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- Ver além da visão -
César Gualberto

Parc aux aveugles - Segui Antonio, 1978
VOLUME 1
VOLUME 2
VOLUME I
Conheci o César em 1984, durante o curso de formação de professores em Educação Especial. Digo conheci e não
"nos conhecemos", porque eu fiquei durante um bom tempo observando de longe aquele rapaz que vinha para a
aula todas as noites, com sua bengala.
Naquele tempo, eu ainda era uma principiante (fazia pouco mais de um
ano do diagnóstico de surdez das minhas filhas) e a questão da deficiência estava muito mal resolvida dentro de
mim.
Assim, exatamente como a grande maioria das pessoas, o cego assustava, ou melhor, incomodava, e eu, observava
de longe.
Depois, com o tempo, fomos nos conhecendo melhor e, através do César, pude tomar contato com o lado real da
deficiência, bem diferente daquilo que todos nós imaginamos.
Com o crescimento das minhas filhas
(hoje elas estão com 15 anos), fui me aprofundando nos estudos e, muito mais do que isso, fui vivenciando,
experimentando, sofrendo muito, aprendendo e principalmente, me realizando como mãe e profissional.
Situações de preconceito, de
piedade, de desprezo, de escárnio fazem parte do cotidiano das pessoas com deficiência e de seus familiares.
Meu marido, uma vez, quando tratávamos um dos nossos inúmeros confrontos com a sociedade, colocou a
mão sobre o peito e me disse: - "Isto aqui é um brejo, de tanto sapo que eu já tive de engolir!".
A maior luta, portanto, está em conseguir viver bem, sendo diferente.
A sociedade exclui quem não se
assemelha à maioria, tanto assim que, por exemplo, a moda é a maior escravidão imposta à humanidade, e nos
submetemos a ela, muitas vezes com prazer.
E o que dizer do culto ao corpo que impera atualmente? O corpo deve ser magro, firme, "malhado". Os gordos, os
idosos, os baixinhos são vítimas do "extermínio social".
O César coloca muito bem que, para
pessoas com deficiência, o "meio termo"o "médio", o "normal", não
existe; ou seja, ou elas são super-heróis, que "matam leão a unha"ou são "coitadinhas", precisando de
assistência.
A compreensão de que o indíviduo com deficiência não é santo, nem herói, mas apenas alguém diferente, nossa
sociedade ainda não tem. E não basta que nós, familiares, governos, entidades, preparemos nossos
deficientes para enfrentar a sociedade; é preciso preparar esta mesma sociedade
para recebê-los.Com este livro, o César dá um grande
passo neste sentido. Lendo-o, os cegos
deixam de ser um mistério, ou "melhor
amigo do homem", mas, simplesmente,
alguém que não enxerga.Clélia Maria Ignatius Nogueira
ESCLARECIMENTO
Devido à falta de informações a
respeito da pessoa portadora de
deficiência visual, esta é sempre
tratada com medo, superstição e
ignorância.
Diante desta situação, a criação e
divulgação deste livro têm como
proposta oferecer à comunidade
informações sobre quem é o deficiente
visual e o trabalho realizado.
Ainda dentro desta proposta,
oferecer orientação às pessoas para um
melhor relacionamento com o deficiente
visual.
QUEM É O DEFICIENTE VISUAL?
É a pessoa que possui alteração na
capacidade de perceber imagens,
comprovada por diagnóstico de
especialista na área.
CARACTERÍSTICA DO DEFICIENTE VISUAL.
A: Cegos (perda total, ou quase
total, da visão).
Eles necessitam de método braile
como meio de leitura e escrita e/ou de
outros métodos, recursos didáticos e
equipamentos especiais para sua
educação.
B: Parcialmente cegos (visão
reduzida ou visão subnormal).
Estes são os que, embora com
distúrbio de visão, possuem resíduos
visuais em tal grau que lhes é possível
ler textos impressos a tinta. Não se
incluem nesta categoria as deficiências
facilmente corrigidas pelo uso adequado
de lentes.
Mas, apesar da incapacidade visual,
o deficiente é um indivíduo possuidor
de condições plenas de realizar
atividades.
Em Maringá, temos deficientes
visuais exercendo funções como:
professores, monitores braile, técnicos
de câmara escura, massagistas,
zeladoras, artesões, etc.
Não é muito incomum as pessoas
pensarem que nós cegos vivemos no mundo
da escuridão, das trevas, como se tudo
fosse um imenso buraco negro, ou como
se estivéssemos, constantemente, à
beira de um abismo.
A respeito disso, fomos fazer uma
pesquisa mais profunda. Argüindo vários
cegos, pudemos tirar nossas conclusões.
No nosso caso, temos uma ótima
noção de claridade. Vemos a luz do dia,
a chegada da noite, temos percepção de
claridade de algumas luzes mais fortes
e quando estão perto. Vemos também
pequenos pontos luminosos que se
movimentam constantemente, como se
estivessem à frente dos meus olhos.
Isso se dá devido à característica da
doença que fomos acometidos e que nos
levou à cegueira. Aliás, vale ressaltar
que, em muitos dos casos que citaremos
a seguir, o nível de visão também está
diretamente vinculado à doença
causadora de sua cegueira. Há casos de
pessoas que vêem tudo claro à sua
frente, como se houvesse uma névoa
constante. Já outros dizem enxergar
tudo meio avermelhado, ou azulado.
Pesquisei cegos congênitos que
afirmam ver cores e que as mesmas estão
a sua disposição, sendo utilizadas por
eles de acordo com suas vontades.
Naturalmente que falamos aqui de
situações distintas. Nossa pesquisa
mostra ainda que existem alguns cegos
que vêem à sua frente tudo negro e,
sequer, um mínimo de luz se lhes
apresenta.
Mas, mesmo nestes casos, acontece
um fato curioso que se apresenta na
imensa maioria dos casos, ou seja, há
uma predisposição para desviar de
obstáculos que não fazem barulho, não
têm odor e não foram ainda tocados.
Aquele que enxerga e que é leigo,
afirmaria que o cego enxergou tal
objeto para se desviar dele. E aqui não
entram aquelas condições favoráveis de
mudança de pressão do ar, ou de
corrente do mesmo ar. Entra, no nosso
entendimento, o sentido especial, além
dos outros cinco já conhecidos.
Não são poucas as pessoas que
afirmam ser essa condição uma ação do
anjo da guarda de cada um. Em sendo
assim, eu perguntaria:
"E os cegos que não têm essa
capacidade? O anjo da guarda deles não
existe? Está desatento? Ou tirou
férias?"
CEGOLÂNDIA - NADA INCOMUM
Depois que fiquei cego, observei
que havia a formação de sociedades que
buscavam o bem estar dos deficientes
visuais, procurando realizar o desejo
de verem suas necessidades atendidas.
Entre outras atividades, os cegos
se reúnem para ir ao futebol, ao bar, à
danceteria, ao clube, às festas. Em uma
análise feita por mim, concluí que isso
acontece por uma necessidade de dizer
que não é o único cego e que tem as
mesmas dificuldades que o outro tem
para satisfazer suas necessidades de
lazer, de locomoção, de relacionar-se
com dinheiro e de obter informações de
lugares para onde se dirige. Todas
essas dificuldades são iguais.
E essa formação de grupelhos, ou
micro-sociedades, cria o que alguns
chamam de guetos. Por isso é muito
fácil encontrarmos cegos que só sabem
se relacionar com outros cegos, ou
quando estes estão por perto. Sem os
mesmos, ficariam como se fossem peixes
fora da água. Esses grupos recebem,
entre outras, algumas denominações no
mínimo curiosas, feitas por alguns
cegos, como por exemplo: a cegolândia,
os ceguetas.
Todavia, excluímos daqui as
formações de cegos em associações e
outras que atuam na defesa dos
interesses da classe, de forma,
culturalmente falando, mais séria.
Quando saem vários cegos pelas
ruas, avenidas e calçadas de uma
cidade, a cena se torna no mínimo
pitoresca. Por menos que um sujeito de
fora não seja curioso, não há como
deixar de observar aquela situação de
seres se segurando em outros seres,
dois a dois, três a três, quatro a
quatro, cinco a cinco e, assim por
diante, conforme a necessidade. Com a
descoberta da existência de alguém no
grupo que enxerga pelo menos um pouco,
que não precisa usar bengala para se
locomover, ele se transforma no puxador
da fila, embora, às vezes, a maioria,
ou até mesmo todos, possam saber o
caminho para onde se dirigem.
Abrindo um parênteses aqui, quero
citar uma frase de um amigo chamado
Leonardo, de Belo Horizonte, que afirma
ser o cego o animal mais próximo do
homem.
Desejo salientar ainda, que os
chamados guetos não são uma necessidade
para todos os cegos, mas sim, para uma
parte de nós, que eu ouso chamar de
maioria.
Não vamos analisar se isso é certo
ou errado, deixamos apenas para análise
dos senhores leitores e para a
conclusão de ambos os animais.
EVOLUÇÃO
Somente no final da Idade Moderna o
cego passou a ter oportunidade de se
educar. Homero é tido como o primeiro
cego a conquistar isso, mas é uma
figura lendária. A história real do
cego começa em 1784. Observando um cego
lendo moedas pelo tato é que se
verificou que este poderia ler, dando
origem à primeira escola com um sistema
de leitura com letras normais em alto
relevo, o Instituto do Jovem Cego. Isto
aconteceu na França. Foi nesta escola
que, com nove anos de idade, passou a
estudar Louis Braille. Ele entrou em
contato também com outro sistema
criado, que constituía de pontos e
traços. Este era usado para leitura
noturna, no exército. Como não teve
êxito no seu primeiro objetivo, o
sistema foi levado para o Instituto,
para ver se o cego se adaptava ao
mesmo. Então, Louis Braille, inspirado
neste sistema, inventa o seu próprio,
em 1825. A vantagem é que este
possibilitava ao cego poder escrever e
ler, uma vez que os anteriores somente
permitia a leitura. Tal sistema só foi
aceito em 1837, depois de ser
combatido.
Citamos aqui uma das passagens de
Louis Braille, que para demonstrar seu
sistema, apresentou, a um juiz da
época, um livro inteiro escrito neste
sistema. Depois de ter lido todo o
exemplar, o juiz afirmou que o jovem
realmente tinha uma memória fantástica,
pois havia decorado todo o livro.
PERÍODOS DA EVOLUÇÃO DOS CEGOS
O atendimento ao deficiente é
dividido em três períodos. O primeiro,
de 1854 a 1960. O segundo, de 1961 a
1972. E o terceiro, de 1972 em diante.
O primeiro período caracteriza-se
pela iniciativa assistemática, sem
periodicidade das atividades
educacionais e assistenciais para os
cegos.
O segundo período caracterizou-se
pela institucionalização da educação,
aparecendo, pela primeira vez, leis que
vão determinar a obrigatoriedade
governamental da educação para o
deficiente. Tal fato se deu a partir da
Constituição de 64 e da Lei de
Diretrizes e Bases, na mesma época.
Isto foi possível porque já existiam
organizações que cobravam apoio do
Governo, que até então era omisso.
No terceiro período aparece a
planificação da educação. Os poderes da
União, Estado e Município passam a ter
obrigatoriedade de estabelecer a
educação especial também em seus
programas educacionais. Tal processo
encontra-se, atualmente, em evolução.
No final do primeiro período,
começou-se a cobrar iniciativas do
Governo. Realizou-se, em 57, uma
campanha nacional de educação de
surdos, em 58, de cegos e em 60, de
deficientes mentais. Isto força o
Governo a colocar em lei a educação
para deficientes.
No terceiro período, extinguiram-se
as campanhas e criou-se o Centro
Nacional de Educação Especial, que
funcionava através de projetos
apresentados pelas secretarias locais.
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS CEGOS
O primeiro período da educação
especial para as pessoas cegas
subdivide-se em três fases.
A:
pioneirismo do atendimento às pessoas
cegas - 1854 a 1928.
B: expansão do
atendimento ao cego no Brasil -1929 a
1945.
C: fase da valorização da
educação e ampliação das oportunidades
- 1946 a 1960.
A primeira fase é chamada
pioneirismo pelo aparecimento de
associações de cegos responsáveis pela
abertura de caminhos. Temos aí vários
exemplos, como o de um cego catarinense
que estudou no Instituto Benjamin
Constant e tornou-se jornalista,
demonstrando muita eficiência no setor
e propagando o movimento republicano.
Isso porque fez parte de um núcleo
republicano, IBC, que tinha como
professor Benjamin Constant. Através da
convivência com os cegos, este
professor passou a reconhecer a
capacidade dos mesmos e formou, no
Instituto, grupos republicanos.
Houve ainda outro catarinense,
poeta e que também fazia parte do
movimento republicano, além de um
excelente músico e pianista. Um fato
marcante na vida deste último foi
quando o músico do rei, vendo um
concerto do mesmo, apreciou de tal
forma que o convidou para um concerto
de apresentação ao rei, feito a quatro
mãos.
No início do nosso século, surge um
engenheiro reabilitado pelo Instituto
Benjamin Constant, que tornou-se
professor e criou a primeira escola
profissionalizante de cegos. Ele fez um
mapa vivo, que foi apresentado nas
comemorações centenárias da
independência. Teve um neto, que
participava do Ministério da Educação e
teve grande importância na abertura do
reconhecimento das associações de
desportos para deficiente.
Outro estudante do IBC levou para
o Norte do País a idéia de se criar uma
organização de cegos, em 1909,
desenvolvendo a música na região, assim
como a musicografia, no Instituto de
Cegos de Pernambuco. Manteve também
cursos para entrada no serviço público,
criou a liga de proteção ao cego,
juntamente com outros grandes
intelectuais.
Fundou-se, em Minas Gerais, o
Instituto São Rafael, em 02/09/1926.
Em 1928, criou-se a primeira
instituição religiosa para cegos, o
Instituto de Cegos Padre Chico.
A segunda fase caracteriza-se pela
ampliação dessa assistência. Surge o
Instituto de Cegos da Bahia, o Louis
Braille, em Minas Gerais, o Instituto
Paranaense de Cegos, o Santa Luzia, no
Rio Grande do Sul, e outros em épocas
posteriores.
