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 Sobre a Deficiência Visual


Cego Pode Andar Sozinho?

Francimar Torres Maia

Blind Man - Michail Panikovsky
Cego - Michail Panikovsky


Logo que surgiu a ''Associação de Cegos do Rio Grande do Sul', ao tentar empregar um associado, um empresário perguntou:

— Mas, quem é que vai trazê-lo até a firma?

Ora, um dos requisitos para que uma pessoa portadora de deficiência visual seja encaminhada a um emprego, é poder e saber locomover-se sozinha. Não se admite que ela não tenha um mínimo de autonomia. Nesse particular, os cegos gaúchos são, em geral, bastante bons. Sua capacidade é reconhecida e admirada por cegos de outros estados. Já pensaram, a gente ir à casa da namorada levado por outrem? Como dizem hoje em dia, "é ruim".

Assim, os cegos aprendem a andar sozinhos, fazendo um curso de locomoção ou mobilidade, ministrado por professores especializados. Isso, de há uns trinta anos para cá. No meu tempo de estudante, a gente aprendia, saindo, de preferência, com outro cego, para que nos ensinasse os macetes.

— Mas, como vocês se orientam? — costumam perguntar as pessoas. Aí se lembram de filmes americanos antigos e eles mesmos respondem:

— Ah, sim, contam os passos. Então, eu respondo:

— Pois é, imagina que estou caminhando pela avenida Érico Veríssimo, e encontro um amigo, que se põe a conversar comigo.

Então, antes de iniciar o "papo", eu digo: espera aí; deixa eu gravar bem, que parei no passo 1049. Até a minha casa, são... — É inviável, não?

Na realidade, a gente tem como um mapa, na cabeça, pelo qual, sabe-se que a Azenha, Érico e Getúlio são paralelas, e todas transversais da Ipiranga, por exemplo.

O meu aprendizado foi na rua dos Andradas. decorava-se o nome das transversais: Borges, Marechal Floriano, Vigário José Inácio, Dr. Flores, ...

De vez em quando apareciam os mais variados problemas:

— As ruas não são tão retinhas e bem desenhadas como a gente imaginava;

— Às vezes, uma rua não é transversal, mas apenas perpendicular à outra, de modo que, se tu vais da Borges para a General Câmara pelo lado direito da rua dos Andradas, tem a Uruguai, mas pelo esquerdo, não. Por este, há a trav. Acelino de Carvalho (rua vinte e quatro horas), que não atravessa para o lado direito.

— E, por falar em General Câmara, logo depois dela, isto é, entre ela e a Caldas Júnior (sempre tomando como base a rua da Praia), temos a famosa Praça da Alfândega.

Não é porque seja a da Alfândega, é porque é praça; é que praça, um local aberto, dificulta um pouco a locomoção de quem não enxerga, pois os cegos ficam com poucos pontos de referência.

Uma vez, na década de 60, alguém resolveu me dar uma carona de táxi e, sabendo que eu queria ficar o mais perto possível da rua da Praia, ao chegarmos, disse-me:

— Estás bem na esquina da rua da Praia com a Bragança. — Naquele tempo, eu não sabia que Bragança era o antigo nome da Marechal Floriano...

Mas, não fiquem preocupados, porque, quando isso acontece, em menos de um minuto, a gente já se acha.

Os pontos de referência são muito importantes para a nossa orientação, e são os mais variados: desde sonoros (lojas de disco, barulho da tesoura para localizar uma barbearia, de uma serra para identificar um açougue), até olfativos: para reconhecer farmácia, lanchonete, passando por mudança de temperatura (um estabelecimento que tem ar condicionado), até mudança no piso.

A propósito, lembro-me que, quando estudava no Rosário e morava no Santa Luzia, alguém me pediu para comprar um encordoamento de violão.

— Onde se compra isso? — perguntei.

— Na Casa Beethoven.

— E onde fica a casa Beethoven?

— Na Galeria Chaves.

— Mas, contrapus: na Chaves tem uma porção de lojas; como vou saber qual é a Beethoven?

