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SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL


Do Olhar à Cegueira

Joanice Antónia Santos

imagem: Craig Becker
by Craig Becker

 

O olhar, segundo Ponty (1992), não determina sempre uma continuidade da presença física, um corpo eminentemente material. Nossa visão ultrapassa linhas suscetíveis de captação. Entre o olhar e as zonas que se estabelecem nessa faculdade, há possíveis mecanismos cognoscentes, que disseminam uma maneira de interpretar o mundo, conforme o que se vê e mesmo aquilo que não está ao alcance dos olhos. Nas palavras do filósofo:

Vejo, sinto e é certo que para me dar conta do que seja ver e sentir no visível e no sensível onde se lançam, circunscrevendo, aquém deles mesmos, um domínio que não ocupam e a partir do qual se tornam compreensíveis segundo seu sentido e sua essência. Compreendê-los é surpreendê-los, pois a visão ingênua me ocupa inteiramente, pois a atenção na visão, que se acrescenta a ela, retira alguma coisa desse dom total, sobretudo, porque compreender é traduzir em significações disponíveis um sentido inicialmente cativo na coisa e no mundo (Idem, 44).

Os olhos são órgãos da visão. Juntamente com ela temos outros sentidos: a audição, o tato, o olfato e o paladar. A visão, por sua vez, é considerada como um dos mais apurados sentidos dos homens, senão o mais apurado, conforme análise de Gaiarsa (2000: 15), ao afirmar que:

Os olhos são os maiores espiões do mundo. São dois, mas funcionam como se fossem um só. [...] Para compreender a visão, as relações pessoais e a forma da consciência é a diferença entre visão central, ou macular, e visão periférica da retina. [...] Os globos oculares são, certamente, as partes mais móveis do corpo humano, são movidos por seis músculos notavelmente poderosos.

A referência mostra que os olhos são os maiores investigadores. Eles espiam as pessoas, os objetos e o mundo ao seu redor. Proporcionam ao homem o que nenhum outro animal possui, ou seja, a capacidade cerebral de interpretação do mundo. A acuidade visual é muito grande, por exemplo, no falcão, mas esse animal não pode ir mais além do que os seus olhos vêem. Essa tarefa é exclusivamente uma faculdade cognitiva, racional e interpretativa do ser humano.

É muito difícil pensar um mundo sem visão, feito exclusivamente por cheiros e cores.

Conforme Ponty (1922: 86), ―não há dúvida de que nosso mundo é principal e essencialmente visual, não faríamos um mundo com perfumes e cores‖. Olhar o mundo desperta uma intrínseca ligação entre o ser e o outro, já que é impossível não olhar, no sentido mais amplo, pois essa é uma atitude ontológica. Ainda, de acordo com Ponty (1992: 65), ―o olhar dos outros homens sobre as coisas é o ser que reclama o que lhe é devido e que me incita a admitir que minha relação com ele passa por ele‖. Esse olhar que Ponty ressalta é a interrogação sobre as coisas e sobre o mundo. ―Os acontecimentos deixam transparecer poderes muito gerais, tais como o olhar ou a palavra‖ (ibidem: 101).

A relação do ver e do mundo dizem respeito à imanência que eles possuem entre si, já que um está inextricavelmente implicado no outro, pois, conforme Ponty (1992: 80), ―compreende-se que a visão seja presença imediata, não se vê, porém, como o nada que sou poderia, ao mesmo tempo, separar-me do ser‖. As coisas, as pessoas e o mundo só terão significados a partir do momento das observações, extraindo delas uma percepção irrefutável, assim, o homem ganha contorno ao redor da existência. É como se pelo olhar perscrutássemos as beiras da formação das coisas, tornando-nos familiares. Como declara Ponty (1992:103), ―No início é o olhar que interroga as coisas‖.

Nesse sentido, a Filosofia percebe o olhar numa concepção metafísica, uma vez que olhar não se restringe, especificamente, a um só ângulo da coisa ou do mundo. Com um olho vemos o ângulo da largura e comprimento. Com os dois olhos podemos observar as imagens em estado tridimensional. Os olhos são formados por nervos e músculos, diretamente ligados ao cérebro, mas é com a interpretação que podemos olhar para as coisas de forma mais ampla.

