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 Sobre a Deficiência Visual


A Arte da Medicina

Renata Calheiros Viana

Conversão de Paulo na estrada de Damasco - Caravaggio, 1601 (Santa Maria del Popolo, Roma)
Cegueira e conversão de Paulo na estrada de Damasco - Caravaggio, 1601

índice:
  1. A Parábola dos Cegos de Pieter Bruegel
  2. Ciclopia: Monstruosidade Representada na Literatura Mitológica, Pintura e Música Clássica
  3. Estrabismo Divergente na obra de Rafael Sanzio
  4. Arterite Temporal e Polimialgia Reumática numa pintura de 1436
  5. A cura da catarata representada em obra de Rembrandt
  6. A conversão de São Paulo do ponto de vista médico



I. "A Parábola dos Cegos" de Pieter Bruegel
 

"Diz-se a um cego, estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ali ficou parado no meio de rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicómio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar." José Saramago.


A doença ocular tem merecido lugar de destaque nas artes. Na pintura, há registos de casos de estrabismo, catarata e cegueira, dentre outros interessantes temas. Pieter Bruegel “O Velho” é o responsável pela notável A Parábola dos Cegos, na qual se vêem cegos de mãos dadas, numa fila, tateando com bengalas o caminho a percorrer. O quadro faz alusão ao Evangelho de Mateus, 15:14, que diz:

“Não se preocupem com eles, são guias cegos. E quando um cego guia o outro, os dois acabam caindo no buraco”.


 A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel, 1568 [Parábola de Cristo segundo São Mateus 15:14: “Se um cego conduzir a outro cego, ambos cairão no fosso.”]
A Parábola dos Cegos, 1568, Pieter Bruegel;
Óleo sobre tela, 154 x 86 cm; Galeria Nacional, Nápoles


Uma inspeção mais próxima dos seus rostos fornece evidências físicas que nos fazem supor as condições que determinaram a cegueira de cada um.

O rosto do primeiro homem não é visto. O segundo homem aparece sem pálpebras e globos de ambos os lados, o que sugere a possibilidade de enucleação bilateral.


A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel - 1568 - pormenor 1


Leucoma corneano é o diagnóstico proposto para explicar a cegueira da terceira figura retratada na pintura com evidente opacificação da córnea.

 


A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel - 1568 - pormenor 2


O quarto homem parece demonstrar sinais consistentes com uma resposta inflamatória ocular grave. A lesão facial do lado direito de sua face parece sugerir que fora vítima de um insulto externo, tal como queimadura.



A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel - 1568 - pormenor 3


Os olhos do quinto homem não são vistos sob a viseira. É considerada a possibilidade de fotofobia ou cegueira severa resultando na completa perda da percepção luminosa. Quanto ao sexto homem, argumenta-se que as suas características faciais indicam o diagnóstico de cegueira decorrente de pênfigo bolhoso.


A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel - 1568 - pormenor 4


REFERÊNCIAS:

  • SALER, V. "Medical conditions in works of art" British Journal of Hospital Medicine, February 2008, Vol 69, No 2

  • SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das. Letras, 1995.

  • BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.


 

II. Ciclopia: Monstruosidade Representada na Literatura Mitológica, Escultura e Música Clássica

A ciclopia é uma rara anomalia na qual os olhos estão parcialmente ou completamente fundidos, formando um único olho mediano incluído em uma única órbita. Geralmente aparece associada a um apêndice em forma de probóscide superior ao olho.

Transmitida por herança recessiva, a malformação parece resultar de uma severa supressão de estruturas cerebrais da linha média – holoprosencefalia – que se desenvolvem a partir da parte cefálica da placa neural. Essa grave anomalia ocular está associada com outros defeitos craniocerebrais incompatíveis com a vida.

Monstro não comparável aos humanos [...]
De carne humana estás, Ciclope, farto.
Odisséia (séc. VIII a.C) - IX canto. Homero.

Os ciclopes foram cantados por Homero no IX livro da famosa Odisséia. Segundo a mitologia grega, o raio que fulminou Esculápio (deus da medicina) gerou os seres com um só olho. Como mostra o trecho acima, nas palavras do autor grego tais seres monstruosos não são comparáveis aos humanos.