Dois cegos, neste período,
conseguiram fazer o curso de Direito,
apesar de não ser permitido, na época,
que cegos freqüentassem universidades.
A briga e insistência é que permitiram
essa proeza.
Em 1933, um cego curitibano foi
o primeiro a conseguir autorização
para fazer o ginásio. Um pouco mais
tarde, em 1935, um cego consegue entrar
na Escola Nacional de Música. Em 1943,
outro cego consegue autorização para
fazer Pedagogia. E ainda, um grande
violinista cego, de nível
internacional, é aplaudido por milhares
de pessoas.
Outro cego matogrossense se destaca
como o maior saxofonista da época,
devido à sua grande capacidade de tirar
o agudo deste instrumento. A partir de
então, foi adicionado uma chave a mais
no instrumento.
Foi criada a primeira revista
braile no Brasil.
Na terceira fase deu-se o
reconhecimento da educação dos cegos,
em 1946.
Neste ano criou-se também a
Fundação para o Livro do Cego no Brasil
que, posteriormente, teve sua
denominação alterada para Fundação
Dorina Nowill, cujo nome perdura até
hoje. Em 1947, aconteceu o primeiro
curso de profissionalização de
professores para pessoas cegas. A
primeira turma ginasial de cegos no
Instituto Benjamin Constant formou-se
em 1949, pois até então, apesar do
ensino ser ministrado naquele órgão,
ele não permitia que o aluno fosse
reconhecido e recebesse o diploma de
conclusão. O Instituto não tinha
caracterização de escola para tal. Em
1950, foi instituído, na Escola Caetano
de Campos, de ensino regular, a
primeira sala de ensino especial,
permitindo assim uma abertura para que
outros alunos pudessem estudar em
outras escolas. O ensino integrado foi
de grande importância para a
minimização do preconceito, pois
permitia a convivência de alunos que
enxergavam, com os cegos. O problema é
que o deficiente teve sempre que estar
provando que era capaz. Em 1951,
apareceram novos cursos de
profissionalização de professores para
cegos. E em 1952, forma-se a primeira
turma de segundo grau, no Rio de
Janeiro.
A turma recém-formada queria então
entrar na faculdade, o que foi
conseguido com muita luta. Com a vinda
para o Brasil de Hellen Keler, em 1953,
mais alguns programas que vinham sendo
implementados desde o começo da década
de 40, fizeram com que acontecessem
algumas evoluções, principalmente por
parte do SENAI, que citaremos em
seguida. Em 1958 começou então a
campanha do atendimento do ensino
integrado, denominada Campanha Nacional
do Ensino para Cegos. Neste ano,
iniciou-se a orientação e mobilidade no
País, com a chegada das primeiras
bengalas vindas do exterior. Em 1960,
há o movimento favorável à
profissionalização da pessoa cega,
iniciado pelo Serviço Nacional da
Indústria, SENAI.
O Segundo período caracteriza-se
pela afirmação das conquistas e
melhoria do atendimento.
No final da década de sessenta,
houve a verdadeira expansão da
adaptação do uso do sorobã para cegos,
iniciada em 1949.
Nesta década, houve também a
criação da primeira associação de
professores para cegos. A Associação
Brasileira de Educadores para
Deficientes Visuais, em 15/11/1968.
Em 1970 surgem os primeiros cursos
na área de programadores.
O Terceiro período é a fase de
planificação.
Em 1973 foi criado o Centro
Nacional de Educação Especial com o
objetivo de acabar com as campanhas
isoladas, planificando os movimentos e
surgindo os projetos de desenvolvimento
da educação. Destacam-se aí três
momentos. De 1973 a 1976, onde houve
apoio a cursos de programação, projetos
de bolsas de trabalhos e outros de
grande importância, que fizeram com que
nesse período fossem alcançados
desenvolvimentos significativos de
vários cegos pelo País.
De 1979 a 1985, quando houve um
período de certo descuido do Governo
Federal, proporcionando com isso um
retrocesso nas conquistas. Tal fato
deu-se devido à mudança de Governo.
Houve também a criação da CORDE,
Coordenadoria de Desenvolvimento dos
Excepcionais, órgão existente até hoje
e que tem prestado grande colaboração
nos projetos relacionados à área. A
expansão se torna contínua até os
nossos dias, com aparição de líderes de
fundamental importância neste
movimento, que nós caracterizamos como
aspiral ascendente. Aparecem também
fatos marcantes todos os anos,
principalmente com a utilização da
informática a nosso serviço. Os cegos
têm ainda na Universidade Federal do
Rio de Janeiro, UFRJ, uma contribuição
altamente valiosa, no apoio à criação
do sistema operacional dos vox, que
permite aos cegos ter várias opções de
trabalho, de cultura, lazer e outros.
ATLETISMO E CEGUEIRA
Corrida Apucarana a Maringá.
Aconteceu no dia 8 de abril de
1996. Foram aproximadamente 64
quilômetros desde a Praça Rui Barbosa,
em Apucarana, até a Praça Raposo
Tavares, em Maringá, onde mais de mil
pessoas esperavam. Estas foram atraídas
por um palco e um serviço de som
instalados com o objetivo de anunciar,
com clareza, o motivo do ato por mim
praticado, ou seja, a divulgação da
luta contra o preconceito, cuja
manifestação eu denominei "Corrida
Contra o Preconceito".
Entre as pessoas que esperavam
minha chegada, estavam minha mãe e
minha filha, Tamara. Ambas ouviram a
conversa de duas distintas senhoras.
Dizia a primeira:
"Quando ele chegar, vai pedir
esmola para todos que aqui se
encontram." E a segunda comentava, toda
espantada:
"É verdade?"
Ambas viraram-se para minha mãe e
uma delas perguntou:
"A senhora conhece esse rapaz que
está fazendo essa corrida?"
Minha mãe respondeu.
"Conheço. É meu filho."
Sem sequer conseguir pronunciar uma
palavra a mais, as duas senhoras se
afastaram e desapareceram na multidão.
E a tal esmola, que seria pedida, nunca
aconteceu.
Talvez seja importante analisar
isso. Por que algumas pessoas insistem
em pensar que os cegos só servem para
pedir esmolas? Quem sabe, o acontecido
serviu para mudar o pensamento de
algumas dessas pessoas, após
verificarem que não foi angariado
recurso financeiro algum. Se isso
aconteceu, com uma pessoa que seja,
entendo que meu esforço não foi em vão.
Sei que a mudança de consciência é
gradativa, lenta e, o que se consegue
com atos desse tipo, é a minimização do
preconceito.
Já participei de várias etapas da
corrida 21 de Abril, em Maringá. Para
que consiga correr, entretanto, é
necessário que um outro atleta
acompanhe-me durante todo o percurso,
dirigindo-me. Isso é feito com o uso de
uma fita, ou similar, que é amarrada no
meu pulso esquerdo, enquanto o outro
atleta segura a outra extremidade, para
orientar-me na direção que devo seguir.
A situação, no entanto, causa sérios
constrangimentos, principalmente para
aquele que me serve de guia, pois nas
ruas de Maringá encontramos várias
pessoas que gritam chamando-nos de
bicha, viado, fazendo chacotas como,
por exemplo:
"Lá vão os dois."
"Eles não querem se perder um do
outro."
"Vão chegar juntinhos, de mãos
dadas."
As pessoas que estão assistindo à
corrida não são obrigadas a me
conhecer, portanto, pensam que enxergo.
E o que pensar de duas pessoas que
correm grudadinhas?
Agora eu pergunto: duas pessoas que
enxergam, sendo um deles homossexual,
ou mesmo os dois, não teriam o direito
de correr de mãos dadas? É, sem dúvida,
mais uma vez o preconceito que temos
nos nossos corações que nos faz sermos
tão pequenos.
Outro atleta me dizia:
"César, porque essas pessoas não
fazem igual a você? Em vez de falar
assim, poderiam deixar de beber, fumar
e partirem para a prática do esporte."
Uma moça cega, também participando
de corrida de rua, tem por obrigação
correr com um guia do lado. Passando
pelas ruas, as frases mais ouvidas são
mais ou menos as seguintes:
"O amor é lindo."
"Quando será o casamento?"
"Que bonito, eles não se largam."
Pensa-se que um homem e uma mulher
não podem correr atrelados a um pedaço
de barbante, que isso significa ligação
amorosa.
E se por ventura um casal,
verdadeiramente de namorados, quisesse
demonstrar afeto desta maneira?
Sofreria gozações por parte dos
zombeteiros de repetição?
ACONTECIMENTOS DE DISCRIMINAÇÃO
Dizem existir vários tipos de
discriminação, entre eles aquele que as
pessoas praticam inconscientemente, sem
o desejo de magoar quem quer que seja.
Temos informações de várias
discriminações contra cegos, entre
elas, vamos citar aquela acontecida em
São Paulo, quando um grupo de cegos,
pertencentes à Adevimar, foi a um bar
tomar cerveja e com voz clara, o
proprietário disse que não vendia
cerveja para cegos. Se ele não vendesse
a ninguém, é claro que se tratava de
uma mercadoria não comercializada em
seu estabelecimento. Mas a iniciativa
de não vender exclusivamente para
cegos, é um ato de extrema
discriminação.
Uma das lojas famosas de Maringá,
foi palco também de uma ação de
violenta discriminação. Um amigo,
chamado Joaquim Teixeira Batista, foi
com seu filho menor, de cinco anos, até
aquela loja para comprar pisca-pisca de
árvore para Natal. Como era mês de
dezembro, ele pretendia preparar seus
enfeites para as comemorações
natalinas. Entrou na loja com uma das
mãos segurada pelo seu filho, quando
aproximou-se deles um dos funcionários
e disse ao garoto:
"Diga a seu pai que aqui dentro da
loja é proibido pedir esmolas."
Esse amigo não se conteve e
desandou a falar, em altos brados, que
ele estava ali para comprar e não para
esmolar. Vários clientes foram ver o
que estava acontecendo. Foram
necessários alguns minutos para
acalmá-lo.
Na minha opinião, esta é uma das
mais profundas discriminações, um caso
de polícia, algo muito grave que
acontece no cotidiano de qualquer cego
que queira participar da sociedade e se
arrisca a comprar no comércio. É fácil
tachá-lo como pedinte.
Uma senhorita entrou num
cabeleireiro para pedir voto, pois a
mesma trabalhava de cabo eleitoral. Ao
tentar entrar, a proprietária disse que
não tinha trocado e pediu que voltasse
outro dia.
Discriminação na Câmara de
Vereadores.
Não havíamos sequer assumido o
mandato que conquistamos em 3 de
outubro de 1992. Isso aconteceu no mês
de dezembro, durante uma reunião
realizada na residência do senhor
Nestor. A conversa girava em torno de
como seriam formados os grupos para as
comissões permanentes, do biênio
seguinte, no Poder Legislativo. Entre
um e outro vereador que se candidatava
a algum cargo, seja de membro ou de
presidente de uma das comissões,
ocorreu um fato interessante. Lá pelas
tantas, candidatei-me à presidência da
Comissão de Finanças e Orçamento,
quando, com voz alterada e
completamente abismada, a senhora
Angela disse com tom áspero:
"Não! Não pode ser! O César não
enxerga. Ele não pode ser presidente."
Ato incontinente, respondi que se
me julgassem incapaz para assumir tal
cargo, bastava não votar em mim. Mas
nunca porque sou cego. Nestor
interferiu e pediu que a pessoa
retirasse o que havia dito. Ela não
quis fazê-lo. Diante de minhas palavras
de desagravo e a observância delas, os
outros senhores, entre olhares e
cochichos, acertaram rapidamente não
votarem em minha pessoa para a referida
presidência.
Foi fruto de manchete nacional e
também nos jornais locais, a
autorização judicial que uma mãe
conseguiu, em Maringá, para abortar seu
filho. Através de exames, os médicos
tinham descoberto que a criança era
encefálica, ou seja, não tinha cérebro.
Através de uma enquete realizada pelo
Programa Comando Geral, da Rádio
Atalaia, também de Maringá, buscava-se
saber a opinião dos ouvintes, se eram
contrários ou favoráveis. Percebemos
que a esmagadora maioria era de
contrários.
Pessoas ainda afirmaram que, neste
caso, havia uma enorme discriminação,
pois se a criança fosse possuidora de
cérebro, mesmo a mãe correndo risco de
vida, o juiz, com certeza, não teria
autorizado o aborto.
Configura-se aí, na opinião de
ouvintes, que a discriminação existe
contra aquele que está dentro ou fora
do ventre.
Convém afirmar ainda, que a citada
enquete foi realizada no dia 4/12/96 e
que participaram 57 ouvintes, dos quais
49 se posicionaram contra este aborto e
8 foram a favor.
Uma das pessoas que mais sofrem com
a discriminação, sendo em alguns casos
até mesmo muito grave, é aquela que nós
denominamos de cego parcial, ou seja,
aquela que possui baixa acuidade
visual, de tal forma que o
impossibilita de ler letras do tamanho
comum, necessitando que as mesmas sejam
ampliadas. Por outro lado, enxergam
objetos apenas a curtíssima distância.
Em outros casos, enxergam com extrema
dificuldade no período do dia e vêem
melhor no período noturno, ou vice
versa.
Os cegos parciais, por conseguirem
andar sem bengala, não são
identificados como cegos no
relacionamento com outras pessoas. Em
assim sendo, o parcial é tratado como
pessoa que enxerga normalmente e, por
isso mesmo, quando necessita de algum
auxílio, não é percebido como alguém
com deficiência. Se, por acaso, vai
tentar um emprego, não passa nos exames
médicos, pois não enxerga quase nada.
Ainda na Câmara: por algumas vezes
precisei de assinatura de um vereador,
que se aproveitou da minha condição de
cego para fingir que assinava
documentos que tinham suma importância
para a comunidade e que mereceriam, no
mínimo, serem discutidos. O regimento
interno da Casa dizia que se eu
protocolasse tais documentos nos dias
em questão, ganharia com isso dois ou
três dias na agilização do processo.
Mas, o dito vereador fingia que
corroborava com o documento e, eu saía
coletando novas assinaturas quando,
depois de algum tempo, descobria que o
mesmo não havia assinado. Seria muito
mais louvável dizer, se fosse o caso,
que não era favorável aos referidos
documentos.