Mas o que dizer sobre àquelas pessoas que não enxergam no sentido fisiológico? A resposta para essa questão postula-se no sentido de que olhar, ver e reparar sugerem mais interpretações simbólicas diante dos fatos e do mundo. A esse respeito, no Ensaio sobre a cegueira (ESC, 1999: 70), três dos personagens, o primeiro cego, o ajudante de farmácia e o médico oftalmologista, ao questionarem a repentina cegueira branca, mostram-nos a relação entre os olhos e a mente:

Aposto que o que sucedeu foi terem-se entupido os canais que vão dos olhos até os miolos, Forte besta, resmungou o ajudante de farmácia, Quem sabe, o médico sorriu sem querer, na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é o que realmente vê, tal como na película a imagem aparece, e se os canais se entupirem, como disse aquele Senhor, É o mesmo que um carburador, se a gasolina não conseguir chegar lá, o motorista não trabalha e o carro não anda. Olhar é a sugestão de imagens propiciadas mentalmente. Através de outros olhares podemos perceber as essências das coisas e do mundo. Essa explicação é aceitável quando se considera os olhos do espírito, mas o que significa exatamente essa expressão? A resposta seria possível, uma vez que estamos considerando aqui os olhos da alma, do psiquismo, como os agentes de outra visão, intercalada por uma que nós já conhecemos, essa outra visão ultrapassa os olhos do corpo. Como argumenta Ponty (1992: 107-108):

Quando se reporta do mundo àquilo que o faz mundo, dos seres àquilo que os faz ser, o puro olhar, que não subentende nada, que não tem atrás de si, como o de nossos olhos, as trevas de um corpo e de um passado: àquilo que faz com que o mundo seja mundo, a uma gramática imperiosa do ser, a núcleos de sentido indecomponíveis, redes de propriedades inseparáveis. As essências são este sentido intrínseco, estas necessidades de princípio, seja qual for a realidade em que se misturam e se confundem (sem que, aliás, suas implicações deixem de fazer-se valer. [...] alguma coisa espiritual, ou alguma coisa viva.

O filósofo admite nesse trecho a inquestionável invisibilidade. O mundo não é só aquilo que vemos com os nossos dois olhos. A demonstração desse fato são os cegos que vêem de uma maneira muito peculiar, aquela imanada do espírito. Como se observa ainda nessa afirmação de Ponty (1992: 110): ―É, portanto, à experiência que pertence o poder ontológico último, e as essências, a necessidade de essência, a possibilidade interna ou lógica, não obstante a solidez e a incontestabilidade que possuem os olhos do espírito‖.

Daí, podemos nos certificar de que o mundo é eminentemente um mundo visual, em que os olhos têm um poder sobremaneira na vida das pessoas e no cotidiano. Ver é uma sensação cuja percepção realça vários sentimentos, sejam eles de ordem material ou espiritual.

Olhar é uma maneira de apreender o mundo, de captá-lo segundo normas e valores préconcebidos ou não. A partir da visão espiritual entendemos ou não os mistérios e os segredos da vida.

Pelos olhos o ser humano registra o seu primeiro contato com o mundo externo, ou seja, fora do útero materno. Ao nascer a criança abre os seus olhos para o espetáculo que o mundo oferece, mesmo não sabendo, ela enxerga a luz. Começa aí, o seu estar no mundo e o seu devir. Quanto a isso, Ponty (1992: 146) pondera que:

Com a primeira visão, o primeiro contato, o primeiro prazer, há iniciação, isto é, não posição de um conteúdo, mas abertura de uma dimensão que não poderá mais vir a ser fechada, estabelecimento de um nível que será ponto de referência para todas as experiências daqui em diante. A idéia é esta dimensão, um invisível de fato, como objeto escondido atrás de outro, não é um invisível absoluto, que nada teria a ver com o visível, mas o invisível deste mundo, aquele que o habita, o sustenta e torna visível, sua possibilidade interior e própria, o Ser desse ente.

Por intermédio da visão inauguramos a presença no mundo até a sua finitude, isto é, com a morte fechamos os olhos. Com a visão, experimentamos uma troca que se estabelece entre o eu e o outro, entre o ser humano e a imaginação, entre o homem e o objeto. A visão dá aos homens a experiência do inefável, possibilita-lhes a entrada num mundo inusitado, cujas esferas são as ações simbólicas, cuja imanência é ao mesmo tempo, inovadora e descoberta por este sentido.

