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 Sobre a Deficiência Visual


Apesar de ser Cego

- Ver além da visão -

César Gualberto

Parc aux aveugles - Segui Antonio, 1978
Parc aux aveugles - Segui Antonio, 1978

 

      VOLUME 1

     VOLUME 2

 

VOLUME I

PREFÁCIO

Conheci o César em 1984, durante o curso de formação de professores em Educação Especial. Digo conheci e não "nos conhecemos", porque eu fiquei durante um bom tempo observando de longe aquele rapaz que vinha para a aula todas as noites, com sua bengala.

Naquele tempo, eu ainda era uma principiante (fazia pouco mais de um ano do diagnóstico de surdez das minhas filhas) e a questão da deficiência estava muito mal resolvida dentro de mim. Assim, exatamente como a grande maioria das pessoas, o cego assustava, ou melhor, incomodava, e eu, observava de longe. Depois, com o tempo, fomos nos conhecendo melhor e, através do César, pude tomar contato com o lado real da deficiência, bem diferente daquilo que todos nós imaginamos.

Com o crescimento das minhas filhas (hoje elas estão com 15 anos), fui me aprofundando nos estudos e, muito mais do que isso, fui vivenciando, experimentando, sofrendo muito, aprendendo e principalmente, me realizando como mãe e profissional.

Situações de preconceito, de piedade, de desprezo, de escárnio fazem parte do cotidiano das pessoas com deficiência e de seus familiares. Meu marido, uma vez, quando tratávamos um dos nossos inúmeros confrontos com a sociedade, colocou a mão sobre o peito e me disse: - "Isto aqui é um brejo, de tanto sapo que eu já tive de engolir!". A maior luta, portanto, está em conseguir viver bem, sendo diferente.

A sociedade exclui quem não se assemelha à maioria, tanto assim que, por exemplo, a moda é a maior escravidão imposta à humanidade, e nos submetemos a ela, muitas vezes com prazer. E o que dizer do culto ao corpo que impera atualmente? O corpo deve ser magro, firme, "malhado". Os gordos, os idosos, os baixinhos são vítimas do "extermínio social".

O César coloca muito bem que, para pessoas com deficiência, o "meio termo"o "médio", o "normal", não existe; ou seja, ou elas são super-heróis, que "matam leão a unha"ou são "coitadinhas", precisando de assistência. A compreensão de que o indíviduo com deficiência não é santo, nem herói, mas apenas alguém diferente, nossa sociedade ainda não tem. E não basta que nós, familiares, governos, entidades, preparemos nossos deficientes para enfrentar a sociedade; é preciso preparar esta mesma sociedade para recebê-los.

Com este livro, o César dá um grande passo neste sentido. Lendo-o, os cegos deixam de ser um mistério, ou "melhor amigo do homem", mas, simplesmente, alguém que não enxerga.

Clélia Maria Ignatius Nogueira


 

CAPÍTULO I

ESCLARECIMENTO

Devido à falta de informações a respeito da pessoa portadora de deficiência visual, esta é sempre tratada com medo, superstição e ignorância. Diante desta situação, a criação e divulgação deste livro têm como proposta oferecer à comunidade informações sobre quem é o deficiente visual e o trabalho realizado. Ainda dentro desta proposta, oferecer orientação às pessoas para um melhor relacionamento com o deficiente visual.

QUEM É O DEFICIENTE VISUAL?
É a pessoa que possui alteração na capacidade de perceber imagens, comprovada por diagnóstico de especialista na área.


CARACTERÍSTICA DO DEFICIENTE VISUAL.

A: Cegos (perda total, ou quase total, da visão).
Eles necessitam de método braile como meio de leitura e escrita e/ou de outros métodos, recursos didáticos e equipamentos especiais para sua educação.

B: Parcialmente cegos (visão reduzida ou visão subnormal).
Estes são os que, embora com distúrbio de visão, possuem resíduos visuais em tal grau que lhes é possível ler textos impressos a tinta. Não se incluem nesta categoria as deficiências facilmente corrigidas pelo uso adequado de lentes.

Mas, apesar da incapacidade visual, o deficiente é um indivíduo possuidor de condições plenas de realizar atividades. Em Maringá, temos deficientes visuais exercendo funções como: professores, monitores braile, técnicos de câmara escura, massagistas, zeladoras, artesões, etc.

Não é muito incomum as pessoas pensarem que nós cegos vivemos no mundo da escuridão, das trevas, como se tudo fosse um imenso buraco negro, ou como se estivéssemos, constantemente, à beira de um abismo. A respeito disso, fomos fazer uma pesquisa mais profunda. Argüindo vários cegos, pudemos tirar nossas conclusões.

No nosso caso, temos uma ótima noção de claridade. Vemos a luz do dia, a chegada da noite, temos percepção de claridade de algumas luzes mais fortes e quando estão perto. Vemos também pequenos pontos luminosos que se movimentam constantemente, como se estivessem à frente dos meus olhos.

Isso se dá devido à característica da doença que fomos acometidos e que nos levou à cegueira. Aliás, vale ressaltar que, em muitos dos casos que citaremos a seguir, o nível de visão também está diretamente vinculado à doença causadora de sua cegueira. Há casos de pessoas que vêem tudo claro à sua frente, como se houvesse uma névoa constante. Já outros dizem enxergar tudo meio avermelhado, ou azulado.

Pesquisei cegos congênitos que afirmam ver cores e que as mesmas estão a sua disposição, sendo utilizadas por eles de acordo com suas vontades. Naturalmente que falamos aqui de situações distintas. Nossa pesquisa mostra ainda que existem alguns cegos que vêem à sua frente tudo negro e, sequer, um mínimo de luz se lhes apresenta. Mas, mesmo nestes casos, acontece um fato curioso que se apresenta na imensa maioria dos casos, ou seja, há uma predisposição para desviar de obstáculos que não fazem barulho, não têm odor e não foram ainda tocados.

Aquele que enxerga e que é leigo, afirmaria que o cego enxergou tal objeto para se desviar dele. E aqui não entram aquelas condições favoráveis de mudança de pressão do ar, ou de corrente do mesmo ar. Entra, no nosso entendimento, o sentido especial, além dos outros cinco já conhecidos. Não são poucas as pessoas que afirmam ser essa condição uma ação do anjo da guarda de cada um. Em sendo assim, eu perguntaria: "E os cegos que não têm essa capacidade? O anjo da guarda deles não existe? Está desatento? Ou tirou férias?"


CAPÍTULO II

CEGOLÂNDIA - NADA INCOMUM

Depois que fiquei cego, observei que havia a formação de sociedades que buscavam o bem estar dos deficientes visuais, procurando realizar o desejo de verem suas necessidades atendidas.

Entre outras atividades, os cegos se reúnem para ir ao futebol, ao bar, à danceteria, ao clube, às festas. Em uma análise feita por mim, concluí que isso acontece por uma necessidade de dizer que não é o único cego e que tem as mesmas dificuldades que o outro tem para satisfazer suas necessidades de lazer, de locomoção, de relacionar-se com dinheiro e de obter informações de lugares para onde se dirige. Todas essas dificuldades são iguais.

E essa formação de grupelhos, ou micro-sociedades, cria o que alguns chamam de guetos. Por isso é muito fácil encontrarmos cegos que só sabem se relacionar com outros cegos, ou quando estes estão por perto. Sem os mesmos, ficariam como se fossem peixes fora da água. Esses grupos recebem, entre outras, algumas denominações no mínimo curiosas, feitas por alguns cegos, como por exemplo: a cegolândia, os ceguetas.

Todavia, excluímos daqui as formações de cegos em associações e outras que atuam na defesa dos interesses da classe, de forma, culturalmente falando, mais séria.

Quando saem vários cegos pelas ruas, avenidas e calçadas de uma cidade, a cena se torna no mínimo pitoresca. Por menos que um sujeito de fora não seja curioso, não há como deixar de observar aquela situação de seres se segurando em outros seres, dois a dois, três a três, quatro a quatro, cinco a cinco e, assim por diante, conforme a necessidade. Com a descoberta da existência de alguém no grupo que enxerga pelo menos um pouco, que não precisa usar bengala para se locomover, ele se transforma no puxador da fila, embora, às vezes, a maioria, ou até mesmo todos, possam saber o caminho para onde se dirigem.

Abrindo um parênteses aqui, quero citar uma frase de um amigo chamado Leonardo, de Belo Horizonte, que afirma ser o cego o animal mais próximo do homem.

Desejo salientar ainda, que os chamados guetos não são uma necessidade para todos os cegos, mas sim, para uma parte de nós, que eu ouso chamar de maioria. Não vamos analisar se isso é certo ou errado, deixamos apenas para análise dos senhores leitores e para a conclusão de ambos os animais.


CAPÍTULO III

EVOLUÇÃO

Somente no final da Idade Moderna o cego passou a ter oportunidade de se educar. Homero é tido como o primeiro cego a conquistar isso, mas é uma figura lendária. A história real do cego começa em 1784. Observando um cego lendo moedas pelo tato é que se verificou que este poderia ler, dando origem à primeira escola com um sistema de leitura com letras normais em alto relevo, o Instituto do Jovem Cego. Isto aconteceu na França. Foi nesta escola que, com nove anos de idade, passou a estudar Louis Braille. Ele entrou em contato também com outro sistema criado, que constituía de pontos e traços. Este era usado para leitura noturna, no exército. Como não teve êxito no seu primeiro objetivo, o sistema foi levado para o Instituto, para ver se o cego se adaptava ao mesmo. Então, Louis Braille, inspirado neste sistema, inventa o seu próprio, em 1825. A vantagem é que este possibilitava ao cego poder escrever e ler, uma vez que os anteriores somente permitia a leitura. Tal sistema só foi aceito em 1837, depois de ser combatido.

Citamos aqui uma das passagens de Louis Braille, que para demonstrar seu sistema, apresentou, a um juiz da época, um livro inteiro escrito neste sistema. Depois de ter lido todo o exemplar, o juiz afirmou que o jovem realmente tinha uma memória fantástica, pois havia decorado todo o livro.


PERÍODOS DA EVOLUÇÃO DOS CEGOS

O atendimento ao deficiente é dividido em três períodos. O primeiro, de 1854 a 1960. O segundo, de 1961 a 1972. E o terceiro, de 1972 em diante.

O primeiro período caracteriza-se pela iniciativa assistemática, sem periodicidade das atividades educacionais e assistenciais para os cegos.

O segundo período caracterizou-se pela institucionalização da educação, aparecendo, pela primeira vez, leis que vão determinar a obrigatoriedade governamental da educação para o deficiente. Tal fato se deu a partir da Constituição de 64 e da Lei de Diretrizes e Bases, na mesma época.

Isto foi possível porque já existiam organizações que cobravam apoio do Governo, que até então era omisso.

No terceiro período aparece a planificação da educação. Os poderes da União, Estado e Município passam a ter obrigatoriedade de estabelecer a educação especial também em seus programas educacionais. Tal processo encontra-se, atualmente, em evolução.

No final do primeiro período, começou-se a cobrar iniciativas do Governo. Realizou-se, em 57, uma campanha nacional de educação de surdos, em 58, de cegos e em 60, de deficientes mentais. Isto força o Governo a colocar em lei a educação para deficientes.

No terceiro período, extinguiram-se as campanhas e criou-se o Centro Nacional de Educação Especial, que funcionava através de projetos apresentados pelas secretarias locais.


EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS CEGOS

O primeiro período da educação especial para as pessoas cegas subdivide-se em três fases.
A: pioneirismo do atendimento às pessoas cegas - 1854 a 1928.
B: expansão do atendimento ao cego no Brasil -1929 a 1945.
C: fase da valorização da educação e ampliação das oportunidades - 1946 a 1960.

A primeira fase é chamada pioneirismo pelo aparecimento de associações de cegos responsáveis pela abertura de caminhos. Temos aí vários exemplos, como o de um cego catarinense que estudou no Instituto Benjamin Constant e tornou-se jornalista, demonstrando muita eficiência no setor e propagando o movimento republicano.

Isso porque fez parte de um núcleo republicano, IBC, que tinha como professor Benjamin Constant. Através da convivência com os cegos, este professor passou a reconhecer a capacidade dos mesmos e formou, no Instituto, grupos republicanos.

Houve ainda outro catarinense, poeta e que também fazia parte do movimento republicano, além de um excelente músico e pianista. Um fato marcante na vida deste último foi quando o músico do rei, vendo um concerto do mesmo, apreciou de tal forma que o convidou para um concerto de apresentação ao rei, feito a quatro mãos.

No início do nosso século, surge um engenheiro reabilitado pelo Instituto Benjamin Constant, que tornou-se professor e criou a primeira escola profissionalizante de cegos. Ele fez um mapa vivo, que foi apresentado nas comemorações centenárias da independência. Teve um neto, que participava do Ministério da Educação e teve grande importância na abertura do reconhecimento das associações de desportos para deficiente.

Outro estudante do IBC levou para o Norte do País a idéia de se criar uma organização de cegos, em 1909, desenvolvendo a música na região, assim como a musicografia, no Instituto de Cegos de Pernambuco. Manteve também cursos para entrada no serviço público, criou a liga de proteção ao cego, juntamente com outros grandes intelectuais.

Fundou-se, em Minas Gerais, o Instituto São Rafael, em 02/09/1926.

Em 1928, criou-se a primeira instituição religiosa para cegos, o Instituto de Cegos Padre Chico.