É muito fácil, mesmo estando na
frente de um cego, enganá-lo e, de
forma séria, dizer que assinou
determinado documento. Isso, no nosso
entendimento, é usar da cegueira do
outro para ludibriá-lo, portanto,
caracterizo como discriminação contra
nós, fato que, ao mesmo tempo, acaba
sendo prejudicial à comunidade.
O senhor Antonio não entende que um
vereador portador de cegueira tenha o
mesmo direito dos outros vinte
vereadores; que tem o interesse de ler
o que está à disposição na Câmara, ou
seja, aqueles documentos que qualquer
edil, que porventura se interesse, pode
apanhar uma cópia e levar para casa ou
ao escritório, para melhor estudar a
matéria. Todavia, o mesmo direito não
era concedido a mim, mesmo sabendo que
existe a escrita braile, que permitiria
que eu tivesse os mesmos direitos dos
outros vereadores.
O fato de ter na casa um
funcionário que transcrevesse todas as
matérias para o braile, na opinião do
senhor Antonio, era dar um funcionário
a mais para mim. E que, com isso, eu
estaria sendo privilegiado. Porém, o
que dizer dos outros funcionários, que
não eram poucos, e que faziam todo
material em tinta, inúteis para mim,
mas que serviam aos outros vinte
vereadores.
Façamos aqui um exercício de
suposição. Admitindo que a Câmara fosse
composta apenas de vereadores cegos,
esses funcionários seriam perfeitamente
dispensáveis, pois só sabiam preparar
material em tinta.
Fica fácil, nesse caso, concluir
que com um grupo de vinte e cinco
funcionários, servindo a vinte
vereadores, há uma média de mais de um
para cada edil. Dessa forma, observa-se
claramente que um funcionário
preparando meus materiais, não
constitui privilégio algum, mas sim uma
necessidade de trabalho, dando a mim a
mesma condição que os demais têm para
bem representar os munícipes.
Como não dispunha de um funcionário
de minha confiança, tomei primeiramente
a decisão de protocolar um
requerimento, solicitando ao presidente
que reparasse aquele erro infantil. Fiz
questão, no referido documento, de
citar que não precisaria ser
necessariamente escolhido por minha
pessoa aquele que viesse a ocupar tal
cargo.
Diante da inoperância e da falta de
vontade para resolver o problema,
passei, daquele dia em diante, a não
assinar os documentos apresentados
pelos funcionários, nem mesmo a ciência
de recebimento destes. A justificativa
para tal procedimento, junto a aqueles
que me traziam documento para assinar,
uma vez que havia um rodízio deles, era
sempre a mesma.
"Você pode ser a pessoa mais honesta
do mundo, mas eu não o conheço e não
tenho como diferenciá-lo dos
desonestos. Posso estar correndo um
risco muito sério de assinar algum
documento que venha depor contra a
comunidade, ou contra minha própria
pessoa."
A situação se tornou hilariante,
inclusive, com várias quebras do
regimento interno da casa, por mim
denunciadas. Uma delas é a de que
existe um prazo para entregar ao edil a
pauta das sessões e a minha nunca era
entregue respeitando o prazo.
Mandava-se transcrever em braile a
minha pauta, no Centro de Estudos
Supletivos, CES. E vale salientar que
os mesmos não têm qualquer culpa do
atraso. Por diversas vezes, o referido
documento só era apresentado a mim três
horas antes do inicio da sessão, ou
seja, às dezessete horas do mesmo dia
em que ela ocorre.
Certa vez, quando a Câmara ainda
era na Praça Rocha Pombo, em um belo
sábado, estava acontecendo uma reunião
partidária. Eu estava, naquele momento,
sentado em uma das cadeiras na sala do
então diretor da casa, o ex-deputado
estadual Antonio Facci, quando se
aproximou um senhor cego, acompanhado
de um menino. Este me pediu uma esmola
para seu pai que não podia trabalhar,
pois não enxergava. Eu disse que também
era cego e que estava disposto a
ajudar, mas de uma outra forma. Sem que
pudesse continuar minha fala, fui
interrompido pelo companheiro de
cegueira, que pediu gentilmente para
não brincar daquela forma. Continuou
falando a respeito da cegueira como
sendo uma das coisas mais tristes do
mundo e, só mesmo alguém que possuísse
um problema igual, é que poderia
avaliá-lo.
O diretor da Câmara tentou
interferir a meu favor dizendo que
realmente eu também era cego, sem,
todavia lograr êxito, uma vez que o
cidadão voltou a insistir, dizendo que
não havia possibilidade de um cego ser
eleito vereador.
Depois de alguma insistência,
consegui passar o endereço da nossa
associação e marcar um encontro para as
14h da segunda-feira seguinte.
Entretanto, o dito cujo não me
procurou. O mesmo disse, na ocasião,
ser morador em Maringá, mas nunca mais
foi visto pelas nossas ruas.
Uma amiga foi eleita vereadora na
cidade de Porto Alegre, no ano de 1982.
Por ser cega total, numa das sessões
ela apoderou-se da bengala e
preparava-se para sair do plenário,
quando o presidente da casa perguntou
através do microfone:
"Excelentíssima, onde a senhora
vai?"
Ela mudou de direção, apanhou um
dos microfones e através do mesmo
perguntou.
"O senhor quer mesmo saber?"
"Sim."
"Eu vou fazer xixi. Ah! Por falar
nisso, senhor presidente, porque o
senhor não pergunta também para os
outros vereadores onde vão, quando se
ausentam do plenário? Será que o
regimento interno prevê que somente os
cegos devem dizer para onde vão?"
Caso típico de discriminação.
Sabemos, entretanto, que não existe aí
maldade alguma por parte de quem
discriminou. Mas aqui, o cego foi
tratado como sendo um coitado, que
necessita de amparo, paternalismo.
Classificamos o fato como um puro
desconhecimento das verdadeiras
possibilidades do cego.
DADOS ESTATÍSTICOS
Foi realizada uma pesquisa para
saber a opinião de pessoas portadoras
de deficiências e os negros, sobre a
existência ou não de preconceito, por
parte da sociedade, com relação a eles
mesmos. Foram pesquisados deficientes
visuais do Centro Municipal de
Atendimento aos Deficientes Visuais de
Maringá (CMADV), deficientes físicos do
Centro de Vida Independente (CVI), e,
membros do movimento A Consciência
Negra de Maringá. Dentre os 136
pesquisados, o resultado final apontou
o seguinte:
Preconceito racial: 96,96 porcento
disseram sim, que existe o preconceito
e 3,03 porcento disseram não.
Entre os deficientes físicos, 58,33
% responderam sim e 40 %,
não, havendo a abstenção de 1,66
porcento.
Entre os deficientes visuais,
chegou-se a um resultado de 100
% dizendo sim para a existência
do preconceito.
Dos 136 entrevistados, 60 foram
pessoas portadoras de deficiência
física, 43 deficientes visuais e 33
negros.
Lembramos que os originais da
referida pesquisa ficaram, por seis
meses, à disposição dos interessados,
no gabinete do então vereador César
Gualberto. A pesquisa foi encomendada
pelo mesmo para servir de trabalho
histórico e para publicação num livro,
além de servir de ajuda, para análises
futuras, sobre aquilo que pensavam os
deficientes da época.
CONSCIÊNCIA E INCONSCIÊNCIA
Neste capítulo convém tratarmos da
diferença da consciência e
inconsciência dos cegos, comparando-as
com as das pessoas que enxergam. É
preciso perceber que muitas pessoas
costumam "saber tudo" sobre o cego e
que isso tende a trazer uma série de
transtornos. Como é o caso daquele
senhor amigo meu, não é preciso aqui
citar seu nome, que discutiu, com
veemência, afirmando serem todos os
cegos sempre muito calmos e que eram
excelentes tecelões, músicos etc. Ou
seja, os cegos têm uma grande
facilidade para realizar atividades que
precisem de concentração e o fazem, com
extrema facilidade, por uma dádiva
divina.
Dizer a ele que isso não era
verdade e que haviam muitos cegos que
tinham enormes dificuldades para tais
tarefas, foi quase brigar com esse
amigo, uma vez que eu estava destruindo
um conceito que ele tinha há vários
anos.
Apesar disso, nada me impediu de
dizer a ele que encontramos, também, em
muitos cegos, a extrãordinária
facilidade para tais tarefas, todavia,
no mundo das pessoas que enxergam, não
é menos diferente. Há muitas delas que
são ótimas para esse mister, enquanto
outras nada produzem neste aspecto e,
por sua vez, se dão muito bem em outras
atividades, quer seja na música ou em
outras manifestações artísticas, como
também nas profissionais, entre outras.
Antes de sermos cegos, somos
cidadãos comuns, amados por Deus de
igual forma, onde não nos é concedido
dádiva alguma por sermos cegos. São
conquistas de necessidades que temos.
Eu, por exemplo, tenho um péssimo
ouvido para música. Como explicar isso
se afirmam serem todos os cegos
excelentes nesta área? E como eu
conheço uma enormidade de exemplos. Por
outro lado, figuras conhecidas
mundialmente são ótimos músicos, embora
enxerguem.
A consciência do cidadão portador
de cegueira está diretamente
relacionada ao seu mundo de
imperfeições no planeta em que vivemos,
onde os valores morais se situam no
dissabor das marés baixas, de forma que
não se encontra salvação em qualquer
bar da esquina. Situamos nós cegos na
mesma camada, onde encontrei vários com
tendência fortíssima para o desencontro
e outros para o encontro. Poderia
alguém perguntar qual seria a base para
apontar os dois citados. A afirmação
está no aspecto das pesquisas e
convivências com os mesmos, quer seja a
nível municipal, estadual, nacional e
até internacional.
Vamos admitir. É consciente
aproveitar-se da situação de cegueira
para conseguir vantagens pessoais? Por
outro lado, a questão de aceitar a
cegueira, assumindo-a perante si e
perante a sociedade, não tendo o menor
pudor de que o meio saiba de sua
deficiência, mostra seu estado de
evolução para um estágio de maior
consciência.
Os aspectos morais dos seres
humanos estão, muitas vezes, ligados
diretamente à questão material.
Todavia, a questão moral não pode ser
desprezada, e aqui, nos preocupamos em
relatar essa moral diretamente
vinculada ao fato de ser cego, ou seja,
não é muito incomum encontrarmos cegos
que, diante de determinadas situações,
possam prevalecer. Esconderem-se atrás
da imoralidade e aceitá-la como um jogo
absolutamente normal e coerente nos
nossos dias.
Aqui podemos citar o caso da imensa
maioria dos cegos que pedem esmolas.
Eles aceitam esta prática por afirmarem
ser a única forma de sobrevivência.
Exercitando o teatro da necessidade da
busca, todavia, quando se apresentam
junto a amigos, o dito pudor se aflora,
apaziguando a briga da imoralidade com
a moral que todos possuímos.
Conflitamos nossos pensamentos,
criando no nosso interior desastres que
podem perdurar por tempos
inimagináveis. Só passamos a
modificá-lo quando este estado de
consciência, começa a se tornar pleno,
absorvendo valores mais verdadeiros, os
quais permitem alterações profundas na
escala evolutiva da nossa crise moral.
Perguntado para alguns cegos, que
percebem apenas um salário mínimo
mensal, se aceitariam o triplo daquele
ganho em esmolas, a resposta foi
unanime de recusa. E quando arguidos
porque, as respostas também foram muito
parecidas. Sempre havia uma preocupação
de justificativa no aspecto moral e
que, em nenhuma circunstância, seria de
seu caráter aquela prática.
Não queremos, contudo, afirmar ser
isso uma regra, e muito menos dizer que
todos os aspectos morais estão ligados
a fatos desse tipo. Reservamos o
direito de citar, apenas este, como
sendo um dos milhares de exemplos.
INTEGRAÇÃO
Nós temos afirmado que a pessoa que
é cega encontra uma série de
dificuldades para se integrar, ou se
socializar, pois as pessoas que dirigem
o nosso País e grande parte da nossa
sociedade, querem que nós cegos nos
adaptemos ao meio. Quando, no meu
pensamento, haveria a necessidade de
que isso acontecesse de uma forma
bilateral. O cego se adaptando ao meio
e o meio fazendo algumas mudanças para
se adaptar aos cegos. Não queremos, por
exemplo, que os cegos se adaptem aos
buracos nas calçadas.
Para buscar sua integração, o
deficiente visual precisa de condições
mínimas para tal. E sua concessão não
constitui beneplácito dos dirigentes,
mas sim uma obrigatoriedade.
Além das ações governamentais, os
cegos enfrentam outras três grandes
barreiras. Não que essas sejam as
únicas, mas são fortes e passaremos a
relatá-las a seguir.
A: Primeiramente, a grande luta
contra si próprio. Ele precisa se
convencer de que não é o único cego, de
que pode e deve buscar sua inserção no
meio social. Para conseguir atravessar
essa barreira, é preciso contar com
ajuda de pessoas que estão à sua volta.
Quando isso ocorre, pode se tornar bem
mais fácil, sem contudo dizer que isso
basta, pois ele deverá ter auto-estima
e auto-valorização. A mudança é
interna. O cego deverá implantar no seu
eu, uma estrutura que permita vencer os
obstáculos do cotidiano. Quando isso
ocorre de maneira salutar, passa a ter
condições de enfrentar as outras
barreiras. Pois, assim, ele estará
colaborando consigo mesmo para
desempoeirar seus próprios
preconceitos.
B: A barreira da família. Essa
também é muito difícil. Em alguns lares
mais, em outros menos. Nós colocamos
aqui dois aspectos. O primeiro, é a não
aceitação dos familiares de que ali
entre os seus membros existe um que é
cego. Aqui existem duas situações. Uma
delas é a família carente na área
econômica. Pois se o cego não produz,
mas apenas consome, há nesses casos
certos membros da família que não se
acanham em afirmar que ele produz e o
outro, que não enxerga, só fica ali
parado esperando a comida, a roupa,
etc. Já presenciei casos em que todos
os membros da família andavam bem
vestidos, exceto aquele que é cego. Na
segunda situação, existem aqueles que
são mais abastados financeiramente, mas
que também discriminam o cego. Há o
receio de que a sociedade saiba do fato
de existir ali um cego, e afirmem por
aí que a família de fulano falhou e não
conseguiu fazer todos os filhos
perfeitos.
