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 Sobre a Deficiência Visual


Baltasar Dias, o Poeta Cego

Alberto Figueira Gomes

El ciego y los romances - Jose Gutierrez Solana
'El ciego y los romances' - quadro de Jose Gutierrez Solana

 

I      O POETA CEGO DA YLHA DA MADEIRA
1. ― Dados biográficos
2. ― O alvará de Privilégio de 1537
3. ― O seu tempo ― uma época de mudança
4. ― Raízes culturais
5. ― O cego e as folhas volantes
6. ― O poeta lírico e cristão
7. ― A sátira e a crítica social
8. ― Corros, pátios e praças
9. ― As duas Censuras

II     O QUE O POETA ESCREVEU E O QUE CHEGOU ATÉ AOS NOSSOS DIAS
1. ― Autos de Devoção
2. ― Romances
3. ― Trovas
4. ― Obras desaparecidas

III    EXCERTOS DE OBRAS DE BALTASAR DIAS
Do «Auto do Nascimento»
Da «Malícia das Mulheres»
Da «História da imperatriz Porcina»
De «Conselho para Bem Casar»
 

I - O POETA CEGO DA YLHA DA MADEIRA

Não são abundantes os dados sobre Baltasar Dias, a sua pessoa e a sua existência, que se sabe ter decorrido entre os últimos anos do reinado de D. Manuel e os começos do de D. Sebastião, com passagem pelo de D. João III ― cerca de 1515 a 1560 ― este período, certamente, o mais bem documentado da sua vida.


1. Dados biográficos

Era natural da Ilha da Madeira. Cego. Recebeu Privilégio Real em 1537.

Quando e onde nasceu? Não resta dúvida que na Ilha da Madeira, conforme o afirma na petição a D. João III. Além deste testemunho, encontraremos em numerosas edições dosseus folhetos, a seguir ao seu nome, a identificação de «ceguo da ylha da Madeira», mas ficam por esclarecer, o local, a freguesia onde nasceu, e, bem assim, a sua filiação.


2. O Alvará de Privilégio de 1537

Livreiros desonestos imprimiam os seus folhetos sem pagarem os devidos direitos, o que constituía roubo infamante, ainda por cima por tratar-se de um cego. Decidiu então o poeta requerer a D. João III o privilégio de só ele poder imprimir e vender essas composições da sua autoria. Seguia assim as pisadas de Gil Vicente que obtivera de el-rei D. Manuel, em 1516, privilégio semelhante ao que fora concedido a Garcia de Resende para o Cancioneiro: «Que nenhũa pessoa o possa emprimir, nem trova que nelle vaa, sob pena de duzentos cruzados, e mais perder todollos volumes que fizer.»


D. João III concedeu-lhe licença em alvará de 20 de Fevereiro de 1537, que, a seguir, vamos transcrever:

«Dom Joham etc., a quantos esta minha carta virem faço saber que Baltesar Dias, ceguo da ylha da Madeira me disse por sua petyçam que tem feitas algũas obras assy em prosa como em metro, as quaes foram já vistas e aprouadas e algũas dellas ymprimidas, segundo podia ver por um pubrico estromento que perante mim apresentou.
E por quanto elle quer ora mandar ymprimir as ditas obras que tem feitas e outras que espera de fazer, por ser homem pobre e nam ter outra ymdustria para viver por o caricimento de sua vista senam vender has ditas obras, me pidia ouvesse por bem, por lhe fazer esmolla, dar-lhe de privilegio pera que pessoa algũa nam possa ymprimir nem vender suas obras sem sua licença, com certa pena.
E visto todo por mim, ey por bem e mando que nenhum ymprimidor emprima as obras do dito Baltesar Dias, ceguo, que elle fyzer asy em metro como em prosa, nem livreiro algum nem outra nenhũa pesoa as venda sem sua licença, sob pena de quem ho contrairo fyzer pagar XXX cruzados, ametade catyvos e a outra ametade para quem o acusar. E porém, se elle fyzer algũas obras que toquem em cousa de nossa santa fee, nam se ymprimam sem primeiro serem vistas e enjaminadas por mestre Pedro Marguallo, e vindo por elle vistas, e achando que não falla em cousa que se nam deva fallar, lhe pase diso sua certidam, com a qual certidam hey por bem que se ymprimam as taes obras e doutra maneira nam.
Notefyquo asy a todos corregedores, juízes, justiças, oficiaes e pesoas a que esta minha carta for mostrada, e mando que asy se cumpra sem duvida nem embarguo algum. Dada em minha cidade d’Évora aos XX de fevereiro. Anrique da Mota a fez, anno do nacimento de noso senhor Jesu Christo de mil D e XXXVII anos.»
 