Ulysses And His Companions Blinding The Sleeping Cyclops Polyphemus - Jan van der Straet
Ulisses e os companheiros cegam o Ciclope Polifemo enquanto este dormia - Jan van der Straet  [1523-1605]


A obra acima mostra o momento em que Ulisses (Odisseu, em grego) consegue vingar-se do Ciclope pela morte de seus companheiros. Conta Homero que no regresso de Tróia ao reino de Ítaca, Ulisses chegou ao país dos gigantes ciclopes, que moravam em cavernas. Nesse local desembarcou com seus companheiros e, encontrando uma grande caverna, lá entrou. Pouco depois, chegou o dono da caverna, Polifemo (o mais famoso dos ciclopes), que voltando então o grande olho, viu os estrangeiros e perguntou-lhes, com maus modos, quem eram e de onde haviam vindo. Respondeu-lhe Ulisses com muita humildade que eram gregos e terminou implorando hospitalidade, mas Polifemo estendeu o braço, agarrou dois dos gregos, que atirou contra a parede da caverna, esmagando-lhes a cabeça, depois tratou de devorá-los. Na manhã seguinte o ciclope apanhou mais dois gregos e devorou-os da mesma maneira que a seus companheiros. Ulisses tratou então de como se vingaria da morte dos amigos e conseguiria fugir com os companheiros sobreviventes. Teve a ideia de dar vinho ao gigante, que tanto bebeu que não tardou a adormecer. Então, Ulisses com seus quatro companheiros escolhidos, colocou no fogo a extremidade do espeto que haviam feito, até que esta se transformou num carvão em brasa e, depois, colocando a haste exatamente sobre o único olho do gigante, ali a enterraram profundamente e a giraram.
 

No olho o tição. Cálido sangue espirra;
O vapor da pupila afogueada
As pálpebras queimava e a sobrancelha.
Odisséia (séc. VIII a.C) - IX canto. Homero.

Os gritos dolorosos do monstro ecoaram pela caverna mas, deixando Polifemo entregue à sua dor, Ulisses e seus companheiros fugiram seguindo o caminho à Ítaca.


Na Música Clássica:

Aci, Galatea e Polifemo é uma dramática serenata que inclui três personagens míticas (inclusive Polifemo. A bela mini ópera foi criada pelo célebre compositor alemão George Frideric Händel em 1708. Polifemo amava Galatéia, mas esta nutria uma paixão por Ácis, sentimento que lhe era recíproco. Num dado momento, dominado pelo ciúme, o ciclope perseguiu Ácis e, arrancando um rochedo da encosta da montanha, atirou nele, que imediatamente foi esmagado e transformado no rio que conserva seu nome. O papel do ciclope Polifemo, cujas ações têm conseqüências letais para Ácis, é particularmente notável para a singular agilidade necessária à música de Händel.
 


vídeo: Excerto da ópera de Händel "Aci, Galatea e Polifemo"


REFERÊNCIAS:

  1. Bulfinch, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia: (a idade da fábula). Ediouro, Rio de Janeiro, 2002.

  2. Moore, Keith, L. Embriologia Clínica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

  3. Decano, Winton & Knapp, J. Merrill (1987), Óperas de Handel, 1704-1726, Imprensa de Clarendon.

  4. HOMERO. Odisséia. Trad. Odorico Mendes


 

III. Estrabismo Divergente na Obra de Rafael Sanzio


O "Retrato de Tommaso Inghirami" é uma pintura a óleo do famoso artista italiano Rafael Sanzio.

Concluída em 1516, a obra ficou conhecida por seu extremo realismo, trazendo como tema o retrato do conde Thommaso Inghirami, um humanista altamente respeitado que serviu como bibliotecário do Vaticano durante o reinado do Papa Júlio II. Dotado de um espírito nobre e intelectual, o conde era um dos mais estimados amigos de Rafael.


Retrato de Tommaso Inghirami (1516). Rafael Sanzio (1483-1520).
Óleo sobre painel, 91 x 61cm. Palazzo Pitti (Florença).


Tommaso era obeso e sofria de desvio do eixo ocular. O seu estrabismo era do tipo divergente vertical superior. Segundo consta, o conde mostrava-se muito complexado com o transtorno oftalmológico e com o excesso de peso.

Rafael teve como maior desafio misturar o idealismo e o realismo, a fim de mostrar um equilíbrio exato do corpo e da mente do amigo. O artista conseguiu minimizar as imperfeições físicas de Inghirami estrategicamente pelo seu posicionamento num cenário de composição que dirige a atenção do espectador para determinados pormenores descritivos da sua personalidade. Com uma caneta na mão, Inghirami está sentado atrás de sua mesa, cercado por artigos que enfatizam os seus dois maiores bens: a sua mente iluminada e o seu talento literário (note-se que ele aparece como que buscando inspiração para escrever). Um livro apoiado aberto à esquerda denota a intelectualidade do bibliotecário.

Com a habilidade inerente aos grandes artistas, Rafael dissipou o estigma do “olho vagueando” de Inghirami registando-o a olhar para cima, como que apanhado num momento de contemplação espiritual.