O olhar é um dos sentidos mais expressivos e simbólicos que o homem possui, é ainda Ponty (1992: 130) quem afirma: ―O olhar, como dizíamos, envolve, apalpa, esposa as coisas visíveis‖. Essa visão ultrapassa os meros olhos físicos, ela é revelada por outras subjetividades, ainda de acordo com Ponty (1992: 137):

Entre os meus dois olhos, uma relação muito especial que as transforma num único órgão de experiência, do mesmo modo que meus dois olhos constituem os canais de uma única visão ciclópica. Reação difícil de ser pensada, já que o olho, a mão são capazes de visão, de tato, de modo que o que falta compreender é que essas visões, esses tatos, essas pequenas subjetividades, essas consciências de... Possam reunir-se como flores num buquê, quando uma sendo consciência de... sendo para si, reduz as outras a objetos. Só sairemos desse impasse admitindo que o meu corpo sinérgico não é objeto, que reúne um feixe de consciências, aderentes a minhas mãos, a meus olhos.

Já Jean-Paul Sartre, em O ser e o nada (consulta-se aqui a edição de 1997), enfatiza o olhar enquanto consciência do ser, realçando que o homem consciente só adquire forma a partir do ―ver-o-outro‖, maneira pela qual o ser adquire consciência e liberdade. Sartre ainda afirma ―que a relação originária entre eu e outro não é somente uma verdade ausente que viso através da presença concreta de um objeto em meu universo. [...] a cada instante o outro me olha‖ (1997: 332). Isso nos possibilita compreender que nós só olhamos porque temos o outro diante de nosso alvo, sem a presença do outro, o mundo seria um vácuo sem sentido. O visível para Sartre é uma troca entre um eu e um outro, ligados permanentemente pela tarefa do ver o outro, ver o objeto. A visibilidade possui, nos postulados sartreanos, um significado de extrema importância para entendermos a relação do eu X o outro, visto que, para ele, o homem só adquire a consciência da liberdade, quando enxerga a si mesmo e ao outro, como o seu duplo.

O olhar na fenomenologia sartreana adquire um valor já afirmado pela análise de Maurice Merleau-Ponty. Também para Sartre, os olhos não só captam sensações e percepções de ordem física perante o homem e o mundo, mas irremediavelmente são os alicerces da construção simbólica das coisas e do mundo. A esse respeito, Sartre (1997: 332) reafirma o significado do olhar:

Durante um assalto, os homens que rastejam atrás de uma moita captam como olhar e evitar, não dois olhos, mas toda uma casa de fazenda branca que se recorta contra o céu no alto da colina. É óbvio que o objeto assim constituído só manifesta o olhar, por enquanto, com o caráter de provável.

[...] O que importa, antes de tudo, é definir o olhar em si mesmo. O matagal, a casa de fazenda, não são o olhar: representam somente o olho, pois o olho não é captado primeiramente como órgão sensível de visão, mas como suporte para o olhar.

O objeto é captado por meio do olhar, sem este, como inquiri-lo? Assim a visão tem um significado filosófico diante do mundo. O homem se destaca por meio da visibilidade, isto é, ao ser notado pelo outro, o homem se faz presente no contexto em que vive.


TEMPO DE CEGUEIRA

Da passagem do olhar à cegueira há um fio tênue. Na antiga Grécia, é conhecida a história do famoso profeta Tirésias, o qual foi imortalizado por Sófocles na peça Édipo – Rei. Nessa peça, ele prevê e adverte Édipo do seu fim trágico, juntamente com os destinos reservados para Laio e Jocasta. Laio, rei de Tebas é advertido pelo oráculo que seu próprio filho o mataria e seria a ruína de sua família.

Esse dom da profecia está, na lenda, diretamente ligado aos olhos e ao seu poder de adivinhação. De acordo com Souza e Melo (1953: 46):

[Avultam, na tragédia de Sófocles, figuras de magistral importância.] O adivinho Tirésias, velho e cego, ousando, na sua pobreza, afrontar o rei que o ameaçava, e denunciá-lo claramente, é bem sabido o símbolo da sabedoria humana, que pensa, estuda, sabe e prevê, mas que não convence os poderosos quando com eles entra em conflito. ―Se tu possuis o régio poder, Ó Édipo! – eu posso falar-te de igual para igual‖ – declara o destemeroso sacerdote, cônscio de contra ele nada podia a prepotência do tirano.