Tragédia do Marquez de Mantua de Baltazar Dias (1665)
Tragédia do Marquez de Mantua de Baltazar Dias (1665)


Além de conter dados seguros sobre Baltasar Dias, trata-se de documento do maior interesse para a história dos direitos de autor, visto que, pelo mesmo, se depreende que saíam reedições de obras sem conhecimento de quem as escrevera, e é justamente para evitar esse abuso que se proíbe nele que «pessoa algũa nam possa ymprimir nem vender» as da autoria do cego madeirense.

Pelo presente documento se fica a saber que a actividade literária de Baltasar Dias vinha já de alguns anos atrás, pois diz-se que «tem feitas algũas obras assi em prosa como em metro, as quaes já foram vistas e aprovadas e algũas dellas ymprimidas». Mas, condiciona as obras futuras a um exame prévio ― zelo excessivo que acrescenta à censura da autoridade eclesiástica a do poder civil, desempenhada, neste caso, por mestre Pedro Marguallo.

Já era demais, duas Censuras, para uma obra só! Com este Privilégio fica, pois, Baltasar Dias, protegido da contrafacção; e não é ilógico pensar-se que a sua situação económica melhoraria. Tivera vida difícil, e não é sem razão que, na petição lhe é atribuída situação de pobre. Não se sabe ao certo quantos anos viveu na capital, mas, por esta estrofe do Conselho para bem cazar, conclui-se que residiu, nos últimos tempos, na Beira, a mesma vasta região que, ao que parece, vira nascer Gil Vicente.
 

Vossa fama pregoeira
me faz esta vos mandar,
posto que estou nesta Beira
tão remoto de trovar
que não faço trova inteira.
Vede o que pode fazer
o que mora numa aldeia…

Teria sido sepultado na capital ou nessa aldeia beirã, onde se acolhera, não se sabe por que motivos e em casa de quem. Sabemos, apenas, que a sua acção se desenvolveu entre os derradeiros anos de D. Manuel e o fim do curto reinado de «O Desejado».
 

3. O seu tempo ― uma época de mudança

Assistia-se, então, ao alvorecer de um mundo novo que surgira com a viagem de circum-navegação de Magalhães, se alargara com a criação do comércio internacional, se esclarecia e se ilustrava, aproveitando- se de uma descoberta recente ― a imprensa.

O poeta madeirense fora testemunha da euforia do reinado de D. Manuel, com todas as suas exteriorizações magníficas próprias de um grande monarca. Baltasar Dias assistira à invasão da pimenta e da canela da Índia «cujo cheiro despovoava o reino», na expressão de Sá de Miranda.

Vivera naquele período de fatuidades herdadas do Rei Venturoso e da prosperidade enganosa. Atravessara o poeta todo o reinado de D. João III, assistira à instituição do tribunal inquisitorial e teria saudado, do fundo do seu coração, o Rei D. Sebastião, figura gentil de monarca e de cavaleiro medieval.


4. Raízes culturais

Tendo conhecido três monarcas, enquadrado numa sociedade em que a sua situação económica e a sua deficiência física não teriam sido objectivadas, Baltasar Dias tentou lutar e vencer com a sua fé e à custa do fruto do seu labor intelectual, não usado em escaramuças e polémicas, mas numa linha em que a seriedade moral e a sobrevivência muito têm a dizer.

Que ideias tinha, que formação intelectual recebera para poder manter uma produção literária regular, que não é exígua e que se exigia variada e atraente?

A avaliar pelo que dele conhecemos, a sua cultura é mediana. Manejava com elegância e propriedade a língua materna, de forma a poder tirar dela, junto de especiais auditórios, os melhores efeitos. Sabia empregar as palavras que iam direitas ao coração do povo. Não as mais difíceis, mas as mais vivas e de maior impacto emocional. Conhecia, razoavelmente, o castelhano, pois usa-o no diálogo dos pastores do Auto do Nascimento ― conquanto de mistura com o «sayaguês» ― e numa glosa sobre o poema Conde Alarcos, que se conhece na versão portuguesa de Garrett.

