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 Sobre a Deficiência Visual


A Aventura de Um Míope

Italo Calvino

Oftalmoscópio indirecto in History of Ophthalmology <http://www.deficienciavisual.pt/r-History_of_ophthalmology.htm>
 

Amilcare Carruga era ainda jovem, não desprovido de recursos, sem ambições materiais ou espirituais exageradas: nada o impedia, portanto, de gozar a vida. E, no entanto, reparou que de uns tempos para cá essa vida para ele andava, imperceptivelmente, perdendo o gosto. Coisas à-toa, como, por exemplo, olhar as mulheres na rua; antigamente costumava lançar os olhos em cima delas, ávido; agora até procurava institivamente olhar para elas, mas logo tinha a impressão de que passavam correndo como um vento, sem lhe dar nenhuma sensação, e então baixava as pálpebras indiferente.

Antigamente as cidades novas o exaltavam — viajava com frequência, pois trabalhava no comércio —, agora só percebia nelas o aborrecimento, a confusão, a desorientação. À noite, antes, costumava — vivendo sozinho — ir sempre ao cinema: divertia-se nisso, com qualquer coisa que levassem; quem vai todas as noites é como se estivesse vendo um único grande filme em série: conhece todos os atores, até os figurantes e os extras, e já esse reconhecer a cada vez é divertido. Pois bem: até no cinema, afora, todas essas caras lhe pareciam ter se tornado desbotadas, sem relevo, anónimas; entediava-se. Por fim, entendeu. Ele estava míope. O oculista lhe receitou um par de óculos. A partir daquele momento sua vida mudou, tornou-se cem vezes mais rica em interesse do que antes.

Cada vez que punha os óculos no nariz era uma emoção. Encontrava-se, digamos, num ponto de bonde, e era tomado pela tristeza de que tudo, pessoas e objetos ao redor, fosse tão genérico, banal, desgastado em ser do jeito que era, e ele ali se debatendo em um mundo de formas frouxas e cores esmaecidas. Punha os óculos para ler o número de um bonde que chegava, e então tudo mudava; as coisas mais corriqueiras, até um sarrafo de andaime, desenhavam-se com tantos detalhes mínimos, com linhas tão nítidas, e os rostos, os rostos desconhecidos, cada um deles se cobria de sinaizinhos, pontinhos de barba, espinhas, matizes de expressão antes insuspeitos; e as roupas, discernia-se de que pano eram feitas, adivinhava-se o tecido, observava-se o puído das costuras. Olhar se tornava um divertimento, um espetáculo; não o olhar uma coisa ou outra: olhar. E assim Amilcare Carruga se esquecia de verificar o número do bonde, perdia um depois do outro, ou então subia num bonde errado. Via tal quantidade de coisas que era como se não visse mais nada. Teve que se acostumar pouco a pouco, aprender desde o começo o que era inútil olhar e o que era necessário.

E então as mulheres com quem cruzava pela rua e que uma vez se tinham reduzido para ele a impalpáveis sombras fora de foco, agora o poder vê-las com o exato jogo de côncavos e convexos que o corpo delas faz, se mexendo dentro da roupa, e avaliar o frescor da pele, e o calor contido no olhar, não mais lhe parecia apenas vê-las, mas já até possuí-las. Estava às vezes andando sem óculos (não os colocava sempre, para não se cansar inutilmente, mas só se precisava olhar para longe), e pronto: mais adiante na calçada despontava uma roupa de cor viva. Com um gesto já automático Amilcare imediatamente retirava os óculos do bolso e os metia no nariz. Esta indiscriminada cupidez de sensações frequentemente era punida: às vezes era uma velha. Amilcare Carruga se tornou mais cauteloso. E, às vezes, uma mulher que estava avançando lhe parecia, pelas cores, pelo porte, demasiadamente modesta, insignificante, para não se levar em consideração; não punha os óculos; mas depois, se ocorria de se roçarem, notava que pelo contrário havia nela alguma coisa que o atraía fortemente, sabe-se lá o que, e tinha a impressão de captar naquele instante um olhar dela como que de expectativa, talvez o olhar que ela já em seu primeiro aparecimento lhe enviara e ele não se dera conta; mas agora era tarde, ela desaparecera no cruzamento, subira no ónibus, estava longe depois do sinal, e ele não saberia mais reconhecê-la. Assim, devido à necessidade dos óculos, ia lentamente aprendendo a viver.