REFERÊNCIAS:

  1. BEZERRA, A.J.C.; As belas artes da medicina. Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, Brasília, 2003.

  2. STRINATI, Claudio M. 1998. Raphael. Giunti Editore Firenze Italy. ISBN 9788809762510. June, 2010

  3. Lindsey de Mont. Raphael and the Renaissance Portrait. Jan 26, 2011.


 

IV. Arterite Temporal e Polimialgia Reumática numa Pintura de 1436

De entre as obras de arte mais discutidas entre os médicos que visitam o museu municipal de Bruges, na Bélgica, destaca-se um trabalho concluído por Jan van Eyck há mais de 500 anos, representando A Madona com o Cónego Van der Paele. O cónego é particularmente foco do interesse médico.

A Madona com o Cónego van der Paele (1436). Jan van Eyck.
A Madona com o Cónego van der Paele (1436). Jan van Eyck. - Museu Municipal de Bruges (Bélgica).


Oftalmologistas diagnosticaram ligeiro estrabismo divergente e lagoftalmo. Além disso, a distorção produzida pelas lentes que aparecem sobre o manuscrito em suas mãos sugere que o cónego era míope e não presbíope, como se poderia esperar na sua idade.

Também dermatologistas têm comentado anormalidades na sua pele. Eles observaram alguns nevos celulares na face, um quisto sebáceo na orelha esquerda e um epitelioma labial que fora obliterado pela restauração da  pintura em 1934.

Pormenor de "A Madona com o Cónego van der Paele" (1436). Jan van Eyck.
Pormenor de  "A Madona com o Cónego" evidenciando o espessamento das artérias temporais.


Reumatologistas ficaram impressionados com a aparência que van Eyck registou da região temporal de Van der Paele. São nítidamente visíveis as artérias proeminentes, bem com a formação de cicatrizes e perda de cabelo à frente da orelha esquerda e entre as sobrancelhas. Mesmo sem uma biópsia, muitos clínicos consideraram esse aspecto característico de arterite temporal.

Estudos históricos posteriores evidenciaram que ele tinha dor e rigidez no braço esquerdo. O edema difuso na sua mão esquerda indica uma esclerose crónica observada em pacientes com ombralgia de longa duração ou a síndrome de ombro-mão, uma das características de polimialgia reumática.

Segundo a acta da catedral, após onze anos de serviço regular, der Paele começou a apresentar as primeiras dificuldades durante um culto que aconteceu numa manhã de Novembro, no ano de 1431. Em Setembro de 1434 o cónego, "tendo em vista o seu estado de debilitação geral", obteve permissão para manter os seus rendimentos, apesar de não frequentar os serviços religiosos.

Nessa época, julgando próximo o seu fim, resolveu convidar Jan van Eyck para lhe fazer um retrato especial, em que aparecia ao lado da Virgem, destinado a decorar a Igreja, em sua memória. A pintura foi concluída em 1436.

Morreu em 25 de Agosto de 1443. Dados históricos com registos sobre a sua saúde apoiam o diagnóstico clínico de arterite temporal associado a polimialgia reumática, visto que esta última condição ocorre em 40% dos casos de arterite de células gigantes. A dor reumática com rigidez matinal, associada a fraqueza geral, forçou van Paele a abandonar as suas atividades matinais. Esta debilitação, não fatal, permitiu que ele sobrevivesse ainda por doze anos, uma história compatível com o curso natural da polimialgia reumática.


REFERÊNCIAS:

  1. Antônio Carlos Lopes, tratado de Clínica Médica, 2.ª edição, Roca, 2009.

  2. DEQUEKER, JV. “Polymyalgia rheumatic with temporal arteritis, as painted by Jan Van Eyck in 1436”. CMA JOURNAL/JUNE 15. 1981/VOL. 124.



V. A cura da catarata representada em obra de Rembrandt


Pintada em 1636, a famosa pintura "Tobias devolve a visão a seu pai" (1636),  exposta abaixo, é obra do prodigioso neerlandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669):



Tobias Devolve a Visão a seu Pai (1636). Rembrandt van Rijn - Óleo sobre tela, 47 x 38,7 cm Staatsgalerie (Stuttgart).


Este “Rembrandt genuíno” representa Tobias em idade avançada, sentado à esquerda, perto da janela; sua esposa segura-lhe as mãos sobre os joelhos, enquanto o filho, usando um turbante verde, trata-o com um remédio trazido da sua viagem. Seu companheiro, o anjo Rafael, vestido de branco e com asas estendidas, observa atentamente a cena.