E o "cara", que também era cego, me orientou sem erro:

— Tu entras na Galeria, pela rua da Praia, e vai indo. Quando terminar o piso de cerâmica e começar o assoalho (de madeira), dobra à direita, e é bem lá.

Quando eu morava em Iraí, minha casa ficava bem no meio da quadra, mas nunca "me passei": era o primeiro portão depois de uma entrada de garagem, cujo piso era de paralelepípedo.

Na década de oitenta, quando se estava na Cristóvão e se pegava um ônibus, o final da linha tanto podia ser ali perto da Santa Casa, como na Praça Quinze, hoje Largo Glênio Pérez.

Pois bem, um dia, estava eu numa parada da Cristóvão, e uma pessoa perguntou-me, que ônibus eu queria. Eu queria tomar o ônibus que parava na Praça Quinze, que ficava mais perto de onde eu precisava ir. O transeunte parou um, e disse: esse te serve. Entrei e, pelas voltas que ele deu, verifiquei que aquele ia para a Santa Casa. Mas, acho que a pessoa ficou com algum remorso, certamente, pensando: "E agora, como é que ele vai fazer, achando que vai estar na Praça Quinze"? Por isso, quando eu desci, ele se apresentou de novo, e disse onde estávamos, e que iria me acompanhar até onde eu quisesse ir. Insisti que não precisava, que eu já sabia que estávamos perto da Santa Casa e que ... tudo bem. Mas, ele fez questão. Então, para lhe mostrar que, realmente, sabia por onde andava, fui dizendo tudo que eu sabia, o nome das lojas por onde passávamos, inclusive, já na Vigário José Inácio, disse:

— Apesar de eu não ir ao cinema, sei que estamos passando em frente ao Carlos Gomes.

Mas, vocês estarão se indagando: — e nos ônibus, como sabem onde estão, onde têm que descer?

Nos ônibus, a gente tem que estar atento às curvas, subidas e descidas. Eu mesmo, quando ainda não saía sozinho, ficava imaginando, quando um colega explicava para o outro:

— Tu desces na parada do Cine Continente...

E eu: Mas, e para saber onde era o Cine Continente?

Depois que eu comecei a andar de ônibus, descobri como era fácil (com aquela "baita" lomba) saber qual era a parada do Continente.

Mas, às vezes, o passageiro cego ainda não está tão treinado, ou o lugar onde ele vai não é de tão fácil reconhecimento, o que faz com que ele tenha que calcular mais ou menos o tempo do percurso, e, então, pedir para o motorista lhe confirmar sua parada.

A propósito, há uma tendência de o povo subestimar ou superestimar nossa capacidade.

Assim, o João morava no Instituto Santa Luzia, e fazia um curso de inglês no Yazigi. No início, não sabia muito bem reconhecer a parada do Santa Luzia. Porém, como havia muitos cegos que iam e vinham de ônibus, e como a maioria sabia descer com segurança, o João ficou em maus lençóis, quando ouviu, perto dele, duas "vizinhas" conversando.

— É, vizinha. Deus tira uma coisa, mas dá outra.

— Porquê, vizinha?

— Esses rapazes, são cegos, e andam sozinhos; e sabem bem direitinho a parada onde têm que descer. Esse aí é do Santa Luzia. Tu vai ver. Quando chegar na parada dele, ele vai descer certinho, sem perguntar para ninguém. Quer ver?

Enquanto isso, o João já estava ficando nervoso, pensando: e agora, como é que eu vou fazer para não desmentir a "vizinha"? Aí, aconteceu o inesperado:

— Olha, vizinha: — disse a que conhecia vários cegos: Estamos chegando na parada do Santa Luzia. Quer ver como ele vai se levantar, puxar a campainha e descer, sem perguntar para ninguém?

Então, tendo recebido esse presente "na cara do gol", o João não teve outro trabalho, senão o de "levantar, acionar a campainha, ...", enquanto ouvia a vizinha dizer para a outra:

— Viu? Eu não disse que ele sabia?...
 