Mas o mundo mais novo que os óculos abriam para ele era o da noite. A cidade noturna, já envolta em nuvens informes de escuridão e de clarões coloridos, agora revelava divisões nítidas, relevos, perspectivas; as luzes tinham contornos precisos, os escritos em néon antes imersos num halo indistinto agora escandiam letra por letra. O bonito da noite, porém, era aquela margem de indeterminação que as lentes afugentavam à luz do dia, e que permanecia: Amilcare Carruga sentia o desejo de pôr os óculos e depois reparava que já estava com eles; a sensação de plenitude nunca emparelhava com o impulso da insatisfação; a obscuridade era o depósito de húmus sem fundo onde ele nunca se cansava de cavar. De sobre as ruas, acima das casas manchadas de janelas amarelas finalmente quadradas, erguia os olhos para o céu estrelado: e descobria que as estrelas não estavam esmigalhadas no fundo do céu como ovos quebrados, mas eram espetadelas agudíssimas de luz que abriam em torno de si lonjuras infinitas.

Essas novas preocupações quanto à realidade do mundo externo não se separavam das preocupações quanto ao que era ele mesmo, ainda devidas ao uso dos óculos. Amilcare Carruga não dava muita importância a si mesmo, porém, como às vezes acontece exatamente com as pessoas mais modestas, era extremamente afeiçoado à sua maneira de ser. Ora, a passagem da categoria dos homens sem óculos à dos homens de óculos pode não parecer nada, mas é um salto muito grande. Pense que, quando alguém que não o conhece tenta definir você, a primeira coisa que diz é: "um de óculos"; assim aquele acessório particular, que quinze dias atrás lhe era completamente estranho, torna-se seu primeiro atributo, identifica-se com sua própria essência. Para Amilcare, talvez até tolamente, tornar-se assim de repente "um de óculos" chateava um pouco. Mas não é tanto por isso: é que basta que comece a se insinuar em você a dúvida de que tudo o que lhe diz respeito é puramente acidental, passível de transformação, e que você poderia ser completamente diferente e isso não teria importância nenhuma, e eis que por esse caminho se chega a pensar que existir ou deixar de existir seria tudo a mesma coisa, e daí o passo que leva ao desespero é curto. Então Amilcare, tendo que escolher um tipo de armação, instintivamente optou por uma daquelas mais finas, minimizadoras, nada além de um par de delgadas hastes prateadas que seguram por cima as lentes nuas e com um cavalete as unem por cima do septo nasal. Assim continuou por um tempo; depois se deu conta de que não estava feliz: se inadvertidamente lhe acontecia se ver ao espelho com os óculos, experimentava uma viva antipatia pela sua cara, como se fosse a cara típica de uma categoria de pessoas estranhas a ele. Eram exatamente aqueles óculos tão discretos, leves, quase femininos que o faziam parecer mais do que nunca "um de óculos", um que nunca tivesse feito outra coisa na vida a não ser usar óculos, tanto que agora nem repara mais que está com eles. Passavam, aqueles óculos, a fazer parte de sua fisionomia, amalgamavam-se com seus contornos, e assim ficava atenuado qualquer contraste natural entre aquilo que era a sua cara — uma cara qualquer, mas sempre uma cara — e aquilo que era um objeto estranho, um produto da indústria.

Não gostava deles, e então não demoraram a cair e se quebrar. Comprou outro par. Dessa vez orientou sua escolha no sentido contrário: ficou com uma armação de plástico preto, uma moldura de dois dedos de largura, uns espigões com dobradiças que se destacavam dos zigomas como antolhos de cavalo, umas hastes pesadas de dobrar as orelhas. Era uma espécie de meia-máscara que lhe escondia metade da cara, mas ali debaixo ele se sentia ele mesmo: não havia dúvida de que ele era uma coisa e os óculos outra, completamente separada; era claro que só ocasionalmente ele usava os óculos e que, sem óculos, era um homem completamente diferente. Voltou — tanto quanto sua natureza consentia nisso — feliz.