Estava em voga, já do tempo do Rei Venturoso, escrever teatro em espanhol: Gil Vicente e, mais tarde, Simão Machado, têm peças totalmente escritas nesse idioma. Com frequência, emprega expressões latinas, o que faz trazer ao de cima a hipótese de Ernesto Gonçalves: «Em qualquer lugar da Madeira, ele seria ensinado, nesses tempos, por algum clérigo douto ― enquanto à sua volta avançavam os trabalhos da povoação…»

É certo que esse latim litúrgico era usualmente empregado, e, conhecia-o, portanto, qualquer cristão mais devoto e frequentador de actos religiosos, mesmo que não tivesse tido mestre da especialidade. Trata-se do velho latim tabeliónico que, no fim da Idade Média, correspondia a uma erudição muito desacreditada e que a Renascença não só ridicularizaria como poria de parte.


5. O cego e as folhas volantes

Era cego, mas nos seus versos nunca falará dessa deficiência física que, possivelmente, poderia constituir um tema emocional junto do seu público. Há um pudor íntimo no cego que o faz, naturalmente, repelir a ideia de confessar a sua própria cegueira. E, se puder, ilude quem o observa.

Vendia o produto da sua lavra, que era material de comércio de uma grande parte dos cegos da Europa medieval. «Nas línguas germânicas, cego é sinónimo de cantor e poeta» ― escreve Teófilo ― «e essa relação ideológica expressa pela mesma palavra encerra uma observação psíquica primitiva».


Sempre houve, de certo modo, alguma música onde havia cegos. Gil Vicente, quando se refere ao número de músicos chamados para distrair a corte de D. Manuel, fala-nos de um cego músico:

Música vimos chegar
a mais alta perfeição
Sarzedo, Fontes cantar,
Francisquilho assi juntar
tanger, cantar, sem rezão.
Arriaga, que tanger
o Cego! que gram saber
nos orgãos! e o Vaena…


Mas se quiséssemos remontar no tempo, veríamos no século V um ermita da Síria recolher cegos, ensinando-lhes, entre outras coisas, a cultura e a música.

S. Luís, rei de França, no século XIII, funda o Hospice des Quinze ― Vingts, com estatutos e privilégios próprios, onde se formavam sucessivamente, 300 cegos, entre os quais numerosos na arte musical.

Em Portugal, vemos os cegos ― músicos e cantadores, ligados à venda dos «pliegos sueltos». Mas, cegos ― nesses recuados tempos ― com razoável cultura como a que se pode sem custo, atribuir a Baltasar Dias, não seriam muito numerosos entre nós.

D. Carolina Michaëlis assinala esse facto, informando que, no país vizinho, houve bastantes, entre os quais «Alonso Bezerro, Cristobal Bravo, Francisco Godoy, etc.». E quanto aos cegos portugueses, escreve em Romances Velhos em Portugal: «…Não eram na maioria cultos. A maior parte, preferia vender folhas volantes, rezar orações pelas portas e recitar contos e cantigas ao som da viola.»

Ao cego está também ligada, com frequência, a acção de pedir e cantar. Assim se regista no romance 'O Cego' que Garrett recolhe no seu Romanceiro:

― Minha mãe acorde
desse seu dormir;
Venha ouvir um cego
cantar e pedir.
― Se ele canta e pede
dá-lhe pão e vinho,
para o triste cego
seguir o caminho.


Naquela Lisboa quinhentista, recortada de edificações lançadas um pouco à toa, toda dividida em «sítios» mais que artérias urbanística e sensatamente delineadas, aberta, aqui e ali, em espaços irregulares fronteiros a templos, conventos, casas nobres, era certo encontrar, com muita frequência, o cego que tangia uma viola, vendia folhetos a cinco e dez reis, e, muitas vezes, cantava ou recitava a letra, que toda ela vinha impressa no «pliego suelto», enfiado num barbante e transportado ao ombro como mercadoria valiosa.
 


Cego vendedor de livros de cordel, séc. XVIII

O cego-cantor fazia parte do panorama humano da cidade, e lá estava, justamente nos locais onde o movimento era mais intenso: nos adros de S. Domingos ou de S. Nicolau, na Rua Direita da Mouraria ou no Mercado de São Bento. Rodeavam-no crianças, pedintes, marujos, escravos e regateiras, gente humilde que seguia com a vista e o ouvido o fio de uma história maravilhosa ou trágica, que, quase sempre, fazia aflorar lágrimas aos olhos do auditório.