Ele foi um dos mais célebres adivinhos na mitologia grega. Segundo a lenda, o seu destino se reservaria pela cegueira, como uma punição dos deuses. Mesmo assim, Tirésias se transformaria na lendária cidade pela sua cegueira. De acordo com uma das versões, Tirésias ficou cego, porque se atreveu a olhar a deusa Athena ou Minerva nua, enquanto ela se banhava. Ele possuía o que os gregos denominavam de mántis, isto é, o poder de previsão2 .

NOTA 2 Outra história na mitologia é a da cegueira de Dáfnis. Ele era filho de Mercúrio, e conta a lenda que ficou cego por um deslize de uma feiticeira. Esqueceu por completo o rosto de sua amada Lice e foi privado da luz eternamente, ficou vagando cego pelos bosques e montanhas (FRANCIGINI & SEGANFREDO CARMEN, 2003. p. 268).

Também existem várias versões sobre a figura de Homero, autor da Ilíada e da Odisséia. Algumas lendas o configuram como sendo cego, porém, estas histórias são suscetíveis de controvérsias. Se existiu um Homero cego, ou dois Homeros, ou até mesmo muitos poetas chamados Homeros, não se sabe ao certo.

Fora da mitologia grega, também na modernidade, alguns casos de cegueira são bastante acentuados, como o do escritor Jorge Luís Borges e de James Joyce. Cada um, a sua maneira, foi perdendo a capacidade de enxergar o mundo visível, seus olhares se espaçaram em nuvens cada vez mais realçadas, demonstrando, porém, como as suas obras ultrapassaram os limites físicos do corpo. Sobre a cegueira do escritor argentino Jorge Luís Borges, esclarece Lopes, (1999: 102): ―Borges perde o mundo visível, o mundo da aparência, mas ao contrário de buscar o mundo das essências, vive a outra aparência: o livro‖. Já o escritor inglês James Joyce teve surtos constantes de cegueira até morrer cego de um dos olhos.

Ainda, na literatura, ao investigarmos a temática da cegueira foi possível perceber que outros textos literários já tinham sido escritos, a exemplo da obra do autor português. Um desses textos é o do escritor, ensaísta e dramaturgo belga Maurice Maeterlinck (1862-1946), simbolista que escreveu a peça Les Aveugles, que em português, significa Os cegos. A peça foi escrita no final do século XIX, em 1890, ainda sem tradução para o português. Outro texto cujo tema se refere aos olhos e à cegueira é o conto Em terra de cegos, do inglês Hebert George Wells (1866-1946), escrito em 1904. No universo da poesia temos um conhecido poema de Charles Baudelaire, Les Aveugles, Os cegos, do livro, As flores do mal (1985).

A peça Les Aveugles é um texto dramático do teatro estático simbolista. Nela Maurice Maeterlink emprega uma antiga tradição dos coros gregos: em cena, coloca um grupo de doze cegos no coro, seis homens cegos e seis mulheres cegas, à espera do seu guia morto. O espaço onde acontece a tragédia é em um lugar hostil, uma ilha perdida, nos confins do mundo, perto de um hospício, no entardecer da noite. Este é o contexto da peça: o guia vai buscar água, mas não volta, e eles o esperam sem obter resultado, já que o guia está morto. O texto utiliza o recurso da palavra entre os cegos, sendo que os diálogos são do universo da cegueira.

Totalmente passada no escuro, a peça demonstra também para o espectador/leitor as idéias de estaticidade e tragédia, pois o espectador também está cego. Ela é reproduzida em total escuridão. Possivelmente, Maurice Maeterlinck, ao escrevê-la nos finais do Século XIX, período do simbolismo e decadentismo francês nas artes e na literatura, questionava o mundo da cegueira; a partir do exterior, questiona a cegueira simbólica, a visão interior.

O texto nos faz lembrar o Ensaio, cuja semelhança é indiscutível, mesmo porque os personagens de Les Aveugles, de Maeterlinck, também estão próximos de um hospital psiquiátrico. Apesar de tantas semelhanças, dada a natureza deste trabalho, apenas sinalizando-o como uma possível fonte de intertextualidades.

