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CEM ANOS DE SOLIDÃO


Gabriel García Márquez

[excerto]

 

Um raio de sol no quarto da mulher cega - Anna_Ancher, 1885
Um raio de sol no quarto da mulher cega
Anna Ancher, 1885

 

Ninguém soube com certeza quando começou a perder a vista.

Mesmo nos seus últimos anos, quando já não podia levantar-se da cama, parecia simplesmente que estava vencida pela decrepitude, mas ninguém descobriu que estava cega.

Ela percebera-o desde o nascimento de José Arcadio.

A princípio pensou que se tratava de uma debilidade transitória e tomava escondido xarope de tutano e botava mel de abelha nos olhos, mas muito brevemente foi se convencendo de que afundava sem salvação nas trevas, a ponto de nunca ter tido uma noção muito clara da invenção da luz elétrica, porque quando instalaram os primeiros focos só pôde perceber o brilho.

Não disse nada a ninguém, pois teria sido um reconhecimento público da sua inutilidade. Empenhou-se numa calada aprendizagem da distância das coisas e das vozes das pessoas, para continuar vendo com a memória quando já não o permitissem as sombras da catarata.

Mais tarde havia de descobrir o auxílio imprevisto dos cheiros, que se definiram nas trevas com uma força muito mais convincente do que os volumes e a cor e a salvaram definitivamente da vergonha de uma renúncia.

Na escuridão do quarto, podia enfiar a linha na agulha e bordar uma casa, e sabia quando o leite estava para ferver. Conheceu com tanta certeza o lugar em que se encontrava cada coisa que ela mesma se esquecia às vezes de que estava cega.

Certa ocasião, Fernanda pôs a casa em polvorosa porque tinha perdido a aliança e Úrsula a encontrou num consolo, no quarto das crianças.

Simplesmente, enquanto os outros andavam descuidadamente por todos os lados, ela os vigiava com os seus quatro sentidos, para que nunca a pegassem de surpresa, e ao fim de algum tempo descobriu que cada membro da família repetia todos os dias, sem notar, os mesmos percursos, os mesmos atos, e que quase repetia as mesmas palavras às mesmas horas. Só quando saíam dessa meticulosa rotina é que corriam o risco de perder alguma coisa.

De modo que quando viu Fernanda consternada porque havia perdido a aliança, Úrsula se lembrou de que a única coisa diferente que ela fizera naquele dia tinha sido arejar as esteiras das crianças, porque Meme tinha descoberto um percevejo na noite anterior.

Como as crianças assistissem à limpeza, Úrsula pensou que Fernanda havia posto a aliança no único lugar onde elas não a poderiam alcançar: o consolo.

Fernanda, pelo contrário, procurou-a unicamente nos trajetos do seu itinerário cotidiano, sem saber que a procura das coisas perdidas é dificultada pelos hábitos rotineiros e é por isso que dá tanto trabalho encontrá-las.

A educação de José Arcadio ajudou a Úrsula na tarefa extenuante de se manter a par das mínimas mudanças em casa. Quando percebia que Amaranta estava vestindo os santos do quarto, fingia que ensinava ao menino as diferenças entre as cores.

— Vamos ver — dizia a ele — me conte de que cor está vestido São Rafael Arcanjo.

Dessa forma, o menino lhe dava a informação que lhe negavam os olhos e muito antes que ele partisse para o seminário Úrsula já podia distinguir pela textura as diferentes cores da roupa dos santos.

As vezes aconteciam acidentes imprevistos.

Uma tarde, estava Amaranta bordando na varanda das begónias e Úrsula tropeçou nela.

— Pelo amor de Deus — protestou Amaranta — veja por onde anda.

— É você — disse Úrsula — quem está sentada onde não deve.

Para ela, estava certo.

Mas naquele dia começou a se dar conta de alguma coisa que ninguém havia descoberto e era que no transcurso do ano o sol ia mudando imperceptivelmente de posição e quem se sentava na varanda tinha que ir mudando de lugar pouco a pouco e sem o perceber. A partir de então, Úrsula tinha apenas que se lembrar da data para saber o lugar exato em que Amaranta estava sentada.

Embora o tremor das mãos fosse cada vez mais perceptível e já não pudesse com o peso dos pés, nunca se vira a sua figura miudinha em tantos lugares ao mesmo tempo. Era quase tão diligente como quando arcava com toda a responsabilidade da casa.

Entretanto, na impenetrável solidão da velhice, dispunha de tal clarividência para examinar mesmo os mais insignificantes acontecimentos da família que pela primeira vez viu com clareza as verdades que as suas ocupações de outros tempos lhe haviam impedido de ver.  [...]

 


Cem Anos de Solidão - capa

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.»
Com estas palavras - tão célebres já como as palavras iniciais do "Dom Quixote" ou de "À Procura do Tempo Perdido" - começam estes "CEM ANOS DE SOLIDÃO", obra-prima da literatura contemporânea, traduzida em todas as línguas do mundo, que consagrou definitivamente Gabriel García Márquez (Prémio Nobel da Literatura 1982) como um dos maiores escritores do nosso tempo.
A fabulosa aventura da família Buendía-Iguarán com os seus milagres, fantasias, obsessões, tragédias, incestos, adultérios, rebeldias, descobertas e condenações são a representação ao mesmo tempo do mito e da história, da tragédia e do amor do mundo inteiro.
 

ζ

excerto de
CEM ANOS DE SOLIDÃO
autor: Gabriel García Márquez
1.ª edição: 1967
título original: Cien Años de Soledad

fonte da obra integral.

 



Publicado por MJA
[4.Abr.2014]