A segunda fase caracteriza-se pela ampliação dessa assistência. Surge o Instituto de Cegos da Bahia, o Louis Braille, em Minas Gerais, o Instituto Paranaense de Cegos, o Santa Luzia, no Rio Grande do Sul, e outros em épocas posteriores.

Dois cegos, neste período, conseguiram fazer o curso de Direito, apesar de não ser permitido, na época, que cegos freqüentassem universidades.

A briga e insistência é que permitiram essa proeza.

Em 1933, um cego curitibano foi o primeiro a conseguir autorização para fazer o ginásio. Um pouco mais tarde, em 1935, um cego consegue entrar na Escola Nacional de Música. Em 1943, outro cego consegue autorização para fazer Pedagogia. E ainda, um grande violinista cego, de nível internacional, é aplaudido por milhares de pessoas.

Outro cego matogrossense se destaca como o maior saxofonista da época, devido à sua grande capacidade de tirar o agudo deste instrumento. A partir de então, foi adicionado uma chave a mais no instrumento.

Foi criada a primeira revista braile no Brasil.

Na terceira fase deu-se o reconhecimento da educação dos cegos, em 1946.

Neste ano criou-se também a Fundação para o Livro do Cego no Brasil que, posteriormente, teve sua denominação alterada para Fundação Dorina Nowill, cujo nome perdura até hoje. Em 1947, aconteceu o primeiro curso de profissionalização de professores para pessoas cegas. A primeira turma ginasial de cegos no Instituto Benjamin Constant formou-se em 1949, pois até então, apesar do ensino ser ministrado naquele órgão, ele não permitia que o aluno fosse reconhecido e recebesse o diploma de conclusão. O Instituto não tinha caracterização de escola para tal. Em 1950, foi instituído, na Escola Caetano de Campos, de ensino regular, a primeira sala de ensino especial, permitindo assim uma abertura para que outros alunos pudessem estudar em outras escolas. O ensino integrado foi de grande importância para a minimização do preconceito, pois permitia a convivência de alunos que enxergavam, com os cegos. O problema é que o deficiente teve sempre que estar provando que era capaz. Em 1951, apareceram novos cursos de profissionalização de professores para cegos. E em 1952, forma-se a primeira turma de segundo grau, no Rio de Janeiro.

A turma recém-formada queria então entrar na faculdade, o que foi conseguido com muita luta. Com a vinda para o Brasil de Hellen Keler, em 1953, mais alguns programas que vinham sendo implementados desde o começo da década de 40, fizeram com que acontecessem algumas evoluções, principalmente por parte do SENAI, que citaremos em seguida. Em 1958 começou então a campanha do atendimento do ensino integrado, denominada Campanha Nacional do Ensino para Cegos. Neste ano, iniciou-se a orientação e mobilidade no País, com a chegada das primeiras bengalas vindas do exterior. Em 1960, há o movimento favorável à profissionalização da pessoa cega, iniciado pelo Serviço Nacional da Indústria, SENAI.

O Segundo período caracteriza-se pela afirmação das conquistas e melhoria do atendimento.

No final da década de sessenta, houve a verdadeira expansão da adaptação do uso do sorobã para cegos, iniciada em 1949.

Nesta década, houve também a criação da primeira associação de professores para cegos. A Associação Brasileira de Educadores para Deficientes Visuais, em 15/11/1968.

Em 1970 surgem os primeiros cursos na área de programadores.

O Terceiro período é a fase de planificação.

Em 1973 foi criado o Centro Nacional de Educação Especial com o objetivo de acabar com as campanhas isoladas, planificando os movimentos e surgindo os projetos de desenvolvimento da educação. Destacam-se aí três momentos. De 1973 a 1976, onde houve apoio a cursos de programação, projetos de bolsas de trabalhos e outros de grande importância, que fizeram com que nesse período fossem alcançados desenvolvimentos significativos de vários cegos pelo País.

De 1979 a 1985, quando houve um período de certo descuido do Governo Federal, proporcionando com isso um retrocesso nas conquistas. Tal fato deu-se devido à mudança de Governo.

Houve também a criação da CORDE, Coordenadoria de Desenvolvimento dos Excepcionais, órgão existente até hoje e que tem prestado grande colaboração nos projetos relacionados à área. A expansão se torna contínua até os nossos dias, com aparição de líderes de fundamental importância neste movimento, que nós caracterizamos como aspiral ascendente. Aparecem também fatos marcantes todos os anos, principalmente com a utilização da informática a nosso serviço. Os cegos têm ainda na Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, uma contribuição altamente valiosa, no apoio à criação do sistema operacional dos vox, que permite aos cegos ter várias opções de trabalho, de cultura, lazer e outros.


CAPÍTULO IV

ATLETISMO E CEGUEIRA

Corrida Apucarana a Maringá. Aconteceu no dia 8 de abril de 1996. Foram aproximadamente 64 quilômetros desde a Praça Rui Barbosa, em Apucarana, até a Praça Raposo Tavares, em Maringá, onde mais de mil pessoas esperavam. Estas foram atraídas por um palco e um serviço de som instalados com o objetivo de anunciar, com clareza, o motivo do ato por mim praticado, ou seja, a divulgação da luta contra o preconceito, cuja manifestação eu denominei "Corrida Contra o Preconceito".

Entre as pessoas que esperavam minha chegada, estavam minha mãe e minha filha, Tamara. Ambas ouviram a conversa de duas distintas senhoras.

Dizia a primeira: "Quando ele chegar, vai pedir esmola para todos que aqui se encontram." E a segunda comentava, toda espantada: "É verdade?" Ambas viraram-se para minha mãe e uma delas perguntou: "A senhora conhece esse rapaz que está fazendo essa corrida?" Minha mãe respondeu.

"Conheço. É meu filho." Sem sequer conseguir pronunciar uma palavra a mais, as duas senhoras se afastaram e desapareceram na multidão.

E a tal esmola, que seria pedida, nunca aconteceu.

Talvez seja importante analisar isso. Por que algumas pessoas insistem em pensar que os cegos só servem para pedir esmolas? Quem sabe, o acontecido serviu para mudar o pensamento de algumas dessas pessoas, após verificarem que não foi angariado recurso financeiro algum. Se isso aconteceu, com uma pessoa que seja, entendo que meu esforço não foi em vão.

Sei que a mudança de consciência é gradativa, lenta e, o que se consegue com atos desse tipo, é a minimização do preconceito.

Já participei de várias etapas da corrida 21 de Abril, em Maringá. Para que consiga correr, entretanto, é necessário que um outro atleta acompanhe-me durante todo o percurso, dirigindo-me. Isso é feito com o uso de uma fita, ou similar, que é amarrada no meu pulso esquerdo, enquanto o outro atleta segura a outra extremidade, para orientar-me na direção que devo seguir.

A situação, no entanto, causa sérios constrangimentos, principalmente para aquele que me serve de guia, pois nas ruas de Maringá encontramos várias pessoas que gritam chamando-nos de bicha, viado, fazendo chacotas como, por exemplo: "Lá vão os dois." "Eles não querem se perder um do outro." "Vão chegar juntinhos, de mãos dadas." As pessoas que estão assistindo à corrida não são obrigadas a me conhecer, portanto, pensam que enxergo.

E o que pensar de duas pessoas que correm grudadinhas?

Agora eu pergunto: duas pessoas que enxergam, sendo um deles homossexual, ou mesmo os dois, não teriam o direito de correr de mãos dadas? É, sem dúvida, mais uma vez o preconceito que temos nos nossos corações que nos faz sermos tão pequenos.

Outro atleta me dizia: "César, porque essas pessoas não fazem igual a você? Em vez de falar assim, poderiam deixar de beber, fumar e partirem para a prática do esporte." Uma moça cega, também participando de corrida de rua, tem por obrigação correr com um guia do lado. Passando pelas ruas, as frases mais ouvidas são mais ou menos as seguintes: "O amor é lindo." "Quando será o casamento?" "Que bonito, eles não se largam." Pensa-se que um homem e uma mulher não podem correr atrelados a um pedaço de barbante, que isso significa ligação amorosa.

E se por ventura um casal, verdadeiramente de namorados, quisesse demonstrar afeto desta maneira?

Sofreria gozações por parte dos zombeteiros de repetição?


CAPÍTULO V

ACONTECIMENTOS DE DISCRIMINAÇÃO

Dizem existir vários tipos de discriminação, entre eles aquele que as pessoas praticam inconscientemente, sem o desejo de magoar quem quer que seja.

Temos informações de várias discriminações contra cegos, entre elas, vamos citar aquela acontecida em São Paulo, quando um grupo de cegos, pertencentes à Adevimar, foi a um bar tomar cerveja e com voz clara, o proprietário disse que não vendia cerveja para cegos. Se ele não vendesse a ninguém, é claro que se tratava de uma mercadoria não comercializada em seu estabelecimento. Mas a iniciativa de não vender exclusivamente para cegos, é um ato de extrema discriminação.

Uma das lojas famosas de Maringá, foi palco também de uma ação de violenta discriminação. Um amigo, chamado Joaquim Teixeira Batista, foi com seu filho menor, de cinco anos, até aquela loja para comprar pisca-pisca de árvore para Natal. Como era mês de dezembro, ele pretendia preparar seus enfeites para as comemorações natalinas. Entrou na loja com uma das mãos segurada pelo seu filho, quando aproximou-se deles um dos funcionários e disse ao garoto: "Diga a seu pai que aqui dentro da loja é proibido pedir esmolas." Esse amigo não se conteve e desandou a falar, em altos brados, que ele estava ali para comprar e não para esmolar. Vários clientes foram ver o que estava acontecendo. Foram necessários alguns minutos para acalmá-lo.

Na minha opinião, esta é uma das mais profundas discriminações, um caso de polícia, algo muito grave que acontece no cotidiano de qualquer cego que queira participar da sociedade e se arrisca a comprar no comércio. É fácil tachá-lo como pedinte.

Uma senhorita entrou num cabeleireiro para pedir voto, pois a mesma trabalhava de cabo eleitoral. Ao tentar entrar, a proprietária disse que não tinha trocado e pediu que voltasse outro dia.

Discriminação na Câmara de Vereadores.

Não havíamos sequer assumido o mandato que conquistamos em 3 de outubro de 1992. Isso aconteceu no mês de dezembro, durante uma reunião realizada na residência do senhor Nestor. A conversa girava em torno de como seriam formados os grupos para as comissões permanentes, do biênio seguinte, no Poder Legislativo. Entre um e outro vereador que se candidatava a algum cargo, seja de membro ou de presidente de uma das comissões, ocorreu um fato interessante. Lá pelas tantas, candidatei-me à presidência da Comissão de Finanças e Orçamento, quando, com voz alterada e completamente abismada, a senhora Angela disse com tom áspero: "Não! Não pode ser! O César não enxerga. Ele não pode ser presidente." Ato incontinente, respondi que se me julgassem incapaz para assumir tal cargo, bastava não votar em mim. Mas nunca porque sou cego. Nestor interferiu e pediu que a pessoa retirasse o que havia dito. Ela não quis fazê-lo. Diante de minhas palavras de desagravo e a observância delas, os outros senhores, entre olhares e cochichos, acertaram rapidamente não votarem em minha pessoa para a referida presidência.

Foi fruto de manchete nacional e também nos jornais locais, a autorização judicial que uma mãe conseguiu, em Maringá, para abortar seu filho. Através de exames, os médicos tinham descoberto que a criança era encefálica, ou seja, não tinha cérebro.

Através de uma enquete realizada pelo Programa Comando Geral, da Rádio Atalaia, também de Maringá, buscava-se saber a opinião dos ouvintes, se eram contrários ou favoráveis. Percebemos que a esmagadora maioria era de contrários.

Pessoas ainda afirmaram que, neste caso, havia uma enorme discriminação, pois se a criança fosse possuidora de cérebro, mesmo a mãe correndo risco de vida, o juiz, com certeza, não teria autorizado o aborto.

Configura-se aí, na opinião de ouvintes, que a discriminação existe contra aquele que está dentro ou fora do ventre.

Convém afirmar ainda, que a citada enquete foi realizada no dia 4/12/96 e que participaram 57 ouvintes, dos quais 49 se posicionaram contra este aborto e 8 foram a favor.

Uma das pessoas que mais sofrem com a discriminação, sendo em alguns casos até mesmo muito grave, é aquela que nós denominamos de cego parcial, ou seja, aquela que possui baixa acuidade visual, de tal forma que o impossibilita de ler letras do tamanho comum, necessitando que as mesmas sejam ampliadas. Por outro lado, enxergam objetos apenas a curtíssima distância.

Em outros casos, enxergam com extrema dificuldade no período do dia e vêem melhor no período noturno, ou vice versa.

Os cegos parciais, por conseguirem andar sem bengala, não são identificados como cegos no relacionamento com outras pessoas. Em assim sendo, o parcial é tratado como pessoa que enxerga normalmente e, por isso mesmo, quando necessita de algum auxílio, não é percebido como alguém com deficiência. Se, por acaso, vai tentar um emprego, não passa nos exames médicos, pois não enxerga quase nada.

Ainda na Câmara: por algumas vezes precisei de assinatura de um vereador, que se aproveitou da minha condição de cego para fingir que assinava documentos que tinham suma importância para a comunidade e que mereceriam, no mínimo, serem discutidos. O regimento interno da Casa dizia que se eu protocolasse tais documentos nos dias em questão, ganharia com isso dois ou três dias na agilização do processo.

Mas, o dito vereador fingia que corroborava com o documento e, eu saía coletando novas assinaturas quando, depois de algum tempo, descobria que o mesmo não havia assinado. Seria muito mais louvável dizer, se fosse o caso, que não era favorável aos referidos documentos.

