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-excerto-

Médico examina os olhos de um paciente
| relevo do séc II no 'Museo
della Civiltà Romana'
Sucede que as perturbações da mente, as ansiedades e
os desgostos acabam por aliviar-se e cair no esquecimento
quando a atenção da mente se vira para o prazer.
Não é
sem razão que Epicuro se atreve a dizer que o sábio está
sempre rodeado de um maior número de bens porque
está sempre entregue aos prazeres. Daqui resulta segundo
ele, a possibilidade de alcançarmos o nosso objectivo: que
o sábio seja permanentemente feliz.
"Inclusive se lhe faltar a visão e a
audição?"
Sim, mesmo essas sensações o
sábio menospreza-as. Mesmo a cegueira, que é considerada
a deficiência mais temida, de que prazeres nos priva,
afinal? Sobretudo atendendo a que há quem pense que
enquanto outros prazeres se localizam nos próprios sentidos, ao passo que o que se percepciona através da vista
não apreciam nenhum prazer por meio dos olhos, isto
é, enquanto as sensações gustativas, olfactivas, tácteis e
auditivas obtemo-las através dos próprios órgãos dos
sentidos correspondentes, nos olhos não se passa nada de
semelhante, uma vez que é na mente que recebemos as
sensações visuais. Por isso mesmo a mente pode aceder ao
prazer de muitos modos, mesmo sem a utilização da vista.
Estou a referir-me, claro, ao homem culto e sabedor, para
o qual viver é pensar. Ora o pensar do sábio não precisa para nada de recorrer
aos olhos nas suas investigações.
De facto, se a noite não é impeditiva da felicidade, por que
razão haveria de sê-lo um dia semelhante à noite?
Há uma
frase de Antípatro de Cirene um bocado picante, mas
que não deixa de ter uma certa razão de ser; ao ouvir umas
mulherzinhas a lamentarem a cegueira dele, exclamou: "Qual
é o problema? Será que para vocês a noite não tem também
os seus prazeres?"
Temos também o caso famoso do
velho Ápio 1: apesar de ter ficado cego muito cedo,
sabemos, pelas magistraturas que exerceu e pelas acções
que levou a cabo, que a sua desgraça física não o impediu
de cumprir os seus deveres, quer privados, quer públicos.
Conhecemos a tradição de que a casa de Gaio Druso
2 estava sempre cheia de
pessoas que desejavam consultá-lo: quer dizer, homens que não viam a solução
para os
seus casos recorriam a um cego para os guiar.
Quando eu
era rapaz, Gneu Aufídio 3, antigo pretor, não só continuou a
manifestar o seu parecer no Senado, como nunca se eximiu
a auxiliar os amigos a tomarem decisões; além disso,
escreveu uma História <de Roma> em grego, e tinha um
apurado senso crítico em literatura.
O estóico Diódoto 4 já cego, viveu
muitos anos em minha casa. Pois ele, coisa
que não parece fácil de acreditar, dedicava-se à filosofia
ainda com muito mais ardor do que antes, tocava
lira à moda dos Pitagóricos, mandava que lhe lessem
livros, quer de noite quer de dia. Para estas actividades
ele não precisava dos olhos; ele, porém, mais do que isso,
fazia algo que não parece possível fazer sem a vista: ensinava geometria aos seus discípulos,
indicando verbalmente
a partir de que ponto e em que direcção deviam desenhar
cada linha.
Conta-se que Asclepíades 5, um bem
conhecido filósofo da escola de Erétria, quando alguém
lhe perguntou em que é que a cegueira alterara a sua
vida, respondeu "que precisava agora de mais um jovem
escravo para o acompanhar".
Tal como até a maior
miséria se torna suportável quando se pode lançar mão
dos recursos com que os Gregos <que vivem entre nós> se desembaraçam dia a dia, também a cegueira se
pode suportar facilmente se dispusermos dos meios de a
aliviar.
Demócrito 6, quando perdeu a visão, deixou de poder
distinguir o branco do preto, mas continuou a saber discernir
o bem do mal, o justo do injusto, o honroso do
depravado, o útil do inútil, o muito do pouco importante;
ora sem a variedade das cores pode-se viver feliz, sem o
conhecimento da realidade tal não será possível.
Este
homem pensava até que o exercício da visão era prejudicial
à perspicácia mental, e enquanto outros muitas vezes não
vêem o que têm diante dos pés, ele peregrinava por todo o
universo sem ser detido por nenhuma barreira.