Aconteceu-Ihe naquela época se deslocar, para certos negócios, até V. Era V. a cidade natal de Amilcare Carruga, e lá ele passara toda a juventude. Já a deixara, porém, havia dez anos, e seus retornos a V. sempre foram passageiros e esporádicos, e agora vários anos tinham passado sem que ele lá pusesse os pés. Já se sabe como é quando alguém se separa de um ambiente onde viveu por muito tempo: quando se volta a longos intervalos se estranha o lugar, parece que aquelas calçadas, aqueles amigos, aquelas conversas de café ou são tudo ou não podem mais ser nada, ou se acompanha tudo isso dia a dia ou não se consegue mais entrar, e a idéia de dar sinal de vida depois de muito tempo dá como que um remorso, e é afastada. Assim, pouco a pouco Amilcare não mais procurara as oportunidades de voltar a V., pois se houvera oportunidades ele as deixara passar, e por fim até as evitara. Mas nos últimos tempos, nessa atitude negativa para com sua cidade natal, entrava, além do estado de espírito definido agora mesmo, também aquela sensação de desamor geral que tomara conta dele, e que depois ele identificara com o progredir da miopia. Tanto é verdade que então, encontrando-se graças aos óculos em novas condições de ânimo, assim que surgiu uma oportunidade de ele ir até V., aceitou-a prontamente.

V. lhe apareceu de um ponto de vista totalmente diverso de quando lá estivera pela última vez. Mas não pelas transformações: claro, a cidade estava muito mudada, construções novas por todo lado, lojas e cafés e cinemas muito diferentes de antes, os jovens, todos desconhecidos, e um trânsito duas vezes pior do que amigamente. Mas toda essa novidade só fazia acentuar e tornar mais reconhecível o velho, em suma Amilcare Carruga pela primeira vez conseguia rever a cidade com os olhos de quando era rapaz, como se a tivesse deixado no dia anterior. Com os óculos via uma infinidade de detalhes insignificantes, por exemplo, certa janela, certo balaústre, ou seja, tinha a consciência de vê-los, de escolhê-los no meio de todo o resto, enquanto antigamente os via e pronto. Para não falar dos rostos: um jornaleiro, um advogado, alguns envelhecidos, outros tal e qual. Parentes mesmo de verdade em V. Amilcare Carruga não tinha mais; e o grupo de amigos mais próximos também este se dispersara havia muito tempo; mas tinha conhecidos que não acabavam mais, e não poderia ser de outro modo numa cidadezinha tão pequena — como fora até a época em que ele morava lá —, onde se pode dizer que todos se conheciam, pelo menos de vista. Agora a população estava muito aumentada, houvera lá também — como em toda parte nos centros privilegiados do Norte — certa imigração de meridionais, a maioria das caras que Amilcare encontrava eram de desconhecidos: mas justamente por isso tinha a satisfação de distinguir na primeira olhadela os velhos habitantes, e lhe vinham à mente episódios, relações, apelidos.

V. era uma dessas cidades de província onde persistia o costume do passeio à noite pela rua principal, e quanto a isso nada havia mudado dos tempos de Amilcare até hoje. Das duas calçadas, como sempre acontece nesses casos, uma estava lotada com um fluxo ininterrupto de pessoas, a outra menos. No tempo deles, Amilcare e seus amigos, por uma espécie de anticonformismo, passeavam sempre pela calçada menos freqüentada, e de lá lançavam olhadelas e saudações e piadas às moças que passavam na outra. Ele agora estava se sentindo como então, até com uma excitação maior, e começou a andar pela sua velha calçada olhando toda a gente que passava. Encontrar pessoas conhecidas desta vez não lhe trazia constrangimento mas divertimento, e se apressava em saudá-las. Com alguns bem que gostaria de parar para trocar duas palavras, mas a rua principal de V. era feita de um modo, com as calçadas tão estreitas, densas de gente que empurrava para a frente, e além do mais com a circulação de veículos tão aumentada, que não se podia mais como antigamente caminhar também um pouco pelo meio da rua e atravessar onde se quisesse. Em suma, o passeio se desenrolava ou depressa demais ou devagar demais, sem liberdade de movimentos, Amilcare precisava seguir a corrente ou subi-la ao contrário com dificuldade, e quando entrevia uma cara conhecida mal tinha tempo de lhe lançar um aceno de cumprimento antes que desaparecesse, e nem sequer conseguia entender se fora visto ou não.