É muito fácil, mesmo estando na frente de um cego, enganá-lo e, de forma séria, dizer que assinou determinado documento. Isso, no nosso entendimento, é usar da cegueira do outro para ludibriá-lo, portanto, caracterizo como discriminação contra nós, fato que, ao mesmo tempo, acaba sendo prejudicial à comunidade.

O senhor Antonio não entende que um vereador portador de cegueira tenha o mesmo direito dos outros vinte vereadores; que tem o interesse de ler o que está à disposição na Câmara, ou seja, aqueles documentos que qualquer edil, que porventura se interesse, pode apanhar uma cópia e levar para casa ou ao escritório, para melhor estudar a matéria. Todavia, o mesmo direito não era concedido a mim, mesmo sabendo que existe a escrita braile, que permitiria que eu tivesse os mesmos direitos dos outros vereadores.

O fato de ter na casa um funcionário que transcrevesse todas as matérias para o braile, na opinião do senhor Antonio, era dar um funcionário a mais para mim. E que, com isso, eu estaria sendo privilegiado. Porém, o que dizer dos outros funcionários, que não eram poucos, e que faziam todo material em tinta, inúteis para mim, mas que serviam aos outros vinte vereadores.

Façamos aqui um exercício de suposição. Admitindo que a Câmara fosse composta apenas de vereadores cegos, esses funcionários seriam perfeitamente dispensáveis, pois só sabiam preparar material em tinta.

Fica fácil, nesse caso, concluir que com um grupo de vinte e cinco funcionários, servindo a vinte vereadores, há uma média de mais de um para cada edil. Dessa forma, observa-se claramente que um funcionário preparando meus materiais, não constitui privilégio algum, mas sim uma necessidade de trabalho, dando a mim a mesma condição que os demais têm para bem representar os munícipes.

Como não dispunha de um funcionário de minha confiança, tomei primeiramente a decisão de protocolar um requerimento, solicitando ao presidente que reparasse aquele erro infantil. Fiz questão, no referido documento, de citar que não precisaria ser necessariamente escolhido por minha pessoa aquele que viesse a ocupar tal cargo.

Diante da inoperância e da falta de vontade para resolver o problema, passei, daquele dia em diante, a não assinar os documentos apresentados pelos funcionários, nem mesmo a ciência de recebimento destes. A justificativa para tal procedimento, junto a aqueles que me traziam documento para assinar, uma vez que havia um rodízio deles, era sempre a mesma.

"Você pode ser a pessoa mais honesta do mundo, mas eu não o conheço e não tenho como diferenciá-lo dos desonestos. Posso estar correndo um risco muito sério de assinar algum documento que venha depor contra a comunidade, ou contra minha própria pessoa." A situação se tornou hilariante, inclusive, com várias quebras do regimento interno da casa, por mim denunciadas. Uma delas é a de que existe um prazo para entregar ao edil a pauta das sessões e a minha nunca era entregue respeitando o prazo.

Mandava-se transcrever em braile a minha pauta, no Centro de Estudos Supletivos, CES. E vale salientar que os mesmos não têm qualquer culpa do atraso. Por diversas vezes, o referido documento só era apresentado a mim três horas antes do inicio da sessão, ou seja, às dezessete horas do mesmo dia em que ela ocorre.

Certa vez, quando a Câmara ainda era na Praça Rocha Pombo, em um belo sábado, estava acontecendo uma reunião partidária. Eu estava, naquele momento, sentado em uma das cadeiras na sala do então diretor da casa, o ex-deputado estadual Antonio Facci, quando se aproximou um senhor cego, acompanhado de um menino. Este me pediu uma esmola para seu pai que não podia trabalhar, pois não enxergava. Eu disse que também era cego e que estava disposto a ajudar, mas de uma outra forma. Sem que pudesse continuar minha fala, fui interrompido pelo companheiro de cegueira, que pediu gentilmente para não brincar daquela forma. Continuou falando a respeito da cegueira como sendo uma das coisas mais tristes do mundo e, só mesmo alguém que possuísse um problema igual, é que poderia avaliá-lo.

O diretor da Câmara tentou interferir a meu favor dizendo que realmente eu também era cego, sem, todavia lograr êxito, uma vez que o cidadão voltou a insistir, dizendo que não havia possibilidade de um cego ser eleito vereador.

Depois de alguma insistência, consegui passar o endereço da nossa associação e marcar um encontro para as 14h da segunda-feira seguinte.

Entretanto, o dito cujo não me procurou. O mesmo disse, na ocasião, ser morador em Maringá, mas nunca mais foi visto pelas nossas ruas.

Uma amiga foi eleita vereadora na cidade de Porto Alegre, no ano de 1982. Por ser cega total, numa das sessões ela apoderou-se da bengala e preparava-se para sair do plenário, quando o presidente da casa perguntou através do microfone: "Excelentíssima, onde a senhora vai?" Ela mudou de direção, apanhou um dos microfones e através do mesmo perguntou. "O senhor quer mesmo saber?" "Sim." "Eu vou fazer xixi. Ah! Por falar nisso, senhor presidente, porque o senhor não pergunta também para os outros vereadores onde vão, quando se ausentam do plenário? Será que o regimento interno prevê que somente os cegos devem dizer para onde vão?" Caso típico de discriminação.

Sabemos, entretanto, que não existe aí maldade alguma por parte de quem discriminou. Mas aqui, o cego foi tratado como sendo um coitado, que necessita de amparo, paternalismo.

Classificamos o fato como um puro desconhecimento das verdadeiras possibilidades do cego.


CAPÍTULO VI

DADOS ESTATÍSTICOS

Foi realizada uma pesquisa para saber a opinião de pessoas portadoras de deficiências e os negros, sobre a existência ou não de preconceito, por parte da sociedade, com relação a eles mesmos. Foram pesquisados deficientes visuais do Centro Municipal de Atendimento aos Deficientes Visuais de Maringá (CMADV), deficientes físicos do Centro de Vida Independente (CVI), e, membros do movimento A Consciência Negra de Maringá. Dentre os 136 pesquisados, o resultado final apontou o seguinte: Preconceito racial: 96,96 porcento disseram sim, que existe o preconceito e 3,03 porcento disseram não.

Entre os deficientes físicos, 58,33 % responderam sim e 40 %, não, havendo a abstenção de 1,66 porcento.

Entre os deficientes visuais, chegou-se a um resultado de 100 % dizendo sim para a existência do preconceito.

Dos 136 entrevistados, 60 foram pessoas portadoras de deficiência física, 43 deficientes visuais e 33 negros.

Lembramos que os originais da referida pesquisa ficaram, por seis meses, à disposição dos interessados, no gabinete do então vereador César Gualberto. A pesquisa foi encomendada pelo mesmo para servir de trabalho histórico e para publicação num livro, além de servir de ajuda, para análises futuras, sobre aquilo que pensavam os deficientes da época.


CAPÍTULO VII

CONSCIÊNCIA E INCONSCIÊNCIA

Neste capítulo convém tratarmos da diferença da consciência e inconsciência dos cegos, comparando-as com as das pessoas que enxergam. É preciso perceber que muitas pessoas costumam "saber tudo" sobre o cego e que isso tende a trazer uma série de transtornos. Como é o caso daquele senhor amigo meu, não é preciso aqui citar seu nome, que discutiu, com veemência, afirmando serem todos os cegos sempre muito calmos e que eram excelentes tecelões, músicos etc. Ou seja, os cegos têm uma grande facilidade para realizar atividades que precisem de concentração e o fazem, com extrema facilidade, por uma dádiva divina.

Dizer a ele que isso não era verdade e que haviam muitos cegos que tinham enormes dificuldades para tais tarefas, foi quase brigar com esse amigo, uma vez que eu estava destruindo um conceito que ele tinha há vários anos.

Apesar disso, nada me impediu de dizer a ele que encontramos, também, em muitos cegos, a extrãordinária facilidade para tais tarefas, todavia, no mundo das pessoas que enxergam, não é menos diferente. Há muitas delas que são ótimas para esse mister, enquanto outras nada produzem neste aspecto e, por sua vez, se dão muito bem em outras atividades, quer seja na música ou em outras manifestações artísticas, como também nas profissionais, entre outras.

Antes de sermos cegos, somos cidadãos comuns, amados por Deus de igual forma, onde não nos é concedido dádiva alguma por sermos cegos. São conquistas de necessidades que temos.

Eu, por exemplo, tenho um péssimo ouvido para música. Como explicar isso se afirmam serem todos os cegos excelentes nesta área? E como eu conheço uma enormidade de exemplos. Por outro lado, figuras conhecidas mundialmente são ótimos músicos, embora enxerguem.

A consciência do cidadão portador de cegueira está diretamente relacionada ao seu mundo de imperfeições no planeta em que vivemos, onde os valores morais se situam no dissabor das marés baixas, de forma que não se encontra salvação em qualquer bar da esquina. Situamos nós cegos na mesma camada, onde encontrei vários com tendência fortíssima para o desencontro e outros para o encontro. Poderia alguém perguntar qual seria a base para apontar os dois citados. A afirmação está no aspecto das pesquisas e convivências com os mesmos, quer seja a nível municipal, estadual, nacional e até internacional.

Vamos admitir. É consciente aproveitar-se da situação de cegueira para conseguir vantagens pessoais? Por outro lado, a questão de aceitar a cegueira, assumindo-a perante si e perante a sociedade, não tendo o menor pudor de que o meio saiba de sua deficiência, mostra seu estado de evolução para um estágio de maior consciência.

Os aspectos morais dos seres humanos estão, muitas vezes, ligados diretamente à questão material.

Todavia, a questão moral não pode ser desprezada, e aqui, nos preocupamos em relatar essa moral diretamente vinculada ao fato de ser cego, ou seja, não é muito incomum encontrarmos cegos que, diante de determinadas situações, possam prevalecer. Esconderem-se atrás da imoralidade e aceitá-la como um jogo absolutamente normal e coerente nos nossos dias.

Aqui podemos citar o caso da imensa maioria dos cegos que pedem esmolas.

Eles aceitam esta prática por afirmarem ser a única forma de sobrevivência.

Exercitando o teatro da necessidade da busca, todavia, quando se apresentam junto a amigos, o dito pudor se aflora, apaziguando a briga da imoralidade com a moral que todos possuímos.

Conflitamos nossos pensamentos, criando no nosso interior desastres que podem perdurar por tempos inimagináveis. Só passamos a modificá-lo quando este estado de consciência, começa a se tornar pleno, absorvendo valores mais verdadeiros, os quais permitem alterações profundas na escala evolutiva da nossa crise moral.

Perguntado para alguns cegos, que percebem apenas um salário mínimo mensal, se aceitariam o triplo daquele ganho em esmolas, a resposta foi unanime de recusa. E quando arguidos porque, as respostas também foram muito parecidas. Sempre havia uma preocupação de justificativa no aspecto moral e que, em nenhuma circunstância, seria de seu caráter aquela prática.

Não queremos, contudo, afirmar ser isso uma regra, e muito menos dizer que todos os aspectos morais estão ligados a fatos desse tipo. Reservamos o direito de citar, apenas este, como sendo um dos milhares de exemplos.


CAPÍTULO VIII

INTEGRAÇÃO

Nós temos afirmado que a pessoa que é cega encontra uma série de dificuldades para se integrar, ou se socializar, pois as pessoas que dirigem o nosso País e grande parte da nossa sociedade, querem que nós cegos nos adaptemos ao meio. Quando, no meu pensamento, haveria a necessidade de que isso acontecesse de uma forma bilateral. O cego se adaptando ao meio e o meio fazendo algumas mudanças para se adaptar aos cegos. Não queremos, por exemplo, que os cegos se adaptem aos buracos nas calçadas.

Para buscar sua integração, o deficiente visual precisa de condições mínimas para tal. E sua concessão não constitui beneplácito dos dirigentes, mas sim uma obrigatoriedade.

Além das ações governamentais, os cegos enfrentam outras três grandes barreiras. Não que essas sejam as únicas, mas são fortes e passaremos a relatá-las a seguir.

A: Primeiramente, a grande luta contra si próprio. Ele precisa se convencer de que não é o único cego, de que pode e deve buscar sua inserção no meio social. Para conseguir atravessar essa barreira, é preciso contar com ajuda de pessoas que estão à sua volta. Quando isso ocorre, pode se tornar bem mais fácil, sem contudo dizer que isso basta, pois ele deverá ter auto-estima e auto-valorização. A mudança é interna. O cego deverá implantar no seu eu, uma estrutura que permita vencer os obstáculos do cotidiano. Quando isso ocorre de maneira salutar, passa a ter condições de enfrentar as outras barreiras. Pois, assim, ele estará colaborando consigo mesmo para desempoeirar seus próprios preconceitos.

B: A barreira da família. Essa também é muito difícil. Em alguns lares mais, em outros menos. Nós colocamos aqui dois aspectos. O primeiro, é a não aceitação dos familiares de que ali entre os seus membros existe um que é cego. Aqui existem duas situações. Uma delas é a família carente na área econômica. Pois se o cego não produz, mas apenas consome, há nesses casos certos membros da família que não se acanham em afirmar que ele produz e o outro, que não enxerga, só fica ali parado esperando a comida, a roupa, etc. Já presenciei casos em que todos os membros da família andavam bem vestidos, exceto aquele que é cego. Na segunda situação, existem aqueles que são mais abastados financeiramente, mas que também discriminam o cego. Há o receio de que a sociedade saiba do fato de existir ali um cego, e afirmem por aí que a família de fulano falhou e não conseguiu fazer todos os filhos perfeitos.