Não é difícil ter-se uma ideia da situação de que os narradores de histórias desfrutavam junto do povo no século XVI, se compreendermos que seriam quase as únicas fontes de informação e de comunicação no tempo de que as multidões podiam dispor. O narrador de acontecimentos extraordinários era, por assim dizer, o meio mais próximo e mais rápido: a palavra sobrepunha-se à imagem, mas aquela ganhava proporção e ampliava-se ao contacto com o calor emocional da multidão.

Satisfazia-se a curiosidade, mas, simultaneamente, oferecia-se ensejo de fazer vibrar as cordas do coração e alargar um pouco o conhecimento, quanto aos homens e aos acontecimentos. O cego era, pois, escutado com expectativa e sede de conhecer e de saber.

Será ousado afirmar que esse cantador invisual está no início dos meios de comunicação social como um veículo humano precioso que não servia somente a curiosidade popular, mas contribuía, dalgum modo, para a formação de uma cultura, é certo, que muito ao nível rasoirado do povo inculto, mas, apesar de tudo, uma forma e um meio de fazer chegar ao homem analfabeto o lampejo de um esclarecimento e o sinal de uma inspiração?

Que dalgum modo assim é, está patente o facto do número elevadíssimo de edições das folhas volantes, cuja leitura era sofregamente escutada em família e em grupos, sobretudo de analfabetos, que, não obstante a incapacidade de ler, adquiriam e guardavam zelosamente os exemplares comprados nas feiras e praças. Não é sem razão que se diz que Baltasar Dias era o mais amado do povo, de quantos autores navegavam nessa linha modesta da literatura de cordel.

Ele era simultaneamente o autor e actor das trovas que cantava em público, e, quanto aos autos, alguns teriam tido também a forma de romance e seriam por ele cantados nas ruas ― atrairiam aos pátios e corros numerosa gente que assim se ia habituando a escutá-lo, um pouco por toda a parte, elegendo-o, por fim, como preferido entre os demais produtores do género.


6. O poeta lírico e cristão

Que motivos e ideias povoaram a sua mente e entraram nas suas preferências artísticas, desde muito jovem? Que fontes de inspiração teve para realizar uma obra tão prontamente acolhida pelo povo? Baltasar Dias é um homem da Idade Média, nascido sob o olhar maternal da Igreja, mas é, também, um poeta de alma sensível que, privado da vista, tenta ver e mostrar o que há de belo no esforço humano, quando este tenha por objectivo alcançar o céu.


Auto de Santa Catharina - Baltasar Dias (1616)
Auto de Santa Catharina - Baltasar Dias (1616)

 

O seu estilo transparece grave, sentencioso, nobre nos autos de Santo Aleixo, de Santa Catarina, do Nascimento de Cristo e na Tragédia do Marquês de Mântua. Terá influído nesse estilo, ou melhor, na sua arte de criar, a triste condição da cegueira?

O mundo de um cego povoa-se facilmente do maravilhoso que as palavras e os objectos tacteados possam fazer sugerir à mente privada dos reflexos respeitantes à cor, ao volume e ao relevo. Com a ausência de visão física há uma visão interior, subjectiva, que empresta ao acto, ao sentimento, ao objecto, ao movimento, à pessoa, uma dimensão e tonalidades particulares ― se é que se pode falar em tonalidades na linguagem de cegos. Tudo depende de uma íris oculta que, no cego, tem um campo de visão interior superior ao das pessoas normais.

É possível que os retratos físicos das figuras do seu teatro pequem por pobreza estética e por escassez de pormenores plásticos, mas ninguém lhes pode negar um grande poder de expressão e de comunicabilidade, com superabundância de manifestações intimamente ligadas ao carácter, tudo revelando uma análise psicológica exigente e profunda.

Para um cego, a palavra está acima e para além da visão. Daí o uso cuidado, amoroso, que Baltasar Dias dela faz, pois com a palavra tentará suprir insuficiências, pressentindo o que está para além da cortina negra da sua cegueira, e devolvendo, ainda em palavras, a visão de um mundo suspeitado onde os gestos se apagam um pouco para que as atitudes morais se sobreponham a tudo o mais, como manifestação pura e íntegra. A palavra assume nele uma expressão sempre iluminada pelo espírito e aquecida ao calor do coração. Por isso o poeta lírico avantaja-se ao fiel pintor de humanas situações.