Então esbarrou com Corrado Strazza, seu companheiro de escola e de bilhar por muitos anos. Amilcare sorriu para ele e fez também um amplo aceno com a mão. Corrado Strazza vinha em frente com o olhar em cima dele, mas era como um olhar que o atravessasse de lado a lado sem parar, e continuou seu caminho. Seria possível que não o tivesse reconhecido? Havia passado algum tempo, mas Amilcare Carruga sabia bem que não mudara muito; até então se mantivera ao abrigo tanto da obesidade como da calvície, e sua fisionomia não sofrera grandes alterações. Lá vem o professor Cavanna. Amilcare lhe fez uma saudação respeitosa, com uma pequena inclinação. O professor primeiramente acenou para responder, instintivamente, depois parou e olhou em torno de si, como que procurando alguma outra pessoa. O professor Cavanna!, que era famoso como fisionomista porque de todos os seus numerosos alunos recordava caras e nomes e sobrenomes e até as notas trimestrais! Finalmente Ciccio Corba, o treinador do time de futebol, respondeu à saudação de Amilcare. Porém, logo depois piscou os olhos e começou a assobiar, como se dando conta de ter interceptado por engano a saudação de um desconhecido, destinada sabe-se lá a quem.

Amilcare compreendeu que ninguém o reconhecera. Os óculos que lhe tornavam visível o resto do mundo, aqueles óculos com a enorme armação preta, tornavam-no invisível. Quem alguma vez pensaria que por trás daquela espécie de máscara estava exatamente Amilcare Carruga, havia tanto tempo longe de V., que ninguém esperava encontrar de um momento para outro? Mal tinha chegado a formular mentalmente estas conclusões quando apareceu Isa Maria Bietti, Estava com uma amiga, passeavam olhando as vitrines, Amilcare parou bem na frente delas, estava para dizer: "Isa Maria!", mas lhe faltou a voz na garganta, Isa Maria Bietti deu-lhe uma cotovelada, disse à amiga: "Mas é assim que eles fazem agora...", e foi em frente.

Nem Isa Maria Bietti o reconhecera. Entendeu de repente que era só por Isa Maria Bietti que voltara, que só por Isa Maria Bietti quisera se afastar de V. e passara tantos anos longe, que tudo, tudo em sua vida e tudo no mundo era somente por Isa Maria Bietti, e agora finalmente ele a revia, seus olhares se encontravam de novo, e Isa Maria Bietti não o reconhecia. Sua emoção havia sido tanta que não reparara se ela estava mudada, gorda, envelhecida, se tinha o fascínio de antigamente, menos ou mais, não vira nada senão que aquela era Isa Maria Bietti e que Isa Maria Bietti não o vira.

Havia chegado ao fim do trecho de rua freqüentado para o passeio. Ali as pessoas, na esquina da sorveteria ou um quarteirão mais adiante, na banca, viravam e percorriam de volta a calçada no sentido contrário. Também Amilcare Carruga virou. Tinha tirado os óculos. Agora o mundo era novamente aquela nuvem insípida e ele se debatia, se debatia com os olhos fixos e não puxava nada para a tona. Não que não conseguisse reconhecer ninguém: nos pontos mais bem iluminados estava sempre a um passo de identificar algumas caras, mas uma margem de dúvida de que não fosse quem pensava sempre permanecia, e depois, afinal, que fosse ou que não fosse não lhe importava tanto. Alguém fez um aceno, uma saudação, podia acontecer que o estivesse cumprimentando, mas Amilcare não entendeu bem quem era. Também outros dois, passando, o cumprimentaram; fez menção de responder, mas não tinha idéia de quem fossem. Um, da outra calçada, lhe lançou um: "Olá, Carrù!”. Pela voz, podia ser um certo Stelvi. Com satisfação Amilcare notou que o reconheciam, que se lembravam dele. Uma satisfação relativa porque ele nem sequer os via, ou então não conseguia reconhecê-los, eram pessoas que se confundiam em sua memória umas com as outras, pessoas que no fundo lhe eram bastante indiferentes. "Boa noite!", dizia de vez em quando, ao reparar num aceno, num movimento de cabeça. Está aí, aquele que o cumprimentara agora devia ser ou Bellintusi, ou Carretti, ou Strazza. Se era Strazza gostaria até de parar um pouco para falar com ele. Mas agora tinha respondido à sua saudação com tanta pressa, e pensando bem era natural que suas relações fossem apenas assim, de convencionais e apressadas saudações.