Este fato relatado não faz parte de
suposições. Nós mesmos presenciamos
tais acontecimentos.
Falamos, algumas linhas acima, da
não aceitação. Agora mister se faz
falarmos sobre a super-estima. Neste
caso, a família pode ser fator
complicador para a inserção do cego na
sociedade, pois não permite que ele
faça nada, ou quase nada. Querem fazer
tudo por ele. Entre os mais clássicos
exemplos, poderíamos citar o colocar a
comida, ligar a televisão, ligar o
rádio, mudar de canal ou de emissora,
vestir suas roupas, calçados, levá-lo
de dentro para fora de casa e
vice-versa, etc. Isso, todavia, é
péssimo. Seria necessário permitir que
o mesmo, através do ensaio e erro,
consiga realizar suas tarefas e a
partir daí, descobrir que é capaz. Eu
ouvi, certa ocasião, uma mãe dizendo
assim:
"Minha filha é cega. Eu cuido dela,
coitadinha."
Eu perguntaria: e se acaso essa mãe
e o pai, que também corroborava com o
pensamento dela, viessem a falecer
antes dessa moça? Moraria ela de
favores na casa de familiares ou de
terceiros? E em que condições isso
aconteceria? Quando seria possível sair
portando uma bengala? E realizar uma
tarefa sozinha?
Isso tudo não seria possível se não
tivesse a sorte de entrar para um lar
onde houvesse um espírito de
compreensão dos verdadeiros valores dos
cegos.
C: Depois de ter vencido a barreira
de si próprio e da família, vem a da
sociedade. Contra este tipo de
discriminação, nós temos dito, a luta é
constante. Com ela vamos contribuir,
enormemente, para a minimização do
preconceito e não temos a falsa idéia
de dissipá-la em uma, ou algumas
gerações.
Aqui, o cego recente inicia seu
trabalho com vergonha de portar uma
bengala. Depois enfrenta as barreiras
dos buracos, que já deveriam ter sido
tapados; dos informantes que nem sempre
existem; do balconista que pensa sermos
todos pedintes de esmola; das
repartições públicas que contam com
pessoas despreparadas no trato com
cegos; dos motoristas, ciclistas e
motoqueiros, que não respeitam um
cidadão portando bengala, etc.
Temos a consciência de que a
maioria das pessoas não trata o cego de
forma correta por desconhecimento.
Conheço cegos que freqüentam bares,
casas dançantes, clubes, mas sempre são
vistos como os diferentes. Isso,
contudo, não nos afeta, já que sabemos
que durante todo tempo que aqui
estivermos, estaremos sendo vistos
dessa forma.
Um pequeno debate foi organizado em
um congresso que participei, na cidade
de Florianópolis, sobre a questão da
socialização do cego. E numa pequena
pesquisa entre nós próprios, depois de
muitas perguntas, chegou-se a um dado
interessante: o de que, para a maioria
dos cegos, integração é freqüentar um
bar e beber. Aí foi perguntado:
"Tudo bem, mas por que então
deve-se beber?"
Se um cego está bebendo junto com
outras pessoas que enxergam, ele é
tratado como um igual, brincam, fazem
festa e dizem que ele é muito camarada.
Não é como outros cegos que são tapados
e ficam parados sem desfrutar da
delícia da vida.
PALESTRA DO PCB.
Numa ocasião, eu estava assistindo
uma palestra do Partido Comunista
Brasileiro, realizada no auditório da
Biblioteca Central de Maringá. No
término da mesma, com o auditório
extremamente lotado, estava, devagar,
dirigindo-me à saída, apertado por um e
por outro. Em condições precárias de
locomoção, pacienciosamente descia
degrau a degrau, suportando aquele
imenso calor.
Foi assim que uma das mãos de um
dos presentes passou algo para mim, que
imediatamente guardei no bolso para
que, lá fora, quando dissipasse um
pouco o público, eu pudesse pedir ao
grandioso amigo Dejair, meu
acompanhante, que lesse aquele papel.
Supostamente, parecia para mim ser um
aviso. Talvez um panfleto anunciando a
próxima palestra, ou assunto similar.
Quando alcançamos a parte externa do
prédio, entreguei ao meu amigo e pedi a
gentileza de que o mesmo lesse aquele
comunicado. Meu pobre tato não havia
percebido que aquilo era uma cédula de
dinheiro, uma modesta esmola concedida
a um coitado de um ceguinho que, com
aquele montante, talvez pudesse comprar
um pãozinho francês.
SITUAÇÕES CURIOSAS
Aproximei-me do balcão do hotel
para verificar se havia vaga para me
hospedar. O atendente me diz:
"Olha, infelizmente só tenho vaga
no segundo andar. Como vamos fazer para
que você suba as escadas?"
Quando se adquire uma certa
mobilidade, não há problema para
locomovermo-nos em escadas. A
inviabilização, neste caso, é
inteiramente depositada sobre os ombros
dos deficientes físicos.
Não pretendemos condenar ninguém
pelo fato de pensar que o cego, seja
ele quem for, tem incapacidade de subir
ou descer escadas. Mesmo diante da
palavra do recepcionista, aceitei a
vaga existente e, depois do segundo dia
de hospedado, os funcionários, que no
começo estavam boquiabertos, já
mostravam a mudança do conceito que
tinham sobre o cego em relação à
escada.
Estava parado numa esquina
esperando uma carona, já previamente
contatada por telefone, que deveria
chegar em poucos minutos, quando surge,
de forma repentina, um cidadão a pé que
me apanha, à força, pelo braço e me
puxando, vai dizendo assim:
"Agora pode atravessar. Já não vem
vindo nenhum carro."
Quando chegamos do outro lado da
rua, ele fala novamente: "Aqui está
bom?"
Eu respondo:
"Estaria, se eu quisesse
atravessar. Mas como não quero, o
Senhor se incomodaria de me ajudar a
voltar para onde eu me encontrava?"
Vou a um telefone público e só
tenho uma ficha para usar.
Alguém quer
me ajudar e pede para discar para mim.
Disca errado, faz eu perder minha
última ficha, pede desculpas e se
retira me deixando na mão. O mínimo que
ele poderia fazer era me perguntar
antes se eu sabia ou não discar. E o
pior é que, um problema que não tinha,
passei a ter e ele não se preocupou em
me ajudar na resolução do mesmo.
Vale a pena, nas curiosas,
salientar o aspecto religioso, onde o
pré ou fanatismo faz acontecer algumas
situações hilariantes. Fui testemunha
de algumas delas como, por exemplo,
aquela em que, numa loja de esportes em
Maringá, um determinado cidadão
aproximou-se de uma pessoa portadora de
cegueira e perguntou se ela queria ser
curada. Quando ela respondeu que não,
sua reação foi a de alguém que não
entendia, de forma alguma, como podia
um cego dizer que não se interessava em
voltar a enxergar. Ele repetiu a mesma
pergunta por três ou quatro vezes e a
pessoa respondeu que não. Por fim, ele
saiu de perto, depois que a pessoa
pediu licença, pois estava ocupada.
Por vezes, nós encontramos cegos
que preferem dizer que não querem
voltar a enxergar. Ocorre que há alguns
inoportunos que colocam suas opiniões
religiosas de forma que possam vir a
agredir, pois faltam palavras certas,
nos momentos certos e entonação
correta, quando se faz necessário.
Diálogo entre um cidadão cego e um
outro que enxerga. O primeiro
denominaremos cidadão A, e o segundo,
cidadão B.
B: Desculpe, você conhece a Igreja
Evangélica....
A: Não.
Final de diálogo, que também tive a
oportunidade de presenciar.
Uma ocasião eu estava andando pelo
centro de Maringá. Tinha alguns
afazeres particulares, entre eles, ir a
uma agência bancária, a uma farmácia e
outros, quando, de repente, começou
chover. Eu estava na Av. Getúlio
Vargas. Parei debaixo de uma das
marquises para me proteger e um senhor
de meia idade, que ali também parou com
o mesmo motivo, começou a conversar e
fazer perguntas sobre a minha cegueira.
Quando a chuva diminuiu de intensidade,
resolvi sair para continuar a
realização dos meus compromissos. Este
senhor saiu junto me segurando pelo
braço. Sem que eu pedisse, ele falou
que iria me acompanhar para ajudar-me.
Mesmo dizendo que não haveria
necessidade, ele não mudou de idéia.
Para não ser chamado de ignorante e
pensando naqueles cegos que,
porventura, tenham um pouco mais de
dificuldades do que eu e que poderiam
precisar de tal tipo de ajuda, resolvi
permitir que o cidadão me acompanhasse.
Pensei que ele seria apenas um
acompanhante nas minhas andanças. Ledo
engano. Além de insistir em me
acompanhar por todos os lugares, dava
as mais diversas opiniões nas tarefas
mais individuais e íntimas. Depois de
pedir ao mesmo que ficasse tranqüilo
para cumprir seus compromissos sem, no
entanto, conseguir qualquer sucesso,
resolvi ser mais claro. Pedi-lhe que me
deixasse pois, segurando em meu braço,
em vez de ajudar, acabava me
atrapalhando. Foi assim que conseguimos
nos entender e, quem sabe até hoje, o
mesmo se auto-elogie ao extremo por ter
sido tão caridoso, ou então me abomine
com veemência, pois não permiti que ele
andasse comigo por toda aquela tarde.
Um dia, participando de um
coquetel, estávamos conversando eu, a
amiga Cláudia e a não menos amiga
Lília.
Esta primeira se ausentou por uns
momentos e eu e a amiga Lília
combinamos uma brincadeira. Ela me
informou, com detalhes, o modelo e a
cor da roupa e das sandálias da
Cláudia. Quando esta voltou, comentei:
"Cláudia, apesar de ser cego, estou
desenvolvendo uma particularidade. Eu
consigo, ao concentrar-me, saber
detalhes das pessoas como a cor da
roupa, dos calçados, etc."
Não precisei falar mais nada para
que ela pedisse que eu fizesse a
experiência consigo. Segurei na sua
mão, simulei uma concentração, pedi
para que a mesma também se
concentrasse, e então falei todos os
detalhes de cores e modelos de roupas e
sandálias, que já me haviam sido
relatados.
O espanto e a maravilha que
emanavam por todos os poros da amiga
foram contagiando até a mim próprio,
que por um tempo, pensei, fosse tudo
verdade. Isso ficou por quase toda
festa em segredo, permitindo que ela
relatasse o fato a vários dos
presentes, até que, por fim, Lília
falou sobre a brincadeira.
Isso, contudo, só foi possível ser
feito com a Cláudia por conhecermos seu
espírito brincalhão. Sabíamos que não
havia a mínima possibilidade dela ficar
magoada com tal fato.
Ainda hoje, quando a encontro,
temos lembranças amistosas deste
acontecimento.
O fato ocorreu numa das viagens que
a delegação da Associação de
Deficientes Visuais de Maringá, a
Adevimar, realizou para a cidade de
Uberlândia. Em uma das paradas para um
lanche e o tradicional pipi, na cidade
de Presidente Prudente, entramos no
banheiro em, mais ou menos, dez cegos.
Uma vez lá dentro, depois de passarmos
a roleta, o senhor que cuidava dali nos
disse que poucos dias antes havia
passado por ali um cego e que o mesmo
tinha um relógio que falava as horas.
Lavando as mãos e usando o vaso
sanitário, começamos a falar que aquilo
não deveria ser verdade. Não era
possível. Onde já se viu um relógio
falar? E o senhor insistia, sem dar
fôlego a si próprio.
"Mas é verdade, eu vi. O relógio
falava as horas."
Sem perder o bom humor, dizíamos
que aquilo era impossível. Um papagaio
falar, um rádio, tudo bem. Mas um
relógio! Pedíamos desculpas ao senhor e
insistíamos que não podia ser possível.
Quando deixávamos o banheiro, todos
acionamos nossos respectivos relógios,
pois todos tínhamos um que falava as
horas. De bom humor, o cuidador da
roleta sorriu e até elogiou o espírito
brincalhão de todos.
Um amigo, cidadão curitibano, fazia
uma viagem de avião. Ao desembarcar,
tirou de sua pasta 007 uma bengala
dobrável. Segurando a mesma pela luva,
que fica na extremidade superior,
soltou os outros gomos para que os
mesmos, tracionados pela força do
elástico que fica no interior de cada
canículo, se justa pusessem, ficando
encaixados de forma que pudesse ser
usado como bengala.
Ocorre que isto provoca um barulho
que, para os menos avisados, pode
parecer o som de uma arma de fogo sendo
acionada.
Foi o que aconteceu com os
seguranças do vôo. Estes se viraram em
seguida ao ato e, imediatamente, se
colocaram na posição de defesa dos
demais passageiros. Poucos segundos
foram suficientes para perceber que se
tratava de uma simples bengala de cego.
Um amigo estava atravessando a Av.
XV de Novembro, em Maringá. Quando já
se encontrava no meio de uma das
pistas, alguém gritou:
"Cuidado! O caminhão."
Ele, que fazia a travessia andando,
começou imediatamente a correr.
Resultado, deu de cara com a carroceria
do dito caminhão, que estava
estacionado do outro lado.
CEGO NÃO É HOMEM:
Quando estão andando
juntos dois homens, um deles enxerga, e
o outro não. Quem vê os dois caminhando
afirma:
"Lá vem um homem e um cego."
Por isso costumamos dizer que cego
não é homem.
Certo dia, na Estação da Luz, em
São Paulo, encontrei um senhor, também
cego, desses que apresentam todo o
globo ocular em perfeitas condições,
anatomicamente falando, no seu
exterior. Falava-me que, uma vez, um
técnico em eletrônica trouxe uma
televisão, que havia levado para
concertar. Depois de instalá-la na
sala, o referido técnico se preparava
para ir embora quando foi surpreendido
pelo cego, que virando-se, afirmou:
"Mas o defeito ainda não foi
resolvido. A tela continua negra, sem
nenhuma imagem".
Surpreso, pensando que ele falava
da qualidade da imagem, o técnico mexeu
nos botões, afirmando que poderia
melhorar a imagem.