Conta a Bíblia que Tobias, da tribo e da cidade de Neftali – situada na Galiléia superior –, desposou uma mulher de sua tribo, chamada Ana, da qual teve um filho, a quem denominou também Tobias. Certo dia, enquanto dormia, foi atingido, nos olhos, por dejectos quentes de uma andorinha:

Não tinha notado, porém, que havia umas andorinhas no muro, mesmo por cima de mim. Caiu excremento quente nos meus olhos, produzindo neles manchas brancas [...] Fiquei cego durante quatro anos. (Tobias 2:10)


O incidente que supostamente o cegou foi consequência de um castigo por haver ele sepultado os corpos de alguns judeus, prática ilegal na época. Tobias suportou a punição divina guardando os mandamentos do Senhor e não lamentando a sua cegueira. Tempos depois, o filho, o jovem Tobias recebeu a seguinte mensagem do anjo Rafael:

Esfrega fel de peixe nos seus olhos. O remédio vai fazer com que as manchas brancas diminuam e desapareçam. Então teu pai vai recuperar a vista e poderá ver. (Tobias 2:18)

O filho aplicou o remédio nos olhos do pai, aguardou um momento e viu então desprender-se dos olhos de Tobias uma catarata semelhante a uma clara de ovo. O jovem Tobias limpou-lhe os olhos e prontamente seu pai retomou a visão.

É relatado no livro sagrado que a leucocoria – a mais clássica manifestação da opacificação do cristalino – estava presente nos olhos de Tobias. Tal dado leva-nos a crer que a história bíblica relata um claro exemplo de catarata.

Curiosamente, nos tempos antigos, o fel de vários peixes era considerado um remédio eficaz contra a cegueira, prova disso é que o naturalista romano Plínio o refere em sua "História Natural”. Oftalmologistas sugerem que o acto de esfregar vigorosamente os olhos determinaria o deslocamento da lente de catarata. Neste caso, especialmente se Tobias era míope, a visão teria sido restaurada súbita e perfeitamente.

Acima da obra de Rembrandt, há uma inscrição dizendo: “Nenhum esforço é desperdiçado”, ressaltando, junto à imagem, o sucesso da cura de Tobias utilizando a fé em associação ao fel de peixe.


REFERÊNCIAS: 
Pierre Amalric: L'opération de la cataracte à travers l'oeuvre de Rembrandt.

 


 

VI. A Conversão de São Paulo do ponto de vista médico


A conversão de São Paulo, descrita em três ocasiões na Bíblia sagrada, ocorreu a caminho de Damasco, onde ia aprisionar cristãos. No capítulo 22 [6 a 8 e 11] do livro de Atos, o apóstolo conta a sua experiência:

 6.  Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho, e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu.
 7.  E caí por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
 8.  E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus Nazareno, a quem tu persegues.

11. E, como eu não via, por causa do brilho daquela luz, fui levado pela mão dos que estavam comigo, e cheguei a Damasco.


Em A Conversão de São Paulo de Michelangelo (1475–1564), Paulo é retratado no chão, ofuscado pela visão de uma luz divina:


A Conversão de São Paulo - Michelangelo Buonarroti, 1542-45
Michelangelo Buonarroti. A Conversão de São Paulo, 1542-45. Capela Paulina (Vaticano).
 

Em Atos, o apóstolo relata que uma luz brilhante o cegou e que, em seguida, caiu no chão. A sua visão foi recuperada somente três dias depois. A experiência de Paulo foi atribuída a uma crise epiléptica do lobo temporal com aura emocional que talvez tenha evoluído para generalização secundária, que foi assustadora e dramática, seguida de cegueira cortical pós-ictal (Landsborough, 1987).

Em algumas de suas cartas, Paulo dizia possuir uma enfermidade que - quem dela padecia - costumava ser desprezado. Lembremos que, à época, a epilepsia era chamada de "morbus insputatus" (doença cuspida), pois, lamentavelmente, o preconceito gerou um costume que perdurou durante séculos: cuspir nos epilépticos.

Nas cartas, Paulo também afirma que, por vezes, sentiu-se arrebatado para o Paraíso. Tal sensação é atribuída à aura extática, outrora descrita pelo escritor russo Fíodor Dostoiévski, epiléptico que afirmou que durante os segundos antecedentes à crise, sentia-se “no céu”:

Que importa que seja doença? Que mal faz que seja de uma intensidade anormal, se esse fragmento de segundo, recordado e analisado depois, na hora da saúde, assume o valor da síntese da harmonia e beleza, visto proporcionar uma sensação desconhecida e não advinda antes? Um estado de ápice, de reconciliação, de inteireza e de êxtase devocional, fazendo a criatura ascender à mais alta escala da vivência? ... Sim, por este momento se daria toda a vida! [O Idiota – Dostoiévski].

Curiosidade: Antigamente, na Irlanda, a epilepsia era chamada de "doença de São Paulo".


REFERÊNCIAS:
1. Landsborrough D. St. Paul and temporal lobe epilepsy. J Neurol Neurosurg Psychiatry 1987.
2. DOSTOIÉVSKI, Fíodor "O Idiota" Editora José Olympio, 1951 - Rio de Janeiro.
3. Bíblia Sagrada - Tradução de João Ferreira de Almeida‎.
 

 

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fonte: BLOG  A ARTE DA MEDICINA
de  Renata Calheiros Viana

 


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[22.Out.2014]
Publicado por MJA