Este fato relatado não faz parte de suposições. Nós mesmos presenciamos tais acontecimentos. Falamos, algumas linhas acima, da não aceitação. Agora mister se faz falarmos sobre a super-estima. Neste caso, a família pode ser fator complicador para a inserção do cego na sociedade, pois não permite que ele faça nada, ou quase nada. Querem fazer tudo por ele. Entre os mais clássicos exemplos, poderíamos citar o colocar a comida, ligar a televisão, ligar o rádio, mudar de canal ou de emissora, vestir suas roupas, calçados, levá-lo de dentro para fora de casa e vice-versa, etc. Isso, todavia, é péssimo. Seria necessário permitir que o mesmo, através do ensaio e erro, consiga realizar suas tarefas e a partir daí, descobrir que é capaz. Eu ouvi, certa ocasião, uma mãe dizendo assim: "Minha filha é cega. Eu cuido dela, coitadinha." Eu perguntaria: e se acaso essa mãe e o pai, que também corroborava com o pensamento dela, viessem a falecer antes dessa moça? Moraria ela de favores na casa de familiares ou de terceiros? E em que condições isso aconteceria? Quando seria possível sair portando uma bengala? E realizar uma tarefa sozinha?

Isso tudo não seria possível se não tivesse a sorte de entrar para um lar onde houvesse um espírito de compreensão dos verdadeiros valores dos cegos.

C: Depois de ter vencido a barreira de si próprio e da família, vem a da sociedade. Contra este tipo de discriminação, nós temos dito, a luta é constante. Com ela vamos contribuir, enormemente, para a minimização do preconceito e não temos a falsa idéia de dissipá-la em uma, ou algumas gerações.

Aqui, o cego recente inicia seu trabalho com vergonha de portar uma bengala. Depois enfrenta as barreiras dos buracos, que já deveriam ter sido tapados; dos informantes que nem sempre existem; do balconista que pensa sermos todos pedintes de esmola; das repartições públicas que contam com pessoas despreparadas no trato com cegos; dos motoristas, ciclistas e motoqueiros, que não respeitam um cidadão portando bengala, etc.

Temos a consciência de que a maioria das pessoas não trata o cego de forma correta por desconhecimento.

Conheço cegos que freqüentam bares, casas dançantes, clubes, mas sempre são vistos como os diferentes. Isso, contudo, não nos afeta, já que sabemos que durante todo tempo que aqui estivermos, estaremos sendo vistos dessa forma.

Um pequeno debate foi organizado em um congresso que participei, na cidade de Florianópolis, sobre a questão da socialização do cego. E numa pequena pesquisa entre nós próprios, depois de muitas perguntas, chegou-se a um dado interessante: o de que, para a maioria dos cegos, integração é freqüentar um bar e beber. Aí foi perguntado: "Tudo bem, mas por que então deve-se beber?" Se um cego está bebendo junto com outras pessoas que enxergam, ele é tratado como um igual, brincam, fazem festa e dizem que ele é muito camarada.

Não é como outros cegos que são tapados e ficam parados sem desfrutar da delícia da vida.


PALESTRA DO PCB.

Numa ocasião, eu estava assistindo uma palestra do Partido Comunista Brasileiro, realizada no auditório da Biblioteca Central de Maringá. No término da mesma, com o auditório extremamente lotado, estava, devagar, dirigindo-me à saída, apertado por um e por outro. Em condições precárias de locomoção, pacienciosamente descia degrau a degrau, suportando aquele imenso calor.

Foi assim que uma das mãos de um dos presentes passou algo para mim, que imediatamente guardei no bolso para que, lá fora, quando dissipasse um pouco o público, eu pudesse pedir ao grandioso amigo Dejair, meu acompanhante, que lesse aquele papel.

Supostamente, parecia para mim ser um aviso. Talvez um panfleto anunciando a próxima palestra, ou assunto similar.

Quando alcançamos a parte externa do prédio, entreguei ao meu amigo e pedi a gentileza de que o mesmo lesse aquele comunicado. Meu pobre tato não havia percebido que aquilo era uma cédula de dinheiro, uma modesta esmola concedida a um coitado de um ceguinho que, com aquele montante, talvez pudesse comprar um pãozinho francês.


CAPÍTULO IX

SITUAÇÕES CURIOSAS

Aproximei-me do balcão do hotel para verificar se havia vaga para me hospedar. O atendente me diz: "Olha, infelizmente só tenho vaga no segundo andar. Como vamos fazer para que você suba as escadas?" Quando se adquire uma certa mobilidade, não há problema para locomovermo-nos em escadas. A inviabilização, neste caso, é inteiramente depositada sobre os ombros dos deficientes físicos.

Não pretendemos condenar ninguém pelo fato de pensar que o cego, seja ele quem for, tem incapacidade de subir ou descer escadas. Mesmo diante da palavra do recepcionista, aceitei a vaga existente e, depois do segundo dia de hospedado, os funcionários, que no começo estavam boquiabertos, já mostravam a mudança do conceito que tinham sobre o cego em relação à escada.

Estava parado numa esquina esperando uma carona, já previamente contatada por telefone, que deveria chegar em poucos minutos, quando surge, de forma repentina, um cidadão a pé que me apanha, à força, pelo braço e me puxando, vai dizendo assim: "Agora pode atravessar. Já não vem vindo nenhum carro." Quando chegamos do outro lado da rua, ele fala novamente: "Aqui está bom?" Eu respondo: "Estaria, se eu quisesse atravessar. Mas como não quero, o Senhor se incomodaria de me ajudar a voltar para onde eu me encontrava?" Vou a um telefone público e só tenho uma ficha para usar.

Alguém quer me ajudar e pede para discar para mim. Disca errado, faz eu perder minha última ficha, pede desculpas e se retira me deixando na mão. O mínimo que ele poderia fazer era me perguntar antes se eu sabia ou não discar. E o pior é que, um problema que não tinha, passei a ter e ele não se preocupou em me ajudar na resolução do mesmo.

Vale a pena, nas curiosas, salientar o aspecto religioso, onde o pré ou fanatismo faz acontecer algumas situações hilariantes. Fui testemunha de algumas delas como, por exemplo, aquela em que, numa loja de esportes em Maringá, um determinado cidadão aproximou-se de uma pessoa portadora de cegueira e perguntou se ela queria ser curada. Quando ela respondeu que não, sua reação foi a de alguém que não entendia, de forma alguma, como podia um cego dizer que não se interessava em voltar a enxergar. Ele repetiu a mesma pergunta por três ou quatro vezes e a pessoa respondeu que não. Por fim, ele saiu de perto, depois que a pessoa pediu licença, pois estava ocupada.

Por vezes, nós encontramos cegos que preferem dizer que não querem voltar a enxergar. Ocorre que há alguns inoportunos que colocam suas opiniões religiosas de forma que possam vir a agredir, pois faltam palavras certas, nos momentos certos e entonação correta, quando se faz necessário.

Diálogo entre um cidadão cego e um outro que enxerga. O primeiro denominaremos cidadão A, e o segundo, cidadão B.

B: Desculpe, você conhece a Igreja Evangélica....

A: Não.

Final de diálogo, que também tive a oportunidade de presenciar.

Uma ocasião eu estava andando pelo centro de Maringá. Tinha alguns afazeres particulares, entre eles, ir a uma agência bancária, a uma farmácia e outros, quando, de repente, começou chover. Eu estava na Av. Getúlio Vargas. Parei debaixo de uma das marquises para me proteger e um senhor de meia idade, que ali também parou com o mesmo motivo, começou a conversar e fazer perguntas sobre a minha cegueira.

Quando a chuva diminuiu de intensidade, resolvi sair para continuar a realização dos meus compromissos. Este senhor saiu junto me segurando pelo braço. Sem que eu pedisse, ele falou que iria me acompanhar para ajudar-me. Mesmo dizendo que não haveria necessidade, ele não mudou de idéia.

Para não ser chamado de ignorante e pensando naqueles cegos que, porventura, tenham um pouco mais de dificuldades do que eu e que poderiam precisar de tal tipo de ajuda, resolvi permitir que o cidadão me acompanhasse.

Pensei que ele seria apenas um acompanhante nas minhas andanças. Ledo engano. Além de insistir em me acompanhar por todos os lugares, dava as mais diversas opiniões nas tarefas mais individuais e íntimas. Depois de pedir ao mesmo que ficasse tranqüilo para cumprir seus compromissos sem, no entanto, conseguir qualquer sucesso, resolvi ser mais claro. Pedi-lhe que me deixasse pois, segurando em meu braço, em vez de ajudar, acabava me atrapalhando. Foi assim que conseguimos nos entender e, quem sabe até hoje, o mesmo se auto-elogie ao extremo por ter sido tão caridoso, ou então me abomine com veemência, pois não permiti que ele andasse comigo por toda aquela tarde.

Um dia, participando de um coquetel, estávamos conversando eu, a amiga Cláudia e a não menos amiga Lília. Esta primeira se ausentou por uns momentos e eu e a amiga Lília combinamos uma brincadeira. Ela me informou, com detalhes, o modelo e a cor da roupa e das sandálias da Cláudia. Quando esta voltou, comentei: "Cláudia, apesar de ser cego, estou desenvolvendo uma particularidade. Eu consigo, ao concentrar-me, saber detalhes das pessoas como a cor da roupa, dos calçados, etc." Não precisei falar mais nada para que ela pedisse que eu fizesse a experiência consigo. Segurei na sua mão, simulei uma concentração, pedi para que a mesma também se concentrasse, e então falei todos os detalhes de cores e modelos de roupas e sandálias, que já me haviam sido relatados.

O espanto e a maravilha que emanavam por todos os poros da amiga foram contagiando até a mim próprio, que por um tempo, pensei, fosse tudo verdade. Isso ficou por quase toda festa em segredo, permitindo que ela relatasse o fato a vários dos presentes, até que, por fim, Lília falou sobre a brincadeira.

Isso, contudo, só foi possível ser feito com a Cláudia por conhecermos seu espírito brincalhão. Sabíamos que não havia a mínima possibilidade dela ficar magoada com tal fato.

Ainda hoje, quando a encontro, temos lembranças amistosas deste acontecimento.

O fato ocorreu numa das viagens que a delegação da Associação de Deficientes Visuais de Maringá, a Adevimar, realizou para a cidade de Uberlândia. Em uma das paradas para um lanche e o tradicional pipi, na cidade de Presidente Prudente, entramos no banheiro em, mais ou menos, dez cegos.

Uma vez lá dentro, depois de passarmos a roleta, o senhor que cuidava dali nos disse que poucos dias antes havia passado por ali um cego e que o mesmo tinha um relógio que falava as horas.

Lavando as mãos e usando o vaso sanitário, começamos a falar que aquilo não deveria ser verdade. Não era possível. Onde já se viu um relógio falar? E o senhor insistia, sem dar fôlego a si próprio.

"Mas é verdade, eu vi. O relógio falava as horas." Sem perder o bom humor, dizíamos que aquilo era impossível. Um papagaio falar, um rádio, tudo bem. Mas um relógio! Pedíamos desculpas ao senhor e insistíamos que não podia ser possível.

Quando deixávamos o banheiro, todos acionamos nossos respectivos relógios, pois todos tínhamos um que falava as horas. De bom humor, o cuidador da roleta sorriu e até elogiou o espírito brincalhão de todos.

Um amigo, cidadão curitibano, fazia uma viagem de avião. Ao desembarcar, tirou de sua pasta 007 uma bengala dobrável. Segurando a mesma pela luva, que fica na extremidade superior, soltou os outros gomos para que os mesmos, tracionados pela força do elástico que fica no interior de cada canículo, se justa pusessem, ficando encaixados de forma que pudesse ser usado como bengala.

Ocorre que isto provoca um barulho que, para os menos avisados, pode parecer o som de uma arma de fogo sendo acionada.

Foi o que aconteceu com os seguranças do vôo. Estes se viraram em seguida ao ato e, imediatamente, se colocaram na posição de defesa dos demais passageiros. Poucos segundos foram suficientes para perceber que se tratava de uma simples bengala de cego.

Um amigo estava atravessando a Av. XV de Novembro, em Maringá. Quando já se encontrava no meio de uma das pistas, alguém gritou: "Cuidado! O caminhão." Ele, que fazia a travessia andando, começou imediatamente a correr.

Resultado, deu de cara com a carroceria do dito caminhão, que estava estacionado do outro lado.


CEGO NÃO É HOMEM:

Quando estão andando juntos dois homens, um deles enxerga, e o outro não. Quem vê os dois caminhando afirma: "Lá vem um homem e um cego." Por isso costumamos dizer que cego não é homem.

Certo dia, na Estação da Luz, em São Paulo, encontrei um senhor, também cego, desses que apresentam todo o globo ocular em perfeitas condições, anatomicamente falando, no seu exterior. Falava-me que, uma vez, um técnico em eletrônica trouxe uma televisão, que havia levado para concertar. Depois de instalá-la na sala, o referido técnico se preparava para ir embora quando foi surpreendido pelo cego, que virando-se, afirmou: "Mas o defeito ainda não foi resolvido. A tela continua negra, sem nenhuma imagem".

Surpreso, pensando que ele falava da qualidade da imagem, o técnico mexeu nos botões, afirmando que poderia melhorar a imagem.