'Em terra de cegos', do inglês H.G. Wells escrito em 1904, e publicado em livro, em 1911, é um conto que fala de um vale enterrado no meio dos Andes, em que os personagens expatriados se abrigaram no século XVI. Nesse vale, uma pequena população humana vive tranquilamente, com um único mistério, todas as crianças nascem e se desenvolvem cegas. Por causa da explosão de um vulcão, o vale acaba se tornando isolado do mundo exterior, isto é, das pessoas que enxergam, e, durante três séculos, neste lugar, só nascem pessoas cegas.

Após esses três séculos, já no século XIX, Nunez, um personagem do conto, guia de alpinismo, se perde e é atraído por uma avalanche para dentro do vale. Certo de que, pelo fato de possuir visão, será cortejado e invejado pelo povo cego, em alusão ao ditado popular: ―Em terra de cego, quem tem um olho é rei‖, o guia se decepciona, não será bem assim, visto que, depois de catorze gerações só de cegos, os habitantes do vale esqueceram tudo sobre o mundo exterior. No decorrer dos séculos, surgiram entre eles, alguns personagens curiosos e de questionamentos filosóficos, cujas memórias dos ancestrais se tornaram logo em crendices.

Questionavam: ―Por que temos que crer em coisas que nenhum de nós nunca viu?‖ (ALEGRE, 2008: 14). Assim os outros personagens logo esqueciam as indagações sobre o universo da visão. Externamente, o mundo para eles não existia. O único mundo possível era aquele vale. E não é só, palavras como olhar, ver, dia, noite, luz ou trevas não faziam parte de seu vocabulário. Isso é ressaltado no fragmento: ―Não existe a palavra VER, disse o cego, após uma pausa. ―Pare com essa loucura e siga os meus pés (ALEGRE, 2008: 12). Muito menos, palavras como, cego ou cegueira, já que desconheciam que estavam cegos. A visão para aqueles personagens não fazia sentido. As histórias de Nunez a respeito do mundo da visão soavam para eles como delírios. Acreditavam que Nunez era um lunático, ou coisa parecida, pois tudo o que se referia à palavra ―ver‖, era para eles um absurdo.

O conto provavelmente é uma alegoria sagaz da falta de conhecimento e do mundo da ignorância. Esse tópico serve para ilustramos um possível diálogo entre o conto e o Ensaio.

Vale a pena vermos um fragmento da narrativa, identificando nuanças como a falta de visão presente no nosso objeto de estudo:

Venha cá, disse o terceiro cego, seguindo o movimento de Nunez e agarrando-o. [...] Saí do Mundo. Por montanhas e glaciares; logo ali acima, a meio caminho do Sol. Saí do grande, do enorme mundo que desce, em doze dias de jornada, rumo ao mar. Então eles gritaram, e Pedro foi na frente e tomou Nunez pela mão, para levá-lo às casas. Nunez afastou a mão. Posso ver disse. ―Ver‖, disse Correa. ―Ver‖, disse Nunez, voltando-se para ele, e tropeçou no balde de Pedro. "Os sentidos dele ainda são imperfeitos", disse o terceiro cego. "Tropeça e fala palavras sem sentido. Levem-no pela mão." ―Como vocês quiserem‖, disse Nunez, e foi conduzido pela mão, rindo. Parecia que eles não sabiam de nada sobre a visão (ALEGRE, 2008: 08).

Trazendo a discussão para a Idade Média, constatamos que os olhos e o seu poder de percepção fizeram com que certas personagens fossem atacadas, por causa de suas visões e por estas romperem a uma ordem estabelecida. Alguns desses personagens da História foram martirizados pela cultura judaico-cristã. Nomes que se rebelaram contra uma ordem vigente e pragmática, foram apontados pela Inquisição da Igreja Católica como hereges, como foi o caso de Joana D’Arc, cujas visões aterrorizaram a hegemonia da Igreja Católica que preconizava um poder canonizado. Também As Escrituras Sagradas estão repletas de passagens em que são recorrentes os temas do olhar e da cegueira. No tocante a esse assunto, vários profetas bíblicos como Isaías, Jeremias, Zacarias, Daniel, Amós, Obadias e Ezequiel tinham visões reveladas em nome de uma fé e de um Deus. Eram homens de um único Senhor, que profetizavam em nome da fé e do Deus a quem serviam. Nos textos destes profetas destacamos algumas passagens contidas em Isaías, Jeremias e Ezequiel, só para salientar alguns desses homens que tinham certas revelações, ou seja, tinham um tipo especial de visão.

