Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual


Diálogos em Túsculo

Marco Túlio Cícero

-excerto-

Médico examina os olhos de um paciente. Relevo do séc II . Museo della Civiltà Romana, Roma
Médico examina os olhos de um paciente | relevo do séc II no 'Museo della Civiltà Romana'


Sucede que as perturbações da mente, as ansiedades e os desgostos acabam por aliviar-se e cair no esquecimento quando a atenção da mente se vira para o prazer.

Não é sem razão que Epicuro se atreve a dizer que o sábio está sempre rodeado de um maior número de bens porque está sempre entregue aos prazeres. Daqui resulta segundo ele, a possibilidade de alcançarmos o nosso objectivo: que o sábio seja permanentemente feliz.

"Inclusive se lhe faltar a visão e a audição?" Sim, mesmo essas sensações o sábio menospreza-as. Mesmo a cegueira, que é considerada a deficiência mais temida, de que prazeres nos priva, afinal? Sobretudo atendendo a que há quem pense que enquanto outros prazeres se localizam nos próprios sentidos, ao passo que o que se percepciona através da vista não apreciam nenhum prazer por meio dos olhos, isto é, enquanto as sensações gustativas, olfactivas, tácteis e auditivas obtemo-las através dos próprios órgãos dos sentidos correspondentes, nos olhos não se passa nada de semelhante, uma vez que é na mente que recebemos as sensações visuais. Por isso mesmo a mente pode aceder ao prazer de muitos modos, mesmo sem a utilização da vista.

Estou a referir-me, claro, ao homem culto e sabedor, para o qual viver é pensar. Ora o pensar do sábio não precisa para nada de recorrer aos olhos nas suas investigações. De facto, se a noite não é impeditiva da felicidade, por que razão haveria de sê-lo um dia semelhante à noite?

Há uma frase de Antípatro de Cirene um bocado picante, mas que não deixa de ter uma certa razão de ser; ao ouvir umas mulherzinhas a lamentar a sua cegueira, exclamou: "Qual é o problema? Será que para vocês a noite não tem também os seus prazeres?"

Temos também o caso famoso do velho Ápio 1: apesar de ter ficado cego desde muito cedo, sabemos, pelas magistraturas que exerceu e pelas acções que levou a cabo, que a sua desgraça física não o impediu de cumprir os seus deveres, quer privados, quer públicos.

Conhecemos a tradição de que a casa de Gaio Druso 2 estava sempre cheia de pessoas que desejavam consultá-lo: quer dizer, homens que não viam a solução para os seus casos recorriam a um cego para os guiar.

Quando eu era rapaz, Gneu Aufídio 3, antigo pretor, não só continuou a manifestar o seu parecer no Senado, como nunca se eximiu a auxiliar os amigos a tomarem decisões; além disso, escreveu uma História <de Roma> em grego, e tinha um apurado senso crítico em literatura.

O estóico Diódoto 4 já cego, viveu muitos anos em minha casa. Pois ele, coisa que não parece fácil de acreditar, dedicava-se à filosofia ainda com muito mais ardor do que antes, tocava lira à moda dos Pitagóricos, mandava que lhe lessem livros, quer de noite quer de dia. Para estas actividades ele não precisava dos olhos; ele, porém, mais do que isso, fazia algo que não parece possível fazer sem a vista: ensinava geometria aos seus discípulos, indicando verbalmente a partir de que ponto e em que direcção deviam desenhar cada linha.

Conta-se que Asclepíades 5, um bem conhecido filósofo da escola de Erétria, quando alguém lhe perguntou em que é que a cegueira alterara a sua vida, respondeu "que precisava agora de mais um jovem escravo para o acompanhar".

Tal como até a maior miséria se torna suportável quando se pode lançar mão dos recursos com que os Gregos <que vivem entre nós> se desembaraçam dia a dia, também a cegueira se pode suportar facilmente se dispusermos dos meios de a aliviar.

Demócrito 6, quando perdeu a visão, deixou de poder distinguir o branco do preto, mas continuou a saber discernir o bem do mal, o justo do injusto, o honroso do depravado, o útil do inútil, o muito do pouco importante; ora sem a variedade das cores pode-se viver feliz, sem o conhecimento da realidade tal não será possível.

Este homem pensava até que o exercício da visão era prejudicial à perspicácia mental, e enquanto outros muitas vezes não vêem o que têm diante dos pés, ele peregrinava por todo o universo sem ser detido por nenhuma barreira.