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O que vou contar agora aconteceu comigo mesmo:

Um dia fui visitar o meu amigo Crocco (médico rotariano) em seu consultório, e ele me convidou para almoçar em sua casa. Fomos em seu automóvel: ele, sua irmã e eu.

À certa altura, logo depois de o carro fazer uma curva para a esquerda, a irmã do meu amigo perguntou:

— Francimar, tens idéia de onde estamos?

— Perfeitamente, disse eu. Acabamos de sair da Carlos Barbosa.

— Mas, como sabes?

— Categoria, disse eu, para fazer meu charme. Mas, esclareci: É que o doutor fez o percurso que o ônibus que vai para o Santa Luzia faz. Como eu transito todos os dias por aqui, ficou fácil.

E, assim como se anda na cidade, também viaja-se para fora de Porto Alegre, do estado e até do País. É claro que, acompanhado, torna-se mais fácil; mas, não é por falta de companhia que se vai deixar de viajar, seja a serviço, seja a passeio.

Também tem que se ter um pouco de sorte.
 

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Em 1961, o amigo Carlos convidou-me para passar as férias em sua casa, localizada em Arroio do Tigre, na época, distrito de Sobradinho. Devido a um contra-tempo, não pude ir com ele, conforme estava previsto.

Eu tinha treze anos, na ocasião, e a Diretora do Instituto Santa Luzia me perguntou se eu me arriscava a ir sozinho. Disse que sim, e fui.

Peguei o ônibus às 6 da manhã, cheguei em Sobradinho, onde o cobrador, sabendo que iria para Arroio do Tigre, encaminhou-me para outro ônibus.

A certa altura, o ônibus parou. querendo ir ao banheiro, desci, e, na volta, tomei um refrigerante, e perguntei para o dono da "venda" onde o ônibus estava parado, se estávamos longe de Arroio do Tigre. Já é aqui, disse ele.

— E o senhor, por acaso, não conhece o seu Carlos Bernardi, que tem um filho cego?

— Conheço, mas este ônibus não passa na casa dele. Este é o Linha Figueira, e o que passa lá é o Linha Salto.

— E a que horas passa o Salto?

— Já passou. Mas, fica aqui no armazém que, daqui a pouco eu te levo até lá.

Guardei o nome dele (Valdemar Bischof). Uns 20 anos mais tarde, entrou na empresa onde eu trabalho, o Werner Bischof, de Arroio do Tigre.

Lembrando do episódio, perguntei:

— O que tu és do Valdemar Bischof?

— Ele é meu pai.

Agora, pensando bem, não acham que foi um pouco temerário "largarem" um guri de 13 anos sozinho, de ônibus, ainda mais sem enxergar?... Que eu tenha me disposto a viajar sozinho, tudo bem, eu era criança, e, nessa idade, não se pensa nos riscos, a aventura é uma festa. Mas, dirigentes de um colégio fazê-lo, sinceramente, considero uma atitude algo irresponsável.

Por ser cearense, já fui e vim de ônibus até o Ceará. Uma vez, ao voltar para o ônibus, depois do almoço, notei que tinha entrado noutro coletivo. Foi fácil, porque o em que eu andava era monobloco, enquanto aquele no qual ia entrando, tinha uma cabina que isolava o motorista dos passageiros.

Quando eu desci, o motorista perguntou-me como é que eu tinha verificado que aquele não era o meu ônibus. Expliquei, e ele disse:

— Ah, cego danado.

Descobrimos que a FAB, através do CAN (Correio Aéreo Nacional), concedia passagens de avião. Eu e um amigo resolvemos ir ao Ceará de FAB. Até o Rio, foi facílimo. Fomos à Base aérea, em Canoas, falamos com o Relações públicas, expliquei que minha família morava no Ceará, e que eu precisava ir vê-la, que não tínhamos dinheiro para pagar as passagens, pois éramos estudantes, e conseguimos.