O cego insistiu que estava tudo negro. Percebendo não haver nenhuma desconfiança por parte do profissional, este repetiu a brincadeira por quatro vezes. Entretanto, antes de haver qualquer irritação, este resolveu dizer-lhe a verdade a respeito de sua cegueira.

O homem levou tudo no campo do bom humor e tudo acabou em boas gargalhadas por parte de ambos.

A escrita e a leitura braile, apesar de ser considerada obsoleta por alguns, ainda é muito utilizada. O interessante é o nome que muitos dão para este método. Perguntas como essas são comuns: "Você sabe ler em braule?" "Você lê em hebraico?" Só falta perguntar se o cego lê bráulio.

Perto da Universidade, em Maringá, aproximei-me de um ponto de ônibus para apanhar a antiga linha 104. Esperava que a mesma viesse, quando ouvi duas moças conversando em tom de voz baixo, para que eu não ouvisse. Mas como elas se esqueceram que o ouvido do cego é melhor do que daqueles que enxergam, consegui captar o teor da conversa.

Dizia a primeira: "Ele é cego! Que coisa terrível." A segunda continuou o diálogo: "Se eu ficasse cega, preferiria me suicidar." Por algum tempo, a conversa ficou em torno da cegueira e o extremo desejo de que a mesma ficasse absolutamente longe das duas.

Preferi não emitir qualquer comentário, limitando-me a ficar no campo das análises dos seres humanos.

Ainda por ouvir muito, outra vez estava caminhando pela Rua Caracas, onde morei por muitos anos. Eram aproximadamente 7h de um dia muito lindo. Duas senhoras, uns trinta metros à minha frente, conversavam em voz alta, enquanto ambas varriam suas respectivas calçadas. Quando passei por elas, a conversa tornou-se sussurrante.

O assunto, que antes era novela, passou a ser sobre minha pessoa e a coitada vida de um cego.

Quando num prato tem um bife, ou outra carne para se comer com garfo e faca, a grande maioria dos cegos pede ajuda, solicitando que alguém a corte.

Mas existem aqueles que preferem não pedir esse auxílio. Foi assim que, certa vez, um cego jantava tranqüilamente em companhia de algumas pessoas. Para beber havia chopp. Tal líquido, depois de ser colocado numa taça, normalmente também é posto sobre um pequeno círculo de papelão cortado, talvez com a função de absorver a pequena umidade do líquido gelado.

Ao levar o copo a boca, esse papelão, semi-grudado ao fundo do mesmo, acompanhou temporariamente o movimento, caindo no prato. A seguir o cego foi flagrado tentando cortar o papelão, com garfo e faca, pensando que era o bife.

Chegando, pela madrugada, na rodoviária de Maringá, depois de uma viagem cansativa, juntando-se a isso algumas bagagens pesadas, resolvi ir ao ponto de táxi existente na Rua Joubert de Carvalho. Diante da minha dificuldade com a bengala e aquelas bolsas, fui auxiliado por uma senhora, dama da noite, que, depois, tornou-se alvo de eméritos comentários, principalmente por parte do motorista do taxi, que em tom de zombaria, citava o caso de um cego estar andando, em plena madrugada, com uma prostituta.

Ao dirigir-me ao Paço Municipal, para ir à Secretaria de Cultura, que ficava no segundo andar, fui surpreendido com um acúmulo muito grande de pessoas no térreo, o que me causou dificuldades para encontrar a rampa ou a escada de acesso aos andares superiores. Estava diante desta dificuldade quando uma senhorita se aproximou e, de forma simpática, ofereceu-se para ajudar-me, ao que de pronto aceitei. Foi neste momento que a jovem apanhou uma das minhas mãos e segurando-a como se fossemos namorados, ajudou-me a chegar ao local pretendido.

Confesso meu constrangimento diante da situação e, também, minha ignorância diante de um coração sem malícia, como se mostrou o dessa senhorita.

Chegando na Secretaria de Cultura, os sorrisos de chacotas não puderam ser evitados. Até explicar que focinho de porco não é tomada, a moça, que vim descobrir depois, era a rainha do carnaval daquele ano, passou-se por minha namorada, ou qualquer outra coisa que a mente humana possa imaginar.

Por acaso você já viu, ou ouviu falar, de algum cego que tenha sido assaltado? Pois neste caso, a situação pode ser um pouco diferente.

Um amigo, que morava na capital paulista, gostava de andar sempre vestido com calças, camisetas e calçados de marcas famosas.

Um bom chamariz para certos delinquentes. De nada adiantou o pedido do meu amigo para pouparem-lhe os objetos. A seguinte frase foi dita por um dos assaltantes: "Fica quieto ceguinho, senão te dou um tiro no pé." O jeito foi ficar sem os pertences e sair assobiando como se nada tivesse acontecido.

O duro, é um cego andar só com a bengala e de calção, sem absolutamente mais nada a cobrir-lhe o corpo, e tentar mostrar para os observadores que aquilo era uma situação normal.

Dois cegos que moravam num bairro distante, também na cidade de São Paulo, estavam num ônibus. Um deles havia recebido, naquele dia, seu mísero pagamento quando, de repente, o ônibus é alvo das ações dos senhores amigos do alheio, cujo grupo tinha seu líder.

Este, vendo que um dos seus comandados iria também levar o dinheiro dos ceguinhos, disse ao mesmo: "Não. Eles não. Este é o professor ceguinho." Resultado. Os cegos foram poupados, enquanto todos os demais passageiros tiveram seu dinheiro levado.

Será que às vezes vale a pena ser cego? Por falar em dinheiro, um dia me aproximei de um carrinho de cachorrão e pedi ao dono que me preparasse um determinado lanche. Depois de comê-lo, paguei com uma nota onde deveria receber um troco. Posteriormente, em minha residência, vim descobrir que a quantia recebida era menor do que aquela que deveria estar em minha mão.

Contudo, gostaria de salientar que essa foi a única vez, em toda minha vida de cego, que recebi dinheiro a menos de troco. Fato que não posso afirmar ter sido voluntário. Voltei no dia seguinte para conversar com o senhor cachorreiro, sem contudo conseguir encontrá-lo. Mesmo depois de algumas tentativas, não logrei êxito na minha escalada para revê-lo.

Quando uma alma caridosa resolve dar uma carona de automóvel para um cego, sem, no entanto, conhecer um pouquinho sobre como proceder com este, ocorrem alguns fatos engraçadíssimos.

Entre eles, podemos citar aqueles cidadãos que abrem a porta do carona, puxam o cego pelo braço, com uma certa força anormal, empurram-no pelas costas, forçando sua cabeça para baixo e para dentro e ao mesmo tempo, segurando-o pelos ombros para impedir que o mesmo se choque contra o automóvel.

Dessa forma, depois que o cego consegue se acomodar, é inevitável ficar com algumas pequenas dores em certas partes do corpo.

Obs. Para agir de forma correta neste caso, recomenda-se apanhar a mão do cego e colocá-la na maçaneta do automóvel.

Caso semelhante ocorre, por vezes, quando algumas pessoa vão nos auxiliar, servindo de guia para deixarmos uma certa repartição. Em vez de oferecer seu braço para que o cego segure-o, o que seria o mais correto, o cidadão faz o contrário ou seja, ele é quem segura no braço do cego. Aperta, puxando para esquerda, para trás, empurrando para direita e para frente, isso quando o braço segurado é o esquerdo. Ao chegar numa escada, ele segura o cego, mesmo quando este está querendo mudar o passo para começar a pisar o primeiro degrau, mas não consegue fazê-lo, ficando com um pé no ar enquanto luta contra seu parceiro, que insiste em segurá-lo, com medo que o mesmo despenque escada abaixo.

Só depois de muita força é que se consegue o objetivo. Isto porque, em alguns casos, não conseguimos, mesmo com esforço, explicar para os auxiliares a forma correta de sermos ajudados, pois não lhe parece segura.

Uma vez apanhei uma carona com o vice-prefeito da época em Maringá. O mesmo me levou até o bairro Morangueirinha, onde moram meus pais.

Expliquei-lhe detalhadamente o caminho, citando, inclusive, os nomes das ruas que passávamos, ou cruzávamos. Quando o mesmo me deixou no local para onde me dirigia, falou o seguinte: "Se eu disser que fui guiado por um cego, ninguém acredita."


CAPÍTULO X

NAMORO DE CEGO

O amor é cego. Este é um dos ditos populares mais conhecidos. Sabemos, no entanto, que esta frase nada tem a ver com a cegueira que tratamos neste livro. Vamos aqui falar um pouco a respeito do namoro de quem não enxerga.

É inato no ser humano a aproximação com o sexo oposto. O tradicional friozinho na barriga não constitui privilégio apenas daqueles que vêem alguém que toca profundamente, mas também daqueles que ouvem a voz.

Dizem que é muito fácil um cego, por carência afetiva, aproximar-se de outro ser humano e logo dizer que está apaixonado. Isto, todavia, no nosso conceito, não constitui a verdade.

Encontramos, com muita facilidade, pessoas que têm esse lado bem trabalhado, com conceitos de valorização de si próprio, e que, por isso, valorizam também o possível amor que estaria se apresentando.

Como fazer para mostrar ao cego que você está interessada nele? Essa indagação nos é feita de vez em quando.

Não se pode simplesmente falar o que se pensa ou o que se sente. Quando os dois enxergam, se torna mais fácil perceber pelos olhares. Naturalmente que se um dos dois enxerga, então se faz necessário o entendimento de quem enxerga, para assumir os padrões deste tipo de relacionamento e suas diferenças. O que, às vezes, se torna até mais atraente. Aprimoram-se os sentimentos, passando a ser, em alguns casos, gratificante. Queremos afirmar, entretanto, que não constitui regra dizer que quando um dos dois enxerga, a iniciativa, obrigatoriamente, deva ser deste último. Em raros casos acontece o contrário.

Em casos onde ambos são cegos, a paquera se apresenta de forma mais verbal. Se o interesse surge, ele pode ou não ser relatado de maneira mais ou menos direta, variando o grau de timidez das pessoas, ou de tática de conquista.

Mas, além da atração pela voz aveludada, do cheiro animal expelido pelo outro, do sorriso por ele apresentado, temos também o contato físico, que no caso dos cegos, se torna sumamente importante. Não nos referimos àquele contato enquanto prática sexual.

Falamos somente do carinho, em sentir os cabelos, o rosto, os braços e o corpo, mesmo que ainda não esteja efetivado o namoro. Percebemos que em alguns casos, há uma permissão mútua para tais atos. Com isso, o cego adquire uma noção da pessoa que ele pretende para namoro, entre outros, se é gorda ou magra, cabelos curtos ou longos. A partir daí vem o namoro e os conhecimentos mais profundos, descobrindo-se, posteriormente, se aquela é, ou não, a pessoa escolhida e se os valores de vida adotado por ambos, são suficientemente grandiosos ao ponto de assumirem uma vida em comum. Detalhe: quando falamos acima a respeito dos contatos físicos, queremos citar também, a título de curiosidade, os pequenos esbarrões, que são julgados como involuntários, mas que, na verdade, são premeditados pelo cego que deseja tocar naquele alguém por ele escolhido.

Interessante se torna o caso de casais de namorados, onde ambos não enxergam e procuram um local escurinho para namorar. Mas justamente por fazerem esta tentativa sem a ajuda de ninguém é que acontece de observarmos certos deles, pensando que estão isoladamente no escuro, serem alvos de fáceis olhares.

Nestes casos, os que entendem recomendam o máximo de prudência e indicam, ainda, aos que enxergam e que são amigos do casal, quando isto acontecer, não tenham o menor constrangimento em avisá-los. Tais manifestações são uma demonstração de carinho para com os cegos.

Aliás, se torna oportuno dizer da existência de algumas intimidades que, às vezes, foge do conhecimento de quem não enxerga. Por isso, é de bom alvitre se, de forma discreta, em particular, avisasse ao cego.

Entre outros exemplos, poderíamos citar os casos de existir caspa na vestimenta; uma pequena mancha, mostrando possivelmente menstruação; um cadarço desamarrado; um zíper aberto; uma pequena sujeira na roupa, quando vai sair de casa, ou ainda, roupa amarrotada; batom borrado; algum resquício de alimento no queixo; ou um detalhe de roupa íntima aparecendo.

 

VOLUME II


CAPÍTULO XI

PERGUNTAS FEITAS AOS CEGOS

Por onde o cego anda, ele está sempre sujeito a ouvir perguntas que eu denomino de, no mínimo, curiosas. Entre elas, selecionei algumas que vamos aqui mostrar. Todas sempre demonstram o desconhecimento do ser humano para com a pessoa cega.

1- César, você nasceu assim?
R- Não, eu nasci pequenininho e depois cresci.

2- Como cego faz sexo sem enxergar?
R- Quem enxerga apaga a luz para ficar no escuro.

3 - Como você faz para comer? Enfiar o garfo na boca?
R- Por acaso você usa um espelho para enxergar a boca, porque eu uso.

4- Como você anda?
R- Coloco um pé na frente do outro, com um certo espaço entre ambos e alternadamente, com um subseqüente ao outro, vou me deslocando.

5- Faz tempo que você...é...é...
R- Que sou cego?

5a- Não fale assim. Esse nome é muito pesado.
R- Sou cego desde quando tinha dezenove anos de idade.

6- Sua esposa é normal?
R- Não, ela usa capacete com antena e tem rodinhas nas patas.

7- Adivinha quem sou eu?
R- Você é o Leonel Brizola. Não acredito. Você não me conhece pela voz?