A tradição diz-nos que Homero também era cego, mas o que nós vemos dele é pintura, e não poesia. Não há região, litoral, lugar nenhum da Grécia, nenhuma táctica e formação de combate, nenhuma manobra militar na terra ou no mar, nenhumas movimentações de homens ou de animais, nada há, enfim, que não esteja descrito de tal modo que nós consigamos ver aquilo que ele próprio não via!

Acaso pensamos que alguma vez o deleite ou o prazer da mente faltaram a Homero ou a qualquer outro homem de cultura?

Se não fosse assim, porventura Anaxágoras ou o há pouco referido Demócrito teriam abandonado as suas terras, todo o seu património para se entregarem totalmente a este divino deleite que é o estudo e a investigação?

Os poetas descrevem o adivinho Tirésias 7 como um sábio, mas nenhum o representa a queixar-se da sua cegueira; Homero, em contrapartida, ao descrever Polifemo como uma criatura selvagem e feroz, representa-o a dialogar com um carneiro e a louvar a condiçao deste, que lhe permite andar por onde quiser e mordiscar tudo a que possa chegar. E tinha toda a razão <o poeta>, já que o Ciclope em nada mostrava ser mais inteligente do que o carneiro!

Vejamos agora o que há de mal na surdez. M. Crasso 8 tinha falta de ouvido, mas, segundo penso, sofria de um mal ainda pior e que ele, a meu ver, não merecia: percebia que falavam mal dele.

A maior parte dos Romanos desconhece a língua grega, e o mesmo se passa com os Gregos em relação ao latim. Pode dizer-se assim que nós somos surdos para a língua deles, tal como eles o são para a nossa. Todos nós, de um modo geral, somos completamente surdos para as línguas, e são imensas, que não compreendemos. "Mas <os surdos> não conseguem ouvir a voz dos citaredos." Com certeza, mas também não escutam o ranger de uma serra a ser afiada, os grunhidos dos porcos ao serem mortos, nem quando o objectivo é o descanso, o murmúrio da agitação marítima.

As pessoas que gostam de ouvir cantar, aliás, deverão começar por pensar que houve muitos sábios que viveram muito antes de se ter inventado a música, e em seguida por aperceberem-se de que a leitura dos poemas pode proporcionar maior prazer do que ouvi-los a serem cantados.

Em suma, tal como há pouco remeti os cegos para o prazer da audição, remeto agora os surdos para o da visão. Afinal, quem for capaz de dialogar consigo mesmo não necessita das palavras do interlocutor.

Acumulemos sobre um só indivíduo todos os males possíveis, de modo que a mesma pessoa, além de ser cega e surda, sofra dores terríveis em todo o corpo. Antes de mais estes sofrimentos bastam só por si para deitar abaixo um homem; se, pelo contrário, elas se perpetuarem no tempo e nos fizerem sofrer cada vez mais, a ponto de não restar nenhum motivo para que devamos suportá-los, para quê, bons deuses, perseverar no sofrimento? Existe um porto à nossa disposição, porque onde reside a morte há também sempre uma recepção para quem deixa de sentir.

Um dia Lisímaco ameaçou de morte o filósofo Teodoro, ao que este respondeu: "Grande coisa da tua parte, teres tanto poder como uma cantáride!"

Paulo <Emílio> respondeu nestes termos ao pedido do rei Perseu de não ser levado no seu cortejo triunfal: "Bom, isso é algo que está na tua mão!"

Já discorri muito sobre a morte no primeiro dia <destes diálogos>, quando o problema em debate era precisamente "a morte". Muito falámos também no dia imediato: do que discutimos sobre a dor, muito pode aplicar-se à morte; a quem se recordar do que então se disse não pode deixar de vir à ideia de que a morte ou é desejável, ou pelo menos não deve ser temida. Pela minha parte entendo que deve observar-se relativamente à vida aquele brinde que os Gregos usam nos seus banquetes: "Ou bebe, ou vai-te embora!"

Têm razão. Ou uma pessoa desfruta juntamente com os outros do prazer de beber, ou então, se não deseja embriagar-se e cair na violência própria dos bêbados, retire-se antes <que isso aconteça>.

De modo similar, se não puderes suportar as injustiças da fortuna, livra-te delas pela fuga 9.