No dia 30 de novembro de 1966, deixamos Porto Alegre, num DC3, e chegamos ao Galeão.

Tomamos um táxi, e pedimos para o motorista nos levar a um hotel de preço módico, onde passaríamos a noite. Ele nos levou ao Flamengo. Nos instalamos, tomamos um banho, e saimos para comer alguma coisa. A primeira surpresa que o Rio nos reservou a mim e ao Adeni, tivemos ao ligar o seu radinho de pilha, e ouvirmos o resultado do jogo no Maracanã: Cruzeiro de Tostão 6, Santos de Pelé 2.

No dia seguinte, voltamos ao Galeão, ao CAN, para providenciarmos o prosseguimento da viagem, já que, segundo informações de Porto Alegre, eles passariam um radiograma ao Rio, reservando duas passagens para nós.

— Não, não recebemos radiograma nenhum. E, com a proximidade das férias, Natal e Ano-Novo, só podemos garantir lugar, por volta de 15 de Fevereiro.

— Ficamos na fila, dissemos; pode ser que haja alguma desistência.

Enquanto isso, a gente conhece o Rio.

No ônibus de volta para o Flamengo, eu disse para o meu amigo: temos que tratar de ir vendo outras possibilidades. Eu só não quis foi descartar a FAB, para não ficar chato; mas temos que dar um jeito de ir bem antes, pois, o objetivo é o Ceará, não o Rio.

Então, fomos tentar conseguir um alojamento de preço mais módico do que o hotel Antabe. Assim, passamos uma noite na Casa do Estudante do Brasil, três na Pousada Estudantil, várias na Casa do Estudante Universitário, ...

Para conseguirmos lugar na CEU, que chamavam de CÉU, o Adeni argumentou que estudava na Escola Superior de Educação Física (onde, realmente, fazia um curso de massagem, que era de nível médio).

Fomos visitar o Instituto Benjamin Constant, onde eu tinha vários conhecidos cearenses, tanto alunos, como ex-alunos e professores.

Um funcionário da Imprensa Braille nos apresentou a um Marechal (Mário Travassos), muito amigo dos cegos cariocas, e que participava com eles da Sociedade pró Livro Espírita em Braille, e que prometeu ver o que poderia fazer para nos ajudar na viagem.

Como a permanência no Rio seria mais demorada do que pensávamos, conseguimos nos hospedar na Associação Fluminense de Amparo aos Cegos, situada no Bairro Santa Rosa, em Niterói.

Tal como eu disse antes, resolvemos buscar outras alternativas para a FAB e, sobretudo, diante da incerteza da viagem em fevereiro.

Fomos à VARIG, mas não conseguimos a passagem de cortesia que tentamos. Até perguntei por um senhor que, uma vez já tinha nos conseguido, para mim e para outro cearense, o Jonas, uma passagem Rio-Fortaleza. Como nos dissessem que ele tinha se transferido para a Cruzeiro, fomos lá. E, após várias tentativas, descobrimos o homem, e ele não falhou.

Enquanto isso, passamos o Natal no Rio. Antes, dia 21 ou 22, recebemos a notícia: conseguimos duas passagens Rio-Fortaleza, pelo Caraveli da Cruzeiro.

Felizes, fomos para Niterói, prepararmo-nos para a viagem. Ao chegar na Associação, outra surpresa: alguém telefonou para vocês e deixou esse número. Ligamos e... não é que o Marechal Travassos tinha conseguido passagens para nós no dia 27 de dezembro?

Então, fomos à Cruzeiro e pedimos que invertessem a passagem, e garantimos a volta de Fortaleza para o Rio. Fomos de FAB e voltamos de Cruzeiro. Do Rio para cá, viemos de ônibus, porque, para ônibus, tínhamos dinheiro. Além disso, as aulas se aproximavam, e já tínhamos ficado três meses de férias.

Enquanto estávamos no Rio, almoçávamos e jantávamos no famoso Calabolço, onde o preço das refeições era mais do que simbólico.