8- Como o cego conhece a linha de ônibus que quer apanhar no ponto?
R- Pelo barulho do motor.

9- Tem certeza de que não enxerga? Você está olhando para mim?
R- Não tenho certeza, acho que enxergo. Não sei, porque não estou vendo nada.

10- Quantos dedos tem aqui?
R- Cinco. Errou, só tem dois. Você não me perguntou quantos tem levantado.

11- Como eu sou? Ou seja, descreva-me.
R- Dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca...

12- De que cor é minha roupa? Nesta resposta qualquer chute vale, com o detalhe de que, às vezes, se acerta.

13- Como você conhece dinheiro?
R- Não conheço. Conhece sim, você pegou o dinheiro certinho e me pagou.

14- Como você faz para pedir um produto numa loja?
R- Eu falo.

15- Quando dois cegos estão andando na rua, um acompanhado do outro, por vezes ouve-se a seguinte pergunta. Vocês são irmãos?
R- Somos. Detalhe: as características físicas são completamente diferentes, às vezes, um é negro e o outro branco.

16- Como você toma banho?
R- Papapi e mamãe me lavam.

17- Como você faz para assistir televisão?
R- Coloco meus óculos.

18- Como você faz para atravessar a rua?
R- Eu olho para lá. E quando não vem nenhum carro, eu atravesso.

19- Sua bengala tem algum sensor?
R- Quando tem algum obstáculo, ou um buraco na frente, acende no meio dela uma luz vermelha que me avisa.

20- Você conhece suas filhas?
R- Conheço. Mas como, se você não enxerga?

21- Como você anda de automóvel?
R- Com um motorista dirigindo.
 

CAPÍTULO XII

RECEITAS MILAGROSAS

Sempre existem algumas receitas milagrosas que nos apresentam para que voltemos a enxergar. Entre elas, selecionamos algumas.

1- Essa é do senhor Felício, que mora no interior de São Paulo. Tomar todo dia, pela manhã, um copo de água com duas gotas de creolina, durante três meses. Essa receita já salvou dois cegos de vinte e cinco anos de idade e ele próprio, que também estava por perder a visão.

2- Pingar em ambos os olhos, três gotas de limão rosa, por dia. Uma de manhã, outra à tarde e a última, antes de dormir.

3- Pingar uma gota de mel de abelha jataí em cada olho, todos os dias.

4- Colocar folhas de arruda num pano e depositar sobre os olhos todas as noites. Essa é infalível, não há cegueira que agüente.

5- Coloque sobre os olhos um pedaço de pano embebido em salamargo. Pingue gotas desse mesmo produto em ambos os olhos e ainda beba um pouco dele.

6- Coloque sobre os olhos a maçã de algodão. É infalível, em dois meses você estará enxergando.

7- Pegar casca de ovo de galinha e torrá-la. Com o pó, fazer um cigarrinho, de forma que fique um canudinho, depois assoprar nos olhos do cego.

8- Pegar sangue de boi, ainda quente, ou seja, assim que o bovino morrer, e colocar dentro de ambos os olhos.

Obs: São receitas nada científicas e não se recomenda.


CAPÍTULO XIII

COMO SONHAR

Entre as grandes arguições sobre a pessoa cega, estão os sonhos. Não é nada raro encontrarmos indivíduos que nos questionam sobre esse assunto.

Nós perguntamos a vários cegos sobre esta questão e aqui vamos relatar o que nos parece interessante.

Primeiro, queremos dizer nossas próprias experiências, que não constitui regra, principalmente depois que coletamos outros relatos.

Muitas pessoas perguntam se nos meus sonhos eu enxergo. A resposta, muitas vezes, espanta o interlocutor.

Eu tenho perfeita visão nos meus sonhos. Vejo os detalhes das pessoas, bem como suas fisionomias, cabelos curtos ou longos, lisos ou crespos, sendo que os detalhes não param por aí.

Tenho também minuciosidades de objetos, coisas e lugares. E ainda pormenores quanto a sua extensão, tipos de paisagem, características de animais, tamanho dos mesmos, etc.

Às vezes fico a perguntar se as imagens que faço das pessoas são aquelas que crio em minha mente. Por exemplo: uma pessoa que conheci ainda quando enxergava, nos meus sonhos ela aparece com aquela fisionomia de quando a via. Se hoje ela é mais gorda, eu sonho com seu corpo anterior, ou seja, mais magra. Por outro lado, uma pessoa que conheci somente depois de cego, nos meus sonhos eu a vejo com detalhes, principalmente se tenho amizade mais íntima ao ponto de saber de suas características físicas.

Percebemos que na maioria das vezes, a aparição no sonho é um tanto diferente da real. Sem, todavia, sê-lo na sua totalidade. Sempre há um percentual considerável de acerto.

Cumpre-me ainda relatar alguns sonhos que tenho, onde existe uma certa dificuldade para enxergar. Onde tento, com esforço, ver alguns detalhes que a dificuldade visual me impede.

Tais tipos de sonhos são raros. Talvez pudesse dizer que ocorre um ou dois por ano e nada mais. Mas nunca sonhei como sendo cego total, precisando de bengala para me locomover ou enfrentando qualquer outra dificuldade que a vida real me impõe.
 

SONHAR COLORIDO

Não constituem sonhos raros também aqueles onde tudo aparece colorido, tendo, inclusive, a facilidade de sonhar com cores secundárias. Só não me lembro se algum dia, depois que fiquei cego, sonhei também com alguma cor terciária.

Esse tipo de sonho também mereceu de minha parte uma análise mais profunda, uma vez que queria saber se os coloridos eram, ou não, aquelas criações que faço no meu dia a dia, onde reforço, quase que constantemente, a existência delas na minha vida.

Todavia, entendo que isso não é regra, uma vez que as cores aparecem de maneira diferente do real para o sonho.

Meu amigo Pedro Abel da Silva nasceu cego. Conversando com ele a respeito de seus sonhos, obtive a informação de que os acontecimentos que lhe surgem nos sonhos, são relatados apenas com vozes e que, em sua lembrança, jamais teria sonhado enxergando alguma coisa. Se isso aconteceu, faz parte do esquecimento.

Aliás, esse tipo de informação foi similar àquela que vários cegos congênitos deram no relato para o nosso trabalho.
 

LEMBRANÇA DAS CORES

Dr. Hermes, amigo de longa data, relatou que em sua mente não restam muitas cores, apesar de terem existido no passado. Atualmente, só se recorda de algumas cores primárias.

Dizem algumas leituras que se uma pessoa enxerga alguns anos, antes de ficar cego, vai perdendo, com o tempo, a lembrança das cores. Isso acontece depois de dez anos, para as cores secundárias e quinze, para algumas primárias.

No entanto, contestando estas afirmações, gostaria de relatar que me encontro com dezoito anos de cego e até agora preservo em minha lembrança todas as cores primárias, todas as secundárias e muitas cores terciárias.

Este assunto faz-me lembrar, inclusive, de um detalhe de uma cor cujo nome nunca havia sido relatado a mim enquanto enxergava. Não sei dizer se a mesma, na época, era pouquíssimo divulgada, ou se a minha ignorância deixou que assim parecesse.

Entretanto, a título de análise, preocupei-me em me prender à cor ocre, que serve de exemplo para dizer que eu nunca vi esta cor no tempo que enxergava. Todavia, hoje tenho a mesma gravada em minha memória.

É conveniente salientar ainda que quando afirmamos existir esta ou outra cor em nossa memória, estamos afirmando que as mesmas não existem somente enquanto suas nomenclaturas, mas sim suas pigmentações coloríferas.

Dizem que todos nós temos nossa cor ou cores de preferência, variando conforme o local onde as mesmas se encontram: numa roupa, num automóvel ou num calçado.

Eu, por ter enxergado, tenho uma imensa preferência pelo azul. Contudo, em automóvel prefiro a cor vinho e nos sapatos, o tradicional preto.

Todavia, a grande maioria dos cegos congênitos também tem suas preferências, mesmo não tendo enxergado as cores. O desejo maior por esta ou aquela cor, em boa parte das vezes, é porque recebeu um elogio de uma pessoa muito significativa na sua vida, ou de algumas pessoas, onde as mesmas afirmaram que determinada cor ficava muito bem para ele.

Se este for argüido sobre qual seria a cor de sua preferência, a resposta natural será aquela do elogio.


CAPÍTULO XIV

USO DA BENGALA

As pessoas que perdem a visão depois de uma certa idade, tendem a ter uma série de dificuldades para adaptação ao meio social. Uma delas está no uso da bengala, este bastão tão necessário para a locomoção dos cegos, uma vez que ele pretenda locomover-se sozinho.

A vergonha toma conta e se torna uma barreira que, no início, dá a impressão de ser intransponível.

A bengala marca aquele cidadão como sendo cego. Isso incomoda, pois é uma confissão da existência da deficiência.

Para alguém que gostaria de não sê-lo, é difícil se apresentar com esta nova roupagem.

A primeira vez que portei uma bengala, saí de casa andando pelo bairro onde morava e parecia que todos me olhavam, me apontavam com o dedo.

Todo meu corpo parecia receber aquela energia vindo das pessoas que me viam passar pelas ruas. Eu tinha a nítida impressão de que todos diziam: "Aquele é o César." "Não me diga! Ele ficou cego?" As pessoas estavam acostumadas a me ver andando sem bengala e, naquela situação distinta, tudo era pesado.

Passei por aquelas ruas, atingi outro bairro e outro, até chegar ao centro da cidade, onde eu ia aprender a leitura e escrita braile, na Biblioteca Municipal. No terceiro andar funcionava o Centro Municipal de Atendimento ao Deficiente.

O pior, entretanto, é não ter tido sequer noção do sério risco que corri de ser atropelado, e portanto, até risco de vida. Existe uma técnica especial para a utilização da bengala que eu, na época, desconhecia.

Conheço vários cegos que não andam com bengala. Preferem ser dependentes de alguém, mas não se mostram para não correr o risco de serem motivos de chacotas. Conheço ainda casos de pessoas que usam bengala no centro da cidade, ou em outros bairros, mas no bairro em que moram, dobram sua bengala, guardam-na escondida, buscando ocultar dos vizinhos e amigos que são cegos, dependentes de uma bengala.

Temos também o lado humorístico da bengala. Algumas vezes, a coitadinha é colocada por aqueles que têm espírito brincalhão, como se fosse um órgão sexual.

Também existe o inconveniente de andarmos em locais com muita gente e, por vezes, a bengala bater entre as pernas de alguma moça.

Em outra ocasião, eu estava andando com minha bengala na Av. Brasil, em Maringá, quando esta quebrou. Eu me encontrava, mais propriamente dito, na Praça Napoleão Moreira da Silva.

Naquela época, os ônibus que me levariam até a Morangueirinha, onde morava, faziam parada na Praça Raposo Tavares, pela Rua Joubert de Carvalho, para onde tive que me deslocar sem o uso da minha companheira. Por este pequeno trecho, tive sérias dificuldades para caminhar, pois fui obrigado a fazê-lo sozinho e, por três vezes, ouvi a seguinte frase: "Parece que é cego." A facilidade em esbarrar era muito grande e, até as pessoas entenderem que aquele cidadão não enxergava, se tornava mais fácil irritar-se. Cheguei ao meu destino quase intacto. Eu digo quase porque o abalo emocional foi muito forte, só mesmo amenizado pelo espírito aventureiro de que todo cidadão é portador.

A imensa maioria dos cegos tem em sua residência um local, predeterminado por ele próprio, onde fica sua bengala.

Se alguém a muda de lugar, é o suficiente para deixar o prezado ceguinho em maus lençóis. É como dizem nas brincadeiras: ele fica sem seus olhos para poder sair de casa.
 

RIDÍCULOS

Em minhas pesquisas, notei ser até certo ponto comum algumas atitudes de cegos que, no início de sua vida na nova condição e, em outros casos, mesmo depois de alguns anos, têm um grande preconceito em usar a bengala. Por isso mesmo, acabam praticando certos ridículos, assim hoje chamados pelos próprios donos das ações. Entre eles destacamos o já citado caso dos cegos que não utilizam a bengala quando estão no bairro em que moram, ou perto de suas residências. Estes, para se direcionar, usam as lâmpadas dos postes, pois o pequeno resíduo visual permite que vejam apenas a claridade delas. Assim procedendo, vão andando pelo meio da rua para não trombar nas árvores das calçadas, ou em automóveis estacionados perto do meio fio.

Todavia, andando com a cabeça ereta, se torna impossível enxergar a claridade da lâmpada. É necessário andar muito tempo de "cabeça erguida para o céu", de forma que possa ver a claridade, e com isso, ir contando as lâmpadas até que dê o número correspondente ao de sua casa. Com a adoção dessa estratégia, se torna comum transeuntes falarem ao cego: "Você está andando no meio da rua." Mas para o cego, o fato das pessoas descobrirem que ele não enxerga é mais terrível do que passar por algum ridículo. Essa noção fica quase inexistente.

Temos também o caso daquela menina que já estava cega e ainda insistia em andar de bicicleta. Sua mãe deveria, obrigatoriamente, deixar a lâmpada da frente de sua residência acesa, para que a mesma pudesse chegar e saber, entre tantas, qual era a sua casa.

Quando um ou outro vizinho também resolvia deixar a lâmpada de sua residência acesa, a coitada da ceguinha se via em papos de aranha, flagrando-se tentando abrir o portão do vizinho, pensando ser aquela, sua casa.

Naturalmente que os vizinhos sabiam de sua condição, mas pensavam ser apenas um certo comprometimento visual.