7. A sátira e a crítica social

Visto habitualmente como autor de estilo sério, melancólico, messiânico, Baltasar Dias, todavia, não deixa de mostrar, quando pode ou quando quer, o espírito pronto para a facécia ― em graça espontânea, por vezes licenciosa, que Gil Vicente usou e de que abusaram, de certo modo, alguns continuadores, nomeadamente Chiado.


Malícia das Mulheres - Baltasar Dias (1640)
Malícia das Mulheres - Baltasar Dias (1640)


A Velha, os Judeus, os Pastores e o Vilão de Baltasar Dias usam de uma linguagem muito livre, por vezes, com sentido duplo e à maneira da gente mais rude, desabrida e desbocadamente. Não há exemplos desses nos dois autos de Vidas de Santos, mas no do Nascimento em larga escala, e, bem assim, nas trovas. A sua linguagem sempre grave apropria-se então dos termos mais populares e torna-se muito livre, perdendo em compostura o que ganha em desenvoltura.

Não é difícil verificar que a sua galeria de tipos sociais é restrita e, ele próprio, não foi um espírito adestrado no exercício de uma observação meticulosa do meio, dos homens e dos ridículos que o rodeavam. Talvez a carência de vista tenha concorrido para esse retraimento. Cremos, todavia, que a ausência de crítica ao clero deriva antes da sua formação religiosa e da educação recebida, talvez na própria terra natal e prosseguida na capital.


8. ― Corros, pátios e praças

Onde se representavam os autos de Baltasar Dias? Não custa crer que algum deles tivesse por cenário o templo, nomeadamente o da Natividade ou o da Paixão, mas também não devemos esquecer que os dois campos de acção ― a Igreja e o teatro profano ― iam cada vez mais se extremando. Por outro lado, o templo ter-se-ia tornado insuficiente para conter o número de fiéis que acorria, e, então, acolher-se-ia o adro para cena do «mistério» e do drama hierático. Mas havia ainda maiores inconvenientes, de entre os quais as frases impróprias proferidas dentro do templo, o que levaria, e acertadamente, à proibição de certas representações.

Em que teatros, corros ou praças se desenrolavam os autos de Baltasar Dias? Nalgum modesto teatro de Lisboa, num pátio ou corro, na praça da Ribeira das Naus, no Cano Real, sobre um estrado improvisado, de dia ou de noite, à luz dos archotes de alcatrão.


9. ― As duas Censuras

As Censuras descarregaram também sobre os autos de Baltasar Dias o seu peso policial e depurador, que tanto se fez sentir na obra de Gil Vicente e dos continuadores, mais nuns, noutros menos. Sopravam na península os ventos das chamadas ideias heréticas, vindas de longe, e havia que organizar os meios de contra-ataque, em defesa do que, então, parecia uma civilização ameaçada.

Houve exageros e desmandos; e de tal ordem que as liberdades foram coarctadas; o extremado zelo pela integridade das doutrinas, chegaria a fazer considerar a imprensa ― uma novidade revolucionária ― como o mal maior e inimiga das grandes linhas de acção e dos princípios consagrados. A censura inquisitorial começa, então, a exercer a sua absorvente missão, provocando o descontentamento e a revolta nos espíritos, naturalmente ciosos de liberdade.

Com a censura caminha-se decididamente para o afrouxamento da criação artística, às vezes não tanto pelos cortes exercidos, mas mais pela atmosfera de medo que se criava e que punha de sobreaviso o artista, receoso das consequências sempre funestas advindas da reprovação oficial de exigentes juízes e censores. O artista, antes que fosse visado, submetia-se ele próprio ao seu tribunal de consciência: vai, temente, cortando aqui e ali o texto, que ficará, por fim, como uma pobre árvore podada, sem ramos e sem florescência. Não há, pois, só a lamentar o mal que os censores produziram, podando, mas a mediocridade a que deram lugar pelas vias do temor.

Não fora a censura inquisitorial e hoje, certamente, poderíamos dispor da bibliografia completa de Baltasar Dias. Assim que uma obra era censurada, fazia-se imediata recolha de anteriores edições: tudo desaparecia rapidamente, porque a posse de obra não censurada poderia ter consequências muito desagradáveis, que ultrapassavam a queima dos livros; podia levar o detentor a ferros, como sucedeu com frequência.