O cego insistiu que estava tudo
negro. Percebendo não haver nenhuma
desconfiança por parte do profissional,
este repetiu a brincadeira por quatro
vezes. Entretanto, antes de haver
qualquer irritação, este resolveu
dizer-lhe a verdade a respeito de sua
cegueira.
O homem levou tudo no campo do bom
humor e tudo acabou em boas gargalhadas
por parte de ambos.
A escrita e a leitura braile,
apesar de ser considerada obsoleta por
alguns, ainda é muito utilizada. O
interessante é o nome que muitos dão
para este método. Perguntas como essas
são comuns:
"Você sabe ler em braule?"
"Você lê em hebraico?"
Só falta perguntar se o cego lê
bráulio.
Perto da Universidade, em Maringá,
aproximei-me de um ponto de ônibus para
apanhar a antiga linha 104. Esperava
que a mesma viesse, quando ouvi duas
moças conversando em tom de voz baixo,
para que eu não ouvisse. Mas como elas
se esqueceram que o ouvido do cego é
melhor do que daqueles que enxergam,
consegui captar o teor da conversa.
Dizia a primeira:
"Ele é cego! Que coisa terrível."
A segunda continuou o diálogo:
"Se eu ficasse cega, preferiria me
suicidar."
Por algum tempo, a conversa ficou
em torno da cegueira e o extremo desejo
de que a mesma ficasse absolutamente
longe das duas.
Preferi não emitir qualquer
comentário, limitando-me a ficar no campo
das análises dos seres humanos.
Ainda por ouvir muito, outra vez
estava caminhando pela Rua Caracas,
onde morei por muitos anos. Eram
aproximadamente 7h de um dia muito
lindo. Duas senhoras, uns trinta metros
à minha frente, conversavam em voz
alta, enquanto ambas varriam suas
respectivas calçadas. Quando passei por
elas, a conversa tornou-se sussurrante.
O assunto, que antes era novela, passou
a ser sobre minha pessoa e a coitada
vida de um cego.
Quando num prato tem um bife, ou
outra carne para se comer com garfo e
faca, a grande maioria dos cegos pede
ajuda, solicitando que alguém a corte.
Mas existem aqueles que preferem não
pedir esse auxílio. Foi assim que,
certa vez, um cego jantava
tranqüilamente em companhia de algumas
pessoas. Para beber havia chopp. Tal
líquido, depois de ser colocado numa
taça, normalmente também é posto sobre
um pequeno círculo de papelão cortado,
talvez com a função de absorver a
pequena umidade do líquido gelado.
Ao levar o copo a boca, esse
papelão, semi-grudado ao fundo do
mesmo, acompanhou temporariamente o
movimento, caindo no prato. A seguir o
cego foi flagrado tentando cortar o
papelão, com garfo e faca, pensando que
era o bife.
Chegando, pela madrugada, na
rodoviária de Maringá, depois de uma
viagem cansativa, juntando-se a isso
algumas bagagens pesadas, resolvi ir ao
ponto de táxi existente na Rua Joubert
de Carvalho. Diante da minha
dificuldade com a bengala e aquelas
bolsas, fui auxiliado por uma senhora,
dama da noite, que, depois, tornou-se
alvo de eméritos comentários,
principalmente por parte do motorista
do taxi, que em tom de zombaria, citava
o caso de um cego estar andando, em
plena madrugada, com uma prostituta.
Ao dirigir-me ao Paço Municipal,
para ir à Secretaria de Cultura, que
ficava no segundo andar, fui
surpreendido com um acúmulo muito
grande de pessoas no térreo, o que me
causou dificuldades para encontrar a
rampa ou a escada de acesso aos andares
superiores. Estava diante desta
dificuldade quando uma senhorita se
aproximou e, de forma simpática,
ofereceu-se para ajudar-me, ao que de
pronto aceitei. Foi neste momento que a
jovem apanhou uma das minhas mãos e
segurando-a como se fossemos namorados,
ajudou-me a chegar ao local pretendido.
Confesso meu constrangimento diante da
situação e, também, minha ignorância
diante de um coração sem malícia, como
se mostrou o dessa senhorita.
Chegando na Secretaria de Cultura,
os sorrisos de chacotas não puderam ser
evitados. Até explicar que focinho de
porco não é tomada, a moça, que vim
descobrir depois, era a rainha do
carnaval daquele ano, passou-se por
minha namorada, ou qualquer outra coisa
que a mente humana possa imaginar.
Por acaso você já viu, ou ouviu
falar, de algum cego que tenha sido
assaltado? Pois neste caso, a situação
pode ser um pouco diferente.
Um amigo, que morava na capital
paulista, gostava de andar sempre
vestido com calças, camisetas e
calçados de marcas famosas.
Um bom chamariz para certos
delinquentes. De nada adiantou o pedido
do meu amigo para pouparem-lhe os
objetos. A seguinte frase foi dita por
um dos assaltantes:
"Fica quieto ceguinho, senão te dou
um tiro no pé."
O jeito foi ficar sem os pertences
e sair assobiando como se nada tivesse
acontecido.
O duro, é um cego andar só com a
bengala e de calção, sem absolutamente
mais nada a cobrir-lhe o corpo, e
tentar mostrar para os observadores que
aquilo era uma situação normal.
Dois cegos que moravam num bairro
distante, também na cidade de São
Paulo, estavam num ônibus. Um deles
havia recebido, naquele dia, seu mísero
pagamento quando, de repente, o ônibus
é alvo das ações dos senhores amigos do
alheio, cujo grupo tinha seu líder.
Este, vendo que um dos seus comandados
iria também levar o dinheiro dos
ceguinhos, disse ao mesmo:
"Não. Eles não. Este é o professor
ceguinho."
Resultado. Os cegos foram poupados,
enquanto todos os demais passageiros
tiveram seu dinheiro levado.
Será que às vezes vale a pena ser
cego? Por falar em dinheiro, um dia me
aproximei de um carrinho de cachorrão e
pedi ao dono que me preparasse um
determinado lanche. Depois de comê-lo,
paguei com uma nota onde deveria
receber um troco. Posteriormente, em
minha residência, vim descobrir que a
quantia recebida era menor do que
aquela que deveria estar em minha mão.
Contudo, gostaria de salientar que essa
foi a única vez, em toda minha vida de
cego, que recebi dinheiro a menos de
troco. Fato que não posso afirmar ter
sido voluntário. Voltei no dia seguinte
para conversar com o senhor
cachorreiro, sem contudo conseguir
encontrá-lo. Mesmo depois de algumas
tentativas, não logrei êxito na minha
escalada para revê-lo.
Quando uma alma caridosa resolve
dar uma carona de automóvel para um
cego, sem, no entanto, conhecer um
pouquinho sobre como proceder com este,
ocorrem alguns fatos engraçadíssimos.
Entre eles, podemos citar aqueles
cidadãos que abrem a porta do carona,
puxam o cego pelo braço, com uma certa
força anormal, empurram-no pelas
costas, forçando sua cabeça para baixo
e para dentro e ao mesmo tempo,
segurando-o pelos ombros para impedir
que o mesmo se choque contra o
automóvel.
Dessa forma, depois que o cego
consegue se acomodar, é inevitável
ficar com algumas pequenas dores em
certas partes do corpo.
Obs. Para agir de forma correta
neste caso, recomenda-se apanhar a mão
do cego e colocá-la na maçaneta do
automóvel.
Caso semelhante ocorre, por vezes,
quando algumas pessoa vão nos auxiliar,
servindo de guia para deixarmos uma
certa repartição. Em vez de oferecer
seu braço para que o cego segure-o, o
que seria o mais correto, o cidadão faz
o contrário ou seja, ele é quem segura
no braço do cego. Aperta, puxando para
esquerda, para trás, empurrando para
direita e para frente, isso quando o
braço segurado é o esquerdo. Ao chegar
numa escada, ele segura o cego, mesmo
quando este está querendo mudar o passo
para começar a pisar o primeiro degrau,
mas não consegue fazê-lo, ficando com
um pé no ar enquanto luta contra seu
parceiro, que insiste em segurá-lo, com
medo que o mesmo despenque escada
abaixo.
Só depois de muita força é que se
consegue o objetivo. Isto porque, em
alguns casos, não conseguimos, mesmo
com esforço, explicar para os
auxiliares a forma correta de sermos
ajudados, pois não lhe parece segura.
Uma vez apanhei uma carona com o
vice-prefeito da época em Maringá. O
mesmo me levou até o bairro
Morangueirinha, onde moram meus pais.
Expliquei-lhe detalhadamente o caminho,
citando, inclusive, os nomes das ruas
que passávamos, ou cruzávamos. Quando o
mesmo me deixou no local para onde me
dirigia, falou o seguinte:
"Se eu disser que fui guiado por um
cego, ninguém acredita."
NAMORO DE CEGO
O amor é cego. Este é um dos ditos
populares mais conhecidos. Sabemos, no
entanto, que esta frase nada tem a ver
com a cegueira que tratamos neste
livro. Vamos aqui falar um pouco a
respeito do namoro de quem não enxerga.
É inato no ser humano a aproximação
com o sexo oposto. O tradicional
friozinho na barriga não constitui
privilégio apenas daqueles que vêem
alguém que toca profundamente, mas
também daqueles que ouvem a voz.
Dizem que é muito fácil um cego,
por carência afetiva, aproximar-se de
outro ser humano e logo dizer que está
apaixonado. Isto, todavia, no nosso
conceito, não constitui a verdade.
Encontramos, com muita facilidade,
pessoas que têm esse lado bem
trabalhado, com conceitos de
valorização de si próprio, e que, por
isso, valorizam também o possível amor
que estaria se apresentando.
Como fazer para mostrar ao cego que
você está interessada nele? Essa
indagação nos é feita de vez em quando.
Não se pode simplesmente falar o que se
pensa ou o que se sente. Quando os dois
enxergam, se torna mais fácil perceber
pelos olhares. Naturalmente que se um
dos dois enxerga, então se faz
necessário o entendimento de quem
enxerga, para assumir os padrões deste
tipo de relacionamento e suas
diferenças. O que, às vezes, se torna
até mais atraente. Aprimoram-se os
sentimentos, passando a ser, em alguns
casos, gratificante.
Queremos afirmar, entretanto, que
não constitui regra dizer que quando um
dos dois enxerga, a iniciativa,
obrigatoriamente, deva ser deste
último. Em raros casos acontece o
contrário.
Em casos onde ambos são cegos, a
paquera se apresenta de forma mais
verbal. Se o interesse surge, ele pode
ou não ser relatado de maneira mais ou
menos direta, variando o grau de
timidez das pessoas, ou de tática de
conquista.
Mas, além da atração pela voz
aveludada, do cheiro animal expelido
pelo outro, do sorriso por ele
apresentado, temos também o contato
físico, que no caso dos cegos, se torna
sumamente importante. Não nos referimos
àquele contato enquanto prática sexual.
Falamos somente do carinho, em sentir
os cabelos, o rosto, os braços e o
corpo, mesmo que ainda não esteja
efetivado o namoro. Percebemos que em
alguns casos, há uma permissão mútua
para tais atos.
Com isso, o cego adquire uma noção
da pessoa que ele pretende para namoro,
entre outros, se é gorda ou magra,
cabelos curtos ou longos.
A partir daí vem o namoro e os
conhecimentos mais profundos,
descobrindo-se, posteriormente, se
aquela é, ou não, a pessoa escolhida e
se os valores de vida adotado por
ambos, são suficientemente grandiosos
ao ponto de assumirem uma vida em
comum. Detalhe: quando falamos acima a
respeito dos contatos físicos, queremos
citar também, a título de curiosidade,
os pequenos esbarrões, que são julgados
como involuntários, mas que, na
verdade, são premeditados pelo cego que
deseja tocar naquele alguém por ele
escolhido.
Interessante se torna o caso de
casais de namorados, onde ambos não
enxergam e procuram um local escurinho
para namorar. Mas justamente por
fazerem esta tentativa sem a ajuda de
ninguém é que acontece de observarmos
certos deles, pensando que estão
isoladamente no escuro, serem alvos de
fáceis olhares.
Nestes casos, os que entendem
recomendam o máximo de prudência e
indicam, ainda, aos que enxergam e que
são amigos do casal, quando isto
acontecer, não tenham o menor
constrangimento em avisá-los.
Tais manifestações são uma
demonstração de carinho para com os
cegos.
Aliás, se torna oportuno dizer da
existência de algumas intimidades que,
às vezes, foge do conhecimento de quem
não enxerga. Por isso, é de bom alvitre
se, de forma discreta, em particular,
avisasse ao cego.
Entre outros exemplos, poderíamos
citar os casos de existir caspa na
vestimenta; uma pequena mancha,
mostrando possivelmente menstruação; um
cadarço desamarrado; um zíper aberto;
uma pequena sujeira na roupa, quando
vai sair de casa, ou ainda, roupa
amarrotada; batom borrado; algum
resquício de alimento no queixo; ou um
detalhe de roupa íntima aparecendo.
VOLUME II
PERGUNTAS FEITAS AOS CEGOS
Por onde o cego anda, ele está
sempre sujeito a ouvir perguntas que eu
denomino de, no mínimo, curiosas. Entre
elas, selecionei algumas que vamos aqui
mostrar. Todas sempre demonstram o
desconhecimento do ser humano para com
a pessoa cega.
1- César, você nasceu assim?
R- Não, eu nasci pequenininho e depois
cresci.
2- Como cego faz sexo sem enxergar?
R- Quem enxerga apaga a luz para ficar
no escuro.
3 - Como você faz para comer? Enfiar o
garfo na boca?
R- Por acaso você usa um espelho para
enxergar a boca, porque eu uso.
4- Como você anda?
R- Coloco um pé na frente do outro, com
um certo espaço entre ambos e
alternadamente, com um subseqüente ao
outro, vou me deslocando.
5- Faz tempo que você...é...é...
R- Que sou cego?
5a- Não fale assim. Esse nome é muito
pesado.
R- Sou cego desde quando tinha
dezenove anos de idade.
6- Sua esposa é normal?
R- Não, ela usa capacete com antena e
tem rodinhas nas patas.
7- Adivinha quem sou eu?