Depois dessa, fui mais três vezes ao Ceará, de ônibus. Uma, quando solteiro e só; uma com minha mulher e outra com ela e meus sogros.

As viagens longas de ônibus tem uma coisa de bom: a partir da terceira ou quarta parada (são 50 horas de São Paulo até Fortaleza), quase todo mundo fica se conhecendo, e a viagem vira uma festa.

Numa dessas, enquanto o motorista trocava um pneu do ônibus, uma turminha de rapazes cearenses que morava em São Paulo pegou seu toca-discos Philips à pilha, aquele cujo auto-falante era a tampa dele, e tocou, mais uma vez, o sucesso do momento, uma música com o Luiz Américo, cujo estribilho dizia:

— Quando tiver a minha cuca cheia de cachaça, te levo pra folia, te ganho na raça, te levo pra ser dona do meu barracão.

Daí, um senhor de mais idade, chegou para nós, para mim e minha mulher, e disse:

— Estão vendo? Essa juventude está perdida. Só pensa em cachaça.

Quando faltavam uns 250 kilômetros para chegarmos em Fortaleza, fomos impedidos de continuar, pois, devido a uma fortíssima tromba d'água, o asfalto tinha-se rompido.

Por sorte, bem perto de onde ocorreu o acidente, havia um paradouro, que oferecia comida e pouso. A estrada só iria ser consertada no outro dia.

Quando já havíamos combinado que dormiríamos ali (em diversas redes), chegou outro ônibus. O motorista disse:

— Cada um retome o mesmo lugar que tinha no outro ônibus para não haver confusão. Um dos nossos estava ocupado justamente por aquele senhor que tinha deplorado a juventude. Ele estava num tal porre que adormeceu tão profundamente e se encontrava com os dentes absolutamente cerrados, de modo que sua mãe não o conseguiu acordar.


***


Quando morava em Iraí, no inverno, tinha bastante tempo livre. Uma das coisas que fazia para preenchê-lo, era corresponder-me.

Foi assim que conheci o cego paulista Elcio Fernandes. A esposa dele enxerga bem, e eles gostavam muito de viajar.

Estiveram em nossa casa, assim como em diversas outras cidades, tanto do Rio Grande, como do Brasil, tendo ido até à Bolívia.

Em 1983, pretendendo fazer uma pesquisa sobre meios auxiliares para o exercício do processamento de dados, e tendo em conta que em São Paulo havia uma porção de cegos trabalhando na área, e com recursos inexistentes por aqui, resolvi conhecê-los de perto.

Combinei com o Elcio e, certo dia de julho, tomei um ônibus aqui, desci em São Paulo, informei-me com alguém da rodoviária de lá, tomei o metrô mais outro ônibus, até que cheguei na casa do meu amigo.

Ele trabalhava durante o dia. À noite, orientava-me. Eu dizia-lhe onde desejava ir (Serpro, Banco Itaú de tal rua, outro setor daquele banco, em bairro totalmente diferente), e ele dava-me todas as "dicas". Até eu impressionava-me com o domínio que o Elcio tinha (e tem) da cidade de São Paulo, pois sabe que ônibus tem que pegar para ir a qualquer lugar. E vejam que São Paulo não é do tamanho de Porto Alegre...

Aliás, em janeiro de 1969, já me tinha aventurado pela "terra da garoa".

Como Secretário da Associação de Cegos do Rio Grande do Sul, sugeri que se tentasse, junto à então Fundação para o Livro do Cego no Brasil, a impressão em Braille dos estatutos da entidade, além de se buscar subsídios para o bom funcionamento da ACERGS, já que a Fundação contava vinte e três anos de bons serviços prestados aos cegos brasileiros, não só quanto à impressão de livros em Braille, como também na área da reabilitação.

Fui sozinho, de ônibus e, além disso, ainda dei uma "esticada" até o Rio de Janeiro, onde providenciei o registro dos diplomas de vários colegas massagistas, no Departamento Nacional de Fiscalização da Medicina.

