente impreciso, no qual poucas cores aparecem. O branco desapareceu ou se transformou em cinzento. No meu caso, ainda existem o amarelo, o azul e o verde. Eu, que tinha o hábito de dormir em completa escuridão, fiquei durante longo tempo perturbado por ter de fazê-lo neste mundo tenebroso, esverdeado ou azulado, o vagamente luminoso nevoeiro no qual os cegos vivem mergulhados.

Assim, uma das cores que os cegos lamentam já não poderem ver é o negro; o mesmo acontece com o vermelho. Tenho a esperança de que um dia, com os tratamentos, eu possa enxergá-lo. Essa magnífica cor brilha na poesia e tem nomes lindos em tantos idiomas: SCHARLACH em alemão, SCARLET em inglês, ESCARLATA em espanhol, ÉCARLATE em francês.

Como havia perdido o amado mundo das aparências, resolvi inventar outra coisa; eu criaria o futuro, aquele que vem depois do mundo visível que desaparecera para mim. Era professor de literatura inglesa na Universidade Argentina. Que poderia fazer para ensinar essa disciplina, que ultrapassa os limites da vida do homem e das gerações?

"Tive uma ideia", disse então a uns alunos que haviam acabado de se bacharelar. "Agora que vocês estão formados, não seria interessante estudar a língua e a literatura inglesas livres da frivolidade dos exames? Vamos começar pelo princípio."

Numa manhã de sábado, reunimo-nos no meu escritório e começámos a ler THE ANGLO-SAXON READER e THE ANGLO-SAXON CHRONICLE. Cada palavra se destacava como se estivesse gravada, como se fosse um talismã. É devido a isso que os versos em língua estrangeira nos parecem em relevo, de um modo que não acontece na própria língua, pois ouvimos e vemos cada palavra, pensamos na sua beleza, força ou simplesmente estranheza.

Quase nos embriagamos com o som de duas palavras: o nome de Londres, LUNDENBURH, LONDRESBURGO, e o de Roma, ROMEBURH, ROMABURGO. Essa sensação ainda se tornou mais intensa quando nos demos conta de que a luz de Roma havia atingido aquelas ilhas boreais perdidas. Penso que fomos para a rua gritando LUNDENBURH, ROMEBURH.

Eu havia substituído o mundo visível pelo audível da linguagem anglo-saxónica. Daí passei para outro ainda, mais rico e mais antigo, o da literatura escandinava; passei para as EDDAS e as sagas. Mais tarde escrevi um ENSAIO SOBRE A ANTIGA LITERATURA GERMÂNICA. Criei muitos poemas baseados nos temas dessa literatura, mas sobretudo o que me encantava era ela própria.

Não permiti que a cegueira me derrotasse. Além disso, meu editor me trouxe excelentes notícias: se eu lhe entregasse 30 poemas por ano, ele os publicaria em forma de livro. Trinta poemas. Para isso era preciso disciplina, especialmente quando é necessário ditar cada linha. Ao mesmo tempo, porém, eu tinha suficiente liberdade, porque num ano surgem 30 oportunidades para escrever um poema. A cegueira não foi para mim uma desgraça total. Deveria ser considerada como um modo de viver, nem por isso completamente infeliz; um estilo de vida como qualquer outro.

Ser cego tem as suas vantagens. Pessoalmente, devo certas dádivas às sombras: o anglo-saxão e os rudimentos do islandês. Existe também a alegria de muitos poemas, além de ter escrito livros, inclusive um chamado, não sem alguma duplicidade, como se de um desafio se tratasse, O ELOGIO DA SOMBRA. Os cegos também se sentem cercados de carinho. Todo o mundo tem afecto pelos cegos.

O poeta espanhol frei Luis de León escreveu:

Quero viver comigo,
Gozar o bem que devo aos céus,
Sozinho, sem testemunhas,
Livre do amor, do ciúme,
Do ódio, da esperança, dos cuidados.

Se concordarmos que entre as benesses que nos são enviadas pelos céus está a escuridão, quem poderá viver melhor consigo próprio, quem será capaz de se conhecer melhor, como disse Sócrates, do que um cego?