R- Você é o Leonel Brizola. Não
acredito. Você não me conhece pela voz?
8- Como o cego conhece a linha de
ônibus que quer apanhar no ponto?
R- Pelo barulho do motor.
9- Tem certeza de que não enxerga? Você
está olhando para mim?
R- Não tenho certeza, acho que enxergo.
Não sei, porque não estou vendo nada.
10- Quantos dedos tem aqui?
R- Cinco. Errou, só tem dois. Você não
me perguntou quantos tem levantado.
11- Como eu sou? Ou seja, descreva-me.
R- Dois olhos, duas orelhas, um nariz,
uma boca...
12- De que cor é minha roupa? Nesta
resposta qualquer chute vale, com o
detalhe de que, às vezes, se acerta.
13- Como você conhece dinheiro?
R- Não conheço. Conhece sim, você pegou
o dinheiro certinho e me pagou.
14- Como você faz para pedir um produto
numa loja?
R- Eu falo.
15- Quando dois cegos estão andando na
rua, um acompanhado do outro, por vezes
ouve-se a seguinte pergunta. Vocês são
irmãos?
R- Somos. Detalhe: as características
físicas são completamente diferentes,
às vezes, um é negro e o outro branco.
16- Como você toma banho?
R- Papapi e mamãe me lavam.
17- Como você faz para assistir
televisão?
R- Coloco meus óculos.
18- Como você faz para atravessar a
rua?
R- Eu olho para lá. E quando não
vem nenhum carro, eu atravesso.
19- Sua bengala tem algum sensor?
R- Quando tem algum obstáculo, ou um
buraco na frente, acende no meio dela
uma luz vermelha que me avisa.
20- Você conhece suas filhas?
R- Conheço. Mas como, se você não
enxerga?
21- Como você anda de automóvel?
R- Com um motorista dirigindo.
RECEITAS MILAGROSAS
Sempre existem algumas receitas
milagrosas que nos apresentam para que
voltemos a enxergar. Entre elas,
selecionamos algumas.
1- Essa é do senhor Felício, que
mora no interior de São Paulo. Tomar
todo dia, pela manhã, um copo de água
com duas gotas de creolina, durante
três meses. Essa receita já salvou dois
cegos de vinte e cinco anos de idade e
ele próprio, que também estava por
perder a visão.
2- Pingar em ambos os olhos, três
gotas de limão rosa, por dia. Uma de
manhã, outra à tarde e a última, antes
de dormir.
3- Pingar uma gota de mel de abelha
jataí em cada olho, todos os dias.
4- Colocar folhas de arruda num
pano e depositar sobre os olhos todas
as noites. Essa é infalível, não há
cegueira que agüente.
5- Coloque sobre os olhos um pedaço
de pano embebido em salamargo. Pingue
gotas desse mesmo produto em ambos os
olhos e ainda beba um pouco dele.
6- Coloque sobre os olhos a maçã de
algodão. É infalível, em dois meses
você estará enxergando.
7- Pegar casca de ovo de galinha e
torrá-la. Com o pó, fazer um
cigarrinho, de forma que fique um
canudinho, depois assoprar nos olhos do
cego.
8- Pegar sangue de boi, ainda
quente, ou seja, assim que o bovino
morrer, e colocar dentro de ambos os
olhos.
Obs: São receitas nada científicas
e não se recomenda.
COMO SONHAR
Entre as grandes arguições sobre a
pessoa cega, estão os sonhos. Não é
nada raro encontrarmos indivíduos que
nos questionam sobre esse assunto.
Nós perguntamos a vários cegos
sobre esta questão e aqui vamos relatar
o que nos parece interessante.
Primeiro, queremos dizer nossas
próprias experiências, que não
constitui regra, principalmente depois
que coletamos outros relatos.
Muitas pessoas perguntam se nos
meus sonhos eu enxergo. A resposta,
muitas vezes, espanta o interlocutor.
Eu tenho perfeita visão nos meus
sonhos. Vejo os detalhes das pessoas,
bem como suas fisionomias, cabelos
curtos ou longos, lisos ou crespos,
sendo que os detalhes não param por aí.
Tenho também minuciosidades de objetos,
coisas e lugares. E ainda pormenores
quanto a sua extensão, tipos de
paisagem, características de animais,
tamanho dos mesmos, etc.
Às vezes fico a perguntar se as
imagens que faço das pessoas são
aquelas que crio em minha mente. Por
exemplo: uma pessoa que conheci ainda
quando enxergava, nos meus sonhos ela
aparece com aquela fisionomia de quando
a via. Se hoje ela é mais gorda, eu
sonho com seu corpo anterior, ou seja,
mais magra. Por outro lado, uma pessoa
que conheci somente depois de cego, nos
meus sonhos eu a vejo com detalhes,
principalmente se tenho amizade mais
íntima ao ponto de saber de suas
características físicas.
Percebemos que na maioria das
vezes, a aparição no sonho é um
tanto diferente da real. Sem, todavia,
sê-lo na sua totalidade. Sempre há um
percentual considerável de acerto.
Cumpre-me ainda relatar alguns
sonhos que tenho, onde existe uma
certa dificuldade para enxergar. Onde
tento, com esforço, ver alguns detalhes
que a dificuldade visual me impede.
Tais tipos de sonhos são raros. Talvez
pudesse dizer que ocorre um ou dois por
ano e nada mais. Mas nunca sonhei como
sendo cego total, precisando de bengala
para me locomover ou enfrentando
qualquer outra dificuldade que a vida
real me impõe.
SONHAR COLORIDO
Não constituem sonhos raros também
aqueles onde tudo aparece colorido,
tendo, inclusive, a facilidade de
sonhar com cores secundárias. Só não me
lembro se algum dia, depois que fiquei
cego, sonhei também com alguma cor
terciária.
Esse tipo de sonho também mereceu
de minha parte uma análise mais
profunda, uma vez que queria saber se
os coloridos eram, ou não, aquelas
criações que faço no meu dia a dia,
onde reforço, quase que constantemente,
a existência delas na minha vida.
Todavia, entendo que isso não é regra,
uma vez que as cores aparecem de
maneira diferente do real para o sonho.
Meu amigo Pedro Abel da Silva
nasceu cego. Conversando com ele a
respeito de seus sonhos, obtive a
informação de que os acontecimentos que
lhe surgem nos sonhos, são relatados
apenas com vozes e que, em sua
lembrança, jamais teria sonhado
enxergando alguma coisa. Se isso
aconteceu, faz parte do esquecimento.
Aliás, esse tipo de informação foi
similar àquela que vários cegos
congênitos deram no relato para o nosso
trabalho.
LEMBRANÇA DAS CORES
Dr. Hermes, amigo de longa data,
relatou que em sua mente não restam
muitas cores, apesar de terem existido
no passado. Atualmente, só se recorda
de algumas cores primárias.
Dizem algumas leituras que se uma
pessoa enxerga alguns anos, antes de
ficar cego, vai perdendo, com o tempo,
a lembrança das cores. Isso acontece
depois de dez anos, para as cores
secundárias e quinze, para algumas
primárias.
No entanto, contestando estas
afirmações, gostaria de relatar que me
encontro com dezoito anos de cego e até
agora preservo em minha lembrança todas
as cores primárias, todas as
secundárias e muitas cores terciárias.
Este assunto faz-me lembrar,
inclusive, de um detalhe de uma cor
cujo nome nunca havia sido relatado a
mim enquanto enxergava. Não sei dizer
se a mesma, na época, era pouquíssimo
divulgada, ou se a minha ignorância
deixou que assim parecesse.
Entretanto, a título de análise,
preocupei-me em me prender à cor ocre,
que serve de exemplo para dizer que eu
nunca vi esta cor no tempo que
enxergava. Todavia, hoje tenho a mesma
gravada em minha memória.
É conveniente salientar ainda que
quando afirmamos existir esta ou outra
cor em nossa memória, estamos afirmando
que as mesmas não existem somente
enquanto suas nomenclaturas, mas sim
suas pigmentações coloríferas.
Dizem que todos nós temos nossa cor
ou cores de preferência, variando
conforme o local onde as mesmas se
encontram: numa roupa, num automóvel ou
num calçado.
Eu, por ter enxergado, tenho uma
imensa preferência pelo azul. Contudo,
em automóvel prefiro a cor vinho e nos
sapatos, o tradicional preto.
Todavia, a grande maioria dos cegos
congênitos também tem suas
preferências, mesmo não tendo enxergado
as cores. O desejo maior por esta ou
aquela cor, em boa parte das vezes, é
porque recebeu um elogio de uma pessoa
muito significativa na sua vida, ou de
algumas pessoas, onde as mesmas
afirmaram que determinada cor ficava
muito bem para ele.
Se este for argüido sobre qual
seria a cor de sua preferência, a
resposta natural será aquela do elogio.
USO DA BENGALA
As pessoas que perdem a visão
depois de uma certa idade, tendem a ter
uma série de dificuldades para
adaptação ao meio social. Uma delas
está no uso da bengala, este bastão tão
necessário para a locomoção dos cegos,
uma vez que ele pretenda locomover-se
sozinho.
A vergonha toma conta e se torna
uma barreira que, no início, dá a
impressão de ser intransponível.
A bengala marca aquele cidadão como
sendo cego. Isso incomoda, pois é uma
confissão da existência da deficiência.
Para alguém que gostaria de não sê-lo,
é difícil se apresentar com esta nova
roupagem.
A primeira vez que portei uma
bengala, saí de casa andando pelo
bairro onde morava e parecia que todos
me olhavam, me apontavam com o dedo.
Todo meu corpo parecia receber aquela
energia vindo das pessoas que me viam
passar pelas ruas. Eu tinha a nítida
impressão de que todos diziam:
"Aquele é o César."
"Não me diga! Ele ficou cego?"
As pessoas estavam acostumadas a me
ver andando sem bengala e, naquela
situação distinta, tudo era pesado.
Passei por aquelas ruas, atingi outro
bairro e outro, até chegar ao centro da
cidade, onde eu ia aprender a leitura e
escrita braile, na Biblioteca
Municipal. No terceiro andar funcionava
o Centro Municipal de Atendimento ao
Deficiente.
O pior, entretanto, é não ter tido
sequer noção do sério risco que corri
de ser atropelado, e portanto, até
risco de vida. Existe uma técnica
especial para a utilização da bengala
que eu, na época, desconhecia.
Conheço vários cegos que não andam
com bengala. Preferem ser dependentes
de alguém, mas não se mostram para não
correr o risco de serem motivos de
chacotas. Conheço ainda casos de
pessoas que usam bengala no centro da
cidade, ou em outros bairros, mas no
bairro em que moram, dobram sua
bengala, guardam-na escondida, buscando
ocultar dos vizinhos e amigos que são
cegos, dependentes de uma bengala.
Temos também o lado humorístico da
bengala. Algumas vezes, a coitadinha é
colocada por aqueles que têm espírito
brincalhão, como se fosse um órgão
sexual.
Também existe o inconveniente de
andarmos em locais com muita gente e,
por vezes, a bengala bater entre as
pernas de alguma moça.
Em outra ocasião, eu estava andando
com minha bengala na Av. Brasil, em
Maringá, quando esta quebrou. Eu me
encontrava, mais propriamente dito, na
Praça Napoleão Moreira da Silva.
Naquela época, os ônibus que me
levariam até a Morangueirinha, onde
morava, faziam parada na Praça Raposo
Tavares, pela Rua Joubert de Carvalho,
para onde tive que me deslocar sem o
uso da minha companheira. Por este
pequeno trecho, tive sérias
dificuldades para caminhar, pois fui
obrigado a fazê-lo sozinho e, por três
vezes, ouvi a seguinte frase:
"Parece que é cego."
A facilidade em esbarrar era muito
grande e, até as pessoas entenderem que
aquele cidadão não enxergava, se
tornava mais fácil irritar-se. Cheguei
ao meu destino quase intacto. Eu digo
quase porque o abalo emocional foi
muito forte, só mesmo amenizado pelo
espírito aventureiro de que todo
cidadão é portador.
A imensa maioria dos cegos tem em
sua residência um local, predeterminado
por ele próprio, onde fica sua bengala.
Se alguém a muda de lugar, é o
suficiente para deixar o prezado
ceguinho em maus lençóis. É como dizem
nas brincadeiras: ele fica sem seus
olhos para poder sair de casa.
RIDÍCULOS
Em minhas pesquisas, notei ser até
certo ponto comum algumas atitudes de
cegos que, no início de sua vida na
nova condição e, em outros casos, mesmo
depois de alguns anos, têm um grande
preconceito em usar a bengala. Por isso
mesmo, acabam praticando certos
ridículos, assim hoje chamados pelos
próprios donos das ações. Entre eles
destacamos o já citado caso dos cegos
que não utilizam a bengala quando estão
no bairro em que moram, ou perto de
suas residências. Estes, para se
direcionar, usam as lâmpadas dos
postes, pois o pequeno resíduo visual
permite que vejam apenas a claridade
delas. Assim procedendo, vão andando
pelo meio da rua para não trombar nas
árvores das calçadas, ou em automóveis
estacionados perto do meio fio.
Todavia, andando com a cabeça ereta, se
torna impossível enxergar a claridade
da lâmpada. É necessário andar muito
tempo de "cabeça erguida para o céu",
de forma que possa ver a claridade, e
com isso, ir contando as lâmpadas até
que dê o número correspondente ao de
sua casa. Com a adoção dessa
estratégia, se torna comum transeuntes
falarem ao cego:
"Você está andando no meio da rua."
Mas para o cego, o fato das pessoas
descobrirem que ele não enxerga é mais
terrível do que passar por algum
ridículo. Essa noção fica quase
inexistente.
Temos também o caso daquela menina
que já estava cega e ainda insistia em
andar de bicicleta. Sua mãe deveria,
obrigatoriamente, deixar a lâmpada da
frente de sua residência acesa, para
que a mesma pudesse chegar e saber,
entre tantas, qual era a sua casa.
Quando um ou outro vizinho também
resolvia deixar a lâmpada de sua
residência acesa, a coitada da ceguinha
se via em papos de aranha, flagrando-se
tentando abrir o portão do vizinho,
pensando ser aquela, sua casa.