Assim desapareceram edições valiosas de Baltasar Dias e de outros autores, alguns dos quais foi possível reaver, porque havia exemplares na Biblioteca Nacional de Madrid.

Estão neste caso os Autos do Nascimento e de Santa Catarina, de Baltasar Dias. Têm sumo interesse, porque são edições não expurgadas pelas Mesas Censórias, contendo, pois, o texto integral.

 

II - O QUE O POETA ESCREVEU E O QUE CHEGOU ATÉ AOS NOSSOS DIAS

O privilégio concedido por D. João III a Baltasar Dias prova que o poeta, ao fazer a petição, tinha já um passado literário de certa monta: «…me disse por sua petyçam que tem feitas algũas obras assy em prosa como em metro… ».

Das obras em prosa, nenhuma chegou aos nossos dias e nem delas dá existência o Index Expurgatório, como deu doutras em verso, desaparecidas. Romances chamados velhos, histórias de cavalaria, vidas de santos, epistolografia moralista?

Debrucemo-nos, pois, sobre a razoável bibliografia existente ― toda em metro ― e que pode fornecer-nos uma ideia muito aproximada das suas potencialidades e possibilidades como poeta e dramaturgo popular.


1. ― Autos de Devoção

Considerando a natureza dos temas tratados, classificam-se de Autos de Devoção os três que o poeta nos legou: um, tirado da Bíblia Sagrada ― o Auto do Nascimento; e dois, do hagiológio da Igreja Católica ― Santo Aleixo e Santa Catarina.

Não diferem substancialmente uns dos outros quanto à carpintaria ― as cenas sucedem-se às vezes sem grande sequência; introduz-se a música e os cânticos religiosos, valorizando assim a narração, e fornecendo a esta o comentário precioso da liturgia.


2. ― Romances

A «TRAGÉDIA DO MARQUÊS DE MÂNTUA», de Baltasar Dias, é um desses velhos romances do ciclo de Carlos Magno que despertaram vivo interesse no seu tempo, tendo sido glosados por inúmeros vates em todos os tons, já ao nível palaciano, já ao tom da camada popular.

AUTO DO PRÍNCIPE CLAUDIANO ― Pertence a uma série de contos tradicionais que tiveram voga na França e em toda a Europa Medieval, e que, posteriormente, se projectaram na península.

HISTÓRIA DA IMPERATRIZ PORCINA ― Foi dos romances mais famosos deste poeta popular. Ainda hoje se fazem edições em Portugal e sobretudo no Brasil. O poeta emprega nesta história a velha assonância das rimas em ia, processo usado largamente no Cancioneiro de Resende, nos romances de D. Egas Monís e de D. Inês de Castro em ado, no do Duque de Guimarans em al, etc.


3. ― Trovas

Conquanto ― e já atrás o dissemos ― se afirme a sua personalidade literária como «poeta sério», não é de minimizar a veia satírica, de que dá testemunho, não só nas duas trovas Malícia das Mulheres e Conselho para Bem Cazar, como, também, nalgumas cenas do Auto do Nascimento. São sátiras populares, em quintilhas, de sete sílabas, cheias de conceitos graciosos, por vezes muito mordazes, mas aos quais o poeta adiciona o tom grave da moralidade. São poesias tecidas ao gosto dos auditórios populares, sem elevação, mas sempre urdidas com habilidade e engenho. Faz crítica social ― e essa é a chave do êxito de um cego cantador de rua como foi do jogral e do trovador medievo. As sátiras incidem, sobretudo, sobre costumes, nomeadamente os desaguisados conjugais, o luxo e a presunção de certas mulheres.

A mulher vista através dessa crítica é bem o tipo e a expressão acabados de uma época, que dela apenas exigia que fosse um belo ornamento e uma boa mãe de filhos. Mas, já que não auferia ganhos que, ao menos, não se tornasse num encargo demasiado pesado para o marido, única via de receitas para os gastos domésticos.


CONSELHO PARA BEM CAZAR
Trata-se de uma carta em verso ― em quintilhas ― que Baltasar Dias, residindo então na Beira, endereça a um poeta da capital de «fama pregoeira». E sente-se com autoridade para dar-lhe conselho, pois tal missão é dever do cristão: aconselhar «é uma das sete obras pias».