Situação terrível para o cego é descobrir que as pessoas estão olhando e percebendo que ele não enxerga.

Temos ainda aquele caso, que é mais comum, do cego que anda arrastando os pés. A maioria o faz para não ser surpreendida por um buraco ou uma escada com degraus para descer. Em alguns casos, o recurso é usado também para ouvir os sons ecoando nas paredes e possibilitar que se desviem delas. Há ainda, para esses casos, o estalar de dedos, que proporciona o mesmo retorno de eco.

Observamos ainda pessoas que andam com as mãos à frente do corpo batendo palmas. Este ato permite que suas mãos cheguem primeiro a um possível obstáculo que esteja a sua frente, livrando-o de passar pelo ridículo de dar uma cabeçada. O detalhe é que se ele apenas andasse com as mãos à frente do corpo, sem bater palmas, daria na cara, todos saberiam que ele é cego.

Batendo palmas, ele pensa que enganará a todos que o estão observando. Ele parecerá com isso um "ótimo" no que se diz respeito a locomoção sem bengala.


CAPÍTULO XV

CEGO POR CONVENIÊNCIA

Não se pode afirmar que seja muito difícil encontrar pessoas cegas que se importem, claramente, de serem cegas, quando a situação lhes convier. Ou na outra hipótese, que se colocam na posição de, convenientemente, mostrar que é pessoa perfeitamente capaz de realizar qualquer função, como se fosse uma pessoa que enxergasse.

Não temos a menor intenção de fazer a apologia de uma pessoa que é cega e que, ao mesmo tempo, é desprovida de qualquer sentimento de maldade, ou mostrar que todos os atos são de pessoa extremamente bondosa, que nunca erra e que seus sentimentos sempre são de alguém que vive sob um estado de sexto sentido. Tais fatos são inerentes aos seres humanos, não constitui privilégio dos cegos. Basta ter conscientização de que isso é possível e buscar sua realização.


CAPÍTULO XVI

QUESTÕES PESSOAIS

Existem vários cegos que moram sozinhos, ou então, mesmo morando com parentes, têm sua vida pessoal dentro ou fora de casa. E ainda outros que são casados, com ambos, marido e esposa, sendo cegos. Vamos aqui falar de algumas situações que acontecem e que são frutos de curiosidades de pessoas que enxergam. Entretanto, não pretendemos fazer qualquer comentário alusivo a intimidades. Qualquer identificação será mera coincidência de cegos, tendo os mesmos seus direitos preservados de não tornarem público suas atividades de fórum íntimo.

Não queremos dizer com isso que os fatos aqui relatados são atos comuns a todos, só afirmamos que são acontecimentos fáceis de serem observados em vários cegos.

Primeiramente, vamos falar de cegos que vivem com suas famílias, antes, porém, lembramos que as diferenças existentes entre uns e outros, se dá pela maior ou menor dependência de cada um.

Neste primeiro caso, encontramos aqueles cegos que pedem, aos que enxergam, o favor de procurar para eles desde um par de meias, passando pelas camisas, calças, camisetas, etc.

Alguns, se importando com as cores para combinar, enquanto outros se limitam apenas a vestir ou calçar, para não dizer que não está se arrumando para sair. Neste mesmo grupo, encontramos aqueles que gostam de usar perfume que, na maioria das vezes, é de péssima qualidade. Não digo que alguns deles não teriam condições de comprar algo melhor. Ocorre que apenas o desejo de dizer que usa algum perfume o faz fugir do incomodo de alguém dizer que cego não usa nenhum. Às vezes, a falta do senso de ridículo faz alguns deles ensopar o cabelo e as roupas que veste.

Situações como: "coloque comida para mim", "pegue o sapato", "onde está minha bengala?", são muito comuns entre os cegos que gostam de mordomias, ou têm alto grau de dependência. Vale aqui abrir um parênteses. A exemplo de qualquer pessoa que enxerga, mas que também costuma pedir para alguém apanhar algumas coisas, enquanto fica tranqüilamente no sofá assistindo seu jogo de futebol pela televisão, nós cegos temos o pleno direito de gostar de mordomias e, isso é confundido, muito facilmente, com dependência. E por acomodação, alguns cegos preferem deixar como está, ou seja, que os outros pensem que o mesmo é dependente deles, contanto que façam aquilo que deseja.

Em residências onde moram juntas pessoas que enxergam e um ou outro cego, recomenda-se que os móveis mudem pouco de lugar e quando isso acontecer, que o cego seja avisado logo em seguida, pois o mapa da casa onde mora, está muito bem delineado em sua cabeça.

Isto permite que ele domine esse espaço com tranqüilidade, até parecendo para algumas pessoas, que ele enxerga, como aquele cidadão que me viu andando em minha residência, subindo e descendo as escadarias, e não quis, depois disso, acreditar que eu sou cego, perguntando, várias vezes, se eu não enxergava pelo menos um pouco.

No caso, quando os cegos moram com suas famílias, é comum as pessoas mudarem objetos pessoais dos cegos do lugar onde eles tinham deixado. Isso causa inúmeros transtornos e, às vezes, pequenos conflitos, pois há uma cobrança de onde estaria seu objeto e nem sempre a pessoa admite que tirou aquilo do local onde estava. E neste particular, não falamos somente de alguns objetos, mas sim de todos os pertences pessoais.

Às vezes encontramos casais onde ambos são cegos. Eu conheço alguns deles e, nesses contatos, onde a curiosidade é aguçada, fiz várias perguntas e observações, de onde tirei algumas conclusões.

Em São Paulo, numa residência dessas, havia apenas os dois como moradores, ou seja, não havia nenhum filho, ou qualquer outro membro na família. Em alguns cômodos, não se usava a luz, e a bem da verdade, não havia sequer lâmpada. Um desses cômodos era a cozinha, onde minha amiga Edna preparava as refeições para seu marido e também para os amigos, assim como para mim, que tive o prazer de desfrutar da simpática amizade do casal.

Havia na mesinha de centro da sala uma revista em tinta. Por cima das letras em tinta, em quase todas as páginas, encontrei escritas braile, que vim descobrir depois, era a agenda dos dois, com números de telefone e endereços.

Isto era apenas uma amostra.

Muitos objetos ali existentes eram etiquetados, na referida escrita, para facilitar a localização dos mesmos.

Nando, como era chamado este meu amigo, tinha uma grande habilidade profissional na área de massagem. Os aparelhos que precisavam ser localizados, estavam também sempre muito bem dispostos, de maneira que se tinha enorme facilidade em apanhá-los.

O mesmo acontecia com Edna. Aliás isso é comum entre os cegos, variando apenas o grau de organização entre um e outro.

Se houver a pretensão de se fazer um teste, basta ir a uma residência onde more um cego que organize seus pertences e tirar um ou outro objeto do lugar, para que ele tenha dificuldades.

Mesmo que o referido objeto esteja próximo a ele, ainda assim terá enormes dificuldades para encontrá-lo, sendo provável que não consiga.

O guarda-roupas do cego normalmente é disposto de acordo com sua própria vontade e sentido de organização. Por exemplo: camisetas claras de um lado, escuras do outro, idem com as calças, camisas, meias, cuecas, etc. Às vezes, ainda separando-as pelo gosto pessoal ou também, aquelas que são de sair, daquelas que servem para usar em casa.

Fitas e discos são etiquetadas em braile, facilitando a localização.

Alguns cegos costumam pedir que se compare o alimento que está no seu prato com um relógio de ponteiros. Ou seja a pessoa lhe informa o que tem para comer, dizendo que ao meio dia está a salada, às três horas o frango, às seis o arroz, às nove a batata frita e assim por diante.

Existe uma situação, um tanto interessante, que ocorre com muitos cegos. É aquela em que se apresentam à sociedade, em algumas vezes, como se todos que estão a sua volta fossem também cegos. Isso é demonstrado em algumas ações praticadas em público, como por exemplo, enfiar o dedo no nariz para extrair pelotinhas; coçar partes íntimas do corpo sem o menor pudor e outros casos, que é só observar para conferir.

Atribui-se isso ao fato de que nós cegos, muito comumente, esquecemos existir perto de nós pessoas que enxergam. Eu, a exemplo de tantos, esqueço-me disso com uma freqüência absolutamente espantosa. Costumo citar como exemplo, quando assisto televisão.

Tenho o meu raciocínio sempre voltado para o fato de que todas as pessoas que estão ali na sala, vêem o mesmo que eu vejo.

Isto só é quebrado, por alguns segundos, às vezes, quando pergunto sobre uma determinada cena, mas logo volto ao meu normal.


CAPÍTULO XVII

SENTIDOS REMANESCENTES

Dos cinco sentidos que os seres humanos usam de forma consciente, já ouvi muitos afirmarem que a ausência da visão é aquela que ninguém gostaria que acontecesse com ele. Existem também livros que apontam para um grande percentual de riquezas, no que se refere ao recebimento de informações, que vem pelo órgão da visão, cujo índice se posiciona bem acima dos outros quatro.

Em nossos contatos com pessoas deficientes, não é muito difícil encontrar surdos que preferem não escutar do que serem cegos. Ou paralisados físicos que assim preferem sê-lo, do que serem cegos. Vale salientar, todavia, que isso não constitui pesquisa e nem podemos afirmar que representa a maioria, embora percebemos, nos nossos contatos, que existem muitos deficientes com esse pensamento.

Por outro lado, encontramos vários cegos que jamais desejariam, segundo suas palavras, serem surdos, deficientes físicos ou mentais.

Percebam, neste caso, que não fazemos menção aos outros dois sentidos, ou seja, o tato e a gustação, pois a ausência de um desses dois não é encarada como grave no contesto da deficiência.

Os livros afirmam que os sentidos remanescentes do deficiente se tornam muito mais apurados. Essa conclusão eu pude tirar na minha própria experiência. Enxerguei até meus dezenove anos de idade. Até essa ocasião, minha audição era completamente distinta da existente hoje, de forma que posso afirmar que ouço muito melhor do que quando enxergava.

Não compactuamos, no entanto, do pensamento de que, automaticamente, ao ficar cego, a pessoa passa a ter uma audição mais apurada. Acreditamos que o uso freqüente, pela necessidade, faz esse referido órgão ser melhor do que o daquelas pessoas que usam a visão, para enxergar onde nós precisamos usar a audição. Entre outros exemplos, citamos o de utilizar os ouvidos, como olhos, para perceber a aproximação de um automóvel, quando queremos atravessar uma rua; o som da moeda que caiu; para apanhá-la, ou o som do caixa bancário, para nos dirigirmos a ele.

No caso do olfato, não é muito diferente. Nós cegos utilizamos este órgão com bastante freqüência, tornando-o bem mais apurado do que o da maioria das pessoas que enxergam.

Lembro-me perfeitamente de um cego, em São Paulo, que conhecia a entrada da empresa onde trabalhava pelo cheiro de uns amendoins torrados que eram vendidos por um senhor no local. Nós, em muitas ocasiões, encontramos lojas pelo cheiro característico das mesmas, como a de sapatos, a farmácia, o açougue, a padaria, a perfumaria, etc.

No entanto, estes exemplos citados acima possuem odores fortes e de fácil percepção. Mas existem aqueles cheiros que apenas o cego percebe. Ou então, quando é percebido também pelas pessoas que enxergam, é comum, mesmo estando ambos à mesma distância do odor, este ser captado primeiro pelas narinas do cego.

O tato da pessoa cega segue o mesmo caminho. Conheço alguns que são excelentes massagistas. Em Maringá, nós temos vários exemplos trabalhando em clubes. A grande maioria é extremamente elogiada por sua performance tátil, assim como também o foram quando da realização do curso.

A própria leitura braile é uma aliada para o bom desenvolvimento tátil.

Conheço pessoas que conseguem saber o valor das moedas pelo relevo dos números nelas empregados, sem precisar para isso medir o tamanho das mesmas, comparando umas com as outras. Este artifício é usado por alguns cegos, entre eles, nós mesmos.

Se você acha que essa tarefa é fácil, basta fazer o teste. Eu já tentei e confesso que ainda não desenvolvi meu tato o suficiente para consegui-lo. É preciso, tão somente, treinamento, não só para mim, como para qualquer pessoa, mesmo que enxergue.

Percebe-se claramente a diferença entre cegos que estão num alto estágio de desenvolvimento dos sentidos remanescentes e outros que ainda encontram muitas dificuldades para este mister.

Às vezes, uma pessoa é cega há mais tempo do que outra e apresenta menores condições de desenvolvimento dos seus sentidos, principalmente o do tato.

Isso se dá pelo fato de maior ou menor busca de desenvolvimento dos mesmos.

Isto ocorre também em relação à memória, que uma vez exercitada, terá sua capacidade valorizada e aproveitada. Com relação a isso, posso falar por experiência própria. Quando eu enxergava, sabia o nome da rua onde nós morávamos, mais umas duas ou três do bairro, algumas do centro, além de decorar meia dúzia de números de telefone. Hoje, todavia, depois das experiências adquiridas como cego, sei o nome de todas as ruas do bairro onde morei, de todas as ruas e avenidas do centro, um número considerável de ruas e avenidas espalhadas por toda cidade e, além disso, tenho memorizado mais de uma centena de números de telefone.

Salientamos que não somos melhores do que ninguém por isso. Apenas tivemos a necessidade de desenvolver tal área.

As pessoas que enxergam não fazem assiduamente este exercício, pois isso é substituído pela facilidade de uma agenda ao alcance de sua mão. E agora, para facilitar ainda mais, existe a eletrônica.
 