Naturalmente que os vizinhos sabiam
de sua condição, mas pensavam ser
apenas um certo comprometimento visual.
Situação terrível para o cego é
descobrir que as pessoas estão olhando
e percebendo que ele não enxerga.
Temos ainda aquele caso, que é mais
comum, do cego que anda arrastando os
pés. A maioria o faz para não ser
surpreendida por um buraco ou uma
escada com degraus para descer. Em
alguns casos, o recurso é usado também
para ouvir os sons ecoando nas paredes
e possibilitar que se desviem delas. Há
ainda, para esses casos, o estalar de
dedos, que proporciona o mesmo retorno
de eco.
Observamos ainda pessoas que andam
com as mãos à frente do corpo batendo
palmas. Este ato permite que suas mãos
cheguem primeiro a um possível
obstáculo que esteja a sua frente,
livrando-o de passar pelo ridículo de
dar uma cabeçada. O detalhe é que se
ele apenas andasse com as mãos à frente
do corpo, sem bater palmas, daria na
cara, todos saberiam que ele é cego.
Batendo palmas, ele pensa que enganará
a todos que o estão observando. Ele
parecerá com isso um "ótimo" no que se
diz respeito a locomoção sem bengala.
CEGO POR CONVENIÊNCIA
Não se pode afirmar que seja muito
difícil encontrar pessoas cegas que se
importem, claramente, de serem cegas,
quando a situação lhes convier. Ou na
outra hipótese, que se colocam na
posição de, convenientemente, mostrar
que é pessoa perfeitamente capaz de
realizar qualquer função, como se fosse
uma pessoa que enxergasse.
Não temos a menor intenção de fazer
a apologia de uma pessoa que é cega e
que, ao mesmo tempo, é desprovida de
qualquer sentimento de maldade, ou
mostrar que todos os atos são de pessoa
extremamente bondosa, que nunca erra e
que seus sentimentos sempre são de
alguém que vive sob um estado de sexto
sentido. Tais fatos são inerentes aos
seres humanos, não constitui privilégio
dos cegos. Basta ter conscientização de
que isso é possível e buscar sua
realização.
QUESTÕES PESSOAIS
Existem vários cegos que moram
sozinhos, ou então, mesmo morando com
parentes, têm sua vida pessoal dentro
ou fora de casa. E ainda outros que são
casados, com ambos, marido e esposa,
sendo cegos. Vamos aqui falar de
algumas situações que acontecem e que
são frutos de curiosidades de pessoas
que enxergam. Entretanto, não
pretendemos fazer qualquer comentário
alusivo a intimidades. Qualquer
identificação será mera coincidência de
cegos, tendo os mesmos seus direitos
preservados de não tornarem público
suas atividades de fórum íntimo.
Não queremos dizer com isso que os
fatos aqui relatados são atos comuns a
todos, só afirmamos que são
acontecimentos fáceis de serem
observados em vários cegos.
Primeiramente, vamos falar de cegos
que vivem com suas famílias, antes,
porém, lembramos que as diferenças
existentes entre uns e outros, se dá
pela maior ou menor dependência de cada
um.
Neste primeiro caso, encontramos
aqueles cegos que pedem, aos que
enxergam, o favor de procurar para eles
desde um par de meias, passando pelas
camisas, calças, camisetas, etc.
Alguns, se importando com as cores para
combinar, enquanto outros se limitam
apenas a vestir ou calçar, para não
dizer que não está se arrumando para
sair. Neste mesmo grupo, encontramos
aqueles que gostam de usar perfume que,
na maioria das vezes, é de péssima
qualidade. Não digo que alguns deles
não teriam condições de comprar algo
melhor. Ocorre que apenas o desejo de
dizer que usa algum perfume o faz fugir
do incomodo de alguém dizer que cego
não usa nenhum. Às vezes, a falta do
senso de ridículo faz alguns deles
ensopar o cabelo e as roupas que veste.
Situações como: "coloque comida
para mim", "pegue o sapato", "onde está
minha bengala?", são muito comuns entre
os cegos que gostam de mordomias, ou
têm alto grau de dependência. Vale aqui
abrir um parênteses. A exemplo de
qualquer pessoa que enxerga, mas que
também costuma pedir para alguém
apanhar algumas coisas, enquanto fica
tranqüilamente no sofá assistindo seu
jogo de futebol pela televisão, nós
cegos temos o pleno direito de gostar
de mordomias e, isso é confundido,
muito facilmente, com dependência. E
por acomodação, alguns cegos preferem
deixar como está, ou seja, que os
outros pensem que o mesmo é dependente
deles, contanto que façam aquilo que
deseja.
Em residências onde moram juntas
pessoas que enxergam e um ou outro
cego, recomenda-se que os móveis mudem
pouco de lugar e quando isso acontecer,
que o cego seja avisado logo em
seguida, pois o mapa da casa onde mora,
está muito bem delineado em sua cabeça.
Isto permite que ele domine esse espaço
com tranqüilidade, até parecendo para
algumas pessoas, que ele enxerga, como
aquele cidadão que me viu andando em
minha residência, subindo e descendo as
escadarias, e não quis, depois disso,
acreditar que eu sou cego, perguntando,
várias vezes, se eu não enxergava pelo
menos um pouco.
No caso, quando os cegos moram com
suas famílias, é comum as pessoas
mudarem objetos pessoais dos cegos do
lugar onde eles tinham deixado. Isso
causa inúmeros transtornos e, às vezes,
pequenos conflitos, pois há uma
cobrança de onde estaria seu objeto e
nem sempre a pessoa admite que tirou
aquilo do local onde estava. E neste
particular, não falamos somente de
alguns objetos, mas sim de todos os
pertences pessoais.
Às vezes encontramos casais onde
ambos são cegos. Eu conheço alguns
deles e, nesses contatos, onde a
curiosidade é aguçada, fiz várias
perguntas e observações, de onde tirei
algumas conclusões.
Em São Paulo, numa residência
dessas, havia apenas os dois como
moradores, ou seja, não havia nenhum
filho, ou qualquer outro membro na
família. Em alguns cômodos, não se
usava a luz, e a bem da verdade, não
havia sequer lâmpada. Um desses cômodos
era a cozinha, onde minha amiga Edna
preparava as refeições para seu marido
e também para os amigos, assim como
para mim, que tive o prazer de
desfrutar da simpática amizade do
casal.
Havia na mesinha de centro da sala
uma revista em tinta. Por cima das
letras em tinta, em quase todas as
páginas, encontrei escritas braile, que
vim descobrir depois, era a agenda dos
dois, com números de telefone e
endereços.
Isto era apenas uma amostra.
Muitos objetos ali existentes eram
etiquetados, na referida escrita, para
facilitar a localização dos mesmos.
Nando, como era chamado este meu amigo,
tinha uma grande habilidade
profissional na área de massagem. Os
aparelhos que precisavam ser
localizados, estavam também sempre
muito bem dispostos, de maneira que se
tinha enorme facilidade em apanhá-los.
O mesmo acontecia com Edna. Aliás
isso é comum entre os cegos, variando
apenas o grau de organização entre um e
outro.
Se houver a pretensão de se fazer
um teste, basta ir a uma residência
onde more um cego que organize seus
pertences e tirar um ou outro objeto do
lugar, para que ele tenha dificuldades.
Mesmo que o referido objeto esteja
próximo a ele, ainda assim terá enormes
dificuldades para encontrá-lo, sendo
provável que não consiga.
O guarda-roupas do cego normalmente
é disposto de acordo com sua própria
vontade e sentido de organização. Por
exemplo: camisetas claras de um lado,
escuras do outro, idem com as calças,
camisas, meias, cuecas, etc. Às vezes,
ainda separando-as pelo gosto pessoal
ou também, aquelas que são de sair,
daquelas que servem para usar em casa.
Fitas e discos são etiquetadas em
braile, facilitando a localização.
Alguns cegos costumam pedir que se
compare o alimento que está no seu
prato com um relógio de ponteiros. Ou
seja a pessoa lhe informa o que tem
para comer, dizendo que ao meio dia
está a salada, às três horas o frango,
às seis o arroz, às nove a batata frita
e assim por diante.
Existe uma situação, um tanto
interessante, que ocorre com muitos
cegos. É aquela em que se apresentam à
sociedade, em algumas vezes, como se
todos que estão a sua volta fossem
também cegos. Isso é demonstrado em
algumas ações praticadas em público,
como por exemplo, enfiar o dedo no
nariz para extrair pelotinhas; coçar
partes íntimas do corpo sem o menor
pudor e outros casos, que é só observar
para conferir.
Atribui-se isso ao fato de que nós
cegos, muito comumente, esquecemos
existir perto de nós pessoas que
enxergam. Eu, a exemplo de tantos,
esqueço-me disso com uma freqüência
absolutamente espantosa. Costumo citar
como exemplo, quando assisto televisão.
Tenho o meu raciocínio sempre voltado
para o fato de que todas as pessoas que
estão ali na sala, vêem o mesmo que eu
vejo.
Isto só é quebrado, por alguns
segundos, às vezes, quando pergunto
sobre uma determinada cena, mas logo
volto ao meu normal.
SENTIDOS REMANESCENTES
Dos cinco sentidos que os seres
humanos usam de forma consciente, já
ouvi muitos afirmarem que a ausência da
visão é aquela que ninguém gostaria que
acontecesse com ele. Existem também
livros que apontam para um grande
percentual de riquezas, no que se
refere ao recebimento de informações,
que vem pelo órgão da visão, cujo
índice se posiciona bem acima dos
outros quatro.
Em nossos contatos com pessoas
deficientes, não é muito difícil
encontrar surdos que preferem não
escutar do que serem cegos. Ou
paralisados físicos que assim preferem
sê-lo, do que serem cegos. Vale
salientar, todavia, que isso não
constitui pesquisa e nem podemos
afirmar que representa a maioria,
embora percebemos, nos nossos contatos,
que existem muitos deficientes com esse
pensamento.
Por outro lado, encontramos vários
cegos que jamais desejariam, segundo
suas palavras, serem surdos,
deficientes físicos ou mentais.
Percebam, neste caso, que não fazemos
menção aos outros dois sentidos, ou
seja, o tato e a gustação, pois a
ausência de um desses dois não é
encarada como grave no contesto da
deficiência.
Os livros afirmam que os sentidos
remanescentes do deficiente se tornam
muito mais apurados. Essa conclusão eu
pude tirar na minha própria
experiência. Enxerguei até meus
dezenove anos de idade. Até essa
ocasião, minha audição era
completamente distinta da existente
hoje, de forma que posso afirmar que
ouço muito melhor do que quando
enxergava.
Não compactuamos, no entanto, do
pensamento de que, automaticamente, ao
ficar cego, a pessoa passa a ter uma
audição mais apurada. Acreditamos que o
uso freqüente, pela necessidade, faz
esse referido órgão ser melhor do que o
daquelas pessoas que usam a visão, para
enxergar onde nós precisamos usar a
audição. Entre outros exemplos, citamos
o de utilizar os ouvidos, como olhos,
para perceber a aproximação de um
automóvel, quando queremos atravessar
uma rua; o som da moeda que caiu; para
apanhá-la, ou o som do caixa bancário,
para nos dirigirmos a ele.
No caso do olfato, não é muito
diferente. Nós cegos utilizamos este
órgão com bastante freqüência,
tornando-o bem mais apurado do que o da
maioria das pessoas que enxergam.
Lembro-me perfeitamente de um cego, em
São Paulo, que conhecia a entrada da
empresa onde trabalhava pelo cheiro de
uns amendoins torrados que eram
vendidos por um senhor no local. Nós,
em muitas ocasiões, encontramos lojas
pelo cheiro característico das mesmas,
como a de sapatos, a farmácia, o
açougue, a padaria, a perfumaria, etc.
No entanto, estes exemplos citados
acima possuem odores fortes e de fácil
percepção. Mas existem aqueles cheiros
que apenas o cego percebe. Ou então,
quando é percebido também pelas pessoas
que enxergam, é comum, mesmo estando
ambos à mesma distância do odor, este
ser captado primeiro pelas narinas do
cego.
O tato da pessoa cega segue o mesmo
caminho. Conheço alguns que são
excelentes massagistas. Em Maringá, nós
temos vários exemplos trabalhando em
clubes. A grande maioria é extremamente
elogiada por sua performance tátil,
assim como também o foram quando da
realização do curso.
A própria leitura braile é uma
aliada para o bom desenvolvimento
tátil.
Conheço pessoas que conseguem saber
o valor das moedas pelo relevo dos
números nelas empregados, sem precisar
para isso medir o tamanho das mesmas,
comparando umas com as outras. Este
artifício é usado por alguns cegos,
entre eles, nós mesmos.
Se você acha que essa tarefa é
fácil, basta fazer o teste. Eu já
tentei e confesso que ainda não
desenvolvi meu tato o suficiente para
consegui-lo. É preciso, tão somente,
treinamento, não só para mim, como para
qualquer pessoa, mesmo que enxergue.
Percebe-se claramente a diferença
entre cegos que estão num alto estágio
de desenvolvimento dos sentidos
remanescentes e outros que ainda
encontram muitas dificuldades para este
mister.
Às vezes, uma pessoa é cega há mais
tempo do que outra e apresenta menores
condições de desenvolvimento dos seus
sentidos, principalmente o do tato.
Isso se dá pelo fato de maior ou menor
busca de desenvolvimento dos mesmos.
Isto ocorre também em relação à
memória, que uma vez exercitada, terá
sua capacidade valorizada e
aproveitada. Com relação a isso, posso
falar por experiência própria. Quando
eu enxergava, sabia o nome da rua onde
nós morávamos, mais umas duas ou três
do bairro, algumas do centro, além de
decorar meia dúzia de números de
telefone. Hoje, todavia, depois das
experiências adquiridas como cego, sei
o nome de todas as ruas do bairro onde
morei, de todas as ruas e avenidas do
centro, um número considerável de ruas
e avenidas espalhadas por toda cidade
e, além disso, tenho memorizado mais de
uma centena de números de telefone.
Salientamos que não somos melhores
do que ninguém por isso. Apenas tivemos
a necessidade de desenvolver tal área.