A tradição
diz-nos que Homero também era cego, mas o que nós
vemos dele é pintura, e não poesia. Não há região, litoral,
lugar nenhum da Grécia, nenhuma táctica e formação de
combate, nenhuma manobra militar na terra ou no mar,
nenhumas movimentações de homens ou de animais, nada
há, enfim, que não esteja descrito de tal modo que nós
consigamos ver aquilo que ele próprio não via!
Acaso
pensamos que alguma vez o deleite ou o prazer da mente
faltaram a Homero ou a qualquer outro homem de cultura?
Se não fosse assim, porventura Anaxágoras ou o há
pouco referido Demócrito teriam abandonado as suas
terras, todo o seu património para se entregarem totalmente
a este divino deleite que é o estudo e a investigação?
Os
poetas descrevem o adivinho Tirésias 7
como um sábio, mas
nenhum o representa a queixar-se da sua cegueira;
Homero, em contrapartida, ao descrever Polifemo como
uma criatura selvagem e feroz, representa-o a dialogar
com um carneiro e a louvar a condiçao deste, que lhe
permite andar por onde quiser e mordiscar tudo a que possa
chegar. E tinha toda a razão <o poeta>, já que o Ciclope
em nada mostrava ser mais inteligente do que o carneiro!
Vejamos agora o que há de mal na surdez. M. Crasso
8 tinha falta de ouvido, mas, segundo penso, sofria de um
mal ainda pior e que ele, a meu ver, não merecia: percebia
que falavam mal dele.
A maior parte dos Romanos
desconhece a língua grega, e o mesmo se passa com os
Gregos em relação ao latim. Pode dizer-se assim que nós
somos surdos para a língua deles, tal como eles o são para
a nossa. Todos nós, de um modo geral, somos completamente surdos para as línguas, e são imensas, que não
compreendemos. "Mas <os surdos> não conseguem
ouvir a voz dos citaredos." Com certeza, mas também não
escutam o ranger de uma serra a ser afiada, os grunhidos
dos porcos ao serem mortos, nem quando o objectivo é o
descanso, o murmúrio da agitação marítima.
As pessoas
que gostam de ouvir cantar, aliás, deverão começar por
pensar que houve muitos sábios que viveram muito antes
de se ter inventado a música, e em seguida por aperceberem-se de que a leitura dos poemas pode proporcionar maior prazer do que ouvi-los a serem cantados.
Em suma,
tal como há pouco remeti os cegos para o prazer da audição, remeto
agora os surdos para o da visão. Afinal,
quem for capaz de dialogar consigo mesmo não necessita
das palavras do interlocutor.
Acumulemos sobre um só indivíduo todos os males
possíveis, de modo que a mesma pessoa, além de ser cega
e surda, sofra dores terríveis em todo o corpo. Antes de
mais estes sofrimentos bastam só por si para deitar abaixo
um homem; se, pelo contrário, elas se perpetuarem no
tempo e nos fizerem sofrer cada vez mais, a ponto de não
restar nenhum motivo para que devamos suportá-los, para
quê, bons deuses, perseverar no sofrimento? Existe um
porto à nossa disposição, porque onde reside a morte há
também sempre uma recepção para quem deixa de sentir.
Um dia Lisímaco ameaçou de morte o filósofo Teodoro,
ao que este respondeu: "Grande coisa da tua parte, teres tanto poder como
uma cantáride!"
Paulo <Emílio>
respondeu nestes termos ao pedido do rei Perseu de não
ser levado no seu cortejo triunfal: "Bom, isso é algo que
está na tua mão!"
Já discorri muito sobre a morte no
primeiro dia <destes diálogos>, quando o problema em debate era
precisamente "a morte". Muito falámos também no dia imediato: do que discutimos sobre a dor, muito
pode aplicar-se à morte; a quem se recordar do que então
se disse não pode deixar de vir à ideia de que a morte ou é
desejável, ou pelo menos não deve ser temida. Pela minha parte entendo
que deve observar-se relativamente à vida
aquele brinde que os Gregos usam nos seus banquetes: "Ou bebe, ou vai-te embora!"
Têm razão. Ou uma pessoa desfruta juntamente
com os outros do prazer de beber, ou então, se não deseja embriagar-se e cair
na
violência própria dos bêbados, retire-se antes <que isso aconteça>.