Seu girar de olhos em torno, porém, era claro que tinha um objetivo: descobrir Isa Maria Bietti. Estava com um casaco vermelho, por isso podia ser vista de longe. Por um tempo Amilcare seguiu um casaco vermelho, mas quando conseguiu ultrapassá-lo viu que não era ela, e enquanto isso dois casacos vermelhos passaram no sentido contrário. Naquele ano estava na moda casaco vermelho de meia-estação. Primeiro, com um casaco igual, por exemplo, tinha visto Gigina, aquela da tabacaria. Uma de casaco vermelho agora o cumprimentou, e Amilcare respondeu bem frio, porque era certamente Gigina, aquela da tabacaria. Depois lhe veio a dúvida de que não se tratava de Gigina, aquela da tabacaria, mas justamente de Isa Maria Bietti! Mas como era possível confundir Isa Maria com Gigina? Amilcare voltou sobre seus passos para verificar. Encontrou Gigina, essa era ela, não havia dúvida; mas, se estava vindo por aqui agora, não podia ser ela que dera a volta toda; ou então dera uma volta mais curta? Não estava entendendo mais nada. Se Isa Maria o cumprimentara e ele lhe respondera bem frio, toda aquela viagem, toda aquela espera, todos aqueles anos passados tinham sido inúteis. Amilcare ia para a frente e para trás por aquelas calçadas, um pouco pondo os óculos e um pouco tirando-os, um pouco saudando a todos e um pouco recebendo saudações de nebulosos e anónimos fantasmas.

Depois da outra ponta do passeio, a rua se prolongava e depressa se estava fora da cidade. Havia uma fileira de árvores, um fosso, para lá uma sebe, e os campos. No tempo dele, à noite, chegava-se lá de braço dado com a namorada, quem tinha uma namorada, ou então quando se estava sozinho se ia lá para estar mais sozinho, para se sentar num banco e ouvir os grilos cantarem. Amilcare Carruga continuou por aquele lado; agora a cidade se estendia um pouco mais além, mas nem tanto. Lá estavam o banco, o fosso, os grilos, como antes. Amilcare Carruga se sentou. De toda a paisagem a noite só deixava de pé grandes faixas de sombra. Os óculos, pô-los ou tirá-los ali dava exatamente no mesmo. Amilcare Carruga compreendia que talvez aquela exaltação dos óculos novos tivesse sido a última de sua vida, e agora havia acabado.

FIM

Italo Calvino

ITALO CALVINO nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, em 1923, tendo ido logo a seguir para a Itália. Participou da resistência ao fascismo durante a guerra e foi membro do Partido Comunista até 1956. Em 1946 instalou-se em Turim, onde doutorou-se com uma tese sobre Joseph Conrad. Publicou sua primeira obra, Il sentiero dei nidi di ragno, em 1947.

Com 'O visconde partido ao meio', lançado em 1952, o autor abandonou o neorrealismo dos primeiros livros e começou a explorar a fábula e o fantástico, elementos que marcariam profundamente a sua obra. Nos anos 1960 e 1970 aprofundou suas experiências formais em livros como 'As cidades invisíveis' e 'Se um viajante numa noite de inverno'. Considerado um dos maiores escritores europeus deste século, morreu em 1985.

 

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A Aventura de um Míope
conto de Italo Calvino
in  "OS AMORES DIFÍCEIS" (1958)
Tradução de Raquel Ramalhete
Companhia das Letras

 


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Maio.2013 | Abr.2011
Publicado por MJA