As pessoas que enxergam não fazem
assiduamente este exercício, pois isso
é substituído pela facilidade de uma
agenda ao alcance de sua mão. E agora,
para facilitar ainda mais, existe a
eletrônica.
ASSUNTOS POLÊMICOS
Outubro de 1978, janeiro de 1979.
Um jovem pós-adolescente, já com seus
19 anos de idade, entra para o mundo da
cegueira. Como isso pode alterar o
comportamento de um ser humano!
Sugerimos usar um pouco do nosso tempo
para uma leitura e análise, no sentido
de atingirmos nossos propósitos de
descoberta da ação do mundo da
escuridão, comparado com o mundo cheio
de luz, de cores e de vida.
A sensibilidade humana estaria
diretamente ligada às coisas que estão
dentro de si, assim como suas
experiências anteriores.
A utilização de um colírio, à base
de corticoides, por um tempo muito
prolongado, foi o suficiente para que
mudanças profundas acontecessem na
minha vida.
Fiquei cerca de um ano preso entre
quatro paredes, morando em casa de meus
pais, a lamentar minha situação.
Afirmações tais como: Deus é
culpado da minha cegueira, a sociedade
também é culpada, meus amigos são todos
culpados, a vida perdeu o valor, eu
quero que tudo se dane, eram bastante
comuns.
Para agravar ainda mais a situação,
e crer que a vida era realmente uma
droga, fui surpreendido com o
rompimento de um noivado. Eu tinha
começado a namorar quando ainda
enxergava. Por isso, aquilo significou
para mim uma rejeição por causa da
cegueira.
Temos afirmado para as pessoas, com
as quais conversamos, que nossa
experiência permite algumas conclusões.
Entre elas, a de que sentimos na carne,
de forma compulsória, a relatividade do
tempo.
Para um indivíduo que passa um ano
trabalhando, estudando, estabelecendo
projetos de vida, tendo intensa
atividade social, este tempo tem a sua
duração. Contudo, para nós que vivemos
uma situação atípica, querendo e
somente pensando em voltar a enxergar,
com dias sem nada para fazer, a não ser
obedecer o relógio biológico para comer
e dormir, sem o menor desejo de sair de
casa, esse mesmo tempo pode parecer uma
eternidade.
Em grande parte das cidades
brasileiras, principalmente nas
capitais, as pessoas que não enxergam,
não pagam passagem em ônibus urbano. A
grande maioria dos cegos concorda com
essa concessão, porque acredita que
somos coitadinhos e, por isso,
precisamos andar de graça. Outro bom
percentual faz vistas grossas e há até
o caso dos cegos parciais, fato
bastante comum, que fingem maior
cegueira para não pagar a tarifa.
Em algumas cidades, assim como São
Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, não
há qualquer necessidade de crachá ou
carteira que comprove a deficiência da
pessoa. O motorista está autorizado a
permitir o acesso gratuito nos ônibus
apenas com a identificação do uso da
bengala.
É comum vermos um cego parcial, que
no seu cotidiano não precisa da bengala
para se locomover, não se acanhar em
apanhá-la para mostrar ao motorista que
é cego e, portanto, ter o direito de
usar o ônibus sem nada pagar. Aqui
entra o caso dos que muitos chamam de
cegos por conveniência.
Uma minoria, quase em extinção, é
frontalmente contra a gratuidade para
cegos no ônibus urbano.
Em Maringá, ouvi a seguinte
afirmação de um cego:
"Nós, seja qual for a classe
financeira, não devemos pagar ônibus,
pois não podemos sequer portar um
guarda-chuva nos dias chuvosos. O
barulho da água caindo no mesmo impede
que ouçamos os automóveis e, portanto,
impossibilita que possamos nos
locomover. E andar num ônibus, por
apenas duas ou três quadras, soluciona
este problema".
CRESCENDO ATRAVÉS DA CEGUEIRA
É perfeitamente possível pensar, de
forma racional, com relação a vida. Há
uma série de pessoas cegas que usa este
beneficio para melhorar sua forma de
agir, afirmando, com enorme clareza,
que julga isso uma oportunidade de ser
melhor hoje que ontem. Se pensarmos
pelo lado de que, comprovadamente,
todos os seres humanos estão
constantemente crescendo, fica evidente
ser possível, em qualquer período,
desenvolver-se o sexto sentido, mesmo
que, para isso, a pessoa não apresente
qualquer aparente deficiência em um dos
sentidos: físico, mental ou sensorial.
Nós que somos cegos, temos, por uma
questão de obrigatoriedade, no
exercício natural do dia a dia, ouvir
bem. Melhor do que as pessoas que
enxergam, por exemplo. Dessa forma,
desenvolvemos um outro sentido, que
poderíamos chamar de sexto.
Isso pode se dar de maneira
consciente e inconsciente. Quem o faz
de forma consciente, tem mais
possibilidades de ser uma pessoa melhor
nos seus princípios e, principalmente,
na maneira de ver a vida.
Quem o faz da segunda forma, tende
apenas a usar sua arma para
sobrevivência, pois só mais tarde é que
pode aproveitar, de maneira total,
aquilo que a lei permitiu que estivesse
a seu favor.
Vamos então pensar na cegueira
física como sendo uma dádiva a nós
concedida, de forma a permitir que
venhamos a aperfeiçoar a nós mesmos.
Ela possibilita ao ser humano encarar a
vida sob um prisma completamente
diferente do normal. Não quero,
contudo, afirmar que isso é condição
"sine qua non". Podemos encontrar
muitos cegos que não utilizam este
beneficio para enxergar, o que eu chamo
de enxergar com os olhos da
espiritualidade, mas que pode ser dado
o nome que melhor convier.
Não é muito difícil encontrarmos
pessoas, que perderam a visão,
afirmando que quando enxergavam com os
olhos físicos, encontravam-se cegos
para os verdadeiros valores da vida.
Por exemplo: quem de nós já não
teve, um pouquinho que fosse, de
discriminação quando, enxergando, viu
uma pessoa mal vestida, mal encarada,
mal isso ou mal aquilo? Já a cegueira,
de forma compulsória, faz com que o
cego esteja sempre recebendo aquilo que
sai do seu coração, sem a predisposição
em pré-conceituar a pessoa que dele se
aproxima. Corre-se, dessa forma, menor
possibilidade de erro, pois a pessoa
não está sujeita a dizer, através do
físico, que aquela outra é de má
índole.
Quantas vezes nós não ouvimos uma
pessoa dizer assim para outra:
"Quando eu a vi pela primeira vez,
fiz mau juízo de você. Hoje,
entretanto, vejo que estava errado."
Ou seja, depois de conhecer melhor
uma pessoa, quase sempre se muda de
opinião.
Aqui, estabeleço uma análise do
cego e sua busca contínua de provar
para a sociedade sua capacidade. Neste
caso, ocorre uma distorção por parte de
muitos membros desse meio. Trata-se de
uma ilusão de conceito.
As razões são as mais diversas,
mas, encontramos cegos de todo tipo.
Há, por exemplo, aqueles que bebem em
demasia, falam pouco, gastam muito,
amam a todos, choram, riem, etc, etc.
Quero dizer com isso que nós, os cegos,
somos seres humanos comuns, e como tal,
sujeitos a acertos e erros.
Todavia, há aqueles cegos que, por
circunstâncias da vida, estão atrasados
nos pensamentos, nas novidades do
mundo, etc. Estes são tachados como os
"coitadinhos". Há aqueles que são os
mais ou menos. Atraem para si todo tipo
de conceito, desde o radicalismo de
serem ignorantes, até o de serem o
máximo do supra-sumo.
Ainda temos o caso dos que estão um
pouquinho acima da média entre os
cegos. Estes são observados pela
sociedade como sendo superdotados. E
aí, os mesmos sentem-se na obrigação de
matar um leão por dia, caso contrário,
são diminuídos no seu conceito. Ou
seja, devem, a todo instante, estar
provando sua capacidade. O meio exige
que ele seja melhor em tudo o que faz.
Isso é comum na escola. Se ele tira
notas boas, é o melhor aluno do
colégio. Com isso, a sociedade o coloca
como sendo o gênio em todas as outras
atividades da vida, trazendo prejuízo
para o próprio cego, que se frustra
quando percebe que é fraco, ou quase
incapaz de realizar certas tarefas. Há
que se ter uma estrutura emocional para
suplantar essa informação do meio, que
fez de si o melhor em tudo. E a partir
daí, agir coerentemente, mostrando que
é bom em algumas atividades e, que em
outras, terá uma performance mediana e,
ainda, em outras, será muito fraco.
JESUS
A manjedoura já o dizia,
Ser cego para a vida é a pior,
Os obstáculos do escuro,
Estão primeiro em sua mente,
Se aclarar não parece possível,
Confie nele e acredite no tempo,
Se lhe parece nebulosa a noite,
Aguarde o dia retornar,
Quando tudo parecer perdido,
Apanhe as traves do seu olho,
Dissipando-as do seu existir
Para consegui-lo, abranda seu coração,
Suba um degrau no seu amor,
Mesmo quando não parecer conseguir,
Ainda assim é preciso insistir
Quando estiveres com persistência
enxergando,
Com seus olhos que não são desta carne,
Terás iniciado, assim,
Seu convívio com a eternidade,
Donde a luz do cego é vista,
Mesmo por aqueles que um dia,
Ousaram em pensar que tudo viam,
Se tomares de súbito, como capricho
terreno,
A revolta de não ter seus olhos
físicos,
Lembre-se que o íntimo de cada um
É que faz a noite sem luz
Esforce-se no exercício da paciência,
Busque as energias de Jesus,
Deixe penetrar em sua alma
O sabor amável da brisa da manhã
Insista na busca constante da paz
E os vícios se lhes parecerão
Estar longínqüos na eternidade,
Ainda assim estarás lembrando
Do que disse à manjedoura,
A cegueira faz parte dos fracos de
espírito
E os fortes assim como você,
nxergam com os olhos do amor.
DICAS PARA SE RELACIONAR COM OS CEGOS
Existem algumas técnicas, no que se
refere a locomoção de cegos, assim como
situações do dia a dia, em que as
pessoas normalmente procedem de forma
errada, a respeito das quais passaremos
a dar algumas dicas e orientações.
Quando os cegos vão atravessar uma
rua ou avenida, alguns motoristas
buzinam seus automóveis uma, duas ou
até três vezes. A intenção dos mesmos é
informar algo ao cego, mas como não
existe nada previamente combinado, nós
nunca sabemos qual é a informação que
se deseja passar. Por vezes, querem
dizer com isso que o cego pode passar,
que ele aguarda, ou então, que espere,
pois ele é quem vai passar, ou ainda,
pode ficar tranqüilo que ele está
atento e vai passar devagarinho, se
preciso for, frea instantaneamente, sem
esquecer que às vezes esse sinal é
apenas para cumprimentar o cego.
Recomendamos, neste caso, que não use a
buzina. Ela pode atrapalhar muito mais
do que ajudar.
RELACIONAMENTO COM A PESSOA DEFICIENTE
VISUAL
-
Não acredite na "compensação da
natureza", ou seja, que a natureza
compensou a pessoa cega pela falta de
visão. O que existe nela é o simples
desenvolvimento de recursos latentes em
todos nós e que qualquer um pode
desenvolver.
-
Quando for falar com uma pessoa cega,
dirija-se diretamente a ela e não
através de seu acompanhante.
Identifique-se e toque o seu braço ou
seu ombro para que ela saiba que é com
ela que está falando.
-
"Ei menino! Venha aqui por favor." Não dê informações com gestos ou sinais: "Onde é o ponto de circular?" "É do lado de lá."
Esta atitude de nada adianta para ela.
Responda verbalmente:
Siga a sua direita.
-
Quando estiver conversando com uma
pessoa cega, não deixe de avisá-la
quando tiver que se ausentar.
Principalmente se houver muito barulho
que a impeça de perceber sua ausência. Ela pode dirigir-lhe a palavra e acabar falando sozinha: "... e no trabalho, como está indo?"
-
Não deixe de falar sempre que entrar em um ambiente onde haja uma pessoa cega: "Estamos na rodoviária, Antônio".
Isso anuncia sua presença e a auxilia a
identificá-lo. Evite que ela tenha que
adivinhar com quem está falando.
-
Em ambientes desconhecidos ou em
situações novas, ofereça-lhe o maior
número de informações possíveis, só
assim ela poderá localizar-se e saber
exatamente o que está acontecendo ao
seu redor.
-
Não deixe de apresentá-lo às pessoas
que estejam participando de seu grupo.
Assim agindo você facilitará a sua
integração ao grupo.
-
Não deixe de aproximar-se de uma pessoa
cega com medo de ser contagiado pela
"doença". A cegueira é uma deficiência
sensorial, não é doença.
-
Quando for guiá-la, não a empurre ou
puxe pelo braço. Basta deixá-la segurar
seu braço que o movimento de seu corpo
lhe dará a orientação de que ela
precisa.
-
Quando for ajudá-la a atravessar a rua
ou subir escada, ofereça-lhe seu braço
ou ponha-lhe a mão no corrimão.
-
Não a empurre ou a levante para
ajudá-la a subir no ônibus ou carro.
Basta pôr-lhe a mão na alça externa da
maçaneta que ela subirá sozinha.
-
Se você encontrá-la em qualquer loja comercial, dirija-se a ela e oriente-a sobre os produtos, marcas e preços:
Temos lanches a três Reais por pessoa.
E suco grátis na compra de três
lanches.
-
Não deixe objetos no caminho por onde
ela possa passar, ou em locais onde a
pessoa cega não possa perceber sua
presença com o uso da bengala (carros
na calçada, janelas abertas).
FIM
NOTA DO AUTOR |
A publicação da presente obra tem
para mim o caráter de um grande amor,
de uma realização ímpar e de uma
satisfação plena. Contudo tal feito
teve a participação de várias pessoas,
as quais prefiro não nominar, pois o
risco de esquecer um ou outro nome por
certo existe.
Uma vez que considero todo apoio de
fundamental importância, incluindo aí
inclusive aqueles que tiveram uma
palavra ou um gesto de incentivo. César Gualberto
ϟ
Apesar de ser cego - Ver além da visão
Autor: César Gualberto
Edição do autor
Maringá-Paraná
[15.Jul.2013]
Publicado por
MJA
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