Começa por lembrar que com receio ao mau casamento não se vá ficar solteiro, levando ainda vida pior, sobretudo com ligações extramatrimoniais com mulheres «de partido». Procura o homem, aqui e ali, o gozo carnal e «quem muitos caldos prova / algum o há- de escaldar». Doenças venéreas o obrigarão a andar de muleta; se casa, leva consigo esses males franceses, com os quais contamina a esposa, que, ao ir tratar-se da moléstia ao mestre, poderá ser considerada por este como mulher «de partido» que dum e doutro apanhou doenças e não do próprio marido, que, prudentemente, não aparecerá como seu autor e origem. Que o homem use de prudência na escolha de mulher; mas, depois de escolher que seja até à morte.


MALÍCIA DAS MULHERES
Nesta trova usa o poeta o mesmo tom satírico do Conselho para Bem Cazar. Trata-se ainda de uma crítica, um pouco chocarreira, aos costumes a nível muito popular, de gente dos bairros humildes da capital, lares constituídos à pressa, onde há uns maridos pacientes e umas mulheres de «cabelo na venta», desabridas e gastadoras. Censura quantos vão para o casamento sem um mínimo de preparação, do que resulta terem de dizer como Marco Aurélio: «seis anos que fui casado / me pareceram seiscentos / trinta e seis que fui solteiro / me pareceram seis dias».

Recomenda aos maridos casados com «mulher formosa que se acautelem», porque de muitos é desejada. Não sendo possível encerrá-la em casa, urge que seja vigiada. Casar com uma mulher feia é, porém, um pesadelo, porque ela, querendo remediar a fealdade, em cada dia pedirá um vestido novo ao marido, para parecer melhor.


4. ― Obras desaparecidas

Outras obras escreveu e publicou o poeta, das quais temos conhecimento através do Index Expurgatório e de referências várias em livros da época. Desapareceram, não só porque não foram re-impressas, mas porque teriam sido alvo da Censura ― e os exemplares existentes eram, muito naturalmente, destruídos pelos próprios possuidores.

Dessas obras desaparecidas, contam-se:

  • ― Trovas de arte mayor sobre a morte de D. João de Castro
  • ― Auto da Feira da Ladra
  • ― Glosa: Retrayda la Infanta
  • ― Auto del Rey Salamam
  • ― Auto breve da Payxão

 

III - EXCERTOS DE OBRAS DE BALTASAR DIAS


Do « AUTO DO NASCIMENTO»


Entra hua Velha praguenta e diz:

VELHA
Praza deos que má doença
e que má dor despinhela
mau quebranto de canela
má caganeira e corença
mau inchaço de guela;
má caidura de sela
mau couce de ferradura,
má febre e má quentura,
má dentada de cadela.
Má dor de gota coral
e de pedra e de virilha,
e mau vinho, com mau sal
e má sardinha de pilha
que te faça embebedar.
E má cor de ourinar
que te falte na bexiga
e mau frio na barriga
mau quebranto no padar,
mau trabalho, má fadiga.
Hua velha amargurada
que anda em vias de parir,
com a barriga pejada
diz que por força há-de ir
por tal neve e tal geada.
Má dor de praga raivada
venha pelo Imperador,
pois tal costume quis pôr
má corença abreviada
lhe entre no salvanor.
Que farei triste, coitada
com tal trabalho e marteiro,
má dor de gata escaldada
lhe atravesse o pousadeiro,
permeta da comiada.
Mau inchaco de queixada
má dor de dente queixal,
mal trabalho corporal
que lhe entre na buchada
que o môa como sal.
Quero me ora assentar
que já me não posso ter,
e a quem me assim faz cansar
inda o veja deitar
para nunca mais se erguer.
Que não abasta inscrever
senão pagar-lhe tributo
os que não têm que comer;
mau proveito e mau fruito,
lhe faça quanto tiver.


Hir-se-á a Velha e entra Nossa Senhora e Joseph e diz:

NOSSA SENHORA
Meu esposo mui amado
se a vós vos parece bem
pelo que está ordenado
eu tenho determinado
que vamos nós a Belém.
Bem sabeis que nos convém
de irmos a obedecer
a César e seu poder,
pois que não fica ninguém
que se não vá inscrever.
E, portanto, ordenemos
esposo, de caminhar,
e, também determinemos
do tributo lhe pagar
desta pobreza que temos.

JOSEPH
Senhora, mui bem faremos
mas de que se pagará?

NOSSA SENHORA
O nosso boi venderemos
que depois Deus nos dará
com que nos remediemos.