Em Isaías (2: 1-2) encontramos a passagem em que o profeta tem revelações sobre Judá e Jerusalém: ―Visão que teve Isaías, filho de Amoz, a respeito de Judá e de Jerusalém. E acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do Senhor no cume dos montes e se exalçará por cima dos outeiros‖.

Já o profeta Jeremias é escolhido antes do seu nascimento para as visões que revelarão o seu dom:

Palavras de Jeremias, filho de Hilquias, dos sacerdotes que estavam em Anatote, na terra de Benjamim. [...] Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísse da madre te santifiquei: às nações te dei como profeta. [...] Ainda veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Que é que vês, Jeremias? E eu disse: Vejo uma vara de amendoeira. [...] E veio a mim a palavra do Senhor segunda vez, dizendo: Que é que, vês? E eu disse: vejo uma panela a ferver, cuja face está para a banda do norte (JEREMIAS 1: 1, 11).

O profeta Ezequiel, por sua vez, também tem visões de anjos como expressa a passagem abaixo:

Olhei e eis que um vento tempestuoso vinha do norte, e uma grande nuvem, com um fogo a revolver-se; e um resplendor ao redor dela, e no meio uma cousa como a cor de âmbar, que saia dentre o fogo. E do meio dela saía a semelhança de quatro animais; e esta era a sua aparência: tinha a semelhança de um homem. E cada um tinha quatro rostos, como também cada um deles quatro asas (EZEQUIEL, 1: 4, 6).

Saindo do velho para o novo testamento, encontramos a narrativa em que Jesus Cristo, há mais de dois mil anos, disseminou milagres sobre a terra. Vários desses milagres são em relação à cura de cegos que voltaram a enxergar, sendo que a cegueira era um dos males curados pelo novo Messias. A Bíblia registra diversas imagens sobre os cegos e a cegueira, dentre elas, destacamos algumas. A primeira descreve Jesus curando o cego de Jericó:

E aconteceu que, chegando ele perto de Jericó, estava um cego assentado junto do caminho, mendigando. E ouvindo passar a multidão, perguntou o que era aquilo. E disseram que Jesus Nazareno passava. Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim. [...] Dizendo: que queres que eu faça? E ele disse: Senhor, que eu veja. E Jesus lhe disse: Vê: a tua fé te salvou. E logo viu, e seguia-o glorificando a Deus (LUCAS 18: 35, 43).

A segunda passagem registra Jesus curando um cego de nascença:

E passando Jesus, viu um homem cego de nascença. [...] Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com lodo os olhos do cego. E disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé. Foi pois, lavou-se e voltou vendo (JOÃO 9: 1, 3).

Outra imagem bastante recorrente é a do cego em Betsaída:

E chegou a Betsaida; trouxeram-lhe um cego, e rogaram-lhe que lhe tocasse.

E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia; e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhes as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa. E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens; pois como árvores que andam. Depois tornou a pôr-lhe as mãos nos olhos, e ele, olhando firmemente ficou restabelecido (MARCOS 8: 22, 26).

Em Mateus (20: 29, 34), Jesus cura dois cegos e define a cegueira espiritual:

Ao saírem de Jericó, uma grande multidão seguiu Jesus. Dois cegos estavam sentados à beira do caminho e, quando ouviram falar que Jesus estava passando, puseram-se a gritar: ―Senhor, filho de Davi, tem misericórdia de nós!‖ A multidão os repreendeu para que ficassem quietos, mas eles gritavam ainda mais: ―Senhor, filho de Davi, tem misericórdia de nós!‖ Jesus, parando, chamou-os e perguntou-lhes: ―O que vocês querem que eu faça? Responderam eles: ―Senhor, queremos que se abram os nossos olhos‖.

Jesus teve compaixão deles e tocou nos olhos deles. Imediatamente eles recuperam a visão e o seguiram. [...] A cegueira Espiritual – Jesus ouviu que o haviam expulsado, e, ao encontrá-lo, disse: Você crê no filho do homem? - Quem é ele? – Você já o tem visto. Eu vim a este mundo para julgamento, a fim de que os cegos vejam e os que vêem fiquem cegos. Acaso nós também somos cegos? Outra passagem bíblica que merece destaque concerne à cegueira de Saulo. Conforme as escrituras sagradas, ele perseguia os seguidores de Jesus e ficou cego, voltando a enxergar quando se converteu ao cristianismo: ―E Saulo levantou-se da terra, e abrindo os olhos não via a ninguém. [...] O Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou para que tornes a ver e sejas cheio do Espírito Santo‖ (ATOS, 9: 8, 15).