Gostaria de evocar aqui outros casos ilustres. Não sabemos se Homero existiu mesmo; talvez não houvesse um só Homero mas muitos gregos escondidos sob esse nome. Eles, porém, gostavam de imaginar que o poeta era cego, para realçar o facto de que a poesia é antes de tudo música, e a faculdade visual poder ou não estar presente num poeta.

A cegueira de John Milton foi propositada. Ele estragou sua visão escrevendo panfletos em defesa da execução do rei pelo parlamento. Costumava dizer que havia perdido a vista em defesa da liberdade. Ele falava dessa nobre tarefa e não se queixava por ser cego. Compunha versos e a sua memória melhorou. Após cegar, Milton passava muito tempo sozinho. Escreveu um longo poema, PARAÍSO PERDIDO, sobre o tema de Adão, pai de todos nós. Embora cego, Milton conseguia manter na cabeça 40 ou 50 hendecassílabos, que depois ditava às pessoas que vinham visitá-lo. Foi assim que escreveu PARAÍSO PERDIDO.

Vamos lembrar outro exemplo, o de James Joyce. A quase infinita língua inglesa, que tantas possibilidades oferece ao escritor, não lhe era suficiente. O irlandês Joyce lembrou-se de que Dublin havia sido fundada por vikings dinamarqueses. Assimilou o norueguês, depois estudou grego e latim. Aprendeu muitos idiomas, e acabou escrevendo num idioma que ele próprio inventou, difícil de entender, mas que possui uma estranha musicalidade. E declarou corajosamente: "De todas as coisas que me aconteceram, a menos importante foi a cegueira." Parte da vasta obra que deixou foi escrita na escuridão, trabalhando as frases de memória, às vezes passando um dia inteiro preocupado com uma única frase.

Um escritor, um artista ou qualquer pessoa deveria ver nas coisas que lhe sucedem uma como ferramenta, deveria pensar que tudo lhe é dado com alguma finalidade. O que lhe acontece, inclusive as humilhações, fracassos, desgraças, é-lhe dado como uma argila, como matéria para sua arte. É preciso tentar beneficiar-se disso. Tais coisas nos foram destinadas para as transformarmos, a fim de que, a partir das circunstâncias dolorosas de nossas vidas, possamos fazer algo de eterno ou que aspire a sê-lo. Se um cego pensar dessa maneira, estará salvo. A cegueira é uma dádiva.

Pense no crepúsculo. Ao cair da noite, as coisas mais próximas desaparecem, exactamente como o mundo visível se afastou de mim, talvez para sempre. A cegueira não é uma desgraça total. É mais um instrumento que o destino ou a sorte colocou em nosso caminho.


in Jorge Luis Borges, Sete Noites
Fonte: Roteiros ON LINE
 



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Conferência sobre a cegueira

Jorge Luis Borges

1977

Vídeo da leitura do texto 'A cegueira', proferida pelo escritor argentino Jorge Luis Borges, em 3 de agosto de 1977. Trata-se de um belo relato sobre o convívio do próprio Borges com a sua cegueira pessoal, que marcou profundamente a sua obra e sua relação com a literatura. Este texto pode ser lido in "O outro, o mesmo"  de  Jorge Luis Borges - Editora Globo.  [ Fonte: BlooksLivraria on VIMEO]
 

 


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Jorge Luís Borges
[1899-1986]

Nascido em Buenos Aires, Jorge Luís Borges vem a falecer em Genebra em 1986. Após viver em Espanha, regressa a Buenos Aires no período entre as duas grandes guerras e funda as revistas Prisma e Proa, onde publica a maior parte da sua obra poética. Cego desde 1955, nunca deixará de escrever. Destacam-se publicações como O Fazedor (1960), El Otro, el Mismo (1964), Elogio da Sombra (1969), O Ouro dos Tigres (1972) e Os Conjurados (1985). Publicou, ainda na área do ensaio, Inquisiciones (1925), Nuevas Inquisiciones (1952) e Nueve Ensayos Dantescos (1982). No que toca à narrativa, publica a História Universal da Infâmia (1935), O Aleph (1949), O Relatório Brodi (1970), O livro da Alma (1975) e Rosa Y Azul (1977).
 


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Agosto.2010
Publicado por MJA