CAPÍTULO XVIII

ASSUNTOS POLÊMICOS

Outubro de 1978, janeiro de 1979.

Um jovem pós-adolescente, já com seus 19 anos de idade, entra para o mundo da cegueira. Como isso pode alterar o comportamento de um ser humano!

Sugerimos usar um pouco do nosso tempo para uma leitura e análise, no sentido de atingirmos nossos propósitos de descoberta da ação do mundo da escuridão, comparado com o mundo cheio de luz, de cores e de vida.

A sensibilidade humana estaria diretamente ligada às coisas que estão dentro de si, assim como suas experiências anteriores.

A utilização de um colírio, à base de corticoides, por um tempo muito prolongado, foi o suficiente para que mudanças profundas acontecessem na minha vida.

Fiquei cerca de um ano preso entre quatro paredes, morando em casa de meus pais, a lamentar minha situação.

Afirmações tais como: Deus é culpado da minha cegueira, a sociedade também é culpada, meus amigos são todos culpados, a vida perdeu o valor, eu quero que tudo se dane, eram bastante comuns.

Para agravar ainda mais a situação, e crer que a vida era realmente uma droga, fui surpreendido com o rompimento de um noivado. Eu tinha começado a namorar quando ainda enxergava. Por isso, aquilo significou para mim uma rejeição por causa da cegueira.

Temos afirmado para as pessoas, com as quais conversamos, que nossa experiência permite algumas conclusões.

Entre elas, a de que sentimos na carne, de forma compulsória, a relatividade do tempo.

Para um indivíduo que passa um ano trabalhando, estudando, estabelecendo projetos de vida, tendo intensa atividade social, este tempo tem a sua duração. Contudo, para nós que vivemos uma situação atípica, querendo e somente pensando em voltar a enxergar, com dias sem nada para fazer, a não ser obedecer o relógio biológico para comer e dormir, sem o menor desejo de sair de casa, esse mesmo tempo pode parecer uma eternidade.

Em grande parte das cidades brasileiras, principalmente nas capitais, as pessoas que não enxergam, não pagam passagem em ônibus urbano. A grande maioria dos cegos concorda com essa concessão, porque acredita que somos coitadinhos e, por isso, precisamos andar de graça. Outro bom percentual faz vistas grossas e há até o caso dos cegos parciais, fato bastante comum, que fingem maior cegueira para não pagar a tarifa.

Em algumas cidades, assim como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, não há qualquer necessidade de crachá ou carteira que comprove a deficiência da pessoa. O motorista está autorizado a permitir o acesso gratuito nos ônibus apenas com a identificação do uso da bengala.

É comum vermos um cego parcial, que no seu cotidiano não precisa da bengala para se locomover, não se acanhar em apanhá-la para mostrar ao motorista que é cego e, portanto, ter o direito de usar o ônibus sem nada pagar. Aqui entra o caso dos que muitos chamam de cegos por conveniência.

Uma minoria, quase em extinção, é frontalmente contra a gratuidade para cegos no ônibus urbano.

Em Maringá, ouvi a seguinte afirmação de um cego: "Nós, seja qual for a classe financeira, não devemos pagar ônibus, pois não podemos sequer portar um guarda-chuva nos dias chuvosos. O barulho da água caindo no mesmo impede que ouçamos os automóveis e, portanto, impossibilita que possamos nos locomover. E andar num ônibus, por apenas duas ou três quadras, soluciona este problema".


CAPÍTULO XIX

CRESCENDO ATRAVÉS DA CEGUEIRA

É perfeitamente possível pensar, de forma racional, com relação a vida. Há uma série de pessoas cegas que usa este beneficio para melhorar sua forma de agir, afirmando, com enorme clareza, que julga isso uma oportunidade de ser melhor hoje que ontem. Se pensarmos pelo lado de que, comprovadamente, todos os seres humanos estão constantemente crescendo, fica evidente ser possível, em qualquer período, desenvolver-se o sexto sentido, mesmo que, para isso, a pessoa não apresente qualquer aparente deficiência em um dos sentidos: físico, mental ou sensorial.

Nós que somos cegos, temos, por uma questão de obrigatoriedade, no exercício natural do dia a dia, ouvir bem. Melhor do que as pessoas que enxergam, por exemplo. Dessa forma, desenvolvemos um outro sentido, que poderíamos chamar de sexto.

Isso pode se dar de maneira consciente e inconsciente. Quem o faz de forma consciente, tem mais possibilidades de ser uma pessoa melhor nos seus princípios e, principalmente, na maneira de ver a vida.

Quem o faz da segunda forma, tende apenas a usar sua arma para sobrevivência, pois só mais tarde é que pode aproveitar, de maneira total, aquilo que a lei permitiu que estivesse a seu favor.

Vamos então pensar na cegueira física como sendo uma dádiva a nós concedida, de forma a permitir que venhamos a aperfeiçoar a nós mesmos.

Ela possibilita ao ser humano encarar a vida sob um prisma completamente diferente do normal. Não quero, contudo, afirmar que isso é condição "sine qua non". Podemos encontrar muitos cegos que não utilizam este beneficio para enxergar, o que eu chamo de enxergar com os olhos da espiritualidade, mas que pode ser dado o nome que melhor convier.

Não é muito difícil encontrarmos pessoas, que perderam a visão, afirmando que quando enxergavam com os olhos físicos, encontravam-se cegos para os verdadeiros valores da vida.

Por exemplo: quem de nós já não teve, um pouquinho que fosse, de discriminação quando, enxergando, viu uma pessoa mal vestida, mal encarada, mal isso ou mal aquilo? Já a cegueira, de forma compulsória, faz com que o cego esteja sempre recebendo aquilo que sai do seu coração, sem a predisposição em pré-conceituar a pessoa que dele se aproxima. Corre-se, dessa forma, menor possibilidade de erro, pois a pessoa não está sujeita a dizer, através do físico, que aquela outra é de má índole.

Quantas vezes nós não ouvimos uma pessoa dizer assim para outra: "Quando eu a vi pela primeira vez, fiz mau juízo de você. Hoje, entretanto, vejo que estava errado." Ou seja, depois de conhecer melhor uma pessoa, quase sempre se muda de opinião.

Aqui, estabeleço uma análise do cego e sua busca contínua de provar para a sociedade sua capacidade. Neste caso, ocorre uma distorção por parte de muitos membros desse meio. Trata-se de uma ilusão de conceito.

As razões são as mais diversas, mas, encontramos cegos de todo tipo.

Há, por exemplo, aqueles que bebem em demasia, falam pouco, gastam muito, amam a todos, choram, riem, etc, etc.

Quero dizer com isso que nós, os cegos, somos seres humanos comuns, e como tal, sujeitos a acertos e erros.

Todavia, há aqueles cegos que, por circunstâncias da vida, estão atrasados nos pensamentos, nas novidades do mundo, etc. Estes são tachados como os "coitadinhos". Há aqueles que são os mais ou menos. Atraem para si todo tipo de conceito, desde o radicalismo de serem ignorantes, até o de serem o máximo do supra-sumo.

Ainda temos o caso dos que estão um pouquinho acima da média entre os cegos. Estes são observados pela sociedade como sendo superdotados. E aí, os mesmos sentem-se na obrigação de matar um leão por dia, caso contrário, são diminuídos no seu conceito. Ou seja, devem, a todo instante, estar provando sua capacidade. O meio exige que ele seja melhor em tudo o que faz.

Isso é comum na escola. Se ele tira notas boas, é o melhor aluno do colégio. Com isso, a sociedade o coloca como sendo o gênio em todas as outras atividades da vida, trazendo prejuízo para o próprio cego, que se frustra quando percebe que é fraco, ou quase incapaz de realizar certas tarefas. Há que se ter uma estrutura emocional para suplantar essa informação do meio, que fez de si o melhor em tudo. E a partir daí, agir coerentemente, mostrando que é bom em algumas atividades e, que em outras, terá uma performance mediana e, ainda, em outras, será muito fraco.


CAPÍTULO XX

JESUS

A manjedoura já o dizia, Ser cego para a vida é a pior, Os obstáculos do escuro, Estão primeiro em sua mente, Se aclarar não parece possível, Confie nele e acredite no tempo, Se lhe parece nebulosa a noite, Aguarde o dia retornar, Quando tudo parecer perdido, Apanhe as traves do seu olho, Dissipando-as do seu existir Para consegui-lo, abranda seu coração, Suba um degrau no seu amor, Mesmo quando não parecer conseguir, Ainda assim é preciso insistir Quando estiveres com persistência enxergando, Com seus olhos que não são desta carne, Terás iniciado, assim, Seu convívio com a eternidade, Donde a luz do cego é vista, Mesmo por aqueles que um dia, Ousaram em pensar que tudo viam, Se tomares de súbito, como capricho terreno, A revolta de não ter seus olhos físicos, Lembre-se que o íntimo de cada um É que faz a noite sem luz Esforce-se no exercício da paciência, Busque as energias de Jesus, Deixe penetrar em sua alma O sabor amável da brisa da manhã Insista na busca constante da paz E os vícios se lhes parecerão Estar longínqüos na eternidade, Ainda assim estarás lembrando Do que disse à manjedoura, A cegueira faz parte dos fracos de espírito E os fortes assim como você, nxergam com os olhos do amor.
 

CAPÍTULO XXI

DICAS PARA SE RELACIONAR COM OS CEGOS

Existem algumas técnicas, no que se refere a locomoção de cegos, assim como situações do dia a dia, em que as pessoas normalmente procedem de forma errada, a respeito das quais passaremos a dar algumas dicas e orientações.

Quando os cegos vão atravessar uma rua ou avenida, alguns motoristas buzinam seus automóveis uma, duas ou até três vezes. A intenção dos mesmos é informar algo ao cego, mas como não existe nada previamente combinado, nós nunca sabemos qual é a informação que se deseja passar. Por vezes, querem dizer com isso que o cego pode passar, que ele aguarda, ou então, que espere, pois ele é quem vai passar, ou ainda, pode ficar tranqüilo que ele está atento e vai passar devagarinho, se preciso for, frea instantaneamente, sem esquecer que às vezes esse sinal é apenas para cumprimentar o cego.

Recomendamos, neste caso, que não use a buzina. Ela pode atrapalhar muito mais do que ajudar.


RELACIONAMENTO COM A PESSOA DEFICIENTE VISUAL

  • Não acredite na "compensação da natureza", ou seja, que a natureza compensou a pessoa cega pela falta de visão. O que existe nela é o simples desenvolvimento de recursos latentes em todos nós e que qualquer um pode desenvolver.
  • Quando for falar com uma pessoa cega, dirija-se diretamente a ela e não através de seu acompanhante. Identifique-se e toque o seu braço ou seu ombro para que ela saiba que é com ela que está falando.
  • "Ei menino! Venha aqui por favor." Não dê informações com gestos ou sinais: "Onde é o ponto de circular?" "É do lado de lá." Esta atitude de nada adianta para ela. Responda verbalmente: Siga a sua direita.
  • Quando estiver conversando com uma pessoa cega, não deixe de avisá-la quando tiver que se ausentar. Principalmente se houver muito barulho que a impeça de perceber sua ausência. Ela pode dirigir-lhe a palavra e acabar falando sozinha: "... e no trabalho, como está indo?"
  • Não deixe de falar sempre que entrar em um ambiente onde haja uma pessoa cega: "Estamos na rodoviária, Antônio". Isso anuncia sua presença e a auxilia a identificá-lo. Evite que ela tenha que adivinhar com quem está falando.
  • Em ambientes desconhecidos ou em situações novas, ofereça-lhe o maior número de informações possíveis, só assim ela poderá localizar-se e saber exatamente o que está acontecendo ao seu redor.
  • Não deixe de apresentá-lo às pessoas que estejam participando de seu grupo. Assim agindo você facilitará a sua integração ao grupo.
  • Não deixe de aproximar-se de uma pessoa cega com medo de ser contagiado pela "doença". A cegueira é uma deficiência sensorial, não é doença.
  • Quando for guiá-la, não a empurre ou puxe pelo braço. Basta deixá-la segurar seu braço que o movimento de seu corpo lhe dará a orientação de que ela precisa.
  • Quando for ajudá-la a atravessar a rua ou subir escada, ofereça-lhe seu braço ou ponha-lhe a mão no corrimão.
  • Não a empurre ou a levante para ajudá-la a subir no ônibus ou carro. Basta pôr-lhe a mão na alça externa da maçaneta que ela subirá sozinha.
  • Se você encontrá-la em qualquer loja comercial, dirija-se a ela e oriente-a sobre os produtos, marcas e preços: Temos lanches a três Reais por pessoa. E suco grátis na compra de três lanches.
  • Não deixe objetos no caminho por onde ela possa passar, ou em locais onde a pessoa cega não possa perceber sua presença com o uso da bengala (carros na calçada, janelas abertas).

FIM


 

NOTA DO AUTOR  |  A publicação da presente obra tem para mim o caráter de um grande amor, de uma realização ímpar e de uma satisfação plena. Contudo tal feito teve a participação de várias pessoas, as quais prefiro não nominar, pois o risco de esquecer um ou outro nome por certo existe. Uma vez que considero todo apoio de fundamental importância, incluindo aí inclusive aqueles que tiveram uma palavra ou um gesto de incentivo. César Gualberto

 

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Apesar de ser cego - Ver além da visão
Autor: César Gualberto
Edição do autor
Maringá-Paraná


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[15.Jul.2013]
Publicado por MJA