FIM


NOTAS

1  Ápio Cláudio, o Cego, foi censor em 312, cônsul em 307 e ditador entre 292 e 285. Parte da sua fama deriva do facto de ter iniciado a construção do aqueduto de Roma e da Via Ápia.
2 Gaio Lívio Druso, que viveu no século X, irmão de Marco Lívio Druso, rival de Gaio Graco, era orador e jurista.
3  Gneo Aufidio foi pretor no ano 108.
4
Diódoto foi o professor de Cícero nos seus estudos de matemática e dialéctica. Morreu no ano 59 em casa de Cícero, a quem legou seus bens.
5 Asclepíades de Fliunte, que viveu entre os séculos IV e III, foi amigo e discípulo de Menedemus e fundador da escola socrática menor de Erétria.
6 Demócrito foi um grande viajante e viajou para a Pérsia e a Índia. Diz-se (de Demócrito) que, sendo o último dos três irmãos, distribuiu a fortuna da família; a maioria dos autores diz que ele escolheu a parte menor, que consistia em dinheiro, porque precisava de dinheiro para as suas viagens.
7  Tirésias é o mítico adivinho tebano que teria ficado cego aos sete anos, segundo alguns, por ter revelado aos homens os desígnios dos deuses; segundo outros, a sua cegueira seria um castigo divino por ter visto Atenas nua no banho. Os apelos da sua mãe, Canelo, teriam feito que, como compensação pela sua cegueira, ele recebesse o dom da profecia.
8 Marco Licínio Crasso formou um triunvirato, no ano 60, com César e Pompeu. Morreu em 53, quando foi derrotado pelos partas.
9 Isto é, com a morte.

ϟ

Diálogos em Túsculo

No tratado 'De diuinatione', redigido antes dos Idos de Março de 44 a.C., Cícero expõe a arquitetura a que obedece o seu projeto de dotar a literatura latina de um corpus de textos de natureza filosófica, género «literário» até então não representado em Roma por obras de real valor. Diálogos em Túsculo (Tusculanae Disputationes), em cinco livros, versa certas questões de natureza ética. Há uma saliente afinidade com 'De finibus bonorum et malorum' (As últimas fronteiras do bem e do mal): enquanto esta define a essência do sumo bem para o homem (segundo as diversas escolas filosóficas) do ponto de vista teórico, as 'Tusculanae Disputationes' (T.D.) analisam a mesma questão – quais as condições necessárias e suficientes para que o homem alcance esse bem supremo, ou, quais as condições que permitem a «vida feliz», a felicidade –, mas vistas agora do ponto de vista prático, e analisadas de uma forma «negativa», ou seja, não tanto as condições positivas necessárias, mas antes as condições cuja presença torna impossível a obtenção da felicidade. No plano global dos seus textos filosóficos, Cícero atribui um lugar ao mesmo tempo importante e peculiar às T.D., as quais, na qualidade de texto de filosofia prática formam, por assim dizer, uma ponte entre dois conjuntos de textos teóricos e subordinados a uma temática de ordem geral, enquanto as T.D. analisam diversos problemas pontuais, conquanto todos integrados no tema geral da «felicidade». Os cinco diálogos que formam as T.D. analisam os diversos factores impeditivos da vita beata, da felicidade: I- ordem metafísica: a finitude do homem; II- ordem psicológica e física: a possibilidade da dor; III e IV- ordem psicológica: as perturbações mentais; V- ordem ética: a relacionação entre a virtude e a felicidade. O modelo de diálogo é o «modelo aristotélico», que se caracteriza por abandonar o método dialéctico de Sócrates (e Platão) e conceder a supremacia ao discurso extenso a cargo de uma figura dominante, conforme Cícero observa numa das cartas a Ático: «Nos meus últimos textos tenho seguido o modelo aristotélico, segundo o qual as falas dos outros interlocutores não impedem que seja eu o protagonista». (Da introdução de J. A. Segurado e Campos)
 

ϟ


excerto do
Livro V
dos '
Diálogos em Túsculo'
título original: Tusculanae Disputationes (44 a.C.)
autor: Marco Túlio Cícero [106 a.C — 43 a.C.]
Tradução do latim: J. A. SEGURADO E CAMPOS
edição: Calouste Gulbenkian
Lisboa, 2014

Δ

3.Fev.2015/2021
Publicado por MJA