De modo
similar, se não puderes suportar as injustiças da fortuna, livra-te delas pela
fuga 9.
FIM
NOTAS
1 Ápio Cláudio, o Cego, foi censor em 312, cônsul
em 307 e ditador entre 292 e 285. Parte da sua fama deriva do facto
de ter iniciado a construção do aqueduto de Roma e da Via Ápia.
2 Gaio Lívio Druso, que viveu no século X, irmão de
Marco Lívio Druso, rival de Gaio Graco, era orador e jurista.
3 Gneo Aufidio foi pretor no ano 108.
4 Diódoto
foi o professor de Cícero nos
seus estudos de matemática e dialéctica. Morreu no ano 59
em casa de Cícero, a quem legou seus bens.
5 Asclepíades de Fliunte, que viveu entre os séculos IV e
III, foi amigo e discípulo de Menedemus e fundador da escola socrática menor de
Erétria.
6 Demócrito foi um grande viajante e viajou para a Pérsia
e a Índia. Diz-se (de Demócrito) que, sendo o último dos três irmãos, distribuiu
a fortuna da família; a maioria dos autores diz que ele escolheu a parte menor,
que consistia em dinheiro, porque precisava de dinheiro para as
suas viagens.
7 Tirésias é o mítico
adivinho tebano que teria ficado cego aos sete anos, segundo alguns, por ter
revelado aos homens os desígnios dos deuses; segundo
outros, a sua cegueira seria um castigo divino por ter
visto Atenas nua no banho. Os
apelos da sua mãe, Canelo, teriam feito que, como
compensação pela sua cegueira, ele recebesse o dom da
profecia.
8 Marco Licínio Crasso formou um triunvirato, no ano 60,
com César e Pompeu. Morreu em 53, quando foi derrotado
pelos partas.
9 Isto é, com a morte.
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No tratado 'De diuinatione', redigido antes dos Idos de Março de 44 a.C., Cícero expõe a arquitetura a que obedece o seu projeto de dotar a literatura latina de um corpus de textos de natureza filosófica, género «literário» até então não representado em Roma por obras de real valor.
Diálogos em Túsculo (Tusculanae Disputationes), em cinco livros, versa certas questões de natureza ética. Há uma saliente afinidade com
'De finibus bonorum et malorum' (As últimas fronteiras do bem e do mal): enquanto esta define a essência do sumo bem para o homem (segundo as diversas escolas filosóficas) do ponto de vista teórico, as
'Tusculanae Disputationes' (T.D.) analisam a mesma questão – quais as condições necessárias e suficientes para que o homem alcance esse bem supremo, ou, quais as condições que permitem a «vida feliz», a felicidade –, mas vistas agora do ponto de vista prático, e analisadas de uma forma «negativa», ou seja, não tanto as condições positivas necessárias, mas antes as condições cuja presença torna impossível a obtenção da felicidade.
No plano global dos seus textos filosóficos, Cícero atribui um lugar ao mesmo tempo importante e peculiar às T.D., as quais, na qualidade de texto de filosofia prática formam, por assim dizer, uma ponte entre dois conjuntos de textos teóricos e subordinados a uma temática de ordem geral, enquanto as T.D. analisam diversos problemas pontuais, conquanto todos integrados no tema geral da «felicidade».
Os cinco diálogos que formam as T.D. analisam os diversos factores impeditivos da vita beata, da felicidade: I- ordem metafísica: a finitude do homem; II- ordem psicológica e física: a possibilidade da dor; III e IV- ordem psicológica: as perturbações mentais; V- ordem ética: a relacionação entre a virtude e a felicidade.
O modelo de diálogo é o «modelo aristotélico», que se caracteriza por abandonar o método dialéctico de Sócrates (e Platão) e conceder a supremacia ao discurso extenso a cargo de uma figura dominante, conforme Cícero observa numa das cartas a Ático: «Nos meus últimos textos tenho seguido o modelo aristotélico, segundo o qual as falas dos outros interlocutores não impedem que seja eu o protagonista».
(Da introdução de J. A. Segurado e Campos)
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excerto do
Livro V
dos 'Diálogos em Túsculo'
título original:
Tusculanae Disputationes (44 a.C.)
autor:
Marco Túlio Cícero [106
a.C — 43 a.C.]
Tradução do latim: J. A. SEGURADO E CAMPOS
edição:
Calouste Gulbenkian
Lisboa, 2014
3.Fev.2015/2021
Publicado por
MJA
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