Essa temática do olhar e da cegueira vai estar, respectivamente, de formas diferentes em dois romances de José Saramago. Num, ele enfoca o olhar, enquanto transmutação, revelação ou dom. Já no Ensaio, o olhar é transformado numa possibilidade de cegueiras individuais e coletivas. O narrador utiliza, para isso, a metáfora de uma ―cegueira branca‖: um mar de leite invade, repentinamente, a população de uma cidade qualquer do século XX.

Todos, sem nomes, ficam cegos e, posteriormente, prisioneiros em um manicômio. A cegueira se instala aí tal, como os ratos invadiram a cidade de Oran em A Peste, romance de Albert Camus, de 1947.

Saramago pode ser, assim, considerado pelo Ensaio, como um espécie de visionário do caos em tempos de contemporaneidade, em que a individualidade, o egoísmo e a razão em supremacia são formas de cegueiras. Já num romance anterior ao Ensaio, Memorial do Convento, de 1982, o escritor conta a construção do convento de Mafra, no período da corte de D. João V e de D. Maria Ana Josefa, esta, obrigada a dar um herdeiro para o trono português. Paralelo à edificação do convento, outros personagens darão corpo ao texto. Dentre eles, estão os personagens intitulados Blimunda, Baltasar Sete-Sóis e o Frei Bartolomeu Lourenço que fazem parte de outro núcleo da história do Memorial do Convento.

Na narrativa, a personagem Blimunda é filha de Sebastiana Maria de Jesus, esta, condenada pela igreja por heresia e feitiçaria. Blimunda possui um dom, o da profecia, herdada desde quando se encontrava na barriga de sua mãe. Assim, a personagem consegue vê por dentro das pessoas e das coisas: ―Se o vieres a saber um dia será por ela, não por mim.

Mas sabe a razão, Sei, E não me diz, Só te direi que se trata de um grande mistério, voar é simples coisa comparada com Blimunda‖ (ESC, 1990: 47).

Nesse romance, José Saramago inicia um tema que anos depois será o pano de fundo do seu Ensaio, ou seja, a possibilidade de olhar de um modo específico, o olhar, ver e reparar, desenvolvido no Ensaio sobre a cegueira. Blimunda é a mulher que vê, que enxerga sob um prisma diferente de todos os outros personagens do Memorial. Como se pode observar na passagem abaixo:

Baltasar não teve tempo de responder, ainda procurava o sentido das palavras, outras já se ouviam no quarto, incríveis, Eu posso olhar por dentro das pessoas. Sete-Sóis soergueu-se na enxerga, incrédulo, e também inquieto, Estás a mangar comigo, ninguém pode olhar por dentro das pessoas, Eu posso. [...] Meu Dom não é heresia, nem feitiçaria, os meus olhos são naturais, eu só vejo o que está no mundo, não vejo fora dele, céu ou inferno, não digo rezas, não faço passes de mãos, só vejo. [...] Vejo o que está por dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra, vejo o que está por baixo da pele, e às vezes mesmo por debaixo das roupas, mas só vejo quando estou em jejum, perco o dom quando muda o quarto da lua (ESC, 1990: 75-76).

Cegar para poder ver, para poder olhar e reparar o outro e, possivelmente, a si mesmo, vai ser a estratégia narrativa empregada pelo autor do Ensaio sobre a cegueira, que poderia muito bem ser lido como uma metáfora de como olhar de modo diferente o mundo.

FIM

 

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excerto da obra
TEMPO DE CEGAR E DE OLHAR: A METÁFORA DA ALIENAÇÃO EM O 'ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA' DE JOSÉ SARAMAGO
Joanice Antónia Santos
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós–Graduação em Literatura e Diversidade Cultural da UEFS, tendo como Orientador o Professor Doutor Francisco Ferreira de Lima, como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em Literatura.
Feira de Santana, 28 de agosto de 2009
http://livros01.livrosgratis.com.br/cp121931.pdf

   


 

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27.Ago.2021
Maria José Alegre