JOSEPH
Senhora, pois assim é,
vamos, não tardemos nada;
mas é comprida jornada,
não podereis ir a pé,
porque estais muito pejada.

 

Da « MALÍCIA DAS MULHERES»


No que digo podeis ver
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.

 

História da Imperatriz Porcina com texto de Cristina Bizarro a partir de um texto de Baltazar Dias e encenação de José Mora Ramos. Espectáculo produzido pelo Teatro do Tejo e estreado a 15 de Abril 2004 no Forum Romeu Correia, em Almada.
'História da Imperatriz Porcina' (a partir do texto de Baltazar Dias)Teatro do Tejo (2004)

 

Da «HISTÓRIA DA IMPERATRIZ PORCINA»


Como a noite foi chegada
às horas que anoitecia,
manda que seja levada
por dois homens de valia;
com ela, duas mulheres,
para ir em companhia
para que fosse guardada
sua honra como devia.
Em um navio veleiro,
a Imperatriz se metia
com lágrimas de seus olhos
da terra se despedia.
Chegaram à dita ilha,
à noite do outro dia,
a princesa deixam em terra
com grão choro em demasia.
Tornaram-se com o navio
porque assim fazer cumpria.
Quando a nobre imperatriz
em tal lugar só se via
numa ilha tão deserta,
onde ninguém não vivia
senão bravos animais
de que ela manjar seria,
chorando lágrimas tristes
desta maneira dizia:
― Ó meu nobre Imperador
meu bem e minha alegria
não pouca é vossa lembrança
de quem tanto vos queria.
Quão pouco tempo durou
vossa doce companhia!
Sempre cuidei de vos ver,
algum tempo ou algum dia,
agora por meus pecados,
eu mais nunca vos veria.
Deus perdôe a vosso irmão,
a Virgem Sancta Maria,
que eu lhe perdôo aqui
todo o mal que me fazia.
Ó Senhor, e ó meu pai,
Príncipe e Rei da Ungria,
quão triste vida será
a vossa, sem alegria,
em ouvindo tão má fama
que em Roma de mim corria!
Mais sinto vosso pezar,
que minha grande agonia,
porque morrerei uma vez,
vós morrereis cada dia.
A vossa desonra sinto,
que a morte não a temia;
porque mais há-de temer
que tão sem culpa, morria.
Estas palavras dizendo
mui grande ruido ouvia,
tão terrível e espantoso
que sofrer-se não podia,
Ouvindo isto a Senhora
a força lhe falecia,
como era delicada,
Estes eram animais
em terra logo caía
de muitos que na terra havia,
que tanto que a sentiram
com gram pressa em demasia,
correram para a comerem
cada um qual mais podia.
Antes que a ela chegassem
um resplendor aparecia.
Ficaram todos quedos,
com o temor de uma Senhora
de quem o inferno tremia,
logo vinha com majestade
a Virgem Santa Maria,
para guardar a limpeza
de quem se a ela recorria.

 

De «CONSELHO PARA BEM CASAR»
 

Escolha, quem quer casar;
contente-se com sua sorte,
pois a não pode enjeitar
e esta lhe há-de durar
até que os aparte a morte.
Não queira só fermosura
mas busque dote também;
porque se esta o não tem,
terá muito má ventura
e não no verá ninguém.
Porque é muito arriscada
fermosura com pobreza,
em uma mulher casada;
e se lhe falta, desespera;
virá ser mulher errada.
Porque o não ter que gastar
e sustentar vaidades,
dá ao mundo em que falar
e, às vezes, o murmurar
vem a parar em verdades.
Pois se acaso não tiver
um pouco de fermosura,
que há-de o pobre fazer?
E quem tal vida atura
melhor lhe fôra morrer.
Busca logo outra fermosa,
com quem gasta quanto tem,
e disto, tanto mal vem,
que sua mulher, de irosa,
se faz má mulher, também.
E ao fim desta jornada,
depois da bolsa estar raza
de não deitar de si nada,
logo a fazenda é gastada,
e tem a mulher em casa.


 

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excerto da obra:
"Poesia e Dramaturgia Populares no séc. XVI ― BALTASAR DIAS"
autor: Alberto Figueira Gomes
Instituto de Cultura e Língua Portuguesa
Ministério da Educação
Biblioteca Breve / Volume 77
1.ª edição ― 1983

fonte do texto: Instituto Camões
 


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[15.Nov.2015]
Publicado por MJA