Além das duas viagens internacionais que já mencionei (Venezuela e Peru), em outubro de 1998 fui a Madri e Lisboa, sozinho, numa viagem de dez dias, com o objetivo de conhecer a Organização Nacional dos Cegos Espanhóis e a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal. Em Madri, andei sozinho de metrô, e em Lisboa, caminhei muito, principalmente para manter um contato mais direto com o povo e com a cidade.

É claro que, em viagens, o fato de não se enxergar, dificulta um pouco, principalmente quando se deseja procurar alguma coisa, algum produto; mas, é dificuldade que se encontra aqui também, não é?...

A propósito de os cegos quererem viajar (e viajarem), encontrei um artigo na revista LOS CIEGOS EN EL MUNDO, editada pela UNIÃO MUNDIAL DE CEGOS, intitulado 'DERECHOS, NO CONCESIONES — EL VALOR DEL TURISMO PARA LOS CIEGOS' — por ENZO TIOLI, a respeito do qual, faço alguns comentários, que reputo oportunos:

Começa o articulista, por lembrar que, já na Declaração dos Direitos Humanos, está claro que todos têm direito de usufruir das belezas naturais e das obras de arte existentes, salientando que isso é direito, não concessão.

Depois, oportunamente, adverte que, a situação de uma pessoa cega não é a mesma de alguém que enxerga mas que, momentaneamente, encontra-se com os olhos vendados. Ao contrário deste, aquele mantém perfeita noção de espaço e localização.

Independente das diversas teorias a respeito da capacidade de percepção dos cegos e do real prejuízo determinado pela falta do sentido da visão, lê-se no referido artigo, que "a experiência cotidiana direta demonstra que os cegos, apesar de serem caracterizados como deficientes sensoriais, possuem uma estruturação completa e uma organização interna que lhes permitem elaborar os dados que a experiência proporciona, de maneira tal que, a informação final sobre o meio-ambiente não é, salvo casos muito excepcionais, desprovida dos elementos essenciais.

O autor do artigo cita uma metáfora utilizada por CUTSFORTH, segundo a qual, um motor de quatro cilindros, conquanto seja menos potente, nem por isso é incompleto em relação ao de seis.

«Os cegos têm uma representação específica do meio-ambiente que, apesar de ser mais pobre do que a dos "videntes", como escreve Pierre Henri, permite-lhes "sentir a natureza, experimentar prazer em viajar, distinguir e diferençar pessoas e coisas de modo suficiente para experimentar, em relação a elas, atração ou repulsa». Depois de demonstrar que o meio físico é riquíssimo em estímulos não visuais, os quais, por sinal, provocam emoções também nas pessoas que enxergam, Henri continua: "Com efeito, no caso do cego, a casa, o jardim, o rio, o bosque, a montanha, a praia possuem, como diz Maurice de la Sizeranne, sua fisionomia olfativa e acústica, que continuam com seu potencial emocional, e que conferem a cada paisagem um caráter próprio".

Aliás, Pierre Villey, professor cego francês do início do século, alerta que, inclusive para os "videntes", nem sempre as viagens têm o objetivo de contemplar a natureza. Além das viagens de caráter profissional, pode-se viajar com o intuito de quebrar a rotina do dia-a-dia, modificar ou ampliar o horizonte intelecto-cultural, entabular novas relações... Em seu livro, afirma que "viajar significa viver, implica provar a si próprio que se é capaz de realizar algo, significa por-se ao nível dos demais".

Apesar de uma pessoa cega não poder ver detalhes dos lugares por onde passa, a simples menção do nome de uma cidade, de uma ponte, de um monumento ou de um rio faz com que sua memória apresente-lhe um sem-número de fatos ocorridos quando da visita a eles. E essa imaginação, e essas lembranças, talvez sejam mais vivas do que aquelas guardadas por quem os viu.

FIM
 

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in VENDO A VIDA COM BONS OLHOS
—A História de um Cearucho—
por FRANCIMAR TORRES MAIA

 


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[21.Fev.2016]
Publicado por MJA